787 Arqueologia em Portugal / 2017 – Estado da Questão contextos e práticas funerárias da idade do bronze na bacia hidrográfica do rio ave (noroeste de portugal) Hugo Aluai Sampaio1 Resumo Os dados para o Bronze Final permanecem desconhecidos. Durante o Bronze Inicial a presença de objetos metálicos e de alguns túmulos opulentos conectados com o vale parecem “marcar fisicamente” a paisagem. Nas montanhas os monumentos sob tumuli indiciam a importância do papel social da morte e da necessária preser‑ vação da memória ancestral. Durante o Bronze Médio os dados revelam modos de vida e concepções distintas da morte. Se para as comunidades serranas esta parece continuar a ser um importante marco espacial, nos vales predomina a morte invisível, quiçá associada à perda da importância do cadáver enquanto referência coletiva e espacial. Há, ainda, certos lugares ancestrais de memória e de grande significado coletivo (re)visitados entre o Bronze Inicial e o Bronze Final. Palavras ‑chave: Bronze Inicial, Bronze Médio, Necrópole, Inumação, Cremação. AbstRAct Late Bronze Age data is unknown. During Early Bronze the presence of metallic objects and some opulent tombs connected to valley areas seems to “physically sign” landscape. In mountain areas cairns indicate the social importance of death and the necessity of preserving ancestral memory. During Middle Bronze Age data reveals distinct lifestyles and conceptions of death. For communities linked to mountain areas death prevails as a significant form of landscape “imprinting”. In valleys prevails an invisible death, perhaps connected to the increasing lost of corpses importance as collective and spatial references. There are also some immemorial ancestral places (re)visited between Early and Late Bronze Age that denounce collective meaningfulness. Keywords: Early Bronze Age, Middle Bronze Age, Necropolis, Inhumation, Cremation. 1. Laboratório de Paisagens, Património e Território (Lab2PT), Universidade do Minho;
[email protected] 1. INTRODUÇÃO A área de estudo, geomorfologicamente acidentada e rica em recursos hídricos, apresenta terreno re‑ cortado, formando uma rede de vias naturais de cir‑ culação que interligam todo o Noroeste português. É uma zona onde abundam as jazidas primárias de estanho e volframite e os solos de apetência agrí‑ cola. A ambiguidade de alguns dados poderá ques‑ tionar o seu caráter funerário. E a sua interpretação estará sempre sujeita à crítica, ausentes que são (na maioria dos casos) os indícios irrefutáveis – como ossadas humanas – que os corroborem. No entan‑ to, uma abordagem interpretativa e contextual aos dados aflora novas questões e problemáticas de in‑ vestigação mas, acima de tudo, mostra a complexa e plural realidade funerária da Idade do Bronze na fachada atlântica. 2. CONTEXTOS DE TUMULAÇÃO E PRÁTICAS FUNERÁRIAS NA BACIA DO RIO AVE Entre os sítios catalogados figuram diferentes tipo‑ logias (Tabela 1). A reutilização de monumentos megalíticos ocorreu na Lapinha (Guimarães) e, tal‑ vez, na Antela dos Corgos/Córregos (Trofa). Naque‑ le contexto, segundo Sanches (1981, p. 94) um vaso
788 tecnologicamente enquadrável na Idade do Bronze estaria “por debaixo da pedra de cobertura de um dól‑ men”. Da Antela dos Corgos/Córregos há referên‑ cia a, entre outros objetos líticos, um anel em cobre (Bouza Brey & López Cuevillas, 1929). Tratando ‑se de uma espiral (?) poderia remeter para uma reutili‑ zação ocorrida durante o Bronze Inicial. Os monumentos sob tumuli escavados revelaram couraças pétreas maioritariamente graníticas, por vezes sobre uma camada de sedimentos, com abun‑ dantes quartzos, algo observado noutros monu‑ mentos coetâneos no NO de Portugal (entre outros, Cruz, Gomes & Carvalho, 1998a, 1998b; Vilaça & Cruz, 1999; Cruz & alii, 2000; Bettencourt, 2010a; Sá, 2014; Pereira, 2014). A couraça do monumento da Regedoura 2 incluía seixos e blocos graníticos “dente de cavalo”, substituindo os feldspatos a fun‑ ção dos quartzos (Gabriel Pereira, comun. pess.). Alguns destes monumentos possuíam elementos definindo o perímetro funerário: as lajes fincadas da Laje da Malhadoura 1; os 3 pequenos afloramentos circuitando o tumulus de Lobo 2; e, eventualmen‑ te, as lajes deslocadas para a superfície da câmara do monumento de Regedoura 2 (Gabriel Pereira, comun. pess.). Destaque para Lameirão/Cruz Nova (Celorico de Basto), cuja estela (Sousa, 1996) teria integrado originalmente a sua couraça (Ana Betten‑ court, comun. pess.). As partes centrais destes monumentos são varia‑ das. A ausência de estrutura pétrea central em Vale de Chão 1 levou Vilas Boas (2014a, p. 22) a ponderar “a deposição do corpo ou de eventuais cinzas (…) diretamente sobre o solo ou sobre qualquer estru‑ tura em material perecível”. A presença de carvões vegetais na última camada da área central poderia explicar ‑se pela deposição de ossos cremados ou ri‑ tos de fogo aí praticados, permitindo questionar os papéis meramente sepulcrais destes monumentos. A construção de Vale de Chão 1 remonta ao Bronze Inicial (Tabela 2) e é consonante com as cronologias propostas para monumentos semelhantes (Vilaça & Cruz, 1999; Bettencourt, 2010a). Sob a couraça pétrea do tumulus e em área central de Vale de Chão 2 blocos de maiores dimensões com disposição circular encostavam a nascente a um grande bloco gravado na superfície superior com 5 covinhas em semicírculo e, a poente, a outra peque‑ na laje fincada na vertical gravada com mais três (Vi‑ las Boas, 2014b). Associação semelhante verifica ‑se no tumulus 1 de Monte Calvo (Arouca), com uma estela gravada com um pedomorfo de bovino (Sá, 2014), ou no tumulus de Casinha Derribada 3 (Vi‑ seu), onde a laje de cobertura de uma fossa foi gra‑ vada com um reticulado, monumento datado do Bronze Médio (Cruz, Gomes & Carvalho, 1998b). A câmara pétrea bastante perturbada de Regedoura 2 permitiu a recolha descontextualizada de um bra‑ çal de arqueiro, uma ponta de seta de tipo Palmela e vários fragmentos cerâmicos tecnologicamente situáveis na transição entre o Calcolítico e Bronze Inicial (Gabriel Pereira, comun. pess.). A aglomeração destes monumentos em necrópoles deu preferência, amiúde, a lugares funerários ances‑ trais: Vale de Chão 1, 2 e 4 e Carvalho 1 e 2, foram construídos nas imediações do monumento me‑ galítico de Vale de Chão 3, de cronologia anterior (Vilas Boas, 2014b); Regedoura 2 foi, também ele, erguido nas imediações do dólmen de Regedoura 1 (Gabriel Pereira, comun. pess.). A maioria deste monumentos denuncia maior pro‑ ximidade a ambientes montanhosos comparativa‑ mente a outros vestígios funerários. Algumas sepulturas planas revelaram a presença de uma tampa de arena granítica (Sampaio & alii, 2014; Sampaio & Bettencourt, 2014; Sampaio, 2014). O grau de destruição/perturbação de outras não dei‑ xou perceber tal situação. A distribuição espacial destas estruturas, como no caso do Pego, mostra dois núcleos, lembrando a ne‑ crópole do final do Bronze Médio de Agra de Antas (Esposende) tendencialmente polinuclear (Betten‑ court, 2011). Dentro de ligeiras nuances, as sepulturas planas apresentam arquiteturas e oferendas muito seme‑ lhantes (Figura 1), de um modo geral vasos de bordo horizontal, salvo raras exceções onde os materiais se encontravam ausentes. Encontram paralelos em Tapado da Caldeira (Baião) (Jorge, 1980, 1983), Cimalha (Felgueiras) (Almeida & Fernandes, 2008), Alto da Vela/Gulpilhares (V.N. de Gaia) (Fortes, 1909), Coto da Laborada (Calvos de Randín) (López Cuevillas, 1930, 1947) ou Mon‑ te de Mesiego (O Carballiño) (Lopez Cuevillas & Lamas, 1958). O seu enquadramento cronológico pode ser situa‑ do entre finais do Bronze Inicial e grande parte do Bronze Médio (Tabela 2). Em relação a fossas, Cardoso (1936) menciona em Faísca (Guimarães) mais de uma dezena de fossas abertas no substrato rochoso, de contorno semicir‑
789 Arqueologia em Portugal / 2017 – Estado da Questão cular, de onde foram recolhidos 8 vasos cerâmicos de bordo horizontal, inteiros ou praticamente intei‑ ros (Figura 2), e 2 fragmentos de um nono exemplar, entre outros quebrados pelos trabalhadores. A sua descrição aponta para uma necrópole de fossas. A corroborar esta hipótese destaque para os estados completos dos recipientes cerâmicos, recorrentes em contextos funerários do Bronze no Noroeste. Foi possível datar este contexto do Bronze Médio, entre finais do séc. XVII e meados da 2ª metade do séc. XV AC (Sampaio, 2014) (Tabela 2). Durante trabalhos de emergência em Campo de Postigo (Póvoa de Varzim), na plataforma litoral, foram detetadas 2 fossas, e talvez uma terceira, das quais diversos fragmentos permitiram reconstruir 5 formas cerâmicas (Silva, 1985, 1993). O perfil estra‑ tigráfico da fossa 2 incluía uma faixa de arena graní‑ tica no topo interpretada como tampa (Silva, 1985). Referida como necrópole de cremação do Bronze Final (Silva, 1993), o recuo da sua datação para finais do Bronze Inicial/inícios do Bronze Médio baseou‑ ‑se na comparação da forma cerâmica da fossa 2 com duas semelhantes, uma associada à reutilização da Idade do Bronze da Mamoa de Carreiro da Quinta (Vila Verde) e outra provavelmente recolhida numa das Mamoas de Prados (Arcos de Valdevez), datada de entre os finais do séc. XVIII e o séc. XVI AC (Bet‑ tencourt, 2010b). Mesmo com toda a problemática inerente, mencione‑ ‑se as fossas da área da necrópole do Pego. A sua contiguidade e semelhanças construtivas com se‑ pulturas planas (com “tampas” de arena granítica), a recolha de colorante amarelo da fossa 22 e uma pequena cama circular de pedras de granito rico em biotite identificada na fossa 1 para albergar um con‑ tentor ou oferenda perecível, tem levado a defender a sua função sepulcral (Sampaio & Bettencourt, 2014; Sampaio, 2014). Vale Ferreiro incluiu também exemplares de fos‑ sas hipoteticamente funerárias. A parte superior do enchimento da fossa 3 apresentava 4 fragmentos de moinhos manuais, relembrando o contexto do Me‑ dal (Mogadoruro) (Gaspar & alii, 2014), com enterra‑ mentos em fossa sob amontoados de seixos e blocos. Também a fossa 21, próxima ao túmulo 1 e colmatada com arena granítica no topo (tampa), relembra o ve‑ rificado nas sepulturas planas e fossas da necrópole 2. Similar ao pedaço de colorante amarelo identificado no enchimento da sepultura plana 4. do Pego e na sepultura plana da Quinta do Amorim (Sampaio & alii, 2008, 2014; Sampaio & Betten‑ court, 2014). Destaque, ainda, para a fossa 9 ou “casa‑ ‑túmulo”, estrutura em negativo de contorno ova‑ lizado cujo quadrante poente interno incluía outra fossa retangular para acolher algo perecível (Betten‑ court & alii, 2005). A par disso, 12 buracos de poste dispostos pelo lado interno e externo, com exceção do quadrante nascente, permitem pensar numa pos‑ sível entrada (Bettencourt & alii, 2005). Em termos de paralelos, e sem pretensões de exaus‑ tividade, contextos funerários em fossa são conhe‑ cidos em Fraga do Zorro (Verín) (Fábregas Valcarce, 2001; Prieto Martínez & alii, 2009b) ou Ribeira do Medal (Mogadouro) (Gaspar & alii, 2014). A datação de Fraga do Zorro situa ‑se nos finais do Bronze Ini‑ cial/inícios do Bronze Médio, entre inícios do séc. XIX e meados do séc. XVII AC (Prieto Martínez & alii, 2009b). Já a datação de Ribeira do Medal aponta para um contexto do Bronze Médio, en‑ tre meados do séc. XVIII e finais do séc. XVII AC (Gaspar & alii, 2014). Refira ‑se, também, o sítio de Boucinhas (Ponte de Lima), onde 2 fossas com re‑ cipientes inteiros (Almeida & alii, 1994) foram in‑ terpretadas como contextos sepulcrais. Posteriores sondagens permitiram a Bettencourt & alii (2004) identificar nas imediações uma área de povoado da‑ tada de entre os séculos XXIV e XX AC. Estas cro‑ nologias são consonantes com a data de Faísca (Ta‑ bela 2) mas, também, com a hipótese colocada por Bettencourt (2010b, 2011) para Campo de Postigo. Contudo, se forem consideradas funerárias as fos‑ sas nas imediações das sepulturas planas do Pego e a fossa 9 de Vale Ferreiro, este fenómeno poderá ter ocorrido, também, nos finais do Bronze Médio ou já no Bronze Final (Tabela 2). Na bacia do Ave há, também, contextos funerários de exceção. Em Granjinhos (Braga) fragmentos cerâ‑ micos dispersos de formas com as bases in situ indi‑ ciam uma deposição intencional (Bettencourt, 1999). As “quatro urnas de incineração” encontravam ‑se no interior de “uma estrutura, aparentemente circu‑ lar, definida por um alinhamento de pedras e saibro” (Bettencourt, 2009, p. 98). Projetando o que resta‑ va desta estrutura, o “recinto” teria cerca de 7/7,5 m de diâmetro, ocupando os recipientes uma posi‑ ção mais ou menos central (Figura 3). Análises dos seus conteúdos revelaram altos valores de fósforo, compatíveis com a presença de restos humanos. O local vinha sendo relacionado com o contexto ha‑
790 bitacional datável do Bronze Final do Alto da Civi‑ dade (Bettencourt, 1999), mas a datação de fuligem de uma das urnas situa Granjinhos entre os séculos XVII e XV AC, data aceite atendendo a que contex‑ tos de cremação são conhecidos no NO da Ibéria desde o Calcolítico, como Agro da Nogueira (Bet‑ tencourt & Meijide Camselle, 2009). Pese embora as diferenças e a datação de entre os séculos XII e XI AC, o paralelo mais próximo e parecido com Gran‑ jinhos é a necrópole de Paranho (Tondela), “uma estrutura (…) definida por um recinto semicircular de pedras, com 5 m de diâmetro, no interior do qual se distribuíam seis cistas de pedra. Continham restos humanos previamente cremados e depositados, quer directamente no interior das cistas, quer em urnas cerâmicas” (Vilaça & Cruz, 1999, p. 81). No sítio de Vale Ferreiro (Bettencourt, Lemos & Araújo, 2003), antes da a câmara pétrea do túmulo 1, tipo cistoide e composta por 7 esteios de formas e dimensões variadas fincados ao alto, foi erguida no interior de uma fossa de contorno ovalar, sec‑ ção em “U” e base aplanada. No interior da câmara encontravam ‑se ossadas humanas sem qualquer es‑ pólio. A base foi regularizada com duas lajes apla‑ nadas e pequenos calhaus graníticos e o monumen‑ to foi coberto com uma laje granítica. Em redor da câmara, colmatando o interior da fossa, foi deposi‑ tado um grande amontoado de calhaus e blocos de quartzo leitoso, formando um cairn. Por fim, fossa, câmara, tampa e cairn foram selados com arena gra‑ nítica resultante da abertura da fossa no substrato (Bettencourt & alii, 2005). Exceção feita à tampa e ao esteio 1, as restantes lajes apresentavam desgaste por ação de água, pressupondo o seu transporte de áreas ribeirinhas imediatas. Desconhecem ‑se para‑ lelos arquitectónicos na região e a data da sua cons‑ trução remonta ao Bronze Inicial, entre meados do séc. XXII e inícios do séc. XIX AC (Bettencourt, Lemos & Araújo, 2003). O túmulo 2 foi igualmente construído no interior de uma fossa subretangular e cantos arredondados, de secção em “U” e base apla‑ nada, com uma área mais elevada a toda a volta for‑ mando uma espécie de “corredor de circulação”. No interior da área mais profunda a câmara funerária de “muro duplo” de calhaus e blocos de diferentes dimensões foi consolidada por um ligante à base de arena granítica. Os “muros”, com espessura variável entre os 34 e os 40 cm, utilizaram blocos e seixos angulosos que engrossavam do topo para a base, estreitando a área de deposição do corpo. A utiliza‑ ção de diferentes tipos de rocha e minerais conferiu tons cinzas e brancos, pontuados por verdes e rosas das corneanas, entre vários fragmentos de moinhos manuais graníticos com as faces de moagem sem orientação específica. A base do túmulo, de forma‑ to subretangular e regularizada com lajes graníticas, uma estela e moinhos e fragmentos de moinhos ma‑ nuais, incluía uma mancha avermelhada de coloran‑ te de formato triangular utilizado sob(re) o defunto. Por fim, o monumento terá recebido uma cobertura em madeira selada com arena granítica (Bettencourt & alli, 2005). Embora se desconheçam paralelos no Noroeste português, a sua datação situa ‑o entre os séculos XXV e XXIII AC (Bettencourt, Lemos & Araújo, 2003) (Tabela 2). Quanto às práticas funerárias, e no que respeita ao tratamento dos mortos, há indícios de inumação e cremação. A inumação do túmulo 1 de Vale Ferreiro incluía restos ósseos depositados na vertical, pro‑ vavelmente de cócoras, de um indivíduo do sexo masculino com cerca de 15 anos, aparentemente sem patologias, orientado com a cabeça a norte e os pés a sul. Pequenos pontos avermelhados nas cos‑ telas comprovam o uso de colorante (Bettencourt, Lemos & Araújo, 2003). A restante quota de contextos funerários evidencia a ausência de ossadas humanas, dada a acidez dos so‑ los locais, sendo essencial fundamentar a interpre‑ tação de certas práticas como inumações. No Pego foram detetadas, durante a escavação em plano das sepulturas 9 e 11, camadas de coloração mais escura de distribuição central relacionadas com a presen‑ ça de matéria orgânica e a decomposição do corpo, defendendo ‑se uma inumação individual em cada sepultura, provavelmente em decúbito lateral. A largura da sepultura de Quinta do Amorim, contu‑ do, não exclui a hipótese de uma inumação dupla (Sampaio & alii, 2014). A natureza sepulcral destas estruturas percebe ‑se pela presença de vasos de bor‑ do horizontal semelhantes aos da necrópole de Agra de Antas (Esposende), associados a ossadas de (pelo menos) 3 indivíduos (Cunha & Bettencourt, 2013). No quadro do tratamento dos defuntos envolvendo a cremação destaque para os monumentos de Gran‑ jinhos e de Vale de Chão 1. Naquele, análises de HCI 0,1N e de Bray II aos sedimentos do interior de um dos recipientes revelaram forte presença de fósforo por 100g, compatível com o seu uso como urnas fu‑ nerárias, contendo ossos ou cinzas humanas (Bet‑ tencourt, 1999). Atendendo à relação das formas
791 Arqueologia em Portugal / 2017 – Estado da Questão cerâmicas com o “recinto”, à ausência de outros ves‑ tígios nas proximidades e aos valores de fósforo das análises, tratar ‑se ‑á de uma necrópole de cremação onde ocorreu a deposição secundária de restos de ossadas em urnas funerárias, pelo menos durante os séculos XVII e XV AC (Tab. 2). Já a reutilização do monumento de Vale de Chão 1, entre os sécu‑ los XVI e XIV AC (Tabela 2) (Vilas Boas, 2014a), foi materializada pela abertura de uma sepultura plana no seu tumulus. Embora ausentes quaisquer restos ósseos, a elevada presença de carvões de um grande tronco de carvalho queimado in situ no in‑ terior da abertura indicia a cremação secundária de um sarcófago (Vilas Boas & Martín Seijo, 2014). Na sepultura 322 de Cimalha (Felgueiras) foi registada a deposição de um tronco escavado, entretanto car‑ bonizado (Almeida & Fernandes, 2008), associado a um recipiente cerâmico típico de contextos fune‑ rários do Bronze Inicial e Médio do NO português. Reminiscências destas práticas encontram ‑se tam‑ bém no monumento 1 do Rapadouro (Vila Nova de Paiva), onde no cairn talvez ainda calcolítico foram depositados, em finais do Bronze, ossos incinerados (Vilaça & Cruz, 1999). Embora problemáticos, deve ainda ser referida a hi‑ pótese levantada por Silva (1993) para a necrópole de fossas de cremação de Campo de Postigo e o grafis‑ mo sugestivo de uma das fossas de Faísca registado por Cardoso (1936, p. 72), onde na “parte subjacente ao vaso, encontravam ‑se, por vezes, filões de cinzas e carvão, à mistura com terra” (hipotéticos indícios de cremação?). O uso de colorante está registado nos túmulos 1, 2 e 3 de Vale Ferreiro. No primeiro, algumas costelas do indivíduo sepultado incluíam pequenos pontos avermelhados. A base do túmulo 2 preservava um fino sedimento avermelhado de formato subtrian‑ gular. Restos de colorante foram detetados sobre o filão de quartzo, na base do túmulo 3. E, no Pego, restos de colorante amarelado foram recolhidos da sepultura 4 e da fossa 2 (Sector II) (Sampaio & Bet‑ tencourt, 2011). As oferendas mais recorrentes são as cerâmicas. Da reutilização do dólmen da Lapinha (Sanches, 1981) provém um púcaro subcilíndrico decorado. Desconhecem ‑se paralelos na região, mas as depo‑ sições cerâmicas frequentes nestas reutilizações da‑ tam do Bronze Inicial e Médio, como atestam vários casos entre a Beira Alta e o sul da Galiza (Betten‑ court, 2011). Nos monumentos sob tumuli de Vale de Chão 1 e 2 o reduzido tamanho dos fragmentos não permita ila‑ ção formal sobre os recipientes depositados (Vilas Boas, 2014a, 2014b). O monumento de Regedoura 2 incluía fragmentos cerâmicos de formas hemis‑ féricas, permitindo enquadrá ‑lo genericamente no Bronze Inicial. A este propósito, no monumento sob tumulus de Senhor dos Aflitos (Arouca) ocorreu o depósito de “uma taça carenada, de um possível recipiente subcilíndrico e de, pelo menos, dois vasos decorados com aplicações plásticas mamilares, sendo um deles um troncocónico” (Pereira, 2014, p. 12). A presença destes materiais corresponderá a uma reu‑ tilização genericamente datada no Bronze Inicial. A maioria das sepulturas da área incluiu oferendas de vasos cerâmicos (exceptuando raros casos sem qualquer espólio) de bordo horizontal. Apenas a se‑ pultura LXXX do quarteirão dos C.T.T. (Martins & alii, 2010a, 2010b) incluía um troncocónico e o tú‑ mulo 3 de Vale Ferreiro um potinho. Nos vasos de bordo horizontal ou forma 13 (Bette‑ ncourt, 1999) predominam os decorados que in‑ cluem composições mais ou menos complexas, situ‑ adas na parte interna do bordo, recorrendo à incisão, impressão, incisão e adição plástica, impressão e adi‑ ção plástica e incisão e impressão. São vasos que evi‑ denciam vestígios de fuligem, no caso da parede ex‑ terna ocupando maioritariamente a área oposta à asa (70%), cujas análises químicas identificaram como gordura não especificada (Gonçalves & alii, 2010). A datação de contextos com estes vasos vem sendo enquadrada no Bronze Médio, Bronze Médio e Fi‑ nal ou Bronze Final (Jorge, 1988; Cruz & Gonçalves, 1998 ‑1999; Bettencourt, 1997, 1999), mas a sepultu‑ ra 5 do Pego recua essa baliza para finais do Bronze Inicial, entre os séculos XXI e XVIII AC (Sampaio, 2014) (Tabela 2). Também surgem em sepulturas vasos troncocóni‑ cos ou forma 14 (Bettencourt, 1999), como na se‑ pultura LXXX do quarteirão dos C.T.T. A presença de fuligem, que na parede externa se distribui na zona oposta à asa e numa das laterais da pança, per‑ mite pensar no seu uso para a queima de substân‑ cias. Contudo, não são excluídas outras hipóteses, como a adiantada para os troncocónicos da cista de A Forxa (Ourense), datados do Bronze Médio, que terão contido cerveja (Prieto ‑Martínez, Juan‑ ‑Tresserras & Matamala, 2005; Prieto ‑Martínez, Lantes Suárez & Martínez Cortizas, 2009a). Neste caso haveria associação a práticas de comensalidade
792 ou à oferta de bebidas ao defunto. Os troncocónicos ocorrem principalmente durante o Bronze Inicial e Médio, comummente associados a contextos fune‑ rários (Bettencourt, 2009, 2010a), sendo que a data‑ ção do vaso do quarteirão dos C.T.T. situou o con‑ texto no Bronze Inicial, entre os séculos XXI e XIX AC (Sampaio, 2014) (Tabela 2). Outra forma presente em sepulturas planas é o potinho ou forma 10 (Bettencourt, 1999), como o depositado na extremidade S do túmulo 3 de Vale Ferreiro. Sem decoração e fuligem, a sua função pa‑ rece ter sido distinta dos que revelam a ação do fogo. Esta forma está presente durante toda a Idade do Bronze (Bettencourt, 1997), embora com especial ênfase em cistas do Bronze Inicial da Galiza (entre outros, Vásquez Varela, 1980; Monteagudo, García & Lois, 1981). No grupo das fossas da área de estudo consideradas como sepulcrais as formas mais comuns são, tam‑ bém, os vasos de bordo horizontal. Na necrópole de Faísca, datada do Bronze Médio (Tabela 2), as suas características e vestígios de fuligem admitem igualmente o seu envolvimento direto nas cerimó‑ nias fúnebres. Da fossa 2 da possível necrópole de Campo de Pos‑ tigo provém uma forma 8 (Bettencourt, 1999) de‑ corada com digitações arrastadas formando traços verticais e 4 mamilos proeminentes simétricos no arranque da pança. A coloração distinta da meta‑ de inferior deste recipiente parece ter resultado do contacto com alguma substância (urna funerária ou contentor?). O seu caráter funerário tem como para‑ lelos mais próximos as reutilizações dos monumen‑ tos megalíticos já referidos. Poderia ainda ser referida, ainda que com as devidas reservas, a fossa 3 do Pego (Sector II), onde parte do perfil de um pote ou forma 2 (Bettencourt, 1999) com vestígios de fuligem em ambas as paredes foi recuperado. Contextos fúnebres excecionais incluíram, tam‑ bém, materiais cerâmicos, como as 3 formas 5 e 1 for‑ ma 1 (Bettencourt 1999) do “recinto” do Bronze Mé‑ dio de Granjinhos (Tabela 2). Com exceção do vaso 1993.0299, os vestígios de fuligem distribuíam ‑se maioritariamente pela área do bordo e início da pança. Os vasos 1993.0297 e 1993.0298 apresentam decoração recorrendo à técnica de adição plástica de elementos ou à conjugação daquela técnica com digitações. Nas paredes internas inferiores todos os recipientes apresentavam uma coloração distinta fruto do uso como urnas funerárias (e não enquan‑ to oferendas). O recipiente cerâmico bicónico com carena alta do túmulo 2 de Vale Ferreiro continha no seu interior vestígios de matéria orgânica de aspeto ferruginoso, encontrando ‑se sobre uma cama circular na extre‑ midade NO da câmara formada por quartzos leito‑ sos com veios ferruginosos. Aderências internas desta rara forma (infelizmente removidas no proces‑ so de limpeza da peça) apontam para um contentor de oferenda orgânica. Os paralelos mais próximos existem apenas no mundo meridional (Bettencourt & alii, 2005). Há, ainda, um conjunto de vasos cerâmicos recolhi‑ dos inteiros, praticamente inteiros ou em menores proporções indiciando eventuais contextos funerá‑ rios, mas a escassa informação disponível não per‑ mite grandes ilações. Cabem neste grupo os restan‑ tes vasos recolhidos nas imediações da sepultura LXXX do quarteirão dos C.T.T. (Figura 4) e da estru‑ tura 12 de Quinta do Amorim, os vasos de Tougui‑ nha (Vila do Conde), Quinta da Bouça (Famalicão), Póvoa/Guidões (Trofa) e, eventualmente, Corvilho (Santo Tirso). Também no Monte da Penha (Guima‑ rães) eventuais práticas funerárias não são excluídas (Sampaio, 2014). Figuram vasos de bordo horizontal, troncocónicos, potinhos, púcaros e subcilíndricos. São raros os objetos líticos e metálicos. Naqueles fi‑ gura um braçal de arqueiro do monumento sob tu‑ muli de Regedoura 2 (Gabriel Pereira, comun. pess.), um peso de tear ou rede e um cossoiro ou conta de colar das sepulturas 7 e 8 do Pego (Sampaio & alii 2008) e uma estela granítica integrando a base do tú‑ mulo 2 de Vale Ferreiro (Sampaio & Bettencourt, no prelo). Nos objetos metálicos contam ‑se uma ponta de seta tipo Palmela de Regedoura 2 (Gabriel Perei‑ ra, comun. pess.) e duas espirais em ouro do túmu‑ lo 2 de Vale Ferreiro. Outras materialidades, ainda que com eventuais relações a práticas funerárias, levantam certas dúvidas (Sampaio, 2014): os aros de ouro de Bougado (Trofa); o bracelete de tiras de Se‑ zures e o bracelete de Quinta do Bairro, ambos em ouro (V.N. de Famalicão); ou mesmo o bracelete em bronze do Corvilho (Santo Tirso). 3. A MORTE DURANTE A IDADE DO BRONZE NA BACIA DO AVE: BREVES CONCLUSÕES Verifica ‑se a multiplicidade de contextos funerários, de estruturas e de práticas e algumas arquiteturas
793 Arqueologia em Portugal / 2017 – Estado da Questão singulares que revelam a preocupada materialização da perda irreparável que a morte representa. A inu‑ mação entre o Bronze Inicial e Médio e a cremação durante o Bronze Médio vincam, também, a varie‑ dade de ritos e ações no tratamento dos cadáveres. Alguns grupos de estruturas formaram necrópo‑ les, por vezes polinucleares, cuja significância pode ser cronológica, de género ou familiar. Certas ar‑ quiteturas funerárias ergueram ‑se nas imediações de contextos funerários ancestrais, corporizando autênticas paisagens mortuárias. Há, ainda, lugres onde práticas fúnebres excepcionais e complexas parecem ultrapassar as simples necrópoles. Cabem neste último exemplo algumas estruturas que va‑ lorizaram a litologia e o uso de colorantes. Em Vale Ferreiro, a base do túmulo 1, as costelas do indivíduo sepultado no túmulo 2 e a base do túmulo 3 incluí‑ am vestígios de colorantes. A importância litológica no túmulo 2, pelo uso de diferentes tipos de rochas e minerais, destaca ‑se pelas matérias ‑primas de ori‑ gem regional transportadas (corneanas siliciosas e pelíticas) e inclusas na arquitetura, obedecendo a critérios prévios talvez relacionados com o seu po‑ tencial significado. O uso de diferentes granitos, quartzos e milonitos locais e corneanas variadas nas arquiteturas de Vale Ferreiro poderão relacionar ‑se com as caraterísticas animistas do mundo, confor‑ me defendido por Bradley (2000), Ingold (2000), Thomas (2001) ou Tilley (2004). Seria esta diver‑ sidade litológica uma forma de fazer convergir di‑ ferentes sentidos a um lugar, uma forma de repre‑ sentar os vários loci visitados num só local tornado especial? Seria, paralelamente, uma forma simbó‑ lica de legitimar os novos espaços ocupados, como defende Bettencourt (2010a) em relação às constru‑ ções denunciando elevado investimento e oferen‑ das de materiais excecionais? As oferendas que acompanharam os mortos foram intencionalmente depositadas com um ou mais significados/sentidos: distinguir qualidades do(a) sepultado(a); associar um objeto pessoal ou bio‑ gráfico ao defunto; recordação pelo(s) seu(s) ente(s) querido(s) pela perda; ou, simplesmente, uma for‑ ma como o defunto gostaria de ser relembrado. Em muitos casos estes objetos terão desempenhado pa‑ pel ativo e preponderante nas cerimónias fúnebres, enquanto noutros parecem ter sido propositada‑ mente fabricados para o efeito. Nos contextos fune‑ rários da bacia do Ave predominam os recipientes cerâmicos, sendo raros os elementos líticos e me‑ tálicos. Naqueles, a recorrente presença de fuligem deixa perceber o seu uso cultual envolvendo o uso de fogo. Mais do que simples oferendas, a envol‑ vência destes vasos na liturgia fúnebre tornam‑nos agentes. Outros, por seu turno, funcionaram como contentores ou urnas funerárias. Não deverá ser esquecido, pois, que os vestígios ma‑ teriais de contextos funerários são apenas uma par‑ te da “manipulação” das percepções e das crenças. Interessará perceber que uma vez encetado todo o cenário envolvido nas práticas fúnebres, a análise dos seus vestígios permite perceber um pouco me‑ lhor a forma como a morte foi encarada e tratada mas, acima de tudo, materializada. Por esse motivo, objetos e práticas ganham, ao longo do tempo, sig‑ nificados distintos. BIBLIOGRAFIA ALMEIDA, Carlos A.B., MAIA, Maria I.S., MOREIRA, Maria M.L. & BAPTISTA, António J. (1994) – A estação do Bronze Final da Regueira. Vitorino de Piães – Ponte de Lima. Revista da Faculdade de Letras. História. Porto. 2ª Sé‑ rie. 11, pp. 547 ‑565. ALMEIDA, Pedro B. & FERNANDES, Francisco (2008) – O povoado da Idade do Bronze da Cimalha. Actas do I En‑ contro de Arqueologia das Terras do Sousa (Lousada, 2007). Lousada: Câmara Municipal (Oppidum; Número Especial), pp. 29 ‑44. BETTENCOURT, Ana M.S. (1997) – Expressões funerá‑ rias da Idade do Bronze no Noroeste peninsular. Actas do IIº Congreso de Arqueología Peninsular. Zamora: Fundación Rei Afonso Henriques, pp. 621 ‑632. BETTENCOURT, Ana M.S. (1999) – A Paisagem e o Ho‑ mem na bacia do Cávado durante o II e o I milénios AC, 5 vols. Braga: Universidade do Minho (Tese de doutoramento – policopiada). BETTENCOURT, Ana M.S. (2000) – Estações da Idade do Bronze e inícios da Idade do Ferro da bacia do Cávado (Norte de Portugal). Braga: Unidade de Arqueologia da Universida‑ de do Minho (Cadernos de Arqueologia. – Monografias; 11). BETTENCOURT, Ana M.S. (2009) – A Pré ‑História do Mi‑ nho. Do Neolítico à Idade do Bronze. In PEREIRA, Paulo, coord. – Minho. Traços de Identidade. Braga: Conselho Cul‑ tural da Universidade do Minho, pp. 70 ‑118. BETTENCOURT, Ana M.S. (2010a) – La Edad del Bronce en el Noroeste de la Península Ibérica: un análisis a partir de las prácticas funerárias. Trabajos de Prehistoria. Madrid. 67: 1, pp. 139 ‑173. BETTENCOURT, Ana M.S. (2010b) – Comunidades Pré‑ ‑históricas da bacia do Leça. In VARELA, José M. & PIRES,
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