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Comunicação e Sociedade: Plataformas digitais na economia conectada: discurso, controlo, consumo e colaboração [39, 2021]

Abstract

[Excerto] O volume 39 da revista Comunicação e Sociedade apresenta uma série de estudos sobre diferentes abordagens de utilização das plataformas digitais. Se por um lado, são interpretadas como um importante meio de consumo e espaço para o surgimento de práticas sociais colaborativas, por outro lado, também podem ser analisadas como novos mecanismos de vigilância e de produção de discursos performáticos numa economia cada vez mais conectada.

Full text

Vol. 39 | 2021 Título | Title: Plataformas Digitais na Economia Conectada: Discurso, Controlo, Consumo e Colaboração | Digital Platforms in Connected Economies: Discourse, Control, Consumption and Collaboration Diretor | Journal Editor: Moisés de Lemos Martins (CECS, Universidade do Minho, Portugal) Diretora Adjunta | Associate Editor: Madalena Oliveira (CECS, Universidade do Minho, Portugal) Editores Temáticos | Volume Editors vol. 39 dezembro de 2020 | December 2020 Rodrigo Ribeiro Saturnino (CECS, Universidade do Minho, Portugal) Helena Sousa (CECS, Universidade do Minho, Portugal) Jack Linchuan Qiu (National University of Singapore, Singapura) Conselho Editorial | Editorial Board Alain Kiyindou (Universidade de Bordéus, França), Ana Claudia Mei Oliveira (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil), Annabelle Sreberny (Universidade de Londres, Reino Unido), Barbie Zelizer (Universidade da Pensilvânia, EUA), Cláudia Álvares (ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, 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Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 5 Sumário | Contents Plataformas Digitais na Economia Conectada: Discurso, Controlo, Consumo e Colaboração. Nota Introdutória 7 Digital Platforms in Connected Economy: Discourse, Control, Consumption, and Collaboration. Introductory Note Rodrigo Ribeiro Saturnino, Helena Sousa & Jack Linchuan Qiu Artigos temáticos | Thematic articles 15 As Estratégias de Comunicação das Plataformas de Trabalho: Circulação de Sentidos nas Mídias Sociais das Empresas no Brasil 17 Media Strategies of Labor Platforms: Circulation of Meanings in Social Media of Companies in Brazil Rafael Grohmann, Cláudia Nonato, Ana Flávia Marques & Camila Acosta Camargo Economia da Partilha e Práticas de Comunicação Organizacional em Tempos de Covid-19: Social Brands no Brasil e em Portugal 39 Sharing Economy and Organizational Communication Practices in Times of Covid-19: Social Brands in Brazil and Portugal João Francisco Raposo & Carolina Frazon Terra “Breque dos Apps”: Uma Análise Temporal de Comunidades e Influenciadores no Debate Público Online no Twitter 57 “Breque dos Apps”: A Temporal Analysis of Communities and Influencers in Online Public Debate on Twitter Victor Piaia, Eurico Matos, Sabrina Almeida, Dalby Dienstbach & Polyana Barboza A Experiência Negra de Ranqueamento Social na Uber: Uma Reflexão Racializada da Vigilância Contemporânea 83 The Black Social Ranking Experience at Uber: A Racialized Reflection on Contemporary Surveillance Naiara Silva Evangelo & Fátima Cristina Regis Martins de Oliveira Análise de Sentimentos: Da Psicométrica à Psicopolítica 101 Sentiment Analysis: From Psychometrics to Psychopolitics Felipe Melhado & Jean-Martin Rabot Direitos Digitais Durante a Pandemia de Covid-19 na América Latina 119 Digital Rights During the Covid-19 Pandemic in Latin America María Soledad Segura & Ana Bizberge Preferências e Práticas dos Pré-Adolescentes no YouTube: Resultados de um Estudo Realizado na Catalunha 145 YouTube Preferences and Practices of Preadolescents: Findings From a Study Carried Out in Catalonia Maddalena Fedele, Sue Aran-Ramspott & Jaume Suau Paquetes Como Gambiarras Midiáticas: Transnacionalismo e Consumo Cultural no Contexto Havana-Miami 167 Paquetes as Improvised Media: Transnationalism and Cultural Consumption in Havana-Miami Context Thiago Soares & Sofia Zanforlin Plataformas de Financiamento Coletivo na Economia Política dos Média Alternativos 183 Crowdfunding Platforms in the Political Economy of Alternative Media Lina Moscoso Teixeira & Ana Jorge Acesso Aberto e Conhecimento Científico: Entre a Res Publica e o Modelo de Negócio. Uma Revisão da Literatura 203 Open Access and Scientific Knowledge: Between the Public Interest and the Business Model. A Literature Review Tiago Lima Quintanilha & Nataliia Trishchenko Construindo Confiança em Plataformas Digitais Para Partilhar Estilos de Vida Colaborativos em Contextos Sustentáveis 223 Building Trust in Digital Platforms for Sharing Collaborative Lifestyles in Sustainable Contexts Raissa Karen Leitinho Sales, Ana Carla Amaro & Vania Baldi Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 6 Varia | Varia 249 Jornalismo em Contexto de Crise Sanitária: Representações da Profissão e Expectativas dos Jornalistas 251 Journalism in the Context of a Sanitary Crisis: Representations of the Job and Journalists’ Expectations Carlos Camponez & Madalena Oliveira Jornalismo em Estado de Emergência: Uma Análise dos Efeitos da Pandemia Covid-19 nas Relações de Emprego dos Jornalistas 269 Journalism in State of Emergency: An Analysis of the Effects of the Covid-19 Pandemics on Journalists’ Employment Relationships José Luís Garcia, José Nuno Matos & Pedro Alcântara da Silva Jornalistas em Tempo de Pandemia: Novas Rotinas Profissionais, Novos Desafios Éticos 287 Journalism in Time of Pandemic: New Professional Routines, New Ethical Challenges João Miranda, Joaquim Fidalgo & Paulo Martins Leituras | Book Reviews 309 Recensão do Livro Advanced Introduction to Platform Economics 311 Book Review of Advanced Introduction to Platform Economics Elsa Costa e Silva Recensão do Livro The Platform Economy: How Japan Transformed the Consumer Internet 317 Book Review of The Platform Economy: How Japan Transformed the Consumer Internet Jack Linchuan Qiu Plataformas Digitais na Economia Conectada: Discurso, Controlo, Consumo e Colaboração. Nota Introdutória Digital Platforms in Connected Economy: Discourse, Control, Consumption, and Collaboration. Introductory Note Rodrigo Ribeiro Saturnino Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Portugal Helena Sousa Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Portugal Jack Linchuan Qiu Department Communications and New Media, Faculty of Arts and Social Sciences, National University of Singapore, Singapura O volume 39 da revista Comunicação e Sociedade apresenta uma série de estudos sobre diferentes abordagens de utilização das plataformas digitais. Se por um lado, são interpretadas como um importante meio de consumo e espaço para o surgimento de práticas sociais colaborativas, por outro lado, também podem ser analisadas como novos mecanismos de vigilância e de produção de discursos performáticos numa economia cada vez mais conectada. O contexto da crise causado pela pandemia da covid-19 conduziu ao uso de plataformas da chamada “economia da partilha” para diferentes lugares. Serviços e trabalhadores ligados ao ramo do turismo experimentaram grandes perdas financeiras, enquanto plataformas da área do transporte e de entregas passaram a ter um destaque nunca antes visto. A obrigatoriedade do isolamento social e as medidas de segurança sanitária para consumo e circulação de bens colocaram as aplicações digitais que promovem a gestão destes serviços como principais coadjuvantes de manutenção de alguns setores da economia, como o da restauração e da entrega de refeições (Buheji, 2020). Também evidenciaram uma grande adesão por parte de diversas empresas, consumidores e principalmente de trabalhadores que viram nas plataformas digitais uma oportunidade de superar a recessão económica e a falta de oportunidades no mercado convencional do trabalho em países como Portugal e Brasil. Com esse crescimento inesperado ficou também mais evidente a crise laboral e os dilemas éticos que a dinâmica dessa economia da partilha tentava esconder (Chen et al., 2021). A pandemia trouxe ainda consigo a evidência de quanto a internet e as suas diferentes plataformas se tornaram elementos fundamentais de várias dimensões da nossa Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021, pp. 7-14 https://doi.org/10.17231/comsoc.39(2021).3431 Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 8 Plataformas Digitais na Economia Conectada . Rodrigo Ribeiro Saturnino, Helena Sousa & Jack Linchuan Qiu vida, seja na sua relação como instrumento de trabalho e de ganhos financeiros, ou ainda na sua dimensão mais social como lugar de presença, espaço de consumo e meio de comunicação. Podemos arriscar dizer que nunca antes havíamos experimentado tal intensidade de utilização dos meios digitais como assim o fazemos devido às diversas restrições a que fomos submetidos (Ricarte, 2020), principalmente para quem precisava de ficar em casa devido aos lockdowns e para quem trabalha em serviços essenciais, como médicos, cuidadores e trabalhadores na área do transporte. Para ambos os grupos, as plataformas digitais tornaram-se indispensáveis e sem precedentes, tanto em casa como no mundo. Com a pandemia aprendemos como este quadro de dependência digital pode ainda transformar-se num cenário de vigilância e de comportamentos de riscos. Quase de forma natural, transportamos para estes espaços não apenas uma necessidade premente de consumir e de trabalhar, mas também levamos para lá tanto o que há de bom em nós como o que há de nocivo. Assim, a internet tem-se transformado, cada vez mais, não num reflexo da nossa vida offline, mas numa continuidade da vida em si. Como apontou Hossain (2020), essa intensa forma de vida digital trouxe também consigo efeitos diretos na saúde mental de muitas pessoas que tinham nas plataformas digitais da economia da partilha o seu principal meio de sustento. Para compreender algumas facetas dos usos que fazemos das diversas plataformas digitais que integram a internet, este volume apresenta importantes estudos que procuram compreender as variadas interfaces dessa economia e os seus impactos que vão desde a repercussão no campo da comunicação, passando por formas de consumo, discriminações sociais, relações laborais até aos perigos da mercantilização cada vez mais intensa dos nossos afetos através do big data (Saturnino, 2020). As contribuições que apresentamos neste volume revelam o quanto os meios digitais têm transformado a economia e o mundo do trabalho de um modo fulcral, mostrando também como estas transformações têm afetado diretamente os nossos estilos de vida e a nossa forma de imaginar como produzir instrumentos de regulação desses setores a fim de estabelecer um futuro mais equilibrado no exercício de convívio com estas novas realidades. Na primeira parte deste volume, quatro artigos dedicam-se a estudar, por diferentes ângulos analíticos, a utilização de aplicações de transporte e de entrega no Brasil e em Portugal. No primeiro artigo do volume, Rafael Grohmann, Cláudia Nonato, Ana Flávia Marques e Camila Acosta Camargo demonstram, em “As Estratégias de Comunicação das Plataformas de Trabalho: Circulação de Sentidos nas Mídias Sociais das Empresas no Brasil”, como as plataformas digitais de transporte e de entrega utilizam uma ética própria através da comunicação para tentar controlar os sentidos sobre o serviço que oferecem, colocando em risco históricas lutas de classes. Valendo-se do contexto pandémico, os autores utilizam o caso da greve de trabalhadores que utilizam aplicações de transporte e de entrega para descrever os conflitos entre os interesses das grandes empresas e as necessidades destes trabalhadores. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 9 Plataformas Digitais na Economia Conectada . Rodrigo Ribeiro Saturnino, Helena Sousa & Jack Linchuan Qiu No mesmo contexto, mas com uma abordagem orientada para as estratégias organizacionais adotadas por empresas da economia da partilha diante da pandemia, o artigo “Economia da Partilha e Práticas de Comunicação Organizacional em Tempos de Covid-19: Social Brands no Brasil e em Portugal”, de João Francisco Raposo e Carolina Frazon Terra dá-nos a compreender como estas empresas utilizam o conceito de social brand para estabelecer o que denominam ser um “ativismo de marca”. Nesta relação, a responsabilidade social e as boas práticas de comunicação tornam-se elementos fundamentais para empresas interessadas em manter-se com uma reputação positiva diante dos seus consumidores. Os autores apontam ainda os desafios que essas marcas têm à sua frente num cenário social em que cada vez mais se exige das empresas posicionamentos éticos e políticos sobre os temas da atualidade. No terceiro artigo desta secção, os autores Victor Piaia, Eurico Matos, Sabrina Almeida, Dalby Dienstbach e Polyana Barboza escrevem, no texto o “‘Breque dos Apps’: Uma Análise Temporal de Comunidades e Influenciadores no Debate Público Online no Twitter”, sobre a ação coletiva de protestos de trabalhadores que utilizam aplicações de entrega no Brasil realizada contra o regime e as condições de trabalho durante o período da pandemia. Ao analisarem o intenso debate que se formou através do Twitter sobre as condições precarizadas de trabalho através de aplicativos como iFood, Rappi, Uber Eats e Loggi, o artigo demonstra como a mobilização social em ambientes digitais surte efeito quando as interações entre os grupos envolvidos numa causa são mediados por grupos sociais e influenciadores digitais. Ainda no campo dos estudos das plataformas de transporte, Naiara Evangelo e Fátima Cristina Regis Martins de Oliveira, analisam, no artigo “A Experiência Negra de Ranqueamento Social na Uber: Uma Reflexão Racializada da Vigilância Contemporânea”, os impactos dos rankings de trabalhadores e sua relação com questões raciais. As autoras propõem um olhar amplificado sobre o modo de funcionamento da Uber no que diz respeito à construção de uma reputação dos motoristas e passageiros, demonstrando como esse sistema se tem transformado numa ferramenta de vigilância constante. No artigo “Análise de Sentimentos: Da Psicométrica à Psicopolítica”, de Felipe Melhado e Jean-Martin Rabot, os autores apresentam a questão da mercadorização dos afetos através das plataformas digitais. A partir dos estudos sobre a criação de grandes conjuntos de dados (big data) e a sua relação com a vigilância contemporânea, demonstram como estas estratégias servem de instrumento psicopolítico para a monotorização e a produção de afetos como forma de controlo subjetivo. Já numa perspetiva internacional, as autoras María Soledad Segura e Ana Bizberge discutem, no artigo “Direitos Digitais Durante a Pandemia de Covid-19 na América Latina”, como o governo, o setor privado e a sociedade civil da Argentina, do Brasil e do México responderam aos desafios de governança das novas tecnologias da comunicação no contexto pandémico e como as suas respostas tiveram impacto nos direitos humanos nas áreas da liberdade de expressão, acesso e privacidade. Na área dos estudos de consumo, o volume apresenta dois artigos com o olhar voltado para questões relacionadas com as práticas de consumo através de plataformas As Estratégias de Comunicação das Plataformas de Trabalho: Circulação de Sentidos nas Mídias Sociais das Empresas no Brasil Rafael Grohmann Laboratório de Pesquisa DigiLabour, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação, Universidade do Vale do Rio do Sinos, São Leopoldo, Brasil Cláudia Nonato Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil Ana Flávia Marques Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil Camila Acosta Camargo Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil Resumo Este artigo tem o objetivo de analisar como as plataformas de entrega e transporte no Brasil construíram seu ethos nas mídias sociais, no contexto da primeira greve dos trabalhadores dessas empresas, dentro do cenário da pandemia de coronavírus. Argumentamos, a partir da noção de circulação de sentidos, como a construção do ethos das plataformas é um elemento sígnico da luta de classes e uma dimensão do papel da comunicação na plataformização do trabalho. Conduzimos análise do conteúdo veiculado em mídias sociais (Instagram, Facebook, Twitter e YouTube) de duas plataformas de entrega (iFood e Rappi) e duas de transporte (Uber e 99), as principais do país. As categorias de análise são: “pandemia e saúde” (dimensão contextual em relação à crise sanitária); “cidadania e diversidade” (dimensão recorrente no discurso produzido pelas plataformas, em linha com a literatura da área), “relações com marcas e influenciadores” (trabalho de visibilidade das plataformas com públicos interessados específicos) e “representações dos trabalhadores” (como elemento central da dimensão sígnica da luta de classes). Em linhas gerais, as estratégias de comunicação das plataformas, focadas nos consumidores, apresentam sentidos de caridade, filantropia, cidadania e diversidade, dizendo-se abertas às demandas dos trabalhadores. As reivindicações dos trabalhadores são ressignificadas a partir de um olhar de cidadania sacrificial, autoajuda, empreendedorismo e superação. Os resultados mostram como a comunicação das plataformas nas mídias sociais jogam um papel central nas contradições de classes. Palavras-chave Brasil, circulação de sentidos, comunicação, trabalho em plataformas Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021, pp. 17-37 https://doi.org/10.17231/comsoc.39(2021).2879 Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 18 As Estratégias de Comunicação das Plataformas de Trabalho . Rafael Grohmann, Cláudia Nonato, Ana Flávia Marques & Camila Acosta Camargo Media Strategies of Labor Platforms: Circulation of Meanings in Social Media of Companies in Brazil Abstract This article aims to analyze how ride-hailing and delivery platforms in Brazil produce their ethos on social media in the context of the first national strike of workers in the pandemic. We argue, based on the notion of circulation of meanings, how the construction of the platform’s ethos is a sign element of class struggles, and a dimension of the role of communication in the platformization of labor. We conducted a content analysis on social media (Instagram, Facebook, Twitter and YouTube) from two delivery (iFood and Rappi) and two ride-hailing platforms (Uber and 99), the largest of the country. The categories are: “pandemic and health” (contextual dimension in relation to the pandemic); “citizenship and diversity” (recurrent dimension in the discourse of platforms, in line with the literature in the area), “relations with brands and influencers” (visibility labor of the platforms with specific stakeholders) and “workers’ representations” (as a central element of the sign dimension of the class struggles). In general, the platforms’ media strategies, focused on consumers, present meanings of charity, philanthropy, citizenship and diversity, stating they are open to the demands of workers. The workers’ demands are reframed from the perspective of sacrificial citizenship, self-help, entrepreneurship and resilience. The results show how the platforms’ media strategies on social media play a central role in class contradictions. Keywords Brazil, circulation of meanings, communication, platform labor Introdução As pesquisas sobre trabalho em plataformas digitais têm emergido nos últimos anos (Casilli, 2019; van Doorn, 2017). Porém, a comunicação ainda é um elemento sub- -representado na área. Por um lado, há investigações, como a de Mosco (2009) e a de Figaro (2018), que apontam como trabalho e comunicação estão interconectados, mas sem se referirem exclusivamente às plataformas digitais. Por outro, há pesquisas sobre trabalho em plataformas que pontuam o papel das mídias sociais na organização dos trabalhadores (Cant, 2019; Lazar et al., 2020) e a retórica por trás da chamada “economia do compartilhamento” (Codagnone et al. , 2016). Contudo, não há uma organização sistemática sobre a centralidade da comunicação para o trabalho em plataformas. Argumentamos que a comunicação cumpre um papel central na plataformização do trabalho (Casilli & Posada, 2019), como um fazer — no sentido de Sodré (2019) — tanto para controle, vigilância e gerenciamento dos trabalhadores quanto para organização de trabalhadores e construção de plataformas autogeridas. A comunicação atua em todo o circuito do trabalho das plataformas (Qiu et al., 2014), desde as suas infraestruturas e materialidades até às práticas de consumo. As plataformas, além de infraestruturas digitais abastecidas por dados e automatizadas por algoritmos (Srnicek, 2016; van Dijck et al., 2018), atuam como meios de produção e de comunicação (Williams, 2005), que engendram lógicas de trabalho e interação. As suas materialidades providenciam as bases técnicas para a organização Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 19 As Estratégias de Comunicação das Plataformas de Trabalho . Rafael Grohmann, Cláudia Nonato, Ana Flávia Marques & Camila Acosta Camargo do trabalho (Plantin et. al, 2018; Woodcock & Graham, 2019) e são desenhadas para algumas interações em detrimento de outras (Costanza-Chock, 2020; Wajcman, 2019). A partir de suas affordances, há políticas que procuram desarticular a comunicação entre trabalhadores e facilitar a relação trabalhador–consumidor (Popescu et al., 2018; Wood & Monahan, 2019). Os mecanismos de vigilância, coleta e extração de dados dos trabalhadores, assim como a gestão algorítmica, se dão a partir das dinâmicas das plataformas (Couldry & Mejias, 2019), efetivando-se no próprio consumo (como processo comunicacional) das plataformas, seja como “cliente” — nomenclatura comumente usada pelas empresas — ou “trabalhador”. Isto é, as políticas de dados e as mediações algorítmicas atuam a partir de processos comunicacionais. A comunicação também é central na organização dos trabalhadores das plataformas, seja em sindicatos e associações, em coletividades e solidariedades emergentes ou na construção de plataformas dos próprios trabalhadores (Scholz, 2016; Soriano & Cabañes, 2020; Wood et al., 2018), como elementos da circulação das lutas dos trabalhadores (Dyer-Witheford et al., 2019; Englert et al., 2020). Isso evidencia que os trabalhadores não aceitam passivamente os contextos produtivos e comunicacionais das plataformas, mas criam estratégias e táticas para o cotidiano de trabalho (Cant, 2019; Sun, 2019). Assim, podemos resumir o lugar da comunicação no trabalho em plataformas a partir dos seguintes pontos: (a) desenhos e materialidades das plataformas; (b) organização e gerenciamento do trabalho por parte das plataformas; (c) organização dos trabalhadores, enquanto espaços formais e informais; (d) políticas e regimes de dados e algoritmos; (e) consumo das plataformas; e (f) estratégias de comunicação das plataformas. A partir destes elementos, este artigo foca nas estratégias de comunicação das plataformas como uma das dimensões do papel da comunicação no trabalho em plataformas. O argumento de fundo é que há uma disputa pelo controle dos sentidos sobre o que significam as plataformas — incluindo o trabalho e os trabalhadores. Essa luta por sentidos ocorre no âmbito da comunicação em todo o circuito do trabalho (Qiu at al., 2014), mas encontra, nos discursos das plataformas, um lugar privilegiado de análise. Utilizamos a noção de “circulação de sentidos” em Silverstone (1999) para investigar, de forma específica, como as plataformas constroem mundos comunicacionais (portanto, sociais e discursivos) sobre si mesmas. O ethos é uma expressão dessa circulação de sentidos (Maingueneau, 2001). Por exemplo, as plataformas utilizam estratégias como campanhas publicitárias e de relações públicas para fazer circular os sentidos das marcas pelos distintos campos sociais. Mais do que isso, elas pretendem controlar os significados do debate público a respeito das plataformas de trabalho. Os seus discursos circulam com alguns valores e significados em detrimento de outros, como expressões sígnicas da luta de classes (Grohmann, 2018). Este enquadramento teórico permite compreender os embates ideológicos e as disputas em torno dos sentidos (Baccega, 1995; Voloshinov, 1973) construídos no mundo do trabalho (Figaro, 2018), ao contrário de perspectivas teóricas que partem do lugar da empresa ou da marca como neutro. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 20 As Estratégias de Comunicação das Plataformas de Trabalho . Rafael Grohmann, Cláudia Nonato, Ana Flávia Marques & Camila Acosta Camargo Além disso, a circulação de sentidos é a base de sustentação econômica dessas empresas. Ou seja, os signos circulam como forma de capital (Goux, 1973; Marazzi, 2011; Rossi-Landi, 1973). Com isso, a circulação dos discursos é indício do papel da comunicação na financeirização (Sodré, 2019) e nos mecanismos do rentismo (Sadowski, 2020). Então, as estratégias de comunicação das plataformas funcionam como formas de justificação, sedimentação e cristalização de sentidos positivos das plataformas, construindo imaginários em linha com uma racionalidade neoliberal e empreendedora (Dardot & Laval, 2013) e com a ideologia do Vale do Silício (Liu, 2020; Schradie, 2015). Com isso, pretendem persuadir trabalhadores e consumidores de que são empresas inovadoras, disruptivas e responsáveis socialmente. Expressões como “gig economy” e “economia do compartilhamento” também são parte dessa circulação de sentidos e são rastros de um capitalismo de plataforma corporativo (Frenken & Schor, 2017; Pasquale, 2016; Scholz, 2016; Srnicek, 2016). Essas narrativas dominantes também afirmam que as plataformas não têm vínculos com os trabalhadores e que são apenas mediadoras e ajudam os trabalhadores — conforme a literatura sobre o tema (Dubal, 2019; Gibbings & Taylor, 2019; Karatzogianni & Matthews, 2020; Rosenblat, 2018). A literatura sobre as estratégias de comunicação das plataformas no chamado “sul global”, em especial a América Latina, ainda é sub-representada. Isso não significa, contudo, que essas estratégias sejam únicas, pois estão conectadas a uma geopolítica das plataformas (Graham & Anwar, 2019) e subsumidas à ideologia do Vale do Silício, que apresenta traços coloniais (Atanasoski & Vora, 2019; Couldry & Mejias, 2019; Liu, 2020). Este artigo tem o objetivo de analisar como as plataformas de entrega e transporte no Brasil construíram seu ethos nas mídias sociais, enquanto estratégias de comunicação, no contexto da primeira greve dos trabalhadores dessas empresas dentro do cenário da pandemia de coronavírus. Compreendemos a construção do ethos das plataformas — e suas maneiras de produzir e circular sentidos — como um elemento sígnico da luta de classes e, ao mesmo tempo, uma dimensão do papel da comunicação na plataformização do trabalho (Grohmann, 2018; Silverstone, 1999). Conduzimos uma análise do conteúdo veiculado em mídias sociais (Instagram, Facebook, Twitter e YouTube) — enquanto locus privilegiado de circulação de sentidos — de duas plataformas de entrega (iFood e Rappi) e duas de transporte (Uber e 99), as principais do país. Nossa hipótese considerou que a comunicação realizada por estas empresas prioriza setores mais amplos da sociedade (especialmente os consumidores), ao passo que o diálogo entre a empresa e os seus trabalhadores são rarefeitos, a não ser para positivar o valor da própria plataforma. As categorias de análise ilustram o caminho da pesquisa: “pandemia e saúde” (dimensão contextual em relação à crise sanitária); “cidadania e diversidade” (dimensão recorrente no discurso produzido pelas plataformas, em linha com a literatura da área), “relações com marcas e influenciadores” (trabalho de visibilidade das plataformas com públicos interessados específicos) e “representações dos trabalhadores” (como elemento central da dimensão sígnica da luta de classes). Em linhas gerais, as estratégias de comunicação das plataformas, focadas nos consumidores, apresentam sentidos de Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 21 As Estratégias de Comunicação das Plataformas de Trabalho . Rafael Grohmann, Cláudia Nonato, Ana Flávia Marques & Camila Acosta Camargo caridade, filantropia, cidadania e diversidade, dizendo-se abertas às demandas dos trabalhadores. Os resultados mostram como a comunicação das plataformas nas mídias sociais jogam um papel central nas contradições de classes enquanto sua dimensão sígnica no contexto da plataformização do trabalho. Contexto e Metodologia As condições de trabalho de motoristas e entregadores das plataformas digitais apresentam características semelhantes em várias partes do mundo, conforme evidenciam as pesquisas do projeto “Fairwork” (2019). Contudo, países do norte global apresentam especificidades, pois tiveram historicamente a mínima consolidação de um estado de bem-estar social e do emprego regular (Huws, 2020). O chamado “sul global” não é o desvio do padrão, mas é, ele próprio, o que se configura como standard e norma nas economias globais (Alacovska & Gill, 2019; Chen & Qiu, 2019; Graham, 2019; Sun, 2019; Wood et al., 2018). Isso significa localizar e contextualizar historicamente tanto os países do norte quanto os do sul — que também apresentam muitas heterogeneidades entre si. O que, de alguma forma, o trabalho em plataformas apresenta em comum no sul global é o legado da economia informal e as contradições em torno da condição pós-colonial, com seus potenciais revolucionários e suas armadilhas regressivas (Grohmann & Qiu, 2020). Nesses termos, a plataformização do trabalho apresenta: (a) uma generalização do trabalho típico das periferias do mundo para o norte global, com uma subordinação aos oligopólios das plataformas (Abílio et al., 2020); (b) para o sul global, o novo não é o gig ou a precariedade do trabalho, pois eles são historicamente a norma, como modo permanente de vida da classe trabalhadora. A novidade é justamente a dependência de plataformas para garantir a sobrevivência (Grohmann & Qiu, 2020). A América Latina também apresenta heterogeneidades em relação às plataformas mais utilizadas e às questões regulatórias (Cordero & Daza, 2020). O Brasil é um exemplo deste cenário de plataformização do trabalho, apresentando cerca de 23% dos usuários mundiais da Uber, que chegou ao país em 2014 (Amorim & Moda, 2020). Em 2019, aproximadamente 4.000.000 de brasileiros trabalham para as principais plataformas do país — Uber, 99, iFood e Rappi (Amorim & Moda, 2020). Os entregadores, em geral, ganham menos de 200$ por mês e são, tipicamente, brasileiros, negros e jovens (Aliança Bike, 2019) evidenciando as intersecções entre classe e raça que são históricas no país. A pandemia acelerou o processo de plataformização, com a crescente dependência das plataformas para conseguir subsistência. Em março de 2020, o número de pedidos em plataformas de entrega cresceu 77% no país, mas os entregadores estão trabalhando mais e ganhando menos, com mais concorrência (Abílio et al., 2020). De algum modo, a pandemia contribuiu com a visibilização destes trabalhadores, pois estes garantem a entrega de bens essenciais às pessoas que estão em isolamento social. Neste cenário, entregadores e motoristas que trabalham para as plataformas digitais estão mais expostos aos riscos de serem contaminados por covid-19. Em análise Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 22 As Estratégias de Comunicação das Plataformas de Trabalho . Rafael Grohmann, Cláudia Nonato, Ana Flávia Marques & Camila Acosta Camargo sobre as políticas de 123 plataformas em 22 países durante a pandemia, o relatório do projeto “Fairwork” (2020) aponta uma contradição entre as visões das empresas e dos trabalhadores. As empresas afirmam que estão comunicando todas as medidas aos trabalhadores, como a distribuição de equipamentos de proteção individual. Contudo, na visão dos trabalhadores, as promessas não se efetivaram. Muitos tiveram que pagar por produtos de proteção pessoal e tiveram negados os pedidos de auxílio por doença (Howson et al., 2020). Os pesquisadores do “Fairwork” (2020) apontam que, na melhor das hipóteses, as plataformas são lentas na adoção de medidas emergenciais e, na pior, estão mais preocupadas com as estratégias de relações públicas e com os consumidores do que com os trabalhadores. No Brasil, as condições de trabalho ainda mais precarizadas, somadas à exposição dos riscos e à visibilização destes trabalhadores como essenciais durante a pandemia, contribuíram para que os entregadores organizassem duas greves nacionais durante o mês de julho (1 e 25 de julho). Foram as maiores greves trabalhistas no país da última década, com auto-organização dos trabalhadores principalmente por mídias sociais, em um país de dimensões continentais. As principais reivindicações eram: aumento nas remunerações, o fim de bloqueios injustos e do sistema de pontuação, além do fornecimento adequado de equipamentos de proteção individual sem que os trabalhadores precisassem pagar por eles. Os entregadores apelaram, ainda, à solidariedade dos consumidores, pedindo que não solicitassem nada por aplicativos nos dias das greves (Abílio et al., 2021). Este é o pano de fundo para a análise que conduzimos sobre as estratégias de comunicação de quatro plataformas de transporte e entrega no Brasil. O contexto de pandemia e greve de trabalhadores colocou as empresas de plataformas sob escrutínio público e sentindo-se obrigadas a intensificar suas estratégias de comunicação, enquanto dimensão sígnica da luta de classes. Conforme Abílio et al. (2021), houve uma mudança na cobertura jornalística entre a primeira e a segunda greve dos entregadores. A mídia tradicional passou a ouvir cada vez mais os dados e as visões das empresas em detrimento da perspectiva dos trabalhadores. O contexto do trabalho em plataformas no Brasil contrasta, de um lado, o ponto de vista dos trabalhadores, conforme o cenário descrito acima, e, de outro, o ponto de vista das plataformas, que buscam controlar o discurso público a partir dos sentidos que circulam sobre si mesmas. A partir disso, conduzimos uma análise de conteúdo da comunicação de quatro plataformas (Uber, 99, iFood e Rappi) a partir das contas brasileiras1 nas seguintes mídias sociais — Instagram, Facebook, Twitter e YouTube — entre os dias 15 de junho e 15 de agosto de 2020, período justificado pelo contexto de greve e pandemia. As contas nas mídias sociais foram escolhidas por terem se tornado espaços por excelência de visibilidade e circulação de sentidos em contexto de plataformização (Leaver et al., 2020; Poell et al., 2019). Isto é, as mídias sociais apresentam centralidade para as estratégias de comunicação das plataformas, no sentido de promover e fazer circular positivamente 1 Exceto o YouTube da Uber, cujas postagens são feitas no canal global da empresa. Neste caso, selecionamos os vídeos em língua portuguesa. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 23 As Estratégias de Comunicação das Plataformas de Trabalho . Rafael Grohmann, Cláudia Nonato, Ana Flávia Marques & Camila Acosta Camargo as suas marcas (Scolere et al., 2018), isto é, seu ethos. Para além das materialidades específicas de cada plataforma (Bucher & Helmond, 2018), argumentámos que o ethos — e as estratégias de comunicação das plataformas — circula seus sentidos por meio das diferentes mídias sociais, que são um locus privilegiado da circulação de sentidos. Também ressaltamos que as estratégias de comunicação das empresas não se esgotam nas mídias sociais e que há outras possibilidades não analisadas por esta pesquisa, como textos jornalísticos e páginas oficiais, por exemplo. O corpus analisado encontra- -se na Tabela 1. Empresa Instagram Facebook Twitter YouTube Uber Seis posts Cerca de 417.000 seguidores Quatro posts Cerca de 22.000.000 de seguidores 60 tweets Cerca de 181.000 seguidores Quatro vídeos 402.000 inscritos 99 16 posts Cerca de 181.000 seguidores 13 posts Cerca de 847.000 seguidores 11 tweets Cerca de 101.000 seguidores Quatro vídeos iFood 29 posts Cerca de 860.000 seguidores 27 posts Cerca de 1.900.000 de seguidores 59 tweets Cerca de 270.000 seguidores 15 vídeos 504.000 inscritos Rappi Oito posts Cerca de 434.000 seguidores 13 posts Cerca de 976.000 seguidores 21 tweets Cerca de 72.000 seguidores Um vídeo 32.000 inscritos Tabela 1 Corpus da Pesquisa — Entre 15 de Junho e 15 de Agosto de 2020 De início, observamos irregularidades entre as diferentes plataformas e seus usos das mídias sociais. De todas as plataformas, a iFood é a que utilizou mais intensamente as mídias sociais. Enquanto Uber, iFood e Rappi fizeram mais postagens no Twitter, a 99 utilizou principalmente o Instagram. Essa irregularidade também acontece temporalmente em cada plataforma. A iFood, por exemplo, maior alvo das greves dos entregadores, intensificou suas publicações no mês de julho, mas depois da primeira semana de agosto, passou semanas sem nenhum post. A Rappi não postava desde agosto no Instagram e a Uber não atualizava sua página de Facebook desde junho de 2020. Das quatro empresas, apenas a Uber pode ser considerada, desde o início, como uma plataforma global. Com sede em San Francisco, está presente em 69 países e chegou ao Brasil em 2014. A 99 foi criada em 2012 por três empresários brasileiros e, inicialmente, destinava-se a apenas intermediar o contato entre taxistas e passageiros. Depois, tornou-se uma concorrente da Uber. Em 2018, a empresa foi vendida para a chinesa DiDi (Chen & Qiu, 2019), líder mundial no segmento. Do setor de entregas, a iFood é líder no Brasil, onde foi fundada em 2011. Atualmente, tem presença em outros países da América Latina, como México, Argentina e Colômbia. Já a Rappi foi fundada em 2015 na Colômbia e chegou ao Brasil em 2017. Esta promete entregar não só alimentos, mas qualquer coisa que o consumidor pedir, inclusive documentos. São as principais plataformas nos setores de entrega e transporte no Brasil, o que revela uma origem principalmente do sul global, especificamente da América Latina. Contudo, isso não significa que as estratégias de comunicação dessas plataformas sejam muito diferentes das baseadas Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 24 As Estratégias de Comunicação das Plataformas de Trabalho . Rafael Grohmann, Cláudia Nonato, Ana Flávia Marques & Camila Acosta Camargo no norte, pois elas são moldadas por ideologias coloniais e ligadas às plataformas nos Estados Unidos (Atanasoski & Vora, 2019; Davis & Xiao, 2021). Apresentação dos Resultados As estratégias de comunicação das plataformas em determinado período são fios que apresentam historicidades, não sendo objetos virgens (Bakhtin, 1979). A título de exemplo, os sites das empresas — que não estão em nosso corpus — são evidências de como circulam os sentidos das plataformas, apresentando-se como marcas cidadãs, com responsabilidade social e propósito. A Uber (s.d.) destaca a “cidadania global”. Já a 99 (s.d.) apresenta-se como uma empresa guiada por dados e que valoriza a diversidade. A Rappi afirma que seus “parceiros” trabalham “com amor” (https://www.rappi. com.br/). Este atributo também é destacado pela iFood (s.d.): “paixão por alimentação e tecnologia”. Além destes elementos, a comunicação das empresas é geralmente focada no consumidor, por exemplo, a Rappi afirma: “um aplicativo que está revolucionando a maneira que o brasileiro faz as suas compras” (https://www.rappi.com.br/). Especificamente, o corpus da pesquisa revela que os sentidos das plataformas circulam pelos diferentes meios simultaneamente. Elegemos quatro categorias a partir do corpus, tendo como pano de fundo a circulação de sentidos das plataformas nas mídias sociais. A primeira categoria — “saúde e pandemia” — é contextual e refere-se ao contexto de crise sanitária global. A segunda — “cidadania e diversidade” — é o centro das estratégias das empresas: os valores de cidadania e diversidade, como elementos discursivos de empresas com propósito e para o bem comum, em linha com pesquisas que analisam narrativas e racionalidade empreendedora (Casaqui & Riegel, 2016). As duas últimas categorias envolvem relações e representações com públicos interessados específicos. Por um lado, os influenciadores e as outras marcas ajudam a circular os valores das plataformas e a circular sentidos de credibilidade, como um trabalho de visibilidade (Abidin, 2016). Por outro, as representações dos trabalhadores pelas plataformas são parte da dimensão sígnica da luta de classes, com regimes de visibilidade e invisibilidade (Hall, 1997), em direção a conquistar a adesão de trabalhadores e da opinião pública. Saúde e Pandemia Na primeira categoria, a Uber adotou o slogan “sem máscara, sem viagem”. Esta campanha pode ser encontrada similarmente em outros países, com o mesmo texto em inglês “no mask, no ride”. No Brasil, especificamente, a empresa incorporou a máxima “padrão Uber de segurança” para estimular a associação de um imaginário que assume o “padrão Uber” como sinônimo de padrão de qualidade. Esta amplia tal entendimento para a segurança e proteção que a empresa oferece perante o contexto de pandemia. Em lettering de vídeo publicado no Twitter no dia 8 de julho de 2020, a empresa afirma estar “investindo mais de R$250.000.000 para fornecer máscaras, produtos de limpeza e higienização dos carros dos motoristas parceiros ao redor do mundo”. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 25 As Estratégias de Comunicação das Plataformas de Trabalho . Rafael Grohmann, Cláudia Nonato, Ana Flávia Marques & Camila Acosta Camargo A 99 e a iFood também afirmaram estar reunindo todos os esforços para proteger os trabalhadores dos riscos em relação à covid-19. Isso incluiu a divulgação de que distribuíram máscaras e álcool gel, além da doação de corridas para profissionais de saúde. A 99 também anunciou ações de higienização dos automóveis em estratégias de comunicação focadas no consumidor: “mais do que nunca, proteger você é prioridade para nós. O resultado? 1,5 milhão de corridas mais seguras sem nenhum custo a mais para você! Conte com a gente sempre que precisar se sentir ainda mais seguro”. Já a Rappi não se pronunciou sobre a pandemia entre junho e agosto de 2020 em suas contas em mídias sociais. Em geral, o trabalhador não tem voz na comunicação sobre questões de pandemia e saúde, em que as empresas priorizam números e medidas tomadas. O relatório do “Fairwork” (2020) sobre covid-19 mostra que as estratégias de comunicação sobre a pandemia são muito semelhantes ao redor do mundo, assim como as reivindicações dos trabalhadores em relação aos equipamentos de proteção individualizado, um dos pontos centrais da greve dos entregadores no Brasil (Howson et al., 2020). Cidadania e Diversidade Durante o período de análise, as plataformas celebraram o dia do orgulho LGBTQIA+. A Uber apresentou sentidos contra o preconceito, resgatando preceitos que já tinham sido destacados no carnaval brasileiro do mesmo ano, quando uma campanha de reforço ao respeito foi lançada pela Uber e, segundo informações do newsroom oficial da plataforma (Uber, 2020), teve como objetivo divulgar seu código de conduta. A Rappi fez uma campanha em parceria com uma marca de cerveja em que os pedidos iam com uma bandeira da causa LGBTQIA+ de presente. Os valores eram doados para uma organização não governamental. O slogan da campanha era: “celebre a diversidade onde estiver. Enfeite a sua janela e desfile o orgulho”. As doações também estiveram presentes nas estratégias de comunicação da 99: “doamos R$4 milhões em corridas para que os governos de todo o Brasil possam utilizar no transporte de quem não pode parar na pandemia. Nossos motoristas parceiros recebem 100% do valor dessas corridas”. Neste caso, o contexto da pandemia é utilizado para reafirmação de sentidos de cidadania, em contexto de políticas de austeridade (Brown, 2016). Este cenário também faz parte do ethos construído pela Uber, que patrocinou a iniciativa “Ciclofaixa de Lazer” na cidade de São Paulo. Em postagem no Twitter no dia 18 de julho, há uma fotografia de uma pessoa andando de bicicleta e vestindo uma máscara. Ela carrega a seguinte mensagem “quer voltar a pedalar em São Paulo? A Uber leva você”. Para a diretora da empresa no Brasil, “o chamado novo normal é uma oportunidade para todos nós, que moramos em São Paulo, repensemos o nosso relacionamento com o automóvel e como ele afeta a nossa cidade”. Desta maneira, a comunicação da empresa apresenta sentidos de sustentabilidade ambiental e saúde. Isso está em linha com um modelo de cidade neoliberal em que as plataformas buscam intervir nos espaços urbanos a partir de uma perspectiva empresarial (Morozov & Bria, 2018). Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 32 As Estratégias de Comunicação das Plataformas de Trabalho . Rafael Grohmann, Cláudia Nonato, Ana Flávia Marques & Camila Acosta Camargo dos trabalhadores, como no enunciado “bloqueio injusto, não”. Discursos como os de um diretor de políticas públicas — posição alinhada à racionalidade neoliberal e sua aplicação nos espaços urbanos — sobre a plataforma estar aberta às demandas dos trabalhadores são comuns com o propósito de mostrarem-se como empresas confiáveis perante os consumidores. Os trabalhadores são invisibilizados, representados como endividados, pessoas com sonhos, mas não como trabalhadores e, principalmente, como classe trabalhadora. Isto é, a partir da perspectiva da composição de classes (Cant, 2019), as plataformas procuram neutralizar a composição política da classe trabalhadora a partir de suas estratégias da comunicação, construir os imaginários de como seriam trabalhadores e consumidores ideais, em um circuito do trabalho em plataformas. Isso reforça o nosso argumento de que as estratégias de comunicação das plataformas são uma dimensão sígnica da luta de classes. Se o trabalho em plataformas é laboratório da luta de classes, as estratégias de comunicação estão no cerne desta luta. Referências Abidin, C. (2016). Visibility labour: Engaging with influencers’ fashion brands and #OOTD advertorial campaigns on Instagram. Media International Australia, 161(1), 86–100. https://doi. org/10.1177/1329878X16665177 Abílio, L. (2015). Sem maquiagem: O trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos. Boitempo. Abílio, L., Almeida, P., Amorim, H., Cardoso, A. C., Fonseca, V., Kalil, R., & Machado, S. (2020). Condições de trabalho de entregadores via plataforma digital durante a covid-19. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, 3, 1–21. https://doi.org/10.33239/rjtdh.v.74 Abílio, L., Grohmann, R., & Weiss, H. (2021). Struggles of delivery workers in Brazil: Working conditions and collective organization during the pandemic. Journal of Labor and Society. 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Notas Biográficas Rafael Grohmann é professor do Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, coordenador do Laboratório de Pesquisa DigiLabour, coordenador no Brasil do projeto “Fairwork”, da Universidade de Oxford, pesquisador financiado do projeto “Histories of artificial intelligence”, da Universidade de Cambridge, diretor fundador da Labor Tech Research Network e integrante do Conselho Científico do Center for Critical Internet Inquiry, da Universidade da California. Pesquisa trabalho em plataformas, organização de trabalhadores, cooperativismo de plataforma, plataformização do trabalho. Organizou o livro Os Laboratórios do Trabalho Digital e é editor da revista Fronteiras – Estudos Midiáticos. É doutor em ciências da comunicação pela Universidade de São Paulo,tendo feito um pós-doutoramento na Universidade Federal do Rio de Janeiro. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1063-8668 Email: [email protected] Morada: Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Avenida Unisinos, 950 – Cristo Rei – São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil Cláudia Nonato é doutora em ciências da comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). É professora convidada do Centro de Estudos Latino-americanos sobre Cultura e Comunicação (USP), vice coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (USP) e editora executiva da revista Comunicação & Educação (USP). Graduada em comunicação social (habilitação Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 37 As Estratégias de Comunicação das Plataformas de Trabalho . Rafael Grohmann, Cláudia Nonato, Ana Flávia Marques & Camila Acosta Camargo jornalismo) pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero (1990), especialista em gestão da comunicação (1999) e mestre em ciências da comunicação (2010), ambos pela Universidade de São Paulo. É integrante do Conselho Administrativo da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo, gestão 2019–2021, e do Conselho Consultivo da Agência Mural de Jornalismo das Periferias. É coautorado livro As Mudanças no Mundo do Trabalho do Jornalista (2013). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5447-9761 Email: [email protected] Morada: Escola de Comunicações e Artes da USP, Av. Prof. Lucio Rodrigues, 443, Butantã – São Paulo/SP Ana Flávia Marques é estudante do doutoramento em ciências da comunicação da Universidade de São Paulo. ORCID: https://orcid.org.br/0000-0002-3447-3506 Email: [email protected] Address: Escola de Comunicações e Artes da USP, Av. Prof. Lucio Rodrigues, 443, Butantã – São Paulo/SP Camila Acosta Camargo é doutoranda e mestre pelo Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) e bacharel em relações públicas pela mesma instituição. Professora colaboradora em Gestão Integrada da Comunicação Digital para Ambientes Corporativos (USP) e em Comunicação Organizacional e Relações Públicas (Cásper Líbero). Foi professora do curso de Relações Públicas no FIAM-FAAM Centro Universitário. Integra o Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (USP), onde participa atualmente de estudos sobre o trabalho de jornalistas na mídia alternativa. É ad hoc do Conselho Regional de Profissionais de Relações Públicas (Conrerp 2.ª Região). Coordenadora de comunicação do Instituto Saúde e Sustentabilidade e co-fundadora da consultoria Eixo Social. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1188-5014 Email: [email protected] Morada: Escola de Comunicações e Artes da USP, Av. Prof. Lucio Rodrigues, 443, Butantã – São Paulo/SP. Submetido: 19/09/2020 | Aceite:14/01/2021 Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional. Economia da Partilha e Práticas de Comunicação Organizacional em Tempos de Covid-19: Social Brands no Brasil e em Portugal João Francisco Raposo Centro de Jornalismo e Editoração, Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil Carolina Frazon Terra Programa de Pós-graduação em Comunicação, Faculdade Cásper Líbero, São Paulo, Brasil Resumo O artigo trata da relação entre as organizações pertencentes à economia da partilha e suas práticas, comportamentos e posturas de comunicação organizacional em função da pandemia do novo coronavírus. Definimos economia da partilha (sharing economy ou economia colaborativa) como os bens e serviços fornecidos pelas plataformas digitais da rede por meio do compartilhamento de recursos e da confiança. Tomamos como premissa a digitalização compulsória a que muitos negócios se viram submetidos e partimos para a reflexão a partir daí. Nossa análise, pautada pela pesquisa bibliográfica e exploratória, se localizou em marcas escolhidas intencionalmente, no Brasil e em Portugal, buscando refletir sobre o contexto da covid-19 e suas respectivas ações de comunicação em suas propriedades digitais ou em seus perfis de mídias sociais. Ilustramos estratégias de exposição e visibilidade comunicacional desde março até agosto de 2020, chegando a uma reflexão sobre a urgência em atuar ativamente em demandas sociais, caracterizando-as como social brands. Em nosso entendimento, uma marca social tem forte presença no digital, destaca-se com boas práticas de comunicação e, acima de tudo, possui uma estratégia de atuação que vai além do seu negócio ou do lucro direto não apenas durante um período de crise, mas também consciente de seu papel social e do impacto que sua atuação responsável gera. Palavras-chave economia da partilha, organizações, covid-19, comunicação organizacional, social brands Sharing Economy and Organizational Communication Practices in Times of Covid-19: Social Brands in Brazil and Portugal Abstract The paper deals with the relationship between organizations belonging to the sharing economy and their practices, behaviors and postures in organizational communication due to the pandemic of the new coronavirus. We define the sharing economy (or collaborative economy) as the goods and services provided by the digital platforms of the network through the sharing of resources and trust. We take as a premise the compulsory digitalization that many businesses have been subjected to and we started the reflection from there. Our analysis, based on bibliographic and exploratory research, was located in brands chosen intentionally, in Brazil and Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021, pp. 39-56 https://doi.org/10.17231/comsoc.39(2021).2851 Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 40 Economia da Partilha e Práticas de Comunicação Organizacional em Tempos de Covid-19 . João Francisco Raposo & Carolina Frazon Terra Portugal, seeking to reflect on the context of covid-19 and its respective communication actions in their digital properties or in their social media profiles. We illustrated strategies for exposure and communicational visibility from March until August 2020, reaching a reflection on the urgency to act actively in social demands, characterizing them as social brands. In our understanding, a social brand has a strong presence in digital, stands out with good communication practices and, above all, has a performance strategy that goes beyond its business or direct profit not only during a period of crisis, but also aware of its social role and the impact that its responsible performance generates. Keywords sharing economy, organizations, covid-19, organizational communication, social brands Introdução O objetivo do artigo é discutir o papel das organizações diante do atual cenário de hiperdigitalização, que, em função da pandemia causada pelo coronavírus em 2020, impactou diretamente ações, posturas, funções e repercussões das marcas. Refletimos sobre suas práticas em contextos de crise, sob a luz de conceitos ligados à economia da partilha, comunicação organizacional e a consequente necessidade de manutenção de presença e de engajamento nas plataformas de mídias sociais digitais durante a covid-19. A metodologia predominante é a pesquisa bibliográfica e exploratória adicionada de exemplos escolhidos por amostra intencional do mercado da partilha de Portugal e do Brasil. Segundo Flick (1998/2009), uma revisão da literatura teórica e empírica sobre temas de interesse ajuda na exploração de novas perspectivas, além da possibilidade de estudos comparados. Já a pesquisa exploratória nos permitiu construir hipóteses, testar insights para que, ao final, pudéssemos inferir comportamentos das organizações, em termos de comunicação, por conta da ou recrudescidos pela pandemia. Por economia da partilha, sharing economy ou economia colaborativa, entendemos, de modo geral, os bens e serviços fornecidos pelas plataformas digitais da rede por meio do compartilhamento de recursos e da confiança. Gata (2016) reforça que consiste em uma nova roupagem de uma antiga prática humana: a partilha, que se dá entre agentes econômicos de ativos normalmente subutilizados, e é mediada hoje por uma plataforma online. Para o autor, não há ainda um consenso sobre o conceito de tal prática, mas em todos parece claro que esta oportuniza o encontro de dois lados do mercado — fornecedores e consumidores — com relações digitalizadas e horizontais na forma de um consumo colaborativo. Saturnino (2018), por sua vez, acredita que marcas como Airbnb, Uber, Glovo, entre outras — hoje as maiores representantes desta economia — validam e reinventam o capitalismo, agora de plataforma (De Stefano et al., 2017; Huws, 2014), também chamado de “gigeconomy, sharing economy, on-demand economy, next industrial revolution, surveillance economy, app economy, attention economy” (Srnicek, 2017, p. 25). São novas formas de organização, novos modos de consumo e novos modelos de negócios pautados por cooperação e confiabilidade entre pessoas desconhecidas. Sobre a relação entre Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 41 Economia da Partilha e Práticas de Comunicação Organizacional em Tempos de Covid-19 . João Francisco Raposo & Carolina Frazon Terra economia da partilha e comunicação, Filgueiras e Antunes (2020) reforçam que estão ligadas pelas identidades típicas das TIC [tecnologias de informação e de comunicação]: 1) contatos on-line entre produtores e consumidores; trabalhadores e empresas; 2) uso de aplicativos ou plataformas para acesso em computador ou instrumentos móveis de comunicação; 3) uso abrangente de dados digitais para a organização e gestão dessas atividades; 4) relações estabelecidas por “demanda” (ou seja, que resultam de arranjos por cada produto, desprovidos de segurança jurídica capaz de garantir sua continuidade). (p. 31) Cunhamos o termo “social brands” por entendermos que as organizações se encaixam hoje em um conceito que vai além da prática de responsabilidade social, algo já consolidado na literatura e respeitado por nós. Pelo fato de o digital ter se tornado ainda mais central durante a covid-19, idealizamos o conceito para dizer que uma social brand é uma marca com forte presença no digital, com boas práticas de comunicação e, acima de tudo, uma estratégia de atuação que vai além do seu negócio ou do lucro direto durante um período de crise. Significa ser uma organização que se adapta ao contexto — em especial, ao do coronavírus — e, consequentemente, busca modificar o ecossistema no qual está inserida. Tal comportamento não é algo exclusivo das marcas da economia da partilha, mas buscamos, de modo intencional, exemplos deste mercado para tentar compreender de que modo tais empresas — que possuem ligação direta com as TIC (Filgueiras & Antunes, 2020) e estiveram na linha de frente durante a pandemia — se comunicaram junto a seus públicos de interesse, sejam eles consumidores ou a sociedade civil em geral. Como maneira de ampararmos o conceito, nos apoiamos em Sarkar e Kotler (2020) no livro Brand Activism: From Purpose to Action (Ativismo de Marca: Do Propósito à Ação), que sustenta que hoje as marcas não têm mais o direito de escolher em que causas devem ou podem se engajar. E nem é possível ser neutro também. Os autores sentenciam que os futuros consumidores estão tomando as ruas e protestando contra injustiças sociais. E o papel das organizações é ajudar a solucionar e não a agravar os maiores problemas do mundo. Na seção de notas ao leitor, ainda reforçam que, agora, queiramos ou não, todos somos ativistas de marca. Outra questão que colabora na sustentação do termo social brands reside no estudo da Edelman (2018b), que ressalta que as marcas são compelidas, atualmente, a se posicionarem a respeito de causas sociais e, muitas vezes, até de outras esferas como a política: o estudo revela também que os consumidores acreditam que as empresas são uma força mais efetiva de mudança do que o governo. No Brasil, 63% dos entrevistados afirmam que as marcas podem fazer mais para solucionar problemas sociais do que o governo, e 62% acreditam que é mais fácil fazer com que as marcas resolvam problemas sociais do que conseguir que o governo aja. “Os consumidores estão depositando nas empresas seus Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 48 Economia da Partilha e Práticas de Comunicação Organizacional em Tempos de Covid-19 . João Francisco Raposo & Carolina Frazon Terra O Contexto da Covid-19 e a Movimentação das “Marcas da Partilha” no Brasil e em Portugal Lotto (2020) observa que, a partir da classificação do coronavírus como pandemia feita pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o conteúdo conversacional das redes sociais digitais começou a ganhar grande importância. O consumo de informação e a busca de vídeos no YouTube sobre o tema, por exemplo, ganharam novos caminhos e novos interesses. E, assim, em um cenário de incertezas, as marcas começaram a se posicionar e adaptar seus conteúdos à situação de pandemia. Ações como diminuição do contato humano, distribuição de álcool em gel, quarentena para colaboradores após viagens internacionais, pagamento via aplicativo e trabalho em modo home office para a área administrativa compuseram uma grande lista de medidas adotadas pelas organizações, em especial as que trabalham com entregas ou transportes via plataformas digitais (Pichonelli, 2020). De acordo com o mais recente relatório 2020 Global Communication Report (Relatório de Comunicação Global de 2020; USC Annenberg, 2020, p. 35), o declínio da confiança na política e a falta de ação dos governos mundo afora favoreceram que marcas e organizações assumissem funções sociais e o digital possui função basilar e estruturante neste processo. No relatório refere-se ainda que tal atividade pode ser capaz de favorecer diretamente a reputação das marcas, tornando-as capazes de obter uma perspectiva importante sobre como usar sua influência para provocar mudanças sociais significativas. Com a ascensão de consumidores cada vez mais conscientes e conectados, as organizações que se posicionam podem angariar também uma maior vantagem competitiva. Diante do discutido acima, destacamos, de seguida, algumas posturas comunicacionais das marcas durante a covid-19. Comunicação Para Além da Comunicação Castro (2020) considera que, em tempos de crise, é preciso ser estratégico em termos de comunicação, e que consistência pode ser a palavra de ordem. Além disso, a autora reforça que, em tal contexto, “comunicar significa manter-se presente e mostrar- -se como empresa socialmente relevante, responsável e idônea” (Castro, 2020, para. 6). E completa: diante dos graves acontecimentos, mais que nunca se torna relevante a importância estratégica de uma comunicação que ajude a tornar sua empresa presente e perene, que evidencie do modo correto os valores, a missão e o posicionamento de marcas e corporações junto a seus públicos de interesse. (Castro, 2020, para. 4) No Brasil, a 99, empresa de transporte por aplicativo, criou um fundo especial de 10.000.000R$ para auxílio dos motoristas (Pichonelli, 2020) e suspendeu as corridas compartilhadas. O site trouxe medidas chamadas de “pacote de proteção 99” para Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 49 Economia da Partilha e Práticas de Comunicação Organizacional em Tempos de Covid-19 . João Francisco Raposo & Carolina Frazon Terra impactar a sociedade e colaborar no combate à covid-19 por meio de doação de máscaras e álcool gel, além da higienização e colocação de escudos de proteção nos veículos parceiros (99, s.d.). A marca criou também uma edição especial do podcast Papo de Motora para informar aos motoristas da 99 sobre a pandemia do coronavírus. Em Portugal, a empresa Uber anunciou em comunicado 12.000 viagens gratuitas, até ao valor de 10€ cada, visando colaborar com os profissionais de saúde portugueses, além de oferecer 5.000 refeições até 15€ para a equipe do Serviço Nacional de Saúde, via Uber Eats (Lusa, 2020). Com isso, a marca conseguiu visibilidade nos veículos de mídia locais e comentários nas plataformas de mídias sociais. Isto é, suas ações de cooperação com a sociedade acabaram por ganhar mídia espontânea. No Brasil, a Uber retirou o modelo de corridas compartilhadas entre várias pessoas com o mesmo motorista, e divulgou, em seu site, uma medida de suspensão temporária de contas de usuários ou parceiros de seus colaboradores, após a confirmação de que contraíram ou foram expostos à covid-19 (Pichonelli, 2020). A Glovo, empresa espanhola de entregas que não atua mais no Brasil desde 2019, mas possui forte presença em Portugal, realizou diversas ações que acabaram por culminar em divulgação tanto nas mídias tradicionais portuguesas, quanto nas sociais digitais. Em matéria no site Grande Consumo (“Visa Junta-se à Glovo Para Incentivar o Pagamento com Cartão”, 2020, para. 5), por exemplo, o country manager da Glovo em Portugal, Ricardo Batista, destacou que firmou parceria com a marca mundial de pagamentos Visa para apoiar a população durante a fase de confinamento e, consequentemente, se alinhar aos novos hábitos de consumo com pagamentos feitos em cartão e sem contato. Olivetto em entrevista a Scheller (2020) arremata a questão reforçando a importância das organizações se conscientizarem em relação à comunicação mercadológica que foge ao tradicional marketing que já conhecemos: “é hora de informar o cliente, e não de persuadi-lo a comprar, de tentar vender alguma coisa” (para. 5). Marcas Empáticas e Influenciadoras Digitais Algumas organizações tomaram iniciativas ágeis em relação à pandemia e se mostraram empáticas, como o caso da plataforma digital brasileira de e-commerce, MercadoLivre, que alterou seu tradicional logo, conhecido por um aperto de mãos, para um toque de cotovelos, a nova “etiqueta” endossada pela OMS para o mundo da covid-19. Em seu website, em um blog voltado para seus parceiros chamado Central de Vendedores, a marca criou conteúdo exclusivo com a tag “covid-19” (https://vendedores. mercadolivre.com.br/tag/COVID-19/), com tópicos para ajudá-los a manter e seguir com suas lojas online durante a pandemia. Temas variaram entre boas práticas para receber e enviar pacotes, melhorar as finanças e receber o auxílio emergencial do governo brasileiro, dentre outros. A Magalu, uma das maiores redes varejistas do Brasil e com forte apelo no digital, lançou no final de março de 2020 uma plataforma de vendas grátis para micro varejistas Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 50 Economia da Partilha e Práticas de Comunicação Organizacional em Tempos de Covid-19 . João Francisco Raposo & Carolina Frazon Terra e profissionais autônomos locais manterem seus negócios durante a crise da covid-19 (Magalu Cria Plataforma Onde Pequenas Empresas Podem Anunciar Produtos, 2020). A iniciativa transformou a marca em um marketplace com características da economia da partilha visando colaborar, de maneira empática, para que milhões de brasileiros pudessem trabalhar no comércio eletrônico, tendo a marca como plataforma, sem sair de casa e sem correr riscos durante a pandemia. No Blog da Lu (https://missaodigital. magazineluiza.com.br/?s=COVID-19), a empresa produziu conteúdo de interesse sobre prevenção e informações do coronavírus, o que Terra (2021) classifica como uma postura organizacional de influência digital por meio de conteúdo desintermediado para “municiar o público com informações e influenciar a formação de uma opinião favorável aos seus interesses institucionais ou comerciais” (p. 70). Organizações Preocupadas Com Seu Público Interno Além de reverberar ações voltadas para os clientes, as organizações também estão se preocupando com seus públicos internos. Terra (2021) ressalta que os funcionários das organizações são “o primeiro exército de divulgação de uma marca e, se bem estimulados, podem ser um valioso ativo nas difusões de conteúdo” (p. 49), atuando como um tipo de microinfluenciadores organizacionais. Talvez isso explique hoje a importância do papel do colaborador, não só dentro do ecossistema corporativo, mas (e principalmente) fora dele, uma vez que é capaz de influenciar diretamente a reputação e a imagem das organizações, que já estão atentas a esse processo. A empresa brasileira de entregas iFood, uma das maiores do país e da América Latina, criou, em parceria com uma seguradora, a ação “Seguro de Vida Covid-19” para as famílias dos entregadores que venham a ter casos confirmados da doença (iFood, s.d.). A medida reforça o cuidado e a proteção com seus “colaboradores” por parte da organização, logo após protestos da categoria por todo o Brasil reivindicarem melhores condições de trabalho, incluindo “auxílio pandemia” para familiares (Entregadores de Aplicativos Fazem Manifestações Pelo País, 2020). O CEO do Airbnb, que se viu obrigado a fazer demissões em massa em todo o mundo, enviou a seus funcionários demitidos uma carta em que explicava os motivos e também oferecia serviços para ajudar em sua recolocação no mercado de trabalho. A carta aberta, disponível no site da empresa (Airbnb, 2020), ficou marcada como uma atitude honesta e transparente, mesmo diante de uma situação tão avessa e passível de crise não só econômica, mas também de imagem para a marca. Marcas Prestadoras de Serviços à Comunidade A Kantar apresentou em um estudo (Gambarro, 2020) que a população espera que as empresas sejam úteis na nova vida cotidiana e que informem quais estão sendo seus esforços para enfrentar a situação atual, além do simples anúncio de produtos ou serviços. No estudo, o público sinalizou que espera que as marcas sirvam de exemplo. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 51 Economia da Partilha e Práticas de Comunicação Organizacional em Tempos de Covid-19 . João Francisco Raposo & Carolina Frazon Terra A Glovo criou em seu website português uma página contendo uma série de medidas educativas para a prevenção da covid-19 tanto dos estafetas quanto dos clientes. E em respeito aos seus entregadores, afirmou que ajudaria a quem, porventura, fosse contaminado com a doença durante o período de recuperação exigido para os cuidados médicos (Glovo, s.d.). A economia da partilha sofreu enormes impactos em muitos setores, como no de hospedagens, por exemplo, mas ganhou em outros, como no dos coworkings. O CEO do Avila Spaces, Carlos Gonçalves, destacou no Instagram da marca portuguesa que, assim como na crise de 2008, a reinvenção das empresas passa muitas vezes por alterarem o seu modelo de trabalho. No contexto actual, há milhares de empresas a adoptar o escritório virtual, não só pela racionalização de custos (desde 55 Eur/mês +IVA, no centro de Lisboa), mas também pela eficiência e agilidade. (Avila Spaces, 2020) A empresa portuguesa Lacs, que oferece espaços de trabalho flexíveis e experiências corporativas, utilizou seu blog para mesclar o contexto da pandemia com o seu conteúdo usual, chamando a atenção de possíveis interessados em seus serviços e networking. Em um post sobre o coworking para além das organizações do tipo startup, sinalizou: “a nova forma de trabalho, imposta pela pandemia causada pela covid-19, veio revolucionar a forma como as grandes empresas, de diferentes áreas, olham para os seus espaços de trabalho” (Lacs, 2020, para. 1). E completou: espaços físicos para muitos colaboradores e trabalho remoto combinados, cumprimento de medidas de segurança, higiene e distanciamento, adicionando o networking, são o futuro normal. Esta forma de trabalhar, impulsionada por startups, empreendedores e freelancers está a espalhar-se cada vez mais para as médias e grandes empresas, que começam a perceber os benefícios de um espaço de trabalho partilhado e do trabalho flexível. (Lacs, 2020, para. 2) É possível perceber como marcas e organizações estão assumindo cada vez mais para si papéis sociais que antes eram atributos de instituições governamentais. Questionamos, assim, se há alguma outra opção para as organizações do que não se tornarem hoje social brands. Na economia da partilha, isso não é diferente. Muitas se adiantaram com doações, providências e comunicação para se posicionarem como marcas cooperativas e solidárias em relação à atual situação de pandemia. Considerações Finais e Reflexões Para o Futuro Acreditamos que adaptar e valer-se do cenário presente podem ser consideradas formas de legitimação de imagem por parte das marcas junto a seus públicos, sobretudo no meio digital. Para Kunsch (2017), as organizações não mudam porque querem, Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 52 Economia da Partilha e Práticas de Comunicação Organizacional em Tempos de Covid-19 . João Francisco Raposo & Carolina Frazon Terra mas por pressões sociais e mercadológicas, e isso transforma constantemente o pensar, o planejar e o executar estrategicamente a comunicação organizacional no dia-a-dia. Na economia da partilha, as organizações vivem o que Saturnino (2018) chamou de “supervalorização da reputação digital” por meio de um sistema próprio que ele denominou “revisão bilateral” (p. 3), criando confiabilidade e vigilância autorregulável dos pares — no caso, parceiros e consumidores de seus serviços. Assim, compreendemos que ações como social brands são também um trabalho reputacional por meio da cooperação, do compartilhamento, em seu sentido amplo, e da colaboração em rede, estratégias cada vez mais cruciais em tempos de transparência, crise, relacionamento, exposição e visibilidade. Segundo Lotto (2020), a hora é de investimento em tempo e em alternativas para que as marcas se façam úteis às suas audiências, evitando oportunismos e oferecendo conforto e ajuda em novas demandas. Sobrevivem as organizações que se adaptam ao contexto no qual estão inseridas e diante de situações imprevisíveis. Durante a pandemia do novo coronavírus, as organizações se viram obrigadas a lançar mão de novas estratégias de ação e também de comunicação em relação ao ecossistema social. Consideramos, assim, que as marcas atuaram como verdadeiros agentes de influência por meio da empatia, do conteúdo informativo e de ações para o coletivo. Retomamos aqui dois pensamentos de Terra et al. (2019, p. 17), que julgamos essenciais para a compreensão da comunicação das organizações na esfera digital contemporânea: • O meio digital, sobretudo as plataformas de mídias sociais, é hoje essencial em termos de competências para as marcas, sendo seu domínio uma nova e estruturante habilidade para o fazer comunicacional contemporâneo. Em tempos de covid-19, se firma como central e funcional, não só na transmissão de informações, mas também em seus usos para entretenimento, serviços e convívio social. Assim, organizações que dominam suas linguagens e regras podem ser capazes de destacar, em especial as nativas digitais, como as marcas da partilha, por exemplo. • Durante a pandemia do coronavírus, devido à centralidade do digital, é possível que mais e mais dados tenham sido gerados na rede e em suas plataformas digitais, possibilitando às marcas uma maior gama de possibilidades para utilizar o data driven (orientado por dados, em tradução literal) para (re)adaptar e propagar sua comunicação. Os exemplos discutidos neste artigo servem como prova da hipótese de que a comunicação organizacional, em especial a digital, é capaz de funcionar em modo beta, adaptando-se estratégica e constantemente ao contexto sociocultural — no caso, da pandemia da covid-19 — para continuar seu trabalho de relacionamento como agentes influentes da comunidade. E toda a mídia espontânea advinda das ações das marcas frente ao coronavírus se torna, assim, o encontro entre aquilo que as organizações estão fazendo e a necessidade de se noticiar/divulgar/propagar tais iniciativas com objetivos também reputacionais. Acreditamos que isso possua valor ímpar para as organizações da partilha, criticadas por questões legais e trabalhistas, como já mencionado. Isto posto, compreendemos que, para ser uma social brand, é preciso ter capacidade de readaptação, de empatia e de ir além do planejado com agilidade, especialmente no que diz respeito à comunicação. Algo que acreditamos que não seja mais uma escolha, mas uma necessidade do mundo pós covid-19, especialmente para grandes organizações e marcas de quem se espera que exerçam um papel adicional ao de apenas anunciar e vender. Consideramos ainda que as organizações do futuro devem estar Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 53 Economia da Partilha e Práticas de Comunicação Organizacional em Tempos de Covid-19 . João Francisco Raposo & Carolina Frazon Terra preparadas para gerenciar eventos inesperados e questões controversas, muitas vezes fora de suas zonas de conforto ou atuação. A economia da partilha, mesmo com todas as mudanças no mundo agenciadas pelo coronavírus — em especial no que diz respeito ao consumo —, pode ser uma aposta para o futuro e sua “nova normalidade”. Não descartamos toda a regulamentação trabalhista e de concorrência necessárias, seja no Brasil ou em Portugal, para que tais empresas efetivem um comprometimento para além da comunicação de crise, em especial na pandemia. Pelo contrário: acreditamos que deve ser aliada a um compromisso social, ético e cultural/organizacional para além do oportunismo e do simples “levantamento de causas e bandeiras” em momentos específicos, o chamado “social washing”4. Crises são capazes de trazer ameaças e oportunidades ao mesmo tempo, e esperamos que o social branding seja de fato incorporado ao propósito e à cultura das marcas — de modo holístico e para além da covid-19 — na busca por mais transformações sociais e mais “partilha” com a sociedade além da captura de atenção das audiências e da venda de produtos e serviços. Nosso ensaio não tem a pretensão de esgotar o tema, reduzi-lo, nem criar uma nova terminologia para os estudos do campo. Também não buscamos fazer previsões ou futurologia. Entendemos que o mundo não é mais o mesmo, assim como a comunicação das marcas e, pelo que vimos, as demandas de seus públicos, cada vez mais rigorosos e conectados. Referências Airbnb. (2020, 5 de maio). 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YF0Jb0hKiuU Notas Biográficas João Francisco Raposo é publicitário pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, especialista em gestão estratégica da comunicação digital, doutorando e mestre em ciências da comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. É pesquisador do grupo Com+ (Comunicação, Mídia e Jornalismo Digitais) da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e consultor de comunicação digital. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7863-8026 Email: [email protected] Morada: Escola de Comunicações e Artes da Universidade de S.Paulo; Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443 – Cidade Universitária – CEP 05508-020 – São Paulo – SP – Brasil Carolina Frazon Terra concluiu seu pós-doutorado abordando organizações e influência digital, é pesquisadora do grupo de pesquisa Com+ (Comunicação, Mídia e Jornalismo Digitais) da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, consultora de mídias sociais e relações públicas digitais, professora stricto sensu na Faculdade Cásper Líbero e em pós-graduações da Universidade de São Paulo. Autora de diversos livros, entre eles Blogs Corporativos: Modismo ou Tendência?; Mídias Sociais e Agora?; Marcas Influenciadoras Digitais. ORCID: http://orcid.org/0000-0003-4016-3747 Email: [email protected] Morada: Faculdade Cásper Líbero; Av. Paulista, 900 – Bela Vista - CEP 01310-940 - São Paulo/SP; Brasil Submetido: 15/09/2020 | Aceite: 18/01/2021 Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional. “Breque dos Apps”: Uma Análise Temporal de Comunidades e Influenciadores no Debate Público Online no Twitter Victor Piaia Diretoria de Análise de Políticas Públicas, Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro, Brasil Eurico Matos Diretoria de Análise de Políticas Públicas, Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro, Brasil Sabrina Almeida Diretoria de Análise de Políticas Públicas, Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro, Brasil Dalby Dienstbach Diretoria de Análise de Políticas Públicas, Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro, Brasil Polyana Barboza Diretoria de Análise de Políticas Públicas, Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro, Brasil Resumo O objetivo deste artigo é examinar a dinâmica do debate nas plataformas de redes sociais sob a perspectiva da identidade e da ação coletiva. Mais especificamente, buscamos identificar quem foram os atores centrais no Twitter em torno do debate sobre duas paralisações de entregadores de aplicativo contra o regime e as condições de trabalho durante o período da pandemia (UberEats, iFood, Rappi, etc.) ocorridas a 1 e 25 de julho de 2020 no Brasil. Examinamos, além disso, se os perfis mais influentes protagonizaram a formação de comunidades em torno de sua interpretação sobre esse tema. Para isso, coletamos um total de 535.178 tweets publicados em dois episódios de manifestações dos trabalhadores, ocorridos entre junho e julho de 2020. A partir da análise temporal de clusters, identificamos o momento de entrada de cada comunidade no debate sobre o tema e discutimos como perfis de influenciadores, movimentos sociais, políticos e celebridades desempenharam funções centrais na mobilização de apoiadores e no engajamento público ligado às manifestações nas redes. Os resultados mostram que a mobilização social em ambientes digitais ocorre a partir de interações entre grupos com grande envolvimento com as causas defendidas e perfis de atuação mais efêmeros, cuja participação é fundamental para a promoção e divulgação dos atos. Palavras-chave identidade coletiva, ação coletiva, plataformas de redes sociais, Twitter, Breque dos Apps Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021, pp. 57-81 https://doi.org/10.17231/comsoc.39(2021).2855 Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 64 “Breque dos Apps” . Victor Piaia, Eurico Matos, Sabrina Almeida, Dalby Dienstbach & Polyana Barboza de uma postagem entre dois perfis de usuários da rede: um perfil que retuita (ou compartilha) — isto é, do qual parte a interação — e um perfil que é retuitado — ao qual chega a interação. Mapas de interações são representados sob a forma de grafos (por exemplo, Recuero, 2017), que são sociogramas cujos nós correspondem aos perfis das interações e cujas arestas correspondem às interações entre eles, ou seja, aos retuítes. Para esta análise, a visualização dos grafos foi gerada por meio da aplicação livre Gephi (https://gephi.org/; Gephi Consortium). Por meio dessa ferramenta, é possível identificar a formação de comunidades baseada na relação que os perfis estabelecem entre si, atuando como ponte desta relação o conteúdo compartilhado ou retuitado. Para isso, utilizamos o algoritmo Louvain (Blondel et al., 2008) como método de detecção de comunidade, com o objetivo de maximizar a modularidade, que é uma métrica cujo cálculo compara a quantidade de arestas intra e inter-comunidade, medindo a densidade do agrupamento. Para este estudo, consideramos comunidades proeminentes aquelas que concentraram 5% ou mais dos perfis que participaram do debate, o que resultou em oito comunidades no primeiro período. Para possibilitar a comparação entre os dois períodos, optamos por manter essa quantidade de grupos quando observamos a formação de clusters (comunidades) no segundo período analisado. Além disso, aferimos o grau de importância dos atores que compõem a rede, buscando examinar se esses constituem, em torno de si, uma rede de perfis que compartilham seu conteúdo e sua interpretação do fenômeno debatido. Em um momento posterior, cada corpus — que compreende um período de 4 dias (ou de 96 horas) — foi segmentado em 16 subcorpora, compostos por postagens feitas a cada 6 horas. Sendo assim, além dos grafos com o total de interações em cada corpus, foram gerados grafos com as interações em cada subperíodo de 6 horas. Essa segmentação das interações no plano temporal permite se acompanhar a entrada dos perfis no debate, bem como a evolução das respectivas interações entre eles, ao longo de cada período analisado. Análise dos Resultados Com dados coletados da API do Twitter, a partir da busca realizada com base na instrução linguística descrita anteriormente, analisamos um total de 535.178 publicações na rede, feitas em dois períodos distintos das manifestações de entregadores de aplicativos (Figura 1). Sobre a manifestação que ocorreu no dia 1 de julho, foram coletados tuítes publicados (a) entre 29 de junho e 3 de julho, período que contempla o dia anterior à manifestação, ou seja, de organização do movimento e de apelo por apoio aos manifestantes; (b) no dia da ação nas ruas, em que as publicações expressam apoio e, também, críticas aos protestos; e (c) nos dias posteriores à manifestação, quando o número de mensagens com menção ao movimento diminui. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 65 “Breque dos Apps” . Victor Piaia, Eurico Matos, Sabrina Almeida, Dalby Dienstbach & Polyana Barboza Figura 1 Grafo Completo de Interações Sobre o “Breque dos Apps” (Dados Coletados Entre 30 de Junho e 3 de Julho) Nesse primeiro momento, em termos quantitativos, o debate sobre o “Breque dos Apps” no Twitter mobilizou 180.985 perfis e 432.430 tuítes, dos quais 350.562 eram retuítes (81,06%). A partir dessas publicações, foram realizadas análises em torno da rede de interações que essas publicações engajaram, isto é, em torno das comunidades que se formaram a partir dos retuítes, que envolvem sempre dois perfis, o que retuita e o que é retuitado. Por meio do método Louvain (Blondel et al., 2008), foram detectadas oito comunidades que se destacaram no debate sobre o “Breque dos Apps” nesse período. A comunidade que agregou o maior número de perfis, representada na figura acima pela cor vermelha, contou com a mobilização de 16.721 perfis distintos, ou seja, de 10,8% dos usuários que participaram do debate. Compõem essa comunidade perfis de atores e organizações políticas à esquerda no espectro ideológico, tais como os políticos @ MarceloFreixo, @samiabomfim e @GuilhermeBoulos, e a representação do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados (@PTnaCamara), e líderes ou movimentos sociais com pautas progressistas (@J_LIVRES e @LeonelRadde). Em termos de número de interações, cabe destacar que esse cluster reuniu mais de 60.000 retuítes, o que corresponde a 19,6% da amostra de interações entre os clusters mais proeminentes, segundo o método Louvain. Outro cluster que se destaca, em cor laranja, concentrou 8% dos perfis que participaram do debate (N = 12.338). É importante notar que, embora seja uma comunidade proeminente, este cluster está fortemente centralizado no perfil @tretanotrampo, um dos perfis responsáveis pela organização da manifestação dos entregadores. Em termos Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 66 “Breque dos Apps” . Victor Piaia, Eurico Matos, Sabrina Almeida, Dalby Dienstbach & Polyana Barboza de conteúdo, o perfil focou, ao longo do período analisado, na publicação e na repercussão de vídeos publicados pelos entregadores durante as manifestações de rua. Ainda sobre a participação de perfis únicos na formação de comunidades, cabe destacar a importância dos perfis das ativistas @gabriolaz e @anarcopedagoga nos clusters rosa e lilás, respectivamente. Juntas, essas comunidades formadas em torno dessas duas ativistas agregaram 13,2% dos usuários que participaram do debate sobre o “Breque dos Apps”. Ainda no que se refere à atuação de ativistas, cabe destacar o papel central do perfil @galodeluta no debate sobre a mobilização dos entregadores no Twitter. Esse perfil compõe o cluster amarelo, do qual fazem parte 8.970 perfis, ou seja, 5,8% dos usuários que participaram do debate sobre o “Breque dos Apps”. Embora o número de participantes envolvidos nessa comunidade seja menor em comparação com as demais comunidades, vale destacar que essas publicações mobilizaram 7,6% das interações mapeadas por esta pesquisa; esse é um número maior do que as interações que constituem o cluster lilás, por exemplo. Por fim, cabe destacar a formação de uma comunidade de perfis que atuaram de modo disperso, no entorno do núcleo central da rede, formada pelos atores mais proeminentes no debate sobre o “Breque dos Apps”. Trata-se do cluster azul, formado por 9.711 perfis, ou seja, por 6,4% dos usuários que interagiram no Twitter sobre a manifestação dos entregadores. Apesar de nenhum perfil se destacar de modo tão proeminente quanto nos demais clusters, podemos observar que esses perfis tiveram uma atuação descentralizada e focada principalmente na crítica às pautas apresentadas pelos manifestantes, nos efeitos da paralisação e na falta de legitimidade do movimento. São exemplos de mensagens críticas ao movimento: “greve de autônomo é tipo morar sozinho e fugir de casa”5 (@CorrupcaoMemes), “o Brasil é o país em que o ‘motoboy antifascista’, autônomo, faz ‘greve’ para ter a CLT fascista”6 (@Ilisp_org) e “greve de autônomos é tão eficiente quanto andar de carro blindado com os vidros abertos”7 (@spinellirio). Em geral, publicações dessa natureza concentram apenas 4% das interações em forma de retuítes, o que significa um número relativamente reduzido se comparado à somatória das interações dos demais clusters que buscavam expressar apoio aos manifestantes. As comunidades representadas pelas cores marrom e verde são formadas por apoiadores da manifestação e convergem em termos de usuários que as compõem. O cluster marrom se estrutura em torno de uma mensagem de apoio à manifestação publicada pela artista @lyanzr — a mensagem recebeu mais de 8.476 retuítes. Essa comunidade é a que agregou o menor número de interações ao longo da primeira manifestação (3,3%). O cluster verde, por sua vez, apresenta uma estrutura mais dispersa em termos da distribuição de importância entre os perfis. Compõem essa comunidade 5,1% dos usuários que publicaram sobre esse tema. Por fim, cabe destacar, ainda sobre a primeira mobilização, a importância de perfis como o do humorista @gduvivier e da criadora de conteúdo de educação financeira 5 Retirado de https://twitter.com/CorrupcaoMemes/status/1278380178469801986 6 Retirado de https://twitter.com/Ilisp_org/status/1278492844144156673 7 Retirado de https://twitter.com/spinellirio/status/1278357171516964866 Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 67 “Breque dos Apps” . Victor Piaia, Eurico Matos, Sabrina Almeida, Dalby Dienstbach & Polyana Barboza @nathfinancas. Apesar de, em geral, demonstrarem certo grau de importância na rede pelo número de retuítes de suas mensagens, esses perfis fazem parte de um grupo de perfis que formaram, em torno de si, comunidades que não estabeleceram interações significativas com os principais clusters identificados no debate, de acordo com o índice de modularidade utilizado por este estudo. Isso não significa que a atuação desses perfis foi menos importante para o debate sobre a “Breque dos Apps”, mas que as comunidades que se formaram em torno dessas publicações tiveram densidade menor do que outros clusters, ou seja, agregaram menos de 5% dos perfis que participaram da discussão sobre o tema analisado. A Figura 2 representa a relação entre o número de retuítes recebidos e o número de perfis que compõem cada um dos clusters que publicaram sobre a primeira mobilização dos entregadores de aplicativo. Figura 2 Percentual de Perfis por Percentual de Retuítes Para Cada Comunidade da Primeira Mobilização A coleta do debate sobre a segunda manifestação, ocorrida em 25 de julho de 2020, seguiu o mesmo padrão da primeira, incluindo o dia anterior e os 2 dias seguintes ao protesto. A Figura 3 representa o mapa de interações sobre o “Breque dos Apps” entre os dias 24 e 27 de julho de 2020. Um primeiro aspecto que merece ser destacado é que, em comparação à primeira manifestação, notamos, nesse segundo período analisado, uma queda de 70,6% no número de perfis envolvidos e de 80,8% no número de interações sobre o tema no Twitter, mobilizando 55.039 perfis e 102.748 tuítes (sendo 67.451 retuítes). A diminuição do debate se reflete graficamente a partir da menor densidade dos clusters, que apresentam maior transparência e espaçamento entre os nós. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 68 “Breque dos Apps” . Victor Piaia, Eurico Matos, Sabrina Almeida, Dalby Dienstbach & Polyana Barboza Figura 3 Grafo Completo de Interações Sobre “Breque dos Apps” (Dados Coletados Entre 24 e 27 de Julho) Há, no entanto, uma série de similaridades entre os dois protestos. Inicialmente, destaca-se a centralidade dos perfis de entregadores @galodeluta e @tretanotrampo, que estiveram entre os principais mobilizadores nos dois eventos, despontando como articuladores do debate e lideranças dos movimentos de entregadores. Os dois perfis foram centrais nos clusters amarelo e laranja, que obtiveram 9,2% e 9% das interações, respectivamente — números que os colocaram como o segundo e o terceiro clusters com mais interações em todo o segundo ciclo de manifestações. O cluster que reuniu atores da política institucional (vermelho) foi, assim como no primeiro protesto, o que reuniu o maior número de interações (14,8%). Esses foram os grupos sociais que atuaram de modo mais diversificado durante toda a manifestação, com tuítes contendo convocação, orientações, justificativas e relatos sobre os protestos. Na Figura 4, pode-se observar a relação entre o número de retuítes recebidos e o número de perfis que compõem cada uma das comunidades que debateram sobre a segunda mobilização dos entregadores de aplicativo. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 69 “Breque dos Apps” . Victor Piaia, Eurico Matos, Sabrina Almeida, Dalby Dienstbach & Polyana Barboza Figura 4 Percentual de Perfis por Percentual de Retuítes Para Cada Comunidade da Segunda Mobilização Como no primeiro protesto, a dinâmica de mobilização também incluiu comunidades formadas em torno de tuítes virais feitos por perfis que possuem menor relação com o movimento. É o caso, por exemplo, dos clusters roxo e verde, que orbitaram chamadas para a ação feitas pelos perfis @jacianaa e @rogercipo, os quais compartilharam a mensagem “NÃO PEÇAM COMIDA EM DELIVERY HOJE”8. Esses dois clusters apresentam um formato semelhante a uma estrela e estão concentrados em torno de perfis isolados, sem a formação de um conjunto mais espalhado de nós. Diferentemente do primeiro protesto, houve a formação de um pequeno cluster formado por perfis de veículos jornalísticos. Se, na primeira manifestação, o cluster crítico do movimento (azul) foi formado por perfis humorísticos que ironizaram uma manifestação por direitos realizada por trabalhadores autônomos, na segunda, houve maior presença de perfis ligados à política institucional, especialmente perfis ligados a partidos de orientação liberal, tais como o Partido Novo e o Democratas. Em comum, esses perfis repercutiram uma pesquisa de opinião pública que indicou que 70% dos entregadores preferiam trabalhar em regime autônomo, enquanto apenas 30% lutavam por vínculos trabalhistas fixos e exclusivos com as plataformas de aplicativos (Sena, 2020). Em comparação com o primeiro protesto, destaca-se a menor presença de artistas e celebridades entre os perfis mobilizados. Outra diminuição relevante foi a de alguns perfis ligados ao movimento negro, que, além de se espalharem por diferentes conjuntos, chegaram a formar um cluster em que foram preponderantes no primeiro protesto. Perfis como @jacianaa e @rogercipo obtiveram destaque, mas em clusters isolados e a partir de tuítes virais, e não com a formação de uma rede, como no primeiro protesto. A menor participação desses grupos no segundo protesto abre espaço para a elaboração de hipóteses sobre a relação entre esses grupos e o tamanho das manifestações de 8 Retirado de https://twitter.com/Jacianaa/status/1287084235363418114 Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 70 “Breque dos Apps” . Victor Piaia, Eurico Matos, Sabrina Almeida, Dalby Dienstbach & Polyana Barboza entregadores, quer seja na aproximação temática e política entre movimentos sociais de trabalhadores e o movimento negro, quer seja de um ponto de vista mais relacionado com a amplitude e ao alcance do debate, circunstância em que artistas e celebridades contribuem ao disseminarem as pautas entre públicos menos interessados no debate. Análise Temporal A análise temporal dos mapas de interação mostra como se deu o processo de formação das redes ao longo dos períodos analisados. No que se refere à primeira manifestação (Figura 5), ocorrida entre os dias 30 de junho e 3 de julho, observamos que a primeira comunidade a se formar gira em torno da publicação da artista @lyanzr convocando seus seguidores a participarem do boicote às plataformas de entrega. Figura 5 Mapa de Interações ao Longo da Primeira Manifestação (Dados Coletados Entre 30 de Junho e 3 de Julho) Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 71 “Breque dos Apps” . Victor Piaia, Eurico Matos, Sabrina Almeida, Dalby Dienstbach & Polyana Barboza Logo nas primeiras horas do dia que antecede a mobilização, os clusters vermelho e amarelo começam a se destacar como atores relevantes do debate. São, em grande medida, divulgações das ações nas ruas e pedidos para que os usuários dos aplicativos não utilizem os serviços de entrega como uma forma de apoio à mobilização. Durante a manhã do dia 30 de junho, o grupo representado pela cor verde ganha destaque, sobretudo a partir da sua articulação com o cluster marrom, como mencionamos anteriormente. Na tarde daquele mesmo dia, emerge uma quarta comunidade, representada pela cor lilás e capitaneada por uma publicação da ativista @anarcopedadoga. O que mais chama a atenção nesse primeiro dia são o crescimento e a predominância do cluster vermelho, composto prioritariamente por perfis vinculados à política institucional, tais como os deputados federais @MarceloFreixo e @samiabonfim, o candidato à prefeitura de São Paulo @GuilhermeBoulos e o ex-presidente @LulaOficial. Isso demonstra como os atores da política institucional vinculada à esquerda buscaram apoiar o movimento dos entregadores desde o momento de sua convocatória. No dia da manifestação, as comunidades mencionadas anteriormente se mantêm e intensificam sua atividade nas redes, com a publicação de vídeos e relatos de paralisações em diversas capitais brasileiras. Nesse ponto, se destaca a atuação de perfis como @tretanotrampo e @galodeluta, que focaram, durante todo o dia, na divulgação de conteúdo que recebiam de entregadores que participavam das manifestações nas ruas. Ainda sobre o primeiro dia dos atos de rua, nota-se a emergência e a crescente atividade de perfis críticos às pautas levantadas pelos entregadores. Esses perfis, no interior do cluster azul, começam a publicar mensagens contrárias ao movimento logo nas primeiras horas do dia, e sua atuação se intensifica até o fim do dia 1 de julho. Nos 2 dias que sucedem a manifestação, esse é um dos poucos grupos que continua a crescer, tratando de repercutir negativamente a ação dos manifestantes e de seus apoiadores nas redes. A Figura 6 evidencia, em termos quantitativos, como, ao longo do período analisado, se deu a evolução no número de publicações retuitadas sobre a paralisação dos entregadores. O maior crescimento no número de retuítes se deu na manhã do dia da manifestação. A figura abaixo mostra que 60,18% dos retuítes sobre o “Breque dos Apps” ocorreram entre as 6h da manhã e às 12h de 1 de julho. Entre as 12h e o fim da tarde, o número de retuítes cai significativamente e assim segue caindo até o fim do período analisado. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 72 “Breque dos Apps” . Victor Piaia, Eurico Matos, Sabrina Almeida, Dalby Dienstbach & Polyana Barboza Figura 6 Evolução do Número de Retuítes ao Longo da Primeira Manifestação (Dados Coletados Entre 30 de Junho e 3 de Julho) No que se refere à segunda manifestação, ocorrida no dia 25 de julho, a análise temporal do mapa de interações (Figura 7) evidencia alguns pontos que merecem ser destacados de modo comparativo. Assim como no primeiro ciclo de mobilizações, os perfis que iniciaram o debate estão distribuídos nos clusters prioritariamente compostos por movimentos de entregadores e por atores da política institucional. Há, no entanto, uma diferença importante em relação ao momento de formação dos clusters. Diferentemente do primeiro protesto, em que os principais clusters já estavam bem delimitados a partir das 18h do dia anterior à manifestação, no segundo protesto, a formação dos principais clusters somente ocorre a partir das 12h do dia do protesto, ou seja, com o movimento já em curso. Os últimos clusters a entrarem no debate (verde e roxo) são justamente formados com base em tuítes virais de influenciadores ligados ao movimento negro. Isso ressalta o potencial de engajamento em torno de mobilizações na interseção entre as duas causas e contribui com outro indício para a hipótese de que a menor adesão de perfis ligados ao movimento negro poderia explicar a diminuição do debate sobre a segunda manifestação. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 73 “Breque dos Apps” . Victor Piaia, Eurico Matos, Sabrina Almeida, Dalby Dienstbach & Polyana Barboza Figura 7 Mapa de Interações ao Longo da Segunda Manifestação (Dados Coletados Entre 24 e 27 de Julho) Com poucas mudanças em relação ao primeiro protesto, o debate nos 2 dias seguintes à segunda manifestação apresentou um leve aumento a partir do dia 27 de julho. Esse aumento está relacionado ao crescimento de interações do cluster azul, formado por políticos e perfis de orientação liberal, críticos da mobilização dos entregadores. A reação crítica pode indicar o início de um fortalecimento de uma narrativa a respeito dos protestos, que se apresentou, no cluster azul, de modo reativo nas duas manifestações — ainda que, no segundo evento, tenha ganhado caráter menos irônico e incorporado argumentos em diálogo com as reivindicações dos entregadores. Essa característica evidencia o caráter de disputa em torno do movimento, que, apesar de majoritariamente Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 80 “Breque dos Apps” . Victor Piaia, Eurico Matos, Sabrina Almeida, Dalby Dienstbach & Polyana Barboza Notas Biográficas Victor Piaia é pesquisador da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP) e doutor em sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). Pesquisa os efeitos políticos de transformações na comunicação cotidiana, com foco em plataformas de mídias sociais e aplicativos de mensagens. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1012-3157 Email: [email protected] Morada: Praia de Botafogo, 190 – 6º andar, sala 628 – Botafogo – Rio de Janeiro/ RJ – CEP 22.250-900 Eurico Matos é pesquisador da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP) e doutor em comunicação e cultura contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia. É membro do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD). Suas principais linhas de pesquisa são teorias da comunicação, comunicação política, governo digital e estudos de aplicativos. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9849-1260 Email: [email protected] Morada: Praia de Botafogo, 190 – 6º andar, sala 628, Botafogo – Rio de Janeiro/RJ, CEP 22.250-900 Sabrina Almeida é pesquisadora da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP) e doutora em ciência política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atua na área do comportamento político e as principais linhas de pesquisa são participação, capital social e intolerância política; método e análise de mídias sociais. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4537-8632 Email: [email protected] Morada: Praia de Botafogo, 190 – 6º andar, sala 628 – Botafogo – Rio de Janeiro/ RJ – CEP 22.250-900 Dalby Dienstbach é pesquisador da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP), onde atua com linguística aplicada à análise de redes sociais. É doutor em estudos da linguagem pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Suas principais linhas de pesquisa são teoria e análise linguística, linguística cognitiva, análise de discurso e análise de redes sociais em mídias digitais. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2198-0779 Email: [email protected] Morada: Praia de Botafogo, 190 – 6º andar, sala 628 – Botafogo – Rio de Janeiro/ RJ – CEP 22.250-900 Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 81 “Breque dos Apps” . Victor Piaia, Eurico Matos, Sabrina Almeida, Dalby Dienstbach & Polyana Barboza Polyana Barboza é pesquisadora da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV DAPP), onde atua com extração e análise de dados de redes sociais. É graduada em matemática aplicada pela Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getúlio Vargas (FGV EMAp) e mestranda em informática pelo Departamento de Informática da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Suas principais linhas de pesquisa são análise de redes sociais em mídias digitais e frameworks com sistemas multi-agentes em engenharia de software. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3342-7337 Email: [email protected] Morada: Praia de Botafogo, 190 – 6º andar, sala 628, Botafogo – Rio de Janeiro/RJ, CEP 22.250-900 Submetido: 15/09/2020 | Aceite: 14/01/2021 Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional. A Experiência Negra de Ranqueamento Social na Uber: Uma Reflexão Racializada da Vigilância Contemporânea Naiara Silva Evangelo Departamento de Comunicação Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil Fátima Cristina Regis Martins de Oliveira Departamento de Comunicação Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil Resumo Este estudo analisa a experiência de ranqueamento social de usuários e motoristas negros da empresa de transporte privado Uber, na cidade do Rio de janeiro, Brasil. Com os olhares voltados para a vivência e para o sistema de avaliação da empresa, observa-se como a experiência aparece na lógica contemporânea da vigilância. A partir de discussões e observações realizadas em pesquisa exploratória, o estudo questiona: na ambiência da Uber, com mecanismos de vigilância de dados em operação, de que modo os negros estão vivenciando a lógica social de ranqueamento? A cartografia foi a metodologia escolhida para o estudo, considerando a possibilidade de acompanhar processos e sua aposta na experimentação, com procedimentos flexíveis de produção de dados, bem como o seu caráter pesquisa-intervenção (Escóssia et al., 2009). Assim, o objetivo principal da pesquisa é investigar essa vivência com o intuito de ampliar a análise da vigilância contemporânea com um recorte racializado e entre os objetivos específicos pretende-se romper com o silenciamento e a invisibilidade de perspectivas teóricas negras (Ribeiro, 2017). O arcabouço teórico do estudo será dividido em dois eixos: estudo das relações raciais e os estudos de vigilância. Percebemos, assim, que na era do big data a discriminação pode aparecer de forma oculta, pois as tecnologias performam uma falsa neutralidade, o que acelera e cria discriminações ainda mais profundas (Benjamin, 2019). Palavras-chave ranqueamento social, Uber, racismo, vigilância The Black Social Ranking Experience at Uber: A Racialized Reflection on Contemporary Surveillance Abstract This study analyzes the social ranking experience of Black users and drivers of the private transportation company Uber in the city of Rio de Janeiro, Brazil. With the attention turned to the experience and evaluation system of the company, it is observed how they appear in the contemporary logic of surveillance. Based on discussions and observations carried out in exploratory research, the study asks: with data surveillance mechanisms in operation, how are Black people experiencing the social logic of ranking in Uber’s environment? Cartography was the methodology chosen for the study, considering the possibility of monitoring processes and their commitment to experimentation — with flexible data production procedures — as well as its research-intervention nature (Escóssia et al., 2009). Thus, the main objective of the research Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021, pp. 83-100 https://doi.org/10.17231/comsoc.39(2021).2838 Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 84 A Experiência Negra de Ranqueamento Social na Uber . Naiara Silva Evangelo & Fátima Cristina Regis Martins de Oliveira was to investigate this experience in order to broaden the analysis of contemporary surveillance with a racialized approach; and among the specific objectives, we aim at breaking the silencing and invisibility of Black theoretical perspectives (Ribeiro, 2017). The theoretical framework of the study will be divided into two study axes: race relations and surveillance. It is therefore realized that, in the era of big data, discrimination can appear in a hidden way as technologies perform a false neutrality that accelerates and deepens it (Benjamin, 2019). Keywords social ranking, Uber, racism, surveillance “Meooo, Isso É Muito Black Mirror” Jack, nota 3,7; Chester, nota 3,1; Ethan, nota 4,1. Quem são essas pessoas? O que elas têm em comum? Elas são personagens de uma sociedade na qual as interações sociais são mediadas por uma rede social com um sistema de ranqueamento em que os integrantes se avaliam mutuamente com nota que pode variar de uma a cinco estrelas. Nesse contexto, esse trio não está próximo da média 4,5, que os segmentariam como usuários premium, a elite social dessa ambiência. Se você assistiu ao primeiro episódio da terceira temporada da série britânica, Black Mirror1, “Nosedive” (Wright, 2016), talvez nem tenha dado atenção a esses personagens. Eles são os três dos quatro personagens negros que possuem avaliações destacadas. Em tom crítico, eles ocupam posições à margem daquela sociedade, que é tecida ao longo do episódio com ares de distopia e futurísticos. Para os motoristas e usuários da Uber, essa realidade pode soar de alguma forma familiar. Criada em 2009 por Travis Kalanick e Garret Camp, na California, a empresa de serviços de transporte de carros privados estadunidense começou a se popularizar no Brasil em 2014, sendo o Rio de Janeiro a primeira cidade a receber o serviço, seguida de São Paulo e Belo Horizonte (“Serviço de caronas remuneradas Uber inicia operações no Brasil”, 2014). Atualmente, a Uber está presente em mais de 60 países, somando mais de 900 cidades sendo os Estados Unidos e o Brasil os países com mais cidades atendidas pelo serviço (Ghedin, 2019). A proposta inicial da empresa era oferecer transporte em carros de luxo, fazendo a mesma função de táxi, e com a mediação do aplicativo de solicitação do serviço ele foi impulsionado e contribuiu para que o projeto se tornasse um dos pioneiros da categoria batizada e-hailing. O e-hailing é a possibilidade de solicitar um serviço por meio de um dispositivo eletrônico, como o celular ou tablet (FutureBridge, 2020). Entre as suas características diferenciais estão a possibilidade de pagamento, também eletrônico, localização em tempo real por meio de ferramenta de geolocalização e o baixo custo do serviço, considerando que a manutenção do mesmo é mais baixa. No contexto da Uber, 1 Criada pelo roteirista Charlie Brooker, Black Mirror foi lançada em 2011, no Reino Unido, com transmissão do canal Channel 4. Quatro anos depois, o serviço de streaming, Netflix, comprou a série que se popularizou por todo mundo com um enredo de ficção científica construído em tom de distopia, com o destaque para a interação entre humanos e as tecnologias. A série possui episódios com narrativas independentes, bem como elenco e personagens (Plunkett, 2015). Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 85 A Experiência Negra de Ranqueamento Social na Uber . Naiara Silva Evangelo & Fátima Cristina Regis Martins de Oliveira a plataforma de solicitação de serviço é um aplicativo, no qual ao final da corrida tanto o passageiro quanto o motorista se avaliam mutuamente, com uma nota que varia de uma a cinco estrelas. “Qual é sua nota na Uber?”. Na semana em que assisti ao episódio “Nosedive”, encontro essa pergunta em uma matéria que circulava na rede social Facebook, em 2017. Aqui se faz necessário o posicionamento em primeira pessoa, para explicar os gatilhos de inspiração dessa pesquisa. Na época, a avaliação dada aos motoristas era destacada no final da corrida, mas a grande parte dos usuários não sabia que também eram avaliados por eles. Para ter acesso à avaliação dos passageiros da Uber era necessário um longo passo a passo dentro do aplicativo da empresa de transporte privado. Ao verificar a minha avaliação fiquei surpresa com a minha nota 4,85 e questionei que critérios os motoristas utilizavam para essa avaliação. Assim, como sugestão do então orientador de mestrado Robson Braga, decidimos estudar os mecanismos de vigilância e punição imediatos dentro de uma lógica de vigilância cotidiana, que resultou em um primeiro mapeamento dessa experiência, sistematizada e descrita no artigo “Meeoo, isso é muito Black Mirror: A nota da Uber como punição do comportamento social na sociedade da vigilância distribuída” (Braga & Evangelo, 2017). No primeiro trabalho exploratório, a questão racial não apareceu de forma determinante. Porém, como enfatiza Almeida (2018), “a sociedade contemporânea não pode ser compreendida sem os conceitos de raça e de racismo ( … ). O racismo é sempre estrutural, ou seja, de que ele é um elemento que integra a organização econômica e política da sociedade” (p. 15). Diante do interesse de ampliar o olhar para essa experiência, a continuidade dessa pesquisa irá tratar da realidade que os negros brasileiros, na cidade do Rio de Janeiro, experienciam cotidianamente, e que exploraremos a partir da lógica da Uber, a fim de criar uma lupa que pode ser usada para olhar outras vivências negras dentro do contexto atual de vigilância. Posto isso, o objetivo principal desse estudo é seguir mapeando essa vivência com o intuito de ampliar a análise da vigilância contemporânea a partir de um olhar também racializado sobre a temática. A vivência da Uber com essa perspectiva, que é mediada pelo sistema de avaliação da empresa, pode estimular a refletir sobre os mecanismos contemporâneos de monitoramento e controle social, sobre os modelos de vigilância vigentes e iniciar uma cartografia dessa sociedade ancorada em uma lógica de ranqueamento, lógica que aparece quando é necessário classificar os dados coletados, como iremos explorar ao longo do estudo. Metodologia: A Cartografia Como a cartografia apareceu como metodologia frutífera? Entendemos como os pesquisadores Escóssia et al. (2009) que a metodologia em questão se propõe a acompanhar processos e consiste em uma aposta na experimentação. “Eis o sentido da cartografia: acompanhamento de percursos, implicação em processos de produção, conexão de redes ou rizomas” (Escóssia et al., 2009, p. 10). Entre as principais referências para Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 86 A Experiência Negra de Ranqueamento Social na Uber . Naiara Silva Evangelo & Fátima Cristina Regis Martins de Oliveira sistematização do método estão os seus fundadores Gilles Deleuze e Félix Guattari, os conceitos como redes e rizomas já apontam as raízes da metodologia. Kastrup (2008) enfatiza que o método foi criado para o estudo da produção de subjetividade, ou seja, fala da sua dimensão processual. Toda cartografia busca desenhar um certo rizoma, constituído de vetores heterogêneos: econômicos, políticos, sociais, tecnológicos, linguísticos, ecológicos, etc. Segundo Deleuze e Guatarri, a cartografia é um dos princípios de funcionamento do rizoma. O mapa é sempre mapa de um rizoma, que é uma espécie de todo aberto, em constante movimento, composto de múltiplas linhas heterogêneas, cujas conexões podem ser alteradas e rompidas. ( … ) Fazer um mapa é então capturar linhas, movimentos, um plano de forças. (Kastrup, 2008, p. 469) Vale destacar que estamos diante de um campo inusitado. A experiência de campo analisada ocorre dentro de um transporte privado urbano, é mediada por um aplicativo, envolve uma prática de ranqueamento, entre outras questões, sendo assim, um campo não convencional de ser acessado. Parte da experiência estudada é vivenciada constantemente pelos motoristas e a outra parte é esporádica, no caso dos usuários. Deste modo, experimentar se faz necessário. Ao não propor procedimentos específicos, a cartografia se revela como um método compatível com experiências que fogem de elementos tradicionais de pesquisa. “Diversos procedimentos podem ser adotados no que concerne a técnicas de entrevistas, de análise de dados, estratégias qualitativas ou quantitativas” (Kastrup et al., 2014, p. 9). Sendo assim, para o presente estudo foram utilizados três procedimentos de produção de dados: • Revisão bibliográfica: focou nos campos teóricos de estudos de relações raciais e de vigilância. • Observação participante em corridas da Uber: conversas com motoristas e observação de vivência pessoal em corridas da Uber. • Questionários para motoristas e usuários negros da Uber, na cidade do Rio de Janeiro: eles foram distribuídos no primeiro semestre de 2020 inicialmente no grupo de Facebook “Uber – Motoristas (APP) RJ”, grupo com mais de 78.000 essoas, que acompanho desde 2017, e inicialmente tratava de questões sobre vivência e experiências com a Uber, mas atualmente se tornou um espaço de classificados, com vendas e ofertas de carros, seguros e locações. A partir desse grupo encontrei um grupo de Whatsapp chamado “A grande família Uber/99”, com 68 motoristas, e também distribui o questionário. Os usuários começaram a ser acionados em redes pessoais e também distribuídos em grupo de Facebook com temáticas raciais, entre eles o “Afrocentricidade” (com 6.400 integrantes em janeiro de 2021), “RAP – Redes de Afro Profissionais” (com 13.500 integrantes em janeiro de 2021) e “Mulheres Negras” (com 12.700 integrantes em janeiro de 2021). Estamos diante de uma combinação de etapas, que visa olhar para o objeto de pesquisa em diversos ângulos, em sua complexidade e multiplicidade. Nesse estudo, a análise será apresentada junto com a consolidação de dados feita de forma descritiva, que será distribuída ao longo de todo o texto, em diálogo com o arcabouço teórico. O esforço em mesclar dados, análise e arcabouço parte do entendimento que a prática de campo não é feita de forma isolada, há uma interferência mútua entre campo e estudo e, assim, o texto acompanha a fluidez da prática de campo e de estudo. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 87 A Experiência Negra de Ranqueamento Social na Uber . Naiara Silva Evangelo & Fátima Cristina Regis Martins de Oliveira Os interagentes com os questionários da pesquisa foram denominados colaboradores, considerando o papel de colaboração com o mapeamento da experiência estudada. Colaboradores também é a forma que a Uber denomina os seus motoristas, em uma nova lógica de relação de trabalho. As identidades de todos serão preservadas, sendo apresentados a partir de uma numeração, o papel na experiência, a sua nota e como se autodeclara de acordo com critérios raciais. Aqui destaco que a autodeclaração não foi solicitada no questionário de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a questão foi feita de forma aberta para que o próprio interagente se definisse de acordo com a forma como denomina a sua origem racial. Esta questão permitiu observar também como os colaboradores se relacionam com a discussão racial. Na primeira distribuição de questionário obtivemos 33 respostas, sendo 31 usuários e dois motoristas. As suas experiências serão citadas ao longo do texto de acordo com as identificações a seguir: • Colaboradora 1 (usuária da Uber; nota 4,57; autodeclara-se negra); • Colaborador 2 (usuário da Uber; nota 4,72; autodeclara-se negro); • Colaborador 3 (usuário da Uber; nota 4,79; autodeclara-se pardo); • Colaborador 4 (usuário da Uber, nota 3; autodeclara-se negro); • Colaborador 5 (usuário da Uber; nota 4,75; autodeclara-se negro); • Colaboradora 6 (usuária da Uber; nota 4,77; autodeclara-se preta); • Colaboradora 7 (usuária da Uber; nota 4,92; autodeclara-se preta); • Colaborador 8 (usuária da Uber; nota 4,81; autodeclara-se negro); • Colaboradora 9 (usuária da Uber; nota 4,89; autodeclara-se negra); • Colaboradora 10 (usuária da Uber; nota 4,83; autodeclara-se preta); • Colaboradora 11 (usuária da Uber; nota 4,96, autodeclara-se branca); • Colaboradora 12 (usuária da Uber; nota 4,89; autodeclara-se negra); • Colaboradora 13 (usuária da Uber; nota 4,75; autodeclara-se negra); • Colaboradora 14 (usuária da Uber; 5; autodeclara-se negra); • Colaboradora 15 (usuária da Uber; nota 4,76, autodeclara-se negra); • Colaboradora 16 (usuária da Uber; 4,77; autodeclara-se branca); • Colaborador 17 (usuário da Uber; nota 0; autodeclara-se preto); • Colaboradora 18 (usuária da Uber; nota 4,93, autodeclara-se negra); • Colaboradora 19 (usuária da Uber; nota 4,72, autodeclara-se negra); • Colaboradora 20 (usuária da Uber; nota 4,87; autodeclara-se preta); • Colaborador 21 (usuária da Uber; nota 4; autodeclara-se pardo); • Colaboradora 22 (usuária da Uber; nota 4,97; autodeclara-se negra); • Colaboradora 23 (usuária da Uber; nota 4,92; autodeclara-se negra); • Colaboradora 24 (usuária da Uber; nota 4,87; autodeclara-se preta); • Colaborador 25 (usuário da Uber; nota 4; autodeclara-se preto); • Colaboradora 26 (usuária da Uber; nota 4,9; autodeclara-se negra); • Colaborador 27 (usuário da Uber; nota 4,77; autodeclara-se preto); Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 88 A Experiência Negra de Ranqueamento Social na Uber . Naiara Silva Evangelo & Fátima Cristina Regis Martins de Oliveira • Colaborador 28 (usuário da Uber; nota 4,95; autodeclara-se negro); • Colaborador 29 (usuária da Uber; nota desconsiderada; autodeclara-se preta); • Colaborador 30 (usuário da Uber; nota 4,81; autodeclara-se preto); • Colaboradora 31 (usuária da Uber; nota 4,67; autodeclara-se preta); • Colaboradora 32 (motorista da Uber; nota 4,4; autodeclara-se negra); • Colaborador 33 (motorista da Uber; nota 4; autodeclara-se negro). Origens da Vigilância Os motoristas muitas vezes olham com indiferença quando veem uma mulher negra esperando Uber, muitas vezes ignoram o fato de ser eu mesma que estou ali esperando o serviço e passam direto mesmo que eu esteja com o celular na mão e tenha mandado mensagem dizendo exatamente a minha localização. (Colaboradora 6) Estamos experenciando a cada dia a presença mais marcante das tecnologias digitais de comunicação em práticas cotidianas. Nesse cenário, a Uber se consolidou com seu sistema e-hailing no segmento de transporte privado, com o aplicativo de solicitação do serviço e as possibilidades de forma de pagamento via cartão de crédito e/ou sistema de avaliação do serviço. É notável o impacto da empresa na mobilidade urbana nas mais de 900 cidades em que está presente, que, com preços mais acessíveis, tornou mais democrático o uso do serviço de transporte privado feito tradicionalmente pelos táxis. Porém, para grupos historicamente subalternizados, talvez não seja tão democrático assim, como percebemos pelo relato introdutório. A colaboradora 6 faz parte dos 15 dos 33 usuários e motoristas da Uber (sendo 31 usuários e dois motoristas) que interagiram com o questionário da presente pesquisa e que percebem a influência de sua origem racial na experiência da Uber, no Rio de Janeiro. A partir do seu relato que abre o tópico observamos que a usuária por muitas vezes não foi reconhecida como possível passageira por motoristas da empresa. Ela interpreta as experiências com olhos de opressão de gênero e racial presentes na sociedade. Com o relato observamos também que, para alguns motoristas de Uber, ela é invisível. Esse tipo de situação é uma reprodução clara de racismo, na medida em que a mesma não é reconhecida como possível consumidora do serviço pelas suas características. Porém, de que modo o racismo vem sendo reproduzido em uma experiência de consumo mediada por uma tecnologia de comunicação? Para pensar sobre a questão é importante mapear a origem dos mecanismos que vamos tratar nesse estudo, como os de ranquear, segmentar, personalizar, punir e até excluir, e que fazem parte da lógica inovadora do serviço e da experiência de motoristas e usuários da Uber. Essas ações podem ser observadas em ambiências digitais baseadas em modelos de vigilância, que operam de acordo com o interesse da instituição que o estrutura, seja ela pública ou privada. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 89 A Experiência Negra de Ranqueamento Social na Uber . Naiara Silva Evangelo & Fátima Cristina Regis Martins de Oliveira Partimos, assim, da análise sobre as práticas de vigilância feita por Michel Foucault (1975/2014), da sociedade que ele denomina “disciplinar”. Esta sociedade é caracterizada pela contínua passagem das pessoas por meios de confinamento: da família para escola, para fábrica, em casos eventuais hospitais e prisões (Deleuze, 2013). Nesse contexto, o pan-óptico de Bentham aparece como figura arquitetônica simbólica. “O princípio é conhecido: na periferia uma construção em anel; no centro, uma torre ( … ). O dispositivo pan-óptico organiza unidades espaciais que permitem ver sem parar e reconhecer imediatamente” (Foucault, 1975/2014, p. 194). Constata-se que esse modelo de vigilância é de ordem da visibilidade e que tem um poder automático, pois não é possível verificar quem e se está sendo observado. De acordo com o filósofo, o modelo induz um estado consciente de constante visibilidade. Mas ver para quê? Na sociedade disciplinar, situada nos séculos XVIII e XIX, e que atingiu o apogeu no século XX, imperava a ordem, para tal, uma das suas práticas era a punição, que tem como principal finalidade ser normalizante, nas palavras de Foucault (1975/2014), “traçar o limite que definirá a diferença em relação a todas as diferenças, a fronteira externa do anormal” (p. 179). Nessa lógica, a penalidade disciplinar está direcionada aos desvios das regras sociais pré-estabelecidas. Como exemplos práticos, na escola e no exército as micropenalidades de tempo são corriqueiras, como atrasos e ausências. As punições poderiam ser sutis, como privações ou até humilhações. Vale destacar que um dos objetos mais importantes de sua análise da sociedade disciplinar é a prisão, a qual em países como Brasil e os Estados Unidos (país de origem da plataforma que compõe o objeto desse estudo) encarcera em massa a população negra2. Estas prisões, que nascem entre o fim do século XVIII e o início do século XIX, marcam a passagem da punição do suplício para o encarceramento. Em uma revisita a análise foucaultiana, Gilles Deleuze (2013) afirma que as sociedades disciplinares ruíram após a Segunda Guerra Mundial, considerando as crises dos meios de confinamento analisados por Foucault. As sociedades disciplinares foram substituídas pelas sociedades de controle, nas quais os sistemas fechados são superados por formas ultrarrápidas de controle ao ar livre. Nas sociedades de disciplina não se parava de recomeçar (da escola à caserna, da caserna à fábrica), enquanto nas sociedades de controle nunca se termina nada, a empresa, a formação o serviço sendo os metaestáveis e coexistentes de uma mesma modulação. (Deleuze, 2013, p. 226) É importante assinalar aqui que a análise social foucaultiana do poder disciplinar, a qual consagrou os mecanismos de vigilância e de punição na modernidade, nos leva a revisitá-la de forma não transitória e não superada por completo. Ao observar o mecanismo 2 “A prisão, como entendemos hoje, surge como espaço de correção. Porém, mais distorce do que corrige. Na verdade, poderíamos nos perguntar: alguma vez corrigiu? E corrigiu para o quê? Os resquícios de tortura, como pena, permanecem; apesar de, segundo a tradição, a privação da liberdade é que seria o foco punitivo. Esse processo se enreda da seguinte maneira: 64% da população prisional, é negra (Infopen, 2016), enquanto que esse grupo compõe 53% da população brasileira (IBGE, 2014). Em outras palavras, dois a cada três presos no Brasil são negros” (Borges, 2019, p. 19). Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 96 A Experiência Negra de Ranqueamento Social na Uber . Naiara Silva Evangelo & Fátima Cristina Regis Martins de Oliveira O motorista ao ver meu local de destino e dois pretos no carro parou e mandou a gente descer ali mesmo, sem falar o motivo. Disse que no dia seguinte a Uber iria me informar. Tinha nota 4,8 e fui banido da Uber nesse Carnaval, em uma corrida de 0,5km onde fiquei um minuto dentro do carro. Estava no Largo da Prainha indo para o Morro do São Carlos no Estácio, quando o Uber se atentou ao local de destino parou o carro e nos mandou descer alegando para Uber atividade de natureza sexual em um período de menos de um minuto dentro do carro. No dia seguinte, eu estava com a conta desativada para sempre do aplicativo. Segundo a Uber, teve ato de natureza sexual, isso em uma corrida de 0,5km e duração de um minuto! (Colaborador 17) A Uber facilmente conseguiria analisar que em um percurso de 0,5 km um ato de natureza sexual seria possível de acontecer ou não. Porém, o colaborador sofreu a punição máxima do aplicativo baseado na análise preconceituosa do motorista da empresa, que aqui cruza território e etnia. O episódio ilustra o conceito de Benjamin (2019), que será essencial para a pesquisa: o new Jim code. Eu cresci com uma forte sensação de ser vigiada. Família, amigos e vizinhos – todos nós apanhados em uma teia carcerária, na qual a segurança e a liberdade de outras pessoas são baseadas em nosso conteúdo. Agora, na era do Big Data, muitos de nós continuam sendo monitorados e medidos, mas sem o estrondo audível dos helicópteros para os quais podemos apontar. Isso não significa que não sentimos mais como é um problema. Nós sentimos. (Benjamin, 2019, prefácio) Benjamin (2019) explora, no contexto de atividades cotidianas — por exemplo, procurar um trabalho, a própria origem do nome ou até fazer compras — como as tecnologias, vistas como objetivas e científicas, podem reforçar o racismo e criar outras formas de iniquidade. Por meio do conceito de new Jim code, ela aponta que, na era do big data, a discriminação pode além de tudo aparecer de forma oculta, pois essas tecnologias performam uma falsa neutralidade, o que também acelera e cria discriminações ainda mais profundas. “Eu chamo de new Jim code: o emprego de novas tecnologias que refletem e reproduzem as desigualdades existentes, mas que são promovidas e percebidas como mais objetivas ou progressivas do que o sistema discriminatório de uma era anterior” (Benjamin, 2019, p. 5). A pesquisadora identifica que a codificação com base na origem racial nasceu como ferramenta de controle social. Ela relata que, em uma auditoria ao banco de dados de gangues da Califórnia, os negros e latinos são 87% dos listados, sendo alguns deles bebês de menos de 1 ano, descritos como alguém possível de compor um gangue. Como um banco de dados pode afirmar o potencial criminoso de um bebê? Benjamin (2019) responde que a preditividade dessas tecnologias está no cruzamento do território e da raça que codifica o nome de alguém que pode oferecer risco social. A autora denuncia Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 97 A Experiência Negra de Ranqueamento Social na Uber . Naiara Silva Evangelo & Fátima Cristina Regis Martins de Oliveira que, uma vez o nome incluído em banco de dados similares, a pessoa está exposta a mais vigilância e ao risco de perder mais direitos. E aqui, com o diálogo entre a reinterpretação de Browne sobre o pan-óptico foucaultiano e a análise de Benjamin, questiona-se novamente: qual a origem racial das pessoas que ocupam as prisões estudadas por Foucault em países como o Brasil e os Estados Unidos? Benjamin (2019) explica que foi inspirada na obra The New Jim Crow (O Novo Jim Crow) de Michele Alexander que ela desenhou o new Jim code. O livro mostra como o sistema carcerário estadunidense produz um sistema de castas, prendendo pessoas por meio de uma “ideologia daltônica”, rotulando grupos estigmatizados como criminosos de forma legalizada pelo estado. As leis Jim Crow, que foram vigentes em alguns estados americanos do sul, ficaram conhecidas por imporem a segregação racial entre o final do século XIX até meados do século XX, e mostram como nos Estados Unidos o racismo foi institucionalizado. Benjamin (2019) é enfática ao afirmar que hoje “criminoso” é o código para a negritude e também para pobres, imigrantes, descartáveis e indesejáveis (p. 9). Considerações Finais A partir dos relatos compartilhados pelos interagentes do questionário do presente estudo, é possível perceber que as tecnologias que estão presentes em nosso cotidiano possuem um conceito forjado de neutralidade e mediam ambientes e novos modos de opressão racial, como demonstra o conceito de Benjamin (2019), new Jim code. Deste modo, revisar como as práticas de vigilância emergem no contexto foucaultiano da modernidade, na lógica do pan-óptico, nos fez perceber brechas na perspectiva racial e, portanto, que é preciso ampliar o debate para uma visão social mais democrática. Nesse sentido, Browne (2015) nos leva para o modelo arquitetural dos navios escravagistas e mostra como a vigilância afeta os corpos negros historicamente, bem como criou subjetividades específicas para os homens e mulheres que foram escravizados no período colonial, nos levando a entender que as opressões se sobrepõem e precisam ser olhadas de forma interseccional e nos levando a buscar contribuições teóricas de pensadores negros, como Djamila Ribeiro, Grada Kilomba, Silvio Almeida, Ruja Benjamin e Simone Browne. Os resquícios do período colonial brasileiro aparecem até hoje na lógica do racismo cotidiano. Assim, é fundamental buscar construir um olhar crítico para uma experiência do dia a dia recortada pela racialidade no contexto da vigilância contemporânea. Nesse sentido, o estudo evidencia como a mediação social das novas tecnologias criam novos contornos para a experiência da vigilância e também do racismo e a Uber é exemplar para pensar esse cenário, pois ela usa o big data produzido pelos seus usuários e motoristas para criar uma experiência de consumo que hierarquiza, diferencia, segmenta e exclui. Se as práticas de vigilância foram estruturadas socialmente com o objetivo central de disciplinar, é possível perceber como o capital se apropria da mesma com finalidades comerciais. E, no contexto do capital, as minorias raciais sofrem violências cotidianas Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 98 A Experiência Negra de Ranqueamento Social na Uber . Naiara Silva Evangelo & Fátima Cristina Regis Martins de Oliveira e, como vimos, a partir de alguns relatos, elas muitas vezes não são percebidas pelos próprios oprimidos. Assim, essa análise pretende avançar no sentido de mapear a experiência e levantar a questão: de que forma as empresas podem contribuir para uma experiência antirracista? A partir do caso da experiência da Uber com um recorte racial, é possível problematizar como as tecnologias de comunicação reforçam e criam novas experiências de racismo e assim é possível pensar em estratégias para promoção de vivências democráticas. Agradecimentos O presente trabalho foi realizado com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj; bolsa DSC - Proc. n.º 200.474/2018), à qual agradeço pelo suporte durante o doutoramento. Referências Akotirene, C. (2019). Interseccionalidade. Sueli Carneiro; Pólen. Almeida, S. (2018). Racismo estrutural. Letramento. Amaral, F. (2016). Introdução a ciência de dados: Mineração de dados e big data. Alta Books. Benjamin, R. (2019). Race after technology. Polity Press. Borges, J. (2019). Encarceramento em massa. Sueli Carneiro; Polén. Braga, R., & Evangelo, N. (2017). Meeoo, isso é muito Black Mirror: A nota da Uber como punição do comportamento social na sociedade da vigilância distribuída. In Anais do XXVI COMPÓS – Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (pp. 1-17). http://www.compos.org.br/data/ arquivos_2017/trabalhos_arquivo_QB5FBIXWGP5D1KD0YBID_26_5808_21_02_2017_14_46_40.pdf Browne, S. (2015). Dark matters: On the surveillance of blackness. Duke University Press. Bruno, F. (2013). Máquinas de ver, modos de ser: Vigilância, tecnologia e subjetividade. Sulina. Deleuze, G. (2013). Conversações (P. P. Pelbart, Trad.). Editora 34. Escóssia, L., Kastrup, V., & Passos, E. (2009). Apresentação. In E. Passos, V. Kastrup, & L. Escóssia (Eds.), Pistas do método da cartografia: Pesquisa-intervenção e produção de subjetividade (pp. 7–16). Sulina. Foucault, M. (2014). Vigiar e punir: Nascimento da prisão (R. Ramalhote, Trad.). Vozes. 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ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4743-8654 Email: [email protected] Morada: Centro de Educação e Humanidades, Departamento de Comunicação Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 100 A Experiência Negra de Ranqueamento Social na Uber . Naiara Silva Evangelo & Fátima Cristina Regis Martins de Oliveira Fátima Cristina Regis Martins de Oliveira é professora associada da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCS/UERJ), onde leciona na graduação e na pós-graduação. Atualmente, desenvolve o projeto de pesquisa “New media literacies: Aprendizagem participativa, multimodal e lúdica na cultura digital”, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Prociência/UERJ/ Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5126-2295 Email: [email protected] Morada: Centro de Educação e Humanidades, Departamento de Comunicação Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil Submetido: 15/09/2020 | Aceite: 14/01/2021 Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional. Análise de Sentimentos: Da Psicométrica à Psicopolítica Felipe Melhado Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Braga, Portugal Jean-Martin Rabot Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Braga, Portugal Resumo Os dados sobre nossas emoções, os chamados emotional data, constituem hoje uma valiosa commodity coletada e comercializada por plataformas de comunicação digital. Entre os maiores interessados em obtê-la estão corporações financeiras e políticas que, entre outros usos, baseiam suas decisões em informações sobre os afetos dos usuários das redes. Existem diferentes formas de se gerar emotional data, e uma delas é a análise de sentimentos. Este artigo aborda algumas características dessa ferramenta, investigando o seu funcionamento e os saberes psicométricos que a constituem. A análise de sentimentos é entendida não apenas como uma ferramenta de detecção de afetos, mas também de produção emocional, uma técnica que opera instrumentalizando as emoções para uma capitalização alheia ao indivíduo. É dessa maneira que é possível delineá-la — para além de um instrumento psicométrico — como um aparato psicopolítico. Neste sentido, conceitos como “sociedade de controle” (Deleuze, 1992), “sociedade confessional” (Bauman, 2012/2014), além da própria noção de “psicopolítica” (Han, 2014/2014b), são úteis para compreendermos aspectos da produção emocional assentes nas novas tecnologias da comunicação. Este artigo, portanto, pretende contribuir para o entendimento de um fator importante, mas ainda algo negligenciado nos estudos sobre big data e vigilância: o monitoramento e a produção de afetos como forma de controle subjetivo. Palavras-chave emoções, análise de sentimentos, psicopolítica, big data, vigilância Sentiment Analysis: From Psychometrics to Psychopolitics Abstract The data about our affects, the so-called emotional data, constitute nowadays a valuable commodity, collected and marketed by digital communication platforms. Among the interested in obtaining it are financial and political corporations that base their decisions on information about network user’s affects. There are different ways to generate emotional data, one of which is the sentiment analysis. This article addresses some characteristics of this tool, clarifying its operation and the psychometric knowledges that constitute it. Sentiment analysis is understood not only as a tool for detecting affects, but also for emotional production. It is in this sense that it is possible to outline it — beyond a psychometric instrument — as a psychopolitical apparatus, a technique that operates by instrumentalizing emotions for a capitalization beyond the individual. In this sense, concepts such as “control society” (Deleuze, 1992), “confessional society” Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021, pp. 101-118 https://doi.org/10.17231/comsoc.39(2021).2797 Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 102 Análise de Sentimentos: Da Psicométrica à Psicopolítica . Felipe Melhado & Jean-Martin Rabot (Bauman, 2012/2014), and the very notion of “psychopolitics” (Han, 2014/2014b), are useful to understand aspects of emotional production based on new communication technologies. This article, therefore, aims to contribute to the understanding of an important factor which is still somewhat neglected in studies on big data and surveillance: the monitoring and production of affects as a form of subjective control. Keywords emotions, sentiment analysis, psychopolitics, big data, surveillance De que forma a análise de sentimentos detecta e classifica as emoções dos usuários das novas tecnologias da comunicação? Para além disso: de que maneira ela colabora também para a produção desses afetos? Introduzir uma resposta a estes problemas é o principal objetivo deste artigo. Sendo uma das ferramentas de vigilância emocional mais desenvolvidas e aplicadas no presente, a análise de sentimentos se constitui como um objeto de pesquisa complexo, que pode ser desdobrado em inúmeras investigações úteis para melhor compreender, entre outros temas, os processos de formação das subjetividades contemporâneas. O foco deste texto é, dessa forma, o tema da vigilância, do controle e da produção dos afetos através de uma apreciação teórico-crítica do problema. O método desenvolvido para o estudo foi a análise atenta e relativamente exaustiva dos próprios mecanismos técnicos que constituem a análise de sentimentos, bem como das taxonomias que são utilizadas por essa ferramenta em seus processos de classificação afetiva. Este conjunto de informações foi obtido, sobretudo, em artigos publicados no âmbito das ciências da computação, geralmente escritos pelos próprios desenvolvedores dos algoritmos da análise de sentimentos. Ao perscrutar essas elaborações técnicas, tivemos em mente duas perguntas básicas: quais os saberes envolvidos na detecção das emoções? De que forma eles podem trazer consequências relacionadas com a produção afetiva? Ao longo do estudo, esses saberes tecnoafetivos caros aos criadores de algoritmos, bem como suas aplicações práticas, puderam ser compreendidos de maneira renovada sob a luz de uma série de conceitos, tais como “sociedade de controle” (Deleuze, 1992) e “sociedade confessional” (Bauman, 2012/2014). Os agenciamentos entre os conhecimentos técnicos e as considerações conceituais permitiram concluir que, de fato, a análise de sentimentos não se constitui apenas como uma ferramenta psicométrica — de detecção, identificação ou mensuração de emoções —, mas também como um aparato psicopolítico, que possibilita o controle e a produção dos afetos através de duas estratégias: da sua inscrição no design das plataformas de comunicação e da utilização de procedimentos algorítmicos-semióticos de direcionamento de conteúdo (microtargeting). “Você Não Está Sozinho. Quer Conversar?” Alguém que com certa frequência posta comentários aborrecidos sobre a própria vida no Twitter poderia, de uma hora para a outra, ser surpreendido com uma mensagem Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 103 Análise de Sentimentos: Da Psicométrica à Psicopolítica . Felipe Melhado & Jean-Martin Rabot como “você não está sozinho. quer conversar?” na tela de seu computador ou smartphone. Se atendesse à empática e misteriosa convocação, seria então direcionado a um chat privado, no qual poderia trocar mensagens com um voluntário, treinado para dialogar com sujeitos em situações-limite e demovê-los de seus afetos potencialmente suicidas. Em linhas gerais, este é o método de abordagem do Code of Hope, um programa implementado em 2019 pelo Twitter espanhol em parceria com a Teléfono de la Esperanza, uma organização não governamental que se apresenta como especializada em intervir em “situações de crises emocionais” (https://www.telefonodelaesperanza.org). Um vídeo publicitário divulgado pelas duas organizações explica um pouco melhor o “código da esperança”: jovens com depressão constantemente postam sinais de seus estados emocionais antes de tomarem atitudes desesperadas. Sinais que os seres humanos mal podem notar. Mas se os humanos não os notam, quem poderia fazê-lo? Code of Hope – a inteligência artificial que detecta comportamentos suicidas. (Reason Why, 2019, 00:00:33) De acordo com o vídeo, ao se analisar uma base de dados composta por postagens de usuários que de fato cometeram suicídio, um padrão emocional foi identificado. Isso tornou possível a criação de um algoritmo que detecta este mesmo padrão em perfis ativos, para que, em seguida, seus usuários sejam objeto de intervenção afetiva. Segundo o que foi divulgado, mesmo após iniciarem o diálogo com os voluntários, os usuários do Twitter continuam tendo suas postagens monitoradas pelo algoritmo, que passa a “reportar alterações emocionais”. Se não for detectada uma melhora significativa nos afetos rastreados pela plataforma, o Code of Hope aciona então a Teléfono de la Esperanza, para que assim a organização não governamental tome outras medidas, presumivelmente mais invasivas. A vigilância emocional sobre os usuários do Twitter poderia, no senso comum, ser entendida como bem intencionada. Afinal, a rede social estaria trabalhando para proteger os internautas solitários, em sofrimento psíquico, prestes a cometerem um ato definitivo contra as suas próprias vidas. Mas este julgamento moral apressado ofusca uma inquietante questão: porque uma empresa de comunicação, como o Twitter, se dotou a si própria da capacidade de monitorar e regular as nossas emoções? Sem nenhum constrangimento em divulgar a existência do algoritmo que vigia aquilo sentimos, Code of Hope foi, pelo contrário, utilizado com funções de marketing. A iniciativa foi inclusive premiada no “El Sol”, um festival ibero-americano de publicidade (Marques, 2019). Aceitou-se com naturalidade o fato de que o Twitter desenvolveu um sistema para detectar emoções que, pelo menos outrora, tendíamos a considerar como absolutamente pessoais e subjetivas — e, também por isso, de interesse exclusivamente íntimo. Nenhum analista estranhou, ainda, o fato de que a empresa implementou uma série de procedimentos para modificar as emoções de seus usuários, e até mesmo para monitorar se essas modificações se concretizavam ou não. O imperativo moral que nos obriga a demonstrar sensibilidade aos sofrimentos alheios pode ter minimizado esse conjunto de reflexões críticas — o Twitter estava Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 104 Análise de Sentimentos: Da Psicométrica à Psicopolítica . Felipe Melhado & Jean-Martin Rabot cuidando de seus usuários, e era essa a ideia que a empresa queria destacar. Mas a naturalidade com que se recebeu a iniciativa também pode ter a ver com uma noção, cada vez mais disseminada entre especialistas, de que monitorar as emoções dos usuários faz parte do trabalho corriqueiro desempenhado pelas redes sociais. Para quem acompanha as tendências da área, nesse sentido, o que o Twitter realizou não foi surpreendente. Episódios mais polêmicos, porque mais facilmente questionáveis do ponto de vista ético, foram protagonizados pelo Facebook, por exemplo, alguns anos antes. Em um deles, ocorrido em maio de 2017, um jornalista do The Australian publicou detalhes de um documento vazado, no qual representantes do Facebook australiano afirmavam, a um potencial anunciante, que a rede social seria capaz de identificar perfis de adolescentes que se sentiam “inseguros”, “imprestáveis” e “precisando de um impulso na confiança” (Levin, 2017, para. 1). De acordo com o documento, o Facebook teria condições de monitorar, em tempo real, postagens de fotos e textos para identificar quando os jovens estariam se sentindo “estressados”, “derrotados”, “sobrecarregados”, “ansiosos”, “nervosos”, “burros”, “idiotas”, “inúteis” e “um fracasso” — exatamente nestes termos (Levin, 2017, para. 2). Esses estados emocionais precários estavam disponíveis em “dados internos”, não acessíveis ao público geral. O documento não deixava claro como esses dados sigilosos poderiam ser explorados de forma prática pelos anunciantes. Mas o fato de eles terem sido oferecidos por dois altos executivos do Facebook a uma grande instituição bancária não deixa muito espaço para a imaginação. Os dados sobre as emoções — emotional data, no jargão tecnocrático — têm mesmo se tornado uma relevante commodity no universo da comunicação digital1. No limite, essa comodificação das emoções2, como aponta o sociólogo Luke Stark (2018), já teria delineado os contornos de um grande negócio, explorado por inúmeras empresas e outras organizações. O Facebook não é, de maneira alguma, o único ator digital dedicando-se ao rastreamento das emoções como parte de um esforço maior em coletar dados comportamentais e psíquicos de seus usuários. Exemplificadas com um grande número de tendências convergentes entre o design de interação homem-computador, a psicologia aplicada, a ciência de dados e a publicidade, a extração, coleta e análise de dados relativos às emoções humanas está se tornando um negócio cada vez maior. (Stark, 2018, p. 208) O valor dessa commodity reside no fato de que a pretensa precisão numérica do emotional data viabiliza informar, por exemplo, decisões estratégicas de empresas ou partidos políticos. Trata-se, portanto, de uma espécie de capital emocional que, para ser 1 O termo “emotional data” é usado corriqueiramente em artigos científicos das ciências da computação para se referir, de maneira genérica, a qualquer dado relativo às emoções (Fathullah & Willis, 2018; Luo et al., 2017; Matsumae et al., 2020). É importante observar, no entanto, que não existem dados puramente emocionais, mas sim informações algoritmicamente interpretadas em sua qualidade afetiva. Por exemplo: a frequência dos batimentos cardíacos de uma pessoa pode ser utilizada para avaliar sua condição de saúde, mas, em outro contexto, essa mesma informação pode ser interpretada em sua valência emocional, indicando estados de ansiedade, medo ou stress. É dessa forma que o emotional data pode ser gerado a partir das mais variadas fontes: textos, vídeos, áudios, sinais fisiológicos, entre outras. 2 Não se restringindo ao âmbito das novas tecnologias, a socióloga Eva Illouz (2018) criou um interessante neologismo para se referir à comodificação das emoções: “emmoddity” (p. 8). Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 105 Análise de Sentimentos: Da Psicométrica à Psicopolítica . Felipe Melhado & Jean-Martin Rabot gerado, depende de ferramentas tecnológicas que vêm sendo rapidamente desenvolvidas pelos saberes especializados. Essas ferramentas esforçam-se para capturar e mensurar a expressão das emoções individuais, formando conjuntos de metadados sobre a psique coletiva. A identificação de expressões faciais em fotografias compartilhadas online; o registro de informações sobre nosso sono, pressão sanguínea, movimentos e humor realizados por sensores e aplicativos de saúde em smartphones — a vigilância emocional torna-se cada vez mais extensiva na medida em que os aparelhos aos quais nos conectamos diariamente, e às vezes 24 horas por dia, são equipados com essas e outras técnicas de captação e classificação de emotional data. De acordo com o cientista da computação Bing Liu (2012), entre essas técnicas, a chamada análise de sentimentos (sentiment analysis) é uma das que vem recebendo mais atenção por parte dos desenvolvedores. Desde o início dos anos 2000, a análise de sentimentos cresceu a ponto de se tornar uma das áreas mais ativas no campo do processamento de linguagem natural. É também amplamente estudada em mineração de dados, mineração web e mineração textual. Na verdade, ela se alastrou das ciências da computação às ciências administrativas e sociais, devido à sua relevância para os negócios e para a sociedade como um todo. Nos anos mais recentes, atividades industriais em torno da análise de sentimentos também prosperaram. Numerosas startups surgiram. Muitas grandes empresas implementaram suas próprias ferramentas internas. Os sistemas de análises de sentimentos encontraram aplicações em quase todos os domínios sociais e empresariais. (Liu, 2012, p. 5) Apenas nos Estados Unidos, e só até o ano de 2012, existiam cerca de 60 startups dedicadas à análise de sentimentos, e gigantes como Google, Microsoft e Hewllet-Packard já haviam criado divisões próprias para o seu desenvolvimento e aplicação (Liu, 2012, p. 9). Sua expansão e desenvolvimento técnico aconteceram na medida em que a cultura do big data — o processamento de dados em gigantesca escala — foi se disseminando, sendo consensualmente compreendida como relevante para a tomada de decisões empresariais e políticas. Como afirma um de seus pesquisadores entusiastas, a monitorização exaustiva dos afetos veiculados na internet pode gerar “informação muito valiosa”, tanto para empresas que podem “promover melhor” os seus produtos, quanto para organizações políticas3 interessadas em “clarificar sua estratégia” (Gomes, 2012, p. 10). Segundo ele, na competitiva paisagem da web, 3 Ao mencionar as organizações políticas, nos referimos especialmente a partidos, movimentos, agremiações e outros agentes da esfera pública — e, no caso da análise de sentimentos, principalmente a candidatos às eleições democráticas. São diversas as empresas que fornecem o recurso da análise de sentimentos a figuras políticas em disputa eleitoral, sendo que uma das mais reconhecidas é a Majoritas, cuja carteira compreende políticos de países como Brasil, EUA, França, Congo, Indonésia, entre outros (Moise, 2017). Especialistas no assunto debatem como resultados de análise de sentimentos podem, inclusive, serem eficazes em prever os resultados das eleições (Ceron et al., 2015). Atestando a disseminação da análise de sentimentos com objetivos eleitorais, outros autores chegam a afirmar que “pode-se esperar que a análise de sentimentos fará parte de toda campanha política no futuro” (Ringsquandl & Petkovic, 2013, p. 40). Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 112 Análise de Sentimentos: Da Psicométrica à Psicopolítica . Felipe Melhado & Jean-Martin Rabot estratégia de sujeição não se encontra disseminada de maneira extensiva na sociedade contemporânea, mas restrita apenas às suas partes “não-administráveis”, como prisões, campos de confinamento e clínicas psiquiátricas. Nessas instituições, os indivíduos continuariam submetidos a um controle baseado em sua falta de liberdade. Por outro lado, em um cenário social mais abrangente, o controle se configuraria no modo pós-panótico — neste sofisticado arranjo de controle massivo, os indivíduos têm a sensação de exercerem uma liberdade ilimitada e, por isso, cooperam de forma ativa para a própria sujeição, fornecendo alegremente uma infinidade de informações aos sistemas que os sujeitam. “Com o velho pesadelo pan-óptico (‘nunca estou sozinho’) agora transformado na esperança de ‘nunca mais vou ficar sozinho’ (abandonado, ignorado e desprezado, banido e excluído), o medo da exposição foi abafado pela alegria de ser notado” (Bauman, 2012/2014, p. 21). Como observa com precisão o filósofo Byung-Chul Han (2012/2014a), a sociedade de controle funciona precisamente quando o seu sujeito se desnuda não por coação externa, mas por força de uma necessidade gerada em si próprio, ou seja: quando o medo de ter de renunciar à sua esfera privada e íntima cede à necessidade de se exibir sem vergonha. (p. 67) “Se não me exponho o suficiente, me torno isolado socialmente” — hoje, esta é a impressão que nos estimula a comunicar sem descanso tudo aquilo que estamos fazendo, pensando ou sentindo. É na livre comunicação que se estabelece a vigilância e a produção subjetiva. É a partir dela, por exemplo, que a análise de sentimentos detecta os nossos afetos para, simultaneamente, produzi-los. A liberdade e a comunicação ilimitadas transformam-se em controle e vigilância totais. ( … ) Mal acabamos de nos libertar do pan-ótico disciplinar, eis que entramos num outro, novo e ainda mais eficaz. Os reclusos do pan-ótico benthaminiano eram isolados com intuitos disciplinares e não se lhes permitia que falassem uns com os outros. Os residentes do pan-ótico digital, em contrapartida, comunicam intensamente uns com os outros e expõem-se por sua própria iniciativa. Participam ativamente da construção do pan-otico digital. ( … ) Assim, a transmissão dos dados não ocorre devido à coação, mas por necessidade interior. (Han, 2014/2014b, p. 17) Operando como um componente técnico desse sutil mecanismo de controle, a análise de sentimentos configura-se não apenas como uma ferramenta psicométrica (de medição), mas também como um aparato psicopolítico (de sujeição). O conceito de “psicopolítica”, tal como propõe Han (2014/2014b), diz respeito às estratégias de controle direcionadas a instrumentalizar a psique dos indivíduos. Sua meta não é dominá-los por meio de uma negatividade opressiva do corpo, por exemplo, mas por meio de uma produção positiva de elementos da subjetividade, o que inclui as emoções. Assim, as operações de controle psicopolítico não acontecem com o estabelecimento Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 113 Análise de Sentimentos: Da Psicométrica à Psicopolítica . Felipe Melhado & Jean-Martin Rabot de instituições coercitivas de permanência obrigatória, mas por meio da criação de plataformas comunicacionais nas quais os indivíduos desejem participar. Nesse sentido, o sucesso dos meios de comunicação digitais, em especial das redes sociais, leva a uma eficácia sem precedentes dos métodos psicopolíticos. Estamos a caminho da época da psicopolítica digital. Avançamos na via que leva de uma vigilância passiva a um controle ativo. ( … ) O big data é um instrumento psicopolítico extremamente eficaz que permite adquirir conhecimento integral da dinâmica inerente à sociedade da comunicação. Trata-se de um conhecimento de dominação, que permite intervir na psique e condicioná-la a um nível pré-reflexivo. (Han, 2014/2014b, p. 21) Esse condicionamento subjetivo psicopolítico é realizado com base em dados computacionais, informações sobre nós mesmos que geramos ao utilizar de modo irrestrito os aparelhos de comunicação digital. Agindo mais ou menos inadvertidamente, geramos um data double — um duplicado de nós mesmos que se torna disponível aos gestores dos sistemas de informação (Haggerty & Ericson, 2000). Neste desdobramento numérico é possível detectar elementos da nossa subjetividade que muitas vezes escapam à nossa própria consciência. Trata-se de uma espécie de inconsciente digital sobre o qual é possível atuar programaticamente. Integrando este data double estão os afetos, as emoções que muitas vezes passam desapercebidas inclusive para os próprios usuários, mas que são identificáveis na forma de emotional data. É dessa maneira que os psicopoderes buscam acessar e condicionar não as opiniões conscientes, os pensamentos racionais ou as filiações refletidas — a psicopolítica é uma prática de poder que opera em ambiente pré-reflexivo, no território do inconsciente, das emoções, naquilo que Félix Guattari já havia denominado como uma “dimensão infrapessoal” (Rolnik & Guattari, 1986, p. 27). Os agenciamentos subjetivos da psicopolítica tornam-se possíveis no período histórico em que o modelo panótico de Bentham (2019) dá lugar ao modelo pós-panótico de Bauman (2012/2014). Em uma perspectiva conceitual mais vasta, poderíamos falar ainda da passagem da “sociedade disciplinar” descrita por Michel Foucault (1975/2014) à “sociedade do controle”, conforme indicava Gilles Deleuze já na década de 1990 (Deleuze, 1992). Enquanto a sociedade disciplinar se caracterizaria pela ordenação dos corpos em diversos espaços normativos e de confinamento, a sociedade do controle se daria em um ambiente aberto, de fluxos, de redes conectivas. “Neste contexto, o modelo do panóptico, como diagrama de poder, passa a ser substituído pelo modelo de rede, que se situa além das fronteiras institucionais e é marcado pelas contínuas conexões e desconexões” (Hur, 2013, p. 209). Como observa Byung-Chul Han (2014/2014b), na sociedade disciplinar era fundamental governar as populações por meio da biopolítica, que se ocupava de regular os corpos através de normas de alimentação, saúde, higiene, natalidade, entre outras. Já na sociedade do controle contemporânea, os poderes agiriam principalmente no terreno da subjetividade, por meio da psicopolítica. Com essa mudança, a atenção dos mecanismos de sujeição passaria do corpo à psique: Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 114 Análise de Sentimentos: Da Psicométrica à Psicopolítica . Felipe Melhado & Jean-Martin Rabot a biopolítica, que se serve da estatística da população, não tem qualquer acesso ao psíquico. Não fornece material algum para o psicoprograma da população. A demografia não é uma psicografia. Não explora a psique. É aqui que reside a diferença entre a estatística e o big data. A partir do big data é possível construir não só o psicoprograma individual, mas também o psicoprograma coletivo, ou até mesmo, talvez, o psicoprograma do inconsciente. Deste modo, seria possível iluminar e explorar a psique até ao nível do inconsciente. (Han, 2014/2014b, p. 30) A análise de sentimentos, como aparato psicopolítico, possibilita que o controle seja exercido nessa latitude emocional inconsciente. As emoções, inclusive, parecem mais instrumentalizáveis se os indivíduos não estiverem plenamente conscientes de sua existência. Afinal, dessa forma, eles podem ser conduzidos à ação sem maiores resistências. Como afirma o filósofo brasileiro Charles Feitosa (2018), a psicopolítica pode ser entendida justamente como o “controle e gerenciamento das ações através de um condicionamento afetivo” (para. 2). Ou seja, no horizonte da atuação psicopolítica está a produção de sujeitos que agem — que consomem determinado produto, que participam de uma passeata em específico, que votam em um candidato estipulado, por aí adiante. O truque psicopolítico está em mover os indivíduos à ação não por meio de argumentos razoáveis, explanações ou táticas de convencimento explícitas. O que a psicopolítica promove é uma mobilização emocional: o indivíduo age obedecendo a um afeto que atravessa a sua subjetividade, impulsionando-o para aquele movimento. As emoções são performativas na medida em que evocam ações determinadas. As emoções, enquanto inclinações, representam a base energética e até mesmo sensorial da ação. São reguladas pelo sistema límbico, que é também a sede dos impulsos. Constituem um nível pré-reflexivo, semi- -consciente, corporalmente instintivo da ação, do qual não temos consciência explícita. A psicopolítica neoliberal apodera-se da emoção para exercer influência sobre as ações a este nível pré-reflexivo. Atinge o fundo do indivíduo através da emoção. Assim, a emoção representa um meio extremamente eficiente de controle psicopolítico do indivíduo. (Han, 2014/2014b, p. 57) Considerações Finais É com esta sutileza pragmática que a análise de sentimentos se caracteriza como uma técnica psicométrica, mas com finalidade psicopolítica. Ela assenta na vigilância e no controle dos afetos e pode ser direcionada inclusive a um nível inconsciente. O objetivo final de suas operações é induzir os indivíduos a ações emocionalmente informadas. Essa produção emocional, com vista à ação, é realizada tanto por meio das táticas semióticas do microtargeting, quanto pelo condicionamento afetivo programado nas plataformas de comunicação — o design emocional, tão em voga na contemporaneidade, que faz do usuário um reprodutor das emoções estipuladas pelo sistema. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 115 Análise de Sentimentos: Da Psicométrica à Psicopolítica . Felipe Melhado & Jean-Martin Rabot Neste quadro, a emoção enquanto prática de liberdade é explorada sem a nossa consciência. “Agir de acordo com as próprias emoções” se torna um imperativo arriscado, já que dificilmente podemos saber se nossos afetos são realmente autênticos, originários de uma singularidade ingovernável, ou resultado de um programa que os instrumentaliza, direcionando-os a uma capitalização alheia. Como escreveu Baruch Spinoza (2014), se uma pedra arremessada pelos ares subitamente ganhasse consciência, certamente ela imaginaria estar exercendo a liberdade de voar. Da mesma forma, na contemporaneidade, o exercício prático das emoções pode ser um movimento programado, cuja origem esteja alheia à nossa vontade consciente. Assim, o tema das emoções na contemporaneidade precisa inserir-se em um cenário mais amplo, em que parece urgente repensar a liberdade exercida nos circuitos abertos da sociedade de controle, reavaliando, por exemplo, se “a emergência de formas participatórias e interativas coincidiu com mudanças consideráveis em termos de empoderamento político e econômico” (Andrejevic, 2011, p. 620). Como observou Gilles Deleuze (1992), na sociedade de controle, cabe às novas gerações “descobrir que estão sendo levadas a servir, assim como seus antecessores descobriram, não sem dor, a finalidade das disciplinas” (p. 226)6. Agradecimentos Ao professor Manuel Pinto, por ter lido a primeira versão do artigo. Aos revisores, pelas leituras atentas. Este trabalho é apoiado ainda por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UIDB/00736/2020. Referências Andrade, O. (2017). Manifesto Antropófago e outros textos. Companhia das Letras. (Original work published 1928) Andrejevic, M. (2011). The work that affective economics does. Cultural Studies, 25(4–5), 604–620. https:// doi.org/10.1080/09502386.2011.600551 Bauman, Z. (2014). Vigilância líquida: Diálogos com David Lyon (C. A. Medeiros, Trad.). Zahar. (Trabalho original publicado em 2012) Bentham, J. (2019). O panóptico (T. Tadeu, Trad.). Autêntica. (Trabalho original publicado em 1791) 6 Detectar ou inventar formas de resistência ao controle afetivo parece estar se tornando uma das muitas tarefas urgentes para os investigadores das humanidades digitais. Embora o objetivo deste artigo se restrinja a introduzir uma compreensão acerca da análise de sentimentos enquanto mecanismo de controle e produção emocional, os seus autores desenvolvem atualmente uma investigação em que a dimensão da resistência tem lugar de reflexão privilegiado. Essa pesquisa, realizada no âmbito do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) e do doutoramento em Ciências da Comunicação da Universidade do Minho, é conduzida por Felipe Melhado sob a orientação de Jean-Martin Rabot e coorientação de Moisés de Lemos Martins e Norval Baitello. Em linhas gerais, o projeto investiga como o conceito de “antropofagia” (tal como formulado pelo poeta Oswald de Andrade, 1928/2017, e outros autores) pode ser útil enquanto tática de contra- -afecção no contexto das novas tecnologias da comunicação. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 116 Análise de Sentimentos: Da Psicométrica à Psicopolítica . Felipe Melhado & Jean-Martin Rabot Bollen, J., Pepe, A., & Mao, H. 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Os seus trabalhos incidem sobre a sociologia do imaginário, os estudos culturais e as novas tecnologias. ORCID: http://orcid.org/0000-0001-7688-3186 Email: [email protected] Morada institucional: Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Gualtar, 4710-057 Braga. Submetido: 09/09/2020 | Aceite: 14/01/2021 Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional. Direitos Digitais Durante a Pandemia de Covid-19 na América Latina María Soledad Segura Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas, Argentina/Facultad de Ciencias Sociales y Facultad de Ciencias de la Comunicación, Universidad Nacional de Córdoba, Córdoba, Argentina Ana Bizberge Instituto de Estudios de América Latina y el Caribe, Facultad de Ciencias Sociales, Universidad de Buenos Aires, Buenos Aires, Argentina Resumo Este artigo discute os direitos digitais durante a pandemia de covid-19. Propõe uma análise comparativa das medidas que afetaram os direitos digitais à liberdade de expressão, acesso e privacidade implementadas por governos e empresas privadas (fornecedores de serviço de internet e intermediários de internet) entre março e agosto de 2020 na Argentina, Brasil e México. Também estuda reações da sociedade civil e de organizações internacionais. A estrutura teórica baseia-se em disposições de direitos humanos sobre a formulação de políticas progressivas e regressivas. As questões centrais são: como os direitos digitais de liberdade de expressão, acesso e privacidade foram afetados por empresas e governos durante o período considerado nos três países estudados? Como as organizações da sociedade civil e as organizações internacionais se posicionam em relação a esses direitos digitais? É baseado em uma análise comparativa de como o governo, o setor privado e as partes interessadas da sociedade civil responderam aos desafios de governança de tecnologias da informação e comunicação criados pela pandemia, e como suas respostas de governança impactaram os direitos humanos nas áreas de liberdade de expressão, acesso e privacidade. Responder a estas questões é relevante para identificar e compreender o precedente que estas estratégias — desenvolvidas num contexto excepcional — podem abrir para o cenário pós-crise, que extrapola o âmbito deste artigo. As conclusões mostram que as políticas públicas adotadas durante a covid-19 variaram nos três países. No entanto, tanto medidas progressivas quanto regressivas podem ser identificadas nos três. As empresas desenvolveram estratégias regressivas, implementaram também algumas medidas progressivas, mas excepcionais; enquanto a sociedade civil e as organizações internacionais promoveram soluções progressivas e de longo prazo. Palavras-chave direitos digitais, internet, covid-19, confinamento, América Latina Digital Rights During the Covid-19 Pandemic in Latin America Abstract This article discusses digital rights during covid-19 pandemic. It offers a comparative analysis of the measures that affected digital rights to freedom of expression, access and privacy implemented by governments and private companies (internet service providers and internet Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021, pp. 119-144 https://doi.org/10.17231/comsoc.39(2021).2852 Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 120 Direitos Digitais Durante a Pandemia de Covid-19 na América Latina . María Soledad Segura & Ana Bizberge intermediaries) between March and August 2020 in Argentina, Brazil and Mexico. It also studies reactions from civil society and international organizations. The theoretical framework draws on human rights provisions about progressive and regressive policy making. The central questions are: how are digital rights of freedom of expression, access and privacy affected by companies and governments during the period under consideration in the three countries studied? How have civil society organizations and international organizations position themselves with regards to these digital rights? It is based on a comparative analysis of how government, private sector, and civil society stakeholders have responded to the information and communications technology governance challenges created by the pandemic, and how their governance responses have impacted human rights in the areas of freedom of expression, access, and privacy. Answering these questions is relevant to identify and understand the precedent that these strategies — developed in an exceptional context — could set for the post-crisis scenario, which exceeds the scope of this article. Conclusions show that public policies adopted during covid-19 varied in the three countries. However, in the three, both progressive and regressive measures can be identified. The companies developed regressive strategies, implemented some progressive but exceptional measures; while civil society and international organizations promoted progressive and long-term solutions. Keywords digital rights, internet, covid-19, lockdown, Latin America Introdução As novas necessidades e problemas apresentados pelo avanço da primeira pandemia global de coronavírus (covid-19) e as medidas excepcionais de confinamento da população em muitos países do mundo têm aquecido novamente os debates públicos sobre os direitos digitais. Aliás, o debate tem saído do pequeno círculo de especialistas e entrado no âmbito mais amplo da discussão política, social e da mídia. Esses novos desafios vão além das fronteiras nacionais, devido ao escopo da circulação do vírus e às políticas adotadas para enfrentá-lo, bem como à estrutura global da internet e à natureza transnacional dos fornecedores de serviços. Porém, os desafios têm adotado características diferentes em cada região e país. Este trabalho analisa as estratégias, debates e disputas sobre os direitos digitais durante o avanço da pandemia e as diversas medidas de confinamento tomadas no México, na Argentina e no Brasil. O prazo analisado é de 13 de março de 2020 (data na qual o Uruguai estabeleceu uma quarentena, sendo o primeiro país na região que o fez) até 31 de agosto de 2020, a data de término deste trabalho. As questões centrais são: como os direitos digitais de liberdade de expressão, acesso e privacidade são afetados pelas empresas e governos durante o período sob análise nos três países estudados? Como se posicionaram as organizações da sociedade civil e as organizações internacionais a respeito desses direitos digitais? Este trabalho procura fazer uma revisão do sistema de elaboração de políticas de tecnologias da informação e da comunicação (TIC) em face da pandemia de covid-19. Este artigo é baseado na análise comparativa das respostas do governo, do setor privado e da sociedade civil perante os desafios de governança das TIC trazidos pela pandemia e como essas respostas impactaram nos direitos humanos nas Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 121 Direitos Digitais Durante a Pandemia de Covid-19 na América Latina . María Soledad Segura & Ana Bizberge áreas da liberdade de expressão, acesso e privacidade. Apresenta, ainda, os dilemas das políticas e as respostas das partes interessadas na região. Responder a estas perguntas é relevante para identificar e compreender o precedente que essas estratégias, desenvolvidas em um contexto excepcional, poderiam estabelecer para o cenário pós-crise, o qual está fora do escopo deste artigo. Essas questões são analisadas da perspectiva teórica da comunicação como um direito humano fundamental, bem como da perspectiva das políticas de comunicação como um campo de disputas de sentido dentro de determinada configuração das relações entre as forças sociais. A abordagem metodológica utilizada é uma análise teóriconormativa comparativa da progressão ou regressão de medidas adotadas a respeito dos direitos humanos. Este trabalho propõe que o debate sobre a internet durante a pandemia e o confinamento na América Latina envolve três tipos de direitos digitais: acesso, privacidade e liberdade de expressão. Cada um desses direitos é afetado por vários tipos de problemas causados pela ação dos governos e/ou das empresas de internet: conectividade, conteúdo crítico mediante pagamento adicional, geolocalização de pacientes, remoção de conteúdo, promoção da autocensura, desinformação. As políticas adotadas pelos Estados incluíram medidas regressivas bem como progressivas. Às vezes, as medidas progressivas foram adotadas em associação com a sociedade civil. Num nível global, as empresas desenvolveram estratégias regressivas, anuladas em alguns casos, e algumas medidas progressivas excepcionais; enquanto a sociedade civil em cada país e as organizações multilaterais promoveram soluções progressivas e de longo prazo. Em primeiro lugar é apresentada a abordagem teórica e metodológica. A seguir, são analisadas comparativamente as estratégias e controvérsias desenvolvidas em cada país sobre os direitos digitais de liberdade de expressão, acesso e privacidade. No final do artigo, são apresentadas as conclusões. Abordagem Teórica e Metodológica Para explicar o processo de desenvolvimento e implementação de políticas no contexto de uma emergência de saúde, a política pública é entendida como a resposta do Estado, seja por ação ou por omissão, a um problema que tem dimensão pública (Oszlak & O’Donnell, 1976). Assim, a política pública implica disputas de sentido dentro de uma determinada configuração de relações de poder (Castells, 2009). As políticas de comunicação, em particular, referem-se a um conjunto de objetivos gerais para a organização do sistema de mídia mediante a regulação (seja formal, como leis ou atos administrativos, ou informal, como acordos voluntários), desenvolvido a partir da interação de diferentes tipos de atores que utilizam mecanismos formais e informais para influenciar a configuração do setor (Freedman, 2008; McQuail, 2010). A respeito da internet, usa-se cada vez mais o termo “governança”, em vez de políticas, para salientar uma mudança no processo de tomada de decisões: a mudança de um processo de tomada de decisões que coloca o Estado como o ator principal para novas formas de Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 128 Direitos Digitais Durante a Pandemia de Covid-19 na América Latina . María Soledad Segura & Ana Bizberge para. 7) e o relator da ONU afirmou que as empresas devem evitar confiar exclusivamente na moderação automática (United Nations, 2020). A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comisión Interamericana de Derechos Humanos, 2020a) também recomendou que as empresas garantam o acesso ao conteúdo para evitar o bloqueio de sites de mídia, plataformas ou contas de internet particulares. Organizações latino-americanas, como a Intervozes do Brasil, a Artículo 19, a Red en Defensa de los Derechos Digitales do México, a ADC (Asociación por los Derechos Civiles) da Argentina, a Datos Protegidos do Chile e a regional Derechos Digitales, entre outras, têm demandado há muito tempo a transparência e prestação de contas pelas plataformas mediante mecanismos regulatórios mais ou menos formais. Portanto, nesse contexto, algumas dessas organizações, como o Observatorio Latinoamericano de Regulación de Medios y Convergencia e a Fundación Karisma da Colômbia têm lançado iniciativas para documentar os casos de bloqueio, conteúdo apagado ou censura de qualquer tipo durante o avanço da covid-19 (Rangel & Martínez, 2020). Promoção da Autocensura Pelo Governo A 8 de abril, a ministra de segurança da Argentina, Sabina Frederic, anunciou que, no contexto da pandemia e do confinamento, estavam realizando um “patrulhamento cibernético” das informações disponíveis para o público nas redes sociais para monitorar o “estado de ânimo social” (Frederic habló de “ciberpatrullaje para medir humor social” y desató otra polémica, 2020, para. 1). O anúncio acendeu uma forte controvérsia. Aliás, foi noticiado que no mínimo cinco pessoas foram prendidas em relação com suas expressões nas redes sociais só durante abril, como resultado de essa prática de inteligência de fontes abertas. Como foi advertido por numerosos expertos, organizações internacionais, como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comisión Interamericana de Derechos Humanos, 2020b), e organizações civis, como Iniciativa Ciudadana para el Control del Sistema de Inteligencia, cujos membros são o Centro de Estudios Legales y Sociales, a Fundación Vía Libre e o Instituto Latinoamericano de Seguridad y Democracia, essa prática viola o princípio de inocência e a expectativa de privacidade das conversas, ainda aquelas mantidas em público, e torna as forças de segurança observadores do discurso público (Centro de Estudios Legales y Sociales, 2020; Iniciativa Ciudadana para el Control del Sistema de Inteligencia, 2020). Assim, esta ameaça a liberdade de expressão, promove a autocensura, reduz a participação dos cidadãos e apresenta um problema para a democracia. Os governos têm outras formas de promover a autocensura. A Repórteres Sem Fronteiras tem denunciado que nove países da América Latina não respeitaram o direito de liberdade de expressão durante a pandemia da covid-19. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro assediou a mídia (Reporteros Sin Fronteras, 2020b), apoiado por sua família, alguns ministros e partidários muito ativos nas redes sociais; insultou, desacreditou, estigmatizou e ridiculizou jornalistas que publicaram informações contrárias aos interesses do governo ou aos seus próprios interesses, para minar a credibilidade, criar um inimigo comum e evitar responder às suas questões (Reporteros Sin Fronteras, 2020a). Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 129 Direitos Digitais Durante a Pandemia de Covid-19 na América Latina . María Soledad Segura & Ana Bizberge Em resumo, as iniciativas de verificação de dados das organizações civis na região e a da agência de notícias do governo argentino, e as medidas tomadas globalmente pelas plataformas de mídia social para reduzir os riscos de disseminação massiva de desinformação, contribuem para o acesso a informações precisas sobre a covid-19 e, portanto, são progressivas em termos de direitos humanos. Do outro lado, são regressivos a disseminação de desinformação registada no Brasil, e inicialmente no México, as medidas para promover a autocensura pelo governo argentino, os ataques do presidente brasileiro à imprensa e o uso excessivo de inteligência artificial para moderação de conteúdo pelas plataformas globais. Acesso Com o surto da pandemia e as medidas de confinamento social, recomendadas ou obrigatórias, implementadas pelos governos, vieram à tona dois tipos de problemas relativos ao acesso à conectividade e aos conteúdos. Diversas ações foram realizadas para lidar com esses problemas. Acesso à Conectividade Na América Latina, o uso da rede de internet incrementou-se em uma média de 25% na primeira semana da pandemia (Bertolini, 2020) como consequência da aprendizagem online, o teletrabalho, as comunicações pessoais, os entretenimentos e o comércio eletrônico. A migração massiva para o teletrabalho se traduziu em muita pressão sobre a capacidade dos roteadores de Wi-Fi devido ao incremento do trabalho na nuvem (80% de incremento no tráfego para carga de dados) e videoconferências (Ookla/Speedtest, 2020, como citado em Agudelo et al., 2020). Por exemplo, no Chile e no Equador, diminuiu a velocidade de banda larga fixa (-3% e -19,6%, respectivamente), e se incrementou a latência de banda larga em diversos países da região, como o Brasil (11,7%), o Chile (19%), o Equador (11,8%) e o México (7,4%; Ookla/Speedtest, 2020, como citado em Agudelo et al., 2020). Isto fez com que disparasse o alarme de um potencial “colapso” das redes. No entanto, os expertos locais bem como as organizações globais, como a Internet Society, têm argumentado que a infraestrutura da internet foi desenhada para ser resiliente (Canabarro, 2020; Sullivan, 2020) e, em condições normais, ela se adapta a picos de alta demanda (por exemplo, no período de férias ou em eventos esportivos, como os jogos olímpicos). Mas o problema da região é a infraestrutura de última milha e a existência de fornecedores para usuários finais que não estavam prontos para lidar com a procura da banda larga residencial. Aliás, 33% das pessoas na América Latina não têm conectividade (Comisión Económica para América Latina y el Caribe, 2020). Em 11 países da região, entre 60% e 85% dos lares não têm acesso à internet (Comisión Económica para América Latina y el Caribe, 2020). Esses indicadores demonstram inequidade relacionada com a classe social, a idade e a região: pelo menos metade da população pobre, rural, jovem e idosa não tem Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 130 Direitos Digitais Durante a Pandemia de Covid-19 na América Latina . María Soledad Segura & Ana Bizberge conectividade (Comisión Económica para América Latina y el Caribe, 2020). Entre 50% e 60% dos lares nos dois quintis mais pobres, 77% dos lares rurais, 42% da população menor de 25 anos e 54% das pessoas de mais de 65 anos não têm acesso à Internet em casa (Comisión Económica para América Latina y el Caribe, 2020). A Comissão Interamericana de Direitos Humanos e o seu gabinete para a liberdade de expressão fizeram um chamamento aos Estados para acelerar as políticas de acesso universal à internet durante a pandemia da covid-19, e reconheceram as ações implementadas até esse momento nesse sentido, por serem cruciais “para o exercício dos direitos civis, políticos, econômicos e culturais” (Comisión Interamericana de Derechos Humanos, 2020c, para. 2). Os governos da América Latina trataram de mitigar os efeitos do tráfego crescente mediante diversas medidas que incluem a declaração das telecomunicações, tecnologias da informação e da comunicação, e ainda a radiodifusão, como serviços essenciais; assim como a promoção de práticas de gestão de tráfego de vídeos e de campanhas a favor do uso responsável das redes pela população. Segundo a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Comisión Económica para América Latina y el Caribe, 2020), os governos da região implementaram medidas para garantir a acessibilidade e disponibilidade dos serviços de telecomunicações, gestão de tráfego para melhorar a eficiência das redes e permitir o acesso livre a determinados aplicativos e sites, assim como medidas relativas à proteção do consumidor e à preservação da qualidade do serviço. No México, a continuidade dos serviços de telecomunicações foi garantida como parte das medidas para prevenir e mitigar os riscos da pandemia (ACUERDO por el que se establecen las medidas preventivas que se deberán implementar para la mitigación y control de los riesgos para la salud que implica la enfermedad por el virus SARS-CoV2, 2020), e o Instituto Federal de Telecomunicações, como agência reguladora, instou as autoridades federais, locais e estaduais a manter a provisão efetiva dos serviços de telecomunicações e radiodifusão (Instituto Federal de Telecomunicaciones, 2020b). O Brasil estabeleceu que os serviços de telecomunicações e o acesso à internet são essenciais e devem ser garantidos no percurso da pandemia (Decreto nº 10.282, 2020). A Agência Nacional de Telecomunicações (2020a) assinou acordos com diferentes empresas para “manter o Brasil conectado”, o que inclui a continuidade dos serviços, atenção prioritária a instituições de saúde e de segurança pública, e manter a população informada, entre outros aspetos. No entanto, nem o governo nem a Agência Nacional de Telecomunicações adotaram medidas para proibir a desconexão de serviços não pagos, e o Tribunal Regional Federal da 3.ª Região decidiu que as empresas podem interromper os serviços em caso de inadimplência (Agência Nacional de Telecomunicações, 2020d; Valente, 2020). Na Argentina, os serviços fixos e móveis, o acesso à internet e à TV paga (a cabo e via satélite) foram declarados “serviços essenciais” a partir do início da pandemia, e a suspensão e desconexão desses serviços por falta de pagamento foram proibidas por 180 dias até 31 de agosto de 2020. Além disso, o presidente decretou que os serviços de internet, celulares e TV paga são “serviços públicos na modalidade de concorrência” e Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 131 Direitos Digitais Durante a Pandemia de Covid-19 na América Latina . María Soledad Segura & Ana Bizberge autorizou a agência reguladora, o Ente Nacional de Comunicaciones, a regular os preços e controlar a qualidade dos serviços (Decreto 690/2020, 2020). O decreto também suspendeu o incremento dos preços dos serviços aos consumidores finais até 31 de dezembro de 2020. A decisão oficial foi recebida com reações adversas pela oposição, as maiores empresas de telecomunicações — que publicaram uma op-ed em 25 de agosto — e por algumas cooperativas e pequenas e médias empresas que argumentaram que essa decisão ameaçava a concorrência e a inovação, e produzia incertezas no consumidor. Ao contrário, tanto os acadêmicos como as organizações da sociedade civil, assumindo um compromisso com os direitos da comunicação, aplaudiram a decisão presidencial (Bizberge, 2020b; Cámara Argentina de Internet, 2020; COLSECOR se expresó respecto al DNU 690, 2020; Federación Argentina de Carreras de Comunicación Social, 2020; Red de Carreras de Comunicación Social y Periodismo, 2020). Para fortalecer a conectividade na pandemia, a agência reguladora destinou 41.000.000$ do Fundo Universal de Serviços para incrementar a capacidade da rede troncal (backbone) de fibra óptica (Resolución 867/2020, 2020) nas favelas e bairros marginais, e para ampliar o acesso às comunicações móveis visando conectar corredores rodoviários. Outras medidas envolveram acordos públicos e particulares. Na Argentina, o Ente Nacional de Comunicaciones, a empresa de propriedade do Estado Arsat e os fornecedores comerciais particulares Claro, Dato, Movistar e Telecom, acordaram fornecer suporte mútuo para lidar com potenciais incrementos significativos no tráfego de suas redes no mercado. No entanto, os micro, pequenos e médios vendedores que fornecem conexão residencial em muitos locais do país reconhecem dificuldades em responder ao crescente tráfego devido à obsolescência das redes, e demandaram medidas paliativas ao governo. O Ente Nacional de Comunicaciones também acordou com a Netflix e o YouTube no sentido de baixarem a qualidade de seus vídeos no país, para evitarem a sobrecarga das redes. No mesmo sentido, no Brasil, a Agência Nacional de Telecomunicações recebeu uma carta de compromisso das empresas de radiodifusão e de fornecedores de serviços audiovisuais de internet e de serviços de radiodifusão na qual comunicavam que estavam implementando medidas técnicas voluntárias para minimizar o impacto na rede pelo uso de serviços digitais (Agência Nacional de Telecomunicações, 2020b). Nesse cenário, as organizações que promovem redes de internet comunitárias em regiões rurais ou urbanas marginais, como Altermundi e Atalaya Sur, na Argentina; Redes por la Diversidad, la Equidad y la Sustentabilidad A.C. e Rizhomática no México, e Artigo 19 no Brasil, reposicionaram as suas propostas como uma opção para ampliar a conectividade em regiões onde não chegam os fornecedores particulares ou públicos, ou onde recebem serviços de baixa qualidade e/ou preços elevados (Prato et al., 2020; Roca, 2020). A Associação para o Progresso das Comunicações sugere que são necessárias políticas para “melhorar rapidamente as redes comunitárias” como resposta à pandemia (Asociación para el Progreso de las Comunicaciones, 2020, para. 11). Na Argentina, por exemplo, Altermundi — que já assinou um acordo para um link ponto-a-ponto livre com o centro de operações de redes da Universidade Nacional de Córdoba — reiterou Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 132 Direitos Digitais Durante a Pandemia de Covid-19 na América Latina . María Soledad Segura & Ana Bizberge seu pedido à empresa de eletricidade dessa província para estabelecer um link com a sua rede de fibra, de maneira a otimizar a qualidade do serviço nesse contexto. Conteúdo Zero-Rating Foram adotadas várias medidas para promover o acesso livre a conteúdo educacional, informações sobre saúde e entretenimento. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos e o seu gabinete para a liberdade de expressão reconheceram essas medidas e ressaltaram que mesmo “se mantidas no tempo essas medidas poderiam ser um problema em termos de pluralismo, [contudo, parecem] ser adequadas e equitativas em uma emergência como é no caso da covid-19” (Inter-American Commission on Human Rights, 2020, para. 11). Na Argentina, o Ministério da Educação e as universidades federais acordaram com fornecedores particulares (Claro, Movistar e Telefónica) permitir o acesso livre a conteúdo hospedado em domínios edu.ar. Aliás, as universidades públicas ofereceram bolsas de conectividade para estudantes de baixa renda, para que pudessem pagar empréstimos de dispositivos ou dados móveis. O Ministério da Educação ofereceu créditos aos professores para adquirir computadores através do Banco de la Nación Argentina. Também foi implementado o programa “Seguimos Educando” (Continuamos Educando), cujo site permite acessar diferentes recursos de ensino, assim como programas de rádio e de TV para estações comunitárias e públicas. Guias de estudo impressas também foram distribuídas com aulas para diferentes níveis de ensino. Nesse mesmo sentido, o Ministério da Educação lançou o plano federal Juana Manso, em virtude do qual, professores e estudantes do ensino fundamental e médio podiam acessar salas de aula virtuais e um repositório de conteúdo livre e aberto, fornecendo conectividade às escolas, assim como equipamento (computadores) e treinamento para os professores. Para promover o acesso livre a conteúdo oficial sobre o coronavírus, a Instituto Federal de Telecomunicações do México acordou com operadores móveis, como AT&T, Telefónica, Telcel (América Móvil) e Alban Redes (Instituto Federal de Telecomunicaciones, 2020a). O uso do aplicativo Coronavírus-SUS, no Brasil, para monitorar a pandemia não consome dados. Os operadores particulares permitem o acesso livre a dados para aplicativos governamentais e aos principais meios de comunicação no Brasil (Agudelo et al., 2020). Por exemplo, a Claro, o maior fornecedor de serviços móveis e de TV paga no país, adotou medidas de maneira voluntária para fornecer Wi-Fi livre em locais públicos e aeroportos, permitir que seus clientes com planos pré-pagos possam acessar livremente as mensagens do Ministério da Saúde durante uma hora, tenham acesso livre aos sinais da TV por tempo limitado e acesso livre a livros, música e jogos para os seus clientes. Outras empresas, como a Vivo, a Tim e a Oi, adotaram medidas semelhantes. Na Argentina, a Cablevisión ofereceu, a todos os clientes, acesso livre ao seu aplicativo Flow de vídeos sob demanda. Em diferentes lugares do mundo, bibliotecas, editoras, publicações acadêmicas, museus e plataformas de comércio eletrônico de produtos culturais abriram o acesso — em diferentes níveis e horários — a uma parte de seu conteúdo relacionado com a Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 133 Direitos Digitais Durante a Pandemia de Covid-19 na América Latina . María Soledad Segura & Ana Bizberge pandemia, a cultura e o entretenimento. Da mesma forma, alguns sites que ofereciam material livre de direitos de autor, edições esgotadas ou raras, inclusive material de recente publicação, incrementaram a sua atividade e provocaram debates intensos na Argentina sobre direitos de autor e de propriedade intelectual (Fundación Vía Libre, 2020). No resto do mundo, Creative Commons fez um apelo, a 25 de março de 2020, para acelerar as políticas de acesso aberto no contexto da pandemia, com base na necessidade de ter acesso rápido e irrestrito, nos termos mais abertos possíveis à pesquisas científicas e materiais de ensino sobre a covid-19 (Red en Defensa de los Derechos Digitales, 2020a). Mais de uma dúzia de empresas, entre elas, a Amazon, o Facebook, a Microsoft e a IBM, anunciaram seu apoio à iniciativa “Open Covid” promovida por Creative Commons e liberaram as suas patentes para facilitar as pesquisas sobre a Covid-19 (Red en Defensa de los Derechos Digitales, 2020b). Estas medidas envolveram um avanço, mas foram excepcionais. É provável que as empresas retomem as suas práticas de acesso restrito e pago aos seus conteúdos assim que a crise sanitária tiver sido controlada. No entanto, estas empresas abriram o debate sobre os direitos culturais de acesso a conteúdos. Em resumo, as políticas públicas associadas às políticas de fornecedores particulares em relação à garantia de acesso à conectividade e a conteúdos de saúde, de ensino e de entretenimento online demonstraram ser progressivas em termos de direitos humanos nos três países analisados. No entanto, há diferenças importantes entre os países em termos de grau, profundidade e escopo. A Argentina adotou um modo mais intervencionista que o México e o Brasil, com uma presença forte do Estado, tanto nas normas quanto na alocação de fundos públicos. No Brasil, a adoção de normas para promover o acesso enfrentou limitações em sua implementação quando o poder judiciário permitiu finalmente a possibilidade de suspender os serviços. Os três países tiveram iniciativas públicas e particulares de cooperação que não somente incluíam a continuidade do acesso à internet, mas também práticas de zero-rating para acessar diferentes tipos de conteúdo. Embora esse tipo de medidas seja comumente considerado uma ameaça para a neutralidade da rede, nesse contexto excepcional são medidas apropriadas e equitativas. Privacidade À medida que o SARS-CoV-2 avança na América Latina, é debatido o uso de dados pessoais para vigilância e controle da população visando monitorar a transmissão do vírus, assim como a apropriação e venda de dados pessoais para fins comerciais. Vigilância dos Estados Na América Latina, como em outros países, os governos adotaram medidas para utilizar as informações dos celulares e seus aplicativos para controlar a disseminação do SARS-CoV-2, embora às vezes estas medidas envolvam a falta de proteção razoável de direitos individuais fundamentais. Aliás, a utilidade e efetividade dos aplicativos para monitoramento da covid não foram demonstradas. Ainda mais, existem dúvidas sobre se esses aplicativos são verdadeiramente necessários ou se eles podem ser substituídos Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 134 Direitos Digitais Durante a Pandemia de Covid-19 na América Latina . María Soledad Segura & Ana Bizberge por métodos menos intrusivos. Também não é claro se essas medidas poderão ser descontinuadas quando essa situação excepcional tiver sido superada. De acordo com a Comissão Económica para a América Latina e o Caribe (Comisión Económica para América Latina y el Caribe, 2020), os aplicativos implementados em todo o país pelos governos da Argentina (Cuidar), do Brasil (Coronavírus-SUS) e do México (COVID-19MX) incluem características como, por exemplo, informações para prevenir contágios, notícias, recomendações sobre saúde e sistemas de autoavaliação. No México e no Brasil, os aplicativos compartilham também dados oficiais da situação da covid-19 no país. Na Argentina, o aplicativo oferece instruções para o período da quarentena e permissão para circular . O aplicativo federal implementado na Argentina para autoavaliação de sintomas da covid-19 e, no início da pandemia, para monitorar o cumprimento da quarentena obrigatória para as pessoas que voltavam ao país do exterior, inclui geolocalização com o consentimento informado expresso do usuário. Além disso, o número de WhatsApp fornecido pelo governo argentino para receber consultas e facilitar a autoavaliação permite identificar, ao mesmo tempo, os números de telefone e, assim, as pessoas que requerem essas informações (Lara, 2020). A versão atualizada do aplicativo permite ao usuário obter permissão de circulação para atividades autorizadas. As organizações que defendem os direitos digitais argumentaram que o objeto desse aplicativo não era claro, pois gerava incerteza a respeito de outras funções que poderia incluir no futuro. No início, o código era privado. Portanto, houve preocupação em relação ao modo como o uso de dados pessoais, especialmente a geolocalização, poderia pôr em risco a privacidade da população (Muro, 2020). O governo foi receptivo às críticas e implementou ajustes no aplicativo, como abrir o código fonte, fazer com que a geolocalização seja opcional e limitar o armazenamento dos dados à duração da pandemia (Coronavirus en Argentina: El Gobierno modificará la app CuidAR para reforzar la protección de los datos personales, 2020). O aplicativo Coronavírus-SUS no Brasil foi criticado pelas organizações da sociedade civil, as quais falaram de problemas de transparência e segurança e, em menor medida, de consentimento (Gomes et al., 2020). O presidente Bolsonaro anulou um contrato celebrado entre empresas de telecomunicações e o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação, cujo objetivo era fornecer informações sobre celulares relativas a localização geográfica e dados móveis. A decisão esteve mais ligada a uma política irresponsável sobre a pandemia do que à proteção de dados pessoais. No entanto, as autoridades dos estados têm a faculdade de implementar esse objetivo (Lara, 2020). Esse caso demonstra que os governos da região enfrentam uma oposição firme quando pretendem lançar e manter aparatos de vigilância digital massiva para conter a pandemia, não devido a um compromisso oficial firme de proteger dados pessoais ou para conseguir um equilíbrio entre objetivos de saúde pública e direitos democráticos, mas por causa de uma efetividade limitada e de pouco alcance das tecnologias móveis e digitais, assim como de problemas de governança e de fornecimento de serviços de saúde dos Estados da região (Segura & Waisbord, 2019; Waisbord & Segura, 2021). As administrações governamentais não são monolíticas. Assim que a imprensa brasileira revelou informações sobre projetos para coletar e processar digitalmente dados Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 135 Direitos Digitais Durante a Pandemia de Covid-19 na América Latina . María Soledad Segura & Ana Bizberge móveis de usuários de serviços de telecomunicações para fins de saúde e segurança, a Agência Nacional de Telecomunicações (2020c) advertiu que os projetos deviam cumprir com a legislação atual e, sobretudo, com as disposições da Constituição Federal. Além disso, ressaltou que “o equilíbrio de proteção entre a saúde e a privacidade encontra-se no ponto mais alto da hierarquia de nossas normas”; e que, ainda na crise atual, é possível “reconciliar ambos os direitos legais” (Agência Nacional de Telecomunicações, 2020c, para. 3). A agência também argumentou que, como os direitos individuais podem ser afetados, deve ser levada em conta a “proporcionalidade” da decisão, a relação custo-benefício, a possibilidade de alternativas menos invasivas e o consenso individual (Agência Nacional de Telecomunicações, 2020c, para. 3). A cultura de proteção da privacidade, embora crescente, ainda se encontra na fase inicial no Brasil. Em um cenário onde os indivíduos são particularmente conscientes desses assuntos, é obrigação do poder público oferecer uma proteção cujas consequências perdurem além da crise atual. (Agência Nacional de Telecomunicações, 2020c, para. 3) Finalmente, o Brasil — como a maioria dos países da região, salvo o Peru e o Uruguai — não implementou o aplicativo que avisa sobre possíveis contatos com pessoas infectadas (Comisión Económica para América Latina y el Caribe, 2020). Consequentemente, iniciativas acadêmicas e da sociedade civil ofereceram a sua experiência. No entanto, algumas empresas de tecnologia de vigilância, como o NSO Group, aproveitaram a imensa oportunidade comercial. No México e na Guatemala, foi recentemente revelado que os governos utilizaram as tecnologias dessas empresas na região para espiar jornalistas e ativistas (Rodriguez, 2018). Os relatores para a liberdade de expressão da ONU, a Organização dos Estados Americanos e a União Europeia pediram aos governos que limitassem o uso de tecnologias de vigilância para rastreamento do vírus. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comisión Interamericana de Derechos Humanos, 2020a) também recomendou garantir o direito à privacidade e ao processamento de dados pessoais de pacientes e indivíduos testados no decurso da pandemia. Adicionalmente, a aliança de organizações da sociedade civil da América Latina Al Sur e mais de 100 organizações no mundo instaram os governos a assegurar que o desenvolvimento de tecnologias digitais que utilizam informações sensíveis e de localização nesse contexto respeitasse os direitos humanos. Essas organizações também alertaram sobre a possível irreversibilidade de medidas implementadas no curso da pandemia. A organização regional Derechos Digitales adverte que o uso dessas tecnologias provoca muitas dúvidas: como essas informações serão anonimizadas e compactadas para evitar a identificação de indivíduos, quem tem acesso às informações, como elas serão utilizadas (e comparadas com quais outros dados), quanto tempo serão armazenadas e em quais condições, etc. (enquanto) sua utilidade com relação a seus níveis de penetração ainda são um mistério. (Lara, 2020, para. 4) Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 136 Direitos Digitais Durante a Pandemia de Covid-19 na América Latina . María Soledad Segura & Ana Bizberge Porém essas tecnologias digitais têm um impacto leve. No início, os especialistas consideram que, para oferecer resultados significativos, elas devem ser adotadas, ao menos, por 60% da população (Cerrato et al., 2020). Até outubro de 2020, logo após 7 meses do início da pandemia na América Latina, os aplicativos digitais mais populares da covid-19 na região eram os brasileiros e os argentinos, descarregados por mais de 5.000.000 de pessoas, seguidos pelo colombiano, utilizado por mais de 3.000.000 de pessoas (Pasquali, 2020). Os aplicativos do Peru, do México e do Equador foram descarregados por menos de 1.000.000 de pessoas, e os demais, por menos de 100.000 pessoas (Pasquali, 2020). Se compararmos as descargas desses aplicativos e o número de celulares disponíveis em cada país, o aplicativo argentino é o mais utilizado por apenas 14% dos usuários de celulares, seguido pelo colombiano (5%) e o Coronavírus-SUS brasileiro (4%; Segura, 2020). Levando em conta que a penetração desses aplicativos não é significativa, sua utilidade para controlar a pandemia é extremamente limitada (Segura, 2020). Comercialização de Dados Pessoais A apropriação e venda de dados pessoais para fins comerciais também foi debatida quando foi conhecida a venda de dados à Facebook realizada pela plataforma de videoconferência Zoom em todo o mundo. A Zoom teve de responder com explicações devido à pressão da opinião pública. Mesmo quando a coleta de dados pessoais como resultado da maior atividade virtual no curso da pandemia é um assunto em si mesmo, esta é citada como referência quando organizações da sociedade civil dos países da América Latina propuseram uma opção para evitar as grandes plataformas. Nesse cenário, as organizações civis que desenvolvem software livre na Argentina se associaram ao Estado federal e instalaram o Jitsi nos servidores da Arsat, uma empresa estatal, para oferecer uma opção livre, gratuita, sem vazamento de informações e com capacidade suficiente de infraestrutura para suportar muitas videoconferências massivas e simultâneas para instituições da saúde. Além disso, muitas universidades federais adotaram o Jitsi para ensino e reuniões online. Para resumir, a expansão incomum de tecnologias digitais para vigilância e controle pelos Estados mediante tecnologias digitais para monitorar a possível transmissão do vírus implicaria uma regressão significativa em assuntos de direitos humanos, a qual seria difícil de reverter após a pandemia. Embora esse impacto regressivo tenha sido limitado pois essas tecnologias digitais não foram adotadas de maneira massiva, houve um claro incremento na quantidade de informações sobre a população em bancos de dados centralizados em poder dos Estados. Uma outra regressão em assuntos de direitos humanos acontece com a apropriação de dados pessoais e sua venda comercial por plataformas de e-learning e teletrabalho. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 137 Direitos Digitais Durante a Pandemia de Covid-19 na América Latina . María Soledad Segura & Ana Bizberge Conclusões Três tipos de direitos digitais foram debatidos no curso da pandemia e do confinamento na América Latina: acesso, privacidade e liberdade de expressão. Cada um desses direitos é afetado por vários tipos de problemas provocados pelos governos e/ou pelas empresas de telecomunicações e internet: conectividade, geolocalização de pacientes, remoção de conteúdo e desinformação. As políticas públicas incluíram algumas medidas regressivas, como a disseminação oficial da desinformação, a promoção da autocensura e a vigilância, mas também envolveram algumas medidas progressivas, algumas vezes associadas com organizações da sociedade civil, como as destinadas a garantir acesso à conectividade e a conteúdos online (ofertas zero-rating). Como foi comentado por Bizberge e Segura (2020), a abordagem de cada país é associada à orientação política de cada governante, assim como às políticas públicas específicas implementadas para combater a covid-19 e às relações de poder existentes entre os atores envolvidos: fornecedores de serviços de internet e intermediários de internet altamente concentrados, governos com pouca margem para conseguir um equilíbrio entre política e economia, uma sociedade civil que, apesar de ser heterogênea, consegue que a sua voz seja escutada nos debates. As empresas de internet desenvolveram, globalmente, estratégias regressivas, mas, em alguns casos, como a disseminação de notícias falsas, censura automática, ou a venda de dados pessoais das plataformas de videoconferência, tiveram que reverter essas estratégicas, oferecer explicações ou soluções alternativas. Em relação às empresas de conectividade (fornecedores de serviço de internet), estas se aliaram com governos e adotaram cursos de ação que contribuíram para a expansão de direitos com medidas temporais, como permitir acesso a conteúdo zero -rating e planos de serviços mínimos para manter as condições de acesso a serviços de informação e comunicação. A sociedade civil de cada país tentou influir sobre os governos para que eles promovessem soluções progressivas e, em alguns casos, ela ofereceu soluções alternativas, como a verificação de dados, redes de internet comunitárias, plataformas de videoconferência com software livre e acordos de acesso aberto. Em situações arriscadas, são adotadas medidas excepcionais que podem envolver um precedente adverso, tais como práticas de vigilância, censura pública e privada. No entanto, elas também oferecem a oportunidade de construir alternativas progressivas, viáveis e sustentáveis, como as práticas excepcionais zero-rating para garantir o acesso ao tele-ensino, soluções de internet comunitárias ou software livre. A crise também é um campo fértil para debater os direitos digitais do ponto de vista de múltiplas partes interessadas, que leve em conta as contribuições de todas as partes envolvidas com um escopo social muito mais amplo. O ativismo social, a cooperação de empresas particulares e as decisões dos governos são responsáveis pela transformação dessa situação adversa em uma janela de oportunidades para garantir e exercer mais e melhores direitos. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 144 Direitos Digitais Durante a Pandemia de Covid-19 na América Latina . María Soledad Segura & Ana Bizberge Valente, J. (2020, 16 de abril). Justiça permite corte de serviços de telecomunicações de inadimplentes. Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2020-04/ justica-permite-corte-de-servicos-de-telecomunicacoes-de-inadimplentes Waisbord, S., & Segura, M. S. (2021). Covid-19 pandemic and biopolitics in Latin America. In S. Milan, E. Treré, & S. Masiero (Eds.), Covid-19 from the margins (pp. 29–32). University of Amsterdam. https:// networkcultures.org/wp-content/uploads/2021/02/Covid19FromTheMargins.pdf Wu, T. (2003). Network neutrality, broadband discrimination. Journal of Telecommunications and High Technology Law, 1(2), 141–179. https://doi.org/10.2139/ssrn.388863 Zuboff, S. (2019). The age of surveillance capitalism. Public Affairs. Notas Biográficas María Soledad Segura é professora da Faculdade de Ciências Sociais e da Faculdade de Ciências da Comunicação da Universidade Nacional de Córdoba, e pesquisadora do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas; Conicet). Possui um doutorado em ciências sociais, um mestrado em comunicação e cultura contemporâneas e é licenciada em comunicação social. Publicou sete livros, entre eles: De la Resistencia a la Incidencia. Sociedad Civil y Derecho a la Comunicación en la Argentina (Da Resistência à Incidência. Sociedade Civil e Direito à Comunicação na Argentina; Ediciones UNGS, 2018) e mais de 100 artigos acadêmicos, capítulos de livros e colunas de opinião na imprensa. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1847-942X Email: [email protected] Morada: Av. Valparaíso S/N, Córdoba Capital, X5000, Córdoba, Argentina Ana Bizberge é professora da Faculdade de Ciências Sociais, Instituto de Estudos da América Latina e do Caribe (IEALC) da Universidade de Buenos Aires. É diretora do Mestrado em Indústrias Culturais da Universidade Nacional de Quilmes e professora na Escola de Humanidades da Universidade Nacional de San Martín e da Universidade Torcuato Di Tella. Possui um doutorado em ciências sociais pela Universidade de Buenos Aires, um mestrado em indústrias culturais pela Universidade Nacional de Quilmes e é formada em ciência da comunicação pela Universidade de Buenos Aires. O título de seu último livro é Convergencia Digital y Políticas de Comunicación en Argentina, Brasil y México (2000-2017) (Convergência Digital e Políticas de Comunicação na Argentina, Brasil e México; El Colectivo, 2020). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8267-4700 Email: [email protected] Morada: Santiago del Estero 1029, CABA, C1075AAU, Argentina Submetido: 15/09/2020 | Aceite: 15/01/2021 Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional. Preferências e Práticas dos PréAdolescentes no YouTube: Resultados de um Estudo Realizado na Catalunha Maddalena Fedele Centre de Recerca en Informació, Comunicació i Cultura, Facultad de Información y Medios Audiovisuales, Universitat de Barcelona, Barcelona, Espanha Sue Aran-Ramspott Facultat de Comunicació I Relacions Internacionals Blanquerna, Universitat Ramon Llull, Barcelona, Espanha Jaume Suau Facultat de Comunicació I Relacions Internacionals Blanquerna, Universitat Ramon Llull, Barcelona, Espanha Resumo Dados recentes confirmam o papel central que o YouTube desempenha na vida mediática dos jovens ocidentais e, em especial, nas práticas mediáticas dos adolescentes e pré-adolescentes. O presente estudo pretende analisar as práticas mediáticas e os usos preferenciais que os pré-adolescentes dão ao YouTube. Apoiada na teoria dos usos e gratificações, a investigação aplica métodos de análise qualitativos e quantitativos. Através de um questionário subministrado a 1.406 pré-adolescentes (x = 12, 11 anos de idade) oriundos de 41 escolas secundárias e de três grupos-focais levados a cabo em três escolas distintas com seis participantes cada um (três raparigas e três rapazes), o presente estudo mostra que para estes jovens o YouTube é considerado simultaneamente como uma rede social e como um arquivo de material audiovisual. O estudo também revela que os jovens gostam do conteúdo disponível no YouTube e, em particular, dos vídeos de música e de humor (entretenimento) e de tutoriais (auto-aprendizagem). Em geral, os jovens sentem menor apelo pelas funções interativas (por exemplo, partilhas e comentários). O uso que fazem do YouTube revela que o incorporaram às suas vidas quotidianas e que o usam predominantemente para consumir conteúdos mediáticos de uma forma “tradicional” e “não interativa”, semelhante ao uso que se faz tradicionalmente da televisão. Apesar disso, não o consideram uma “nova” televisão. Os pré-adolescentes objeto deste estudo usam o YouTube principalmente como fonte de entretenimento e, secundariamente, como fonte de auto-aprendizagem e de socialização. Estudos futuros terão de ser levados a cabo no sentido de aprofundar o conhecimento sobre as possibilidades que o YouTube e outras redes sociais oferecem aos préadolescentes para que estes sejam prosumidores. Palavras-chave YouTube, práticas mediáticas, pré-adolescentes, adolescentes, usos mediáticos Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021, pp. 145-166 https://doi.org/10.17231/comsoc.39(2021).2714 Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 146 Preferências e Práticas dos Pré-Adolescentes no YouTube: Resultados de um Estudo Realizado na Catalunha . Maddalena Fedele, Sue Aran-Ramspott & Jaume Suau YouTube Preferences and Practices of Preadolescents: Findings From a Study Carried Out in Catalonia Abstract Recent data confirm the central role that YouTube plays in the media life of young people in the west, and especially in the media practices of adolescents and preadolescents. This article presents a study on tweens’ YouTube preferences and media practices. The study was based on the uses and gratification theory and applied a quantitative-qualitative approach: a questionnaire was administered to 1,406 preadolescents (x = 12, 11 years-old) from 41 secondary schools, and three focus groups with six participants (three girls and three boys) each were carried out in three schools. The results reveal that the tweens participating in the study consider YouTube as a social media and a video catalogue. They especially like YouTube’s content, in particular entertainment (music and humour) and self-learning (tutorials); however, they generally dislike its interactive functions (e.g., sharing and commenting). Moreover, their media practices on YouTube reveal that tweens incorporate YouTube into their everyday media life within other social media, although they use it predominantly to consume media content in a “traditional”/“non-interactive” way, similar to traditional television use. Despite this they do not consider it as a “new” television. Finally, tweens in our study use YouTube especially for entertainment, and, on a second level, for self-learning and socialising functions. Further studies need to be carried out to go deeper into the prosumption possibilities for tweens’ both on YouTube and other social media. Keywords YouTube, media practices, preadolescents, tweens, media uses Introdução O consumo e as práticas mediáticas multi-screen estão claramente enraizados na sociedade, especialmente entre a atual geração de jovens, e é previsível que esta tendência se torne cada vez mais generalizada. Este é o cenário a que alguns autores se referem como “(nova) ecologia mediática” (Scolari & Fraticelli, 2017), outros como “novo ambiente mediático”, com características próprias e diferentes das do passado (Jenkins et al., 2013; Press & Williams, 2010) e outros ainda como “vida mediática das audiências” (Deuze, 2011; Manovich, 2009), que vivem “entre” diferentes média (Lomborg & Mortensen, 2017). Qualquer que seja o termo que queiramos utilizar, o certo é que este ambiente online é natural para a chamada “geração Z”, formada pelos adolescentes e jovens atuais. Depois dos nativos digitais (Prensky, 2001) ou “millennials” (geração Y), que representam uma geração de consumidores “que exibe uma ‘híper-sociabilidade em rede’ e um ‘exibicionismo participativo’” (Serazio, 2013, p. 599), a atual geração Z pode ser considerada a primeira geração verdadeiramente digital, que compreende os indivíduos nascidos entre 1995 e 2012, que cresceram “num ambiente mediático e computacional altamente sofisticado” (Schroer, 2008, p. 9). Fernández-Cruz e Fernández-Díaz (2016) resumem as principais características da geração Z da seguinte forma: “1) conhecimento Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 147 Preferências e Práticas dos Pré-Adolescentes no YouTube: Resultados de um Estudo Realizado na Catalunha . Maddalena Fedele, Sue Aran-Ramspott & Jaume Suau especializado das tecnologias; 2) multitarefas; 3) socialmente aberta por meio do uso das tecnologias; 4) rápida e impaciente; 5) interativa e 6) resiliente” (p. 98). Entre os atuais média digitais, as chamadas redes sociais, incluindo o YouTube, desempenham um papel importante na conceção da identidade e da cultura juvenil atuais, para além se constituírem como ferramentas de socialização e de aprendizagem para os mais jovens, como os média tradicionais tinham sido no passado (Aran-Ramspott et al., 2018). Dados recentes confirmam o papel central que o YouTube desempenha na vida mediática dos jovens ocidentais. De acordo com o Pew Research Center (Anderson et al., 2018), o YouTube é a plataforma mais popular entre os adolescentes norte- -americanos e 85% deles afirma usá-lo. Mais de 80% dos pais nos EUA permitem que seus filhos vejam vídeos do YouTube, entre os quais se popularizaram os de conteúdo infantil e os protagonizados por crianças (van Kessel, 2019). De acordo com o Ofcom (2019), 89% dos adolescentes do Reino Unido usam o YouTube, especialmente para ver vídeos engraçados ou de partidas e também para consumir conteúdo musical. Além disso, quase 50% deles preferem o YouTube à televisão. Em Espanha, o YouTube é a rede melhor valorizada, depois do WhatsApp, e o seu uso continua a crescer entre a população espanhola (IAB Espanha, 2019). Cerca de 70% dos adolescentes espanhóis (14–17 anos) preferem o YouTube (depois do Facebook) a outras redes sociais (Pérez-Torres et al., 2018, p. 62). Num estudo multinacional realizado em Espanha, Portugal e Itália, os adolescentes declararam preferir “assistir a canais do YouTube” relativamente a outras práticas e atitudes mediáticas (Pereira et al., 2018). Papacharissi (2015) defende a ideia de que todos os média (tanto os “velhos” ou tradicionais meios de comunicação de massa como os “novos”, baseados na internet) são sociais, devido ao seu “caráter social ( … ) na medida em que se desenvolvem dentro do contexto das sociedades e da vida cotidiana” (p. 1). Neste sentido, é de grande interesse analisar como o YouTube, a maior rede social do mundo a par do Facebook, com quase 2.000.000 de usuários mensais em 2019 (YouTube, s.d.), desenvolve o seu potencial social, em especial no dia a dia dos jovens. As três principais características que definem a natureza “social” de alguns média digitais, segundo Bechman e Lomborg (2013), e que são muito relevantes no caso do YouTube, são: • A comunicação é informal: as redes sociais permitem que os usuários contribuam e filtrem o conteúdo que consideram relevante, partilhando-o com públicos da sua escolha. • Os usuários destes sites são intrinsecamente considerados produtores de diferentes tipos de conteúdo, dependendo da natureza dos sites (fotos, mensagens breves, vídeo, áudio, arquivos de texto, etc.). • A comunicação é interativa e em rede, o que permite que os usuários mudem constantemente do modo de produção para o modo de receção, conforme desejem. Os meios de comunicação tradicionais, como a televisão, podem desempenhar várias funções sociais, como entreter e narrar e contribuem para a socialização dos indivíduos, participando na construção da identidade pessoal, no conhecimento da realidade, na partilha e comentário com o grupo de companheiros e na identificação com personagens, entre outras (Fedele, 2011). Os média baseados na internet também podem Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 148 Preferências e Práticas dos Pré-Adolescentes no YouTube: Resultados de um Estudo Realizado na Catalunha . Maddalena Fedele, Sue Aran-Ramspott & Jaume Suau desempenhar essas funções sociais na vida cotidiana dos jovens. Com efeito, os adolescentes podem usar o YouTube da mesma forma como assistem a programas de televisão e também como “um canal de expressão e um espaço de empoderamento cultural” (García-Jiménez et al., 2016, p. 60). Arthurs et al. (2018) destacam que há um recente campo de investigação multidisciplinar centrado no YouTube que relaciona a plataforma com a cultura digital e com a sociedade. A maioria dos estudos publicados até à data centrou-se em adolescentes e jovens (por exemplo, García-Jiménez et al., 2016; Pereira et al., 2018; Pereira et al., 2019; Pires et al., 2019) ou em estudantes universitários (por exemplo, Klobas et al., 2018) e, em muito menor medida, em pré-adolescentes (9 a 13 anos), que não são crianças nem adultos (Linn, 2005), mas estão “entre o ser humano e o tornar-se” (La Rocca & Fedele, 2015, p. 19). Os pré-adolescentes são, na verdade, uma “faixa etária de transição na qual ocorrem profundas transformações físicas e psicológicas” (Quelhas-Brito, 2012, p. 580). Neste sentido, Buckingham et al. (2005) referem que, entre a meia-infância e o início da adolescência (ou seja, 9 e 12 anos), as crianças socorrem-se cada vez mais das suas competências sociais para avaliar os média. No entanto, somente a partir dos 11 ou 12 anos é que as crianças podem começar a especular sobre o impacto ideológico dos média, sobre os seus potenciais efeitos e sobre os processos de estereotipagem. Além disso, como aponta Moreno Hernández (2009, p. 61), é entre os 7 e os 12 anos que as crianças começam a ser mais sensíveis à diversidade de opiniões de pessoas que não formam parte do seu círculo mais próximo e que, de acordo com a teoria do role-taking de Selman (1980), as crianças se mostram capazes de adotar progressivamente uma perspetiva social. Neste sentido, os pré-adolescentes podem ser especialmente sensíveis ao conteúdo das redes sociais. O presente estudo centra-se precisamente nesse segmento particularmente vulnerável da população, os pré-adolescentes, analisando as suas preferências, práticas e usos relacionados com o YouTube. Usos e Práticas de Adolescentes Relacionados com as Redes Sociais Pereira et al. (2020) referem que diversos estudos sobre a relação entre crianças e jovens e os média têm sido realizados, principalmente nas últimas 2 décadas, com o foco posto nos diferentes aspetos da vida mediática dos jovens. De acordo com Subrahmanyam et al. (2015), as investigações recentes sugerem que os jovens usam os média digitais para estender as suas redes de contactos e “em geral para se conectarem com amigos, ou para procurar apoio ou cultivar vínculos emocionais” (p. 118). Existe uma linha importante de investigação sobre a autorrepresentação dos jovens nas redes sociais que indica que os adolescentes mais jovens apresentam um sentido mais multifacetado de si próprios nos seus perfis (Livingstone, 2008) e que, em particular, comunicam a sua identidade pessoal, social e de género por meio de fotografias (Salimkhan et al., 2010). A teoria de usos e gratificações, em particular, permite identificar as motivações que levam os usuários a socorrer-se das redes sociais, uma vez que permite “o estudo do ambiente mediático convergente” (Papacharissi, 2008, p. 144). De acordo com esta Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 149 Preferências e Práticas dos Pré-Adolescentes no YouTube: Resultados de um Estudo Realizado na Catalunha . Maddalena Fedele, Sue Aran-Ramspott & Jaume Suau teoria (por exemplo, Katz et al., 1973; Rubin, 2002), os públicos são considerados ativos e capazes de usar as redes para buscar diferentes tipos de gratificações ou funções, uma vez que “os indivíduos selecionam os meios e o conteúdo para atender a necessidades ou desejos sentidos” (Papacharissi, 2008, p. 137). Tanto esta abordagem teórica como os estudos culturais destacaram os usos, práticas e funções sociais que o público atribui aos meios tradicionais, como a televisão, entre as quais se incluem o entretenimento, a experiência emocional, o conhecimento do mundo, a aprendizagem social, a construção da identidade, os relacionamentos sociais, a socialização e o relacionamento com personagens, incluindo relacionamentos parassociais (por exemplo, Livingstone, 1988; Lull, 1980; McQuail, 1997; McQuail et al., 1972). No que se refere às redes sociais, Whiting e Williams (2013) identificaram 10 usos e gratificações: interação social, busca de informação, passatempo, entretenimento, relaxação, meio de comunicação, meio de conveniência, expressão de opinião, partilha de informações e vigilância/conhecimento sobre os outros. Igartua e Rodríguez-De-Dios (2016, p. 109) referem que as redes sociais permitem aos usuários obter gratificações semelhantes às já atribuídas aos média tradicionais, como aquelas baseadas no conteúdo (por exemplo, informação, entretenimento), na experiência de uso dos média (por exemplo, brincar com a tecnologia) e, devido à sua dimensão interativa, aspetos marcadamente sociais e comunicativos, como comunicar- -se com amigos e estender as suas redes de contactos (por exemplo, Bonds-Raacke & Raacke, 2010; Joinson, 2008). Igartua e Rodríguez-De-Dios (2016) propõem um modelo motivacional para descrever os motivos que levam as pessoas a usar o Facebook a partir de seis categorias: entretenimento, comunidade virtual, manutenção de relacionamentos, frieza, companheirismo e autoexpressão. Relativamente ao YouTube, Ito et al. (2010) identificam três macro-categorias de géneros de participação relacionadas com três tipos de usos: passar o tempo (“hanging out”; que pode ser considerado um uso errático), deambular (“messing around”; uso exploratório) e “dedicar-se entusiasticamente a um tema” (“geeking out”; uso especializado). O projeto de investigação europeu “Transmedia Literacy”, que se realizou no mesmo período que o presente estudo, determinou cinco usos que os adolescentes dão especificamente ao YouTube: radiofónico (por exemplo, ouvir ou descarregar música), televisivo (por exemplo, assistir a conteúdos de entretenimento ou seguir youtubers), social (por exemplo, comentar ou partilhar conteúdos), produtivo (criar ou gerir conteúdo pessoal) e educativo (por exemplo, aprender algo novo ou resolver problemas; Pires et al., 2019), incluindo aprendizagem informal (Pereira et al., 2019). Em Espanha, um dos primeiros estudos realizados sobre as motivações dos jovens e as redes sociais foi levado a cabo na Andaluzia (Colás-Bravo et al., 2013), com uma amostra semelhante à utilizada na presente investigação. Este estudo não encontrou diferenças significativas na frequência de uso das redes sociais entre raparigas e rapazes; no entanto, notou diferenças nas motivações: as dos rapazes eram mais emocionais, enquanto que as das raparigas eram mais relacionais. Outro estudo, realizado na Catalunha, sobre o uso das redes sociais por parte de adolescentes, descobriu que a função relacional e socializante das tecnologias de informação é mais marcante nas Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 150 Preferências e Práticas dos Pré-Adolescentes no YouTube: Resultados de um Estudo Realizado na Catalunha . Maddalena Fedele, Sue Aran-Ramspott & Jaume Suau raparigas (Fedele et al., 2015). No entanto, outro estudo, realizado no País Basco, revelou a existência de “padrões masculinos/femininos opostos na forma como os jovens consomem, criam e difundem conteúdos de lazer” (Fernández-de-Arroyabe-Olaortua et al., 2018, p. 61). Os autores descobriram que os videojogos são “a espinha dorsal do consumo e da criação masculina” e que as raparigas preferem usar as redes sociais (Fernández-de-Arroyabe-Olaortua et al., 2018, p. 61). Este estudo também mostrou que “criar e partilhar conteúdo audiovisual não é uma atividade difundida entre os jovens” (p. 66), o que pode estar relacionado com o uso predominantemente passivo que fazem do YouTube os usuários jovens (Pérez-Torres et al. 2018, p. 63). Um estudo etnográfico mais recente sobre as práticas mediáticas, realizado em Madrid com crianças e pré-adolescentes menores de 14 anos (de la Fuente-Prieto et al., 2020), revelou que “as redes sociais permitem que os jovens conectem as suas atividades online e offline com os seus interesses” (p. 21), para além de servirem como ferramentas de aprendizagem colaborativa. Na mesma linha, outro estudo realizado na Catalunha (Villacampa et al., 2020) concluiu que a criação e consumo de conteúdo próprio no YouTube (“prosumption”), pode ser uma ferramenta útil para abordar o tema da violência de género. Objetivos e Metodologia A finalidade deste estudo é analisar as preferências, as práticas mediáticas e os usos que os pré-adolescentes fazem do YouTube, através dos seguintes objetivos: • Entender como é que os pré-adolescentes definem e posicionam o YouTube entre as demais redes sociais. • Analisar o que é que os pré-adolescentes mais gostam e menos gostam no YouTube (características técnicas, conteúdos, funções interativas) e porquê. • Identificar os usos e as funções sociais que os pré-adolescentes atribuem ao YouTube (por exemplo, entretenimento, auto-aprendizagem, funções de socialização). • Detetar se no contexto da utilização do YouTube os pré-adolescentes assumem o papel de prosumidores. • Determinar se no contexto da utilização do YouTube se verifica uma diferença significativa entre pré-adolescentes do sexo feminino e do sexo masculino. Para atingir os objetivos da investigação, o estudo combinou uma metodologia quantitativa, que consistiu na aplicação de um questionário a 1.406 pré-adolescentes (11 e 12 anos) em 41 escolas secundárias da Catalunha, e uma metodologia qualitativa, que consistiu na análise do comportamento de três grupos focais, com seis adolescentes cada (três raparigas e três rapazes). Entramos em contato por email com todas as escolas listadas pela Secretaria de Educação do Governo, pedindo-lhes que participassem no nosso estudo e dando-lhes instruções sobre como aplicar o questionário. Um total de 41 escolas concordou livremente em participar. O questionário final, precedido de um teste piloto realizado em novembro de 2016 (Fedele et al., 2018), foi aplicado online entre dezembro de 2016 e janeiro de 2017, com a presença de um professor ou tutor. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 151 Preferências e Práticas dos Pré-Adolescentes no YouTube: Resultados de um Estudo Realizado na Catalunha . Maddalena Fedele, Sue Aran-Ramspott & Jaume Suau O questionário online, de aparência visual simples e atraente, estava composto por duas partes: • cinco questões com fins sociodemográficos, respeitando o anonimato dos participantes (e.g., idade, sexo, escola); • oito questões focadas nos tópicos de investigação: uma questão aberta e as demais com respostas fechadas (algumas de escolha múltipla e outras baseadas na escala Likert de cinco pontos). Na segunda parte, quatro das oito perguntas concentraram-se nas práticas, usos e preferências do YouTube. Em particular, os entrevistados foram convidados a responder às seguintes perguntas: • P2: o que é YouTube? • Q5/Q6: o que gostas/não gostas no YouTube? • Q4: para que usas o YouTube? Na Q2, os entrevistados poderiam selecionar até três das seguintes opções: uma rede social, um arquivo de vídeos, uma plataforma de conteúdo ou uma “nova” televisão. Estas são as opções que mais coincidem com as observações feitas por McCosker (2014, p. 203), que afirmou que, “pelo menos no que diz respeito às primeiras interações, o YouTube constitui-se como ‘como um site de alto volume, uma plataforma de transmissão, um arquivo de media e uma rede social’ (Burgess & Green, 2009, p. 5)”. Relativamente às Q5 e Q6, os participantes foram questionados, respetivamente, sobre o que mais gostavam e o que menos gostavam no YouTube. Os entrevistados receberam uma série de itens relacionados com o YouTube e que foram agrupados em três categorias: • características técnicas (velocidade/lentidão, usabilidade, qualidade do vídeo); • conteúdo (música, programas de televisão, tutoriais, memes/piadas); • funções interativas (enviar e partilhar vídeos, escrever comentários, gostar ou não gostar do material). A categorização do conteúdo foi baseada numa revisão da literatura, que identificou os principais tipos de canais do YouTube (Bärtl, 2018; Williams et al., 20141). Os participantes também puderam indicar outras características em uma categoria de opção aberta, cujos resultados foram codificados a posteriori. A Q4 foi estruturada como um conjunto de perguntas em escala Likert de cinco pontos. Pedimos aos participantes que classificassem 10 motivos específicos para usar o YouTube, numa escala de 1 (muito pouco) a 5 (muito). Os participantes também tinham a opção de responder 0 (nenhum). O valor três era considerado o ponto médio ou resposta neutra (nem muito nem pouco). De acordo com a teoria dos usos e gratificação, “as pessoas são suficientemente auto-conscientes para serem capazes de identificar os seus interesses e motivos em casos particulares ou, pelo menos, para reconhecê-los quando confrontados com eles numa formulação verbal inteligível e familiar” (Katz et al., 1973, p. 511). Sobre a base do nosso marco teórico, combinamos diferentes categorias de usos e motivações utilizadas em estudos anteriores 1 Também foi consultado https://creatoracademy.youtube.com/page/home Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 152 Preferências e Práticas dos Pré-Adolescentes no YouTube: Resultados de um Estudo Realizado na Catalunha . Maddalena Fedele, Sue Aran-Ramspott & Jaume Suau relacionados com as redes sociais (Igartua & Rodríguez-De-Dios, 2016; Ito et al., 2010) para definir as razões específicas para usar o YouTube (Tabela 1, 3.ª Coluna). Pedimos aos participantes que classificassem essas categorias de um a cinco. Ito et al. (2010) modalidades de uso Igartua e Rodríguez-De-Dios (2016) modelo motivacional Razões específicas para utilizar o YouTube (itens) Uso errático Entretenimento Passar o tempo Divertir-se Companheirismo Não se sentir sozinho Uso exploratório Manter relacionamentos Manter-se em contato com amigos Comunidade virtual Saber o que os demais fazem Sentir-se “cool” É maravilhoso Está na moda Autoexpressão Partilhar coisas Uso especializado Auto-aprendizagem* Aprender coisas Testar-se a si mesmo Tabela 1 Modelo de Práticas e Usos do YouTube Nota. Adaptação própria a partir de Ito et al. (2010) e Igartua e Rodríguez-de-Díos (2016) Para identificar a categorias de usos/práticas, combinamos (Tabela 1): • o modelo motivacional de Igartua e Rodríguez-De-Dios (2016) sobre os usos do Facebook, considerando que tanto as categorias “manter relacionamentos” como a “comunidade virtual” podem estar relacionadas com uma função de socialização; • os géneros de participação identificados por Ito et al. (2010); • a função de auto-aprendizagem (marcada com um asterisco na Tabela 1), uma categoria criada ad hoc seguindo as contribuições de outros investigadores que reconhecem que as novas tecnologias oferecem novas oportunidades de auto-aprendizagem (por exemplo, Livingstone & Sefton-Green, 2016). Análises descritivas e bivariantes foram realizadas com o software SPSS, utilizando tabelas de frequência e estatística descritiva (média, moda, mediana e desvio padrão) para a análise descritiva e testes qui-quadrado (Mann-Whitney e Kruskal-Wallis), dependendo do tipo de variável, para a análise bivariante (com nível de significância estabelecido em p < 0,05). As análises com grupos focais foram realizadas nos meses de janeiro, fevereiro e março de 2017, em três das 41 instituições de ensino colaboradoras. Os grupos foram liderados por pares de moderadores que seguiram um modelo de entrevista baseado em perguntas semiestruturadas. Os grupos focais foram gravados e posteriormente transcritos. As transcrições foram analisadas seguindo o procedimento de análise temática proposto por Braun e Clarke (2006), com o apoio do software de análise qualitativa Atlas.ti e a colaboração de um investigador externo certificado pelo Atlas.ti. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 153 Preferências e Práticas dos Pré-Adolescentes no YouTube: Resultados de um Estudo Realizado na Catalunha . Maddalena Fedele, Sue Aran-Ramspott & Jaume Suau O processo de codificação foi realizado por quatro investigadores que trabalharam em grupo. Como resultado foram criadas 21 categorias, que incluem, para fins do presente artigo, as seguintes: • noção de rede social e definição de YouTube; • preferências quanto ao conteúdo selecionado no YouTube (música, entretenimento, aprendizagem/educação, etc.); • motivos para gostar/não gostar do YouTube e as funções a ele associadas (com base nas categorias de usos/práticas da Tabela 1). Em particular, a categoria “comunidade virtual” incluía comentários como “saber o que os demais fazem” e “gostar”. Não se verificaram menções a comentários ou a manter contato com amigos offline. Na seção de resultados, as intervenções dos grupos focais foram identificadas da seguinte forma: número do grupo focal (GF1, GF2 ou GF3) + participante (rapaz [Boy]/ rapariga [Girl]) + número do participante (por ordem de intervenção). Resultados Descrição da Amostra Participaram no inquérito 1.406 alunos do primeiro ano do ensino secundário de 41 escolas secundárias da Catalunha: 716 raparigas (50,9%) e 690 rapazes (49,1%). Um total de 87,1% (n = 1.224) dos participantes tinha 12 anos, com média de idade de x = 12,11 (mediana = 12, moda = 12). Nos grupos focais participaram 18 alunos de três das escolas que tinham participado da fase anterior: nove raparigas e nove rapazes. O que é YouTube? Ao definir o YouTube, dois terços dos alunos (66%, n = 928) escolheram apenas uma das opções entre as quatro disponíveis, 26,8% (n = 377) escolheram duas opções e 7,2% (n = 101) escolheram três opções (x = 1,41). Nenhuma opção foi escolhida pela maioria dos participantes, que geralmente consideram o YouTube como sendo, em ordem decrescente, uma rede social (43,5%, N = 611), uma plataforma de conteúdo (41,7%, N = 587) e um arquivo de vídeos (40,8 %, N = 574) e, em muito menor medida, como uma “nova” televisão (15,1%, N = 213), embora a usem, como se observa abaixo, de uma forma semelhante à televisão “tradicional”, de acordo com o uso televisivo identificado por Pires et al. (2019). No entanto, os grupos focais revelaram que os pré-adolescentes se socorrem de critérios bastante díspares para identificar o que constitui uma rede social e que tipo de rede social usam. Mencionam principalmente o Instagram e, em segundo lugar, outros média ou aplicações como o YouTube, o Facebook, o Twitter, o Snapchat, o Musical.ly e o WhatsApp, embora digam que raramente ou mesmo nunca usam determinadas aplicações como o Facebook, o Twitter ou mesmo o Snapchat. Importa destacar que os participantes do grupo focal não discriminaram entre redes sociais e serviços de mensagens, como o WhatsApp, uma vez que, para a maioria Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 256 Jornalismo em Contexto de Crise Sanitária: Representações da Profissão e Expectativas dos Jornalistas . Carlos Camponez & Madalena Oliveira Procurando esclarecer o verdadeiro alcance da expressão de Max Weber, Gilles Bastin (2013) salienta o facto de o conceito exprimir uma dimensão bem mais complexa do que a simples segregação social. Na leitura de Bastin, a figura do pária, em Weber, é constituída por uma dupla e paradoxal dimensão. Por um lado, trata-se de uma personalidade cindida entre o seu estatuto social e as suas convicções, capaz, por isso, de uma adesão autoconsciente a certos valores éticos, não obstante as pressões diárias para se conformar com um mundo “racionalizado” e “desencantado”, nos termos weberianos (Bastin, 2013, p. 221). Por outro lado, é também uma personalidade capaz de, socialmente, a partir da sua experiência de injustiça, contribuir para uma redescoberta/reencantamento do sentido das nossas ações, num contexto racionalizado (Bastin, 2013, pp. 221–222). Nas palavras de Márcia Santos (2017), a cisão suscitada pela situação de pária “exprime também a condição de uma resistência ética à perda de ‘personalidade’ diante da pressão cotidiana num mundo racionalizado”, tornando os jornalistas capazes de desempenhar “um papel importante de questionamento do mundo como ele parece ser” (pp. 443–444). Nesse sentido, talvez fosse importante regressarmos às palavras de Weber (1946/1982), quando parece afirmar uma certa admiração acerca dos jornalistas: não é fácil expressar-se rápida e convincentemente sobre isto e aquilo, sobre todos os imagináveis problemas da vida – segundo as exigências do “mercado” – e fazê-lo sem se tornar absolutamente raso e, acima de tudo, sem perder a dignidade, desnudando-se, o que tem resultados impiedosos. Não é de espantar que existam muitos jornalistas que se tornaram fracassos humanos e homens indignos. É, antes, espantoso que, apesar de tudo isso, esta camada mesma inclua um número tão grande de homens de valor e realmente autênticos, um facto que as pessoas distantes da profissão dificilmente imaginam. (p. 120) A afirmação de Weber remete-nos para a natureza ambivalente da profissão de jornalista, simbolicamente dotada de autonomia e de um ethos orientado para uma responsabilidade pública, mas maioritariamente exercida por assalariados de empresas que operam no mercado. Esta dupla dimensão esteve durante muito tempo selada por um contrato entre jornalistas e empresários, nas palavras de Jay Rosen (2000). A autonomia dos jornalistas assentaria num compromisso de objetividade no tratamento das notícias, abdicando estes de fazer interferir nelas as suas próprias convicções políticas e, em troca, obteriam dos empresários a independência necessária para proceder à cobertura noticiosa dos acontecimentos. Outra forma habitual de representar este contrato é através da ideia do muro separador entre a administração dos média e as redações. Mas como demonstraram, nomeadamente Meyer (2004/2007) e Blanchot e Padioleau (2003), este equilíbrio modificou-se profundamente com o fim do “capitalismo independente das grandes famílias”, surgido nas últimas décadas do século XIX, e o aparecimento de um “capitalismo gerencial de tecnoestrutura”, assim como das novas lógicas de “financeirização” nos média (Miranda, 2018, p. 127). Estas novas lógicas parecem colocar a ideologia do jornalismo perante novos desafios, colocando as suas formas de Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 257 Jornalismo em Contexto de Crise Sanitária: Representações da Profissão e Expectativas dos Jornalistas . Carlos Camponez & Madalena Oliveira representação à beira do mito, de uma “falsa consciência”, que coloca em confronto, ingénuos valores ideais com a realidade das rotinas quotidianas (Deuze, 2007; Evetts, 2014). Condições Económicas, Trabalho, Representações e Expectativas dos Jornalistas Fizemos anteriormente referência à importância das representações do jornalismo no seu processo histórico de reconhecimento sociale de construção do seu estatuto profissional. Agora pretendemos refletir sobre a força dessas representações, num contexto em que as decisões económicas dos média têm tido um peso determinante na desprofissionalização e proletarização do jornalismo, reduzindo cada vez mais o espaço de autonomia e de realização pessoal dos jornalistas dentro das redações. Retomando um estudo de Morris Janowitz sobre a carreira militar, Tunstall (1971) estabelece um paralelismo com os jornalistas, tentando demonstrar como ambas as profissões atraem pessoas que rejeitam as rotinas quotidianas e aderem a causas idealistas. Apesar disso, para o autor, quer o jornalismo quer os militares acabam submergidos pelo real e, embora o idealismo não desapareça por completo, ele tende a manter-se sob a forma de sentimentalismo. Embora se considerem “acima do comercialismo básico”, as suas visões sobre a profissão acabavam por se ressentir pelo que “consideram ser o seu baixo nível salarial e elevada insegurança”, elementos que enfraquecem a ideologia tradicional dos profissionais quando confrontados com a realidade das suas ocupações (Tunstall, 1971, pp. 72–73). A constatação de Tunstall reflete a situação sobre os jornalistas britânicos no início dos anos 70. No entanto, os estudos consecutivos sobre os jornalistas desenvolvidos nos EUA, ao longo das últimas décadas, também mostram que as condições económicas e de trabalho têm ocupado um lugar crescente nas preocupações dos jornalistas. Com efeito, à medida que o negócio dos média se foi alterando, os jornalistas passaram a valorizar cada vez mais as condições económicas na avaliação do seu grau de satisfação com a profissão, em detrimento de aspetos mais próximos do que Tunstall identifica como elementos ideológicos, relacionados com a autonomia profissional na produção da informação. D. H. Heaver e G. C. Wilhot (1996) salientam que o início dos anos 80 marca “o início do fim de uma visão romântica sobre a profissão” (p. 90), uma situação que pode ser já bem constatada nos anos 90, altura em que o grau de satisfação é, entre os jornalistas norte-americanos, mais baixo do que o verificado noutras profissões. Neste estudo, a segurança no emprego ou os baixos salários são identificados como elementos que ameaçam a autonomia dos jornalistas, uma vez que deixam os repórteres mais vulneráveis a seduções financeiras por parte dos políticos (Heaver & Wilhot, 1996, pp. 99–101). As políticas de gestão editorial e dos média, os salários baixos e a ausência de oportunidades de progressão na carreira são identificados como as razões preponderantes na determinação do grau de insatisfação dos jornalistas com a profissão (Heaver & Wilhot, 1996, p. 105). Esta situação contrasta com os inquéritos anteriores (1971, 1981, Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 258 Jornalismo em Contexto de Crise Sanitária: Representações da Profissão e Expectativas dos Jornalistas . Carlos Camponez & Madalena Oliveira 1992) em que a satisfação dos jornalistas com a profissão tinha mais a ver com as políticas editoriais e temas relacionados com autonomia profissional, ligados ao tratamento da informação e mantém-se como uma constante no século XX (Heaver et al., 2007; Willnat & Weaver, 2014). Comparando o tipo de razões apontadas pelos jornalistas como determinantes da sua satisfação profissional, verifica-se que elas mudaram significativamente em três décadas de estudos (1971, 1981, 1992). E o elemento que se destaca são os salários. Essa situação só não é tão visível no caso dos jornalistas de imprensa, onde o modo de tratamento das notícias nas suas empresas continua a ser identificado como o elemento mais sensível (Heaver & Wilhot, 1996, p. 107). A moral baixa e a satisfação com o emprego tendem a estar de mãos dadas com as notícias contínuas sobre cortes e dispensa de pessoal identificados pela recessão económica, constatam anos mais tarde Heaver et al. (2007). Já em 2013, as tendências de insatisfação dos jornalistas com a profissão continuaram a confirmar-se e 59,7% dos jornalistas consideravam que o jornalismo estava a seguir por um mau caminho, identificando a queda dos lucros, média online, os cortes e emagrecimento das redações, a crise do modelo de negócios, assim como as notícias apressadas como as principais ameaças ao futuro do jornalismo (Willnat & Weaver, 2014). Estas conclusões devem, no entanto, ser matizadas quando pensadas a uma escala mundial. A este propósito, o estudo de Willnat e Heaver (2012, p. 534), que analisou 22 países em todo o mundo, refere que os níveis de satisfação com a profissão variam muito, assim como variam os fatores determinantes para essa satisfação. Expectativas em Tempos de Pandemia Como assinalámos antes, a história do jornalismo tem sido atravessada por ambiguidades em termos de representações sociais. Se, por um lado, se reconhece que esta é uma atividade necessária à garantia do direito universal de acesso a informação de qualidade, por outro, encara-se esta ocupação profissional com um certo desdém. Apesar de se associar o jornalismo a um propósito nobre de divulgação de acontecimentos, de investigação e de análise de matérias de interesse público, a comunicação social tem sido um setor relativamente mal reconhecido e pouco protegido dos efeitos da mundialização dos fluxos de informação. Agravado pela crise económica que enfrentam de modo generalizado as empresas de média, o quadro em que atuam os jornalistas também não tem beneficiado de condições que favoreçam uma perspetiva de futuro para os profissionais. A crise pandémica que se iniciou em fevereiro/março de 2020 motivou um interesse crescente do público por conteúdos jornalísticos. No entanto, o impacto de novas condições de trabalho e da perda de receita dos grupos de média não criou boas perspetivas para os jornalistas. Pelo contrário, agudizou a fragilidade da situação profissional, com repercussões negativas no plano das expectativas de curto e médio prazo. Com pouca confiança na possibilidade de progredir na carreira, os jornalistas portugueses Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 259 Jornalismo em Contexto de Crise Sanitária: Representações da Profissão e Expectativas dos Jornalistas . Carlos Camponez & Madalena Oliveira admitem hoje, como mais provável, a hipótese de abandono da profissão. Numa atividade marcada por um espírito de resiliência e por um sentido de missão, as perceções reveladas no “Estudo Sobre os Efeitos do Estado de Emergência no Jornalismo no Contexto da Pandemia Covid-19” dão sinais alarmantes para um setor que dificilmente continuará a ser o melhor ofício do mundo. Numa profissão a que se chega normalmente de forma muito desejada, o reconhecimento de que se pode “mudar de vida” será um indicador de que não se fica nesta ocupação a “qualquer preço”. Embora o jornalismo não seja apenas um emprego, mas antes um trabalho associado a uma vocação e a um certo compromisso com o público, as condições de exercício da atividade terão um impacto significativo na ideia de serviço que, com algum romantismo, habitualmente se atribui ao jornalista. É com essa suposição que se leem os resultados da secção “expectativas” do inquérito a que responderam 890 jornalistas portugueses, 799 dos quais com atividade (permanente ou secundária) no jornalismo. Ainda que os dados não permitam aferir explicações, não será despropositado adivinhar uma relação entre o modo como se encara o futuro e o grau de confiança que inspiram as condições laborais, alteradas, se não em termos diretos de remuneração ou pela perda de emprego, pelo menos ao nível das rotinas. Tendo em conta que neste estudo se solicitavam respostas em função de dois momentos — antes e depois da declaração do estado de emergência (DEE; em março de 2020) —, compreende-se que as mudanças abruptas que atingiram também as empresas mediáticas por ocasião da crise pandémica podem ter constituído uma espécie de choque de realidade e aumentado a consciência das fragilidades da profissão de jornalista em Portugal. Será essa a razão por que a possibilidade de abandonar a atividade se tornou provável ou muito provável para 45% dos profissionais que responderam ao inquérito, representando um aumento de quase 20 pontos percentuais quando se comparam os dois períodos (Tabela 1)1. Sem variações significativas entre homens e mulheres ou entre diferentes faixas etárias (embora com maior evidência entre os mais jovens), a hipótese de mudar de profissão é um pouco mais expressiva nos jornalistas vinculados a órgãos de imprensa do que a outros meios e também mais evidente entre os jornalistas vinculados a órgãos regionais, onde praticamente duplicou o número de profissionais que passaram a considerar provável ou muito provável deixar a atividade. Também os jornalistas com vínculos mais precários (como os estagiários e os prestadores de serviços, sem contrato, portanto) estão entre os menos confiantes, sendo os fotógrafos e os repórteres de imagem, mais do que os redatores ou repórteres, os que mais parecem encarar esse desfecho como provável ou muito provável. 1 Note-se que, apesar de terem respondido ao questionário 890 jornalistas, nas tabelas que integram este artigo n é igual a 799, o que corresponde ao número total dos respondentes que declararam ter atividade profissional, principal ou secundária, como jornalista. Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 260 Jornalismo em Contexto de Crise Sanitária: Representações da Profissão e Expectativas dos Jornalistas . Carlos Camponez & Madalena Oliveira Antes da DEE Depois da DEE n%n% Muito provável 28 3,5 114 14,3 Provável 189 23,7 245 30,7 Pouco provável 347 43,4 300 37,5 Nada provável 217 27,2 107 13,4 Não sabe / não responde 18 2,3 33 4,1 Total 799 100% 799 100% Tabela 1 Comparação das Perceções Sobre a Probabilidade de Deixar a Profissão Antes e Depois da DEE Numa profissão em que se “ganha mal” — quase metade dos jornalistas declararam ter rendimentos da atividade inferiores a 1.000 € brutos —, é também relevante o receio expresso pelos jornalistas relativamente à possibilidade de perder o emprego. Neste ponto, os dados revelam que quintuplicou o número de profissionais a considerar como alta ou muito alta a eventualidade de perder o trabalho (Tabela 2). Estes dados são indiferentes quanto à variável género, mas surgem de forma mais manifesta entre os mais jovens e com especial expressão no grupo etário dos 41 aos 50 anos, ou seja, para os que estão no pleno da vida ativa. Se esta perceção é transversal a todos os meios, ainda que com especial preponderância entre os profissionais da imprensa, foi de novo no campo da comunicação social de âmbito regional que se registou a maior variação de respostas, o que confirma a ideia de que será este o setor mais exposto à vulnerabilidade económica. Antes da DEE Depois da DEE n%n% Muito alta 7 0,9 93 11,6 Alta 36 4,5 123 15,4 Média 148 27,4 208 18,4 Baixa 219 35,7 147 14,4 Muito baixa 285 18,5 115 26,0 Não sabe / não responde 13 1,6 37 4,6 Não se aplica 91 11,4 76 9,5 Total 799 100% 799 100% Tabela 2 Comparação das Perceções Sobre a Probabilidade de Perder o Trabalho de Jornalista a Curto Prazo Antes e Depois da DEE Comunicação e Sociedade, vol. 39, 2021 261 Jornalismo em Contexto de Crise Sanitária: Representações da Profissão e Expectativas dos Jornalistas . Carlos Camponez & Madalena Oliveira A possibilidade de perder o emprego torna-se ainda mais dramática quando se avalia a perceção dos jornalistas sobre a possibilidade de encontrar outro emprego na atividade. Ora, com a declaração do primeiro estado de emergência, aumentou para 83,5% a percentagem de jornalistas que reconheciam como baixa ou muito baixa a possibilidade de encontrar uma nova oportunidade neste setor (Tabela 3), em caso de perda do emprego. Neste aspeto, as mulheres revelam um pessimismo superior aos homens, assim como os profissionais do grupo etário dos 41 aos 50 anos de idade, tendo também quase duplicado o número de jornalistas mais jovens (com menos de 30 anos) com poucas perspetivas de novo emprego no jornalismo. Embora mais uma vez os média regionais sejam os que parecem inspirar uma maior preocupação a partir das perceções dos jornalistas, com variações mais expressivas nos dois períodos em relação a novas oportunidades de trabalho, é nos órgãos de âmbito nacional que se encontram os profissionais que mais duvidam da possibilidade de voltar a ter trabalho no jornalismo se perderem o emprego. Numa análise mais fina por condição de trabalho, é claro que o pessimismo é transversal, embora afetando de modo mais visível os redatores/repórteres, os editores/coordenadores e os chefes/subchefes de redação, grupos em que mais de 86% dos profissionais consideram baixa ou muito baixa a possibilidade de encontrar novo emprego na sequência de um despedimento. Antes da DEE Depois da DEE n%n% Muito alta 13 1,6 9 1,1 Alta 59 7,4 15 1,9 Média 232 29 69 8,6 Baixa 291 36,4 162 20,3 Muito baixa 181 22,7 505 63,2 Não sabe / não responde 23 2,9 39 4,9 Total 799 100% 799 100% Tabela 3 Comparação das Perceções Sobre a Probabilidade de Encontrar Novo Emprego no Jornalismo se Estivesse Desempregado Antes e Depois da DEE Ainda que fenómenos como a desprofissionalização não ajudem a fazer do jornalismo uma carreira fortemente estruturada e que o reconhecimento público não seja absolutamente dependente do cargo que se ocupa, não deixa de ser também sintomática da falta de perspetivas futuras a pouca confiança na ideia de progressão. Já não sendo muito expressivas antes da declaração do estado de emergência, as expectativas de melhorar a posição profissional também sofreram um agravamento assinalável no início da crise pandémica, com 77,6% dos jornalistas a considerar pouco ou nada provável ascender na carreira (Tabela 4). O agravamento desta perceção atinge de modo equivalente homens e mulheres, mas com especial impacto nos mais jovens e nos profissionais [Document text truncated for crawler view.]