scieee Open visual document viewer

Media and the Portuguese Empire [recensão crítica]

Barros, Júlia Teresa Pinto De Sousa

Abstract

José Luís Garcia, Chandrika Kaul, Filipa Subtil e Alexandra Santos abrem a intro-dução ao livro Media and Portuguese Empire, com uma afirmação que é também um aviso prévio: “Modern empires and communication have influenced each other in complex ways” (p. 1). A influência não é linear. A comunicação é aqui tomada não como efeito de um qualquer processo determinado, mas como parte integrante deste, por uma razão: “communication processes constitute culture, and that culture constitutes, rather than merely reflects, society” (idem).

Full text

RECENSÃO Media and he Po uguese Empi e, de José Luís Ga cia e al. (eds.), po Júlia Lei ão de Ba os Análise Social, li (3.º), 2019 (n.º 232), pp. 628-631 h ps://doi.o g/10.31447/as00032573.2019232.09 issn online 2182-2999 edição e p op iedade Ins i u o de Ciências Sociais da Uni e sidade de Lisboa. A . P o esso Aníbal de Be encou , 9 1600-189 Lisboa Po ugal — analise.so[email p o ec ed] 628 RECENSÕES h ps://doi.o g/10.31447/as00032573.2019232.09 ga cia, José Luís e al. (eds.) Media and he Po uguese Empi e, Lond es, Palg a e Macmillan, 217, 355 pp. isbn 9783319617923 Júlia Lei ão de Ba os José Luís Ga cia, Chand ika Kaul, Filipa Sub il e Alexand a San os ab em a in o- dução ao li o Media and Po uguese Empi e, com uma a i mação que é am- bém um a iso p é io: “Mode n empi es and communica ion ha e in luenced each o he in complex ways” (p. 1). A in luên- cia não é linea . A comunicação é aqui omada não como e ei o de um qualque p ocesso de e minado, mas como pa e in eg an e des e, po uma azão: “com- munica ion p ocesses cons i u e cul u e, and ha cul u e cons i u es, a he han me ely e lec s, socie y” (idem). O obje o de es udo eme e pa a lógicas de o gani- zação de pe ceções da ealidade, discu - sos e p á icas de dominação e esis ência, de con igu ação a iá el, no empo e no espaço, que impedem a en ação de edu- zi os es udos da á ea da comunicação ao desco ina de ins umen os de con- olo e legi imação ideológica ou es a- égias iden i á ias de ep esen ação. A abe u a eó ica e me odológica p esen e nes e olume i ma-se na con ocação de dois au o es clássicos da eo ia da comu- nicação, o canadiano Ha old Innis e o no e-ame icano James Ca ey que, pelo ca ác e seminal dos seus con ibu os, cons i uem um e e encial pa a a eição explo a ó ia dos es udos cul u ais da comunicação. De Ca ey e i am a ecusa em e a comunicação como ansmissão, omando-a como cul u a, i ual, pa ilha e conse ação da comunidade no empo. Ignis é con ocado enquan o p ecu so da p oblemá ica p esen e nes a ob a: as ela- ções en e os media e os sis emas impe- iais e as suas implicações sociais. O p opósi o é euni es udos de di e- en es á eas académicas, com con ibu- os que empí ica e eo icamen e possam aze comp eensão à e lexão sob e o impé io como espaço comunicacional, com um aço comum: “inco po a e he media as ac o s o agen s in cul u- al, poli ical and social s uggles” (p. 2). A adoção de uma es u u a que segue uma linha empo al, do século xix ao inal do século xx, do colonial ao pós-colonial, que in eg a di e en es escalas empo ais, acili a a con e gência de obje os e me o- dologias e o na a ama des a linha de in es igação mais densa e suges i a. No mesmo sen ido, embo a o oco es eja no impé io colonial po uguês, á ios a igos sob epõem, azem con lui , ou conco e , di e en es espaços comunicacionais, o me opoli ano, o ansnacional, o ans- on ei iço e o egional. O li o ab e com um es udo compa- a i o, de Chand ika Kaul, en e a RECENSÕES 629 expe iência impe ial b i ânica e po u- guesa, que pa e dos a igos p esen es nes e olume pa a in oduzi o deba e sob e a ex ensão, impo ância e ínculo das p opagandas impe iais, em di e en- es con ex os his ó icos. Ainda na longa du ação, ab angendo o pe íodo que ai do século x i ao século xx, An onio Hohl eld a alia a a dia, desigual e ensa in odução e consolidação, no impé io po uguês, da imp ensa, ádio e cinema, apon ando momen os-cha e e compa- ando o caso po uguês com ou os mode- los impe iais. Ob igando a descen a o oco da me ópole, ao ques iona a ci cu- lação da imp ensa, aqui en endida num sen ido la o, dos jo nais à li e a u a, pa a os e i ó ios coloniais, incluindo o B a- sil. Pelas ques ões le an adas nes es dois ex os, a pa da cons a ação dos desa ios e limi es da a aliação sis émica, sob e ém a pe inência dos 15 a igos seguin es, cole ados nes e li o, assen es em in es i- gação empí ica, de emá ica di e sa, com con ibu os aliosos pa a a econs i uição de con igu ações mediá icas conc e as. In e pelam a e são de Es ado colonial de acos ecu sos, dependen e do apoio ex e no, ão ca a à his o iog a ia, ma i- zando dema cações de e i ó io e balizas empo ais, ap oximando apa a os de io- lência ísica e simbólica. O impé io po uguês, no inal do século xix e início do século xx, com- plexi ica-se olhado do pon o de is a de Goa, Po ugal, ou das colónias de Á ica. Sand a A aíde Lobo, analisando a p ospe- idade, a pa i do inal do século xix, da imp ensa pe iódica e nacula , maio i a- iamen e bilingue, publicada pelas eli es hindus de Goa e pelas cas as subal e nas ca ólicas, chama a a enção pa a a impo - ância da língua na de inição de es e as públicas e na ges ão das elações locais, egionais e coloniais. Ab indo e eno pa a ou as análises que se de enham na pe seguição, indi e ença ou p o eção das línguas na i as pelos es ados coloniais. Paulo Jo ge Fe nandes ealça o papel dos jo nais, no úl imo qua el do século xix, nomeadamen e na c ise do Ul ima um de 1890, salien ando: “ he bi d o a new ideology, a adical na ionalism o a colo- nialis na u e” (p. 102). O con ex o em que a de esa do impé io, e em pa icula de Á ica, su ge como uma p io idade nacional, p esen e nos egimes moná - quico e epublicano na me ópole. No mesmo pe íodo, segundo Ma ia C is ina Po ella Ribei o, um se o do mo imen o epublicano, em Angola, o mado po “ ilhos do país”, lança a jo nais e cons i- uía “a conside able cu en o opinion in a ou o he independence o he e - i o ies which hen comp ised Angola” (p. 118). Reclama a o im da esc a idão, a igualdade acial e a é o ensino da língua Kimbundu. Se ia ep imido pela mona - quia libe al e pela I República. Isado a A aíde Fonseca, seguindo o modelo de análise p opos o po Hallin e Mancini, compa a os sis emas mediá icos cons- uídos nas cinco colónias po uguesas a icanas, en e 1842 e 1926, apon ando pa a a consolidação da imp ensa como pla a o ma de deba e polí ico, de di e en- es p oje os coloniais, com audiência es- i a, pe encen e a uma eli e que acaba ia silenciada no egime do Es ado No o. Já na ase inal da i República, e de no o a 630 RECENSÕES pa i da me ópole, sob e a in luência das lu as aciais nos eua, azidas pelos meios de comunicação social, José Luís Ga cia, ap esen a-nos a oz incisi a do jo nalis a mula o Manuel Domingues, ana quis a que, en e 1919 e 1922, no jo nal a Ba a- lha, esc e eu “ he i s wo ds in impe ial Po ugal o make an a gumen in a ou o independence o A ica, in a cohe- en , public o m, in a la ge-ci cula ion” (p. 126). A colonização i ompe como um c ime, e a imp ensa como meio imp es- cindí el de lu a pa a denuncia a iolên- cia, a esc a idão, o abalho o çado, e a é a ideologia acis a da sociedade po u- guesa. Uma oz que ob iga a econ igu a os limi es do deba e colonial, em éspe a do Es ado No o, na me ópole. Pa a es e egime que, como nenhum ou o, ap o- undou a e en e impe ial da iden idade nacional, o nando a independência nacional dependen e de uma excecional he ança colonial, eme em os es an es a igos, seja pela análise do âmbi o dos seus ins umen os de p opaganda e cen- su a, nas o mas de esis ência, ou na he ança pós-colonial. Daniel Melo ap esen a-nos a cen ali- dade da censu a no p ocesso de domina- ção colonial no Es ado No o, eduzindo a es e a pública, diminuindo o po en- cial c í ico e e lexi o. In e esssa-lhe a egula idade e ex ensão da censu a nos e i ó ios coloniais (censu a polí ica, económica, social, mo al e a é a au o- censu a), a iculada com ins i uições, discu sos e p á icas p opagandís icas e ep essi as, ad e indo pa a a capacidade de ape eiçoamen o des e apa a o de con olo. Co obo am-no os ês a igos seguin es. Nelson Ribei o ao analisa a consolidação da Radio Clube de Moçam- bique (1932-1964), cuja ges ão come cial coloca ia a emisso a, no inal dos anos 30, en e as maio es do con inen e a icano, su p eende a coope ação en e o se o p i ado e o p og ama impe ial do Es ado No o. Joana Ramalho abo da a mobili- zação de meios ma e iais e simbólicos p esen es no mega-e en o, a Exposição do Mundo Po uguês, de 1940, um a o de p opaganda in e na e ex e na, de di usão da ocação ci ilizado a dos po os in e io- es, sublinhando a dimensão pedagógica e de en e enimen o. Des aque-se ambém o a igo de Claudia Cas elo que explo a a campanha sis emá ica do egime pa a coloca ao seu se iço o luso opica- lismo, a e são benigna do colonialismo po uguês. Des enda uma no a es u u a es a al, o Gabine e dos Negócios Polí i- cos do Minis é io do Ul ama , que em a iculação com os se iços de censu a, a pa i 1960, con ibuiu pa a dissemina e na u aliza , em ex o e o og a ia, a na - a i a do luso opicalismo. José Rica do Ca alhei o, numa abo dagem já explo- ada pelo an opólogo Nuno Domingos, a alia o ínculo da cul u a popula ao luso opicalismo a a és da cons u- ção mediá ica da imagem do u ebolis a neg o, Eusébio. Ve en e de análise é - il, ampliada po A onso Ramos, numa análise da “gue a de ep esen ação” a ada pelo egime nos media in e na- cionais, com ecu so a agências de comu- nicação e colabo ações cúmplices com o colonialismo po uguês, como o ela o isual da Á ica po uguesa, de Volkma Wen zel, na Na ional Geog aphic, aqui RECENSÕES 631 analisado. Tânia Al es, num es udo sob e a cobe u a da eclosão da gue a colonial em jo nais de Lisboa, a alia o desempe- nho da imp ensa nacional na cons ução de um imaginá io colonial, mas ambém os seus limi es. Sob e es es se deb uça, igualmen e, Te esa Dua e Ma inho alo izando a lu a an i-colonialis a no campo do discu so, na Guiné e Cabo Ve de, nos ó gãos de comunicação do paigc, assinalando o im do monopólio de in o mação po uguês. Em pa e, a génese de um no o ambien e mediá ico onde se insc e em as icções, imagens e símbolos mobilizados pelas na a i- as nacionalis as angolanas, analisadas po Alexand a San os e Filipa Sub il. O olume ence a com Ri a Ribei o e Joa- quim Cos a a lança em uma in e ogação sob e o luga do impé io na i agem do século xx. A p oblemá ica lançada nes e li o exi- gi á de in es igações u u as a mesma pe - sis ência no espí i o c í ico e dialogan e com ou as á eas das ciências sociais, nomeadamen e da an opologia, de o ma a pe mi i uma maio comp eensão das dis in as econ igu ações da expe iência impe ial, esul an es das elações que se ão es abelecendo en e os di e en es dis- cu sos e p á icas, po que o im dos go e - nos coloniais já p o ou não se sinónimo de descolonização do mundo. ba os, J. L. de (2019), Recensão “Media and he Po uguese Empi e, London, Palg a e Macmillan, 2017”. Análise Social, 232, li (3.º), pp. 628-631. Júlia Lei ão de Ba os » jba [email protected] » Escola Supe io de Comunicação Social, Ins i u o Poli éc- nico de Lisboa » Campus de Ben ica do ipl, 1549- -014, Lisboa, Po ugal.