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Nº 58 | OTOÑO 2022 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.08 166-178 Sob a lâmina da guilhotina: contribuição de Albert Camus para a Ecologia das Mídias1 Under the guillotine blade: Albert Camus’ contributions to Media Ecology Arthur Freire Simões Pires Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul | Av. Ipiranga, 6681, Prédio 7, Partenon, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 90619-900 Brasil 0000-0002-4596-6306 | arthur.sim[email protected] Fechas: Recepción: 13/05/2022. Aceptación: 11/08/2022. Publicación: 15/10/2022 Resumo Este artigo tem como objetivo acrescentar à vertente da Ecologia das mídias as contribuições oportunizadas por Albert Camus em seu ensaio filosófico Reflexões sobre a guilhotina ([1957] 2022). Para isso, foi esboçada uma breve cronologia da tradição ecológica das mídias — amparada, sobretudo, no legado deixado por Marshall McLuhan ([1962] 1972; [1964] 1993) e Neil Postman (1993) — como forma de apresentar algumas de suas principais referências. Posto isso, por meio de uma metodologia, elaborada a partir do que o trabalho pretende alcançar, de abordagem qualitativa, de natureza teórica, lastreada em epistemologia construída na fundamentação do diálogo entre a perspectiva teórica mencionada e o ensaísmo de Albert Camus. Considerando a presença epistemológica de complementaridade, este dialogismo embutido no arrazoamento, pretende-se discorrer criticamente sobre a arguição do escritor argelino a fim de elucidar como esse contribui para a continuidade dos estudos ecológicos das mídias. Pode-se destacar, portanto, que os argumentos camusianos dão conta das as repercussões sociais e psicológicas proporcionadas pela inserção da guilhotina na sociedade francesa; representadas, em especial, pelo fomento da lei de talião no tecido social, estimulando que a noção de justiça se torne sinônimo de vingança e estimulando o despertar do sadismo incutido no coração dos seres. A invenção que deveria simbolizar o fim dos privilégios, na realidade, exime o Estado de culpa e centraliza toda a responsabilidade do desequilíbrio social em um sentenciado. Ao fim e ao cabo, a herança da guilhotina é a distorção da noção de justiça e individualização dos problemas coletivos. Palavras-chave: ecologia das mídias, Albert Camus, pena de morte, tecnologia. Abstract This article aims to add to the Media Ecology the contributions offered by Albert Camus in his philosophical essay Reflections on the guillotine ([1957] 2022). For this, a brief chronology of the ecological tradition of the media was outlined — supported, above all, by the legacy left by Marshall McLuhan ([1962] 1972; [1964] 1993) and Neil Postman (1993) — as a way of presenting some of its main references. That said, through a methodology, elaborated from what the work intends to achieve, of a qualitative approach, of a theoretical nature, based on epistemology built on the foundation 1 À professora Mágda Cunha, sua solidariedade e compaixão serão sempre motivos de reciprocidade e de agradecimentos de minha parte.
Sob a lâmina da guilhotina: contribuição de Albert Camus para a Ecologia das Mídias Arthur Freire Simões Pires 167 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.08 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 166-178 of the dialogue between the mentioned theoretical perspective and the essayism of Albert Camus. Considering the epistemological presence of complementarity, this dialogism embedded in the reasoning, it is intended to critically discuss the Algerian writer’s argument in order to elucidate how he contributes to the continuity of ecological studies of the media. It can be highlighted, therefore, that Camusian arguments account for the social and psychological repercussions provided by the insertion of the guillotine in French society; represented, in particular, by the promotion of the law of talion in the social fabric, encouraging the notion of justice to become synonymous with revenge and stimulating the awakening of sadism instilled in the hearts of beings. The invention that should symbolize the end of privileges, in fact, exempts the State from blame and centralizes all responsibility for social imbalance in a convict. After all, the legacy of the guillotine is the distortion of the notion of justice and the individualization of collective problems. Keywords: media ecology, , death penalty, technology. 1. Aspectos introdutórios Sejam quais forem, as tradições são referências importantes no estudo de fenômenos. Elas dizem respeito às trajetórias históricas de localidades, famílias e do próprio estado das coisas da contemporaneidade. Os estudos sobre suicídio, por exemplo, empreendidos tanto por Barbagli (2019) quanto por Minois (2018) reforçam, por meio do papel desempenhado pelas instituições religiosas, o impacto cultural que os dogmas católico, confucionista e hindu perpetuaram ao longo da cronologia ocidental, chinesa e indiana respectivamente. O, ainda jovem, terceiro milênio dá seus primeiros passos em sua terceira década e os novos tempos ainda apresentam cicatrizes. É, portanto, necessário pensar criticamente sobre alguns dos temas que possuem constante periodicidade no debate público – sobretudo no Ocidente. O fim da década de 2010 e início da subsequente é marcado pela ascensão de representantes da ala conservadora no campo político ocidental. Não apenas Jair Bolsonaro e Donald Trump, no Brasil e nos Estados Unidos (EUA), respectivamente, mas Nigel Farage, no Reino Unido, Marine Le Pen, na França, Maurício Macri, na Argentina, entre outros, galgaram um lugar ao Sol em seus respectivos países. Com suas escaladas, existe uma reverberação em volume maior no debate público sobre temas controversos e que, ao longo da história, foram debatidos de modo amplo. Dentre os temas que são possíveis elencar: flexibilização de leis trabalhistas, redução da maioridade penal, privatizações de companhias e serviços estatais e, em especial, a pena de morte. O destaque é dado à pena capital pela razão de ser a pauta que de modo mais direto caminha de encontro ao que determina a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) – a qual, de acordo com as Nações Unidas, estabelece em seu artigo 3º que todo indivíduo tem direito à vida. Nota-se que, ainda que cada país do mundo possua uma legislação própria, este debate esbarra em uma conquista humanitária e requer investigação minuciosa. No Brasil, por exemplo, a Constituição de 1988 prevê que o direito à vida é um valor inviolável e, por isso, superou o status quo da ditadura militar e de governos totalitários que a precederam, eliminando a pena capital de seu expediente. O caso dos EUA prevê autonomia dos estados em sua legislação e, hoje, vinte e sete deles ostentam o assassinato estatal em suas constituições.
Sob a lâmina da guilhotina: contribuição de Albert Camus para a Ecologia das Mídias Arthur Freire Simões Pires 168 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.08 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 166-178 No entanto, ainda que a pena de morte esteja hoje atrelada ao discurso dos agentes do campo conservador, deve ser feita a ressalva de que o invento de Joseph-Ignace Guillotin, a famosa guilhotina, um dia foi um dos símbolos da derrocada da realeza da França durante a Revolução Francesa. Assim, com o decorrer da história, houve a mudança de lado. Em sua origem, a lâmina mortal tinha como premissa uma morte indolor e instantânea. A própria França – país que é frequentemente referenciado pela produção filosófica, literária e sociológica de suas pensadoras e seus pensadores —, no entanto, revogou a punição mortal como ato público em 1939 e a extinguiu em definitivo em 1981. Neste ínterim, todavia, haviam confrontos de ideias sobre o tema e, sobretudo, destacam-se os escritos de Albert Camus (2022) os quais dão conta de duas frentes: contrapor os argumentos daqueles que defendiam a pena de morte e compreender quais efeitos a guilhotina teve na sociedade francesa. Este estudo tem como objetivo emparelhar a discussão camusiana da tradição ecológica das mídias em razão da confluência: “o meio é a mensagem” (McLuhan, 1993, p. 21). Este axioma mcluhaniano elucida, entre outras possibilidades interpretativas, o poder que as tecnologias possuem como agentes de transformação do mundo. Além disso, considerando o trabalho de Postman (1993), a cultura humana tende, de maneira gradativa, a render-se diante do maniqueísmo embutido nas inovações tecnológicas, sem notar sequer sua sedimentação no expediente humano. Do ponto de vista metodológico, propõe-se elaborar um trabalho de abordagem qualitativa, de natureza teórica e bibliográfica, lastreado em uma epistemologia construída na fundamentação de um diálogo entre o ensaísmo camusiano e a perspectiva ecológica das mídias. Ao passo que se estabeleça uma arguição a qual elucide a aproximação entre estas matrizes teóricas distintas e evidencie os aspectos complementares presentes na discussão empreendida. Levando todos estes elementos em conta, este estudo visa retomar historicamente a cronologia dos estudos da vertente a que os autores supracitados estão filiados, isto é, a Ecologia das Mídias; para que, deste modo, estabeleça-se um dialogismo entre a tradição ecológica dos estudos de mídias e a discussão empreendida por Albert Camus em seu ensaio histórico, social e filosófico intitulado Reflexões sobre a guilhotina ([1957] 2022). Portanto, as páginas que seguem retomam as contribuições e o desenvolvimento da tradição ecológica rumo à extensão daquilo que ela proporciona para a investigação da sociedade. 2. Rumo à tradição ecológica das mídias Ao anunciar a filiação de um estudo à vertente ecológica das mídias, no que se refere ao caráter epistemológico, assume-se determinados pressupostos teóricos – os quais se fazem necessários explicar. É preciso, portanto, que se esclareça suas origens e seu atual estado de ser no campo acadêmico, bem como os sustentáculos desta teoria. Esta seção do trabalho inicia com uma observação acerca das palavras “tecnologia”, “meio” e “mídias”. Isso se faz necessário na medida em que os três termos são recorrentes e dispõem de um vasto leque de definições e sempre determinantes para a corrente teórica sob a qual se está falando. Esta diferenciação se entrelaça ao desenvolvimento desta vertente teórica, pois, para os ecologistas das mídias, tratam-se de sinônimos; e esta acepção nasce com a obra A galáxia de Gutemberg, de
Sob a lâmina da guilhotina: contribuição de Albert Camus para a Ecologia das Mídias Arthur Freire Simões Pires 169 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.08 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 166-178 Marshall McLuhan ([1962] 1972), e a maneira com a qual o autor emprega os termos referidos. Ao consultar o Dicionário da Comunicação (Marcondes Filho, 2009), nota-se que a etimologia da palavra media (do inglês) indica sua origem como o plural da palavra medium. Ainda que, no idioma português lusitano, a utilização mais comum conserve o vocábulo exatamente igual ao da língua anglo-saxã, no português brasileiro, a depreensão do termo conserva a fonética e altera a escrita, logo, “mídia”. Existem defensores, todavia, como a professora Adriana Braga, que salientam a necessidade de flexionar o termo com a adição da letra s visando sua coerência textual. O vocábulo medium, por sua vez, ainda de acordo com o dicionário, é, por definição, um ambiente ou condição na qual algo funciona. Isto significa que, através da funcionalidade de uma tecnologia, ela passa a incorporar um universo atuando, sobretudo, como uma extensão do corpo humano (seja em sua faculdade física ou psicológica) e intermediando as associações em uma teia de relações, tal qual “a roda é uma extensão do pé, o livro é uma extensão do olho, a roupa, uma extensão da pele, os circuitos elétricos, uma extensão do sistema nervoso central” (McLuhan, Fiore, 2018, p. 31-40). Em razão desta agência, a naturalidade com a qual um meio se sedimenta na sociedade dificilmente é contestada. Posto isso, a vertente teórica da Ecologia das Mídias, fundamenta-se em uma releitura de uma grande variedade de autores de diversas áreas, ou seja, ela nasce e se perpetua em uma interdisciplinaridade imanente ao campo da Comunicação (Strate, Braga, Levinson, 2019). Há, de parte dos principais teóricos desta corrente, um movimento de deslocar pensadores de áreas distantes e os reinserir em uma nova discussão; este movimento instituiu, a partir desta conjectura formada por autores como Harold Innis e, como citado anteriormente, Marshall McLuhan, uma leitura que pressupõe a vida como um sistema ecológico. Isto significa que há um encadeamento entre os seres vivos, o ambiente e seus elementos e, uma vez que um membro deste circuito sofre alterações, todo o complexo também sofre. Então, em paralelo ao estudo da humanidade, os ecologistas das mídias perceberam que as inovações tecnológicas tinham um papel determinante nos rumos da sociedade em toda sua história, alterando a hierarquia social, as interações, a compreensão dos indivíduos sobre a realidade e assim por diante (Heilbroner, 1967). Este panorama requer que se saliente que o axioma sob o qual versa a Ecologia das Mídias está ancorado no estudo da forma e não do conteúdo, ou seja, a investigação ocorre sobre suportes. Por exemplo, o que está no livro, a título de ilustração, beira a irrelevância quando comparado ao efeito causado pela implantação da tecnologia livro na vida humana (McLuhan, 1971; 1993). Quando este mesmo autor escreve que uma cadeira é tão meio de comunicação quanto o jornal, o argumento se baseia em considerar que, ao inserir este objeto em um determinado ambiente causa alteração em todos elementos presentes; em outras palavras, uma modificação no ambiente transfigura a percepção das pessoas, sua relação com os objetos e outros seres vivos, seus pontos cegos e seus pontos de atenção. Voltando ao exemplo mcluhaniano, o conteúdo de uma cadeira é o que está sobre ela e, desta maneira, pouco importa quem ou o que está em cima dela nessa perspectiva, e sim os efeitos causados pela adição daquele meio ao ambiente. Este raciocínio é epitomado pelo aforismo mcluhaniano mais famoso, “o meio é a mensagem” (McLuhan, 1993, p. 21). A frase curta proferida pelo autor canadense sumariza a abordagem ecológica das mídias sendo o nome do primeiro capítulo de uma das mais importantes obras desta vertente, Os meios de comunicação como extensões do homem ([1964] 1993), e, desde a ascensão de Marshall McLuhan como intelectual reconhecido, tem suas possíveis significações estudadas. Logo, deve-se responder à pergunta, por que o meio é a mensagem? Antes da resposta, é importante ter em mente que uma das razões pelas
Sob a lâmina da guilhotina: contribuição de Albert Camus para a Ecologia das Mídias Arthur Freire Simões Pires 170 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.08 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 166-178 quais McLuhan se tornou um célebre pensador foi o jogo de palavras. O abundante repertório de frases folclóricas acerca de temas específicos, compilado, por exemplo, no livro Aforismos e profecias, apresenta, como descreveu Derrick de Kerckhove no prefácio, uma sequência concentrada de diferentes facetas do pensamento do autor (McLuhan, 2020), o meio sendo a mensagem, por óbvio, é o principal. Ele se notabiliza por pormenorizar o conteúdo e por determinar, através do sujeito da oração, o que realmente necessita ser objeto do exame. Toda a mensagem precisa de um meio, do contrário, ela sequer é uma informação, pois sem algo para lhe dar forma, tampouco uma tecnologia que a faça circular, ela carece de propriedade comunicativa (Martino, 2015); a tecnologia, em contrapartida, existe independente da mensagem, ou seja, o conteúdo está sempre limitado e, deste modo, é sempre fruto das condições oferecidas pelo meio, nunca o contrário. Em outras palavras, o meio subverte e possibilita a mensagem, ele a precede. Além disso, o aforismo também se sustenta pois “é o meio que configura e controla a proporção e a forma das ações humanas”, argumenta McLuhan (1993, p. 23), “o conteúdo ou os usos desses meios são tão diversos quão ineficazes na estruturação da forma das associações humanas”. Isto significa que, grosso modo, este conteúdo portado por um meio tem, em essência, a função de distrair seus interlocutores, afastando-os do real efeito que lhes está sendo causado. É a partir daí que o autor canadense define: as tecnologias possuem um efeito em cadeia, isso ocorre em razão do conteúdo de um meio remeter a outro, por exemplo, as propriedades da mensagem escrita se endereçam à oralidade; trata-se então de um processo de decodificação que mantém a audiência inconscientemente afastada daquilo que está acontecendo consigo. Dito de outra forma, “a aceitação dócil e subliminar do impacto causado pelos meios transformou-os em prisões sem muros para seus usuários”, conforme o que escreveu McLuhan (1993, p. 36). Isto sublinha que os efeitos das mídias, apesar de, até certo ponto, serem imprevisíveis, estão vinculados ao contexto onde estão inseridos. O impacto de um meio afeta todas as outras tecnologias presentes naquele ecossistema e o estágio histórico sob o qual se encontra (Heilbroner, 1967; McLuhan, 1993). A este fato, portanto, soma-se a necessidade de se caminhar adiante no estudo das mídias e discutir, por exemplo, a ideologia e as relações de poder. 3. A rendição do humano à tecnologia: aspectos teóricos e cronológicos Um invento jamais pode ter seu contexto ou as pessoas que o criaram separados de seu exame. Se a Idade da Pedra deu lugar à Idade dos Metais, o que mudou? O emprego de novas tecnologias, como a roda ou a manipulação do fogo, tendo as alterações sido marcadas pela sofisticação, no decorrer do tempo, da relação do ser humano com o ambiente tecnológico. A questão que é provocada na era Contemporânea, todavia, percorre outros níveis desta sofisticação, afinal, no decurso das civilizações, propulsionadas pelo desenvolvimento das mídias, as sociedades também se tornaram mais complexas — congregando novas características e novos sistemas de poder (Durkheim, 2016; Heilbroner, 1967). Ao observar estas nuances ao longo da história, o ecologista das mídias Neil Postman (1993) propôs uma nova classificação para os estágios da cultura e, de acordo com sua avaliação, a cultura primeiramente se baseia na utilização de ferramentas (tool-using cultures), depois atravessa a fase de tecnocracia (technocracies), até que, enfim, alcança o patamar da categoria que dá nome ao livroreferência: o tecnopólio (technopoly).
Sob a lâmina da guilhotina: contribuição de Albert Camus para a Ecologia das Mídias Arthur Freire Simões Pires 171 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.08 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 166-178 Tomando a Europa Ocidental como ponto de referência, a história, segundo Postman (1993), apresenta que, durante a Idade Média, foram as determinações teológicas que ditavam o caminhar do ambiente tecnológico. Isso quer dizer que tecnologias com propriedades dissonantes em relação aos preceitos católicos da época, como o caso do desenho do submarino de Leonardo da Vinci, eram engavetados. Assim sendo, pode-se observer que: Tool-using cultures, then, may have many tools or few, may be enthusiastic about tools or contemptuous. The name “tool-using culture” derives from the relationship in a given culture between tools and the belief system or ideology. The tools are not intruders. They are integrated into the culture in ways that do not pose significant contradictions to its world-view..... Theological assumptions served as a controlling ideology, and whatever tools were invented had, ultimately, to fit within that ideology. We may say, further, that all tool-using cultures — from the technologically most primitive to the most sophisticated — are theocratic or, if not that, unified by some metaphysical theory. Such a theology or metaphysics provides order and meaning to existence, making it almost impossible for technics to subordinate people to its own needs. (Postman, 1993, pp. 25-26) A tecnocracia, em contrapartida, possui como principal característica o ataque aos costumes, uma vez que as mídias passam a tentar destronar todos os aspectos simbólicos do mito imperativo daquela cultura; as tecnologias fazem de si uma metafísica, afim de desafiar aquele saber vigente, para, então, tornarem-se a regra posteriormente. Logo, é também Postman (1993) quem depreende da cronologia humana, por exemplo, que as contribuições de Copérnico, Kepler e Galileu não atentavam contra a Igreja, afinal, eram eles mesmos homens religiosos; todavia, a ciência criada pelos três físicos tinha um foco maior em tentar encontrar exatidão, e a questão sobre poder (sobretudo o político e/ou religioso) não era sequer levada em consideração, ou mesmo a ideia de progresso não residia naqueles pensamentos. No que diz respeito ao progresso, na realidade, acompanha os ideais de Francis Bacon. Foi ele, enfim, quem constatou a alteração no status quo causada pela inserção de três mídias: impressão (através da literatura), da pólvora (na guerra) e do ímã (na navegação). Consolidaram-se mudanças radicais na sociedade: a criação de bibliotecas públicas como consequência da extensão da educação pública, facilitando o acesso a livros que outrora eram privilégio de classes mais abastadas; a literatura alcançava as massas. Concomitante a isso, acima de tudo com a descentralização da Igreja Católica como detentora do monopólio da educação e forte representante político, as questões existenciais reaparecem no debate e a pauta das liberdades política e religiosa passam a compor a tônica da época. Na esteira das liberdades também foi debatida a ideia de liberdade econômica, em especial encabeçada por Adam Smith, e este período foi marcado da mesma maneira pela escalada dos empreendimentos. Neste contexto, a ideia de tempo foi sendo acelerada. A tecnocracia demarca uma ideia de progresso que requer maior velocidade, seja de produção, de deslocamento etc.; isto acarretou, por consequência, uma nova organização social – algo que foi disseminado pelo mundo através do processo vil de colonização e do imperialismo de diferentes nações. O individualismo atiçado pela impressão de livros, como argumentou McLuhan (1993), veria este valor transposto a novas escalas em um novo ambiente midiático, conforme elaborado por Postman (1993). Contudo, ainda que a tecnocracia se fixe como um estágio marcado pelo protagonismo das mídias, a tradição não se vê eliminada. É na submissão da existência da tradição à tecnologia que ela sobrevive
Sob a lâmina da guilhotina: contribuição de Albert Camus para a Ecologia das Mídias Arthur Freire Simões Pires 172 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.08 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 166-178 – um exemplo disso pode ser a decisão da Igreja Católica em aceitar a tradução da bíblia; o sagrado ou o mito não desaparecem, eles são alterados preservando seu núcleo duro. A virada para o que o autor chama de tecnopólio, então, circunscreve uma nova relação entre o ambiente tecnológico e o simbólico: Technopoly eliminates alternatives to itself in precisely the way Aldous Huxley outlined in Brave New World. It does not make them illegal. It does not make them immoral. It does not even make them unpopular. It makes them invisible and therefore irrelevant. And it does so by redefining what we mean by religion, by art, by family, by politics, by history, by truth, by privacy, by intelligence, so that our definitions fit its new requirements. Technopoly, in other words, is totalitarian technocracy. (Postman, 1993, p. 48) Pelo que é definido, então, o tecnopólio? Postman (1993) argumenta que algumas noções as quais, em sua origem são essencialmente subjetivas, e curvam-se diante de tecnologias em uma dimensão imaterial. Na prática, isso quer dizer que o propósito da humanidade se resume, nessa perspectiva, à questão produtiva, e a lógica por trás dos valores humanos tidos como racionais, cada vez mais, se vincula a referências objetivas (como estatísticas) e o âmago abstrato do ser é marginalizado à categoria de emoção. Quando apenas o que é objetivo e calculado vale, menos se pensa e, na realidade, de acordo com o autor, as mídias executam o trabalho de pensar para o humano. Com o fortalecimento da crítica científica aos pilares da tradição, o vínculo que revigorava questões relativas ao expediente humano (como as explicadas neste parágrafo) passou, portanto, a ruir. O autor menciona, por exemplo, Charles Darwin, Albert Einstein, Sigmund Freud, Karl Marx e Friedrich Nietzsche como exemplos que passam a ser negligenciados neste cenário de ruína. O diagnóstico da morte do divino, os passos da história, a origem do ser humano e tantas outras contribuições que puseram o que um dia fora certeza como uma dúvida ou um equívoco. Como consequência, é preciso reforçar, o erro é atrelado ao humano, não à máquina. Os remédios curam, o carro transporta, a geladeira refrigera e assim sucessivamente; as tecnologias afloram como elementos neutros para uma audiência que as compra e consome de maneira desenfreada. Deve-se ter em mente que, por conta desta cronologia esboçada até este ponto do estudo, há um fator que se consolida como determinante. As mídias são fruto de alguma construção, elas possuem alguma origem. Até mesmo as mídias naturais. O pescoço da girafa ou a bolsa dos marsupiais foram adquiridos com a evolução da espécie ao longo do tempo (Strate, Braga, Levinson, 2019). No caso das tecnologias que compõem a vida humana, sua inserção pressupõe uma perspectiva ideológica que é acompanhada de um discurso otimista sobre esta entrada. A revolução industrial fortaleceu ricos e pôs a classe operária em uma condição sub-humana de trabalho, ou mesmo ocasionou a redução de empregos, justificando-se em nome do progresso (Postman, 1993). O dinheiro tornou os valores subjetivos de dívidas de favores e das relações antes amparadas em aspectos morais em uma medida objetiva (Benjamin, 1969); no longo prazo, os grandes beneficiários foram grandes empresários que viriam a ser donos de bancos. Um caso ainda mais ilustrativo, evidenciado por Portman (1993), era o da máquina H A G O T H, que examinava o stress content da voz humana para saber se alguém mentia ou não. A questão trazida, sobretudo no último exemplo, é que a mentalidade inoculada por cada uma das tecnologias ganha proporções maiores do que ela própria. Ainda que o tal H A G O T H não tenha se perpetuado, a ideia de que a abstração, a complexidade ou a dúvida podem ser simplificadas, suprimidas ou mesmo eliminadas por um fator, à princípio, imparcial, este sim, se perpetua.
Sob a lâmina da guilhotina: contribuição de Albert Camus para a Ecologia das Mídias Arthur Freire Simões Pires 173 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.08 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 166-178 O argumento todo de Neil Postman (1993) alerta para uma cultura que perde parte de seu poder de reflexão sobre sua condição social e reverencia toda e qualquer tecnologia como algo sempre positivo e imparcial. O autor classificou naquele momento os EUA como a única cultura totalmente rendida à tecnologia, pela veloz aceitação e difusão de aparatos tecnológicos pelo território e pela forma como, neste âmbito cultural, as tecnologias rapidamente passaram a compor o expediente humano. As mídias, portanto, têm seus financiadores e os interessados em ver determinado invento se tornar parte inalienável do cotidiano humano. Torna-se difícil prever o futuro, ou fornecer qualquer exatidão de como um meio operará no ecossistema, todavia como já foi evidenciado por diferentes mentes (citadas ao longo deste trabalho), o exame das tecnologias é possível, bem como o impacto que elas tiveram. Isto adverte, enfim, para uma observação ainda mais minuciosa dos aparatos técnicos que virão e dos que vieram, mas que ainda não foram analisados; isto é, cada meio carrega um viés ideológico, ele serve aos interesses de quem o criou, muitas vezes com o intuito de fazer os dominados venerarem um novo dominador (Innis, 2011; Postman, 1993). É através desta silenciosa inoculação na cultura que o tecnopólio se instaura como lei supra que se sobrepõe a qualquer tradição. 4. Quando Albert Camus lança o olhar para o cadafalso Argelino de nascimento, Albert Camus alcançara notoriedade em seu país natal (a Argélia) e, anos mais tarde, na França (e, por conseguinte, Europa Ocidental) em razão de sua atuação destacada no jornalismo, na literatura e no ensaísmo. Antes dos 30 anos, tornara-se persona non grata em sua nação de origem em razão da insurgente linha editorial seguida por ele e seus correligionários do periódico Alger Républicain. Naquele momento, o argelino colecionara também envolvimento em movimentos políticos antifascista (como o Amsterdã-Pleyel) e em partidos políticos de esquerda com pautas anticoloniais. A reboque disso, desde a juventude, Camus colaborou também por meio do teatro com alas trabalhistas das células políticas as quais era integrante, arquitetando peças para os trabalhadores (González, 1983). Como capítulo seguinte, imigrara rumo à França e incorporou a resistência francesa à invasão nazifascista [1944], sobretudo, como editor-chefe do jornal Combat, à época, clandestino. Durante este período, o autor entrara em contato com uma série de intelectuais que o indicaram à editora Gallimard como leitor de manuscritos; esta ligação pavimentou o caminho para que Camus publicasse suas obras ensaísticas e literárias, enquanto também intervinha no debate público por meio de seu articulismo nos veículos jornalísticos (Santos-Sainz, 2016). É importante destacar estes aspectos pois a constituição política deste pensador, que se tornaria um dos grandes intelectuais públicos de sua época, é indivorciável de suas produções – tanto no quesito literário quanto no filosófico. Portanto, Camus era um homem de esquerda, pacifista e antitotalitarista. Estes fatos precisam ser lembrados para compreender o percurso lógico do autor e, em assim sendo, é possível perceber, na leitura de suas obras, sobretudo, que a questão da integridade humana é preponderante. O texto do argelino tido como referência principal para este estudo, Reflexões sobre a guilhotina, tem suas bases fundadas no ciclo de obras pregresso – composto pelo romance A peste ([1947] 2020), a peça teatral Estado de sítio ([1948] 2018) e o ensaio filosófico O homem revoltado ([1951] 2019). Há uma perfeita ilustração de como os valores éticos imbricados na obra de Camus se manifestam, na narrativa literária A peste, quando o personagem principal, o médico Bernard Rieux, é pressionado pelo jornalista Raymond Rambert, a prescrever um passe que lhe permitiria evadir o lockdown instalado em Orã – que, segundo a ficção, encontrava-se exilada pela peste – ao que o protagonista responde:
Sob a lâmina da guilhotina: contribuição de Albert Camus para a Ecologia das Mídias Arthur Freire Simões Pires 174 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.08 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 166-178 Por nada deste mundo eu gostaria de demovê-lo do que vai fazer, que me parece justo e bom. Mas devo dizer-lhe uma coisa: tudo isso não se trata de heroísmo. Trata-se de honestidade. É uma ideia que talvez faça rir, mas a única maneira de lutar contra a peste é a honestidade. [...]. Não sei o que ela é em geral. Mas, no meu caso, sei que consiste em fazer o meu trabalho. (Camus, 2020, pp. 153-154) Ademais, em sua obra mais polêmica, O homem revoltado, Camus (2019) rompe com a intelectualidade da época ao constatar que havia grande complacência e conivência com o alinhamento dos países ditos democráticos com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), comandada em regime totalitário por Joseph Stalin, que, na visão do argelino, era tão vil quanto Francisco Franco, Adolf Hitler e Benito Mussolini; os valores morais que supostamente conduziam as nações na luta contra o nazifascismo, então, ruíam em contradição, em nome do pragmatismo político – a lógica de que os fins justificam os meios, célebre aforismo presente na obra maquiavélica, é subvertida para “os meios são um fim em si mesmo”, como forma da manutenção do poder. Seus efeitos, sob a lógica argumentativa camusiana, para criar artificialidades que, em seu âmago, fornecem sentido, unidade e clareza à existência humana; a qual, por sua vez, carece destas valências. O autor transporta sua linha de raciocínio para dentro dos limites do território francês, onde estava novamente radicado após alguns anos morando em Orã (González, 1983). Com isso, Camus (2022) descreve uma das memórias de seu pai, que morrera no ano seguinte de seu nascimento, para dar início à discussão sobre a pena capital. Deve-se lembrar que a guilhotina, instrumento que um dia foi símbolo da queda da nobreza francesa, foi, durante muitos anos, um espetáculo público: as pessoas se reuniam em praça pública para ver réus serem executados. Em um dos casos, Lucien Auguste Camus havia feito parte da multidão e, ao invés de retornar como sentimento implacável de justiça, ele retorna com um mal-estar assombroso definido por náuseas e um sentimento de transtorno. Este é, portanto, o início do processo de arguição do presente artigo; pois ao se dar conta que o tiro saiu pela culatra, Camus (2022) inicia sua indagação acerca do efeito adverso provocado pelo invento que deveria despertar esperança e bons prospectos. O exame, então, inicia com um movimento de escrutinar qual o pensamento que sustenta (ou, na verdade, que estava sustentando) o assassinato estatal por tanto tempo. Sob a justificativa do bem e da ordem, a pena de morte foi por séculos conservada na França e, faz-se o destaque para o verbo empregado, pois, o filósofo argelino evidencia que parte das alas conservadoras da sociedade francesa, sobretudo na primeira metade do século XXI, a sustentação argumentativa para preservar o ritual do assassinato. Esta arguição conservadora parte do princípio que o grau extremo da punição necessariamente repercute como um exemplo disciplinador para toda a sociedade, “não se cortam cabeças apenas para punir seus portadores, mas, sim, intimidar, por meio de um exemplo aterrorizante” (Camus, 2022, p. 25). Este discurso, ainda segundo o autor, vive na corda bamba da especulação, visto que a pesquisa bibliográfica apresentada pelo argelino contradiz a crença daqueles que advogavam pela pena capital. Não houve comoção pública alguma, de acordo com o filósofo, que comprovasse a adesão do público a esta exemplaridade, portanto, o efeito causado não foi o de participação. “A sobrevida deste rito primitivo só foi possível em nosso caso pela apatia ou pela ignorância da opinião pública”, evidencia Camus (2022, p. 22), “quando a imaginação dorme, as palavras se esvaziam de seu sentido: um povo surdo registra distraidamente a condenação de um homem”.