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Identidade narrativa e plasticidade cerebral: algumas propostas pedagógicas

Bernal Guerrero, Antonio; Gonçalves, Teresa Paula Nico Rego

Abstract

Os novos recursos da sociedade da informação, juntamente com os novos conhecimentos sobre o desenvolvimento humano e sobre o funcionamento do cérebro, oferecem uma nova perspectiva sobre os processos de construção da identidade e abrem novas possibilidades ao sujeito no seu processo de autoformação e autodeterminação. A construção narrativa da identidade e a plasticidade neuronal remetem para uma antropologia da complexidade que deve ter em consideração tanto as condições de risco, de incerteza e de racionalidade incompleta através das quais se vai configurando a identidade do sujeito, como as novas possibilidades de realização pessoal que estas representam. Por isso, apresentamos algumas propostas pedagógicas que poderão coadjuvar a realização das promessas da plasticidade e da narratividade.

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revista portuguesa de pedagogia Identidade narrativa e plasticidade cerebral: algumas propostas pedagógicas Antonio Bernal Guerrero1 & Teresa Paula Nico Rego Gonçalves2 Os novos recursos da sociedade da informação, juntamente com os novos conhecimentos sobre o desenvolvimento humano e sobre o funcionamento do cérebro, oferecem uma nova perspectiva sobre os processos de construção da identidade e abrem novas possibilidades ao sujeito no seu processo de autoformação e autodeterminação. A construção narrativa da identidade e a plasticidade neuronal remetem para uma antropologia da complexidade que deve ter em consideração tanto as condições de risco, de incerteza e de racionalidade incompleta através das quais se vai configurando a identidade do sujeito, como as novas possibilidades de realização pessoal que estas representam. Por isso, apresentamos algumas propostas pedagógicas que poderão coadjuvar a realização das promessas da plasticidade e da narratividade. Identidade narrativa e plasticidade cerebral: algumas propostas pedagógicas Nas últimas décadas, no campo das ciências cognitivas têm surgido novas formulações da identidade e seus mecanismos, as quais abrem novas possibilidades de reflexão sobre o estatuto do sujeito. Paralelamente, a sociedade da informação põe actualmente à disposição desse mesmo sujeito novos meios e mecanismos para a construção da sua identidade. As perspectivas emergentes sobre a identidade e a plasticidade do ser humano têm necessariamente consequências ao nível da teoria da educação, uma vez que abrem novas possibilidades à tarefa educativa ao mesmo tempo que contribuem para uma reflexão sobre o sujeito da educação. Empreender uma análise sobre os novos mecanismos de construção da identidade e sobre o complexo e mutável panorama das ciências cognitivas, no qual a chamada ‹‹revolução cognitiva›› tem operado algumas mudanças importantes na concepção 1 Departamento de Teoría y Historia de la Educación y Pedagogía Social, Facultad de Ciencias de la Educación, Universidad de Sevilla, C/ Camilo José Cela s/n, 41018 Sevilla. Email: [email protected] 2 Departamento de Teoría e Historia de la Educación y Pedagogía Social, Facultad de Ciencias de la Educación, Universidad de Sevilla, C/ Camilo José Cela s/n, 41018 Sevilla. Email: [email protected] ano 42-1, 2008, 27-43 28 do homem e dos seus processos evolutivos e de desenvolvimento, implica, por um lado, aceitar que a identidade ocupa um lugar central na tarefa educativa na medida em que esta se ocupa da formação dos sujeitos na sua totalidade, nas suas distintas dimensões – pessoal, social, cultural, ética, estética, política –; e, por outro, compreender em que consiste a identidade na sua complexa configuração. Por isso, começamos pelo que podemos designar como a nova ideia de sujeito emergente do contexto em que nos situamos, para em seguida analisarmos as implicações educativas desta nova concepção, apresentando algumas perspectivas que podem permitir desenvolver as novas possibilidades oferecidas pelas diferentes formulações. 1. Novas Formulações do Sujeito e da Identidade Entre a formulação moderna do sujeito como identidade substancial, una e linear, do sujeito racional, consciente, autónomo como actor do projecto moderno (e crítico) de emancipação e libertação, e a perspectiva do sujeito fragmentado e fragmentário da pós-modernidade, segundo a qual “o sujeito se torna uma dimensão do questionável e de uma ‹‹resignificação e questionamento constantes›› e não uma fundação da pesquisa tomada como inquestionável” (Popkewitz, 1994: 199), situamo-nos numa perspectiva segundo a qual (re)situar a questão do sujeito é uma exigência do nosso tempo, que se manifesta em distintos domínios do panorama científico, político e social actual. A reivindicação da sua individualidade por distintos grupos, o direito à diferença e a configuração de novas formas de viver e conviver, os processos de autodeterminação e as exigências de reconhecimento por distintas colectividades são demonstrativos de que a ideia de sujeito volta a emergir com força nas nossas sociedades (Sanfélix, 1997), reconfigurando, ao mesmo tempo, junto com algumas investigações científicas e teorias filosóficas a própria ideia do sujeito. No seu conjunto estes fenómenos parecem indicar que, “mais do que instância substancial e dotada de uma identidade sem quebra, o sujeito é âmbito para a experimentação e a diferença, desde as quais unicamente cabe construir de alguma forma a própria identidade; em vez de fundamento absoluto de todo o conhecimento e acção, a identidade é, antes, ponto de chegada.” (Bernal, 2005: 103). O sujeito a que nos referimos é simultaneamente um sujeito multidimensional e dotado de narratividade. Quanto à sua multidimensionalidade falamos de um sujeito neuronal, caracterizado pela sua plasticidade, pela sua liberdade, pela sua condição de criador de si mesmo, autor do seu ‹‹eu››. O que o torna simultaneamente criador e destrutor da(s) forma(s), das suas diferentes formas de ser e vir a ser. Um sujeito social, actor que interactua com os demais numa comunicação 29 rpp, ano 42-1, 2008 estruturada e estruturante. Sujeito natural e sujeito social, sendo que não são dois mas o mesmo sujeito. Sujeito simultaneamente corporal e mental, racional e emocional. Sujeito ou sujeitos, na medida em que cada ‹‹eu›› consciente é irrepetível, um todo, uma rede de sensações, pensamentos, de experiências e de acções, que existe na complexidade de um cérebro, mas que não se esgota nele. Lugar de tensões, de conflitos, de contradições a partir das quais se constrói uma identidade, que não una mas múltipla, que não é estável mas sim dinâmica, que se constrói e reconstrói nos bons e maus encontros, que se conta e reconta a si mesmo através da sua história e que, nesse sentido, é dotado de uma identidade narrativa. Não se pode pensar a cultura nem os aspectos sociais que enquadram a existência humana sem pensar um sujeito, da mesma forma que não se pode pensar o todo orgânico que representa o organismo sem pensar um ‹‹eu››, uma consciência que lhe esteja subjacente. O sujeito relaciona-se com os aspectos culturais e sociais a partir do seu organismo, das possibilidades que a sua dimensão biológica lhe oferece desde o início. Ele representa uma realidade e, através dessa representação, converte-se em subjectividade, em individualidade, ele mesmo uma realidade livre, autónoma, única e irrepetível, uma realidade complexa, ambígua e dinâmica que necessita ser pensada como tal. Quanto à narratividade, podemos dizer que ela nos situa entre o conceito moderno e o conceito pós-moderno de identidade, uma vez que sintetiza em si a ideia moderna do sujeito como algo permanente e inalterado no decurso da vida e a ideia pós-moderna que reflecte um conjunto de si mesmos múltiplos e mutáveis de acordo com as situações que vai vivendo o indivíduo. O conceito de narratividade introduz-nos simultaneamente na descontinuidade e na permanência que todos experimentamos, isto é, introduz-nos na temporalidade que estrutura a experiência vital (Husserl, 2002) que nos relaciona com o que muda e com o que se mantém, a continuidade, no espaço e no tempo, que dá coerência e sentido à nossa conduta. Falamos, então, de um sujeito orgânico e temporal, o sujeito da plasticidade e da narratividade. Começaremos por analisar o primeiro para depois nos determos sobre o segundo aspecto, tentando tematizar os fenómenos de liberdade ou a abertura de possibilidades que supõe a nossa reconceptualização. 1.1 Da biologia à liberdade O campo das ciências cognitivas oferece hoje um panorama sobre a cognição e o desenvolvimento humano que põe em questão os modelos formais da cognição, para, com a ajuda das neurociências cognitivas, centrar-se nos modelos baseados 30 no funcionamento do cérebro e nos processos físicos que determinam e possibilitam o desenvolvimento cognitivo dos sujeitos. Neste sentido as neurociências cognitivas têm sido de central importância na configuração de novas perspectivas sobre o sujeito e seu desenvolvimento a partir do funcionamento do cérebro como sede da cognição e, enquanto tal, da identidade. Longe da perspectiva do cérebromáquina que caracterizou os modelos cognitivos anteriores – modelo simbólico e modelo conexionista – consolida-se a ideia do cérebro plástico fundada na plasticidade neuronal que caracteriza o desenvolvimento humano. O cérebro é um órgão plástico que se constrói e reconstrói a partir das experiências do indivíduo, do viver do organismo, da sua história. No quadro da nova preocupação com a dimensão física dos processos cognitivos, a biologia torna-se relevante em termos da aprendizagem e da cognição, tanto porque os mecanismos fisiológicos influenciam a aprendizagem e os processos cognitivos, como porque o sistema nervoso, tanto dos animais como do homem, é produto de um processo evolutivo que importa conhecer para compreender melhor o seu funcionamento actual (Leahey & Harris, 1998). Ao mesmo tempo, a forma como o desenvolvimento do cérebro é afectado pelo meio social e pelas experiências individuais torna patente que o homem é não só produto, como também produtor do seu próprio cérebro, o que, para além de permitir superar a separação mente-corpo, abre também um espaço de liberdade onde se joga a construção do ‹‹eu››, do sujeito (Malabou, 2004). Como afirma Pizarro (2003: 154): “Ao contrário dos computadores, e de acordo com a sua natureza biológica, o cérebro comporta-se como matéria viva que é: muda a sua estrutura e as suas funções segundo a idade, a aprendizagem, a patologia, o uso. E de acordo com o citado paradigma neurofisiológico, a plasticidade refere-se não só às mudanças celulares do órgão mas também à produção, modificação ou recuperação da conduta ou cognição perdidas.” A plasticidade cerebral designa a abertura contínua do nosso cérebro às influências do meio, a poder ser modificado por elas durante toda a vida, ou a modificar-se através delas, ou mesmo apesar delas. Em neurociências a plasticidade é entendida como a capacidade que têm os neurónios para reorganizar as suas conexões sinápticas em resposta a um estímulo, seja ele interno ou externo, e essa modificação pode ser duradoura. O cérebro humano, por um lado, quanto à sua estrutura, está determinado geneticamente, por outro, é modelado pela experiência3. A relação 3 De acordo com Beatriz Pizarro (2003) as influências do meio modelam o cérebro alterando a intensidade das conexões sinápticas de distintas formas: a) podem reforçar , debilitar ou eliminar as sinap- 31 rpp, ano 42-1, 2008 genética-meio é preponderante no desenvolvimento do cérebro, e o papel das experiências proporcionadas pelo meio na construção do cérebro é mais determinante do que o que se pensava até agora. O meio social pode modificar geneticamente o cérebro e, mais do que isso, pode fazê-lo de uma forma determinante. Podemos destacar duas consequências desta constatação: por um lado, o desenvolvimento neuronal é fruto de uma conjugação entre factores genéticos e epigenéticos, o que torna o sujeito simultaneamente, produto e produtor do seu cérebro; por outro lado, nessa construção, o papel da educação e do treino – o que alguns autores designam como estimulação sináptica – é preponderante. O sistema nervoso é um sistema complexo, com diferentes componentes responsáveis pela memória, a linguagem, as emoções, a percepção, a fantasia e a criatividade, e tem também uma história, um percurso de desenvolvimento no qual se vai construindo um ‹‹eu››, um sujeito, uma consciência e, no seu conjunto, diferentes cérebros formam uma sociedade. De acordo com a nova perspectiva sobre o cérebro este aparece como sede material da subjectivação, da qual surge uma consciência que, no entanto, o transcende: “(…) sem cérebro não há consciência, mas a consciência não é o cérebro” (Pizarro, 2003: 55). A consciência resulta do funcionamento adequado de todo o sistema nervoso central e também do corpo, mas não se reduz a eles. A consciência é sempre consciência de um sujeito, emerge de uma experiência mental subjectiva, de um sujeito autor de si mesmo, que se apropria intencionalmente do mundo real. Não se pretende reduzir o psiquismo humano a uma conjugação de processos mecânicos, bioeléctricos e bioquímicos e a relações sócio-culturais com o ambiente. Trata-se de tentar compreender, a partir da complexidade do funcionamento cerebral e da sua plasticidade, os factores que determinam o pensamento, a aprendizagem e a evolução dos indivíduos, ao mesmo tempo que possibilitam a constituição, exercício e manifestação da sua liberdade e individualidade. A nova ideia do cérebro como sede da cognição, da consciência e da personalidade representa também a necessidade de uma nova perspectiva sobre os factores que influenciam os processos cognitivos e as suas diferentes dimensões. Pensar a relação cérebro-corpo, a ses formadas por uma informação codificada geneticamente desde o início; b) podem formar-se novas sinapses como resposta à experiência; c) podem produzir-se aumentos temporais de conexões entre os neurónios, no caso da memória a curto prazo ou de trabalho; d) as substâncias tóxicas e as experiências que causaram stress ou distracção mental, podem levar à eliminação das sinapses. No campo das conexões sinápticas, os axões e as dendrites sofrem modificações morfológicas e fisiológicas em função da relação que estabelecem com o meio e com as células que lhes estão próximas. Da sua contínua estimulação depende a sua sobrevivência. Estas conexões podem ser permanentemente alteradas e fortalecidas por uma regulação da expressão genética ligada à aprendizagem ambiental, numa relação estreita entre processos sociais e biológicos na formação da conduta. 32 relação entre pensamento e emoções, o papel da memória e da linguagem, implica pensar a cognição desde a sua multidimensionalidade. Para além disso, implica pensar os mecanismos de construção da identidade, a partir das opções de cada sujeito em diferentes momentos e situações da sua vida. Tanto o material genético como o cultural, juntamente com as decisões pessoais dos indivíduos, conjugam-se na construção da identidade pessoal e na própria modificação genética e cultural que o sujeito pode efectuar dentro das suas diferentes limitações. A condição humana é simultaneamente a da multidimensionalidade e a da possibilidade. Por isso o que habitualmente designamos como ‹‹carácter›› não é uma propriedade estática do sujeito, é antes um princípio dinâmico, gérmen de possibilidades. A eleição e concretização dessas possibilidades implicam a passagem à acção, converter a potência em realidade, o contingente em factual. Esse passo marca a conversão do sujeito em autor da sua própria biografia, em agente autónomo, construtor da sua identidade, ainda que sujeito aos condicionamentos da sua própria existência. Nesta medida poderíamos dizer que a personalidade, em sentido holístico, é aquilo que somos, mas também aquilo que podemos ser, enquanto que a identidade pessoal é uma parte da personalidade: aquela parte que podemos escolher, eleger, que podemos decidir com as nossas possibilidades e limitações individuais e situacionais, por nós mesmos, o que Marina (2004) designa como ‹‹personalidade›› eleita. Este entendimento da personalidade enquanto personalidade escolhida implica a temporalidade na medida em que supõe uma relação com o passado, uma relação com o factual, o presente e uma abertura ao que quero e posso ser, implica o equilíbrio ou a ruptura entre o passado e o futuro, entre o que sou e aquilo em que me quero transformar. O cérebro torna-se destino, no sentido em que cada pessoa escolhe sem que seja determinada por condicionamentos genéticos ou biológicos. O homem tem a capacidade de mudar o próprio substrato neuronal do seu pensamento. As redes neuronais desenvolvem determinadas e diferentes conexões a partir de decisões pessoais de cada sujeito. Aqui reside o espaço da liberdade humana. 1.2 Autodeterminação, plasticidade e narratividade A plasticidade neuronal instaura um horizonte de liberdade que, no entanto, deve ser pensado em relação com as condições de existência dos sujeitos e ser enquadrado no âmbito mais vasto do devir humano nas suas distintas dimensões – éticas, estéticas, sociais e políticas –, portanto, para além da própria cognição. Como afirma Maturana (2003: 44): 33 rpp, ano 42-1, 2008 “A genética, (…) funda um espaço de possibilidades, mas o que realiza? Depende da história do viver do organismo. Por isso é que o viver não está geneticamente determinado. A genética especifica um espaço de possibilidades gigantesco. E é gigantesco se todos podemos ser bandidos, anjos, santos, presidente da república, ministros, médicos, professores, segundo seja o nosso desejo: enquanto crianças.” A plasticidade é uma qualidade dos cérebros que não é boa nem má em si mesma, por isso, depende da forma como for utilizada e orientada. Daí a necessidade de enquadrar a plasticidade neuronal com a forma como os sujeitos estruturam a sua vida, como interagem socialmente e como pensam sobre o seu potencial e sobre os possíveis mundos e formas de viver, como organizam e concretizam as suas possibilidades. A própria necessidade de organização, estruturação da vida humana, aponta para a necessidade que os indivíduos têm de dotar de sentido as suas acções, o seu viver, de enquadrá-las numa narrativa que lhes dê coerência e significado. Configurando e relacionando as diferentes possibilidades apelando a diferentes situações e possíveis formas de ser, ou ‹‹selves possíveis›› (si mesmos possíveis) (Markus & Ruvolo, 1989), que são diferentes narrativas das suas possíveis formas de ser ou chegar a ser, que permitem projectar situações futuras, ou configurações futuras de si mesmo, apelando tanto a factores cognitivos, como afectivos e interpretativos das estruturas do ‹‹eu›› (Bruner, 1991). Não sendo uma mera possibilidade genética, nem estando apenas ligada à dimensão neuronal, a plasticidade é a condição mesma de possibilidade da narratividade da existência humana, uma vez que permite configurar a existência de fenómenos de liberdade possível no sujeito (Fierro, 2002). Não é um mero reflexo de determinismos biológicos ou sociais, temperamentais ou situacionais, antes responde a uma elaboração própria, que reflecte a existência de um espaço de construção autónoma, no qual o sujeito se conta e reconta a si mesmo através da sua história e da projecção do seu porvir, numa mistura de realidade e desejo, de actualidade e de possibilidade, de presente e de futuro4. A personalidade escolhida, a que podemos 4 A estreita conexão entre plasticidade e narratividade na construção da identidade pessoal, entendida como personalidade escolhida, pode ser definida a partir da distinção que faz Malabou (2004) entre plasticidade e flexibilidade. A primeira constitui uma instância criadora e libertadora do sujeito, do seu pensar e agir, do seu processo de construção autónoma de si mesmo; e a segunda, constitui-se como elemento de dominação, de passividade e docilidade que apela à submissão e constante adaptação a uma ordem económica, social e política estabelecida, que pode converter-se em darwinismo mental e psicológico com vista a alcançar uma determinada ideia de eficácia. Confundir plasticidade com flexibilidade pode, então, constituir uma perversão da própria ideia de plasticidade, impossibilitando toda a construção narrativa da identidade e anulando as possibilidades emancipadoras que esta representa desde o início para o sujeito. 34 eleger, dentro dos limites da acção humana, enfatiza a abertura de possibilidades do sujeito e é escolhida na medida em que permite a eleição de uns valores ou outros, de uns ideais ou outros, de umas condutas ou outras – essa personalidade dinâmica e fluida que nos vai definindo paulatinamente através das nossas acções pensamentos e sentimentos. O valor da identidade é directamente proporcional à qualidade dos recursos disponíveis que possua o sujeito, isto é, da qualidade daqueles critérios humanizadores com os quais o sujeito elabora os seus processos identitários. A identidade consiste numa construção narrativa pessoal, através da qual vamos construindo o nosso próprio mundo e, com ele, reconfigurando a nossa própria vida, que é, além do mais, simultaneamente contingente e precária, situa-se entre o ideal e o real, entre o que não chegámos a ser e o que somos. A plasticidade oferece uma dimensão de abertura, um leque de possibilidades que permite pensar o sujeito em múltiplos âmbitos e níveis, na complexidade, indeterminação e incerteza nas quais se dá a construção do sujeito e a partir das quais é necessário reconceptualizá-lo. “A plasticidade, longe de produzir o reflexo do mundo, é a forma de outro mundo possível” (Malabou, 2004: 161). Para além disso, ela oferece a possibilidade de superar a separação que tem caracterizado a cultura ocidental entre sujeito epistémico e sujeito empírico (Nunes, 2002), que se reflecte no campo cultural e educativo, por exemplo, na separação entre humanidades e ciências, entre ciências naturais e ciências humanas (Morin, 2001). Pensar o sujeito na sua multidimensionalidade, na sua problematicidade no que diz respeito à construção da sua subjectividade e à sua interacção com os demais, com a cultura e com a sociedade é um imperativo cultural, social e, consequentemente, educativo. Este sujeito, como afirma Rosa Nunes (2002: 84) não é “nem o sujeito universal, nem o sujeito singular”, nem o sujeito individual, nem o sujeito colectivo, mas o que está entre. A categoria ‹‹sujeito›› é o que dá unidade a uma pluralidade de personagens, de caracteres, de potencialidades, de dimensões. Toda a identidade é problemática, contraditória, conflituosa. O sujeito é o resultado da resiliência5, nasce de uma contradição originária, dialéctica, resulta do conflito entre o neuronal e o mental. A formação mental resulta do encontro contraditório entre natureza e história, entre a formação histórico-cultural de si e a economia natural e primeira dessa contradição. Como afirma Malabou (2004: 156), “a formação de toda a identidade é uma forma de resiliência, isto é, de construção contraditória, síntese de memória e esquecimento, de constituição e apagamento de formas”. A resiliência é a capa- 5 A resiliência é a capacidade que tem o cérebro de ultrapassar obstáculos, de superar traumas, de sobreviver e reconstruir-se na adversidade. 35 rpp, ano 42-1, 2008 cidade de recuperação frente à adversidade. É uma capacidade essencialmente humana e universal que envolve o ser humano na sua totalidade e que se funda na capacidade que tem o sujeito para afrontar as diferentes situações da vida, sendo determinante na constituição de si. É uma qualidade activa e criadora do sujeito que progressivamente o ajuda a transformar a natureza em liberdade, é um processo psíquico de construção ou reconstrução e reconfiguração de si que se desenvolve simultaneamente contra a ameaça de destruição e com ela. É, em suma, a sua capacidade narrativa, de significar-se e resignificar-se como sujeito. A questão do sujeito remete, então, para uma realidade complexa, entendida tanto como subjectividade, como realidade objectiva, um si mesmo na sua referência ao mundo exterior. Por isso, importa pensar como o sujeito se torna singularidade pessoal a partir de uma existência corporal e segundo as regras e leis de uma cultura, numa construção histórica que constitui o processo de subjectivação. Tendo em conta que a sociedade da informação oferece ao sujeito novas formas de relacionar-se com os demais, novos meios de comunicar e, portanto, novos instrumentos de construção da sua identidade, há que pensar de que forma o sujeito utiliza essas novas possibilidades na construção de narrativas identitárias, como podem essas possibilidades ser utilizadas para aumentar a sua resiliência, para construir novos significados e refazer a identidade pessoal. O sujeito pode inventar novas e diversas formas de dizer-se e de apresentar-se aos demais, novas formas de falar de si mesmo e de mostrar-se aos outros, pode criar novas e distintas narrativas de si mesmo, pode afrontar as situações de formas diversas das que dispunha até então, com tudo o que esse novo panorama pode ter de positivo e negativo. Porque, se é verdade que nos encontramos com mais possibilidades que nunca para construir a própria identidade, aumentadas graças aos novos ambientes de aprendizagem que surgem com a introdução das novas tecnologias da informação e da comunicação (TIC’s), ao mesmo tempo, jamais existiu tanta exigência ao sujeito. Esta possibilidade actual, esta margem de acção, a maior liberdade de que hoje se dispõe, pode provocar medo, paralisação no processo de criação que exige a dinâmica identitária da vida, e, como reacção contrária, o sujeito pode tratar de agarrar-se àquelas identidades ‹‹seguras››, monolíticas, políticas, religiosas, culturais, que se lhe oferecem no mundo próximo ou distante, já que a eclosão de ansiedades e temores tem lugar dentro do imaginário social. Recentemente, Savater (2004) denunciou o perigo do desejo de renunciar à liberdade, de buscar a quem nos alivie dessa pesada carga. Paradoxalmente, dado o aumento de possibilidade de acção humana, a sociedade contemporânea dificulta seriamente a busca da identidade, uma busca que cada 42 não supere os velhos discursos monolingues e monoculturais está condenada ao fracasso (Esteve, 2003). Os problemas de convivência que se suscitam sem pausa por todo a urbe precisarão de fórmulas educacionais capazes propiciar o autêntico encontro entre as culturas, entre as distintas perspectivas colectivas e individuais, não só desde o respeito à diversidade, mas mais ainda desde a sua celebração. Bibliografia Bernal, Antonio (2005). Reconceptualización de la Identidad Personal y Educación para la Autodeterminación Posible. Teoría de la Educación. Revista Interuniversitaria, 17, 97-128. Bruner, Jerome (1991). Actos de significado. Más allá de la revolución cognitiva. Madrid: Alianza. Claxton, Guy (2001). Aprender. El reto del aprendizaje continúo. Barcelona: Paidós. Coelho, Eduardo P. (2001). Nos bancos da escola. 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La construction narrative de l’identité et la plasticité neuronale demandent une anthropologie de la complexité qui doit considérer les conditions de risque, d’incertitude et de rationalité incomplète dans lesquelles l’identité du sujet se configure, aussi que des nouvelles possibilités de réalisation personnelle qu’elles représentent. En suivant ces nouvelles perspectives on présentent quelques proposes pédagogiques qui peut coadjuver la réalisation des promesses de la plasticité et de la narrativité. Abstract The information society resources, together with the new knowledge about human development and brain functioning, offer a new overview on identity formation processes. Moreover, they open new possibilities concerning the subject’s autoformation and autodetermination. Narrative identity and neuronal plasticity appeal to anthropology of complexity, which must take into account the risks, uncertainty and incomplete rationality conditions trough which identity is configured, as well as the new possibilities of personal fulfilment they represent. Following this new perspective, we present some pedagogical proposals that we think may contribute to the accomplishment of narrative and plasticity promises.