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Ângela Catarina Rodrigues Machado A cultura material dos expostos batizados na paróquia da Sé de Braga (1744-1763)dezembro de 2021 Uminho | 2021 Ângela Catarina Rodrigues Machado A cultura material dos expostos batizados na paróquia da Sé de Braga (1744-1763) Universidade do MinhoInstituto de Ciências Sociais
Dissertação de Mestrado Mestrado em História Trabalho efetuado sob a orientação deIsabel dos Guimarães Sáe deLisbeth de Oliveira Rodrigues Universidade do MinhoInstituto de Ciências Sociais Ângela Catarina Rodrigues Machado A cultura material dos expostos batizados na paróquia da Sé de Braga (1744-1763) dezembro de 2021
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND
iii AGRADECIMENTOS Gostaria de dirigir os meus sinceros agradecimentos a todos aqueles que contribuíram e possibilitaram que esta investigação se realizasse. - Às minhas professoras, Isabel dos Guimarães Sá e Lisbeth de Oliveira Rodrigues, pela disponibilidade constante e por todos os ensinamentos. - Às minhas amigas, Inês, Maria João, Rafaela, Sara e Vanessa, pelo apoio, e por todos os momentos passados juntas. - E à minha família, em especial aos meus pais, à Bárbara, ao Martinho e à Alice, por serem o meu suporte. Obrigado!
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducentes à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
v A cultura material dos expostos batizados na paróquia da Sé de Braga (1744-1763) RESUMO A presente dissertação tem como objetivo estudar a cultura material no abandono de crianças durante o século XVIII em Portugal. Durante esse século ocorreu um aumento demográfico por toda a Europa, e um fenómeno de exposição de crianças nunca antes visto, que obrigou os estados a tomar medidas e encontrar formas de assistir as crianças abandonadas. Em Portugal, uma das instituições que ganhou peso foi a Roda dos expostos, que pretendia centralizar o abandono de crianças, e que esteve na raiz da escalada do fenómeno, ao potenciar o anonimato dos abandonos. Esta dissertação centra-se no abandono de crianças na cidade de Braga entre os anos de 1744 e 1763. Pela Roda de Braga passaram milhares de crianças, que eram dirigidas à Sé da cidade para receber o sacramento do batismo. Aí eram registadas no livro de “Registo de batismos de expostos 17441771”, fonte central deste trabalho, o qual pertence ao Fundo Paroquial da Sé de Braga, à guarda do Arquivo Distrital de Braga. Estes registos, que constituíram a fonte principal deste trabalho, permitem aceder à descrição dos enxovais com os quais os expostos eram abandonados. Estes podiam conter roupas, tecidos, objetos, e eventualmente bilhetes, que constituem fontes de informação primordial para a compreensão do abandono. Este trabalho está estruturado em três capítulos. No primeiro, procura-se compreender aspetos como o abandono de crianças a nível nacional e europeu, as atitudes perante a infância, as possíveis motivações para o abandono, a instituição das Rodas e a importância do batismo. No segundo capítulo é feita uma breve análise dos expostos de Braga no que respeita a sua quantidade, às características das crianças (idade, sexo, etc.) aos locais de abandono. Por fim, o terceiro capítulo centra-se nos enxovais. Analisa-se com minúcia o vestuário (tecidos, cores e tipos de peças utilizadas), os sinais (tais como têxteis com valor simbólico (fitas, por exemplo) e objetos apotropaicos) e os bilhetes, que continham informações dos abandonadores em relação aos expostos (nome, batismo, data de nascimento e nome dos padrinhos). Palavras-chave: abandono de crianças; batismo; expostos; roda; sinais; período moderno; registos paroquiais; Braga.
vi A cultura material dos expostos batizados na paróquia da Sé de Braga (1744-1763) ABSTRACT This dissertation aims to study the material culture in child abandonment during the 18th century in Portugal. During that century there has been a population increase across Europe, and a never-beforeseen phenomenon of child exposure, which forced states to act and find ways to assist abandoned children. In Portugal, one of the institutions that gained weight was the Wheel, which aimed to centralize the abandonment of children, and was at the root of the escalation of the phenomenon, by enhancing the anonymity of abandonment. This dissertation focuses on the abandoned children in the city of Braga between 1744 and 1763. Thousands of children passed through the Braga Wheel, who were sent to the city's Cathedral to receive the sacrament of baptism. There, they were registered in the book “Livro de batismos de expostos 1744-1771”, which belongs to the Parochial Fund of the Sé de Braga, in the custody of the District Archive of Braga. These records, which constituted the main source of this work, allow access to the description of the trousseaus with which the children were abandoned. These could contain clothes, fabrics, objects, and eventually messages, which are essential sources of information for understanding abandonment. This work is divided in three chapters. The first seeks to understand aspects such as the abandonment of children at national and European level, attitudes towards childhood, possible reasons for abandonment, the institution of the Wheel and the importance of baptism. The second chapter presents a brief analysis of the abandoned children in Braga, quantity, characteristics (age, gender, etc.) and places of abandonment. Finally, the third chapter focuses on trousseaus. Clothing (fabrics, colors, and types of pieces), tokens (such as textiles with symbolic value (ribbon, for example) and apotropaic objects) and notes, which contained information in relation to those exposed (name, baptism, date of birth and godparents' names). Keywords: baptism; childhood history; child abandonment; wheel; tokens.
vii ÍNDICE DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS ............... ii AGRADECIMENTOS ...................................................................................................................... iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE .................................................................................................. iv RESUMO ....................................................................................................................................... v ABSTRACT ................................................................................................................................... vi Índice de Gráficos ........................................................................................................................ ix Índice de Tabelas ......................................................................................................................... ix Lista de siglas e abreviaturas ....................................................................................................... ix Introdução .................................................................................................................................... 1 CAPÍTULO I - O abandono de crianças na época moderna .......................................................... 4 1. Afetos e atitudes em relação à criança ................................................................................. 4 2. Um fenómeno da Europa católica ........................................................................................ 6 3. Motivações para o abandono e situações de risco ................................................................ 6 4. A exposição e a assistência às crianças abandonadas em Portugal ..................................... 9 4.1. A “Roda” dos expostos ............................................................................................... 12 5. O batismo no período moderno .......................................................................................... 14 CAPÍTULO II - Os batismos de expostos da paróquia da Sé de Braga (1744-1763) ................... 17 1. Braga durante a época moderna ........................................................................................ 17 1.1. A Roda de Braga ......................................................................................................... 19 2. O batismo de expostos na paróquia da Sé de Braga (1744-1763) ..................................... 20 2.1. O sexo dos expostos ................................................................................................... 24 2.2. A idade dos expostos .................................................................................................. 25 2.3. Os nomes dos expostos.............................................................................................. 26
5 de famílias mais ricas, uma vez que a roupa demonstrava a posição na hierarquia social de quem a usava (Ariès, 1986, pp. 69-70). Os sinais de desenvolvimento de uma nova visão de infância para Ariès só se tornam significativos a partir de finais do século XVI e durante o século XVII. Edward Shorter (1995, p. 184) concordou com esta visão, mas apenas em relação à burguesia e à nobreza; para o povo esse modelo teria persistido até o último quartel do século XVIII. No entanto, o número galopante de abandonos no século XVIII contradiz a cronologia proposta por Ariès segundo o qual o “sentimento de infância” se teria desenvolvido nos finais do século XVII e ao longo do XVIII (Sá, 1995a, p. 8). Durante as décadas de 1970 e 1980, alguns autores deram continuidade à visão de Philippe Ariès. Entre eles, David Hunt, afirmou que as crianças eram consideradas seres inferiores, que perturbavam e incomodavam os adultos. Edward Shorter e Lawrence Stone defenderam que havia uma certa indiferença para com as crianças, desvalorizadas e tidas em baixa estima. Para M. J. Tucker as crianças não eram consideradas seres de confiança e para J. H. P. Plumb eram consideradas cruéis. Lloyd DeMause considerou que eram maltratadas e recebiam poucos cuidados. Para os autores que defendiam esta visão pessimista da criança e da infância, o infanticídio e o abandono eram o reflexo do desleixo e do desapego a que as famílias as votavam (Hunt, 1972; Plumb, 1975; Tucker, 1976; Mause, 1976; Shorter, 1976; Stone, 1977; como citados em Pollock, 1996, pp. 6-21; Oliveira, 2007, pp. 1214). Autores como Linda Pollock (1996) declararam-se opositores da tese de Ariès, defendendo que as crianças não teriam sido ignoradas. Jean-Louis Flandrin, por exemplo, observou que não se podem encarar os sentimentos do passado através dos parâmetros contemporâneos (Flandrin, 1964, como citado em Oliveira, 2007, p. 14). Alguns críticos apontam até que Ariès analisou as evidências na Europa medieval sob o prisma da conceção de infância do século XX, o que o levou a afirmar que não havia consciência daquela etapa da vida naquela época (Heywood, 2001, p. 13). Maria Antónia Lopes enumerou alguns fatores que contribuíram para modificar a maneira de ver a criança e o seu quotidiano durante o século XVII. Entre eles, a consolidação da família nuclear, a influência da Igreja pós-tridentina, que responsabilizou os pais pelos filhos e propagou o culto do menino Jesus, do Anjo da Guarda e de outros santos-crianças; o aumento da preocupação com a educação dos filhos (Lopes, 2002, p. 3). Podemos concluir que a criança foi sendo cada vez mais valorizada ao longo do período moderno, mas não a ponto de impedir o aumento do abandono de crianças. Durante o século XVIII o abandono de crianças aumentou por toda a Europa Católica, atingindo números muito elevados. Esse fenómeno
6 sugere que Shorter (1995, p. 184) teria razão ao afirmar que a valorização das crianças se teria verificado nos grupos sociais mais elevados, e não nas camadas populares. 2. Um fenómeno da Europa católica Estudar o abandono infantil na época moderna em Portugal implica perceber dois aspetos importantes. Em primeiro lugar, o abandono de crianças foi uma prática comum muito antes do período moderno; em segundo, não se tratou de um fenómeno exclusivo a Portugal. Muito pelo contrário, essa prática ocorria, em maior ou menor grau, por toda a Europa, e foi um fenómeno que se expandiu um pouco por todas as regiões, começando a chamar a atenção dos governantes e a tornar-se uma preocupação social e política. Na Europa, este fenómeno pode ser dividido em duas fases. Uma primeira fase estende-se desde a Antiguidade até ao século XVII, época em que a prática do abandono existia, mas em fraca quantidade. Numa segunda fase, compreendida entre o período iluminista e o século XIX, o abandono de crianças cresceu e alcançou números sem precedentes. Um aspeto a ter em conta é o da variabilidade do abandono segundo o contexto e local (Sá, 1998, pp. 11-15). Entre a segunda metade do século XVIII e parte do XIX, registou-se um aumento demográfico, no qual os níveis de fecundidade aumentaram e os de mortalidade diminuíram, contribuindo para o aumento de abandonos de crianças (Sá, 1989, p. 55). Apesar do recurso ao abandono de crianças acontecer por toda a Europa, havia uma clara diferença entre as regiões católicas e as protestantes. Nas primeiras existia maior permissividade relativamente a este fenómeno, sendo adotado um sistema que promovia o anonimato dos pais: a Roda dos Expostos (Sá, 1998, pp. 13-14). Já nos países protestantes o abandono anónimo foi dificultado, existindo a tendência para averiguar a identidade das mães das crianças, e as leis favoreciam a identificação destes para compelir as famílias a pagar a criação dos filhos (Sá, 1987, p. 10; Sá, 1998, p. 14). 3. Motivações para o abandono e situações de risco O sistema de abandono de crianças era sigiloso, o que encobre as razões da rejeição de grande parte das crianças (Sá, 2011, p. 90). É certo que os historiadores avançam com várias hipóteses, mas não é possível determinar a motivação principal do abandono, até porque não existe nenhuma resposta única que se aplique a todos os casos estudados. As motivações para o abandono variaram no tempo e
7 no espaço, dependendo de vários fatores e contextos. Entre as possíveis motivações para o abandono, as duas que os autores consideram ter mais peso na decisão de abandonar um filho, são a pobreza e a ilegitimidade. A primeira por falta de recursos para cuidar da criança e a segunda por necessidade de manter a reputação da mãe e da família. Quanto à questão da pobreza como motivo para o abandono: um número significativo de expostos provinha de famílias pobres que viviam na miséria, sem possibilidades de criar mais um filho. Alguns estudos indicam que existe uma correlação entre o número de crianças abandonadas e as crises de subsistência em certos períodos, demonstrando que pode existir uma maior tendência para o abandono de crianças em períodos de crise (Fonte, 2004, p. 110). Para o caso português, Isabel Drumond Braga (2011, p. 228) observou uma correlação positiva entre o aumento do abandono de crianças em Lisboa e o aumento do preço dos cereais. O mesmo foi identificado para Meda, Setúbal, Porto e Coimbra. Contudo, segundo a autora, não se compreende a razão pela qual o abandono vitimizava sobretudo os recém-nascidos. Quanto à ilegitimidade, o recurso ao abandono podia ser visto como uma forma de salvaguardar a honra da mãe e da família. Ao recorrer à assistência pública a mãe poupava a família a escândalos e por vezes até podia acreditar que estava a proporcionar uma vida melhor às crianças. Reprovadas pela Igreja, rejeitadas pela sociedade, sem o auxílio do pai e da família, sem recursos financeiros e sem meios para sustentar os filhos, muitas mães ficavam numa situação de grande fragilidade e não tinham alternativa a não ser recorrer ao abandono (Amorim, 1987 pp. 255-256; Sá, 2011, p. 90; Réis, 2016, pp. 8-9). O nascimento de um filho ilegítimo acarretava consequências para as famílias que recorriam ao abandono como forma de ocultar relações ilícitas e possibilitar a reposição da honra da mãe. O abandono temporário de crianças estava também associado à ilegitimidade. O exposto era abandonado enquanto a mãe esperava a consumação de um casamento prometido (Fonte, 2012, p. 253). Isabel dos Guimarães Sá (1995b) enumera algumas teorias sobre o abandono de crianças, para além da habitual dicotomia ilegitimidade/pobreza. Uma delas sustém que o abandono substituiu o infanticídio, acusando-o de constituir uma forma indireta de eliminar as crianças, já que a sua mortalidade era elevadíssima. A autora refuta a possibilidade de comprovar esta hipótese devido à escassez de evidência sobre frequência do infanticídio no passado. Uma segunda teoria diz respeito ao “falso abandono”, segundo o qual as instituições de acolhimento foram usadas de forma fraudulenta. Os pais teriam a intenção de recuperar os filhos ou pretendiam fazê-los amamentar de forma gratuita. Estes abusos foram frequentes, mas, uma vez mais, demasiadas crianças morreram antes de os pais as reclamarem. Ainda, a autora sublinha que as instituições de expostos foram desviadas da sua função
8 inicial, que era a de salvar a vida de crianças indesejadas, para passarem a disponibilizar fundos públicos às populações rurais. No entanto, adverte que essas teorias lidam com efeitos e não com os objetivos do sistema de abandono (Sá, 1995a, pp. 16-20). Outra explicação consiste em supor que a escalada do abandono foi consequência do Concílio de Trento, que colocou a ênfase na honra feminina, obrigando as mães a abandonar os filhos, e não deu à figura paterna nenhuma responsabilidade na criação dos filhos. Finalmente, a teoria da circulação de crianças defende o abandono redistribuía as crianças pelos agregados, retirando-as das famílias com excesso de filhos e herdeiros para as que estivessem em défice, constituindo uma estratégia para combater o desequilíbrio demográfico (Sá, 1995a, pp. 20-22). Todas estas teorias evidenciam a impossibilidade de isolar uma motivação que se adeque a todos os casos em simultâneo. Talvez a solução para o problema resida em considerar estas explicações em conjunto e não como mutuamente exclusivas. São apontadas também outras razões para o abandono como, por exemplo, a morte, doença ou ausência dos pais; e situações mais circunstanciais como, por exemplo, a de falta de leite ou de espera de formalização do casamento por parte dos pais e subsequente legitimação dos filhos1. O ato de amamentar expostos podia incluir-se entre as estratégias familiares. Os salários das amas, ainda que baixos, constituíam um montante extra necessário para a sobrevivência da família. As amas podiam até desenvolver estratégias, como, por exemplo, expor o próprio filho para poder acolher um exposto, ou até tentar tornarem-se amas dos próprios filhos, utilizando as instituição de forma perversa. Amamentar um exposto podia ser uma forma de manter o aleitamento e de agir como método contracetivo (Sá, 1987, p. 19; Machado, 2010, pp. 156-157). Uma estratégia colocada em hipótese é a do abandono como método contracetivo. No entanto, Isabel dos Guimarães Sá aponta nela algumas falhas, entre as quais, “a contraceção é intencional e é duvidoso considerar que os pais abandonavam os filhos deliberadamente para que morressem”; o abandono era uma forma de salvaguardar a vida das crianças e não de as “eliminar”. Outras estratégias passavam por abandonar crianças mortas ou quase a falecer para que recebessem um funeral gratuito (Sá, 1987, pp. 18-19). As crianças do período moderno passavam por muitas provações, desde os primeiros dias até ao fim da infância, vivendo em constante situação de risco. Para começar, mãe e filho corriam riscos elevados durante a gravidez, mas também durante o parto e no pós-parto. Logo depois do nascimento, por vezes conturbado, muitos recém-nascidos eram abandonados. As crianças expostas eram as que 1 Alguns autores que tratam estas e outras motivações para o abandono são Amorim (1987), Braga, (2011), Fonte (2012), Réis (2016) e Sá (2011).
9 corriam maior risco de vida, sendo a taxa de mortalidade superior à das crianças criadas no seio da família. A alta taxa de mortalidade dos expostos pode ser explicada por vários fatores, tais como a mobilidade interfamílias, a mudança frequente de amas e de cuidadores, propícia ao contágio de doenças, as más condições de vida, como a negligência e os maus-tratos, o transporte e as viagens precárias até ao local de abandono ou a Roda, a alimentação deficiente, além do parto precário e da gravidez conturbada (Lebrun, 1983, p. 114; Sá, 1987, pp. 55-56, 2011, p. 91). Sebastião Matos (1995, pp. 149-152) notou, em Barcelos, nos finais do século XVIII, casos de acidentes e negligência das amas para com os expostos a seu cargo, tais como mulheres que deixavam crianças sozinhas, que as tratavam mal, deixando-as queimar-se ou sofrer outros acidentes. 4. A exposição e a assistência às crianças abandonadas em Portugal “Eis uma classe de verdadeiros marginais - os enjeitados! Considerados a mais, imolados no altar do egoísmo, da miséria ou da vergonha social, deles se pode verdadeiramente falar em sacrifício dos inocentes” (Santos, 1978, p. 300). Durante o século XVIII, a Europa vivenciou um aumento demográfico e o crescimento do abandono infantil numa escala nunca antes vista. Em Portugal, o crescimento demográfico ocorreu a partir dos anos 30 do século XVIII (Serrão, 1998, pp. 46-48), e contribuiu para o aumento de exposições de crianças, tendo Portugal registado números muito elevados em comparação com os restantes países da Europa (Sá, 1996, p. 39). Antes de abordar o sistema assistencial português é essencial entender o estatuto jurídico do exposto, distinguindo-o das demais crianças. No século XIX, o jurista António Joaquim de Gouveia Pinto (1828, p. 16) diferenciou exposto ou enjeitado de abandonado. Segundo o autor, enquanto o exposto podia ser legítimo ou ilegítimo por se desconhecerem os pais, os pais da criança abandonada eram conhecidos. Além disso, o exposto não tinha nem família, nem qualquer filiação, sendo considerado o primeiro da sua árvore genealógica, podendo herdar por doação ou testamento, e ser promovido a ordens sem necessitar da dispensa papal (Pinto, 1828, pp. 242-243). O autor é taxativo: O estado civil de hum exposto he hum estado negativo; pois que este menino nem he filho legitimo, nem ilegítimo, nem natural, nem adulterino: seu nascimento nem he honroso, nem ignominioso, pois que a Lei civil o trata, e considera como tirando a sua vida do acaso, e como se não tivesse tido pai, ou mãi (Pinto, 1828, p. 242).
10 A situação do exposto era considerada mais vantajosa do que a de uma criança abandonada. Os expostos eram considerados como filhos legítimos e ficavam sob tutela e proteção dos hospitais, Rodas ou Misericórdias, que lhes fornecia alimento (Pinto, 1828, p. 243). Contudo, a sua condição era transitória, durando apenas o tempo em que estivesse sob tutela institucional. A partir dos sete anos as crianças passavam a ter o estatuto de órfãs, com exceção da idade de emancipação, que era mais precoce (o exposto era emancipado aos 20 anos, e os órfãos aos 25). Ademais, o exposto era tido como legítimo e como tal possuía os mesmos direitos. A localidade de origem do exposto era o local de abandono, podendo herdar bens e ser considerado livre, mesmo se filho de escravizados (Lopes, 1985, pp. 122-123; Sá, 1998, p. 88). A criação de crianças abandonadas era entendida como uma transferência (temporária ou definitiva) da responsabilização dos pais para o domínio coletivo (Fonte, 2012, p. 242). Não era possível abandonar crianças sem uma extensa rede de cumplicidades, em que estavam envolvidas inúmeras pessoas, entre os membros da família, pais ou parentes próximos, vizinhos e conhecidos. Também as parteiras ou as mulheres que assistiram ao parto, as pessoas que escreviam os bilhetes, os que transportavam a criança à Roda, quem as criava, e os funcionários responsáveis pelo processo administrativo estavam envolvidos no processo (Sá, 1998, p. 17). Em Portugal, a assistência institucional às crianças enjeitadas recua à Idade Média, data em que surgiram alguns hospitais destinados a acolhê-las, como em Lisboa e Santarém (Sá, 1995b, p. 222). Em Lisboa, o monumental Hospital de Todos os Santos previa o acolhimento aos expostos, regulamentado no seu regimento de 1504 (Lopes, 1985, pp. 124-125, Sá, 1995b, p. 222; Abreu, 2008, p. 31). Em 1446, as Ordenações Afonsinas determinavam que os pais de crianças ilegítimas estavam obrigados a pagar a sua criação, e as mães tinham o dever de as criar durante os três anos correspondentes ao aleitamento, podendo cobrar despesas do pai. Deixavam-se, no entanto, muitas questões em aberto, como as situações que impediam o cumprimento da lei. As Ordenações Manuelinas mencionam pela primeira vez os expostos na legislação portuguesa e estabelecem uma hierarquia na criação de filhos ilegítimos. Os pais são constrangidos a criar os filhos, e, na sua ausência, a responsabilidade passava para as mães; só em último recurso a sua criação passava para os estabelecimentos de assistência e concelhos, que utilizavam as suas rendas, e, em caso de necessidade, cobravam fintas (Sá, 1987, pp. 22-23). A situação dos expostos era excecional, como constava nas Ordenações “[…] nom poderam os Officiaes da Camara, nem o Concelho lançar finta pera cousa algua; faluo pera a criação de meninos enjeitados […]” ( Ordenações Manuelinas , Livro I, Título 47). Apenas no caso dos expostos as fintas não
11 careciam de autorização régia e podiam ser decididas autonomamente pela vereação municipal em caso de necessidade ( Ordenações Manuelinas , Livro I, Título 67). Em 1603, as Ordenações Filipinas não trouxeram novidades relativamente à assistência aos expostos, mas reforçaram a medida segundo a qual os concelhos podiam impor uma taxa extra, sem autorização das autoridades centrais ( Ordenações Filipinas, Livro I, Títulos 66, 88). A alteração mais significativa nas leis respeitantes a expostos deu-se muito depois, em 1783, quando a Intendência Geral da Polícia, chefiada por Pina Manique, emitiu uma ordem que obrigava à criação das Rodas de expostos em todas as cidade e vilas do reino. A Intendência passaria a receber uma lista anual de cada Roda, com o registo de entradas e de óbitos, tornando-se também obrigatória a existência de uma responsável (rodeira) e a proibição de identificar quem abandonava (Lopes, 1985, pp. 127-128). As rodas deviam estar convenientemente localizadas em sítios que preservassem o segredo do abandono, proporcionando assistência imediata através da presença permanente de uma rodeira (Matos, 1995, pp. 117-118; Fonte, 2004, p. 123). Para os contemporâneos, uma das razões que justificava a criação de rodas era a necessidade de evitar o infanticídio. Contudo, importa referir que não existiam leis em Portugal que o punissem. Isabel dos Guimarães Sá (1994a, pp. 70-71) refere algumas hipóteses para essa ausência: ou era raro acontecer, o que não pressionava para a criação de leis específicas, ou era uma prática tão comum que era ignorada entre a massa das muitas crianças que morriam aparentemente de causas naturais, ou até por as autoridades não sentirem necessidade de reforçar a proibição. Em relação à participação da Igreja, ao contrário de outros países onde ela assumiu uma posição de relevo na assistência à infância abandonada, em Portugal a sua intervenção foi residual. Conquanto não fosse a favor do abandono, a Igreja não apoiou a resolução do problema (Fonte, 2004, p. 115; Lopes, 2010, p. 84). Em contrapartida, as câmaras dos grandes centros urbanos fizeram contratos com as Misericórdias locais, as quais ficavam responsáveis pela logística da receção e criação dos expostos, competindo, no entanto, o seu financiamento às câmaras (Sá, 1998, p. 16). Em Braga, esse contrato não teve lugar e a Roda, existente muito antes da ordem de 1783 de Pina Manique, foi controlada pela câmara sem que a Misericórdia assumisse um papel relevante na criação dos enjeitados. Todavia, como adiante se verá, a arquidiocese cumpria algumas obrigações para com as crianças enjeitadas.
12 4.1. A “Roda” dos expostos Segundo Maria Antónia Lopes (2010, p. 79), a palavra “roda” era utilizada em três conceções diferentes. A primeira referia-se ao mecanismo para receber crianças, a segunda, ao edifício onde este se encontrava e onde viviam as pessoas que as recebiam, como a rodeira e as amas internas, e, por último, de instituição de assistência aos expostos, englobando todo o sistema do abandono. A roda enquanto dispositivo material consistia numa caixa cilíndrica que girava sobre um eixo central, com uma única abertura, implantada numa abertura de janela. Antes de ser associada aos expostos, era utilizada nos conventos de clausura, uma vez que impedia o contacto visual com o exterior, permitindo que as freiras recebessem alimentos, cartas e outros bens (Lopes, 1985, pp. 123-124). Na sua utilização para o abandono de enjeitados, a criança era depositada na abertura do cilindro, que era girado até que a criança ficasse voltada para o interior do edifício, onde era recolhida depois do abandonador tocar o sino ou alguém o ouvisse ou à criança (Lopes, 1985, pp. 123-124; Réis, 2016, p. 2). Este processo permitia o anonimato, o que tornava este dispositivo indispensável no acolhimento de enjeitados. O objetivo da Roda era o de acolher crianças e tentar garantir a sua sobrevivência, mas nunca foi a sua intenção acabar com o abandono. A existência de Rodas deu origem ao transporte de crianças enjeitadas de zonas rurais para as cidades (Sá, 1998, p. 14). Devido à sua ausência em determinados lugares, as Rodas atraíam pessoas de fora. Como notou Teodoro da Fonte (2004, p. 433), nos finais do século XVIII, apenas Braga, Viana e Santiago de Compostela possuíam estruturas de acolhimento a expostos em toda a região do Minho e da Galiza. Desta forma, muitas famílias deslocavam-se a uma cidade próxima que tivesse Roda, ou pediam a alguém para o fazer, até porque abandonar crianças em cidades vizinhas ou locais distantes constituía também uma forma de garantir o anonimato. Esse transporte chegou a ser feito inclusive de forma institucional, com as câmaras de localidades mais pequenas a enviarem crianças para as Rodas das grandes cidades. A maioria das crianças era exposta ainda na fase de aleitamento, sendo responsabilidade da Roda encontrar uma ama de leite, sem a qual não podiam sobreviver (Fonte, 2004, p. 311). Esta ocupação era imprescindível, numa altura em que não existiam alternativas artificiais que substituíssem o leite materno de forma eficaz (Sá, 1994b, p. 235). As amas de leite não eram de uso exclusivo da criação de expostos. Largas faixas da sociedade recorriam aos seus serviços, desde os mais abastadas aos grupos intermédios, embora tivessem acesso a amas de melhor qualidade. Na época, houve quem defendesse e acreditasse que as características físicas e psicológicas da mulher influenciavam a qualidade do leite. A estabilidade emocional, a
13 continência conjugal, a boa alimentação, a constituição forte e robusta, a boa conduta cristã, a experiência eram condicionantes que influenciavam a escolha das amas2. Existiam assim dois tipos de amas, as contratadas privadamente e as públicas, cuja contratação estava a cargo de uma instituição (câmara ou Misericórdia). As amas podiam também ser internas e externas. As amas internas podiam ser residentes, quando habitavam na casa da família contratante, ou não residentes, quando iam diariamente à casa da família contratante. As amas externas levavam as crianças para amamentar na sua própria casa (Lopes, 2002, p. 8; Santos, 1987, pp. 215-225). As amas dos expostos eram recrutadas por instituições que criavam enjeitados, tendo como contratador uma entidade pública. No caso das amas dos expostos, havia que aceitar as mulheres que se ofereciam, e foram muitas vezes insuficientes para o número de expostos que davam entrada nas instituições. As amas de expostos preenchiam o escalão mais baixo entre quem exercia a função. Ao contrário das amas particulares, as amas de expostos não eram controladas, e os critérios de seleção acabavam por ser aplicados apenas no caso das amas privadas (Lopes, 2002, pp. 9, 15). As amas de leite dos expostos estavam divididas em três categorias: as amas de dentro (amas internas), que faziam parte do pessoal de atendimento permanente da casa, habitando dentro do edifício, que amamentavam as crianças até irem para as amas definitivas. Eram as que recebiam um salário mais elevado por atenderem mais expostos (Sá, 1987, p. 96). As amas de empréstimo constituíam um corpo provisório utilizado em caso de necessidade, enquanto não recebiam a ama definitiva . As amas de fora (amas externas ou definitivas) ficavam com as crianças na sua residência durante a amamentação, por vezes até aos sete anos, quando estas transitavam para a responsabilidade do juiz dos órfãos. As amas que não amamentavam os expostos ou que os criavam depois do desmame eram denominadas de amas-secas, ou “de sêco” (Sá, 1994b, pp. 237-238; Lopes, 1998, pp. 429-430). Entre os deveres das amas de leite de expostos contam-se tratar bem as crianças, dar-lhes uma boa alimentação e vestuário, e manter cuidados de higiene. Deviam também contactar as autoridades em caso de morte do exposto, e obter uma certidão do pároco da sua freguesia que comprovasse o enterramento e a causa do óbito (Fonte, 2004, pp. 313-314). No entanto, existia pouca fiscalização, pelo que muitas amas não cumpriam o estipulado, embora se chegasse a retirar crianças a algumas amas. Entre as razões para lhes retirarem os expostos incluem-se a ausência de leite, doença, gravidez, morte, negligência e maus-tratos (Machado, 2010, pp. 162-163). Estudar a atuação das amas torna-se importante para compreender os elevados níveis de mortalidade das crianças. O contacto das amas com 2 Sobre critérios para escolha das amas veja-se, entre outros, Santos (1987), Grieco e Corsini (1991), Sá (2011).
14 muitos expostos aumentava os riscos de doença e, consequentemente, de as transmitir aos demais expostos, já fragilizados pelas condições do abandono. As autoridades tentavam tornar a ocupação de ama de leite atrativa através da concessão de privilégios, numa tentativa de compensar salários baixos e atrasos nos pagamentos. Durante o reinado de D. Manuel I, em 1502, foi concedida a primeira carta de privilégios às amas e suas famílias, isentando os seus maridos de algumas obrigações concelhias e militares (Sá, 1995a, pp. 93-94). Todavia, não foram suficientes para obviar a falta de amas, problema recorrente até ao final do sistema de abandono anónimo no século XIX. As Rodas tiveram defensores naqueles que acreditavam que podiam evitar o infanticídio e manter a honra das mães (Sá, 1998, p. 14), mas também detratores, que foram aumentando ao longo do tempo. Os efeitos desta instituição não foram os esperados, porque os índices de mortalidade eram demasiado elevados e punham em causa a eficácia da instituição. Os críticos acusavam-nas de convidar à dissolução dos costumes e estimularem os pais a abdicar dos seus deveres (Fonte, 1996, p. 72; Lopes, 2002, p. 16; Fonte, 2004, p. 108). Contudo, o decreto que as extinguiu em Portugal foi publicado apenas a 11 de novembro de 1867. 5. O batismo no período moderno O batismo nos inícios da nova religião era administrado aos adultos. No entanto, no cristianismo moderno já há muito se tinha estabelecido como prática universal e obrigatória durante os primeiros dias de vida. Isto porque, começou a ganhar a atenção dos padres que o justificaram como necessário para limpar o pecado original das crianças (Almeida, 2014, pp. 3-4). Nos adultos, o batismo ficou associado ao método da imersão, no qual a pessoa era submergida em água, enquanto nas crianças o batismo por aspersão ganhou cada vez mais destaque. Santo Agostinho foi quem mais contribuiu para a noção de que o batismo é essencial para que as crianças consigam alcançar a vida eterna e a salvação da sua alma (Almeida, 2014, p. 3). Antes dele, o batismo apenas era administrado a adultos. Segundo Santo Agostinho as crianças nasciam com o pecado original e só o batismo era capaz de as salvar. Jacques Le Goff (1993, pp. 84-86) dedica um capítulo a Santo Agostinho, apelidando-o de “O verdadeiro pai do Purgatório: Agostinho”. Segundo o autor, Santo Agostinho marcou o clero da Idade Média que criou o purgatório. O Concílio de Trento, além de reafirmar a necessidade do batismo, não negou a existência do limbo das crianças, que continuou a ganhar apoiantes ao longo do século XVI (Almeida, 2012, p. 10). O
21 aumento que atingiu os 109 batismos nesse ano. A segunda tendência ocorreu entre 1755 e 1763. Neste período, o número de batismos aumentou continuamente até 1763, salvo uma quebra em 1759 (100), rapidamente ultrapassada no ano seguinte com 122 batismos. A partir de 1763, o abandono de crianças em Braga continuou a aumentar, mantendo-se elevado ao longo do século XVIII. Por exemplo, entre 1760 e 1800 o número anual de expostos variou entre 100 e 175 (Sá, 1993, pp. 102-103). Gráfico 1 - Movimento de batismos de expostos da paróquia da Sé de Braga (1744-1763) Fonte: Arquivo Distrital de Braga, Fundo Paroquial da Sé de Braga, Registo de Batismos 1744-1771 . Os batismos dos expostos eram realizados no próprio dia em que as crianças eram acolhidas ou no seguinte, no máximo até três dias após a data assinalada como sendo a da exposição. Os registos não indicam a hora de abandono das crianças, mas o mais provável é ter ocorrido durante a noite para garantir o anonimato e dificultar o reconhecimento do abandonador. Apenas os registos dos expostos Joaquim Manuel3 e Joaquim José4 referem a hora do abandono (durante a noite). Os batismos eram ministrados por um padre na Sé, excetuando alguns casos em que as crianças foram abandonadas com a saúde muito débil, o que forçou a intervenção do “pai dos enjeitados”. De modo a garantir que os expostos morressem sacramentados, este procedia a um batismo de emergência, como aconteceu, por exemplo, com uma menina chamada Rosa5, exposta na Roda a 5 de outubro de 1762, que por aparecer “ao que parece sem tempo e quase morrendo, a batizou logo”. Algumas dessas crianças batizadas de emergência conseguiram sobreviver a tempo de serem levadas à Sé, onde 3 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Joaquim Manuel, 16 janeiro de 1758, fl. 172. 4 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Joaquim José, 12 de outubro de 1762, fl. 247. 5 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Rosa, 5 de outubro de 1762, fl. 246v. 96 99 88 92 97 80 70 83 109 94 84 101 101 112 114 100 122 120 133 138 0 20 40 60 80 100 120 140 1744 1745 1746 1747 1748 1749 1750 1751 1752 1753 1754 1755 1756 1757 1758 1759 1760 1761 1762 1763 Nº de batismo de expostos Anos Nº de expostos Linear (Nº de expostos)
22 receberam todas as unções necessárias. Em 1748, um menino chamado Jerónimo6 “por vir de perigo foi ensopiado pelo pai dos enjeitados e veio pôr os santos óleos”, e cerca de um mês depois uma menina com o nome Josefa7 “foi ensopiada por Geraldo de Araújo pai dos enjeitados e veio a esta Sé pôr os santos óleos”. Anos mais tarde, em 1758, António José8 passou pela mesma situação, sendo batizado na roda “por João Ferreira, pai dos enjeitados por estar ou parecer moribundo a quem examinei e eu lhes pus os santos óleos”. Neste último caso, refere-se que o vigário da Sé, Inácio Palhares, examinou a criança. Uma exposta chamada Vicência9 veio enxoprada e o padre notou: “lhe fiz os exorcismos pela ter enxoprado Guiomar solteira no mesmo dia 22 por estar em perigo e lhe disse palavras essenciais por ter exercitado mais vezes do mesmo sacramento”. Contudo, muitas crianças expostas não conseguiram sobreviver o tempo suficiente. Em 1763, um menino, de nome Alexandre10, recebeu um batismo de emergência pelo “pai dos enjeitados”, tendo falecido logo de seguida. Não foi caso único. Antónia11, exposta a 16 de junho do ano anterior, foi batizada na Roda no mesmo dia em que chegou por “vir sem tempo”, tendo falecido logo em seguida. No livro de batismos de expostos não se registaram apenas os expostos batizados na Sé. Por exemplo, a menina Ana Maria12 apareceu já batizada na freguesia de Adaúfe “segundo nos constou por letra do mesmo reitor da dita freguesia […] por isso não a batizei”. Jerónimo José13 não foi batizado na Sé por constar que " estava batizado solenemente na freguesia de São João do Souto no mesmo dia e por isso fiz esta declaração"; sobre João14 escreveu-se "Do enjeitado João em vinte e cinco de novembro se deve procurar o seu acento na freguesia de Maximinos onde foi batizado”. No assento de Maria15 foi feita a seguinte declaração: "digo, e declaro, que esta não foi batizada por se me mostrar uma certidão do pároco da reitoria de Carvalho, cuja letra reconheceu o padre António Veloso da rua dos Chãos"; e sobre Margarida16 foi dito “não foi batizada nesta Sé por vir com certidão autêntica de que vinha batizada pelo pároco da dita freguesia”. 6 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Jerónimo, 20 de fevereiro de 1748, fl.50. 7 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Josefa, 29 de março de 1748, fl. 51v. 8 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto António José, 16 de fevereiro de 1758, fl. 173. 9 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Vicência, 21 de janeiro de 1757, fl. 157. 10 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Alexandre, 13 de dezembro de 1763, fl. 269. 11 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Antónia, 26 de junho de 1762, fl. 241. 12 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Ana Maria, 23 de maio de 1752, fl. 96. 13 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Jerónimo José, 13 de maio de 1760, fl. 207. 14 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto João, 25 de novembro de 1761, fl. 229. 15 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria, 10 de janeiro de 1762, fl. 232v. 16 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Margarida, 21 de novembro de 1763, fls. 268-268v.
23 Gráfico 2 - Sazonalidade do batismo de expostos da paróquia da Sé de Braga (1744-1763) Fonte: Arquivo Distrital de Braga, Fundo Paroquial da Sé de Braga, Registo de Batismos 1744-1771 . Em termos da sazonalidade do abandono, o Gráfico 2 revela maior incidência nos meses de inverno e primavera, e menor nos meses de verão. Esta tendência foi verificada em outras localidades, como, por exemplo, Porto, Guimarães, Góis, Barcelos e Meda17. Apenas em Meda foi detetado um pico de aumento no mês de outubro. Maria de Fátima Machado (2010, p. 136) refere vários estudos para cidades fora de Portugal, como Sevilha, Nápoles e Andújar (Jaén), onde o abandono tendia a acontecer também em meses de Inverno e Primavera, geralmente associados a dificuldades de aprovisionamento e condições favoráveis a conceção, como por exemplo, festas primaveris (Sevilha) e romarias (Andújar). Em Braga, os meses de verão (junho, julho e agosto) apresentaram quantitativos inferiores aos restantes meses do ano. Apenas novembro apresentou um número inferior de abandonos (147), correspondendo ao mês com menos registos de batismos de expostos na Sé de Braga. Excetuando o mês de setembro, que assinala um ponto mais elevado de abandono com 177 crianças registadas, os meses do inverno e primavera foram os que registaram o número mais alto de batismos, começando a aumentar em dezembro e mantendo-se elevados até maio, sendo março o mês com maior número de abandonos (201), seguido de abril (187), janeiro (182) e dezembro (179). Partindo do pressuposto de que se está a lidar com crianças maioritariamente recém-nascidas, calcula-se que os meses de maior conceção foram os da primavera (março, abril, maio) e de verão (junho, julho), dando origem a mais nascimentos em dezembro e nos primeiros meses do ano. 17 Alguns estudos abordam a sazonalidade do abandono e apresentam conclusões semelhantes. Cf. Lopes (1985), Amorim (1987), Matos (1995), Simões (1999) e Fonte (2004). 182 171 201 187 172 155 153 150 177 159 147 179 0 50 100 150 200 250 Janeiro Fevereiro Março Abril Maio Junho Julho Agosto Setembro Outubro Novembro Dezembro N.º de expostos por mês Meses do ano
24 O abandono de crianças no inverno era prejudicial à saúde dos expostos. O frio tende a diminuir a temperatura corporal, o que deixa o organismo suscetível a doenças e infeções. O exposto João18 é um exemplo, porque foi abandonado em novembro de 1758, tendo sido batizado pelo pai dos enjeitados por vir “quase moribundo” devido ao frio. Como veremos mais à frente neste trabalho, o vestuário dos expostos não estava preparado para os proteger do frio, nem de outras condições meteorológicas. 2.1. O sexo dos expostos Nas 2033 crianças expostas analisadas não foram detetadas disparidades significativas entre o seu género, registando-se o total de 1072 rapazes (53%) e 961 raparigas (47%). Apesar do número de rapazes ter sido superior, não é o suficiente para se poder afirmar que o sexo tenha sido determinante para a decisão do abandono. Os estudos realizados nos expostos na Roda do Porto e de Viana do Castelo chegaram à mesma conclusão (Sá & Cortes, 1992, p. 184; Fonte, 2004, p. 264). A quantidade de batismos de rapazes e raparigas foi acompanhando mais ou menos a mesma tendência. Segundo o Gráfico 3, o rácio de masculinidade19 entre 1744 e 1763, oscilou entre os 90 e os 140; apenas o ano de 1757 apresentou um rácio mais alto, na casa dos 200, e o ano de 1747, alcançou o rácio mais baixo de 84. Gráfico 3 - Rácio de masculinidade (R.M.) dos expostos da paróquia da Sé de Braga por sexo (17441763) Fonte: Arquivo Distrital de Braga, Fundo Paroquial da Sé de Braga, Registo de Batismos 1744-1771 . 18 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto João, 16 de novembro de 1758, fl. 184v. 19 O rácio de masculinidade foi calculado através da seguinte fórmula: R. M. = n.º de meninos n.º de meninas × 100. 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 Rácio de masculinidade Anos Rácio de masculinidade
25 Deve-se ter em consideração que o abandono de crianças era planeado ao longo da gestação, quando ainda se ignorava o sexo da criança. Quando a gravidez era descoberta e não fosse desejo da mãe e da família manter a criança, começava-se desde logo a elaborar o melhor método para ocultar a gravidez e o nascimento da criança da comunidade (Fonte, 2004, p. 265; Réis, 2016, p. 264). Esta hipótese do planeamento prévio é suportada por algumas mensagens que demonstram que o bilhete foi escrito antes do nascimento da criança, quando se desconhecia o seu sexo: “Se fosse menino se chamasse José Raimundo e se fosse menina se chamasse Serafina Josefa”20; “se fosse menino se chamaria Manuel Caetano de Jesus e se fosse menina Maria Manuela de Jesus”21; e “nome acima se fosse menina”22. A idade ao abandono também sustenta esta hipótese, uma vez que a maioria das crianças eram abandonadas quando acabavam de nascer ou nos dias imediatamente seguintes, comprovando que o abandono constituía uma opção ponderada ao longo da gestação. 2.2. A idade dos expostos A maioria dos registos não permite saber a idade exata dos expostos. Porém, em alguns casos, as crianças traziam escritos com essa informação, enquanto em outros eram feitas algumas suposições por parte de quem as registava. Em 1744, o menino Francisco José23, enjeitado a 9 de janeiro, foi registado como tendo “dois meses mais ou menos” de idade, e, dias depois, a 17 de janeiro, surgiu uma menina, Maria24, que, supostamente, tinha “doze ou quinze meses”. A 6 de maio, no registo de Anastácia Maria25, é referido que poderia já ter idade de “ano e meio pouco mais ou menos”. No ano seguinte, em 1745, a 10 de março, supôs-se que Esperança26 teria “sete meses pouco mais ou menos”. Três anos depois, em 22 de outubro de 1748, o exposto Manuel27, foi registado como tendo “três meses e meio”. Temos ainda dois expostos de idade mais avançada, uma menina chamada Maria28, que teria dois anos pouco mais ou menos, que não trouxe escrito, e um menino, José Joaquim29, que “parece ter dois anos”. Mesmo sendo mais velhos, estes expostos eram demasiado novos para fornecerem informações sobre si; em nenhum dos casos souberam dizer o próprio nome. É de supor, no entanto, 20 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto José Raimundo, 15 de fevereiro de 1745, fl. 20v. 21 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria Manuela de Jesus, 13 de fevereiro de 1754, fls. 118-118v. 22 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Antónia Caetana, 16 de junho de 1754, fl. 122. 23 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Francisco José da Conceição, 9 de janeiro de 1744, fl.3. 24 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria, 17 de janeiro de 1744, fl.3. 25 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Anastácia Maria, 6 de maio de 1744, fl.8. 26 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Esperança, 10 de março de 1745, fl.21v. 27 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Manuel, 22 de outubro de 1748, fls.57v-58. 28 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria, 23 de janeiro de 1758, fl.172v. 29 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto José Joaquim, 15 de novembro de 1761, fl.229.
26 que a maioria dos enjeitados seriam recém-nascidos. Sempre que o padre tentou calcular a idade do exposto, a idade apontava idades mais avançadas, exceto no caso de António30, exposto a 5 de março de 1746, que foi indicado que “trazia dias”. Os restantes tinham, alegadamente, mais de dois meses. Coloca-se, assim, a questão: será que a maioria das crianças eram recém-nascidas e por isso indicavase apenas a idade das mais velhas? No caso dos recém-nascidos é provável que tivessem nascido nas redondezas. No entanto, tratase apenas de uma suposição. A idade do abandono pode dar indícios da possível motivação que levou ao abandono. Quando as crianças eram ilegítimas a intenção era abandoná-las o mais rapidamente possível para as ocultar da comunidade. Como se disse, a decisão era tomada durante a gravidez. Porém, quando eram expostas com mais idade, a razão do abandono podia residir na pobreza, numa mudança nas condições financeiras, na situação familiar ou outra vicissitude (Fonte, 2004, p. 291). Contudo, não se pode descartar a hipótese de haver crianças ilegítimas a ser abandonadas tempos depois do seu nascimento. 2.3. Os nomes dos expostos O nome permite distinguir as pessoas numa sociedade e individualizá-las, e os expostos não constituíam uma exceção. A legislação civil portuguesa sobre a constituição dos nomes é relativamente recente, pois tem como matriz legal o Código Civil de 1928. Até então, dada a ausência de normas legais, vigoravam em Portugal normas ditadas pelo costume (Réis, 2016, p. 209). Os registos analisados evidenciam uma enorme variedade de nomes, com mais de 100 nomes distintos. Os mais utilizados encontram-se sistematizados na Tabela 1. Nos rapazes os quatro nomes mais relevantes foram José, António, Manuel e João; nas raparigas, Maria, Teresa, Rosa e Antónia, nessa mesma ordem. Todavia, os nomes podiam surgir isolados ou juntos. No caso dos rapazes, a combinação de nomes que mais se repetiu ao longo dos anos estudados foi a de José e António (58) e a de Manuel e José (37). Já nas raparigas, a combinação mais comum foi Maria e Teresa (43), Maria e Rosa (30) e Ana e Maria (24). 30 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto António, 5 de março de 1746, fl.30.
27 Tabela 1 - Principais nomes de batismo dos expostos batizados na paróquia da Sé de Braga (1744-1763) Nomes masculinos Nomes femininos Nome N.º Nome N.º José 274 Maria 285 António 181 Teresa 131 Manuel 144 Rosa 107 João 115 Antónia 107 Francisco 72 Ana 64 Joaquim 40 Luísa 52 Luís 39 Josefa 49 Inácio 32 Joaquina 40 Domingos 31 Francisca 36 Jerónimo 30 Joana 33 Bento 30 Benta 30 Pedro 25 Bernarda 18 Total 1013 Total 952 Fonte: Arquivo Distrital de Braga, Fundo Paroquial da Sé de Braga, Registo de Batismos 1744-1771 . Além destes nomes existiram outros que surgiram poucas vezes ou uma única vez. Alguns referem-se a santos como, por exemplo, “de Jesus”, “de São José”, “de São Pedro”, “do Espírito Santo”, “de Santo António”, “da Assunção”, “da Graça”. Outros nomes, mais raros, eram os apelidos como Amorim, Araújo, Pereira, Réis, Santos e Vieira. Alguns exemplos diferentes de nomes de expostos, que surgiram menos vezes foram, para rapaz, Bernardo, Caetano, Custódio, Félix, Filipe, Lourenço, Miguel, Narciso, Paulo e Tomás. Para rapariga, Angélica, Camila, Clara, Custódia, Gertrudes, Isabel, Leonor, Margarida, Mariana, Quitéria, Rita e Úrsula. É possível detetar nomes coincidentes com os dos santos celebrados no dia do nascimento. Apesar das famílias não indicarem o nome, elas informam as datas de nascimento que coincidem com o nome registado. O exposto João José31, segundo o escrito “nascera em Dia de São José”, e Sebastião32 “nasceu em dia de São Sebastião”. Já a exposta Maria do Ó33 possuía um nome ligado ao local de abandono, uma vez que foi abandonada na capela de Nossa Senhora do Ó. 31 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto João José, 6 de abril de 1757, fl. 161. 32 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Sebastião, 20 de janeiro de 1745, fl. 19v. 33 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria do Ó, 13 de julho de 1756, fl. 151.
28 2.4. Os locais de abandono Entre 1744 e 1763 não existiu em Braga um local exclusivo para o abandono de crianças (Gráfico 4). Os abandonos, principalmente entre 1744 e 1755, foram feitos um pouco por toda a cidade e arredores. A partir do ano de 1755 começa a registar-se um aumento dos abandonos na Roda e uma diminuição dos abandonos pela cidade. No entanto, alguns casos suscitam dúvidas, porque os registos referem que a criança foi exposta na Roda e, ao mesmo tempo, referem o local de exposição inicial, sugerindo a existência de registos que mencionam erradamente a Roda como primeiro local de exposição. Contudo, os números deixam claro o aumento da eficácia da instituição, visto que cada vez mais abandonos eram feitos na Roda. No primeiro ano estudado, em 1744, 56% das exposições ocorreram fora da Roda e 20 anos depois, em 1763, apenas 20%. O ano de 1755 marcou o início da divergência entre locais de abandono. Gráfico 4 - Relação entre locais de exposição dos expostos batizados na paróquia da Sé de Braga (17441763) Fonte: Arquivo Distrital de Braga, Fundo Paroquial da Sé de Braga, Registo de Batismos 1744-1771 . Entre os anos de 1744 e 1763, foram expostas 1218 crianças dentro da Roda e 808 pela cidade e arredores, existindo sete casos para os quais se ignora o local de exposição. Dos 808 abandonos na cidade, foram abandonadas à porta de privados cerca de 554 crianças, e, em casos mais raros, à porta de alguma instituição. Cerca de 142 foram abandonas em locais não especificados, referenciados apenas pelo nome da rua, do lugar ou da freguesia, mas sem particularizar o lugar exato. Não sabemos se foram 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 110 Número de expostos Anos Roda Fora
29 postos à porta de uma casa ou até mesmo no meio da rua. As restantes crianças foram abandonadas em locais variados: lojas, vendas, igrejas, capelas, hospitais, tabuleiros, alpendres*, recolhimentos, quintas, pátios, entre outros. As crianças abandonadas na Roda eram imediatamente socorridas, enquanto as outras corriam mais riscos, porque podia demorar mais tempo até serem encontradas. Para além de sujeitas a condições naturais mais adversas (frio, animais, etc.), acabavam por passar pela mão de mais pessoas, aumentando o risco de contrair doenças. 2.4.1. Abandonos fora da Roda Os abandonos fora da Roda podiam ser feitos tanto em locais públicos como privados. Os abandonos feitos à porta de privados foram os mais recorrentes; foram referenciados 554 expostos nessa situação, mas o número teria sido superior, considerando que os registos não detalham certos locais. Nos registos de batismo dos expostos refere-se que a criança apareceu “à porta de”, seguido, normalmente, da identificação do morador e da localização da casa (rua, freguesia ou algum local de referência), podendo indicar ainda que ficaria “atrás de” ou “ao lado de” alguma rua ou edifício. Não era comum o aparecimento de mais de uma criança “à porta” das mesmas moradas. Ainda assim, alguns registos testemunham essa situação, como, por exemplo, no caso de duas meninas com o mesmo nome (Maria), abandonadas à porta da mesma casa. A primeira Maria34 foi exposta a 29 de fevereiro de 1744, “à porta de José Gonçalves sapateiro” e a segunda35, apenas alguns dias depois, a 6 de março. No entanto, estes casos foram esporádicos. No momento de identificação do morador é referido o seu nome, e em alguns casos a sua ocupação e estado matrimonial. Se fosse casado, referia-se o nome do cônjuge; quando solteiros, os nomes de irmãos ou os pais. A ocupação do morador era descrita com frequência. Por exemplo, Alberto36 foi deixado “à porta de José Loureiro tesoureiro do Senado da Câmara”; Ana37 foi abandonada a “à porta de Miguel Vieira ourives”; Mariana38 exposta “à porta de Domingos de Barros carpinteiro”; Joana39 abandonada "à porta de Marcelina da Silva vendeira”; Mário40 abandonado “à porta de Manuel Francisco cubeiro”. Um outro caso foi o de Francisco41, que em 1 de outubro de 1755, foi exposto “na rua de Gatos à porta de um ourives”, sem que fosse especificado o seu nome. 34 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria, 29 de fevereiro de 1744, fl. 5v. 35 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria, 6 de março de 1744, fl. 6. 36 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Alberto, 8 de agosto de 1744, fl. 12. 37 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Prudência Ana, 22 de maio de 1745, fl. 24. 38 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Mariana, 10 de fevereiro de 1745, fl. 20. 39 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Joana, 11 de outubro de 1745, fl. 27. 40 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto António Maria, 26 de maio de 1746, fl. 32v. 41 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Francisco, 1 de outubro de 1755, fls. 138v-139.
30 Muitas outras ocupações surgem nos registos como, por exemplo, ferreiro42, espadeiro43, sombreireiro44, droguista45, espingardeiro46, alfaiate47, pedreiro48, barbeiro49, pedreiro50, armador51, carpinteiro52, livreiro53, ladrilheiro54, armador55 e espadeiro56. Na cidade de Braga existia uma grande variedade de ocupações associadas ao artesanato (Cunha, 2001, p. 85). A profissão dos moradores estava ligada ao comércio, ao trabalho de metais, madeira, pedra e produção de têxteis e vestuário. Não ocorreram abandonos à porta de moradores que trabalhassem no setor primário, apenas no setor secundário e terciário, o que não surpreende, se se tiver em conta que o abandono ocorria, sobretudo, na cidade de Braga. Além dos abandonos nas portas, algumas crianças foram expostas em tabuleiros, ou seja, espaços relativamente largos situados entre degraus e uma escada, ou entre degraus de uma fachada ou porta (Bluteau, 1712-1728, vol. 8, p. 11). Deste modo, o tabuleiro acaba por constituir uma outra forma de referir abandonos em portas. Entre essas crianças estava Manuel57 abandonado “no tabuleiro da casa do padre Francisco”, Geraldo58 deixado “debaixo dos alpendres do Campo dos Touros em um tabuleiro das casas das beatas”, Maria Clara59, em 1755, e Constâncio60, em 1757, ambos deixados “no Campo de Santa Ana no tabuleiro das casas de José António Vilaça”. Dois outros locais de abandono foram as lojas e as vendas. As lojas tanto podiam ser locais onde se vendiam de produtos, como podiam ser casas térreas (Moraes & Bluteau, 1789, vol. 2, p. 32). No caso de serem casas térreas, o abandono em lojas também representava o mesmo que em portas. E, tal como no abandono “à porta”, havia a intenção de identificar o dono e o local da loja e da venda. Como se pode verificar no registo de batismo de Senhorinha61, uma menina exposta a 21 de agosto de 1747, na loja do “Reverendo Beneficiado Domingos José Rebelo morador da rua de Maximinos”, de Antónia62 exposta, no dia 16 de setembro de 1754, na loja de “Francisco Marinho, atrás da Sé”, e de 42 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Susana, 20 de abril de 1747, fl. 41v. 43 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Jerónimo, 12 de abril de 1747, fl. 41v. 44 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Francisco José, 6 de abril de 1747, fl. 41. 45 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto António, 13 de novembro de 1746, fl. 37. 46 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto José, 9 de novembro de 1746, fl. 36v. 47 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Francisco António, 11 de janeiro de 1744, fl. 3. 48 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Miguel, 28 de setembro de 1744, fl. 14v. 49 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto António, 12 de outubro de 1746, fl. 35v. 50 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Ana Teresa Tomásia, 13 de outubro de 1746, fl. 35v. 51 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Antão, 16 de janeiro de 1745, fl. 19. 52 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Mariana, 10 fevereiro de 1745, fl. 20. 53 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Domingos José, 8 de março de 1746, fl. 30v. 54 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto António, 6 de outubro de 1745, fl. 27. 55 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Antão, 16 de janeiro de 1745, fl. 19. 56 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Jerónimo, 12 de abril de 1747, fl. 41v. 57 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Manuel, 13 de fevereiro de 1744, fls. 4-4v. 58 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Geraldo, 3 de dezembro de 1744, fl. 17. 59 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria Clara, 23 de setembro de 1755, fls. 138-138v. 60 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Constâncio, 17 de novembro de 1757, fl. 169v. 61 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Senhorinha, 21 de agosto de 1747, fl. 45. 62 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Antónia, 16 de setembro de 1754, fl. 124v.
37 trazia só uns farrapos* velhos. Os registos de Luísa132, Maria Josefa133 e de João134, indicam que foram embrulhados em trapos*. Embrulhar as crianças em cueiros ou panos, à volta dos quais se enrolavam fitas ou ataduras, constituía o procedimento normal em relação a todas as crianças de tenra idade. O enfaixamento constituiu prática corrente por toda a época medieval e moderna, até que o Iluminismo a tornou controversa, acusando-a de atrofiar o desenvolvimento das crianças. Os historiadores consideraram inicialmente um sinal de desafeto, e de indiferença perante as crianças, embora se comece hoje a acreditar que garantia o seu conforto e segurança, uma vez que, ao imobilizar as crianças, podia impedir, por exemplo, que se magoassem. Os médicos e as autoridades que lidaram com os expostos durante a segunda metade do século XVIII procuraram combatê-lo, mas o costume continuou vigente nas casas da roda (Lopes, 2002, p. 8, 11; Oliveira, 2007, p. 101, Sá, 2011, p. 80). Deste modo, a prática de embrulhar e enfaixar as crianças está implícita nos registos dos expostos de Braga. Mesmo que o enfaixamento não fosse mencionado diretamente, sabe-se que se trata de uma prática enraizada na sociedade da época, que por ser tão comum, não se considerava necessário referir. Em 1744, alguns expostos são referidos como vindo embrulhados: a 29 de janeiro, João135 foi exposto embrulhado em um saco de serapilheira* velha; a 27 de março, Maria136 embrulhada em um “cueiro preto velho e atada com um ourelo* de pano*”; a 14 de abril, Manuel137 num colete*; e, a 27 de setembro, João138 em uns trapalhões* pretos, e em outros brancos de estopa*. Qualquer peça ou tecido podia servir para embrulhar as crianças, como camisas, trapos, baetas, cueiros, branquetas*, rodilhas, aventais, toalhas*, baetões*, cobertores*, pedaços de saia* e mantas*. Para atar os embrulhos usavamse tecidos finos e longos como atilhos*, fitas* e ourelos. O tamanho e a qualidade dos enxovais era insuficiente para suprir as necessidades das crianças. Contudo, é possível detetar alguns expostos que trouxeram mais do que uma peça de vestuário do mesmo tipo, como por exemplo, Luísa139, que trouxe oito camisas, e António140 seis. Ainda assim, grande parte dos que trouxeram peças extras não ultrapassou duas ou três do mesmo tipo. Maria José Réis (2016) toca num ponto pertinente. À partida, um recém-nascido deveria possuir mais do que uma peça de modo a permitir lavar e secar a roupa, principalmente no inverno (Réis, 2016, pp. 143-144). A 132 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Luísa, 6 de janeiro de 1761, fl. 216. 133 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria Josefa, 29 de março de 1761, fl. 220v. 134 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto João, 23 de novembro de 1754, fl. 126v. 135 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto João,29 de janeiro de 1744, fl. 3v. 136 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria, 27 de março de 1744, fl. 7. 137 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Manuel, 14 de abril de 1744, fl. 7v. 138 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto João, 27 de setembro de 1744, fl. 14v. 139 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Luísa, 20 de março de 1753, fl. 106v. 140 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto António, 3 de novembro de 1761, fls. 228v-229.
38 presença de peças extras pode sugerir que a criança provinha de uma família com uma situação financeira mais desafogada do que as outras, ainda que igualmente pobre. Qual seria, então, a razão para o abandono destes meninos que, apesar de tudo, possuíam uma situação financeira melhor do que os outros que não traziam praticamente nada? Depois de passarem pelo processo de abandono, que já de si era debilitante, muitas crianças com pouco tempo de vida tinham ainda de lidar com os poucos agasalhos que possuíam. Relembra-se que a maior parte das crianças era abandonada nos meses de inverno. Sendo também grave quando o abandono ocorria durante a noite, quando as temperaturas desciam. Ainda, o abandono ocorria muitas vezes em espaços abertos, sem tetos ou paredes para proteger a criança de animais e de condições meteorológicas adversas. Importa ainda destacar alguns casos inéditos em que é mencionado o umbigo, o cordão umbilical, e a higiene do exposto. Antónia141 e Frutuoso142 foram abandonados na Roda ainda por lavar, e Francisco143 foi deixado à porta de um alfaiate com a “vide*” (cordão umbilical) por atar. Já a exposta Maria144, abandonada em 25 de outubro de 1745, pelo contrário, foi registada como vindo com “vide atada”. 1.1. O vestuário O uso de vestuário constitui uma necessidade básica do ser humano, protegendo das condições climáticas, dos olhares alheios, dos animais e da vegetação, além de pestes e doenças, devendo-se adaptar às circunstâncias e influência do meio. No entanto, o vestuário assume outras funções e significados, entre as quais as de ornamentar e veicular mensagens. Os alemães descreviam a roupa com schutz, scham e schmuck , ou seja, ela transmite proteção, modéstia e ornamento. Contudo, estas descrições alternam consoante o contexto em que estão inseridas (Ross, 2008, p. 6). Maria José Palla (1992, p. 29) afirma também que “O traje nunca é neutro; inscreve-se num sistema social que lhe determina a forma e o uso. […] O traje afirma e engana, esconde e revela, protege e descobre”. Dependendo do contexto, a indumentária pode informar sobre a idade, o género de quem a usa, o estado matrimonial, bem como o grupo social, riqueza e nível do seu portador (Poirier, 1999, pp. 56-60; Roche, 2000, p. 258; Sarti, 2001, p. 335). 141 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Antónia, 23 de setembro de 1746, fl. 35. 142 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Frutuoso, 16 de abril de 1745, fl. 23. 143 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Francisco, 30 de janeiro de 1748, fl. 49v. 144 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria, 25 de outubro de 1745, fls. 27v-28.
39 Na Idade Moderna, os pobres eram identificados rapidamente através da roupa, por andarem mal vestidos, com roupas esfarrapadas, revelando o lugar que ocupavam na hierarquia social. No caso dos expostos, a função do vestuário visava proteger e agasalhar. A função estética estava associada ao prestígio social e à riqueza, uma vez que, para os ricos, a roupa era um bem de luxo, que se revelava pela variedade e quantidade. O vestuário podia adquirir a função de signo, comunicando significados que precisavam ser descodificados. Os simbolismos podiam estar nos adornos ou na ornamentação, na posição em que determinada peça era colocada, nas cores, nos tecidos utilizados e nos feitios das peças (Poirier, 1999, pp. 74-77; Sarti, 2001, p. 344). Robert Ross (2008, p. 12) afirma “Since clothing is inescapably a demonstration of identity, wearing clothesor for that matter not doing sois inevitably a political act, in the widest possible sense of that word”. Não surpreende, por isso, que, pelo facto de a roupa transmitir informações sobre os indivíduos, tenha sido alvo de regulamentação por parte das autoridades. As regulamentações advinham da necessidade de estabelecer a roupa considerada moral, que permitisse distinguir as alianças políticas, e que mostrasse o lugar do portador na sociedade Ross (2008, pp. 1213). De seguida, serão tratados três pontos relativos à indumentária presente nos enxovais: o tipo de têxteis utilizado no vestuário, as cores, e, por último, a tipologia das peças. 1.1.1. Tipologias têxteis Os enxovais dos expostos analisados continham uma grande variedade de têxteis, que podiam estar presentes de três formas: fazendo parte da confeção do vestuário, surgindo em quantidade, e assumindo a função de cobrir as crianças. Os têxteis permitem compreender a situação financeira do portador, uma vez que a sua qualidade e quantidade está associada à sua capacidade financeira. As famílias abastadas conseguiam aceder com facilidade a tecidos novos, mais caros e com mais qualidade, proporcionadores de mais conforto. Já as famílias pobres, apenas tinham acesso a tecidos baratos e velhos, mais fracos e, por isso, mais desconfortáveis, que geralmente reutilizavam até ao limite. O conforto proporcionado pelos panos está relacionado com a aspereza e grossura dos fios. Os panos finos são mais confortáveis, enquanto os grossos, por serem mais espessos, são mais desconfortáveis, mas também, mais impermeáveis e estáveis a nível térmico (Ferreira, 2019b, pp. 81, 142). Os tecidos mais finos eram preferidos por serem mais suaves, no entanto menos acessíveis à maioria. No caso da lã, por exemplo, dependendo da raça da ovelha, a qualidade da matéria muda; as
40 ovelhas churras produzem lã grossa e as ovelhas merinas produzem uma lã fina, suave e resistente (Andrés-Gallego, 1993, pp. 48-51). As unidades de medida utilizadas nos registos para medir os panos e indicar quantidades foram a vara, equivalente a 1,10 metros (Figueiredo, 1996, vol. 2, p. 2572; Moraes & Bluteau,1789, vol. 2, p. 509) e o côvado, que equivale a 66 centímetros (Figueiredo, 1996, vol. 1, p. 725; Moraes & Bluteau, 1789, vol. 1, p. 343). É também possível encontrar peças medidas em dedos e em palmos; um palmo teria 22 centímetros, sendo que uma vara equivalia a cinco palmos e um côvado a três palmos (Barroca, 1992, pp. 54-55). O valor das peças e dos tecidos era apresentado em réis, como, por exemplo, “fitas vermelhas de cinco réis”145, “uma vara de nastro* de cinco réis a vara”146 e “uma vara de fita de seda azul branca de vinte e cinco réis”147. Todavia, a indicação do preço das peças ou tecidos não era comum. As principais tipologias têxteis que se destacam nos enxovais são as baetas, as branquetas, os baetões, os panos e os paninhos*. Os três primeiros referem-se a têxteis de fibra de lã, bastante utilizados, por exemplo, na confeção de cueiros. A baeta surge em 631 registos, o baetão em 211 e a branqueta em 300. Depois destes, os panos e paninhos foram os mais significativos em termos numéricos (601 registos). Relativamente aos panos, segundo Bluteau (1712-1728, vol. 6, pp. 224-225), podiam existir várias tipologias, consoante a largura e a terra de origem. Houveram tecidos de várias fibras destacando-se a lã, o linho*, e a seda. A descrição dos panos e paninhos não é muito detalhada, indicando-se, geralmente, apenas a cor e a quantidade trazida. O material do pano raramente é mencionado, salvo raras exceções, como as menções a panos de estopa, chita* e linho. Surgem também referências a panos feitos de lençol, toalha, touca*, entre outros. Esses panos podiam surgir de várias formas, desde panos a cobrir o corpo e a cabeça, a vestuário feito de pano (camisas, cueiros, ourelos). Considerando as principais tipologias de têxteis, baeta, branqueta, baetão, observa-se uma forte presença de fibras de lã, maioritariamente grossa. Esta fibra era usada em outras tipologias como, por exemplo, serafina*, saragoça*, estamenha*, serguilha* e burel*. A lã surge como a fibra mais utilizada na confeção de têxteis e indumentária dos expostos de Braga no período em análise. Algumas das características da lã são a “elasticidade, proteção contra o frio e o calor, resistência e facilidade de absorção dos tintes” (Cabanas, 2001, p. 87). A nível de espessura, destacaram-se os têxteis grossos como o burel, a estopa, a baeta e a saragoça. Além da lã, é possível encontrar várias referências a tecidos de linho como a estopa, holandilha* e cambraia*. 145 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Domingos, 17 de julho de 1744, fl. 10v. 146 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Mariana, 10 de fevereiro de 1745, fl. 20. 147 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto João António, 30 de maio de 1745, fl. 24.
41 A seda, mesmo sendo um material mais caro, associada a estratos sociais mais elevados, por ser fina e bastante confortável, surge várias vezes nos registos dos expostos. No entanto, surge associada maioritariamente a fitas, mas também a bolsas e manguitos*, a forrar baetas e em alguns casos em galões. É raro encontrar seda em peças maiores. Contudo, encontrou-se cueiros e coletes deste material, que não seria adequado à função das peças, uma vez que não é impermeável ou quente. Alguns tecidos presentes nos enxovais que originam da seda são crepe*, tafetá*, primavera*, cetim, damasco e veludo*, muito usados em tiras e bolsas. Além disso, o veludo foi usado para forrar outros tecidos, e em cueiros e tiras; já o crepe foi utilizado em cueiros, capotilhos* e faixas*; o tafetá foi usado para forrar e debruar*. Os tecidos considerados como sendo de luxo eram, então, usados maioritariamente em peças mais pequenas. Em expostos tão pobres não surpreende a ausência de peças de materiais mais caros. As opções pelos tecidos e adornos era fechada, não havendo muita escolha. Contudo, alguns tecidos como, por exemplo, a renda, que possui várias larguras e desenhos, e a sarja, que é um tecido entrançado, foram utilizados para guarnecer peças de vestuário, servindo como adorno. Alguns tecidos que surgiram de outras fibras foram o camelão*, inicialmente de pelo de camelo, mas substituído por pelo de cabra ou outros materiais, e o algodão, mencionado uma vez nos registos, nomeadamente no de uma menina abandonada “embrulhada em um chambre* de mulher velho e preto cheio de algodão”148. Como se pode observar em diversas definições de tecidos feitas por Bluteau (17121728), alguns têxteis podiam ser produzidos a partir de mais do que uma fibra, como, por exemplo, a droga* e a alcatifa*, feitas de seda ou de lã, e a sarja*, que podia ser de lã, seda ou algodão. Deste modo, não é possível determinar com exatidão certas fibras utilizadas. 1.1.2. As cores Nos enxovais dos expostos batizados na Sé de Braga existia uma vasta gama de cores. Estas não diferiam entre rapazes e raparigas e não estavam presentes em todos os registos. Nesta investigação, as cores dos enxovais foram contabilizadas pelo número de vezes que apareceram nos diferentes registos de expostos. Do mesmo modo que um registo poderia não referir cores, podia conter mais do que um objeto, têxtil ou vestuário da mesma cor. Além das cores, há referências ocasionais a padrões, estampados e motivos florais, como riscas e chita; e tecidos salpicados e pintados de determinada cor. Como se pode observar na Tabela 2, as principais cores presentes nos enxovais foram a branca, citada em 800 registos, a azul (657), a descrição “de cores” ou “de cor” (647), vermelho (520) e o preto 148 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Inês, 3 de Junho de 1745, fl. 24v.
42 (496). Em menor quantidade, encontramos o verde (221), a menção “escura” ou “escuro” (156), a cor parda (145), o amarelo (84) e o roxo (54). Os registos evidenciam a presença de cores escuras e claras. O amarelo, azul, branco, preto, roxo, vermelho e verde foram também as principais cores encontradas por Maria José Réis (2016, p. 148) no enxoval dos expostos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa entre 1790 e 1870. Já em Braga, a cor rosa não foi muito comum. Tabela 2 – Cores e tonalidades presentes nos enxovais dos expostos batizados na paróquia da Sé de Braga (1744-1763) Cores e tonalidades N.º Branco 800 Azul 657 “De cores”,” às cores” 647 Vermelho 520 Preto 496 Verde 221 “Escuro” 156 “Outras” 154 Pardo* 145 Amarelo 84 Roxo 54 Total 3934 Fonte: Arquivo Distrital de Braga, Fundo Paroquial da Sé de Braga, Registo de Batismos 1744-1771 . A categoria “outras”, presente na Tabela 2, engloba 154 cores ou formas de as descrever que surgiram nos registos de batismos, como cinza e cinzento, e algumas maneiras diferentes de referir cores comuns, como, por exemplo, rosado, rosa seco, amarelado, avermelhado e encarnado. Nos registos era comum indicar a cor através de outras designações como: “cor de enxofre”, “cor de esponja”, “cor de limão”, “cor de mel”, “cor de ouro”, “cor de telha”, “verde-mar”, “verde-gaio”, “cor de chumbo”, “cor de flor de pessegueiro”, “cor de lima”, “cor de fogo” “cor de loureiro”, “cor de mar”, “cor de pinhão” e “cor de vinho”. 1.1.3. Peças de vestuário A descrição do vestuário no registo dos expostos era bastante simples. Por norma, referiam-se as peças de roupa e a sua quantidade, sem muitos detalhes e sem registar os tecidos de que eram feitas. No entanto, alguns registos mencionam o estado de conservação, o material e a cor. A tipologia do
43 vestuário não variou muito, e as diferentes peças de roupa eram usadas por rapazes e raparigas indistintamente. A tipologia também não variou ao longo dos 20 anos observados. Um aspeto a ter em conta é que as peças de vestuário podiam adquirir funções diferentes do propósito para que foram feitas, sendo sobretudo usadas para embrulhar as crianças. Nos registos não há identificação do género atribuído à indumentária. Os únicos casos em que tal aconteceu referem-se a camisas, coletes, chambres, capotes* e capotilhos. Por exemplo, é possível encontrar referências a vestuário de homem em enxovais, como, por exemplo, “um colete azul de homem” no enxoval de Manuel149, e “um colete de linho velho de homem”, no de José150. Já ao vestuário feminino, encontram-se referências nos registos de Maria151, que trazia um “capotilho vermelho de mulher”, de Silvestre José152, que vinha embrulhado num capote de mulher, de Sebastiana que trazia um chambre de mulher e de Teresa153, que trazia “uma camisa de mulher velha”. No enxoval dos expostos destacam-se duas peças de indumentária: as camisas (1455 registos (72%)) e os cueiros, mencionados em 1247 (61%). A frequência destas duas peças foi significativa quando comparada com as demais. Em termos numéricos, a única peça que se encontra comparação é a liga, que aparece registada em 952 enxovais (47%). No entanto, importa referir que as ligas não são roupas, tão-só um complemento. De resto, todas as peças de vestuário aparecem em números relativamente baixos, o que comprova, uma vez mais, a extrema pobreza dos expostos. As camisas não foram descritas com detalhe, sendo referido apenas o estado de conservação. Uma camisa é, segundo Moraes e Bluteau (1789, vol. 1, p. 222), uma roupa de homem e mulher que se veste logo a seguir ao corpo por baixo de outras vestimentas. Em algumas situações refere-se que as camisas estavam “por fazer”, como, por exemplo, no registo de um menino chamado Bento, que trouxe “três camisas por fazer de pano de linho velho”154; de uma menina, Maria Teresa de Jesus155, que trouxe “quatro camisas velhas, duas por fazer e duas feitas”, e de um menino chamado Manuel156, que trouxe três camisas, uma delas por acabar. Narciso José157 e António158 traziam camisas de homem. A ausência de camisa podia ser registada, como no caso de Luís Guilherme159 e Jerónimo160. 149 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Manuel, 14 de abril de 1744, fl. 7v. 150 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto José, 27 de maio de 1757, fl. 163. 151 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria, 25 de novembro de 1744, fl. 16v. 152 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Silvestre José, 9 de fevereiro de 1745, fl. 20. 153 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Teresa, 22 de julho de 1753, fl. 111. 154 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Bento, 7 de abril de 1750, fl. 72. 155 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria Teresa de Jesus, 14 de março de 1751, fl. 81v. 156 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Manuel, 7 de janeiro de 1746, fl. 28v. 157 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Narciso José, 14 de outubro de 1747, fl. 46. 158 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto António, 26 de novembro de 1757, fl. 170. 159 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Luís Guilherme, 28 de agosto de 1746, fl. 34v. 160 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Jerónimo, 5 de setembro de 1746, fl. 34v.
44 É possível observar que algumas camisas traziam fitas, como a de Custódio161, que tinha “fitas de seda pretas no pescoço”, e a de Maria Geraldes162 que tinha “fitas nas mãos e no pescoço velhas”. Outras camisas eram rendadas como a de António José163, que tinha “sua renda ao pescoço”, e até nastros, como as do menino António164, que trazia duas camisas com nastros vermelhos. Por vezes são mencionados os punhos: um enxoval tinha “duas camisas uma com renda que trazia fita de cores nos colarinhos das mãos”165, outro tinha “punhos bordados velhos”166 e ainda outro “punhos com faixa preta”167. Os cueiros são panos de envolver as crianças de colo, principalmente as nádegas, sendo uma espécie de fralda na época (Moraes & Bluteau, 1789, vol. 1, p. 353; Figueiredo, 1996, vol. 1, p. 747). Qualquer tecido podia ser usado na sua confeção, por isso, encontram-se em praticamente todas as tipologias de tecidos mencionados. Muitos eram feitos de peças de roupa, como de “metade de um capote”168, de “um cobertor”169, de “uma saia roxa velha”170, “de alcatifa”171, de “cobertor ou manta velho”172, ou de um “capotilho velho”173. Isabel Drumond Braga (2011, p. 236) também detetou o predomínio de camisas e cueiros nos expostos da Casa da Roda da Misericórdia de Lisboa (1780-1807). Também Maria Antónia Lopes (2000, p. 300) notou a forte presença destas peças nos expostos de Coimbra. Outras peças de vestuário presentes nos enxovais, mas sem grande impacto, foram, por exemplo, os manguitos, ou seja, mangas de pele ou até meia manga para aquecer as mãos, vestidas por cima da camisas, ou para não sujar os punhos da camisa (Moraes, 1813, vol. 2, p. 260). Nos expostos, os manguitos serviriam para aquecer as crianças do frio; há referência a manguitos forrados e de várias fibras, lã, seda e linho. De acordo com Maria Antónia Lopes (2000, p. 300), os “[…] manguitos permitiam mudar o bebé sem ter que o despir totalmente, retirando apenas as peças que mais se sujavam […]”. Nos nossos registos, os manguitos apareceram sobretudo em crianças abandonadas nos meses de inverno e de primavera, quando as temperaturas eram mais baixas. Ainda assim, é possível encontrar de forma esporádica referências a manguitos em crianças abandonadas nos meses de verão. 161 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Custódio, 30 de setembro de 1745, fl. 27. 162 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria Geraldes, 27 de março de 1748, fl. 51v. 163 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto António José, 19 de junho de 1745, fl. 24v. 164 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Antónia Maria, 6 de novembro de 1757, fl. 169. 165 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Rosa Maria, 19 de março de 1748, fl. 51. 166 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Antónia Maria, 6 de novembro de 1757, fl. 169. 167 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto João, 9 de maio de 1757, fl. 162v. 168 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Pedro, 18 de outubro de 1744, fl. 15. 169 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Paulo Bernardo, 20 de novembro de 1745, fl. 28. 170 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto João, 23 de abril de 1762, fl. 238v. 171 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Constância, 11 de novembro de 1758, fl. 184v. 172 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Joana, 25 de fevereiro de 1755, fl. 131. 173 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Félix, 2 de outubro de 1755, fls.138v-139.
45 Uma vez que estamos perante enxovais pobres e velhos, a presença de trapos e fragmentos de roupas é constante. Trapalhões, panetes* e farrapos eram usados para cobrir os expostos, assim como toalhas, cobertores, mantas e lençóis. Os trapos correspondiam à última etapa de degradação dos tecidos a partir da qual não era possível reutilizá-los. A presença de peças de tecidos estreitos e compridos para atar e ligar a indumentária foi constante em todos os registos. Estas peças podiam servir para ligar os panos, tecidos e peças de roupa à volta dos expostos ou do vestuário, sendo descritas como “atado com”. Como se referiu, a forte presença destas peças deve-se ao facto de serem fundamentais para enfaixamento dos expostos, isto é, para atar os cueiros ao redor dos expostos Algumas das peças usadas com essa finalidade foram ligas, tiras*, fitas, faixas, ataduras*, franjas*, cingidouros*, ourelos, nastros e atilhos, podendo ter diversas cores e ser de inúmeros materiais. Das peças mais frequentes nos enxovais, seja para atar, ou para outra função, foram as ligas, que surgiram, como já foi referido, em 47% dos registos de expostos, sendo que os ourelos apareceram em 492 crianças (24%), os cingidouros em 303 (15%), e as fitas e fitinhas em 204 (10%). Estes números poderão ter sido superiores, já que muitas ataduras podem não ter sido registadas ou passado despercebidas. Estas peças eram, por vezes, acompanhadas da descrição do feitio, sobretudo no que toca à sua largura, como, por exemplo, um “ourelo de pano de cores largo”174, uma “vara de liga* larga”175, uma “fita larga de seda branca velha”176, uma “faixa de chita larga”177. Também se eram estreitos, como um “ourelo estreito”178, “duas camisas com suas fitas estreitas”179, e uma “liga vermelha estreita”180. Referiase também a sua espessura, como “um ourelo de pano fino”181, “uma faixa grossa vermelha”182. Além da função prática, podiam adquirir uma função estética, e a de diferenciar os expostos. Maria José Réis (2016, pp. 147-148) refere o uso deste tipo de material para proteger o umbigo, embora não se encontrem no caso de Braga. Os expostos, por vezes, traziam peças de vestuário para cobrir a cabeça. São descritas em duas variedades: peças fabricadas para exercer essa função como as toucas, os toucados*, as coifas*, as escofias*, os lenços e os lencinhos. E peças e tecidos colocados na cabeça de forma improvisada, como camisas, panos e panetes. As peças de cabeça eram importantes porque protegiam e aqueciam o crânio 174 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Francisca, 17 de setembro de 1744, fl. 14. 175 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Luísa, 21 de julho de 1747, fl. 44. 176 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Teresa Maria, 26 de agosto de 1753, fl. 112. 177 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Guiomar Gertrudes de Santo António, 3 de março de 1761, fl. 219. 178 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Jerónimo, 27 de maio de 1745, fl. 24. 179 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Jerónimo, 14 de abril de 1745, fls. 22v-23. 180 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Luís Manuel, 14 de março de 1747, fl. 40. 181 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Anacleto, 18 de maio de 1746, fl. 32v. 182 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Luísa, 20 de Dezembro de 1746, fl. 37v.
46 frágil das crianças. Porém, as referências a essas peças de cobrir a cabeça não chegam aos 10% do número total de expostos, o que dá conta, uma vez mais, da extrema pobreza dos seus abandonadores. As peças interiores, encostadas à pele, acabavam por ser as mais numerosas. Também em menor número se encontram algumas peças consideradas exteriores, para serem usadas por cima de outras roupas, como os capotes, capotinhos, capotilhos, mantos, mantéus*, saias, mantéus, chambres, coletes e aventais. Apesar de habitualmente ser utilizadas por cima da roupa interior, na maioria das vezes serviam para cobrir as crianças, pelo que, uma vez mais, o seu uso não coincidia com a sua função inicial. Algumas peças de roupa surgiram partidas em metades, “uma metade de um capote de baeta preta velho”183, e partidos, “uma touca partida em duas”184, “um capote verde de mulher partido em duas metades”185 e “um capotilho preto partido em duas metades”186. Alguns exemplos de peças que sugiram apenas uma única vez foram um “escapulário do Carmo”187, um “véu preto pela cara”188 e “dois babeiros* de linho”189. Outras peças eram debruadas e guarnecidas com rendas, fitas e nastros. Os detalhes das peças são escassos e, como tal, não avançam com muitas informações sobre a parte estética da roupa. No entanto, as fitas são um acessório muito versátil, que serviam para atar a indumentária, mas também assumiam a função de adorno. Elas surgiram principalmente em camisas e eram de diversas cores e têxteis (seda, nastro, tafetá, etc.), contudo a menção a este último era rara. Importa mencionar a presença das bolsas, referidas em 98 enxovais; elas podiam ser feitas de vários têxteis, entre eles, seda, primavera, veludo, damasco, pano, estopa e cetim. As bolsas eram geralmente usadas para conter objetos, como os sinais de expostos, que abordaremos em seguida. 2. Os sinais dos expostos Os sinais dos expostos representavam um elo de ligação entre a criança e a família, servindo para ajudar a identificar o exposto ou para comprovar a sua pertença a uma família. Por vezes, os sinais constituem também uma manifestação de perda e de sofrimento (Sá, 2001, p. 9; Fonte, 2004, p. 289; Fonte, 2012, p. 247). Se o sinal não fosse utilizado para a recuperação da criança, adquiria o estatuto de recordação, sendo guardado para prolongar a memória da existência das crianças (Sá, 2001, p. 9). 183 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Paula, 26 de janeiro de 1745, fl. 19v. 184 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Gregória Maria, 12 de março de 1747, fl. 40. 185 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Jerónima, 22 de outubro de 1745, fl. 27v. 186 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Úrsula, 30 de maio de 1747, fl. 43. 187 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria Josefa, 19 de janeiro de 1754, fl. 117. 188 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria, 13 de setembro de 1744, fl. 13-13v. 189 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto António, 15 de fevereiro de 1748, fl. 50.
53 1760 foi o que registou o maior número de crianças com informações, alcançando os 60%. A média dos expostos com mensagens foi de 30 por ano. Estes bilhetes eram quase todos simples com uma ou duas informações. Tabela 3 – Expostos batizados com mensagens (1744-1763) Ano N.º de expostos batizados N.º de expostos com mensagens % de número de expostos com mensagens 1744 96 33 34 1745 99 41 40 1746 88 30 34 1747 92 42 45 1748 97 51 53 1749 80 30 38 1750 70 34 49 1751 83 38 46 1752 109 42 39 1753 94 40 43 1754 84 36 43 1755 101 38 38 1756 101 43 43 1757 112 48 43 1758 114 69 61 1759 100 48 48 1760 122 73 60 1761 120 47 39 1762 133 58 44 1763 138 72 52 Total 2033 913 45 Fonte: Arquivo Distrital de Braga, Fundo Paroquial da Sé de Braga, Registo de Batismos 1744-1771 . Ao analisar a quantidade de bilhetes que acompanhavam os expostos (Tabela 4), conclui-se que mesmo que os rapazes trouxessem mais mensagens, a diferença não é conclusiva, uma vez que também foram abandonados mais meninos do que meninas. No total, ao longo dos 20 anos aqui analisados, 431 meninas traziam escritos (47%), enquanto 482 meninos (57%) os traziam.
54 Tabela 4 - Mensagens dos expostos batizados na paróquia da Sé de Braga por sexo (1744-1763) Ano Raparigas Rapazes 1744 17 16 1745 22 19 1746 15 15 1747 22 20 1748 18 33 1749 14 16 1750 15 19 1751 14 24 1752 22 20 1753 19 21 1754 18 18 1755 16 22 1756 23 20 1757 20 28 1758 30 39 1759 24 24 1760 40 33 1761 19 28 1762 31 27 1763 32 40 Total 431 482 Fonte: Arquivo Distrital de Braga, Fundo Paroquial da Sé de Braga, Registo de Batismos 1744-1771 . Os registos de batismos de expostos focam apenas o conteúdo dos bilhetes e não os descrevem quanto ao material ou morfologia, o tipo de letra ou a caligrafia. No entanto, existiram exceções, como, por exemplo, no registo de dois rapazes, João José277, exposto a 27 de junho de 1744, e Manuel278, exposto a 17 de abril de 1758, que traziam escritos em verso. No registo de Manuel Simão279, abandonado a 29 de abril de 1760, foi dito que trazia uma carta, e não “bilhete” ou “escrito” como era costume. O mesmo no caso de João280, deixado a 2 de março de 1760, que trouxe “um papel” com um nome. Dois casos únicos foram os do menino António José281, cujo registo mencionava que o escrito estava fechado, e de José António282, o único exposto com dois bilhetes, um que dizia “fora batizado na freguesia do Salvador de Briteiros” e o outro “que tivessem conta dele”. Fizeram-se ainda duas 277 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto João José, 27 de junho de 1744, fls. 9v-10. 278 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Manuel, 17 de abril de 1758, fl. 175. 279 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Manuel Simão, 29 de abril de 1760, fl. 206v 280 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto João, 2 de março de 1760, fl. 203. 281 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto António José, 6 de julho de 1763, fl. 261v. 282 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto José António, 26 de julho de 1763, fl. 262.
55 referências ao tipo de letra em que estava escrito o bilhete; em 1745, “um escrito de letra redonda Santa Isabel Rainha de Portugal”283 e, dois anos depois, um “escrito com letra redonda”284. Estes bilhetes podiam aparecer presos ou cosidos em tecido e peças de vestuário ou ser colocados dentro de algo. A maioria dos registos não refere onde vinham os escritos, embora o de Tomásia285 estivesse “pegado nos ditos manguitos com alfinetes”, o de Violante Angélica286 preso em uma fita do manto, o de Jerónima287 que trouxe uma “fita estreita no pescoço e nela o escrito”, e o de Antónia Josefa288 cujo bilhete vinha atado a um braço. O conteúdo das mensagens dos expostos foi sistematizado na Tabela 5, que elimina mensagens de conteúdo esporádico. O nome foi a informação mais comum: 791 expostos traziam assinalado o nome pretendido, seguido pelas informações relativas ao batismo. Duas outras informações transmitidas foram a idade das crianças e o nome dos padrinhos pretendidos. De todos os escritos, apenas os que acompanhavam Simão289 e Ricardo290 não tiveram o conteúdo revelado no registo de batismo, sendo apenas referido que possuíam um bilhete. O conteúdo dos bilhetes encontra semelhanças com outros estudos para Lisboa. Maria José Réis (2016, p. 82) afirma que “É surpreendente como os mesmos valores, atitudes e preocupações são comuns e percorrem estes documentos independentemente da sua origem geográfica e cronológica”. Tabela 5 - Pedidos e informações mais relevantes que acompanhavam os expostos batizados na paróquia da Sé de Braga (1744-1763) Fonte: Arquivo Distrital de Braga, Fundo Paroquial da Sé de Braga, Registo de Batismos 1744-1771 . 283 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Sebastiana, 19 de janeiro de 1745, fl. 19. 284 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Bernardino, 7 de junho de 1757, fl. 163. 285 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Tomásia, 10 de março de 1745, fl. 21v. 286 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Violante Angélica, 17 de julho de 1745, fl. 25. 287 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Jerónima, 20 de setembro de 1748, fl. 57. 288 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Antónia Josefa, 2 de julho de 1752, fl. 98. 289 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Simão, 20 de abril de 1756, fl. 146v. 290 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Ricardo José de Amorim, 12 de junho de 1744, fl. 9. Pedidos e informações Nº Nome 792 Batizado 257 Enxoprado 118 Padrinhos 106 Por batizar 75 Idade/data de nascimento 29 Total 1377
56 A Tabela 6 revela que não havia diferença relevante entre as mensagens trazidas por rapazes e raparigas. As diferenças que se observam aparentam ser aleatórias e sem grande significado. Das 1395 mensagens 654 pertenciam a meninas e 721 a meninos. Apesar dos rapazes virem acompanhados de mais mensagens, a diferença não é suficiente para o sexo ser tido como fator de influência. Tabela 6 - Pedidos e informações mais relevantes que acompanhavam os expostos na paróquia da Sé de Braga por sexo Pedidos e informações Raparigas Rapazes Nome 372 420 Batizado 117 140 Enxoprado 65 53 Padrinhos 55 51 Por batizar 35 40 Idade/data de nascimento 12 17 Total 656 721 Fonte: Arquivo Distrital de Braga, Fundo Paroquial da Sé de Braga, Registo de Batismos 1744-1771 . As mensagens, além de conterem informações e pedidos, podiam incluir promessas de uma futura recuperação, como as de Pedro António291, em que se afirmava que “dentro de um mês se havia de pedir conta”, de Félix António292 e de António Luís293, que haviam de ser procurados um ano depois. Em outros casos, a promessa de recuperação vinha acompanhada pelo pedido de que lhes fosse proporcionada uma boa criação. Temos o exemplo de Francisco José da Conceição294, cujo escrito dizia que “Se havia de procurar, dando-lhe a ama boa criação, e se lhe havia de pagar de todo o trabalho”, e Polidónio José295, que dizia “Estime-se, que é de boa gente, e se há de procurar a seu tempo”. Um menino chamado Caetano296, em 1755, foi o único registado como tendo trazido “um escrito de recomendação”. A dificuldade nas promessas está em saber se seriam verdadeiras, ou seja, se existia mesmo a intenção de as cumprir. Caso o objetivo fosse recuperar a criança, surgia o problema da alta taxa de mortalidade. Como fizemos notar, muitas crianças não sobreviviam tempo suficiente para serem recuperadas e a promessa constituía antes uma forma de desculpabilizar os pais pelo abandono (Réis, 291 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Pedro António, 20 de janeiro de 1755, fls. 129-129v. 292 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Félix António, 12 de outubro de 1757, fls. 167v-168. 293 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto António Luís, 12 de junho de 1758, fl. 178v. 294 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Francisco José da Conceição, 9 de janeiro de 1744, fl. 3. 295 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Polidónio José, 5 de julho de 1746, fl. 33. 296 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Caetano, 12 de abril de 1755, fl. 132v.
57 2006, p. 83). Apesar de não se saber nada sobre o passado dos expostos, existem registos como o de Manuel José297, datado 1744, que dizia que foi a mãe que pediu o nome; o de Gregória298, em 1755, que revelava que “tinha[m] os seus pais gosto se lhe pusessem o nome declarado”; e o de Félix António299, em 1756, que informava que o nome foi pedido pelo pai para “se procurar”. 2.3.1. O nome A indicação do nome a colocar à criança foi a principal preocupação de todas as mensagens, o que não é de estranhar. Maria José Réis (2016. p. 136) concluiu o mesmo para os expostos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Dar um nome era, tal como hoje, uma maneira de individualizar a criança no meio de tantas outras e, para além de facilitar uma possível recuperação, permitia conservar uma ligação à família, ainda que ténue. Os nomes, apesar de constituírem um dado importante para a futura recuperação dos expostos, estavam sujeitos à aprovação dos responsáveis da instituição, de modo que não foram sempre aceites, como o de Rosa Teresa300, por não se compreender bem o nome, ou o de Catarina Custódia301, que “trazia um escrito que se chamasse Páscoa Custódia, o que se não fez por não ser Páscoa nome de santo”. Também Maria302, que “trazia um escrito que lhe pusesse o nome de Clemência Maria e se lhe não pôs o de Clemência, mas sim o de Maria”. Alguns nomes de crianças, como Lizardo e Erbelinha303, não foram aprovados por não constarem no Martirológio304. Tal como já se referiu, alguns escritos foram produzidos antes do nascimento, de modo que, em alguns escritos, os abandonadores indicavam possíveis nomes para os expostos, um para caso fosse rapariga, outro caso fosse rapaz. 2.3.2. O batismo O sacramento do batismo era considerado essencial para as crianças, e por isso, não é de estranhar que constitua uma das informações predominantes nos bilhetes. As famílias preocupavam-se em deixar claro três situações: informar caso a criança já estivesse batizada, referir um batismo de 297 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Manuel José, 31 de julho de 1744, fl. 11v. 298 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Gregória, 13 de maio de 1755, fls. 134-134v. 299 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Félix António, 23 de novembro de 1756, fl. 154v. 300 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Rosa Teresa, 7 de fevereiro de 1760, fl. 202. 301 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Catarina Custódia, 29 de março de 1750, fl. 71v. 302 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria, 16 de setembro de 1745, fl. 26v. 303 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, expostos Ricardo, 2 de outubro de 1749, fls. 67-67v; Alexandre José, 13 de março de 1750, fl. 71; e exposta Rosa, 6 de maio de 1757, fl. 162v. 304 O livro que contém a história dos mártires e a narração dos seus tormentos (Moraes & Bluteau, 1789, vol. 2, p. 61).
58 emergência, e, por fim, declarar que ainda não tinha recebido o sacramento. No total, foram registados 450 pedidos e informações relacionados com o batismo, sendo que 257 expostos vinham com escritos que afirmavam já terem recebido o sacramento, 118 de que foram batizados de emergência (enxoprados) e 75 com pedidos para que fossem batizados. O ano de 1760 foi o que apesentou mais mensagens relativas ao batismo, com um total de 46 em 73 expostos, e 1747 o ano que registou os quantitativos mais baixos (4). Fonte: Arquivo Distrital de Braga, Fundo Paroquial da Sé de Braga, Registo de Batismos 1744-1771 . Relativamente aos expostos que já tinham recebido o batismo solene, foram deixadas informações mais complexas em casos esporádicos. Duas irmãs, Maria e Teresa305 indicavam terem recebido o batismo pelo pároco da freguesia onde nasceram, sem declarar o local. Também António José306, em 1758, não referia com precisão o local, dizendo apenas, “batizado em certa igreja matriz”. Uma outra menina, com o nome de Ana Maria307, exposta em 1762, “trouxe um escrito do reverendo vigário de Gondizalves, que foi o que a batizou”, fornecendo assim informação mais detalhada. Em determinados registos de batismo era indicada a data em que foi administrado, como, por exemplo, Pedro José do Desterro308, exposto a 25 de janeiro de 1749, foi “batizado a seis de novembro 305 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria e Teresa, 12 de novembro de 1746, fl. 37. 306 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto António José, 22 de maio de 1758, fls. 177v-178. 307 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Ana Maria, 1 de setembro de 1762, fl. 244v. 308 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Pedro José do Desterro, 25 de janeiro de 1749, fl. 61. Gráfico 5 – Distribuição anual da Informações dos escritos sobre o batismo (1744-1763) 0 10 20 30 40 50 N.º de informações Anos Com batismo Enxoprados Por batizar
59 de 1748”; Carlos309, abandonado a 1 de novembro de 1748, foi “batizado no mês de setembro”; e Inácio310, exposto a 8 de janeiro de 1752, foi “batizado em os 25 dias de dezembro de 1751”. Esta informação permite-nos ter indicações mais seguras sobre a idade das crianças. Pedro José do Desterro teria de ter pelo menos dois meses de idade quando foi abandonado; já Inácio seria mais pequeno, com apenas alguns dias de diferença entre o batismo e a exposição. Em alguns escritos, por exemplo, afirmava-se que a criança “vinha batizada com todos os sacramentos”311, e fazia-se referência aos “santos óleos” e à “água”. Por exemplo, “trazia água, mas não os santos óleos”312, “falta os santos óleos”313, ou “apenas traz água”314. Certos escritos mencionavam o batismo de emergência, e entre eles existiu quem especificasse: Francisco315 “trazia um escrito que dizia, vinha enxoprado por mão de mulher”; Manuel José316 “vinha batizado por mão de mulher”; Guiomar Gertrudes de Santo António317 fora “batizada pela parteira”, e Antónia318 “vinha enxoprada por mão de mulher com as palavras”. 2.3.3. Os padrinhos Em 106 mensagens indica-se o padrinho, madrinha ou ambos que pretendiam dar à criança exposta. A mensagem de Maria Manuela de Jesus319 foi a única a referir que apenas se queria para padrinho um homem de bem, sem indicar uma pessoa em concreto. Este tipo de pedido foi por norma o mais recusado de todos, por razões nem sempre referidas. Entre os principais motivos para a recusa contam-se a não comparência da pessoa indicada, o facto de não ter sido localizada, a impossibilidade de esta comparecer ou o facto de não ser permitido que aquela pessoa apadrinhasse o exposto. O padrinho solicitado para Anacleto320 não foi concretizado, porque a pessoa indicada, “o filho de José de Oliveira”, não possuía a idade necessária. Alguns padrinhos não foram encontrados, como a madrinha pedida para Rosa321 e o padrinho de Luísa Maria322 que “se não achou”. Em outros casos, os 309 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Carlos, 1 de novembro de 1748, fl. 58. 310 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Inácio, 8 de janeiro de 1752, fl. 90v. 311 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto José Manuel, 11 de junho de 1761, fls. 223-223v. 312 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Francisca Clara, 26 de maio de 1744, fl. 8v. 313 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Florinda Maria, 28 de abril de 1745, fl. 23v. 314 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Domingos José, 4 de novembro de 1759, fl. 198. 315 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Francisco, 3 de janeiro de 1745, fl. 18. 316 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Manuel José, 24 de outubro de 1754, fls. 125-125v 317 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Guiomar Gertrudes de Santo António, 3 de março de 1761, fl. 219. 318 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Antónia, 26 de julho de 1762, fl. 241. 319 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria Manuela de Jesus, 13 de Fevereiro de 1754, fls. 118-118v. 320 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Anacleto, 1 de dezembro de 1748, fl. 59. 321 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Rosa, 24 de dezembro de 1752, fl. 103v. 322 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Luísa Maria, 20 de abril de 1761, fl. 221.
60 padrinhos não apareciam, como foi o caso do exposto João323, que possuía um escrito para “que fosse padrinho Pedro de Afonseca, que não apareceu”; o de Maria Teresa de Jesus324, que o escrito pedia “fosse padrinho João Ferreira que não apareceu”; e de Bernardo325, que solicitava “fosse padrinho o reverendo cónego Alexandre Carlos […] o qual não apareceu”. Existiram casos como o do exposto chamado João326, em que o padrinho solicitado se recusou a assumir esse papel. A exposta Antónia Bernarda327, abandonada em 1757, constituiu caso raro uma vez que se justificava a ausência do padrinho, “que não foi por estar ausente”. Já a mensagem de José António328, pedia que fosse padrinho João Manuel filho de António Carlos, o qual não compareceu, e para madrinha Guiomar Teresa, assistente na Roda, que esteve presente. Contudo, havia pedidos aceites, como o da exposta Teresa Maria329, cujo escrito pedia que fossem padrinhos Pedro Pereira da Silva e sua filha, Teresa Maria, ambos da rua dos Açougues Velhos da freguesia da Sé. E do exposto António330, que trazia um escrito que pedia que “fossem padrinhos os sobreditos”, nesse caso o Reverendo António Barbosa da Cunha, capelão-mor da Misericórdia, e sua filha solteira, Brígida, moradores atrás dos Açougues da cidade. Os pedidos para que Nossa Senhora fosse a madrinha eram recorrentes, podendo surgir escritos que apenas pediam Nossa Senhora, enquanto outros especificavam a Nossa Senhora pretendida, como Nossa Senhora da Piedade, Nossa Senhora da Torre, Nossa Senhora da Lapa, Nossa Senhora-a-Branca, Nossa Senhora da Boa Memória, Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora do Desterro dos claustros, e “fosse madrinha a coroa de Nossa Senhora do Presépio de São Tiago”331. Eram também pedidos outros santos, como Santo António332, Santa Rita do Pópulo333, Santa Rosa334, São José335 e Santa Ana336. No entanto, algumas crianças foram batizadas por devoção a Nossa Senhora, como o exposto João337, que foi batizado por devoção a Nossa Senhora do Rosário da Sé, e os expostos José e Maria338, que foram batizados no mesmo dia por devoção a Nossa Senhora. Estes pedidos, obviamente impossíveis de 323 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto João, 2 de janeiro de 1749, fl. 60v. 324 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria Teresa de Jesus, 29 de agosto de 1761, fl. 226. 325 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Bernardo, 23 de julho de 1749, fl. 64v. 326 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto João, 29 de março de 1752, fl. 93v. 327 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Antónia Bernarda, 15 de setembro de 1757, fl. 166. 328 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto José António, 19 de setembro de 1761, fl. 227. 329 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Teresa Maria, 25 de novembro de 1747, fl. 47. 330 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto António, 30 de novembro de 1748, fl. 59. 331 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Hilário José, 13 de maio de 1748, fls. 53v-54; exposto José Joaquim, 3 de abril de 1757, fl. 160v; exposta Antónia Maria, 6 de novembro de 1757, fl. 169; exposto José Narciso, 23 de maio de 1758, fls. 177v-178; exposto José Manuel, 10 de maio de 1763, fl. 259; exposta Inácia Antónia, 29 de julho de 1756, fls. 151v-152; exposto Bernardo, 23 de julho de 1749, fl. 64v; exposta Maria, 31 de julho de 1760, fl. 210; exposta Ana Joaquina, 19 de janeiro de 1750, fl. 70. 332 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto António, 21 de dezembro de 1750, fl. 79. 333 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Rita Maria, 10 de julho de 1756, fl. 150v. 334 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Joaquina Rosa, 28 de setembro de 1757, fl. 167. 335 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Maria, 31 de julho de 1760, fl. 210. 336 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto José Narciso, 24 de julho de 1760, fls. 209v-210. 337 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto João, 24 de novembro de 1749, fl. 68. 338 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, expostos José e Maria, 29 de agosto de 1758, fl. 182.
61 concretizar, revelavam que invocar a proteção de santos substituía os padrinho em carne e osso, e faz pensar que os abandonadores eram demasiado pobres para constituir redes de solidariedade dentro das comunidades a que pertenciam. O exposto Manuel José339 trazia consigo um bilhete a solicitar que o padre cura Manuel de Almeida fosse seu padrinho, o que veio a acontecer. São ainda de destacar outros exemplos, os pedidos para padrinhos do Reverendo Padre Manuel de Matos340; o Reverendo vigário da Sé Inácio Palhares341 e “fosse o padre sacristão da Sé, António Maria da rua do Paço342. Na ausência de recomendações, por norma, os padrinhos eram o padre ou alguém ligado à Roda, como o pai dos enjeitados, e a mulher deste. Alguns padrinhos de expostos estavam conectados com a Roda. É possível encontrar registos em que a filha, a mãe e a irmã do pai dos enjeitados Jerónimo Gomes foram madrinhas, assim como a sobrinha e a criada de Geraldo Araújo. Alguns padrinhos repetem-se, mas sem se registar qualquer conexão à Roda. Acontecia, por vezes, que o padrinho ou madrinha fosse alguém associado ao local de abandono. O exposto Pedro José343 teve como madrinha a mulher do homem identificado como morador na porta onde foi abandonado, e a madrinha de Ana Teresa344 foi a dona da porta onde foi abandonada. Outros padrinhos surgem de forma isolada, batizando apenas um ou até dois expostos, não voltando a surgir nos registos. Importa notar que, geralmente, a pessoa que apadrinhava um exposto costumava apadrinhar todos os batizados no mesmo dia. É de supor que os pais que recomendavam os padrinhos os conheciam direta ou indiretamente. Podiam ter essas pessoas em consideração ou acharem que podiam ajudar as crianças. A repetição de padrinhos e o baixo estatuto social deste revela, uma vez mais, a pertença destas crianças a grupos desfavorecidos. 2.3.4. A idade e data de nascimento Nos anos analisados foram abandonadas 29 crianças com a informação sobre a idade. É possível encontrar registos de batismo com referência a recém-nascidos, dois rapazes, José345, a 17 de setembro de 1756 e Manuel346, a 1 de outubro de 1760, que traziam escritos com a informação de que “nascera 339 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Manuel José, 9 de fevereiro de 1748, fl. 49v. 340 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto José, 21 de agosto de 1751, fl. 87. 341 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Manuel, 15 de maio de 1754, fl. 121. 342 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto José Luís, 18 de fevereiro de 1756, fl. 144. 343 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Pedro José, 5 de novembro de 1748, fl. 58v. 344 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Ana Teresa, 13 de abril de 1752, fl. 94. 345 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Manuel José, 17 de setembro de 1756, fl. 153v. 346 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Manuel, 1 de outubro de 1760, fl. 212.
62 no mesmo dia”. Também Pedro347, em 1744, vinha com a informação de que “nascera no dito dia acima”, ou seja, no dia do seu abandono. O abandono feito logo após o parto não dava tempo para muitos cuidados. Encontram-se também abandonos em idade mais avançada: “tinha de idade seis meses”348; “três meses”349; “tinha de idade um ano”350; “tinha cinco meses”351. Um dos registos além de informar a idade, também mencionava o dia de nascimento, “a quinze deste mês fizera dois meses”352. Tal como este último, muitos expostos eram abandonados com data de nascimento, como se pode verificar nas seguintes crianças: Paulo José353 “nasceu em 25 do dito mês”; António354 “nascera aos onze deste mês, a segunda-feira”; Flávia Quitéria355 “nascera a doze dias deste mês”; Baltazar356 “nascera aos 14 dias de fevereiro”; Juliana Maria357 “nasceu no primeiro de março”, e Teresa358 “nascera em os quinze deste mês”. Em alguns casos era utilizado o santo ou mártir festejado no dia para indicar o dia em que o exposto nasceu. Sebastião359, abandonado no dia 20 de janeiro de 1745, trazia um escrito que dizia “nasceu em dia de São Sebastião”, João José360, exposto a 6 de abril de 1757, “nascera em Dia de São José”, e, alguns anos mais tarde, em 1763, Custódia361 trazia a informação que “nascera em vinte e cinco de março, dia da Senhora da Graça”. 2.3.5. Outras mensagens A informação sobre o estado de saúde apareceu várias vezes ao longo dos anos, mas é importante ressaltar casos como o de Jerónimo362, abandonado a 6 de setembro de 1747, cujo escrito afirmava que “vinha com pouca saúde”. No que toca à saúde das crianças, a alimentação constituía uma preocupação, o que levou a que duas meninas, Antónia Maria363 e Antónia Teresa364, trouxessem a 347 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Pedro, 18 de outubro de 1744, fl. 15. 348 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Leonarda Maria, 21 de maio de 1744, fls. 8-8v. 349 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Silvestre José, 9 de fevereiro de 1745, fl. 20. 350 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Ana Teresa Romaria, 13 de outubro de 1746, fl. 35v. 351 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Pedro, 24 de junho de 1763, fl. 261. 352 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Antónia Josefa, 16 de setembro de 1755, fl. 138. 353 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Paulo José, 25 de janeiro de 1745, fl. 19v 354 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto António, 12 de outubro de 1746, fl. 35v. 355 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Flávia Quitéria, 25 de setembro de 1749, fl. 67. 356 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Baltazar, 3 de março de 1747, fl. 39v. 357 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Juliana Maria, 2 de março de 1755, fl. 131. 358 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Teresa, 15 de outubro de 1755, fl. 140v. 359 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Sebastião, 20 de janeiro de 1745, fl. 19v. 360 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto João José, 6 de abril de 1757, fl. 161. 361 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Custódia, 2 de abril de 1763, fl. 256. 362 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposto Jerónimo, 6 de setembro de 1747, fl. 45v. 363 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Antónia Maria, 5 de julho de 1745, fl. 24v. 364 ADB, PT/UM-ADB/PRQ/PBRG52/001/0007, exposta Antónia Teresa, 5 de julho de 1745, fl. 24v.
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