scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Sermam em a primeira Dominga da Quaresma na Capella Real offerecido a el Rey N.S. Dom Pedro II

Chaves, Antonio Teixeyra

Full text

SERMAM ! EM A PRIMEIRA DOMINGA DA QUARESMA na cappella real , OFFERECIDO A ELREY N S- DOM PEDRO II. POR ANTONIO TEIXEYRA CHAVES No Annode 1693. LISBOA Na Officina de MANOEL LOPES FERREYRA M. D C. X C I 1 L Com todas as licenças necefíarias. A cufta de Antonio Mancícal,Mercador de liYros,na Rua Nova, ■ v ! . SENHOR l A Y efte papel aos olhos deVoftaMageftade, por fe vin¬ gar da fortuna, que a feu Autor lhe rou¬ bou a gloria de que VoíTa Mageftade o ouvifíe. Para efta religiofa confiança o animou o Real preceito de Voífa Magefta¬ de. Delle fe apadrinha para o per- A ij daó daó a íua iníufficiencia; pofto que a foberania do preceito naó pòde mais , que fazer precifa a obediên¬ cia. A Real Peííba de VoíTa Mageítade nos guarde Deos , para fe¬ licidade , & gloria delia Monar¬ quia. Lisboa o primeiro de Março de 1693. antonio teixeyra chaves. Acccdcns 5 sta tffVfTfVfTfTfT^ Accedens tentator. Matth.4. §. I. A MB EM havía¬ mos de ver hum dia tentado ao tentador. Muito Altos, & Poderofos Reys, 6c Senhores noflbs : Também haviamos de ver hum dia tentado ao tentador. Nefte mundo ten¬ ta Deos, tentaõ os homens, Sc tenta o demonio : Deos tenta para provar, os homens tentaõ para conhecer, Sc o demonio tenta para deftruir: aflim tentou a Chrifto no de* ferro para o precipitar no peccado, como fentem os Pa¬ dres Santo Hilário,Sãto Ambroíio,$.Gregorio,Sc S. Jeronymo, pois cite demonio,que he o mayor tentador do mu¬ do, havemos de ver hoje tãbem tentado ? Mas fe efte E- vangelho he do demonio tétador : Accedens tentator ; como ha de íer efte Sermaõdo demonio tentado ? O que fafcem os Pregadores neíte dia, he deícobrir as tentações do demonio j o que cíperaõ os ouvintes nefte Sermaõ , he achar contra as tentações re¬ médio ; porque ifto he o que fez Chrifto, Sc iftohe o que temos no Evangelho.Tentações, Sc remédios. Dic nt laptdes ifii panes fiant j eis ahi a tentaçaó : Nonin folopane vi - vit homo } eis ahi o remedio. Pois fe ifto he o que fez Chri¬ fto , Sc o que diz o Evange¬ lho. Se ifto he o que fazem os Prègadores. Sc o que efperaõ os ouvintes, como hey cu de pregar hoje do demonio ten¬ tado, fendo efte o dia dá$ ten¬ tações do demonio ? Accedens tentator. Por ifib mcfmo; por¬ que efte he o dia das tenta¬ ções; Sc ou feja o demonio tentado, ou feja o demonio tentador, tudo faõ tentações do demonio ; tentaçaó do demonio contra Chrifto, ou tentaçaó do demonio contra fi; tentaçaó do demonio con¬ tra Chrifto, porque 0 demo- A iij nio Sermão nio quiz enganar a Chrifto; tentaçaõ do demonio contra (í ; porque ficando Chrifto viótòriofo, o demonio foi o enganado ; em todas as tenta¬ ções ha hum engano;quem vence he o que engana, Sc quem fica vencido he o enga¬ nado ; 6c como o demonio fi¬ cou por Chrifto vencido,o demonio foi em tétar a Chri¬ fto, o tentado ; efte foi o penfamento de S. Gregorio: In congrefíione ejuidem ccculti cer~ tamims quando eleEli vincunt i malaque repcllunt , frü hoftibtíi iribuunt ; logo no mefmo dia, em que temos ao demonio tentador , temos também ao demonio tentado } porque o temos vencido do feu enga¬ no, Ôccahido no Teu laço : Vade retro Satana. Hoje pois naõheyde trattardo demo¬ nio tentador,íenaô do demo¬ nio tentado: o demonio ten¬ tado ,6c o demônio vencido ha de ler o meu argumento. Scraõ duas as partes do Ser¬ mão , porque de dous modos podem feras tentações; ten¬ tações do demonio tentado, & tentações do demonio ve¬ ado ; na primeira parte vere¬ mos , que faó peyorcs as ten¬ tações do demonio tenfrdo, dcTque as tentações do demo¬ nio tentador ; na fegunda ve¬ remos , que faó peyores as tétações do demonio vencido, do que as tentações do de¬ monio vencedor ; 6c porque hoje naõ fó temos o demonio tentado, fenaõ tãbem o Pre¬ gador , para naõ ficar defta tentaçaõ vencido,hey de bufcar na Senhora o remedio da graça. uive Maria. §. II. uiccedens tentator. T E m o s o demonio tenta¬ dor de Chrifto no Evãgelho, 6 c tentado em tentar a Chrifto no afiumpto; porque chegar a tentar a Chrifto foi a mayor tentaçaõ , em que cahio o demonio.Quem obra tentado , obra como nefeio , que pretendendo hüa coufa no conhecimento, acha-fe cõ outra no -íucccfib. A Deos difie Eva ,que peccàra como nefeia, porque fora tentada Serpens decepit rne ; 6 c o demo¬ nio nas tentações,que faz a Chrifto, naó obrou como de¬ monio maliciofojíenaõ como Anjo nefeio. A malicia do demonio no tentar eftà em occultar o mal, 6 c manifeftar o bem ; a Eva enganou-a cô o bem da fciencia : Eritir ficut Diiifcientes bonttm,0 malum, mas occultoulhc a morte da culpa : Nequaqttam moric/nim^ ífto he fer demonio tentadoi . tentar Em a primeira Dominga da Qu-arefma. 7 tentar com o bem para precifervido, St naõ tenrado: D<?- pitar no mal > porem em tenminam Deptm tmirn non tenta - tar a Chrifto obrou como té- bis , illi foli fervies. O demonio tado, Sc como nefcio; portentou a Chrifto Deos verque o tétou com o mal,Sc padadeíro; logo para eíla culpa ra fer tentador havia de tenfoi verdadeiramente tentado: tar com o bem. A primeira tentaçaõ foi de pedras: Dic at lapides iffli panes fiant , St devia fer deigoarias. A fegundafoi de precipícios: Mitte te deorfum , St devia fer de exalta¬ ções. A terceira foi de que¬ das nas adorações: Si cadens adoraveris me ; Sí cl l e devia adorallo, porque fendo ho¬ mem, logo o tinha cahido; pois fc o demonio obrou cõ tanta jgnorancia nas tenta¬ ções , que fez a Chrifto, que devendo tentallo com obem como demonio, 0 tentou cõ o mal como nefcio,claro eftà, que em tentar a Chrifto foi o tentado, porque pretenden¬ do derribar a Chrifto com a malicia , ficou tenrado pela fua ignorância; porque naõ foube uzar da fua malicia ; diílb o argue S. Pedro Chrifologo : Adifcrcupis tentarefid nefcis.cfarienti tenera ojferre^non dura debtsifti : ifto he em quã- to ao fim moral da malicia: vamos agora à rafaõ Theologica da culpa. Tentar a Deos he hum dos mais graves peccados, que pode haver ; por iflb Chrifto refpondeo ao dc» Bionio, que Deos fó devia fer De maneira , que no defei to, naõ fó houve húa vittoria, mas duas vittorias j hüa foi de Chrifto , outra foi da tenta¬ çaõ : Chrifto venceo a tenta¬ çaõ , Sc a tentaçaõ venceo o demonio; mas primeiro tri¬ unfou do demonio a tenta¬ çaõ, que triunfafle Chrifto da tentaçaõ do demoniojporque primeiro foi o demonio vencido da tentaçaõ , com q tentou Chrifto, que Chrifto fofle vencedor da tentaçaõ., com que o tentou o demo¬ nio : pri meiro foi tentado pa¬ ra chegar tentador: Acctdem tentator. §• III. E A í lentado efte principio, entra agora o meu difcurío ; digo que faô pcyores as tentações do demonio ten¬ tado, do que as tentações do demonio tentador : as tenta¬ ções do Demonio tentador laó aqucllas , com que cl le tenta os homens ,Sc tentou a Chrifto: as tentações do de¬ monio tentado laó aqucllas, que elle padece defi mclino, da fua foberba, $c da fua ma¬ licia, SermaS licia,qiieheaque o tenta,6c a que o mata, como diz S. Jerónymo * Diabolw occiditur fu a Juperbiâ , exaltai nr , (S cor - rtiit , 6c lie peyor fer como o demonio tentado , do que fer tentado pelo demonio. Ncfte mundo tudo ha, 6c tudo pa¬ decem ós filhos de Adaô : as .remoções do demonio tcntador,6c as tentações do demo¬ nio tentado: as tentações do demonio tentador, porque o demonio nos tenta a todos.; as tentações do demonio ten¬ tado, porque cada hum fe te¬ ta a fi mefmo , 6c o mayor mal do mundo naô faô os de¬ mônios tentadores , fenaõ os demonios tentados ; porque as tentações de fi mefmo faõ a origem dos mayores males do mundo. Duas vefes acho o demonio contra Deos ten¬ tado : hüa no Ceo , outra no deferto, mas no Ceo , fendo mayor a fua ruina , naõ foi taó grande a (iia culpa ; por¬ que no Ceo fó quiz levantar o leu throno : Sedcbo in monte Tcftamenti : no defeito quiz derribar o de Cbriíto : no Ceo fó preiendco com Deos a femelhança; Similü ero slltijfimo, no deierto fohcitou a Deos a ruina - Si cadens ado - raverü me ; pois le tudo foi tentaç.ió , porque vai tanto de temuçaó a tentaçaõ, 6c de peccado a peceado ? porque no Ceo tentou-o o lugar, no deferto tentou-o a malicia: no Ceo tentou-o o throno : no deferto tentou-fe elie afi mefmo; 6cpor ifib commetteo hum taó horrendo pcccado,como o pretender fer adorado de Chriíto, porque foi de íi mefmo tentado : Si cadens adoraverü me ; 6c os mayores males , 6c as rnais gTavcs culpas do mundo , to¬ das nafeem das tentações de fi mefmo, 6 c naõ das tenta¬ ções do demonio. O mayor mal he aquelle, que mais fe oppôero no bem , 6 c as tenta¬ ções de fi mefmo faõ mais oppoftasao bem , que as tenta¬ ções do Demonio. DizoA- poftolo Santiago , que cada hum he tentado pelo leu defejo : Vnupjtiifejue tentatur à concupifcentta fna^t isahi tx* preflamente no texto as ten¬ tações de fi mefmo; vamos agora ao reparo. Duas couias diz o Apoftolo nefie lu¬ gar ; a primeira, que Deos he acaula do nofio bem : Omne datum optimum, t'5 omne donurn perfettum defnrfum ejt dcfcendès a Patre luminum. A fegun Ja» que as tentações do nolfo defejo faõ a caufa do noflo mal i 6c porque naõ diz,que faõ as tentações do demonio ? As tentações do demonio nao faõ boas; pois fe nòs fom° 5 tentados pelo demonio » Sc pelo Em a primeira 'Dominga da G}narefma. " p pelo deíejo ; porque fala fó a malícia , que os tenta. Pois nas tentações do defejo , 6c naõ fala nas tentações do de¬ monio? Porque o Apoílolo tinha ditto a caufado mayor bem , que hc Deos, 8c por contrapofiçaõ havia de dizer a cauía do mayor mal, Sc coj mo as tentações do defejo faó as que mais nos chegaõ ao jjnal ,6c as que mais nosapartaó do bem •, para dizer a caufado mayor mal em oppofiçaõ àcaufa do mayor bem , naõ falou nas tentações do demonio, fenaõ nas tentações de fi mefmo : Vuttfyuifi/te ; porque as tentações do demonio para o mal naõ tem comparaçaõ com as tentações de fi mefmo. Pelas tentações do demonio ficamos no mal fendo, vencidos , mas naõ fendo tentados: pelas tenta¬ ções do defejo fempre eftamos mal, fendovencidos, Sc fendo tentados; fendo venci¬ dos, porque ficamos na cul¬ pa : lendo tentados,porque lie noíla a malicia: nas tenta¬ ções do.demonio, a malicia do demonio he o tentador, 5c os homens faó os tentados; cõ que ainda que çayaõ no dãno da culpa,naõ ficaó com o mal da malicia, porem pelas ten¬ tações dc li mcfmos faõ os homens diabos tentados,por¬ que tem de cafa atentaçaõ, que os precipita na culpa, 6c fendias tentaçõesfaõ os ma¬ les dobrados, claro eftày que he o mal ao bem maisoppof- to, fer hum homem de fi mef¬ mo tentado, 6c que he peyor fer como o demonio tenta¬ do, do que fer tentado pelo demonio : Acccàens tentator. 'Unufíjuifcjue tentatur k concapifeentiafu a. Mas ainda ò difíe com mais energia o Apoftolo em dizer, que Decsera intentador de males: Deus in - tentator maior umeft , St que os homens para o mal fetentavaõa fi mcfmos; porque affim como o mayor bem , que ha em Deos, he o naõ poder fazer mal, o mayor mal, que ha no homem, he fer de íi mefmo tentado. Èm Deos ha duas coufas:ba o naõ poder fazer o mal, 6c ha o fazer fem¬ pre bem; masfe comparamos o naõ fiizcrmal com o fazer bem, mais deprefia fe deftruira a Divindade fazendo mal, do que deixando de fazer be; porque '"deixando Deos de fazer bem >moílraya, que cra menos dadivofo ; Sc fazendo mal, moftrava, que era me¬ nos Santo.; 6c he mais oppof- to a Deos o naõ fer Santo, do que o naõ fer liberal; porqueliberal he por vontade , 5c Santo he por naturefa; pois põem o Apoílolo cm Deos o naõ poder fazer mal: Deus B inten. 18 Sermão pois que o demonio fugia, Saul ainda lhe atirava com a lança : Ille fanatus hafiam in mediamjaãabat , fugia o de¬ monio de Saul, porque era vencido de David , 6c Saul ainda perfeguiaa David, por¬ que vencia ao demonio no tentar. He o que diífe o mefraoS. Bafilio : Damon vincebat , Ç 3 hominis mores fias fa - mebant audacia. David obri¬ gava ao demonio a não ten¬ tar a Saul, 6c Saul tentava ao demonio para perfeguir a David; com que fendo Da¬ vid o perfeguido, o demonio era o tentado, 6c o vencido ; porque Saul em perfeguir a David , vencia ao demonio em tentar : Damon vincebat , ille fanai as b afiam in media jaclabat. A tal extremo chegão os homens nos peccados, que vencem ao demonio em fazer tentações. O demonio vence-os, porque lhefidta a graça, 6c elles vencem ao de¬ monio , porque lhe fobeja a malicia ;6cíe o demonio os acompanha na culpa, he pri¬ meiro tentado da lua malicia. Fala David do demonio no fentir do Doutor Máximo S. Jeronymo, 6cdiz, que fez as fuas fettas para os que ardião: Sagittas fuas ardcntibus effecit : as fettas do demonio íaõ as fuas tentações ; pois como diz, que fão para os que ar¬ dem ? Primeiro ha de fer o arder das feridas, que fe ex¬ perimente o golpe das fettas ? Se as fettas faó as que ferem, parece que as havia de for¬ mar para os que havifio de ar¬ der, porque ellas os havião de ferir; mas ha de fer pri¬ meiro nos homens o arder, que feja no demonio o ferir? Sim ; porque o demonio não emprega a fua ferida,fenão em quem o tenta, 6 c em que o buíca : Saõ os homens pri¬ meiro da malicia ferido*, que fejáo pelo demonio tentados: he primeiro nos homens o arder , que chegue o demo¬ nio a ferir. Ardem os homés nas chãmas dos vidos, 6 c de* pois faõ feridos com as fettas das tentações: ardem no fo¬ go da cobiça, no fogo da lu¬ xuria , no fogo da inveja, no fogo da vingança, 6 c no fo¬ go da foberba; & efte feu ar¬ der he o que tenta ao demo¬ nio para os ferir: Sagittas fuas: Ardem todos no fogo da cul¬ pa , entaõ dizem , que o de¬ monio os tenta; naõ ha tal; que vòs com o fogo dovoílb vicio fois o que tentais ao de¬ monio, 6 c por iflb fois pelo demonio fendo; porque o demonio fhe do voílb fogo tentado : Sagittas fuas. S.Gregorio Nazianzeno : Qutd et*l m pam in hofiem femper ipfi mus , te çnmmarc pwf #» ail \ “ -- i jrtc y Em a primeira Dominga da Quarefina. 19 çerte wagis ignü tutu. O vofib ças, porque fe rnetteo nas prifogoheo que rem a culpa, ôc feo demonio vos bufca , he primeiro tentado, 6t vencido da voíTa defgraça. Succede aos homens cotn 0 demonio o que aSanfaõ cornos F111C- teos. Prendia Dalila a Sanfaó , 6C tanto que o tinha pi er fo , dizia que cítavaõ fobre elle os Filiíteos : Pkihftm fufer te Sanfon, Agora pergun¬ to ;6c porque, mais lhe diz, que vem íobre elle os Filiíteos quando eítà prefo, do que em outro qualquer tem¬ po : Sanfaô eftava entre feus inimigos i quem eíta entie inimigos , a todo o tempo póde temer, aílaltos; pois fe Sanfaô podiafer aílaltado des Filiíteos quando eftava folr to ; porque lhe diz íómente que vem fobre elle,quando cltà prefo? Porque os Filifteos naõ bufeavaõ a Sanfaô foltOjfenaó aSanfaõ prefo: Saniaó folto naóeraaccommettido ; Sanfaô prefo logo foi aílaltado; porque com a fu a prifaó tentou ao feu ini¬ migo : quando Sanfaô fe prédeo , entaõ vcnceo aos Filifteos comatentaçaô.Dedous modos v enceo Sanfaô aos Filiíles j com as fortunas , 6c com as priíóeSjCom as forças, £c com as defgraças ; com as forças, porque os deítruhio £as batalhas: com as defgralóes, 8c porque foi vencedor na deígraça , ficou vencido da fortuna : privàraõ-no 0$ inimigos da viita, 6c da fortuna, porque foraô tentados, 6c vencidos da fua defgraça : Philiftin fuper te Saufon. Pois iíto que fuccedeo a Sanfaô com os Filiíteos, fuccedc aos peccadorcscom os demonios; ôi he efte exemplo taõ proprio defta matéria,que naõ ló vem por accommodaçaõ , fenaõ porallegoria. Que fignifica Sanfaô, fenaô huma alma Cbriítã ? Que fignificaõ ós Filiíteos,fenaõ os demô¬ nios ? Saõ os Chriítãos accommettidosdos demonios; porque primeiro eítaõ prefos defeus peccados; 6c porque os demonios fe vem venci¬ dos , 6c tentados pelas íuas defgraças , entaó empregaõ nelles as fuas fettas : Saggttat fiíui arâentibm ejfccit. Phlliftin fuper te Sanfon. Muito he if- to ( Senhores ) mas naó he ainda o mais : a mayor def¬ graça eítà ainda em outra mayor vittoria ; que ricíU matéria entaó faõ mayoresas defgraças,quãdo faõ mayores as vittorias. De tal maneira vencem os homens ao demo¬ nio em fazer tentações, que por excederfe nos homens a maldade ,faltaô no demonio as fettas, ou por melhor di- C ij zer j 20 Sermão zer *, naó chega o demonio a ferir,aonde os homens chegaônopeccar. Èdeheomayor encarecimento da maliciahumana,mas naó he hyperbole minha , fenaô verda¬ de da fagrada Eícrittura. Va¬ mos ao Prodigo. Diz o fagrado texto, que o Prodigo defejava fartarle daquelle fuftento dos animaes immundos: Ctipiebat impleré ventrem âefiliíjsns ; mas feeíle manti¬ mento era taó ordinário, que feachava pelo campo, por¬ que lhe naó chegava o Pro¬ digo? Dirme*haõ , que eíle delcjo do Prodigo, fe naó en¬ carece tanto pela matéria do fuftento, como pela rafaõdo myfterio. Pois que fuftento myíteriofo era efte , que o Prodigo tanto defejava , Sc naó confeguia? Cupiebat. S an¬ to Antooio o nqflò Portuguezdiz,que eraó os penfamentos torpes, & peccaminofos,de que o demonio fe fuílenta, ôc aos pcccadores: JPer JilicjHM porcorttm diverfu cogitationes mtelligimtu , cjuibm waligni fpiritui tãmqttam porei incrajfantur. Mayor duvida; pois taó avarento he o de¬ monio de penfamentos , que rogando com ellesa todo o mundo, naó farta dclles ao Prodigo?de maneira, que a falta de penfamentos ha de dar lugar ao Prodigo a ter defejos ? Cupicbat ? Sim ; naó porque o demonio feja ava¬ rento de peccados, mas por¬ que o Prodigo era mais pro* digo dos delejos , do que ti¬ nha (ido das fortunas: era taó prodigo nos peccados , que excedia no demonio ds ten¬ tações: Chegava com os pec¬ cados aonde o demonio naó chegava com os penfamen¬ tos. E ifto aonde naó chega¬ va o demonio com ospeníàmentos , era o que appeteciaó no Prodigo os defejos : Cupiebat. Andavaõ o Prodigo, ôc o demonio em contendam demonio a tentar o Prodigo, Sc o Prodigo a tétar o demo¬ nio ; mas tentando o demo¬ nio, Sc tentando o Prodigo, o demonio foi o vencido, porque naó igualou com as fuas tentações os defejos do Prodigo , nem pode fartar com toda a malícia dos leus penfamentos o exceflb dos feu> defejos; pois o Prodigo nunca ficou fatisfeito , fenaó delejofo: Otpiebat implerc ven¬ trem. Ido que he Parabola no Prodigo, he hiíloria ver¬ dadeira nos peccadores do mundo. Vencem os homens ao demonio, mas naó ven¬ cem com a virtude ; que iífo era ferem Santos; vencemno na maldade; que iífo he ferem mais malignos, que os mefinos demonios ; fenaó , diga?: Em a primeira Dominga da Gjuarefma. z t dígaõ*me; que havemos de prefumir de tantos que vcrnostaõ prodigos das fuasalnias, que faô mais liberaes em as entregar , do que o demonio lie prompto em as pedir: fazem mayores diligencias para pcccar, do que o demoniofaz para os perder. Que he iftojfenaõ vencer o de* monio em peccar?, Que he iftojfenaõ Ter ProdigoPG»- piebat. Ah ! Prodigos da gra¬ ça , por quaõ pouco a dais; Ah ! Prodigos das almas, por quão pouco as vendeis; por hum gofto, qmepaflã em hü inítante \ por hua vaidade do mundo, que hecomo hum relampago \ por hua opinião humana,que he como hum vidro ; Sc com ifto , Sc por if- *o i por hum inftante de gof- to »P o r húa vaidade , por hü relampago, 6c por hum vi¬ dro , andais tão prodigo do bem, Sc tão avarento do mal, que faltão no demonio as tentações , porque fobejão em vos as maldades ; não o digo cu ,fenão o meu Santo Portuguez: Uomo phupeccat, qttam dtaboliu fuggerat ; o ho¬ mem, (diz Santo Antonio) mais pecca, do que o diabo tenta. §. X. M A s , que vergonha ! Que pejo! Eque confufaô! ferà a do demonio no dia do Juizo» vendo que faô mais os noflòs peccados, que as fuas tentações. Vira c demqnio no dia do Juizo com o livro das fuas tentações, Sc fahiràDcos com o livro dos noflbs peccados i ÔC vendo , que faõ mais os peccados dos homens no livro dc Deos,do que faõ as tentações no feu livro, ficará confufo, Sc en¬ vergonhado j paflarfehão as rifcas do livro ao rofto do demonio, Sc ficara no roílo com as notas do pejo,por lhe faltarem as rifcas nolivro.lf- to he o que lemos em Ezequiel. Ameaça Deos aos Hebreos, que os ha de entregar às gentes da Paieftina, Sc diz, que ficarão corridas, S c en¬ vergonhadas de verem a gra¬ deia de fuas culpas : D abo te in animu odientium te Pa- Icjhnartim , cjha embefeant in * vta ina fcclerata. Por eítes Paleftinos entende Santo Antonio , Sc S. Jerònymo aos demonios j o que fuppoí- to , reparo. Sc dos homens he a culpa , como hc dos demô¬ nios a vergonha ? Sc os ho¬ mens faõ os peccadores, fejão os homens os envergo- Ç üj nhadosi ii Sermão nhados; mas os homens commetcem os peccados , 6c os que ficáo com a vergonha faô os demonios ? Sim ; por¬ que hão de ficar corridos os demonios de fe verem pelos homens vencidos. O timbre do demonio he tentar os ho¬ mens , 6c pffender a Deos; 6c vendo que faõ mais nos ho¬ mens as culpas , doqueíaó as fuastentações ,6c as fur?s offenfas, ha de ficar corrido, 6í envergonhado de íe ver pe¬ los homens vencido: Erubefçant invia tua fcelerata. Gran¬ ai. >- pudor ( exclama a Lingoa Portuguefa ) qubd diabolus erubefctt de peccato hominü , quod ei non fuggerit , (3 homo nonerubefcit. Grande vergo¬ nha ,6c grande magoa! Que o demonio fe envergonhe do peccado ,com que não ten¬ tou ao homem ; 6c que o ho¬ mem fe não envergonhe de vencer ao demonio em mal¬ dade ; grande deígraçc ! Mas íerà no demonio multiplica¬ da a vergonha , 6c nos ho¬ mens dobrada a fortuna ; fe aquelles, que atégora o ven¬ cerão pela malícia , daqui por diante convem vencelo pela graça, Vamos à conclufaõ.Pois fe o demonio he ven¬ cido nas tentações? por exceflb de maldade , 8c he ven¬ cedor íó por falta de virtude, fendo menos mal faltar a vir¬ tude, do que fobejar a mal-» dade ,bemfe fegue, que faõ peyores as tentações do demonio vencido , do que as tentações do demonio ven¬ cedor ; 6c que he peyor abfolutamente o demonio tenta¬ do, do que o demonio tenta¬ dor : slccedem tentator. §. XI. T E m o s vifto as tentações, feguia-fe agora trattarmos dos remedios , 6c efta matéria demandava hü muy dilatado difcurfo ; mas como paraefte foi ainda o tempo limitado, íerà também bre¬ ve o remedio. Xodas as ten¬ tações ( Senhores ) o que nos pedem he hum, fim; porque pedem hum coníentimcnto ; ôcquem deu o fim, ficou da tentação vencido ; porque confentiono peccado : pois que remedio ? O melhor, 6c mais breve remedio para vccer a quem pede hum fim, he rcfponderlhe com hü não; 6c federmos hum não aos ten¬ tadores, que nos pedem hum fim , eítão desfeitas as tenta¬ ções , 6c convécidos os tenta¬ dores; ifto he o que fez Chviflo. Tentou-o o demonio , para que comcílc, 6c rcfpondeo com hum não : Non in Em a-primeira "Dominga da filo pane : tentou-o a que fe precipitaflè , Sc refpondeo com outro não: Non tentabis j)ominum Deum tuum ; pois iíloheoque nòs havemos de fazer. Tenta o demonio,ten¬ ta o defejo,Sc tenta o mundo, todos para nos precipitar no peccado ; pois hum, naõ, ao demonio j hum, naõ,ao defe- Gfaarefma . 2 3 jo ; Sc hum, naõ, ao mundo*; Sc eftando fempre o não pre¬ parado, eftà o mundo, o de¬ monio, Sc o defejo, vencido ; Scnòs ficamos livres da cul¬ pa, Sc feguros na graça pe¬ nhor da gloria. Quammihi>(3 v0 bis prafiare dignetttr SanFiiffima Trinitas , Pater , £? Ftliw } (2 Spiritm Sanílm.Amcn, w. LAUS DEO