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As IPSS e a inclusão social: a sua contribuição para a inclusão da população sénior: caso prático Associação Gerações

Mota, Ana Eduarda Portilho da

Abstract

O presente trabalho surgiu com a intenção de aprofundar o estudo sobre as Instituições Particulares de Solidariedade Social e o serviço que estas prestam na área da inclusão social, nomeadamente no trabalho com a população sénior. Perante o progressivo envelhecimento da população torna-se imperativo o desenvolvimento de políticas que promovam a qualidade de vida dos seniores, assim como o seu envelhecimento ativo. O Estado e as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) tornam-se parceiros fundamentais para a prossecução das políticas sociais. O objetivo concreto deste trabalho é investigar se as atividades das IPSS, nomeadamente da Associação Gerações (a instituição em estudo), são ou não promotoras de inclusão social. Para isso foi efetuado um estágio na instituição mencionada, de forma a conhecer as atividades diárias dos seniores. Para este estudo foram utilizados métodos quantitativos e qualitativos, recorrendo às técnicas de inquérito por questionário e à entrevista. Com esta metodologia mista foi possível analisar resultados e conteúdos importantes sobre o envelhecimento e como promover a inclusão social. Na globalidade deste estudo concluímos que as IPSS são, efetivamente, muito importantes na vida dos seniores, e cada vez mais isso está comprovado, como é o caso da Associação Gerações.

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Ana Eduarda Portilho da Mota As IPSS e a Inclusão Social: a sua contribuição para a inclusão da população sénior Caso prático Associação Gerações Relatório de Estágio Economia Social Trabalho efetuado sob orientação do Professor Doutor Carlos Arriaga Costa julho de 2019 ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ iii Agradecimentos Os agradecimentos nem sempre cumprem com justiça o momento de homenagear todos aqueles que de alguma forma, direta ou indiretamente, ajudaram a que este trabalho se tornasse uma realidade. Ainda assim, um especial agradecimento ao Professor Doutor Carlos Arriaga Costa, por todo o apoio, ânimo, encorajamento e disponibilidade como docente, mas principalmente como orientador na realização deste Relatório de Estágio. À Dra. Cristiana Oliveira, Assistente Social e responsável pelo Clube Sénior da Associação Gerações, pela confiança depositada em mim durante todo o período de estágio, pelo carinho e apoio, sem os quais não seria possível a conclusão deste relatório de estágio. Agradeço também a toda a equipa da Associação Gerações pela forma como me acolheram, assim como aos seniores que aceitaram participar nesta investigação. Por último, mas claramente não menos importante, agradeço aos grandes pilares da minha vida: os meus pais, o meu irmão e o meu namorado, pelo apoio incondicional durante todo o percurso académico, e por nunca me terem deixado desistir, principalmente nos momentos em que os obstáculos pareciam ser inultrapassáveis. A todos muito obrigada. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. v Resumo As IPSS e a Inclusão Social: a sua contribuição para a inclusão da população sénior O presente trabalho surgiu com a intenção de aprofundar o estudo sobre as Instituições Particulares de Solidariedade Social e o serviço que estas prestam na área da inclusão social, nomeadamente no trabalho com a população sénior. Perante o progressivo envelhecimento da população torna-se imperativo o desenvolvimento de políticas que promovam a qualidade de vida dos seniores, assim como o seu envelhecimento ativo. O Estado e as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) tornam-se parceiros fundamentais para a prossecução das políticas sociais. O objetivo concreto deste trabalho é investigar se as atividades das IPSS, nomeadamente da Associação Gerações (a instituição em estudo), são ou não promotoras de inclusão social. Para isso foi efetuado um estágio na instituição mencionada, de forma a conhecer as atividades diárias dos seniores. Para este estudo foram utilizados métodos quantitativos e qualitativos, recorrendo às técnicas de inquérito por questionário e à entrevista. Com esta metodologia mista foi possível analisar resultados e conteúdos importantes sobre o envelhecimento e como promover a inclusão social. Na globalidade deste estudo concluímos que as IPSS são, efetivamente, muito importantes na vida dos seniores, e cada vez mais isso está comprovado, como é o caso da Associação Gerações. Palavras-Chave: Inclusão Social; Instituições Particulares de Solidariedade Social; Seniores. vi Abstract As IPSS e a Inclusão Social: a sua contribuição para a inclusão da população sénior The present work arised with the intention to deepen the studies on Particular Institutions of Social Solidarity and the service that they do in the area of social inclusion, specially with the senior population. Against the progressive aging, it became imperative the development of policies that promote that promotes the quality of life of seniors, as well as their active process of growing old. The State and Private Institutions of Social Solidarity (IPSS) have become central and fundamental coworkers in the implementation of social policies. The main objetive of this study is to know if the activities of “Associação Gerações” are promoters of social inclusion. For that, an internship was carried out at the mentioned institution, in order to know the daily activities of the seniors. In addition, the two research methods were used: quantitative and qualitative, Overall, this study concluded that IPSS are increasingly important in the daily life of the elderly population, being “Associação Gerações” an exemple of that. Key-words: Private Institutions of Social Solidarity; Senior Population; Social Inclusion vii Índice Resumo ..................................................................................................................................... v Lista de Siglas .......................................................................................................................... ix Lista de Gráficos ........................................................................................................................ x Introdução ................................................................................................................................ 1 Capítulo 1. Enquadramento Teórico .......................................................................................... 3 1.1 Instituições Particulares de Solidariedade Social ............................................................ 4 1.1.1 Evolução histórica das formas assistenciais em Portugal ................................................ 4 1.1.2. A importância das IPSS ......................................................................................... 5 1.1.3. As IPSS e o Estado ................................................................................................ 8 1.2. Envelhecimento........................................................................................................... 11 1.2.1. Uma Sociedade Envelhecida ................................................................................ 11 1.2.2. Evolução dos Conceitos de Velhice e Envelhecimento ........................................... 13 1.2.3. Definição de Envelhecimento ............................................................................... 15 1.2.4. Políticas Sociais de Apoio à Terceira Idade ........................................................... 17 1.3. Inclusão e Exclusão Social ........................................................................................... 20 1.3.1. Inclusão Social .................................................................................................... 20 1.3.2. Exclusão Social .................................................................................................... 24 Capítulo 2. Associação Gerações ............................................................................................ 27 2.1. Descrição da Instituição .............................................................................................. 28 2.2. Objetivos Gerais ...................................................................................................... 29 2.3. Serviços Disponíveis ................................................................................................ 30 2.4. Atividades ............................................................................................................... 31 2.5. Em relação ao Estágio ............................................................................................. 32 Capítulo 3. Metodologia .......................................................................................................... 33 3.1. Pesquisa Qualitativa .................................................................................................... 36 3.1.1. Entrevista ............................................................................................................ 37 3.2. Pesquisa Quantitativa .................................................................................................. 39 4. Análise dos Resultados ................................................................................................... 42 4.1.1. Análise global das entrevistas .............................................................................. 52 5. Conclusão ....................................................................................................................... 71 Referências Bibliográficas ....................................................................................................... 74 Apêndices .............................................................................................................................. 79 viii Apêndice 1 – Guião da Entrevista ........................................................................................... 80 Apêndice 2 - Questionário sobre Inclusão Social dos Seniores nas IPSS ................................... 82 Apêndice 3 – Transcrição das Entrevistas ............................................................................... 86 Apêndice 4 – Gráficos de análise dos questionários .............................................................. 104 ix Lista de Siglas CCE Comissão das Comunidades Europeias CEE Comunidade Económica Europeia EIPSS Estatuto das Instituições Particulares de Solidariedade Social INE Instituto Nacional de Estatística IPSS Instituição Particular de Solidariedade Social ISS Instituto da Segurança Social TIC Tecnologias de Informação e Comunicação UE União Europeia WHO World Health Organization 5 papel das Instituições Particulares de Assistência, que iriam ser substituídas por um sistema integrado de Segurança Social. Contudo, o Estado apercebeu-se de que não tinha recursos para suportar sozinho estas novas políticas e, por isso, teve que procurar parceiros a que pudesse delegar competências (Hespanha et al, 2000). Aparece uma ação social que é realizada, maioritariamente, por IPSS e outras organizações privadas apoiadas economicamente pelo Estado, mediante a celebração de protocolos de cooperação (Neves, 1998). Segundo Hespanha et al (2000), a Constituição de 1976 passa a reconhecer as Misericórdias e outras organizações, como as IPSS, desde que elas aceitem prosseguir sem fins lucrativos os objetivos da Segurança Social. Este reconhecimento implica que estas não sejam prejudicadas desde que cumpram toda a regulamentação legal e fiscalização do Estado. Nos anos 80 verifica-se o grande boom das IPSS, que passam a ser as detentoras quase monopolistas da ação social em Portugal. O domínio destas instituições foi sendo alargado pelo Estado (educação, formação profissional, saúde, habitação, entre outras funções), uma vez que o domínio da ação social tem de ser assumido por um setor não lucrativo, para que todas as pessoas tenham acesso a estes cuidados, como dita a Constituição de 1976 (Hespanha et al, 2000). Verifica-se, então, que ao longo do século XX a responsabilização do Estado ao nível social começa a enfraquecer, uma vez que este opta por relegar essa função às IPSS, incentivando à criação das mesmas. 1.1.2. A importância das IPSS Percebemos que, nas últimas décadas, os serviços sociais se têm expandido bastante e que isto se explica pela mudança das estruturas demográficas. Ao longo dos anos têm sido recolhidos vários dados que demonstram que existe um processo de envelhecimento global que se tem vindo a acentuar nas últimas décadas. Esta alteração demográfica vem proporcionar a emergência de uma sociedade envelhecida, que se deve, principalmente, a um acentuado decréscimo da taxa de natalidade e a um aumento 6 da esperança de vida, resultantes de hábitos de vida mais adequados e melhores cuidados de saúde. Segundo Paschoal et al (2005), nas últimas três décadas tem sido observado um crescimento considerável no número de pessoas que têm vivido até mais tarde. Isso significa o aumento da proporção de idosos numa estrutura etária, tendo como consequência o envelhecimento populacional. A acompanhar o envelhecimento da população tem-se observado o aumento dos serviços de apoio a idosos na Europa, sendo que aumenta também a procura dos mesmos devido ao envelhecimento acentuado da população. Este trabalho é feito, na maior parte das vezes, pelas IPSS que se podem definir por instituições sem fins lucrativos que têm como princípio orientador a solidariedade e devem ter como objetivo o benefício dos seus membros ou de terceiros (Martins, 2006; Fernandes, 2001; Martins, 2009). Mais concretamente, de acordo com o artigo 1º do Estatuto das Instituições Particulares de Solidariedade Social (EIPSS) aprovado pelo Decreto-Lei nº 119/83, são Instituições Particulares de Solidariedade Social as constituídas por iniciativa particular, sem finalidade lucrativa, com o propósito de dar expressão organizada ao dever moral de solidariedade e de justiça entre os indivíduos, que não sejam administradas pelo Estado ou por um corpo autárquico para prosseguir, entre outros, com objetivos de apoio social à família, crianças e jovens, idosos e integração social e comunitária, mediante a concessão de bens e a prestação de serviços. Segundo o artigo 2º do EIPSS, as IPSS podem revestir a forma de associações de solidariedade social, associações de voluntários de ação social, associações de socorros mútuos, Fundações de solidariedade social e Irmandades da Misericórdia, para além de poderem ainda revestir a forma de Uniões, Federações e Confederações. De acordo com o Instituto da Segurança Social (2015), os serviços de apoio a idosos são: serviço de apoio domiciliário; centro de convívio; centro de dia; centro de noite; acolhimento familiar; estruturas residenciais; centro de férias e lazer. Para além disso, as pessoas idosas que têm acesso a estas respostas sociais podem ter também direito a outros subsídios ou prestações da Segurança Social. 7 Não há dúvidas da importância destes serviços e das instituições que os fornecem para aqueles que deles usufruem. A Economia Social tem vindo a desempenhar um papel importante na erradicação da exclusão social. Conforme os resultados da Conta Satélite da Economia Social 1 , em 2013 existiam, em Portugal, mais de 61 mil organizações de Economia Social, das quais mais de 5 mil detinham o estatuto de IPSS. Torna-se, assim, imperativo entender melhor o papel destas instituições na Economia Social numa ótica de curto e médio prazo, como entidades criadoras de emprego e como entidades que ajudam a contribuir para uma sociedade mais inclusiva. Segundo dados da Agência Lusa 2 , em Portugal existem mais IPSS do que em qualquer outro país, e a maior parte delas nasce por iniciativa dos cidadãos. As IPSS atuam com o objetivo de contribuírem para a melhoria das condições da população social em geral, promovendo a inclusão social dos mais desfavorecidos. Para isso, desenvolvem um conjunto de atividades que visam dar resposta às carências existentes na sua área de intervenção. Estas instituições geram, assim, no âmbito da sua génese, um conjunto de respostas sociais, que têm implícito a produção de um conjunto de bens e serviços destinados às suas populações alvo. Segundo Salomon et al (2012), a maioria das atividades deste tipo de organizações advém da prestação de serviços, sobretudo relacionado com a área dos serviços sociais. Em Portugal, as organizações da Economia Social têm assumido uma função relevante ao nível da coesão social, uma vez que atuam no combate a diferentes formas de exclusão social e estimulam a criação de emprego, melhorando as condições de empregabilidade. As IPSS ajudam o Estado a conseguir chegar a um maior grupo de pessoas, uma vez que ele, enquanto agente único, não o consegue fazer sozinho. As IPSS, para além de tudo o que foi já referido, ainda conseguem ajudar a população local na criação de emprego, continuando assim a contribuir para a economia do país (Soares, 2012). 1 Divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística em 2016 2 Notícia da Agência Lusa publicada em 2009 8 1.1.3. As IPSS e o Estado As IPSS enquadram-se no âmbito da Economia Social e têm como principal objetivo a solidariedade social. Promovem a sua atuação em proximidade com a população e em cooperação com o Estado, procurando dar resposta aos problemas sociais emergentes na comunidade em que se inserem. Estas instituições têm um papel de extrema importância pois preenchem algumas lacunas do Estado no que respeita às respostas sociais adequadas às necessidades concretas da população. Assim, ao facultarem respostas sociais aos indivíduos mais desfavorecidos constituem um ponto crucial de garante do equilíbrio social. Desta forma, as IPSS mantêm uma relação de dependência com o Estado. De acordo com Hespanha et al (2000), isto acontece porque estas associações têm a particularidade de repartirem as suas funções com o Estado, e isso distingue-as das suas congéneres europeias. Do mesmo modo, é o Estado que as comparticipa na grande maioria das suas despesas (cerca de 70%), sendo as restantes pagas pelos próprios utentes e familiares. Em 1979, o EIPSS definiu os principais pontos que marcam a relação destas instituições com o Estado, sendo eles: a liberdade de associação, no sentido de poderem escolher as suas áreas de atuação e formas de organização; a responsabilidade social das instituições perante o Estado e os beneficiários; a cooperação interinstitucional e das instituições com os serviços públicos; a sua integração no sistema da Segurança Social, o que as obriga a que tenham de seguir as leis definidas pelo sistema e o caráter privado, de onde decorre o respeito pela vontade dos fundadores ou doadores, mas também o reconhecimento de que os apoios estatais se destinam a reforçar os recursos próprios. Segundo o artigo 6º do mesmo Estatuto, o Estado tem como objetivo uma ação orientadora e tutelar cuja principal finalidade é promover a compatibilização dos seus fins e atividades com os do sistema da Segurança Social, garantir o cumprimento da lei e defender os interesses dos beneficiários e das próprias instituições. Verifica-se, assim, uma tentativa de universalização dos padrões de qualidade dos serviços. De acordo com Hespanha et al (2000), o Estado tem um papel importante na universalização destes padrões através da inspeção e fiscalização que é levada a cabo pelos Centros Distritais. 9 Contudo, apesar desta relação de dependência face ao Estado, estas instituições possuem um grande poder de negociação, devido ao facto de o seu papel ser essencial para a sociedade. Isto leva a que tenham liberdade de atuação e de escolha das atividades a desenvolver, assim como autonomia, embora sempre acompanhadas de uma grande dependência financeira. A Lei da Segurança Social de 1984 define como prioridade do Estado o desenvolvimento de instituições privadas que prestem os serviços que este lhes delega. Desta forma, é reconhecido a estas instituições um papel significativo na sociedade, tendo o Estado obrigação de lhes prestar apoio para que estas alarguem a sua área de intervenção e melhorem a qualidade dos serviços. É importante ressalvar que tanto as IPSS como o Estado têm deveres a cumprir. De acordo com Hespanha et al (2000), as IPSS comprometem-se a assegurar o bom funcionamento de equipamentos e serviços; a priorizar grupos económicos com escassos recursos; a garantir condições de bem-estar aos utentes; a prestar serviços adequados e eficientes; a assegurar a existência de recursos humanos adequados a um bom funcionamento das respostas sociais; a fornecer informações à Segurança Social sobre os serviços que lhe permitam avaliá-los e a facilitar a fiscalização da mesma. A Segurança Social, por seu turno, dá apoio técnico para que haja um bom funcionamento dos serviços; fornece apoios financeiros nos prazos estabelecidos; estimula a formação técnica dos funcionários; avalia o tipo de serviços prestados e estimula a cooperação. É nos acordos de cooperação que se definem os apoios que o Estado dá às IPSS, destinados ao pagamento das despesas de funcionamento e das suas respostas sociais. Estes acordos são, também, uma forma de identificar os tipos de respostas que há nas instituições. Há respostas que continuam a ocupar um lugar preferencial, como as que dizem respeito à infância e à terceira idade, embora haja um esforço por parte das IPSS para desenvolverem novos tipos de respostas que passem pelo combate à pobreza e exclusão social (Hespanha et al, 2000). É importante ainda referir que, na perspetiva da Segurança Social, estas instituições revelam aspetos positivos e negativos. Os pontos positivos são: o preenchimento das lacunas do Estado; o respeito pela economia dos recursos e uma maior proximidade ao meio social, o que motiva, na maioria dos casos, rapidez de resposta. Os aspetos negativos expostos são: a falta de técnicos; o facto de os dirigentes nem sempre serem os mais adequados, uma vez que na maioria dos casos não têm qualificações para ocupar esse cargo e a rotatividade é, praticamente, inexistente; a forma 10 como são fixadas e administradas as comparticipações dos utentes, nomeadamente no caso de pessoas mais carenciadas e situações menos regulares (Hespanha et al, 2000). Para finalizar, e ainda segundo Hespanha et al (2000), podemos dizer que a doutrina que está por trás do apoio atribuído pelo Estado a estas instituições é a seguinte: apoiar as instituições que se propõem a desenvolver atividades no âmbito da ação social, mas somente aquelas que se demonstrarem capazes no trabalho que desenvolvem. Por esse motivo, antes de se celebrar o contrato são avaliadas as condições de cada instituição, e a parte financeira nunca é um fator impeditivo para se criar um IPSS. 11 1.2. Envelhecimento 1.2.1. Uma Sociedade Envelhecida De acordo com Oliveira (2010), o Século XXI será, certamente, o século dos idosos, pelo menos no mundo ocidental. O envelhecimento da população é um fenómeno observado na maioria dos países. Assim, o estudo do processo de envelhecimento ganha, neste início de século XXI, um relevo e uma prioridade indiscutíveis (Fonseca, 2004). O envelhecimento deverá ser um dos temas abordados com mais intensidade, uma vez que é um dos fenómenos de maior impacto atualmente. Deste modo, as mudanças provocadas por esta nova realidade demográfica refletem novos desafios sociais. Segundo dados do World Health Organization (WHO, 2005) o número de pessoas com idade igual ou superior a 60 anos em todo o mundo tem vindo a aumentar significativamente em relação às outras faixas etárias. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2015), num número cada vez maior de países, mais de 1 em cada 5 pessoas têm mais de 60 anos. Em conformidade com dados da Declaração do Rio 3 , a cada segundo duas pessoas alcançam a idade de 65 anos, e estima-se que até 2050 o número de pessoas acima de 80 anos ou mais aumente em 26 vezes. Isso significa o aumento da proporção de idosos numa estrutura etária, o que pode ser denominado de envelhecimento populacional (Paschoal et al, 2005). Em demografia, segundo Berzins (2003), entende-se por envelhecimento populacional o processo de crescimento da população considerada idosa numa dimensão tal que, de forma sustentada, se amplia a sua participação relativa no total da população. De acordo com Jacob (2007), o envelhecimento da população é um dos maiores triunfos da humanidade e também um dos grandes desafios, devido às suas consequências sociais, económicas e políticas. Uma vida mais longa é um recurso incrivelmente valioso 4 (Margaret Chan, 2015). E a longevidade do homem é, cada vez mais, uma realidade indiscutível: vive-se mais e 3 Com o tema: “Além da Prevenção e Tratamento: Desenvolvendo uma Cultura do Cuidado em resposta à Revolução da Longevidade”, em 2013 4 Frase proferida no Prefácio do Relatório Mundial de Envelhecimento e Saúde 12 prolonga-se o tempo de existência ao máximo. Tudo isso acarreta desafios ao nível da saúde, da educação, da economia e da cultura, mas também oportunidades para desenvolver a permuta intergeracional de experiências e conhecimentos. Seguindo o pensamento de Camarano (2002), o crescimento da população idosa está diretamente ligado a dois processos: a alta fecundidade no passado, ocorrida essencialmente nos anos de 1950 e 1960, comparada à baixa taxa de fecundidade nos dias de hoje, e a redução da mortalidade devido à melhoria das condições de vida. A queda da taxa de fecundidade é explicada, segundo Paschoal (2005), pela industrialização e pela urbanização que fizeram com que a mulher participasse ativamente no mercado de trabalho e passasse a dedicar menos tempo à família, alimentando a ideia da família reduzida. A redução da mortalidade, por sua vez, é explicada, de acordo com alguns especialistas, por diversos fatores, principalmente pelo desenvolvimento tecnológico, traduzido nos avanços da medicina, nas campanhas regulares de vacinações, na procura de novos medicamentos e na prevenção de doenças. O envelhecimento demográfico constitui, assim, uma nova realidade nas sociedades, e as projeções apontam para que esta tendência se mantenha e, ainda, se acentue. Durante a II Assembleia Mundial do Envelhecimento em Madrid (2002), o então Secretário Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, assinalava que temos razões fundamentais para refletir sobre o envelhecimento, uma vez que o mundo atravessa uma transformação demográfica sem precedentes. Como reportado no World Population Ageing (2013) 5 , o envelhecimento da população está a progredir rapidamente em muitos países. De acordo com a mesma fonte, este processo deverá continuar ao longo das próximas décadas e irá, provavelmente, afetar todo o mundo. Ainda conforme os dados divulgados no relatório supramencionado, a proporção mundial de pessoas com 60 e mais anos de idade aumentou de 9,2% em 1990 para 11,7% em 2013, e espera-se que continue a aumentar, podendo atingir 21,1% em 2050. Em valores absolutos, as projeções das Nações Unidas (NU) apontam para que o número de pessoas com 60 e mais anos de idade aumente para mais do dobro, de 841 milhões de pessoas em 2013 para mais de 2 mil milhões 5 Divulgado em 2013 pela Divisão de População das Nações Unidas 13 em 2050, e o número de pessoas com 80 e mais anos de idade poderá mais do que triplicar, atingindo os 392 milhões em 2050. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) (2015), as alterações ocorridas tanto em Portugal como na União Europeia (UE) para os 28 países ao nível da composição etária da população, são reveladoras do envelhecimento demográfico da última década. Neste contexto, Portugal apresenta no cenário da UE: o 5º valor mais elevado do índice de envelhecimento; o 3º valor mais baixo do índice de renovação da população em idade ativa e o 3º maior aumento da idade mediana entre 2003 e 2013. A agudização deste fenómeno em Portugal transformou-se num desafio, quer pela sua intensidade, quer pela amplitude que atinge nos nossos dias (Cabete, 2005). Um dos principais desafios com que se defronta a sociedade portuguesa é o da demografia, ou melhor, o aumento do peso dos grupos etários seniores e redução do peso da população jovem. À semelhança dos países desenvolvidos, o número de idosos em Portugal tem apresentado um aumento significativo (Sequeira, 2010). 1.2.2. Evolução dos Conceitos de Velhice e Envelhecimento Como já foi referido anteriormente, o envelhecimento traduz-se numa das maiores conquistas do século vigente, uma vez que os indivíduos vivem mais e não morrem de doenças que antes matavam em grande escala (Nunes, 2012) O conceito de envelhecimento passou por várias alterações ao longo dos tempos, e foi evoluindo de acordo com as crenças e os conhecimentos de cada época. De acordo com Silva (2003), quando as sociedades se começaram a organizar, a conceção e o papel dos idosos era determinado pelos usos e costumes de cada cultura, em referência a uma determinada conjuntura histórica. Em certas comunidades antigas eles eram transmissores de cultura, dos valores religiosos, guardiões do saber e responsáveis por instruir os mais jovens, sendo assim muito respeitados e tendo alguns privilégios. Noutras comunidades, só os indivíduos mais velhos conseguiam vencer os desafios da debilitação progressiva das funções intelectuais, 14 ou seja, manterem-se lúcidos e com capacidade física para trabalhar e participar nas guerras, conseguindo lugares de destaque. Por outras palavras, estes eram vistos com muito respeito devido à experiência de vida acumulada. Amaral (1991), por sua vez, considera que o conceito de velhice difere em cada sociedade, a partir do significado que o envelhecimento tem, o que origina uma multiplicidade de análises. Nas civilizações antigas, como o Egipto e a China, a velhice era considerada uma parte importante da comunidade, onde os idosos apareciam associados à divindade, à política, à família e à sabedoria. Por seu turno, os Maias, Astecas e Incas, relacionavam o idoso com questões mitológicas, filosóficas e religiosas, considerando-os indivíduos com sabedoria e experiência (Esquivel, Calleja, Hernández, Medellin & Paz, 2009). Na obra “A República”, Platão (427-347 A.C.) define a velhice como uma fase onde perdura a prudência, sensatez e capacidade de juízo. Contrariamente, Aristóteles considerava a velhice como uma quarta idade, caracterizada pela senilidade, deterioração e doença, situando-a nos 50 anos de idade. Já Hipócrates associou a velhice ao Inverno e aos 56 anos (Ribeiro, 2007; Silva, 2006). Cícero (106-43 A.C.) volta a apresentar a velhice de uma maneira positiva, sendo a idade de máximo exponencial a nível intelectual os 80 anos. No ano de 129-199 D.C, surge Galeno de Pérgamo, caracterizando a velhice não como uma doença, mas como uma fase normal da vida (Ribeiro, 2007). Ainda de acordo com Ribeiro (2007), na Idade Renascentista e na Idade Média, a conceção negativa do envelhecimento voltou a manifestar-se, uma vez que a mulher idosa era vista como uma bruxa, aliada a agentes diabólicos e os idosos, no geral, eram vistos como obedientes e escravos dos mais fortes. Nesta altura valorizava-se sobretudo a juventude e a beleza das mulheres jovens (Santos, 2008). Segundo Silva (2006), o Século XVIII concebe uma nova imagem da velhice, onde a pessoa velha passa a ser vista como mais simpática, associada à sabedoria, e os avós assumem o papel de educadores, passando às crianças o gosto pelas histórias. A partir do Século XIX, com a emergência da classe operária, surge uma ideia de velhice abandonada, numa sociedade que privilegia o trabalho na fábrica. Isto leva que o Estado, juntamente com as associações, inicie um processo de institucionalização para essas pessoas, 21 Na Grécia, tudo aquilo que fugia ao padrão de beleza estabelecido e que influenciou quase todo o ocidente, era considerado feio, repudiado, deficiente (Gaio, 2004). Na Roma Antiga, ainda segundo o mesmo autor, a Lei das Doze tábuas (uma antiga legislação que está na origem do Direito Romano) permitia que os pais matassem os filhos “defeituosos”. Em casos menos graves, embora maus do mesmo modo, estas pessoas serviam como bobos da corte para divertirem a nobreza. Na Idade Média, com a ascensão da Igreja Católica ao poder e consequente domínio do Cristianismo, começa-se a olhar para estas pessoas de forma diferente: se antes estas eram negadas, elas passam agora a ser vistas como seres humanos; o deficiente deixa de ser visto como uma “coisa” e passa a assumir-se como “pessoa”. Contudo, este continua a estar à margem da sociedade e a ser notado como um miserável. Segundo Mazzotta (2005), a própria religião ao colocar o homem como “imagem e semelhança de Deus” incutia a ideia da condição humana como perfeição física e mental e, assim, não sendo “parecidos com Deus”, os portadores de deficiências eram postos à margem da condição humana. O século XX apresenta-se, antagonicamente, como um período em que se começam a ouvir discursos de caráter mais humanitário, como por exemplo o respeito pelas minorias, a tolerância às diversidades culturais e étnicas e, ainda, o respeito pelas pessoas com deficiência, estando, desde modo, dados os primeiros passos para a inclusão social. De acordo com Holanda (1993), o termo “incluir” significa estar incluído ou compreendido, fazer parte. Contudo, o significado semântico do termo “inclusão social” revela-se insuficiente, escasso. Desta forma, rapidamente se chegou à conclusão de que as primeiras formas de trabalhar este assunto estiveram sempre associadas à inclusão social de pessoas com doenças mentais e necessidades especiais. No entanto, e como já foi enunciado anteriormente, podemos considerar que o idoso também acaba por ser portador de necessidades especiais, nomeadamente mais cuidados e mais atenção, apesar de se saber que a velhice não pode nem deve ser vista como doença. De acordo com Sassaki (1997), a inclusão social é o processo pelo qual os sistemas sociais comuns são tornados adequados para toda a diversidade humana – composta por etnia, raça, língua, nacionalidade, género, orientação sexual, deficiência e outros atributos – com a participação das próprias pessoas na formulação e execução dessas adequações. É a forma como 22 a sociedade, se reconstrói para poder incluir, nos seus sistemas sociais, pessoas com necessidades especiais e, simultaneamente, essas também se preparam para assumir os seus papéis na sociedade. Ainda segundo o autor, a inclusão social é um processo que contribui para a construção de um novo tipo de sociedade. A inclusão é um processo bilateral: por um lado, a sociedade executa transformações pequenas e grandes, nos ambientes físicos (espaços internos e externos, equipamentos, aparelhos e utensílios, mobiliários, meios de transporte) e nos procedimentos humanos (atitudes, normas) e, por outro lado, cada pessoa com deficiência vai adquirindo competências e habilidades para viver com o nível máximo de autonomia e independência (Sassaki, 2010). De acordo com o autor, a sociedade precisa de se modificar. Ela deve ser capaz de atender às necessidades dos seus membros. A sociedade deve diminuir ou, de preferência, eliminar todas as barreiras que dificultem ou impeçam as pessoas de participar plenamente nos sistemas sociais comuns. Desta feita, este pensamento pode abrir caminho para a inclusão dos idosos na sociedade. Interessa sublinhar que Sassaki (1997) não fala em integração, isto é, para o autor, inclusão e integração não significam a mesma coisa. Na sua visão, integração é a inserção de uma pessoa com necessidades especiais preparada para conviver na sociedade, ou seja, a pessoa deverá ser instruída para se adaptar ao movimento da sociedade. Já a inclusão é entendida como a modificação da sociedade como pré-requisito para que essas mesmas pessoas possam procurar o seu desenvolvimento e exercer a cidadania. Segundo a Comissão das Comunidades Europeias (CEE) (2003), a inclusão social é um processo que garante que as pessoas em risco de pobreza e exclusão social acedem às oportunidades e aos recursos necessários para participarem plenamente nas esferas económica, social e cultural, e beneficiem de um nível de vida e bem-estar considerado normal na sociedade em que vivem. Barry (1998) retrata a inclusão social como solidariedade social, que é um processo diferente da exclusão social uma vez que reflete companheirismo. A inclusão social é uma questão de abertura e de gestão: abertura, entendida como sensibilidade para identificar e recolher as manifestações de insatisfação e dissensos sociais, para reconhecer a “diversidade” social e cultural; gestão, entendida como crença no caráter quantificável, operacionalizável, de tais 23 demandas e questionamentos, administráveis por meio de técnicas gerenciais e da alocação de recursos em projetos e programas (as políticas públicas) (Laclau, 2006). De acordo com Wixey et al (2005), este é um processo pelo qual a exclusão social é atenuada. Caracteriza-se pela procura da redução da desigualdade através de objetivos estabelecidos que contribuam para o aumento do rendimento e do emprego. Sheppard (2006) por outro lado, referiu que a inclusão social está relacionada com a procura de estabilidade social através da cidadania social, isto é, todos os cidadãos têm os mesmos direitos na sociedade. Podemos perceber que, apesar de serem todas diferentes, há uma certa convergência entre as definições apresentadas pelos vários autores. Esta pesquisa bibliográfica revelou algo interessante: existem mais trabalhos sobre a exclusão social do que sobre a inclusão social, o que demonstra que a exclusão social é um fator de preocupação da sociedade atual e que as políticas de inclusão social não têm sido suficientes para fazer face aos imperativos sociais. Relacionando agora um pouco a inclusão social com a população sénior, uma vez que é esse o foco deste trabalho, importa referir que há ainda um longo trabalho a fazer neste sentido. Acredito que muitas pessoas que estão na terceira idade têm ainda uma grande vitalidade, podendo participar em muitos projetos e contribuir para algumas mudanças sociais e políticas. Como nos diz Delors (2004), o prolongamento da vida após a aposentadoria aumenta o tempo disponível para outras atividades. E isto comprova que envelhecer já não tem a mesma conotação de há alguns anos atrás, uma vez que agora as pessoas que atingem a terceira idade desejam continuar a “dar frutos”, isto é, continuar a aprender, a envolver-se e a participar, cada vez mais, nestas mudanças que vivemos diariamente. Fazer parte de um grupo é importante para a sobrevivência do ser humano, a inclusão é fundamental. Assim como a ocupação, estar envolvido numa ocupação é estar envolvido no processo de vida. Preenche uma profunda necessidade que os indivíduos têm de agir sobre o mundo e de ter impacto sobre os que os rodeiam (Paquete, 2004). Paquete (2004) refere, ainda, que para que a pessoa se sinta incluída a atividade não pode criar frustração, isto é, tem que estar adequada à pessoa. 24 Concluindo esta secção e refletindo sobre o papel das IPSS na inclusão social, parece-nos fundamental que as IPSS têm de se adaptar e ajudar os seniores a inserirem-se nas atividades que mais se adequam a cada um. Uma atividade não serve para todos da mesma forma. Da mesma maneira, Paquete (2004) defende que não se pode tentar ocupar alguém a qualquer custo, não se pode ocupar por ocupar sem ter em conta quem vai ser ocupado. Isso, além de não ser terapêutico pode até ser prejudicial, porque apenas vai aumentar a sensação de isolamento. Existem diversos programas de inclusão social, quer ao nível turístico, de ocupação de tempos ou de participação em serviços da comunidade. Por exemplo, na Inglaterra, muitos seniores ocupam parte do seu tempo nas estradas, nomeadamente a “comandar” o trânsito para as crianças poderem passar na passadeira com segurança. Em Portugal existem também programas de apoio ao desenvolvimento social, como por exemplo: o programa operacional de apoio às pessoas mais carenciadas, redes locais de intervenção social, a rede nacional de cuidados continuados integrados, o programa comunitário de ajuda alimentar a carenciados. 1.3.2. Exclusão Social Os fenómenos de exclusão social têm merecido grande atenção dos investigadores, na qual Hunter e Jordan (2010); Lesbaupin, (2000); Proença, (2005); Sen (2000), consideram a exclusão social um conceito recente. Faleiros (2006) realça o facto de a inclusão social estar profundamente vinculada à exclusão. A conceção de exclusão social foi introduzida por Lenoir (1974), e abrange uma grande variedade de problemas socioeconómicos. Lesbaupin (2000) diz-nos que este termo se encontra relacionado com a mão de obra marginalizada na América Latina. Para este autor o conceito de exclusão está presente em todos os países, independentemente do seu nível de desenvolvimento, tendo em comum a questão social. O conceito de exclusão social representou, para o mundo ocidental, no alvor dos anos 1980, uma resposta às crescentes divisões e desigualdades sociais, e que tinham cada vez mais visibilidade nas cidades (Hayes et al. 2008; Béland 2007; Bradshaw 2003). De acordo com Costa 25 (2006), a expressão “exclusão social” é usada hoje de forma generalizada, contudo, nem mesmo entre os especialistas existe unanimidade quanto ao sentido do mesmo. Para Gilles Lamarque (1995), a exclusão social nada mais é do que o prolongamento do conceito de “nova pobreza”, que havia sido concebido no início da década de 1980 para designar todos os indivíduos vítimas da crise económica. Do mesmo modo, para Martins (2003), um dos recortes da exclusão social é considerá-la como pobreza, uma vez que a pobreza hoje não se expressa apenas pela ausência de renda ou de comida, ela agora possui novas formas, como também consequências. Assim, de acordo com Pochmann (2004), a pobreza é uma forma de desigualdade social. Para o autor a desigualdade de renda, de oportunidade de emprego, de acesso a saúde, educação, justiça, lazer, constituem faces de uma única questão chamada de exclusão social. Lustosa (2001) considera que a pobreza e a exclusão social estão intimamente ligadas, uma vez que a pobreza envolve a exclusão de bens e serviços essenciais à sobrevivência do homem. Já a exclusão está ligada tanto a elementos materiais como não materiais e, portanto, é entendida como sendo mais abrangente do que o conceito de pobreza, pois envolve habitação, alimentação e segurança. Para Holanda (1993), excluir significa, entre outras coisas, pôr de lado, abandonar; pôr fora, eliminar. Na sociedade contemporânea os sujeitos excluídos são todos os que se encontram do lado de fora de um contexto, não pertencem a um determinado grupo, não têm mais serventia ou importância e, por isso, são postos fora, são eliminados. A exclusão social é a impossibilidade de poder partilhar na sociedade e leva à vivência da privação, da recusa, do abandono e da expulsão, inclusive com violência, de uma parcela significativa da população (Sposati, 1996). De acordo com a mesma autora, a exclusão está presente nas mais variadas formas de relações: económicas, sociais, culturais e políticas da sociedade. Por isso é que ela é social, porque a privação é coletiva. Ela inclui a pobreza, mas também a submissão, não equidade, não acessibilidade, não representação pública. Portanto, pode-se dizer que a exclusão pode existir em graus e formas diferentes. Num outro aspeto do conceito de exclusão, Costa (1998) menciona que a noção de exclusão social surge sobretudo ligada à existência de um contexto de referência, do qual se é ou se está excluído. Dele fazem parte cinco sistemas sociais básicos: social, económico, institucional, territorial e simbólico. Martins (2002) realça que a sociedade que exclui é a mesma sociedade que inclui e integra, que cria formas também desumanas de participação, na medida em que delas se faz condição de privilégios e não de direitos. 26 Em Portugal, o debate político em torno da exclusão social é algo recente. No início dos anos 1980 a pobreza e a exclusão social eram ainda assuntos não muito abordados nem pelos políticos nem pelos mass media (Guerra, 2002). Nos princípios da década de 1990, o Governo apercebese de que apesar de ter um considerável crescimento económico, continuavam a existir casos de pobreza. Assim, este tornou-se um tema dominante no discurso político. Por fim, podemos concluir que a exclusão social é um problema que se agudizou com a globalização e com as alterações tecnológicas. Mesmo fora do contexto europeu, este assunto tem assumido proporções intensas, tornando-se generalizado e contribuiu para modificar a representação tradicional da pobreza. 27 Capítulo 2. Associação Gerações 28 2.1. Descrição da Instituição A instituição onde decorreu este estágio é a Associação Gerações, que se localiza no centro da cidade de Vila Nova de Famalicão. Esta é uma Instituição Particular de Solidariedade Social, sob forma de associação sem fins lucrativos, que aposta na diferenciação dos serviços, através de rigor e competência. A Associação Gerações nasceu em 1999, na altura com a designação de Ludotecas de Famalicão, tendo sido registada no livro n.º 8 das Associações de Solidariedade Social, no dia 6 de novembro de 2000, sob o n.º 110/2000 a fls. 97 verso. O principal objetivo da instituição era, inicialmente, a atividade lúdica, sendo que haviam, nessa altura na cidade de Vila Nova de Famalicão, muito poucos espaços com capacidade para isso; e, portanto, podemos dizer que a Associação nasceu para dar resposta a essa problemática. Entretanto, dada a evolução que a instituição registou nos primeiros 10 anos de atividade, surgiu a necessidade de se pensar numa nova definição. Assim, em 2010 a direção da instituição, juntamente com os associados da mesma, votaram unanimemente por uma nova denominação: “Associação Gerações: Associação de Educação, Solidariedade e Serviços”. É importante referir que esta não foi uma sucessão provocada por falha ou insucesso da instituição, foi sim, uma sucessão de adequação a novas exigências, a novas realidades e a novos tempos. No início, a Associação de Ludotecas de Famalicão estava apenas direcionada para a atividade lúdica tendo, entretanto, começado a crescer noutras direções, nomeadamente nas áreas da infância, juventude e terceira idade. Assim, esta nova etapa de novas respostas a solicitações e necessidades da comunidade passa a ser corporizada na “Gerações: Associação de Educação, Solidariedade e Serviços”. “Gerações” significa um novo tempo, um novo rumo e um novo salto para a exigência e para a qualidade nos serviços prestados à sociedade, nomeadamente aos Famalicenses. Desde a sua fundação até aos dias de hoje, a instituição tem vindo a sofrer diversas alterações que têm em vista o aumento da qualidade de vida e do conforto dos seus utentes. 29 2.2. Objetivos Gerais De acordo com a documentação institucional, a Associação Gerações tem como principal objetivo promover e defender o bem-estar geral da população, nomeadamente daqueles que mais necessitam, proporcionando serviços ao nível da educação, da solidariedade, da atividade lúdica e cultural, abrangendo todas as classes sociais e diferentes fases de vida de cada um. A Associação visa também a prevenção de situações de carência e desigualdade socioeconómica, de dependência, exclusão e vulnerabilidade social, assim como a integração das pessoas na comunidade e o desenvolvimento das respetivas capacidades. Para além destes serviços, nos últimos anos a Associação tem vindo a criar um conjunto de iniciativas no âmbito do centro comunitário que possui. Este engloba um diferenciado leque de atividades e respostas, de acordo com as necessidades e expectativas sociais, nomeadamente serviços de psicologia, serviços de educação parental, um clube sénior, um centro educativo, entre outros serviços de apoio à comunidade. 30 2.3. Serviços Disponíveis A Associação Gerações tem ao dispor da sociedade um conjunto variado de serviços, e que acompanha todas as fases da vida do indivíduo: a creche, o jardim de infância, o centro educativo e o clube sénior. Para além destes serviços a instituição dispõe ainda de um serviço de psicologia que foi criado com o objetivo de responder às necessidades emergentes tanto das crianças como dos seus pais. Este é um tipo de acompanhamento que serve como pilar fundamental na construção de indivíduos socialmente dispostos. Para além disto, existe ainda a educação parental, onde ocorre o contacto direto com os pais sobre como estes devem lidar com os seus filhos e principalmente sobre como educá-los, através de Workshops, tertúlias, palestras. A Associação dispõe, ainda, de uma Ludoteca itinerante, sendo esta uma viatura devidamente apetrechada com os materiais necessários para promover atividades lúdicas nas escolas, de forma a preencher de forma ativa os tempos livres das crianças nas escolas. Um dos projetos que eu considero mais importante e inovador dentro desta organização é a “Loja Social – Mão Amiga”. Esta é uma nova resposta da instituição e representa a preocupação da mesma em agir contra problemáticas diretamente relacionadas com a pobreza e a exclusão social. Esta “loja” funciona através de donativos tanto de particulares como de empresas a famílias economicamente vulneráveis, que normalmente apresentam rendimentos muito baixos ou nulos do agregado familiar e que muitas vezes estão impedidas de trabalhar por motivos de saúde, ou simplesmente que vivem em situações de desemprego prolongado. As Lojas Sociais têm-se constituído com uma vertente comunitária muito forte, principalmente no apoio a famílias que pode acontecer através da doação ou da venda (a um preço muito simbólico) de determinados bens, como vestuário, calçado, mobílias, brinquedos, alimentação. 37 Assim sendo, neste caso específico, o mais indicado seria uma entrevista semiestruturada, de forma a que, em caso de necessidade, se possa entrar noutros campos, dependendo das respostas dos entrevistados. 3.1.1. Entrevista Segundo Richardson (1999), o termo entrevista é construído a partir de duas palavras: entre e vista. Entre indica a relação de lugar ou estado no espaço que separa duas pessoas ou coisas. Vista refere-se ao ato de ver, ter preocupação com algo. De acordo com Salvador (1980) e Ribeiro (2008), a entrevista tornou-se, nos últimos anos, um instrumento do qual se servem constantemente, e com maior profundidade, os investigadores das áreas das ciências sociais e psicológicas. Estes recorrem à entrevista sempre que têm necessidade de obter dados que não podem ser encontrados em registos ou fontes documentais, podendo estes ser fornecidos por determinadas pessoas. Para Gil (1999), a entrevista é, seguramente, a mais flexível de todas as técnicas de coleta de dados de que dispõem as ciências sociais. Ribeiro (2008) aponta como vantagens da utilização da técnica da entrevista: a flexibilidade na aplicação, a facilidade de adaptação de protocolo, a taxa de resposta elevada e o facto de poder ser aplicada a pessoas que não saibam ler nem escrever. Além das vantagens apresentadas, Gil (1999) considera que, se comparada com a técnica do questionário, a entrevista apresenta outras vantagens: possibilita a obtenção de maior número de respostas; oferece uma flexibilidade muito maior, uma vez que o entrevistador pode esclarecer o significado das perguntas; possibilita a captação da expressão corporal do entrevistado, bem como a tonalidade de voz e ênfase nas respostas. Esta técnica apresenta, no entanto, desvantagens que podem levar a que seja menos viável, em algumas situações, do que outras técnicas de recolha de dados. Para Gil (1999) as principais limitações da entrevista são: a falta de motivação do entrevistado para responder às perguntas que lhe são feitas; a não ou mal compreensão do significado das perguntas; o fornecimento de 38 respostas falsas (por razões conscientes ou inconscientes); a incapacidade do entrevistado para responder adequadamente (em casos de insuficiência vocabular ou problemas psicológicos); a influência exercida do entrevistador sobre o entrevistado; a influência das opiniões pessoais do entrevistador sobre as respostas do entrevistado. Ribeiro (2008) identifica, ainda, como pontos fracos da técnica: o custo elevado; o consumo de muito tempo na aplicação; a sujeição à polarização do entrevistador; a não garantia do anonimato; a sensibilidade aos efeitos no entrevistado; as características do entrevistador e do entrevistado. Todas estas limitações podem intervir na qualidade da entrevista, visto que o sucesso desta técnica depende fundamentalmente do nível da relação pessoal entre entrevistador e entrevistado. A entrevista efetuada a alguns membros da Associação Gerações encontra-se no apêndice 1, e as respostas e a sua transcrição na íntegra situam-se no apêndice 3. 39 3.2. Pesquisa Quantitativa Segundo Fonseca (2002), a investigação quantitativa centra-se na objetividade e considera que a realidade só pode ser compreendida com base na análise de dados brutos, recolhidos com a ajuda de instrumentos padronizados e neutros. De acordo com Richardson (1989), o método quantitativo caracteriza-se pelo emprego da quantificação, tanto nas modalidades de coleta de informações, quanto no tratamento dessas através de técnicas estatísticas, desde as mais simples até às mais complexas. No mesmo sentido, Silva e Menezes (2001) defendem que a pesquisa quantitativa considera que tudo pode ser quantificável, isto é, traduzir em números opiniões e informações com o objetivo de as classificar e analisar. Requer o uso de recursos e de técnicas estatísticas (percentagem, média, moda, mediana, desvio-padrão, coeficiente de correlação, análise de regressão, etc.). Segundo Teixeira (2007), a pesquisa quantitativa utiliza a descrição matemática como linguagem, ou seja, a linguagem matemática é utilizada para descrever as causas de um fenómeno. A investigação quantitativa estuda ações ou intervenções, fornece dados para provar hipóteses, produz informações quantificáveis sobre a magnitude de um problema e é conclusiva, pois permite inferir os resultados a toda uma população. Para Gil (2008), a técnica de investigação deverá ser o questionário, que inclui um conjunto de questões que são submetidas a um determinado público com o intuito de obter informações sobre crenças, sentimentos, conhecimentos, valores, comportamentos, entre outros. Este questionário em concreto destina-se à população sénior que frequenta a Associação Gerações e tem como principal objetivo perceber qual a sua ideia acerca da inclusão social e se acreditam que a instituição promove efetivamente atividades que fomentam a inclusão social sénior. 40 3.2.1 Questionário Segundo Parasuraman (1991), um questionário é tão somente um conjunto de questões, feito para gerar os dados necessários para se atingir os objetivos do projeto. O autor defende que nem todos os projetos de pesquisa utilizam essa forma de instrumento de coleta de dados, contudo o questionário é muito importante na pesquisa científica, especialmente nas ciências sociais. Parasuraman (1991) afirma também que construir questionários não é uma tarefa fácil e que aplicar tempo e esforço adequados para a construção do questionário é uma necessidade. Não existe uma metodologia padrão para o projeto de questionários, porém existem recomendações de diversos autores em relação a essa importante tarefa no processo de pesquisa científica Por outro lado, para (Marconi e Lakatos, 1999), o questionário é um instrumento desenvolvido cientificamente, composto por um conjunto de perguntas ordenadas de acordo com um critério predeterminado) e que deve ser respondido sem a presença do entrevistador. Oliveira (1997) afirma que o questionário deve reunir todas as informações necessárias e deve possuir linguagem adequada. Os questionários geralmente são utilizados para a obtenção de grandes quantidades de dados, nomeadamente para análises qualitativas. Nesse caso, os inquiridos escrevem ou respondem por escrito a um conjunto de questões que devem ser cuidadosamente elaboradas (Ruiz, 1996). Um questionário pode conter perguntas abertas ou perguntas fechadas. A pergunta aberta geralmente é mais fácil de elaborar e não restringe a resposta. Já a pergunta fechada é mais difícil de ser elaborada, uma vez que o investigador também tem que elaborar as possíveis respostas e força o inquirido a escolher uma das respostas apresentadas (Hair et al., 2004). Finalmente, e de acordo com Almeida e Pinto (1995), são consideradas algumas vantagens sobre este tipo de técnica de recolha de dados, tais como: a possibilidade de atingir um grande número de pessoas; pode garantir o anonimato das respostas e dos questionados; permite que as pessoas respondam no momento que lhes pareça mais apropriado. Todavia, Gil (2008), por sua vez, apresenta algumas limitações a este instrumento de pesquisa: excluí pessoas que não sabem ler e escrever, o que pode transformar os resultados da investigação; impede o auxílio ao questionado quando este não entende as perguntas; não oferece garantia de que as pessoas respondam, o que pode implicar uma redução da representatividade da amostra e pode revelar 41 resultados críticos em relação à subjetividade, uma vez que as questões podem ter significados diferentes para cada pessoa inquirida. O desenho do questionário aplicado aos seniores da Associação Gerações situa-se no anexo 2, sendo que toda a sua análise está realizada no seguinte capítulo. 42 4. Análise dos Resultados 43 4.1. Conteúdo das entrevistas Após as entrevistas, as gravações em áudio foram transcritas (ver apêndice 3 para ler as transcrições na íntegra), tendo as respostas de cada entrevistado sido, resumidamente, organizadas na tabela seguinte. Tabela 1 – Sinopse das principais ideias dos entrevistados face às questões Questão Entrevistado A Entrevistado B Entrevistado C 1 – O que entende por inclusão social? “(…) proporcionar condições para que todos os indivíduos tenham igual oportunidade de acesso a bens e serviços (…).” “(…) inclusão social tem de promover a participação ativa de todos. (…) focandonos na população sénior, a inclusão social tem de passar por uma promoção de práticas de envolvimento e participação ativa da população sénior nas atividades da sociedade, em atividades que efetivamente eles queiram participar. (…) têm de ser eles a decidir quais são as atividades em que querem participar (…). (…) inclusão social passa por isso, por escutar a “(…) a inclusão social é a possibilidade que se dá às pessoas do ponto de vista material, do ponto de vista institucional, de poderem realizar os sonhos que qualquer pessoa tem. Eu não me posso sentir incluído socialmente se não conseguir satisfazer as minhas necessidades de natureza mais material e também as minhas necessidades de natureza mais espiritual, no sentido cultural. (…) a inclusão social é a possibilidade que se dá às pessoas de poderem escolher um caminho (…). (…) incluir socialmente é basicamente isto, é eu ter a oportunidade (…) de 44 população sénior, ouvir as suas necessidades, os seus interesses, as suas motivações e incluí-los naquilo que, verdadeiramente, lhes diz respeito e que os motiva (…).” poder dar curso aos meus sonhos, aos meus anseios, ao meu projeto de vida, às minhas necessidades físicas e às minhas necessidades culturais.” 2 – Que tipo de ações podem ser sugeridas na Associação Gerações no sentido de tornar mais eficaz a inclusão social? “A nível da instituição num todo, as práticas existentes são de forma a que os indivíduos que procurem pela mesma possam usufruir de serviços que tenham em conta a inclusão social. (…) Em relação aos seniores o que nós temos são mensalidades muito simples, valores simbólicos que permitem até quem tem menos possibilidades económicas possa, pelo menos uma vez por semana, participar em alguma “Eu penso que uma das coisas que se torna urgente na nossa sociedade (…) tem muito a ver com as relações intergeracionais. Então eu acho que a nossa instituição (…) tem uma grande responsabilidade ao nível da promoção de propostas (…) que promovam a inclusão social através das relações intergeracionais, nomeadamente através de propostas e atividades, projetos e iniciativas entre os seniores e (…) as crianças que também “(…) nós (em teoria) somos uns praticantes de inclusão social. Nós não temos a veleidade de querer chegar a toda a gente, até porque depois aparecem aqui as barreiras: barreiras físicas ao nível das instalações, barreiras institucionais ao nível da segurança social e do ministério do trabalho e da solidariedade social e também barreiras de outro tipo que têm a ver diretamente com as pessoas. Nós temos um número de vagas prédefinido pelas entidades de tutela, (…) temos as instalações que temos e depois prestamos um 45 atividade, seja ela paga ou não porque também ao longo de todo o ano letivo vamos tendo muitas sessões e atividades gratuitas, (…) e assim permitimos a que todos os seniores possam participar e estar incluídos em alguma atividade, promovendo desta forma a inclusão social.” frequentam a instituição. (…) Ao nível das propostas para os seniores eu acho que nós já temos um leque muito alargado (…). Acho que a inovação passaria mesmo pela criação de projetos de intervenção comunitária envolvendo a população sénior (…).” serviço que não é integralmente gratuito. (…) E portanto, esta abertura que a Associação Gerações tem com as limitações que anteriormente referi, parece-me ser importante a este nível, proporcionando em número limitado a todas aquelas pessoas que querem e que se envolvem, a frequência de um conjunto de atividades (…). Portanto a esse nível eu penso que a Associação Gerações (…) deu um passo que eu considero importante em termos da integração de um grupo alargado de idosos (…).” 3 – Quais as atividades desenvolvidas na instituição dedicadas aos seniores? “(…) aulas de informática, inglês, ioga, pilates, pintura, desenho, fotografia, fisioterapia, aulas em grupo de fisioterapia, sessões de meditação, ioga do riso, treino da “(…) nós temos atividades ao nível do bem-estar físico (…) como dança, ioga, ginástica, pilates, têm também as sessões de fisioterapia (…). Depois temos atividades “(…) nós temos a funcionar o ioga, o pilates, as aulas de pintura, o inglês, a informática, a dança, enfim toda uma grande diversidade de situações no campo das artes (…). (…) passeios e visitas de estudo (…). Isto 46 memória (…), dança, ginástica. (…) passeios e visitas culturais, sessões de saúde e bem-estar (…), workshops de culinária, parcerias com fundações do concelho que vêm cá fazer atividades (…) e também atividades com a Biblioteca Municipal. relacionadas com as questões das novas tecnologias, desde a informática aos telemóveis, também a questão da fotografia (…). E depois temos outro conjunto de atividades: temos o inglês, os bordados, sessões e dinâmicas de grupo baseadas em técnicas de coaching (…). E depois temos os passeios e as atividades culturais (…). Depois vamos fazendo parcerias com a biblioteca, com a Fundação Cupertino Miranda, com outros organismos da cidade, até já fizemos com a Universidade do Minho (…).” passando também por um projeto contínuo que eu considero extremamente importante, que são os projetos ligados à intergeracionalidade. (…)” 4 – Considera que as atividades da instituição são promotoras de inclusão social? “Sim, considero (…). Temos é uma desvantagem (…) que é o acesso ao edifício que pode limitar algumas pessoas com “Sim (…). Nós sempre nos preocupamos muito em responder às reais necessidades dos nossos utentes e “Sem dúvida que sim. (…) E eu dou o exemplo concreto da informática (…). A informática personifica, no caso concreto dos seniores que 53 2ª Questão: Que tipo de ações podem ser sugeridas na Associação Gerações no sentido de tornar mais eficaz a inclusão social? Relativamente a esta questão mais específica acerca da Associação Gerações, as opiniões acabam por convergir um pouco. O entrevistado A refere que, de alguma forma, as práticas existentes na instituição já estão de acordo com a inclusão social, uma vez que as mensalidades pagas pelos seniores são de valores simbólicos, que acabam por permitir a que todos possam participar pelo menos numa atividade por semana, e também têm algumas atividades gratuitas. O entrevistado B realça que a inclusão social pode passar pela realização de atividades intergeracionais, que já existem na Associação Gerações com as crianças que também frequentam a instituição, para além das atividades que já são destinadas aos seniores, sendo que a verdadeira inovação passaria pela criação de projetos de intervenção comunitária por parte desta população. Por fim, o entrevistado C realça também a ideia que o entrevistado A expôs, referindo que a instituição já é, pelo menos em teoria, praticante de inclusão social. Contudo, este é o único que refere as barreiras existentes, nomeadamente ao nível das instalações e também algumas relacionadas com os utentes. 3ª Questão: Quais as atividades desenvolvidas na instituição dedicadas aos seniores? Esta questão tem, obviamente, a mesma resposta por parte de todos os entrevistados, uma vez que não é uma questão pessoal e sim uma questão com uma resposta unânime. Desta forma, as atividades são: aulas de informática, inglês, ioga, pilates, pintura, desenho, fotografia, fisioterapia, aulas em grupo de fisioterapia, sessões de meditação, ioga do riso, treino da memória, dança, ginástica, passeios e visitas culturais, sessões de saúde e bem-estar, workshops de culinária, parcerias com fundações do concelho e também com a Biblioteca Municipal. 54 4ª Questão: Considera que as atividades da instituição são promotoras de inclusão social? Esta é mais uma daquelas questões que acaba por pedir uma opinião mais pessoal, apesar de ser sempre sobre um tema comum, de cada um dos entrevistados. O entrevistado A considera que apesar de as atividades da instituição serem promotoras de inclusão social, existe uma desvantagem, que já foi referida numa das questões anteriores por outro entrevistado, que é ao nível das instalações, uma vez que o acesso ao edifício é feito através de umas escadas, o que pode causar transtornos a pessoas com dificuldades de locomoção, assim como as portas que são de construção antiga e não permitem a passagem de uma cadeira de rodas, por exemplo. Contudo, não existe nenhum tipo de restrição no que diz respeito à escolaridade, até porque uma grande parte dos utentes (como se poderá ver na análise dos questionários mais à frente) tem apenas o 4º ano, sendo que alguns nem sequer sabem ler nem escrever. O entrevistado refere que a instituição é apenas para seniores que sejam autónomos e independentes, uma vez que as propostas que eles apresentam são mesmo destinadas a pessoas ativas, para além de que não dispõem dos recursos necessários para acompanhar seniores com dificuldades. Porém, existem dois ou três casos nas aulas de pintura de senhoras que têm algum tipo de dificuldade e que se encaixam completamente, uma vez que não há a necessidade de nenhum cuidado extra. Assim como existe também uma senhora com Alzheimer e que é acompanhada em aulas de ginástica. O entrevistado B declara que sempre foi uma preocupação da instituição responder às necessidades dos utentes, considerando até que a prática de inclusão por parte da instituição está também reconhecida pelos parceiros, como por exemplo médicos que reencaminham para lá alguns utentes acreditando que o projeto favorece essa inclusão. Importantemente, segundo o entrevistado, há também feedback dos seniores que se sentem mais úteis e mais felizes por frequentarem a Associação. Por fim o entrevistado C, concorda também que as atividades são promotoras de inclusão social e enfatiza até o exemplo concreto da informática que personifica, no caso concreto dos seniores que frequentam a instituição, um passo em frente na inclusão social dessas pessoas, 55 mas refere também que as atividades da instituição tentam cobrir, na medida do possível, todas as áreas que são importantes para o ser humano. 5ª Questão: A instituição aplica alguma restrição a seniores que apresentem dificuldades físicas e/ou psicológicas? No que diz respeito às restrições aplicadas a seniores com dificuldades físicas e/ou psicológicas, os quadros da instituição garantem que não existem. Contudo, não deixam de referir que o Clube Sénior é, efetivamente, para pessoas ativas, autónomas e independentes. O entrevistado A realça que, apesar disso, não quer dizer que em algumas situações específicas não possam aceitar alguns casos, desde que não sejam situações avançadas de demência ou transtornos mentais graves, uma vez que nem sequer têm acompanhamento que se adeque a esse tipo de necessidades. É-nos dado o exemplo de uma senhora com Alzheimer, que começou por frequentar as aulas de pilates, mas não foi possível a sua continuação, uma vez que essas aulas exigem algum cuidado pois podem causar lesões e a senhora não era capaz de seguir os comandos sem um acompanhamento permanente da professora, o que se tornou insustentável. Apesar disso, houve sempre uma preocupação por parte da instituição para que a senhora se sentisse incluída, tentando encaixá-la noutras atividades que melhor se adequassem às suas capacidades. O entrevistado B revela que não existem restrições definidas, apesar de, obviamente, não poderem chegar a todos da maneira que gostariam. O que a Associação Gerações procura fazer é, dentro das suas capacidades, tentar adaptar-se de acordo com os pedidos que vão chegando, tentando adequar a sua resposta às necessidades de cada utente, sendo esse o verdadeiro significado de inclusão social. Por fim, o entrevistado C reforça que o verdadeiro propósito da instituição é atenuar algum sentimento de inferioridade que possa surgir com a idade ou devido a alguns problemas de saúde. É para a Associação Gerações um princípio fundamental o da igualdade de tratamento para todos os cidadãos. Este entrevistado revela ainda que se sentem muito satisfeitos quando a instituição é recomendada aos seniores por conselho médico, sentindo que o seu esforço e trabalho diários são reconhecidos. 56 6º Questão: Onde é que se encontram as principais resistências no sentido de se conseguir uma efetiva inclusão social? Esta última questão foi desenvolvida com o intuito de apelar a uma reflexão dos entrevistados, de forma a perceber qual a sua opinião acerca dos entraves à inclusão social, começando pela Associação Gerações e terminando na sociedade em geral. Deste modo, o entrevistado A referiu que as principais resistências estão presentes em todos nós, uma vez que todos os dias acabamos por ter comportamentos erráticos e preconceituosos, muitas vezes até sem nos apercebermos. E depois parte também de muitas instituições e empresas, que não são capazes de dar oportunidades iguais a todas as pessoas. Neste sentido há ainda muito para ser pensado, estudado, refletido e, acima de tudo, feito. O entrevistado B, por sua vez, apresenta uma visão muito inovadora no que respeita à inclusão social. No que respeita á sociedade em geral, o entrevistado afirma que estamos todos demasiado formatados para dar respostas padronizadas, nomeadamente ao nível das respostas sociais, onde os serviços acabam por ser muito tipificados. Na sua opinião, um dos principais problemas da sociedade é que tenta promover respostas iguais para todos, não sendo esse o significado de inclusão social, uma vez que não temos todos as mesmas capacidades. Desta forma, é necessário que se comece a ter em conta a individualidade do ser humano. No caso da instituição em específico, é referido que faz falta ao Clube Sénior uma melhoria em termos de infraestruturas, melhoria essa que já foi também solicitada pelos outros dois entrevistados. E por fim, a ideia principal que o entrevistado B desenvolve é a criação de projetos comunitários pelos seniores, que ajudem a reconhecer o valor que esta população ainda tem. Por fim, o entrevistado C enverga por uma opinião mais política, referindo o modelo europeu em que estamos inseridos e também a democracia em que vivemos, explicando que uma das principais funções do nosso governo é combater as desigualdades sociais. Deste modo, a inclusão existe ou não existe, em cada país, de acordo com as políticas que os governos podem ou não implementar. O entrevistado enfatiza ainda que enquanto as pessoas não tiverem um salário digno que permita ter uma casa com relativo conforto, que permita ter uma alimentação como nós dizemos hoje saudável, que impeça que os filhos frequentem a escola e a universidade, que não permita que as pessoas tenham acesso a bens culturais, bens desportivos e bens intelectuais, obviamente que ainda estaremos imensamente longe daquilo que entendemos por inclusão social. No que respeita à Associação Gerações, o entrevistado realça 57 que a instituição desenvolve um trabalho fundamental em termos de garantir aos utentes aquilo que é mais essencial nas suas vidas. Na sua opinião, as IPSS no geral são sempre a última barreira entre quem é excluído socialmente e a possibilidade de inclusão dessa pessoa. 58 4.2. Análise dos resultados dos questionários Dados de Identificação Desta investigação fizeram parte 60 indivíduos utentes da Associação Gerações, onde cerca de 70% correspondem ao sexo feminino, e 30% pertencem ao sexo masculino (gráfico 1), sendo todos residentes do concelho de Vila Nova de Famalicão. As idades dos inquiridos estão compreendidas entre 55 e 85 anos, sendo que a maioria (35%) se situa entre os 70 e os 75 anos (gráfico 2). Verifica-se, ainda que quase 67% dos inquiridos são casados, o que resulta que 60% vive com o cônjuge e 6,7% vive com o cônjuge e os filhos. Importa ainda ressalvar que cerca de 21% dos seniores vivem sozinhos, o que justifica o facto de quererem fazer parte da instituição, de forma a combaterem a solidão. No que respeita aos dados pessoais, no apêndice 4 encontram-se ainda os gráficos referentes à escolaridade dos seniores inquiridos e também às profissões que exerciam em idade ativa. Gráfico 1 – Género dos inquiridos Feminino 70% Masculino 30% GÉNERO 59 Gráfico 2 – Classe de idades dos inquiridos Gráfico 3 – Estado Civil dos inquiridos 13,33% 20% 21,67% 35% 8,33% 1,67% [5560[ [6065[ [6570[ [7075[ [7580[ [8085[ CLASSE DE IDADES Solteiro(a) 8% Casado(a) 67% Em união de facto 2% Separado(a)/Divorcia do(a) 8% Viúvo(a) 15% ESTADO CIVIL 60 Gráfico 4 –Agregado Familiar dos inquiridos Vive sozinho(a) 21% Vive sozinho(a) com os filhos 8% Vive com o cônjuge 60% Vive com o cônjuge e os filhos 7% Vive com a mãe 2% Vive com o marido e neto … AGREGADO FAMILIAR 61 Questões de perceção de inclusão social e meio envolvente No caso das questões mais específicas de perceção de inclusão social e meio envolvente, aqui serão apenas analisados os resultados das questões consideradas mais relevantes para este estudo, sendo que as restantes estarão no apêndice 4. É importante referir que todos os gráficos apresentados nesta secção, correspondem a perguntas que foram elaboradas em conformidade com a escala de Likert, em que de 1 a 5, o 1 significa “Concordo Totalmente” e o 5 significa “Discordo Totalmente”. Gráfico 5 – Perceção de inclusão social por parte dos seniores Este gráfico mostra-nos que quase 82% dos inquiridos estão conscientes do que significa a inclusão social e apenas 6,6% não conhecem o significado da mesma. Isto demonstra que a inclusão social é um tema que tem tomado contornos relevantes na nossa sociedade. 62 Gráfico 6 – As políticas sociais promovem a inclusão social Nesta resposta percebemos que cerca de 33% concorda moderadamente que as políticas sociais promovem a inclusão social. A maioria (55%) concorda totalmente ou muito que efetivamente as políticas sociais promovem a inclusão social, ou seja, as políticas sociais levadas a cabo pelo Estado são promotoras de inclusão social. 69 Gráfico 14 – Seniores estão excluídos do processo digital? Esta questão vai de encontro à anterior, e acaba por demonstrar conclusões idênticas. Verificase que 28,3% dos abordados concordam moderadamente com a afirmação apresentada. A maioria (36,7%), concorda que, efetivamente a maioria dos seniores ainda está excluída do processo digital. Contudo, é importante também referir que cerca de 35%, não está de acordo com a afirmação. Isto revela que já começa a verificar-se uma mudança de paradigma, no que diz respeito à inclusão dos seniores no processo digital, que é algo que acontece cada vez mais e que também se evidencia como cada vez mais importante. 70 Gráfico 15 – Associação Gerações ajuda os seniores a melhorar as suas relações interpessoais Nesta questão percebe-se que a esmagadora maioria dos seniores inquiridos (cerca de 92%) considera que a Associação Gerações os ajuda a melhorar as suas relações interpessoais, assim como a relação com eles próprios, no sentido em que o os motivos da participação nas atividades são o afastamento da solidão, a convivência com outras pessoas, a procura de amizades e também de conhecimentos e atividades que promovam a sua qualidade de vida. 71 5. Conclusão Depois de apresentados os resultados analíticos da investigação, interessa agora tecer algumas conclusões, de modo a verificar se os objetivos definidos foram alcançados. Conforme explicado nos objetivos gerais, as primeiras considerações remontam à parte teórica desta dissertação. Assim, verificamos que a inclusão social é um dos conceitos chave de todo o estudo, sendo este um conceito recente e com múltiplas definições. De uma maneira geral, podemos então concluir que a inclusão social é o processo através do qual a sociedade se adapta para poder incluir todo o tipo de pessoas. O envelhecimento populacional, sendo outro dos conceitos abordados neste estudo, é um fenómeno cada vez mais atual e que se tem alastrado por todo o mundo. Deste modo, parece-me cada vez mais importante valorizar o idoso e fazer com que se sinta útil e inserido na sociedade. O facto de muitas vezes terem poucas atividades de ocupação social, desenvolve nos seniores um sentimento de improdutividade, enaltecendo a sensação de inutilidade. (Zimmerman, 2000). Assim, é crucial que o idoso procure algum tipo de ocupação e participe em algo ou participe num grupo que o faça sentir-se como parte integrante e não isolado. Verifica-se que os grupos de convivência para idosos revelam-se cada vez mais importantes, uma vez que possibilitam uma ressocialização, sendo que muitas vezes acabam por trazer um novo sentido para as suas vidas. Particularmente, a Associação Gerações assume uma grande importância na vida de todas as pessoas que a frequentam, nomeadamente na dos seniores. A procura crescente deste tipo de espaços sociais acaba por revelar a importância dos mesmos. De acordo com Zimerman (2000), o indivíduo é, por natureza, um ser gregário, uma vez que está em constante interação com outras pessoas, fazendo parte de grupos diferentes durante o seu desenvolvimento, nomeadamente na família, amigos, trabalho. Assim, percebe-se que os indivíduos passam a vida a interagir e a conviver, daí a relevância da utilização dos grupos de convivência como espaços promotores de saúde. 72 O desenvolvimento deste trabalho revelou exatamente isso, que as relações sociais são muito importantes na vida de todos e em todas as etapas do ciclo vital, sendo que muitas vezes estas acabam por ser a escapatória para o isolamento vivido, principalmente, na terceira idade. A interação diária com pessoas da mesma faixa etária e nas mesmas situações, serve como mecanismo de apoio ao outro, proporcionando sentimentos de inclusão social. Ainda que não exista, no Clube Sénior, um instrumento formal para medir os ganhos no que respeita à reconquista de autonomia e independência dos seniores, a verdade é que ao participarem nas atividades da Associação Gerações, os utentes demonstram-se mais ativos, mais saudáveis e mais felizes. Segundo Areosa e Ohweiler (2000), a inserção nos grupos de terceira idade, além de ajudarem a redimensionar a identidade, causam satisfação pessoal, assim como o aumento dos relacionamentos. Na maioria dos casos, o estabelecimento de vínculos afetivos são a grande causa da procura deste tipo de grupos, aliados à ocupação para os seus tempos livres. Durante a observação participante efetuada no estágio, ficou claro o objetivo dos seniores quando procuram o Clube Sénior: ocupar os seus tempos livres com qualidade de vida e interação social, de forma a tornarem-se mais ativos, tanto a nível físico como cognitivo. Está também mais do que provado que a maior parte dos idosos que tentam reagir contra o isolamento e a solidão, participando nestes grupos, acabam por se sentir melhor física e psicologicamente, sendo esta uma grande conquista e um momento de realização pessoal para esta faixa etária. De acordo com Almeida et al (2010), as atividades mostram-se como favorecedoras da melhoria da qualidade de vida dos participantes, beneficiando na recuperação de autonomia, elevação da autoestima, socialização, convivência social e comunitária, assim como interação e inclusão social, comunicação e melhor conexão com equipamentos tecnológicos, como os computadores e os telemóveis, ajudando-os a perceberem-se como seres participantes do contexto social no qual estão inseridos. A integração dos seniores nestes espaços ocorre, muitas vezes, por indicação médica, por influência de amigos e dos filhos que procuram formas de os incluírem em atividades que lhes proporcionem um envelhecimento saudável. 73 Estes grupos de convivência acabam por funcionar como uma espécie de refúgio dos problemas quotidianos para os seniores, sendo um dos principais motivos de procura dos mesmos o acesso a atividades que estimulem o exercício físico e mental como meio de manterem a saúde. Para além disso, verifica-se que os seniores demonstram uma maior autoestima, assim como melhor disposição e mais alegria após frequentarem este género de grupos. A interpretação do material recolhido pelas entrevistas e pelos questionários permite concluir que a Associação Gerações se afigura como um pilar fundamental na vida de cada sénior que a frequenta. Deste modo, o mesmo podemos concluir acerca de todas as IPSS em geral, focando, evidentemente, as que exercem um trabalho com a população mais velha. Pelo que foi possível apurar, percebe-se que o nível de satisfação dos utentes seniores em relação às atividades da Associação Gerações é elevado, e que a maior parte deles se sente melhor a nível físico e psicológico. Todos na instituição têm já uma visão inovadora e “openminded” sobre o envelhecimento, tentado transmitir aos seniores que apesar da idade, têm muito ainda para viver e aprender. O grupo colabora na aceitação dos seniores nas transformações diárias que atravessam nesta fase da vida e que são inevitáveis, nomeadamente a adaptação à perda de algumas capacidades e limitações que antes eram inexistentes. O estudo do envelhecimento é recente, contudo é de extrema importância para a compreensão e consciencialização da necessidade de se pensar em como chegar a esta etapa da vida e manterse bem, uma vez que ela é inevitável. É assim que acabam por surgir e expandir-se os centros de apoio social, que têm um papel crucial na estimulação das pessoas idosas, para que elas próprias sejam ativas no desenvolvimento das suas próprias capacidades. Por último, no que diz respeito àquilo que pode ser feito futuramente neste campo de estudo, começa exatamente pelo investimento nesta área de investigação, uma vez que há ainda poucos trabalhos desenvolvidos sobre o tema e este é, incontestavelmente, um tema em ascensão. As políticas sociais relacionadas com o envelhecimento, podem também ser melhoradas, no sentido em que há muito ainda a ser feito pelo Estado, que tem de garantir uma rede de serviços diversos que assegurem aos seniores respostas às suas necessidades. Estas políticas devem ainda prever a otimização dos serviços, de modo a aumentar a qualidade de vida durante o processo de envelhecimento. 74 Referências Bibliográficas • Almeida, E. A.; Madeira, G. D.; Arantes, P. M. M.; Alencar, M. A. (2010). Comparação da qualidade de vida entre idosos que participam e idosos que não participam de grupos de convivência na cidade de Itabira-MG. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia , pp. 436-441. • Almeida, J. F. (1993). Integração social e exclusão social: algumas questões. Análise Social , vol. XXVIII, n º 123/124, pp. 829-834. • Almeida, J. F. e Pinto, J. M. (1995). A Investigação nas Ciências Sociais . 5ª edição Lisboa: Editorial Presença. • Areosa, S. V. C.; Ohlweiler, Z. N. C. (2000). 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Apesar da minha idade ainda me sinto motivado/a para aprender. Frequentar esta IPSS ajuda-me a melhorar as minhas relações interpessoais. Apesar das minhas limitações, sinto-me capacitado/a para continuar a aprender. A participação nas atividades da IPSS permite-me ultrapassar barreiras. A instituição promove o convívio social. Gosto de frequentar a instituição por causa do convívio. 86 Apêndice 3 – Transcrição das Entrevistas 87 Transcrição da entrevista a Doutora Cristiana, Assistente Social da Associação Gerações e responsável pelo Clube Sénior Pergunta: A inclusão social é um fenómeno que é cada vez mais estudado e, portanto, eu gostaria de saber a sua opinião acerca desse mesmo fenómeno, ou seja, o que é que entende por inclusão social? Resposta: Inclusão social é proporcionar condições para que todos os indivíduos, mais novos, mais velhos, pessoas com deficiência tenham igual oportunidade para serviços, bens, isto é, tentar com que haja uma equidade no acesso a esses bens e serviços. Pergunta: Que tipo de ações é que considera que podem ser sugeridas nesta instituição no sentido de tornar mais eficaz a inclusão social? Resposta: A nível da instituição num todo, as práticas existentes são de forma a que os indivíduos que procurem pela mesma possam usufruir de serviços que tenham em conta a inclusão social. Por exemplo, na parte das crianças tem tudo a ver com os rendimentos que os pais têm, ou seja, as crianças pagam a mensalidade conforme os rendimentos dos pais e é um acesso justo a todas as crianças. Em relação aos seniores o que nós temos são mensalidades muito simples, valores simbólicos que permitem até que quem tem menos possibilidades económicas possa, pelo menos uma vez por semana, participar em alguma atividade, seja ela paga ou não porque também ao longo de todo o ano letivo vamos tendo muitas sessões e atividades gratuitas, como as sessões de saúde e bem-estar, algumas palestras, sessões de ioga e meditação que por vezes são gratuitas, e assim permitimos a que todos os seniores possam participar e estar incluídos em alguma atividade, promovendo desta forma a inclusão social. Pergunta: Já que falou nas atividades, eu sei que a instituição tem muitas atividades ao nível das crianças e tudo, mas eu gostaria de saber quais é que são as atividades desenvolvidas destinadas aos seniores, uma vez que o meu estudo recai sobre eles. Resposta: Temos aulas de informática, inglês, ioga, pilates, pintura, desenho, fotografia, temos fisioterapia, aulas em grupo de fisioterapia, temos sessões de meditação, ioga do sorriso, treino da memória para promover a estimulação cognitiva, danças, ginástica. Agora não sei se 88 me estou a esquecer de alguma, o que é certo é que todas as atividades têm como objetivo promover o bem-estar físico e emocional e as atividades vão de acordo com os interesses que os seniores vão referindo ao longo do ano e, principalmente, no final de cada ano letivo quando é feito o questionário de avaliação da satisfação onde eles têm uma parte em que podem sugerir o que gostariam de fazer no próximo ano. Depois de acordo com aquilo que eles põem nesse questionário nós também tentamos dar resposta às necessidades que eles elencam. Mas essencialmente são essas as atividades que nós temos. Depois temos também passeios e visitas culturais que eles gostam bastante, sessões de saúde e bem-estar onde por mês é feita uma palestra acerca de algum tema de saúde para esclarecer dúvidas que tenham, temos workshops de culinária, temos parcerias com fundações do concelho que vêm fazer atividades cá, como a fundação Castro Alves com o barro ou então a Fundação Cupertino Miranda que é um Museu Surrealista e faz diferentes atividades com os seniores e também algumas atividades com a Biblioteca Municipal. E essencialmente são essas as atividades que nós temos. Pergunta: Considera que as atividades da instituição são promotoras de inclusão social? Resposta: Sim, considero, as atividades sim. Temos é uma desvantagem que pode impedir a questão da inclusão social, que é o acesso ao edifício que pode limitar algumas pessoas com dificuldades ao nível do andar em vir às atividades, devido às escadas. A verdade é que nós temos uma rampa e realmente numa situação extrema podemos usar a rampa, mas pessoas com cadeiras de rodas aí já não podemos aceitar porque efetivamente as nossas portas já não são adequadas para a largura das cadeiras de rodas e se calhar nessas situações é a única coisa que eu refiro que dificulta a questão da inclusão social. De resto, considero que somos uma instituição bastante inclusiva. Por exemplo, ao nível das questões de escolaridade, que muitas vezes nas universidades seniores há uma imposição de um requisito que normalmente é o 12º ano, nós aqui não temos esse tipo de critério de exclusão. Nós o que precisamos é que realmente as pessoas tenham mais de 55 anos, que tenham interesse em participar nas atividades e que não tenham nenhum tipo de demência em estado avançado porque aí também teríamos que ter outro tipo de recursos para acompanhar os utentes, os seniores que neste caso não temos. E aí pessoas com demências ou outro tipo de transtorno a nível mental, já não é possível para nós recebermos por falta desse acompanhamento mais específico, também não é provavelmente essa a base do nosso trabalho. Agora a nível de critérios nós não fazemos 89 diferenciação, se têm o 9º ou 12º ano, se sabem escrever ou não, porque mesmo que não saibam escrever podem participar em atividades que não envolvam a escrita e a leitura, por exemplo os bordados, que eu me esqueci de referir antes, as aulas de pintura e desenho não obrigam a que saibam ler ou escrever, simplesmente é seguir o que pretendem fazer, o desenho que tentam copiar. Inclusive temos dois ou três casos nas aulas de pintura de senhoras que têm algum tipo de dificuldade e que se encaixam completamente, porque não se trata de nenhum tipo de transtorno muito avançado nem de nenhum tipo de demência que inspire outros cuidados e acompanhamento específico. Nessas situações como é algo muito leve e que não há nenhum tipo de cuidado extra, eles podem participar nas atividades. Assim como temos uma senhora com Alzheimer e que nós realmente acompanhamos em aulas de ginástica e que a própria família se responsabilizou em vir cá trazer e buscar à instituição. Nessa situação também é permitida a frequência no nosso serviço, mas tem que ser algo muito bem estabelecido com os familiares porque nós não nos podemos responsabilizar que depois aconteça alguma coisa à pessoa pelo caminho, se vão embora e se perdem que é algo que pode acontecer e, de facto no início da frequência cá isso ficou muito bem definido com os familiares. Pergunta: A pergunta seguinte vai de encontro a isso exatamente. Eu ia perguntar se a instituição tem alguma restrição a seniores que apresentem dificuldades físicas e/ou psicológicas. Resposta: A nossa instituição, nomeadamente o nosso serviço, o Clube Sénior é para pessoas autónomas e independentes. O que não quer dizer que em certas situações específicas, que é o que nós já falamos até agora, nós não possamos aceitar algumas pessoas para frequentar algumas atividades específicas. No caso da senhora com Alzheimer da qual eu já falei anteriormente, por exemplo ela começou a frequentar pilates e não pôde continuar porque como é uma atividade muito específica que pode causar lesões se não for bem executada tivemos que realmente falar com os familiares e explicar essa situação, porque ela não seguia os comandos dados pela professora e a professora não podia estar somente com ela a fazer as aulas e portanto nessa atividade ela não pôde continuar. Mas continua em ginástica porque vai fazendo algumas atividades e as próprias colegas também ajudam bastante e de qualquer forma ela está incluída. Tendo em atenção situações específicas que é bem conversado com a família, é responsabilizada a família, somos responsabilizados nós, claro até as nossas responsabilidades 90 podem ir, é possível frequentar a instituição. Em situações avançadas de demência ou transtornos mentais complicados, aí já não podemos aceitar porque nem sequer temos acompanhamento específico e técnicos preparados para lidar com essas situações. Pergunta: Por fim eu queria só saber onde é que se encontram as principais resistências, na sua opinião, no sentido de se conseguir uma efetiva inclusão social? Resposta: Eu acho que as principais resistências estão presentes em todos nós porque uma coisa é a nossa prática no dia a dia, a prática profissional, em que tentamos ser inclusivos, respeitar de igual forma todas as pessoas, mas quantas vezes no nosso dia a dia nos esquecemos do que é que devemos fazer e nós próprios excluímos certas pessoas e temos preconceitos e estereótipos relativamente essas pessoas. Acho que efetivamente o problema parte de nós e depois parte também de muitas instituições, empresas que se esquecem de dar oportunidades iguais a todas as pessoas que batem à porta. Ainda há muito a fazer, acho que tem que ser muito bem pensado, como fazer e de que forma fazer e efetivamente eu também não sei realmente que sugestões é que poderia dar, tem que ser mesmo muito bem, temos de fazer uma boa reflexão nesta área. É complicado porque nós próprios temos o preconceito, às vezes até sem nos apercebermos, acaba por nos sair de forma natural porque nós somos seres humanos que temos muita coisa para trás e temos uma história escrita, os nossos pais e familiares passaram-nos valores que, por vezes, vêm também carregados de estereótipos e preconceitos mesmo, e às vezes por mais que nós estudemos na universidade que não deve ser assim, que temos de ter um comportamento diferente, ser imparciais as coisas continuam cá dentro. 91 Transcrição da entrevista a Doutora Daniela, Diretora da Associação Gerações Pergunta: Vou começar por fazer uma pequena introdução, só para referir que esta entrevista está a ser realizada no âmbito do meu Mestrado como já sabe e o estudo baseia-se nas Instituições Particulares de Solidariedade Social e na forma como estas se comportam faça à inclusão social, ou seja, o objetivo é perceber se realmente as IPSS contribuem ou não para a inclusão da população sénior. De uma maneira geral podemos dizer que a inclusão social é um conjunto de ações que garante a participação igualitária de todos na sociedade, oferecer oportunidades iguais de acesso a bens e serviços a todos, independentemente da classe social, da condição física, da educação, do género, da etnia, da orientação sexual, entre outros. Portanto, feita esta pequena introdução gostava agora de saber qual é a sua ideia ou o que é que entende por inclusão social? Resposta: É assim na minha perspetiva a inclusão social tem que promover a participação ativa de todos. Neste caso, focando-nos na população sénior, a inclusão social tem que passar por uma promoção de práticas de envolvimento e participação ativa da população sénior nas atividades da sociedade, mas em atividades que efetivamente eles queiram participar. Eu penso que existe uma tradição ainda muito de serem os outros a definir o que são as atividades para a população sénior e temos que inverter essa tendência, têm de ser eles a decidir quais são as atividades que querem participar, em que se querem envolver. Na minha perspetiva a inclusão social passa por isso, passa por escutar a população sénior, ouvir as suas necessidades, os seus interesses, as suas motivações e incluí-los naquilo que verdadeiramente lhes diz respeito e que os motiva, promovendo essa participação ativa. Pergunta: Que ações é que considera que podem ser sugeridas nesta instituição no sentido de tornar mais eficaz a inclusão social? Resposta: Eu penso que uma das coisas que se torna urgente em termos da nossa sociedade e que beneficia também a população sénior tem muito a ver com as relações intergeracionais. Então eu acho que a nossa instituição em particular pela sua missão, pela sua visão e pelos valores que preconiza tem uma grande responsabilidade ao nível da promoção de propostas que promovam a intergeracionalidade, ou seja, que promovam a inclusão social através das relações intergeracionais, nomeadamente através de propostas e atividades, projetos e iniciativas entre os 92 seniores e a população mais jovem, nomeadamente as crianças também que frequentam a instituição. Essa poderá ser uma proposta. Outra proposta que eu acho que também poderíamos inovar tem a ver com projetos de intervenção comunitária, ou seja, eu penso que também se poderão pensar para futuro alguns projetos mesmo de intervenção na sociedade, de intervenção política, social e que possam ser os próprios seniores a desenvolver esses projetos, a incluírem-se nesses projetos. Estou a pensar por exemplo ao nível do Clube Sénior poderíamos fazer um levantamento de necessidades, de oportunidades e por exemplo podiam lançados dois ou três projetos e cada sénior, em função das suas motivações, incluir-se num desses projetos e terem também eles um papel mais ativo na sociedade. Ao nível das propostas para os seniores eu acho que nós já temos um leque muito alargado, e todos os anos nós atualizamos as nossas propostas mediante o próprio questionário de satisfação de necessidades que fazemos com a população sénior. Eu acho que a inovação passaria mesmo pela criação de projetos de intervenção comunitária envolvendo a população sénior e passaria pelo maior enriquecimento das relações intergeracionais. Pergunta: Sabendo que esta instituição tem diversas atividades uma vez que engloba também a parte da infância, eu gostaria de saber quais é que são as atividades destinados aos seniores? Resposta: É assim, só para enquadrar: o projeto do Clube Sénior fui eu a responsável pela criação desse projeto e quando o criei e quando sugeri à direção a criação do projeto do Clube Sénior foi numa perspetiva de dar resposta a uma população que nomeadamente se reformou muito cedo, que ainda está muito ativa, muito capaz e que a sociedade não tinha uma resposta para esta população porque os centros de dia, os lares de idosos não se adequavam às necessidades desta população, que apesar de já se encontrar num perfil de população sénior ainda é uma população jovem, totalmente autónoma, totalmente independente, com uma grande capacidade ainda de aprendizagem e de renovação de vida social. Então a ideia foi sempre e o meu objetivo foi sempre que o Clube Sénior oferecesse atividades adequadas a esta faixa etária e a este grupo populacional. Assim, todos os anos, em conjunto com a doutora Cristiana, a nossa Assistente Social, fazemos uma análise em conjuntos de o que é que já temos e o que é que poderemos vir a ter para responder melhor às necessidades dos seniores. Assim sendo, o leque de atividades que nós temos neste momento é muito alargado, nós temos atividades ao nível do bem-estar físico em que eles se podem inscrever em atividades como dança, como ioga, como 93 ginástica, pilates, têm também as sessões de fisioterapia, ou seja, são propostas e atividades para a promoção do bem-estar físico que depois obviamente se relaciona com o bem-estar emocional. Depois temos atividades relacionadas com as questões das novas tecnologias, desde a informática aos telemóveis, smartphones, também a questão da fotografia que é uma é uma atividade que não existiu sempre e que nós incluímos porque houve interesse da parte dos seniores, ou seja, temos essa área mais ligada às tecnologias. E depois temos outro conjunto de atividades: temos o inglês, temos os bordados, temos também sessões e dinâmicas de grupo baseadas em técnicas de coaching, temos um leque muito alargado de atividades que vamos todos os anos ajustando mediante os interesses, as necessidades e também adequadas à nossa capacidade de resposta para esta população. E depois temos também os passeios e as visitas e atividades culturais, que são atividades que de facto este grupo populacional gosta bastante e que tem, na minha opinião, uma vantagem que é: tanto se podem inscrever os utentes do Clube Sénior como pessoas que não frequentam diariamente o Clube Sénior, e isso é interessante porque é aquela ideia de eu frequento e posso trazer o meu marido nestes passeios e podemos ir juntos enquanto casal e essa relação também é importante, a questão também de eu venho e para trazer uma amiga e isto é muito importante para eles e eu acho que essa atividade também é muito interessante. Depois vamos fazendo parcerias com a biblioteca, com a Fundação Cupertino Miranda, com outros organismos da cidade, até já fizemos com a Universidade do Minho em março costumamos ir à semana do cérebro, por exemplo, na escola de Medicina, na escola de Ciências de Saúde e vamos fazendo estas parcerias para ir respondendo às necessidades efetivas que eles vão demonstrando. Pergunta: Então considera que essas atividades são promotoras realmente da inclusão social? Resposta: Sim, porque sempre houve uma grande preocupação cá na instituição para que estas atividades fossem, de facto, ao encontro das necessidades e das motivações dos seniores. Isto é, nós sempre nos preocupamos muito em responder às reais necessidades dos nossos utentes e como há essa preocupação constante e todos os anos nós fazemos novamente auscultação dos interesses, das necessidades, até da satisfação deles face às atividades que temos, eu penso que há uma efetiva inclusão social. Eu penso que essa inclusão também está reconhecida até pelos nossos parceiros, por exemplo, nós temos situações já aconteceu de, nomeadamente ao nível da saúde, termos médicos que reencaminham para cá alguns utentes acreditando que o nosso projeto favorece de facto essa inclusão e a grande vantagem quando há 94 essa inclusão efetiva é, de facto, a melhoria das condições de vida das pessoas, o seu bem estar emocional, o bem-estar físico e eu acho que isso tem acontecido. E tanto tem acontecido que lá está, que quem vai trabalhando em parceria connosco ou quem vai conhecendo o nosso projeto depois até acontecem estas situações. Já aconteceu também, por exemplo, de um psiquiatra fazer encaminhamento para cá de alguns seniores porque acreditam que cá eles ficam incluídos e têm uma participação mais ativa e isso vai favorecer o seu bem-estar emocional e psíquico, ou seja, eu acredito que sim porque também há esse feedback dos seniores que de facto dizem que se sentem mais úteis, que sentem melhor, que se sentem mais felizes e eu acho que além dos indicadores que nós vamos tendo internamente, nós vamos percebendo isso também por essas respostas dos parceiros e por essas respostas de feedback dos próprios utentes. Pergunta: A instituição aplica alguma restrição a seniores que apresentem dificuldades físicas e/ou psicológicas? Resposta: Não, nós não temos restrições definidas. Nós vamos avaliando todos os pedidos que que nos chegam, e vamos procurando dar resposta. Por exemplo, nós temos inclusive a frequentar as nossas propostas alguns seniores que têm já Alzheimer diagnosticado. E nós enquadramos e incluímos e fazemos a nossa proposta de inclusão dessa pessoa. O que acontece é que nós temos que adequar as nossas propostas e isso é que se chama inclusão, que é não fazer igual para todos, ou seja, de acordo com o perfil de cada utente nós adequamos a nossa oferta e a nossa resposta. Pergunta: Na sua opinião onde é que se encontram as principais resistências no sentido de se conseguir uma efetiva inclusão social, não só ao nível da instituição, mas a nível geral na nossa sociedade? Resposta: Se calhar eu vou começar pelo geral, eu penso que a nossa sociedade está demasiado formatada para respostas padronizadas, ou seja, todos a fazer igual e mais do mesmo. E enquanto nós não percebermos que as respostas sociais, os serviços que existem à comunidade, não podem ser tão tipificados, têm que ser mais personalizados. E eu acho que este é o grave problema da nossa sociedade, até porque a própria segurança social que tutela a este tipo de serviços, tem uma checklist de serviços padronizados e às vezes é muito difícil oferecermos algo 101 Pergunta: Na sua opinião onde é que se encontram as principais resistências no sentido de se conseguir uma efetiva inclusão social? Não só ao nível desta instituição, mas também ao nível da sociedade em geral. Resposta: Voltamos à questão da Europa. Eu penso que o modelo Europeu onde nós estamos, felizmente, integrados é, acima de tudo, um modelo social e todos nós temos que lutar pela manutenção e pelo alargamento daquilo a que se chama o modelo Social Europeu. Nós vivemos na Europa em democracias. Como dizia o Churchill: a democracia tem muitos defeitos e tem muitos problemas, mas nunca ninguém conseguiu encontrar nenhum regime que fosse melhor do que do que uma democracia. Agora, a democracia tem os seus inimigos. O Karl Popper escreveu um livro muito famoso chamado “A sociedade aberta e os seus inimigos” e nós podemos não só teorizar um pouco em torno desta questão das liberdades individuais sujeitas à liberdade coletiva, que são coisas de que com muita frequência as pessoas se esquecem, nomeadamente a ideia de que a minha liberdade acaba onde começa a liberdade dos outros. Mas naturalmente que o ser humano é um ser muito complexo e é difícil muitas vezes entender determinado tipo de posições. Nós elegemos governos, direta ou indiretamente elegemos governos. E elegemos governos que têm compromissos sociais, sendo o principal compromisso de qualquer governo sempre o compromisso social. Em que é que consiste genericamente este compromisso social e vindo aqui para Famalicão e para o nosso país? O compromisso social de qualquer governo tem a ver com o combate que se faz ou não se faz às desigualdades sociais. Numa sociedade democrática, embora as democracias premeiem e no meu entender, justamente, o mérito, não podem premiar em excesso o mérito, o mérito do intelectual, do empresário que arrisca, do empreendedor que tem uma nova grande ideia. Esse prémio ao rico, genericamente, não pode ter a mesma graduação que o prémio que é atribuído à grande massa dos trabalhadores. E o maior problema da inclusão social ao nível dos países é exatamente este, é nós preocuparmo-nos em excesso com algumas classes esquecendo objetivamente as outras classes de poder reivindicativo mais reduzido ou até que não têm poder reivindicativo. Há aí uma teórica do modelo Social Europeu, concretamente em relação ao Macron que diz isto: “o Macron foi eleito contra a esquerda e contra a direita, ou seja, o Macron não é de direita nem é de esquerda, apareceu como um movimento quase a partir do nada com ideias próprias que expôs à sociedade francesa”. Agora, segundo ela, o Macron está a governar para os ricos da direita e para os ricos de esquerda, ou seja, está a governar para aqueles que já estão bem na vida quer sejam de direita, quer sejam de esquerda. Ou seja, acabou com a esquerda e acabou com a direita mas, ao fim e ao cabo, a sua 102 prática política, segundo a teoria desta pessoa, deixou de atender pouco às reivindicações da chamada classe média do proletariado, das pessoas que vivem no mundo rural, das pessoas que têm alguma dificuldade na vida, abrindo depois o caminho aos extremismos populistas que prometem o céu e a terra às pessoas, mas é um discurso que as pessoas gostam de ouvir. Se eu digo uma pessoa que tem dificuldades: “olha, se eu for governo, tu não vais ganhar 1000€ mas vais passar a ganhar 3000€” isto é uma miragem, mas é sedutor, eu vou com os privilégios e todas as pessoas serão iguais no meu país. Isto é uma utopia, mas há efetivamente muitas pessoas e nós vemos o que tem acontecido com os populismos na Europa que conseguem vender com muita facilidade este tipo de ideias que não passam de demagogia e de sonhos que nunca se irão concretizar. Para concluir, nas Nações, nos países, a inclusão social existe ou não existe de acordo com as políticas que os governos podem ou não podem implementar. Eu continuo a considerar chocante que o salário mínimo nacional seja agora, a partir de janeiro, de 600€. Efetivamente a inclusão social e há milhares de trabalhadores que estão incluídos no leque daquelas pessoas que ganham 600, 700, que sejam 800€, este tipo de recompensa pelo trabalho que se desenvolve é, por si só, um fator que não favorece a inclusão social. E, portanto, enquanto as pessoas não tiverem um salário digno que permita ter uma casa com relativo conforto, que permita ter uma alimentação como nós dizemos hoje saudável, que impeça que os filhos frequentem a escola e a universidade, que não permita que as pessoas tenham acesso a bens culturais, bens desportivos e bens intelectuais, obviamente que ainda estaremos imensamente longe daquilo que entendemos por inclusão social. No caso concreto das IPSS: as IPSS que não abrangem apenas o trabalho com crianças e com idosos, mas têm de facto um leque de atividades que visa exatamente atenuar as diferenças que a própria sociedade cria através dos seus governos. As IPSS e no caso concreto a Associação Gerações como vimos anteriormente desenvolvem um trabalho que eu considero importante, fundamental em termos de garantir ao menos às pessoas aquilo que é mais essencial para a sua vida, isto tendo em atenção os bens materiais, os bens culturais, os bens educativos e por aí fora. Portanto ao nível da inclusão social, eu costumo dizer que IPSS são sempre a última barreira que se interpõe entre quem é excluído socialmente e a possibilidade de incluir essa pessoa, de incluir essa família socialmente também. Daí que desempenhem um papel crucial com todos os desvios que a gente conhece e que vão sendo noticiados, agora não podemos confundir aqui a árvore e a floresta e pensar que, por haver algum dirigente que, em determinado momento teve um desvario impróprio e se apoderou daquilo de que nunca poderia apoderar-se, não podemos concluir a partir de dados muito raros e muito dispersos de que efetivamente o papel das IPSS é um papel secundário. Nunca se podem apontar 103 estes vícios, estes erros como sendo de cobertura universal, digamos assim. Agora isto resulta de parcerias que se vão estabelecendo, as IPSS obviamente que não poderiam exercer o seu trabalho sem o apoio do Estado. Mas, por outro lado, o Estado, que tem que ser o maior fator de inclusão, delega nas IPSS uma parte desta responsabilidade pela inclusão social. E os Estados, os governos fazem sempre cálculos e sabem perfeitamente que as comparticipações que transfere para as instituições de solidariedade social representam, em termos qualitativos e quantitativos, muito menos do que aquilo que o Estado gastaria para atingir os mesmos resultados. Portanto, é desta mistura de comparticipações familiares, de comparticipações do Estado, de comparticipações do governo que as instituições de solidariedade social vivem, dando uma contribuição decisiva a partir dos 3 meses de idade até aos 80, 90 anos para aquilo, e foi aqui que começamos, que é o grande objetivo de qualquer sociedade que é a inclusão Social de todos os seus membros. 104 Apêndice 4 – Gráficos de análise dos questionários 105 Dados Pessoais Gráfico 16 – Habilitações literárias dos inquiridos Gráfico 17 – Profissões que inquiridos exerciam em idade ativa 15% 32% 4% 17% 5% 2% 4% 3% 2%3% 10% 3% PROFISSÕES Administrativo Operário Auxiliar de Geriatria Comerciante Costureira Desenhador Doméstica Funcionário Judicial Motorista Profissional de Seguros Professor 4º ano 30% 6º ano 17% 9º ano 28% 12º ano 15% Bacharelato 2% Licenciatura 8% HABILITAÇÕES LITERÁRIAS 106 Questões Específicas Gráfico 18 – Satisfação em relação às atividades da instituição Com este gráfico percebemos que cerca de 90% das pessoas que responderam ao questionário se sentem satisfeitos com as atividades da instituição, sendo que 8,3% não revelou opinião acerca do assunto e apenas 1,7% não estão satisfeitos com as atividades. 107 Gráfico 19 – Preferência de umas atividades face a outras Este gráfico demonstra que a maioria dos seniores inquiridos (41,7%), não têm preferência de uma atividade em detrimento de outro, isto é, não existe preferência sobre as atividades manuais e desportivas face às atividades relacionadas com as TIC. Cerca de 38,4% dos inquiridos discordam a afirmação, o que acaba por, mais uma vez, demonstrar que, na maioria dos casos, não há qualquer tipo favoritismo em relação às atividades. Deste modo, apenas 20% dos questionados tem efetivamente preferência por atividades manuais e desportivas. 108 Gráfico 20 – Inclusão digital e inclusão social estão diretamente relacionadas A inclusão digital revela-se cada vez mais importante no processo de inclusão social, uma vez que atualmente as novas tecnologias são parte integrante e fundamental do dia a dia de todos os cidadãos e estão em todos os lugares. De acordo com Ferreira (2004), o conceito de inclusão digital está intimamente ligado ao de inclusão social: nos dias atuais, o computador é uma ferramenta de construção e do aprimoramento de conhecimento, permitindo o acesso à educação, ao trabalho, ao desenvolvimento pessoal e à melhor qualidade de vida. Percebemos que cerca de 55% dos inquiridos concorda com a afirmação, apesar de cerca de 38% não ter uma opinião esclarecida acerca do tema. 109 Gráfico 21 – Dominar o computador permite aos seniores sentirem-se capazes de lidar com situações novas Esta questão vai de encontro à anterior e à ideia de que a inclusão digital é uma realidade cada vez maior, tanto para jovens como para seniores. Efetivamente, vivemos na era digital, isso é um facto e é cada vez mais expressivo o número de seniores que aderem às novas tecnologias, sendo que isso se revela positvo para a sua saúde e bem-estar. Percebemos que a maioria dos inquiridos (78,3%) se sente realizado por saber trabalhar com o computador, pois isso faz com que sintam integrados no meio em que todos estão. 110 Gráfico 22 – Seniores que não sabem utilizar as TIC sentem-se excluídos socialmente? Esta questão apresenta conclusões um pouco contraditórias, uma vez que as anteriores refletem a ideia de que os seniores se sentem incluídos por saberem lidar com as novas tecnologias, mas esta demonstra que, apesar disso, eles (cerca de 70%) não se sentem excluídos por não saberem utilizar as TIC. Isto pode ser explicado pelo facto de que a maior parte dos seniores que frequentam a Associação Gerações terem aulas de informática, e portanto sabem trabalhar com computadores.