Entre a escrita da história e a narratividade da história visual: a fotografia
Abstract
O texto explora e discute questões e perplexidades do uso crescente da imagem fotográfica no âmbito dos estudos históricos contemporâneos. Neste contexto, dá lugar a uma reflexão sobre as potencialidades do estudo da visualidade entre o universo das práticas historiográficas e o horizonte da escrita da história como narrativa.
Full text
Antíteses, Londrina, v.13, n. 26, p. 525-550, jul-dez. 2020 } 525 Entre a escrita da história e a narratividade da história visual: a fotografia Between the writing of history and the narrativity of visual culture: photography Fabrício Antônio Antunes Soares1 Fátima Moura Ferreira2 DOI: 10.5433/1984-3356.2020v13n26p525
Antíteses, Londrina, v.13, n. 26, p. 525-550, jul-dez. 2020 } 526 Fabrício Antônio Antunes Soares / Fátima Moura Ferreira Entre a escrita da história e a narratividade da história visual: a fotografia Artigos }}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}} }}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}} Resumo: O texto explora e discute questões e perplexidades do uso crescente da imagem fotográfica no âmbito dos estudos históricos contemporâneos. Neste contexto, dá lugar a uma reflexão sobre as potencialidades do estudo da visualidade entre o universo das práticas historiográficas e o horizonte da escrita da história como narrativa. Palavras-chave: Escrita da História; Cultura Visual; Narrativa e Fotografia. Abstract: The text explores and discusses issues and perplexities of the growing use of photographic images in contemporary historical studies. In this context, it gives rise to a reflection on the potential of the study of visuality between the universe of historiographic practices and the horizon of the writing of history as a narrative. Keywords: The Writing of History; Visual Culture; Narrative and Photography.
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Antíteses, Londrina, v.13, n. 26, p. 525-550, jul-dez. 2020 } 542 Fabrício Antônio Antunes Soares / Fátima Moura Ferreira Entre a escrita da história e a narratividade da história visual: a fotografia Artigos }}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}} }}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}} Aqui chegados, somos levados a admitir que a arte do fotógrafo se ergue como condição necessariamente singular do registro. Sem descurar esse atributo particular que se retraduz na consagração da autoria, isto é, do artista, acontece, por vezes, que o historiador é surpreendido pela qualidade do registro visual captado por um fotógrafo amador ou semiprofissional, de acordo com os parâmetros que pautam o respectivo itinerário formativo em termos técnicos ou profissionais. Essa qualidade é reveladora de uma força imagética apenas esperada entre aqueles que são nomeados e classificados como artistas. Plausivelmente, motivos vários contribuem para explicar essa situação um tanto ou quanto paradoxal, sem contudo serem suscetíveis de fornecerem a chave plena desse enigma. 14 Ao olhar do observador, as figuras 1 e 2 15 dispostas em plano contíguo são suscetíveis de desencadearem um feixe de reminiscências múltiplas: sensoriais, estéticas, temporais, espaciais, inclusive históricas. O poder de evocação transcende a imagem presentificada, considerando, a título de hipótese, o espanto humano face à natureza e o desejo de o registrar, guardar, numa espécie de eternização oposta à efemeridade da memória humana ou à inevitabilidade da morte. Dificilmente, o olhar do historiador não se deterá, ainda que por frações de segundo, no potencial imagético que emana das figuras. Provavelmente, num segundo momento, será levado a reposicionar o seu olhar de acordo com as premissas e as preocupações do seu programa de investigação, interagindo ou não com outras oportunidades de enfoque do seu
Antíteses, Londrina, v.13, n. 26, p. 525-550, jul-dez. 2020 } 543 Fabrício Antônio Antunes Soares / Fátima Moura Ferreira Entre a escrita da história e a narratividade da história visual: a fotografia Artigos }}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}} }}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}} programa de estudo. Em qualquer dos casos, o historiador confronta-se sempre com a singularidade da fonte iconográfica vertida no poder da visualidade, forçosamente distinto do poder do dizível. Ambos, porém, não deixam de se debater necessariamente com o poder da palavra, equacionado como elemento magistral de elocução no interior de uma composição narrativa que dialoga, ainda que sub-repticiamente ou veladamente, com a presentificação figurada (ou não) da imagem. Das linhas expostas, afiguram-se poderosas as oportunidades hermenêuticas abertas à historiografia pela interseção entre o visual e o narrativo verbal, no sentido de densificar o que é contado ou narrado, seja a partir de uma simples imagem ou de uma série de imagens pertencentes a uma mesma coleção ou núcleo documental. Há exemplos magistrais de estudos que partindo da exploração densa e fina de uma fonte iconográfica dão a ver as camadas de sentido e de interpretação extrapoladas a partir de um horizonte de análise simultaneamente dialógico e dialético. Dir-se-ia que estamos perante exemplares de erudição distintiva, obra de investigadores maiores, dotados de uma mestria paradigmática, suscetíveis de operarem não a partir da linearidade do tempo cronológico, equacionado como referente, mas antes através das afinidades eletivas que anteveem entre figurações visuais e pictóricas pertencentes a diferentes épocas históricas. Em suma, dotados de um talento invulgar no modo como conceitualizam e dialogam com o tempo, os seus estratos e os seus movimentos, libertos da rigidez arquetípica que regula a tradição do campo disciplinar. Perante essas obras, suportadas pela montagem de uma narrativa singular, porventura não passível de ser enquadrada numa moldura disciplinar específica, assente em fronteiras rígidas, apreende-se um filão cintilante que se configura, a todos os títulos, original. Outras são, porém, as oportunidades abertas por investigações centradas no estudo de grandes massas documentais, disponibilizadas por coleções de imagens de grande dimensão, sejam elas estatais, públicas ou privadas e que se estendem no tempo. Sem pretender esgotar as hipóteses múltiplas de estudo, importará apenas mencionar as possibilidades abertas pela desconstrução crítica das categorias classificatórias pré-existentes, mediante a intercepção cruzada de metodologias quantitativas e qualitativas. Limitemo-nos a avançar com uma proposta de problematização e de análise centrada nas modalidades de inscrição do tempo cronológico no plano das representações e representificações das temáticas
Antíteses, Londrina, v.13, n. 26, p. 525-550, jul-dez. 2020 } 544 Fabrício Antônio Antunes Soares / Fátima Moura Ferreira Entre a escrita da história e a narratividade da história visual: a fotografia Artigos }}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}} }}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}} recenseadas. Também aqui é exigido um questionamento dialógico e dialético das imagens que permita apreender indícios de mutação nos objetos representificados sob a aparente permanência (ou não) das práticas de registro fotográfico – norma geral mais resiliente à mudança ainda que sujeita à pressão das circunstâncias que atravessam as conjunturas político-ideológicas, a diferentes escalas. A análise fina das imagens (auxiliada por uma seleção criteriosa do universo da pesquisa em termos de construção de uma amostra significativa) permitirá densificar o estudo sobre o que é registrado e como é registrado, diagnosticar as motivações e as tradições que modelam o enunciado visual através da linearidade do tempo interceptado pelos estratos do tempo, permitindo avançar para além do mero confronto entre a intencionalidade do registrado/mostrado e do omitido ou pretensamente denegado – sem esquecer, como ponto prévio, a exigência de explorar o que é presentificado para além da suposta linearidade em que assenta a (análise da) intencionalidade do registro e da conservação da imagem. Das linhas expostas, depreende-se a ampliação dos horizontes que se abrem ao estudo da visualidade, suscetível de originar itinerários narrativos visuais alternativos aos das narrativas escritas que tomam a imagem por fonte histórica. Alternativos, distintos ou complementares, estes itinerários encerram modalidades de conhecer e dar a ver o mundo, nas especificidades das respectivas linguagens e gramáticas. Considerações finais Partindo da problemática da história como narrativa, o texto examina questões relacionadas com os usos crescentes da imagem visual (fotografia) no âmbito dos estudos históricos contemporâneos, no quadro dos desenvolvimentos observados na história visual. Revisitam-se, neste contexto, temas caros da reflexão sobre a imagem e os usos sociais e históricos da fotografia, ao mesmo tempo que se discutem razões que justificam a crescente onipresença do visual entre os estudos históricos mais recentes. Em concreto, examinam-se tensões e resistências que se colocam ao uso da imagem visual como fonte histórica, questionamento que se prolonga à problematização da imagem visual como dispositivo narrativo. Neste sentido, releva-se, em particular, a emergência de novas gramáticas visuais despoletadas pelos usos massivos da fotografia nos contextos estatais e nos
Antíteses, Londrina, v.13, n. 26, p. 525-550, jul-dez. 2020 } 545 Fabrício Antônio Antunes Soares / Fátima Moura Ferreira Entre a escrita da história e a narratividade da história visual: a fotografia Artigos }}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}} }}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}} universos da imprensa escrita e que obrigam a problematizar as intercepções plurais entre o visível e o dizível, no campo da produção historiográfica. Atenção particular é reservada às dimensões metodológicas que atravessam o campo dos estudos visuais. Em simultâneo, avançam-se com algumas propostas teórico-metodológicas que mostram as potencialidades hermenêuticas abertas pelos estudos da visualidade e que evidenciam a força narrativa e generativa da fotografia e que possibilitam o alargamento da investigação histórica atenta ao ato e efeito multiplicador da fotografia enquanto reflexo e criação sobre e da realidade histórica. O texto conclui, em suma, sobre as singularidades que dão formas às linguagens – visual e escrita – que se oferecem ao conhecimento e à visão do mundo (e da história em particular), necessariamente não redutíveis. Referências BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores). BELTING, Hans. Faces. Une Histoire du visage. Paris: Gallimard, 2017. BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época da sua possibilidade de reprodução técnica. In: BENJAMIN, Walter. A modernidade. Lisboa: Relógio de Água, 2006a, p. 207-241. BENJAMIN, Walter. Pequena História da Fotografia. In: BENJAMIN, Walter. A modernidade. Lisboa: Relógio de Água, 2006b, p. 244-300. BLEICHMAR, Daniela; SCHWARTZ, Vanessa. Visual History: the past in pictures. Representations, v. 145, I, 2019, p. 1-31. BURKE, Peter. O que é história cultural? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. BURKE, Peter. Testemunha ocular: história e imagem. Bauru: EDUSC, 2004. CÁCERES, Roberto Domínguez; GAYOL, Víctor. El imperio de lo visual. Imágenes, palabra y representación. In: CÁCERES, Roberto Domínguez; GAYOL, Víctor (coords.). El imperio de lo visual: imágenes, palabras, y representación. Zamora, Michoacán: EL Colégio de Michoacán, 2018, p. 11-26. CERTEAU, Michel de. A operação historiográfica. In: CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007. Pg. 56-108.
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