Relação entre inteligência emocional, satisfação com a vida e práctica desportiva
Abstract
0,367
Full text
93 RELAÇÃO ENTRE INTELIGÊNCIA EMOCIONAL, SATISFAÇÃO COM A VIDA E PRÁTICA DESPORTIVA José Filipe Barreiro da Silva1, António Fernando Boleto Rosado2, Carlos Manuel Marques da Silva1e Sidónio Serpa2 Escola Superior de Desporto de Rio Maior1, Rio Maior, Portugal e Faculdade de Motricidade Humana2, Lisboa, Portugal RESUMO: Este estudo tem por objectivo verificar a existência de diferenças entre grupos de praticantes, de idade e de género na inteligência emocional e na satisfação com a vida, assim como descrever a relação entre estas duas variáveis. Quatrocentos e quarenta e oito adolescentes preencheram o Emotional Quotient Inventory: Youth Version (EQ-i:YV) e a Satisfaction with life Scale (SWLS). A IE e a satisfação com a vida indicada por adolescentes envolvidos na prática desportiva federada foi significativamente superior comparando com os não praticantes. Os praticantes não federados indicaram, ainda, uma perceção de IE interpessoal significativamente maior do que os não praticantes. O género e a idade não demonstraram ter influência na IE e na satisfação com a vida dos adolescentes, com exceção de alguns fatores da IE, ao nível do género. Estes dados sugerem que a IE e satisfação com a vida estão intimamente correlacionadas com a prática desportiva. PALAVRAS CHAVE: Inteligência emocional, Satisfação com a Vida, Prática Desportiva. REVISTA IBEROAMERICANA DE PSICOLOGÍA DEL EJERCICIO Y EL DEPORTE Vol. 9, nº 1 pp. 93-109 ISSN 1886-8576 Dirección de contacto: José Filipe Barreiro da Silva. Escola Superior de Desporto de Rio Maior. Av. Dr. Mário Soares, Pavilhão Multiusos 2040-413 Rio Maior. Portugal. Correo-e.: josesilva.psicdespor[email protected] Manuscrito recibido: 30/01/2013 Manuscrito aceptado: 27/09/2013
José Filipe Barreiro da Silva, António Fernando Boleto Rosado, Carlos Manuel Marques da Silva e Sidónio Serpa Revista Iberoamericana de Psicología del Ejercicio y el Deporte. Vol. 9, nº 1 (2014) 94 RELACIÓN ENTRE INTELIGENCIA EMOCIONAL, SATISFACCIÓN EN LA VIDA Y PRÁCTICA DEPORTIVA RESUMEN: Este estudio tiene como objetivo verificar la existencia de diferencias entre los grupos de profesionales, la edad y el género en la inteligencia emocional y la satisfacción con la vida, así como describir la relación entre estas dos variables. Cuatrocientos cuarenta y ocho adolescentes rellenaron el Emotional Quotient Inventory: Youth Version (EQ-i:YV) y la Satisfaction with life Scale (SWLS). La IE es la satisfacción en la vida indicada por adolescentes envueltos en la práctica deportiva federada, fue significativamente superior comparado con los no practicantes. Los practicantes no federados indicaron una percepción de IE interpersonal significativamente mayor de los no practicantes. El género y la edad no demostraron tener influencia en la IE y en la satisfacción en la vida de los adolescentes, con excepción de algunos factores de la IE, a nivel de género. Estos datos sugieren que la IE y la satisfacción en la vida están intimamente correlacionados con la práctica deportiva. PALABRAS CLAVE: Inteligencia emocional, Satisfacción en la vida, práctica deportiva. RELATIONSHIP BETWEEN EMOTIONAL INTELLIGENCE, LIFE SATISFACTION AND SPORT PRACTICE ABSTRACT: This study aims to verify the existence of differences between groups of practitioners, age and gender on emotional intelligence and satisfaction with life, as well as describe the relationship between these two variables. Four hundred and forty eight teenagers filled the Emotional Quotient Inventory: Youth Version (EQ-i:YV) and Satisfaction With life Scale (SWLS). The IE and life satisfaction indicated by adolescents involved in sports Federated was significantly higher compared with non-practitioners. Practitioners are not federal also indicated a perception of interpersonal IE significantly higher than non-practitioners. Gender and age had not shown to influence EI and in life’s satisfaction among the teenagers sample, with the exception of some EI factors at a gender level. These results showed that EI and life’s satisfaction are closed associated with sports activity. KEY WORDS: Emotional Intelligence, Life’s Satisfaction, Sports Practice.
Relação entre inteligência emocional, satisfação com a vida e prática desportiva Revista Iberoamericana de Psicología del Ejercicio y el Deporte. Vol. 9, nº 1 (2014) 95 A prática desportiva tem sido associada à promoção da cooperação, da disciplina, da liderança, do auto-controlo, da cidadania, do sucesso social, a competências de liderança, a relações de pares positivas, ao sentido de iniciativa, ao progresso na carreira na vida adulta (Fraser-Thomas e Côté, 2006) e à gestão emocional (Jones, 2003), entre outros aspetos, e pode potenciar o desenvolvimento de competências intrapessoais e interpessoais essenciais para a vida das crianças e jovens e ser um fator marcante no seu bem-estar e na sua de satisfação com a vida. Segundo Kate, Christodoulou, Seider e Gardner (2011) as inteligências, intrapessoais e interpessoais, propostas por Gardner em 1983, na teoria das Inteligências Múltiplas, referem-se à habilidade de reconhecer e compreender as suas próprias emoções, desejos e intenções, assim como as dos outros. Foram intituladas por Salovey e Mayer (1990) de Inteligência Emocional (IE). À semelhança da prática desportiva, a inteligência emocional (IE) também tem sido associada a liderança, coesão, desempenho académico e profissional, bem-estar, saúde física e psicológica e a satisfação com a vida. (Bar-On, 2006; Cherniss, 2004; Cherniss e Goleman, 2001; Latimer, Rench e Brackett, 2008; Maltaby, Day e Macaskill, 2010; Mayer, Roberts e Barsade, 2008; Mayer, Salovey, Caruso e Cherkasskiy, 2011; Meyer e Fletcher, 2007; Meyer e Zizzi, 2007). A IE é definida (Bar-On, 2006), como sendo uma área, transversal, de competências emocionais e sociais interligadas que determinam como é que efetivamente nos compreendemos e expressamos, compreendemos os outros, nos relacionamos com eles e com as exigências diárias. Segundo Maltby et al. (2010), ao analisarem as diferenças de IE entre género, “The evidence examining sex differences in emotional intelligence among the samples in the population suggests results are mixed, or that the effect size of any significant difference is small”. No que se refere à evolução em função da idade, verifica-se um aumento significativo da IE (Bar-On, 2006; Mirza e Redzuan, 2010) e, à medida que se vai ficando mais velho, tende-se a ficar emocionalmente e socialmente mais inteligente (Bar-On, 2006; Rooy, Alonso, e Viswesvaran, 2005), tornando-se essa diferença especialmente acentuada depois dos 40 anos (Bar-On, 2006). Apesar da IE já ter despertado o interesse de muitas áreas, só recentemente é que o seu estudo tem sido mais evidente no domínio das atividades físicas e desportivas. Silva, Rosado e Serpa (2012), numa análise global das relações entre IE e prática desportiva, referem que este contexto engloba o treino e a preparação de aspetos técnicos, táticos, físicos e psicológicos, contemplando, estes, necessariamente, também, a IE, ou seja, a capacidade de identificar, compreender e gerir emoções eficazmente em si e nos outros. Na sua análise ao suporte teórico e empírico preliminar existente neste campo, verificaram que a IE tem sido associada a melhor desempenho no contexto da prática desportiva e que este assume particular relevo no desenvolvimento
José Filipe Barreiro da Silva, António Fernando Boleto Rosado, Carlos Manuel Marques da Silva e Sidónio Serpa Revista Iberoamericana de Psicología del Ejercicio y el Deporte. Vol. 9, nº 1 (2014) 96 de competências pessoais e sociais, participando no processo formativo global que o desporto e a atividade física representam. A IE tem, assim, despertado um interesse crescente no campo da prática desportiva, constituindo mais uma das competências a desenvolver na intervenção da Psicologia do Desporto e do Exercício, junto de atletas, praticantes de exercício, treinadores, instrutores, professores, administradores, entre outros. (Latimer et al., 2008; Meyer e Fletcher, 2007; Meyer e Zizzi, 2007; Zizzi, Deaner e Hirschhor, 2003). Numa análise global da pesquisa verificou-se que a IE esteve associada a fatores relacionados com melhor performance e desempenho na prática desportiva (Crombie, Lombard e Noakes, 2009; Lane et al. 2010; Perlini e Halverson, 2006; Petrides, Niven e Mouskounti, 2006; Zizzi et al., 2003) e a prática desportiva foi, também, associada com habilidades da IE mais desenvolvidas em comparação ao padrão geral populacional (Perlini e Halverson, 2006), e em comparação a não praticantes (Costarelli e Satmou, 2009; Li, Lu e Wang, 2009; Queirós, Carral e Fernández-Berrocal, 2004) e indivíduos que recorrem ao exercício para melhorar o humor indicaram maiores níveis de IE (Solanki e Lane, 2010). A satisfação com a vida, componente cognitiva do bem-estar subjetivo (Diener, Emmons, Larsen e Griffin, 1985), é entendida como um processo de julgamento no qual os indivíduos avaliam globalmente a qualidade das respetivas vidas com base em critérios próprios (Diener, 1984; Diener, et al., 1985). É uma das três componentes primárias do bem-estar subjetivo, que incluem, também, as respostas emocionais das pessoas (afeto positivo e negativo) e o domínio das satisfações (Diener, Suh, Lucas e Smith, 1999). Diener (1984) sugeriu que o exercício físico seria uma das variáveis que influência a satisfação com a vida. Os estudos desenvolvidos neste sentido têm mostrado que existe uma associação positiva entre prática desportiva e satisfação com a vida, tanto nas crianças e jovens como nos adultos em geral (Alves et al., 2004; Bustag e Duman, 2010; Gomes, Borges, Lima e Farinatti, 2010; Gomes, Tavares, Corte-Real, Corredeira e Fonseca, 2004; Melin, Fugl-Meyer e Fugl-Meyer, 2003; Moraes, Corte-Real, Dias e Fonseca, 2009; Salama-Younes, 2011). As pesquisas entre satisfação com vida e IE também têm mostrado que estas duas variáveis estão associadas de forma positiva (Austin, Saklofske e Egan, 2004; Extremera e Fernández-Berrocal, 2005; Ghorbanshiroudi, Khalatbari, Salehi, Bahari e Keikhayfarzaneh, 2011; Kang, Shaver, Sue, Min e Jing, 2003; Palmer, Donaldson e Stough, 2002; Saklofske, Austin e Minsky, 2003). De um modo geral, a literatura indica que o género não se associa com a satisfação com a vida (Arrindell, Heesink e Feij, 1999; Arrindell, Meewesen e Huyse, 1991; Bailey, 2007; Diener et al., 1999; Eryilmaz, 2010; Gouveia, Barbosa, Andrade
Relação entre inteligência emocional, satisfação com a vida e prática desportiva Revista Iberoamericana de Psicología del Ejercicio y el Deporte. Vol. 9, nº 1 (2014) 97 e Carneiro, 2005; Le Roux e Kagee, 2008; Melin et al., 2003; Myers e Diener, 1995; Pavot e Diener, 1993; Shevlin, Brunsden e Miles, 1998). Em relação à idade, a maioria da investigação sugere que esta não é um fator determinante na satisfação com a vida (Arrindell et al., 1991; Bailey, 2007; Ehrlich e Isaacowitz, 2002; Myers, e Diener, 1995; Pavot e Diener, 1993), ou então, nas faixas etárias de idade mais avançada, a satisfação com a vida poderá aumentar, mas não tende a diminuir (Diener et al., 1999; Gouveia et al., 2005; Melin et al., 2003). Tendo em consideração a importância que a prática desportiva e IE podem ter no bem-estar e na satisfação com a vida das pessoas, e atendendo à literatura, este estudo tem por objectivo verificar a existência de diferenças entre grupos de praticantes, de idade e de género na IE e na satisfação com a vida, assim como descrever a relação entre estas duas variáveis. MÉTODO Participantes Participaram no estudo 448 adolescentes (224 rapazes e 224 raparigas), com idades compreendidas entre os 12 e os 17 anos (média = 13.7 ± 1.08), que frequentavam o 3º ciclo de escolaridade de 3 escolas do Distrito de Leiria (Portugal). No que respeita à prática desportiva, 135 adolescentes eram não praticantes (30.1%), 192 praticantes não federados (42.9%), envolvidos com a prática regular de natação, BTT, skate, corrida, futebol, basquetebol, dança, ténis e 121 praticantes federados (27%) nas modalidades de futebol, andebol, basquetebol, voleibol, atletismo e natação. Instrumentos Bar-On Emotional Quotient Inventory: Youth Version (EQ-i:YV; Bar-On e Parker, 2000). Este questionário, de 60 itens, é um instrumento de auto-relato desenvolvido para medir a IE de crianças e jovens com idades compreendidas entre os 7 e os 18 anos. As respostas são dadas numa escala de Likert de 4 pontos que varia entre “1-Muito raramente verdadeiro para mim” e “4-Muito frequentemente verdadeiro para mim”, e consiste nas seguintes escalas: escala intrapessoal (mede a habilidade de compreender as próprias emoções e a habilidade de as expressar), escala interpessoal (mede a habilidade para ter relações interpessoais satisfatórias e compreender e identificar as emoções dos outros), escala de gestão de estresse (mede a habilidade de gerir e controlar as próprias emoções e responder serenamente a situações estressantes), escala de adaptabilidade (mede a habilidade de ser flexível, realista e efetivo na resolução de problemas e gestão de mudanças), escala de humor geral (mede a habilidade de manter um olhar positivo sobre a vida), escala de impressão positiva (mede a possibilidade de indivíduo ter respondido ao questionário com base
José Filipe Barreiro da Silva, António Fernando Boleto Rosado, Carlos Manuel Marques da Silva e Sidónio Serpa Revista Iberoamericana de Psicología del Ejercicio y el Deporte. Vol. 9, nº 1 (2014) 98 numa impressão demasiado positiva de si mesmo) e o total EQ score (aglomera as quatro primeiras escalas e mede a habilidade de lidar com os desafios do dia-a-dia permanecendo feliz e satisfeito). Usou-se a versão Portuguesa deste instrumento, inicialmente traduzido e validado para o português do Brasil por Kerkoski (2008), reportando os autores valores globais de consistência interna calculados com base no Alpha de Cronbach’s de .80. Os autores calcularam, ainda, os valores de fiabilidade individual para todos os itens considerando-os ajustados. Atendendo à existência de uma versão em língua portuguesa, ainda, que brasileira, e no sentido de o adaptar ao português falado em Portugal utilizámos o procedimento (Brislin, 1980), designado de “abordagem por comité”, consistindo na avaliação do instrumento por parte de três pessoas bilingues com conhecimentos aprofundados dos constructos teóricos medidos pelo questionário e familiarizados quer com as especificidades do contexto de aplicação quer com os princípios básicos do que é a avaliação psicológica. Após essa avaliação procedeu-se ao cálculo da consistência interna da nova versão, reportando-se os seguintes valores: Coeficiente Alpha de Cronbach de .89 para a escala global, com .69 para a Escala Intrapessoal, .77 para a escala Interpessoal, .68 para a Escala de Gestão do Stress, .82 para a escala de adaptabilidade e .80 para a Escala Geral do Humor. Satisfaction with life Scale (SWLS) (Diener, Emmons, Larsen e Griffin, 1985). A SWLS consiste em 5 itens que podem ser respondidos através de uma escala de Likert de 5 pontos, que varia entre “1-Discordo muito” e “5-Concordo muito”. A SWLS avalia uma componente cognitiva do bem-estar subjetivo e foi desenvolvida para avaliar, de forma subjetiva e global, a satisfação com a vida, através do peso e significado que cada indivíduo atribui aos diferentes domínios da sua vida. A SWLS foi validada pela primeira vez em Portugal por Neto, Barros e Barros (1990), tendo sido encontrado uma consistência interna (através do Alpha de Cronbach) de .78, e posteriormente revista por Simões (1992) (alfa de Cronbach de .77). Neste estudo, a consistência interna foi medida com o Alpha de Cronbach relatando-se um valor de .84. Procedimentos Depois dos objetivos e propósito da investigação terem sido apresentados às instituições de ensino, estas, disponibilizaram-se a colaborar e autorizaram a aplicação dos instrumentos selecionados para o estudo. As escolas estabeleceram contacto com os encarregados de educação que assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido. Os instrumentos foram aplicados a cada uma das turmas na sala de aula, em ambiente calmo e tranquilo, depois de agendadas datas e horas com as várias escolas e com os directores de turma. A aplicação dos instrumentos seguiu os procedimentos e normas do The Bar-On Emotional Quotient Inventory: Youth Version
Relação entre inteligência emocional, satisfação com a vida e prática desportiva Revista Iberoamericana de Psicología del Ejercicio y el Deporte. Vol. 9, nº 1 (2014) 99 (EQ-i:YV) Technical Manual (Bar-On e Parker, 2000). Foram respeitadas todas as normas éticas inerentes ao processo de investigação. Tratamento de dados O tratamento estatístico foi efetuado através do programa SPSS PASW 18. A prática desportiva, género e idade foram as variáveis independentes do estudo e a IE e satisfação com a vida, as dependentes. Foi utilizada a ANCOVA fatorial para examinar as diferenças dos resultados existentes nas pontuações de escalas de IE e na escala de satisfação com a vida, em função das variáveis independentes género e prática desportiva, considerando a idade como co-variável. Verificaram-se os pressupostos da ANCOVA, nomeadamente, a normalidade das distribuições e a homogeneidade das variâncias. A relação entre IE e satisfação com a vida examinada através da correlação rde Pearson. Calculou-se, ainda, o tamanho do efeito (2P ) e a potência do teste (). RESULTADOS Determinantes da Inteligência Emocional A tabela 1 apresenta os valores descritivos em função da prática desportiva. Tabela 1 Estatísticas descritivas em função da variável Prática Desportiva NP (n=135) 2.78±0.31 2.47±0.52 3.25±0.40 2.55±0.42 2.85±0.45 3.06±0.40 3.42±0.99 PNF (n=192) 2.86±0.29 2.56±0.52 3.39±0.31 2.54±0.38 2.94 ±0.43 3.15±0.38 3.62±0.90 PF (n=121) 2.89±0.32 2.63±0.51 3.35±0.30 2.58±0.41 2.98±0.46 3.18±0.37 3.76±0.79 DP= desvio padrão; NP= não praticantes; PNF= praticantes não federados; PF= praticantes federados A análise inferencial permitiu verificar que só o fator prática desportiva tem um efeito significativo sobre o valor global da IE (F2.392 = 4.032; p= .018; 2P= 0.020; = 0.718). O grupo de prática federada pontuou significativamente mais no total EQ score do que o grupo de não prática (p = .018). No que se refere à escala de inteligência interpessoal evidenciaram-se efeitos significativos da variável género (F2.430 = 44.59; p= .00; 2P= 0.095; = 1.00) e prática desportiva (F2.430 = 8.47; p= .00; 2P= 0.038; = 0.97). No que se refere ao género as diferenças são favoráveis ao sexo feminino (p = .000). Na variável prática desportiva as diferenças significativas verificaram-se entre os grupos de nãoprática e prática não federada (p = .005), favorável aos praticantes não-federados. Total EQ score Intrapersonal Interpessoal Gestão de stress Adaptabilidade Humor geral Sat. Vida
José Filipe Barreiro da Silva, António Fernando Boleto Rosado, Carlos Manuel Marques da Silva e Sidónio Serpa Revista Iberoamericana de Psicología del Ejercicio y el Deporte. Vol. 9, nº 1 (2014) 100 A análise da escala de stress mostrou, por outro lado, que o género é a única variável com impacto significativo (F1.429 = 15.07; p= .00; 2P= 0.034; = .97), apresentando os rapazes valores significativamente mais altos (p = .000). Tabela 2 Estatísticas descritivas das variáveis IE e satisfação com a vida em função do género Masculino 2.85±0.35 2.56±0.56 3.23±0.38 2.63±0.42 2.95±0.47 3.17±0.38 3.59±0.90 Feminino 2.84±0.26 2.56±0.48 3.44±0.31 2.48±0.37 2.90±0.42 3.09±0.38 3.67±0.88 DP= desvio padrão No que se refere à dimensão de inteligência intrapessoal, de adaptabilidade e humor não foram encontradas diferenças entre os grupos de nível de cada uma das variáveis independentes. Em nenhuma situação se verificaram efeitos de interação significativos entre as diversas variáveis independentes. O mesmo aconteceu relativamente à idade, não tendo sido encontradas diferenças significativas em nenhuma das variáveis dependentes em função deste fator. Tabela 3 Estatísticas descritivas das variáveis IE e satisfação com a vida em relação à idade 12 (n = 58) 2.77±0.21 2.47±0.57 3.30±0.36 2.53±0.39 2.82±0.44 3.14±0.33 3.60±1.08 13 (n = 147) 2.85±0.31 2.59±0.55 3.37±0.38 2.54±0.40 2.93±0.48 3.16±0.38 3.59±0.95 14 (n = 144) 2.87±0.30 2.55±0.49 3.35±0.36 2.58±0.40 2.96±0.43 3.10±0.41 3.62±0.82 15 (n = 76) 2.83±0.32 2.52±0.50 3.32±0.35 2.54±0.40 2.94±0.44 3.12±0.40 3.72±0.86 16 (n = 19) 2.89±0.29 2.71±0.47 3.23±0.36 2.67±0.39 2.92±0.38 3.17±0.35 3.74±0.74 17 (n = 4) 2.73±0.40 2.54±0.60 3.19±0.43 2.38±0.32 2.80±0.47 3.11±0.36 3.15±0.64 DP = desvio padrão Total EQ score Intrapersonal Interpessoal Gestão de stress Adaptabilidade Humor geral Sat. Vida Total EQ score Intrapersonal Interpessoal Gestão de stress Adaptabilidade Humor geral Sat. Vida
Relação entre inteligência emocional, satisfação com a vida e prática desportiva Revista Iberoamericana de Psicología del Ejercicio y el Deporte. Vol. 9, nº 1 (2014) 101 Determinantes da Satisfação com a vida A análise da satisfação com a vida evidenciou diferenças significativas apenas no fator prática desportiva (F2.387 = 3.885; p= .021; 2P= 0.020; = 0.700). Os resultados da comparação post-hoc revelaram que os atletas com maior nível de prática apresentaram valores mais elevados de satisfação com a vida do que os nãopraticantes (p= .024). Relações entre Inteligência emocional e Satisfação com a vida O estudo da correlação, através do coeficiente de correlação de Pearson, permitiu determinar que a escala de satisfação com vida se correlacionou de forma positiva com todas as escalas da IE (p < .01), com exceção da escala gestão de stress, que não teve qualquer correlação (p > .01) (Tabela 4). Tabela 4 Correlação entre satisfação com a vida e as escalas da IE r Total EQ score 0.390** Intrapessoal 0.366** Interpessoal 0.345** Gestão de stress 0.003 Adaptabilidade 0.350** Humor geral 0.600** ** Correlação significativa ao nível de 0.01. DISCUSSÃO Os resultados deste estudo evidenciam que um maior envolvimento dos jovens com as práticas físico-desportivas está associado a maior IE geral. Os praticantes federados indicaram maiores níveis de IE global quando comparados com os não praticantes. O grupo de praticantes não federados indicou, ainda, maior IE interpessoal do que os não praticantes. Diversos outros estudos têm confirmado a tendência evidenciada nestes resultados. Através do modelo de Bar-On, a investigação de Perlini e Halverson (2006) verificou que os jogadores da National Hochey League pontuaram no IE total acima de média populacional. Costarelli e Satmou (2009) encontraram, também, diferenças significativas nalguns fatores da escala intrapessoal e de adaptabilidade em praticantes de Judo e Taekwondo, comparando com não praticantes. Li et al., (2009) verificaram, ainda, que o total de IE era significativamente superior no grupo de
José Filipe Barreiro da Silva, António Fernando Boleto Rosado, Carlos Manuel Marques da Silva e Sidónio Serpa Revista Iberoamericana de Psicología del Ejercicio y el Deporte. Vol. 9, nº 1 (2014) 108 Beauchamp e M. A. Eys (Eds.), Group dynamics in exercise and sport psychology (pp. 3-21). New York: Routledge. Le Roux, M.C., e Kagee, A., (2008). Subjective wellbeing of primary healthcare patients in the Western Cape, South Africa. South African Family Practice, 50(3), 68a-68d. Li, G. S. F., Lu, F. J. H., e Wang, A. H. H. (2009). Exploring de relationship of Physical Activity, Emotional Intelligence and health in Taiwan college students. Journal of Exercise Science and Fitness, 7(1), 55-63. Maltby, J., Day, L., e Macaskill, A. (2010). Personality, Individual Differences and Intelligence. (2nd ed., pp. 391-409). Harlow: Pearson Education. Matos, M., Simões, C., Carvalhosa, S., Reis, C., e Canha, L. (2003). A Saúde dos adolescentes Portugueses. Lisboa: FMH/PEPTSaúde. Mayer, J. D, Roberts, R. D., e Barsade, S.G (2008). Human abilities: emotional intelligence. Annual Review of Psychology, 59,507–36. Mayer, J. D., Salovey, P., Caruso, D. R., e Cherkasskiy, L. (2011). Emotional Intelligence. In R. J. Sternberg e S. B. Kaufman (Eds.), The Cambridge Handbook of Intelligence (pp.528-545). New York: Cambridge University Press. Melin, R., Fugl-Meyer, K. S., e Fugl-Meyer, A. R. (2003). Life Satisfaction in 18 to 64years-old Swedes: In relation to education, employment situation, health and physical activity. Journal Rehabilitation Medicine, 35, 84-90. Meyer, B. B, e Fletcher, T. B. (2007). Emotional Intelligence: A Theoretical overview and implications for research and professional practice in sport psychology. Journal of Applied Sport Psychology, 19(1), 1-15. Meyer, B. B., e Zizzi, S. (2007). Emotional Intelligence in sport: conceptual, methodological, and applied issues. In A. M. Lane (Ed.), Mood and Human Performance: Conceptual, Measurement, and Applied Issues (pp. 131–154). London: Nova Science Publishers. Mirza, M., e Redzuan, M. (2010). Age and gender differences and constructo of children´s Emotional Intelligence. Journal of American Science, 6(10), 1213-1221. Moraes, M. M., Corte-Real, N., Dias, C., e Fonseca, A. M (2009). Satisfação com a vida, exercício físico e consumo de tabaco em adolescentes em diferentes áreas geográficas do país. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, 30(2), 137-149. Myers, D. G., e Diener (1995). Who is happy? Psychological Science, 6, 10-18. Neto, F. (1993). The Satisfaction with Life Scale: Psychometrics Properties in an Adolescent Sample. Journal of Youth and Adolescence, 22(2), 125-134. Neto, F., Barros, J. H., e Barros, A. (1990). Satisfação com a vida. In L. Almeida, R. Santiago, P. Silva, O. Caetano e J. Marques (Eds). Acção educativa: análise psicosocial (pp. 105117). Leiria: ESEL/APPORT. Palmer, B., Donaldson, C. e Stough, C. (2002). Emotional Intelligence and Life Satisfaction. Personality and Individual Differences, 33, 1091-1100.
Relação entre inteligência emocional, satisfação com a vida e prática desportiva Revista Iberoamericana de Psicología del Ejercicio y el Deporte. Vol. 9, nº 1 (2014) 109 Pavot, E., e Diener, E. (1993). Review Satisfaction With life Scale. Psychological Assessment, 5(2), 164-172. Perlini, A. H., e Halverson, T. R. (2006). Emotional Intelligence in the National Hockey League. Canadian Journal of Behavioural Science, 38(2), 109-119. Petrides, K. V., e Furnham, A. (2005). Gender differences in measured and selfesteemed trait Emotional Intelligence. Sex Roles, 42, 449-461. Petrides, K. V., Niven, L., e Mouskounti, T. (2006). The trait emotional intelligence of Ballet dancers and Musicians. Psicothema, 18, 101-107. Queirós, M. M., Carral, J. M. C., e Fernández-Berrocal, P. (2004). Inteligência Emocional Percebida (IEP) e actividade física na terceira idade. Revista de Psicologia, Educação e Cultura, 8(1) 187-209. Rooy, D. L. V., Alonso, A., e Viswesvaran, C. (2005). Group differences in Emotional Intelligence scores theoretical and practical implications. Personality and Individual Differences, 38, 689-700. Saklofske, D. H., Austin, E. J., e Andrews, J.J. W. (2007). Personality, Emotional Intelligence and exercise. Journal of Health Psychology, 12(6), 937-948. Saklofske, D. H., Austin, E. J., e Minsky, P. S. (2003). Factor Structure and validity of Trait Emotional Intelligence measure. Personality and Individual Differences, 34, 1091-1100. Salama-Younes, M. (2011). Positive mental health, subjective validity and Satisfaction with Life for French physical education students. World Journal of Sport Sciences, 4(2), 90-97. Salovey, P., e Mayer, J. D. (1990). Emotional Intelligence. Imagination, Cognition, and Personality, 9, 185-211. Shevlin, M., Brunsden, V., e Miles, J.N.V. (1998). Satisfaction with Life scale: analyses of factorial invariance, means structure, and reliability. Personality and Individual Differences, 25, 911-916. Silva, J., Rosado A., e Serpa, S. (2012). Inteligência Emocional e Prática Desportiva: Uma Análise Global. Revista Portuguesa de Fisioterapia no Desporto, 6(1), 17-29. Simões, A. (1992). Ulterior validação de uma escala de satisfação com a vida (SWLS). Revista Portuguesa de Pedagogia, XXVI(3), 503-515. Solanki, D., e Lane, A. M. (2010). Relationship between exercise as a mood regulation strategy and Trait Emotional Intelligence. Asian Journal of Sport Medicine, 1(4), 195-200. Zizzi, S. J., Deaner, H. R., e Hirschhor, D. K. (2003). The relationship between Emtional Intelligence and performance among college baseball players. Journal of Applied Sport Psychology, 15, 262-269.