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Da Asia de Diogo de Couto : dos feitos que os portuguezes fizeram na conquista e descubrimento das terras e mares do Oriente : decada setima : parte primeira

Couto, Diogo de

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E SAS a PS EQUeA Se aE E Ea SS RES PIVA é SAD oa O CSA Sigo. “DA ASIA DIOGO DE COUTO Dos FEITOS, QUE OS PORTUGUEZES FIZERAM NA CONQUISTA, E DESCUBRIMENTO DAS TERRAS, E MARES DO ORIENTE. DECADA SETIMA PARTE PRIMEIRA, Py SAE - “e LISBOA Na Recia OrrICINA TrrocRAREM + É ANNO M.DCCLXXXIIL Com Licença da Real Mexa € enforia , e Privilegio Real, “SINDICE DOS CAPITULOS, QUE SE CONTEM NESTA PARTE 1, D E DECADA vi EV IR erre pers EI a SMEINTESS? LA SO ti | AP. I. Decomo ElRey D. João Jup- É plicou ao Papa provelle o Imperio da ábafjia de Patriarca: e de buma breve relação do Patriarca D. João Bermudes , que lá foi em tempo do Governador D. Eftevão da Gama: e de outras muttas coujas. Pat. CAP. II. De huma breve relação da Chri- Siandade das terras do Malavar ; e de Jeus Bifpos:: e de comoo Arcebifpo de Goa; - e Primaz da India D. Fr. Aleixo de Menezes, Religiojo da Ordem de Santo Ágo/= tinho, por ordem do Papa Clemente VIII. governou aquella Igreja , e ficou fuljra- -ganea ao Arcebifhado de Goa por morte do drcebifpo Mar Abrabão ; e depois os foi vifitar em peljõa: e dos grandes trabalhos que pafjou até a reduzir ao gremio da Igreja Catholica : e do Synodo Diocefano que ordenou , em que tirou infinitos erros, e abusões : e de outras cous . Just ; € 13. CAP. INDICE - vernador Erancifio Barreto fobre Jua ida: e dos entretimentos , e efeufas de que ujou, e do confelho que fobre ifjo tomou, ent que fe affentou fole oBifpo D. André de Oviedo: e de como mandou à Ilha de $, “Lourenço Balibazar Lobo de Soufa. 220. CAP. VUIL Da Armada que o Governador Francifco Barreto mando ao Malavar: e de como elle partio para o Norte, € D. Diogo de Moronha fe foi ver com ele le a Baçaim. 22» CAP. IX. De bum Embaixador de El ey do Cinde, que veio ao Governador Pramcifio Barreto : e do tempo, em que os Magores conquifiiram aquelie Reyno da mão dos antigos Gentios. - 230. CAP. X. Dafamofa Nha de Salfete de Bagaim: e do feu efpantofo Pagode , chamas do do Canari : e do grande labyrintho que “a Ilha tem. 236. CAP. XI. Do muito notavel, e efpanto/fo Pagode do Elefante. 250, CAP. XII. Decomo o Governador Francifco Barreto houve ds mãos as fortalezas de Aari, e Manord: e de como Antônio Moniz Barreto foi tomar pofle dellas por mandado do Governador: e de outras cota Ses, em que proveo até fe partir pera Goa. 261% CAP. XII Do que aconteceo na jornada À 4 Dos CAPITULOS. “a Pero Barreto: e doengano que com elde ufou o Principe do Cinde: e de huma facanho/a ferpente, que bum foldado chamado Gafpar de Montarroio matou. 270 CAP. XIV. De como Pero Barreto Rolim defiruio a Cidade de Tatá , e todas as Villas , e Lugares de huma, eoutra bada do Rio: e donde nafieo o erro aos Geografos modernos chamarem à Provincia “do Cinde Dalcinda. 276 EIS RO a. C AP. T. Dogue aconteceo dnio S. Paulo até Cócbim: e de como Pero Barreto Rolim defiruio a Cidade de Dabul. 285. CAP. II. De como o Govermador Francifco Barreto pafjou áterra firme embufca dos Capitães do Idalxá : e da batalha que lhes deo, em que os desbaratou: e de outras coufas. FE SSDO: CAP. HI. De algumas coufas , em que o - Governador Francifco Barreto proveo: e de alguns Capitães que defpachou pera fóra: e debuma grande vitoria que João Peixoto houve em Bardés debum Portu- - guez arrenegado, E mr CAP. IV. Do que aconteceo na viagem a Manoel Travalos , até lançar 0 Bulho no [// em [-N DICE * Porto de Arquicó: e do que fuccedeo ao Brlpo até Barod, 304 CAP. V. Dogue [uccedeo a Balthazar Los bo de Soufa na viagem até á Nha de 5, Lourenço: e da defcripção delta Ilha, é das de Comoró : e qual feja a Minuthias de Prolomens. Ee 310. CAP. VI Do que aconteceo ao Bifpo D. André de Ouviedo até chegar a fe ver com o Emperador da Ethiopia: e do que com elle paljom. 319 CAP, VIH. De como D. Duarte Deça Capitão de Maluco prendeo ElRey de Ternate em buma afperifiima prizão: e das * grandes guerras que por ifo Je levantáram em todas aquellas Ilhas contra os mof- Jos Portuguezes. 326. CAP. VII. Da diferença que ba antre Perfas e frabes fobre a opinião de fuas festas: e de como o Rey da Perfia man» dou aos Reys do Decan otitulo de Xas, — com condição que feguiffém fua feita. 334 CAP. IX. De huma relação de Nizamoxd,e de fua morte: e de como oque lhe Juccedeo no Reyno fe ajuntor com o Cutubixd contra o Idalean , e largou o Inizamoxá ao Mealecan , que tinha preaus | =38 9 LI- DOS CAPITULOS. FIVRO V. AP. 1 Das coufas , que acontecéram 4 ua guerra de Goa: e de bum afjal- to que os nofjos deram na outra banda , em que bouve algum defarranjo: e de como os inimigos entráram a Ilha de joão Lopes. 347+ CAP. II. Da Armada que efte auvo de fincoenta e fete partio do Reyno, de que era Capitão mór D. Luiz Fernandes de Vajconcellos : e de buma breve relação da devoção ,» que os mareantes tem ao Bemaventurado $. Fr. Pero Gonçalves, a que eiles chamam o Corpo Santo. 352. CAP. II. Das coufas que fuccedêram em todo efte auno em Maluco: e de como os moradores prendéram D. Duarte Deça, e Joltáram aquelle Rey. 359. CAP. IV. Da embaixada que o Governador Francifio Barreto mandou a ElRey de Chaul, efobre que: e de como os Mot vos entráram va Ilha de Chorão, donde foram lançados com grande damno fem: e de como o Governador mandou metter nella D. Francifco Mafcarenhas. 369. CAP. V. De como o Governador Francilco Barreto defpachou as nãos pera o Reyvo, e 0s Mouros comeciram a falar em Pa- InDICcE DOS CAPITULOS. pazes, que fe lhes consedêram: e de como o Inizamoxi prendeo o Embaixador que o Governador lhe mandou: e do exercito que logo dejpedio pera lhbefazer buma fortaleza no Morro : e de como Al varo Paes de Setomaior partio pera o Estreito, e ficou. em Chanl por caufa da Euerrds RR ÇÃo CAP. VI Da Armada com que o Governador Francifco Barreto partio pera o Norre, e chegou a Chaul: e das pazes que Jhe os inimigos mandáram commetter, € do que niflo pafjon. º 384. CAP. VII. Decomo o Governador Eranci/- “co-Barreto mandou defapollar D. João de Ataíde da Capitania de Ormuz , pera onde fui D. Antão de Noronha: e do que mais fez ate fe partir pera (oa. 391. CAP. VIII. De como o Governador Francijco Barreto fe partio pera Goa: e da grande Armada, e apercebimentos que fez pera ir ao Achem. 395» “DE E ES AVL É OM, É ANA IJ E NLM E dE Nha SNS E aid ES E Nai ME A DE e ad 6 er Rio “DECADA SETIMA. 5 mao drve R=O: É Da Hiftoria da India. e O EE OS aahoss Ea CAUVIILDLOAI De como ElRey D. Soão Jupplicou ao Papa provelje o Imperio da Abafiia de Pa- “triarca : e de buma breve relação do Patriarca D. João Bermudes, que lá foi em tempo do Governador D. “Efevão da Gama: e de outras muitas confas. | E pois que ElRey D. João def- N pedio a Armada pera a India efte anno de 1553, de que foi por Capitão mór Fernão de Álvares Cabral, logo determinou de prover em duas coufas : huma, mandar fuccelfor ao Vifo-Rey D. Affonfo de Noronha; e a outra, fupplicar ao Papa lhe concedefTe Patriarca, e Bifpos pera o Imperio CoutoTom VP. A da 2 ASIA pe Droco DE Covro da Abaflia , pela muita inftancia com que aquelles Imperadores lho tinham mandado pedir; porque defejavam de dar obediencia à Santa Sé Apoltolica, e renunciar os Patr arcas hereges, que de Alexandria lhes mandavam, por quem havia tantas centenas de annos fe governavam. E era efte defejo tão “antigo, que já o Imperador Zeriaco trefavô de Claudio , que ao prefente reinava , por morte do Patriarca que os regia, não quiz acceitar mais outro de Alexandria , e dizia ».que antes perderia todos os feus Reynos, » que confentir mais lhe viellem Patriarcas » hereges; » e aflim dez annos, que depois viveo, lhe não entrou algum em feus Rey: nos. E depois Ífeu filho Alexandre efteve nã mefma opinião treze annos, até que o po vo fe lhe queixou , por lhe irem faltando Sacerdotes pera lhe adminiftrarem os Sacra mentos; pelo que lhe foi neceffario mandat a Alexandria pedir Patriarca, donde lhe mandaáram dous ; hum delles fe chamava Marcos, e o outro Jacob, que lhe havia de fucceder. E aílim foram ambos continuando muitos annos, até falecer o Jacob , e ficar o Marcos fó adminifirando aquelle Imperio, (que he o que D. Rodrigo de Lima , que lá foi por Embaixador no anno de vinte € feis, ainda achou vivo, e confeflou ao Pa dre Franciíco Alvares, que foi nela jorna: . da, “Des Vbilbayo dk CAP. 3 da, fegundo elle 6 refere no livro que della compoz, que era de cento e vinte annos, porque quando fora áqueile Imperio fizera fetenta, e que havia fincoenta que o adminiftrava , a fóra alguns que depois viveo.) Ette quando lá vio D. Rodrigo, e hum Religiofo, que feguia a Igreja Latina Romana, (fegundo conta o meímo Padre Francifco Alvares,) dava graças a Deos, e di= zia, que fechegava o tempo de fe cumprir huma profecia, que havia nos livros Ábexins , que dizia,» que aquelle Imperio não teria » mais de cem Patriarcas provídos por Ales » xandria, e que apôs elles viriam outros pros » vidos pelo Summo Pontifice de Roma, e » que elle era o derradeiro dos cento. » No que fe enganou , porque até hoje períeveram Patriarcas hereges, polto que alguns an= nos depois lhe foi hum Catholico, provi= do pelo Papa Paulo III, que foi o D. João Bermudes, que D. Chriftovão da Gama les vou , como fica dito no Cap. V. do VII. Liv. da quinta Decada. E porque defte Pas triarca não failâmos mais, depois que Dom Chriftovão da Gama foi lá morto, nem tivemos tão inteira informação de fuas coufas como agora, que no-la mandáram da Ethiopia, o faremos aqui brevemente, eo daremos melhor a conhecer. Efte homem era us e tinha ido li a 4 ASTA pr Drogo DE Corro a Abaflia com D. Rodrigo de Lima, quando lá foi por Embaixador em tempo do Governador Diogo Lopes de Siqueira, e levou comfigo hum feu fobrinho, chamado Dom * Garcia de Noronha, fegundo hum Tratado , que elle mefmo fez das coufas que lhe fuccedêram no tempo que elteve na Abaflia, fendo Patriarca. E depois de D. Rodrigo de Lima de lá vir, faleceo naquelle Imperio o Patriarca Marcos , de que atrás fallâmos , por cuja morte o D. João Bermudes perfuadio ao Imperador da Abaflia , que mandaffe dar obediencia à Igreja Romana , e pedir ao Summo Pontifice Patriarca Catholico; e como elle lhe eftava affeiçoado , delpedio-o pera Roma com cartas ao Papa, em que lhe pedio lho mandafle a elle por Patriarca. É indo nefta jornada , que foi o anno de trinta e finco, ou trinta e feis, foi cativo de Turcos, elevado ao Cairo, donde por fua induítria fahio, e foi ter a Roma, e o fanto Padre o ouvio muito bem, e leo as cartas do Imperador Claudio. E fabendo o rifco em que aquela Chriftandade ficava, logo fagrou o D. João Bermudes em Patriarca , e o enviou com cartas a Portugal pera ElRey D. João o III., em que lhe dava conta daquelle negocio , e lhe pedia » quizeíle foccorrer aquelle Imperador , pois » nenhum dos Principes Chriftãos tinha mes à lhox DEo Vilgbrv Cab Lo Ss » lhor apparelho pera iffo. » E efta foi a-cau- fa, por que ElRey o defpedio em companhia do Vifo-Rey D. Garcia de Noronha , a quem deo por regimento mandafle huma boa Ar-. mada de foccorro áquelle Imperador ; e nella lhe enviafle o Patriarca. E como o Vifo- Rey D. Garcia de Noronha achou a fortaleza de Dio de cerco, em cujo foccorro fe occupou todo aquelle verão, e no feguinte faleceo , não teve tempo pera o mandar. E, o Governador D. Eftevão da Gama, que lhe fuccedeo , achando eftas inftrucções nos papeis de D. Garcia -de Noronha , quiz fazer aquella jornada, que; na quinta Decada contámos, aíflim perã efte efeito, de que então não tinhamos tão perfeita informação , como pera o das galés. Em fim, morto Dom Chriltovão da Gama, ficou o Patriarca naquelle Reyno até que o Imperador teve aquella batalha com o Grada Amet, que cortou acabeça'a D. Chriltovão da Gama, em que o desbaratou , e matou com a ajuda dos Portuguezes, como na mefma quinta Decada fe verá no IV. Cap. do IX. Liv. ,e o Imperador tornou a cobrar feu Reyno , de que andava quafi esbulhado. E como todas aquellas coufas, Embaixadas , e petições que fez ao Papa, foram feitas por neceflidade , vendo-fe agora poderofo, e eftaya entregue de todo: ás malditas, 12 ASIA ve Drogo DE Covro has, grande Mathematico , e Geografo ; muito vifto nas letras Gregas , e Caldeas. E antre os papeis que lhe ficáram fe acháram algumas lembranças deftas coufas, que nos hum Religiofo da Ordem de S. Domingos deo; de que nos aproveitámos pera eflas informações. É E já que eftamos com efta Chriftandade, e feus Bifpos nas mãos, parece que não ferá defpropofito fazermos hum breve dif curfo de todas Íuas coufas até darem obediencia á fanta Sé Apoftolica , pofto que o mais proprio lugar dellas he a onzena Decada , pera onde guardamos a relação de tudo. E por iflo não faremos aqui mais , que tocar de paffagem o fubftancial ; porque fenão chegarmos áquelle tempo ou pela muita idade , ou pelo pouco gofto , da parte dos homens , e feus efquecimentos , com que procedemos nefte negocio, ao mes nos ficará já aqui efta lembrança. CA- DecaDa VII Liv. 1 13 CAPITULO LL De huma breve relação da Chriftandade das terras do Malavar , e de feus Bifpos: e - de como o drcebifpo de Goa ; e Primaz “ da India D. Fr. Áleixo de Menezes, Religiofo da Ordem de Santo Agoftinho, por ordem do Papa Clemente VII. governou aquella Igreja , e ficou fuffraganea ao Arcebifpado de Goa por morte do Arcebifpo Mar Abrahão, e depois osfoi vifitar em — pela: e dos grandes trabalhos que paf- Jou até a reduzir ao gremio da Igreja Catholica : e do Syuodo Diocefano que or= denou , em que tirou infinitos erros .; € abusões: e de outras confas. NE primeiro Cap. do X. Liv. da noffa quarta Decada, que já anda imprefla, damos larga conta, e relação das partes, por onde o Bemaventurado Apoftolo S. Thomé andou prégando a nova Lei de feu Meftre Chrifto Jefus noflo Redemptor; e no fim defta fetima fe verá fua morte, e milagres. E nefte Capitulo diremos brevemente de como fe governou até agora aquella Igreja, fundada por elle nos Reynos do Malavar , afim no efpiritual, como no temporal. Paflado o Santo Apoftolo da Ilha Sacotorá (como fe verá em fua lenda) a eftas partes da Indias, : Ê ml= 14 ASTA pr Dioco DE Covro imilagrofamente veio aportar á cofta do Mas lavar, e não fe fabe em que porto ; mas devia de fer em hum dos Reynos de Cochim, porque logo por elle começou a fémear a femente da Lei Evangelica, ou fot fe no Reyno de Cranganor, ou no de Coulão, em que tinha ainda hoje Igrejas fhas, vai pouco niflo; mas por ambos eftes Reynos andou convertendo muitas almas á Lei de Chrifto , e nelles lhe acudíram, e o feguíram homens virtuofos, que elle acceitou por difcipulos , e inítruio mui bem na Lei do fanto Evangelho. E depois de ver o mui to fruito que tinha feito por aquellas partes, tratando de paflar a outros Reynos, fagrou os difcipulos que lhe melhor parecêram em Bifpos , e os deixou governando aquela Chriftandade , e elle fe paffou pera as partes de Tartaria, China , e outras , como temos dito no Cap. I. do Liv. X. da nofla quarta Decada , e por ellas andou convertendo grande número de infieis , e idólatras, até fe paflar a Meliapor, onde foi. morto , e onde cada dia refplandece com muitos milagres. Os Bifpos que deixou naquellas partes do Malavar governando aquella Chriftandade , fundáram Igrejas na Cidade de Crane ganor, e na de Coulão, que ainda hoje fe vem nos meímos lugares, e confervam em 3 mui- Deco VE. clavtisCab TIS . 29 muitas coufas fua memoria, e antiguidade, e antre ellas em huns padrões, e em laminas de metal , de terras, e rendas, que aquelles Reys concedêram pera a fabrica da= quelles Templos, que nós ainda achâmos na Feitoria de Cochim , que andáram des do principio'daquella fortaleza, por entrega da cafa, de Feitor a Feitor, ha bem poucos annos. E querendo eu faber dellas, pera por obrigação do officio as recolhermos na Tor= re do Tombo , como coufa tão antiga, e tanto pera fe guardar, chonrar, já nos não fouberam dar razão dellas , nem os Feitores que de lá vem a fabem dar. Em fim, paífados muitos tempos depois da morte do Bemaventurado A poftolo S. Thomé, fuftentando-fe aquella Chriftandade na Fé, e doutrina que lhe elle enfinou , fazendo o tempo mudança naquelles Reynos, como o tem feito em todas as Monarquias do Mundo , até a ellas irem os Mouros Arabios, Ífeguidores da falfa doutrina, e lei de Mafamede, que fe apofentáram pelos pórtos maritimos de todo aquelle Malavar, como ains da hoje etam , parece que avexados delles os Chriflãos, fe recolhêram ás ferras, ematos daquelles Reynos , onde fundáram fuas povoações, e vivêram naquella primeira doutrina até lhe faltarem os Bifpos, e Sacerdotes della, que fe mandáram foccorrer ao Patri- 16 ASIA ve Dioco DE Covro triarca de Babylonia , que era cabeça dos hereges Neftorianos , que os provéram de hum Arcebiífpo Metropolitano , com titulo de Arcebifpo do Indo ; e de dous Biípos fufraganeos , hum com titulo de Bifpo de Sacappa , e o outro de Macina, que não fabemos hoje onde fejam, mais que achar- -mo-los aflim nomeados em fuas eferiruras; mas por conjecturas fe prefume que fejam pera a parte do Cathayo , e China, por onde o gloriofo Santo andou fazendo grande conversão. E efte nome de Arcebifpo do Indo reteve até á morte de Mar Abrahão, que (como no primeiro Capitulo diflfemos) foi fagrado em Roma, e viveo até os annos de 1597., feguindo fempre os erros Neftorianos, de que toda aquella Chriftandade eltava infada ; porque depois que foi go vernada por Arcebifpos Armenios, que eram feguidores daquella falfa feita, perdéram o lume da Fé, em que eflavam doutrinados pelo Santo Apoftolo , e mifturáram nella aquelles falfos ,.e diabolicos erros Neftorianos ; em que aquelles Prelados os foram creando. Em fim, morto o Arcebifpo Mar Abrahão, tendo-fe já havia muitos annos extinguidos os Bifpos fuffraganeos de Sacappa , e de Macina, fendo Summo Pontifice em Roma Clemente VIH., avifado difo, paffou dous Breves Apoftolicos , hum feito à vin- Dae VIL Lrwd. CânTh + & vinte e hum de Janeiro de noventa e fete ; e outro a vinte e fete do mefmo mez de no= venta e oito, em que mandava ao Arcebifpo de Goa D. Fr. Aleixo de Menezes » que » como Primaz da India Oriental mandafle » tomar pofle daquella Igreja; e Arcebifpa- » do, e de toda aquella Chriltandade do » gloriofo Apoftolo S. "Thomé; e não con= » fentifle mais entrar nella Bifpo, nem Pre- » lado Armenio, por ferem todos hereges ; » e que creafle no dito Arcebifpado Gover- » nador, e Vigario Apoftolico, pera o go- » vernar aílim no efpiritual, como no tem-= » poral, em quanto a Igreja Romana a não » provia de Bilpos.» : E porque fallamos no temporal, he de faber, que os Prelados deita Chriftandade são Juizes no temporal dos Chriftãos feus fubditos; o que parece foi tambem dado em privilegio ao Bemaventurado S. Thomé A= poftolo por aquelles antigos Reys Gentios ; o que até hoje fe guarda infallivelmente , fem nunca fe quebrar. Por virtude deftes Breves , tratou logo o Arcebifpo D. Fr. Aleixo de Menezes com muita caridade do proveito efpiritual daquelles proximos, e zelo do ferviço de Deos noífo Senhor. Es porque tambem. lhe ficava em obrigação como Primaz da India, por aquella Igreja não ter Cabido., a quem per- Couto. Tom. IV. P.I. B ten- 418 ASIA pe Droco DE Covro tenceíle o governo della, no tempo da Sé vagante, e elle fer Metropolitano de todas as Igrejas da India, determinou mandar prover niflo, como fez, pera tornar a fometter , e fujeitar aquella Igreja á obediencia da Romana; o que tratáram as peíloas que a iflo enviou, por todos osmodos que lhe parecêram: necellarios. Mas como todos aquelles Sacerdotes Chriftãos eftavam entregues áquellas diabolicas, e abominaveis herefias do Herefiarca Neftor , não quizeram obedecer aos rogos, e perfuasões que fobre io lhe fizeram; do que o Arcebifpo Dom Fr. Aleixo de Menezes fentio graviflima dor , e grande delconfolação; e todavia não defiflio de obra tão fanta, e de tão grande obrigação fua, antes porefpaço de deus annos foi continuando por feus Minifiros naquelle negocio, em que todos faziam pouco, ou nenhum fruito, antes achavam atos dos cada vez mais endurecidos. Pelo que commovido o Arcebifpo de piedade de ver tantas mil almas, que do tem-. po do Apoftolo S. Thomé le confervavam na Fé de noflo Senhor Jefus Chrifto , no meio de tanta gentilidade , e efpalhadas por tão diverfas partes, rodeadas de tantos idolos, e pagodes , em que o demonio era cada ho- Ya tantas vezes venerado, e Íujeitas fuas Igrejas, e Templos a tantos , e Ro tina : os Dec. VI. Liv. É Car. Il. 19 fos Reys todos idólatras; fem poderem ter communicação com outros Chriftãos até os Portuguezes entrarem com fuas Armadas nefte Oriente, onde começáram a povoar Cidades, e fundar fortalezas: E vendo quan= to efte negocio era de ferviço de Deos, depois de lho mandar encommendar por todas as Religiões, determinou de elle em pel (oa vifitar aquella Chriftandade, pera ver fe com fua pretença os podia obrigar, mode-. rar, e trazer á obediencia da Santa Igreja Romana, com tão grande zelo delta obra; que lhe não deixava tempo, nem lugar pera ver os grandes trabalhos , rifcos, e perigos a que com ella fe offerecia ; e aílim poz logo em effeito fua fanta determinação , provendo fua Igreja de Governador , pera em fua aufencia a ficar governando. E no principio do anno de noventa e nove fe embarcou pera Cochim , acompanhado de muitos Clerigos, Conegos , e outros Sacerdotes, e de criados, e doutra mais gente neceflaria ao ferviço de fua peíloa , e dignidade, Chegando áquella Cidade, foi mui bem recebido ; e depois que tomou fuas informas ções, fe partio pera as ferras , onde os Chriftãos viviam, acompanhado de muitos moradores daquella-Cidade.:: Entrando-o Arcebifpo D. Fr. Aleixo de Menezes naquella Chriftandade , começou lo- B ii go 20 ÁSIA pe Droco DE Covo go a vifitar as Igrejas , e Prelados dellas, em quem achou muito grandes difficuldades , pelas larguezas , e fimonias com que viviam, offerecendo-fe-lhe tantos trabalhos f e riícos de fua peíloa , que por muitas vezes elteve perdido; mas como a obra a que hia era tão fanta;, favoreceo-o noilo Senhor nella de maneira , que fe livrou de todos com muita prudencia , e foffrimento, e de muitas conjurações que contra elle fizeram 7 levando ávante feu intento com as efperanças em Deos noflo Senhor , por cujo refe peito eltava oferecido a tudo que lhe acontecefle, que houve porbem, efoi fervido, pelos merecimentos do feu Santo Apoftolo Jhomé , de fahir, e levar ao cabo o que tanto defejava. E afim com muita clemencia, e bondade quietou todos os tumultos que contra elle fe levantáram; e por fim de muitas admoeltações , orações, e prégações, que fez portodas fhas Igrejas, os trouxe 4 luz da verdade, e á confifsão da fanta Fé Catholica, dando todos os Sacerdotes, co= mo cabeças, e todos os mais fubditos, obediencia à Santa Igreja Romana; o que o Arcebifpo feftejou muito no íntimo de feu cotação com grandes alegrias , e louvores a Deos noffo Senhor; cuja a“ obra era. Finalmente, vendo o Arcebifpo que ti nha alcançado o fim tão defejado de feus tra- EA | bas Dec VHo-brv-k Gari ll: 4t balhos , tratou de ajuntar Synodo Diecefano em alguma parte mais accominodada daquella Chriftandade ; aflim pera mais a confirmar na Fé Catholica, como pera nella plantar de novo os fantos, e bons coltumes da Igreja Romana, e extirpar tantas abominações , vícios, e herefias, como antre elles havia, e pera reformação de fua vida, ebons coftumes. E aflentou que fe fizefle elte ajuntamento na Igreja de Diamper , o que “fez logo a faber á Cidade de Cochim, eao Capitão della D. Antonio de Noronha, que aflentou com os Vereadores, e muitos moradores, de feacharem prefentes a tão boa, e fanta obra, pera onde logo partiram com grande alvoroço, por verem recolher na manada de Chrifto ovelhas tão bravias, e mon= tezinhas. Tanto que-o Arcebifpo D. Fr. Aleixo de Menezes fe difpoz pera io , fez logo chamamento de todos os Sacerdotes , e pelfoas principaes que havia naquelle Arcebifpado, fazendo-lhes a faber por fuas cartas que havia de começar o Synodo a vinte dias de Junho, em que cahia a terceira Dominga depois da fefta do Pentecofte; ao que todos logo acudíram com grande alvoroço. E no tempo determinado. le ajuntáram naquelle lugar de Diamper as peífoas feguintes. Pre- 23 ASIA DE Droco DE Cotro gáram aquelles tenros Chriftãos (que são mui dados a agouros, e prognolticos ) a resfriar daquelle alvoroço. E o que era ainda peior, que alguns que ainda não eltavam bem nas coufas da Fé, difleram a outros » que feriam tão fracos como elles » que aquella obra não era de Deos, pois elle não dava tem- Po pera fe poder fazer a Procifsão. E ou q Arcebiípo foffe avifado diflo, ou o fufpeitafle, quali agaftado contra todos, mandou que fahifle a Cruz fóra da Igreja, e que fe profeguifle a Procifsão; havendo que era menos inconveniente molharem-fe todos , que ficar aquelle agouro nos corações de alguns fracos. E dando o recado ao que levava a Cruz, foi pera fahir, e não fe atreveo com a grande força da agua que chovia. O que vifto pelo Arcebifpo, do lugar donde eflava brádou que fahiffe, que fahille a Cruz, como logo fez. Em fabindo fóra da porta da Igreja, e em fe levantando em alto, coufa maravilho(fa ! fupitamente ceflou a chuva, € ficou o ar tão claro, fereno, e bem aflombrado , que não fe vio no meio do verao Outro mais alegre dia ; com que a Procifa são fe profeguio , e acabou com grandes louvores de Deos nofTo Senhor. Os que dan- “tes eflavam com aquellas dúvidas » vendo tão claro milagre, lançáram de fi todas fóra, e leváram eltas novas a feus póvos , fican- De& VIL Liv. IT Capo 59 cando toda aquela Chriftandade confirmada na verdade do que o Arcebifpo lhe tinha enfinado no Synodo , e na obediencia que todos tinham dado á Santa Igreja Romana.” Outro cafo aconteceo tambem de não menos admiração. Elte foi, que em quanto durou o Synodo , como O Arcebifpo nó principio delle tinha mandado , que todos os que quizellem diiputar das coufas da Fé, pôr duvida , ou fallar nas que fe decretavam, o pudeflem fazer livremente , € vir com fuas dúvidas publicamente à Congregação de todos, onde lhes elle fatisfaria ; in= duzidos alguns pelo demonio , € afferrados ainda a feus erros , e com o odio que ti= nham á Santa Igreja Romana, Íe ajuntáram fóra; e dadas as mãos pera fe unirem nefte mal que queriam fazer , em virem encontrar o que fe decretava, e baralharem a Congregação; e entrando com eítes intentos na Igreja, tanto que chegavam ao Arcebiípo ; que eftava veltido em Pontifical, ficavam co= mo mudos , e tolhiam-fe-lhes os pés, e as mãos , fem poderem bullir comfigo , nem ainda fallar, e aflim fe tornavam pera fóra, e lá pelejavam huns com os outros , e fe reprendiam de cobardes, acanhados , e pera pouco , pois fe fahiam fóra fem pórem por obra a determinação que levavam. E tornando-fe a ratificar em (eus damnados in* ten= 3º ÁSIA pe Drogo Dr Covro tentos, entravam outra vez de novo na Igre- ja, onde lhes acontecia o mefmo que da primeira : andando neftes propofitos tres dias continuos, que-gaftáram em entrar, e fahir, fem fazerem coufa alguma do a que hiam; até que convencidos interiormente de feus proprios males, confefláram fua culpa, e pes dindo perdão della, fe reduziram, e deram obediencia. á Santa Igreja Romana ; Cao Arcebiífpo em feu nome. Acabado o Synodo, foi o Arcebifpo D. Fr. Aleixo de Menezes vifitar todas as Igrejas daquella Chriflandade, fazendo dar á execução todas as coufas que no Synodo fe determináram; e deixando tudo pofto em ordem , fe tornou pera Cochim, e dahi pera Goa. CAPITULO: II De como ElRey D. João efe amo de ISSA. “elegeo pera Vifo-Rey da India à D. Pp. dro Mafcarenhas : é da Armada com que partio: e do que Juccedeo ma viagem até chegar à Cidade de Goa. H gg quatro annos que D, Affonfo - de Noronha eftava na Índia » defejou ElRey de o mandar vir, e prover naquelle lugar de hum Fidalgo, a que todos tiveílem muito grande reípeito, e que fofle muito ri- Co, porque tratalle mais do que hipaia ao a em “Dec. VIE Liv. 1 Cap II. 2x bem daquelle Eftado , que ao feu particular; e que tambem não tivelle filhos, porque a governança da India não andafle de promeio. Efta era a razão, por que o Senado de Roma não confentia elegerem-fe Legados pera andarem nos exercitos com Os Confules, que foflem feus parentes, porque o haviam por grande prejuizo. E huma das coufas, que fe deve louvar mais naquelle grande governo do Imperio da China, he, que nas eleições que fazem dos Officiaes da Juftiça , e Fazenda pera todas as Provincias, nunca elegem fenão peífoas de huma pera outra mui diffantes, e onde não tenham pasentes , nem amigos , porque aílim poílam governar mais livremente ; fem haver quem lhes faça fazer defordens. Aflim querendo ElRey eleger pera efte Imperio: Oriental, tão apartado delle , huma pefloa livre, e defintereífada , não achou por então outra que o fofle mais que D. Pedro Mafcarenhas , que elle tinha dado por Mordomo mór do Principe D. João feu filho, (que era falecido no principio defte anno de fincoenta e quatro em que andamos, em idade de dez= efeis annos,) e commettendo-o pera iflo, fe lhe efcufou com dizer » que era; de mais de fee » tenta annos.; é que não tinha já forças, nem » difpofição pera os trabalhos de tão come » prida viagem -,- como era a-da India; e ; » que 32 ASTA pe Drogo DE Covro »que tambem não fe atrevia a mandar , é » governar gente tão livre, e voluntaria cos » mo nella havia, » E por muitas vezes que lhe ElRey niffo fallou , fempre lhe pedio de mercê que o efcuíafle; mas ElRey pelo que lhe relevava , (que era fervir-fe delle efles poucos annos que vivefle , por fua muita prudencia ; authoridade , e mais partes nes Ceflarias pera quem ha de governar a India; ou pelo que outros diziam , que delejavam de o lançar fóra do Reyno alguns privados pela fombra que lhe elle fazia, e pelo mui- to reípeito que lhe ElRey tinha, ) não de fito do negocio, antes lhe lançou o Infan-. te D. Luiz, que era muito grande feu ami- 80, ea quem o D. Pedro tinha muito grande reípeito , que pelo gofto que fentio a EL Rey, apertou com D. Pedro muitas vezes, fem o poder render áquelle negocio , até que o Infante concluio com lhe dizer » que. » hum delles havia de ir á India; que fe el- » le fe não quizeffe embarcar , que elle o faz » ria, porqueaflim o tinha promettido a El- » Rey feu Senhor, e irmão. » Vendo Dom Pedro Mafcarenhas a grande obrigação em que o Infante o punha, lhe dife » que an= » tes elle queria tomar fobre fi aquelles tra- » balhos , e ir acabar por eílé mar , que não 2 inquietar-fe S. A. » Dada ella palavra , mandou ElRey a a Dec VIL Lev d. Cad HE 35 D. Pedro Mafcarenhas , que fizeffe feus apontamentos , como fez; e lhe concedeo tudo, porque o menos que pedio foi pera fi, que foi, que os oito mil cruzados de ordenado, que os Vifo-Reys tinham na pimenta da Cafa da India , fe pagalle delles em Goa; porque elle não havia milter coufa alguma no Reyno , que tinha muita renda, e não queria poupar nada na Índia , fenão gafiar tudo em ferviço deS. A. E afim lhe concedeo Provisão”, pera que todos os Fidalgos, e moradores da Cafa de ElRey, que fe embarcalfem na fua Armada , vencefem foldo , e moradia em quanto andaflem na India. E affirma-fe, que algumas vêzes pedira de mercê a ElRey , que lhe difleffe a peíloa que lhe havia de fucceder na governança , fe Deos fizefle delle alguma coufa na India; e que até niÃo o quizera fatisfa- “zer, elho diflera; mas o mais certo he, que fempre fe efcufou difio : todavia ao tempo que o defpedio , lhe difle » que tiveíle mui-. » ta conta com Francifco Barreto , porque »tinha grande fatisfação de feus ferviços ;» no que claramente lhe deo a entender, que lhe fúccedia. Só o cargo de Capitão mór do mar da India , que lhe pedio pera Fernão Martins Freire Ífeu fobrinho , filho de fua irmã, (fobre quem elle queria defcarre-= gar a mor parte dos trabalhos do governo ,) Conto. Tom. IV. P. 1. C fe 34 ASTA pe Diogo DE Covro “felhenão concedeo , porgue houve no Confelho fobre aquelle negocio differentes pareceres; mas deo-lhe por regimento, que puzefle na India em confelho de Capitães velhos, fe era necellario aquelle cargo; e que aflentando-fe que fim , o proveíle em quem lhe pareceffe. - Delpachadas as coufas da India , -e as ndos ; foi ElRey em pefloa fazeilas á véla, e o Infante D, Luiz levou o Vifo-Rey Dom Pedro Mafcarenhas até o metter dentro na ndo, e fez-fe á véla por fm de Março defte anno de fincoenta e quatro. A Armada era de feis nãos muito formofas, S. Boaventura, em que o Vifo-Rey hia. A Conceição, de que era Capitão Manoel de Caftanho(o. De Santa Cruz, Belchior de Soufa, da coni=: panhia de Fernão de Alvares Cabral, do anno pafiado , que tinha arribado ao Reyno. À não Efpadarte , de que era Capitão Fernão Gomes de Soufa, que hia defpachado com a Capitania de Cochim. Da não Framenga era D. Manoel Tello, que levava a Capitania de Dio. E daoutra náo era Capitão Francifco de Gouvea. Embarcáram-fe neíta Armada dous mil homens de armas ? em que entravam mais de quatrocentos mo-. radores da Cafa de ElRey , antre Fidalgos, e de todos os outros fóros. | Os Fidalgos conhecidos são os feguintes : Dec VIk Lryv. L Cap MN. 35 tes : Fernão Martins Freire , D. Francifco Mafcarenhas, filho do Capitão dos Ginetes , fobrinho do mefmo Vifo-Rey ; o que depois foi Conde de Santa Cruz, e Vifo-Rey da India. D. Pedro Mafcarenhas, irmão de D. João Mafcarenhas', que fuftentou o fegundo cerco de Dio. Ruy Barreto Matfcarenhas de Ludo; D. Rodrigo Coutinho de Montemór o Novo , filho de D. Gonçalo Coutinho , o que os Mouros matáram no Bori, como no fim da quarta Decada Liv. X. Cap. IH. fica dito. João Lopes Leitão; Lourenço de Soufa, filho de Alvaro de Sou-= fa de Aveiro; Chriftovão Pereira Homem; D. João Béltez, primo de ElRey de Béllez, que fe fez Chriflão , e ficou em Lisboa, quando aquelle Rey veio pedir foccorro pera cobrar feu Reyno. Efte D. João cafou depois na India com huma parenta dos Reys , ou dos Guaziz de Ormuz. D. Antonio de Noronha, de alcunha o Catarraz , que depois foi Vifo-Rey da India, que trouxe mil cruzados de ordenado cada anno pera feu entretimento. Partidas as nãos, foram feguindo Íua derrota, em que todas tiveram muitos contraftes, e por fim tomáram diferentes pórtos. A não Framenga, de que era Capitão Dom Manoel Tello, arribou ao Reyno deitroças da, A Efpadarte foi muito tarde tomar Maas Cau a- 36 ASIA ve Droco DE Covro baça, e dahi paílou a invernar a Ormuz. Às nãos Santa Cruz , e Conceição tomáram por fóra da Ilha de S. Lourenço , e foram tomar Cochim entrada de Novembro. A não S. Francifco chegou tarde a Moçambique , e ficou alli invernando: Ífóo Vilo-Rey, que. levava melhores Officiaes, paflou o Cabo de Boa Efperança cedo , e chegou a Moçambique entrada de Agofto ; e fazendo fua aguada, e tomando provimentos, fe partio pera Goa, e Íurgio na barra a vinte e tres de Setembro, onde foi vifitado da Cidade, e Fidalgos , e logo defembarcou , e fe foi pera Goa, fem querer aguardar que lhe fzelem recebimentos , por vir anojado pelo falecimento do Principe D. João; e o Vifo- Rey D. Affonfo de Noronha lhe entregou a India, e fe foi logo pera Pangim negociar fua embarcação. Simão Botelho, Veador da Fazenda , acudio logo a defcarregar a não do Vifo-Rey ,» e a recolher o cofre do cabedal ; e mandou que fe tiraffe logo o cofre, que vinha no porão, tendo a náo ainda toda a carga dentro em fi ; e defcuidando-fe os Officiaes de Hhe metterem outro laftro, deo-lhe hum dia hum tempo rijo, e achando-a defalafirada, e com o pezo todo em fima, a virou logo , e a afloçobrou; é acudindo-lhe o Veador da Fazenda com todos os Officiaes, já lhe não pudéram valer, ice o - «Deo VILLA 106 a Ti 9 o que fentio tanto, que fe foi meter Fradeem S. Domingos, onde viveo alguns annos Sacerdote, e morreo religiofamente. O Vifo-Rey D. Pedro Mafearenhas apofentoufe nas cafas-do Sabayo;, o antigo apofento dos Governadores; e porque eram de dous fobrados , e de mui compridas efcadas , e elle era velho ; e muito magro , davam-lhe muito trabalho; pelo que mandou negociar as cafas da fortaleza , em que os Capitães fe coftumavam agazalhar , e paffou-le pera elas, e foivo primeiro Vifo-Rey que alli fe apofentou , e depois o fizeram todos 5 porque na verdade he apofento mais proprio pera os que governarem, por eftar fo= bre o caes; e nada póde entrar pelo rio affima, que elles não vejam. Efte anno cafou o noffo Catholico Rey D. Filippe com a Rainha Maria “de Inglaterra , com cujo cafamento feefperava a total reparação das coufas da Fé naquelle Reyno. ? ! 44 ASIA pe Droco DE Covútro fazer , pelas razões que dava ; e com ilto deípedio o mefmo navio , por quem mans dou o affento que fe tomou , e efcreveo à Caracem huma carta de muitos cumprimens tos. Chegada a refpofta, e dada a carta do Vifo-Rey a Caracem , aflentou com o Capitão mór, que fe cerraflem as galés em feis partes cada huma, e que foflem a io pefe foas que o villem; ao que mandou o Cas pitão mór Ruy Freire, hum Fidalgo feu pas Tente ; e com elle o Patrão mór da: India. Chegados eftes homens a Surrate, Caracem Os recebeo bem, e apofentou na Cidade, e logo mandou vir muitos officiaes » Que cos meçáram aquella obra; o que fizeram á vontade dos noíflos , em que fe detiveram fete dias; e aqui os deixaremos, porque heneceflario continuar com D. Fernando de Menezes , que deiximos em Mafcate,. | Efte Fidalgo depois de fe prover do nes ceflario , deo 4 véla pera Goa com toda a Armada que lhe ficou, levando as galés que tomou repartidas pelos Capitães , que no fim da fexta Decada no Cap. XX. do Livi X. diflemos. E como traziam vento em pôpa ; chegáram alguns dias de Novembro à Goa. É logo. na barra achou D. Fernando de Menezes recado de feu pai, como feu tio Dom Nuno Alvares era falecido » € lhe mandou dó feito pera defembarcar. D. Esrnanda o ç en- « Deé VH. Liv. I-CGap. IV. 45 fentio tanto, que defembarcou em Pangim fó, onde feu pai o recebeo com muito amor , e alvoroço ; os outros Capitães foram entrana. do pelo rio dentro com as gales dos Turcos diante ; e aílim ellas, como a mais Arma- | da, formofamente embandeiradas, falváram a Cidade com toda a artilheria até furgir no caes. Os Capitães todos juntos foram ao Vifo-Rey D. Pedro Mafcarenhas, que os recebeo com muita honra, e palavras, e Ío= bre tudo com obras, porque a todos fez: mercês ; e depois difto foram todos a vifitar D. Affonfo de Noronha , que os recebeo mui honradamente, e com palavras de muitos louvores. Ao outro dia foi D. Fernando de Menezes em huma manchua com poucos parentes, que pera iflo efcolheo , a vifitar o Vifo-Rey , que o efperou á porta da fala, onde o abraçou , e lhe difle muitas , e mui avifadas palavras de honra, e louvor feu , e de todos os que o acompanháram. Paífada efta vifita, que foi breve, recolheofe D. Fernando pera feu pai, e tratáram logo de fua embarcação. 46 ASIA dz Droco be Covo CIC ULO De como o Turco mandou outro Capitão , chamado Cafir , a bufcar as galés que eftavam em Baçorá: e de como tomow algumas ndos de Ormuz: e de outras cot- Jas que palltram. Epois do Turco ter defpachado Ale -* Chelobi pera tomar as galês a Moradobec , (como no fim da fexta Decada no Cap. XX. do X. Liv. fica dito ») havendo que era homem arrifcado, e de não muito negocio, defpedio nas fuas coftas hum Janiflaro , chamado Cafár » grande coflairo,, esforçado, e de bom confelho:, (que foi o que tomou Luiz Figueira , como na outra Decada atrás no Cap. IJ. do IX. Liv. fe dife, ) e lhe deo por regimento, que onde quer que achafle Ale Chelobi lhe tomafle as galês, e as levaíle ao porto de Meca. O Cafár fe foi a Suez, e negociou duas galés, e dous Bargantins, hum delles a galeota que foi de Luiz Figueira. E fahindo-fe do Eftreito o Agofto paflado , foi correndo a cof ta da Arabia, e chegando á enceada da Ma- Cleira, achou as novas da perdição das galés ; e lançando efpias em terra pera faber da noffa Armada, deixou-fe alli ficar até lhe tornar recado de como já era partida pera a Dec VII Livel.-Gad Vo Ap a Índia. E como era coflairo, e muito prático nas coufas daquelle mar , determinou de fe ir na efteira da Armada, porque fempre lhe ficaria por ella coufa que preafle. E feguindo Ífua derrota , antes que chegafie à ponta de Dio , defemmafteou , e deixou-fe ficar ao mar pera efperar pelas nãos que haviam de vir de Ormuz, que forçado haviam de ir demandar aquella paragem. E andando aqui, lhe foram cahir nas mãos por vezes quatro nãos ; huma de hum foão Salgado, outra de hum Cirieiro de Dio, e as outras duas de Faná , ou Chaul, em que tomou fó em dinheiro cento e fincoenta mil cruzados. E porque as nãos lhe faziam eftorvo, metteo-lhes alguns Turcos; e as def= pedio pera Meca, e em fua companhia hum dos Bargantins , e os Portuguezes que achou nas nãos, deixou ir nellas prezos a ferro. Indo aflim eftes navios, vieram apparecer a huma galeota de hum Balthazar Lobato, que tambem vinha de Ormuz , que vendo as nãos, e reconhecendo-as, as foi demandar, fem faber o que era paílado. Os Portnguezes que hiam nellas , em vendo a galeota, e conhecendo-a , parece que infpirou Deos em todos hum meímo confelho , porque-a hum mefmo tempo fe foltáram, e tomáram as armas, e remettendo com os Turcos, os mettéram todos à efpada. O Bargantim ou-. VIn- 48 ASIA pe Droco dE Coviro vindo a revolta.; e vendo a galeota , acos lheo-fe o mais que pode. Balthazar Lobato chegou a huma das nãos, e entrou dentro; e dos Portuguezes foube tudo o que era paffado , e a paragem em que as galés ficavam; e acháram antre eftes cativos João de Quadros , e tomando parecer fobre o que fariam , aflentáram , que fe foflem por dezelete grãos de mar em fóra demandar Chaul, ou Dabul , porque afim fe defviariam da paragem em que os Turcos ficavam; e mudando o rumo, foram feu caminho. O Cáfar ficou naquella parte alguns dous, ou tres dias mais efperando por hum galeão de hum Gomes Farinha , que lhe differam ficava atrás e vendo que tardava, emmafteou He deouá véla pera o Eftreito de Meca, e foi gover-= nando pelos meímos dezefete gráos, pera ir demandar os Ilheos de Curia Muria. E quiz a delaventura., que aos dous dias déflem com as meímas nãos, que hiam em companhia de Balthazar Lobato ; e demandando-as, as alcançou , e as tornou a tomar. Balthazar Lobato vendo as galés, deo ávéla toda, e foi-lhe fugindo tudo o que pode, e o Cáfar apôs elle-com- o baftardo dado Eucos mo o vento era freíco , foi-o entrando, ea tiro de camello lhe atirou huma bombardada a amainar. Os que hiam na galeota, que feriam perto de trinta pefloas, tomáram ans tre Deé. VIL Liv. L-Car. V. 49 tre ficonfelho fobre o que fariam, e foram todos de parecer, que pois a galé os entra-.. va, e lhe não podiam fugir, que amainaffem, já que não podiam pelejar com a galé; que menos mal era ferem cativos , que metterem-nos no fundo , porque logo fe refgatariam. Só hum Francifco Anes, da obrigação de Fernão de Soufa de [avora, requereo, e brádou » que tal não fizeílem, e que » fe deixaflem ir feu caminho, que Deos os “»ajudaria; e que quando lhe não pudeílem » fugir, que não fabia coufa mais honrada , » que morrerem todos com as armas nas » mãos ; » mas como elle era Íó, amaináram a véla, e entregáram-fe. O que vifto pelo Franciífco Anes, defpio huma coura de laminas, que tinha armada, e tirou hum morrão, que levava na cabeça , e à efpingarda, e a efpada, e deo com tudo ao mar, dizendo » que já que fuas armas lhe não ha- » viam de valer, que não queria que foflem »a poder dos inimigos.» O Cafár mettco todos a banco ; e ao Francifco Anes pelas armas que lançou ao mar (que não faltou quem lho diffefle) tratou mal ; e tomando as nãos comfigo, fe foi na volta da cofta da Arabia, e entrou em Meca profpero. Depois fe refgatáram todos eftes homens. O: Grão Turco logo foube da deftruição de fua Armada, oque fentio muito , por lhe ficar Conto. Tom IV. P.I. D aquel- so ASIA pe Droco DE Covo áquelle Eitreito fem guarda, além da grans de perda que recebeo em quinze galés, que daquella pancada perdeo, com tanta artilhes ria, e amelhor chuíma que tinha no Eftrei- to, o que tudo lhe cuftou hum poço de ouro; e com aquella mágoa mandou com muita prefla reformar as mais galés que havia ainda em Suez ,-das da companhia do Baxá Eunuco, que foi cercar a fortaleza de Dio, fendo Capitão Antonio da Silveira. - Ee CAP ETUL O VE “De como oVifo-Rey defpachou as ndos pera trem a Cochim tomar a carga: e do que - aconteceo a D. Affonfo de Noronha com ElRey do Chembe, e fe embarcou pera o Reyno onde chegou: e como a ndo Santa Cruz defappareceo. “7 Endo o Vifo-Rey D. Pedro Mafcare- V nlias, que de Íeis nãos com que parti ta do Reyno , não havia mais novas , que da Conceição, e Santa Cruz , que eftavam em Cochim, e que a fua fe perdéra na barta , determinou negociar alguma não mais pera mandar pimenta ao Reyno , pelas ne-. ceffidades em que ficava. Pelo que fe contratou com hum Antão Martins, cafado em Goa, que tinha naguelle porto huma mui formola não , chamada S, Paulo , que fez aE Re SE De a “- "no DA Si o ro ' Dio. VIL Liv: E Car VL 51 no rio de Ancola, que por fer grande, no= va, e eftar muito bem negociada , a elcolheo D. Affonfo de Noronha pera ir nella: o Viío-Rey lhe deo todas as coufas que lhe foram neceífarias, e o Antão Martins, fenhorio da não , mandou por Capitão della hum genro feu, chamado Antonio Fernan-= “des; e como foi tempo”, fe embarcou pera Cochim, defpedindo-fe D. Affonfo de No= ronha do Vifo-Rey, que correo muito pontual com fuas couías , e levou licença fua pera em Cochim acabar de concluir as pazes, que tinham começadas com ElRey do Chembe. Chegado áquella Cidade , tratou Ífobre efte negocio que defejava de acabar , pera levar as novas difo a ElRey ; e corréram antre elle, e o Rey da Pimenta recados, e vieram affentar, que fe viflem pera concluirem as pazes; o que D. Affonio de Noronha logo.poz por obra; e negociando to= dos os navios que pode, fe partio pera o Chembe, acompanhado do Capitão, Alcaide mór, e dos cafados principaes , e foi furgir defronte do Pagode, donde lhe mandou recado, e a pedir-lhe abbreviafle aquelle ne» gocio , porque eftava pera fe embarcar pera o Reyno, enão fe podia deter. Mas como elites Gentios tem grandes fuperitições , e nada fazem fem eleição de horas, e fem Es Du con- 52 ASIA pe Diogo pe Covro confultarem com feus Pagodes tudo , fos ram-lhe feus Bramanes achando tantos inconvenientes, que de dia em dia gaftáram feis, ou fete, femacharem hum bom. Vendo D. Affonfo de Noronha tamanha dilação, mandou-lhe dizer » que fe hia embar- »-car pera o Reyno, e que fe não podia de- » ter mais que aquelle dia , e que vifle o » que determinava.» ElRey lhe mandou pedir » que fe detiveíle até o outro dia, que » fem dúvida lhe viria fallar, e que lhe man- » dale Chritovão de Azevedo Alcaide mór » com O lingua, e alguns piães pera o acom- » panharem,» o que logo lhe mandou. E ao tempo que efperava por ElRey , ouviram em terra grandes gritas , e apôs ellas viram vir fugindo Chriftovão de Azevedo, e recolher-fe ao feu balão, que eflava com aprôa em terra; e chegando a D. Affonfo de Noronha muito afirontado , lhe diffe : »-Ah Senhor , que núnca vi tão má gente » como efta; chegando ás cafas de ElRey, » deram em mim, e feriram o lingua, e mas »táram-me alguns moços , e eu milagrofa- » mente efcapei: ide-vos, que aqui não ten= » des que fazer. » Vendo D. Affonfo de Nos rônha tamanha maldade, poz os olhos nos Ceos , e levou as-mãos ás barbas , dizendo: » AhSenhor, não fe pudéra agora fas »zer troca , de quatro annos que governei 7 na Dec. VII. Liv. E Car. VI 43 »a India por hum fó, pera me vingar def- » te negocio?» e aflim fervendo em ira, e furor mandou levar ancora, e foi-fe com aquella magoa pera Cochim. E porque fe fazia tempo de fe embarcar , mandou dar preífa ao aviamento das nãos, e a carga principalmente da não Santa Cruz , que eltava aberta, que foi vifta pelos Officiaes , que ju= ráram queeltava pera fazer viagem; porque a cubiça dos homens he tamanha, que faz ter em pouco todos os perigos da vida » pondo os Officiaes os olhos , não no rifco que corria huma não aberta pelo meio, fenão no proveito que efperavam daqueila via- “gem, por não haver naquelle anno mais que tres nãos. D. Affonfo de Noronha foi correndo com a-carga , e defpachando muitas coufas de Juftiça, porque os Vifo-Reys, € Governadores, que acabavam feu tempo , por efpecial Provisão tinham os mefmos poderes, em quanto eftavam em Cochim ; na Jultiça, e carga das nãos. Recolhida a carga, deram à véla até quin= ze de Janeiro deite anno de 1555, em que com o favor Divino entramos , embarcando-fe nefta Armada muitos Fidalgos , pera irem requerer feus ferviços ; e dos que pH- demos faber os nomes , são os feguintes D. Fernando de Menezes , filho do Vilo- Rey D. Affonfo de Noronha ; D. Manoel Mal to ASIA pe Droco DE Couro e elle fe fez á véla pera Baçaim. E porque neíta jornada de Pero Barreto não iuccedeo coufa notavel, o deixaremos aqui. Fernão Martins Freire achou em Baçaim muito dinheiro, que o Vifo-Rey lhe tinha mandado , com que fez huma paga aos foldados; e depois de fazer alguns negocios, deo á véla pera Goa, aonde chegou em poucos dias, e o Vifo-Rey pelo honrar o efperou norio na lua manchua, e o-recolheo nella com muitas honras , e depois lhe fez mercês a elle, e a todos. E porque não ef perava mais que por elle pera fe declarar na Armada que fazia pera o Eltreito, o commetteo com ella ; mas fobre mais navios, e coufas que lhe pedio, defarmáram; o que vifto pelo Vifo-Rey , mandou chamar Dom Pedro Mafcarenhas, que lha tinha pedido, e o commetteo com ella; e como elle tinha já fabido que Fernão Martins Freire lha engeitára , tomou-fe tanto difo pelas coufas que ambos tinham paffado , que em fe fahindo do Vilo-Rey, fretou hum navio, em que logo fe embarcou pera Dio , onde invernou com D. Diogo de Noronha, Capitão daquella fortaleza , e o anno. feguinte fe embarcou pera o Reyno fem querer ver o tio. Vendo-fe o Vifo-Rey defarma- “do de Fernão Martins, e de D. Pedro j deo a Armada a Manoel de Vafconcellos, | “Dec. VH. Liv. E CariVit- 6% los , que foi correndo com ella com muita preíla. 1 - E porque trazia muito encommendado de ElRey mandar vifitar O Imperador da “Abaflia, e mandar-lhe as cartas que lhe el= crevia fobre o Patriarca , e Bifpos , que O Papa lhe tinha concedido ; ajuntou a confelho o Bifpo D. João de Albuquerque, € Os Prelados das Religiões, e lhes deo conta daquelle negocio , e a todos pareceo bem que fe mandaile hum Religiofo da Companhia; e com elle Diogo Dias do Prefte , que fe achou prefente naquelle confelho , por fer hum dos que lá andáram em tempo de Dom Chritovão da Gama, e que a voltas da vlfitação apalpafle o animo com que aquelle Imperador eftava na mudança dos coltumes s e recebimento do Patriarca Catholico ; e que achando-o facil, como ElRey defejava , ficafe o Religiofo com elle inftruindo-o nos coftumes Romanos , e preparando-o pera quando chegafle o Patriarca; porque fe não havia de abalar de Goa fenão depois que foubelTe fe eftava capaz do que fe pertendia. - Concluidos nifto, nomeou O Provincial da Companhia , o Padre Meftre Gonçalo; por fer hum Varão douto, e de vida exemplar ; e por companheiro ao irmão Fulgencio Freire, que fora Feitor de Baçaim ; e k 62 ASIA pe Droco DE Covro e pera o levar, mandou o Vifo-Rey negos ciar huma galeota , de que fez Capitão Fere não Farto, (por fer o mais antigo homem daquelle Ettreito, e ter entrado nelle fete, Ou oito vezes,) que partio de Goa em Fevereiro, em que tambem Manoel de Vaícona cellos fe fez á véla com a fua Armada » que era detres navios d'alto bordo ; efinco fuftas, de cujos Capitães não achámos os nomes , que foram feguindo fua viagem, em que os deixaremos , porque he neceflario con tinuarmos com Vafco da Cunha, que deixámos partido pera Cochim. Chegando efte Fidalgo áquella Cidade, deípedio Chriftovão de Azevedo » Alcaide mór, com recado ao Rey da Pimenta » de » como era chegado com poderes do Vifo- » Rey, peraacabar de concluir as pazes com »elle, por lhas elle mandar pedir por fuas » cartas ; que elle eftava preftes pera tudo, » que vifle o modo que niflo queria ter; é » por lheelle mandar dizer, que ellava mui »alvoroçado pera cumprir tudo o que ef- » crevêra ao Vilo-Rey, que fe fofle ver com pelle, ofez;» efoi furgir com huma fomma de embarcações, que em Cochim fe a- Juntáram defronte do Pagode de Vaigeta , onde logo teve recado de ElRey de vifitação , e lhe pedio » que aquelle dia defcan- » calle, que ao outro pela manhã fe viriam; » á Bo Dec. VIH. Liv. É Car. VIL 63 no que o enganou , porque gaítou quatro em recados , e entretimentos , e ao quinto lhe mandou dizer » que fe queria que: fe vif- » fem, havia de fer á borda da agua, com » fó finco Portuguezes de efpadas , e rodes »las;, e que elle havia de ter dez dos Íeus » Naires. » Nifto não reparou Vafco da Cunha , e lhe mandou dizer » que era diflo mui- »to contente; » e afim fe ficou preparando pera as viftas do dia feguinte. Eftando já preítes, efperando que ElRey chegafie, havendo que não haveria dúvida nas viltas chegou hum Naire, que fervia de lingua de ElRey, e diffe a Vafco da Cunha » que El- » Rey lhe mandava pedir, que fe não enfa- »dafle, que lhe fuccedêra hum negocio de » muita importancia, porque o não podia »ver; que lhe rogavamulto, que ficalfe pe- »ra o outro dia, que fem dúvida fe viria »ver comelle. » Vafco da Cunha muito enfadado daquelles enganos , levou o Naire pelos cabellos, e apunhando da eípada, difle ao lingua : » Dizei a efte Naire que lhe não »córto a cabeça, porque leve a ElRey ef- » tê recado; que lhe vá dizer, que a mim »me chamam Vafco da Cunha, que Ífou » muito conhecido por toda a India, e que » melhores efcravos tenho na minha eitreba- » ria pera fervirem os meus cavalos, do que »elle he.» O lingua difle»-que não fe cof- Téaiida » UU- 64 ASIA pe Droco ne Covrd » tumava a fallar aflim aos Reys; » doque Valco da Cunha fe irou tanto , que arrans cou da eípada , e difle ao lingua » que fe » lhe não dava aquelle recado , lhe havia de » cortar a cabeça. » O lingua muito medrofo lho deo; mas como era em lingua Malavar , que Vafco da Cunha não entendia, feria qual elle quizeíle. Vafco da Cunha fol= tou o Naire, que fe tornou muito aflombrado pera a terra, e lá contou a ElRey o que lhe fuccedêra. Tanto que fe elle delembarcou, mandou Vafco da Cunha levar ancora, e tomar o remo pera fe ir pera Cochim ; e fendo hum tiro de efpingarda affaíftado da terra, lhe capeáram da praia : o que vilto por Chrillovão de Azevedo, chegou-fe ao navio de Vafco da Cunha, e lhe dile »que o bom feria tornar a voltar a » ver o que aquelle Rey queria; » ao que elle muito apaixonado lhe refpondeo » que » fe tiraíle dediante delle, porque mais me- » recia elle que lhe cortaflem a cabeça , que » ao Rey da Pimenta; » e paflando por di= ante, fe foi pera Cochim, ficando aflim ef tas coufas, fem fe tomar nellas conclusão. Era ifto na femana Santa, e logo dia de Pafcoa pela manhã entrou Gomez da Silva, Capitão mór do Malavar, pela barra dentro com quatro, ou finco parós de Malavares; que tomou com-todo feu recheio. E ss lhen- “Dec VIL Live LiCAP VIL 68 lhendo alli as náos de Malaca, China, Berna gala , e mais partes , fe partio pera Goa; aonde chegou com huma formofa frota de navios, carregados de muitas fazendas. Qua= fi no memo tempo furgio tambem ná bar= ra de Goa a não Efpadarte da companhia do Vilo-Rey D. Pedro Mafcarenhas , que foi invernar a Ormuz , como dillemos. E porque Fernão Gomez de Soufa, que nella vinha por Capitão, trazia a Capitania de Cochim ,-o defpachou logo o Vifo-Rey pera ir entrar nella; e o mefmo fez a Affonfo Pereira de Lacerda , Capitão que lá eftava, pera de lá ir (ervir a Capitania de Cos lumbo em Ceilão ; e defpachou tambem Dom Duarte Deça , pera ir entrar na Capitania de Maluco , que foi embarcado na não Con= ceição, de que era Capitão D.Jorge Deças. que eftava defpachado com aquellas vias. gens. Defpedidos eftes Capitães, e recolhis; das as Armadas, fe cerrou:0 inverno. Couto. Tom. IV. AA o E "OM - 66 ASIA ve Droco DE Cov'to EC APT TUE Os VE Do que aconteceo a Manoel de Vafconce-los uo Efireito: e de como Fernão Farto lan cou os Padres em Árquico: e do que aconteceo ao Padre Mefire Gonçalo até À Corte daquelle Imperador: e de todos os Reys que houve defde a Rainha Satá até efte Claudio: e do que o mefino Padre pal Jow com o Imperador. Artido Manoel de Vafconcellos de Goa, À como diflemos atrás no Cap. VII., cem fua companhia Fernão Farto, que levava os Padres pera irem a Abaflia, foram feguindo fua derrota até haverem vifta da colta da Ara- “bia, e Manoel de Vafconcellos fe foi langar com toda a fua Armada a Monte de Felix, como levava por regimento, pera alli elperar as nãos que haviam de vir do Achem; eallicfteve até fe lhe gaftar a monção , fem lhe vir cahiralguma nas mãos. E fendo tempo de fe recolher a invernar em Mafcate, pera recolher as nãos de Ormuz , e lhe ir dando guarda até Goa, por fe recearem do coflairo Cafár , fe fez á véla , e foi furgir naquelle porto, onde defapparelhou, e efteve até Setembro, e entrada de Outubro, em que recolheo a fi todos os navios. E porque efta jornada não foi de mais effeito , concluimos aqui com ella. ê Tan- Dec. Vik Liv Cap VII 6 Tanto que Fernão. Farto houve vifta da cota de Arabia, foi: demandar a boca do Efeito da banda do Achém, por onde entrou, e foi dalli tomar Maçua. E no porto de Arguico lançou os Padres, e Diogo Dias do Preíte , ce elle fe foi pelo Efireito pera tomar falla: das galés; e achando certeza que não fe bullia com-ellas, e que. fó as de Cafir eftavam varadas , voltou pera Goa , e deo relação ao Vifo-Rey- do que paflava. Os Padres depois que defembarcáram em Are quico, com algum apparelho que alli achá= ram, foram ter ás terras do Barnagais, que os recebeo bem , e lhes deo todo o neceffario pera: paffarem á Corte do Imperador Claudio, a que os ajudáram alguns Portu guezes que allieltavam, que os recebêram , e agazalháram muito bem; e fe negociáram pera os acompanhar , como fizeram, e partiram de Baroá muito bem provídos de tudo, e foram na derrota da Provincia de Go= rajé, onde o Imperador eftava, que he toda de Gentios , e jaétão-fe de procederem dos Romanos, que alli ficáram , de quando aquellas Provincias foram Íuas; e em poucos dias chegáram á Corte, onde foram mui= to bem recebidos de noventa e tres Portuguezes, homens muito limpos , € honrados ; que ficáram da companhia de D. Chriftovão da Gama, Eflava nefte tempo aquelle Impe- E à TIO 68 ASIA pr Dioco DE Covró “rio muito attribulado , equafi perdido com guerras, que lhe faziam dous crueis inimi gos : huns, eram os Mouros: de Adel favorecidos dos Turcos de Zebit, que-já des do tempo de D. Chriltovão da Gama continuavam ; como no Cap. XII. do VÍ. Liv. da -nofla quinta Decada: démos larga conta; e os outros , huns Cafres crueis , e barbaros, chamados os Gallas, que confinão pelo certãocom as terras daquelle Imperio, que faziam muitas, e-mui continuas entradas por ellas com grandes: damnos, e cruezas, como que aquelle Imperador andava inquieto , e attribulado. Os Portuguezes; que diflemos, cujo Capitão era Gaípar de Soufa, agazalháram na Corte os: Padres muito honradamente , e fizeram faber ao Imperador de fua chegada, que os mandou vifitar;, e prover. ss — É primeiro que paflemos daqui, fera bem que demos relação de todos-os Reys; que -reináram neíta parte da Ethiopia”, des da Rainha Sabá até hoje; porque no Cap. R. do VII Liv. da noffa: quinta Decada a não demos de mais, que daquelles Imperadores, que fuccedêram depois que defcubrimos 'a India:, pela:não termos tão perfeitamente- como hoje, que no-la: mandou de lá o Padre Belchior da Silva ;: Sacerdóte Theologo Prégador;, Canarim de nação ,nafci- — emma Dec. VIL Liv. 1. Car. VII. 69 cido em-Goa', que no anno de noventa é oito, fendo Vifo-Rey da India o Conde da. Vidigueira, o mandou por adminiltrador da Chriftandade daquelle Imperio até prover de — Religiofos em quantidade , havendo commo-' didade pera fe embarcarem. E como 'eltehomem era curiofo, tirou de' huns livros antigos, que achou-em huma daquellas-Igre= jas, o catalogo detodos os Reys , que reináram na Ethiopia Íobre o Egypto , depois da Rainha Sabá, a quem fe deve dar mais credito que a outros efcritores ; porque fempre os Chroniftás proprios tem mais authoridade no fundamento de feus Reynos ; e origem de feus Reys, que Os alheios. E porque entre alguns efcritóres ha gran-= de-controverfia fobre efta Rainha Sabá , que alguns cuidáram mal, que he à mefma que Candaffes , diremos agora o que fobre ilto efcrevem , é fe he efta a que chamam Nitochris, Nicaula.; ou Candaíles, e a differença que ha: de: huma a outra. Jofefo, e Herodoto conformam ambos no tempo -do reinado defta Sabá , ou Nitochris (como lhe elleschamam. ) Dizem eftes, que depois que em Egypto reinou Mene ; que fundou Mem-" fis, (polto que Apolodoro diz, que a fundou Ephapho ,) reináram trezentos & trin= ta Reys , de-que os dezoito foram Ethiopes. E depois deítes reinou Nitochris ,, que os 76 ASTA-pE Droco DE Covro É pofto que o Bifpo Zagazabo allegus | aquella Lei, pódefer não feja feita por Salamão Rey de Jerufalem , fenão por feu & lho Salamão , que houve neita Rainha Sabá, como logo diremos; porque o Rey de Jerufalem não era Senhor dos Reynos da Ethiopia pera lhes dar Leis. E que feja ver dade que eita Rainha Sabá viera prenhe de EIRey Salamão , quando o foi vifitar a Jerufalem ,-fe verá muito claro no “Tratado do Padre Francilco Alvares, que: quando foi áquelle Imperio com D. Rodrigo de Lima, diz que achára huma Chronica em lingua Abexim, em cujo principio dizia, que fota feita em Hebraico, e depois em Caldco, que começava defta maneira: ' Sabendo a Rainha Maqueda os grandes, e admiraveis edifícios que KlRey Salamão fazia em Jerufalem, determinou de osir ver, ecarregou alguns camellos de ouro pera as deípezas daquella obra. E indo feu caminho, fendo perto da Cidade de Jerufalem , eflando pera paflar hum ribeiro , que fe fervia com huma ponte de pão; ou por dous for- -mofos madeiros, arrebatada de hum efpiri- to profetico, deícavalgou, e polta de gios lhos adorou aquelles madeiros , dizendo : » Que nunca Deos permittife que feus pés »tocaffem aquellas traves fobre que havia » de padecer ainda o Salvador do Mundo ; » e Dra V Her E Car VIT. 2 efoi rodeando o rio, e bultando vão. E chegando a Jerufalem, fe aprefentou a Salás mão, e lhe offereceo os dões que levava; e lhe pedio » que mandaffe tirar dalli aquelylesmadeiros ,» dizendo a-razão porque. E veiido osedifícios, diffe :-» Que não lhe fou- »beram dizer da grandeza daquella obra ;, » e que verdadeiramente era muito maior do » que lhe differam ; e que fe foubera a ma- » gnificencia della, não trouxera tão peque- » nos dões ; mas que tornaria a feus Rey- »nos;, e que de lá lhe offereceria: outros mas »lores; » e nos dias que efteve em Jerufalem, houve Salamão nella hum filho, que fe ficou creando na Corte até idade de dez= efeis annos , que era tão feroz, e foberbo;, que por fe queixarem os póvos delle ao pais o mandou pera Ethiopia, onde a mai reinava, e lhe nomeou o Reyno de: Gazé; e que viera a fer tamanho Senhor, que fenhoreára de mar a mar, e que no' da India-tra- zia de contino fetenta náos groflas pera de= “fensão de feu Eftado. “Tudo até aqui he da Chronica -Abexim-, que-o: Padre Francifco Alvares refere no livro: que compoz daquellaviagem. Donde inferimos oque diflemos., que não ficou ao marido defta Rainha Sabá herdeiro algum por fua morte, e que ofilho que houve de Salamão veio a herdar tudo; e que antes de vir a fer-Rey fe chas ma- 78 ASIA pe Diogo nE Couro mava Mihilecha , e a mãi mandou que fe chamaíle Salamão como o pai, e nelle fe começa o catalogo dos Reys que depois della houve, como o nós aqui fazemos. Salamão , Amna Sahacam , Baren Gabo, Sabacio, Thoaíca, Adona;, Aufayo:, Qmacio, Choá, Luvo, Autata, Bahaca, Savada , Adina , Gotolea, Safalea , Elgabul, Bautaul , Bavares-I; Bavares II. Mahafe , Nalque, Balzol. - Nooitavo anno defte Balzol, dizem luas elcrituras que nafceo Chrifio , e depois de feu Nafcimento reináram os Reys feguintes. “Chempas Gad, ou Bhur Sagad, Grima Cafár , Sarado , Cucu Bacheon, Sargay , Ze Tay, Sana Afgad, Cheona Gaya, Macugna, Safarad, Agdar. Abraha, e Cabaha, ambos irmãos, que reináram juntos, e conformes, em cujo tempo foi á Ethiopia hum Patriarca, chamado Minatos, e por outro nome Pantaleão , que prégou a Lei de Chrifto ; e pofto que no principio fugiram delle , depois que entendéram fua doutrina, a tornáram a ouvir, € muitos fe convertêram á Fé de Chrifto ae lhe puzeram nome Abafalão , que quer dizer , pai da paz. À elles fuccêderam os feguintes. Haípha, Arfid, Anci, todostres irmãos, que governáram fucceflivamente, Arada, Afa dadova, Amamid. . E pág Q Dec VI. Liv. L Car. VIH. 79 No reinado defte Amamid foram ter a Abaflia muitos Frades fantos a prégar a Lei de Chrifto, e dous Reys Chrifiãos com grandes exercitos por via do mar Roxo, e os naturaes fe recolhêram pera os matos, € os Reys ficáram fenhoreando a terra ; mas luas: elcrituras os não nomeam, nem dizem fe-reináram juntos , mas dizem que depois | delles houve os Reys feguintes. '“Thazena, Caleb, Gabra Mafeal, Conftantinus, Bafgar, Zanfagad, Frey Senay » Adoraza , Aidar, Madai, Calaudamo , Grima Asfar, Zérgaza, Digna Michael, Bud Gaza, Arma, Asbanani, Digna Zana, Ame bafa o dem o Delnaad. - “Todos eftes Reys dizem que vem por linha direita da Rainha Sabá , ou de Salamão feu filho , e que eftoutros que fe feguem são de outro Tribu; por onde parece que aquelles dous Reys, que entráram a conquiftar aquelle Reyno , fe acabáram nelle. Hicu Namale, Agba Acheon, Bhar Sagad, Hesba Sarad, Cama Afgad, Udamo Arad, Anda Cheon, Ceifa Arad, Ud Doma, David, Theadros , Ifac, Andreas, Asbi navi, Anda Jefus, Bad Linavi, Jarai acob, Beda Mariad, por outro nome Zeriaco. Hefcander ; por outro nome Alexans dre-, que faleceo no tempo que Vaíco da Gama defcubrio a India, que foi o com E que do ASIA ve Droco DE Corro que fallou Pero de Covilhã, que foi por terras ss sia “o Anda Cheon , por outro nome Naut, que reinou doze annos. Tá David feu filho , que-ficou menino debaixo da tutoria de fua mãi Helêna, que he o que mandou o Imperador Mattheus: ao Reyno, e a quem ElRey-D. Manoel mandou D. Rodrigo de Lima. | Oena Saged, filho de David; em cujo tempo foi D. Chrifovão da Gama áquelle Imperio. | | Claudio, ou Athana Saged, filho de Bea na Saged, que he efte que reina nefle tem= po, e efe foi morto pelos Mouros , e fucs cedeo-lhe elle, : E tornando a continuar com o Padre Meftre Gonçalo, depois de defcançar alguns dias, muito bem fervido, e agazalhado de todos os Portuguezes, foi levado ao Impes rador Claudio, que-o recebeo muito bem; e elle lhe deo as cartas de ElRey , e do Vifo-Rey ; eferitas em lingua Portuguez , € Abexim , que elle recebeo com muito alvoroço , e por ellas entendeo a tenção de El- Rey; e defpedindo o Padre , mandou que o proveflem de todo o-neceflario; é dahi à alguns dias o ouvio , prefentes os feus Grandes , e elle lhe deo.a embaixada que levava, que continha o Ífeguinte, o pinto) » Que Dec. VIL Liv. É Cad VII 8 '» Que ElRey de Portugal feu irmão lhe » mandava pedir; que-a exemplo de feu pai; xe avô, feguifle o verdadeiro caminho de » lua falvação ; é communicafle com os Ca- »tholicos , dando a obediencia à Santa Sé »Apoftolica , e Igreja Romana, como cas »beça de toda a Chriftandade ; que elle ti= »nha fignificado -ao Summo Pontifice feu des »fejo , conforme ás cartas que elle fobre » aquelle negocio lhe efcrevéra. Que movis »do de feu fanto zelo, lhe tinha. concedido »hum Patriarca , e dous Bifpos que ficas »vam em Lisboa”, pera virem na primeira » Armada ; que havia elle de eftimar muito »o amor com que o Vigario de Chrilto fe »movia a acudir a feus rogos, e a lhe man= »dar os mais efcolhidos Varões que pode; »pera o inftruirem a elle , e aos feus nos »coftumes Romanos , pera-poderem digna- » mente fer chamados irmãos: dos Fieis . “e » filhos da Igreja.» ElRey onvio mui bem tudo o que lhe o Padre die; mas como eftava traltornado de feus primeiros intentos ; e-tinha determinado de não mudar os coftumes antigos de feus antepaílados , ficou tur= bado , e confufamente refpondeo com: palavras duvidofas , ou 'por'fer inconftante de natureza, ou: por eítar períuadido , e acoinfelhado dos feus, moftrando-fe logo muito arrependido do que fobre iflo tinha eferita Couto Tom. IV.P.I. E a 83 ASIA me Droco pE/Covto a ElRey; e reípondeo ao Padre » que-elle » não: fabia de-carta alguma: que efcrevelle pa ElRey de Portugal feu irmão fobre a »-quella materia, porque nunca tivera: ten- » ção de mudar as ceremonias., que havia »-tantas centenas de annos: fe vfavam naquel- » les Reynos ; -que fe alguma coufa fallava »à carta, o feu Secretario a elcreveria, fem »lho elle mandar. Mas que-por fima de tu »'do elle era grande fervidor de ElRey de » Portugal, e não deixava de lhe agradecer »a boa vontade; zelo, e trabalho, que na- »-quellas -coufas' tinha moftrado. » O Padre Melftre Gonçalo: vendo a tenção de ElRey, não tratou de apertar logo com elle , mas deixou-fe ficar alh., adminifirando os Sacras mentos aos Catholicos, e-vifitando o Imperador algunas vezes, tornando-o a pal par-pera ver feachava nelle alguma mudança , declarando-fe-com elle , e moltrando= lhe pela Eferitura-quão neceflario era pera fe-falvarem, deixarem o Bautifmo da Circumeisão ; e tomarem -o da agua, e darem com illo a obediencia à Igreja Romana; mas como-elle eftava obftinado, e refoluto com os Ífeus Grandes de não confentir mudança na lei, defenganou o Padre de todo. E pot fim-de razões difle » que bem podia ir o Pas »triarca; porque folgaria de o ver , e que »em Maçua acharia todo o: apparelho e Ê. g. Ee » tá= Dec Visto Carlo 85 3 fario pera feu caminho ; e que depois de »ferlá, Deos noffo Senhor tinha poder peyra O encaminhar a feguir o que fole me- » lhor pera fua: falvação. » Com efe defengano fe deixou o Padre ficar até á monção;, em queo haviam de ir bulcar;, exercitando com os Catholicos o officio da caridade ; € aflim o deixaremos até feu tempo. CAPITULO IX De como D. Diogo de Noronha , Capitão de Dio, perfiadio a Tartacan , que lançaf- “fea Bifcanfóra das terras de Dio, co= mo fes: e de como D. Diogo de Noronha lonçow mão de todo o rendimento daquella Alfandega : e de outras coujas que paláram. º O fim da fexta Decada no Cap. XIX do X. Liv. démos conta de -como D. Diogo de Noronha, Capitão de Dio, tomou a fortaleza, que os Moutos tinham na Cidade, e de como deitou fóra da Ilha os Abexins; e com tudo ilto nunca quiz bul= lir na Alfandega, que fe arrecadava a mes tade pera o Abifcan, ( por buma Provisão de ElRey de Cambaya, por não romper com elle;) mas como o Abifcan era homem inquieto, e muito foberbo , não deixou de bulcar todos os: modos pera tornar a met- Ecs ter 64 ASIA pe Diogo DE Covro ter pé na Ilha de Dio, até determinar de o fazer por força, e commetteo a entrada por alguns paflos, que lhe-D. Diogo de Noronha mandou defender com as:manchuas pelo rio, e com foldados ; com o que tes ve efte verão grandes trabalhos , e inquietações. E vendo D, Diogo de Noronha que nunca teria bom vizinho no Abexim , tra tou de o lançar fóra de todo daquellas terras, porque antes queria vizinhar com qualquer outro Mouro, que comelle; e pera if to teve elle modo. ; Na fexta Decada no Cap. XVI. do X. Liv. démos conta, como os Senhores da Provincia de Cambaya ie levantáram cada hum com o que governava, quando viram ElR ey morto. Deftes foi hum delles 'Tartas can; Turco de nação, (que governava aquella parte de Junager até o Pagode de Jaquete; ) e era valorofo:, de boa natureza , e muito bem inclinado. A efte deípedio Dom Diogo de Noronha hum homem feu em hum navio ligeiro, por quem o mandou-vifitar, e a pedir-lhe mandafle hum homem de confiança , porque tinha que tratar com elle coiifas , que importavam muito a elles ambos, Efte homem recebeo elle muito bem, e ef tmou a vilitação ; e logo mandou embarcar no meímo navio hum Mouro , chamado Melique Xeque, Guzarate de nação; homem s Dec. VIL Lrv. E Cat IX. GF mem de que elle fiava muito ; a quem Dom Diogo de Noronha recebeo honradamente ; e recolhendo-fe com elle a huma camera lhe dife eftas palavras: : » Mandei pedir -aTartacan hum homem ade confiança pera faber delle, qual era à » razão , que pois o tempo lhe oferecia tás » manhas occafiões pera fe fazer grande Se- »nhor , e ainda Rey de todo Cambaya , » porque: fe deftuidava naquelle negocio, »fendo elle hum Capitão dos maiores , e » mais benemeritos que havia emtodo aquel= »le Reyno , e em quem melhor eltava tu- » do; que pois ifto aílim era, porque con- » fentia allitão feu vizinho Abifcan, que era »hum Abexim fraco, falo, e fem mereci- “mento algum, é de quatro dias naquelle »Reyno , e vir elle a ter tanto bico, pelo » defcuido delle 'Tartacan, que lançára mão » de hum Eftado tamanho, como aquelle que » pofluia ? Que convinha a feu credito ; e » authoridade lançallo fóra daquellas terras; »e apoflar-fe dellas, com o que ficaria o mór »Senhor de todes os de Cambaya , e que »elle o ajudaria por mar, e por terra, pes »lo grande golo, e proveito que tinha de »oter aelle porvizinho.» Comiflo lhe ditfe outras muitas coufas, e O metteo em tantas vaidades, que o fez cuidar poder fer ainda Rey de Câmbaya. O Melique Xeque lhe agra- 92 ASTA DE Droco De Covo ceitou, quando fe vio engeitado da outra pata te. Aflentado aquelle negocio , defpedio o Vilo-Rey o Embaixador com os apontamentos do que fe lhe havia de conceder , que eram os feguintes. » Que tanto que os Capitães tomaflem » em Pondá pofle de Mealecan:, logo lheen- » tregariam as Tanadarias do Concan pera as » prover de Capitães, e que começariam logo »asterras a render pera ElRey de Portugal. » Que todas as coufas que eltavam af » fentadas nas pazes paffadas ficalem no ef » tado em que eltavam ; fem fe innovar cous » fa alguma nellas. | Chegado efte Enviado a Bilgão , onde eltava Anel Maluco com os conjurados, al fignáram os contratos, e ostornáram a mandar ao Vifo-Rey , com outros que conti nham o feguinte. es » Que o Vifo-Rey alevantaria na Cida- » de de Goa a Mealecan' por Rey de Vi » fapôr , e que em pefloa O iria entregar à » Calabatecan dentro em Pondá, porque: alli »0 havia de efperar com dez mil homens, »eque dalli o havia de levar a Anel Malu- »co, e aos conjurados onde efiivellem. Defpedido elle Embaixador , ficáram ele les ajuntando fuas gentes; eo Vifo-Rey tambem como teve elte recado, fez feus preparamentos pera aquella jornada. a Decapa VII Liv. I. 93 CAPITULO Mi De como o Vifo-Rey D. Pedro Ma fcarenhas alevantou Mealecan por Rey de Vifapór: e dos contratos que com elle fez: e de como paljou a Pondá; e o entregou a Calabatecan. - Endo o Vifo-Rey preftes , e negociadas as coufas que pertendia pera aquella jornada, que determinava fazer com gran= de mageftade , porque era muito vão , e grandiofo, ordenou hum dia pera o auto do alevantamento do Mealecan em Rey, e deo recado aos Vereadores, pera: que com todos os moradores fe achaflem prefentes , o mais cuftofamente que pudeífem; e que ordenaffem todas as feftas poíliveis pera obrigarem muito áqueile Rey, com que haviam de fcar tendo tanta vizinhança , e amizade. E o mefimo pedio a todos os Capitães, e Fidalgos. Tinha o Vifo-Rey mandado ordenar no terreiro do Paço hum formofo cadafalio , toldado todo por fima , e elle todo alcatifado , e guarnecido de pannos de ouro; € ledas, e o terreiro todo enramado , e eme bandeirado , e pelas janellas muitos inftrumentos alegres , e guerreiros ; e elle pera lua peffoa tinha mandado fazer grandes opas de borcados ricos, e todos os feus criados; e OE] ASIA pe Diogo pe Couro e guarda veítidos muito cuftofamente. E pa- 1a ElR ey Mealecan tinha mandado fazer mui. | tas Cabayas de borcado a feu modo, e de veludos de cores, de elcarlatas finas, e quatro-cavallos formofiflimos guarnecidos à gineta de jaezes de prata dourados, com caparazões riquilimamente broslados. Ao dia. aprazado abalou o Vifo-Rey de lua cala acompanhado de todos os Fidalgos, e Cida dãos a cavalo, todos tão ricamente trajados, que foi coufa muito pera ver. É em fua companhia muita fomma de trombetas, charamellas, e atabales; e com efta pompa chegou ás cafas do Mealecan, que já eltava efperando por elle a cavallo com dous filhos feus, e muitos criados; e tomando-o o Vifo-Rey á fua mão direita, o levou comíigo até o cadafalfo , onde fe fubiram , e aflentáram cada hum em fua cadeira, debaixo de bum muito rico , e formofo docel de borcado, e alli o alevantou por Rey de Vifapôr , e de todo o Decan , conforme a feu coftume; o que fe fez com muitos inftrumentos, e falvas de artilheria, e muitas feltas, momos;, e invenções, que a Cidade lhe tinha ordenado. Foi elle auto feito com à mór mageftade , e folemnidade que podia fer, e com tão grande concurfo de gente, Motros, e Gentios, que não cabiam pela Cida de. Acabado efte auto, fez o Vifo-Rey com aquel- Dec. VIL Liv. 1. Car. XL os aquelle Rey novos contratos; que O Secretario do Eltado aprefentou, que ElRey com feus filhos affignou, cuja fubftancia era o Íeguinte. » Que elle dava , e doava a ElRey de » Portugal, e a todos feus fuccelfores, daquelple dia pera todo fempre, as terras firmes de »Salfete, e Bardes, e todo o Concan com » fuas Alfandegas , Tanadarias, € jurdições. » Que as fortalezas de Pondá , Banda, »e Curale fe entregariam logo a Capitães » Portuguezes, tanto que elle fofle entregue pa Calabatecan. | » Que ficariam em Goa fta mulher , e »filhos em refens, até fe fegurarem as cou= »las do Balagate. | » Que todos os mais concertos , que efta- » vam feitos com Anel Maluco, fe guardapriam muito inteiramente. | » E que elle Mealecan depois de eitar no » Reyno , poderia mandar levar deGoa vit= yte cavallos forros dos direitos, e dous mil » pardáos de fazendas , e brincos , fem pas » garem direitos, nem lagimas.» Afignados eftes contratos, tornou o Vifo-Rey a levar ElRey pera fua cala, ecos meçou a preparar as coufas pera a paflagem;, mandando ajuntar toda a gente de armas que havia na Ilha de Goa, e nas mais circumvizinhas, e deo recado aos Capitães pera ajuns ta- 96 ÁSIA pre DroGo DE Couro tarem a foldadefca toda de Goa, e ao Ca | pitão da Cidade, pera que eftivelle preites, e apparelhado com todos os moradores de. cavalo. Ordenado ifto tudo, mandou o Vis. fo-Rey ao Tanadar mór Antonio Ferrão, ue com todos os piães Gentios;, e Chriltãos de paílafle da outra banda: do paífo de Sant: lago , porque ao outro dia fe havia de aba lar , como fez , e partio de Goa nelta or- - dem. Os Capitães das bandeiras da foldadef ca, que eram finco, ( Martim Affonfo de Miranda, D. Fernando de Menroy, Dom Antão de Noronha, Baítião de Sá, e Fernão Martins Freire, ) foram diante com fua foldadefca, que feriam perto de tres mil hos mens; e logo apôs elles abalou o Vilo-Rey de Goa, e tomou Mealecan, novo Rey; 4 fua mão direita. Hia o Vifo-Rey vellido de huma opa roílagante de borcado alto com muitas pontas de pedraria, e fobre os hombros hum muito rico , e formofo colar de pedraria, huma efpada, e adaga de ouro ef maltada. Levava diante de fi a fua guarda com fua libré de cores , e no meio o feu Capitão da guarda, e mais atrás doze formofos ginetes ajaczados de ouro, e prata; com telizes de damafco de cores, franjados de ouro , e detrás delles o feu Eftribeiro rrcamente veltido ; maisatrás feis Porteiros E mal- | | + Dec. VE. Lav. Caps RE 97 tiaflas de prata , e quatro de canas ; e detris de todos o feu Veador; e detrás delle “hum Rey de Armas de Poítugal, com hu- “ma opa rica, eno peito as armas Reaes em “huma lamina de ouro grande ; e diante de “tudo ilto hiam atabales, trombetas , e charamelas , e outros inftrumentos. Detrás do Vifo-Rey hia Gafpar de Mello Capitão da Cidade , com duzentos moradores de for= “mofos ginetes, e armados Ge fortes, e ga- Jantes armas. “Com efta mageftade chegou ao Paío de Sant-lago , onde fe apofentou aquella noite, e a outro dia defpedio os Capitães das bandeiras , e Gafpar de Mello Capitão da Cidade , com todos os moradores, por Ca- “pitão geral de todo aquelle exercito, e com “elles hum Capitão do Rey novo, pera irem tomar poffe da fortaleza de Pondá , e elpe- “tarem alli até elle chegar. Eltes Capitães palfáram á outra banda , e foram marchando pera Pondá; e antes de chegarem á fortale- “za, lhes fahio hum Capitão, chamado Meale, que eftava nella da mão do Idalcan, que “não quiz entrar na liga; e com duzentos de. -cavallo efcolhidos veio commetter à nofla dianteira, e traváram huma arrezoada efcaramuça, em que os noflos lhes derribáram dezefete, e feríram muitos, e com elte to- “que fe foram recolhendo ; e não fe fiando Conto Tom IPI G da 98 ASIA pr Droco DE Covrto da fortaleza , defviando-fe della, fe foram pera o certão: os noflos chegáram à fortas leza , que acháram defpejada, e fóra della aflentâram Ífuas tendas , e fe valáram à ros da; e o Capitão Gafpar de Mello partio a gente toda em quatro quartos pera vigiarem de noite. 7 | “Aqui aconteceo hum cafo de muito enfadamento , e que houvera de dar grande trabalho ao Ellado; e foi elle. Hia na com: panhia Francifco Barreto, que não quiz levar bandeira, porque efperou que Gaípar de Mello ( que era feu tio) lhe largafle o governo de toda-a gente de pé, e que ficafle elle com a de cavallo, e elle aflim lho pedio ; mas não lho quiz conceder , porque entendeo que os Capitães das companhias 0 não haviam de confentir. E como efte Fidalgo era homem naturalmente arrogante, amigo de honra, e de mandar, aquella noite fahio a roldar os quartos , e acabava-fe O primeiro que vigiava D. Fernando de Monroy , ( que me contou ifto,) e perguntou aos foldados, quem lhe fuccedia , que lhe dif feram, que Martim Affonfo de Miranda; € defpedindo hum pagem», lhe mandou por elle dizer, que vieíle vigiar. Martim Affonfo eltava-fe já armando pera fe ir vigiar, quando elte pagem chegou, e em lhe dando O recado de Francilco Barreto, tomou-fe tan to Dec. VII Liv. I Cap. XI 99 to diflo, que fe tornou a defarmar, e lancar na cama , e deo recado aos Íeus » que » fe outra vez tornafle alguem com outro re- »cado, o não acordaflem ;» eafim o fizeram, porque Francifco Barreto tornou a fegundar; e foi a coufa de feição, que ficou D. Fernando de Monroy vigiando ambos os quartos. ; Ao outro dia pela manhã, effando os Capitães aflentados ao foalheiro em converfação, chegou o Martim Affonfo de Miranda, armado em huma coura de laminas, huma gineta na mão, é fallou a todos, Erancifeo Barreto , que eltava alli, quiz galantear fobre elle fazer vigiar dous quartos a D. Fernando de Monroy ; mas como Martim Affonfo hia enfadado , e tomado, foffreo-lhe mal as galanterias ; e aflim de palavra em palavra chegáram a fe deícompor , e alevar mãos ásarmas, ao que acudio todo.o exercito, é fe repartio em dous bandos. Gafpar de Mello, Capitão geral, acudio águelle negocio ; e mettendo-fe no meio. d'ambos., liou-fe com elles ;-e como era à. porta da fortaleza, e elle homem muito grande, e forçofo , aos impuxões os foi mettendo dentro , e fechou Íobre fi as portas , e deípedio hum correio com huma carta ao Vifo-Rey, em que lhe dava: conta do negocio. Eita carta lhe deram já de noite; e ven- Gai do: «100 ASIA pE Droco: DE Covro -do a importancia do cafo , fe paffou logo-a “Gaçaim , onde eflava por Tanadar André Gorjão, .e com elle, e com poucos de fua guarda , e criados fe foi pelo rio aflima a Derubate; e dahi em huma faca andeira par- “tio pera Pondá , onde chegou á meia noite ;. e entrando na fortaleza, mandou vir perante fi aquelles Fidalgos , e os reprendeo. E fallando primeiro com Francifco Barreto, lhe difle : » Se quer vós, Senhor, que fois »hum Fidalgo , de quem ElRey: confia aln- “dia; em tal tempo , e em terra de infieis »fazerdes eita união? Que conta haveis de dar a EiRey de coula tão mal feita, coamo foi pordes hoje a India em balanço?» E, fallando com Martim Affonfo de Miranda, o reprendeo tambem afperamente, mas - com palavras graves , e muito: honradas,, - (porque de todas aquellas tres partes, que. grão Capitão Gonçalo Fernandes de Cordova punha ao que havia de governar , que -são, fer clemente , ter mão larga , e boca prudente ; efta he a mais neceífaria que to das, porque com taes palavras me póde hum Vilo-Rey reprender, ou negar huma coufa, que lho agradeça tanto , como fe ma dera.) - O Vifo-Rey D. Pedro Mafcarenhas. os fez logo amigos, ficando o refto da noite na fortaleza ; e pela manhã fe partio pera o Paflo “de Sant-lago;, onde ficaya.o Rey. novo. Dec VIL Lrv. IL Car. XI 107 “Alli fe deteve tres dias até lhe vir reca= do, que era chegado Calabatecan, a quem havia de entregar ElRey ; pelo que logo paffou da outra banda, onde os noflos Capitães o efperavam com tendas armadas. All fe afentou o Vifo-Rey debaixo de humas atvores, é com elle EiRey , cada hum em. fua cadeira rica, em fima de formofas al-- catifas; e aflim da Cidade, como dos paf. fos todos da-Ilha , houve todo-aguelle dia: grandes falvas de artilheria, e o-meimo fe fez no exercito. Eltando aflim, chegou hum: Capitão de dous: mil cavallos, que o Calabatecan: mandava pera acompanhar ElRey até Pondá ; e defcendo-fe, chegou ao Vifo-Rey com: as mãos cruzadas, elhe fez: feu acatamento, e depois fe:poz de joelhos di-: ante de ElRey , e com as mãos no chão: lhe metteo-a cabeça antre as pernas , em final. de fua Lujeição-, como antre elles fe coftuma.. Levava: elte Capitão as mangas da Cabaya:,. que eram largas, com huma fomma de pagodes de ouro, moeda do Balagate , que. cada huma: valerá quinhentos reis; e ao abaixar que fez, fe lhe efpalháram todos pelas alcatifas; e depois de alevantado , foram recolhidos pelos pagens do Vifo-Rey , fobre' o que houve algumas: rebatinhas ,- que tambem deram gofto. Coftumavam os Mouros neíftes Reynos ilto, deixarem aquela dis à nhei- 108 ASIA DE Diroco DE Covro: » V. S. não me defpacha, fendo eu hum ho: » mem, que ha tres annos que ando neflas: » partes fervindo , e que mereço me façam: » mercê?» O Vilo-Rey mui fevero lhe refpondeo': » Ando agora defpachando os de' » Vinte, e quinze annos ; como chegar aos. » de tres, então terei lembrança de vós.» Eftando hum dia no tronco fazendo au | diencia aos prezos , e vindo diante delle hum; que trazia hum grilhão nos pés por dividas de ElRey, lhe dife »que havia muito -que' »'alli eltava prezo daquella maneira , pot- »que devia a ElRey huma quantia de di- » nheiro, eque ElRey lhe devia muito mais, » mas que lho não queriam: defcontar, ele » var em conta. » Perguntando o Vifo-Rey' pelo cafo', e fabendo fer verdade, mandou chamar logo o Veador da Fazenda', e-lhe' dife: » Aquelle grilhão que aquelle homem' » tem, tirai-lho, e lancem-no a mim, ea » vós , já que fomos Officiaes de ElRey; e » não queremos pagar fuas dividas; » é lo- 8o mandou foltar o homem , e que fe lhe' abatefle a divida da que: fe lhe' devia. Folgou muito de ouvir os homens, e de lhes fazer juítiça. Todos os dias tinha certas horas limitadas pera ouvir partes, o que fa zia deitado em huma camilha. | Tanto que entrou na India, quiz: tirar alguns coftumes, fobre o: que fez dao ni eis; Estande ca Dec: VIH Livio rem Qdo -IO9 “eis, que não foi poflivel guardarem-fe. Hu- “ma dellas era, defender os fombreiros. altos de tomar a chuva , e Sol; por efcufar aos homens os gaftos dos que lhos traziam ;.€ elle tambem: os não trouxe, e ufou de huns fombreiros de lã com feus cordões , a que fe chamáram muito tempo delle os Maícarenhas. Depois vendo que o Sol era intoleravel, e as chuvas defcompaíladas , tornou a largar os fombreiros altos , com condição , que os trouxeffem eferavos proprios , cativos , por forrarem as defpezas dos que os trazem , que são Gentios , a que commummente chamam bois de fombreiro. Quiz defender os cavallos aos Fidalgos, pelas defpezas que lhes faziam ; o que lhe mandava ElRey tambem em feu regimento, e que fó os calados os tivellem ; mas atalhou-o a morte. a Defendeo que nenhuma mulher pública andaffe em Palanquim , fenão defcuberta. Ordenou na fortaleza de Ormuz feiscentos foldados, com obrigação de dormirem dentro na fortaleza (ilto no inverno; ) mas que no verão não pagariam mais de quatrocentos. Em Baçaim ordenou outros feiscentos pera fegurança daquella fortaleza pelas alterações de Cambaya, Em Chaul cento. E fez regimento, que os Capitães das fortalezas não tivellem outras vigias, fenão os foldados RE da tio ASIA pe Drogo DE Covro da obrigação dellas, porque coftumavam a pagar muitas vigias fantafticas; e que no número dos da obrigação das fortalezas en trallem os homens que lhe davam a elles, a fóra outras confas muito bem ordenadas. E em tudo viveo tão puro, e morreo com | tantas moftras de contrição, que fe pódecrer que eftará no Ceo gozando do galardão de fuas obras. DE- À b O ? ? , , ? , ? À , ) , ) DS e OS E E NA A see JE SUL CM, Sr NE INS ata Na, GINO o” RES GS AR EO PES ABA A A e A PD PS E le SD le A VIPS IS OPS RIP RI RAP RS RI RI RI Re DECADA SETIMA. LILY RO Da Hiftoria da India. KLRELPRELAE 35 44% ae aR + V/A E ELPETUOLCO I De como por morte do Vifo-Rey D. Pedro Mafcarenhas fuccedeo na governança da India Francifco Barreto : e da, Armada que fe queimou na ribeira de ElRey com. hum foguete. - ) Stanpo o corpo do Vilo-Rey Dom Pedro Mafcarenhas em feu ataude , pofto na Capella mór da Sé de Goa, mandou o Chanceller trazer o cofre das fuccefsões , que ellavam em 5. Francifco ; e abrindo-o, tirou a primeira, e a entregou ao Secretario, que a amoftrouem alto ao povo, pera que vifle que eftava cerrada, e fellada com o fello pendente das Armas Reaes, e a dep ao Capitão da Cidade, que naquelle : aus 112 ASIA DE Droco DE Covto «auto prefidia, pera que com o Ouvidor ge tal a examinalem bem, feellava inteira, e “Sem fe nella tocar. Feito ifto, a abrio o Ses «cretario , e a foi lendo alto, eachou-fe nel. Ja-Francifco Barreto , que eflava prefente vel tido de dó; eem o nomeando, foi logo le-. vado nos braços de todos, e na Capella mór deo a menagem do Efltado da India nas mãos do Capitão da Cidade Gafpar de Mello, na. fórma coftumada naquelles Eftados. Feito efte auto, que foi aos dezefeis de Junho defte anno de fincoenta e finco, em terráram o corpo de D. Pedro Mafcarenhas, e o Governador Francifco Barreto fe reco lheo a S. Francifco, até lhe defpejarem os Paços; e a primeira coufa que fez , foi man ; dar chamar todos os criados, que foram do Vilo-Rey D. Pedro Mafcarenhas, e os confolou , e recolheo em fua cala, e fe fervio delles nos mefmos cargos, que o Vilo-Rey “lhes tinha dados. E todos os oficios, de que tinha providas algumas peíloas , os confirmou , e nada revogou do que o Vifo-Rey - tinha feito. ndo É não havendo. mais que oito dias, que o Governador eftava de pofle , fuccedeo à mór perda, e defaventura, que nunca a In dia teve,.e foi, que veípera de S. João, já de. noite , lançou hum homem hum foguete de humascafas , junto. a nofla sena do ; O- Dec. VII. Lav, IL Gar Io 113 fario , que o demonio encaminhou pera a ribeira das Armadas, e foi cahir fobre o galeão S. Mattheus , que eltava varado ; cuberto de palha, que tomou logo fogo com tanta braveza , que foi efpanto ; e como .eftava a balravento dos mais galeões, que el tavam varados tambem junto delle, e o ventoera rio , foi-fe pegando o fogo de galeão em galeão com tamanho eftrondo , e ter= remoto, que parecia que fe affolava toda a Cidade. O Governador vendo aquelle incendio , acudio á ribeira com todos os Fidalgos, moradores , e foldadefca que havia; e arremettéram a defcubrir todos os galeões que eflavam varados, e aos mais que eftavam no mar, que dos que o fogo tinha toimado pofle, não houve remedio algum. O Governador andava como doudo., mettido pela agua , e pela lama, e ainda antre os galedes que ardiam , arrifcado às labaredas ; e traves que cahiam , por remediar que a mais Armada fe não perdeífe. E nefte trabalho o feguíram todos ; e houve foldados » que commettêram neite negocio grandes temeridades , mettendo-fe nos galeões que ardiam, por verem fe lhe podiam valer; mas nada aproveitou , e muitos fe recolhêram mui- to queimados, e abrazados, a quem o Governador abraçou, e a hum lançou a cadeia que trazia ao pefcoço, e a outro deo o feu Couto. Tom. IV. P.T. H - ans 114 ASIA pe Droco DE Covo annel de finete, e a outros outras peças, que depois mandou refgatar ; e aflim andava animando a todos por acudirem ao trabalho, promettendo mercês, que depois fez; e foi efta diligencia que poz , tal , que foi parte pera fe falvar toda a mais Armada. Durou efte incendio toda aquella noite, e odia feguinte, em que fe queimáram, e confumt ram feis galeões Reaes , quatro caravelas, e duas formofas galés, coufa que todos fentiram muito , porque era a mór força que o Eftado tinha. O Governador c Íentio em eftremo , e houve aquella defaventura em principio de feu governo, por grande moi na lua, emandou tirar grandes devaflas, € inquirições fobre aquelle negocio , e deitat grandes pregões, em que perdoava graviflmos cafos. a quem lhe defcubrifle quem queimára a Armada, fem nunca fe poder fabet coufa alguma ; pelo que houve muitas ful peitas, e juizos temerarios, mas a verdade foi, que hum João Rodrigues, de alcunha o Calandar (que he o mefmo que peregris no) foi o que lançou o foguete que dife mos, fem ter tal tenção, e depois que vo 6 incendio fe paflou pera o Balagate, e dah pera Cambaya:, onde andou muitos annos como peregrino , e dalli cobrou a alcunha Calandar. Foi efte homem depois cafado em Ormuz , onde viveo muitos annos. O Go ver- eDec: VH. Iv: TLoGAP TS IF vemnador fempre Ífufpeitou que aquelle das mno fora mandado fazer por ordem do Idalcan, pelo favor que fe deo a Mealecan; e: reccando-fe da mais Armada , armou muitas manchuas pera andarem de longo da Ar-= mada, e da ribeira, vigiando; e ordenou ; que os Capitães da foldadefea vigiallem de noite aos quartos na ribeira, pera acudirem aonde foffe neceífario : eftes Capitães vigiavam huns na varanda da Igreja das Chagas, e outros nas terecenas dos maitos. Em to- “do efe inverno houve muitos banquetes , jogos, e paffatempos , e aos foldados fe detam mezas muito abaftadas. Como o Governador Francifco Barreto era homem de grande animo , determinou de em feu tempo tornar a renovar aquella perda, é fazer outros tantos navios, como Os que fe queimáram , e logo mandou artar algumas quilhas, e trazer dos rios vizinhos muita madeira pera começar a pôr as mãos á obra, como fez, pedindo á Ci= dade ajuda pera io , que lhe ella deo , e acudio com o que pode; e os Bramanes de Goa tomáram á fua conta fazerem huma gake, que foi huma das mais formofas peças que vi, é delles tomou o nome, e fe chamou a galé Bramana; e os mais Gentios ou- Tives, e mercadores deram de ferviço pera ajuda de outra galé dous mil e quinhentos | Hi par- 116 ASIA pr Droco DE Covrto pardãos. O Governador por não perder tempo, defpedio correios pera as fortalezas do Norte, Chaul, e Baçaim, eefereveo áquelles Vereadores , e povo, que o quizellem. ajudar com alguma confa pera a reforma. -? A ção da Armada; » o que lhe elles concedê ram com muito gofto ; e paffou Provisões pera os Capitães, e Feitores daquellas fortalezas, pera que dos rendimentos dellas atmaflem logo em cada huma dellas dous ga leões, e duas caravellas : e efcreveo aos OF ficiaes de Dio, que mandaflem pera iflo áquelles Feitores todo o dinheiro que as nãos de Meca. tendeffem em Agofto; e tal pref deo em feu tempo, que quando chegou Dom Conitantino (que lhe fuccedeo) lhe tornou a entregar outras tantas vafilhas novas, co mo adiante melhor diremos. E de le que rer poupar a fazenda de ElRey , foccede muitas vezes mór perda della; porque de fe não determinarem os Vifo-Reys, e Govelnadores a fazerem humas terecenas , ao me nos pera galés, e navios de remo, ficam todos os invernos arrifcados a outra femelhante defaventura, gaftando-fe pelo miudo mui to mais do que eita obra poderia cultar ; porque todos osannos fe defpendem, fóem “cubrir toda a Armada de palha, dous mil pardãos; e em tantos annos com eltas del. pezas fe poderiam ter feitas dez e | Dec. VII. Lrv. II Car. L 177 E pofto que os“ galeões não caibão nellas , por tão barato havemos cubrirem-fe de telha, como de palha ; porque ainda que fe quebrem muitas, não deve de montar a metade do que cada anno fe gafta na palha, a fóra-o rifco. que correm , que val tanto , quanto o feguro de toda a Armada : mas -eltes defcuidos , e defordens (que aflim lhe podemos chamar ) nafcem” de alguns Vifo- Reys ; e Governadores eftarem com olho em feus refpeitos particulares, e tambem de “outros, quando fuccedem , não quererem acabar asobtas, que os que acabáram tinham começadas ; porque a poucos vimos parecer bem as coufas daqueiles, e muitas, em que tinham feito grandes defpezas, fe perdêram por effe-reípeito , que não apontamos por não infamarmos a alguem, a ESA PAL TADERO Else sto De como o Governador Francifco Barreto —palou a Pondá a fever com o Mealecan : “e de como proveo as Tanadarias daquel- “las partes, e mandou D. Antão de Noronha a tomar pofje de todo Concan. Epois de Mealecan ficar entregue a Ca: A2 labatecan , (como atrás temos dito no Cap. X. do I. Liv.» ) fe recolheo pera aquella aldeia a efperar o recado de Anel Malu- Pet sá co; 124 ASIA pe Droco DE Covro » pontavam , eram de feição , que fe podiam »atalhar. E que irem as nãos de Cambaya » carregar a Gogá , illo fe lhe poderia de- » fender coma Armada, que elle logo lan » çaria: ao-mar. E que quanto ds fazendas, » que vinham por terra, era o que imporptava menos, que fó as nãos de Meca eta »o fubltancial, e que eíTas forçado haviam »devir a Dio, fem lho ninguem poder des » fender. E que quando iflo não-tivera re: “» medio, ainda era de parecer, que antes » ElR ey de Portugal perdefle tres, ou qua- » tro annos todo o rendimento daquella Al. »fandega , que dar nella quinhão a ElRey »de Cambaya:; porque tendo-fe efte nego » cio allim emtezo, fe enfadariam os Mot- »ros da guerra, e os mercadores chamariam » pelos proveitos, que todos os-de:Cambaya » tinham: de trazerem fuas fazendas áquella » Ilha, e que forçado fe haviam de tornar Dalargar , e que aflim ficaria toda aquella » Alfandega livre pera o Eftado..» Ito pa: “Teceo tão bem a todos , que fe tornáram a Tetratar , e feguíram o parecer do Capitão D. Diogo de Noronha. ; «Com efla refolução mandou D. Diogo de Noronha dizer ao Melique Xeque » que » quanto ao dinheiro com que o commettia, » não era elle homem que por nenhum the- “YÍouro da vida fole contra-o ferviço de feu e » Rey: Dec, VIL Liv. IL Cap. IL 125 yRey : que dos ameaços que lhe-fazia lhe. »daya pouco, porque elle iria em, peíloa a » Gogá, e traria as nãos que lá carregaflem , ye as tomaria por perdidas. E que a lhe de- » fender a paflegem por terra ás fazendas , » folgaria muito, porque então o obrigaria yao ir bufcar a Nova Nager, onde ellava, ye langallo fóra daquellas terras , que elle à tinha tyrannizadas a ElRey de Cambaya, »etornar-lhas a entregar.» Com efla refpofta começou Melique Xeque a lançar gente de guerra da outra banda , e a defender a pallagem aos mercadores; o que fabido por D. Diogo de Noronha, defpedio hum Loutenço Pereira por Embaixador a ElRey de Cambaya a pedir-lhe que houveíle por bem ficar aquella Alfandega toda a ElRey de Portugal , porque afim lhe vinha melhor, que comer ametade della aquelle alevantado, porque era bem enfraquecello no cabedal, pera fe não poder fuftentar em fua tytannia.; porque quando ElRey fe quizeile reituir em feu Elftado, o pudeífe fazer com mais facilidade. Efte homem chegou a Camayete , achou o Rey moço em poder do Ithimitican , porque havia pouco tinha fugido de Madre Maluco pera elle por arrufos que teve; mas cumprio-fe nifto aguelle adajo Italiano , que diz, fugio dacertã, e foi dar nas brazas ; aflim cite fugio do que: | o 126 ASIA pe Dioco DE Covro o fez Rey, e o trazia na liberdade que que: tia, pera outro tyranno que logo o fechou, e encerrou de feição , que ninguem o via, eelle ficou governando tudo, ficando o mos ço como huma eftatua, fem eleição de que: rer em nada ; porque como o tinha debais xo de fua chave, fazia tudo o que queria, e mandava foberanamente, com capa de dizer, que ElRey o mandava aílim; e por der: radeiro lhe veio a tirar o Reyno;, e entres gallo aos Magores, como adiante na nona Decada fe verá. Chegado Lourenço Pereira ao Ithimitie can, deo-lhe o recado de D. Diogo de Noronha, que elle logo ouvio bem, e mandou que fe detivelle até faber a vontade de El- Rey; e afim ficou muitos dias fem lhe darem refpolla, porque era homem de pouco negocio, e tacanho; e os bomens que hão de negociar com Mouros, o hão de fazer com a mão aberta. E não Íó o não ouviram fem illo, mas ainda o tratéram mal, como fizeram a elle. Do que D. Diogo de Noro- “hha foi logo informado , e deipedio Diogo Pereira, (hum Cavalleiro: honrado de fua obrigação , homem prudente, liberal , e grandiolo no trato de fua peíloa, e cafa,) que chegando á Corte , achou o Lourenço Pe: Teira muito maltratado do Ithimitican, por que lhe fez muitas, e públicas defcortezias; ; e Dec. VII. Liv. II Car. HI 127 e effava como reteudo , e encurralado. Diogo Pereira fe vio com o Ithimitican, e tratou com elle o negocio que levava a cargo, fobre o que levou differente modo, e com tudo iffo não lhe refpondeo a propo= fito, de que avifou a D. Diogo de Noronha-pelo mefmo Lourenço Pereira, que fe foi pera Dio; e fabendo das avexações que lhe lá fizeram, tomou-fe diflo tanto, que logo determinou de fe vingar do Ithimiticane E tendo noticia certa, que tinha huma não fa em Meca com cartaz , que lhe paílou 0 Vifo-Rey D. Pedro Mafcarenhas , pera ir defcarregar em Gogá, e que fe eiperava por ella na entrada de Agofto , determinou de fe fatisfazer nella; pera o que armou quastro navios, de que deo a Capitania a Duarte Paim de Mello, e lhe deo por regimen- to, que fe fofle pôr na enceada dos Rabãos ; eque como aquella não appareceíte, a fizeffe arribar a Dio; fem tocar nella; nem fas zer força alguma ; nem afronta aos mercadores. Duarte Paim de Mello fe foi pera aquella enceada -, onde elleve poucos dias , porque logo houve villa da não, que era muito formofa , e vinha a mais rica que nunca partio do porto de Judá; porque co= mo era forra, embarcáram-fe nella todos os mercadores groflos com-todo o ouro; Prata ,-coral-, e outras fazendas-ricas, da à mor 128 ASIA De Diogo DE Covito mór. parte das outras nãos, que eram-obrie gadas a ir a Dio a pagar os direitos. O Duarte Paim vendo anão, a foi demandar, ea fez amainar, e recolheo dentro o Capitão, e Officiaes, fem haver alteração alguma da fua parte; porque como vinham com feguro, não houve refufar. E como os teve no feu navio, os quietou, e fegurou , affirmando-lhes, que o Capitão de Dio não queria mais, que fazer com elles certa diligencia; e indo feu caminho, foram furgir na bahia de Dio, e todos os navios á roda: della. D. Diogo de Noronha mandou recado a Duarte Paim de Mello, que não deixaffe entrar, nem fahir della peíloa alguma até feu recado, porque não fofle a Cambaya algum “primeiro que o feu. E no mefmo dia def pedio hum correio muito apreífado, com huma carta pera Diogo Pereira, em que mandava, que tanto que aquella ville, logo de noite fe partifle defconhecido pera Cambayete, onde acharia hum navio, e que fe embarcafle logo nelle , e fe viefle pera Dio. Efte correio chegou á Cidade de Amadabi em poucos dias, e deo a carta a Diogo Pe-. reira, que tanto que avio, diflimulou com o negocio; e em anoitecendo, fe veítio em trajos de Mouro, e poíto em hum formofo ecavallo fe partio pera Cambayete, onde chegou ao outro dia ; e achando o navio Re gue POP Ena “Dec. VIE Lav. To Gars TO. 129 que lhe D. Diogo de: Noronha tinha man= dado , fe embarcou nelle:, e:fê veio-perá Dio. D. Diogo de Noronha; tanto que O teve-lá , mandou defcarregat; a não em muis tas embarcações; fem dar pelos requerimen= tos que os mercadores lhe fizeram; e que fe metteílem todas as fazendas;:na” Alfandega pera Ve os direitos; o que lhe man-= dou fazer com favor; dizendo aos mercadores, que affás de amizade lhes fazia em lhes “não tomar ando com todo 0: recheio. Ven= do os mercadores: que não tinham remedio ; antes de fe lhes bullir nas fazendas , man= dáram cominetter a D. Diogo de Noronha com dez mil Venezianos de ferviço , e que os deixaíTe ir pera Gogá ; mas como Dom Diogo de Noronha o hão vencia, intereíle algum , pelejou com quem-lhe levou o recado, Pagos os direitos : lhes tornáram fuas fazendas , e lhes deo licença: pera fe irem pera Gogá , dizendo aos mercadores » que »diffefem ao Ithimitican , que foubefle tras »tarbem os homens , que lhe lá mandavam »os Capitães de Dio. » Ifto: fêntio elle mui- to, mas foffreo ; porque como tinha tyrannizado o Reyno , não quiz bullir em coufa alguma: por não perder tudo, Elte anno tendeo. a Alfandega de Dio-com-eita grande pancada, cento e vinte mil pardãos ;: de gue fe fizeram as deípezas da fortaleza ; € Copo, Tom, IV. P. 1. I man- £30 ASIA: de Drocd dE Covto mandou “depois--ao' Governador Francilco Barreto-feflema .mil' pardáos. o o “Pouco-depois difto naentrada de Seteme bro entrou: pela-barra “de: Dio dentro he | ma fulta muito embandeirada:, atirando mu tas bombardadas. A elte tempo:andava Dom Diogo de Noronha pafleando'em huma va randa fobrero mar; e vendo: entrar o navio com tanto alvoroço, (como tinha por cartas do inverno; que o Vifo-Rey D, Pedro Malfcarenhas ficava mal ,)houve que era morto ;-e que elle fuccedia na governança, porque amerecia a ElRey. O Capitão do navio entrou “na fortaleza , e lhe pedio al viçaras , que: Francifco Barréto era Govets nador “da Índia”, por morte do Vilo-Rey D. Pedro Mafcarenhas ,-e lhe deo-cartas do mefmo Governador. D:Diogo de Noronha ouvindo: aquillo que não elperava , ficou fobrefaltado ; e chamando pelos criados, mandou “que lhe levaífem o Capitão “do navio ao tronco, porque fora com tamanho alvo» toço dar-lhe novas da morte de hum tão honrado: Fidalgo , como o Vifo-Rey Dom Pedro Mafcarenhas ; e aflim foilevado o pobre homem «nos: ares, e mettido no tronco. D. Diogo de Noronha deitou as cartas do Governadorpor efe chão, é começou'a paffear. , e ardizer: » D. Diogo na India, € » Francifco Barreto Governador della ? o en b - y Je Dec. VIL Ltw. Il. Cap TIL t3f yilto he acabado: fazeste D. Diogo Cleri- » po, já que não preítas pera nada. » Depois que fe andou defaffogando humrelpaço , cha» mou o Alcaide mór , e lhe mandou ,º que foltaffe o Capitão do navio; e que embandeirafle a fortaleza, e defparafle a artilheria e que feftejaffe aquelle doudo: de Franciíco Barreto, porque não queria que diffeífem , que dé inveja“o deixára de fazer ;5e que El- Rey podia dar a fua governança a quem quizelle. E tomando o dinheiro que tinha junto, (que era os feffenta mil pardáos que diffemos, ) o mandou embarcar no mefmo navio, em companhia de outros, e refpone deo-ao Governador ás fuas cartas. Elte di nheiro chegou a Goa depois das nãos do Reyno, que'o Governador feftejou muito 5 porque-lhe foi a muito bom tempo ; e efcrevco a D. Diogo de Noronha cartas cheias de obrigações , e agradecimentos , dos muitos ferviços que tinha feitos a ElRey na= quella fortaleza. Agora deixaremos hum pouco elas coufas , porque he neceffario con=. tinuemos: com as que fuccedêram nele teme po em Ceilão , primeiro que entremos nas do verão, sat; j A 132 ASIA pe Droco DE Covfo CCATIILILO To | | | | | | Das coufas que fuccedêram em Ceilão: e. dos ardis: de que o Madune ufou pera ins mizar Tribuli Pandar com os Portuguea mes: e de como depois fe concertom com o elles pera o defiruirem, como fizeram. | | | | À UgidoTribuli Pandar da prizão , em que À ' D. Duarte o tinha, (como já na fexta Decada no Cap: XII. do Liv: X. fica dito,) foi-fe elle pôr no lugar de Bandale (depois que fez os damnos que diflemos.) O Madh ne-como era -manhofo:, e aquellas defaven | | | gas todas lhe ficavam cortadas á medida do que defejava , deípedio logo: peíToas de recado a Tribuli Pandar , por quem o matdou-perluadir a fe vingar das affrontas, que os Portuguezes lhe tinham feito, offerecen do-lhe pera-iflo toda ajuda que quizefle, de gente, é dinheiro; o que lhe oTribuli Pandar acceitou, e elle lhe mandou feiscentos Chingalás com feus: Modeliares ; e com à * gente.que mais ajuntou , começou a fazet muito grande guerra aos noílos , e deftruio os lugares de Paneturé , Caleturé , Macú, Berberi, Galé, e Beligão , e derribou por elles todos os noíTos Templos, que os Frades de S. Francifco em todos eftes lugares tinham, e nelles feitos muitos Chriftãos com AS à gran- Dec. VII Lrv. IL Car. IV. 133 grande edificação , e exemplo de vida , re= cebendo alguns delles defta vez gloriofo martyrio por mãos defte Barbaro;, que a nenhus ma coufa perdoava ; e a muitos dos Chrifãos cativou , tratou mal, e ainda metteo atormentos. Nefta conjunção chegou Affonfo Pereira de Lacerda (que atrás deixâmos partido de Cochim ) pera ir fucceder naquella Capitanía ; e depois de tomar pofle della, fabendo os grandes damnos , que o Tri buli Pandar tinha feitos , tratou de lhe fazer toda a guerra que pudeíle, pera o que fez fuas preparações. O Madune,; que não perdia occafião , tanto que vio O Tribuli Pan= dar bem homiziado com os Portuguezes , defpedio embaixadores a Affonfo Pereira de Lacerda, por quem o mandou vifitar, e offerecer-lhe contra o Tribuli Pandar tudo o “que lhe foffe neceffario; o que Affonfo Pereira de Lacerda lheacceitou , < agradeceo , fazendo antre ambos concertos , que cada hum por fua parte fizefle guerra ao Tribuli Pandar , e não levaífem mão della , até de todo o não deftruirem; porque em quan- to fole vivo, havia de dar trabalhos áquella Ilha. Eftes concertos fe fizeram com cons dição, que fe arrecadariam pera ElRey de Portugal os direitos da terra, e pórtos, que antigamente lhe pagavam , que O Madune lhe trazia ufuspados., e-eram os. feguintess Bro » Dos 236 ASIA dE Droco DE Covro que tanto que teve novas da morte do Rey, e da fucceísão de Mirzamhifá, grangeou os grandes , e alevantou-fe por Rey daquela parte. O Mirzamhilá tanto-que teve avifo diko , mandou-lhe Embaixadores , que de filiffe do titulo de Rey , é ficaffe naquella parte por Governador , como eflava , reconhecendo-lhe obediencia. Ao que Soltão Mahamede refpondeo, que aflim como elle fe alevantára com o Eftado. do Cinde » Que go: vernava, aílim elle o fizera com aquelle do Bachar por vontade de todos; e que o mefmo direito que elle tinha no Cinde, o tinha elle tambem naquelle em que era Rey. Verne do Mirzamhifá aquella refpolfta , tratou de ir fobre elle, e de o deftruir de todo; e pes ra-ifo fe quiz valer do braço Portuguez, € mandou ao Governador aquelie Embaixador, "queatrás temos dito. CA DI UNIO . Da famofa Tha de Salféte de Baçaim : é do feu efpantofo Pagode , chamado do Co Camari: e do grande labyrintho que a Ilha tem. Ty Sta Cidade de Baçaim tem o mór termo ,-e jurdição de todas as da India; porque pera o Levante fe eftende até ás fortalezas de Aflarim , e Manora, que feram ol= Drc. VI. Liv. IJ Cap. X. 237 “oitoleguas, em que ha fertiliflimas aldeias ; e de grandes rendimentos. Pera o Norte fe efende até o rio de Agaçaim, e para o Sul até o rio Bombaim, ou ainda mais abaixo até outro braço feu, que fe chama de Caraniá, por fe fazer antre hum, e outro huma Ilheta, em que temos hum caftello defte nome. O rio que faz efta Ilha de Salfete, faz duas bocas ; a do Norte he O rio que entra ao longo da Cidade de Baçaim, e vai correndo ao Sul em muitas voltas; e ameio caminho, que ferá perto de tres leguas, fe faz huma colonia, que os Portu= guezes alli fundáram, que fe chama Tana, em que haverá quafi feífenta Portuguezes ; que naguella Ilha tem fuas aldeias, que são muito rendofas. Aqui faz o rio dous paflos muito eftreitos , e que fe podem paflar a váo à outra banda de maré vafia da terra dos Mouros até efta Ilha de Salfete. Neftes paffos ha dous caftellos roqueiros fundados fo= bre a agua, pera defenderem aquella paffagem. Continuando o rio ao Ponente outras tres leguas , vai fazer a formofa barra de Bombaim , que fahe ao mar mais de meia legua de largura , onde fe recolhem nãos do Reyno, e de outras partes , por fer de bom: fundo , fem banco , e impedimento algum. E antes de chegar ao mar, lança hum braço ao Sul , que faz a Ilha de Caranjá, e 238 ASIA DE Droco DE Covro e outra ao Norte , que fe chama Banidorá; Delta boca de Bombaim vai correndo a'cofta pera o Norte perto de quatro leguas até tornar a entrar pela barra de Baçaim, ficando-lhe efta Ilha de Salfete pela banda de fóra , que ferá de quinze leguas em roda, & duas de largura. No meio defta Ilha eftá aquelle admira: vel Pagode do Canari, que fe prefume fer obra dos Canarás, e por iflo le chama af fim , que eftá feito ao pé de hum arrezoado monte, todo de pedra de côr pardo clas to , é 4 entrada delle fe faz huma formos fa fala, e no pateo defóra da porta de hu ma, e da outra banda della, eflam duas fe guras de vulto entalhadas na mefma pedra; tamanhas como duas vezes os gigantes que vam nas procilsões da fefta do Corpo de Deos de Lisboa, tão formofas, tão primas, e tão bem lavradas , que nem em prata fe podiam entalhar melhor , nem mais perfeitas. A porta da banda de fóra tem algumas cilternas feitas na mefma rocha , que rece bem a agua do inverno , que no verão ef tá tão fria, que não ha mão que a fofra Pela ferra aflima até o cume della, a modo de caracol , fe fazem mais de tres mil ca marinhas pequenas , a modo de cubiculos, cortadas na mefma rocha, e cada huma dellas tem á porta huma cifterna da mefma e Dre VI. Lrv. HI Car. R 239 E o que he mais pera admirar; he, que ha: hum cano feito por tal artifício, que corre por todas eftas tres mil camarinhas ; elte cano recolhe todas as aguas vertentes daquella ferra, ve a reparte por todas as cilternas, que eftam ás portas das camarinhas. Aqui nefte Pagode habitavam muitos Jogues, que fe fultentavam de muitas efmolas , que lhes davam: em todas aquellas aldeias ; cuja cabeça era hum de cento e fincoenta annos de-idade, que os Padres de 5. Francifco, que primeiro foram habitar na Cidade de Baçaim , fizeram Chrifião , e fe chamou Paulo Rapofo; e allim bautizáram ou tro, chamado Calete , de mais fama que o Paulo Rapofo, a quem puzeram por nome Francifco de Santa Maria, e viveo depois muito chrifâmente, e com muita fatisfação dos Padres , e ainda ficou fendo Prégador Evangelico, e converico muitos daquelles Jogues, e outros Gentios. Viveo efte homem depois de bautizado finco annos , Ou póde dizer como Similo, que não viveo mais que aquelles finco. O Padre que andou por efa Ilha naquelle principio convertendo aquelles Jogues, chamava-fe Fr. Antonio do Por= to, da Ordem dos Menores , Varão Apoltolico , e de vida exemplar , que penetrou todas os fegredos daquella Ilha , que eram muitos. E nefte Pagode que digo ; a o 240 ASIA pe Drogo DE Covro do do Canari , fe aflentou , e o confagrotú em Templo da invocação do Anjo S. Miguel; e no tempo que alli efteve , foi informado do mais novo, admiravel, e intrincado labyrintho de todo o Mundo; que por efpan- to fe póde relatar, como o farei aqui bre vemente. Eiltando o: Padre Fr. Antonio do Porto neíta Igreja de S. Miguel, for informado dos Chriftãos , que alli converteo;, que naquela ferra havia hum labyrintho;, a que nunca pus deram achar fim , e que fe afirmava , que hia correndo até o Reyno de Cambaya, É delejolo o Padre de o enfacar , e penetrar por ver as maravilhas, e grandezas que delle fe diziam , tomou comíigo: hum companheiro , e negociou vinte homens com armas , e efpingardas pera defensão das beltas féras, e outros fervidores, que levavam as coulas necefiarias pera a jornada , como agua, arroz, bifcouto, legumes , manteiga; e outros mantimentos, e alguns almudes de azeite pera tochas que levavam pera fe alumiar, e verem por onde hiam, e.tres pel= foas carregadas de novelos de cordeis groífos, que pera iflo fe fizeram pera irem late gando pelo caminho, como fizeram os que entráram no labyrintho de Creta, Preites tudo, foram entrando por aquellas grutas , cuja boca feria de quatro bras - eaGaS Dre. VIL Liv. IL Cat X 241 gas de largura, onde deixáram a ponta do fio atado a huma grande pedra; e por aquelke labyrintho caminháram fete dias continuos por caminhos: huns largos , e outros mais ef treitos, tudo cortado em viva rócha; hiam vendo de huma, e de outra parte camarinhas pequenas, como as do Pagode que já dife; e à porta fuas cifternas, fem me faberem dizer fe tinham agua , e como a podiam res colher, pois por todo aquelle caminho não havia buraco”, agulheiro ; nem outra alguma coufa, que pudeífe dar alguma claridas de. Tudo por fima era huma-abobada de pedra viva da mefma rócha, e as paredes de huma, e da outra parte de todo elle caminho era da mefma forte. Vendo o Padre que tinham gaítados fete dias fem acharem Ífa= hida alguma, e os mantimentos, e agua que levavam quafi acabados , foi-lhe necellario tornarem a voltar pera fóra, guiando-fe pe» lo fio, fem faberem por todo efte caminho fe fubiam, ou defciam, ou a que rumos na= vegáram, por não levarem agulha por onde fe governaflem: à É praticando eu com Gentios muito ans tigos fobre ifto, me afirmáram, que por as quelle caminho podiam ir até Cambáya , e ainda até ás terras do Magor , e Cidade de Agará, e que fora elle caminho antigamente muito ufado, e continuado; é que aílim Couto. Tom IV. P.I, Q, = 242 ASIA pe Droco ne Couro o afirmavam as eferituras dos antigos Gentios ; e que outros muitos caminhos como eftes por baixo da terra havia em muitas partes de Cambaya, e no Decan, e que (em dúvida fora ifto mandado fazer por hum po - tentiflimo Rey Gentio; chamado Bimelamenta, que havia mais de mil e trezentos ans nos reinára em todos os Reynos defte Oriente, deíde Bifnaga , ou Bengala até o Ma gor, e ainda: até Ormuz ; e efte tem Íuas ela erituras; que viveo trezentos annos , é que deftes reinow cento e tantos. | E como: em todas fuas coufas mettem muitas fabulas:, e patranhas:, pera darem prin cipios honrofos a feus Reys , como muitas vezes temos dito , afirmam que elte Bime lamenta era hum Gentio;, homem prudenies e de muita boa razão, natural das terras do Magor , Cidepur , e Patan, por onde an” dava fazendo: vida religiofa , a quem appárecéra hum idolo da antiga Gentilidade ; cha mado Ambani, e-lhe revelára muitos the fouros , e lhe dera muitas leis pera fazer guardar áquelles Gentios que viviam fem eb las , e pera que os governafle em policia, e trouxefle, e ajuntafle em lugares comu nicaveis , porque andavam efpalhados pelos matos ; vivendo como brutos; o que elé fizera, e os ordenára, e mettéra em 132805 fundando Cidades, Villas, e povoações, é E que Dec V He Er C APEX: 243 que fora por todos alevantado por feu Rey. Defte homem contam Ífuas hiftorias tantas grandezas, que caulam efpanto. Affirmam, que fez eftes labyrinthos, e que mandára fa= bricar infinitos Pagodes de admiravel artificio , e que efte do Canari, e do Elefante era obra Íuas dê E eftando eu efcrevendo actualmente if- to, vieram ter comigo huns Baneanes de Cambaya, mercadores ricos, que continuam eta Cidade de Goa; e praticando com elles fobre ifto, me affirmáram fer tudo ver-= dade, e que elles víram as eferituras que dio tratam , e que com feus olhos viram tambem alguns Pagodes famofifimos por effes Reynos do Decan, Cambaya, e Magor feitos por elle Rey, e que fobre fuas portas tinham hum letreiro, que diziaaíflim: » Ef- »te Pagode mandou fazer ElRey Bimela- »menta » e que elles o lêram muitas vezes: E fe afim he-, a pedra que eftava fobre a porta do Pagode do Elefante , que tinha aquellas letras, que fe mandou a ElRey Dom João o HI. , que nunca fe achou quem as pudeífe ler , devia de ter elle mefmo letrei- to de Bimelamenta: Elcreve-fe tambem delle, que mandára fazer muitos , e formofos tanques , e alguns tamanhos , que mais fe podiam chamar grandes alagõas, de que to= dos eftes Reynos eftam cheios. E em alguns Q. ii põem / / 144 ASIA pe Dioco DE Covro dem algumas virtudes, como em hum que eitá a meio caminho de Baçaim pera Agaçaim:, onde hoje eftá a cala de nofla Senhos sa dos Remedios , em que relidem Padres Dominicos, huma Senhora, que tem obras do tantas maravilhas , e milagres , que ef tam todas as paredes do Templo cubertas de paineis delles. Defronte fica efte tanque, em que elles põem tanta virtude, que afira mam, que toda a pefloa que fe metteo nelle; farará de toda a enfermidade -que tiver, fobre quem tem os Padres tanta vigia, que não deixam chegar a elle nenhum Gentio , por não fazerem fuas fuperitições, Ora deixando ilto , e tornando ao la byrintho , vendo que andáram eltes Padres por elle dentro fete dias continnos , fem re poufarem imais que a hora de comer, edormir; e quero que não andaílem mais cada dia que: feis leguas , que vem: a fer nos fete dias quarênta e duas leguas, me faz pa recer que pudéra fer verdade o que os Gentios dizem delle, que vai até Cambaya; porque a Ilha de Salfete, quando muito, tem quatro leguas dé comprido, e o labyrintho eftá no meio: della: E pera dizermos que poderiam aquelles caminhos ir em tantas vol tas, e fer tão intrincados , que lhes fizefle galtar aquelles dias, nem iflo póde fer, por (como difle) a Ilha fer muito pequena e é éi= Dec. VII Lrv. HI Car. X. 245 elreita. Em fim, como quer que feja, a cul pa de fe ifto não enfacar he da muita mi= feria, e pouca curiofidade delta nofla nação Portugueza, que até hoje não houve Vifo- Rey, nem Capitão de Baçaim , nem outrá alguma peffoa, que mandaíle faber, eenfas car elles fegredos , que são muito pera fe faberem. O que não houvera de acontecer aos efirangeiros, que são tanto mais politicos, e curiofos que nós , que não digo eu coufas defta qualidade , mas ainda outras muito mais pequenas não deixam de ver, € levallas ao cabo até as enfacar, e faber. Cer- to, que efta obra fe póde ter por huma das maravilhas do Mundo, e ainda pela maior deile. º Havia tambem nefta Ilha de Salfete outro Pagode, chamado Manazaper , que tambem era talhado na rócha viva, em que vi» via hum Jogue muito afamado antre elles, chamado Ratemnar, que tinha comfigo outros fincoenta Jogues, que os moradores daquellas aldeias os fuftentavam. E fabendo o Padre Fr. Antonio do Porto defte Pagode, foi-fe a elle ; e como eta muito temido de todos os Jogues daqueila Ilha, tanto que aquelles o viram , largáram-o Pagode, e foram-fe pera'a terra firme ; o que devia de fer pela força Divina, que viram que Deos tinha pofto em feu fervo, que outra huma- - na 252 ASIA pE Drogo DE Covro vantado , e nelle enrofcada huma cobra de capello, aílim como pintam o de Mercurio; fobre a ponta do Íceptro eftam tres idolos pequenos de covado cada hum ; e em hu» ma das mãos elquerdas , que tem alevantadas, fuftenta com os dedos tres idolos do. tamanho dos outros: Ao lado efquerdo def te idolo grande eftá outro com hum cutélo na mão, e aflima delte outro muito grande com o corpo de homem , e a cabeça de Elefante, de quem eu cuido que a Ilha tomou o nome. Nefte veneram a memoria de hum Elefante, a que os Gentios chamam Gaves, de quem contam muitas fabulas. Apar def te idolo fahe da rócha hum aflento de pedra, em que eftá aflentado hum idolo de hum fó corpo com tres cabeças, é em cada huma dellas tem hum fó braço, falvo ado meio , que temdous, e na efquerda tem hum livro. É ao lado efquerdo defte idolo: efá huma figura de mulher de tres palmos arrimada com o braço efquerdo fobre o hombro de outro idolo mais pequeno tambem de figura de mulher , e com a mão direita travado de outro mais pequeno. Logo aílma deite idolo eftá outro cavalgado (obre a cabeça de hum Elefante, e apar defte outro cavaigado fobre o pefcoço de outro idolo. Deita Capella a finco paífos pera a parte do meio dia vai efte Pagode alargando ps je | ra Dec VIL Lrv. IL Cap. XI 253 ra o Ponente onze paíflos , e no fim delles torna a profeguir pera o Sul outros onze paífos; e daqui voltando outra vez pera o Ponente onze paflos á mão direita, eftá huma. Capella aberta na rócha, cuja porta tem vinte efeis palmos dealto, e de vão ao comprimento fete pés e meio, e de largura dez= eleis, No meio defta Capella eftá aflentado hum idolo, que da cinta pera fima tem doze palmos, e fobre a cabeça tem outra tiara lavrada com muitas perfeições ; e lindezas. Tem oito braços, e duas pernas, com huma das mãos direitas, e com outra das elquerdas eftende por fima da cabeça hum manto , ou fobreceo da mefma pedra mui- to fubtil., e fica eftendido por fima delle no ar hum efparavel, e fobre elle efparavel eftam muitos idolos de covado , machos , e femeas. Na fegunda mão direita tem huma grande efpada de dous gumes; e na tercei= ta hum idolo pequeno pendurado pelos pés. À quarta mão direita com a parte do braço eftá quebrada pela traveflura dos foldados que alli vam das Armadas, como o eftá quafi tudo. Na fegunda mão eíquerda tem hum chocalho , e a tiracolo hum colar mui- to grande de muitas cabecinhas humanas enfadas humas com outras , e todas cortadas na mefma pedra, e lavradas ao buril no mefmo pefcoço. E na terceira mão tem hu- | ma 254 ASIA pe Drogo DE Covro ma caldeira, e fobre ella hum idolozinho. À quarta mão elquerda com o braço eftá toda quebrada. Dum lado » é do outro deite idolo, e por toda a Capella em roda eltam trinta idolos pequenos em pé. Defta Capella a nove paílos á mão efquerda , que he pera a parte do Sul, eftá huma cafa quadrada de dez pafios em comprido, e outros tantos de largo , toda aberta na rocha, ede tal feição, que toda feanda á roda, e tem quatro portas, huma em cada lanço do quadro , e entra-fe nefla cafa por cada huma deftas portas, fubindo por finco degrãos, é no meio da Capella eftá hum poial quadra do de vinte e quatro palmos de quadro : fobre elle eftá alevantada huma figura de hum idolo , que por deshonefla fe deixa de nos mear, a que os Gentios chamam Linga, é adoram aquillo com grandes fuperftições ; e afim a eftimam tanto, que os Gentios Canarás as trazem bem afiguradas ao peícoço. Elte torpe coftume tirou hum Rey Canará, homem de razão, e juftiça. E tornando ás quatro portas defta cafa, cujas couceiras ainda hoje apparecem, não fe abriam pera mór veneração, fenão huma vez no anno no dia da fua mór fefta. A” entrada de cada huma dellas eftam dous grandes Gigantes de vinte e quatro palmos de altos , feitos com muito primor , e perfeis ção. Dec. VII. Liv. HJ. Cap. XI 259 ção. Defta cafa a dez paílos , profeguindo pes ra o meio-dia, eftá outra Capella com hum formolo portal de obra Mofaica de vinte e quatro pes de largo, e vinte efeis de alto; no meio della eitá hum idolo de dezefeis palmos de alto, com quatro braços, e duas “pernas, travado pela mão com outro idolo | de figura de mulher. À? mão eíquerda defte idolo eftá aflentado outro de igual grandeza , e feitio , e abaixo outro pequeno com tres cabeças , quatro braços , e duas pernas; e por toda efta Capella em roda outros muitosidolos. Defta Capella ao Ponente eltá huma cifterna de agua excellentifima , a que nunca fe acha fundo, de que vulgarmente corre elta fama , e afim: fica fendo femelhante ao que fe conta das fontes de Álfeo, e Aretula, Aqui acabou o lanço Occidental, que he o da mão direita do corpo delle Pagode :. voltando daqui pera o Ponente, vam dar em huma Capella. muito curiofamente lavrada de quatorze pés de largo:, e úezoito de comprido ; no meio della eftá hum idolo agigantado com: pernas cruzadas com huma tiata na cabeça lavrada fubtililimamente, e de ambas as partes tem muitos Pagodes de homens, e mulheres, e alguns a .cavallo. Das qui vai o Pagode alargando: pera o Nafcente, onde eftá outra Capella como as mais, e 256 ASIA pe Droco DE Couro e debaixo della fabe hum idolo da cinta péra fima agigantado com finco roftos propor= cionados ao corpo, com fuas tiaras nas cabeças, e com doze braços, e com as mãos fultenta hum aflento de pedra fobre quem eltá outro idolo Gigante de hum fó rofto com feis braços, e duas pernas, e huma das mãos direitas tem fobre o pefcoço de huma mulher tambem agigantada, que eftá aflentada junto a elle; e a cada lado defte idolo tem outros quai do feu tamanho aflentados no meímo aflento; e pelo mais corpo defta Cas pella ha outros cem idolos de homens , € mulheres. Caminhando daqui ao meio dia; dam em outra Capella, em cujo meio eftá aflentado outro Gigante com fua tiara na cabeça com quatro braços , e duas pernas, € a cada ilharga tem hum idolo tambem agigantado, hum de figura de mulher , e outro de homem ; e ao lado da mulher efté outro idolo Gigante , a fóra outros muitos idolos que ha por toda a Capella. Aqui feacaba o lanço Oriental da mão efquerda defte Pagode. No fim deftes dous lanços Oriental , e Occidental eftam tres grandes Capellas; e a do meio , que he mais interior, tem trinta pés de largo , e dezefeis de comprido. Do pavimento defta Capella fe alevanta hum corpo da cinta pera fima de tão disforme grandeza , que fo elle É 7 che Dec VIT: EE Cap; XL 257 che o vão, e largura da Capella: tem tres muito grandes roítos, o do-meio olha perao Norte, o fegundo pera o Ponente , e outro pera o Nafcente; cada hum deftes rol tos tem dous braços, e ao peífceço dous grandes collares lavrados com admiravel fubtile= ga. Sobre eftas tres cabeças tem tres formos fifimas tiaras; e efterofto do meio; que he o maior, tem na mão hum grande Globo ; eoque quer que tinha na direita não. fe en= xerga poreftar desfeito. O rofto da parte di= “eita tem na mão direita huma grande co+. bra de capello, e na efquerda huma rofa, à que chamam Golfo, que nafce nas alagõas grandes. A? entrada da porta defta Capella eltam dous Gigantes a pé de cada lado , e encoftados cada hum em feu idolo de dez palmos de alto, A fegunda Capella ; que cftá ao lado direito , tem dezenove pés de lar= go, e onze de comprido, etrinta de alto ; no meio della eftá hum idolo agigantado de quatro braços, e duas pernas , como todas as mais, com huma formofa tiara na cabeças e fobre ella eftá outro idolo mulher de vin+ te palmos de altura ; e por toda a Capella de huma, e de outra parte eltam outros muis tos Pagodes pequenos, Ao lado direito defta Capella eftá huma porta de fete palmos de alto, e finco é meio de largo, por onde fe entra em huma camara quadrada efcura ContoTomIVPPIL — R de 258 ASIA de Diogo pe Covió de dez palmos de largo, e outros tantos de comprido; em que não ha coufa alguma. Vols tando ao lado defta Capella do meio , eflá a terceira, que tem vinte etres pés de com= prido , e trinta de largo ; e no meio della ela outro idolo de vinte e dous palinos de alto de quatro braços, e eftá fobre hum tó Pe, eacabeça com huma formofa tiara, res clinado fobre a de hum totro. Elte idolo tis nham os antigós por meio homem , e meia mulher, porque tem huma fó teta à maneita das antigas Amazonas , é tem em huma das mãos huma cobra de capello, e na outra hum efpelho , e ao redor mais de fincoenta idolos: Ao lado efquerdo deftla Capella eltá huma poita de feis palmos de alto; € finco de largo, poronde fe entra em htma camara quafi quadtada, emuito efcura, onde não ha que ver : com ella fe acaba a fabrica defte grande Pagode , que ellá desfeita em múitas partes; e iflo que deixáram os foldados , tão mal tratado , que he mágoa ver aílim deftruida huma das coufas ade miraveis do Mundo. Agora faz fincoenta ane nos que fui ver efte efttanho Pagode; ecomo não entrei nelle com a curiolidade com que hoje o podia fazer ; não notei muitas Coufas, que fe acabáram já; mas lembra-me todavia, que achei huma Capella, que hoje fe não vê, abérta pela fronteria toda, que : te- Dec. VIE Liv. HI CAR XE 259 teria mais de quarenta pés de comprido; & ao longo da rócha fe fazia hum taboleiro do comprimento da cafa à maneira dos noflos Altares, aflim de largura, como de altura; e nefte taboleiro havia muitas coufas hotaveis pera ver. Eentre ellas me lembra, que notei à hiltoria da Rainha Pacifae com o touro, e o Anjo com huma efpada nua lançar fóra de debaixo de huma arvore duas figuras mui formofas de homem, e de mulher, que eftavam nuas , como no-lo pinta a Sagrada Efcritura em noflos primeiros pais Adão, e Eva: Es Quando logo os Portuguezes tomarant elas terras de Baçaim, e de lua jurdicção , que foram ver efte Pagode; lhe tiráram hu= ina formofa pedra, que eftava fobre a poórs ta, que tinha hum letreiro de letras mui bem abertas, e talhadas , e foi mandada a El- Rey, depois do Governador da India, que então era, a mandar ver por todos os Gentios ; e Mouros delle Oriente , que já não conhecêram aquelles caracteres; e ElRey “D. João o III. trabalhou muito por faber à que eftas letras diziam , mas não fe achou quem as leffe, e aflim ficou a pedra por ahi, e hoje não ha já memoria della. , us -— Na lombada da ferra, em que eftá efte Pagode do Elefante pera o Nafcenteé-a dous tiros de pedra ; eftá outro Pagode aberto. a sa R ii be ato ASIA pe Drogo DE Covro diante, e o teéto de fima fe fultenta fobre muitas colunas formofifimamente lavradas, de que já não ha mais de duas, que são de dezenove palmos de alto, e doze de groffura, Tem o Templo quarenta e tres paílos de comprido, e treze-de largo , e a huma parte tem huma camarinha muito bem lavrada. Nella adoram a fva Deofa Paramilo» ri Foi elle Pagode, que eftá hoje todo desfeito, de obra efpantofa naquelle feu tamas nho. É Noutro monte defta Hheta pera o Naf cente, a refpeito do Pagode grande na lombada delle quafi no meio, eltá outro Pagode, em que antigamente fe entrava por huma formofa porta, que tinha hum portal de marmore curiofiflimamente lavrado. “Fem efte Pagode huma cafa grande , e tres camaras : na primeira da mão direita não ha já couía alguma; na fegunda havia dous idolos fobre hum grande poial quadrado. Hum deftes idolos fe chamava Vithalá Chendai, tem feis braços, e huma Íó cabeça , e eltá arrimado a dous idolos pequenos, que tem a cada parte. | Eite Pagode grande, e os outros pequenos , fe fabe por fuas elerituras dos Gentios ; que os mandou fazer hum Rey Canará , chamado Banafyr, e que os mandára fabricar, ejunto aelle huns formofos Paços; em us dis e «Dec VIE Lrv. HI Cap. XI. 26r fe apofentava quando alli hia, de que aine da em meu tempo feachavam alguns veftigios, e muitas ruinas de pedra de cantaria, e adobes mui grandes. Chamavam-fe eftes Paços, ou Cidade, que dizem que foi mui formofa, Sirbali; ea ferra, em que eflá o Pagode do Elefante , fe chamou Simpdeo. Aqui viveo alguns annos huma filha deite Rey, que fe dedicou a eíte Pagode a perpetua virgindade, que fe chamava Uquê. Dizem os antigos , que nefta Ilha do Elefante em tempo de ElRey Banafur ; choveo ouro por efpaço de tres horas, e por iflo lhe puzeram nome Santupori, que na fua lingua quer dizer llha do ouro. Não relato todas as coufas defte grande Pagode particularmente, porque são tantas, que fe não podem particularizar ; e porque não enfaftiem aos que as lerem. . CG APR T U-Lo SE De como o Governador Francifco Barreto houve ds mãos as fortalezas de Mart, e Manorá: e de como Antonio Moniz Bar= reto foi tomar pofê dellas por mandado do Governador: e de ontras coufas, em que proveo até fe partir pera Goa. A Sfentado em confelho que fe tomaffe a fortaleza de Aflari, que era tão Inex- Pugnavel por natureza, que fe havia por nú . 'd 268 ASIA ve Diogo bE Covrôó » tugal, como faziam ao de Cambaya pes »los mefimos foraes, e coftumes;, fem lhes > innovar coufa alguma , fenão em feu fa» »vor: » com o que começáram acudir ás aldeias, e lhes ordenáram recebedores, pera correrem com a arrecadação de feus fóros. - É | Negociadas eftas coufas muito bem » Vol tou pera Baçaim, e o Governador e tornou a defpedir com feiscentos homens pera irtomar a fortaleza de Manorá, e mandou D. Antão de Noronha com dez navios pera ir pelo rio aíflima favorecendo-o., e Antonio Moniz Barreto foi entrando pelas terras de Manorá fem achar refiftencia ; € indo demandar a fortaleza, a achou defpejada, porque o Agader o não oufou a efperar ; mas não foi ilto tão fecco, que os noflos da dianteira não tivellem algumas elcaramuças com os inimigos , em que lhes derribáram alguns. Defpejado o forte , tomou Antonio Moniz Barreto poífe delle » € poz nelle por Capitão hum Jorge Manhãas, Cavalleiro honrado , da obrigação do Governador , com cento e vinte foldados , e alguns Naigues, e peães da terra, e deo ordem á arrecadação das terras, como fez a: Aflari. | Acabado efte negocio, fe tornáram pera Baçaim , onde o Governador já eltava | preltes pera fe partir pera Goa, por lhe terem Dec. VII. Liv. HI. Car. XII. 269 rem chegado cartas , em que o chamavam com muita prefla , por ferem entrados nas terras vizinhas a Goa alguns Capitães do Idalcan com muita gente , e que cftavaim arrifcados Salfete , e Bardés a fe perderem. É dando defpacho a algumas coufas, (princi palmente ás de Ormuz, por lhe terem vindo novas fer falecido Bernaldim de Soufa, que lá eftava por Capitão, pera onde deípachou D. João de Ataíde ,) feembarcou, deixando fetecentos homens em Baçaim com ordem pera lhes darem mezas, de que deixou Capitães nomeados pera iflo. Antonio Moniz Barreto, Capitão da fortaleza , a trezentos e fincoenta. D. Martinho da Cunha, irmão de D. Pedro da Cunha, Capitão geral das galés do Reino, a duzentos. E Duarte do Soveral, Feitor , e Alcaide mór de Baçaim, a cento € fincoenta; e em breves dias chegou o Governador a Goa; e paílando pelo rio aflima com todos os navios de remo , fem querer defembarcar na Cidade, foi vifitar os paífos da Ilha, que provêo de Capitães, e foldados pera fua guarda, ede navios ligeiros pera correrem osrios; e nas Ilhas de João Chorão , Divar , e nas mais metteo gente de guarnição, e na fortaleza de Racol poz D. Jorge de Menezes Baroche , e D. Pedro de Menezes o Ruivo, com quairocentos homens pera guarda daguellas tersee ras; avo ASIA pe Droco DE Covro ras; e depois de prover tudo ilto mui bem; fe foi pera Goa, e defpedio Antonio Pes reira Brandão com feis navios ligeiros pera “andar por aquella cofta até Dabul, fazendo toda a guerra que pudefle ao Idalcan; e elle fe foi apofentar em humas cafas, que ef tão adiante de Santa Luzia pera dalli correr os paflos, e entender ras coufas da guerra, que de propofito determinava fazer ao Jdal can. CA Perla O» XI Do que aconteceo ná jornada a Pero Bar- — reto: e do engano que com elle ufow o Priicipe do Cinde: e de huma façanhofa ferpente, que bum foldado chamado Gafpar de Montarroio matou. T) Artido Pero Barreto Rolim de Baçaim; A (como atrás difemos no Capitulo IX. defte III. Livro,) foi atraveflando a enceada de Cambaya até Dio, onde chegou veípera de Natal. E depois de paflada a fefta, tornou á fua viagem, e foi de longo da cofia até a ponta de Jaquête, onde fe acabam os limites do antigo Reino Guzarate, e dalli foi atravellando aquella enceada, e foi to= mar a barra do Cinde, que commummente fé chama a de Cambaya, por entrarem pot ella.todos os navios, que vam áquellas pattes; porque a outra boca, que tem a ao ork Dre. VII. Liv. IL Car. XHI 27% Norte, fe chamia de Ormuz, por fahirem porella todos os navios que navegam por aquelle Eftreito; e chegada a Armada, foi eitrando pelo rio ás toas , pelas grandes correntes de fuas aguas, e puzeram oito dias até a Cidade de Tatá, dão fendo mais de trinta leguas. Elftava na Cidade o Principe Mirahan Baba, moço de doze annos, que o pai alli tinha deixado com alguns tutores pera governar o Reino, porque havia pouco tinha partido com feus exercitos em bufca do inimigo. E fabendo o Principe fer aquella Armada , que Ífeu pai; mandára pes dir; mandou vilitar o Capitão mór, e a fas zer-lhe a faber , como feu pai lhe deitára ordem, pera que como chegafle aquella Ar= mada a fizefle efperar até feu recado. Pero Barreto recebeo efte Enviado, e mandou a terra o Embaixador, que o fora bufcar; e com elle hum homem honrado, por quem mandou dizer ao Principe que elle vinha com aquella Armada em ferviço de ElRey feu pai; e que eftava preífles pera tudo e que lhe mandafle , e que défle ordein pera ir hum homem a ElRey , que elle queria mandar; o que o Principe fez , e lhe mandou dar aviamento de tudo pera o caminho: Efte homem, que Pero Barreto mandou, tomou a ElRei fobre a Cidade de Tiguir; que he no eftremo daquelles Reinos ; e fi | ca- 272 ÁSIA DE Droco DE Covro” cava da parte do Soltão Mahamede Bacha- 11, que a tinha muito fortificada , e allio ouvio, e o tornou a defpedir logo com recado a Pero Barreto « em que lhe pedia que » fe entretiveíTe alguns dias, e que nelles » lhe mandaria refolução do que havia de » fazer, com o que fe deixou Pero Barre- » to ficar norio da outra banda defronte da » Cidade. » É ElRei Mirzanhifá foi continuando o cer= co de Viguir, em que teve muitos recontros com os inimigos, de que houve damno em ambas as partes; e Bachari, que era valente cavalleiro, fempre lhe teve o encontro, € proveo os de dentro da Cidade, fem o inimigo lho poder defender. Vendo o Rei do Cinde que por força não podia tomar aquella Cidade, e que O inimigo eftaya poderofo, veio a entrar com elle em partidos, por meio Ge Capitães, que fe mettêram antre elles, e por fim fe vieram a concertar , que O Bachari lhe largafle a fortaleza de Tiguir, por ficar, como diflemos, nos eftremos de ambos os fenhorios , e que ficaffe com o que mais poíluia; e com ilto fe lhe entregou a fortaleza , que elle proveo de Capitão , € foldados, e voltou pera o Cinde. : Todo efte tempo efteve Pero Barreto no rio efperando o recado de ElRei; e porque não he razão que paflemos por Anshsrésia é ei= Dre VII. Liv. IN, Cap XII. 273 elpantofo , que aqui aconteceo ; daremos con ta delle. Coftumavam os noflos foidados it a terra à caça; e defviando-fe hum delles; chamado Gafpar de Montarroio, natural da Cidade de Fatão ; com fó (ua efpada; e ros della, foi-fe affaltando por hum mato ; e encontrando com huhns Gentios, lhe dilleram que não paflafle ávante , porque eltava all huma ferpente, que acabára de comer hum bezerro. O Gafpar de Moritarroio defejofo de a ver, lhes pedio lhe foflem meftrar o lus gat onde eflava, o que elles fizeram; eches . gando perto ; a vio eftar deitada ho mato com a cabeça fobre o caminho, eeltava fara ta, e pejada , e pela cabeça entendeo que devia ler coufa façanhola, porque o corpo. ficava efcondido no mato ; e defejofo de à ver bem, fe foi chegando tanto a ella; qué lhe pode chegar com a efpada com fer cur= ta: ella em o fentindo alevantou à cabeça; a tempo que elle hia com hum golpe , e quiz fua boa ventura que a tomafle pelo des golladouro , onde não tinha fortaleza; é cos mo a efpada era latga, e cortadora, a des gollou toda, eella com a dor da morte deo com o corpo tamanhas pancadas , que pus nha efpanto ; e médo , aié que acabou dé morrer. Os Gentios, que eftavam de longe vendo aquilo, ficáram paíimados, e forão fugindo; e o Gafpar de Montarroio voltou Couto. Tom. IP. Pal, S pe- 274 ASIA DE DiroGo DE Coviro pera a praia ; e tomando alguns marinheiros da fuíta, em que hia embarcado com remos , e cordas , fe foi com elles aonde eftava a ferpente; e a fez amarrar, e ás cof tas de todos a levou á praia, onde Pero Barreto fahio pela ver, que foi coufa, que admirou a todos, por fua groflura, e: grandeza; porque era tão grofla como hum homem ordinario, e de comprido teria trinta pés, e dizião os naturaes que era ainda criança. Pero Barreto mandou fazer huma forca na praia, e amandou dependurar por eípanto: e por efte feito fcou o Gafpar de Montarroio tão nomeado dos Gentios do Reino do Cinde, e Cambaya, que o bufcavam , elhe levavam prefentes, e peças. Viveo efte homem aié os annos de noventa e quatro, que fe foi pera o Reino, e no caminho nos parece que delappareceo a não em que hia. “Vendo Peito Barreto Rolim que o recado de ElRey tardava muito, e que todo o mez de Fevereiro era paflado, mandou requerer ao Principe, que pois ElRey feu pai não lhe mandava o que havia de fazer , e que fe hia o tempo gallando, que lhe mandafle cumprir os contratos fobre que viera aquelia Armada, pois debaixo da fé, e palavra de ElRey feu pai fizera o Governador com ella tamanhas defpezas. O Principe depois de alguns recados, e requerimentos Dre. VII. Lrv. lil. Cap. XII 255 tos deftes, a que fempre refpondeo com efcufas, lhe mandou dizer « que fe fe quizef- » fe ir o podia fazer , porque elle não ti= » nha ordem de ElRey feu pai pera mais, » que pera prover a Armada de mantimen-. » tos, que fe os quizelle , lhos mandaria » dar, » Delte defengano ficou Pero Barre- to enfadado , e começou logo a haver união por toda a Armada , porque quizeram os foldados que logo fe lhe dera o caítigo; mas Pero Barreto diflimulou com aquillo , porque defejava de não chegar a rotura , até ver o que ElRey mandava. E como os foldados da India são muito foltos, e livrês, | davam denoite grandes matracas ao Capitão mór; ea voltas de muitas palavras defordenadas lhe chamavam fraco, pufillanime-, e que “de medo não vingava tamanha offenfa; e tan= tas vezes lhe difleram eflas coufas, e outras, que lhe deo a defconfiança de maneira, que fem tomar confelho com alguem , mandou dizer pelas fuftas que fizeílem pelouros. Com elte recado fe alvoroçáram os foldados , e começáram a guarnecer feus arcabuzes , € alimpar fuas armas ; e entre tanto mandou o Capitão mór com muita diflimulação comprar mantimentos à Cidade, de que proveo a Armada baflantemente. SU CA: 276 ASIA pe Droco DE Covro CAPITULO XIV. De como Pero Barreto Rolim defiruio a Cidade de Tatá, e todas as Villas, e Lugares de buma, e outra banda do Rio: e donde mafceo o erro aos Geografos modernos chamarem à Provincia do Cinde Dulcinda. H M quanto fe os noífos preparavam com diflimulação , Ífuccedeo daquella banda donde eltaya a armada, elte cafo. Coltumavamos da Cidade ir à outra banda a vender fuas mecanicas aos foldados ; e como elles já fabiam que fe havia de dar na Cidade, hum delles mal foffrido tomou huns couros do Cinde a hum mercador fem lhos querer pagar , e ainda fobre io o esbofeteou; e a noite feguinte, eltando os noflos navios furtos , bem cozidos com a terra, ajuntáram-fe huns poucos de Diulis, (que são huns Gentios, que vivem daquella ban-. da, ) e de fima das barranceiras, que ficavam altas, defcarregáram fobre os noflos navios grande fomma de arcabuzadas, e fréchadas, com que encraváram muitos foldados; e foi a coufa tal » que fe levantáram Os navios, e foram Ífurgir no meio dorio, e dalli esbombardeáram bem os que lhes fizeram aquelle damno. Ao outro dia pela Em ma- Dec. VII Lrv. III. Car XIV. 577 manhã mandou Pero Barreto chamar os Cas pitães a confelho, e lhes dille « que era ne-. » celfario caftigarem aquella afronta, edef- » truirem por ella a Cidade, e que pera if- » fo fe foflem logo a tomar as armas, O » que todos fizeram com grandealvoroço. » Tomando o remo em punho, foram detembarcar na face da Cidade , é puzeram fuas bandeiras em terra, onde fe ordenáram ; e com grande determinação commettêram a Cidade, por onde foram entrando, e mettendo á efpada a toda a pefloa viva que achavam , levando diante de fi alguns magotes de inimigos, que acudiram a lhe defender a entrada, com quem apertáram tan- to, que de todo os puzeram em desbarato. E hum efquadrão de cavallo de mais de duzentos fe foram com a preíffa recolher a huma formofa Mefquita, que hum foldado: noflo vio; e vendo-que-o Capitão mór hia paffando ávante, lhe diffe « que voltalle; » porque lhe ficava aquella gente nascoftas ; » e que o feguiffe;, porque elle o levaria » aonde fe recolhéram. » Pero Barreto voltou logo, e «úilfe ao foldado que o guiafte ; echegando à Mefquita , a commettêrão com grande furia, fendo Pero Barreto o primei- TO que quiz entrar; mas atravelTou-fe-lhe' diante Cifal Pinheiro», dizendo-lhe, «que fe » detivefle, que aquele não era o feu lugar, » nem 284 ASIA pr Diogo DE Covro ma coufa com a outra , fendo Diul nome “da Cidade, e Cinde de todo o Reyno ; e daqui ficáram os Geografos modernos chamando a todo efte Reyno Dulcinda. Deta mefma maneira confundio Marco Polo Veneto, ou ieus trasladadores, o nome da Provincia da China, fazendo de huma fó duas, por ella maneira. Aquelle Imperio da China fe chama antre os naturses Cin, Macin ; e dividindo elle efte nome (que he todo hum) em dous, chamou a huma parte China, e á outra Man- 81. E ainda Abrahão Ortelio paffou adiante; que deo limites a eltas duas Provincias, lançando no feu Theatrum Orbis a Provincia Mangi mais ao Norte da da China E tornando aos povos Diulis, nelles fe começa a Provincia Gedrofa, que Aiton Armenio, e Sabellico chamam Tarfe. E Jofefo Moletio, e Cadamofto Guzarate , (cujo erro na V. Decada fica declarado ,) e Jeronymo Rufceli, fallando nefta Provincia, diz que todos os della são Chriflãos, e não fabemos com que fundamento, nem porque informações, porque hoje na-India não temos noticia alguma diflo, nem por eferituras, nem por memoria de avós, e netos, em que neftas partes fe confervam por muitas centenas de annos fuas antiguidades. | DE- Ca Dee ae eae (ea a pager, ES mma | ARA aa O O ae A Va VE Ao NE O À 3) E E NI S NRP RS RA RN NUR RE SUP RS A. DECADA SETIMA.. Da Hiftoria da India. LIVRO WW. CAPITULO Do que aconteceo à não S. Paulo até Cóchim: e de como Pero Barreto Rolim defiruúio a Cidade de Dabul. N4osS. Paulo, quetinha partido do Reino na companhia de D. Leonardo de Soufa, (de que era Capitão, e fenhorio Antonio Fernandes, ) que deixámos invernando no Brazil, onde efteve finco mezes; e tomando-fe parecer com os Officiaes della, e com os que havia na terra, allentáram todos « que fe partillem dalli em » Outubro, poderia muito largamente paf- » far á India, e tomar ainda as nãos pri- » meiro que partiflem pera o Reino. » cid clui- 286 ASIA pe Droco DE Cotro cluidos nilto, deo-lhes D. Duarte da Cof ta todo o aviamento poflivel, e fe fez à vês la na entrada de Outubro paílado de fincoenta e finco. É feguindo fua derrota, de pois de paflarem o Cabo de Santo Agoftinho, aflentado de ir por fóra da Ilha de S. Lourenço, foram-fe pondo em quarenta, quarenta e hum grãos do Sul, paragem, que por andar o Sol affaítado pera a parte do Norte, ficava o dia tão pequeno, que não havia tempo pera mais, que pera fazerem de comer huma vez ao dia, o que deo grande trabalho a todos. E depois de vingarem a altura do Cabo de Boa Efperança, tomáram a derrota por fóra da Ilha de 8. Lourenço, e ainda de todos os baixos, pe ra irem demandar a ponta de Camatra, € dalli voltarem com as nãos de Malaca , O que fizeram fem trabalho , porque os tempos os favorecêram bem. E como eftiveram na altura de Camatra fem quererem ver à terra, voltáram com os levantes em outro bordo , e foram na derrota de Ceilão , e houveram vifta da ponta de Gale, fem poderem ferrar terra; e atraveílando a outra colta, foram tomar as arêas gordas junto ao-ca- bo Camorim. E de longo daquella cofta com os ventos, que eram bonançofos, chegáram a Cóchim aos trinta do mez de Janeiro de mil quinhentos fincoenta efete, onde Es achã- Dec. VIL-Liv. IV. Cap. IL 287 acháram a não Capitânia, de que era Capitão D. João de Menezes , que deo à véla ao dia feguinte , muito contente por levar novas daquella não , porque fe tinha della muito ruins fuípeitas. A não S. Paulo tan- “to que furgio, defembarcou D. Antonio de Noronha, e tomou logo alguns navios de remo , em que fe embarcou com feflenta foldados, e fe foi pera Goa, onde foi bem recebido do Governador Francifco Barreto, e lhe fez mercê de dous mil cruzados, que ElRey lhe tinha mandado empreltar do cofre do cabedal , pelas muitas deípezas que naquella jornada tinha feito; ea não S. Paulo: fe partio logo pera Goa, onde invernou, e fe concertou pera eltar preítes pera o anno feguinte. | Agora deixaremos eftas coufas, e tornaremos a continuar com Pero Barreto Rolim, que ficou partido do Cinde , por levar afim a hiftoria enfiada. Efta Armada, depois que deo á véla, foi feguindo fua derrota ; e antes de chegar a Dio , lhes deo hum tempo tão groffo, que lhes foi neceffario alijar ao mar tudo o que traziam do Cinde, porque os comiam os mares; e affim tornáram a perder com muito rico da vida o que com tantas mortes dos inimigos tinham ganhado naquella Cidade , vendo-fe Muitas vezes alagados , e perdidos. o quiz é eos 288 ASTA pe Drovco dE Covro Deos que ceflaffe o tempo , com que def troçados , e alagados foram tomar Chaul, onde fe ajuntou toda a Armada, que tomou differentes portos. Alli achou Pero Barreto Rolim cartas do Governador , em que lhe mandava « que de pallagem defembarcafle » em Dabul, onde acharia Antonio Pereira » Brandão, e que deftruifle aquella Cidade » detodo, porqueera do Idalxá, com quem » ficava de guerra. » Com eftas cartas fe refez ; e ajuntou mais alguns navios, e gente, que eftava pes ra ir pera Goa, e deo à -véla com vento profpero; e chegando áquella barra de Das bul, achou Antonio Pereira Brandão com os Íeus navios, que lhe deo hum regimen- to do Governador fobre o mefmo negocios Com ifto fe negociou, e deo recado a todos os navios , pera que eftiveílem preltes pera o outro dia de madrugada : e tanto que foi meio quarto de alva rendido , foi entrando pela barra dentro ; e pondo as proas na praia da face da Cidade , faltáram em terra com fuas bandeiras, e guiões, e Pero Barreto por derradeiro com a de Chrito, e em muito boa ordem foram commetter à Cidade com grande eftrondo de artilheria dos navios, e dos inftrumentos militares. É Antonio Pereira Brandão, que levava a dian- | teira , achando - hum grande qua de E qUu= Dec VIL Liv. IV. Cap. E 289 Mouros , que fahiram a lhes defender a def embarcação , tão determinadamente os come mettco, e efcandalizou., que-os foi levan+. - do de arrancada , e -mettendo pela Cidade, entrando todos elles de volta, Pero Barreto chegou á entrada; e fabendo que Antonio Pereira Brandão hia vitoriofo, receando algum defarranjo , mandou pôr fogo à Cidade por algumas partes, pera que os foldados fe não embaraçallem com o roubo, de “que hiam já tão cubiçolos. Os moradores tanto que fentíram o fogo, e viram o eitras go que os noífos hiam fazendo, tomando as mulheres os filhos ás coftas, foram fogindo pera fóra da Cidade, deixando os-noilos fenhores della; e como já hia amanhecendo, e elles viam tudo, mettéram á efpada toda a coufa viva que acháram ; e Os que mais palsáram efte tranfe, foram mulheres ; meninos, e gente melquinha, porque a da guerra fonbe-fe pôr em falvo; e neita foi tamanha a crueza, que corram pelas ruas arroios de fangue. | Tanto fe mettéram os noílos pela Cidade, apôs os que hiam fogindo, que fotam Jubindo até o monte, onde eftava huma formofa Melquita de abobada, que derribáram , e puzeram. por-terra, fem deixarem couia em pé. Pero Barreto Rolim mandou por alguns Capitães , que déflem fogo a toda a “CoutoTom IV PL. E Ci- "296 ASIA pe Diogo DE Covro Cidade, como fe fez, porque os foldados fe não metteflem pelas cafas a roubar, oque . lho não eftorvou , porque a mór parte delles fe recolhêram carregados de fazendas, por eftar efta Cidade muito rica, como aquel: la, que era a principal efcala de toda a cof ta do Idalxá. Feito efte negocio, fe embarcou Pero Barreto Rolim, e mandou Anto-. nio Pereira Brandão com os feus navios, pera que fofle pelos rios aílima queimar, e deftruir todas as povoações que por elles houvefle : o que elle fez muito bem, deixando tudo tão aílolado, e deftruido, que não havia em que pôr olhos. Acabado ifto, fe recolheo Pero Barreto Rolim pera Goa, onde o Governador o recebeo com honras, e aílim “o merecia , porque deixava affola-, das, e deftruidas as mores, emais ricas duas Cidades da India. [ GA PPAU OA De como o Governador Prancifco Barreto pallou à terra firme em bufca dos Capitães do Idalxá : e da batalha que lhes deo, em que os desbaratou: e de outras coufas. | / Endo o Idalxá o damno que os nof- - fos lhe fizeram por toda fua cofla, e que lhe deftruíram , e abrazáram a Cidade ; de Dec. VII Liv IV. Car. II. 291 de Dabul, em que Ífeus vaffallos recebêram tamanhas perdas, e elle tanta affronta, des terminou de fe vingar , e de fazer guerra ao Eltado, por ver fe podia lançar mão das terras firmes de Salfete, e Bardés. Pera if= to fez chamamento de feus Capitães, e lhes fez fobre illo huma grande falla, emque. lhes reprefentou a obrigação em gue elles, como vaflallos tão leaes , ellavam de fatisfazerem asaffrontas, que tinham recebido dos Portuguezes; e como havia tantos annos que lhe comiam: as fuas terras firmes de Salfete, e Bardés, que lhes deram por mandar Mealecan' pera Portugal, o que nunca os Governadores da India lhe quizeram cumprir : e que elle agora, pois lhe tinham dado tamanha-occafião ; queria lançar mão do que era teu, e que determinava de mandar delcer feus exercitos abaixo ; ecoimmetteo logo alli aquella empreza a Nacer Maluco, feu Capitão geral, e com elle outros quatro Capitães ; Calabatecan o fegundo, e hum filho “feu efquerdo chamado Cahircan, Miaberu, eoutro; e deo por regimento a Nacer Maluco, que fe fole ajuntar com Moratecan Gos vernador do Concan , que tinha defcido o Gate contra D. Antão de Noronha, como já atrás contámos: no Cap. X. do II. Liv., pera que ambos com igual mando fizelem guerra aGoa, e ás terras, e Ilhas de fua jane: g 11 - 292 ASIA DE Drogo DE Couro » Eftes Capitães chegáram a Pondá na en». trada de Abril, e alli fez Nacer Maluco | alardo de fia gente, e achou vinte mil homens, em que entravam deus mil de cavallo, e efcreveo a Moratecan, queeftava em Carule , que fizefle elle por aquella banda guerra contra as terras de Bardés , e fuas “[Lanadarias, e que elle ficaria deftontra banda de Saltete , pera afim darem mais gue. fazer aos Portuguezes. O Governador foi logo avifado da Cidade deftes Capitães , e acudio logo a prover todos os paflos da Ilha de Goa, e pelos rios efpalhou muitos navios, e manchuas pera defenderem a paffagem aos inimigos; e o mefmo fez pelos paf fos das mais Ilhas , e lançou efpias fobre aquelles Capitães, pera que o avifallem de como eltavam, e do poder que tinham. A primeira coufa que fez o Nacer Maluco, foi defpedir Calabatecan , e feu filho com finco mil homens , pera irem tomar poíle das terras de Salfete, e arrecadarem o rendimento caquellas aldeas; o que elles fizeram, mandando diante grandes feguros pera os lavradores , e naturaes fe não alterarem, nem afiugentarem , mas que grangeaflem luas terras pacificamente, e pagallem feus foros ao Idalxá, cujaseram, porque elles vinham pera os favorecer, e defender de quem lhes quizefle fazer injúria, damno, -ou affrorita., Fele Dec VIL-Liv. IV. Car. HH.” 29% Feito io, e quietos os moradores, fos ram aquelles Capitães dar vita á fortaleza “de Rachol, onde ellava D. Pedro de Menezes, o Ruivo, por Capitão, que lhes fahio com duzentos foldados , e quinhentos peies da terra, e travou com os da dianteira algumas efcaramuças , em que lhe matou alguns Mouros, deixando-fe ficar no campo com as coftas na fortaleza , e dalh “lhes fahio muitas vezes a-dar toques , em que fempre os efcalavrou ; e todavia de algumas. o fizeram recolher à fortaleza com trabalho, por carregar fobre elle todo o poder, ficando os Mouros comendo as aldeias. que fe lhes não pudéram defender por fer. o poder groflo. O Governador teve logo re= cado de fua entrada nas terras de Saifete e que as gentes de Moratecan appareciam já pelas de Bardés , pelo que determinou de paffar a Salfete em peífoa, e dar-lhes batalha; porque o cançariam muito , fe lhe ficallem invernando nas terras; e afim fez logo alar« do de toda a gente que havia em Goa, e achou tres mil foldados muito luítrofos ; é duzentos de cavallo ginetes, que eram os moradores , debaixo da bandeira de Jorge de Mendoça, Capitão de Goa, e O Tanadar mór fez pelas Ilhas mil peães , que O: haviam de acompanhar naquella jornada. Preltes tudo, paflou-fe o Sonora as 300 ÁSIA pe Dioco pe Covto que andavam pelos rios, eifto fazia muitas; vezes de noite pera os tomar defcuidados, e vera vigia que tinham. O Nacer Maluco tanto que teve rebate que o Governador era recolhido , tornou-fe pera Pondá, e mandou reformar a fortaleza; e porque com as aguas do inverno os não podiam os noflos ir buf. car, (por eftarem asterras alagadas ,) repartio os feus pelos pafios fronteiros aos nofs fos, donde começáram a fazer toda a guers ra que puderam, defendendo as coufas que coftumavam a paflar da outra banda pera a Cidade , com o que começou dehaver careftia de algumas. Mas onde elles mettêram mót cabedal foi nas terras de Salfete, que o Gos vernador Francifco Barreto proveo mui bem, mandando D. Jorge de Menezes Baroche “com duzentos homens pera fe ir ajuntar com D. Pedro de Menezes feu primo, e ambos juntos tiveram alguns recontros com os ini migos, que por ferem miudos deixamos; € poito que os inimigos nelles leváram o peior, todavia elles andavam como fenhores da ter= ta, e as arrecadavam fem lho poderem defender, por ferem tamanhas que chegavam a vizinhar com as terras do Idalxá. Aflim que todo efte inverno foi aos noflos muito trabalhofo , porque nunca. defpíram as ar» mas, paflando muitas ribeiras de noite, e terras alagadas pera irem dar nos inimigos; a que Dec VIk-Liv. IV. Gap. ser que não dormiam em parte alguma Íeguros ; e porque efta guerra foi mais de trabalhos, que de proveitos, não trataremos della mais nelta parte. E O Moratecan, que fazia guerra às terras de Bardes, tambem as inquietou muito com outros aflaitos , a que fempre refiltio João Peixoto, que lá eftava por Capitão com fincoenta foldados ,. e muitos peães da terra, com que andou fempre nos paílos defendendo as entradas: e.o que mais O inquietou , “emais damnos fez por todas aquellas aldeas:, foi hum Portuguez arrenegado, que andava com os Mouros , que por cobrar credito com elles, fe moftrava muito atrevido. Ele fez huma tranqueira forte nos eitremos das terras, em que fe apofentou com quinhentos peães, e dalli fahia a faltear os lavradores, e a roubar os naturaes, que já com o medo delle não lavravam as terras, e a mor par- “te delles eftavamrecolhidos nas Ilhas vizi= nhas a Goa, com o melhor da fubllancia que tinham. - João Peixoto, que era muito * bom cavalleiro; armou-lhe muitas vezes algumas cilladas pera o haver às mãos ; mas nunca pode , porque o arrenegado era mui precatado , e todos os feus faitos fazia -de noite, fem dar conta nem aos feus, da parte por onde havia de entrar, nem oque determinava fazer, com o que trazia ao paso | el- 302 ASIA DE Diogo DE Coviro Peixoto muito cançado, e quebrantado. E informando-fe do modo da Íua tranqueira, determinou de o ir commetter nella, e lan: gallo dalli : pera o que mandou pedir ao Governador alguma gente, que lhe mandou cem Portuguezes de efpingardas. Com eles, e com os que mais tinha, e duzentos peães da terra , partio huma madrugada pera a tranqueira, que commetteo com grande des. terminação: e poíto que achou no arrenegado grânde refiltencia, todavia elle a entrou com grande damno dos inimigos, porque à arcabuzaria fez lugar a tudo, e oarrenegado fe foi recolhendo pera os matos, deixando a trangueira, que foi poíta toda a fogo; fem lhe ficar nada em pé. Com efte feito fe recolhêram os noílos com alguns cativos; e fato, que na tranqueira fe achou. Oarre. negado, tanto que Íahio da tranqueira, foi fe pelos paffos das terras, onde os Mouros tinham gente de guarnição , e ajuntou dous mil peães, e duzentos de cavallo, e foi ata lhar o caminho a João Peixoto, que ao re “colher em hum paflo bem perigofo , deo com elle; mas como era cavaleiro, e determi nado , não fe embaraçou com coufa alguma; antes com muito acordo, e animo repartio os feus em dous efquadrões , e commetteo a palagem , onde teve huma muita aípera batalha com os inimigos, em que fe a - l= Dec. VII Lrv. IV; Car. UI. 303 dido; mas a efpingardaria fez caminho de feição, que foram os noflos: paflando , amda que com muito rifco , perdendo alguns companheiros, porque chegou a confa a fe baralharem huns com os outros, e chegarem às mãos, e aos cabellos; mas como os noffos víram que o remedio de todos eftava em feus braços, fizeram muito por fe ajudarem delies; e aflim quafi todos milturados foram caminhando grande elpaço , até que quiz Deos noflo Senhor déflem huma efpingardada no Capitão da gente de cavallo, que logo o derribou morto , e hum foldado lhe cortou a cabeça, com o que os feus afracaram, eos noflos cobraram tanto animo , que voltáram fobre os inimigos , eos fizeram fugir, com morte de mais de cento e fincoenta, e muitos cavallos. João Peixoto vendo desbaratados os inimigos , fe foi recolhendo até Bardés , e mandou a cabeça do Capitão de prefente ao Governador , que a eltimou muito, e lhe mandou os parabens do honrado fuccelo que teve. O arrenegado fe recolheo ferido, e não fez por então mais aflaltos , nem houve mais inquietações naquellas-aldeas. Nelte eftado deixaremos eftas coufas , porque nos cabe aqui continuarmos com Manoel Travaflos, e Balthazar Lobo de Soufa , que deixámos faaendo-fe preftes , hum pera levar o Bifpo | â 304 “ASIA.DE Droco DE Corto á Ethiopia , e o outro pera a Ilha de São Lourenço. - E CG AMartoU LO: Do que atonteceo na viagem a Manoel Tra valios , até lançar o Bifpo no Porto de Arquico : e do que Juccedeo ao Bifpo até Barod. Or muita preífa que em Goa ficáram À dando aos navios, que haviam de levar o Bifpo, e os que haviam de ir á Ilha de S. Lourenço, não puderam dar á véla, fenão Balthazar Lobo em Janeiro; e Manoel “Pravallos em Fevereiro. Elte levava quatro navios, de que a fóra elle eram Capitães Pero de Siqueira, Vafco Correa, natural de “Alcacer do Sal, e Antonio Vaz, com quem hia embarcado o Bifpo D. André de Ouviedo, e hiam com-elle dous Padres da Companhia, o Padre Manoel Fernandes pera Reitor, e o Padre Gonçalo Galtamas Cordovez com alguns irmãos. Dadas eltas duas Armadas à véla, foi-fe Balthazar Lobo feu caminho, a que depois em feu lugar tornaremos, e Manoel Travaílos, por outra derrota demandar a cofta de Arabia, e aos vinte e feis de Fevereiro (que foi Quarta feira de Cinza) chegáram á Ilha de Sacotorá , onde o Bifpo defembarcou com os companheiros , : em ita Dec. VIL Liv. IV. Cato IV. 305 huma Ermida que alli eftava, deo Cinza; e fe fez o Oficio conforme ao tempo, e depois foi vifitar a Igreja, que fez o Bemas venturado Apoltolo S. Thomé , que eltava dentro na povoação, onde o Bifpo difle Mile fa: e acharam alli hum Ermitão dos da ter= ra com hum companheiro , que tinha hum capello de S: Franeifco, que parece lhe deo algum Frade , que-por alli paffou. Alli fe detiveram até o Domingo feguinte, em que depois de ouvirem Milla fe embarcáram, *e ao fabbado dahi a feis dias foram haver vifs ta da Cidade de Adém, do que ficáram en» fadados , e aquella noite embocáram as pore tas do Eftreito pela Banda do Abexim ; e. fendo já dentro, lhes deo hum remporal tão rijo, que apartou os navios, e dalli de Ilha em Ilha foram tomar a de Maçuá , onde Manoel Travaffos levava por regimento; que não bullie , nem alvoroçafle a terra por fer do Turco, e que pacificamente dei tafle o Bifpo em Arquicó, fobre-o que hou- ve antre os foldados grandes motins , porque defejavam de dar naquella Ilha, em que efperavam tomar boas: prezas , e o Bilpo com muito trabalho os apafigou. Manoel Travaflos por não fahir do regimento que levava, furgio hum pouco affaftado da llha; a quiz primeiro tomar falla do que lá na; elogo foram viltos da terra firme, que Conto. Tom. IV. P. I. V era 306 ASIA de Diogo DE Covró era muito perto, onde acertou de ellar hum moço de hum Gonçalo Ferreira, que era Capitão , e Senhor do Porto de Arquicó, por outro nome Decano , que lhe deo o Emperador ; e vendo os navios , mandou logo a elles hum moço Abexim de hum Francifco Jacome Monteiro, por quem mandou huma carta-de feu amo ao Capitão mór, em que lhe dizia, que eitivera alli muitos dias efperando por navios da India, por lhe parecer que viria o Patriarca, e que por ter novas de Turcos fe recolhêra. O Bifpo a eftimou muito, por faber que a terra eltava quieta, porque do moço foube que em Maguá ellava Soltão Ifmael , que era Senhor daquella Ilha, e da de Dalaca , que ellava oito leguas ao mar , e não tinha comíigo mais que vinte efinco Turcos. Eftando neftas perguntas, appareceo huma gelva, que deus dos noílos navios foram demandar, e à fizeram varar na Ilha de Maçuá , elogo acudiram os Turcos com efpingardas ade fendella; o que vifto pelos noflos, fe recos Jhêram por não amotinar a terra. O Soltão Imael, que tambem defejava de não romper com os noflos , ou pera melhor dizer eltava medrofo , porque tinha pouca gente, (porque eftes nada fazem por virtude, lenão por neceflidade , ) arvorou logo fobre huma, guarita duas bandeiras, huma branca em E na Dec. VIH. Liv, IV. Cap. IV. 307 nal de paz , e outra vermelha em final de guerra, como que convidava aos noflos qual daquellas queriam acceitar. O Capitão mór como parecer do Bifpo., e dos mais refpondeo-lhe com outra bandeira branca, Nela mefma conjunção foi o moço de Gonçalo Ferreira, queeltava em Arquicó por Feitor ; e foi recebido dos Portuguezes com cavalgaduras, que vivião perto, porque logo ti veram as novas dos navios, ecom fua vinda defembarcou o Bifpo no porto de Ar= quicó, e foi recebido dos Portuguezes com grande alvoroço. Iíto foi aos dezoito dias de Março. Manoel Travaflos tanto que deitou o Bifpo em terra, e a todos os mais, que com elle haviam de ficar; arrecadando fuas cartas pera o Governador , toruou a fazer véla pera a India, e no caminho lhe deiappareceo a fufta de Vaíco Correa, que foi dar á cofta por Xael, onde os mais dos Portuguezes foram mortos , e elle com os mais navios chegou a Goa, e deo as cartas ao Governador Erancifco Barreto, que eltimou muito ficar o Bifpo polo em terra tanto a feu Íalvo. E tornando a continuar com elle aquelle dia, que foram aos dezoito de Março; em que defembarcou já Sol pofto, começou qa caminhar com muito regozijo, € alvoros £0, levando-o os Portuguezes em meio, € - Vi | por - “808 ASIA pe Droco DE Covro por todo o caminho o foram fervindo de “tudo em muita abaftança; e porque não fi que em efquecimento , diremos os nomes de todos. Antonio Goes de Santarem, Francif. co Dias Machado, Pero Martins, Diogo Gonçalves , Jorge Vaz, Francifeco Moreira, Diogo Moniz, João Fernandes, que foi de D. Francifco da Gama, fegundo Conde da Vidigueira. Gafpar Nunes, Gonçalo Soares Cardim, natural de Cintra, que foi em companhia do Biípo, que ainda ão prefente vi- ve, eque de lá nos mandou a relação della jornada, e de tudo o que fuccedeo ao Bifpo, do dia que entrou na Ethiopia até que morreo. Ao outro dia, que foi fefta feira, chegáram a huma aguada, onde dormiram ; e ao fabbado vinte do mez encontráram mais alguns Portuguezes , que vinham em bufca do Bifpo, que eram Francifco Jacome Capitão da guarda de ElRey , Luiz Cuftodio, Antonio Lopes de Oliveira, é Antonio de Sampaio, que traziam formofas cavalgadu- Tas; capas de grã, chapeos de veludo pre- to, muitos lacaios, e alguns criados do Barnagais com cavailos, e mulas pera o Bilpo; e feus companheiros , que recebeo a todos muito humanamente , e foram caminhando muito bem providos de tudo. Ao outro dia; que foi Domingo , houve Milla, e préga-,, ção com muita devoção, e alegria de e a= Dec. VIL Live IV. Car. IV. 309 Daqui foram fempre caminhando por al deas, e povoações proíperas, e abaltadas de mantimentos de todas as fortes, e aos vinte e feis dias do mez de Março encontráram o Barnagais, que já vinha: bulcar o Bifpo, e fe lhe lançou-aos pés com muita humildade, e elle o recebeo mui honradamente, e lhe deitou fua benção, e voltou com elle, dando-lhe pelo caminho todo o necelfario a todos até chegarem a Baroá, € O Bifpo foi levado a huma Igreja dos Abexins da invocação do Mujo 8. Miguel, onde fez oração , e deitou a benção a todos; € depois foi apofentado em humas cafas mui boas, e os Portuguezes todos: ao redor. Aqui fe detiveram até a Pafcoa , que cahio a onze de Abril , com muito gofto, € alvoroço; que lhes não durou muito , porque logo a primeira Oitava chegáram novas aprelladas , que tinha defembarcado em Arquicó hum Baxá do Turco com muita gente; que vinha em foccorro do Rey de Adel; que trazia guerra com o Emperador.; o que O Biípo fentio muito, elogo fe poz a caminho com todos os Portuguezes pera a Corte, caminhando com muita preífa; e tento. Afim o deixaremos por hum pouco, porque he neceffario continuar com Balthazar Lobo de “Soufa , que deixámos partido pera à Ilha de. S. Lourenço. - — CA- “916 ASIA DE Drogo DE Covro lhe fora fogindo pera Africa, e de lá fe paffára a Cales, onde armára duas embarcações pera ir rodeando a cofta de Africa a bufcar aquellas gentes da cofta da Ethiopia, a quem ficára affeiçoado , e'com o olho nos grandes proveitos, que de feu commercio efperava;, a que chegára , e pallára o Cabo de Boa Efperança; e que tornando de lá , achára huma formofa Ilha naquelle caminho defpovoada, que lhe parecêra muito fertil, e abaftada de aguas, e fruitas; e que por lhe pa= recer muito freíca, depois de chegar a Helpanha , partíra em huma não carregada de arados, e fementes, com alguns companheiros pera a povoarem, e cultivarem, e que fe fora perder na cofta da Ethiopia junto do Cabo de Boa Efperança, onde dos pedaços da não ordenára huma embarcação , em que fe falváram. E confiderando nós toda elta viagem, por fem dúvida temos fer aquella Hha, que acháram tamanha, e tão fertil, elta de S. Lourenço, porque deída cofta de Mes linde até o Cabo de Boa Efperança não ha outra tamanha, nem tão fertil. É já que fallámos nas Ilhas do Comoró, daremos dellas huma breve relação. São eftas. Ilhas quatro , e eftão em altura de treze até quinze gráos e meio. A maior de todas he a Angarica, que ferá de quarenta leguas decomprido, dez de largo; he tão alta a i Dec. VHL rvcIV-CarÉVS 217 fi como a Jlha do Pico; faz por fima hum comoro grande, e vai defcendo com huma ponta até o mar. He toda em roda muito limpa. de baixos, e reftingas, e he fenhoreada pela fralda de Mouros Arabios daqueles; que primeiro vieram ter á cofta de Melinde; eeitá toda repartida em vinte fenhorios, que continuamente tem antre f guerras: aqui he O principal commercio dos Mouros de Meca, porque vem todos os annos a ella muitas nãos a. carregar de gengivte, e de outras mercadorias, e os Cafres naturaes daqui são muito pretos, e as mulheres bem aílombradas, e tem nas fontes fogos como Abexins, e são efcravos muito eftimados de todos. As outras tres Ilhas fe chamam Anjoane, e tem hum fó Senhor, Molalle outro, e Maoto, que he a maior, he tambem fenhoreada de hum Rey, e ha nella trinta Cidades a feu modo; de trezentos até quatrocentos vizinhos: he de grandes ferras, tem muitas ribeiras de aguas excellentiflimas , são todas de ares mui fádios. Não ha nellas bicho algum peçonhento, são mui fertiles de arroz , milho , vaccas, cabras, gallinhas, e de tantas canas de açucar , que são como matos bravos, muito groflas , e formofas ; e fe fe ordenarem nellas engenhos , ferão tão profperas , como a Ilha da Madeira: ha nellas infinito gengivre, e tem difpofição ; pe- 318 ASIA DE Droco DE Covrto pera tudo. o que nellas fe quizer femear, Hum Fidalgo honrado andou alguns annos em requerimento com ElRey D. Sebaftião, que lhe delle licença pera os conguiftar, dando-lhe navios, e artilheria, que elle bufcaria gente, e que daria a ElRey huma copia de elcravos todos os annos pera as galés; e não foubemos os inconvenientes que fe niffo acháram ; porque ainda que não fora mais que pera arrancar dellas os Moutos; e delterrar o commercio de Meca, fora coufa de muita importancia; quanto mais tantos proveitos, como fe dellas podiam efperar, como era o de: fe povoarem aquellas Ilhas de Portuguezes , que alli ficariam vivendo ricos, e da grande Chriftandade que fe poderia fazer, e vir por tempo a fobmetter as Ilhas todas debaixo do jugo de Chrifto. Havia antigamente outras finco , ou feis Ilhas junto da de Maoto, que por ferem baixas asalagou o mar; e ficam como baixos, on= de o mar quebra: tem todas formofiflimos, e fegurilimos portos pera todos os ventos; e capazes de nãos grandes. | CA- DecaDa VII Liv. IV. 3719 Cerri Do que aconteceo ao Bifpo D. Lindré de Oviedo até chegar a je ver com o Emperador da Ethiopia : e do que com elle pafou. D Eixámos o Bifpo partido de Baroá com as novas que lhe chegáram do Turco; e antes de chegarem á Corte , fe adiantou Luiz Cuftodio pera ir negociar feus recebimentos, e por todo aquelle caminho foram comendo muitas gallinhas do Perú, perdizes, vaccasbravas, merus, pombas, rolas, e outras aves ,.de que por aquella terra ha infini= dade, e o vinho que bebiam era ferveja, e todos os dias-até o Efpirito Santo coméram carne, feftas, e fabbados , por fer aflim coftume dos Abexins; e paflada a feita, Jejuam todo o mais do tempo tres dias na femara. Ao cabo de dez dias chegaram a huma Igre- Ja do Orago de N. Senhora de Nazareth, onde refidia o Patriarca, que lhe mandou O de Alexandria, que era Neftoriano , com quem fe não quiz ver o Bifpo, e paílou lo- 80 adiante: até huma feira real, que fe chama Mantadelle , aonde acháram bum criado de hum Chriffovão Nunes de Serpa, natural de Arouca, que agazalhou a todos ef Plendidamente. He 320 ASIA ne Droco DE CovrTo He efta feira de hum Mouro grande peffoa, e muito rico, que lhe rende muito, e della vai o fal pera todo o Reyno. Daqui fe partiram huma quinta feira , e atraveílaram huns campos muito formofos, em que acháram muitas vaccas, porcos , elefantes, renocerotes, e ao fabbado chegáram a huma terra, onde eftava o Luiz Cultodio, que era fua, e efperava pelo Bifpo com tres tendas armadas, € com infinitos refrefcos de todas as fortes de fruitas , e carnes que na terra havia, com que hofpedou-a elle; e a todos os mais mui honradamente. Era efte homem cafado , e tinha alli fua mulher , que não quiz apparecer ao Bifpo, porque era Neftotiana, e nunca quiz fer Catholica; mas logo houve o caftigo diflo, porque pafláram poucos tempos que não morrefle de pelte, e foi lançada no campo, onde a coméram os lobos. Daqui fe partio o Bifpo à fegunda feira, e foram todos caminhando por huma formofa eftrada , até chegarem a huma aldea de hum primo com irmão do Emperador , que fe chamava Abitichon Acabo; e eltava alli com outro feu irmão chamado Abitichon Anes, (Abitichon he titulo antre elles, como antre. nós o Dom.) Eftes Senhores agazalháram & Bifpo;, e todos os mais mui honradamente. Daqui foram caminhans do. por campos fertililimos , e povoações mui Dzc. VII: Liv. IV. Car VI. 32t mui grandes; e abaftadas de tudo. À fefta feira chegou ao: Bifpo o Feitor de Gonçalo Ferreira, que tinham achado em Arquicô ; “e lhe aprefentou da parte de feu amo huma formofa tenda com Íua cerca á roda, e hus . ma rica alcatifa, e hum efcravo; e tres mus las, o que elle eftimou muito. fegunda feira feguinte chegou o mefmo Gonçalo Fer reira, (que vinha pera acompanhar o Bifpo até a Corte,) e trazia huma copia de-crias dos, e offereceo ao Bifpo, e a todos os que com elle vieram da India; ouro; e-tudo O mais que houveffem mifter. Logo adiante acháram outro Portuguez chamado Jorge de Barros , que vinha da “Corte, ectrazia: fua mulher em huma for= “mofa mula; veítida ao modo da terra, e por fima-dos trajos humrico bedem;, e rebuçada com huma: fina -beatilha, que não appareciam mais que os olhos ; e na cabeça hum chas peo de veludo alto; eo Bifpo' lhes fez hons ras, e gazalhados; e tornáram a voltar com o Bifpo até huma aldea de Gonçalo Ferret ra, que hia com elles, onde foram agazalhados , e banqueteados efplendidamente. Aqui veio ter com o Bifpo hum Portuguez , chamado João Gonçalves, que tambem tras zia fua mulher, que -erbAbexim, de cafta Principal, erica, evinha em huma formofa mula, cuberta com hum panno de borcados Conto TomdV.P.L o H que 322 ASIA dE Diogo DE Covfo que lhe ficava como gualdrapa, e ella com huma roupa larga de veludo negro , e por fima hum formofo bedem , e na cabeça hum chapeo de veludo alto, e calções até os pés, mourifcos de feda , com muitos botões de ouro; trajo que as fenhoras Abexins usão, e nos braços muitas manilhas de ouro macias; e o marido vinha em huma boa mula, etrazia hum formofo ginete à deitra, e elle veftido cuftofamente, e na cabeça barrete preto com golpes, e pontas de ouro à Portugueza: antiga, Com elle vinha outro Portuguez chamado Manoel Gonçalves em hum cavallo, com huma béfta no arção, € trinta lacaios de efpadas , rodellas , lanças; e efpingardas. Ella gente recebeo o Bilpo honradamente, e á mulher de João Gonçalves fez particulares gazalhados , e todos voltáram com elle, que hia louvando a Deos por ver naquella terra tão diltante, e apara tada Portuguezes cafados:, tão ricos, cons tentes, etão zelolos de agazalharem , e fere virem feu Prelado. ; 5 “= Indo aflim, chegáram a huma Tgreja da invocação da Santifima Trindade, rica, € em bom. fitio , rodeada “toda de formofos acipreftes com muitos-Conegos , que tem arrezoada renda. E antes della hum efpaço fahiram hum golpe de Portuguezes vizinhos; emoradores daquellas aldeas , e ra FE ÉS e Eai DS RS e tor Dz c. VIE Ervo IV: Caro VI 553 e foram beijar a mão: ao Bilpo , e fe lhe offerecéram pera o acompanhar. E dia da Afs censão pela manhã chegáram a huma Pros “ vincia-muito: freíca: chamada Guimite Jorge; onde fizeram a fefta, e todos aquelles Pora tuguezes fe confelláram , e commungáram, Aqui pafláram aquelle dia, e outro; e tora “náram a caminhar ; e ao fabbado feguinte encontráram-Gafpar de Soufa de Lima, Cas pitão de todos: os Portuguezes , e com elle hum: Azaguereito do confelho do Emperador, que da fua parte hia vifitar o Bifpo; que eftavam em hum formofo campo em tendas armadas paffando a féta. O Bifpo, que já fabia delles, mandou tambem armar luas tendas hum pouco affaftado ; onde Gafes par de Soufa de Lima com o Abexim logo o foram vifitar da parte do Emperador, e lhe aprefentáram vinte mulas, que elle mané dou repartir pelos que vieram com elle da India, e fez muitas honras ao Abexim, e o afentou apar de fi, e clteve fabendo da faus de do Emperador, do lugar em que eltavas Eflando aqui, ao outro dia fotam ter com o Bifpo -Affonfo. de França Moniz, Diogo de Alvelos da Azinhaga, Simão do Soveral, Alvaro da Cofta da Covilhã , Portuguezes da companhia de D. Chriltovão da Gama, e cram grandes privados do Em» perador, e-todos beijáram a mão ao Biípos 2 x ii e 324 ASIA DE Diogo DE Coviro e elle os recebeo com muito amor, e cart cias, e todos lhe deram a obediencia como a feu Prelado. Daqui fe abalouo Bifpo acompanhado de todos aquelles Portuguezes, que era coufa formofa de ver, porque antre os | Abexins luftravam tanto (pela diveríidade, e riqueza dos trajos, mulas, cavallos, criados, tendas, ferviço, e tudo o mais) que pareciam elles os fenhores da terra. E indo aflim caminhando, foram dar em huma fors mofa ribeira , e de longo della tinham os mais daquelles Portuguezes quintas, e cafas de prazer muito frefcas, principalmente Gonçalo Ferreira, que o mais do tempo refídia alli, e elle levou o Bifpo , e todos os que o acompanhavam pera fua cala, e os banqueteou efplendidamente, | ; O Emperador, que tinha correios poftos por paragens, foi logo avifado, que o Bifpo era chegado á ribeira, e mandou por hum correio chamar Francifco Jacome pera fe informar do caminho do Bifpo., e de fuas coufas; e o tornou logo a defpedir com recado de como já eíperava por elle muito al- “voroçado, com o que elle fe apreílou mais, até chegar a hum formofo rio chamado Axé , que traz infinito peixe de diferentes Íortes , onde armáram tendas, e defcançãe ram. Alli chegáram todos os mais Portugues Zes, que andavam com o Emperador, que ' eram Dec. VIL Liv. IV. Car. VI. 325 eram da fua guarda, eeltavam de continuo á porta da fua tenda, e beijáram a mão ao Bifpo, que folgou de os ver. Naquelle rio eltiveram até o Domingo do Efpirito Santo, em que chegáram todos os Senhores ; e Grane des da Corte pera acompanharem o Bifpo por mandado do Emperador, que eftava da outra banda do rio, a quem elle fez muitos gazalhados, e todos lhe beijáram a mão com grande humildade, eno meio dos mais hontados foi levado ao Emperador, que eltava em huma tenda branca redonda, toda alcatifada de alcatifas grandes, e formofas , e elle deitado em huma camilha, veltido em hum bedem em fima de huma camifa mourica, e na cabeça hum chapeo de veludo preto, e huns calções de taficira da Períia calçados. Era homem largo, preto; de olhos grandes, e de prefença venerandas O Bifpo entrou com os Padres junto comíigo , e fe aprefentou ao Emperador , e lhe beijáram a mão , e elle os recebeo com gazalhado, mandando aflentar o Bifpo junto á camilha em hum coxim decordovão, que eftava fobre huma muito rica alcatifa de feda; e lo= go abaixo os Padres, e Gafpar Nunes, que hia por Embaixador, que ao beijar da mão ao Emperador: lhe aprefentou as'cartas de EiRey, e do Governador da Índia Francifco Barreto, e hum rico roupão de efcarlata com 332 ASIA pe Diogo DE Covro Padre da Companhia , chamado Antonio Vaz, homem letrado, e virtnofo, que ainda hoje vive na cafa dos profellos de Goa” » pera que foíle á Ilha de Bachão a pedir » ajuda áqueile Rey, afim de gente; como »-de mantimentos , porque era amigo dos « Portuguezes.» Eita jornada foi de tanto proveito, que não Ífó fez o Padre com El Rey que provelle a D. Duarte Deça de mantimentos honeltamente, mas ainda o convidou pera as Bodas do Senhor ; porque achando-o domeítico, e capaz, o rendeo, e catequizou, e depois o fez Chriftão com muita folemnidade , e a outros muitos do feu Reyno. E por eltas fantas obras, e pôr outras, que eítes Religiofos, e os de todas as mais Religiões andam obrando por todo efte Oriente, permitte Deos que as fortalezas da India eftejam em pé, e que fe fuftentem;, deixando o caftigo das tyrannias de alguns Capitães fó pera elle; porque huns não acabam de lograr o que dellas injuftamente tiram ; e outros não lhes chegáram a luzir nem em filhos, nem em netos. E tornando a noflo fio. A .guerra fe foi continuando: por terra, e por mar, por onde o Rey de Tidore andava com fua Armada, fazendo. todos os damnos que podia. Nas corocoras de Ternate andava por Capitão mór Cachil Labuzaza, primo de Elne Rey; Dec. VIL Liv. IV. Cap. VIL 333 Rey , muito grande cavalleiro , que depois fe fez Chriftão, e fe chamou D. Henrique; e por feus muitos ferviços lhe mandou El- Rey D.João o habito da Cavalleria de noffo-Senhor Jefus Chrifto, e o cargo de Pandará - de Malaca, onde viveo cafado, ecom. filhos, e fez tantos ferviços, quantos pelo decurfo de noflas Decadas fe verão, Elte homem fez muita guerra então áquella for taleza, e pelejou com algumas fufas , que D. Duarte Deça armou; e com ellas, ecom os foccorros que lhe vieram de Geilolo, de Bachão , e de outras partes, a que tambem acudio Gonçalo Pereira Governador de Momohia com algumas corocoras, e mantimentos, fe foi fuftentando. E como foi tempo; defpedio a não S. João , de que era Capitão Francifco de Barros com a carga do cravo pera a India, por quem efcreveo ao Capitão de Malaca, que o mandaffe foccorter com muita preíteza: e o meímo fez ao Governador , dando-lhe conta de tudo o paífado , pondo áquelle Rey crimes que elle nunca commetteo; mas não faltou tambem quem lhe efcreveíle a verdade deite cafo. Nefte eftado deixaremos a guerra, que deo bem de trabalho aos noflos. | CA-. 334 ASIA pe Diogo DE CovrTo CAPITULO VI Da dilfferença que ha antre Perlas e Áras “bes Jobre a opinião de Juas feitas: e de como o Rey da Perfia mandou aos Reys do Decano titulo de Xas ; com condição que feguilem Jua feita. Na nofla IV. Decada no Cap. 1. do Liv. X., onde fallamos na feita que feguem os Magores, démos brevemente conta de fua lei; agora ferá neceífario declararmos ifto melhor. pera a materia que havemos de tratar. Pelo que fe ha de faber que por morte de Mafamede (em que os mais dos elcritores variam na conta do anno em que foi) deixou nomeado em feu teftamento por feu fucceflor, e cabeça da fua dontrina Alé filho de Sabutabel , irmão: de feu pais aílim por fer feu primo com irmão; como por: fer feu genro, cafado com Fatima filha de fua primeira mulher, de que tinha dous. filhos: nafcidos de bum ventre , chamados “Hacem, e Hocem, e lhe deixou encommen* dado que tomafle a dignidade de: Califa, que he como. a do Summo Pontifice antre nós. Ifto tomou mal Abubar fogro de Mafamede, em cuja cafa elle morreo, porque houve que lhe pertencia a elle melhor aquella dignidade , aflim por fogro delle Matass me- Dec. VIL-Liv. IV; Caps VIH, 256 mede, como por fua idade , authoridades, epofle, porque era muito poderofo: eajuntando-fe com dous parentes Ífeus de muita pofle chamados Homar;, e Othomão;, perfeguíram o Alé de feição, que o delterráram, e por confentimento de todos foi lo= go levantado o Abubar por Califa. Neita dignidade viveo pouco , e Ífua morte não careceo de fufpeitas de peçonha, que diziam mandar-lha dar Homar ; porque tanto que elle faleceo , fe alevantou com o Califado quafi por força. Efte viveo com aquelle titulo dez annos e meio , e foi morto , eftando na Mefquita, por hum efcravo feu, e afhirmou-fs que por ordem do Alé, que eftava recollíido na Cidade de-Cufa, e por fua morte fe alevantou Othomão;, allegando pe= za iflo que fora duas vezes genro de Mafamede, como de feito foi calado com duas filhas chamadas Cofulma, e Roqueia, que morrêram em vida do pai. Elte tambem viveo pouco, porque foi morto em humas alterações que houve no Cairo , e por feu falecimento fe ajuntáram os Grandes a confelho, e por-parecer de todos (tirando o de Mauhia- Capitão de Othomão) foi chamado Alé, cujo-era de direito o Califado , e O aflentáram na cadeira daquella dignidade; e o Mauhia, que ficou de fóra, e era pos derofo , o períeguio: com guerras grande- E men- 336 ASIA pe Diogo DE Cov TO mente, e por fim o mandou matar aos feis mezes de feu governo , e lá teve induftria com: que Íubio à dignidade do Califado; em que viveo doze annos, etres mezes: em fua vida renunciou a dignidade em feu filho Lazit que governou, temendo-fe de Hocem, que era outro filho de Alé, e teve indnítria com que o mandou matar. Efte Lazit foi muito mão homem:, perverlo:, e havido por herege; porque vivia como Gentio. Ora vamos a Hocem , que elle fez matar, a quem ficáram doze filhos chamados Zeinal, Mahamed ; Bager Mahamed , Jafart, Mufa Cafim, Mufi Ali, Mufera Ali; Mahamed “Tangui, Mahamed Alivavgi; Ali Hocem, Afqueri Hacem, e Mahamed Mahedi mais moço: affirmam os Perfas que não morreo ; e que efte ainda ha de vir declarar a verdade de todas as opiniões, que antre elles; € os Arabios ha, e que ha de converter O mundo todo á fua doutrina, e que elta conversão ha de começar em Maxadali, onde Alé feu avô eftá enterrado. E ella he a ra zão , por que naquella Mefquita tem continuamente hum cavallo fellado efperando pot elle; pera como alli chegar, cavalgar logo. Efte cavallo tanto que fe efeonde o Sol; logo o levam 4 Mefquita com muitas luminarias, e em huma fefta feira do anno O fazem com grandes ceremonias ;- e orações a Dec Vil Liv: IV. Car. VOL 337 à Mafamede., pedindo-lhe que acabe já de mandar Ífeu neto-a- declarar as duvidas que antre elles, e os Perfas havia, fobre quem fora o verdadeiro Califa : fobre o que havia de continuo antre elles guerras, porque -os Perlas fuflentavam , e ainda hoje o fazem; que fó o Alé o foi legitimamente , e que os mais foram Ífcifmaticos, tyrannos, e ales vantados , e por iflo tomáram aquelle appellido de Xiai, que quer dizer união de hum corpo , porque eftavam fempre com as armas nas mãos pera fuftentarem [ua opinião. Os Arabios pelo contrario affirmam , que elle não fora Califa, e que os outros o foram legitimamente eleitos, e que os Perfas são os que vivem errados em fua opinião , e contraelles tomáram aquelle appellido de Sonijs, de que fe tanto prezam; que quer dizer feguidores, ou Íuftentadores da verdade ; -e quando nomeam os Perfas; lhes chamam Rafafis, que he o meímo que chamar-lhes homens errados, e defencamis nhados. “Elas duas opiniões: feguem todos os Mouros: aos Arabios -daquella parte de Africa, Mauritania, Berberia, e todos os que fe efpalháram por Hefpanha;, e os que vivem por toda a Provincia do Egypto; Abaffia, Cofta de Melindey,. Moçambique; Cofala., e-em todas aquellas' Ilhas, e todos os Turcos, Rumes, e todos os deftas par- “Conto. Tom. IV. P. L A tes 236 ASTA DE Diogo DE Covro tes da India até Maluco ; porque como os Arabios: foram homens, que fe-deitáram à “navegação, e pafláram até o Oriente; e por todos os Reynos delle; aflim-nas terras: firmes , como “nas Ilhas todas , achando os “Gentios faciles, e domeíticos; lhes pregáram a largueza de fua feita, aque logo todos fe convertêram:, e aflim os feguem todos elles Reys do Decan, “de que já demos ra zão , quando tratmos do tempo, em que os Mouros-conquiltáram aquelles Reynos. Nefta lei vivêram até efte inverno de fincoenta e fete, em que andamos; até que O Xathamás Rey da Perfia, filho de Xaifmael, zelofo da obfervação de fua: feita, mandou no principio defte anno alguns Perfas muito doutos em companhia de Embaixadores mui- to graves, e com grande apparato a todos os Reys do Decan pera “os perfuadirem à receber fua feita, e a feguirem Alé feu Cahfa; e peraomais os obrigar, lhes mandou a todos o titulo-de Xás; de que lhes paffow fuas patentes, e formões. Eftes Embaixadorés foram nas náos de Ormuz'ter a Dabul, e-dalli corrêram ds Cortesido Mirão, Verido; Zamaluco:, Idalcan ,-e Cota Maluco, e-deram áquelles Reys fuas Embaixadas, € prégáram fua opinião: a que foi mui facil “de'os render, e-começáram' logoem fuas Mefquitas a rezar de Alé, e a clamarem: caes | DS Dre VIH. Liv. IV; Car. VIIL 339 por elle em feus Alcorões, appellidando-fe dalli em diante Sonijs , e com ido fe inti= tuláram Xás, que elles houveram por mui- to grande honra, e nós aflim lhe chamares mos nas noílas Decadas daqui em diante, deixando o titulo de Cais, de que até agora uláram, e que com mais razão fempre lhes cabe deítes do Zamaluco Rey de Chaul, (que ferá de agora por diante Nizamoxá.) Faremos aqui huma breve relação , já que a temos feito de todos os Reys de Vilapór , que são elles, que vizinham comnofco nefta parte de Goa, o que faremos nelloutro Capitulo:por fer mais folgado aos leitores. CA PI ULO De buma relação de Nizamoxd, e de jua. morte : e de como o que-lhe Juccedeo no -Reyno fe ajuntow com o Catubixd contra o Idalcan, e largou o Intzanioxá ao Mealeçan , que tinha prezos N O Cap. IV. do X. Liv. da TV. Decada " démos larga conta daquelles finco Capitães, que fe alevantáram com todo o Des can, que antre fi repartiram em Reynos, € deftes coube aquella parte que jaz de Cifar= dão até o rio Nagotana , que he pelo rio de Carania dentro, a Nizaman Maluco, à quem erradamente chamamos Zamaluco, cu« Ya jo 340 ASTA DE Dioco vE Covro jo proprio nome era Boran. Efte diziam que era filho de Daudar Soltão, legitimo, ever dadeiro Rey de todos eftes Reynos; porque afirmam que huma mulher, que elle deo ao. pai defte Boran , que era feu Capitão , já hia prenhe delle. E aflim depois que efe herdou o Reyno , tomou por appellido; € por armas hum falcão, dizendo , que aílim como efta ave era mais real que todas, af fim elle o era antre os Reys do Decan;, que foram eferavos de feu pai. Elle Boran Soltão foi o mais valorofo , franco, liberal, € mais juftiçofo Rey de todos os de feu tempo, e dos vizinhos. E em principio do governo de Affonfo de Albuquerque foram ter ao porto “de Chanl (que era féu, e onde elle acertou de fe achar) doze Portuguezes; que vinham de Cambaya em hum navio feu; e vendo-fe com ElRey , elle os agazalhou bem, folgando tanto de os ver, que lhes quitou os direitos de fuas fazendas , e lhes rogou « que fe apofentaffem naquelia pat » te, em que hoje eltá a nofla Cidade dê »-Chaul; e que elle os libertaria dos direi- »-tos, e não fó a elles, mas ainda a todos » osmais que alli foffem viver, e que lhes » faria outras honras, e favores » de que lhes mandou paflar hum largo formão. Por eftas liberdades fe deixáram alli car aquelles homens, e fe apofentáram na [ quel- Dec VIE Liv IV. Car DX 347 quella parte, em que hoje eftá a Cidade, é depois poucos e poucos fe. lhes foram ajuntando outros , e fizeram alli huma colonia de Portuguezes, e daqui teve principio elta povoação de Chaul, e as liberdades que feus - moradores, e todos os mais tem em os direitos de fuas fazendas, fegundo huma lembrança que nos mandou, tirada dos tombos da Corte daquelle Rey , hum Antonio de Aguiar , que ha muito vive nella Mouro, chamado Islancan, homem efperto , e pratico em muitas linguas, com quem communico por cartas, e delle me informo das coufas daquella Corte, de que fempre deo muito boa razão. º Efte Rey Boran Soltão ficou fempre tão aleiçoado aos Portuguezes , que paflando por Chaul o Governador Diogo Lopes de Siqueira, lhe concedeo lugar pera fazer fortaleza , onde ainda hoje eftá, porque folgou de ter os Portuguezes em feu Reyno pela fama que corria de feu valor, é esforço ; porque era tão affeiçoado aos bons cávalleitos, e aos homens doutos, que em lhe vin= do fama dealgum nos Reynos vizinhos, lo= go o mandava bufcar , e lhe fazia muitas honras ; € mercês; com O “que concotrêram em fey tempo todos os bons Capitães, e. doutos em fuas fciencias , que paífáram de todos os Reynos eftranhos a efte. E de den- S tra 348 ÁSIA pE Drogo DE Covro Hofpitaes. Só com a lenha fe remediavam melhor, porque fe cortava dos matos da Tlha, que pera eltas neceflidades fe guarda; e poupa com grandes penas, que no tempo. da paz não pofla pelloa alguma cortar lenha nelles, e nem ainda dos quintaes particulares fe pôde derribar huma arvore, fob pena de dez pardaos pera o rendeiro do verde. Aflim que com eltes trabalhos fe foram remediando o melhor que puderam das Ilhas circumvizinhas, e das aldeas da dé Goa; porque os inimigos fó na defensão dos mantimentos puzeram toda Íua diligencia ; pofto' que tambem não deixaram de inquietar os noflos com alguns aflaltos miudos , e de pouca importancia, dando rebates nos paílos, fo a fim de divertir os nofos, e os quebrantar. Mas ailfo tinha o Governador dado ordem, e provido mui bem , com mandar pôr fachos nas Ilhas de Juan, e Chorão, e em fima do outeiro de N. Senhora do Monte; donde fe defcobre tudo , onde eftava hum Bafilifco pera fazer final, E tanto que em qualquer parte daquellas fentiam Mouros, derrubavam os fachos , eos que vigiavam o Bafilifco, vendo o final, defparavam huma: bombardada, a que acudiam logo aon-'. de lhe davam o final. Mas onde os inimigos deram mór trabalho, foi nas terras de Salfete, onde eltavam D. Jorge, e D. ss o] ê rs D£o VIE Livio Vo CAPL 349 de Menezes, que todo elteinverno andáram com as armas ás coftas , guardando, e defendendo as terras, tendo alguns recontros com os inimigos muito arrifcados ; em que houve damno de ambas as partes, ainda: que todavia muitas das aldeas fe deixáram de layrar , e femear, e os lavradores dellas fe recolhêram ás partes feguras; e algumas co= méram os inimigos, que foram as de“Cocoli, e Afolona, e outras, que eftam pegadas ás fuas terras , e algumas vezes foram dar vilta á fortaleza de Rachol; mas reco= lhêram-fe efcalavrados das mãos dos noflos. Nos paflos da Ilha de Goa continuáram elles com mais rebates, a fim de cançarem os que os guardavam ; e não fe contentando com iflo, determináram de entrar na Ilha de João por ordem do Calabatecan, que tinha fuas eftancias defronte, do que logo. o Governador foi avifados pelo que deter-. minou de lhe mandar dar hum aflalto, por= que não fó defconfiaffem de entrar nas terras do Eftado , mas pera que fe receaflem de lhes irem lá quebrar as cabeças, porque não vivellem com tanta fegurança ; e pera io elegeo alguns Capitães, de que não achámos o nome , a mais que a Pantaleão de Sá, elhedeo quinhentos homens pera irem” dar no Calabatecan, que paíláram pelaIlha de Jojo Lopes defronte do paílo Ífecco', e: DO 350 ASIA pé Droco De Covo no quarto da Lua foram demandar as effara cias dos Mouros, levando diante os efpin= gardeiros, O Calabatecan eltava já avifado;, porque dantre os noflos havia quem lhe mandava cada dia avifo do que fe palava , é eftava efperando com as armas nas mãos, e tinham lançados em cillada feiscentos homens, em parte que ficavam nas coftas aos noílos; quetanto que osvíram paffar adiante; lhes arrebentáram por huma ilharga, e deram na retaguarda, que era Pantaleão de Sá, e da primeira carga derrbáram, e feriram alguns, e depois traviram com elles; e pofto que osachou, e tomou defçuidados, voltando com: grande animo, começáram huma muito afpera , e perigofa batalha á eípada:, porque lhes faltou a arcabuzaria que hia diante. Pantaleão de Sá fe vio de todo perdido, mas nem por iflo fe defcuidou de fua obrigação; antes com muito valor, e esforço fultentou o pezo da batalha”, pollo diante dos feus, animando-os a cada paílo, etrazendo o olho nelles, porque fe não defmandaílem. Nefte tranfe acudiram os que hiam nadianteira coma arcabuzaria, (porque tiveram rebate do aperto em que eftavam) e dando em os inimigos , os puzeram em desbarato com morte de alguns. E porque 'o: poder todo: vinha já contra elles, fe foramrecolhendo omelhor que pudéram ; a E: sas be r a Dre. VIL Liv. VoCar IL 351 ficando no campo perto de vinte dos noflos mortos, a fóra muitos feridos, que não perigáram. . - Paílado efte fucceflo -, de-que os inimigos ficáram mui ufanos , determináram: de fazer huma entrada: pela Ilha-de João Lopes: E huma noite muito efcura-a-commettêram ; e-pafláram: à ella mais de quatrocentos, de maré vafia., com a agua pelos peitos , e huns poucos. delles foram de longo da praia, onde Ayres: Gomes da Silva-tinha a fua ef tancia, porque eftava alli com feflenta ho- | mens. E como-o efcuro era grande , e elles hiam em muito filencio , entráram alguns na cozinha de» Ayres-Gomes da Silva, que eftava apartada, em que não havia mais: que hum efcravo cozinheiro, queeftava dormindo, em quem deram algumas cutilladas ; e fahindo della, foram dar com dous foldados que vinham de fóra, que fentindo ferem inimigos, voltáram com muita, prefla , e fe foram pera hum tezo , que eltava a fima das eltancias, em que. havia duas peças de artilheria, com que varejavam as dos mimigos, que ellavam da outra banda, e de fima começáram-a-gritar , que acudilfem à artilheria. Ayres Gomes 'da“Silva ouvindo a revolta, acudio com: os'feus foldados: áquella parte: e fezofinal como huma: peça, - pera-que foubefTem nos paífos-que havia Mouros.na Ilha. 352 ASTA DE Droco DE Covro E tanto que fe ouvio; fe -lançáram logo muitos 'á agua; pera pallarem a ella ; mas os inimigos fentindo já os noílos , fe foram recolhendo. E Ayres Gomes da Silva, que teve rebate, fe foi apôselles, e lhes deo tan ta prefla que os fez lançar aortio, onde: fe afogáram alguns, ficando a Jlha defpejada, a que eram: paílados já mais de feiscentos dos que-eftavam em os paflos , mas não ti= veram que fazer. E acudindo o Governador, mandou logo paflar Jorge-de Mendoça Cas pitão: da Cidade pera a Ilha de João (que fica antre-a- de João Lopes, -e a terra firme) com feiscentos: homens, e alguns moradores de Goa, porque fe receou-qué os inimigos entraílem nella. Da Armada que efte anno de fincoenta e fete partio do Reyno, de que era Capitão “mor D. Luiz Fernandes de VaJconcellos : e de huma breve relação da devoção , quê os mareantes tem ao Bemaventurado S. Fr. Pero Gonçalves, a que elles chamam o Corpo Santo. Ê Oucos dias depois do aífalto - paffado;, furgiram: na barra: de Goa tres nãos de finco , que tinham partido: doReyno : e porque delta: viagem he neceflario ' darmos mis | to Dea VIH. Liv. V. Car. TI 353 to particular razão , o faremos aqui; No principio defte anno de fincoenta e fete, em que andamos, mandou ElRey D. João negociar finco nãos pera mandar á Índia', de “que deo a Capitania mór a D. Luiz Fernandes de Vafconcellos , filho do Arcebiípo de Lisboa D. Fernando de Menezes , que ef- “colheo a não Santa Maria da Barca; em que D. Leonardo de Soufa tinha chegado da India pera ir nella As outras quatro nãos eram , Santo Antonio, cujo Capitão era Cide de Soufa; a Aflumpção, que levava por Capitão Braz da Silva. Da Framenga era Antonio Mendes de Caftro ; e da Águia João Rodrigues Calema de Carvalho. Eftando eltas nãos preftes, e carregadas pera darem á véla, abrio a não Capitânia huma agua tão groíla, que fe hia ao fundo, e chegou ater em fi quatorze palmos della : e acudindo os officiaes pera a remediarem , não fómente lhe não puderam tomar a agua, mas nem faberem por onde a fazia , antes viam que cada vez lhe creícia mais, porque nem bombas , nem barris, nem outras va filhas, que corriam por andaimes, lha pudesram efgotar em muitos dias, trabalhando de dia, e de noite. Vendo ElRey que fe hia gaftando o tempo, mandou fazer as outras náos á véla, e que aquella fe delcarres gafe, o que elles fizeram já em Abril. Conto. Tom. IF. P.I. VA Ca- 354 ASIA pe Droco DE Covo Capitânia fe defpejou toda com muita prefla, pera verem fe lhe achavam por onde fazia elta agua. Vendo D. Luiz Fernandes que já naquelie anno não podia fazer viagem, no que recebia muito grande perda, porque era hum Fidalgo pobre, e tinha gaftado muito em fe aviar, andava mui trile , e defcons tente. À não foi revolvida, e bufcada de poppa a proa, fem lhe poderem dar coma agua, eandava huma grande borborinha antre os peícadores de Alfama fobre aquelle negocio , que afirmavam publicamente que Deos N. Senhor permittíra aquillo, porque aquelle anno lhe tirára o Arcebifpo aquellas fuas tão antigas ceremonias , com que veneravam;, e feftejavam o dia do Bemaventurado S. Fr. Pero Gonçalves , levando-o ás hortas de Enxubregas com muitas folias, cargos de fogaças, e outras interiores de alegria, e de lá o traziam enramado de coentros frefcos , e elles todos com capellas ao redor delle, dançando, e bailando. É porque nos não lembra vermos eferitas eltas ceremonias em alguma parte, o fa remos aqui brevemente. Tem todos os ho= mens do mar tamanha devoção , e veneração ao Bemaventurado S. Fr. Pero Gonçalves, e o tem por tão feu advogado nas tormentas do mar, que crem detodo feu coração, que aquellas exhalações, que nos'tempos for- E j tui- «Deco VIk-Lavo V.-G avi TE 355 tuitos , e tormentolos apparecem fobre os maftos, ou em outras partes das nãos, que he o Santo, que os vem vifitar, e confolar ; e tanto que acertam de ver aquella exhalação, acodem todos ao convés ao falvat com grandes gritas, ealaridos, dizendo : Salva ; Jalva, ó corpo Santo. E afirmam que quan= do apparece nas partes altas, e duas etres, ou mais daquellas exhalações, que he final que lhes dá de bonança ; mas fe apparece huma fó, e pelas partes baixas, que denuncia naufragio. E tão crentes, e firmes eftam nilto, que quando aquelas exhalações apparecem fobre os maltareos , fobem os mari nheiros aílima, e afirmam que acham pin-. gos de cêra verde; mas elles nem os trazem; nem os moftram. Ao menos nós os não vi= mos alguma hora, paffando por muitas vezes efta carreira. E fe os Religiofos ; que vem nas mefmas nãos., lhes querem ir à mão , dando-lhes razões pera lhes moftrar que aquillo são exhalações, e dando as caufas naturaes , porque fe geram , e porque apparecem, não falta mais que tomarem as armas, e alevantarem-fe contra quem lhes contradiz aquella fua fé, que por tal o tem. A fefta defle Santo fe faz, e celebra nas Oitavas da Pafcoa , e aquelle dia he o de maior triunfo de todos os pefcadores, » que todos os outros, e em que elles fazem mó- XT res | 356 ASIA pe Droco DE Covro res gaftos:, e defpezas , que em todos os “mais. Efla pequena luz, que elles mareantes Portuguezes veneram em nome de S. Fr. Pero Gonçalves , e-os eftrangeiros no de Santo Anfelmo , he tão antiga fua veneração, que já em tempo dos Gregos fe celebrava; porque fegundo muitos Authores feus contam, quando aqueiles famofos Argonautas hiam na demanda do Vellofino de ouro, em huma grande tormenta que tiveram no mar, appareceo aquella luz fobre a cabeça do Caftor, e Polivx, e que logo lhes cef fára a tormenta; o que moveo aos homens a terem eítes dous irmãos em tanta veneras São, que os contáram no numero dos Deoles. E afim Plinio no IL. Liv. da natural hiftoria, fallando nefta luz, afirma que fe vira muitas vezes nas: pontas das lanças dos foldados em os exercitos , e que o mefmo apparecia em as nãos, e lhe chamáram Stella Cafioris , porque appareceo fobre à cabeça de Caltor, como aflima diffemos. - É tornando aos noffos mareantes. Quando viram que fó a não do filho do Arcebifpo deixára de fazer viagem, crêram que o Santo fe quizera fatisfazer niflo da ofenfa que o Arcebifpo lhes fizera em lhes defender fuas tão antigas fellas; e afim o affirmáram -ao meímo Arcebifpo,. que vendo tamanha fé ; e devoção, movido daquelle zelo, lha em tor- Dec VH.-Eivo V. Claro dl 357 tornou a conceder , depois que fe achou à agua, porque nas voltas que lhe deram foi hum marinheiro dar com hum furo de hum prégo na quilha, que eltava defiapado, que por deícuido deixáram os Calafates de lhe pôr prégo, e quando a breáram fe tapou O buraco , -e por alli fazia aquella agua. E permittio Deos N. Senhor que acontecefle ito a ella não, eltando no porto , porque fe não perdeíle à ida, que fe fora no mar, nenhum remedio tinha. Aflim que a agua foi tomada, com grande alvoroço a tornou | a carregar, porque dilleram os oficiaes que " ainda tinha tempo; e que quando não puf dele paflar á India, ficaria invernando em Moçambique ; e aflim deo à vela a dous dias de Maio, e foram feguindo fua derrota, e na colta de Guiné acháram tantas calmarias , que os deteve fetenta dias; e tomando parecer fobre o que fariam, aflentáram , que foflem invernar ao Brazil, porque era muito tarde, e logo fe fizeram na volta da Bahia de todos os Santos , aonde chegáram a quatorze de Agofto velpera de N. Senhora da Allumpção. D. Duarte da Cota, que alli eftava por Governador , foi logo defg embarcar o Capitão mór, e os Fidalgos que hiam na não, que eram Luiz de Mello da Silva, D. Pedro de Almeida, defpachado com a Capitania de Baçaim, D.. tia de | C- 364 ASTA pE Droco DE Couro e antre elles fe ateou huma muito arrifeada batalha, e o melmo fe fez por toda a mais: Armada , e a Capitanfa de Tidore inveítio D. Diniz de Menezes, e todas as mais corocoras as noflas embarcações , em que fe começáram alevantar mui efpeffas labaredas de fogo, e fumo das muitas panellas de polvora, que de huma, e outra: parte fe lançavam, e atroar o ar com os eltouros da arcabuzaria que não defeançava , e caufava hum grande eftrondo , que ajuntado a ifto o retinir das armas, e os gritos de todos , parecia que fe acabava o mundo , e que fer= via o mar. D, Jorge Deça, que era muito bom cavalleiro, vendo-fe entrado do Labufalá , que era muito determinado, artemetteo a elle com grande valor pera o lançar fórã, O que não pode fazer por fer ajudado dos mais efcolhidos Mouros de Ternate, é Tidore. Todavia aprefentando-fe-lhe diante com alguns que tambem efcolheo , começou com clle huma muito perigofa, e arrifcada batalha, onde fe pelejou com muito valor, e esforço. D. Diniz de Menezes , e Antonio Pereira Brandão tambem foram inveítidos de muitas corocoras ; mas elles como esforça dos cavalleiros que eram , fizeram tantos ef tragos nos inimigos, que lhes caufou gtande elpanto, axorando algumas das corocoras. Todas as mais embarcações da nofla Are. “Dea VIL Liv. V. Car HL 46 Armada eftavam travadas com outras dos inimigos , pelejando com grande furia, e efpanto ; mas onde a batalha ellava mais “arrifcada, era no navio de D. Jorge Deça, onde era tamanho o numero dos mortos, € feridos, que quafi faziam eftorvo aos vivos. Eftando aílim a coufa tão duvidofa, fem fe faber declarar a vitoria por nenhuma das partes; quiz a defaventura que tomafle fogo huma pouca de polvora na fulia de D. Jorge Deça, cuja força lançou ao mar todos os que nella pelejavam, tirando D. Jorge Deça, e hum Belchior Lopes, que ficáram ambos fós nella, defendendo-a de algu= mas corocoras que acudiram pera a levarem à toa, fobre que ambos pelejáram mui valorofamente com muito damno dos inimigos. ElRey de Bachão, que eflava da parte dos -noflos, e Gonçalo Pereira Regedor de Momoia, axoráram muitas corocoras. D. Diniz de Menezes, Antonio Pereira, Henrique de Lima, e todos os mais Capitães Portuguezes nelte dia fizeram coufas dignas de fe “ engrandecerem com mais eloquencia da que em nós ha. D. Jorge Deça , fobre quem car- Tegava todo o pezo defta batalha, foi o que mais fez, e o que móres trabalhos paíou que todos , porque elle fó com Belchior Lopes defendêram o feu navio de feição , que de medo delles não oufavam os inimigos 30 Clr 366 ASIA.pE Droco DE Covro entrar; e fempre fe perdêra , fe Deos não encaminhára hum pelouro de hum berço de huma das noffas embarcações , que deo no Labufalá, Capitão mór dos inimigos, e o derribou como morto. O que vilto pelos leus, cuidando que o eftava, fe affaftáram; efazendo final á mais Armada, fe foi toda recolhendo com grande damno , deixando porém os noflos tão deftroçados , que lhes foi neceflario recolherem-fe pera a fortaleza , pera fe curarem os feridos, que eram muitos, ficando afim a guerra ainda viva, e os noflos em muito grande aperto , porque os inimigos -tornáram a reformar fuas Armadas, e a continuar em feus aflaltos. Vendo os moradores que D. Duarte Deça porteima não queria foltar ElRey , e que elavam arrilcados a grandes defaventuras, ajuntáram-fe todos, e aflentáram de o prender, e foltar a ElRey , pera fe acabarem todos aquelles trabalhos , e fizeram pera ito cabeça a Henrique de Lima. E confultando em fegredo o negocio , ellando o Capitão hum Domingo á Milla, entrátam Os da conjuração na Igreja, e remettendo a elle; o. liáram, e afim nos ares foi levado á torre da menagem , onde foi fechado, € as chaves entregues a Henrique de Lima, Dalli fe foram logo à prizão, onde ElRey - eftava, e o Íoltáram com lhe pedirem aa es Dc. VII Liv. V. Car. II. 367 des perdões, e darem muitas defculpas , e o acompanháram até fua caía, o que lhes elle agradeceo , aflirmando a todos « que » não feriam parte osaggravos, eavexações » que D. Duarte Deça lhe tinha feito, pe- » ra deixar de fer muito grande fervidor de » ElRey de Portugual ; que nas defordens » de feus Capitães não tinha culpa, e mui- » to particular amigo de todos os moradores » daquella Ilha, e fortaleza » e aflim o mob trou em todo o tempo que viveo. Feito ilto , quizeram os da conjuração eleger por Capitão a D. Jorge Deça; o que elle não quiz acceitar, ainda que todos lho pediram com muita infancia. Nem o mefmo quiz Antonio Pereira Brandão por mui- to que fobre illo trabalháram; etanto, que eltando hum dia á porta da Igreja, vieram todos os moradores com os Padres, e hum Crucifixo alevantado , e lhe pedíram da parte daquelle Senhor quizeíTe acceitar o cargo daquella fortaleza até o Governador prover, fazendo-lhe fobre illo proteftos , e requerimentos. O que vifto por elle, dife « que » acceitava fer olheiro da fortaleza, e da ar- » tilheria de ElRey, já que afim era necef- » fario, enão Capitão; » e afim dizem que mandou fazer logo Ífeus papeis, etirou feus inftrumentos. Entregue elle da fortaleza, e o D. Duarte Deça na mefma prizão, tanto que | | 368 ASIA pr Diogo DE Covto que chegou a monção pera a India, o em- - barcáram no galeão da carreira prezo em - “ferros, com os autos de Íuas culpas , e na India foi fentenciado que fe foffe aprefentar a ElRey (fegundo ouvimos a algumas pefjoas ) como fez, e lá no Reyno fe livrou; e deo taes querelas contra Antonio Pereira Brandão , que o mandou ElRey ir prezo, eque lhe confifcafiem a fazenda, eaflim foi entregue a peíloas de confiança , e elle mettido no caítello , onde D. Duarte Deça o accufou de alevantado , e lhe poz outros crimes, porque diziam tivera votos que morreíle; em que fe não fez execução, porque veio com embargos , em que provou que nunca fe nomeára por Capitão , fenão por olheiro da fortaleza, do que aprefentára certidões de todos os Officiaes. Com tudo foi fentenciado em alguns annos de degredo pera Africa, e que pagafle os ordenados a D. Duarte Deça. O degredo lhe perdoáram depois, por ir com Francifco Barreto á conquifta de Manamotapa , onde morreo. E contava Antonio Pereira Brandão que o mefmo D. Duarte Deça lhe mandára rogar que acceitalle a Capitania, do que depois de magoado lhe contrafez aquelle Romance velho - de Durandarte em D. Duarte, mal cavalhero - provado. E tornando ás coulas de Maluco. Com a foltura de ElRey ceílou a guerra; e De c-N E: Lim: V Ca ni 369. € tornáram as'coufas a few lugar ; correndo ElRey em tudo muito pontual'com o-fer- viço: docde Portugal, tendo fó trabalho em tornar a'tomar alguns lugares, que lhe o Rey de Tidore tinha tomado com côr de o fivorecer ; e ajudar, como já dillemos: Nele eltado! deixaremos as coulas “de Maluco até tornara ellas, et 20. HOgk sit E ÃO De ESB O «4 Da embaixada que o Governador Francifto -sBarreto mandou a ElRm de Chan), e > fobre que : e de como os Mouros entráirem na Ilha de Chorão , donde foram langados com grande damno fem: e de como - = 0 Govermador mandow meiter mella D. o Erancifeo Mafterenhas. Pag 1) Or hum navio ligeiro, que veio de Or À muz , teve o Governador Francifeo Bar Teto recado, queem Suez fe faziam préites galés “pera paflarem India”, 'o que O poz em grande cuidado, pelo que logo defpedio Tecado ds fortalezas do Norte, e a Dio, pera'queeftivellem . fobre avifo: Com ifto mandou dar muita' prefla'á Armada; e lan= çar ao mar os galeões novos; que tinha: feitos emo lugar em'que fe os-duirosqueis máram; porque-detetminava 'deir bufcar-os Furcos; onde quer -que eftivelfen; e folemí Couto. Tom. IV. P. 1, Aa — ter, ne 370 ASIA pe Droco DE Covro ter, É pondo.eftas coufas em confelho, aflentou-fe «que .mandaflem.-hum Embaixador ».a0 Inizamoxá Rey de-Chaul fobre algu »-mas coufas. necellarias em que entravam » duas: principaes. Huma: perfuadillo a fã » zer guerra ao Idalcan:, e que tornaile fo- »- bre a fortaleza de Calabraga;- que lhe fe- » ria facil de tomar , pela gente-que-tinha » em baixo Íobre a Ilha de Goa ; eifto a fim ; » que como o ellê foubelle ;- devia mandar » recolher feus Capitães, pera mandar acu- »- dir áqueila fortaleza, e que aflim ficaria » Goa delapreífada, A outra era, pedir-lhe » licença “pera fazer hum caftello rogueiro » no Morro de Clhaul, que fica fobre aquel- “» la barra, pelas novas que havia de Galés, » pera dalli lhe defender à entrada, fe qui- » zefle tentar commetter aquella Cidade; o » que, a-elle .meímo Inizamoxá vinha bem; ». porque. fe 6s Turcos. metteflem..pé naquel- »-le porto, nunca mais-havia.de-ter- delle »-nem dos mais. de ifua «cola «proveito: al- A BUAMçA sl sumalso abaliuo-ei-sca do «o Coneluido:.o confelho-s: levantou-fe-em pé D. Diogo de Soufa, (que: tinha aguelle verão. vindo de fervir.a. Capitania: de Cofala, eellava. pera fe embarcar-naquellas: nãos pera.o Reyno,) e difle-ao Goveriiador Frans cifco- Barreto. :« que fe-tinha «as novas das »-galés-por certas ,. lho difefe, porque não Eee A 7 q pera ERON Dre VIH. Liv. V. Car. IV. 371 » era elle homem, que fe havia deir do EL » tado da Índia, deixando-a em trabalhos, » que elle eflava muito rico de mercés, que » lhe ElRey fizera, e que em tempo de ne- » ceflidades queria elle moftrar agradecimen- » to dellas , e tornar a gaftar tudo em feu » lerviço , porque elle, que lhe deo o que » tinha, lhe faria outras mercês; e que as » deipezas, que tinha feito pera Íua embar- » cação, importavam pouco , porque a mas” » talotagem allieftava o Hofpital de ElRey, » onde fe defpenderia. » O Governador lhe agradeceo de parte de ElRey aquelle offerecimento, certificando-lhe « que elle o fabe- » ria por fas cartas , pera que eile lhe fi. » zelle a mercê que merecia, que efperavya » pelo fegundo recado, e que não fe desfi- » zelle de coufa alguma até elle o avifar.» Paffado ifto , ordenou o Embaixador que havia de mandar, e elegeo pera iflo Jorge Correa de Antas, hum cavalleiro nobre, e rico, de grande peíloa, e avifo, e lhe deo as coufas neceflarias pera aquella jornada, que elle fez com grande apparato, e companhia; e mandou por clle de prefente áquelle Rey (eis formofos ginetes com feus tellizes ricos. Efte Embaixador partio em navios ligeiros, e de fua jornada adiante daremos razão, A guerra de Goa hia por diante, ainda que não havia nella mais trabalho, Aa lá que- 3722 ASIA pre Diogo DE Couro que o da falta das coufas, e as inquietações dos rebates, que os inimigos davam em to- “das as partes. Succedeo quai no fim de Outubro querer hum dos Capitães chamado Miaberú dar hum aflalto na lha de Chorão, por fer avifado que eltava nella recolhida muita fazenda dos naturaes das Ilhas do derredor; e aílim commetteo 2 entrada hum dia no quarto da alva por hum pafo , que fe chama Sacorla, que eftá da outra banda da terra firme, que chamam Vangani, que he a: parte mais eltreita do rio, que terá perto de vinte braças de largura, e de maré valia ce aguas vivas fe paia com agua pela cinta, Por aqui foram paffando perto de quinhentos Mouros, huns a nado, eoutros em ca baças , e foram tomar o valado da Varzea de Chorão, (que he na ponta que fica pera a banda da Hha Divar , que fe divide da outra por hum pegueno efteiro,) e ao paf far viram alguns eftar huma fufta furta no rio, (de que era Capitão hum Portuguez chamado João Marrão , que efltava quafi fó, porque afim o Capitão, como os foldados eram idos a Goa,) e fentindo-a os Mouros fem gente, a foram demandar, e entráram nella, eos que dentro eflavam (que eram tres; ou quatro foldados) acordáram á grita dos marinheiros ; e com aquelle fobrelal- to ! lançáram ao mar , e fe foram pera à aum | “ha “Dec VIL Liv. V. Car IV o Hha Divar, ficando os Moutos fenhores do. navio. Os: que palláram 4 Ilha feriam per= to de quinhentos, e foram demandar a pos voação, onde refidia hum Gonçalo Pacheco , e-com elle “dois Gentios chamados: Zeitarane, e o outro Humbraná , tio, e fobri= nho, que eftavam alli de vigia com muitos peíes ; ; e em fentindo os inimigos, tomáram as armas, é foram-fe fabindo, e pelejando com eles e ao eltrondo acudio Domingos Rodrigues , que eftava na mefma Ilha por Anadel dos efpingardeiros da terra; e ajuntando-fe todos, foram pelejando com os Mouros Golo ro fame nte » e recolhendo-fe pera o alto da Ilha. Os que tinham cuidado do facho que nelle efava, em fentindo Mouros fizeram final, e atiráram huma bombardada, a que logo acudio o Governador ao caes, e mandou embarcar alguns Fidalgos com foldados pera foccorrerem os da Ilha. O Capitão de Naroá Ruy Dias da Silveira tambem deipanão ao final algumas embarcações, que alli andavam em guarda daquelles ros, ea primeira foi huma almadia, em que biam dous companheiros filhos da India chamados Simão Rodrigues, e Gonçalo Vaz; e prepafando pela fulta de João Marrão;, logo que os Mouros a entráram,, e fentindoos fallar, conhecendo pela lingua que eram inimigos, puzeram-fe de fóra ás sá as, s8o ASIA pe Drogo dE Covo ellas quizellem ir a todo tempo, em quan- to efia neceflidade durou; que deo de comer a máis de cem homens muito abaltadamente, fervindo-os a elles em pefloa com feus criados, e efcravos, e efcravas. O recado que o Capitão tinha defpedido: chegou a-Goa: em menos de tres dias; e foi a tempo que o Governador eftava pera fazer á véla huma Armada de galeões, e fuftas pera a mandar ao Ellreito de Ormuz , (e perainvernar naquella fortaleza por haver novas-de galés,) de que era Capitão mor Alvaro Paes de Soto-maior; e fabendo aquella neceflidade, o. defpedio logo, pera que fe fofle pôr fobre aquella barra, e que ficalle alli favorecendo aquella Cidade até elle chegar, porque logo determinou de a foccorrer em peíloa. Alvaro Paes de Sotomaior deo logo á véla com toda Íua Armada, que era de tres galeões, de que a fóra elle eram Capitães João de Mello de Brito; e Henrique de Vafconcellos, e feis fufas mais, em que hiam Diogo Ferreira, Duarte Pereira, Diogo de Sá, Colmo Faia, Affonjo Coelho, e Gonçalo Garcia. - Partida efa Armada, foi-fe o Governador pôr na ribeira, e mandou lançar ao mar todos os navios que havia, e tomar os que alli eftavam de fóra pera fe embarcar, € mandou dar muito grande prefla a tudo, à que “Dee Vilobiviva CE ABoV. 36t que acudiram os Fidalgos, e Capitães, cavalleiros, e Cidadãos principaes; e tomando quazlquer que logo achavam negociados , fe embarcáram com muita prefla;, com muitos foldados que pera iflo lhes acudiram , que naquelle tempo fe offereciam pera o ferviço. de ElRey ; e andavam grangeando os Cas “pitães pera oslevarem comíigo, lem paga; e fem mais intereffe que aquela: inclinação , que então tinham todos áquellas coufas. O que fe veio depois a trocar de feição, que já hoje não ha hum, ou mui poucos, que fe queiram embarcar, fenão mui bem comes prados, e alugados dos Capitães ; porque além do foldo que lhes ElRey paga , não querem já menos de dous ou tres quanteis mais dos Capitães, que fe empenham pera lo; e ella heca razão, por que o ferviço de ElRey culta já hoje finco', «e feis vezes dobrado , do que naquelle tempo, em que tambem pela barateza das coufas a ordinaria que ElRey dava baitava pera“ as deípezas da jornada , e das mezas que nos invernos davam pelas fortalezas, e ainda muitas vezes poupavam-hum pedaçopera fe proverem deoutras coufas. Mas'tambem naquele tempo pagavam aos Ífoldados feus quartéis ordinarios de verão, e inverno; e lhes-da- vam mezas mui abaítadas; e os Fidalgos-tis nham fuas cafas tão cheas de foldados., que e quan- 302 ASIA DE Drogo DE Covro quando fe embarcavam não bufcavam ous tros, porque já os tinham em cala, e fempre pelas deftes Fidalgos haviam nelta Cidade de Goa nos invernos mais de quinhentos delles agazalhados, porque ellas eram feus hoipitaes. O que tambem anda mudado , potque ja ha muito poucos que recolham mais que feus criados, por forrarem gaftos, e defpezas, até os que fahem ricos de Ífuas fortalezas, que antigamente defpendiam a mór parte. do que dellas tiravam no ferviço de EiRey. E por ElRey D. João entender que era aílim necelfario, tinha feito regimento, que nenhum Capitão, que fahifle da lua fore taleza., fe folle pera o Reyno dentro emtres annos:, porque-os queria ter na India, afim pera hofpitaes de foldados , como pera a authoridade: do confelho do Eftado. Mas tudo o bom he tão acabado, -cue hoje fe nota por erro todo o paflado nas coufas do governo; e-corre-antre elles pratica geral; que-o antigo Já não he licito; e que fe os Governadores andavam todos os verões embarcados , que:hoje já não era credito do Eitado fazerem-no, no que vam contra a opinião de todos os doutos antigos , que afirmam que os Eftados pera fe não desfalecerem fe hão de confervar: com aquellas artes com que fe ganharam: Mas deftes males, e deltas 'miferias tem culpa a cubiça, E que » Deo VH.Eiv Vo Cap V. 383 que tem tomado poíle na India: de todo-o efiado de pefloas:, acreditando-Íe com:a coufa, que mais vituperada foi dos antigos Cas pitães que todas , que he efte adquirir ;-e guardar, authorizando aquelle antigo: adajo fero--pelo-demónio ,- de quanto tens tanto Yileger sSuoa pois! del «E tornando á nofla ordem. :O Governas dor-foi- dando muita preíffa á-fua embarcação; alliiindo-de-continuo-ho caes, e na tibeira: pera dar deípacho áspartes. E pera maior aviamento ,-paflou mandados aos Oficiaes ; e:Almoxarifes pera darem: aos Capitães dos navios: tudo: o que lhes fofle neceffario:, demantimentos:, muhições ,-cotonias ; e todos os apparelhos: de navios: , de que tinham junto huma grande fomma. Em quanto fe'faz preftes effa Armada, continuemos com a de Alvaro Paes de So- to-maior, que lia feguindo feu caminho pes ra Chaul devagar por caufa: dos Noroeltês que curfavam, que lhe eram contrarios ;-e chegando águella barra , entrou. porella com toda fua Armada formofamente embandeirada; falvando: a Cidade com muitos tirós; e initrumentos guerreiros, evalegres; é vendoo grande exercito pofio da-outra banda; e-à preíla: que:-os-Mouros davam nasfortificação; do Morro ;--Íurgio em-parte donde opudelle bater; o que fez com tanto Eli 384 ASIA DE Diodo BE Coviro do esterremoto' , que os que andavam na obra da fortificação , a foram fazendo muito devagar ; porque a noffa:artilheria lha im. pedia. Poucos' dias depois dito chegáram áquella barra duas galês daquellas grandes; ecantigas; que vinham deBagaim;, carregadas de madeira; e achando. a coufa naquel= le eftado», urgiram mais perto: do Morro queos galedes: ; € fepuzerama bateria com elles: o quesacabou de inquietar. os Mouros, porque totalmente lhe: Sm dim o ferviço; e fe alguma coufa faziam, era: desnoite cuftaido aindardefamjamandsasnidas asnigio tos; mas todavia não defiltitam do negocio; e fe foram. fottificando- o melhor: que puderam com muito: trabalho , e perigo: Héss RA Litids 126 ae To BETO Wlp. Da Armeda com que oG Tovernador Fran .Láfco. Barreto paríio pera o Norte, € che-. gou a Chaul: e das pazes que he ns a io mandáram commneiter a as 2] do. que uifo palom. À sui CR To Eteeaido Alvaro: Paéss de Sotomaior ficouco-Governador dando: pa á Aro mada“com'que havia de partir ;>6ros Vidal» gos, e Capitães, que mais: deprefa fe pudes ram negociar; não iquizeramefperar porelle; e fizeram véia pera-Ghaul:'onde' entras cê vam | ] | Dec VIE Liv. V.Cap, VI 385 vam todos os dias, de finco em finco , e de oito em oito navios, carregados de muita, e lufirofa foldadelca, com o que já lhes dava a todos pouco do poder dos inimigos, O Governador de tal maneira fe apreflou, que em menos de quinze dias fe embarcou ; e deo á véla com toda a Armada que havia. “É porque não he razão que fiquem em elx quecimento os Capitães que nefta jornada fe acharam , daremos os nomes de todos; afim “dos que foram diante, como dos que ficá+ ram pera acompanharem o Goverhador ; nem faremos diltinção de peífoas , nem de navios, porque tudo foram fultas de remo: D. Diogo de Noronha o Corcós; D. Amntonio de Noronha o Catarraz, D: Antão de “Noronha, D. Alvaro da Silveira; D. Pedro de Menezes o ruivo, Gonçalo Falcão, D. Affonfo Henriques , D. Jorge de Menezes Baroche, Pantaleão de Sá, D. Filippe de Caftro , Ayres Gomes da Silva, D. Vafco Fernandes de Ataíde , Martim Affonfo de Miranda, D. Alvaro de Ataíde, Fernão de Soufa de Caftello-branco, Ds: Martinho da Cunha, D. João Coutinho, D. Lonrenço de Soufa., Pero de Ataíde Inferno ; D. Luiz de Almeida, Ayres Telles de Menezes, D. Jor: ge Pereira, D. Diogo de Ataíde, Antonio de Soufa Coutinho o Langará ,- Manoel de Mello, Lourenço de Soula, Jeronymo Bar Conto. Tom. IV. P.l. Bb re- | | 366 ASIA pe Droco DE Covro reto, Trilão Vaz da Veiga, Gil de Goes; Alvaro Pires de Tavora, João Lopes Leitão, Diogo de Miranda de Azevedo, Henrique de Macedo, Manoel Travaflos, Jorge Barreto, Manoel de Vafconcellos, Antonio Rabello, Jorge da Silva Correa, Manoel de Mendanha, Henrique Jaques Ouvidor geral, Cofmo Faia; Jorge de Mello, Alvaro Goncalves Pinto, Eltevão Pereftrello , Barnabé Maicarenhas , Chriovão Pereira Homem, Duarte Paim de Mello, Luiz Cabral, Agoftinho Nunes, Jorge de Moura, Gafpar de Sá Pinheiro, Francifeco de Figueiredo, Diogo Pereira, Manoel Fernandes de Manar, Ruy Fernandes , Antonio de Efpindola, Manoel Mouro, Antonio Martins , Baltha- -zar da Coíta, Diogo Banha, Balthazar Fernandes, Meltre Pedro, o Secretario, o Ca- . pitão da Guarda do Governador, o Feitor da Armada , João Peixoto, Belchior Correa, Domingos Borges, Manoel da Cofta, Belchior Godinho, Martim Rodrigues, André Gonçalves de Dio, Braz Fragofo de Coulão, Francifeo Correa, Pedralvarez , Gongalo Sanches , Ruy Godinho , Chriftovão Cordeiro, e outros muitos a que não fabemos os nomes. E primeiro que o Governador partile de Goa , entregou o governo ao Biipo, e Capitão da Cidade , e deixou pelos rios de Goa , e Íuas Llhas muitas manchuas, Dzc VIH. Liv. V. Car. VL 387 chuas, e catures pera fua guarda , de que as Capitães Roque Fernandes, Antonio Carrilho; Diogo Gonçalves, Lançarote Picardo , Diogo Madeira , Luiz Caftanho, Eytor Soares , Gonçalo Correa, Balthazar Soeiro, Antonio Ferreira ; André Gorjão ; ie de Arzila, e outros. Partido o Governador, foi feguindo fua jornada até chegar a Chaul, e entrou por fua barra com toda a Armada formofamente embandeirada, e for falvyando a Cidade fem fazer cafo do Morro , e fe foi ao caes, on- “de defembarcou, fendo muito bem recebido da Cidade, eapofentado em cafas, que pera elle ellavam preites; e logo começou a ter confelhos fobre dar nos inimigos, e os deitar fóra do Morro, no que os mais dos Capitães concordáram ; porque não Íabemos que efpirito dava Deos aos homens daquelle tempo , que todas as coufas lhes pareciam faciles, fem nunca já mais refuzarem batadba que fe lhes offerecefle. Concluido em darem nos inimigos logo em freíco , começáram a fazer feus petrechos, e apercebimentos pera iflo; e o Governador tez alardo da gente que havia, e “achou quatro mil Portuguezes, a fóra muitos Chriftãos , e efcravos , que podiam muito bem pelejar ; e aflim eftavam: todos tão «alvoroçados , que delejavam de fe lançar a Bb u nas 388 ASIA pe Droco bE Covtro nado ds eflancias dos inimigos. Os Capitães do Inizamoxá vendo aquella potencia da Armada, e o rio, eo mar todo cheio de navios embandeirados , e cheios de muita ; e mui luftrofa gente, e de muitos inftrumen- «tos alegres, e guerreiros, que de continuo atroayam elles ares, com que lhes davam os noílos a entender o alvoroço com que eltavam, por fe verem já ás mãos com elles, receando aquelle poder ; e fendo avifados por efpias, como o Governador fe fazia preftes pera-lhes dar batalha, havendo feu condeiho ; aflentáram, que feria melhor pedir-lhe pazes ; e fahirem-fe dalli com fua honra. Pelo que defpedíram logo bum Monro em, “uma almadia com: huma bandeira de paz, que foi levado ao Governador , e lhe diffe | > que os Capitães de ElRey lhe mandavam » pedir licença pera lhe mandarem hum Em-. » baixador , pera cem elle tratar coulas, > que lhe convinham.» O Governador o deteve; e ajuntando os Capitães do confelho, aflentou-fe que fe onvifle, e que foubefte o - que queria , com o que o defpediram. E logo fobre a tarde tornou o Embaixador, que era hum Mouro criado do Faratecam, “e vinha bem acompanhado ;, que logo: foi Jevado ao Governador , que já eltava avifado da qualidade de fua pefloa ; e em che- -gando; lhe poz aos pés hum fardete de bea- É ; ti= Dec. VIH. Liv. V. Cam VI 389 tilhas finas, que lhe mandavam de prefente ,: (porque antre elles não fe coltuma fallar em negocio algum femaqguillo, que he final de, amor, e amizade.) O Governador mandou. tomar o fardete, e deitar-lho por huma ja-. nella fóra; e muito menencorio lhe mandou. dizer pelo lingua « que o não lançava tam- » bem aelle, porque não tinha culpa; mas » que diffefe a feu amo que a elle o havia » de fazer.» O Mouro paífmado da paixão. do Governador, fem refponder coufa algu-= ma , fe foi fahindo., e recolhendo a fuas embarcações ; e paflou-fe logo da outra banda tão amedrontado , que ainda depois. de eftar com os Capitães no exercito, não: podia cobrar folego pera fallar. a | Sabendo o Faratecan o que palava, def- . pedio logo com muita preífa hum daquelles Capitães chamado Rafarecan ; muito bem acompanhado , e com hum pretente muito diferente do outro: O Governador recebeo efe homem bem, porque era grave, e hon-. rado, e o ouvio-, e elle lhe diffe da parte de feu Rey «que Ífua tenção nunca fora rom- » per guerra com os Portuguezes , de quem » era amigo havia tantos.annos, e a quem » elle dera aquelle feu porto graciofamente, » poreftimar muito tellos por vizinhos; mas » que acudira a fe não mandar elle Gover- »- nador fortificar naquelle Morro; como ã » dif-