“Toda a fonte do mal é a Folha de São Paulo”: a relação entre Bolsonaro e Folha pelas ombudsman “Every source of evil is the Folha de São Paulo”: the relationship between Bolsonaro and Folha through of the ombudsmans Rafaela Martins dos Santos Universidade Federal de Pelotas| Rua Gomes Carneiro, 1 – Centro – Pelotas, RS | Brasil | http://orcid.org/0000-0002-2630-8260 |
[email protected] Sílvia Porto Meirelles Leite Universidade Federal de Pelotas| Rua Gomes Carneiro, 1 – Centro – Pelotas, RS | Brasil | http://orcid.org/0000-0002-0849-0214 |
[email protected] Fechas | Recepción: 15/01/2021 | Aceptación: 26/02/2021 Resumo O relacionamento do presidente do Brasil Jair Bolsonaro com a imprensa, durante a eleição e o primeiro ano de governo, foi marcado por conflitos e declarações polêmicas. Uma dessas declarações teve como alvo um dos maiores jornais de circulação no país, a Folha de São Paulo, na qual Bolsonaro chegou a dizer que “toda a fonte do mal é a Folha de São Paulo”. A fim de entender a relação entre esses atores de importância social e propor a reflexão sobre a ética jornalística, o trabalho analisa como as ombudsmans do jornal Folha de São Paulo interpretaram a cobertura jornalística sobre Jair Bolsonaro realizada pelo veículo nos anos de 2018 e 2019. O método de análise de dados utilizado foi a análise de conteúdo. O recorte estudado compreende os anos de 2018 e 2019, período de eleição e primeiro ano de governo de Jair Bolsonaro, e dois mandatos de ombudsmans da Folha. Nesse período, foram selecionados 45 textos que mencionam Bolsonaro ou seu governo, os quais foram analisados a partir das categorias de análise: mediação das ombudsmans; ideias em conflito; Abstract President Jair Bolsonaro’s relationship with the press, during the election and the first year of government, was marked by conflicts and controversial statements. One of these statements was targetting one of the biggest papers in the country, the Folha de São Paulo, when Bolsonaro came to say that “every source of evil is the Folha de São Paulo”. In order to understand the relationship between those two actors of social importance, and propose a reflection on journalistic ethics, this work aims analyze how the Folha’s ombudsmans interpreted the media coverage of the vehicle in 2018 and 2019. The analysis method was the content analysis. The studied section comprises the years 2018 and 2019, the election period and the first year of Jair Bolsonaro’s government, and two mandates of Folha’s ombudsmans. Within that period, 45 texts were selected that mention Bolsonaro or his government , which were analyzed from the analysis categories: ombudsmen mediation, conflicting ideas and critics needs. Thus, it was possible to identify that the conflicts between Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 52 (2021) | 87 - 101 https://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i52.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 87
e necessidade da crítica. Assim, foi possível identificar que os conflitos entre Bolsonaro e Folha se intensificaram com o aumento na aparição do polític o em reportagens investigativas e furos jornalísticos do veículo, e que as ombudsmans apontam saturação de declarações polêmicas do presidente no noticiário da Folha de São Paulo. Bolsonaro and Folha intensified with the increase in the appearance of the politician in investigative reports and journalistic scoops of the vehicle, and that the ombudsmans point out saturation of controversial statements by the president in the Folha de São Paulo news. Palavras-chave: Jair Bolsonaro, Folha de São Paulo, ética jornalística, ombudsman, crítica ao jornalismo. Keywords: Jair Bolsonaro, Folha de São Paulo, journalistic ethics, ombudsman, criticism of journalism. 1. INTRODUÇÃO Desde que Jair Bolsonaro ganhou relevância nos noticiários e passou a figurar como principal representante da extrema-direita no Brasil, a sua relação com a imprensa apresentou alguns impasses. Em levantamento produzido pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ)1, divulgado em julho 2020, é possível observar que entre janeiro e junho de 2020 foram registrados 245 ataques à imprensa por parte do presidente. Entre os jornais envolvidos na relação de conflito com Bolsonaro, está a Folha de São Paulo, um dos mais tradicionais jornais do Brasil2 e com a maior circulação do país3. Dada a relevância nacional do jornal e sua consolidação perante a sociedade brasileira, a relação de atrito entre Bolsonaro e Folha passa a ser um cenário de importância para o contexto social e para o jornalismo nacional. O conflito existente entre Bolsonaro e Folha pode ser notado nos noticiários e nas redes sociais do presidente, que faz uso das plataformas para demonstrar insatisfação quanto aos materiais noticiosos (Bittencourt, 2020; Rebouças, 2019; Costa et al., 2019; Recuero, 2019; Nascimento et al., 2018). Uma das declarações do presidente, que chama atenção para o desacordo existente entre as partes, aconteceu durante entrevista ao apresentador José Luiz Datena, quando o político declarou que “Toda a fonte do mal é a Folha de S. Paulo”4, referindo-se a uma notícia publicada a seu respeito. Por parte da Folha de São Paulo, é possível observar checagem de informações e cobranças ao presidente, como foi identificado nos furos jornalísticos5: a revelação de que Bolsonaro mantinha uma funcionária-fantasma6, o polêmico divórcio com Ana Cristina Siqueira Valle7 e o esquema ilegal de disparos de mensagens por 1 Disponível em: <https://fenaj.org.br/presidente-bolsonaro-promove-245-ataques-contra-o-jornalismo- no-primeiro-semestre/>. Acesso em: 02 dez. 2020. 2 Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/institucional/>. Acesso em: 06 mai. 2020. 3 Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/01/folha-cresce-e-lidera-circulacao- entre-jornais-do-pais-em-2019.shtml>. Acesso em: 06 mai. 2020. 4 Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/03/bolsonaro-diz-que-folha-e-toda-a- fonte-do-mal-na-imprensa.shtml>. Acesso em: 1º dez. 2020. 5 Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/colunas/paula-cesarino-costa- ombudsman/2018/10/visto-nao-lido-e-encaminhado.shtml>. Acesso em: 02 dez. 2020. 6 Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/01/1949719-bolsonaro-emprega- servidora-fantasma-que-vende-acai-em-angra.shtml>. Acesso em: 02 dez. 2020. 7 Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/09/ex-mulher-acusou-bolsonaro-de- furto-de-cofre-e-agressividade.shtml>. Acesso em: 02 dez. 2020. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 52 (2021) | 87 - 101 https://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i52.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 88 “Toda a fonte do mal é a Folha de São Paulo”: a relação entre Bolsonaro e Folha pelas ombudsman Rafaela Martins dos Santos / Sílvia Porto Meirelles Leite
WhatsApp8. A relação entre o jornal e o político é um tema ativo na pauta social e que merece a atenção acadêmica sobre as questões profissionais e éticas que envolvem o caso. Quando assuntos sobre o exercício do jornalismo, a ética profissional e o caráter da cobertura de grandes jornais são colocados em pauta pela sociedade, é necessário que se dê atenção ao tema, buscando avaliar o cenário social e a importância de se revisitar a ética jornalística. Para tanto, pretende-se analisar a coluna das ombudsmans da Folha. O ombudsman é um profissional que tem como função observar a prática do veículo e apontar possíveis falhas, partindo de uma perspectiva profissional do jornalismo e com um discurso crítico que não pretende ferir o direito de manifestação (Neto, 2008). Com base na avaliação dessas profissionais críticas e conhecedoras da política editorial do jornal, pretende-se encontrar avaliações que tragam luz para o objeto de estudo: a relação entre um veículo de grande circulação e o presidente do país. É necessário salientar o fato de que a Folha de São Paulo foi o primeiro jornal brasileiro a ter um ombudsman e é um dos poucos que ainda mantém o cargo no país (Maia, 2006). O período da análise de conteúdo (Bardin, 2011) compreende os textos publicados na coluna Ombudsman da Folha, entre os anos de 2018 e 2019, quando é possível analisar o ano de corrida eleitoral e o primeiro ano de mandato de Jair Bolsonaro. Esse recorte privilegia um período em que Bolsonaro começa a aparecer com recorrência no noticiário nacional, além de avaliar dois momentos de sua carreira política: primeiro como candidato e, logo após, como presidente da república. Com isso, pretende-se promover uma reflexão acerca da ética no jornalismo ao investigar: “Qual a análise das ombudsmans da Folha de São Paulo sobre a postura do jornal em relação à Bolsonaro nos anos de 2018 e 2019?”. A hipótese da pesquisa é de que: se o jornal Folha de São Paulo tem uma postura mais defensiva em relação a Bolsonaro, então as colunas das ombudsmans em 2018 e 2019 apontam para uma leitura mais crítica e indicam caminhos para não afetar a credibilidade do jornal. 2. DAS CRÍTICAS À IMPORTÂNCIA SOCIAL DO JORNALISMO Ao trabalhar para manter a população informada e contextualizada sobre os mais diversos assuntos que afetam a vida em comunidade, o jornalismo precisa atentar às críticas e às reivindicações sociais sobre sua atuação. Essa prática requer uma relação de colaboração junto à comunidade, investindo em um canal de conhecimento e manutenção da democracia (Karam, 2004), capaz de dar voz à população e promover um ambiente social mais plural. Para que o público esteja atuante na fiscalização e participação da agenda jornalística, é necessário garantir que a sociedade possua os aparatos necessários para tecer críticas justas e construtivas sobre o trabalho da imprensa. Leituras insipientes podem resumir a qualidade da notícia a questões técnicas, reivindicando a objetividade plena e a imparcialidade total. É mais fácil para as empresas de notícias esconderem-se sob a justificativa da isenção ou da técnica, do que trabalharem pela educação da população, produzindo uma audiência mais qualificada e criteriosa. A objetividade plena não é possível e esse já é um assunto debatido entre estudiosos do jornalismo (Sponholz, 2004), por mais objetivo que o jornalista tente ser, ele não tem controle sobre as influências externas que pode sofrer. 8 Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/empresarios-bancam-campanha- contra-o-pt-pelo-whatsapp.shtml>. Acesso em:02 dez. 2020. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 52 (2021) | 87 - 101 https://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i52.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 89 “Toda a fonte do mal é a Folha de São Paulo”: a relação entre Bolsonaro e Folha pelas ombudsman Rafaela Martins dos Santos / Sílvia Porto Meirelles Leite
Ao aliar a objetividade à subjetividade é possível obter um melhor jornalismo, uma vez que a subjetividade dos repórteres é capaz de enriquecer a notícia, torná-la mais humana e, assim, gerar melhores interpretações sobre o tema noticioso. Investe-se, assim, na potência da subjetividade (Genro Filho, 1987), e na superação de uma realidade alicerçada somente no objetivismo. Se consideradas as notícias sem o seu caráter subjetivo e humano, são excluídas as diferentes realidades e opiniões que a compõem, perdendo-se, nesse processo, o principal ator do jornalismo: a sociedade. Portanto, é percebido que o jornalismo não é um detentor da verdade, o que ele transmite é a confiabilidade (Bucci, 2000) e, a partir da divulgação de fatos críveis é que são promovidos debates que podem contribuir para a construção de uma verdade concebida socialmente. Nesta perspectiva, aponta-se para a verdade jornalística, essa característica tão cara aos jornais é uma das formas de medir o quão próximo da realidade do público a imprensa está. Por mais que a verdade normalmente seja tratada no singular, como um elemento único e isolado, essa lógica não é encontrada na realidade (Gomes, 2009). A verdade pode ser interpretada a partir da produção de conhecimento, o que é construído em comunidade e na interação das pessoas com os acontecimentos, de modo que não existe uma verdade universal e válida para todas as épocas e regiões (Karam, 2004). Esse caráter plural da verdade apresenta-se como um desafio aos jornalistas, que, para a produção da notícia, dependem não só de sua honestidade enquanto profissionais, mas também da capacidade interpretativa de seu público. Isso, porque, os fatos abrem caminhos para muitas interpretações, mas não para qualquer interpretação: “A interpretação tem limites e estes limites são dados pela autonomia outorgada do fato” (Gomes, 2009, p. 61- 62). Para que a manutenção da veracidade da notícia continue a ser feita de forma justa e universal, é necessário aceitar a falibilidade da verdade e a necessidade da crítica, investindo na correção de defeitos e distorções. Assim, a notícia verdadeira é aquela em que é possível um acordo universal com o público sobre a condução da informação. Sendo passível a participação dos espectadores como atores críticos e vigilantes das ações empregadas pelo jornal. No que se refere às notícias sobre Bolsonaro, esse acordo com o público mostra-se um desafio. Quando Bolsonaro é pautado, muitas vezes o público deixa a pauta em segundo plano e o conteúdo noticioso perde espaço para embates baseados em ideologias (Bittencourt, 2020). Além disso, falas e publicações polêmicas de Bolsonaro são seu principal motivo de aparição na mídia (Rebouças, 2019; Costa, Rodrigues e Mitozo, 2019; Nascimento et al., 2018). Essas pesquisas alertam para um fator importante: observa-se uma atenção exagerada dos jornais às pautas extravagantes do presidente, sem que elas enriqueçam o debate público, o que é acessado por um público polarizado e preocupado em sustentar suas escolhas políticas em detrimento do fato noticiado. Essas questões não podem ser ignoradas por jornais que busquem enriquecer os debates democráticos, sendo que a ética jornalística traz subsídios que podem ajudar a pensar caminhos para esses desafios. 2.1. As dimensões éticas da notícia O debate com o público é um dos preceitos da ética jornalística, considerando que: 1) a questão ética não se esgota na decisão do que será publicado pelo jornal, as consequência das escolhas tomadas pelos editores têm impacto social (Christofoletti, 2008); 2) “a ética é a esfera Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 52 (2021) | 87 - 101 https://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i52.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 90 “Toda a fonte do mal é a Folha de São Paulo”: a relação entre Bolsonaro e Folha pelas ombudsman Rafaela Martins dos Santos / Sílvia Porto Meirelles Leite
do cidadão”, ou seja, se a decisões acerca das normas éticas cabem à sociedade e não a um órgão regulador, nada mais justo que esse assunto seja debatido de forma transparente com o público (Bucci, 2000), e 3) os maiores confrontos éticos se dão pela pluralidade social e cultural com a qual a imprensa trabalha (Gomes, 2004). A ética jornalística é um patrimônio social, que respeita as leis da sociedade e serve ao cidadão, com o objetivo de fortalecer a população e atender às suas demandas. É visto que a ética é essencial para a construção de um jornalismo democrático, mas a cobrança para que as normas sejam colocadas em prática é ainda um campo de conflito e dificuldades. Com isso, evidencia-se a necessidade da crítica à imprensa como uma ferramenta importante para que os erros cometidos não cheguem ao ponto de serem destrutivos. Ou seja, considerando que os erros são inevitáveis ao longo do exercício da profissão, a crítica vem como forma de resolver esses problemas e enxergar soluções para que o veículo de mídia consiga revertê-los, evitando uma possível perda de relevância por recorrentes falhas. Dessa forma, a análise crítica é parte do processo de criação de conteúdo do jornal (Braga, 2017). Para promover essa análise franca e respeitosa aos jornais é que existe o ombudsman. Esse profissional, na maior parte das vezes contratado pela própria empresa, tem como função observar a prática do veículo e apontar possíveis falhas. Por partir de uma perspectiva profissional do jornalismo, o ombudsman seria, assim, um caminho para que a crítica possa ser feita sem ferir direitos de manifestação (Franzoni, 2012). O ombudsman analisa o material produzido pelo jornal e indica práticas apropriadas para o jornalismo, explicando ao público padrões e normas jornalísticas necessárias à qualificação das informações. (Ferrucci, 2018). Sua prática dentro do jornal se assemelha ao trabalho que observatórios de imprensa desempenham, a diferença reside no fato de que o ombudsman está internamente no sistema do veículo, o que lhe possibilita realizar interveções diretas aos problemas encontrados (Paulino et al., 2017). Dessa forma, o ombudsman não é um mensageiro do leitor, mas uma ouvidoria para as lamentações do público. Fazendo, a partir da opinião dessas pessoas, o seu trabalho: julgar e apontar soluções para um jornalismo de mais qualidade e resultados. De forma geral, o jornalista ombudsman está ligado a toda a questão ética do jornal para o qual trabalha e pode funcionar como uma espécie de fiscalizador da prática moral na redação. Lembrando que sua palavra não é uma lei, cabe à administração do jornal e demais repórteres a decisão de acatar ou não as críticas apresentadas (Franzoni, 2012). O debate ético, por possuir um caráter de flexibilidade, precisa ser constantemente revisitado e atualizado conforme os novos momentos temporais e sociais vividos pelo jornalismo. Esse exercício ético é o que garante a qualidade da notícia, que é um elemento de importância na esfera social. Manter o debate ético em aberto ajuda os veículos de imprensa a lidarem com possíveis erros, enxergar correções ou prevenções para situações de conflito e a criar balizas críticas para o exercício profissional. 3. ANÁLISE DOS DADOS: QUANDO A ÉTICA JORNALÍSTICA VIRA PAUTA O material para análise foi coletado manualmente na coluna “Ombudsman” da Folha de São Paulo, que possui publicação de textos e matérias semanais aos domingos, na versão impressa e no site da web. O recorte estudado compreende os anos de 2018 e 2019, período de eleição e primeiro ano de governo de Jair Bolsonaro e dois mandatos de ombudsmans da Folha: de Paula Cesarino Costa, até abril de 2019, e Flávia Lima, a partir de maio de 2019. A mudança de Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 52 (2021) | 87 - 101 https://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i52.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 91 “Toda a fonte do mal é a Folha de São Paulo”: a relação entre Bolsonaro e Folha pelas ombudsman Rafaela Martins dos Santos / Sílvia Porto Meirelles Leite
mandatos da Folha é entendida como oportuna para o trabalho, por possibilitar a visualização do caso a partir de duas visões profissionais distintas, contribuindo para o enriquecimento na narrativa e pluralidade de perspectivas sobre o caso. Entre 2018 e 2019 a coluna “Ombudsman” publicou 90 textos. Desse total, foram selecionados 45 que mencionam Bolsonaro ou seu governo, sendo que 17 textos são correspondentes ao ano de 2018 e 28 ao ano de 2019. Com os elementos dispostos, buscou-se responder ao questionamento dessa pesquisa, com base na análise realizada a partir de três categorias: 1) a mediação desenvolvida pelas ombudsmans, a partir da interpretação dos textos noticiosos da Folha; 2) o conflito de ideias e interesses entre o jornal e Bolsonaro; 3) e a necessidade da crítica ao jornalismo, a partir de diferentes perspectivas. 3.1. Mediação das ombudsmans A categoria “Mediação das Ombudsmans” diz respeito à função desempenhada pela coluna Ombudsman da Folha de S. Paulo. A análise crítica do público sob a construção do noticiário é importante para manter a qualidade e o interesse social em pauta na imprensa (Karam 2004), porém essa análise promovida pelo público leigo pode ser enviesada por erros presentes no senso comum (Christofoletti, 2008). Para qualificar o discurso da audiência, o profissional ombudsman promove a mediação da relação entre o público e o jornal, através da leitura especializada (Neto, 2008) das notícias. Ao analisar a coluna Ombudsman, a característica interpretativa pode ser notada ao longo dos textos. Em várias matérias os comentários do público são expostos e explorados pela jornalista, que, em alguns casos, apontou equívocos nas críticas enviadas e, em outros, as reivindicações foram acatadas e confirmadas através da explicação de características técnicas do jornalismo. A categoria “Mediação das Ombudsmans” contemplou a análise a partir dos indicadores: crítica do leitor; erros apontados pela ombudsmans; e acertos apontados pela ombudsman. Dos 45 textos analisados, o destaque para a crítica do leitor é identificado em 22, sendo que 11 são referentes ao ano de 2018 e 11 ao ano de 2019. Dentre as críticas apontadas pelos leitores, observou-se temas como: ridicularização de Bolsonaro e seus seguidores; machismo e sensacionalismo em manchetes; oposição de Folha a Bolsonaro; o não-uso do termo “extremadireita”; e o destaque dado a picuinhas do governo. Os erros apontados pelas ombudsmans estão em 26 textos, sendo 11 erros em 2018 e 15 erros em 2019. Dentre os erros da Folha apontados pelas ombudsman: destacar polêmicas de Bolsonaro o fortalece nas pesquisas; trabalhar melhor as redes sociais durante o primeiro turno da eleição; utilizar apenas de jornalismo declaratório enfraquece a notícia; precisa ampliar sua transparência e incluir mais diversidade no noticiário; deveria contextualizar melhor as informações e detalhar melhor a coleta de dados em reportagem investigativa; e não deve se deter por tanto tempo nas declarações absurdas do presidente para ganhar audiência. Enquanto os acertos apontados pelas ombudsmans estão em 23 textos, sendo 10 acertos em 2018 e 13 acertos em 2019. Dentre os acertos identificados na pesquisa, estão: manter jornalismo investigativo contra Bolsonaro; dois furos jornalísticos no primeiro turno da eleição; reunião interna para discutir o cenário de atrito com Bolsonaro; tratar jornalismo como ferramenta de apoio e esclarecimento para questões históricas; espaço para assinantes comentarem suas matérias; e apresentar o mesmo tratamento e cobrança aos presidentes, ao longo dos anos. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 52 (2021) | 87 - 101 https://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i52.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 92 “Toda a fonte do mal é a Folha de São Paulo”: a relação entre Bolsonaro e Folha pelas ombudsman Rafaela Martins dos Santos / Sílvia Porto Meirelles Leite
Ao analisar os textos publicados na coluna das ombudsmans, é possível perceber diferentes cenários na interação entre a ombudsman e o público, podendo existir concordância ou discordância entre ambos e momentos em que a ombudsman concorda apenas com parte do que foi apontado pelo leitor. Na matéria “Reações destemperadas”, de 09 de setembro de 2018, que comenta a facada que Bolsonaro levou durante evento da campanha, temos um caso em que a ombudsman concorda com o público. Nesse exemplo, a jornalista avalia um comentário recebido: “Uma leitora, por exemplo, considerou ‘sensacionalista e incendiário’ o seguinte título no site da Folha: ‘Anjinho fascista não merece solidariedade’, diz candidato sobre Bolsonaro”9. Após avaliar o problema apontado, a ombudsman concorda, afirmando que a frase polêmica, que virou manchete, havia sido proferida por um político pouco influente, sendo assim, injustificável o destaque dado pelo jornal. Neste exemplo, a jornalista confirma a declaração da leitora de que a manchete foi sensacionalista, porém, apesar da crítica registrada, a Folha não alterou o título da matéria, isso ocorre, pois, a decisão de acatar ou não as sugestões do jornalista ombudsman, fica a cargo da editoria do jornal. Também podem ser observadas situações em que as ombudsmans destacam que nem sempre o leitor está certo em suas reivindicações, como no caso do texto “Caixa dois não tem recibo”, de 18 de novembro de 2018, que aborda a polêmica série de reportagem da Folha sobre o esquema de envio de fake news por WhatsApp. A ombudsman afirma ter sido muito cobrada pelo público nessa situação, os leitores exigiam que o jornal se retratasse por fazer acusações sem apresentar provas concretas e baseada em relatos de fontes anônimas. Nessa situação, a ombudsman foi atrás de jornalistas da Folha envolvidos na investigação, levantou informações para que o público entendesse o processo de checagem adotado pelo jornal e explicou que, em alguns momentos, o uso de fontes anônimas é necessário no jornalismo. Ainda, no final do texto, deixa um alerta para a Folha, dizendo que “faltaram detalhes que corroborassem as evidências, mesmo sem que fontes fossem reveladas. Essa fragilidade gerou dúvidas nos leitores”10. Uma terceira situação encontrada durante a análise, mostra que nem tudo são extremos: em alguns textos a ombudsman concorda com o público ao mesmo tempo que apresenta argumentos favoráveis ao jornalismo da Folha. Um exemplo é o texto “Feia é a situação econômica”, publicado em 8 de setembro de 2019, que parte de uma crítica à imprensa, feita pelo ministro da economia, Paulo Guedes, o qual acusou o jornalismo de estar mais interessado nas falas polêmicas do presidente do que no seu plano de governo. A ombudsman junta essa declaração às críticas dos leitores, que vão ao encontro com a fala do economista. Nesse caso, nota-se que o problema apontado pela crítica vem de um ponto ético de difícil apreensão pelo público: a relevância da negatividade no noticiário. Como explica Bucci (2000), a negatividade é comum nos noticiários, não porque o jornalismo privilegia essas pautas, mas porque, normalmente, essas são as notícias de maior importância social. Assim, a atitude da ombudsman frente às declarações do público foi de procurar os jornalistas da coluna Economia para entender melhor a situação apresentada. Com a entrevista, ela conclui que as propostas do governo estão sendo amplamente debatidas nos jornais, por mais que percam destaque 9 Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/colunas/paula-cesarino-costa- ombudsman/2018/09/reacoes-destemperadas.shtml>. Acesso em: 6 dez. 2020. 10 Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/colunas/paula-cesarino-costa- ombudsman/2018/11/caixa-dois-nao-tem-recibo.shtml>. Acesso em: 4 dez. 2020. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 52 (2021) | 87 - 101 https://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i52.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 93 “Toda a fonte do mal é a Folha de São Paulo”: a relação entre Bolsonaro e Folha pelas ombudsman Rafaela Martins dos Santos / Sílvia Porto Meirelles Leite
para as declarações polêmicas, citadas pelos leitores. Também fala sobre a importância de se noticiar as declarações dos governantes do país, ao mesmo tempo em que critica a Folha por se deter por tanto tempo nessas pautas. Ela diz que essa insistência, apontada pelo ministro e pelo público, é resultado de uma saturação do assunto em busca de audiência, comportamento que deve ser evitado pela Folha. Quando os jornais passam dias repercutindo a recomendação do presidente de que se vá ao banheiro menos vezes por semana para preservar o ambiente11, a perda de tempo parece evidente. Além disso, o prolongamento da confusão pode bem servir de estratégia diversionista e cortina de fumaça a encobrir o que realmente interessa. (Feia é a situação econômica, publicada em 8 de setembro de 201912) Frente a essas diferentes situações, evidencia-se a função social dessa coluna, podemos notar que ela não é somente um espaço para defesa do jornal frente às críticas do leitor, ou para dar voz às críticas sem interferência profissional. A leitura especializada, a qual Gomes (2009) se refere, contribui para uma reflexão sobre os exemplos aqui debatidos, nos quais a ombudsman aponta erros e acertos do jornalismo de forma acessível ao público, explicando as decisões técnicas da profissão e partindo do conhecimento editorial do jornal. 3.2. Ideias em Conflito O conflito é parte do trabalho do jornalismo e, quando se trata de jornalismo político, os atritos são ainda mais comuns (BUCCI, 2000). Porém, mesmo que corriqueiras, essas situações continuam sendo significativas para a ética jornalística, afinal, por se tratar de uma editoria de importância social, é necessário mantê-la sob atenção (Christofoletti, 2008), visando garantir a seriedade e o compromisso do jornalismo. No contexto proposto pelo trabalho, o conflito notado acontece entre a Folha de S. Paulo e Jair Bolsonaro e essa relação é amplamente registrada pela coluna Ombudsman. Desde agosto de 2018, primeira vez em que o político é citado pela coluna naquele ano, Bolsonaro garante presença recorrente nos textos das ombudsmans, seja como protagonista de acontecimentos ou como simples citação a seu nome, campanha ou governo. Dentre as 45 matérias analisadas, pode-se notar a falta de harmonia entre Bolsonaro e Folha e os embates entre esses dois atores, ao longo dos textos, é possível acompanhar diversos momentos em que Bolsonaro apresenta críticas e acusações ao jornal. A categoria “Ideias em Conflito” contemplou a análise a partir dos indicadores: destaques sobre a pessoa Bolsonaro; destaques sobre o governo Bolsonaro; elementos que ilustram o conflito entre Folha e Bolsonaro; e comparação entre Bolsonaro e outras figuras políticas. Dos 45 textos analisados, destaques sobre a pessoa Bolsonaro são identificados em 34 matérias, sendo 14 publicadas em 2018 e 20 em 2019. Dentre os destaques para essa evidência, estão: comparação entre as atitudes de Bolsonaro e de Trump; facada que Bolsonaro sofreu durante campanha; Bolsonaro é tratado no noticiário da Folha como “candidato de direita”; declarações de Bolsonaro soam como ameaças à imprensa; Bolsonaro e sua família atacam a imprensa com frequência; Bolsonaro nega o golpe militar de 64; e vídeo publicado por 11 Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/09/maioria-discorda-de-frases-de- bolsonaro-sobre-nordeste-filhos-e-coco-diz-data>. Acesso em: 21 de nov. de 2020. 12 Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/colunas/flavia-lima-ombudsman/2019/09/feia-e-a- situacao-economica.shtml>. Acesso em: 28 de nov. de 2020. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 52 (2021) | 87 - 101 https://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i52.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 94 “Toda a fonte do mal é a Folha de São Paulo”: a relação entre Bolsonaro e Folha pelas ombudsman Rafaela Martins dos Santos / Sílvia Porto Meirelles Leite
Bolsonaro que o compara com um leão, lutando contra hienas, os quais nomeou de STF, partidos políticos e imprensa. Os destaques sobre o governo Bolsonaro estão em 26 matérias, sendo 8 publicadas em 2018 e 18 em 2019, ao comparar com o número de textos que tratam sobre a pessoa Bolsonaro, pode-se observar que a ênfase da coluna está na pessoa Bolsonaro e não no seu governo. Dentre os temas identificados, estão: jornalistas dos principais jornais do país foram excluídos da primeira entrevista coletiva de Bolsonaro como presidente; governo usa de informalidade e posts em redes sociais para fazer anúncios oficiais; governo dispensa a imprensa como plataforma de divulgação de informações oficiais e desautoriza declarações de integrantes do governo; governo Bolsonaro ganha os noticiários por declarações polêmicas; discussão interna do jornal sobre gastos do governo; e governo cancela assinaturas da Folha. Os elementos que ilustram o conflito entre Folha e Bolsonaro podem ser identificados em 28 matérias, sendo 11 publicadas em 2018 e 17 em 2019. Dentre os temas que evidenciam esse conflito, estão: ombudsman aponta que existe uma “calculada intenção de desqualificar o trabalho da imprensa” na campanha de Bolsonaro; general Augusto Heleno diz que imprensa tem parcela de culpa na facada de Bolsonaro; leitores dizem que Folha privilegia comentários negativos sobre o governo; apoiadores de Bolsonaro atacam a repórter Patrícia Campos Mello; Bolsonaro publicou tweets desacreditando jornalismo da Folha; Bolsonaro diz que a “Folha é a fonte de todo mal” e veta participação do jornal em coletiva de imprensa; e Bolsonaro é hostil contra repórter da Folha. A comparação entre Bolsonaro e outras figuras políticas foi observada em 12 matérias, 6 publicadas em 2018 e 6 em 2019. A comparação com maior reincidência é com Trump, tanto pelo posicionamento de extrema direita, quanto pelos atritos com a imprensa. Em “Visto, (não) lido e encaminhado”, publicada em 28 de outubro de 2018, é feito um apanhado dos acontecimentos referentes ao período eleitoral. Segundo exposto no texto, Bolsonaro foi o candidato mais citado pelas matérias da Folha durante a campanha, em parte por ser o líder das pesquisas, mas também por estar envolvido em três furos jornalísticos publicados pelo jornal. Nota-se o início do atrito entre os dois atores e a postura investigativa da Folha frente a Jair Bolsonaro. Entende-se que a posição de fiscalização do poder público é um ato esperado da imprensa e um dever da profissão (Christofoletti, 2008). Porém, o que começa como um conflito natural do jornalismo, se intensifica e nos textos “O presidente contra a imprensa”, publicado em 4 de novembro de 2018, e “Tensão com o poder”, publicado em 9 de dezembro de 2018, a ombudsman explora os momentos em que Bolsonaro começa a criticar a Folha com mais recorrência. Não raros foram os momentos em que Bolsonaro recriminou o jornal sem apresentar pontos específicos de erros em notícias ou informações, muitas vezes desqualificando o trabalho da empresa como um todo. Bolsonaro não questiona informações pontuais de reportagens da Folha. Pelo contrário, nega fatos incontestáveis. Por exemplo, ele mantinha uma funcionária-fantasma que foi desligada de seu gabinete após a revelação do jornal. “O crime dela foi dar água para os cachorros”, justificou. (O presidente contra a imprensa, publicado em 4 de novembro de 201813) 13 Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/colunas/paula-cesarino-costa- ombudsman/2018/11/o-presidente-contra-a-imprensa.shtml>. Acesso em: 28 de nov. de 2020. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 52 (2021) | 87 - 101 https://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i52.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 95 “Toda a fonte do mal é a Folha de São Paulo”: a relação entre Bolsonaro e Folha pelas ombudsman Rafaela Martins dos Santos / Sílvia Porto Meirelles Leite