De Dr. Jekyll a Mr. Hyde: as obras de Gilberto Freyre e sua trajetória intelectual
Abstract
Gilberto Freyre foi sociólogo fundamental na compreensão da formação da sociedade brasileira, suas contradições e complexidade. Todavia, por possuir produção intelectual longeva, alguns de seus textos são polêmicos provocando ruídos na recepção acadêmica. Diante disso, pesquisadores se debruçam por organizar em etapas a produção de Freyre. O objetivo deste artigo é oposto, por justamente buscar compreender não os intervalos ou etapas, mas a continuidade na obra de Gilberto Freyre, desde de seu período de formação nos Estados Unidos, até sua associação ao regime salazarista. Assim, busca-se compreender suas nuances, contradições e permanências, tal como seus objetivos, paixões e influências intelectuais.
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Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 27, nº 58. Primer cuatrimestre de 2025. Pp. 45-66. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2025.i58.03 De Dr. Jekyll a Mr. Hyde: as obras de Gilberto Freyre e sua trajetória intelectual From Dr. Jekyll to Mr. Hyde: the works of Gilberto Freyre and his intellectual trajectory Felipe Cazetta1 Universidade Estadual de Montes Claros (Brasil) ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2110-7531 Recibido: 18-07-2024 Aceptado: 31-10-2024 Resumo Gilberto Freyre foi sociólogo fundamental na compreensão da formação da sociedade brasileira, suas contradições e complexidade. Todavia, por possuir produção intelectual longeva, alguns de seus textos são polêmicos provocando ruídos na recepção acadêmica. Diante disso, pesquisadores se debruçam por organizar em etapas a produção de Freyre. O objetivo deste artigo é oposto, por justamente buscar compreender não os intervalos ou etapas, mas a continuidade na obra de Gilberto Freyre, desde de seu período de formação nos Estados Unidos, até sua associação ao regime salazarista. Assim, busca-se compreender suas nuances, contradições e permanências, tal como seus objetivos, paixões e influências intelectuais. Palabras-clave: Gilberto Freyre, trajetória, história intelectual, “equilíbrio dos antagonismos”, lusotropicalismo. Abstract Gilberto Freyre was a fundamental sociologist in understanding the formation of Brazilian society, its contradictions and complexity. However, due to his long-standing intellectual production, some of his texts are controversial, causing noise in academic reception. Given this, researchers are focusing 1 ([email protected]). Professor de História Moderna e Contemporânea da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), e professor permanente do Programa de Pós Graduação em História da Unimontes. É doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É autor de livros e artigos entre os quais destaca: “Fascismos: análises do integralismo lusitano e da ação integralista brasileira (1914-1937)”. 1. ed. Jundiaí: Paco editorial, 2019. v. 1. 300p; O Salazarismo entre o lusotropicalismo e o nacionalismo messiânico. Acervo: Revista do Arquivo Nacional, v. 37, p. 1-21, 2024; Entre o fascismo e o salazarismo: o percurso do Integralismo Lusitano à radicalização. Anuario Colombiano De Historia Social Y De La Cultura, v. 50, p. 353-378, 2023.
46 Felipe Cazetta Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 27, nº 58. Primer cuatrimestre de 2025. Pp. 45-66. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2025.i58.03 on organizing Freyre's production into stages. The objective of this article is opposite, as it seeks to understand not the intervals or stages, but the continuity in Gilberto Freyre's work, from his formative period in the United States, to his association with the Salazar regime. Thus, we seek to understand its nuances, contradictions and permanence, as well as its objectives, passions and intellectual influences. Keywords: Gilberto Freyre, trajectory, intellectual history, “balance of antagonisms”, lusotropicalism. O médico e o monstro: apresentação do percurso intelectual de Freyre e de suas obras Gilberto Freyre (1900-1987) esteve vinculado a uma geração de intelectuais latino-americanos empenhados em reabilitar as tradições culturais locais e regionais, bem como de valorizar o que há de nativo, diante da ameaça estrangeira que descaracterizaria o patrimônio nacional (Castelo 1999: 18). O sociólogo pernambucano atuou não somente no campo intelectual, mas também político, para oferecer alternativas ao liberalismo e à modernidade. Deste modo, alimentava interesses comuns a uma fértil gama de autores portugueses, como António Sardinha (1887-1925) e Fidelino de Figueiredo (1888-1967), e espanhóis – tais como Angel Ganivet (1865-1898), Miguel de Unamuno (1864-1936) e Ortega y Gasset (1883-1955) (Schneider 2022: 3). Portanto, Freyre dialogava com agendas da segunda metade do século XIX, apesar de cronologicamente (porém, não em termos de identidade e afiliação intelectual) estar situado em geração imediatamente posterior. As contribuições de Freyre são evidentes e fixadas em diversos campos das ciências humanas e sociais, ao estabelecer análises referentes à formação da identidade e da nação brasileira, através das colaborações dos negros. Suas conclusões divergiam dos exames que prestigiavam o branqueamento étnico e de viés eugenista, perspectiva cientificamente hegemônica durante a primeira metade do século XX. Ao ampliar o escopo de suas análises, a partir dos anos 1940, Freyre prestigiou a mestiçagem, e não a pureza racial, como mecanismo bem-sucedido de colonização e fixação, bem como construção de sociedades nos trópicos. Assim, o português é compreendido como o elemento mediador e integrador de culturas, sociabilidades e afetos em diferentes partes do mundo, situadas nas regiões dos trópicos. Tais aspectos alçaram Freyre à posição de cânone da sociologia no Brasil, que nas últimas décadas percebe seus pilares abalados pelos posicionamentos políticos assumidos pelo autor, e pelos usos que suas
47 De Dr. Jekyll a Mr. Hyde: as obras de Gilberto Freyre e sua trajetória intelectual Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 27, nº 58. Primer cuatrimestre de 2025. Pp. 45-66. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2025.i58.03 teorias possuíram como instrumento de corroboração de regimes autoritários de direita tais como o salazarista, após a Segunda Guerra Mundial. O cânone perpassa pela representação fundacional, e neste aspecto, Freyre, juntamente a Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda, constituem os intérpretes canônicos da compreensão das bases da sociedade brasileira. “O cânone é essa possibilidade de inscrever-se em uma memória, com sistemas de preservação próprios – como a biblioteca, o museu etc.” (Mazzola 2015: 33). Deste modo, o cânone tende a acumular determinado capital simbólico em seu campo, que transcende a existência física do autor, e fazendo da sua obra um clássico relativamente estável, apesar das transformações e distinções sucessivas entre os contextos em que é lida, e o momento que foi escrita (Heinich 2008: 102). Com o intuito de preservar, ainda que parcialmente, o patrimônio intelectual construído por Gilberto Freyre, percebem-se operações de separação e cortes cirúrgicos, no intuito de organizar fronteiras entre o “jovem Freyre” e o “velho Freyre”; a obra com preocupações sociológicas e aquelas que são cooptadas pelo campo político; ou através de etapas e décadas, caracterizando o desenvolvimento analítico de Gilberto Freyre em intervalos de aprofundamento e refinamento científico. Através dos pesquisadores e comentadores da obra de Freyre, cria-se espécie de tipos ideais do sociólogo pernambucano, condensados em etapas distintas de sua vida intelectual, detectada através da seleção consciente dos textos produzidos entre os anos de estudo em Baylor até o encerramento de suas atividades. Tais esforços caminham no sentido de estabilizar as fissuras apresentadas nas colunas de sustentação do cânone freyreano. Tal como no romance de Robert Louis Stevenson, Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, na historiografia Freyre é apresentado ora com aspectos progressistas e interessado em desembaraçar os preconceitos científicos, sendo próximo de um Dr Jekyll; ora visto pós-1945 como figura diferente da anterior, que fornece colaboração a ditaduras e concebe as bases do racismo estrutural (Mr. Hyde). No entanto, tal como Jekyll e Hyde são compósitos de um mesmo personagem, as divisões operadas na obra de Freyre, criam cortes e divisões artificiais. Assim, há o interesse em compreender as operações de transmutação de médico em monstro, procedida ao longo das alterações de contextos históricos passados por Gilberto Freyre. Ao consultar textos da última década, escritos por pesquisadores de referência obrigatória sobre os estudos da obra de Gilberto Freyre, percebemse cortes e separações em sentidos distintos, com o intuito de classificar e organizar sua produção intelectual. Elide Rugai Bastos (2006) aponta para a alteração de preocupação de Freyre entre os anos de 1920 e 1930, quando da primeira década, firmava-se na crítica aos aspectos superficiais de imitação
48 Felipe Cazetta Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 27, nº 58. Primer cuatrimestre de 2025. Pp. 45-66. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2025.i58.03 estrangeira, com o intuito dos nacionais se fazerem modernos. Por outro lado, na década seguinte, Freyre estabeleceu suas preocupações sobre a consolidação da identidade nacional através da investigação do passado, detendo-se no período da colonização portuguesa e do império no Brasil. Nota-se, claramente, uma mudança de clave na explicação gilbertiana: seus trabalhos da década de 20 apontam simultaneamente para dois pontos aparentemente contraditórios. De um lado, denunciam um crescente processo de falsa modernização que destrói as tradições nacionais; de outro, reclamam sobre a não-modernização científica e institucional, meta que, se não alcançada, impedirá ao Brasil firmar-se como nação do século XX. /As obras dos anos 30 voltavam-se à reinterpretação do passado nacional, aos estudos sobre as questões racial e cultural. (Bastos 2006: 51) A crítica à modernidade de Freyre, dos anos 1920 se estendeu até o período pós-Segunda Guerra Mundial, sendo encontrada também nos estudos lusotropicais. Freyre (1925: 3) apresentou em seu artigo “A propósito da campanha do Sr. Hardman”, de 12 de abril de 1925, a seguinte afirmação referente ao período colonial e do império no Brasil: “Os escravos, mais felizes que os trabalhadores de eito e os operários de fábrica de hoje – tese muito fácil de provar – eram tão bem alimentados nos engenhos, que o fato é destacado por grande número de viajantes do século décimo nono, muitos deles abolicionistas até á raiz dos cabelos: (…)”. Tal defesa é bastante próxima à encontrada em Interpretação do Brasil, primeira edição de 1947, onde o sociólogo pernambucano apresentou: [...], visto em conjunto, o regime da escravidão nos engenhos nas fazendas brasileiras no século XIX parece ter sido bem menos despótico do que a escravidão em outras regiões da América; e menos cruel – se se pode admitir grau a crueldade – do que o regime de trabalho na Europa industrial durante os terríveis cinquenta primeiros anos do laissez-faire econômico que veio após a Revolução Industrial. (Freyre 2001: 126) Em ambos os casos, separados por duas décadas, há a denúncia das condições insalubres que a produção capitalista, em sua fase industrial, expõe os trabalhadores. Em via oposta, Freyre buscou destacar aspectos positivos nas relações sociais dos escravos nos engenhos brasileiros. Quando postos lado a lado, há explicitamente a interpretação de superioridade das condições de vida do escravo brasileiro, em detrimento dos operários das fábricas. Como pano de fundo, tanto em 1925, quanto em 1947, Freyre apresentou a crítica à modernidade, à aceleração da produção, que vulgariza o trabalho e a própria existência dos trabalhadores. Todavia, a crítica ao capitalismo não deve ser
49 De Dr. Jekyll a Mr. Hyde: as obras de Gilberto Freyre e sua trajetória intelectual Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 27, nº 58. Primer cuatrimestre de 2025. Pp. 45-66. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2025.i58.03 compreendida como adesão ao pensamento de esquerda, mas uma tentativa de reabilitar, através da tradição, as maneiras de produzir, das relações sociais e de cultura, anteriores à ascensão das formas contemporâneas de capitalismo. Não se partilha, portanto, do entendimento de Rugai Bastos, onde haveria uma mudança de chave nas análises de Freyre entre os anos de 1920 e 1930. Entende-se, ao contrário, a existência de aprofundamento da condenação da modernidade iluminista, e para isso buscou aumentar os níveis de lapidação para seus pontos defendidos, e ampliar seus espaços de análise (tanto em âmbito geográfico como temporal), com o interesse de apresentar alternativas viáveis de desenvolvimento. Afinal, o interesse em apresentar tal civilização inaugurada pelo português nos trópicos era justamente combater o monopólio civilizacional imposto pelo imperialismo anglo-saxão, e pelas correntes de pensamentos disseminadas a partir da Revolução Francesa, em destaque: o liberalismo, o individualismo, a democracia liberal e o socialismo. Apesar da condenação à modernidade se pronunciar, mesmo que de maneira intuitiva, entre os finais dos anos 1910 e ao longo da década de 1920, tal aspecto se manifestou de forma perene na obra de Freyre. Alessandro Candeas (2010) apresenta organização distinta da procedida por Elide Rugai Bastos, compreendendo em suas análises que entre os anos de 1920 e 1930 a atuação de Gilberto Freyre se fez sobre as investigações da formação social do Brasil. Desse modo, sobressaía na obra de Freyre a mestiçagem, a formação cultural e social híbrida. “A partir dos anos 1940”, segundo Candeas (2010: 164), o interesse de Freyre deixa de voltar-se exclusivamente para o estabelecimento dos fundamentos da identidade e da história social do Brasil – (...) – e eleva-se à dimensão internacional e políticas dos conflitos culturais: para ele, não se tratava mais de compreender uma sociedade nacional, mas de defender uma civilização – a luso brasileira – em face dos imperialismos culturais. Sobre este aspecto, é necessário atentar a um viés bastante específico e precioso das análises de Freyre, que é a indiferença relacionada a delimitações geográficas, nacionais ou mesmo temporais, para se verificar influências, traços e marcas de identidade, cultura e plasticidade do processo de mestiçagem. Desse modo, salvo melhor juízo, Freyre é um dos precursores dos estudos transnacionais. Tal aspecto pode ser demonstrado em suas obras dos anos 1930, como Casa Grande & Senzala, em diversos momentos, entre estes a explicação da forma precoce que o português se depara, e de certo modo, é formado pelo “outro”, em diferentes aspectos e níveis de contato: “a [vantagem] da sua moral sexual, a moçárabe, a católica amaciada pelo contato com a maometana, e mais frouxa e mais relassa que a dos homens do Norte”. (Freyre 1998: 21). Desse modo, o nacional e o internacional se confundem, se diluem, e, em certos
50 Felipe Cazetta Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 27, nº 58. Primer cuatrimestre de 2025. Pp. 45-66. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2025.i58.03 momentos, assumem características secundárias, diante do protagonismo dedicado às interações sociais, culturais e sexuais para a formação da sociedade brasileira e, em análises posteriores, a partir dos anos 1940, da civilização lusotropical. Para além das questões metodológicas, há também a percepção do corte ideológico nos estudos de Freyre, cuja a viragem é saliente a partir dos anos 1950 com os usos do lusotropicalismo pelo regime salazarista. Pallares-Burke e Burke (2009: 183) e Baggio (2010: 16-17) destacam as mudanças na recepção da obra de Freyre entre a intelectualidade de esquerda e centro-esquerda, em decorrência de sua aproximação com ditaduras de direita, em Portugal e no Brasil. Porém, através de leitura das colunas e artigos de Gilberto Freyre, produzidos durante seus estudos nos Estados Unidos, até seu retorno a Recife, constata-se que não foi a visão de mundo do autor que foi alterada, mas o contexto em que escrevia, influenciando, portanto, na maneira que seus leitores receberam suas obras e suas ideias. Entre os anos 1920 e 1940 os escritos de Freyre, distribuídos entre crônicas, artigos, palestras e obras, possuíam refinamento analítico, com fortes traços etnográficos (demonstrando as influências antropológicas de Boas e Giddings, resultantes do período de estudos nos EUA). Os assuntos dividiam-se entre vida cotidiana, aspectos culturais e tradição local e regional (Larreta; Giucci 2007: 106). Apesar do refinamento e do traço etnográfico se sobressaindo, mesmo de maneira intuitiva, seus escritos eram atravessados pelo repúdio à alteração dos costumes sociais, sexuais e de comportamento (expresso nas formas de se vestir, nas relações sociais, no corte de cabelo das mulheres etc). Assim, Freyre revelava-se, desde jovem, herdeiro da tradição oligárquica e patriarcal da elite açucareira pernambucana. Os textos de contestação à estrutura política do início da República abrangiam a denúncia do exotismo do liberalismo e deterioração das tradições regionais, e podem ser compreendidos como meio de contornar a crise econômica e o declínio do peso político do Nordeste no cenário nacional. Talvez estes aspectos levassem à recepção intelectual até a primeira metade do século XX, à interrogação diante das posições ideológicas de Freyre, por gerar a ambiguidade em relação às críticas, que afetava também o arranjo oligárquico da Primeira República – porém, não eram esses os alvos centrais de Freyre. Em escala local, na esfera do cotidiano, seus textos giravam sob o eixo dos costumes e do enaltecimento das relações construídas a partir das tradições, em detrimento da aceleração imposta pela modernidade. Em termos metodológicos Freyre, nos anos 1920, apresentava sofisticação e certo exotismo em vista dos objetos apresentados como alvo de investigação. Avançava sobre objetos de observação pouco visitados ou tidos como indignos de pesquisa, como a culinária, a questão ambiental, e grupos que não
51 De Dr. Jekyll a Mr. Hyde: as obras de Gilberto Freyre e sua trajetória intelectual Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 27, nº 58. Primer cuatrimestre de 2025. Pp. 45-66. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2025.i58.03 despertavam interesse da intelectualidade das primeiras décadas do século XX. Em seu artigo 67, da série de 1 a 100 no Diário de Pernambuco, o sociólogo apresentava “o moleque brasileiro é hoje um caso a estudar. À margem da família brasileira há que escrever a história do moleque” (Freyre 1924: 1). Porém, quando suas crônicas dominicais envolviam o cotidiano, por vezes sobressaía o desconforto de Freyre às mudanças que se operavam em torno da tecnologia, das questões de comportamento e costumes. Nessas colunas, havia a crítica à aceleração imposta pelo modelo de progresso que se estabelecia – mesmo em relação aos transportes coletivos: “Menino, ainda conheci no Recife os velhos ‘bonds’ tirados a burro, morosos e bons. Eram tão lentos que faziam esquecer o tempo. Era uma escola da paciência. (...)/ Agora, com os vertiginosos elétricos raro é o dia que me não é dado nos nervos o ‘frisson’ de assistir alguma acrobacia de possibilidades trágicas ou macabras” (Freyre 1924a: 1). A associação ao salazarismo apenas sublinhou sua vinculação à direita e às concepções conservadoras, ou na melhor das hipóteses, de valorização das tradições em detrimento da modernidade, da democracia e do liberalismo, mas não foi um ponto de inflexão ou uma mudança de rota nos escritos de Gilberto Freyre. Ao destacar a complexidade da obra de Gilberto Freyre, o que é um fato, Candeas (2010: 161) afirma que sua obra pode ser perpassada pela ambiguidade, em virtude de leitura “(...) superficial e condicionada por apriorismos ideológicos por ter sido utilizada, de forma abusiva e seletiva por regimes autoritários no Brasil e em Portugal”. Todavia, não se pode compreender as produções (seja no campo literário ou no espaço científico) como neutras ou destituídas de seu contexto de produção. O médico: Freyre e a atuação (política) do intelectual Freyre como intelectual e sujeito atuante na arena pública, era revestido de intenções e objetivos, defendia, ainda nos anos 1920, projetos e agendas políticas. É necessário compreender que a vida intelectual, como em quaisquer outros espaços sociais, é dotada de nacionalismos e imperialismos, apesar da necessidade que o campo intelectual exige de circulação transnacional. Desse modo, é fundamental mapear e rastrear os interesses, estereótipos, representações e projetos que os intelectuais desejam quando registram e publicam o manuscrito (Bourdieu 2002: 4-5). Como um intelectual que foi, Freyre tinha consciência dos usos políticos de suas obras, além de ele próprio utilizá-las com finalidade política e mecanismos de reagir ao imperialismo (cultural e político) – inicialmente nazista (Candeas 2010: 164), e posteriormente anglo-saxão – e em defesa do patrimônio
52 Felipe Cazetta Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 27, nº 58. Primer cuatrimestre de 2025. Pp. 45-66. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2025.i58.03 cultural e das tradições brasileiras e, nos anos 1940 e seguintes, lusotropical. Metodologicamente é obrigatório considerar os laços existentes entre a história intelectual e a história política. Tais vínculos entre o intelectual e o político foram estabelecidos na origem do conceito contemporâneo de intelectual, a partir do Caso Dreyfus (1894), quando pensadores como Zola, Durkheim, Anatole France, Henri Poincaré abandonaram momentaneamente a cátedra para posicionarem-se na arena pública em defesa do militar judeu, que foi culpado de espionagem com provas frágeis e julgamento tendencioso. Desse modo, o intelectual não é revestido somente pela erudição típica de seu ofício, ou pela bagagem cultural de que é dotado, mas pelo compromisso social de mobilizar ou conservar, na arena pública e na sociedade civil. A atuação do intelectual assume assim vínculo intrínseco com a política (Dosse 2007: 76). A partir da reabilitação da história política, principalmente após os anos 1960, há a vocação à análise do comportamento coletivo, movimentos de opinião, assim como consolidação ou alteração de ideias, culturas e mentalidades. Logo, é possível fazer a história política das relações intelectuais, diante destes espaços de mediação e interseção partilhados pelos dois campos, e assim perceber os itinerários intelectuais, os espaços e redes de sociabilidade, assim como as estruturas geracionais (Sirinelli 1990: 17). Ao analisar o trajeto de Freyre, Pallares-Burke e Burke (2009: 153), através de Edward Said, apresentam a condição e o sentimento de exílio como uma das marcas dos intelectuais. Através da visão constantemente outsider, tal sujeito é encorajado a examinar e ver o mundo de ângulos não convencionais. Ao completar seus estudos nos EUA, e passar um período na Europa, Freyre construiu seu olhar do exilado, e, de certo modo, não se dispersou ao retornar para Recife em 1923. Em Wacco, Freyre consolidou um estilo de escrita jornalístico, não linear, que de certo modo o acompanhou ao longo de sua extensa produção intelectual. Nos EUA, precocemente se notava o olhar aguçado do jovem brasileiro às questões políticas, culturais e religiosas, associadas à vida cotidiana de uma universidade do interior estadunidense, com astúcia etnográfica. Por outro lado, pouco ou nada se lia em sua coluna dominical no Diário de Pernambuco, referente à questão da discriminação racial presenciada no país onde completou seus estudos (Larreta; Giucci 2007: 113), talvez, por ainda carregar fortemente a herança escravista das oligarquias açucareiras de que descendia. Pallares-Burke e Burke (2009) compreendem que a dificuldade de Freyre em seguir carreira duradoura em instituição de ensino superior ou agência de Estado o definiam como intelectual outsider. “Não-acadêmico em vez de antiacadêmico, Freyre estava sempre pronto a elogiar os intelectuais que não se
53 De Dr. Jekyll a Mr. Hyde: as obras de Gilberto Freyre e sua trajetória intelectual Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 27, nº 58. Primer cuatrimestre de 2025. Pp. 45-66. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2025.i58.03 confinavam as suas estreitas especialidades ou não estavam confortavelmente estabelecidos em suas torres de marfim” (Pallares-Burke; Burke 2009: 159). Através das agendas e lutas que Gilberto Freyre estabelecia, daquilo que provocava descontentamento, e suas influências intelectuais, é possível estabelecer algumas considerações referentes ao tipo de intelectual que Freyre encarnava. Mal completados vinte anos, Freyre demonstrava seu incômodo com a especialização e o individualismo que invadiam o cotidiano ao perceber esses traços nos EUA. “Os Estados Unidos parecem ter adquirido da Alemanha a mania de especialização a todo o panno, até o último requinte e ao exagero. Isto nas industrias, no comércio, na organização de serviços públicos, no ensino, na medicina – em tudo, enfim” (Freyre 1921: 3). Esse repúdio, a partir de meados dos anos 1920, quando já estabelecido no Recife, tomou forma de elemento regionalista e de defesa da tradição. Desse modo, não houve mudança de perfil ou uma ruptura, mas aprofundamento de sua aversão à modernidade, demonstrada desde o final dos anos 1910. Apesar de ter nascido em 1900, Freyre trazia para seus textos combates coerentes aos finais do século XIX, como o repúdio ao avanço imperialismo anglo-saxão (Capelato 2003). Avesso à especialização que avançou em diversos campos, entre os quais o científico, a partir da segunda metade do século XIX, Freyre valorizava a formação ampliada e genérica. Isso pode ser percebido pelas disciplinas que cursou nos EUA, onde se matriculou em leque variado e pouco ortodoxo em Baylor, entre as quais Zoologia, Psicologia e Princípios de Economia (Larreta; Giucci 2007: 594). Ao descrever a posição social dos intelectuais brasileiros das gerações de 1920-1940, Daniel Pécault (1990: 19) apresenta o quadro de decadência de status em decorrência da ampliação do acesso ao mercado de bens culturais, o que forçou a profissionalização dos sujeitos provenientes deste grupo, em muitos casos. Tal contexto é diverso do apresentado no século XIX, onde intelectuais e artistas se viam patrocinados pelos imperadores, com ênfase a D. Pedro II, através de prebendas e honrarias. Esse panorama permitia a formação plural. Após a proclamação da República houve a exigência da especialização pelas carreiras profissionais, para concorrerem a cargos públicos ou oferecerem serviços a determinado governo, diante da impessoalidade e do individualismo presente no liberalismo, adotado pelo novo regime. A recusa de Freyre em seguir tal percurso fornece indícios de uma não inserção na geração a que biológica ou cronologicamente ele estaria vinculado. Desse modo, ao se deter sobre os intelectuais, é necessário compreender que o fenômeno geracional não se aplica à data de nascimento comum, mas às formas que são percebidas as experiências traumáticas, espaços e redes de sociabilidades partilhadas e trajetórias comuns (Dosse, 2007: 46). Esses aspectos fazem de Freyre mais próximo da Geração de 1898 da Espanha, distanciando-o
60 Felipe Cazetta Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 27, nº 58. Primer cuatrimestre de 2025. Pp. 45-66. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2025.i58.03 Assim, tal caráter plástico encontra-se na raiz da formação dos povos ibéricos. Concluía Freyre (1971: 36): “Mas o resultado geral do longo contato dos espanhóis e dos portugueses com os árabes, ou mouros e os judeus resultou antes em integração, ou equilíbrio, de elementos antagônicos do que em separação ou diferenciação ostensiva de qualquer deles; ou em choque violento entre eles”. A utilização do conceito sociológico de “equilíbrio dos antagonismos” é um elemento singular e fundamental na obra de Freyre, por ser coerente com sua proposta de civilização, construída sob a harmonia, o que não desqualifica as relações de violência. Tais elementos, aparentemente contrastantes, encontrariam acolhida na democracia racial, regida e dominada pelo patriarcalismo e pela aversão ao individualismo. Como instrumento de análise sociológica, o conceito de “equilíbrio dos antagonismos” surgiu de Herbert Spencer, onde afirmava que o consenso de opiniões antagônicas traria a verdade, visto que nenhum dos lados estaria completamente correto ou completamente equivocado (Pallares-Burke; Burke 2009: 98). Nesses termos, o Brasil não se inseria perfeitamente na civilização inaugurada pela modernidade. Apesar de ser colonizado por Portugal, a sociedade e a identidade brasileira guardavam em si elementos que não eram puramente ocidentais ou europeus. “É sob vários aspectos extra-europeia. Ou mais-que-europeia” (Freyre 1971: 130). Freyre percebeu precocemente que Portugal e Espanha foram suplantadas por modelo antagonista de política e economia, tipicamente europeu e ocidental, colocando os países ibéricos em posição intermediária entre Europa e África, Ocidente e Oriente. Essa posição de trânsito fez dos dois países formadores de civilização dotados de originalidade e singularidade. Nos anos 1920, compreendia que “de fato a inadaptação hispanica ao ritmo europeu começou com a vitória no sentido técnico ou mecânico de vida – o sentido germânico ou norte-americano ou seja de ‘Progresso’ sobre o sentido de civilização” (Freyre 1926a: 1). Diante deste “desencontro” nos rumos do desenvolvimento evolutivo do progresso, imposto pela modernidade, houve a necessidade de compreender, através da noção de sincronia e diacronia, a possibilidade de existência de outras civilizações, em detrimento aquela hegemonia, a ocidental, resultado da modernidade e conduzida pelo sentido germânico ou anglo saxão. Em lugar da competitividade, do individualismo e da impessoalidade, este modelo de civilização seria igualmente democrático, mas não nos termos políticos e liberais (pois estes seriam avessos as bases e essência deste patrimônio civilizacional). “Os portugueses encontraram na América tropical espaço ideal para a expansão e desenvolvimento de sua civilização etnicamente democrática – apesar dessa civilização ter sido, em alguns aspectos, aristocrática e mesmo feudal a Civilização que começou a florescer nos trópicos africanos
61 De Dr. Jekyll a Mr. Hyde: as obras de Gilberto Freyre e sua trajetória intelectual Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 27, nº 58. Primer cuatrimestre de 2025. Pp. 45-66. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2025.i58.03 e asiáticos” (Freyre 1971: 132). Desse modo, o lusotropicalismo possuiria elementos democráticos respaldados no afeto, e não na impessoalidade típica do liberalismo. A família seria o elemento de ampliação do poder patriarcal, espécie de árbitro nas tenções e relações cotidianas. As relações poligâmicas seriam, nessa estrutura, a garantia da estabilidade de tal democracia étnica, apesar da estrutura ser reconhecidamente organizada sob bases aristocráticas, visto que não haveria distinção entre os filhos, tampouco discriminações de cor ou raça, como presentes nos Estados Unidos ou em colônias de outros países europeus, exceto Portugal. A civilização lusotropical seria específica do comportamento português no mundo, tal como a forma de se ver e reproduzir seus costumes, política, cultura e sociedade. Diante de sua essência plástica, e sua localização intermediária (entre Ocidente e Oriente, Europa e África), o português optou pelos trópicos como espaço e ambiente de crescer e multiplicar, porém, sem desqualificar ou excluir a existência do outro (Freyre 1971: 138). Nessas formas de comportamento, prestigiando o vigor das relações híbridas, criamse tipos aptos ao clima, à sociabilidade e ao ambiente, e de outro modo, se reproduz de maneira alterada a identidade portuguesa. Apesar de aparentemente contraditório, tais valores encontrariam a harmonia e o equilíbrio, através da plasticidade, desprezando qualquer noção de pureza racial (Freyre 1953: 130). As bases teóricas onde tensões aparentes culminariam para o ambiente harmonioso estiveram presentes no projeto de regionalismo defendido por Freyre. A proposta defendida não era antagonista ao projeto de nacionalismo, do mesmo modo que nacionalismo poderia estar integrado à dinâmica do universalismo. Esse regionalismo não propunha, portanto, a fragmentação, mas “um Brasil livre de tutelas que tendem a reduzir a feudos certas regiões”. (Freyre 1926b: 3). A partir da premissa do respeito à diversidade, neste regime verdadeiramente federativo, poderia emergir, segundo Freyre, um “alto sentido de cultura nacional”. Assim, a proposta se posicionava em campo oposto aos Modernistas de São Paulo, compreendidos por Freyre como futuristas. “A mocidade de S. Paulo, que eu suponho a mais culta do Brasil, sofre neste momento a nevrose que entre nós chama indistinctamente futurismo. É pena. E esta mocidade devia estar a ler a D. Quixote, Romeu e Julieta e Menina e Moça. Mas está, sem nenhuma noção do ridículo, arremedando Dada” (Freyre 1923a: 3). Freyre integrava o regionalismo em perspectiva transnacional, conectado a interesse no popular, a obra de outros países com mesmas preocupações. Por outro lado, acusava à “mocidade de S. Paulo” de olhar para fora, para as modas artísticas europeias, sem a devida observação com os vínculos nacionais. Freyre entendia o dadaísmo na Europa, como um alívio à arte cansada, e o apelo ao espírito renovador. Porém no Brasil, se compreendia que tudo estava por ser feito, e
62 Felipe Cazetta Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 27, nº 58. Primer cuatrimestre de 2025. Pp. 45-66. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2025.i58.03 a partir daquilo que há de mais primitivo e puro, que era o aspecto popular e regional. Assim, se justificava o apelo às superstições e tradições populares, tal como a culinária regional e a oralidade. Nosso movimento não pretende senão inspirar uma nova organização do Brasil. Uma organização em que as vestes em que anda metida a República – roupas feitas, roupagens exóticas, veludos para frios, peles para gelos que não existem por aqui – sejam substituídas não por outras roupas feitas por modista estrangeiro, mas vestido por túnicas costuradas pachorramente em casa: aos poucos e toda sob medida (Freyre 1996: 2). Em Aventura e Rotina, obra que foi resultado das excursões por Portugal e suas colônias, ou “províncias ultramarinas”, o sociólogo pernambucano utilizava do método descrito em citação acima para analisar a canja que tomou em terras portuguesas: “A canja foi assimilada da Índia pelo português: não é sopa castiça ou peninsular na sua origem” (Freyre 1953a: 108). Freyre propunha com o regionalismo nos anos 1920, o que buscou metodologicamente como o lusotropicalismo nos anos 1940 e décadas seguintes: os homens integrados na paisagem e no ambiente. Assim, a cultura material assumiria significado, e se habilitaria ao estudo de roupas, culinária, arquitetura com propósitos de decodificar os significados nestes objetos encarnados, dentro daquele espaço local e regional, coerentes àquela tradição. Portanto, há mais continuidades que rupturas entre o Gilberto Freyre dos anos 1920 e aquele que disponibilizou suas obras a serviço do Salazarismo, bem como utilizou, neste contexto, de seu protagonismo político para potencializar o capital intelectual. Considerações Finais: Gilberto Freyre é, de forma incontestável, um cânone na sociologia e nos estudos históricos no Brasil. Todavia, para além do mito fundador e do caráter perene de suas obras, é necessário situar o texto dentro de seu devido contexto. Deste modo, se algo foi registrado e publicado, foi de forma deliberada, cumprindo determinado intuito, e mobilizado por paixões ou projetos em que acreditava. Logo, é necessário fazer justiça com sua obra, posicionando a priori seu autor em um campo político definido, para assim acompanhar sua recepção ao longo dos diferentes contextos. O fato de fazer o mapeamento das concepções ideológicas de Gilberto Freyre ao longo de sua produção intelectual não implica deterioração da qualidade de seus textos, mas ao contrário, percebê-los como fieis a determinadas conjunturas. Assim, a crítica a esses textos deve ser circunscrita ao espaço de experiência vivenciado por Freyre naquele determinado contexto, buscando um
63 De Dr. Jekyll a Mr. Hyde: as obras de Gilberto Freyre e sua trajetória intelectual Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 27, nº 58. Primer cuatrimestre de 2025. Pp. 45-66. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2025.i58.03 debate ético com sua longa e valiosa obra. Portanto, não se deve compreender a obra como descarnada de interesses terrenos, tampouco seu autor como ciente do futuro, e portanto, de sua trajetória completa, do nascimento até seu desaparecimento. Portanto, buscou-se aqui sair do maniqueísmo entre jovem Freyre e velho Freyre, onde o primeiro seria o sociólogo e pesquisador (Dr. Jekyll, o médico) e o segundo um ideólogo de Salazar através do lusotropicalismo (Mr. Hyde, o monstro). Para se sair da encruzilhada deixada por tais divisões, é necessário diminuir os tons perversos do monstro, bem como compreender que Freyre caldeava elementos de progressismo com aspectos de conservadorismo, através do prisma de experiências que envolveram sua geração, suas tradições e sociabilidade, aprendizado e contato com o estrangeiro, entre outros fatores. Portanto, o Freyre aparentemente progressista, que afirma a importância da identidade negra na composição nacional, não eliminou, tampouco representou antagonismo com o Freyre conservador e moralista. Ele mesmo experimentou o “equilíbrio dos antagonismos” em sua formação e construção intelectual. A partir das premissas da “Ilusão Biográfica” (Bourdieu, 2006), buscouse aqui, de fato, dessacralizar – mas nunca desqualificar – a obra de Gilberto Freyre. Portanto, sustentou-se o objetivo de propor nova forma de observar e examinar a sua produção, inscrita não em recortes objetivos e típico-ideais, mas percebendo as permanências e contradições, os interesses, as incoerências e propostas do sujeito histórico, dentro do seu tempo, das suas aspirações e das suas contingências.
64 Felipe Cazetta Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 27, nº 58. Primer cuatrimestre de 2025. Pp. 45-66. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2025.i58.03 Referências bibliográficas: Alberto Luiz Schneider, “Herança ibérica, preservacionismo e regionalismo como crítica à modernidade burguesa em Nordeste (1937) de Gilberto Freyre”. Em Anos 90, (p. 1-20), Porto Alegre, v. 29, 2022. Alessandro Candeas, Trópico, cultura e desenvolvimento: a reflexão da UNESCO e a tropicologia de Gilberto Freyre, Brasília, Unesco; Liber Livro, 2010. Angel Ganivet, Idearium Español, Granada, Vda. e Hijos de Paulino V. Sabatel, 1897. Antoine Compaignon, Os Antimodernos: de Joseph de Maistre a Roland Barthes, Belo Horizonte, Ed.UFMG, 2011. Claudia Castelo, “O modo português de estar no mundo”: o luso-tropicalismo e a ideologia colonial salazarista (1933-1961), Porto, Edições Afrontamento, 1999. Daniel Pécault, Os intelectuais e a política no Brasil: entre o povo e a nação, São Paulo, Editora Ática, 1990. Elide Rugai Bastos, “O iberismo e a reflexão sobre a democracia na obra de Gilberto Freyre”. (p. 37-55), Pró-posições, V.17, n.3 (51), set-dez. 2006. Enrique Rodríguez Larreta; Guillermo Giucci, Gilberto Freyre: uma biografia cultural, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2007. François Dosse, La marcha de las ideas: historia de los intelectuales, historia intelectual, Valencia, Universitat de Valencia, 2007. Gilberto Freyre, “Da outra América”. Diário de Pernambuco, n. 142, ano 97, Domingo, 29 de maio, 1921. _____________, “Da outra américa”, Diário de Pernambuco, n. 87, ano 98, Domingo, 16 de abril, 1922. _____________, “Da outra américa”, Diário de Pernambuco, n. 176, ano 98, Domingo, 30 de julho, 1922a. _____________, “3”, Diário de Pernambuco, n. 103, ano 99, Domingo, 6 de maio, 1923. _____________, “5”, Diário de Pernambuco, n. 115, ano 99, Domingo, 20 de maio, 1923a. _____________, “50”, Diário de Pernambuco, n. 76, ano 99, Domingo, 30 de março, 1924a. _____________, “67”, Diário de Pernambuco, n. 148, ano 99, Domingo, 29 de junho, 1924. _____________, “88”, Diário de Pernambuco, n. 297, ano 99, Domingo, 21 de dezembro, 1924b. ______________, “A proposito da campanha do Sr. Hardman”, Diário de Pernambuco, n. 84, ano 100, Domingo, 12 de abril, 1925.
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