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UNIVERSIDAD DE SÃO PAULO Facultade de Filosofia, Letras e Ciencias Humanas Departamento de História Programa de Pós-graduação em História Social LIDA ELENA TASCÓN BEJARANO VIDA FAMILIAR NA POPULAÇÃO ESCRAVIZADA E LIBERTA DA PROVÍNCIA DE POPAYÁN, COLÔMBIA (1780-1852) São Paulo Maio 2022
LIDA ELENA TASCÓN BEJARANO VIDA FAMILIAR NA POPULAÇÃO ESCRAVIZADA E LIBERTA DA PROVÍNCIA DE POPAYÁN, COLÔMBIA (1780-1852) Tese apresentada como requisito parcial e final para obtenção do grau de doutora, Programa de Pós-graduação em História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, sob a orientação do profe. Dr. Carlos de Almeida Prado Bacellar São Paulo Maio 2022
UNIVERSIDAD DE SÃO PAULO Y UNIVERSIDAD DE SEVILLA LIDA ELENA TASCÓN BEJARANO VIDA FAMILIAR EN LA POBLACIÓN ESCLAVIZADA Y LIBERTA DE LA PROVINCIA DE POPAYÁN , COLOMBIA (1780-1852) São Paulo Mayo 2022
LIDA ELENA TASCÓN BEJARANO VIDA FAMILIAR EN LA POBLACIÓN ESCLAVIZADA Y LIBERTA DE LA PROVINCIA DE POPAYÁN, COLOMBIA (1780-1852) Tesis presentada como requisito parcial e final para la obtención del grado de doctora, doble titulación, Programa de Posgrado en Historia de América, Facultad de Geografía e Historia, Universidad de Sevilla, bajo la tutela de la Profa.Dra Sandra Olivero Guidobono. São Paulo Mayo 2022
RESUMEN El objetivo de este trabajo es presentar los resultados de la investigación de doctorado intitulada Vida Familiar en la Población Esclavizada y Liberta de la provincia de Popayán (Colombia), 1780-1852. La investigación tiene como objetivo analizar los modos en que la población esclavizada y liberta de las haciendas de la provincia de Popayán en la Nueva Granada (Colombia), establecían sus relaciones de pareja, formas familiares y de parentesco en sociedades estructuradas sobre jerarquías sociales, raciales y de género entre 1780 y 1852. Para ello, nos concentramos en grupos de esclavizados pertenecientes a una de las familias más prestigiosas de la ciudad de Popayán, la familia Arboleda. Intentando acompañar a estos grupos de esclavizados a lo largo del tiempo hicimos cruzamientos de varias fuentes como: inventarios, escrituras de ventas de esclavos, manumisiones, juicios criminales, archivos parroquiales y censos de población, para comprender la formación de sus relaciones de pareja; las características de las diversas formas familiares o de parentesco y su estabilidad; la formación de sus identidades a partir de valores dominantes sobre la familia; la importancia de la familia esclava como estrategia de supervivencia para la obtención de la libertad y resistencia a la esclavitud; y el papel de las mujeres esclavizadas y libertas en la formación de las familias y redes de parentesco. Palabras claves: Esclavitud, Familia, Haciendas, Minas, Popayán, Colombia.
RESUMO O objetivo desse trabalho é mostrar os resultados da pesquisa de doutorado intitulada Vida familiar na população escravizada e liberta da província de Popayán, Colômbia (1780-1852). A pesquisa pretende analisar as relações familiares e de parentesco da população escravizadas e liberta das fazendas da Província de Popayán, na (Colômbia), entre 1780 e 1852, levando em conta as relações de poder, dominação e hierarquias sociais, raciais e de gênero próprias da instituição escravista. Para isso, nossa atenção estará centrada em grupos de escravos pertencentes à uma das famílias influentes da província de Popayán: a família Arboleda. Buscando problematizar as relações destes grupos de escravos na virada do século XVIII para o século XIX, fizemos cruzamentos de várias fontes, tais como: inventários, registros paroquiais, escrituras de vendas de escravos, manumissões e censos de população, visando à compreensão da formação de suas relações de casal; as características das diversas formas familiares ou de parentesco e sua estabilidade; a formação de suas identidades a partir de valores dominantes sobre a família; a importância das mulheres escravas e libertadas na formação de famílias e redes de parentesco; e a importância da família escrava como estratégia de sobrevivência, obtenção da liberdade e resistência à escravatura. Palavras-chave: Escravidão, Família, Fazendas, Minas, Popayán, Colômbia.
ABSTRACT The objective of this thesis is to present the results of the PhD research entitled Family Life in the Enslaved and Freed Population of the province of Popayán (Colombia), 1780-1852. The research aims to analyze how the enslaved and freed population of the haciendas of the province of Popayán in New Granada (Colombia), established their couple relationships, family and kinship forms in societies structured on social, racial and gender hierarchies between 1780 and 1852. For this purpose, we focused on groups of enslaved people belonging to one of the most prestigious families in the city of Popayán, the Arboleda family. Trying to follow these groups of enslaved people through time, we cross-checked several sources such as: inventories, deeds of slave sales, manumissions, criminal trials, parish archives and population censuses, to understand the formation of their couple relationships; the characteristics of the various family or kinship forms and their stability; the formation of their identities based on dominant values about the family; the importance of the slave family as a survival strategy for obtaining freedom and resistance to slavery; and the role of enslaved and freed women in the formation of families and kinship networks. Keywords: Slavery, Family, Farm, Mines, Popayán, Colombia
LISTA DE MAPAS Mapa 1 ............................................................................................................................ 31 Mapa 2: Província de Popayán, 1797. Proporción porcentual de la población, según su clasificación sociorracial, por jurisdicciones .................................................................. 53 Mapa 3: Quilichao, 1792 .............................................................................................. 171
LISTA DE FIGURAS Figura 1 ........................................................................................................................... 36 Figura 2: Desenho das terras de Japio ............................................................................ 64 Figura 3 ......................................................................................................................... 150 Figura 4 ......................................................................................................................... 153 Figura 5 ......................................................................................................................... 157 Figura 6 ......................................................................................................................... 159 Figura 7 ......................................................................................................................... 162 Figura 8 ......................................................................................................................... 164 Figura 9 ......................................................................................................................... 165 Figura 10 ....................................................................................................................... 166 Figura 11 ....................................................................................................................... 167 Figura 12 ....................................................................................................................... 172 Figura 13 ....................................................................................................................... 173
9 9 Outro aspecto importante para essa invisibilização 1 do tema do negro foi o discurso sobre a mestiçagem na interpretação histórica e social na Colômbia, diferentemente do que tem ocorrido nos Estados Unidos, no Caribe e no Brasil, onde não pode se negar o legado social e cultural das antigas áreas escravistas e a importância das populações negras descendentes. Isso explica porque nestas últimas regiões os primeiros estudos sobre a escravatura e a cultura negra tenha se realizado desde o início do século XX, enquanto que na Colômbia estes estudos se iniciaram na segunda metade do dito século, sendo ainda que na antropologia se verifica somente duas décadas depois. A obra de Gilberto Freyre, Casa-Grande e Senzala, publicada em 1933, que aborda o tema da escravidão, centra sua atenção na influência dos escravizados e de sua cultura na formação da família brasileira, e por meio dela, de toda a sociedade. As gerações posteriores de historiadores retomaram as interpretações de Freyre sobre as relações patriarcais entre o senhor e o escravizado e a centralidade da escravatura na vida brasileira. Não obstante, as lutas dos movimentos civis da população negra dos anos 50 nos Estados Unidos, as fortes desigualdades sociais no Brasil, aliado ainda com o discurso sobre desenvolvimento, influenciaram a vida acadêmica brasileira. Neste contexto, jovens sociólogos de São Paulo durante as décadas de 1950 e 1960 se distanciaram das interpretações de Freyre e foram influenciados, a partir de então, pelas teorias marxistas. Seu principal objetivo foi será entender a repercussão do escravismo no desenvolvimento geral da economia brasileira e, em alguns casos, o sistema das relações raciais (SCHWARTZ, 2001). A “Escola de São Paulo”, como ficou conhecida, concentrou suas pesquisas principalmente no século XIX e na região sul do Brasil: Emilia Viotti da Costa estudou a região de São Paulo; o sociólogo Fernando Henrique Cardoso escreveu sobre a região do Rio Grande do Sul e Octavio Ianni, a região do Paraná. O também sociólogo Florestan Fernandes e Paula Beiguelman realizaram trabalhos mais teóricos sobre o escravismo e as relações raciais. (SCHWARTZ, 2001). Em geral, para estes autores, a vida em cativeiro era uma vida de “anomia social”, isto é, sem normas sociais e culturais. Aspectos como a separação por venda ou herança, a diferença numérica entre homens e 1 O termo “invisibilização” do negro nas ciências sociais foi popularizado no meio acadêmico pela antropóloga Nina S. de Friedemann. FRIEDEMANN, Nina. ¨Estudios de negros en la antropología colombiana: presencia e invisibilidad¨. In: FRIEDEMANN Nina S. y AROCHA Jaime (eds.).Un siglo de investigación social: antropología en Colombia, Bogotá, Etno, 1984.
10 10 mulheres, ou a promiscuidade sexual, não permitiam a estabilidade na formação da família escravizada. No entanto, ao final da década de 70 e princípio dos anos 80, aparecem outras formas de interpretação da vida escravizada no Brasil. Kátia Mattoso vai atribuir vontade, invenções, adaptações e desejo de liberdade ao escravizado; no entanto, para a família escravizada serão poucos estes espaços de adaptação. Richard Graham, através de seu estudo sobre dois grupos familiares da Fazenda Santa Cruz, também considerará a temporalidade das uniões entre os escravizados. No entanto, o debate historiográfico sobre os Estados Unidos e a região do Caribe, representado especificamente por Herbert G. Gutman, Eugene D. Genovese e Barry Higman, contribuíram para outro entendimento sobre a vida familiar em cativeiro. Gutman, através da análise dos censos populacionais, enfatiza na existência de famílias nucleares e redes de solidariedade antes e após a Guerra Civil nos Estados Unidos. Enquanto Genovese destaca a formação de laços horizontais na família escrava e a família branca, Gutman analisa os laços verticais entre a família escravizada e a família senhorial num contexto patriarcal (GUTMAN, 1976); (GENOVESE, 1976). Deste modo, em finais da década de 1970 emergiu uma imagem nova, mais diferenciada, da família escravizada na América do Norte. Refuta-se a teoria que menciona que a desorganização contemporânea da família afroamericana teria suas origens na experiência da escravatura. Segundo estes historiadores, das múltiplas formas de violência e opressão que tinham padecido os escravos, se deviam resgatar a resistência e criatividade nas condutas e ideais familiares que estes tinham desenvolvido em cativeiro. Esta influência norte-americana e o desenvolvimento da demografia histórica no Brasil permitiram uma nova forma de abordar as fontes. Os trabalhos de José Flavio Motta (1999), Iraci Del Nero Da Costa (1984), Robert Slenes (1987), Stuart Schwartz (1987), Carlos Bacellar (1991), Horacio Gutierrez (1984), Alida Christine Metcalf (1990), entre outros, demostraram a partir das análises dos censos, listas nominativas, registros paroquiais de batismo e casamento, junto com outras fontes, a existência de uma vida familiar escravizada. 2 2 MOTTA, José Flavio. Corpos escravos, vontades livres: posse de cativos e família escrava em Bananal (18011829), São Paulo: FAPESP/Annablume, 1999; BACELLAR Carlos. Família, herança e poder em São Paulo: 17651855. São Paulo: USP-CEDHAL, 1991; GUTIÉRREZ Horácio e COSTA, Iraci del Nero, ¨Nota sobre casamentos de escravos em São Paulo e no Paraná (1830)¨ . In: História: Questões e Debates, vol. 5, núm. 9 (Curitiba, 1984); METCALF, Alida Christine, ¨A familia escrava no Brasil colonial: um estudo de caso em São Paulo¨. In: Congresso sobre a História dá População dá América. História e População: Estudos sobre a América Latina, São Paulo: Fundacão Sistema Estadual de Análise de Dados/ABEP/IUSSP/CELADE, 1990; COSTA, Iraci del Nero da; SLENES, Robert W., e SCHWARTZ, Stuart B., A ¨Família Escrava em Lorena (1801)¨. In: Estudos Económicos,
11 11 Já nos anos 90, o debate historiográfico passou de comprovar a existência da família escrava a demonstrar sua estabilidade e a complexidade de suas redes parentais. O tema do escravo como agente histórico dentro do sistema escravista, com espaços de autonomia e dependência, encontra ressonância nas discussões historiográficas. Dentro dos principais estudos, podem-se destacar os de María Helena Machado (1988), Silvia Lara Hunold (1988), José Flavio Motta (1999), Robert Slenes (1999), Manolo Florentino e José Roberto Góes (1997), Hebe Mattos (1998) Sheila de Castro Faria (1998). 3 Tal como o demonstram estas investigações, a formação da família escravizada, não só a nuclear mas também a extensão de suas redes de parentesco foram importantíssimas para criar laços de solidariedade e resistência e, igualmente, para conservar alguns elementos de sua própria cultura e história. Ao redor do tema existem várias propostas, por exemplo, a obra A Paz na Senzala, de Manolo Florentino e José Roberto Goes (1997), que analisa a formação de parentescos que favoreceram ao senhor dono de negros escravos na pacificação de seu plantel. Por outro lado, Robert Slenes afirma que a família escrava, mais que uma forma de garantir uma tranquilidade no plantel, representava uma forma de resistência cultural, isto é, uma maneira de evitar se submeter por completo ao senhor escravista. (SLENES, 1999) Algumas teses de doutorado, além de retomar as discussões sobre autonomia, dependência, estratégias e resistência da população escravizada, também se concentraram no tema da comunidade escrava. Jonis Freire, em seu trabalho Escravidão e família escrava na Zona da Mata Mineira oitocentista (2009), destaca as estratégias políticas e identidades culturais da comunidade escrava para a conservação e re-significação de seus costumes africanos. De igual forma, as relações familiares e de parentesco dos cativos garantiram espaços de autonomia e resistência. Neste mesmo sentido, encontramos o trabalho de Isabel Cristina Ferreira dois Reis (2007), A família negra no tempo da escravidão: Bahia, 1850-1888, que analisa a experiência da vida familiar negra na cotidianidade da escravização. As famílias negras consensuais ou legítimas, nucleares ou parciais, foram importantíssimas para o desenvolvimento de São Paulo: v.17, n.2, mai/ago, 1987. 3 MACHADO, Maria Helena P.T. “Em tomo da autonomia escrava: urna nova direção para a história social da escravidão". In: Revista Brasileira de História, São Paulo, v.8, n. 16, mar/ago, p. 143-160, 1988; LARA, Silvia Hunold. Campos da Violência: escravos e senhores na Capitania do Rio de Janeiro, 1750-1808. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988; MATTOS, Hebe Maria. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998. SLENES, Robert W. Na senzala uma flor. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1999. FARIA, Sheila de Castro. A colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial (sudeste, século XIX), Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.
12 12 solidariedades e estratégias na obtenção da liberdade e de uma vida com alguma dignidade. Para Carlos Engermann, a multiplicação dos laços parentais nos escravos do sudeste brasileiro no século XIX, tendiam a ampliar os espaços financeiros, temporários e sociais da comunidade (ENGERMANN, 2006). Tendo em vista estas premissas, nossa investigação pretende fazer uma contribuição ao estudo da família negra na Colômbia, desde a análise de suas estratégias de resistência e sobrevivência num contexto de escravidão, já que é um tema que tem sido pouco desenvolvido. No entanto, há que destacar que Germán Colmenares e outros historiadores colombianos, a partir dos anos 70, introduziram conceitos como região histórica, sociedade escravista de Popayán, complexo mina-fazenda, espaço e padrões de população, entre outros, que foram os suportes fundamentais dos quais surgiram as ideias específicas sobre o negro, seus territórios e sociedades. 4 Sua análise do domínio colonial centrou-se na estrutura centro e periferia, o que serviu para iniciar estudos sobre a expansão de fronteiras, a formação das províncias e suas formas de população. Segundo Colmenares, o estudo da economia e a sociedade colonial da Nova Granada não poderiam ser feitos a partir do espaço urbano, com seus benefícios políticos administrativos, mas sim a partir das “zonas de fronteiras”. Para o caso da Província de Popayán, o olhar deveria se dirigir para seus distritos mineiros no século XVI (Anserma, Cartago, e Arma) e XVII (o Pacífico, Dagua, Raposo, Iscuandé e Barbacoas).(ALMARIO & JIMENEZ, 2004). A grande contribuição de Colmenares consistiu em evidenciar a existência do complexo minafazenda porque serviu para explicar a forma em que funcionava a estrutura econômica e social da Governação de Popayán (COLMENARES, 1997). Os “estudos de fronteira” tomaram distância dos modelos de análises da história econômica e social das grandes áreas escravistas da América, como a plantação das Antilhas ou plantação-engenho e a casa senhorial (casa grande e senzala) do sul dos Estados Unidos e do nordeste brasileiro, pois não podiam explicar as condições da mineração praticada na Nova Granada, o sistema social de castas e a mobilidade social que se apresentou nesta zona. Para entender a proposta de Colmenares, é importante explicar de maneira geral a dinâmica econômica e social da Província de Popayán. A Província foi uma região muito importante por sua grande extensão geográfica; no século XVIII, cobria boa parte do ocidente 4 Ver: COLMENARES, Germán, 1970; DE GRANDA, Germán, 1971; MARZAHL, Peter, 1978; SHARP William, 1968.
13 13 colombiano, compreendida pelos atuais departamentos de Cauca, Nariño, Valle, Caldas, Risaralda, Quindío, Putumayo e Caquetá. 5 Em comparação com outras regiões, Popayán, ao lado de Cartagena, foi uma das sociedades escravistas mais poderosas do Virreinato de la Nueva Granada. Durante o século XVIII, a Província ou Governação de Popayán apresentou um auge econômico com a exploração das jazidas de ouro do Chocou (região próxima à Província de Popayán). Esta prosperidade estimulou o rendimento em massa de cuadrillas de escravos. 6 Neste período, muitos escravos foram deslocados das minas às fazendas ou de um centro mineiro a outro. A fazenda abastecia de produtos agropecuários à mina, e a mina lhe proporcionava os excedentes em escravos. O comércio conseguia integrar a fazenda com a mina por meio do mercado. A fazenda, além de ser uma unidade produtiva, também era uma unidade de poder social, por meio da propriedade sobre a terra. Neste sentido, a mineração, o comércio e a fazenda foram os três eixos fundamentais da economia da Governação. A Costa Pacífica (grande parte dela localizada na Governação de Popayán) foi centro da economia mineira, sendo composta pelas vilas de Tumaco, Iscuandé, Barbacoas, Raposo e Micay. Em termos raciais, na Costa Pacífica, quase metade de sua população foram escravos negros e mulatos; em suas vilas, estavam 50% deles, em sua maioria de Barbacoas (59%) e Raposo (55%). A exploração da mineração não produziu uma mudança relevante nas populações próximas, nem tampouco significou atividades econômicas complementares que beneficiassem a seus povoadores. Caso contrário ocorreu nas economias agrícolas e pecuárias dos vales interandinos do Cauca, zona geográfica localizada também na Província de Popayán ( BARONA, 1995) . Com respeito à composição populacional da Província de Popayán, viveram em seu território, segundo o censo de 1797, um total de 23.145 escravos, discriminados em 11.063 homens e 12.082 mulheres. No padrão da Governação de Popayán, em 1835, o número de escravos desceu a 18.338, entre eles 8.509 homens e 9.799 mulheres (TOVAR, 1994). 5 “A extensão aproximada do território da Província de Popayán no século XVIII, era de 258.969 Km; isto é o 22.7 % da atual República de Colômbia“. BARONA, Guido. La Maldición de Midas en una región de mundo colonial. Popayán, 1730-1830. Cali: Editorial Facultad de Humanidades, Universidad del Valle, Fondo Mixto para la Promoción de la Cultura y las Artes del Cauca, 1995. 6 A cuadrilla de escravos era uma forma de organização social de trabalho em minas e fazendas. O período de 1716 a 1738, na Província de Popayán, foi o mais importante em se tratando de escravos no século XVIII. Por exemplo, nestes anos a população escrava do Chocou passou de mil a quatro mil. COLMENARES Germán. Popayán una sociedad esclavista 1680-1800. In: Historia económica y social de Colombia II. Bogotá: Tercer Mundo Editores, 1997.
14 14 Há que esclarecer que o maior número de mulheres se apresentava na zona urbana. Por exemplo, tendo em conta o escasso número de escravas nas minas, a formação de famílias e os laços de parentesco moldaram-se de acordo com as tradições e condições concretas dos grupos; por exemplo, as mulheres podiam manter relações com vários membros da cuadrilla. Esta situação, vista na perspectiva do modelo de família dominante, foi qualificada de aberrante ou ¨monstruosa¨, incestuosa, e as escravas tidas como putas e imorais (ROMERO, 1995). Na fazenda predominou a escravização feminina, pois as atividades que desempenhavam as mulheres escravas ocupavam a maior parte de seu tempo, como cozinhar, lavar, passar, costurar, atender e acompanhar aos senhores, servir aos trabalhadores, limpar e ordenar as casas (PERÉZ, 2001). No entanto, devido ao aumento da escravatura no século XVIII, a propriedade de escravos deixou de ser um atributo das famílias nobres, já que a compra de um ou vários escravos se converteu num patrimônio de famílias mestiças e pardas. Nos centros urbanos, os escravos cumpriam com labores similares às das fazendas e estadias. Em particular as mulheres cativas desenvolveram outras atividades que se relacionavam com o comércio de rua e também trabalhavam como parteiras e curandeiras. É inegável que a presença de mulheres escravas afetou de diversas maneiras as possibilidades de constituição das famílias. A esse respeito, sobre o tema da família escrava na Colômbia, alguns pesquisadores afirmam que tem prevalecido a ideia de que a população negra ainda não atingia o status de família no período colonial, por sua condição de escravos, pelo qual eram instáveis e sem organização definida. Foi só a partir da abolição da escravatura que teriam formado famílias e parentescos (ROMERO, 2000). Os trabalhos da antropóloga Virginia Gutiérrez de Pineda nos anos 70 sobre a família e a mulher em Colômbia têm constituído um esforço pioneiro (GUTIERREZ DE PINEDA, 1975). Para o caso da família negra, Gutiérrez expressa que as condições do trabalho escravo na mineração, na agricultura e no trabalho doméstico, não permitiram ao negro escravo reconstruir no ambiente latinoamericano as formas de sua cultura nativa. Portanto, sua vida sexual e familiar foi produto da estrutura da sociedade colonial. Outro trabalho pioneiro sobre a população negra é o de outra antropóloga, Nina S. de Friedemann, que faz a proposta contrária ao de Virginia Gutiérrez de Pineda. Friedemann afirma que ainda que os escravos negros chegassem carentes de seus trajes, armas e ferramentas, de seus instrumentos musicais e de bens materiais, trouxeram com eles imagens de seus deuses e lembranças de seus avôs, canções e poesias e quiçá memórias de linhagens ou de suas famílias
15 15 estendidas. A esta bagagem cultural, transformada criativamente ao longo de séculos, ela denominou-lhe de impressões de africanía. (FRIEDEMANN, 1974). Um exemplo das impressões de africanía é seu estudo sobre os mineiros de Guelmambí (Departamento de Nariño, Colômbia). A autora propõe que a organização familiar destes mineiros tinham suas origens não só nas primeiras gerações de mineiros, que em condição de escravos foram introduzidos ali, senão que ademais tinham fortes nexos com características de estrutura familiar africana. Neste sentido também está o trabalho do historiador Mario Diego Romero (2000), População e Sociedade no Pacífico Colombiano, Séculos XVI ao XVIII. Diante da condição de escravos e de uma estrutura escravista, que tentava negar toda a possibilidade de reconhecimento de parentes e de posse dos territórios, o autor propõe que na Costa Pacífica o povoamento estava definido pela formação de famílias desde o mesmo momento de vinculação de escravos às atividades mineiras; os escravos fizeram parentes para além da simples reprodução biológica do grupo, sendo mais importantes os reconhecimentos sociais dos integrantes de um grupo de trabalho como integrantes de uma comunidade. Em outro trabalho, Família afrocolombiana e construção territorial no pacífico sul, século XVIII, menciona que foi ao redor da figura da mãe e do líder do grupo de trabalho da cuadrilla que se construíram redes de parentesco (ROMERO, 2000). Na mesma linha dos pesquisadores brasileiros como Robert Slenes, Manolo Florentino e J. Roberto Góes, entre outros, e a pesquisadora Nina Friedemann para o caso de Colômbia, queremos identificar que tradições e lembranças africanas sobreviveram no cativeiro e permitiram reconstruir novos laços de parentesco. Também se objetiva transcender os “estudos de fronteira” que se realizaram na Colômbia, isto é, queremos centrar nosso enfoque não só nos distritos mineiros, mas também nas fazendas e centros urbanos da Província de Popayán. O papel das mulheres também é outro aspecto para pesquisar na Província de Popayán, já que nesta região um maior número de mulheres escravas conseguiu sua liberdade frente aos homens de mesma condição. Escravas e libertas ocuparam diversas atividades agrícolas e comerciais, e ademais representaram uma porcentagem significativa na condição de mães solteiras com filhos ilegítimos. Escolhemos o período de 1780 a 1852 por várias razões: nas últimas décadas do século XVIII apresentou-se a maior concentração de escravos em atividades produtivas, e as transações de escravos de maneira unitária e em grupos tinham-se multiplicado neste período. Os
16 16 proprietários de fazendas e minas da Governação de Popayán participaram com cerca de 35% do total dos escravos existentes na Nova Granada. Nos censos de 1825, 1835 e 1843, esta participação aproximou-se sempre aos 50% (COLMENARES, 1998). Além disso, a maior parte das fazendas estudadas (Cajibío, Japío, La Bolza e Quintero) foi implantada nas últimas décadas do século XVIII. Já no século XIX, com as guerras de independência, a economia escravista começou a se debilitar. No dia 19 de julho de 1821 sancionou-se a Lei de Ventre Livre. No entanto, essa liberdade teve que ser adiada por vários anos, até que finalmente ao dia 21 de julho de 1851 foi aprovada a Lei de Manumissão, entrando em vigência ao dia 1º de janeiro de 1852, data em que aproximadamente 16.000 escravizados acederam à liberdade pela via da manumissão republicana. 1.2 METODOLOGIA Para analisar o cotidiano das famílias escravizadas e suas redes de parentesco para a criação de laços de solidariedade e estratégias de resistência, utilizamos várias fontes como inventários de propriedade, inventários post mortem, registros paroquiais, cartas de liberdade ou de manumissão, escrituras de venda de escravos e censos populacionais da província de Popayán, entre outras. Do fundo judicial, analisamos 75 casos de manumissão e 250 arquivos judiciais, dos quais 19 casos tratavam de pessoas escravizadas pela família Arboleda. Entre as questões que identificamos estavam, além das alegações sobre promessas não cumpridas de liberdade, concubinato ou relações "ilícitas", filhos ilegítimos, as tensões e ambigüidades entre liberdade e escravidão, e formas de trabalho não escravo, entre outras. José Rafael Arboleda, pai de Sergio e Julio Arboleda e proprietário das principais fazendas e minas que estudamos. 2. Manuel Esteban Arboleda, um importante proprietário de escravos e irmão de José Rafael Arboleda. Sergio Arboleda, filho de Rafael Arboleda e sobrinho de Manuel Esteban Arboleda, proprietário das fazendas Japio e Quintero. Estes testamentos me ajudaram a reconstruir as trajetórias dos membros mais importantes da família Arboleda e a identificar alguns dos nomes dos escravizados. Os inventários de bens que identificamos das fazendas Japio, Bolsa e Quintero, analisamos os bens materiais dessas fazendas em diferentes períodos. Estas informações, juntamente com a verificação cruzada de outras fontes, nos ajudaram a compreender os ciclos
17 17 econômicos da família Arboleda e a compará-los com o contexto econômico geral da região de Popayán. Documentos de correspondência entre alguns membros da família Arboleda também foram uma fonte que forneceu vários detalhes sobre as fazendas e o contexto político. Por exemplo, a correspondência de Matilde Pombo de O'Donells, esposa de um dos patriarcas Arboleda, José Rafael Arboleda e mãe de Sergio e Julio Arboleda. Matilde ficou viúva aos 31 anos de idade e assumiu a responsabilidade de administrar o grande patrimônio econômico deixado por seu marido, representado nas fazendas do Japio, Asnenga, Quintero, La Bolsa, entre outros bens. Ela visitava freqüentemente as fazendas, examinava as contas que lhe eram dadas por seus administradores, estudava os negócios que ia realizar, vigiava os dependentes que trabalhavam nas fazendas, inclusive os escravizados, etc. Ela comentava essas atividades nas cartas que enviava a seus filhos quando eles estavam em outros lugares a negócios ou no exílio devido às guerras civis na região. Consultamos literatura costumbrista e relatórios de viajantes, pois o romance histórico "El Alferez Real" é uma fonte de literatura costumbrista e narra diferentes situações dos habitantes da sociedade de Cali, uma cidade na província de Popayán no final do século XVIII. Um dos personagens principais é um escravo de uma fazenda, e embora seja uma história fictícia, o autor utilizou várias fontes históricas para construir o romance. Também revisamos o livro "Viaje por el interior de las provincias de Colombia" de John Hamilton, que narra as viagens deste diplomata inglês em Nova Granada durante a presidência de Simón Bolívar (1819-1831), em uma de suas histórias ele menciona sua visita às haciendas dos Arboledas. As fontes quantitativas que utilizamos foram: as fontes quantitativas, os censos populacionais de Popayán que analisamos foram para os anos de 1779, 1797 e 1835. As dezesseis (16) listas eram as seguintes: Hacienda de Japio, quatro (4) listas: 1821, 1832, 1845 e 1851; Hacienda Quintero, quatro (4) listas: 1812, 1832, 1845, 1851; Hacienda la Bolsa encontramos três (3) listas: 1789, 1812 e 1821; mina Salina de Asnenga, uma (1) lista: 1832; mina San Vicente de Timbiquí, três (3) listas: 1819, 1821 e 1829. E finalmente, da Real de mina Santa Maria, uma (1) lista: 1819. Nas listas de pessoas escravizadas podemos encontrar aproximadamente trinta a duzentas pessoas na mesma fazenda, minha ou Real. Entretanto, estas listas não são tão homogêneas e ricas em detalhes quanto as listas nominativas da região de São Paulo no Brasil. Também não
18 18 foram o resultado de um censo anual ou mais ou menos periódico da população escravizada na província de Popayán pelo governo imperial ou local. Ao contrário, sua existência obedece às necessidades particulares de cada senhor e sua família, por exemplo, as encontramos como parte da avaliação de bens para alguma venda posterior, como parte de um inventário de bens post mortem ou para serem apreendidos pelo Estado, como explicaremos mais adiante. Entretanto, as informações que contêm nos permitem ter uma idéia geral de algumas características das famílias cativas, tais como: estado civil, nomes de pais, mães, filhos e filhas; número e tipo de família (nuclear, matrifocal, patrifocal ou estendida ou estendida); doenças ou deficiências físicas e se foram fugidas. Algumas listas também mencionam idades e preços, mas estes não são a maioria. Inicialmente começamos com as listas de escravizados das fazendas japonesas, Quintero e La Bolsa, mas começamos a encontrar listas de escravizados das minas de propriedade dos Arboledas, então eles foram introduzidos na análise da pesquisa. Organizar estas informações a partir das listas não foi fácil, pois começamos a transcrever as listas, mas precisávamos identificar se estas famílias eram encontradas em outras listas de outros anos, a fim de tentar uma análise demográfica. O resultado é que estas listas não têm um padrão. Em uma lista podemos encontrar nomes, idades, preços, crianças, etc., em outras apenas nomes e famílias, e em outras apenas nomes. Muitos nomes são repetidos, mas não há sobrenome, portanto não sei se é a mesma pessoa ou não. Nossa intenção inicial era fazer a construção de trajetórias familiares pelo método de "ligação nominativa de fontes" e "referência cruzada de fontes". Entretanto, não tivemos acesso aos registros de batismo, casamento e morte dos escravizados. Assim, construímos um capítulo baseado em fontes quantitativas como censos ou registros populacionais e listas de pessoas escravizadas, a fim de compreender algumas características demográficas de famílias escravizadas na província de Popayán na primeira metade do século XIX. Com estas fontes qualitativas e quantitativas tentamos fazer um cruzamento ou sobreposição de fontes qualitativas e quantitativas para seguir numa perspectiva longitudinal os níveis de estabilidade nas relações familiares dos escravos e libertados ao longo do tempo. A análise longitudinal, os deslocamentos nos permitiram compreender melhor as experiências e a vida cotidiana da população negra e livre em termos de sua vida familiar e emocional em cativeiro e em sua mobilidade ou transição para a vida livre. Além disso, com as fontes, podemos seguir as vidas de certos grupos de escravos e famílias libertadas a longo prazo, reconstruindo (na
25 25 produzir bens para o mercado mundial e, assim, atender aos propósitos e necessidades do capitalismo. (QUIJANO, 2014, p. 779) Embora esses dois autores critiquem o eurocentrismo, problematizem a ideia de raça e a hierarquização que isso implicou nas sociedades coloniais e admitam a heterogeneidade das formas de controle do trabalho, continuam com uma visão funcionalista da escravidão e do sistema-mundo capitalista. Quijano diz: Eso significa que todas esas formas de trabajo y de control del trabajo en América no sólo actuaban simultáneamente, sino que estuvieron articuladas alrededor del eje del capital y del mercado mundial. Consecuentemente, fueron parte de un nuevo patrón de organización y de control del trabajo en todas sus formas históricamente conocidas, juntas y alrededor del capital. (QUIJANO, 2014, 779) Hoje há um consenso de que a América não esteve imersa no primeiro contato europeu em um modo de produção capitalista. Tampouco reproduziu um regime feudal, embora tenha características feudais. O que aconteceu foi que as condições criadas na América como resultado da conquista integraram um tipo de economia e exploração que preexistia à conquista no quadro de uma instituição original (COLMENARES,1998, p. 9) Em outras palavras, a economia da América Latina colonial, apesar de fazer parte de um sistema econômico europeu, seguiu os princípios de uma evolução econômica qualitativamente diferente daquelas associadas a um modo de produção capitalista. No caso do Brasil, Rafael de Bivar Marquese, em seu texto As desventuras de um conceito: capitalismo histórico e a historiografia sobre a escravidão brasileira, critica a proposta de João Fragoso e Manolo Florentino, quando expõem a total autonomia do espaço colonial português em relação ao mercado mundial e a ideia de que a escravização na América portuguesa não estava relacionada ao capital comercial europeu. Por outro lado, também critica as perspectivas que analisam o capitalismo como uma “totalidade supra-histórica”, como no caso de Wallerstein. Marquese a partir da proposta de Dale Tomich, propõe compreender o capitalismo a partir de sua alternância a e flexibilidade, nas múltiplas relações de produção e trabalho articuladas ao capitalismo global. 12 12 Marquese critica proposta de João Fragoso e Manolo Florentino em seu livro O arcaísmo como projeto: mercado atlântico, sociedade agrária e elite mercantil no Rio de Janeiro, c.1790-1840. MARQUESE Rafael. “As desventuras de um conceito: capitalismo histórico e a historiografia sobre a escravidão brasileira”. Revista de História São Paulo, nº 169, p. 223-253, julho / dezembro 2013, p, 244. MARQUESE, Rafael e TOMICH, Dale. O Vale do Paraíba
26 26 [...] remeto o leitor ao texto que escrevi com Dale Tomich, no qual demonstramos, empiricamente, como a cafeicultura do Vale do Paraíba foi construída em meio a um conjunto amplo e complexo de múltiplas relações entre as forças globais da economiamundo capitalista (agora sob a égide da industrialização) e as forças locais no Brasil (a composição regional de terra, trabalho e capital, assim como a dinâmica dos conflitos entre fazendeiros, trabalhadores escravizados e agentes construtores do Estado nacional).” 13 A escravidão deve ser entendida em sua relação com o mercado mundial, com as demais forças de trabalho que a constituem, assalariadas ou não, o que nos permite entender a produção e o escambo, não como entidades distintas e separadas, mas como relações mutuamente interdependentes. Nessa visão do capitalismo histórico, as relações de trabalho escravo e assalariado não são externas uma à outra, mas sim dialeticamente integradas. 14 Ora, dentro desse modelo explicativo da economia-mundo capitalista, embora a circulação de produtos pudesse ser um elemento uniforme, as sociedades que intervieram na produção tinham características particulares. Por exemplo, no Vice-Reino de Nova Granada (atual Colômbia, Venezuela, Panamá e Equador), não havia economia de plantação como no Caribe insular, no sul dos Estados Unidos e no Brasil. 15 Para a América espanhola, um dos motores da expansão e ocupação do território americano foi a busca por metais preciosos como ouro e prata. No entanto, a economia de metais preciosos não surgiu por acaso ou apenas por causa da abundância desse recurso na América. A escravista e a formação do mercado mundial do café. In: GRINBERG, Keila e SALLES, Ricardo (org.). O Brasil imperial, 1831-1870, volume II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 339-383. 13 MARQUESE Rafael op, cit., p. 241 14 MARQUESE Rafael op, cit., p. 249 15 El Virreinato de la Nueva Granada fue creado y suprimido en varias oportunidades por problemas administrativos y financieros (1717-1723, 1739-1810 y 1816-1819) su capital fue Santafé de Bogotá. ¨La real cédula de 29 de abril de 1717, que creaba el nuevo virreinato, delimitaba su territorio en una extensión de más de dos millones seiscientos mil kilómetros cuadrados que comprendían "toda la provincia de Santafé, Nuevo Reino de Granada, las de Cartagena, Santa Marta, Maracaibo, Caracas, Guayana, Antioquia, Popayán y San Francisco de Quito, con todos los demás términos que en ellas estuviesen incorporados". Se designaba como capital a Santafé de Bogotá. (…) El 5 de noviembre de 1723 se firmó una nueva cédula real que dispuso la supresión del virreinato de la Nueva Granada, puesto que nada nuevo ni bueno se había obtenido y "permanece sin aumento de caudales, ni haberse podido evitar los fraudes y algunos desórdenes que se han ocasionado”. En 1739 se establece de nuevo el Virreinato de la Nueva Granada (…). Se estableció así su jurisdicción: "Panamá, con el territorio de su capitanía general y audiencia a saber: las de Portobelo, Veragua y el Darién; las del Chocó, reino de Quito, Popayán y Guayaquil. Provincias de Cartagena, Río del Hacha, Maracaibo, Caracas, Cumaná, Antioquia, Guayana y río Orinoco, islas de Trinidad y Margarita". Durante el resto del período colonial tan sólo se modificó el territorio al crearse la Capitanía General de Venezuela. No deja de ser significativo que la Colombia de 1819 a 1830 tuviera los mismos límites y jurisdicción que tuvo el renaciente virreinato neogranadino ¨. Hernández de Alba, Gonzalo. El Virreinato de la Nueva Granada. Credencial Historia N. 20, agosto de 1991. https://www.banrepcultural.org/biblioteca-virtual/credencial-historia/numero.
27 27 sua exploração foi imposta por uma necessidade no desenvolvimento das economias europeias. No entanto, concordamos com Stern quando menciona que nas colônias espanholas e portuguesas prevaleceram não apenas os interesses dos países do centro, mas também os interesses locais derivados de suas próprias dinâmicas econômicas, sociais e políticas, ao mesmo tempo complexas e contraditórias. Às vésperas do primeiro contato com a América, o continente europeu passava por problemas demográficos que levaram à diminuição da renda senhorial e ao enfraquecimento do sistema feudal, porém, em alguns países europeus, o setor manufatureiro experimentou uma expansão. As fontes africanas de abastecimento de metais preciosos não eram suficientes para compensar o déficit da balança de pagamentos europeia em relação ao Oriente, e a moeda que circulava na Europa era escassa. “A economia europeia estava “faminta” de metais negociáveis para acompanhar os preços e com eles um estímulo à produção. (…)”. (COLMENARES,1998, p. 12) . Com a chegada dos metais preciosos da América à Europa, produziu-se um ciclo de inflação sustentada que manteve as expectativas dos produtores. Segundo Colmenares, outro motivo importante para a escolha dos metais preciosos como mercadoria colonial foi o valor por unidade de peso e volume. Devido ao transporte lento e inseguro, apenas os produtos que representavam alto valor em relação ao seu peso e volume justificavam uma viagem por via marítima, como especiarias, corantes naturais para têxteis ou metais preciosos. Finalmente, a exploração do ouro e da prata deveu-se a uma relativa abundância de recursos na América que facilitou sua extração a um custo muito baixo. Todas essas circunstâncias criaram trocas mundiais e uma relação entre as economias coloniais e o centro europeu. 16 O caso da América portuguesa foi diferente. A colônia portuguesa no Brasil no século XVI não tinha metais preciosos suficientes para compensar os altos custos da colonização em larga escala. A experiência portuguesa na Madeira e em São Tomé mostrou que o açúcar podia garantir a existência de uma colónia lucrativa. Além disso, os portugueses ainda dominavam o tráfico atlântico de escravos e conseguiram trazê-los para a América com mais facilidade e custo menor do que outras potências europeias. Embora seja verdade que os portugueses inicialmente tinham uma população indígena à sua disposição para explorar e escravizar, ao longo do tempo não foi economicamente viável devido às condições locais como geografia, doenças e guerras. 16 COLMENARES, Germán. op. cit., p. 13.
28 28 No final do século XV nas ilhas atlânticas e início do século XVI no Brasil (províncias do nordeste de Pernambuco e Bahia), a produção açucareira foi introduzida, estabelecendo um regime escravista de plantation no Novo Mundo, caracterizado por grandes produçãões agrícolas, principalmente orientada para a exportação. Por outro lado, a descoberta de novas jazidas de ouro na região de Minas Gerais (Brasil) dará origem a um novo tipo de economia escravista, a economia mineradora. (LUNA; KLEIN, 2010). Em Minas Gerais, predominava a economia extrativista, atingindo seu apogeu no final do século XVII e início do século XVIII. Em 1735, já havia mais de 100 mil escravizados, em 1786 o número subiu para 174 mil, um número muito significativo se compararmos com a província de Popayán que aproximadamente no mesmo período o número de escravizados não ultrapassou 24 mil. A forma de trabalho na extração do metal em Minas Gerais era semelhante à região do Chocó, ou seja, 90% dos escravizados trabalhavam em forma de quadrilha, unidades de mais ou menos 30 escravizados (KLEIN, H, 1987, p. 100). No entanto, a historiografia brasileira da década de 1980 mostrou que na economia extrativista mineira não predominava o grande proprietário de muitos escravos, mas, ao contrário, os pequenos proprietários predominavam tanto no período colonial quanto no imperial. Um mercado interno em contínuo crescimento garantiu uma diversificação econômica nas atividades agropastoris, comerciais e artesanais com a participação em todas elas da mão de obra de escravos, proprietários e não proprietários de cativos e também de trabalhadores livres (LUNA; DA COSTA; KLEIN, 2009). Vários historiadores 17 argumentam que dois tipos de escravidão ocorreram no Novo Mundo. A primeira escravidão (1520 a 1800), estava ligada aos sistemas coloniais de escravidão elaborados pela Espanha, Portugal, Holanda, Grã-Bretanha e França. Tinha caráter colonial e era composto por duas novas instituições: o tráfico oceânico de escravos e a plantation. Seus fundamentos jurídicos e socioeconômicos foram derivados do Velho Mundo, principalmente do Mediterrâneo. A segunda escravidão (1800-1888) esteve intimamente relacionada ao processo de industrialização em larga escala e prolongada "acumulação primitiva". Isso significa que a industrialização e a chegada da modernidade não significaram automaticamente o fim da escravidão nas Américas, mas se intensificaram e se espalharam. O resultado foi uma nova escravidão americana, que reformulou e reorganizou a instituição. Os principais territórios da 17 (Tomich, 2004); (Marquese, 2010); (Blackburn, 2016). El término de “Segunda esclavitud” fue inventado por Dale Tomich en su ensayo de 1988 republicado en Through the Prism of Slavery: Labor, Capital and World Economy, Boulder Co.,Rowman & Littlefield, 2004.
29 29 segunda escravidão apresentavam vantagens naturais para o cultivo das principais commodities – cana-de-açúcar em Cuba, algodão no sul dos Estados Unidos e café no Brasil (BLACKBURN, 2016). No Brasil havia a maior concentração de escravizados de origem africana de todas as colônias americanas (aproximadamente 4,9 milhões de africanos em três séculos). Estima-se que não mais de um quarto dos escravos foram usados na agricultura e mineração em grande escala. Os demais cativos estavam nas cidades e na área urbana realizando todo tipo de atividade econômica. Embora a economia brasileira tenha passado pelos ciclos coloniais clássicos de crescimento e declínio, seu dinamismo permitiu o desenvolvimento de novos produtos, a abertura de novas regiões e a criação de um mercado interno dinâmico (LUNA; KLEIN, 2010). Marcela Echeverri (2020) menciona que no debate sobre a segunda escravidão, a América continental é considerada periférica porque não houve grandes plantações entre os séculos XVIII e XIX. Também porque o número de escravizados era muito menor em relação ao Brasil e Caribe, então a abolição era inevitável. Portanto, a América hispânica peninsular não foi muito importante para a conformação do capitalismo global no século XIX. Embora a população escravizada não ultrapassasse 10% da população em todo o território espanhol, nas regiões em que se concentrava tinha importância econômica e social. América espanhola continental, durante o século XVIII o vice-reinado de Nova Granada teve uma das maiores populações escravizadas, embora não na mesma medida que o Brasil, o sul dos Estados Unidos e as ilhas do Caribe (MCFARLANE, 1991). Seu porto mais importante era Cartagena das Índias na costa caribenha colombiana e deste porto abastecia não apenas os mercados de Nova Granada, mas toda a América do Sul. Nova Granada tinha uma economia baseada na extração de ouro baseada principalmente no trabalho escravo nas regiões de Chocó, Antioquia e Popayán; na audiência de Quito, a escravidão era principalmente importante em torno do vale de Chota (cana) e Guayaquil (estaleiros). Portanto, para Echeverri, a América continental deve ser considerada o epicentro de dinâmicas históricas mais amplas que moldaram os significados de liberdade e republicanismo no continente americano (ECHEVERRI, 2020, p. 23-24). The centrality of slavery to the regional economies of Old Colombia, and to the political projects woven around these, suggests that the importance of slavery in Old Colombia was not just a question of numbers. Indeed, while slavery across Old Colombia never
30 30 reached the proportions it had in the plantation economies of the Caribbean and Brazil, it was nonetheless very entrenched both ideologically and economically following independence. Slavery was a key institution through which state power was articulated. In the decades between 1810 and 1860, the battles over slavery, among regional elites and between them and the Afro-Colombian populations, had consequences for the tensions that developed at the core of Old Colombia as a republican project (ECHEVERRI, 2020, p. 24). A escravidão na Velha Colômbia (Velha Colômbia, 1821) nunca atingiu as proporções das economias de plantação do Caribe e do Brasil, mas foi enraizada ideológica e economicamente mesmo após a independência. A escravidão era uma instituição-chave por meio da qual o poder do Estado era articulado. Nas décadas de 1810 e 1860, as disputas pela escravidão entre as elites regionais e entre as populações afro-colombianas tiveram consequências para o desenvolvimento do projeto republicano. 2.3 A PROVÍNCIA DE POPAYÁN, SOCIEDADE ESCRAVISTA DO SUDOESTE COLOMBIANO No século XIX encontramos mudanças na ordem territorial e administrativa das regiões da Colômbia. Portanto, é difícil comparar em nível local alguns censos do século XVIII com aqueles realizados no século XIX. Após a independência da Espanha, alguns dos antigos territórios que compunham o Vice-Reino de Nova Granada tornaram-se parte da Grande Colômbia. Mais tarde, a Constituição de 1821 organizou o território nos departamentos de Cundinamarca, Venezuela e Equador. Uma vez dissolvida a Gran Colombia, foi sancionada a Constituição de 1832, dando origem à República de Nova Granada e dividindo o território em províncias, cantões e distritos paroquiais. As províncias eram Antioquia, Barbacoas, Bogotá, Cartagena das Índias, Mompós, Neiva, Pamplona, Panamá, Pasto, Popayán, Socorro, Tunja, Vélez e Veraguas, que mais tarde seriam chamadas de “departamentos” (AGUILERA, 2012). A economia de Nova Granada caracterizou-se por mais de três séculos como uma economia baseada na exploração do ouro. Durante este período, foram identificados dois grandes ciclos do ouro: o primeiro entre 1550 e 1640, principalmente em Santa Fé, Antioquia, Cartago e Popayán. A população indígena foi utilizada para a exploração do ouro nesta fase. Embora nas novas descobertas de Antioquia de 1580, o trabalho escravo foi incorporado. O segundo ciclo abrangeu os anos de 1680 a 1800, tendo como centro as províncias de Chocó sob o controle de
31 31 Popayán e outras áreas de Antioquia. Nesse ciclo, os donos de grandes bandos de escravizados de Popayán conviviam com o surgimento de pequenos empresários ou proprietários. Santafé havia perdido sua importância como produtora de ouro, mas continuava sendo o suporte agrícola do distrito de Antioquia (COLMENARES, 1998, p. 15). A Província ou Governo de Popayán foi muito importante devido à sua grande extensão geográfica que no século XVIII e parte do século XIX cobriu grande parte do oeste da Colômbia, incluindo uma grande área da costa do Pacífico. Incluiu os atuais departamentos de Cauca, Nariño, Valle, Caldas, Risaralda, Quindío, Putumayo e Caquetá (HERRERA, 2009, p. 10). Em comparação com outras regiões, Popayán, juntamente com Cartagena, foi uma das sociedades escravistas mais poderosas do vice-reinado de Nova Granada. 18 Mapa 1 Fonte: CODAZZI, Agustín. Atlas de Colombia. Mapa de la Provincia de Popayán 1810-1830. No final do século XVIII, a província de Popayán compreendia três regiões geograficamente diferenciadas: a região mineira de Chocó-Barbacoas, localizada na costa do 18 A divisão territorial da província de Popayán apresentou diversas mudanças durante o período colonial e republicano. Com a criação da Gran Colombia (1819), foi criado o Departamento de Cauca, formado pelas províncias de Popayán e Chocó. Com a dissolução da Gran Colombia e a criação em 1832 da República de Nova Granada, o território nacional passou a ser composto por dezenove províncias, incluindo a província de Popayán, composta pelos cantões de Popayán, Caloto e Almaguer (CASTELLANOS, 1980, p.8).
32 32 Pacífico, que apesar de explorar ouro com mão de obra escrava, dependia para sua subsistência de outras regiões; o vale do rio Cauca, com exploração mineira e produção agrícola, principalmente cana-de-açúcar e pecuária com mão-de-obra também escravizada e livre; e a planície de Popayán, quase autossuficiente em produtos agrícolas e população predominantemente indígena (DÍAZ, 1983). Nosso estudo se concentra na região do vale do rio Cauca, principalmente na cidade de Popayán e no cantão de Caloto com suas respectivas paróquias, onde se localizava a maioria das fazendas e minas que foram objeto deste estudo. No século XVIII, a mineração de ouro na província de Antioquia entrou em crise, enquanto na Gobernación ou província de Popayán, o sistema de exploração era mais lucrativo devido ao tráfico e à incorporação de um grande número de escravizados para atender às demandas de mineração, atividades pecuárias, usinas de açúcar, transporte e atividades doméstica. 19 Por exemplo, a Tabela 1 mostra a superioridade numérica de escravizados no governo de Popayán com 18.761 enquanto Antioquia apresenta 8.929 escravos. Tabela 1: Población esclava en Antioquia y Gobernación de Popayán Fonte: TOVAR, Hermes; TOVAR, Camilo; TOVAR, Jorge. Convocatoria al Número. Censos y Estadísticas de la Nueva Granada 1750-1830. Bogotá: Tercer Mundo Editores, 1994. Essa economia do ouro não se desenvolveu uniformemente em um único centro de uma unidade territorial, ou dentro de um quadro administrativo centralizado. A exploração do ouro percorreu sucessivas fronteiras ao longo do Novo Império e da província de Popayán. Essa situação gerou diferentes períodos de riqueza e prosperidade em regiões isoladas umas das outras. Mesmo as ligações entre uma região mineira e uma região vizinha podem ser mais fracas do que aquelas com o mercado mundial. Em alguns casos, a prosperidade da exploração do ouro só chegava aos centros comerciais ou agrícolas que abasteciam a região mineira (COLMENARES, 1998). 19 PÉREZ, María Teresa, “Las mujeres caucanas”. In: Historia, Geografía y cultura del Cauca. Territorios posibles. BARONA, Guido, GNECCO, Cristóbal (eds.), Editorial Universidad del Cauca, Popayán, 2001, p. 225. Antioquia (1778) Popayán (1779) Casados 1175 3247 Solteros 3721 5726 Casadas 1117 3073 Solteras 2916 6715 TOTALES 8929 18761
33 33 Nos primeiros centros de mineração, a mão de obra indígena era essencial. Os indígenas encomienda trabalhavam nas jazidas da região de Popayán, nos veios Cartago, Arma, Anserma e Pamplona e nos aluviões do vale Magdalena. Quase todas as cidades fundadas nas regiões andinas tinham distritos mineiros tributários no século XVI. Esses centros de mineração não poderiam se estabelecer sem o apoio das cidades que os abasteciam ou das quais dependiam administrativamente. Os centros podem ser desde acampamentos temporários até pequenas cidades (COLMENARES, 1998). O declínio na produção de ouro após 1610 foi devido a mudanças conjunturais na economia mundial. No entanto, a técnica utilizada na exploração do ouro também apresentava limites intransponíveis. Além disso, diz Colmenares: […] A isso deve-se acrescentar o fato de que a força de trabalho (seja indígena ou escrava negra) estava se deteriorando muito rapidamente e os custos de sua manutenção aumentavam à medida que a exploração mineira tirava empregos da agricultura. Assim, do ponto de vista dos fatores envolvidos na produção (técnica, mão de obra, insumos), as crises da mineração se devem à estrutura de produção (COLMENARES, 1998, p.19) 20 . Assim, as curvas de produção das diferentes jazidas apresentam o mesmo perfil, uma subida inicial até atingir um teto, que se manterá por uma ou duas décadas e depois cairá uniformemente. Por exemplo, diante de uma nova descoberta, foi feito um investimento inicial em instalações e mão de obra. Os investimentos aumentaram a produtividade até os limites do rendimento do trabalho e da riqueza dos depósitos. Uma vez atingido o limite, os valores de produção diminuíram e apenas a descoberta de um novo achado poderia manter o nível de produção anterior, o que explica os constantes movimentos além-fronteiras. No século XVII, com a incorporação de novos distritos do Pacífico, como Nóvita, Citará e Raposo (província de Chocó), acentuou-se ainda mais o isolamento fronteiriço, não produzindo assentamentos estáveis. Em suma, três séculos de economia aurífera, com depósitos dispersos, influenciaram a formação econômica e social dessas regiões. Em primeiro lugar, o seu isolamento obrigou-os a manter alguma ligação com as zonas de abastecimento agrícola, o que trouxe consigo um lento desenvolvimento das vias de comunicação. Em segundo lugar, o tipo de exploração, incapaz de 20 No original: A esto debe agregarse el hecho de que la fuerza de trabajo (fuera indígena o de esclavos negros) se deterioraba muy rápido y los costos de su mantenimiento se elevaban a medida que la explotación minera iba restando brazos a la agricultura. Así, desde el punto de vista de los factores que intervenían en la producción (técnica, mano de obra, abastecimientos), las crisis mineras obedecían a la estructura de la producción
34 34 sustentar a produtividade a longo prazo porque atingiu o pico e depois desmoronou com frequência, mais uma vez condenou regiões inteiras ao isolamento. (COLMENARES, 1998, p.21). A maioria das jazidas de ouro do Novo Reino de Granada, como Popayán, Antioquia e Chocó, eram de aluvião. Algumas minas de veios e costuras foram localizadas nos distritos de Pamplona, Anserma-Cartago, Santa Fe de Antioquia, Popayán e Almaguer. Reales de Minas se instalaram em torno das minas, pequenas cidades localizadas nas proximidades de cidades intermediárias, às vezes com uma capela como único núcleo de assentamento. Durante o primeiro ciclo de mineração (1550-1640) a maioria dos Reales de Minas utilizou o sistema de encomienda como fonte de trabalho. Foi um caso diferente nas jazidas de Antioquia que a partir de 1580 empregaram massivamente africanos escravizados, o mesmo aconteceu no século XVIII em Nóvita, Citará e Raposo. Segundo Robert West, os espanhóis adaptaram os procedimentos antes usados pelos indígenas para a extração do ouro, já que os peninsulares não tinham treinamento adequado em técnicas de mineração.. A ideia de que o trabalho indígena foi substituído pelo trabalho africano, porque os negros escravizados eram mais aptos e resistentes ao árduo trabalho das minas, não é totalmente verdadeira. O investimento em africanos escravizados parecia muito caro para quem tinha acesso ao trabalho indígena, essa situação só mudou quando o trabalho indígena se tornou escasso. Vários estudos mostraram, por um lado, que em muitas regiões as técnicas de exploração do ouro dependiam do conhecimento indígena. Por outro lado, a instituição da encomienda por muito tempo exigia o pagamento de tributos em ouro, situação que servia para utilizar quadrilhas indígenas na exploração das jazidas (WEST, 1998) Segundo Colmenares, em Pamplona, depois de 1551, foram lideradas gangues de mais de cem indígenas retirados das parcelas da província de Tunja. Na província de Popayán, o trabalho indígena nas minas foi generalizado até o século XVII. (COLMENARES, 1998, p.25). O trabalho indígena nas minas foi diminuído por conflitos de interesse dentro do próprio sistema de encomienda. O uso de mão de obra indígena dependia de sua relativa abundância. No entanto, em regiões onde a população indígena era pequena ou muito hostil, os negros escravizados eram empregados. Também havia conflito de interesses com o abastecimento agrícola das cidades, que dependia da mão de obra indígena, também necessária para a mineração do ouro.
41 41 passasse, a proporção havia se invertido em favor dos crioulos. Segundo Colmenares, o crescimento vegetativo favorável não ocorreu simultaneamente em várias regiões geográficas, onde ocorreram diferentes tipos de produção e a população negra foi submetida a diferentes graus de opressão. 27 Colmenares diz que, embora não haja informações precisas sobre as taxas de natalidade e mortalidade das gangues mineiras de Chocó, é evidente que o crescimento da população escravizada entre 1711 e 1770 deve ser atribuído às compras permanentes de escravizados. Em 1759, por exemplo, 484 dos escravizados eram bozales e representavam 19% da população escrava adulta em Nóvita e Citará. Após essa data, a venda de criollos e mulatos praticamente substituiu a venda de focinheiras, pelo menos em Popayán. Se, como é provável, as introduções também diminuíram no Chocó, o crescimento experimentado entre 1759 e 1782 (de 2.800 escravos, ou seja, a uma taxa de 2,2% ao ano) deve ser atribuído em parte ao crescimento natural da população. 28 Embora a população de Chocó tenha diminuído entre 1780 e 1808, esse fenômeno não deve ser atribuído apenas a uma queda demográfica ou à frequência das alforrias, mas mais simplesmente à transferência de tripulações inteiras para a região de Popayán. Entre 1778 e 1788, a população escravizada de Popayán cresceu a um ritmo acelerado (3,8% ao ano) que não se explica pela reprodução vegetativa. Devia haver uma migração interna que não fosse constituída por bozales escravizados trazidos de Cartagena. 29 2.4.1 Vale geográfico do rio cauca No vale geográfico do rio Cauca – que fazia parte da província de Popayán – seus principais depósitos de ouro estavam localizados em três lugares: o primeiro, no setor CartagoAnserma entre o cinturão da Cordilheira Central e parte do rio Cauca; o segundo era constituído pelo distrito mineiro de Popayán, formado pelo aluvião Patía, parte dos rios Esmita e Quilcasé e o 27 COLMENARES, Germán. Historia económica y social de Colombia. Popayán: una sociedad esclavista 16801800. Tomo II. Bogotá: Editorial La Carreta, 1979, p. 77 28 Ibid, p. 78. 29 Ibid, p. 87.
42 42 setor de terras planas do vale do Cauca, como o cantão Caloto; e a terceira sede foi a zona de Almaguer na encosta da serra central (DÍAZ, 1996). Nesta região do vale do rio Cauca no século XVIII, a produção agrícola não correspondia exatamente a um modelo de fazenda ou plantação. A fazenda usava as relações de peonagem como mão de obra para um mercado local. A lavoura, ao contrário, recorreu à mão de obra escrava e sua produção é voltada para o mercado internacional. As fazendas do Valle del Cauca combinavam mais ou menos os dois modelos, ou seja, como as plantações, usavam mão de obra escrava, mas os produtos agrícolas destinavam-se a abastecer a mineradora e o mercado local. Seu desenvolvimento foi condicionado a mudanças nas operações de mineração até o ponto de estagnação quando a mineração de ouro entrou em declínio. No final do século XVIII, começou a surgir um sistema de colonato associado ao cultivo do tabaco, que se generalizou no século XIX, especificamente após a abolição da escravatura (COLMENARES, 1998). Como unidade de produção, as fazendas do Valle del Cauca plantavam cana-de-açúcar com bananeiras, cultivavam arroz e destinavam grandes reservas de pastagens para a pecuária extensiva. Em algumas áreas ao norte entre Roldanillo e Riofrío, nas proximidades de Cali e no sul do vale, na jurisdição de Caloto, estabeleceram-se pequenos agricultores, às vezes pardos e mestiços. As fazendas permitiam o assentamento de "agregados" que mantinham pocilgas, clareiras e algumas cabeças de gado. A presença destes produtores cresceu, formando povoados que mais tarde foram reconhecidos como freguesias ou vice-freguesias (COLMENARES, 1998). 2.4.2 Mineiros, fazendeiros e comerciantes As fortunas dos mineiros deram origem a dinastias familiares baseadas em alianças matrimoniais. Outra das estratégias para preservar seu patrimônio, em caso de falecimento do chefe da família, era melhorar a filha do herdeiro mais adequado para o negócio, ou manter parte de seu patrimônio em parcelamento por meio da figura da vinculação. 30 Embora os comerciantes 30 “El proceso constitutivo del mayorazgo arranca a partir de la crisis del siglo XVI, cuando la nobleza castellana defiende esta figura con la finalidad de mantener integras sus propiedades, aún en casos de una mala administración del patrimonio, haciendo posible la reproducción de su poder y, naturalmente, su preeminencia social y política. El fundador o fundadores de un mayorazgo, en muchas ocasiones era un matrimonio, incluían una cantidad de bienes que “para siempre jamás” formarían parte de este vínculo, que como tal, se heredaría generación tras generación, siguiendo las normas de sucesión, normalmente la progenitura, establecidas por el fundador. A los bienes vinculados, que no se podían “vender, enajenar ni empeñar”, se les atribuye un doble valor, por un lado, el material y, por otro, su valor social, referido a oficios y cargos, lo que implicaba algo más que un posible coste económico. Se reproducen
43 43 pudessem ter fortunas comparáveis às dos mineiros, elas não duravam mais de uma geração. No entanto, em muitas ocasiões os mineiros eram os próprios latifundiários e comerciantes, também concentravam o poder político no nível local em função de seu poder econômico, muitos eram prefeitos, vereadores, procuradores, etc. (BARONA, 1995). O tamanho e a distribuição interna das fortunas dependiam do crescimento da economia mineira na região de Popayán. Tantos mineiros, latifundiários ou mercadores no final do século XVII e início do XVIII dificilmente ultrapassaram o limite de 50.000 patacones. Por exemplo, comerciantes como Sebastian Correa tinham 94.000 patacones em 1716, Don Francisco Antonio Correa 107.000 em 1738 e Don Antonio García Lemos quase 200.000 em 1741. Em Nova Granada, no século XVIII, o limite de fortunas podia ser fixado em 300 mil patacones (fortuna de Don Pedro Agustín de Valencia, o homem mais rico da região). Este montante pode não ter sido excedido durante grande parte do século XIX. Quanto ao tamanho das quadrilhas, entre 1610 e 1710 os mineiros de Popayán consolidaram seu domínio nas regiões mineiras de Chocó. Em 1711, quatorze proprietários Payan possuíam pouco menos da metade dos escravizados (356 de 821, ou 43,4%) que trabalhavam em Chocó, junto com outros proprietários de Cali, Cartago, Anserma, Toro e Santa Fé. Entre os proprietários payaneses, destacaram-se as Mosqueras e as Arboledas, possuindo quase um quarto do total de escravizados (COLMENARES, 1979). Os Mosqueras eram uma família com uma tradição que remonta ao século XVI de encomenderos, latifundiários e mineiros. No início do século 18, suas gangues passaram de 200 em 1699 para 1.600 em 1713. Em 1759 eles tinham 400 escravizados em Chocó. Mais tarde, os Mosqueras concentraram-se mais na região mineira de Caloto. No entanto, os Groves possuíam grande parte das terras nesta região (COLMENARES, 1979). 2.4.3 A família Arboleda y perpetúan sistemas de control y dominio social, así como redes clientelares que estos oficios o cargos conllevan, al mismo tiempo que se consolida la posición y el status social adquirido por generaciones anteriores. La transmisión del patrimonio lo más integra posible, era una de las estrategias indispensables, quizá la principal, para que los linajes del Antiguo Régimen consiguieran su reproducción social y económica. El mayorazgo será el instrumento jurídico institucional que dará amparo a esta medidas que, adoptados por las élites buscarán perpetuar el binomio patrimonio-linaje” (PÉREZ, 2000, p. 133-135).
44 44 A família Arboleda foi uma das famílias escravas mais importantes da província de Popayán. Eles possuíam enormes extensões de terra e possuíam várias minas. Parte de sua riqueza e poder veio da exploração das minas de Caloto e Chocó. O fundador de sua dinastia foi Jacinto de Arboleda Salazar, que se estabeleceu em Popayán no século XVII e acumulou sua fortuna como comerciante de diferentes gêneros. Mais tarde, tornou-se proprietário de gangues escravizadas e ocupou cargos como Oficial Real, Executor Fiel e Tesoureiro Oficial Real. Por sua influência econômica e política na região, adquiriu o poder de controlar direitos e explorações em favor de sua família, como aconteceu com seu filho Francisco (I) de Arboleda (VELÁSQUEZ, 2019). Francisco Arboleda (I), por sua vez, adquiriu mais propriedades como Calaya, La Riza e Fucha e ampliou a propriedade de Caloto, herdada algum tempo depois por seu filho Francisco José (II). O segundo Francisco (José) Arboleda administrou os bens da família que manteve indivisíveis até sua morte em 1745. Comprou as fazendas de Antala, San Antonio e Pulibío na jurisdição de Caloto e San Isidro e Helvará. Outra maneira de concentrar a riqueza era por meio de um sistema de alianças matrimoniais. O primeiro Francisco Arboleda casou suas duas filhas com Don Francisco Bonilla Delgado e com Martín Prieto de Tovar que possuía minas e escravizou em Caloto e Chocó. O segundo Francisco (José) casou sua filha Bartolomea (Bartola) com Cristóbal Mosquera, membro de outra das famílias mais ricas da região, e María Ana com Juan Tenorio Torrijano, de uma família de comerciantes e mineiros. A família Arboleda cruzou por várias gerações com os descendentes de Don Alonso Hurtado del Águila, outro grande comerciante e dono de minas. Um exemplo de seu poder e riqueza pode ser visto em 1711, quando os Arboledas faziam parte dos quatorze proprietários payaneses que possuíam pelo menos metade dos escravizados que trabalhavam no Chocó, 356 de 821 pessoas, ou seja, 43,4% (COLMENARES, 1979). O terceiro Francisco (Antonio), nasceu em 13 de junho de 1732 e morreu em janeiro de 1793. Casou-se com Dona Juana María Francisca de Arrechea em 1751 e tiveram filhos legítimos: Francisco Josef; Maria Inácio; Maria Manuela, Manuel Maria Paulino; Julián María e Antonio María Simphoroso. Francisco Antonio comprou algumas fazendas que haviam pertencido aos jesuítas: Coconuco-Poblazón em 1771 e Japio-Matarredonda em 1778 e a fazenda Novirao perto de Popayán e mais terras em Piendamó e Quilichao. Em seu testamento, foram declaradas suas propriedades as fazendas da jurisdição de Caloto, que incluíam terras, gado,
45 45 gangues escravizadas, minas em Santa María de Quinimayó, Honduras, e na região de Iscuandé, nos rios Timbiquí, Seré e Guapi. Seus ativos também faziam parte dos engenhos de La Bolsa, San Josef, Japio e Matarredonda com os rebanhos de gado de Quilichao, Mazamorras e Asnenga, e na jurisdição de Popayán, as terras de Coconuco, Poblazón, Paletará e Novirao (VELÁSQUEZ, 2019, p.105). No ano de 1793, faz-se a leitura de seu testamento e estipula-se a fundação de uma vinculação em sua fazenda la Bolsa, com o esclarecimento de que os titulares da vinculação não podem “vender, permutar, trocar, penhorar ou alienar de qualquer forma, ou por qualquer causa necessária, voluntária ou onerosa, obra piedosa, dote, doação, casamento, resgate de cativos, ou qualquer outro, pois todos os imóveis acima mencionados, como móveis e escravos, eles devem permanecer inalienáveis por sua natureza [...]”.(ACC, Fondo Arboleda, signatura 21, p. 25-26) 31 . Os escravizados também faziam parte do estado, assim como seus descendentes: […] quienes nacesen y se procrearan de ellos han de quedar pertenecientes al mayorazgo y sin poderse enajenar de modo alguno”. […] sólo podrán ser vendidos aquellos que cometan algún vicio de sedición, robo o cimarronaje o que corrompa a otros esclavos con cargo de comprar otro con el mismo precio para reponerlo al fondo […] (ACC, Fondo Arboleda, signatura 21, p. 25-26). Diz também que somente o cacau pode ser cultivado e incrementado de acordo com seu consumo e sua utilidade. O trapiche também tinha que ser preservado e sempre manter os canaviais necessários para ter corrente para moagem durante todo o ano. Era um requisito para os sucessores serem católicos, cristãos e vassalos fiéis de Sua Majestade. Além de garantir sua legitimidade e "pureza de sangue": Item que todos los hijos, nietos y demás descendientes de dicho Don Francisco Antonio de Arboleda, que por su orden deben suceder en este mayorazgo sean precisamente legítimos, habidos y procreados en legítimo matrimonio (…) porque todos los sucesores en este mayorazgo deben concerbar la nobleza y limpieza de sangre del fundador que fue su objeto principal en esta disposición. Y por lo mismo deveran ser excluidos de ella los que contrajesen matrimonio con persona desigual en calidad y sangre, y tenidos por excluidos de ella desde ahora […] (ACC, Fondo Arboleda, signatura 21, p. 28). O estado também foi fundado em duas outras fazendas, Novirao e Asnenga, terras, escravizados, gado, cacaguales, ferramentas e utensílios. Ele também teve a contribuição de 31 No original: “vender, trocar, cambiar, empeñar, ni enajenar en manera alguna, ni por ninguna causa necesaria, voluntaria, ni onerosa, obra pia, dote, donación, nupcias, redención de cautivos, ni otra alguna, porque todos los expresados bienes asi raices, como muebles y esclavos, han de quedar inalienables por su naturaleza […]”.
46 46 10.000 patacones do testamento de seu tio Diego Arboleda. Tudo somava 132.533 pesos, 5 reais, o que equivalia ao restante do quinto de sua herança e a um terço dos bens do fundador, “libres de todo gravamen, censo e hipoteca”. (ACC, Fondo Arboleda, signatura 21, folio 25). A maior parte dos bens do patrimônio eram vinculados, ou seja, menos da metade dos bens vinculados pertenciam ao sucessor e o restante destinava-se a cobrir capelanias, padroados de leigos, obras pias, etc. (VELÁSQUEZ, 2019). 32 O estado da fazenda La Bolsa passou para Francisco José (IV), que era casado com sua prima Francisca Vergara, mas não teve filhos, então o mayorazgo foi transferido para José Rafael Arboleda, filho mais velho de seu irmão Julián María (ou Mariano) e Gabriela Pérez de Arroyo y Valencia. Julián María, foi o terceiro filho dos homens de Francisco Antonio Arboleda e herdou a fazenda Japio em 1796. Por sua vez, esta fazenda foi herdada por seu filho mais velho José Rafael Arboleda em 1807. 33 José Rafael Arboleda, nasceu em Popayán em 19 de novembro de 1795. Apoiou financeiramente a causa da independência e lutou pessoalmente na Batalha de El Palo em julho de 1815. Foi membro do conselho republicano de Popayán, professor de literatura na Universidade de Cauca e coronel do exército. Casou-se com Matilde Pombo e O'Donnell e tiveram dois filhos, Julio e Sergio Arboleda. Ele foi perseguido pelo general espanhol Pablo Murillo, e teve que abandonar suas propriedades em Caloto e se mudar com sua esposa para as minas que possuíam na cidade de Timbiquí, na província de Chocó. Seu filho mais velho Julio Federico Arboleda nasceu lá em 1817 e anos depois (1822) seu segundo filho Sergio Probo nasceu na cidade de Popaýan. Devido à sua saúde debilitada, José Rafael mudou-se para a Itália para tratamento, mas morreu um ano depois em Pisa, em 1831, aos trinta e seis anos (VELÁSQUEZ, 2019, p.109). 32 As capelanias eram “fundaciones perpetuas por las cuales una persona segregaba de su patrimonio ciertos biens y formaba con ellos un vínculo que se destinaba a la manutención o congrua sustentación de un clérigo, quien quedaba por ello obligado a rezar cierto número de misas por el alma del fundador o de su familia. Los Protocolos Notariales son una de las principales fuentes para el estudio de las capellanías. Podían establecerse en vida del fundador, y así constituían un tipo específico de documento independiente, o por el contrario, se erigían tras la muerte del fundador, apareciendo entonces como una cláusula más del testamento. Todo lo concerniente a la elección del capellán y a la adminsitración de los bienes quedaban en manos del patrón, cuyo nombramiento y características también venían estipulados en el documento de fundación.” (Irigoyen, 2000, p. 38) . 33 Cecilia Velásquez (2019) comenta sobre o assunto que: “En la documentación no se ha hallado información precisa sobre la forma en que fueron repartidos los bienes de Francisco Antonio Arboleda, debido posiblemente a su expresa voluntad de hacerlo privadamente y sin que mediaran avalúos judiciales. Por actuaciones notariales dispersas se ha podido determinar que el Mayorazgo fue para Francisco José; las haciendas de Coconuco y Poblazón, con derechos de minas en Guapi, para Manuel María (Pbro.) y la hacienda de Japio para Julián María. Ver A.C.C. Fondo Arboleda sig. 334 e 1ª nota, ano 1819, tomo 78.
47 47 Antes de sua viagem à Itália, em 4 de fevereiro de 1830, José Rafael compareceu perante o escrivão da cidade de Popayán para conceder seu poder testamentário. Disse que estando doente e prestes a partir para a Europa para tratamento, concedeu o poder testamentário à sua mulher Matilde Pombo, aos Srs. Joaquín e Manuel José Mosquera, Manuel Antonio e Manuel Esteban Arboleda. Ele também afirmou que “siendo su intención igualar las fortunas de sus dos hijos, mejora al segundo [Sergio] en todo el tercio de sus bienes, o en la parte que sea necesaria del dicho tercio, y del quinto para igualar las dos herencias” (ACC, Fondo Arboleda, signatura 626). Após a morte de Dom José Rafael, sua esposa Matilde Pombo tornou-se a guardiã e curadora de seus filhos até que tivessem idade suficiente para administrar seus bens. Como outras mulheres também viúvas no século XIX, Matilde, aos trinta e um anos, assumiu a responsabilidade de administrar e aumentar o patrimônio financeiro da família, representada pelas fazendas de Japio, Quintero, La Bolsa, Novirao, Puracé, a mina de sal Asnenga, várias casas em Popayán e uma parte da fazenda Vique no Panamá. 34 Em 1845 seus dois filhos, Julio e Sergio Arboleda, repartiram os bens herdados de seu pai. Eles expressaram que agora podiam aliviar sua mãe do pesado fardo de administrar a propriedade de seu falecido pai. O filho mais velho, Julio Arboleda, ficou com a fazenda la Bolsa, segundo as avaliações de 1832, e metade da dívida do senhor Juan Bautista Feraud e sua renda dos negócios do Panamá, com mais seis escravizados que ele teve que escolher das fazendas de Japio e Quintero. A mina de sal de Asnenga, a nova casa localizada nesta cidade de Popayán, e metade do enxoval e móveis que existiam na propriedade também fizeram parte de sua herança. Por sua vez, o segundo filho, Sergio Arboleda, ficou com a fazenda Quintero, segundo as avaliações de 1832, com mais de um quarto do valor total do globo terrestre que constituía a fazenda de la Bolsa, que foi segregada desta fazenda e a ele cede, e cujos limites serão oportunamente designados; a quinta do Japio, também segundo as avaliações de 1832, menos três alambiques, que foram atribuídos a Julio Arboleda; a fazenda Puracé, também segundo as avaliações do ano de 1832; toda a parte do edifício entre a Calle del Humilladero e a Calle de la 34 Alguns desses ativos continuaram vinculados ao estado constituído por Francisco Antonio de Arboleda, como Bolsa, Novirao, Puracé e a mina de sal de Asnenga, apesar de a figura ter se extinguido na Espanha desde 1820 e na Gran Colombia desde 1824 por ordem do Congresso (Lei 7 de 10 de julho de 1824). (VELÁSQUEZ, 2019, p. 119).
48 48 Universidad, excluindo apenas a referida casa nova que foi concedida ao outro herdeiro; a outra metade dos móveis do enxoval e móveis existentes no testamento; e o site Buenavista localizado nesta cidade (ACC, Fondo Arboleda, signatura 381, p. 1-2). No entanto, Julio Arboleda não ficou satisfeito com a divisão dos bens e em 1849 processou seu irmão Sergio. Alegou que tinha direito a um terço e meio quinto da vinculação dos bens avaliados em 1825, o que equivale a 69.988 pesos. Este valor está representado nos escravizados dos patrocínios que seu pai Dom Rafael arranjou, sob a condição de impor seu valor ao censo sobre os imóveis com as devidas garantias (ACC. Fundo Arboleda, sig. 71). Aparentemente os irmãos chegaram a um acordo extrajudicial porque não há mais referências ao julgamento.
49 49 2 CARACTERÍSTICAS DA POPULAÇÃO DA PROVÍNCIA DE POPAYÁN A província ou governo de Popayán em 1778 tinha 64.283 habitantes, dos quais 13.351 (21%) eram brancos; 15.692 (24%) índios; 22.799 (36%) eram livres e 12.441 (19%) eram escravos. A população escravizada do Governo era relativamente alta, depois da província de Chocó, onde os escravos constituíam cerca de 39% da população total, e em terceiro lugar estava a província de Antioquia, com 18%. 35 Segundo o censo de 1779, o Governo de Popayán tinha 100.366 habitantes, dos quais 21.066 (21%) eram brancos; 27.764 (28%) índios; 32.775 (32%) grátis; 18.761 (19%) foram escravizados. Se analisarmos os diferentes grupos raciais (ver tabela 5) verificamos que na população indígena há um maior número de casamentos (12.072), seguido pela população livre (9.796). No entanto, dentro deste último grupo, a proporção de homens e mulheres solteiros é muito maior (22.979) do que na população indígena (15.692) (Tovar, 1994). Isso pode significar que dentro da população livre havia muitas uniões consensuais não legitimadas em um casamento por diferentes impedimentos, inclusive econômicos, raciais ou consanguíneos (Tascón, 2015, p.52). Para a população escravizada, foram registrados 3.247 casados e 3.073 casados, número que não difere muito da população branca. Entre os solteiros há um número maior de mulheres, 6.715, em relação aos homens, 5.726. Tabela 5: Composición socioracial de la Gobernación de Popayán 1779 Fonte: TOVAR, Hermes; TOVAR, Camilo; TOVAR, Jorge. Convocatoria al Número: Censos y Estadísticas de la Nueva Granada 1750-1830. Bogotá: Tercer Mundo Editores, 1994. Na tabela 6 observamos a relação de casados e solteiros entre a população escravizada por municípios e províncias. Não sabemos quais foram os critérios para classificar as pessoas casadas, provavelmente viúvas e viúvos também estavam nessa categoria. O maior número de homens e mulheres casados ocorre em Caloto, seguido por Buga, Cali e Popayán. Na cidade de 35 COLMENARES Germán (comp.). Relaciones e Informes de los Gobernantes de la Nueva Granada. Tomo II, Bogotá: Banco de la República, 1989. Casta Casados Casadas Solteros Solteras Totales Blancos 3063 3602 6076 7275 21066 Indios 6022 6050 7172 8520 27764 Libres 4793 5003 10615 12364 32775 Esclavos 3247 3073 5726 6715 18761 Total 17125 17728 29589 34874 100366
50 50 Popayán (capital) a diferença entre homens e mulheres casados não é muito grande, mas isso não acontece com o número de homens e mulheres solteiros. Para um homem há uma diferença de 1,6 mulheres. Nas demais cidades também há um maior número de mulheres, com exceção de Raposo, Almaguer e Isquandé, cidades onde se exerciam atividades de mineração e talvez a mão de obra masculina fosse mais exigida. No entanto, na cidade de Caloto, que também era uma área de mineração próxima à cidade de Popayán, o número de mulheres foi maior (1.855) do que o número de homens (1.549). Tabela 6: Población esclava Gobernación de Popayán 1779 Fonte: TOVAR, Hermes; TOVAR, Camilo; TOVAR, Jorge. Convocatoria al Número: Censos y Estadísticas de la Nueva Granada 1750-1830. Bogotá: Tercer Mundo Editores, 1994. Se observarmos a composição racial por região, identificamos na Tabela 6 que a Costa do Pacífico concentra uma alta população de escravizados (9.405), porém, a maior concentração de escravizados (12.277) é encontrada em outras regiões onde predominava a agricultura e o comércio como em Popayán, Cali, Buga, Caloto e Cartago. Em relação à tendência do casamento, observamos que a população escrava registra um total de 3.452 homens casados e 3.584 mulheres casadas. Se compararmos com o censo de 1779, o número de homens casados (3.247) e de mulheres casadas (3.073) não variou muito. Se analisarmos os dados por cidades e províncias, o maior número de pessoas casadas encontra-se em Barbacoas, seguido por Caloto, Raposo, Cali e Popayán. Entre os solteiros encontramos maior proporção de mulheres solteiras 8.498 em comparação com homens solteiros 7.611, com exceção das cidades de Barbacoas, Raposo e Casados Casadas Solteros Solteras Total % Popayán 286 297 804 1288 2675 14.26 Cali 364 325 823 1027 2539 13.53 Buga 517 371 813 1169 2870 15.30 Cartago 120 115 158 282 67 3.60 Caloto 1370 1370 1549 1855 6144 32.75 Anzerma 31 34 134 154 353 1.88 Toro 6 4 69 75 154 0.82 Raposo 331 331 940 439 2041 10.88 Almaguer 41 41 81 67 230 1.23 Pasto 15 13 34 69 131 0.70 Los Pastos 2 3 17 18 40 0.21 Isquandé 162 167 290 254 873 4.65 Tumaco 2 2 14 18 36 0.1 TOTALES 3247 3073 5726 6715 18761 100
57 57 freguesias de Almaguer (capital), Trapiche, Mercaderes, La Cruz e Pancitará. Sua população total era de 11.931 habitantes divididos em 6.572 homens e 5.359 mulheres. Tabela 10 Provincia de Popayán 1835 Cantón de Popayán Cantón de Caloto Cantón de Almaguer H M H M H M 12.153 13.092 4.885 5.445 6.572 5.359 25.245 10.330 11.931 Total: 47.506 Fonte: ACC, Fondo Arboleda, signatura 8025 (JI -12-cv). Elaboração própria. A população total do cantão de Popayán era de 25.165 habitantes, dos quais 12.073 homens e 13.092 mulheres (tabela 9). Entre a população livre, observamos que o maior número de homens e mulheres casados (600) encontra-se em Timbío (cidade indígena), seguido pela cidade de Popayán com 494 homens e mulheres casados. O maior número de homens solteiros (728) também é encontrado em Timbío, na proporção de 1,3 homens para uma mulher. Por outro lado, no caso das mulheres solteiras, encontramos uma proporção maior na cidade de Popayán, 1.218 mulheres contra 520 homens solteiros, ou seja, 2,3 mulheres para um homem. Com relação à população escrava encontramos 1.349 mulheres em relação a 1.048 homens. O maior número de casamentos está em San Antonio (119), Tulumito (56) e Popayán (45); Entre os homens solteiros, verificamos que a cidade de Popayán tem um número maior de mulheres solteiras (497) em relação aos homens solteiros (177), ou seja, 2,8 mulheres para cada homem. Enquanto em Tulumito, os homens solteiros são a maioria (145) em relação a 96 mulheres escravizadas. Em geral, entre a população escrava do cantão de Popayán, as mulheres são a maioria (1.348) em relação aos homens (1.048). No entanto, se discriminarmos por zona urbana e zona rural, verificamos que as mulheres têm um número superior na zona urbana (542), enquanto na zona rural são ligeiramente inferiores (806) do que os homens (826) (ver Tabela 11).
58 58 Tabela 11: Censo de población del Cantón de Popayán 1835 Fonte: Signatura 8025 (JI -12-cv), Archivo Central del Cauca. Tabela 12: Población esclava del Cantón de Popayán 1835 Fonte: Signatura 8025 (JI -12-cv), 1835. Archivo Central del Cauca. Distritos parro. Seculares Regulares Casados JovnsPárbulos De 16 a 50 años Más de 50 años Casados Solteros Religiosas Casadas Jovns.-Párbulas De 16 a 50 años Más de 50 años Casadas Solteras Popayán 34 13 494 928 74 486 45 177 33 494 1017 969 249 45 497 Paniquita 1 0 472 601 146 39 21 34 0476 599 201 27 21 35 Puracé 1 0 235 357 112 16 15 7 0 235 298 111 39 15 9 Guambía 1 0 427 423 119 27 0 5 0 427 443 14 39 0 4 Cajibío 1 0 179 316 92 733 19 0176 404 100 20 29 14 Tunía 1 0 229 498 63 511 31 0229 492 207 41 11 23 Tulumito 1 0 240 351 122 17 56 145 0240 389 193 32 56 96 Tambo 2 0 308 452 200 14 30 45 0309 442 215 114 29 64 Timbío 2 0 600 504 600 128 40 85 0600 520 450 100 40 80 San Antonio 1 0 174 289 117 16 119 77 0174 277 77 49 119 121 Patía 1 0 149 184 142 14 23 30 0149 31 26 16 23 18 46 13 3507 4903 1787 769 393 655 33 3509 4912 2563 726 388 961 Totales 3507 4903 33 3509 4912 1349 Total de mujeres: 13092 Total de hombres: 12073 Censo de población del cantón de Popayán de la provincia del mismo nombre formado del conjunto de los censos de los distritos parroquiales del cantón por el jefe político que suscribe, para el censo general de la República para el año de 1835 59 Solteros 2556 1048 3289 Ecleciásticos Esclavos Solteras Esclavas HOMBRES MUJERES Casadas Solteras Casados Solteros Casadas Solteras Casados Solteros 45 497 45 177 342 464 348 478 Total mujeres: Total hombres: 806 826 542 222 Área urbana Popayán Area rural de Popayán Mujeres Hombres Mujeres Hombres
59 59 Em 1835 o cantão de Caloto tinha uma população total de 10.330 habitantes, divididos em 5.445 mulheres e 4.885 homens (ver tabela 13). Se olharmos para a população livre, os homens solteiros somaram também os jovens menores de 16 anos e os pabulos foram 1.966 com respeito e as mulheres solteiras (2.491). Só consideramos os maiores de 16 anos, dando-nos que 640 eram homens contra 1041 mulheres. Em ambas as situações, as mulheres são maioria. Agora, a população escrava era de 3.375 pessoas, das quais 1.665 eram homens e 1.710 eram mulheres. A tendência do casamento registra que a população solteira era a maioria e que havia uma porcentagem maior de mulheres solteiras (1.147) em relação aos homens (1.102). Tabela 13: Censo de población del Cantón de Caloto de 1835 Fonte: Signatura 8025 (JI -12-cv), 1835. Archivo Central del Cauca. Na Tabela 14, observamos a tendência matrimonial da população escrava do cantão de Caloto em 1779, 1797 e 1835. Tabela 14: Población esclava de Caloto y su jurisdicción 1779, 1797 y 1835 Fonte: Signatura 8025 (JI -12-cv), Archivo Central del Cauca. Notamos que o número de casamentos em 1779 era maior do que em 1797, mais que o dobro. Enquanto entre 1797 e 1835 a diferença não foi significativa. Isso nos leva a repensar a instituição do casamento versus as uniões de fato. O número de solteiros e solteiros também apresentou maior percentual em 1779, apresentando queda em 1797 e em Parroquias Seculares Regulares Casados Jovns. y Párbulos De 16 a 50 años Más de 50 años Casados Solteros Religiosas Casadas Jovns. y Párbulas De 16 a 50 años Más de 50 años Casadas Solteras Caloto 2 0 196 216 96 60 176 394 0196 191 199 70 176 398 Quilichao 2 0 194 297 99 10 89 239 0194 260 215 37 89 213 Gelima 2 0 143 166 69 11 182 266 0143 165 98 100 182 366 Caldono 1 0 54 59 40 822 49 054 83 32 922 40 Pitayó 1 0 326 272 98 13 22 40 0326 376 38 60 22 46 Toribio 1 0 185 164 44 10 416 0185 185 78 25 415 Celandia 1 0 146 169 57 868 98 0146 190 71 968 69 Total 10 01244 1343 503 120 563 1102 01244 1450 731 310 563 1147 Total de hombres: 4885 Total de mujeres: 5445 Censo de población del cantón de Caloto formado del conjunto de los censos de los distritos del mismo cantón por el jefe político que suscribe, para el censo general de la provincia en el año de 1835 HOMBRES MUJERES Ecleciásticos Solteros Esclavos Solteras Esclavas Casados Solteros Casadas Solteras Casados Solteros Casadas Solteras Casados Solteros Casadas Solteras 1370 1549 1370 1855 529 1216 523 1336 563 1102 563 1147 1745 1859 1665 1710 H M H M H M POBLACIÓN ESCLAVA DE CALOTO Y SU JURISDICCIÓN 1779 1797 1835 Totales: 6144 Totales: 3604 Totales: 3375 2919 3225
60 60 1835. Tendo em vista que Caloto era uma região dedicada à mineração e à agricultura, como já dissemos, é interessante observar que nos três censos as mulheres são maioria. Isso nos leva a buscar explicações posteriormente sobre a participação das mulheres nas diferentes áreas de mineração da província de Popayán. Em conclusão, vemos que as mulheres livres e escravizadas eram a maioria no cantão de Popayán e Caloto y. No entanto, quando discriminamos por área urbana e rural, no cantão de Popayán, encontramos um número maior de mulheres na cidade do que no campo. No que diz respeito às áreas de exploração mineira, sabemos que no início do século XVIII (1710) formou-se o núcleo primordial das quadrilhas e nesta época o número de mulheres era escasso. Já no ano de 1770, as quadrilhas alcançaram uma certa estabilidade porque a população ativa não foi substituída por bozales adultos, mas com a incorporação ao trabalho de uma crescente população crioula. 40 Essa estabilidade pode explicar o crescimento do número de mulheres nas áreas de mineração observado no censo de 1797. Quando o número de mulheres escravizadas nas minas era menor, a formação das famílias e os laços de parentesco eram moldados de acordo com as tradições e condições concretas dos grupos; Por exemplo, as mulheres podem manter relacionamentos com vários membros da quadrilha. Essa situação, vista na perspectiva do modelo de família dominante, foi descrita como escandalosa e aberrante. 41 Nas haciendas, as cativas passavam a maior parte do tempo cozinhando, lavando, passando, costurando, cuidando e acompanhando os senhores, servindo os trabalhadores, ordenhando, limpando e ordenando as mansões. 42 No entanto, com o aumento da escravidão no século XVIII, a propriedade dos escravizados deixou de ser um atributo das famílias nobres, pois a compra de um ou vários escravizados passou a ser patrimônio das famílias mestiças e pardas. Nos centros urbanos, os escravizados cumpriam tarefas semelhantes às das haciendas e ranchos. Em particular, as escravas desenvolviam outras atividades relacionadas ao comércio ambulante e também trabalhavam como mensageiras, parteiras e curandeiras. 40 COLMENARES Germán. Popayán: una sociedad esclavista 1680-1800. Bogotá: La Carreta Inéditos Ltda. 1979, p. 84. 41 ROMERO, Mario Diego, Poblamiento y sociedad en el Pacífico colombiano, siglos XVI al XVII. Universidad del Valle, Cali, 1995, p.p 64-70 42 PÉREZ, María Teresa, Las mujeres caucanas. GUIDO, Barona; GUIDO, Gnecco; VALENCIA, Cristobal (edit.). In: Historia, Geografía y cultura del Cauca. Territorios posibles. Editorial Universidad del Cauca, Popayán, p. 225.
61 61 3 CARACTERÍSTICAS DEMOGRÁFICAS DOS ESCRAVOS DAS HACIENDAS E MINAS DE LOS ARBOLEDAS 3.1 FAZENDA JAPIO A fazenda Japio, ainda hoje existente, está localizada entre os municípios de Santander de Quilichao e Caloto, ao norte do departamento de Cauca, a 95,5 km da cidade de Popayán. Em 1767, após a expulsão dos jesuítas, Japio passou a ser administrado pela Junta de Temporalidades 43 , incapaz de mantê-lo produtivo e lucrativo. No entanto, a fazenda conseguiu se manter graças ao circuito econômico organizado pela Companhia de Jesus entre suas grandes propriedades (possuíam mais de cem fazendas no vice-reinado de Nova Granada), que criou uma rede de sustentabilidade e auto-suficiência (VELÁSQUEZ, 2010). Em 1774, Dionísia Pérez de Manrique, viúva do Marquês de San Miguel de la Vega, doou suas minas de Quinamayó nas proximidades de Japio à Companhia de Jesus, provavelmente adquiridas por herança de seu marido, que as possuía antes de seu casamento em 1708. Em 1770, segundo avaliadores contratados pelas Juntas de Temporalidades, a fazenda tinha cerca de 4.000 bovinos e 135 escravizados. Entre suas instalações, havia uma casa baixa com cinco cômodos com telhado de palha, outro com telhado de telha e mais um com três cômodos, cozinha de palha e forno, capela com telhado de telha, torre e três sinos dedicados a o culto de Nossa Senhora. Senhora de Loretto Havia também um engenho de açúcar com equipamentos, gado, galpões e um tear. Em 1774, 22 hectares foram plantados com cana-de-açúcar para fazer mel, trapiche de madeira, 2.000 bois, 100 bois, 40 cavalos, e algumas colheitas de banana e milho para alimentar os 127 escravizados; Da gordura do gado tirei a gordura para o trapiche e as velas. Para o ano de 1776, o administrador informou que os prédios estavam prestes a desmoronar e que muitos escravos haviam sido vendidos ou haviam morrido, e a produção havia caído significativamente. Reclamava também do roubo de gado e da falta de cavalos 43 Op. Cit.
62 62 e mulas para o trabalho do trapiche, não havia vacas, apenas alguns bois e não havia comida para os escravos. 44 No ano seguinte, em 1777, Francisco Antonio de Arboleda (III) adquiriu a fazenda com escravos, gado, sítios, casas, galpão de telha e tijolo, capela, engenhos de açúcar, campos de semeadura, canaviais, plantações de banana, ferramentas e outros implementos. A sua extensão era de 1.153 hectares e 2.800 jardas quadradas e equivalia a cerca de 7.000 patacones. 45 Essa aquisição se somou a outras propriedades que ele possuía na mesma área, como a fazenda Mataredondas. Francisco Antonio de Arboleda morreu em 1793 e a propriedade foi mantida pela família, sucessivamente por Julián María Arboleda Arrechea, Francisco José e José Rafael Arboleda Arroyo e seus filhos Sergio e Julio Arboleda Pombo. As guerras de independência afetaram significativamente a produtividade das fazendas e minas da família Arboleda, pois sofreram saques e impostos para favorecer os lados em conflito. As tropas que subsistiam com seu gado e outros produtos acampavam em suas terras (MINA, 1975). Aparentemente o período entre 1820 e 1821 foi o mais crítico, pois encontramos referências a este período em vários documentos. Por exemplo, o administrador da fazenda Japio e da mina San Vicente diz que quando recebeu as propriedades em 1822, a fazenda ficou reduzida a três prédios de igrejas, uma casa, um engenho e alguns escravos (ACC, Sala Arboleda, signatura 453). No entanto, a fazenda conseguiu se recuperar produtivamente. Com o cultivo de cana-de-açúcar e outros produtos agrícolas, a fazenda abastecia os escravizados das minas que a família Arboleda possuía em Popayán e Chocó. Isso é confirmado pelo depoimento de John Potter Hamilton, diplomata britânico, que viajou pela Colômbia entre 1824 e 1825. Quando visitou Popayán em 1824, foi recebido por Dom José Rafael Arboleda, na fazenda Japio. Ficou muito impressionado com a hospitalidade e refinamento de seu anfitrião, a ponto de se sentir um herói das Mil e Uma Noites: 44 Citado por Velasquez: MINA, Mateo. Esclavitud y libertad en el Valle del río Cauca. Bogotá: Rosca, p. 34. VELASQUEZ, María Cecilia; DIAZ, Martha; MORALES, Sory. Recuerdo de una molienda. Hacienda Japio. In: Huellas históricas y arquitectónicas de las haciendas caucanas. Popayán: Instituto Universitario Colegio Mayor del Cauca, Gobernación del Departamento del Cauca, 2010. 45 Notaria Primera de 1793. Retirado de VELASQUEZ, María Cecilia, op., cit. p. 126. Ver: ACC, Col. C III22 it. Sig 11495 p. 107.
63 63 Al entrar a la alcoba que se me destinara, quedé pasmado ante el exquisito primor del decorado con que todo estaba, y el lujo de los artículos de tocador que sólo gastan las familias más ricas de Europa y que nunca esperé encontrar en el remoto aunque bellísimo Valle del Cauca. Servían de dosel al lecho cortinas a estilo francés, ornadas de flores artificiales, y en una consola se veían frascos de agua de colonia, jabón de Windsor, aceite de Macassar, "creme d'amendes améres", cepillos, etc. Dormí profundamente en mi lujosa cama que bien podía considerarse por todo aspecto como un lecho de rosas. Todo aquello me parecía cosa de ensueño mágico o encantamiento y me sentí como un héroe de las Mil y una Noches transportado por los aires a un palacio; tan mezquinos habían sido los alojamientos y tan pobre la mesa de que había podido disfrutar durante mí viaje. El buen gusto con que todo estaba dispuesto en aquella casa (…) debo confesar que nunca había encontrado en Colombia nada que pudiera parangonarse con aquella morada. (HAMILTON,1827, p. 472). Halmilton comenta que José Rafael Arboleda lhe disse que tinha 800 escravizados em suas fazendas no Valle del Cauca e Chocó, a maioria trabalhando na lavagem do pó de ouro. Antes de la guerra de independencia, pastaban 10.000 reses en la hacienda de Japio número que quedó reducido a una décima parte, pues los españoles continuamente imponían contribuciones hasta de cuatrocientas cabezas cada una, y si la entrega se demoraba, se propinaban al mayordomo Cien o doscientos estacazos como pena a la renuencia. Nos aseguró el señor Arboleda que antes de la lucha emancipadora pastaban en el Valle del Cauca no menos de un millón de reses, al paso que ahora apenas podrían encontrarse 200.000 en toda la provincia (HAMILTON, 1827, p. 473).
64 64 Figura 2: Desenho das terras de Japio Fonte: AGN Mapoteca. “La casa de Japio (encerrada en rojo) tomando la mitad del camino real hasta el lado de río Japio diez cuadras. De id [la casa] al paso de agua Lucia o cunado del ciruelo de quando las orillas de Gallinazo o la Chamba. …………………..............................21-34 De allí a Quebrada Seca por la orilla de la Chamba y cuadras de Quebrada Seca por la orilla del sanjón a Cabito 24 ½ cuadras. De la mitad del camino vial frente a la casa hasta la puerta de la Cuelga por el actual camino de Cali ………………………………………………12+44 De la puerta de la Cuelga al paso de la acequia de la (ilegible) ………12+41 De allí hasta el mojón de laguinita …………………………………....18-76 Hasta la Quebrada ………………………………………….. 2 (ilegible) -10 Del mojón a la puesta de (ilegible) junto a Cadenas …………….........16-32 Del mojón Laguinita en linea recta hasta el paso del río Japio …………. 45 De la puerta de la Cuelga al paso de Cabito por el camino real ……....38-6 El callejón de Juan …………………………………………………....19 ½” Um ano após a morte de José Rafael, em 1832 foi realizada a avaliação das minas de sal de Japio, La Bolsa, Quintero e Asnenga. A fazenda de Japio consistia em uma casa alta de azulejos com portas e janelas comuns, três grandes vitrais, três janelas pequenas e uma cozinha de palha com portas e
65 65 janelas comuns; a casa de palha dos mordomos, com portas e janelas comuns, e a capela de azulejos surrados. Em gado tinha: 75 novilhos, 25 touros, 123 cabeças de gado, 19 mulas regulares e 6 muito velhas, 21 muletos, 15 cavalos de tropa, 17 potros maiores e menores, 76 éguas, 1 cavalo de estábulo, 2 burros, 1 novo e um velho inútil. O trapiche era uma ramada coberta de azulejos que, por estar um pouco danificada, foi avaliada em 650 pesos; a máquina de trapiche muito velha e gasta pesando 27 arrobas; o quadro do mesmo; duas canoas muito antigas. O galpão era composto por seis mil tijolos crus; trinta e oito mil cozidos; um grande forno com a sua ramada um pouco desmoronada; um pequeno forno; três poços e uma casa de fundação coberta de palha com seu forno; 50 arrobas de sal de Asnenga, ferramentas e 167 escravizados. Acrescenta-se o valor das terras, incluindo nelas uma pequeníssima parte daquelas que pertenceram a São Vicente e que o Sr. Rafael Arboleda vendeu. Todos aqueles que por dia pertencem à fazenda Japio foram avaliados no valor de cinco mil pesos, e disso um piquete, que é considerado em partes separadas da fazenda. Todos avaliados em 37.357 pesos e ¾ de real, mais 1.021 pesos com os livros (ACC, Fondo Arboleda, signatura 86). A fazenda foi palco de vários atos violentos, como tortura, execuções e recrutamento forçado de escravos. Durante a Guerra dos Supremos (1840-1841) cujos protagonistas eram os generais Tomás Cipriano de Mosquera e José María Obando, a fazenda que pertencia a Julio Arboleda, é novamente um lugar de confronto, já que Obando revolta os escravos e causa grandes perdas. Em 1843 a fazenda foi invadida por escravos rebeldes sob o comando do alfaiate José Antonio Tascón e armas, alimentos e remédios foram roubados. A intenção era levantar todos os escravos da região, tomando Caloto como centro de operações (VELÁSQUEZ, 2010, p. 129). Em 1845, na partilha dos bens do espólio de Rafael Arboleda, seu segundo filho, Sergio Arboleda, recebeu o espólio de Japio. Naquela data a fazenda era composta por: as terras por seus limites conhecidos; a casa da fazenda coberta de telhas e um pouco de chumbo; a cozinha; a casa do mordomo e uma casa hospitalar de palha inacabada; o engenho de açúcar ramada e sua máquina de 24 arroba; os fornos, poços e ramadas de galpões e serralherias; e a igreja coberta de azulejo, muito antiga. Além de diversas ferramentas de trabalho e carpintaria; 21 lotes de cana; animais que incluíam: 75 bovinos reprodutores, 38 éguas e 1 cavalo, 7 potros, 77 bois, 8 tourinhos, 21 mulas, 5 mulas, 15
66 66 bezerros e 89 novilhos. Quanto à população escravizada, recebeu 77 escravizados, 113 alforriados menores de 18 anos e 19 concertados. Após a guerra de 1851, durante o governo de José Hilario López, a fazenda Japio foi apreendida -em represália por serem os Arboledas que iniciaram a guerrae sua administração passou para as mãos do Estado até 1853. Foi devolvida quase em ruínas e embora se tenha tentado recuperá-lo, não foi possível devido a tantos conflitos civis e à resistência dos ex-escravizados. Sergio Arboleda, comenta o estado lamentável da fazenda devido à revolta dos escravizados: En el año siguiente de 1851 tuvo lugar el transtorno social que trajo al fin la guerra entonces fui yo violentamente despojado de mis propiedades […] la finca Japio sufrió un inmenso deteriodo por la sublevación de los esclavos que volvieron contra ella el resentimiento y el furor que la esclavitud engendra” (ACC, Fondo Arboleda, Carta Sergio Arboleda, Popayán, agosto 3 de 1854. Citado por ROMERO, 2009). 46 Nos anos seguintes, a fazenda dedicou-se ao cultivo e processamento da cana-deaçúcar, para a produção de açúcar, mel, rapadura e aguardente. Em menor medida, o cacau era cultivado para comercializá-lo em Antioquia, embora sua principal fonte de renda fosse o arrendamento de suas terras. 47 No caso da fazenda Japio, analisamos as listas de 1777, 1821, 1832, 1845 e 1851. A primeira lista que encontramos sobre a fazenda Japio está no documento de entrega da fazenda Japio e Matarredonda a Francisco Antonio Arboleda, devido a sua compra entre 1770 e 1777, os cativos que aparecem são em sua maioria crianças: 46 Citamos a tese de doutorado do professor Mariao Diego Romero intitulada: Territorialidade e família entre comunidades negras no sul do vale geográfico do rio Cauca, Colômbia, da colônia ao século XX. Universidade de Huelva, 2009. Esta tese foi publicada em 2017 com o título: Territorialidade e família entre sociedades negras no sul do vale do rio Cauca. Editorial Universidade do Vale. 47 Ibid, p. 130
73 73 No caso da Fazenda La Bolsa, analisamos as listas de 1789, 1812 e 1832. Não encontramos nenhuma família que se repetisse nas três listas. Aparentemente, esta fazenda era a mais móvel. No entanto, como essa fazenda fazia parte do mayorazgo, os escravizados não podiam ser vendidos, de modo que sua mobilidade se dava nas mesmas propriedades dos Arboledas. Tabela 23 Lista de esclavizados hacienda La Bolsa 1789 H M Casados Solteros Viudos Casadas Solteras Viudas 24 70 1 24 66 14 95 104 Totales: 199 Fonte: ACC, Sala Arboleda, signatura 21. No Quadro D, a fazenda possui um total de 199 escravizados, sendo 95 homens e 104 mulheres. Observamos que desses homens 70 são solteiros enquanto na população feminina há 66 mulheres solteiras. O número de pessoas casadas é de 24 casais; observa-se elevado número de viúvas 14 em relação a um único caso de viúvo. Encontramos 48 famílias escravizadas. Destas 24 famílias são nucleares, ou seja, são compostas por mãe, pai e filhos. As restantes famílias (24) são constituídas por um único progenitor e filhos, a maioria viúvas (24 famílias), e uma (1) família com pai viúvo (Quadro E). Tabela 24 Hacienda La Bolsa 1789 Familia nuclear Familia matrifocal Familia patrifocal Familia extensa 24 24 1 0 Totales: 48 Fonte: ACC, Sala Arboleda, signatura 21 Em 1812, 139 escravizados foram enviados do Real de Minas de Santa María para a Fazenda la Bolsa por ordem de José Rafael Arboleda. Nesta lista (Quadro F) observamos
74 74 que dos 139 escravizados, 72 são mulheres e 67 homens. Na população feminina observase que o número de mulheres solteiras é maior (53) do que o de homens (47). Encontramos apenas um único caso de viúvo (Quadro F). Se compararmos os anos de 1789 e 1812 vemos uma diminuição da população, pois passou de 199 pessoas para 139, ou seja, 60 pessoas a menos. O que aconteceu com aquelas 60 pessoas? Para onde elas foram? Uma possível resposta pode ser encontrada na lista de 1819 do Real de Minas de Santa María de Quinamayó. Lá constatamos que 11 famílias (47 pessoas) da fazenda La Bolsa foram devolvidas ao Real de Minas. Das outras 13 pessoas não sabemos seu paradeiro. Tabela 25 Fonte: ACC, Sala Arboleda, signatura 335. No ano de 1812 observamos (tabela 25) 28 famílias, ou seja, 12 famílias a menos em relação a 1789. Destas famílias, 17 são famílias nucleares; 2 são famílias extensas, ou seja, compostas por mãe, pai, filhos e netos; 7 são compostas por mães solteiras; 1 família com um dos pais solteiros e uma com um (1) pai viúvo (Quadro G). Tabela 26 Hacienda La Bolsa 1812 Familia nuclear Familia matrifocal Familia patrifocal Familia extensa 17 7 2 2 Totales: 28 Fonte: ACC, Sala Arboleda, signatura 335. Casados Solteros Viudos Casadas Solteras Viudas 19 47 119 53 0 Totales: 139 LISTA DE ESCLAVOS HACIENDA LA BOLSA 1812 H M 67 72
75 75 Na Tabela 26 observamos que após 23 anos há uma diminuição de 60 pessoas escravizadas. Em 1812, a proporção entre o número de mulheres e homens aumentou 7% em relação aos homens do que em 1789 (3%). Observamos também que há uma mudança na proporção de solteiros. Em 1789 o número de homens solteiros (13%) era maior que o de mulheres solteiras e em 1812 as mulheres passaram a ser 11,4% a mais que os homens. Outra mudança importante é a diminuição do número de viúvas, em 1789 encontramos 14 casos e em 1812 nenhum caso. Tabela 27 Fonte: ACC, Fondo Arboleda, signatura 86 No Tabela 27, observamos um total de 204 escravizados, sendo 101 homens e 103 mulheres. Se compararmos com 1812, observamos um aumento da população escravizada (65 pessoas). Para o ano de 1832 na fazenda La Bolsa 43 famílias escravizadas. Observamos um aumento de 15 famílias. Isso também se deve ao aumento de escravizados (65). O número de famílias nucleares é de 25, seguido por 14 famílias com apenas uma mãe e 4 famílias com apenas um pai. Não encontramos famílias extensas nem com pais viúvos ou viúvos (Tabela 27). Tabela 28 Hacienda la Bolsa 1832 Familia nuclear Familia matrifocal Familia patrifocal Familia extensa 25 14 4 0 Totales: 43 Fonte: ACC, Fondo Arboleda, signatura 86 Casados Solteros Viudos Casadas Solteras Viudas 25 76 025 78 0 Totales: 204 Lista de esclavos hacienda La Bolsa 1832 H M 101 103
76 76 O que isso pode significar? Comparando os dados dos três anos: 1789, 1812 e 1832, verifica-se um decréscimo em 1812 e depois uma "recuperação" da população em 1832. Pode ser que, em 1812, no contexto das guerras de independência, muitos homens tenham ido à guerra, mas como explicar o caso das mulheres que também diminuíram quase na mesma proporção que os homens? Por exemplo, em 1849, Julio Arboleda novamente solicitou uma avaliação da propriedade de seu pai Rafael Arboleda. Em sua reclamação, ele afirma que entre 1825 e 1832, 135 escravizados desapareceram da fazenda La Bolsa. Para Julio, o fato de quase metade de seus escravizados terem morrido em 6 anos não é uma explicação plausível, ao contrário, ele considerou que eles foram levados da fazenda. Embora não diga quem os tirou, talvez se refira ao facto de terem sido recrutados para a guerra da independência. No entanto, nos documentos consultados, não identificamos que o número de escravizados recrutados fosse tão alto para um único proprietário. 3.2.1 Pirâmide etária Na fazenda la Bolsa 1789 observamos que sua população infantil é de 39,9%. A população adulta equivale a 52,1%. Em relação à população idosa em 1789 é de 8%. A idade média dos cônjuges é de 37,2 anos para os homens e 33,4 anos para as mulheres. No caso das mães solteiras, a média de idade é de 47,1 anos. O número médio de filhos é de 2,3. Foram contabilizados 110 filhos e filhas nas 48 famílias, destas 76 são menores de 15 anos.
77 77 Tabela 29 Hacienda la Bolsa 1789 Edades Hombres % Mujeres % Total esclavizados % 0-4 años 11 11,7% 13 12,5% 24 12,1% 5-9 años 17 18,1% 14 13,5% 31 15,7% 10-14 años 10 10,6% 14 13,5% 24 12,1% 15-19 años 10 10,6% 10 9,6% 20 10,1% 20-24 años 15 16,0% 9 8,7% 24 12,1% 25-29 años 11 11,7% 4 3,8% 15 7,6% 30-34 años 5 5,3% 9 8,7% 14 7,1% 35-39 años 6 6,4% 6 5,8% 12 6,1% 40-44 años 5 5,3% 8 7,7% 13 6,6% 45-49 años 1 1,1% 4 3,8% 5 2,5% 50-54 años 2 2,1% 7 6,7% 8 4,0% 55-59 años 0 0,0% 3 1,9% 3 1,0% 60-64 años 0 0,0% 3 2,9% 3 1,5% 65-69 años 2 2,1% 1 1,0% 3 1,5% 70 años y más 0 0,0% 0 0,0% 0 0,0% Total 95 100,0% 104 100,0% 199 100,0% Gráfico 2 Fonte: ACC, Sala Arboleda, signatura 335. Em fazenda La Bolsa, no ano de 1832, observamos que sua população infantil é de 36,5% se compararmos com o ano de 1789 não há muita variação (3,4%). Enquanto na -20,0% -15,0% -10,0% -5,0% 0,0% 5,0% 10,0% 15,0% 20,0% 0-4 años 10-14 años 20-24 años 30-34 años 40-44 años 50-54 años 60-64 años 70 años y más Hacienda la Bolsa 1789 Mujeres Hombres
78 78 população adulta (44,2%) há um decréscimo de 7,9% em relação a 1789. No caso da população idosa houve um aumento de 11,3%. Se compararmos a população infantil com a fazenda Japio (51,2%) e a fazenda Quintero (43,6%), notamos que o percentual de meninos e meninas nas três fazendas variou entre 40 e 50% da população escravizada. Tabela 30 Hacienda la Bolsa 1832 Edades Hombres % Mujeres % Total esclavizados % 0-4 años 11 10,9% 14 14,6% 25 12,7% 5-9 años 6 5,9% 9 9,4% 15 7,6% 10-14 años 14 13,9% 18 18,8% 32 16,2% 15-19 años 12 11,9% 15 15,6% 27 13,7% 20-24 años 19 18,8% 2 2,1% 21 10,7% 25-29 años 7 6,9% 4 4,2% 11 5,6% 30-34 años 4 4,0% 7 7,3% 11 5,6% 35-39 años 3 3,0% 2 2,1% 5 2,5% 40-44 años 3 3,0% 4 4,2% 7 3,6% 45-49 años 3 3,0% 2 2,1% 5 2,5% 50-54 años 6 5,9% 6 6,3% 12 6,1% 55-59 años 4 4,0% 3 3,1% 7 3,6% 60-64 años 4 4,0% 1 1,0% 5 2,5% 65-69 años 1 1,0% 3 3,1% 4 2,0% 70 años y más 4 4,0% 6 6,3% 10 5,1% Total 101 100,0% 96 100,0% 197* 100,0% Fuente: ACC, Fondo Arboleda, signatura 86. * El total de la población esclavizada es de 204 pero a 7 personas no les aparece las edades, por lo cual, no están incluidas en esta tabla.
79 79 Gráfico 3 Fuente: ACC, Fondo Arboleda, signatura 86 Dos 204 escravizados, 83,9% (171 pessoas) possuem algum tipo de vínculo parental. A idade média dos cônjuges escravizados foi de 42,8 anos para os homens e 32,5 anos para as mulheres. A idade média das mães solteiras é de 53 anos, enquanto a idade média dos pais solteiros é de 51,8 anos. O número médio de filhos é de 3,2. Dos 103 filhos e filhas pertencentes a 43 famílias, observamos que 41 eram menores de 10 anos e 22 menores de 14 anos. 3.3 FAZENDA QUINTERO A fazenda Quintero fazia parte de um grande território que, juntamente com as fazendas Japio e La Bolsa, cobria a parte plana das bacias hidrográficas dos rios Palo, Japio, Quilichao e Desbaratado que desaguavam no rio Cauca. Sua produção agrícola era composta de cana (mel, açúcar e aguardente). Outras atividades produtivas foram a pecuária, a mineração e a produção de tijolos e telhas (ROMERO, 2017). Em 1812, 155 escravizados foram transferidos do Real de Minas de Santa María distribuídos em 29 famílias para a fazenda Quintero. Em 1819, dessas 29 famílias, 16 famílias (74 pessoas) retornam novamente ao Real de Minas de Santa María. Entre eles a -30,0% -20,0% -10,0% 0,0% 10,0% 20,0% 30,0% 0-4 años 10-14 años 20-24 años 30-34 años 40-44 años 50-54 años 60-64 años 70 años y más Hacienda la Bolsa 1832 Mujeres Hombres
80 80 família de Juan Victor Lucumí e Marcelina Colorado com seus dois filhos: Juana María e Jacobo Felipe. 48 Em 1832, a família de Juan e Marcelina é transferida novamente para a fazenda Quintero. Juan tinha 46 anos e Marcelina tinha 40 anos em estado “inútil” junto com dois filhos, Jacobo Felipe, 22 anos, e Bárbara, 13 anos, cega. Sua filha Juana María não aparece nesta lista. 49 Em 1845, aparece Marcelina Colorado, descrita como "inútil" e sem especificar sua idade. Esta lista não está agrupada por famílias ou idades, por isso assumimos que as duas pessoas que aparecem na lista como Felipe Lucumí e María Juana Lucumí, são seus filhos, Bárbara não aparece nesta lista. 50 Em 1851 Marcelina Colorado reaparece como "inválida" junto com seus dois filhos Felipe e Juana Lucumí como "escravizados úteis". 51 Em 1853, um ano após a abolição da escravatura, Marcelina e seu filho Felipe aparecem como duas das 174 alforrias reunidas por Sergio Arboleda, para receber a divisão das terras da selva que faziam parte da fazenda Pílamo. 52 A fazenda Quintero era de propriedade de José Rafael, mais tarde em 1832 passou para sua esposa Matilde e depois em 1845 para seu segundo filho Sergio. Na lista do ano de 1812, encontramos um total de 155 escravizados, dos quais 72 são homens e 83 são mulheres. Quanto ao estado civil, observamos 19 casais. O número de mulheres solteiras é ligeiramente maior (57) em comparação com homens solteiros (53) (Tabela 31). Tabela 31 Lista de esclavizados Hacienda Quintero 1812 H M Casados Solteros Viudos Casadas Solteras Viudas 19 53 0 19 57 7 72 83 Totales: 155 48 ACC, Fondo Arboleda, Sig. 335, folio 5. 49 ACC, Fondo Arboleda, Sig. 86, documento sin foliación. 50 ACC, Fondo Arboleda, Sig. 53, folios 1 al 3. 51 ACC, Fondo Arboleda, Sig 846, folios 4 al 8. 52 MINA Mateo, pag 59?
81 81 Fonte: ACC, Sala Arboleda, signatura 335. Na Tabela 32, observamos 29 famílias compostas da seguinte forma: 17 são famílias nucleares e 2 são extensas. Vemos também que é significativo o número de famílias chefiadas pela mãe (10). Tabela 32 Hacienda Quintero 1812 Familia nuclear Familia matrifocal Familia patrifocal Familia extensa 17 10 0 2 Totales: 29 Fonte: ACC, Sala Arboleda, signatura 335. No inventário de 1832, a fazenda Quintero possuía os seguintes bens: a casa do mordomo coberta de palha; a ramada do engenho de açúcar com utensílios; a máquina do mesmo trapiche; três fundos embalsamados amplamente utilizados. Sementeras: 11 tipos de cana; 4.976 cacaueiros maiores, algumas pequenas plantações novas; a barra semeada; 20 arrobas de cacau. Pecuária: 40 bovinos reprodutores; 28 bois; 16 touros; 27 mulas; 10 cordeiros; 24 cabras; 1 mula e um bezerro. Terras: são as mesmas da hacienda de la Bolsa; 133 escravizados e ferramentas. A casa do mordomo com telhado de colmo, bastante pequena e em ruínas; a cozinha; a ramada do sal de cozinha; a Igreja coberta de palha muito maltratada. Animais: 28 bois; 3 bestas muares todas muito velhas; Ferramentas; 133 escravizados. Tudo deu um total de 23.726,5 pesos. Tabela 33 Fonte: ACC, Fondo Arboleda, signatura 86 Casados Solteros Viudos Casadas Solteras Viudas 20 51 020 42 0 Totales: 133 Lista de esclavos hacienda Quintero 1832 H M 71 62
82 82 Dos 133 escravizados, observamos um número maior de homens (71) em relação às mulheres (62). O número de pessoas casadas é de 20, sem nenhum caso de viúva ou viúvo. No caso dos solteiros, observamos maior número de homens (50) em relação às mulheres solteiras (43). Tabela 34 Hacienda Quintero 1832 Familia nuclear Familia matrifocal Familia patrifocal Familia extensa 19 5 0 2 Totales: 26 Fonte: ACC, Fondo Arboleda, signatura 86 Na tabela 35, vemos que no ano de 1832, a fazenda Quintero tinha 26 famílias escravizadas. O número de famílias nucleares foi de 19, enquanto encontramos apenas 2 famílias extensas, também observamos 5 famílias com mãe solteira e nenhuma com pai solteiro. No Tabela 34, vemos que no ano de 1845 há uma diminuição de 40% (79 pessoas no total) da população escravizada em relação a 1832. Tabela 35 Lista de esclavizados hacienda Quintero 1845 1851 H M H M 37 42 18 31 79 49 Fonte: ACC, Fondo Arboleda, Signatura 53 y 846 Em 1845 informa-se que há 115 alforriados, destes 76 homens e 39 mulheres menores de 18 anos, isto significa que 59,2% da população que trabalhava na fazenda foi alforriada. Também é mencionado que há dois fugitivos escravizados e três alforriados. Os fugitivos escravizados foram: Juan de la Cruz Grande e Faustino Mandinga. Os fugitivos alforriados foram: Rafael Ramos, José Emidio e Manuel José. Em 1851 encontramos 49 escravizados, dos quais 18 homens incluindo 3 "inválidos" e 31 mulheres com 8 "inválidos". Assim como na fazenda Japio, o número de
89 89 Tabela 42 Mina de San Vicente 1819 Edades Hombres % Mujeres % Total esclavizados % 0-4 años 3 20% 2 16,7% 5 18,5% 5-9 años 3 20% 2 16,7% 5 18,5% 10-14 años 3 20% 2 16,7% 5 18,5% 15-19 años 1 7% 0 0,0% 1 3,7% 20-24 años 0 0% 0 0,0% 0 0,0% 25-29 años 2 13% 2 16,7% 4 14,8% 30-34 años 1 7% 2 16,7% 3 11,1% 35-39 años 1 7% 0 0,0% 1 3,7% 40-44 años 0 0% 0 0,0% 0 0,0% 45-49 años 0 0% 1 8,3% 1 3,7% 50-54 años 0 0% 0 0,0% 0 0,0% 55-59 años 0 0% 0 0,0% 0 0,0% 60-64 años 0 0% 1 8,3% 1 3,7% 65-69 años 0 0% 0 0,0% 0 0,0% 70 años y más 1 7% 0 0,0% 1 3,7% Total 15 100% 12 100,0% 27 100,0% Gráfico 5 Fonte: ACC, Sala Arboleda, signatura 379. -30% -20% -10% 0% 10% 20% 0-4 años 10-14 años 20-24 años 30-34 años 40-44 años 50-54 años 60-64 años 70 años y más Mina San Vicente 1819 Mujeres Hombres
90 90 Tabela 43 Mina de San Vicente 1821 Edades Hombres % Mujeres % Total esclavizdos % 0-4 años 6 15,4% 8 18,6% 14 17,1% 5-9 años 10 25,6% 9 20,9% 19 23,2% 10-14 años 6 15,4% 6 14,0% 12 14,6% 15-19 años 1 2,6% 1 2,3% 2 2,4% 20-24 años 3 7,7% 9 20,9% 12 14,6% 25-29 años 1 2,6% 4 9,3% 5 6,1% 30-34 años 3 7,7% 0 0,0% 3 3,7% 35-39 años 2 5,1% 0 0,0% 2 2,4% 40-44 años 2 5,1% 0 0,0% 2 2,4% 45-49 años 0 0,0% 1 2,3% 1 1,2% 50-54 años 1 2,6% 3 7,0% 4 4,9% 55-59 años 0 0,0% 0 0,0% 0 0,0% 60-64 años 2 5,1% 1 2,3% 3 3,7% 65-69 años 1 2,6% 2 2,3% 3 2,4% 70 años y más 1 2,6% 0 0,0% 1 1,2% Total 39 100,0% 44 100,0% 83 100,0% Gráfico 6 Fonte: ACC, Sala Arboleda, signatura 364. -30,0% -20,0% -10,0% 0,0% 10,0% 20,0% 30,0% 0-4 años 10-14 años 20-24 años 30-34 años 40-44 años 50-54 años 60-64 años 70 años y más Mina San Vicente 1821 Mujeres Hombres
91 91 Tabela 44 Mina de San Vicente 1829 Edades Hombres % Mujeres % Total esclavizados % 0-4 años 14 26,4% 8 14,5% 22 20,4% 5-9 años 5 9,4% 8 14,5% 13 12,0% 10-14 años 6 11,3% 7 12,7% 13 12,0% 15-19 años 4 7,5% 5 9,1% 9 8,3% 20-24 años 13 24,5% 5 9,1% 18 16,7% 25-29 años 1 1,9% 6 10,9% 7 6,5% 30-34 años 4 7,5% 4 7,3% 8 7,4% 35-39 años 2 3,8% 5 9,1% 7 6,5% 40-44 años 2 3,8% 2 3,6% 4 3,7% 45-49 años 0 0,0% 2 3,6% 2 1,9% 50-54 años 0 0,0% 1 1,8% 1 0,9% 55-59 años 1 1,9% 1 1,8% 2 1,9% 60-64 años 0 0,0% 0 0,0% 0 0,0% 65-69 años 0 0,0% 0 0,0% 0 0,0% 70 años y más 1 1,9% 1 1,8% 2 1,9% Total 53 100,0% 55 100,0% 108 100,0% Gráfico 7 Fonte: ACC, Sala Arboleda, signatura 143. 3.5 MINA-FAZENDA DE ASNENGA A mina de Asnenga era uma mina de sal também composta por uma fazenda e fazia parte do mayorazgo. Encontramos apenas uma lista de escravizados do ano de 1832. -30,0% -20,0% -10,0% 0,0% 10,0% 20,0% 0-4 años 10-14 años 20-24 años 30-34 años 40-44 años 50-54 años 60-64 años 70 años y más Mina de San Vicente 1829 Mujeres Hombres
92 92 Encontramos também outra lista sobre a libertação de 33 escravizados entre os anos de 1819 e 1830, dos quais 29 aparecem com preços entre 50 e 300 pesos. Das 33 pessoas, 15 são homens e 18 mulheres. No Quadro X, a mina de sal de Asnenga em 1832 tem um total de 47 escravizados, dos quais 24 são homens e 23 mulheres. Observamos que desses homens 18 são solteiros enquanto na população feminina há 17 mulheres solteiras. O número de casados é de 6 casais. Tabela 45 Encontramos um total de 9 famílias, sendo 6 delas nucleares, 2 parifocais e uma (1) matrifocal. Em outro documento, é mencionada a libertação de 29 escravizados entre 1819 e 1830, com preços que variam de 50 a 300 pesos. Destes, 17 eram mulheres e 12 eram homens. Dessas mulheres, 7 eram casadas, mas seus cônjuges continuavam escravizados; 4 eram filhos de escravizados; 4 casais; e um homem “libertado por sua esposa”; os restantes (13 pessoas) eram aparentemente solteiros porque não são mencionados laços familiares (ACC, Fondo Arboleda, signatura 5). 3.5.1 Pirâmide etária No caso da mina de Asnenga, encontramos uma situação semelhante à da mina de San Vicente, com alta porcentagem da população com menos de 14 anos (46,7%). A população adulta 49% e 4,4% para a população idosa. De um total de 47 pessoas na mina de Asnenga, 76% tinham parentesco. Observamos que nesta mina os cônjuges eram mais jovens do que nas demais propriedades das Arboledas, pois a idade média dos homens era de 29,5 anos e a das Casados Solteros Viudos Casadas Solteras Viudas 618 0 6 17 0 Totales: 47 Lista de esclavos salina de Asnenga 1832 H M 24 23
93 93 mulheres de 28,8 anos. O número médio de filhos foi de 3. De um total de 21 filhos e filhas pertencentes a 9 famílias, 15 eram menores de 10 anos e 5 menores de 15 anos. Tabela 46 Mina Asnenga 1832 Edades Hombres % Mujeres % Total esclavizados % 0-4 años 4 16,7% 3 14,3% 7 15,6% 5-9 años 4 16,7% 4 19,0% 8 17,8% 10-14 años 3 12,5% 3 14,3% 6 13,3% 15-19 años 3 12,5% 1 4,8% 4 8,9% 20-24 años 3 12,5% 4 19,0% 7 15,6% 25-29 años 2 8,3% 1 4,8% 3 6,7% 30-34 años 3 12,5% 2 9,5% 5 11,1% 35-39 años 2 8,3% 1 4,8% 3 6,7% 40-44 años 0 0,0% 0 0,0% 0 0,0% 45-49 años 0 0,0% 0 0,0% 0 0,0% 50-54 años 0 0,0% 0 0,0% 0 0,0% 55-59 años 0 0,0% 2 4,8% 2 2,2% 60-64 años 0 0,0% 2 4,8% 2 2,2% 65-69 años 0 0,0% 0 0,0% 0 0,0% 70 años y más 0 0,0% 0 0,0% 0 0,0% Total 24 100,0% 23 100,0% 47 100,0% Gráfico 8 -20,0% -10,0% 0,0% 10,0% 20,0% 30,0% 0-4 años 10-14 años 20-24 años 30-34 años 40-44 años 50-54 años 60-64 años 70 años y más Mina Asnenga 1832 Mujeres Hombres
94 94 3.6 REAL DE MINAS No ano de 1819, os escravizados na lista do Real de Mina de Santa María, faziam parte do fundo de três capelanias cujo patrono é Dom José Rafael Arboleda, pertencentes ao testamento de Dom Francisco José de Arboleda, seu falecido tio. A primeira capelania foi fundada pelo bacharel Dom Jacinto de Arboleda composta de 142 peças (ou seja, escravizados) por 24.123 pesos; a segunda capelania pertencia a Dom Francisco José de Arboleda com 52 peças por 8.880 pesos; e a terceira capelania fundada por Dom Pedro de Arboleda composta de 193 peças por 36.985 pesos, somando as três capelanias um valor de 69.988 pesos; Também foram adicionados a este fundo 4.000 pesos de Don Diego de Arboleda. 53 Tabela 47 Real de minas de Santa María 1819 H M Casados Solteros Viudos Casadas Solteras Viudas 39 115 1 30 97 19 155 146 Totales: 301 Fonte: ACC, Sala Arboleda, signatura 451. Este Real de Minas de Santa María de Quinimayó tinha uma população escravizada de 301 pessoas. Entre eles 155 (51,5%) homens e 146 (48,5%) mulheres. Vemos que a diferença numérica entre os sexos não foi significativa. No entanto, os homens casados superam as mulheres casadas em 3%. A explicação se deve ao fato de que na lista de escravizados aparecem muitos homens que são casados com escravizadas de outra vontade, ou seja, que pertencem a outro membro da família Arboleda, e por isso não são contabilizados a lista de Dom José Rafael. 53 Era comum para os novos hispânicos que tinham algum dinheiro ou propriedade extra para onerar em algum momento de suas vidas, muitas vezes antes de morrer, fundar uma capelania em massa. Essas fundações, que pertenciam ao gênero das obras piedosas, consistiam na “celebração de certo número de missas anuais em determinada capela, igreja ou altar, afetando para seu sustento a renda dos bens que eram especificados”.O fundador da capelania doou uma quantia para o sustento de um capelão e o referido capelão foi obrigado a rezar um certo número de missas em sua memória. O valor doado foi investido e o capelão recebeu a renda que o investimento produziu. 6 O fundador obteve o benefício espiritual do capelão orando por sua alma e, além disso, teve a possibilidade de purificar alguns de seus pecados, pois, através da doação de capital da capelania, podia "restituir" o dinheiro obtido na uma forma usurária.
95 95 Tabela 48 Mina Santa María De Quinimayó 1819 Familia nuclear Familia matrifocal Familia patrifocal Familia extensa 43 23 1 5 Totales: 72 Fuente: ACC, Sala Arboleda, signatura 451. Encontramos 72 famílias, sendo 43 nucleares, 23 matrifocais, 1 patrifocal e 5 estendidas (Quadro). Em relação às faixas etárias, o escravizado menor de 14 anos equivale a 41,2%. A população adulta de 15 a 49 anos correspondeu a 49,2% e a de idosos de 50 a mais de 70 anos correspondeu a 9,3% (Tabela X). 3.6.1 Pirâmide etária De uma população de 301 pessoas, 89,4% tinham vínculo familiar. A média de idade dos homens casados foi de 35,8 anos, enquanto a média de idade das mulheres casadas foi de 33 anos. A média de idade das mães solteiras foi de 43 anos, porém, no caso dos pais solteiros, encontramos apenas um caso com 61 anos. A média de filhos foi de 2,5. Dos 181 filhos e filhas pertencentes a 72 famílias, observamos que 83 tinham menos de 10 anos e 39 tinham menos de 15 anos.
96 96 Tabela 49 Real de minas de Santa María 1819 Edades Hombres % Mujeres % Total esclavizados % 0-4 años 21 14,0% 18 13,2% 39 13,6% 5-9 años 25 16,7% 15 11,0% 40 14,0% 10-14 años 21 14,0% 18 13,2% 39 13,6% 15-19 años 25 16,7% 17 12,5% 42 14,7% 20-24 años 13 8,7% 21 15,4% 34 11,9% 25-29 años 13 8,7% 10 7,4% 23 8,0% 30-34 años 8 5,3% 6 4,4% 14 4,9% 35-39 años 5 3,3% 6 4,4% 11 3,8% 40-44 años 6 4,0% 4 2,9% 10 3,5% 45-49 años 1 0,7% 6 4,4% 7 2,4% 50-54 años 4 2,7% 6 4,4% 10 3,5% 55-59 años 4 2,7% 3 2,2% 7 2,4% 60-64 años 3 2,0% 2 1,5% 5 1,7% 65-69 años 1 0,7% 1 0,7% 2 0,7% 70 años y más 0 0,0% 3 2,2% 3 1,0% Total 150 100,0% 136 100,0% 286* 100,0% Fuente: ACC, Fondo Arboleda, signatura 451.*De las 301 personas, 15 no aprecen con edades por eso no son contabilizadas en la tabla. Gráfico 9 Fuente: ACC, Fondo Arboleda, signatura 451. -20,0% -10,0% 0,0% 10,0% 20,0% 0-4 años 10-14 años 20-24 años 30-34 años 40-44 años 50-54 años 60-64 años 70 años y más Real de mina Santa María 1819 Mujeres Hombres
97 97 Tipos de famílias Nas três haciendas, minas e no Real de minas da família Arboleda, predominou a família nuclear, seguida pela família matrifocal. Observamos que mais de 80% da população escravizada tinha algum tipo de vínculo familiar, ou seja, tinham cônjuge, filhos, irmãos, netos. Em alguns casos de famílias numerosas encontramos um genro ou uma nora, mas isto não foi freqüente. Não encontramos nenhum outro tipo de relação familiar, tais como sogra, sogro, cunhado, primos, etc. A idade média dos cônjuges era de quase 40 anos para os homens nas três fazendas e na mina de San Vicente. Para as mulheres, a idade média era de 35 anos. Somente na mina de Asnenga e no Real de Minas de Santa Maria, a idade média para ambos os sexos era de menos 32,6 anos para os homens e 30 anos para as mulheres. O número médio de crianças nas fazendas e na mina de Asnega e Real de Minas de Santa Maria estava entre 2,5 e 3 crianças. Enquanto na mina de San Vicente, nos três períodos (1819, 1821 e 1829) eram 1,6 filhos por família. A proporção de sexo entre a população escravizada Na fazenda japonesa, por exemplo, o número de homens escravizados era ligeiramente maior. Por exemplo, em 1821, 54,3% dos escravizados eram mulheres; em 1832, 46,7%; em 1845, 44,8%; e em 1851, 41%. No caso das outras duas fazendas de Quintero e La Bolsa, o oposto era verdadeiro: o número de mulheres era ligeiramente maior. Na fazenda Quintero, 53,5% das mulheres foram escravizadas em 1812, 47,3% em 1832, 53,1% em 1845 e 51,1% em 1851. Na fazenda La Bolsa, 51,7% das mulheres foram escravizadas em 1789, 51,7% em 1812 e 53,4% em 1832. Na mina de San Vicente, a porcentagem de mulheres escravizadas era: 1819 (44,4%); 1821 (55%); 1829 (51%). Enquanto na mina de sal de Asnenga, em 1832, a porcentagem de mulheres era ligeiramente menor (49%) em comparação com a de homens. No Real de minas de Santa Maria, observamos que em 1819, as mulheres respondiam por 48,5%. Estes números nos levam a concluir que a diferença entre os sexos não era tão significativa nas fazendas, minas e Real de minas da família Arboleda. Isto é contrário ao
98 98 que aconteceu na área urbana do cantão de Popayán, onde em 1807 o número de mulheres escravizadas era significativamente alto (76,9%) (Pérez, 2018, p.263). Esta pode ser uma das razões pelas quais a família matrifocal não predominou nas propriedades dos Arboledas. As crianças e os encianos Observamos também uma alta porcentagem de crianças, o que confirma a tese de Colmenares sobre o crescimento vegetativo da população escrava das cuadrilhas e das haciendas. Com relação à população infantil, encontramos o seguinte nas listas que pudemos elaborar das pirâmides etárias: - A Hacienda Japio em 1832 tinha 51,2%. - A Hacienda La Bolsa em 1789 tinha 39,9% e em 1832 tinha 36,5%. - Hacienda Quintero, em 1832, tinha 43,6%. - Mina San Vicente: 1819 tinha 55,5%; 1821 tinha 54,9%; e 1829 tinha 44,4%. - Mina Asnenga, em 1832, tinha 46,7%. - O Real de Minas de Santa Maria em 1819 tinha 41,2%. Em outras palavras, entre 40 e 50% da população escravizada tinha menos de 15 anos de idade. Os libertos Se observarmos a população de alforriados das três haciendas da família Arboleda, vemos que a hacienda Japio em 1845 tinha 77 (32,3%) escravizados e 152 (67,7%) manumitted, dos quais 59 (39%) eram homens e 93 (61%) mulheres. Em 1851, a mesma hacienda tinha 76 (33%) escravizados, dos quais 43 (55,5%) eram homens e 33 (44,5%) mulheres. O número de escravos libertos aumentou de 152 em 1845 para 159, com 83 (52,2%) homens e 76 (47,8%) mulheres. Por outro lado, a fazenda Quintero em 1845 tinha uma população escravizada de 79 pessoas, 37 (46,8%) homens e 42 (53,2%) mulheres. Com relação aos libertos, eram 115, com um número maior de homens (66%) do que de mulheres (44%). Em 1851, o número
105 105 seus filhos. Em 1851, descobrimos que Juan de la Cruz Grande tem 48 anos e seu preço é de 125 pesos. Sua esposa não aparece, mas presumimos que apareçam duas filhas (a lista não diz o vínculo familiar, apenas o sobrenome): Marcela e Tomasa como alforriadas arranjadas, com 20 e 18 anos, respectivamente. Observamos os diferentes deslocamentos desta família, primeiro eles estavam na fazenda Quintero, depois foram transferidos para a fazenda Asnenga, de lá foram para Buenaventura e novamente voltaram para a fazenda Quintero. Vemos também que era comum que toda a família fosse vendida. Por outro lado, o voo foi para alguns a oportunidade perfeita entre deslocamentos ou migrações internas como foi para Juan de la Cruz. 4.2 FAMILIA DE MANUEL CRUZ PEÑA Vejamos outro caso em que houve mais movimento ou deslocamento físico. Manuel Cruz Peña, escravizado do Real de Minas de Santa María em Guapi, em 1812 é transferido com sua família para a fazenda Quintero. Sua esposa era María Josefa Cachimbo e seus filhos: María Santos (filha legítima), María Francisca (filha natural) e Juan Francisco (filho natural). 63 Em 1819, Manuel junto com sua família aparece na lista do Real de Minas de Santa María. Não sabemos quando foram transferidos de volta para o Real, o que sabemos é que nessa data Manuel estava foragido. Esta lista mostra as idades de todos os membros da família: Manuel, 25 anos, María Josefa, sua esposa, 27 anos, María Francisca, a filha mais velha, 11 anos, Juan Francisco, 9 anos e María Santos, 5 anos de idade. Em outro documento sobre uma ação judicial sobre os limites entre a fazenda La Bolsa e a fazenda Pílamo, Manuel Cruz Peña, 90 anos, aparece como testemunha. Em sua declaração ele descreve vários eventos de sua vida até 1831: […] Que cuenta unos noventa años de edad porque cuando murió don Francisco Antonio Arboleda (1793) bisabuelo de la parte que lo presenta por testigo, ya él era niño y que cuando empezó la primera guerra, ya era hombre y después de la 63 Não sabemos se “natural” se refere ao fato de que seus filhos nasceram antes do casamento de Manuel e María, ou se são filhos de outra mãe ou pai.
106 106 batalla de Calibío, en que estuvo como peón, fue a dar hasta Guayaquil hombre hecho y derecho. Que desde la época de la batalla de Pitayó cuando vino por primera vez el Libertador Bolivar aquí, hasta el año de 1831 fue capitán de la cuadrilla de Japio […]. Que desde que entró de capitán de la cuadrilla en Japio, conoció las Perezosas de la Dominga [tierras] y Japio de este lado del río, con mucho monte; pues estaban allí las labranzas de doña Teresa Hurtado, y luego las de Japio, y la de la Dominga y la de varios agregados […]” (ACC, Fondo Arboleda, Sig 110, folio 4). 64 Muito provavelmente, sua transferência para Guayaquil foi devido à sua participação nas guerras de independência. Talvez tenha sido neste movimento PopayánGuayaquil-Popayán que Manuel começou a fugir. Não sabemos se ele retornou à fazenda Japio por vontade própria ou porque foi capturado, mas o certo é que ele se tornou capitão de gangue nessa fazenda. Após estar na fazenda Japio, Manuel Cruz Peña foi transferido para a fazenda Quintero. Na lista de 1832 aparece com 35 anos, formando outra família: Petrona, sua esposa, 32 anos, e seus filhos: María Juliana, 12 anos; São João de 10 anos; Pioquinto, 7 anos; María Eufracia, 5 anos, e María Regina, 2 anos. Tentamos rastrear sua família anterior, mas não encontramos seus nomes em listas posteriores ou outros documentos. Talvez quando Manuel voltou de Guayaquil, ele não encontrou sua primeira família, talvez sua esposa tenha morrido ou eles tenham sido vendidos, ou talvez sua esposa tenha reconstruído outra família. Quando as famílias foram separadas pelo recrutamento do marido, as chances de eles retornarem eram poucas, seja porque morreram em batalha ou porque fugiram como foi o caso de Manuel. Pode acontecer que a formação de uma nova família também tenha acontecido porque o casamento não deu certo. Como no caso de Domingo Mariano Viáfara e María Francisca Carabalí, que se casaram no Real de Minas de Santa María e devido ao adultério de Domingo com a prima de sua esposa, ele foi transferido para a fazenda La Bolsa para constituir sua nova familia (Arquidiócesis de Popayán, signatura 8133). 64 […] Que tem cerca de noventa anos porque quando morreu Dom Francisco Antonio Arboleda (1793), bisavô do partido que o apresentou como testemunha, já era criança e quando começou a primeira guerra já era um homem e depois da batalha de Calibío, onde foi operário, acabou em Guayaquil como um homem de pleno direito. Que desde a batalha de Pitayó quando o Libertador Bolívar aqui veio pela primeira vez, até o ano de 1831 ele foi capitão da quadrilha Japio […]. Que desde que se tornou capitão da quadrilha no Japio, conhece as Preguiças de Dominga e Japio desse lado do rio, com muita mata; Bem, lá estavam as fazendas de Dona Teresa Hurtado, depois as de Japio, e a de Dominga e a de vários agregados [...]” (ACC, Fondo Arboleda, Sig 110, folha 4) (tradução nossa).
107 107 Em 1845, encontramos Manuel Cruz Peña novamente em uma lista da fazenda Quintero, mas as famílias não são especificadas nesta lista. O nome de Petrona aparece, mas não sabemos se ela é sua companheira e não encontramos os nomes de seus filhos (ACC, Fondo Arboleda, Sig 53, folio 1). Finalmente, na lista de 1853, Manuel aparece ao lado do nome de Pioquinto Peña, que poderia ser seu filho, como parte das 174 alforrias das famílias Arboledas, Arroyo e Larrahondo, que receberam terras da antiga fazenda Pílamo por Sergio Arboleda, em troca de terra, que era um pagamento de arrendamento para a terra em espécie ou trabalho. Observando a vida de Manuel, podemos identificar os deslocamentos que teve ao longo de 90 anos. Ele aparece pela primeira vez na lista do Real de Minas de Santa María, depois foi para Guayaquil recrutado para as guerras de independência; voltou a Caloto para a fazenda Japio onde permaneceu como capitão da tripulação até 1831; depois, em 1845, a encontramos na fazenda Quintero. E uma vez livre, no período pós-abolição, Manuel possivelmente ficou com sua família nas terras próximas às fazendas de seus antigos senhores. O caso da família de Juan de la Cruz Grande e das duas famílias de Manuel Cruz Peña, mostra-nos as migrações que os escravizados tiveram a nível individual ou por pequenos grupos familiares. No entanto, os deslocamentos geográficos também foram feitos por grandes grupos familiares entre as diferentes fazendas e minas reais da Arboleda ou por grandes vendas, como no caso do Panamá, Guayaquil e Peru. Por isso, nas listas de escravizados das três principais fazendas estudadas (Japio, Bolsa e Quintero) não encontramos a continuidade de muitos grupos familiares em um período de 63 anos (1789 a 1852). O deslocamento físico pode ser a oportunidade certa para escapar, como foi o caso de Juan de la Cruz e Manuel Cruz Peña. Devido a esses movimentos constantes, os escravizados conheciam muito bem as rotas, caminhos e geografia do local. Não é por acaso, por exemplo, que Manuel Cruz Peña foi chamado para depor sobre um problema com os limites da Bolsa. O primeiro grande deslocamento físico ocorreu em 1812 do Real de Minas de Santa María de Quinamayó para a fazenda La Bolsa e a fazenda Quintero. A mudança seguinte
108 108 foi em 1819, quando várias famílias dessas duas fazendas foram devolvidas ao Real de Minas. Esses escravos foram recebidos em Guapi, em outra lista encontramos que alguns deles foram encaminhados para a mina San Vicente (22) e outros (5) foram entregues a José María Mosquera. Mais tarde, entre 1820 e 1821, 50 escravos foram transferidos da mina de San Vicente, na costa do Pacífico, para a fazenda Japio. Isso confirma o que diz Colmenares (1979) sobre o crescimento da população escravizada em Popayán no final do século XVIII e início do século XIX. Este crescimento deveu-se mais à migração interna devido à transferência massiva de tripulações para as fazendas e não apenas à reprodução vegetativa. Por outro lado, como demonstra Mario Diego Romero, os deslocamentos ou a ampla mobilidade dentro e fora das fazendas transformaram os espaços de produção econômica agrícola e mineira em cidades negras, competindo pelo território com os grandes latifundiários. As comunidades negras construíram uma sociedade camponesa no final dos séculos XVIII e XIX nas imagens das haciendas. Ao contrário da região do Pacífico, onde predominava o absenteísmo dos mineiros devido às difíceis condições geográficas, que favoreciam um "pactismo" com as comunidades negras permitindo-lhes maior controle sobre os territórios, no Vale do Cauca era diferente, os administradores das haciendas ou havia minas, a distância da cidade às fazendas era de horas e alguns filhos ou parentes dos proprietários das fazendas eram os mesmos administradores das propriedades, enfim, o que significava que a formação das sociedades negras e a ocupação dos territórios era um situação de grande confronto entre latifundiários e escravizados (ROMERO, 2009).
109 109 5 FAMÍLIA E PAZ NAS FAZENDAS? A paz nas fazendas e nas minas não era garantida pela formação das famílias, embora fosse crença dos senhores, pois na prática a realidade da escravidão era tão complexa que a dita "paz" muitas vezes dependia da capacidade de adaptação e adaptação dos escravizados. resistência, ou seja, às possibilidades de negociação e, claro, a família foi um elemento-chave nessas situações. Ou seja, as famílias dos escravizados sempre estiveram presentes em tempos de paz e em tempos de guerra, não foi por acaso que em 1847 147 famílias foram exportadas para o Peru por “rebeldes”, como veremos mais adiante. Em tempos de "paz", ou seja, quando não havia guerra civil, famílias escravizadas e redes comunais de cativos e livres serviam de suporte para outras formas de resistência, como fugas, maroonage e roubo de gado. Estiveram também no cotidiano das pequenas negociações e da resistência cotidiana nas fazendas, minas e Real de Minas, como veremos nas partes III e IV. Voltando ao debate historiográfico no Brasil sobre a família escravizada mencionado na introdução, para Manolo Florentino e José Roberto Góes (1997), a família cativa foi o pilar da escravidão, o que gerou um pacto de paz entre escravizados e senhores, reduzindo os conflitos entre escravizados de diferentes origens. Para Hebe Mattos (1995), o casamento escravo e seus benefícios na ocupação de um cargo especializado ou doméstico e a formação de uma comunidade separada das "senzalas" dificultavam a mobilidade coletiva da revolta. Ao contrário, Robert Slenes (1999), reconhece que houve disputas para conseguir um casamento ou uma posição doméstica especializada, mas isso foi superado pela partilha da mesma herança cultural centro-africana. Para Ricardo Figuereiro Pirola (2011), com a análise do plano de uma revolta de escravos de 15 engenhos de açúcar em 1832 em São Carlos (Campinas, Brasil), verificou que os rebeldes moravam há mais de 10 anos nas mesmas propriedades, eram casados, tinham família, conheciam a língua portuguesa, as estratégias de controle senhorial e as terras da região. Alguns dos desordeiros tinham tarefas especializadas dentro das propriedades, ou seja, tinham mais oportunidades de economizar e comprar sua liberdade. Em outras palavras, o que Pirola descobriu é que a família escravizada e a ocupação de um cargo doméstico especializado
110 110 não foram fatores suficientes para desmobilizar as "senzalas", além disso o perentesco escravizado ajudou a união de várias senzalas para a rebelião (PIROLA, 2011, p. 244). No caso das fazendas do vale do rio Cauca, o maroonismo e as fugas coletivas e a formação de povos livres nas margens das haciendas desafiaram não apenas a ordem escravista, mas também escravizados, libertos e livres foram construindo formas alternativas de vida e população, tirando a tranquilidade e claro a "paz" dos donos de escravos (ROMERO, 2017). Para Romero, o matrimônio ocorrido na zona sul do vale do rio Cauca foi uma manifestação social da comunidade, para a qual ele a chama de sociedade quilombola. Na medida em que as fugas individuais foram direcionadas para cidades livres ou escravizadas que os protegem clandestinamente, a comunidade se envolveu com o maroonismo e com seu apoio aos fugitivos (ROMERO, 2017). A sociedade quilombola formou cidades “en donde los procesos sociales de construcción familiar y comunitaria estuvieron asociados a la resistencia, la participación de la comunidad en los procesos de liberación y en la construcción de economías propias agropecuarias y mineras” 65 (ROMERO, 2017, p. 131). Sem negar que poderia ter havido uma paz nas fazendas como resultado da formação das famílias, essa paz não durou. Nas fazendas de Los Arboledas, essa paz era condicional, negociada e, embora às vezes pudesse ter sido em benefício dos senhores, outras não, como no caso de fugas, animais selvagens e roubo de gado, casamento e debandagem de gado. Vejamos: 5.1 FUGAS E MATRIMÔNIO É o caso de Juan María Mina e Juliana Nango. Em 15 de maio de 1823, José María Montaño, um negro escravizado pelo senhor Antonio Arboleda da mina de Santa María, compareceu perante o prefeito de Pedáneo do Partido del Palo, para informá-lo de que “andando en los montes de la hacienda del Jagual de la pertenencia del señor José Cayetano Escobar, aprehendió al expresado negro que dice llamarse Juan María Mina y a su concubina Juliana Nango en un rancho que tenía de habitar y a sus alrededores unas matas 65 “onde os processos sociais de construção familiar e comunitária estiveram associados à resistência, à participação da comunidade nos processos de libertação e na construção das suas próprias economias agrícolas e mineiras” (tradução nossa).
111 111 de tabaco, cuyo número serán de treinta poco más o menos y mal cultivadas […]” 66 (ACC, Signatura: 1442, Ind. J I -2 r). Na declaração de Juan María Mina, ele disse que abandonou o serviço de seu mestre Antonio Arboleda há dez meses. Ele levou sua concubina Juliana há três meses da fazenda Jagual e eles sobreviveram fazendo e vendendo chapéus de palha. Com esse dinheiro compraram carne e sal e roubaram bananas. Embora admita que cultivou plantas de tabaco, diz que fez “con el sólo fin de consumirlo en su propio uso” 67 (ACC, Signatura: 1442, Ind. J I -2 r). Para o mês de junho, o prefeito foi à plantação de tabaco de Juan María Mina, e observou cerca de setenta pés de tabaco que podiam produzir uma arroba e valer doze reais devido à má qualidade de seu cultivo, então com outros dois homens escravizados eles destruiu a plantação de tabaco. O processo durou quatro meses, para o mês de setembro o prefeito emitiu a sentença de que Juan María Mina seja punido "corretamente" pelo prefeito. Ficaria sob sua vigilância para não se dedicar ao plantio fraudulento de fumo. E “bajo responsabilidad del mismo mayordomo deberá darse cuenta a la justicia de Caloto en caso de nueva fuga del esclavo, o de sospecha en el defraude a la renta de este ramo” 68 (ACC, Signatura: 1442, Ind. J I -2 r). O controle do contrabando de tabaco era muito importante porque os Arboledas estavam envolvidos no cultivo do tabaco desde a primeira década do século XIX. Em 1814, em comunicação de José Rafael Arboleda ao Administrador Principal do Tabaco, informa-o do êxito obtido com a tentativa de plantar tabaco nas margens do rio Palo: "Se ha producido con una abundancia que me tiene bastante satisfecho de mis primeras experiencias. No dudo que la calidad corresponda al esmero con que se ha cultivado y a la elección muy circunspecta que se ha hecho de las semillas". 69 Rafael calculou para poder embalar 60 66 “Andando pelas montanhas da fazenda Jagual pertencente ao senhor José Cayetano Escobar, prendeu o mencionado negro que diz se chamar Juan María Mina e sua concubina Juliana Nango em um rancho onde ele teve que viver e em seus arredores alguns plantas de tabaco, cujo número será trinta mais ou menos e mal cultivadas [...]” (tradução nossa). 67 “com o único propósito de consumi-lo para seu próprio uso” (tradução nossa). 68 “Sob a responsabilidade do próprio prefeito, ele deve informar à justiça de Caloto em caso de nova fuga do escravo, ou suspeita de fraude no aluguel deste ramo” (tradução nossa). 69 "Foi produzido em tal abundância que estou bastante satisfeito desde as primeiras experiências. Não tenho dúvidas de que a qualidade corresponde ao cuidado com que foi cultivado e à escolha muito criteriosa que foi feita das sementes." (tradução nossa).
112 112 cargas e solicitou autorização para seu acondicionamento e encaminhamento (ACC, Signatura: 4595, Ind. C II -22 et). Essa situação de assentamentos nas margens das haciendas por escravos fugidos, libertos e população livre preocupava a elite escravista do sudoeste. Nestes territórios a população cultivava produtos agrícolas para sua subsistência e os excedentes eram vendidos nas minas. O que gerou uma dinâmica mais ou menos autônoma dessas comunidades longe do controle das autoridades. Assim, o contrabando de tabaco pelas comunidades era uma situação que precisava ser regulamentada pelos proprietários, pois eles tinham interesse em comercializar o produto no exterior. Após várias tentativas, finalmente em 1845 conseguiram exportar tabaco sob a presidência de Tomás Cipriano de Mosquera (DÍAZ, 2015). No mesmo ano de 1845, Julio Arboleda, filho mais velho de Rafael Arboleda, escreveu uma carta ao tio Tomás Cipriano de Mosquera, na qual comentava sua preocupação com as plantações clandestinas de fumo. Pediu-lhe que regulasse os rendimentos das colheitas, entregando-os a "pessoas de reconhecida responsabilidade" para terem maior controlo e assim impedir que os alforriados ou libertos se tornassem proprietários dessas terras: Las siembras clandestinas de tabaco son inmensas allí. Puede calcularse que hay más de mil personas dedicadas exclusivamente a aquella ilícita industria. El resguardo tala apenas las pocas sementeras que puede hallar cerca de las orillas de los montes puestas algunas veces de propósito a su avance por aquellos inveterados contrabandistas para distraerlos de las mejores y más pingues, que en lo más seguro de la selva cultivan y benefician. Los manumitidos van reuniéndoseles como van entrando en el goce de su libertad, formando parte de esa horda de criminales, que así se roban diez o veinte reses como siembran diez o viente mil plantas de tabaco en la tierra ajena. Este mal se va extendiendo mucho: antes casi no había contrabandistas en el distrito parroquial de Buenos Aires, y en el día ya hay algunos que roban lo mismo que los del Palo. […] Dentro de nueve o diez años el demonio nos va a llevar a los que tenemos propiedades en ese maldito lado de caloto. Los nuevos libertos serán dueños de todas nuestras tierrasno habrá críasni jornalerosporque mejor es ser contrabandista. Entonces ¿Qué hacemos? – Nada, porque el remedio que ahora es posible y aún fácil será imposible ya entonces. (ACC, Fondo Arboleda, Carta de Julio Arboleda a Tomás Cipriano de Mosquera, Noviembre 10 de 1845. Retirado de DÍAZ, 2015, p, 158) 70 70 As plantações clandestinas de tabaco são imensas ali. Pode-se estimar que existam mais de mil pessoas dedicadas exclusivamente a essa indústria ilícita. A reserva mal corta as poucas colheitas que pode encontrar perto das bordas das montanhas, às vezes reservadas para seu avanço por contrabandistas inveterados para distraí-los dos melhores e maiores, que cultivam e aproveitam na parte mais segura do selva. Os alforriados
113 113 No entanto, o boom do tabaco gerou pressão para abolir o monopólio do cultivo, para o qual, em 1846, o Congresso decretou a liberdade de cultivo e estabeleceu o imposto de exportação do tabaco. No ano seguinte foi decretado um imposto sobre o plantio da folha. No caso de Los Arboledas encontramos vários casos de vazamentos. Por exemplo, no diário de gastos da fazenda Japio entre os anos de 1830 e 1838 encontramos 8 fugas – uma média de uma fuga por ano – dessas fugas, sete correspondiam a homens e uma mulher. Levando em conta que eles poderiam ter entre 100 a 200 escravizados nesta fazenda, o número de fugitivos não era alto. A fuga e o maroonage significavam um processo de resistência, era também a forma de ocupar e usufruir de um território. Era também a forma de formar famílias sem as restrições ou o controle do mestre e da Igreja. Era para sair da consanguinidade a que muitos eram forçados por não terem mais opções de casamento, mas dentro da mesma fazenda ou mina de seu senhor ou senhora. Em outras palavras, a fuga e o maroonage, além de ser um ato de resistência econômica e política como desafio à autoridade para alcançar a liberdade, era também um ato de livre escolha do cônjuge e da formação da família. 5.2 DEBANDAGEM DE GADO No matrimônio também vemos as cumplicidades entre os livres e os escravizados e como as redes comunais e parentais facilitaram ações como o roubo de gado. Em 1799, no Real de Minas de Cerrogordo, Feliciano e Lauro, escravos fugidos da propriedade das freiras mães de Carmen, feriram Dom Cristóbal Manzano e Dom Julián Manzano quando este tentou recuperar uma vaca roubada. Dom Julián Manzano foi com seu tio, Dom Cristóbal Manzano, procurar uma novilha que lhe faltava porque não estava entre seu gado no sítio de Taula (Caloto). Quando vão juntando-se a eles quando começam a gozar da liberdade, fazendo parte dessa horda de criminosos, que assim roubam dez ou vinte bois enquanto plantam dez ou vinte mil pés de tabaco em terras alheias. Este mal está se espalhando muito: antes quase não havia contrabandistas no distrito paroquial de Buenos Aires, e hoje já existem alguns que roubam os mesmos que os de El Palo. […] Dentro de nove ou dez anos o diabo vai levar aqueles de nós que têm propriedades naquele lado maldito de Caloto. Os novos libertos serão donos de todas as nossas terras - não haverá crianças - nem diaristas - porque é melhor ser contrabandista. Então o que fazemos? – Nada, porque o remédio que agora é possível e ainda fácil será impossível mesmo assim. (tradução nossa).
114 114 foram procurá-la, encontraram um rancho com três negros e duas negras que cortavam carne. Estes, percebendo sua presença, fugiram. Imediatamente, Julián e Cristóbal se aproximaram do local e reconheceram a carne da vaca perdida. Quando começaram a recolher a carne, os dois pretos (Manuel e Lauro) saíram do esconderijo e começaram a atirar pedras neles até que uma delas atingiu o ombro de Cristóbal. Mais tarde, os dois negros se aproximaram para atacá-los com sabres, ferindo-os, então Julián e Cristóbal fugiram do local. É claro que a situação foi denunciada às autoridades, levando à captura dos presos Manuel e Lauro no sítio Cocorocó junto com outros negros e negras que fugiram. Uma das primeiras detentas a depor foi Bárbara Candela, em seu depoimento ela nega ser cúmplice do roubo, por coincidência estava na casa de Feliciano e Lauro quando aconteceu o ataque a Julián e Cristóbal: “[…] Que se llama Bárbara Candela que es vecina de esta jurisdicción que es de estado soltera y que su oficio es ser lavadora de oro, y también labradora. Cuando se le preguntó los motivos por los que fue aprendida, ella contestó que fue por estar ella con su hija María Manuela en casa de los negros Feliciano y Lauro esclavos del Real de Minas de Cerrogordo […]” 71 (ACC, Fondo Arboleda, signatura 8041, folhas 5-6). Questionada também se sabia se Feliciano e Lauro haviam praticado outros furtos de gado, ela respondeu que não sabia de nada. A declaração de sua filha María Manuela é mais específica, pois reconhece sua cumplicidade não só neste assalto, mas em vários outros e confessa ter tido uma amizade ilícita com Lauro: Responde que ella se llama Maria Manuela que es vecina de esta jurisdicción que es mayor de veinte años que es de estado soltera que su oficio es lavar oro. […] que el motibo de su prisión es por haberla encontrado el señor Alcalde inmediata a la casa en donde estaban unos negros que solicitaba el dicho señor Alcalde quien la prendió. […] que conoce a los negros referidos que con el uno que es Lauro tubo ilícita amistad y que el otro es su compadre y que sabe andan huidos. […] que le consta que el dia dos del corriente los negros Feliciano y Lauro se robaron una vaca que decían era de Don Cristóbal Manzano con cuyo motivo convidaron a la confesante para que le ayudase a beneficiar y concurrieron también Luisico Vergara, Bartolo Aguilar, Pedro Aguilar, su madre Barbara Candela, Rita Vergara y Maria Vergara quienes estuvieron en aquel día por 71 “[…] O nome dela é Bárbara Candela, que mora nesta jurisdição e é solteira e seu trabalho é ser garimpeira e também agricultora. Questionada sobre os motivos de sua prisão, ela respondeu que era porque estava com sua filha María Manuela na casa dos negros Feliciano e Lauro, escravos do Real de Minas de Cerrogordo […]” (tradução nossa).
121 121 Outras leis se seguiram, por exemplo, em 1823 foi proibido o comércio de escravos, com exceção da comercialização dos escravos utilizados nos serviços, que na prática deu continuidade ao comércio já que os escravos eram utilizados como servos. Isso resultou na reiteração da proibição do comércio em 1825 (TOVAR, 1994). A lei de 1821 também regulamentava as Juntas de Alforria, que eram compostas por um juiz local, o padre, dois vizinhos e um tesoureiro. O dinheiro para manter as Juntas geralmente vinha dos necrotérios. Os fundos foram depositados a um tesoureiro nomeado pelo governador da província (TOVAR, 1994). O funcionamento das Câmaras era muito precário devido ao interesse dos proprietários em conservar seus escravizados. Entre 1831 e 1845, na província de Popayán, 58 pessoas foram alforriadas (TOVAR, 1994). Como vimos anteriormente, o número de alforriados nas fazendas de Los Arboledas excedeu em muito esse número (TOVAR, 1994). Em 21 de julho de 1839, deveria entrar em vigor a lei de 21 de julho de 1821, ou seja, os filhos ou filhas de mulheres escravizadas que tivessem 18 anos deveriam ser livres. Devido à pressão dos proprietários para não perder o que haviam investido em seus escravizados, o Estado buscou a conciliação na promulgação da lei de 27 de julho de 1839, que ordenava aos padres que enviassem relatórios dos filhos de escravizados nascidos entre 1821. e 1824, de modo que as Juntas deveriam entregar um documento aos escravizados informando-os quando seus filhos entrariam para gozar de sua liberdade. No entanto, a lei não foi eficaz porque entre 1839 e 1841 começou a Guerra dos Supremos. Terminado o conflito, o Estado promulgou a lei de 29 de maio de 1842, que estendeu a dependência dos de Escravos. “A lei estabelecia: 1) que os filhos dos escravos nascidos a partir do dia da publicação da lei nas capitais provinciais seriam livres, mas permaneceriam sob a jurisdição dos senhores de suas mães até a idade de dezoito anos; 2) que os senhores eram obrigados a cuidar e educar os "libertados" e estes, por sua vez, deveriam trabalhar para os senhores de suas mães até o momento de sua total libertação; 3) que os escravos não poderiam ser vendidos fora da província em que residiam, nem fora do território da Colômbia; 4) que era proibida a introdução de escravos sob qualquer forma; 5) que com certos impostos sobre heranças, especificados na lei, seria criado um fundo para a alforria de escravos; 6) que, para arrecadar esses fundos e utilizá-los na alforria dos escravos, foi fundada uma junta chamada alforria em cada chefe de cantão, composta pelo primeiro juiz do lugar, o vigário eclesiástico estrangeiro, se houver, e em na sua ausência, o pároco, dois vizinhos e um tesoureiro de responsabilidade, nomeados pelos governantes de cada província; 7) que anualmente, nos dias 25, 26 e 27 de dezembro, a Junta de cada cantão libertaria os escravos que pudesse de acordo com os recursos disponíveis; 8) que todos os escravos emancipados por ordem dos governos republicanos anteriores e posteriormente reduzidos à escravidão devem recuperar a liberdade perdida (CASTELLANOS, 1980, p.30).
122 122 escravizados por mais 7 anos por meio de concerto ou aprendizado. Essa lei estabelecia que os escravos de 18 anos seriam apresentados aos prefeitos que deveriam arranjá-los para servir seu antigo senhor ou outra pessoa que pudesse "educá-los e instruí-los" em um ofício, arte ou profissão (TOVAR, 1994). Voltando ao caso da venda de famílias escravizadas no Panamá, na verdade foram 196 escravizados que finalmente chegaram à fazenda Vigue. A lista dessas pessoas foi elaborada em Quilichao por Fermín Rengifo em seu retorno do Panamá. Esta lista detalha os nomes, relacionamento, estado civil e idade. Notamos que dessas 196 pessoas, 95 eram homens e 101 mulheres, incluindo 55 alforriados. Eles também formaram 44 famílias, das quais 28 nucleares e 16 matrifocais. Pudemos verificar que 8 dessas famílias pertenciam ao espólio Japio em 1821 (ACC, Fondo Arboleda, signatura 379). 6.1 FAMÍLIA DE PETRONA CARBONERO A família de Petrona Carbonero aparece em 1821 na lista unificada das propriedades Japio e La Bolsa e depois foi transferida para o Panamá. Em 1821, Petrona aparece como mãe solteira com quatro filhos: Pedro Pablo, María Paula, José María e Juan de la Cruz. Mais tarde, Petrona aparece na lista da fazenda Vigue, sem data, mas supomos que foi depois de 1829 quando as famílias já estavam instaladas no Panamá. Na fazenda Vigue encontramos mais uma criança para um total de cinco crianças: Pedro Pablo, 15 anos; Maria Paula, 12 anos; José Maria, 10 anos; Sebastián, 10 anos, e Juan de la Cruz, 18 anos. Sebastián aparece nesta última lista e é impressionante que seja um menino grande, até tem a mesma idade de José María se estivesse em Japio. Isso pode significar duas coisas: uma, que não foi considerado na primeira lista do Japio; dois, que no Panamá foi “adotado” pela família, talvez porque estivesse sozinho. 6.2 FAMÍLIA DE JUSTO MANCILLA E ISADORA Justo Mancilla e Isadora aparecem na lista do "Povo do Valle del Cauca" com seus filhos: Leonarda, José María, Pedro Isabel (alforriado), María Gregoria (alforriada), María Rosa (alforriada), María Marta (alforriada) e Fortunato (alforriado). No Panamá Justo é
123 123 capitão de tripulação, seus filhos aparecem com as seguintes idades: Leonarda (12), José María (10), Pedro Isabel (6), María Gregoria (6), María Rosa (4) e María Marta (1). Fortunato não aparece. 6.3 FAMÍLIA DAMASCO VIVEROS E VICENTA VÁSQUEZ Encontramos a família Damasco e Vicenta na lista unificada das propriedades Japio e La Bolsa em 1821. Aqui sua família era composta por duas filhas: Juana María e María Josefa. Mais tarde os encontramos na lista de “Povo do Valle del Cauca”. Finalmente, eles aparecem na lista da fazenda Vigue. No caso desta família podemos observar as mudanças ao longo das três listas. Na lista de "Povo do Valle Cauca" a família cresceu e de duas filhas passou a cinco filhos: María Josefa, José María, Domingo (alforriado), María Lustrísima (alforriada) e Juana Petrona (alforriada). Na fazenda Vigue, a família permaneceu com o mesmo número de filhos: Juana María, 14 anos; Maria Josefa, 12 anos; José Maria, 10 anos; Domingo, 8 anos, e María Lustrísima, 2 anos. Notamos que Juan María, o filho mais velho, não estava nas listas anteriores, por isso assumimos que ele também é “adotado”. 6.4 FAMÍLIA FLORENCIA CHARRUPÍ Florencia Charrupí é mãe solteira, em 1821 aparecem quatro filhos: Manuela María, María Cosme, María Cecilia e Isidoro de León. na fazenda Vigue em 1829, Florencia reaparece com seus quatro filhos: Manuel María, 18 anos; Isidoro de León, 8 anos; María Cosme, 14 anos, e María Cecilia, 10 anos. 6.5 FAMÍLIA LAUREANA Em 1821 Laureana é mãe solteira de duas filhas: María Cruz e María Pascuala. Na lista de “Gente do Valle del Cauca”, sua família cresce, além de María Cruz e Pascuala (alforriado), Micaela (alforriada) e Francisco (alforriado) também aparecem. No entanto, no
124 124 Panamá, Laureana reaparece com apenas duas filhas: María Cruz, 12 anos, e Pascuala, 9 anos. 6.6 FAMÍLIA JOSÉ MARÍA SINFOROSO E SALVADORA A família de José María Sinforoso e Salvadora aparece na fazenda Japio em 1821 com seus dois filhos: Pedro Pablo e Camila. Na lista do "Povo do Valle del Cauca" aparecem como alforriados os filhos Pedro Pablo, Camila e "outro filho", cujo nome não é mencionado. Para o ano de 1829 no Panamá, a família é novamente reduzida a dois filhos: Pedro Pablo, 3 anos, e Camila, 2 anos. 83 6.7 FAMÍLIA CELESTINO E BONIFACIA No ano de 1821, a família de Celestino Biáfara e Bonifacia María era composta por seus filhos: María Petrona, María Francisca, María Juana e Ruperto. Na lista de "Povo do Valle del Cauca" sua filha María Petrona não aparece, María Juana e Ruperto aparecem como alforriados. Na lista da fazenda Vigue, aparece María Petrona, 2 anos; Maria Francisca, 9 anos; María Juana, 5 anos, e Ruperto, 2 anos. 6.8 FAMÍLIA PASCUAL LUCUMÍ E BACILIA VÁSQUEZ Em 1821 Pascual e Bacilia têm como filhos: María Rosalía, Agustín, Manuel María, Martina e Domingo. Na lista do "Povo do Valle del Cauca", encontramos Pascual sem Bacilia e os seguintes filhos: Agustín, Victoria, Manuel María, Martina e María Angela (manumisa). Na fazenda Vigue, Bacilia reaparece com mais filhos (7): María Rosalia, 18 anos; Agustín, 16 anos; Manuel Maria, 14 anos; Martina, 10 anos; Domingo 8 anos; Ângela, 6 anos, e Victoria, 12 anos. Ildefonso Manzano, genro de Pascual, também aparece, assumimos que ele é o marido de sua filha mais velha María Rosalia. 83 Podemos ver que as idades não coincidem, pois entre 1821 e a data em que foi feita a lista da fazenda Vigue – aproximadamente 1829devem ter passado pelo menos 9 anos. Ambas as crianças devem ser mais velhas.
125 125 7 FAMILIA E RECRUTAMENTO PARA AS GUERRAS CIVIS Em 1827, José Benito de la Cadena, morador de Cali, compareceu perante o Prefeito Municipal de Popayán para o reconhecimento do valor de dois escravos mais três cavalos, que considerou valer 560 pesos. José Benito explicou ao juiz que, em 1820, o governo decretou que todo "homem útil" se apresentasse para o serviço armado, "livre ou escravo". Assim, apresentou 3 "pedaços de escravos", os únicos homens úteis que tinha na sua casa de campo, chamados: José, Melchor e Matías, destes “el primero después de la acción del Pitayo, se restituyó a mi poder con el correspondiente pasaporte de los Jefes de aquel Cuartel, y el segundo, murió sin haberse vuelto a mi poder y el Matías que es el tercero se halla en la actualidad sirviendo en el ejército del Perú en clase de tambor.” 84 Embora seu caso tenha sido aprovado pelo Tribunal da Fazenda, o Superior Tribunal de Justiça declarou "o recurso improcedente" (ACC, Signatura: 5463 Ind. J I -11 cv). As guerras de independência abrangeram o período de 1811 e 1824 na província de Popayán. Os confrontos trouxeram ocupações de ambos os lados em cidades e fazendas que incluíram recrutamento, empréstimos forçados e demanda de suprimentos para as tropas. Os proprietários desenvolveram estratégias aderindo a um lado ou ao outro para não serem prejudicados. As consequências destrutivas das guerras não foram as mesmas para os donos da região. Pequenos latifundiários como José Benito Cadena foram muito afetados em suas propriedades e eram comuns as reivindicações de indenização pelo recrutamento de seus poucos escravizados para o exército. As guerras de independência (1810-1819) envolveram todos os atores sociais do sudoeste colombiano, como escravos, indígenas, negros, mulatos, brancos pobres, mestiços e famílias da elite mais tradicional. Alta participação popular, alistamento, recrutamento em troca de promessas de liberdade, confisco de propriedades, entre outros, caracterizaram esse momento. As fazendas que no século XVIII se beneficiaram do boom da mineração, no século XIX entraram em situação de declínio causado pela devastação dos campos e pela desconexão entre o circuito comercial das minas e das fazendas. Da mesma forma, esta 84 “O primeiro, após a ação de Pitayo, foi restituído à minha posse com o passaporte correspondente dos Chefes daquele Quartel, e o segundo, morreu sem ter retornado à minha posse, e Matías, que é o terceiro, está atualmente servindo em o exército do Peru na aula de bateria.” (tradução nossa).
126 126 situação foi agravada pelo boom da economia camponesa nas margens das haciendas (DÍAZ, 2015). Para a população da província de Popayán, as guerras de independência tiveram consequências diversas. Por um lado, os confrontos armados geraram maior mobilidade entre a população, possibilitando a fuga de escravos que levou a um processo de abandono. Por outro lado, muitos habitantes do campo passaram de camponeses livres a recrutas forçados que tiveram que marchar para lugares distantes de seu local de residência. A instauração do regime republicano deslocou o eixo do poder colonial tradicional dos Payanés para Cali na primeira metade do século XIX, que começava a se consolidar como a cidade mais importante do sudoeste de Nova Granada. Em contrapartida, ao longo da vida republicana, Popayán tornou-se o epicentro de conflitos como a Guerra do Supremo (18401841), a guerra de 1851 e a guerra de 1863 (DÍAZ, 2015). A independência de Nova Granada, como nos demais países da América Latina, foi acelerada pela crise e posterior desaparecimento da monarquia espanhola. Entre 1801 e 1807, Manuel Godoy, ministro de confiança do rei Carlos IV, fez várias alianças com Napoleão para atacar Portugal, permitindo ao exército francês atravessar o território espanhol. Depois de subjugar Portugal, as tropas permaneceram em Espanha e em 1808 ocuparam o território a norte do Ebro. Perante a ameaça de perda da soberania espanhola, deu-se uma revolta de nobres, que resultou na prisão de Godoy, a renúncia ao trono de Carlo IV e a ascensão ao poder de seu filho Fernando VII. No entanto, Napoleão, em 1808, exigiu que ambos cedessem o trono a ele. O que gerou uma resistência generalizada na Espanha liderada pelos conselhos locais (PALACIOS; SAFFORD, 2002). Enquanto isso, a elite crioula, muito bem informada sobre o que acontecia na Europa, surpresa e escandalizada com a situação, reconheceu a Junta de Sevilha e contribuiu com meio milhão de pesos para financiar a guerra contra os franceses. No entanto, a velha tensão entre espanhóis e crioulos não tardou. Em setembro de 1808, o vicerei Antonio Amar y Borbón convocou uma reunião entre oficiais espanhóis e notáveis crioulos, incomodados com a afirmação de autoridade da Junta de Sevilha sobre a América Latina, e a convocação do vice-rei para uma reunião na qual não lhes permitia falar (PALACIOS; SAFFORD, 2002).
127 127 A elite crioula inicialmente apoiou a monarquia, no entanto, essa lealdade não durou muito. Os crioulos também queriam criar conselhos autônomos na América Latina, além de ficar evidente a precariedade da autoridade dos governos ad hoc. Apesar de o Conselho Central em 1809 ter proclamado que a América não deveria ser considerada colônia, mas sim partes do reino e que as colônias podiam eleger representantes para o conselho que legislaria para a Espanha e a América Latina, a elite crioula sabia que o O conselho espanhol não considerou igual aos espanhóis e hispano-americanos. As velhas tensões e um governo ad doc fraco finalmente fizeram as colônias começarem a se revoltar. No caso de Nova Granada, diferentes cidades como Cartagena, Socorro e Pamplona começaram a derrubar as autoridades locais. Em Santa Fé, capital do vice-reinado, ocorreu uma mobilização que deslocou o vice-rei e a Audiência, o que significou um golpe para o governo central de todo o vice-reinado. Os líderes Santafereños assumiram a responsabilidade do governo. Convidaram as províncias a enviar representantes para a elaboração de uma nova constituição. No entanto, surgiram rivalidades regionais e muitas províncias se recusaram a cooperar com Santa Fé. Por exemplo, Cali e Popayán, disputavam o controle geográfico do vale de Cauca, uma rivalidade que existia desde os tempos coloniais (PALACIOS; SAFFORD, 2002). Várias províncias como Cartagena, Antoquia, Tunja, Pamplona e Neiva, queriam um governo federal. Por outro lado, Cundinamarca, sob a influência de Antonio Nariño, acreditava mais em um governo central forte para enfrentar qualquer investida do governo espanhol. Enquanto isso, guerras entre monarquistas e patriotas ocorreram em diferentes partes de Nova Granada. Na província de Popayán, o controle monarquista era exercido por soldados do Peru, mas principalmente por indígenas da região de Pasto e por guerrilheiros formados pela população negra do Vale do Patía. O apoio dos negros de Patía à causa monarquista deveu-se à promessa de libertação dos escravizados que se juntaram às suas fileiras, e também à rivalidade ou antagonismo com a elite escravista local. No ano de 1813, o general espanhol Juan Sámano controlava o vale do rio Cauca. Dois anos depois, em 1815, outro general espanhol, Pablo Morillo sitiou a cidade de Cartagena, que resistiu ao ataque por 108 dias, onde mais de um terço de sua população de 18.000 morreu de fome ou doença. Após a capitulação de Cartagena em 5 de dezembro de
128 128 1815, seguiu-se uma rápida reconquista do resto de Nova Granada. Em julho de 1816, Nova Granada estava novamente sob domínio espanhol (PALACIOS; SAFFORD, 2002). Este período de 1810-1816, uma tentativa fracassada de independência em Nova Granada, tem sido tradicionalmente chamado de Pátria Tola. A inexperiência na formação de um governo unificado para enfrentar o exército monarquista e as rivalidades regionais surgidas ou se acentuaram neste período, foram as principais causas da vitória das tropas espanholas. As colônias não tinham experiência em cooperar entre cidades, não havia vínculos formais entre governos locais. Devido a múltiplas disputas regionais, eles enfraqueceram uma defesa comum e esgotaram os recursos econômicos. Isso gerou desgaste na população, a ponto de quando a ordem espanhola foi restaurada, muita gente esperava apenas o retorno da paz e tranquilidade (PALACIOS; SAFFORD, 2002). Na recuperação patriótica (1819-1825), Simón Bolívar, com seu exército, atacou em 1819 as forças monarquistas que estavam localizadas nas terras altas. Bolívar cruzou a Cordilheira dos Andes desde os Llanos em uma época em que havia muitas chuvas e inundações. Tal façanha custou a vida de seus homens, assim como seus cavalos, que não estavam acostumados com o clima e a geografia das altas montanhas da Cordilheira. Finalmente, Bolívar chegou ao planalto de Boyacá com os sobreviventes e reforçou seu exército com recrutas locais. Na batalha de Boyacá, ele derrotou as forças monarquistas em 7 de agosto de 1819. Com esta vitória, Bolívar obteve uma base segura para atacar e derrotar os exércitos monarquistas na Venezuela, Equador, Peru e Bolívia (PALACIOS; SAFFORD, 2002). Entre os anos de 1819 e 1820, algumas fazendas foram palco de combates, outras abrigaram tropas por períodos mais ou menos longos e outras foram atacadas por bandos dedicados ao saque. Por outro lado, de forma mais uniforme, havia contribuições forçadas em dinheiro ou gado para manter os exércitos (COLMENARES, 1998, p. 105). Era evidente o temor da elite latifundiária pela possibilidade de um desequilíbrio social ao perder o controle contra os escravizados devido à guerra. O primeiro decreto abolicionista obtido por Simón Bolívar, em 1820, criou a ambiguidade de declarar livres os escravizados, mas na prática isso só seria possível no próximo congresso. Mesmo assim, o decreto permitia o recrutamento de escravizados, de modo que os exércitos da República
129 129 ordenavam a incorporação de escravizados e libertos em troca de indenização aos senhores (COLMENARES, 1998). Por sua vez, as forças monarquistas também prometiam liberdade aos escravizados que entrassem em suas fileiras. O caudilho José María Obando e Simón Muñoz, líder guerrilheiro do Patía, foram enviados pelo líder monarquista Sebastián Calzada, que ocupava a cidade de Popayán, para recrutar homens no cantão de Caloto. Desta forma, conseguiram que ele se juntasse a eles em troca da promessa de liberdade, ex-traficantes de tabaco e escravizados, quase todos pertencentes à família Arboleda. O administrador da fazenda Japio (propriedade da família Arboleda), Luis de Velasco, comentou que quando recebeu a propriedade em 1822 tinha apenas três prédios de capela, uma casa e um engenho de açúcar, ferramentas em muito mau estado e poucos escravizados porque alguns foram recrutados por Simón Bolívar e outros estavam foragidos no monte (ACC. Fondo Arboleda, signatura 453). Mi respetado don [Sergio Arboleda], en vida de la suya que antecede fechada en la de la corriente digo: que no podre dar a usted una razón positiva de los años 20 y 21 que me pide por razón que en ese entonces no era yo administrador de las haciendas que usted me indica; pues cuando yo entre a manejarlas fue el 1° de noviembre del 1822 que solo recibí los 3 edificios de capilla, casa y trapiche y unas pocas herramientas en muy mal estado igualmente recibí muy poco negros inválidos por cuya razón exilian , porque los negros y alentados mas se los había llevado el general Bolívar y otros se hallaban prófugos en el monte en orden a bestias y ganados nada recibí porque nada había […] con respecto a las cercas acequias pilas y labranzas, los tuve que hacer todo de nuevo porque nada de esto existía […] (ACC, Fondo Arboleda,sig. 453, grifo meu). 85 Por ordem de Simón Bolívar, 3.000 "escravos úteis" deveriam ser recrutados, principalmente das antigas regiões de mineração de escravos. A região de Antioquia teve que abastecer 1.000 escravizados e a província de Popayán, os restantes 2.000. Entre março e junho de 1820, a província de Antioquia cumpriu laboriosamente sua cota de 1.000 escravizados. No entanto, o recrutamento na província de Cauca, com o maior número de escravizados, foi um fracasso. O general Manuel Valdés viu o seu exército dissolver-se 85 Meu respeitável Sr. [Sergio Arboleda], durante sua vida datada acima, eu digo: não poderei lhe dar uma razão positiva para os anos 20 e 21 que você me pede, porque naquela época não era eu administrador das propriedades que você me indicar; Pois bem, quando comecei a gerenciá-los, foi em 1º de novembro de 1822 que recebi apenas os 3 prédios para a capela, a casa e o engenho de açúcar e algumas ferramentas em muito mau estado, mas o general Bolívar levou-as e outras eram fugitivos na serra a fim de bichos e gado, eu não recebi nada porque não tinha nada [...] com relação às cercas, valas, estacas e terras de cultivo, eu tive que fazer tudo de novo porque não tinha nada que isso existisse […] (tradução nossa).
130 130 devido a deserções, o que obrigou o governador da província a ameaçar com pena de morte os escravos e libertos que não apareciam em quinze dias, a partir de 1 de setembro de 1820 (COLMENARES, 1998). Na realidade, houve uma cumplicidade dos senhores em libertar os escravizados do exército. O grande problema para os proprietários durante o período das guerras de independência, mais do que os saques ou as fugas esporádicas de escravos para se juntar aos exércitos de Obando ou Simón Muñoz, foi o recrutamento sistemático para o exército regular. Os registros elaborados nas cidades de Buga e Cali no início de 1821 confirmam isso, pois há uma ocultação de solteiros escravizados maiores de 16 anos, assim como pardos livres e montanhistas. Talvez por isso, Bolívar, a seu pedido, pediu que cada proprietário entregasse um ou dois escravizados. Por exemplo, em 1822 Rafael Arboleda entregou 16 escravizados como parte da taxa dos 200 escravizados que tiveram que deixar as fazendas da província de Popayán, por ordem de Simón Bolívar: El Cabildo Justicia y Regimiento de esta ciudad de Caloto a pedimento del ciudadano José Rafael Arboleda: certifica: que el referido, Arboleda ha entregado diesiseis esclavos, de su haciendas entre ellos, (..) el mismo negro que se halla quebrado, para el contigente de doscientos esclavos, que ha mandado reclutar en esta municipalidad el excelentísimo señor Libertador y Presidente de la Republica de Colombia Simón Bolívar, mandadando por el artículo sexto de su providencia de dos del corriente, que estos y los más esclavos que se tomen para dicho contigente sean pagados del fondo de este año de la manumisión de toda la República […] (ACC, República JIV-18cv sig. 5664). 8687 Embora o exército regular pudesse recrutar escravos, eles se juntaram espontaneamente às guerrilhas monarquistas ou republicanas. Segundo Federica Morelli (2016), a participação de negros escravizados e livres de ambos os lados (realistas ou republicanos), não se deveu a uma revolução “negra” ou “indígena”, mas sim à luta pela 86 Os quinze (15) escravizados foram avaliados em trezentos pesos, e o que foi "quebrado" em cem pesos, o que deu uma soma total de 4.600 pesos. Este montante devia ser pago pelo Fundo de Alforria, mas apesar do pedido de anulação de José Rafael Arboleda em 1830, só foi pago pelo Estado 35 anos depois, em 1857. (ACC, República JIV-18cv sig. 5664). 87 O Cabildo Justicia y Regiment desta cidade de Caloto, a pedido do cidadão José Rafael Arboleda: certifica: que o referido, Arboleda entregou dezesseis escravos, de suas fazendas entre eles, (...) o mesmo negro que é falido, para o contingente de duzentos escravos, que mandou recrutar neste município o excelentíssimo Senhor Libertador e Presidente da República da Colômbia Simón Bolívar, ordenando pelo artigo sexto de sua providência de dois dos atuais, que estes e os mais escravos que forem levados para o referido contingente sejam pagos do fundo deste ano da alforria de toda a República […] (tradução nossa).
137 137 escravos os latifundiários do sudoeste do país pegaram em armas contra o governo liberal, sob a liderança de um destacado representante da elite paya, Julio Arboleda, com o apoio do governo equatoriano (VALENCIA LLANO, 2012; CASTELLANOS, 1980). Por sua vez, os setores populares (libertos, manumisos, pardos, brancos pobres e artesãos) também tiveram um papel preponderante nesse confronto. Eles apoiaram o partido liberal e lutaram pelas reivindicações de liberdade para os escravizados, a abolição das rendas do tabaco e da bebida e o acesso à propriedade da terra (DÍAZ, 2015). Julio Arboleda conseguiu reunir um pequeno exército de não mais de quatrocentas pessoas, comandado por líderes conservadores de Pasto. Com este exército conseguiu desenvolver algumas acções de guerrilha em Túquerres e Yacuanquer, mas as suas tropas foram derrotadas. No entanto, as ações militares continuaram no Valle del Cauca. Para controlar a situação, o General Tomás Herrera foi nomeado Comandante Geral para as províncias de Cauca e Buenaventura e José María Obando para as de Popayán, Pasto e Barbacoas (VALENCIA LLANO, 2012). Como acabamos de ver nesta parte II, havia uma frágil estabilidade nas famílias escravizadas de propriedade dos Arboledas, devido ao deslocamento físico ou migração interna da população escravizada entre as minas, Real de Minas e haciendas; tráfico interno e externo e recrutamento causado por guerras regionais. No entanto, podemos afirmar, pelo menos no caso dos Arboledas, que era comum as famílias escravizadas serem separadas ou fragmentadas quando o proprietário morria ou quando havia vendas ou deslocamentos físicos para outras propriedades ou locais. Ao contrário, identificamos uma ampla rede familiar ou de parentesco e uma estreita relação entre a população escravizada e a população livre, formando uma comunidade que não raro era o suporte para fugas, roubos de gado e rebeliões, pondo em causa a "paz" comunidades. fazendas, minas e Reales de Minas.
138 138 PARTE III EXPERIÊNCIAS FAMILIARES 8 CASAMENTO NA POPULAÇÃO ESCRAVIZADA Em 1817, Francisco Javier Arboleda e María Ángela Arboleda escravizaram a fazenda Japio de José Rafael Arboleda. Ambos eram solteiros e queriam se casar, porém, tinham impedimentos legais por serem parentes de segundo e terceiro grau de consanguinidade, ou seja, eram primos de primeiro grau e primos de segundo grau. Por isso, Luis Charria, representante geral de Don José Rafael Arboleda e administrador da fazenda Japio, teve que ir ao tribunal eclesiástico para pedir a renúncia ou permissão para o casamento dos cativos. Felizmente para eles, a dispensa foi concedida com a penitência de se confessar por dois anos e comungar uma vez a cada dois meses, além de rezar cinco credos diariamente de joelhos "em reverência pelas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo" (Archivo General de la Nación (AGN). Arquidiócesis de Popayán, Legajo 8344, folha 28, ano 1817). A análise da dissidência matrimonial de Francisco Javier e María Angela, permite compreender as possibilidades que os escravizados tinham de se casar nas fazendas, minas e Real de Minas pertencentes à família Arboleda na primeira metade do século XIX. Na Colônia, o casamento e a família eram considerados os pilares para a preservação dos costumes e tradições (LAVRIN, 1991, p.13). Portanto, as normas em torno do casamento e da instituição familiar estavam relacionadas à manutenção de uma ordem hierárquica baseada nas diferenças sociais, raciais e de gênero. O modelo de casamento imposto pela Igreja foi regido pelos princípios do Concílio de Trento (1542-1563). O Concílio converteu a união conjugal em um dos sete sacramentos, símbolo da união mística de Cristo e da Igreja, onde imperavam os princípios da indissolubilidade e da fidelidade (ORTEGA, 1988, p.37). A união matrimonial era entre um homem e uma mulher com o objetivo de garantir a procriação. Do ponto de vista tomista, os prazeres sexuais ou atos venéreos não eram
139 139 considerados pecado se visassem à conservação da espécie ou à reprodução, caso contrário, caía na luxúria. 93 A luxúria é um sentimento que se opõe à ordem da natureza, impede o julgamento, aumenta o egoísmo, leva ao apego ao presente e ao desprezo pelo futuro. Entre os atos lascivos estão: fornicação simples, estupro, sequestro, adultério, incesto, sacrilégio e pecado contra a natureza. 94 Nesse sentido, a igreja criou um sistema moral baseado na sexualidade e qualquer conduta contra a norma era punida. A Igreja também controlava o sistema de linhagem com impedimentos ao casamento. Desta forma, ele conseguiu controlar um sistema de parentesco porque sua dispensa era necessária (GHIRARDI, 2009, p. 247). Entre os impedimentos matrimoniais estava o incesto por consanguinidade, por afinidade, por parentesco espiritual e por parentesco legal. A consanguinidade é a relação entre pessoas que descendem de um tronco comum. A união entre pessoas consanguíneas vai contra a lei natural porque prejudica a prole. Portanto, era proibido o casamento entre parentes até o quarto grau de consanguinidade, como filhos, pais, netos, avós, tios e primos. Parentesco por afinidade era entre uma pessoa e parentes de sangue de seu cônjuge. Se um dos cônjuges morresse, quem sobrevivesse era impedido de se casar com os parentes do cônjuge falecido. Também era proibido casar pessoas com parentesco espiritual, ou seja, aquele que se estabelecesse entre uma pessoa e a pessoa que a patrocinava ao receber os sacramentos do batismo ou da confirmação. Por fim, as pessoas de parentesco legal que surgissem com a adoção não podiam ser casadas. (ORTEGA, 1988, p. 44). 93 A obra de São Tomás de Aquino teve como objetivo a síntese e sistematização do discurso católico. No século XVI, o tomismo era a doutrina comum, principalmente no reino de Castela e suas colônias. Com o Concílio de Trento, o tomismo atingiu um grande pico para declinar no final do século XVII e ressurgir novamente em meados do século XIX, quando foi declarado a teologia oficial da Igreja Católica. (ORTEGA, 1988, p. 18). 94 A fornicação simples é a relação extraconjugal entre um homem e uma mulher sem ofensa a terceiros. Estupro é a defloração ilícita de uma mulher virgem. Além de afetar os doze a se casarem, afeta o pai que está em custódia da virgindade da filha. Há estupro mesmo que a donzela consinta com o ato, e o homem é obrigado a satisfazê-la pela perda de sua virgindade. Arrebatamento é relação ilícita com violência. O adultério é a usurpação da mulher de outra pessoa. Este pecado se opõe ao bem da prole porque impede a certeza da paternidade e viola a fé matrimonial que os esposos devem um ao outro. Incesto é a relação sexual entre pessoas ligadas por laços de parentesco. O sacrilégio é o ato venéreo de uma pessoa consagrada a Deus por voto de continência e castidade. O pecado contra a natureza é emitir sêmen de tal forma que a geração não possa continuar, tais como: masturbação, coito interrompido, sodomia ou homossexualidade, e bestialidade (ORTEGA, 1988, p. 32).
140 140 Com essas disposições sobre o casamento, a sexualidade e a família, era inegável o controle exercido pela Igreja na vida doméstica. No entanto, seu poder foi disputado nessa área com a consolidação do Estado. Um exemplo disso foram as Reformas Bourbon, que não apenas buscavam estabelecer medidas para melhorar a administração tributária das colônias, mas também defendiam a hierarquia social existente, portanto eram basicamente conservadoras (TWINAM, 2000). Uma das reformas implementadas foi a Real Pragmática de Casamientos, emitida em 1776 na Espanha e aplicada em 1778 em suas colônias. A alta miscigenação afetou o controle e a separação entre os diferentes grupos raciais e sociais. A Pragmática Real visava manter a igualdade racial e social entre os cônjuges, concedendo aos pais o poder de autorizar ou negar o casamento de seus filhos menores de 25 anos. Como esperado, na prática era difícil seguir esses tipos de regulamentos ou normas em torno do casamento, mesmo para alguns setores era quase impossível. Para grande parte da população (mestiça, negra, indígena) as relações extraconjugais eram frequentes, pois os entraves econômicos e institucionais ao casamento faziam com que a união conjugal se tornasse sinônimo de status social e separação entre nobres e plebeus (DUEÑAS, 1996, p. 34). No caso das mulheres, nos locais onde elas eram maioria, aliada ao preconceito racial, as possibilidades de casamento eram limitadas, causando concubinato, maternidade solteira, filhos ilegítimos e abandono. No entanto, a questão do casamento e das relações extraconjugais na população escravizada merece ser estudada com mais detalhes. As Siete Partidas ou Libro del Fuero ou Fuero de las Leyes eram um conjunto de leis inspiradas no Direito Romano e elaboradas por Afonso X, neles se combinavam as tradições greco-romana e cristã. As Partidas reconheciam o direito dos escravizados de se casarem sem a permissão dos senhores, embora de forma alguma anulassem sua condição servil. Os regulamentos estabeleciam que servos e servos podiam se casar; um servo poderia se casar com uma mulher livre e valeria a pena o casamento, se ela soubesse que era uma serva quando se casou com ele. Da mesma forma, o servo poderia se casar com um homem livre. Ambos tinham que ser cristãos para validar o casamento; os servos podiam se casar mesmo que seus senhores o contradissessem, válido dito casamento; os servos casados continuaram a ter a obrigação de servir seus senhores como antes; Se um senhor tivesse que vender servos casados, ele
141 141 garantiria que o casamento fosse para o mesmo senhor "para que quem os comprou possa morar em uma e prestar serviço e não pode vender um em uma terra e outro em outra, porque eles teriam que viver separados". Finalmente, se um servo se casasse com uma mulher livre ou um homem livre se casasse com uma serva, cada um deles manteria seu status (Partida 4ª, tít. V, lee 1ª, retrado de LUCENA, 2000, p. 149). Essas disposições permitiam aos escravizados o acesso à jurisdição eclesiástica em caso de impedimento de seus senhores (CRESPI, 2003, p.1 40; LUCENA, 2000, p. 24). A Igreja em geral resolvia possíveis conflitos entre senhores e escravizados favorecendo a união conjugal. Embora a lei escravista tenha transformado o escravizado em mercadoria, sem personalidade jurídica, devolveu-lhe parte de sua humanidade ao reconhecer alguns direitos como ser batizado, casar-se, denunciar os abusos de seus senhores e até possuir bens (GONZÁLES, 2018, p. 250). No entanto, na prática, os senhores tinham muita influência no casamento de seus escravos, pois sua permissão era essencial para o casamento. Como esperado, esta situação gerou muitas tensões entre os mestres e a Igreja. Como dispor livremente de um imóvel, como eram os escravizados, se a igreja interveio na regulamentação do casamento dos escravizados e se opôs à separação ou transferência dos casados? Embora o direito de propriedade fosse protegido pela lei civil, a Igreja defendia os direitos espirituais dos escravizados, minando a autoridade dos senhores em muitas ocasiões (GONZÁLES, 2018). Por exemplo, em 1805, Don Manuel José Caicedo, Alférez Real de Cali, foi solicitado pela justiça eclesiástica por ter casado oito de seus escravizados na fazenda de Cañasgordas "sem os devidos procedimentos religiosos", pois aparentemente os escravizados eram menores. foi-lhe pedido que apresentasse as certidões de batismo. De acordo com a autoridade religiosa que cuidava do caso, até que essa situação fosse esclarecida, os escravizados seriam declarados solteiros. Aqui vemos claramente a tensão entre dois poderes, o senhor e a Igreja, na vida doméstica dos escravizados. O mestre também era funcionário público, representante do Estado, isso não bastava para ser questionado e desmentido pelas autoridades eclesiásticas. Em uma parte do documento, é citada a Pragmática dos Casamentos, que esclarece que “índios, negros e outras castas da América” não precisam do consentimento dos pais para
142 142 celebrar seu casamento, sendo os padres e mestres, no caso dos escravizado, o que deve ser entendido a este respeito: […] y en quanto a lo segundo estando declarado por la Pragmática de Matrimonios que los indios, negros, y demás castas de la América no estan comprehendidos en la necesidad de poder obtener el consenso paterno para celebrar sus matrimonios, pues se subrrogan a los Padres, siendo libres los párrocos, cuya subrrogacion debe entenderse con los amos quando son esclavos, por que se reunen en ellos todos los derechos de que en estado de libertad debían gozar, debe arreglarse a este concepto el Real decreto último de este asunto […] (AGN, Fondo Arquidiócesis de Popayán, Impedimentos matrimonialesCO. AGN.AP/APO/3677, folha 7). 95 Essa situação não significava que não houvesse casos em que os pais realmente tivessem alguma influência nas decisões matrimoniais de seus filhos escravizados. Por exemplo, encontramos um caso em que o pai de Basília, escravizado pelas freiras do Carmelo, deu seu consentimento para que sua filha se casasse: En el sitio de Quilichao jurisdicción de la ciudad de Caloto de este obispado de Popayán en 26 de octubre del año del señor de mil ochocientos y cinco [1805] (…) pareció presente Eusebio, padre legítimo de Bacilia, negros esclavos de las Reverendas Madres Carmelas de la ciudad de Popayán, natural de el real de Minas de Serrogordo pertenenciente a la Parroquia de Santa María de Quinamayó, (…) y dijo que le daba, y le dio su consentimiento y bendición a la referida su hija Basilia, mediante a no estar en la edad de casarse a su arbitrio, para que obtenida la dispensa de 4º grado simple de consanguinidad, con que se haya ligada con Enrrique negro esclavo de las referidas Madres Carmelas, celebre esponsales, y contraiga matrimonio según orden y disposición de N. S Madre, la iglesia con el citado Enrrique hijo legítimo de Balentín y Thereza, esclavos todos de las dhas Reberendas madres Carmelas, y feligreses de esta parroquia de Santa María de Quinamayó. (Archivo General de la Nación (AGN). Arquidiócesis de Popayán, Legajo 8206, folhas 1-2, ano 1805. Grifo meu). 96 95 [...] e quanto ao segundo, sendo declarado pela Pragmática dos Matrimônios que os índios, negros e outras castas da América não são compreendidos na necessidade de poder obter o consentimento dos pais para celebrar seus casamentos, uma vez que são sub-rogados aos Pais, sendo livres os sacerdotes, cuja sub-rogação deve ser entendida com os senhores quando são escravos, porque neles estão reunidos todos os direitos que devem gozar em estado de liberdade, deve ser ajustado a este conceito [...](tradução nossa). 96 No cerco de Quilichao, jurisdição da cidade de Caloto deste bispado de Popayán, em 26 de outubro do ano do Senhor de mil oitocentos e cinco [1805] (...) Eusébio, pai legítimo de Bacilia, compareceu presente , escravos negros das Reverendas Madres Carmelas da cidade de Popayán, natural do real de Minas de Serrogordo pertencente à Paróquia de Santa María de Quinamayó, (…) e disse que deu, e deu seu consentimento e bênção ao mencionada sua filha Basília, por não estar em idade núbil a seu critério, para que obtenha a dispensa do 4º grau simples de consanguinidade, com o qual se vinculou com Enrrique, escravo negro das referidas Mães Carmelitas, celebra um noivado, e contrai matrimônio segundo a ordem e disposição de N Tua Mãe, a igreja com o já mencionado Enrique filho legítimo de Balentín e Thereza, todos escravos das Reverendas Mães Carmelitas, e paroquianos desta paróquia de Santa María de Quinamayó (tradução nossa).
143 143 Não encontramos mais casos em que os pais manifestaram sua permissão para que seus filhos menores de 25 anos se casassem, mas este caso nos dá uma ideia de que a intervenção do senhor de escravos nem sempre foi unilateral, podendo haver situações em que pais escravizados realmente tiveram interferência na vida de seus filhos e filhas. Como vários estudos mostraram e como veremos no caso da província de Popayán, o sacramento do casamento na população escravizada foi um espaço de autonomia e fortalecimento da ideia de comunidade por meio de redes de parentesco (GONZÁLES, 2018). Yobani Gonzáles (2018), constatou na Lima colonial do século XVII que nas demandas dos escravizados contra seus senhores, a causa principal era a defesa do casamento. Isso indica que, longe de assumir uma atitude passiva por parte dos escravizados contra a lei, eles a transformaram em um espaço de reivindicação. A América espanhola estava interessada em formar uma monarquia escrava e cristã ao mesmo tempo com esse tipo de legislação eclesiástica, então a ameaça de excomunhão para os senhores que não obedecessem a esses preceitos era real. No caso do Brasil colonial, não houve condenação dos senhores que desafiavam a autoridade da Igreja sobre o casamento entre a população escravizada, mas sim uma negociação constante com os cativos por medo de conflito, pois acreditava-se que a família escravizada favoreceu a paz na senzala 97 . No caso da Argentina, Sandra Olivero menciona que em San Isidro durante o século XVIII, a escolha do casamento na população negra escravizada, embora estivesse sujeita aos interesses econômicos dos senhores, sua vontade não era decisiva na escolha do cônjuge. Por exemplo, de onze (11) casamentos, seis (6) escolheram o cônjuge do mesmo proprietário. Em outros dez (10) os cônjuges eram livres e escravizados, e cinco (5) entre a população livre de cor. O ideal branqueador que negros e afro-mestiços aspiravam para estimular as uniões com indígenas, mulatos e mestiços. No entanto, no caso das mulheres escravizadas, observou que havia maior exogamia do que entre os homens da mesma condição. Aparentemente, as exigências dos senhores 97 A senzala era o quarto usado como alojamento pelos escravizados no Brasil durante o período da escravidão (séculos XVI-XIX). Veja também: Florentino e Góes…
144 144 para promover a reprodução natural entre sua população escravizada não influenciaram muito as decisões das mulheres escravizadas na escolha de seu cônjuge (OLIVERO, 2011). Havia diferenças entre os escravizados de acordo com suas condições de vida, pois a possibilidade de se casar também dependia do consentimento ou não de seus senhores, também de pertencerem a grandes, médias ou pequenas fazendas. Em várias situações, havia uma relação direta entre o tamanho da dotação escrava e as chances de construir famílias estáveis ou encontrar um cônjuge, pois as pequenas propriedades escravistas estavam sujeitas a divisões de herança e vendas (SALAZAR, 2017, p. 45-82). Rafael Díaz, em seu estudo da área urbano-regional de Santafé de Bogotá entre 1700 e 1750, analisou as diferenças nas condições da população escravizada na formação das famílias. Descobriu que a exogamia entre os escravizados era mais frequente nas áreas urbanas devido às difíceis condições de estabilidade familiar. Nas áreas rurais havia mais relações endogâmicas, talvez pela concentração de escravizados em unidades agrárias (DÍAZ, 1996, p. 5-18). Na Villa de San Gil, no nordeste de Nova Granada, Robinson Salazar descobriu que os escravizados tendiam a se casar fora de seu grupo, ou seja, procuravam seus parceiros em pessoas livres. Isso se deveu às dificuldades de encontrar um consorte dentro de unidades escravas de pequeno e médio porte (SALAZAR, 2017, p. 273). Para o caso de Chocó, especificamente na província de Novita, Francisco Zuluaga analisou o processo judicial sobre a distribuição de bens dos herdeiros de Don Salvador Gómez de Lasprilla em 1762. Este importante mineiro era proprietário de um Real de Minas que foi feito de quatro minas com cerca de 550 escravizados distribuídos em 93 famílias. Embora Zuluaga não se aprofunde nas redes parentais e compadrazgo das famílias escravizadas, ele menciona que a presença dos garimpeiros favoreceu a formação de famílias nucleares e extensas com extensas redes de parentesco e consanguinidade (ZULUAGA, 1995, p. 64). No caso de Campinas (Brasil), os senhores das grandes fazendas praticamente proibiam o casamento entre escravos de proprietários diferentes ou entre escravos e livres. O que significa que o escravizado que queria se casar na igreja quase sempre tinha que encontrar um cônjuge dentro de sua própria fazenda (SLENES, 1999, p.84).
145 145 Na Bahia, em meados do século XIX, havia uma tendência à endogamia, principalmente entre os membros da mesma origem étnica, cor e condição jurídica. No entanto, havia uma tendência para as uniões consensuais, mesmo muitos casamentos legitimavam relações antigas (FERREIRA, 2007, p. 91). No caso do Peru, em contexto urbano, os proprietários de escravizados não necessariamente incentivavam o casamento entre seus cativos. Christine Hunefeldt refere que na freguesia de Santa Ana em 1808, de um total de 763 escravizados distribuídos em 187 unidades domésticas, apenas 132 eram casados, ou seja, 17,3%. Esse percentual, diz ela, reflete a resistência dos senhores aos casamentos de seus escravizados, bem como o percentual aproximado de escravos casados que residem fora da casa dos senhores. Isso porque os senhores não podiam vender seus escravos casados separadamente sem a aprovação da cúria e a cúria estava mais interessada em manter a unidade conjugal, então isso se tornou um problema para a vontade dos senhores. (HUNEFELDT, 1988, p. 22). No entanto, os senhores também tinham controle na secreção do cônjuge de seus escravizados ou escravizados, já que para tanto era necessário o consentimento deles. Em geral, como os estudos mencionados acima mostraram e como veremos no caso da província de Popayán, os senhores das grandes propriedades preferiam que seus escravizados se casassem e apoiavam ou facilitavam essas uniões. Talvez o caso a que se refere Christine Hunefeldt tenha ocorrido em médios e pequenos proprietários que, por questões de rentabilidade econômica, muitas vezes tiveram que vender seus escravizados separadamente, por isso ser casado representava um problema. No entanto, para os proprietários de grandes latifúndios também era um problema quando seus escravizados não encontravam uma esposa aceitável dentro de suas propriedades. Alguns e alguns se apaixonaram por pessoas livres ou escravizadas por outros senhores. Assim, as estratégias dos senhores e dos escravizados para formar casais demonstraram as tensões, negociações e resistências das partes envolvidas. Na província de Popayán, os escravizados que trabalhavam na fazenda, mineração e comércio não se relacionavam apenas pelo trabalho, mas por redes de parentesco e compadrazgo. A fazenda fornecia produtos agrícolas para a mina e, por sua vez, a mina fornecia escravos para a fazenda. Os produtos excedentes foram vendidos no mercado
146 146 local. Esse dinamismo econômico facilitou a circulação ou mobilidade física dos escravizados entre a fazenda, minas e Reales de Minas. A família Arboleda possuía propriedades que abrigavam um grande número de escravizados (entre 200 e 300 cativos) e os vínculos entre parentes eram frequentes. Isso foi comentado por Hermenigildo Usuriaga, negro da fazenda Japio, testemunha em um dos processos de dispensa: “[…] que quasi todos los esclavos estan emparentados en la Hacienda Japio, y que no siendo con parientes no hay con quien puedan casarse […]” (AGN. Archivos privados. Arquidiócesis del Popayán, Legajo N° 8821, folha5). 98 Na fazenda Japio, por exemplo, encontramos dois casos em 1776, quando ainda era propriedade da Junta de Temporalidades. O primeiro caso é o de Ignacio e Mariana em 1776, eles foram impedidos por parentesco de terceiro grau. O segundo caso também em 1776, foi o de Pedro León e Juana impedidos pelo segundo grau de consanguinidade. Em ambos os casos as dispensas foram concedidas Arquivo Geral da Nação (AGN. Archivos privados. Arquidiócesis del Popayán, Legajo N° 8043, folha 30). Outro caso ocorreu em 1834, Manuel Mariano e María Francisca "morenos" escravizados por Dona Matilde Pombo, viúva de José Rafael Arboleda, eram inválidos por consanguinidade de segundo grau, linha transversal, ou seja, eram primos em primeiro grau por linha paterna. Gregoria (filha natural) e Matea (filha legítima) eram irmãs do mesmo pai, mas não da mesma mãe. Gregoria era mãe de Manuel Mariano (cônjuge) e Matea era mãe de Maria Francisca (cônjuge). (AGN. Archivos privados. Arquidiócesis del Popayán, Legajo N° 8773, folha 30). Na análise dos 23 casos de dispensa matrimonial de escravizados pertencentes à família Arboleda, identificamos que a endogamia prevaleceu em suas fazendas, minas e minas reais na província de Popayán. Também encontramos impedimentos por consanguinidade em todos os graus entre o primeiro e o quarto grau de consanguinidade. O caso mais visível foi na fazenda Japio. Aqui encontramos três casos de casais, todos aparentados por ancestralidade comum a Antonio Fori da fazenda Japio. 8.1 DOMINGO VÁSQUEZ E LUCIANA FORI 98 “[…] que quase todos os escravos são parentes na Fazenda Japio, e que não estando com parentes, não há ninguém com quem possam se casar […]” (tradução nossa).