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72-87 Nº 66 | OTOÑO 2024 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 10.12795/Ambitos.2024.i66.04 WhatsApp no jornalismo regional: um estudo a partir da percepção dos jornalistas de Palmas (TO)1 WhatsApp in regional journalism: a study based on the perception of journalists from Palmas (TO) Fernanda Alves de Mendonça Universidade Federal do Tocantins – Câmpus de Palmas | Quadra 109 Norte, Av. NS-15, ALCNO-14. Plano Diretor Norte. CEP: 77001-090. Palmas – TO. 0009-0008-6104-8397 | f[email protected]om Thays Assunção Reis Universidade Federal do Tocantins – Câmpus de Palmas | Quadra 109 Norte, Av. NS-15, ALCNO-14. Plano Diretor Norte. CEP: 77001-090. Palmas – TO. 0000-0001-6826-1096 | thay[email protected] Recepción 16/05/2024 · Aceptación 06/07/2024 · Publicación 15/10/2024 Resumo Este artigo tem como objetivo entender como os jornalistas que atuam em veículos tradicionais da cidade de Palmas, capital do Tocantins (Brasil), utilizam o aplicativo WhatsApp para desenvolver uma cobertura jornalística regional. Para alcançar este propósito foram realizadas entrevistas semiestruturadas com dez jornalistas –sendo sete da TV Anhanguera (afiliada à Rede Globo) e três da rádio CBN Tocantins –entre os meses de julho e setembro de 2023. O aporte teórico do estudo traz considerações sobre o jornalismo regional e a presença do WhatsApp nas redações brasileiras. Os resultados desta pesquisa mostram que o WhatsApp contribui de forma significativa para a produção de conteúdo diário sobre as cidades próximas e distantes das sedes das redações sem a necessidade de deslocamento das equipes. Por outro lado, observou-se, a partir das entrevistas, que o aplicativo sobrecarrega a rotina de trabalho dos jornalistas, pois eles têm de participar de um grande volume de grupos sobre notícias de outros municípios, para captar e apurar informações regionais em circulação. Em termos de conteúdo, as notícias regionais produzidas via aplicativo se mostram cada vez mais desprovidas das percepções dos jornalistas, em razão dessa falta de apuração presencial; distantes dos lugares nos quais acontecem esses fatos; e afastado das pessoas de onde se fala. Palavras-chave: WhatsApp, notícias regionais, jornalismo, Tocantins. 1. O artigo é um recorte da dissertação da ‘WhatsApp e a prática do jornalismo regional nas redações jornalísticas da TV Anhanguera e CBN Tocantins”, apresentada em março de 2024, ao programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade da Universidade Federal do Tocantins (UFT) para obtenção do título de Mestre em Comunicação e Sociedade.
WhATSApp NO jOrNAlISmO rEgIONAl: um ESTudO A pArTIr dA pErcEpçãO dOS jOrNAlISTAS... Fernanda Alves de mendonça / Thays Assunção reis 73 ÁmBITOS. rEVISTA INTErNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 66 · OTOÑO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i66.04 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 72-87 Abstract This article aims to understand how journalists working for traditional media outlets in the city of Palmas, the capital of Tocantins1 (Brazil), use the WhatsApp application to develop regional news coverage. To achieve this, semi-structured interviews were conducted with ten journalists - seven from TV Anhanguera (affiliated to Rede Globo) and three from CBN Tocantins radio - between July and September 2023. The study’s theoretical framework includes considerations about regional journalism and the presence of WhatsApp in Brazilian newsrooms. The results of this research show that WhatsApp contributes significantly to the production of daily content about cities near and far from newsroom headquarters without the need for teams to travel. On the other hand, it was observed from the interviews that the app overloads journalists’ work routines, as they have to participate in a large number of news groups from other municipalities in order to capture and compile regional information in circulation. In terms of content, the regional news produced via the app is increasingly devoid of journalists’ perceptions, due to this lack of face-to-face investigation; distant from the places where these events take place; and far removed from the people they are talking about. Keywords: WhatsApp, local news, journalism, Tocantins. 1. Introdução As convergências tecnológicas e midiáticas transformaram a produção de notícias, há mais de uma década, quando as empresas jornalísticas passaram a seguir uma lógica produtiva integrada, com profissionais “multitarefas”, fluxo de conteúdo em múltiplas plataformas e adoção de diferentes linguagens nas narrativas (Salaverría & Negredo, 2008; Jenkins, 2009). Desde então, diversas ferramentas tecnológicas surgiram e foram inseridas neste ambiente para contribuir com o novo ritmo de trabalho nas redações. Uma delas foi o WhatsApp - aplicativo de mensagens lançado em 2009 pelo norte-americano Jan Koum e pelo ucraniano Brian Acton como alternativa ao uso do sistema SMS (Short Message Service), serviço de envio de mensagens curtas de texto entre celulares. O WhatsApp passou a ser adotado nas redações de veículos da imprensa em todo o mundo a partir de 20142, em projetos especiais. Consolidando-se como um eficaz canal de distribuição de conteúdo por meio de listas de transmissão ou boletins informativos; e canal de engajamento com o público, ao obter feedback, sourcing e construir uma base de usuários leais por meio de comunicação pessoal (Boczek & Koppersb, 2020). Do ponto de vista do jornalismo regional brasileiro, o WhatsApp mostra-se uma ferramenta valiosa para acompanhar os acontecimentos em diversas cidades, desde as mais próximas geograficamente, até as distantes das sedes dos veículos jornalísticos. Devido a isso, o objetivo deste artigo é verificar como os jornalistas que atuam nas redações de Palmas, capital do Tocantins (Brasil), utilizam o WhatsApp para desenvolver uma cobertura regional. Para dar conta dessa proposição, realizou-se entrevistas semiestruturadas com dez jornalistas de dois principais veículos de comunicação da cidade - sete da TV Anhanguera e três da CBN Tocantins, entre os meses de julho a setembro de 2023. Esta pesquisa optou por não adotar uma hipótese para verificar o fenômeno investigado. O estudo se justifica por investigar um assunto inexplorado no contexto brasileiro, que é a utilização do WhatsApp nas redações para a produção noticiosa regional. Nas teses e dissertações defendidas no 2. A data é uma referência aos estudos iniciais sobre o WhatsApp, pois não foi localizado uma data precisa da inserção da ferramenta nas redações.
WhATSApp NO jOrNAlISmO rEgIONAl: um ESTudO A pArTIr dA pErcEpçãO dOS jOrNAlISTAS... Fernanda Alves de mendonça / Thays Assunção reis 74 ÁmBITOS. rEVISTA INTErNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 66 · OTOÑO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i66.04 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 72-87 país nos últimos 14 anos (2009-2023)3, identificou-se apenas trabalhos sobre os usos do WhatsApp na rotina de trabalho dos jornalistas, mas nenhum voltado ao assunto aqui sugerido. Desse modo, este estudo mostra-se necessário e relevante por avançar nas discussões científicas em torno do fazer jornalístico regional no Brasil. Isto posto, este texto segue dividido em cinco seções: esta introdução; a apresentação do jornalismo regional e o contexto brasileiro do WhatsApp; a descrição da metodologia, com informações dos entrevistados, critérios de seleção e instrumentos, as análises das entrevistas, e, por fim, as considerações. 2. Jornalismo regional e WhatsApp no cenário brasileiro Os meios de comunicação regionais e seu jornalismo são vistos como elementos fundamentais para as comunidades fora dos grandes centros urbanos. Jerónimo e Esparza (2023) explicam que os meios de comunicação regionais influenciam a “agenda pública das pequenas comunidades, facilitam o conhecimento dos cidadãos sobre os seus líderes e as diferentes políticas e posições e colaboram na tarefa necessária de responsabilização desses representantes públicos” (p.2). No contexto brasileiro, os meios regionais são os responsáveis pela cobertura dos fatos mais próximos, aqueles que acontecem em uma microrregião, mesorregião, em um Estado ou uma macrorregião, e interferem diretamente na vida cotidiana dos moradores que ali residem (Aguiar, 2016). Por esse motivo, seu jornalismo é, frequentemente, caracterizado pela proximidade geográfica com o público, as fontes e os fatos noticiados; a identidade sociocultural e histórica com os territórios e sociedades dos quais emergem ou nos quais estão inseridos (Aguiar, 2016); e a produção da chamada “informação de proximidade”, que compreende, conforme descrito por Peruzzo (2005): aquela que expressa as especificidades de uma dada localidade, que retrata, portanto, os acontecimentos orgânicos a uma determinada região e é capaz de ouvir e externar os diferentes pontos cidadãos, das organizações e dos diferentes segmentos sociais. (p.81). De outra forma, o jornalismo regional no Brasil pode ser visto como uma prática que extrapola os limites territoriais das sedes dos veículos e produz informação sobre outras cidades (Reis, 2018). Nas cidades médias não metropolitanas4, como descrito por Reis (2018), ele ganha contornos ainda mais específicos, assumindo a condição de “jornalismo de influência regional, que orienta a produção e o consumo de informação de proximidade na região na qual está inserido, e, ao mesmo tempo, faz a intermediação dos fluxos informativos nacionais e internacionais” (p.98). Corroborando com esta definição, Deolindo (2013), afirma que os veículos regionais preenchem a lacuna de informação deixada pela prática jornalística nacional e estadual referente à multiplicidade de acontecimentos que ocorrem no país. Deolindo (2013) observou que os jornais regionais e locais, junto com os portais de notícias regionais, “publicam notícias de interesse direto e próximo da 3. Levantamento realizado no Banco da Capes e na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). 4. São cidades que não são capitais estaduais ou estão localizadas em áreas metropolitanas. Possuem população em torno de 100 a 500 mil habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2011).
WhATSApp NO jOrNAlISmO rEgIONAl: um ESTudO A pArTIr dA pErcEpçãO dOS jOrNAlISTAS... Fernanda Alves de mendonça / Thays Assunção reis 75 ÁmBITOS. rEVISTA INTErNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 66 · OTOÑO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i66.04 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 72-87 comunidade, ao mesmo tempo em que reproduzem informações dos grandes centros para manter o público informado do que se passa [lá fora]” (p.7-8). Dito isto, o jornalismo regional sempre contou com o auxílio de recursos tecnológicos, como telégrafos e telefones, para conseguir dar conta dos acontecimentos de outras localidades. Entre eles, o WhatsApp é o mais recente e significativo nos veículos regionais brasileiros. Ele começou a ser utilizado no país pelo jornal Extra, do Rio de Janeiro. O impresso adotou a ferramenta em 2013, de forma espontânea e sem um plano de atuação, apenas a partir da iniciativa do editor digital Fábio Gusmão, ao observar o enraizamento do aplicativo na vida das pessoas. O objetivo inicial era conseguir informações das pessoas, principalmente fotografias e vídeos, sobre as manifestações nacionais de junho de 2013, motivadas pelo aumento da tarifa de ônibus na cidade de Porto Alegre (RS), e que mobilizou milhares de pessoas a se posicionarem contrárias à corrupção, governos e políticos (Specht, 2019). Nos anos seguintes, o WhatsApp foi sendo inserido progressivamente nas redações de veículos jornalísticos de todo país. Em 2016, o aplicativo foi localizado por Reino e Bueno (2017) em 27 veículos mais acessados de cada capital do país e nos três maiores jornais de circulação nacional. Segundo os autores, naquele período o aplicativo era o mais comum dentro das redações, mas era usado sem nenhum tipo de orientação, apenas como ferramenta para envio de sugestões de pauta (Reino & Bueno, 2017). Em 2023, durante o levantamento de pesquisas sobre o uso do WhatsApp por veículos jornalísticos no Banco da Capes5 e na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD)6 entre os anos de 2009 e 2023, registrou-se 26 veículos de diferentes regiões do Brasil que adotaram o aplicativo na sua rotina produtiva (Quadro 1). O dado, além de evidenciar a presença da ferramenta nas redações, revela o interesse da academia pelo tema. Quadro 1 Levantamento do WhatsApp nas redações brasileiras (2009-2023) Veículo de comunicação Tipo Cidade/Estado Correio Braziliense Site Brasilia (DF) GI Distrito Federal Site Brasilia (DF) Metrópoles Site Brasilia (DF) TV Centro América Televisilo CampoGrande(MT) Rádio O Povo CBN Rádio Fortaleza(CE) Extra Site Riode Janeiro(RJ) Diário Gaúcho Site PortoAlegre(RJ) TVTribuna Televisilo Vitória(ES) 5. É uma plataforma que tem como objetivo facilitar o acesso a informações sobre teses e dissertações defendidas junto a programas de pós-graduação do Brasil. 6. É um portal, mantido pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), que reúne e disponibiliza os sistemas de informação de teses e dissertações existentes no país.
WhATSApp NO jOrNAlISmO rEgIONAl: um ESTudO A pArTIr dA pErcEpçãO dOS jOrNAlISTAS... Fernanda Alves de mendonça / Thays Assunção reis 76 ÁmBITOS. rEVISTA INTErNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 66 · OTOÑO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i66.04 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 72-87 Veículo de comunicação Tipo Cidade/Estado MS Record - TV MS Televisilo CampoGrande(MS) Campo Grande News Site CampoGrande(MS) Correio do Estado Site CampoGrande(MS) Midiamax News Site CampoGrande(MS) TVGlobo Rio Televisilo Riode Janeiro(RJ) TV Borborema Televisilo CampinaGrande(PB) TV Paraíba Televisilo CampinaGrande(PB) TV Irararé Televisilo CampinaGrande(PB) TV Sorocaba Televisilo Sorocaba(SP) Meio Norte RádioJornal Teresina(PI) O Globo Site e impresso Silo Paulo(SP) O Dia Site e impresso Silo Paulo (SP) O Estado de S. Paulo Site e impresso SiloPaulo(SP) Folha de S. Paulo Site e impresso SiloPaulo(SP) Grupo ND Televisilo Joinville(SC) TV Paraíba Televisilo Paraíba (JP) Sistema Jornal do Commercio de Comunica iio Grupo de Comunica ilo Recife (PE) CBN Joilo Pessoa Rádio Jornal JoiloPessoa(PB) Fonte. Elaborado pelas autoras com base no banco da Capes e BDTD (2024). Os dados apresentados acima demonstram ainda a trajetória geográfica da introdução do WhatsApp nas redações, que se inicia nas metrópoles e capitais estaduais, e avança para as cidades médias situadas no interior dos estados. Trata-se de uma tendência comum no território brasileiro, onde o perímetro urbano dos grandes centros sempre foram pioneiros nas manifestações comunicacionais que terminam por influenciar o país por inteiro nas formas de produção, gestão e apresentação (Fadul & Moreira, 2019). 3. Metodologia Para o desenvolvimento desta pesquisa adotou-se uma abordagem qualitativa, com o emprego de entrevistas semiestruturadas (Duarte, 2005). Foram entrevistados dez profissionais - sete da TV Anhanguera (afiliada à Rede Globo) e três da CBN Tocantins (Quadro 2) entre os dias 6 de julho e 12 de setembro de 2023. Para a seleção dos entrevistados, nos dois veículos, utilizou-se como critérios de inclusão e exclusão: formação em jornalismo e função. Descartou-se os profissionais que atuavam como jornalistas, mas que não concluíram o curso de graduação, e dentro do filtro da função, considerou-se os com cargo de comando. No caso específico dos repórteres da TV, entrevistou-se um com mais tempo de casa e outro com menos tempo. O objetivo foi captar as informações sobre a utilização do WhatsApp dentro da redação em um período mais extenso e também o contrário dessa prática.
WhATSApp NO jOrNAlISmO rEgIONAl: um ESTudO A pArTIr dA pErcEpçãO dOS jOrNAlISTAS... Fernanda Alves de mendonça / Thays Assunção reis 77 ÁmBITOS. rEVISTA INTErNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 66 · OTOÑO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i66.04 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 72-87 Quadro 2 Jornalistas da TV Anhanguera e CBN Tocantins entrevistados Nome Função Veículo Formação Noira Botelho Chefe de produção Tv Anhanguera Jornalismo Igor Pires Chefe de produção Tv Anhanguera Jornalismo Jocyelma Santana Editora-chefe e âncora Tv Anhanguera Jornalismo Ana Paula Rehbain Repórter com mais tempo de casa Tv Anhanguera Jornalismo Kaliton Mota Repórter com menos tempo de casa Tv Anhanguera Jornalismo Nayna Peres Produtora Tv Anhanguera Jornalismo Luciane Marchesini Produtora Tv Anhanguera Jornalismo France Santiago Coordenadora e âncora CBN Tocantins Jornalismo Ana Gabriella Regis Repórter CBN Tocantins Jornalismo José Uendel Souza Produtor e repórter CBN Tocantins Jornalismo Fonte. Elaborado pelas autoras. As entrevistas7 foram conduzidas a partir de um roteiro com 17 perguntas para cargos de chefia/ comando das emissoras (Quadro 3), e 15 perguntas para repórteres e produtores da CBN Tocantins e TV Anhanguera (Quadro 4). As questões compreenderam as opiniões dos jornalistas sobre o conceito de jornalismo regional, como é realizada a produção de notícias regionais, papel do WhatsApp nesse processo, cidades do interior mais pautadas, como acontece a seleção das informações que chegam pelo aplicativo, e os prós e contras desta usabilidade. Após os encontros com os profissionais, as gravações das entrevistas foram transcritas pelo próprio WhatsApp, com o bot Viratexto, que capta e transcreve áudios. Para isso foi necessário salvar o número de telefone +55 (31) 97228-0540 na agenda do celular e iniciar a conversa pelo WhatsApp e enviando cada áudio desejado. Como o programa só transfere áudios de até 4 minutos, foi necessário transcrever manualmente os que ultrapassaram o tempo, além da revisão completa de todas as transcrições feitas pelo bot, pois não reconheceu algumas palavras. Com base nas respostas dos entrevistados, organizou-se a análise das informações em quatro eixos temáticos: a) definição e prática do jornalismo regional; b) WhatsApp na produção de notícias regionais e a relação com as cidades do interior; c) inserção do WhatsApp na rotina de trabalho; e d) as vantagens e desvantagens do uso do aplicativo pelos jornalistas. 7. Durante os encontros foi solicitado aos entrevistados assinarem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Tocantins. O Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) está registrado com o número: 66488522.5.0000.5519.
WhATSApp NO jOrNAlISmO rEgIONAl: um ESTudO A pArTIr dA pErcEpçãO dOS jOrNAlISTAS... Fernanda Alves de mendonça / Thays Assunção reis 78 ÁmBITOS. rEVISTA INTErNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 66 · OTOÑO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i66.04 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 72-87 Quadro 3 Roteiro de perguntas para cargos de chefia/comando da TV Anhanguera e CBN Tocantins O que você entende por jornalismo regional? Você pode conceituar? Você considera que a empresa possui uma produção regional? Por quê? Como é realizada a produção de notícias regionais? Há deslocamento de jornalista e/ou equipe para outras cidades do interior? Qual o papel do WhatsApp na produção regional? Você acha que o aplicativo facilitou esse tipo de cobertura? De que modo vocês mais recebem sugestões de pauta de outras cidades no WhatsApp (p.ex. sugestão dos telespectadores, das assessorias, de grupos dos municípios, de comunicadores/jornalistas do interior, etc)? Como são selecionados os acontecimentos/demandas de outras cidades que chegam pelo WhatsApp para entrar no telejornal? Quais os critérios de inclusão e exclusão. Como faz a verificação das informações de outras cidades que chegam pelo WhatsApp? Você está em grupos de WhatsApp de outras cidades? Quais? Esses grupos de WhatsApp de outras cidades ajudam na obtenção de informação na rotina? Quais cidades são mais pautadas pela empresa? E por que isso ocorre? Existem dificuldades para a realização de uma cobertura regional? Se sim, quais são elas? Quando passou a utilizar o WhatsApp como ferramenta de trabalho? Como ocorreu o processo de inserção do WhatsApp na sua rotina de trabalho? Qual é a dinâmica de troca de mensagens entre os jornalistas e as fontes por meio do número institucional? Vocês passam algum tipo de orientação para os profissionais? Se sim, quais? Quais as vantagens e desvantagens do uso do WhatsApp no processo de produção da notícia? Em sua atuação ocupando cargo de chefia, você incentiva o uso do WhatsApp pelos jornalistas? Quando os grupos de trabalho foram criados? A pandemia teve alguma influência? Fonte. Elaborado pelas autoras. Quadro 4 Roteiro de perguntas para repórter e produtor da CBN Tocantins e TV Anhanguera O que você entende por jornalismo regional? Você pode conceituar? Você considera que a empresa possui uma produção regional? Por quê? Como é realizada a produção de notícias regionais? Há deslocamento de jornalista e/ou equipe para outras cidades do interior? Qual o papel do WhatsApp na produção regional? Você acha que o aplicativo facilitou esse tipo de cobertura? De que modo vocês mais recebem sugestões de pauta de outras cidades no WhatsApp (p.ex. sugestão dos telespectadores, das assessorias, de grupos dos municípios, de comunicadores/jornalistas do interior, etc)? Como são selecionados os acontecimentos/demandas de outras cidades que chegam pelo WhatsApp para entrar no telejornal/rádio jornal? Quais os critérios de inclusão e exclusão. Como faz a verificação das informações de outras cidades que chegam pelo WhatsApp? Você está em grupos de WhatsApp de outras cidades? Quais? Esses grupos de WhatsApp de outras cidades ajudam na obtenção de informação na rotina? Quais cidades são mais pautadas pela empresa? E por que isso ocorre? Existem dificuldades para a realização de uma cobertura regional? Se sim, quais são elas? Quando passou a utilizar o WhatsApp como ferramenta de trabalho? Como ocorreu o processo de inserção do WhatsApp na sua rotina de trabalho? Quais as vantagens e desvantagens do uso do WhatsApp no processo de produção da notícia? A chefia incentiva o uso do WhatsApp pelos jornalistas? Fonte. Elaborado pelas autoras.
WhATSApp NO jOrNAlISmO rEgIONAl: um ESTudO A pArTIr dA pErcEpçãO dOS jOrNAlISTAS... Fernanda Alves de mendonça / Thays Assunção reis 79 ÁmBITOS. rEVISTA INTErNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 66 · OTOÑO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i66.04 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 72-87 4. Análises 4.1. Definição e prática do jornalismo regional De modo geral, os entrevistados entendem o jornalismo regional como o trabalho de produção de notícias que acontece ou que interessam àquela região específica, região de proximidade, no caso, o estado do Tocantins. E o fazem de forma a alcançar a maior parte das cidades tocantinenses, retratando seus costumes, crenças e acontecimentos, como pode ser visto nos depoimentos a seguir: Para o repórter da TV Anhanguera, Kaliton Mota (2023), o jornalismo regional é o ato de transformar uma notícia nacional em regional, com características da localidade. “O jornalismo regional nada mais é que trazer uma realidade mais próxima” (Mota, TV Anhanguera, 2023, informação verbal). Na visão de Botelho (2023), da TV Anhanguera, o conceito de jornalismo regional é focar na região em que se trabalha, mostrar a cultura, como as pessoas vivem e retratar o local no qual vivem. Para Peres (2023), também da TV Anhanguera, o jornalismo regional vai além do trabalho feito pela TV na região, pois é preciso saber se o que acontece em outros estados e avaliar se terão impactos no Tocantins. Na concepção da coordenadora da CBN Tocantins, France Santiago (2023), o jornalismo regional atende as demandas da comunidade local com abordagens em diversos âmbitos. Na visão de Regis (2023), da CBN Tocantins, o jornalismo regional é voltado à cultura local em diversos sentidos, abrangendo tudo daquela região específica. Da mesma forma, Costa (2023), entende o conceito como o retrato das notícias de onde se mora, o que está ao redor e na região, desta forma diminui o deserto de notícias e contribui para o alcance da cobertura regional. As percepções dos jornalistas vão ao encontro do que é descrito por Peruzzo (2003) quando ela afirma que o território geográfico é insuficiente para entender o jornalismo regional. É necessário observar os laços de familiaridade no campo das identidades histórico-culturais (língua, tradições, valores, religião etc.) e de proximidade de interesses (ideológicos, políticos, de segurança, crenças etc.) para determinar o raio de abrangência regional de um veículo. Com relação a como é feito o jornalismo regional, a TV Anhanguera e a CBN Tocantins utilizam-se de diferentes estratégias no seu cotidiano: contato com assessorias e contato direto com as fontes; produção vinda das praças em Araguaína e Gurupi, no caso da TV e, Araguaína quando se trata da rádio; e deslocamento dos jornalistas até outros municípios. Na TV, o deslocamento acontece de forma menos frequente, e é adotado sempre levando em consideração a relevância do assunto. Em situações em que a produção da TV tem interesse em noticiar acontecimentos de outras cidades, mas não consegue enviar um jornalista até o local, opta-se pela construção coletiva com as fontes, com o envio de vídeos, áudios e fotos que serão reproduzidas nos telejornais. Esse método ‘a muitas mãos’ (participação de muitas pessoas), por intermédio das ferramentas disponibilizadas pelo WhatsApp está inserido no que descreveu Santos Filhoetal. (2009), ao observar a inserção do aplicativo nas redações como nova forma de organização de adaptação das empresas jornalísticas às novas tecnologias digitais. Permite mais aproximação entre leitor/internauta e jornalista, no envio de sugestões de pautas, denúncias, e consulta de dados pelos jornalistas às suas fontes (Meireles & Coêlho, 2014).
WhATSApp NO jOrNAlISmO rEgIONAl: um ESTudO A pArTIr dA pErcEpçãO dOS jOrNAlISTAS... Fernanda Alves de mendonça / Thays Assunção reis 80 ÁmBITOS. rEVISTA INTErNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 66 · OTOÑO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i66.04 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 72-87 Dentre as práticas de cobertura regional, o deslocamento até outros municípios é a menos utilizada dentro das redações. Prevalece o contato a distância pelos meios tradicionais ou pelas mídias digitais, com destaque para o WhatsApp.O papel das assessorias de comunicação é destacado, pois a maior parte do noticiário regional é construído por provocação das assessorias. Ou ainda com participação delas em algum momento do processo de produção, bem como no resultado final: a notícia no ar. 4.2. WhatsApp na produção de notícias regionais e a relação com as cidades do interior Dentro da lógica de produção de notícias regionais, o WhatsApp é apontado pelos jornalistas como um facilitador do contato com as comunidades do interior do estado, suprindo, em parte, as deficiências no ambiente laboral TV Anhanguera e CBN Tocantins, com o enxugamento das redações e consequente excesso da carga de trabalho. Desta forma, o aplicativo tornou mais fácil o trabalho de apuração, não só dos acontecimentos em Palmas, mas nas demais localidades, expandindo a área de alcance da equipe. A proximidade com a audiência é destacada por Rehbein (2023), ao considerar o WhatsApp divisor de águas e algo transformador, abrindo novas possibilidades de relacionamento com os telespectadores de outras cidades. Quando iniciou sua carreira na comunicação, especificamente na TV, a jornalista lembra que para conseguir personagens e histórias boas, recorriam à lista telefônica, de forma aleatória e contando apenas com a sorte Da mesma forma, Botelho (2013) relembra quando usava a lista telefônica como meio para conseguir fontes, principalmente de outras cidades. “Na época, eu abria a lista telefônica, escolhia um número e ligava para as pessoas, e às vezes, elas até diziam assim ‘nossa, mas é da TV Anhanguera?’ (Botelho, 2013, TV Anhanguera). Quanto à facilidade trazida pelo WhatsApp no alcance das cidades interioranas pela CBN Tocantins, Santiago (2023), diz que o aplicativo simplificou muito todo o processo de apuração, principalmente por sua rapidez. “A sugestão chega e já corremos atrás para apurar aquela informação e outros todos os lados. Então o WhatsApp é muito eficaz, principalmente no rádio” (Santiago, 2023, CBN Tocantins, informação verbal). A proximidade com as cidades do interior pelo WhatsApp também é vista a partir da presença dos jornalistas da TV em grupos de outros municípios, locais com grande circulação de informação e de captação de fontes. Os grupos se mostram um importante recurso para captação de notícias vindas das cidades do interior. A postura adotada pelos entrevistados é mais de observação do que se é publicado, mas a depender da quantidade de mensagens em circulação, não é possível ler todas. A partir dos depoimentos, percebe-se que o aplicativo mudou a configuração da cobertura dos acontecimentos regionais, fortalecendo a proximidade cultural e a resposta imediata da audiência, dando voz às fontes, tornando-as protagonistas das próprias narrativas. Tais constatações corroboram com a visão de Reis, Thomé (2017) ao afirmarem que as audiências viram no WhatsApp uma forma de se aproximarem dos jornalistas e auxiliarem na construção de uma programação feita por eles e para eles.
WhATSApp NO jOrNAlISmO rEgIONAl: um ESTudO A pArTIr dA pErcEpçãO dOS jOrNAlISTAS... Fernanda Alves de mendonça / Thays Assunção reis 87 ÁmBITOS. rEVISTA INTErNAcIONAl dE cOmuNIcAcIÓN · Nº 66 · OTOÑO 2024 10.12795/Ambitos.2024.i66.04 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-57334 72-87 Fadul, A., & Moreira, S.V. (2019). O generoso guarda-chuva das Geografias da Comunicação. Em S. V. Moreira; M. J. Baldessar; D. Ota; R. Brandalise (Orgs.), 10 anos: O percurso do grupo de pesquisa Geografias da Comunicação no Brasil (pp.7-8). Intercom. Jenkins, H. (2009). Cultura da convergência. Aleph. Jerónimo, P., & Esparza, M. S. (2023). Jornalistas locais e fact-checking: Um estudo exploratório em Portugal e Espanha. Comunicação e Sociedade, (44), 1-18. https://bit.ly/4cJg2Hl. Lima, S. C. (2022). O uso do WhatsApp como fator de mudanças no trabalho dos jornalistas, no jornalismo e na identidade profissional. [Dissertação de Mestrado, Universidade do Estado do Rio de Janeiro]. Repositório Institucional UERJ. https://bit.ly/4ciIEY9. Martinez, A. G. (2010). A construção da notícia em tempo real. Em P.Ferrari (Org.), Hipertexto, hipermídia: As novas ferramentas da comunicação digital. Contexto. Meireles, I. L. P., & Coêlho, T. F. (2014). O uso do WhatsApp nas rotinas produtivas do portal O Tempo. Em Simpósio Nacional da ABCiber. São Paulo. Projor - Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo. (2024). Atlas da Notícia. https://bit.ly/3xIW00K. Peruzzo, C. M. K. (2003). Mídia local, uma mídia de proximidade. Comunicação Veredas: Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, 2(2), 65-89. UNIMAR. Peruzzo, C. M. K. (2005). Mídia regional e local: aspectos conceituais e tendências. Comunicação & Sociedade, 1(38), 67-84. https://bit.ly/3W8CNix. Reino, L. S. A., & Bueno, T. C. (2017). Ciberjornalismo em dispositivos móveis: Uma análise da conjuntura brasileira. Questões Transversais, 5(10). https://bit.ly/3La1STP. Reis, T. A. (2018). Jornalismo regional: Uma leitura a partir dos critérios de noticiabilidade do jornal O Progresso. Estudos de Jornalismo e Mídia, (15), 62-72. https://bit.ly/3zm6LXd. Reis, T. A. R. (2022). A cidade de notícias: Um estudo do jornalismo de influência regional de Imperatriz no Maranhão (Tese de doutorado). Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. https://bit.ly/3xFt61D. Reis, M. A., & Thomé, C. A. (2017). Um olhar sobre o papel do WhatsApp nas redações dos principais jornais do Rio. Rio de Janeiro. https://bit.ly/3LcnjE0. Rocha, L. V. (2017). A mídia regional na era on-line: Mapeamento dos sites e blogs jornalísticos no Estado do Tocantins. Em 40º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Intercom, 1-14. https://bit.ly/3XRm9Fu. Salaverría, R., & Negredo, S. (2008). Periodismo Integrado. Convergencia de Medios y Reorganización de Redacciones. Editorial Sol 90. Santos Filho, J. F., Teixeira, J. F., & Dourado, J. L. (2020). O uso do WhatsApp nas redações dos portais 180 Graus e Meio Norte como instrumento para a acumulação de capitais. Comunicologia - Revista De Comunicação Da Universidade Católica De Brasília, 13(1), 119 - 136. https://bit.ly/3LdDu3P. Specht, P.P.(2019). O WhatsApp no Extra (RJ) e no Diário Gaúcho (RS): A participação da audiência na reconfiguração do processo de produção da notícia. [Tese de Doutorado, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul]. Repositório Institucional PUCRS. https://bit.ly/4bv2n5u.