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A I República portuguesa na imprensa internacional: a voz italiana do dissenso

Gomes, Marco José

Abstract

Los acontecimientos del 5 de octubre 1910 colocaron Portugal en el centro del debate político y de la agenda informativa internacional. Las repercusiones se han extendido un poco por toda Europa y han provocado reacciones contradictorias. En este artículo se analiza el impacto de la implantación de la I República portuguesa en la prensa italiana y como esta fue relatada en el discurso editorial, con especial enfoque en el encuadramiento discursivo de las corrientes de opinión contrarias al orden político republicano.

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Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 106 A I REPÚBLICA PORTUGUESA NA IMPRENSA INTERNACIONAL: A VOZ ITALIANA DO DISSENSO Marco José Gomes Universidade de Coimbra [email protected] Resumen: Los acontecimientos del 5 de octubre 1910 colocaron Portugal en el centro del debate político y de la agenda informativa internacional. Las repercusiones se han extendido un poco por toda Europa y han provocado reacciones contradictorias. En este artículo se analiza el impacto de la implantación de la I República portuguesa en la prensa italiana y como esta fue relatada en el discurso editorial, con especial enfoque en el encuadramiento discursivo de las corrientes de opinión contrarias al orden político republicano. Palabras clave: Portugal, Republicanismo, Periodismo, Opinión Pública Abstract: Political events resulting from the 5th October 1910 military coup put Portugal at the center of the political debate and the international journalistic agenda. The repercussions spread all over the Europe and provoked contradictory reactions. This article analyzes the impact of the First Portuguese Republic implantation on the Italian press and how it was reported by the editorial discourse, with special focus in the discursive framing conferred by the current opinion that opposed the republican political order. Keywords: Portugal, Republicanism, Journalism, Public Opinion. A I República portuguesa na imprensa internacional: a voz italiana do dissenso Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 107 1 Introdução A implantação da I República em 1910 figura no topo dos acontecimentos políticos portugueses que maior ressonância adquiriram no contexto da opinião pública e dos círculos políticos europeus. A república intelectual, como não poucos a designaram, pertence à ordem dos eventos excecionais e foi acolhida pela imprensa internacional em conformidade com esse estatuto. As primeiras reações oscilaram entre, por um lado, associar o movimento republicano ao progresso e à reabilitação de um Portugal decrépito e, por outro, em rotulá-lo de sectário, maçónico e utópico. O levantamento revolucionário responsável pela queda da monarquia inseriu-se num movimento que ambicionava modernizar um país social e economicamente atrasado. Pretendia regenerar um imaginário coletivo dominado pelo império do sagrado (cfr. Neto: 1998), pelo descrédito nas instituições políticas e por um difuso sentimento decadentista veiculado por diversas tendências filosóficas, estéticas e até políticas. Fatores como a influência da Igreja no Estado e na sociedade, a subjugação do país aos interesses coloniais britânicos, os gastos da família real e a própria ditadura de João Franco ajudam a explicar a progressiva erosão da monarquia. Seguindo a inspiração da república francesa, o republicanismo português, assente em pressupostos agnósticos, consubstanciou-se num projeto político e na criação de uma nova forma de percecionar o mundo social. Este ideário fundado na secularização, no otimismo histórico e na razão do iluminismo setecentista foi, como refere Fernando Catroga (2000: 121), a “encarnação política de uma revolução cultural”, a tal rutura considerada indispensável para democratizar e emancipar a sociedade. O regicídio de 1908 demonstrou a vitalidade dos ventos antidinásticos e acentuou o percurso que haveria de bloquear a praxis política, minada por rivalidades sistémicas e incompatibilidades entre setores conservadores (apostados na manutenção da ordem) e núcleos reformadores de esquerda, de onde sobressia o Partido Republicano (Ramos, 1994: 335-399; Homem, 1990: 65-80). Os reformadores, ainda que fragmentados por divergências internas e especificidades de pensamento individual, tomaram o poder e logo clamaram por um projeto político-cultural que, para os opositores internos e externos, não passava de um conjunto de ideias utópicas alicerçadas no anticlericalismo desenfreado e nas nefastas experiências sociais. Este sentimento de desconfiança perante o regime republicano português, não raras vezes vislumbrado como uma perigosa ameaça ao status quo vigente, alastrou-se pelos círculos conservadores de uma Europa governada por monarquias1 e fortemente influenciada pelo catolicismo. Itália foi um dos países onde esta desconfiança emergiu energicamente. 1 França, Suíça e San Marino eram os únicos Estados governados por repúblicas. Marco José Gomes Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 108 Alguns fatores podem ajudar a explicar esta declarada resistência italiana, como o forte enraizamento dos valores católicos e a convivência quotidiana com o Estado do Vaticano, o centro operacional e simbólico da Igreja. Ou ainda a atração pela estabilidade governativa, um dos principais legados do ciclo político (1903-1914) de Giovanni Giolitti. Como nota Emilio Gentile (2008), esta responsabilidade pelo fim dos executivos precários era considerada a garantia maior de funcionamento e fortalecimento do sistema político italiano. Giovanni Giolitti foi um liberal conservador empenhado em reforçar a monarquia, associado por muitos observadores ao inequívoco progresso económico e social da sociedade, à renovação cultural2. É sobre as reações italianas ao advento do regime republicano que direcionamos a nossa atenção, nomeadamente sobre as correntes de opinião que alimentaram o debate político na imprensa. Este trabalho tem, assim, por objeto o discurso jornalístico italiano, entendido à luz de uma comunicação argumentativa que, através das razões invocadas, tanto procura criar uma “disposição para a ação” ou, por outro lado, apenas deter-se na conquista “puramente intelectual” do auditório (Parelman, 1977, 1997: 30). Estas duas dimensões argumentativas estão intrinsecamente ligadas ao tipo de imprensa que enforma o nosso objeto de estudo: a imprensa de opinião mais direcionada para incitar à ação; e a imprensa de referência atuando preferencialmente ao nível da persuasão das ideias. O objetivo geral consiste em analisar o modo como diferentes jornais abordaram a implantação da I República portuguesa, com especial enfoque para o enquadramento discursivo conferido pelas correntes de opinião dissonantes. Sem descurar as diversas vozes que estruturam o universo polifónico, pretende-se compreender este importante período da história das instituições políticas através da perspetiva de todos aqueles para quem a emergência da ordem republicana não constituiu um momento de celebração, que contra ela se insurgiram ou propuseram alternativas. Ou seja, procura-se mapear as vozes que denotaram assentimento ou dissensão em relação ao sistema político instituído a 5 de outubro de 1910, recuperando e decompondo os argumentos aduzidos pelos enunciadores que se opuseram ao novo ordenamento político. 2 Giovanni Giolitti manteve-se por longos períodos no poder entre 1903 e 1914. Neste arco temporal, apenas outros quatro políticos lideraram um governo, mas por alguns meses. Luigi Luzzatti foi o que alcançou uma durabilidade maior, entre 31 de março de 1910 e 29 de março de 1911. Os críticos de Giolitti acusavam-no de manter Itália sobre a pressão da pobreza, principalmente no sul do país, de perpetuar uma ditadura parlamentar através de práticas transformistas e de maiorias políticas baseadas em eleições manipuladas. Também ao nível da intelectualidade italiana, de esquerda ou de direita, de Benedetto Croce a Gabriele d’Annunzio, muitos foram os que se opuseram à governação de Giolitti (Battista, 1999; De Bernardi e Ganapini, 1996). A I República portuguesa na imprensa internacional: a voz italiana do dissenso Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 109 2 Metodologia O corpus da pesquisa reúne textos publicados por sete jornais diários entre 6 e 25 de outubro de 1910. Analisou-se um total de 140 edições (20 edições por cada órgão de comunicação) através das quais foi possível elaborar um corpus formado por 17 editoriais que versam exclusivamente sobre os eventos portugueses. A opção pelos editoriais reside no facto de que este género jornalístico representa de certa forma a voz do jornal, a sede de opiniões e um instrumento importante para orientar a formação da opinião. A narrativa que este género comporta transmite e secunda a perceção do mundo social criada pela imprensa. Ora tendo presente que os jornais podem adquirir a forma de “instituições de poder da elite” (van Dijk, 2005: 76), incorporando e veiculando interesses de determinados grupos políticos, a opção pelo editorial justifica-se na medida em que permite captar o itinerário – ou pelo menos fragmentos – do debate político italiano. O editorial constitui, neste sentido, um instrumento funcional para identificar os enquadramentos discursivos conferidos pelas diferentes correntes de opinião ao emergente regime republicano. Dos 17 editoriais selecionados cinco estão assinados. O texto editorial exprime as posições adotadas pelo jornal perante os factos hodiernos. Quando não anónimo vincula principalmente quem o assina. Esta premissa é particularmente relevante para o espaço temporal e o objeto de estudo em apreço, uma vez que o período que medeia o final do século XIX e o início da I Guerra Mundial é considerado a última estação do jornalismo de opinião em Itália (Castronovo, 1979). Trata-se de um tipo de jornalismo que remete para a interpretação idiossincrática da realidade. Este fator obriga-nos a clarificar o uso das categorias de imprensa de referência e imprensa de opinião. As nomenclaturas e tipologias variam de autor para autor e até consoante o país3. Mas é, todavia, consensual relacionar a imprensa de referência4 com a classe dirigente, a informação objetiva e o jornalismo independente – noção tão simbólica quanto discutível –, abarcando todos os assuntos que enformam o mundo social. A imprensa de opinião, por sua vez, representa a voz de um determinado grupo político, religioso ou social (Bechelloni, 1974; Mesquita, 1994; Bourdieu, 1985). Adotou-se estas duas terminologias não tanto para recuperar o seu significado convencional e classificar o tipo de jornalismo correspondente, mas principalmente para diferenciar a natureza e origem das publicações selecionadas. Contrariamente ao 3 Em Inglaterra, por exemplo, há muito que se institucionalizou o conceito de qualities (jornais de referência) e populars (jornais populares). Noutros países europeus, porém, será talvez necessário adicionar categorias intercalares uma vez que apresentam algumas diferenças. 4 Jornais de elite ou de qualidade são outras terminologias utilizadas. Algumas destas definições são obviamente polémicas, designadamente quando se procura perceber o que significa um órgão de informação independente. Marco José Gomes Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 110 que acontece em Inglaterra, França ou Estados Unidos, os jornais de referência italianos em 1910 ainda não se regem pela totalidade dos requisitos afetos à mesma categoria de periódicos sobretudo no pós-II Guerra Mundial. Estabelecem mesmo como sua competência algumas das caraterísticas do jornalismo de opinião, como seja defender os propósitos de grupos integrados, ou não, no circuito parlamentar e constituírem-se instrumentos de pressões políticas (Murialdi, 2006). Existem, todavia, já diferenças entre os dois tipos de periódicos que importa assinalar neste início do século XX em Itália: os jornais de referência interessam-se por todos os assuntos da sociedade e, em vez de apostarem na mobilização dos comportamentos, incitando à ação, procuram conquistar preferencialmente os leitores através da persuasão das ideias. Os periódicos de referência tal como são classificados neste trabalho ainda suscitam uma configuração algo híbrida a meio caminho entre o significado atual da imprensa de referência e imprensa de opinião. Portanto, utilizou-se estas duas categorias para satisfazer uma necessidade/comodidade operacional. A seleção dos órgãos de informação regeu-se por critérios de relevância e heterogeneidade ideológica (ver tabela 1): de relevância porque se decidiu eleger os diários mais proeminentes do panorama jornalístico italiano no contexto da imprensa de referência; de heterogeneidade ideológica porque só abarcando diferentes perspetivas políticas e sociais é possível mapear com rigor as publicações que adotaram um discurso de dissensão ou assentimento em relação aos acontecimentos portugueses. Esta pesquisa consagra os episódios de 5 de outubro enquanto sequência de acontecimento delimitada segundo os seguintes parâmetros5: • Valorização: os acontecimentos portugueses mereceram cobertura atenta por parte dos órgãos de comunicação analisados, que se traduziu na atribuição de um espaço significativo no contexto da diagramação tanto ao nível estético como funcional; • Complexidade: embora a reflexão esteja direcionada principalmente para as opiniões dissonantes em relação à I República, o evento provocou um conjunto de interpretações heterogéneas que se podem inserir no binómio adesão vs oposição; • Duração: o espaço temporal corresponde a 20 números de cada jornal, seleção que permite analisar a sequência de acontecimento e percorrer a fórmula que habitualmente acompanha o discurso jornalístico: situação de partida, auge e queda (Ringlet apud Mesquita, 1994: 20). 5 Os critérios de delimitação da sequência de acontecimento basearam-se na metodologia adotada por Mário Mesquita (1994) no seu estudo sobre a revolução do 25 de Abril. A I República portuguesa na imprensa internacional: a voz italiana do dissenso Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 111 A hipótese a testar é a de que a implantação da I República foi encarada por proeminentes correntes de opinião em Itália como um sistema político incapaz de constituir uma solução credível para a grave situação económica e política que afetava Portugal. As razões desta desconfiança podem ser explicadas à luz de um conjunto de ideias pré-concebidas acerca da natureza do movimento republicano e da influência da Igreja Católica em Itália. Tentou-se responder às seguintes perguntas de investigação: • Quais os jornais que manifestaram dissensão ou assentimento em relação aos eventos portugueses? • Quais os enquadramentos sugeridos pelos jornais que revelaram dissensão? Ou seja, como determinadas correntes de opinião justificaram a imagem negativa sobre o movimento republicano? 3 Estado da Arte A análise do discurso jornalístico é um campo de investigação central no âmbito dos estudos de imprensa. Trata-se de uma área que foi recebendo diversos contributos multidisciplinares e adquiriu sempre maior relevância à medida que aumentou a consciência de que o nosso conhecimento sobre o mundo decorre em grande parte da informação que temos acesso quotidianamente. Algumas correntes teóricas notabilizaram-se na análise do complexo fenómeno comunicacional, nomeadamente a Escola de Chicago, a Mass Communication Research e a Escola de Frankfurt (Teoria Crítica). As pesquisas sociológica, cultural e linguística desenvolveram trabalho aturado ao nível das relações do discurso com a linguagem, da estrutura do jornalismo e o seu lugar na produção de conhecimento6. Tal como a produção científica portuguesa tem evoluído 6 Ao nível das relações do discurso jornalístico com a linguagem importa sublinhar as obras de Mikhail Bakthine (1929; 1981) e a sua perspetiva polifónica e dialógica do discurso. Sobre o jornalismo e o seu lugar na produção do conhecimento ficou célebre A opinião e as massas (1901, 1991) de Gabriel Tarde, onde o filósofo francês introduz a noção de público como coletividade puramente espiritual, que partilha ideias ou vontades e está separada fisicamente. Um público que nasceu com o advento da imprensa. No plano da pesquisa linguística, sociológica e cultural, Michel Foucault, Pierre Bourdieu, John Austin e Erving Goffman motivam relevantes abordagens sobre a produção de enunciados, de como os indivíduos se exprimem e apropriam-se dos conteúdos. De Foucault (1970, 1997) são úteis os sistemas/mecanismos de exclusão que afetam o discurso bem como o conceito de acontecimento. As noções de campo e habitus introduzidas por Bourdieu (1989) constituem proveitosos instrumentos para o jornalismo quando se trata de perceber os esquemas de representação e as estruturas de percepção do indivíduo. Austin (1962), por sua vez, desenvolveu grande parte da atual teoria dos atos do discurso e das dimensões do uso da linguagem. E é da responsabilidade do sociólogo Erving Goffman (1986) o conceito de enquadramento (framing), noção que marcou definitivamente este campo de estudo. Em Language in the News (1991), de Roger Fowler, é possível entender a função da linguagem ao nível da mediação da realidade. Semelhante esforço interpretativo encontra-se na extensa obra de Teun van Dijk Marco José Gomes Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 112 em função deste edifício teórico, também a revisitação através da imprensa de determinados acontecimentos da história das sociedades constitui uma das linhas de investigação que sofreu a influência das múltiplas abordagens dos estudos de imprensa. Utilizando a imprensa nacional como fonte e objeto de estudo, de salientar o estudo de Estrela Serrano (2005) sobre os padrões jornalísticos na cobertura das eleições presidenciais portuguesas entre 1976 e 2001, bem como os de Pedro Diniz de Sousa (2006) e João Figueira (2007), focalizados no período revolucionário pós-25 de abril. Em Introdução à Análise do Discurso Jornalístico Impresso, Jorge Pedro Sousa (2004) procedeu à teorização das abordagens quantitativa e qualitativa e apresentou um estudo de caso sobre o tratamento jornalístico conferido pela imprensa portuguesa ao golpe de Estado em São Tomé e Príncipe em 2003. De destacar os trabalhos coordenados por Isabel Ferin Cunha (1996, 2004, 2006, 2008) sobre as representações dos africanos através do discurso jornalístico e a forma como os jornais portugueses trataram a problemática da imigração tendo como alvo as minorias étnicas. Cristina Ponte (2005) surge igualmente como referência em virtude da coerente linha de investigação no contexto da análise do discurso, designadamente com Crianças em notícia. A construção da infância pelo discurso jornalístico 1970-2000. Cristina Ponte, Nélson Traquina, entre outros autores, estão associados a alguns dos mais relevantes estudos das Ciências da Comunicação em Portugal, como O jornalismo português em análise de casos (2001) e A problemática da sida como notícia (2007). Nelson Traquina (1993) foi ainda responsável pela coordenação de Jornalismo: Questões, Teorias e “Estórias”, obra importante que reúne diversas reflexões internacionais no âmbito da análise do discurso. Mário Mesquita e José Rebelo (1994) são os autores que mais se destacaram quando se trata de revisitar acontecimentos portugueses na imprensa internacional. Para esse reconhecimento muito contribuiu a obra O 25 de Abril nos Media Internacionais. Mesquita analisou como a imprensa francófona (França, Bélgica e Suíça) reportou o golpe militar de 25 de abril de 1974, enquanto José Rebelo reviu o não menos mediático “caso República” e as repercussões na imprensa francesa. Outras publicações da produção científica portuguesa merecem destaque, como a incontornável História da imprensa periódica portuguesa de José Tengarrinha (1989), a análise de Ana Cabrera (2006) sobre a imprensa no período marcelista, o útil e pertinente dicionário de Mário Matos e Lemos (2006) sobre os jornais portugueses no (1988,1990; 1995, 1997), quer colocando a ênfase nos processos cognitivos intrínsecos à produção das notícias, quer dedicando-se à análise ideológica dessas mesmas marcas cognitivas, materializada na proposta de quadrado ideológico aplicada ao discurso jornalístico. A I República portuguesa na imprensa internacional: a voz italiana do dissenso Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 113 século XX e o recente estudo de Carla Batista (2012) sobre a forma como o jornalismo português se autonomizou da política e se direcionou para os cidadãos. A implantação da I República é um dos acontecimentos mais estudados na historiografia portuguesa. Sobre ele recaem diversificados primas de investigação. Além das abordagens nas edições da História de Portugal coordenadas por José Matoso (1998) e Joaquim Veríssimo Serrão (1995), de salientar A Capital: Diário Republicano da Noite de Luís Salgado Matos (2012), artigo publicado na revista espanhola Historia Constitucional que utilizou o vespertino lisboeta para estudar a instituição Estado, versando ainda sobre as relações internacionais dos republicanos. Em ano de centenário da I República, Nair Alexandra (2010) e Graça Fernandes (2010) revisitaram a edificação do regime através dos mais proeminentes jornais portugueses. O ano de 2010 foi extremamente profícuo. O Congresso Internacional I República e Republicanismo deu a conhecer os estudos de Charles Kurzman (2010) sobre as similitudes que unem eventos revolucionários em geografias tão distantes como Portugal, China, Rússia, México, Irão ou Império Otomano. E ainda os trabalhos de Francisco Pinheiro (2010), abordando os jornais desportivos no período republicano, e Àngels Carles (2010), sobre o impacto do 5 de outubro em Espanha. Pensamos, porém, que a implantação da república carece de leituras através da imprensa internacional, especialmente a italiana. O contributo mais significativo provém de Reto Monico e Joaquim Vieira (2010). Os autores utilizaram a imprensa de vários países para revisitar os acontecimentos de 5 de outubro, incluindo no corpus da pesquisa jornais italianos. O trabalho privilegia a perspetiva holística em detrimento da exaustividade quando se trata de abordar a repercussão do novo regime na imprensa de um Estado em particular. Este aspeto torna-se evidente quando, ao longo de 263 páginas, é dada muito merecidamente importância ao domínio caricatural. Ou seja, o estudo não tem preocupações de colocar em confronto diferentes perspetivas políticoideológicas. Ou ainda de analisar ao pormenor as opiniões que revelaram dissensão a respeito da I República. 4 A imprensa italiana no início de Novecentos Dois elementos caraterizam o panorama jornalístico italiano no primeiro decénio de Novecentos: o desenvolvimento do setor editorial e o fim da hegemonia do diário Il Secolo. Em relação ao primeiro, cumpre salientar que a expansão deste segmento de cultura e poder foi impulsionado por fatores como o incremento de maiores liberdades Marco José Gomes Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 114 cívicas e de imprensa, melhoria das condições de vida principalmente nas zonas do centro e norte do país (maior industrialização), progressiva urbanização, desenvolvimento das vias de comunicação (linhas ferroviárias), aumento da velocidade de informação (telégrafo e telefone) e inovações técnicas. O ritmo deste progresso esbarrou, no entanto, nalguns desequilíbrios crónicos da sociedade italiana. Os elevados níveis de analfabetismo associados ao lento processo de escolarização e as gritantes assimetrias entre as regiões do norte e sul impossibilitaram a constituição de um espaço público mais vasto, informado e interessado pela causa pública7. Mas não obstante estas forças de atrito, a imprensa entrou definitivamente no processo de industrialização e começou a ser considerada um quarto poder. Assiste-se também ao desenvolvimento da imprensa regional e inter-regional através de jornais como Il Resto del Carlino (Bolognha), Il Secolo XIX (Génova) e Il Messaggero (Roma). A concorrência entre as diversas publicações ganhou ânimo e passou a processar-se através de outros valores que não exclusivamente os ideais políticos. Adquiriu sempre maior importância a qualidade das reportagens e crónicas, os conteúdos culturais e literários, o prestígio e a popularidade dos jornalistas. A formação de redações nos diários ampliou e colocou esta categoria no sentido da profissionalização, promoveu o espírito associativo e elevou-lhe o estatuto social (Murialdi, 2006: 89-104). Se o jornalismo italiano ainda constituía um instrumento algo elitista de valorização e divulgação de ideias desta ou daquela corrente de opinião, extremamente dependente da informação política – noutras contextos geográficos já imperava a distinção entre imprensa de referência, imprensa popular, imprensa de opinião –, por outro lado, importa assinalar que é precisamente neste período que nasceu uma das particularidades mais profícuas do jornalismo da península: a institucionalização da terceira página. Impulsionada pelo diretor do Giornale d’Italia, Alberto Bergamini, esta secção reunia somente artigos de cariz cultural e marcou o início de uma longa epopeia de conteúdos (cfr Falqui, 1964; Briganti, 1972). O segundo elemento que carateriza a última estação do jornalismo de opinião em Itália reside na ascensão do Corriere della Sera ao primeiro lugar dos mais difusos jornais italianos, destronando assim do patamar de referência o homólogo milanês Il Secolo. Sob o comando do mítico diretor Luigi Albertini, o Corriere solidificou definitivamente a presença junto da burguesia. Adquiriu importantes colaborações com jornais ingleses e franceses e tornou-se o órgão de informação mais dotado de recursos e preconizador de um jornalismo de qualidade, investindo em enviados especiais e numa vasta rede de colaboradores. Luigi Albertini, personalidade de grande rigor moral, inspirado no monarquia inglesa vitoriana, assumiu como farol de 7 Apenas em 1913 a totalidade da população adulta masculina adquiriu o direito de voto. A I República portuguesa na imprensa internacional: a voz italiana do dissenso Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 121 Sobre Teófilo Braga afirmou que o seu positivismo era retardatário e o intelectualismo não passava de uma fachada exterior. Designou-o de novo Lamartine da república. Finalizando: “São os jacobinos da pior espécie” (L’Unione, 10 outubro 1910: 1). A imprensa e a opinião pública também foram referenciadas enquanto parte integrante da estratégia expansiva republicana. O discurso maniqueísta do jornal fundado em 1907 considerou estes dois elementos um instrumento nuclear para a maçonaria na medida em que esta utilizava a primeira para influenciar a segunda, veiculando, deste modo, a propaganda revolucionária sectária. Simplificando: a imprensa ao serviço da maçonaria era um enérgico e válido agitador de ideias. Corrompia a opinião pública europeia. A linha editorial católica fundiu os republicanos portugueses e a maçonaria internacional num único corpo, do ponto de vista físico e intelectual. A associação foi imediata. O jornal recorreu ainda a ilustrações para enfatizar o perigo que estava próximo. Agiu em conformidade com as caraterísticas atribuídas à imprensa de opinião e incitou à ação. Estas processo discursivo foi utilizado quando, por exemplo, aludiu ao assassinato do diretor do diário Portugal para chamar a atenção que tudo valia para prosseguir a marcha revolucionaria. À dramatização deste acontecimento específico esteve associado o argumento de coexistência entre o movimento republicano e os seus atos, sempre numa perspetiva binário tendente a desqualificar as posições contrárias: “Nunca, como em semelhantes ocasiões, nós, jornalistas católicos, sentimos a inanidade dos nossos débeis esforços. (…) É o jornalismo que se atinge: é a voz adversária que se sufoca materialmente e não apenas metaforicamente. (…) Os nossos amigos compreendem, e saberão agir” (L’Unione, 11 outubro 1910: 1). L’Unione não concluiu as primeiras impressões sem preconizar uma solução para o problema português. Reconhecendo que as mudanças eram inevitáveis, num país economicamente arruinado face à desastrosa administração dos dinheiros públicos, defendeu a continuidade da Casa de Bragança mas no quadro de um regime liberal forte. A melhor forma de governo seria aquela que garantisse aos “cidadãos a verdadeira liberdade e, nessa, a participação de todos os bens espirituais e materiais de que se compõe a civilização”. Importava então dar ao país uma outra consciência coletiva dos direitos e dos deveres sociais. Pressagiava ainda que o regime republicano estaria sujeito ao golpe militar uma vez que mantinha-se a predisposição para subordinar a devoção pelo país aos critérios da rivalidade e luta partidária (L’Unione, 12 outubro 1910: 1). As causas que, segundo L’Unione, determinaram a crise política em Portugal foram partilhadas pelo L’Osservatore Romano. A sintonia persistiu quando se tratou de qualificar os revoltosos e diagnosticar a solução para os graves problemas que Marco José Gomes Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 122 assolavam o país. Lamentado que Portugal apenas denotasse vigor para minar os princípios monárquicos, recordou João Franco como o único homem capaz de salvar o destino na nação (L’Osservatore Romano,12 outubro 1910: 1). O órgão oficial do Vaticano foi mais comedido ao nível da extensão dos comentários, apostando sobretudo nas crónicas dos correspondentes distribuídos pela Europa e, especialmente, em Portugal. Preocupado em explorar o fluxo de contra-informação verificado nos dias sucessivos à revolução, selecionando criteriosamente a informação das agências noticiosas e dos jornais estrangeiros, insistiu em desmistificar o hipotético fluxo migratório de irmãos para Itália e, por vezes, circunscrever a ações pontuais as perseguições de que eram alvo em Portugal. No calor da emulação ideológica, constatou que Portugal representava um impulso importante para as forças anticristãs (L’Osservatore Romano,12 outubro 1910: 1). Os títulos que conferiam coerência aos aglomerados de peças ilustram o cenário de guerrilha dominante e o tom panfletário caraterístico dos jornais partidários ou de tendência: “A tirania jacobina em Portugal”; “Maçonaria: eis o inimigo”; “A canalha anticlerical opera na república portuguesa”. As páginas de L’Osservatore veicularam o quadro maniqueísta também presente na narrativa de L’Unione. 7 A dissensão na imprensa de referência Os liberais Corriere della Sera e La Tribuna revelaram-se avessos a mutações radicais. Talvez por isso olharam com descrença para os novos líderes políticos, a quem atribuíram ambições desmedidas e impulsos utópicos. Reconheceram que os episódios de Lisboa ocupavam a atenção de todo o mundo civil. A degeneração da instituição militar mereceu análises atentas, bem como a falta de diálogo e excesso de incompatibilidades entre a classe política. Prevaleceu a ideia de que Portugal vivia um período de declínio no plano da moral e dos costumes. O último parágrafo de um editorial intitulado A aurora cinzenta, do Corriere, reúne todo o ceticismo que começara desde o introito: “A república nasce sobre infaustos auspícios”. Pelo meio, a certeza de que, naquele momento, uma monarquia que se transformasse em república representava “um grande anacronismo” e pertencia à “história das ilusões coletivas”. E se, como referia o jornal dirigido por Luigi Albertini, a república assentava nos mesmos fundamentos através dos quais se regia a monarquia, a coerência do discorrimento obrigava a afirmar que uma mudança de forma de governo não era sinónimo de renovação da moralidade. A I República portuguesa na imprensa internacional: a voz italiana do dissenso Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 123 Para o periódico da via Solferino parecia missão quase impossível encontrar na história exemplos de um país que, depois de saído de uma revolução de caráter militar, tenha reencontrado o caminho da disciplina e do progresso. A conflitualidade entre fações da instituição militar e a falta de lealdade das mesmas perante os altos interesses e a soberania do país foram os aspetos mais visados (Corriere della Sera, 7 outubro 1910: 1). O diário La Tribuna analisou a situação política portuguesa colocando em evidência as causas da revolução e as consequências que esta poderia implicar para o futuro da nação lusitana. Em relação às causas, observou que a falta de concórdia representava o problema central da política portuguesa, responsável pela debilidade orgânica dos partidos dominantes divididos entre si por rivalidade e ambições. A inocência do título Uma nova República escondeu as dúvidas avançadas logo no primeiro parágrafo do dia 7 de outubro: “Esta proclamação é a expressão fiel dos sentimentos do povo português?”. A pergunta, na verdade, foi o ponto de partida para deslegitimar a nova ordem republicana e os seus heróis, acusados de não ser os verdadeiros intérpretes da vontade popular. O articulista considerou que a génese das convulsões políticas residia num estado psíquico-revolucionário alheio à maioria da população, classificada como apolítica (La Tribuna, 7 outubro 1910: 1). As consequências apontadas também não primaram pelo otimismo. A independência do país poderia estar em risco devido à incapacidade da classe política dialogar e alcançar consensos. Este princípio parecia, de facto, saído do manual de conduta da política italiana na medida em que os consensos constituíam a base da praxis política daquele país – premissa que se estendeu até ao século XXI. Outras desconfianças derivaram da natureza política dos responsáveis pela revolução. Mais concretamente dos prováveis efeitos que a aplicação efetiva do humanitarismo de Bernardino Machado e o darwinismo social e histórico de Teófilo de Braga teriam sobre a vida portuguesa. Este temor estava relacionado com o idealismo utópico que podia mergulhar Portugal em nefastas experiência sociais. Não esquecendo as ambições imperialistas de Bernardino Machado. As análises de La Tribuna não são alheias ao conhecimento que Olindo Malagòdi detinha sobre alguns dos protagonistas republicanos. Efetivamente, Malagòdi foi dos jornalistas que mais insistentemente discorreu sobre um grupo que considerava não apresentar qualquer tipo de moralidade superior. As impressões que o futuro diretor da publicação romana estampou no dia 10 de outubro foram inspiradas nas próprias informações que recolheu quando em 1908, por ocasião do regicídio do rei D. Carlos e do príncipe D. Luís Filipe, deslocou-se a Portugal para falar com Teófilo de Braga e Bernardino Machado. Marco José Gomes Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 124 Ficara-lhe na memória as quatro horas de prosa com Teófilo de Braga, que lhe parecia ter “mentalidade de um puro teorético, o professor que vivia longe e fora da vida”. O presidente do governo provisório republicano foi apresentado de forma depreciativa, como um homem de seita atraído pelas conspirações, uma mente entregue às abstrações histórico-sociológicas e ao utopismo da filosofia político-social. Sobre a generalidade dos atores que inspiraram a revolta de Lisboa recaiu um quadro negativo. Foram descritos como um conjunto de intelectuais “deslocados, descontentes e inflamados” que haviam importado arbitrariamente ideias novas sem escolha nem critério, todos provenientes de Coimbra. Reproduziam – escreveu Malagòdi – uma intelectualidade que havia sido sujeita a um processo de decadência, como todos os setores da sociedade, constituindo o mais doloroso produto do antigo regime; eram os obreiros, portanto, da “revolução feita com o cérebro” (Malagòdi, 10 outubro 1910: 1). O diagnóstico sobre a situação portuguesa não poderia deixar de comtemplar dois aspetos nada estranhos à imprensa laica e ao Estado italiano: a corrupção e o clericalismo. A corrupção não representava mais do que uma tendência, principalmente nos países latinos, de introduzir também nas formas de governo aqueles males da vida pública que são apenas imputados aos homens. O clericalismo era o problema central que ancorava o país à curva da decadência. Tratava-se de um fenómeno que afetava igualmente a vizinha Espanha e transformava os dois países no último domínio da Santa Sé. O elemento católico foi redimensionado para a realidade da Península Ibérica enquanto sintoma degenerativo das mentalidades. O declarado sentimento anticlerical dos republicanos de Lisboa constituía, neste sentido, um fator de esperança para a sociedade portuguesa. Esta foi a única mais-valia que o diário romano atribuiu à nova ordem política. Olindo Malagòdi sublinhou mesmo a urgente necessidade de iniciar a reforma que soltasse o espaço ibérico da “antiga servidão do espírito” e o colocasse na estrada da modernidade. Por este motivo notou que a simultaneidade temporal entre o advento da república e a tentativa reformadora do governo de Canalejas na vizinha Espanha poderia ser o princípio de feitos relevantes (Malagòdi, 10 outubro 1910: 1). Os malefícios do clericalismo em Portugal e Espanha foi um tema sobre o qual a imprensa laica deteve a atenção e se pronunciou a favor da separação de poderes entre a Igreja e o Estado. Por representar, nos alvores do século XX, uma questão fraturante ao nível do debate público no espaço europeu, talvez se perceba melhor a forma inflamada como a corrente de opinião católica adotou uma linguagem maniqueísta e transformou o seu porta voz, a imprensa, no principal espaço de representação. Afinal, alguns problemas levantados pela revolução de 5 de outubro A I República portuguesa na imprensa internacional: a voz italiana do dissenso Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 125 excederam as fronteiras portuguesas. O discurso católico, como vimos anteriormente, é elucidativo a este respeito. 8 A revolução como inevitabilidade histórica As perspetivas anteriormente aduzidas em relação ao movimento republicano não colheram deferência por parte de La Stampa, Avanti! e Il Secolo. À exceção da questão clerical, foram combatidas em consonância com o conspícuo axioma da história da imprensa: o jornalismo encontra-se dialeticamente interligado com as diversas formas de governação política. Os três jornais não enjeitaram a oportunidade de vislumbrar na experiência portuguesa um sério aviso para a Europa conservadora em geral e para a Itália em particular, uma ameaça para a estabilidade das monarquias que perpetuavam negociatas, clericalismos e políticos despóticos. Não enjeitaram a oportunidade de vislumbrar um sinal de que o exército podia-se converter contra os conservadores. La Stampa contestou, por exemplo os que afirmavam tratar-se de um movimento isolado na intelectualidade e formado pelos mesmos homens do sistema anterior. Afirmou que o caráter cientista e literário dos insurretos poderia ser encarado como um indicativo da amplitude do movimento republicano, minoria que, na opinião do diário, tinha o apoio do povo e da burguesia ativa (Murri, 22 outubro 1910: 1). Mais eloquentes, o porta-voz dos socialistas italianos e o jornal dos democrático radicais acreditaram que a nova ordem em Lisboa constituía uma evidência de que a expansão das ideias encontrava nas revoluções uma necessidade histórica em busca de novos caminhos para os populações. Il Secolo sugeriu que do Portugal republicano, transformado em pátria do jornalismo político, talvez a Europa financeira e credora pudesse aspirar a maiores garantias de pagamento (Bistolfi, 7 outubro 1910: 2). O 5 de outubro coincidiu ainda com a antecâmara do XI Congresso Nacional do Partido Socialista Italiano. O novo regime foi saudado por várias secções socialistas antes e durante os trabalhos da conferência. O Avanti! relacionou a queda da monarquia com o atentado à família real em 1908, dizendo que eram duas etapas do mesmo caminho. Chegara o fim a ditadura das clientelas (Avanti!, 6 outubro 1910: 1). A questão clerical foi a única linha agregadora que uniu as posições de assentimento e as perspetivas do Corriere della Sera e de La Tribuna. De Turim logo emergiu um aviso: “Itália, mais do que qualquer outro país, deve aproveitar o ensinamento. (…) Não se Marco José Gomes Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 126 pode fazer da religião um instrumento político” (La Stampa, 11 outubro 1910: 1). Afigura-se, portanto, plausível afirmar que a eclosão de anticlericalismos encontra correlação quando existe preponderância do clericalismo. O Secolo sublinhou esta ideia mas foi mais longe. Chamou a atenção para o possível êxodo de religiosos em direção a Itália e revelou-se particularmente ativo na hora de pedir ao governo de Luigi Luzzatti medidas que impedissem esse eventual fluxo. Giovanni Ciràolo foi talvez dos mais enérgicos quando se tratou de sensibilizar e pressionar o executivo acerca do problema. Mas quais as razões deste temor? Ciràolo argumentava que o Estado italiano e particularmente Roma exerciam uma atração nostálgica sobre a comunidade religiosa, assumindo-se como uma espécie de casa do último retiro (Ciràolo, 11 outubro 1910: 1). Esta influência ontológica era ainda redobrada em virtude das posições assumidas pelos governos de países como França e Espanha, o primeiro manifestamente anticlerical e o segundo já empenhado em assumir posições mais firmes contra o fenómeno. O editorial de 12 de outubro é bastante significativo quanto à insistência de Il Secolo nesta matéria e da pertinência que adquiriu ao nível do debate político italiano. Perguntava o jornal ao presidente do Conselho: “O governo proíbe o ingresso dos expulsos de Portugal?” O enunciado surgiu na sequência da notícia difundida no dia anterior segundo a qual o executivo italiano havia dado disposições para aplicar as medidas previstas na lei com o objetivo de impedir que as congregações religiosas portuguesas viessem estabelecer-se em Itália. O jornal asseverou que as diligências haviam causado boa impressão. Porém, não se coibiu de salientar que o principal problema consistia na indiferença do governo perante as sucessivas e quotidianas violações à lei (Il Secolo, 12 outubro 1910: 1). Ou seja: ao mesmo tempo que se congratulou com a iniciativa ministerial, levantou dúvidas quanto ao seu cumprimento. O diário milanês foi das publicações que mais dissecou a questão religiosa, entrando em violentas polémicas com a imprensa católica, nomeadamente com L’Unione. Um claro sinal de que as réplicas de Lisboa haviam chegado a Itália, sendo mesmo apropriadas pelo debate público e político. Os sete jornais analisados revelaram o seu substrato da mundividência, recorrendo à narrativa erudita, eloquente, metafórica e à forte adjetivação. Invocaram verdades apodícticas para sustentar pontos de vista, enleadas frequentemente em complexos raciocínios e de onde sobressaiu o exercício da autoridade institucional. Imperaram as mensagens ofensivas que alimentam os contextos polemistas, as ilustrações, os valores negativos e os epítetos para desqualificar o Outro. A utilização de uma linguagem quase inacessível ao leitor comum acentuou as condições de receção das mensagens: auditório restrito. Os órgãos de comunicação empregaram uma linguagem assente na prosa oratória e, não raras vezes, nos chavões doutrinários. A I República portuguesa na imprensa internacional: a voz italiana do dissenso Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 127 9 Conclusão Dos sete órgãos de informação analisados, quatro revelaram-se contrários à implantação da I República: L’Unione, L’Osservatore Romano, Corriere della Sera e La Tribuna. Enquadradas as correntes de opinião no esquema binário assentimento vs dissensão, é possível agrupar em três linhas gerais as considerações finais relativamente às vozes que manifestaram dissensão e responder, desta forma, à pergunta central da pesquisa. Primeiro, a imprensa católica foi a corrente de opinião que utilizou uma linguagem mais violenta diante dos eventos portugueses, interpretando o mundo social sob um ponto de vista dualista. Este dedução deve ser, no entanto, integrada num contexto que nos permita, como refere Michel Foucault (1997: 41), equacionar um elemento em função da série à qual pertence, compreender a “regularidade dos fenómenos”. Num quadro de crescentes tensões entre o mundo católico e o mundo laico no espaço europeu, a revolução portuguesa foi assim considerada uma ameaça para o mundo católico, em especial para a comunidade latina, devido sobretudo à publicação do diploma republicano que mantinha em vigor anteriores disposições destinadas à expulsão das ordens religiosas do território português. Apesar de distante, esta ameaça foi apropriada por L’Unione e L’Osservatore Romano por forma a legitimar e reforçar as suas posições ao nível do debate público italiano. Em segundo lugar, os quatro jornais que manifestaram dissensão convergiram sobre a natureza do movimento republicano: antidinástico, anticlerical, demagogo, utópico, influenciado pela maçonaria, minoritário, desprovido de apoio popular e motivado para realizar experiências sociais questionáveis. Reconheceram que os acontecimentos de 5 de outubro haviam despoletado a atenção de todo o mundo civil e convergiram ainda em relação às causas que estiveram na origem da queda da monarquia: grave crise económico-financeira, falta de diálogo e concórdia, excesso de incompatibilidades ao nível da classe política, ambições políticas desmedidas e deslealdade da instituição militar diante dos altos interesses da nação. O somatório destes elementos credibiliza a nossa hipótese de partida na medida em que o novo sistema político foi encarado como uma solução incapaz de resolver a precária situação económica, social e moral de Portugal. Em terceiro, a imprensa laica apenas superou as divergências político-ideológicas quando se tratou de debater a questão religiosa. Corriere della Sera, La Tribuna, Il Secolo, La Stampa e Avanti! concordaram com a separação de poderes entre o Estado e a Igreja Católica. Trata-se afinal de uma espécie de truísmo em virtude da linha laica das publicações. Este aspeto está diretamente relacionado com a temática que inflamou o debate público em Itália e que, decorrente da situação portuguesa, opôs a imprensa católica à imprensa laica: o êxodo de frades e monásticos em direção à Marco José Gomes Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº1, Vol.1, año 2013, PP. 106-131 128 península itálica. O conflito entre católicos e laicos reavivou-se às expensas da problemática portuguesa. As investigações de jornalismo comparado podem fornecer elementos úteis para o campo da História, uma vez que os jornais são, simultaneamente, fontes e atores do processo histórico. Em prejuízo de todos os que saudaram a chegada do regime republicano a Portugal, dedicou-se mais atenção às correntes de opinião dissonantes com base no pressuposto de que o entendimento de um determinado evento ou fenómeno só se aproxima da exatidão quando percorridos os vários planos que o constituem. Este é sem dúvida um plano que merecia ser estudado. Bibliografia AUSTIN, JOHN – How to do Things with Words. London: Oxford University, 1962. BATTISTA, PIERLUIGI – L’Italia Contemporanea: dal 1963 a oggi, vol. VI. In Storia d’Italia, Giovanni Sabbatucci e Vittorio Vidotto (dir.) Roma: Laterza, 1999. BECHELLONI, GIOVANNI – Informazione e potere: la stampa quotidiana in Italia. Roma: Officina, 1974. BENETTI, MARCIA – “Análise do Discurso em jornalismo: estudo de vozes e sentidos”. In Metodologias de Pesquisa em Jornalismo, Cláudia Lago e Marcia Benetti (coord.). Petrópolis: Vozes, 2007. BOURDIEU, PIERRE – O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989. 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