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Educação hacker e empoderamento: partilhando caminhos e experiências.

García Aguado, Alexandre; Álvarez Canovas, Isabel

Abstract

Este trabalho discute a congruência entre cultura hacker e educação, com olhares para o estabelecimento de um ecossistema de empoderamento. Parte da compreensão de educação a partir de uma abordagem emancipadora, com olhar para as desigualdades sociais. Reflete sobre aspectos fundamentais da cultura hacker, expondo os pilares essenciais de sua ética. Partilha experiências, olhares e caminhos sobre uma educação hacker, a partir de estudos e iniciativas relacionadas ao tema nos últimos cinco anos. Propõe ao final que uma maior articulação entre as iniciativas ocorra, não com o intuito de criar modelos ou padronizações, mas sim, de enriquecer o debate acerca do tema através da partilha de experiências que possam contribuir para a sociedade como um todo, afinal, é destacável o forte potencial da educação hacker no estabelecimento de um ecossistema de empoderamento pessoal, comunitário e tecnológico.

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EDUCAÇÃO HACKER E EMPODERAMENTO: PARTILHANDO CAMINHOS E EXPERIÊNCIAS HACKER EDUCATION AND EMPOWERMENT: SHARING PATHWAYS AND EXPERIENCES AGUADO, Alexandre Garcia (Instituto Federal de São Paulo) alexandr[email protected] CANOVAS, Isabel Álvarez (Universidade Autônoma de Barcelona) Isabel.Alvar[email protected] Resumo: Este trabalho discute a congruência entre cultura hacker e educação, com olhares para o estabelecimento de um ecossistema de empoderamento. Parte da compreensão de educação a partir de uma abordagem emancipadora, com olhar para as desigualdades sociais. Reflete sobre aspectos fundamentais da cultura hacker, expondo os pilares essenciais de sua ética. Partilha experiências, olhares e caminhos sobre uma educação hacker, a partir de estudos e iniciativas relacionadas ao tema nos últimos cinco anos. Propõe ao final que uma maior articulação entre as iniciativas ocorra, não com o intuito de criar modelos ou padronizações, mas sim, de enriquecer o debate acerca do tema através da partilha de experiências que possam contribuir para a sociedade como um todo, afinal, é destacável o forte potencial da educação hacker no estabelecimento de um ecossistema de empoderamento pessoal, comunitário e tecnológico. Palavras chave: hackers; educação emancipatória; empoderamento; cultura hacker Abstract: This paper discusses the congruence between hacker culture and education, with a view to establishing an ecosystem of empowerment. We started of the understanding of education from an emancipatory approach, with a look at social inequalities. We reflect about fundamental aspects of the hacker culture, exposing the essential pillars of its ethics. We share experiences, looks and ways about a hacker education, from studies and initiatives related to the subject in the last five years. Finally, we propose that a greater articulation between initiatives should take place, not with the aim of creating models or standardizations, but enriching the debate about the subject by sharing experiences that can contribute to society as a whole, after all, it is highlighting the strong potential of hacker education in establishing an ecosystem of personal, community and technological empowerment. Key Words: Hackers; emancipatory education; empowerment; hacker culture Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 109 1. Introdução Crises diplomáticas, descaso com os recursos naturais, intolerância com o diferente, indiferença com os mais pobres e outras diversas formas de violência verbal, física e social fazem parte da nossa realidade e recheiam os noticiários. Alias, muitos desses eventos sequer aparecem nos noticiários. Como Foucault já refletiu por muitas vezes, nem todas vidas são passíveis de luto. No Brasil especificamente, parece que um tornado chega a cada dia. Investimentos em pesquisa, educação, saúde e programas sociais tem sido cortados pelo estado, com o apoio do mercado, para que a liberação de emendas parlamentares como moeda de troca de apoio político assumam um papel prioritário. Vivemos uma grande crise institucional, onde o interesse das grandes corporações, dos políticos, do mercado financeiro, se sobrepõem descaradamente sobre o interesse do povo. Em nível mundial, a desigualdade social tem crescido com o passar dos anos. De acordo com o Banco Credit Suisse em seu relatório intitulado Global Wealth Report 2015, 1% da população mundial acumula mais riquezas que todo o resto do mundo. Não são só os mais ricos que aparentemente estão mais ricos, mas também os mais pobres parecem estar cada vez mais pobres. A riqueza detida pela metade mais pobre da humanidade caiu em um trilhão de dólares nos últimos cinco anos. (Credit Suisse, 2015) O que mais impressiona ao olhar os diferentes relatórios que medem a desigualdade mundial é perceber que apesar dos avanços tecnológicos e científicos, as diferenças sociais continuam crescendo. O abismo entre pobres e ricos cresce cada vez mais e em um ritmo assustador. Chegamos ao ano de 2017, à um cenário em que o patrimônio dos oito homens mais ricos do mundo é equivalente ao da metade mais pobre do mundo (Oxfam, 2017). Curiosamente, entre esses oito homens, seis deles tem seus negócios centrados nas tecnologias de informação e comunicação. O fundador da Microsoft, Bill Gates possui um patrimônio de aproximadamente 75 bilhões de dólares. Carlos Slim, com um patrimônio de 50 bilhões de dólares tem parte de seus negócios centrados na indústria de telecomunicações e seguindo a lista temos Jeff Bezos, fundador da Amazon, Mark Zuckenberg, fundador da Facebook, Larry Ellison, fundador da Oracle e Michael Bloomberg, fundador da Bloomberg. Temos, como sociedade, certa esperança de que o avanço tecnológico e as possibilidades que a internet nos apresenta, possa de fato contribuir para a redução das desigualdades, porém, percebemos que a apropriação das tecnologias de informação e comunicação, por também ocorrerem de forma desigual e serem objetos da exploração de grandes corporações, faz com que aqueles que controlam esses fluxos e mercados, se tornem exorbitantemente poderosos enquanto a maior parte da população mundial sequer já utilizou um computador. Tal apropriação faz parte das preocupações do criador da web, o hacker, Tim Berns-Lee. Em março de 2017 fez 28 anos que Tim Berners-Lee submeteu a proposta original sobre como deveria ser a web, seus protocolos e estruturas. Em razão disso e devido sua preocupação em relação aos rumos que a web vem tomando, ele escreveu um artigo citando aspectos que segundo ele precisam mudar para que a grande rede sobreviva. Permeando esses aspectos está a grande exploração comercial da rede. Os grandes sites oferecem serviços gratuitos em troca de nossos dados pessoais. A princípio isso parece inofensivo, porém, somos expostos a governos e regimes repressivos onde, blogueiros podem ser presos ou mortos e os opositores políticos podem ser monitorados. Tal exploração de dados pessoais causa um efeito de arrefecimento na liberdade de expressão e impede que a web seja um espaço para de fato explorar tópicos importantes (Berners- Lee, 2017). Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 110 Existe um monopólio formado por “um punhado de sites de redes sociais e motores de busca” (p. 1), os quais ganham mais dinheiro quando clicamos nos links que eles nos mostram. E “eles escolhem o que nos mostrar com base em algoritmos que aprendem com nossos dados pessoais que eles estão constantemente colhendo” (p. 1). Com isso, “através do uso de ciência de dados e exércitos de bots, aqueles com más intenções podem jogar o sistema para espalhar informações erradas por ganho financeiro ou político.” (Berners-Lee, 2017). Por fim, Berners-Lee (2017) cita o grande risco a democracia que corremos devido a publicidade política online. A publicidade direcionada, identificada nas eleições norte americanas, “permite que uma campanha diga coisas completamente diferentes, possivelmente conflitantes, em diferentes grupos.” (p. 1). Apesar dessas preocupações e de percebermos uma grande exploração comercial e política da internet, ela nasceu com propósitos bem diferentes desses que rondam as preocupações de Tim Berners-Lee. Como ele mesmo diz, “Imaginei a web como uma plataforma aberta que permitiria que todos, em todos os lugares, compartilhassem informações, acessassem oportunidades e colaborassem entre fronteiras geográficas e culturais” (p. 1). Esses valores permanecem vivos e ecoando na rede mesmo em um cenário de preocupação. Existe na rede um grande movimento alternativo e porque não dizer contrário a lógica capitalista centrada no ganho financeiro a qualquer custo. Yochai Benkler (2006) define esse movimento alternativo como a economia da informação em rede e tem como seus principais representantes os hackers. O termo hacker desde sua concepção vem sendo associado pela imprensa a crimes e roubos de informação, em uma tentativa clara de “combater uma cultura libertária, baseada no desprendimento, que coloca em risco a ideologia do lucro sem limites (Silveira & Künsch, 2008, p. 66)”. Como forma de desvincular a imagem do hacker daqueles programadores mal intencionados e criminosos, foi criado o termo cracker para estes. A grande diferença do hacker para o cracker não está no domínio técnico, afinal, ambos possuem grandes capacidades. O que os diferencia é que existe uma ética muito bem definida por trás das ações dos hackers: a ética hacker. A ética hacker é pautada em valores como liberdade, paixão, criatividade e abertura. Uma cultura emerge a partir da práxis dos hackers: a cultura hacker. Por compreender que a práxis dos hackers pode contribuir para que as diversas realidades de nosso mundo sejam mais justas e humanas, este trabalho volta seu olhar para a congruência entre a cultura hacker e a educação. A visão de educação de que trato aqui, não é aquela que se confunde com domesticação, disciplina, modelação do ser, mas sim, no sentido mais Freiriano possível: como uma matriz de esperança, um processo de construção autônoma do inacabado. “Seria uma agressiva contradição se, inacabado e consciente do inacabamento, o ser humano não se inserisse num permanente processo de esperançosa busca. Este processo é a educação.” (Freire, 2000b, p. 52) O objetivo deste trabalho é refletir sobre a congruência entre cultura hacker e educação, com olhares para o estabelecimento de um ecossistema de empoderamento na perspectiva pessoal, comunitária e tecnológica. Para tal, proponho um caminho que passe no capítulo dois pela concepção de educação a partir de Paulo Freire e Ivan Illich, no capítulo três a compreensão sobre os aspectos latentes da Cultura Hacker e no capítulo quatro apresento uma revisão de trabalhos práticos e teóricos que estejam relacionados à educação hacker nos últimos cinco anos. Essa riqueza de experiências e olhares possibilitam no capítulo cinco algumas considerações relevantes sobre o assunto, porém, ainda preliminares, afinal, esse trabalho é parte de minha pesquisa de doutorado, a qual se encontra em fase inicial. Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 111 2. Educação e desigualdades Uma das formas mais belas e eficazes de intervir no mundo e nas questões de justiça e desenvolvimento humano é a educação. Para Freire (1992; 2000; 2005) a educação é um processo humanizador, social, ético, político e histórico, sendo assim o caminho que liberta a pessoa e que busca promover direta e indiretamente uma consciência de igualdade e respeito com todos. O autor, denuncia na sociedade uma dinâmica de relação opressora, apontando que tanto opressor quanto oprimido são frutos de um processo de desumanização que deve ser combatido por meio do trabalho livre, de desalienação e pela afirmação dos homens como pessoas, como seres humanos. Dentro deste contexto, revela que a grande tarefa dos “oprimidos” é “libertar-se a si e aos opressores” e reforça a vocação do homem em ser mais, com o direito a crescer, evoluir com dignidade e ir além. Negar ao homem esse acesso e direito caracteriza uma forma de violência real. (Freire, 2005, p. 33) Outro autor contemporâneo de Paulo Freire e cuja obra dialoga com sua visão de educação é Ivan Illich. Em comum, os dois demonstravam o desejo e a busca por uma educação que não deve estar a serviço das classes dominantes ou mesmo do mercado, mas sim, que leva o homem a sua emancipação. Para além deste desejo, ambos participaram da construção da argumentação crítica do sistema capitalista e a forma pela qual este se apropria dos meios de formação de opinião, especialmente a escola, para perpetuarem seu plano de dominação sobre os menos favorecidos. Para que as ideias de Freire e Illich possam ganhar vida, um dos grandes desafios é a compreensão de que educação é algo muito mais amplo do que aquilo que a escola pode de fato fazer. A distinção entre educação e escolarização fica clara na obra de Illich (1985), que, nos anos setenta, em seu trabalho sociedade sem escolas, traz severas críticas à institucionalização da educação. Segundo o autor “em todo mundo a escola tem um efeito antieducacional sobre a sociedade: reconhece-se a escola como a instituição especializada em educação”, quando na realidade não é. (Illich, 1985, p. 22) A aprendizagem acontece nos mais diversos espaços: ruas, praças, cafés, no trabalho, enfim, nas mais diversas dimensões da vida humana. Para Illich (1985, p. 15), “não é possível uma educação universal através da escola. Seria mais factível se fosse tentada por outras instituições.” Um dos pontos interessantes da obra de Illich (1985) é perceber que ainda na década de setenta, o autor via a importância de se criarem teias de aprendizagem. A definição que Illich apresenta para essas teias é bem próxima daquelas que Pierre Lévy na década de noventa nos revela em suas obras quando define aspectos da relação entre a internet e o saber. Na visão de Illich (1985), um bom sistema educacional deve ter três propósitos: (a) dar acesso aos recursos disponíveis a todos que queiram aprender e em qualquer época de sua vida; (b) capacitar os que queiram partilhar o que sabem de forma a encontrarem os que queiram aprender algo deles e, finalmente, (c) dar oportunidade a todos os que queiram tornar público um assunto, para que, assim, seu desafio seja conhecido. Para viabilizar a construção das teias de aprendizagem, Illich (1985) propõe a existência de quatro redes com propósitos específicos: 1) serviço de consulta a objetos educacionais, os quais devem estar disponíveis de forma comum; 2) intercâmbio de habilidades, que permite as pessoas relacionarem e partilharem suas aptidões; 3) encontro de colegas, que seriam redes de comunicação à viabilizarem os trabalhos em pares e 4) serviço de consulta a educadores em geral, os quais podem ser profissionais ou não profissionais. Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 112 As ideias de Illich (1985) revelam um olhar além do seu tempo. Como já citado anteriormente, é possível associá-la de forma bem próxima com o que Pierre Lévy nos apresenta mais contemporaneamente. O filósofo, sociólogo e pesquisador Pierre Lévy (1998 e 1999), em suas obras, evidencia o fato de que a internet tem redefinido uma série de conceitos e relações, inclusive a relação com o saber. A internet apresenta possibilidades que, quando consideradas, podem modificar a forma pela qual as pessoas estão acostumadas a construir o conhecimento. Lévy (1998 e 1999) apresenta uma relação ainda mais íntima entre educação e conhecimento, quando aponta que a internet pode servir de infraestrutura para o surgimento do 'Espaço do Saber', ou seja, de um espaço antropológico onde a identificação social se dá a partir da inteligência, do conhecimento. A internet está diretamente relacionada com o saber, essencialmente por três de suas características: A velocidade de evolução dos saberes, pois nunca a evolução das ciências e das técnicas foi tão rápida e com consequências tão diretas à vida cotidiana.(Lévy, 1998, p.25); Surgimento de novas ferramentas “que podem fazer surgir, por trás do nevoeiro informacional, paisagens inéditas, identidades singulares, específicas desse espaço, novas figuras sócio-históricas” (Lévy, 1998, p.25). As comunidades hacker são exemplos bem sucedidos de grupos emergentes da economia da informação em rede e que sabem explorar as características positivas desta grande rede que é a internet, a qual, em grande parte, tem sido criada por eles. Sua ética é um exemplo de modelo social que ao longo dos anos tem possibilitado uma série de criações de valor social imenso, além de motivar ações nos mais diversos ramos da sociedade. À massa de pessoas convocadas a aprender e produzir novos conhecimentos, pois, se torna impossível reservar o conhecimento somente a um grupo determinado de especialistas. “É o conjunto do coletivo humano que deve, daqui por diante, se adaptar, aprender e inventar para viver melhor no universo complexo e caótico em que passamos a viver” (Lévy, 1998, p.25). A visão de Illich (1985) nunca foi tão atual como agora. Os propósitos deste novo sistema educacional proposto por ele e as redes que viabilizam as teias de aprendizagem passam a ganhar mais visibilidade e relevância com o surgimento de redes e movimentos que se formam fora da lógica do mercado e articulados pela internet. 3. Cultura Hacker A compreensão da cultura hacker é um desafio para a sociedade contemporânea, afinal, como é possível comunidades que desafiam as fronteiras de tempo e espaço desenvolverem tantas soluções que, sendo partilhadas de forma livre, fora da esfera mercadológica, beneficiam tantas pessoas? Um dos principais trabalhos para compreensão da Ética Hacker foi criado por Pekka Himanen juntamente com Linus Torvalds e Manuel Castells e se intitula A ética dos Hackers e o espírito da era da informação. Para Himanen (2001), tal ética propõe uma reflexão em três perspectivas da vida humana: (1) a forma com que nos relacionamos com o trabalho, (2) a forma com que nos relacionamos com o dinheiro e (3) a forma com que nos relacionamos em rede. Para cada uma dessas dimensões, Himanen (2001) apresenta alguns pilares que norteiam a ética dos hackers, conforme sintetiza a Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 113 figura 1. Figura 1. Pilares da Ética Hacker segundo Himanen(2001) Fonte: Autoria Própria Para os hackers, as pessoas não devem viver em função de um trabalho que tem por objetivo gerar sustento de forma penosa e nada prazerosa. Ao contrário desta visão, para os hackers, o princípio que deve conduzir suas atividades é a paixão. Outro valor diretamente relacionado à paixão e que forma a base para o entendimento da ética do trabalho dos hackers é a liberdade. A liberdade, do ponto de vista dos hackers, deve permear todas as expressões do ser humano. Trata-se aqui de uma liberdade em fazer, ser e viver. (Himanen, 2001, p. 47) Contrapondo-se a ideia presente nas dinâmicas de mercado de que as informações relevantes sobre as invenções devem ser tratadas como um segredo, a ética hacker traz como um de seus pilares principais a abertura, no qual inclui-se a crença de que o compartilhamento de informações é positivo e poderoso, sendo não só uma postura aconselhável, mas sim um dever moral dos hackers a ser partilhado de forma gratuita a todos. Neste viés, Himanen (2001) nos apresenta o quarto valor da ética hacker: o valor social. O valor social, para o hacker, se apresenta quando este não quer viver sua paixão sozinho, mas sim, viver essa paixão junto, criando recursos valiosos para a comunidade. Quanto à terceira perspectiva, ou seja, a ética da rede, que trata da forma pela qual os hackers se relacionam com as redes, existe dois valores essenciais que se somam aos demais já citados: ação (atividade) e cuidado. Segundo a ética hacker a passividade deve ser desprezada: espera-se do hacker uma postura ativa perante a rede, ao grupo e sua comunidade. Por isso, a ação é um valor importante. O cuidado é um valor essencial no relacionamento em comunidade e este é fortemente valorizado pelos hackers. Diretamente ligado ao cuidado está a percepção de que se é parte de uma sociedade e uma comunidade maior que si mesmo e isso implica em responsabilidades perante todo este corpo. Por fim, uma vez conscientes e desejosos de viver esses seis aspectos citados, segundo Himanen (2001), cabe ao hacker a experiência de criar e recriar o mundo e, assim, nos apresenta o sétimo valor: a criatividade. Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 114 A criatividade aqui citada não é somente a simples expressão de uma mente que tem ideias, mas mais do que isso, diz respeito à utilização imaginativa das habilidades que cada um tem para que, superando a si mesmo, possa criar de forma a contribuir genuinamente para o mundo, sua comunidade e rede. Tendo integralmente ou parcialmente esses sete itens como pilares, uma série de criações e iniciativas existem ao redor do mundo. Dessa forma, nasceu o Sistema Operacional GNU/LINUX, a Wikipédia, maior enciclopédia do mundo, o movimento dos Recursos Educacionais Abertos (REA), que contribuem para a educação e o desenvolvimento humano, movimentos em prol da cultura aberta e livre, entre outros coletivos. 4. Cultura Hacker e Educação Existe uma proximidade grande entre cultura hacker e educação. Apesar de ainda pouco explorada, essa relação, como campo de pesquisa tem despertado o interesse de muitos pesquisadores no Brasil e no mundo. Afim de obter um retrato atual sobre o tema, realizei diversas pesquisas em bases de dados científicas, fóruns e mecanismos de busca na internet, tendo como palavras chave “cultura hacker” e “educação”, juntas. O recorte temporal foi de 5 anos, ou seja, foram consideradas iniciativas práticas, artigos científicos, relatos pessoais e pesquisas de mestrado e doutorado de 2013 a 2017. Entre os pesquisadores que tem se dedicado ao tema no Brasil, com destaque esta o Professor Nelson de Luca Pretto da Universidade Federal da Bahia, instituição que tem se destacado com grupos de estudos e projetos nessa linha. Em uma de suas obras, Pretto (2015, p. 79) elenca os princípios, para ele, de uma educação hacker nas escolas: - Acesso total a todo e qualquer meio de ensino aos que querem aprender; - Desconfiança das autoridades, ou seja, um olhar crítico e visão a partir de outros ângulos; - Processos de aprendizagem descentralizados, fugindo do mero consumo de informações; - Compreensão da diversidade de saberes, culturas e conhecimentos; - A cópia deve ser considerada como parte do processo de aprendizagem; - Descriminalização e incentivo do erro ,afinal, errar faz parte do processo de aprendizagem; - Uma arquitetura nas escolas que favoreça a liberdade e o trabalho coletivo. Por diversas vezes em seus trabalhos Pretto (2013, 2015) exalta a importância do acesso livre à informação. “Para o hacker, o acesso aos computadores e a qualquer coisa que possa ensinar algo sobre o funcionamento do mundo deve ser irrestrito” (Pretto, 2015, p. 78). Existe uma correlação entre os aspectos citados anteriormente e aqueles apresentados por Himanen (2011) a partir da ética hacker. Uma proposta de formação docente a partir desses pressupostos foi elaborada por Aguado, Mendes, Chaves e Silva (2015). No trabalho citado, Paixão, Liberdade, Valor Social, Abertura, Ação, Cuidado e Criatividade são considerados eixos norteadores à formação do professor hacker, a partir de questionamentos que podem desencadear um caminho de autorreflexão. Cultura hacker e educação tem sido pauta de importantes encontros entre pesquisadores. Os Seminários Nacionais de Inclusão Digital37 (SENID) são um exemplo disso. A segunda edição desse seminário, ocorreu em 2013 e teve como tema Por uma cultura hacker na educação. Durante 37Os detalhes do encontro que versou sobre cultura hacker na educação podem ser encontrados no link <http://gepid.upf.br/senid/2013> . Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 115 três dias de encontro, entre oficinas, palestras e painéis, pesquisadores de todo o país puderem refletir colaborativamente sobre os caminhos possíveis para a educação a partir de abordagens que envolvam o empoderamento tecnológico e os pressupostos presentes na cultura hacker. Fora do Brasil algumas iniciativas de pesquisa também tem surgido. O professor da Universidade de Sevilha, Jose Carlos Escaño Gonzalez é um dos pesquisadores que tem trabalhado com o tema. Em 2013 ele dirigiu um documentário chamado Cultura Libre y Educación Hacker38. No documentário, os pesquisadores compartilham suas percepções sobre educação e a necessidade de hackear a escola, criando um contexto aberto, criativo, crítico, emancipatório, conectado em rede, para a construção da autonomia. 4.1. Os processos de aprendizagem dos hackers Os processos de aprendizagem nos coletivos hackers tem sido objeto de estudo de alguns pesquisadores. Esse ecossistema de aprendizagem tem sido observado tanto em hackerspaces (Schrock, 2014; Burtet, 2014), quanto em comunidades hacker que utilizam a internet como seu território de encontros (Filho & Aguiar, 2015). A definição precisa do que é um hackerspace se torna razoavelmente difícil, se considerarmos o caráter plural desse movimento. Alguns pesquisadores veem tantas semelhanças entre hackerspaces, makerspaces e fablabs que consideram espaços semelhantes, adotando o termo HMSs para representar Hacker and MakerSpaces. Para Schrock (2014) , os HMSs são organizações coletivas, as quais mantêm oficinas para tinkering, aprendizagem social e colaboração em grupo através de projetos criativos e técnicos. Geralmente esses coletivos mantêm políticas de acesso abertos e os voluntários pagam uma pequena taxa para manter os espaços. Em relação a fronteira entre hackerspaces, fablabs e makerspaces, Martins (2015) ressalta que é possível constatar “a influência da cultura hacker como um pano de fundo que contextualiza certo éthos presente em todos eles, na preconização do trabalho cooperativo e do conhecimento compartilhado, ao lado do prazer em desvendar e inventar” (p. 65). Apesar disso, os hackerspaces se diferenciam dos outros em relação ao grau de participação de seus integrantes nas definições sobre os projetos a serem desenvolvidos. Em tese, comparado com outros tipos de laboratórios, os hackerspaces – respeitada as variações de cada caso – são os locais onde a participação dos cidadãos é mais estratégica tanto na concepção quanto no desenvolvimento do espaço e suas iniciativas. Tanto Schrock (2014) quanto Burtet (2014) apresentam como objetivo de pesquisa a compreensão de como a aprendizagem se dá no contexto de um hackerspace. Enquanto Schrock (2014) tem como contexto de pesquisa o hackerspace GeekSpace39 na América do Norte e buscou essa compreensão através de entrevistas com treze participantes, Burtet (2014), se emergiu no Matehackers4 em Porto Alegre, Brasil. Ao buscar uma definição para o Matehackers, Burlet (2014, p. 82) diz que é “um coletivo aberto, do qual qualquer pessoa pode fazer parte e onde os membros têm total liberdade para entrar e sair, ‘aparecer e sumir’, participar e deixar de participar”. A pesquisadora fez da convivência, da observação, suas principais ferramentas metodológicas. Nos relatos de Burtet (2014) encontramos de forma detalhada aspectos da rotina de um hackerspace. Entre os aprendizados da pesquisadora está o de que este espaço se caracteriza pela 38Documentário disponível através do link <https://vimeo.com/74514091> 39Conheça melhor o espaço: < http://www.geekspacegwinnett.org/> Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 116 ausência de compromisso com o mercado, contrapondo-se muitas vezes ao que é encontrado em fablabs e makerspaces. No que tange a aprendizagem dos hackers a pesquisadora sintetiza suas observações com alguns aspectos: - Os saberes são compartilhados na prática; - Existe um ecossistema de colaboração através da internet; - As caixas-pretas do conhecimento são constantemente questionadas; - Respeita-se as pessoas, mas não suas opiniões (soa arrogante, mas é um dos aspectos que favorecem uma abordagem crítica); - As decisões são compartilhadas democraticamente; - O casos é ordem! Em outro espaço geográfico, porém, de contexto próximo, Schrock (2014, p.14) observa que no hackerspace se destacam características como o auto didatismo e a aprendizagem coletiva a partir de projetos comuns. Segundo o pesquisador, os projetos apresentavam-se como vitais para vincular “interesses pessoais ao compartilhamento e colaboração”. Em torno dos projetos e com o objetivo de fazer algo funcionar, a aprendizagem acontecia. Nesse contexto que ocorria o que Schrock (2014) chama de educação disfarçada. Um espaço orientado por projetos foi visto como necessário para impulsionar o crescimento e a socialização ao longo do tempo. Se existe algo que os hackers compreenderam desde suas primeiras comunidades é que o distanciamento geográfico não é empecilho para que um projeto seja desenvolvido de forma colaborativa. Nesse contexto, da mesma forma que Schrock (2014) e Burtet (2014) tem seu olhar para a aprendizagem dos hackers, Filho e Aguiar (2015) também tem, porém, ao invés de observarem hackerspaces, seus olhares foram para as comunidades Wikipédia40 e o projeto gnome41, as quais possuem milhares de colaboradores espalhados pelo mundo, conectados pela internet. Os autores organizam suas observações em relação ao modelo aberto de aprendizagem dos hackers em três aspectos principais. O primeira deles é o método de aprendizado aberto, coletivo e descentralizado. A partir da dinâmica de criação que culminou no kernel do sistema operacional Linux, e se estabeleceu como característica das comunidades hackers, “é possível perceber que esse ambiente hacker de aprendizagem é criado e mantido pelos próprios (eternos) aprendizes, ressaltando, assim, alguns aspectos importantes da sua singularidade” (Filho & Aguiar, 2015, p. 99). As comunidades hacker possuem como característica a grande valorização dos usuários como parte do time. O chavão Libere cedo e frequentemente é um dos aspectos que permitem muitos usuários terem acesso a versões não tão maduras dos softwares e a partir do espírito voluntário e comunitário, ajudam a corrigi-las, muitas vezes reportando seus erros. Dada a grande quantidade de olhares sobre o mesmo objeto em produção, é possível tê-lo maduro e com boa qualidade de forma mais rápida do que a industria tradicional de softwares costumam ter. Essa característica não se restringe as comunidades de software livre, porém, ocorre em outras comunidades de hackers, como a Wikipédia por exemplo. Himanen (2001), associa essa característica da aprendizagem dos hackers à Academia de Platão, onde os alunos eram vistos como companheiros de aprendizagem. O segundo aspecto que Filho e Aguiar (2015) ressaltam em relação ao modelo de aprendizagem dos hackers é a obrigação moral de acessar, editar e compartilhar conhecimento. 40 A maior enciclopédia do mundo, desenvolvida de forma colaborativa. Acesse <https://pt.wikipedia.org> 41Um projeto que mantém a interface gráfica mais utilizada nas distribuições linux. Acesse: <https://www.gnome.org/> Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 117 com uma madura noção de que a apropriação das tecnologias pode contribuir para a sociedade, interferindo nas dinâmicas de poder presentes no mundo. O Projeto Jovem Hacker tem nos dado pistas e confirmações de que os aspectos da Cultura Hacker estão de fato intimamente ligados com uma visão de educação emancipadora e em um contexto prático, a combinação entre esses dois eixos podem contribuir para que pessoas, que antes eram excluídas de alguma forma, percebam-se autores e protagonistas perante um mundo que precisa compreender que a lógica do mercado tem alargado os abismos entre diferentes grupos. 5. Considerações Finais Interferir nas dinâmicas de poder da sociedade não é uma tarefa fácil, mas sim, uma busca que acompanha a história da humanidade. Tal busca passa essencialmente pela necessidade de se repensar o modelo de educação que temos e fazê-lo isso compreendendo as potencialidades tecnológicas contemporâneas. Da mesma forma que nas revoluções industriais as tecnologias foram relevantes em todo o contexto social criado a partir daquele momento, sem dúvida a revolução da internet tem contribuído para o modelo de sociedade que temos hoje. Desde o início dessa revolução duas culturas tem se conflitado: de um lado a cultura empreendedora marcada pelo domínio das grandes corporações que fazem da internet e dos bens imateriais os alicerces de suas riquezas. De outro lado temos a cultura hacker, marcada pela busca da liberdade, do bem comum, das riquezas sociais e da ampliação da autonomia das pessoas. Neste trabalho, acredita-se que para caminharmos rumo a um mundo mais justo, onde as oportunidades e riquezas são melhores distribuídas, é necessário rompermos com modelos estruturais de controle, modelação e homogenização, entre eles, e de forma especial, os sistemas educacionais orientados ao mercado, homogenizadores e essencialmente disciplinares. Soma-se a esta visão, a necessidade de contribuirmos para o empoderamento tecnológico das pessoas em um âmbito humano e social. Como grande parte dos fluxos informacionais são conduzidos e manipulados por códigos e protocolos, estratégias de empoderamento devem contribuir para que as pessoas tenham acesso e condições de compreender essas dinâmicas e suas implicações. Nesses dois eixos, educação e tecnologia, muitos movimentos tem surgido. No campo tecnológico o Movimento do Software Livre com suas diversas comunidades e coletivos tem sustentado parte significativa da economia da informação em rede. No campo da educação o Movimento dos Recursos Educacionais Abertos esta a todo vapor em diversos países, com vários grupos criando materiais didáticos e partilhando eles de forma livre, incentivando o remix, e buscando contribuir para uma ecologia de aprendizagem aberta. Percebemos que existem diversas iniciativas, pesquisadores, instituições e movimentos gestando pouco a pouco uma diversidade de possibilidades que emergem da congruência entre cultura hacker e educação. A educação hacker tem sido objeto de estudo já ha alguns anos de pesquisadores em diversos locais do mundo. Faz-se necessário porém, que uma maior articulação entre tais iniciativas ocorra, não com o intuito de criar modelos ou padronizações, mas sim, de enriquecer o debate acerca do tema através da partilha de experiências que possam contribuir para a sociedade como um todo. Por fim, tem sido possível perceber que a educação hacker favorece o estabelecimento de um ecossistema de empoderamento em três perspectivas principais: pessoal, comunitário e tecnológico. Actas del II Congreso Internacional Move.net sobre Movimientos Sociales y TIC 25-27 de octubre 2017 – Universidad de Sevilla, COMPOLITICAS 124 Empoderamento pessoal, pois coloca a liberdade do hacker como princípio que se articula com a paixão na busca de práticas que fazem sentido pra si, respeitando seus anseios pessoais e contribuindo para que cada um, de forma subjetiva, assuma sua condição de protagonista de seus próprios rumos, construindo autonomia nos mais diversos âmbitos. Empoderamento comunitário, pois, a práxis dos hackers se dá em comunidades, onde as estratégias são pautadas pela partilha, fundamentada na colaboração e na busca de criações com valor social, não orientadas as necessidades do mercado. Dessa forma, comunidades e coletivos, especialmente aqueles socialmente oprimidos, podem tomar as rédias de seu desenvolvimento local, deixando de lado, cada vez mais, as amarras que causam dependência e subordinação. Por fim, o empoderamento tecnológico, pois a práxis dos hackers tem como princípio o livre acesso à softwares, hardwares e diversas tecnologias que são desenvolvidas por comunidades espalhadas ao redor do mundo. Em um contexto onde os fluxos informacionais são pautados pelas tecnologias digitais, compreendê-las e incorporá-las se torna um imperativo para indivíduos e comunidades que querem ter em suas próprias mãos o caminho que desejam trilhar. 6. Referencias -Aguado, A. G., Mendes, J. P., Chaves, R., Silva, W. (2015, Agosto). Educação Hacker: Uma proposta para formação docente.Revista Inovaeduc, (3). Disponível em <http://www.lantec.fe.unicamp.br/inovaeduc/>. -Alvez-Mazzotti, A. J., Gewandsznajder, F. (2001). O método nas ciências naturais e sociais: pesquisa quantitativa e qualitativa. São Paulo, Brasil: Pioneira -Amiel, T., Fedel G. S., Arantes, F. L, Aguado, A. G. (2015). Dominando para não ser dominado: Autonomia tecnológica com o Projeto Jovem Hacker. 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