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Cultura escolar e novos modelos culturais : duas realidades incompatíveis?

García Pérez, Francisco F.; García Díaz, José Eduardo; Martín Toscano, José; Porlán Ariza, Rafael

Abstract

este texto apresenta resultados de debates promovido numa rede de discussão pela Internet, com a participação de investigadores de didática da Universidade de Sevilha, Espanha, e professores de escolas públicas e privadas. O tema dos debates esteve centrado na relação entre a escola e as novas opções culturais que permeiam a sociedade. Os autores partem da constatação de que vem aumentando consideravelmente a “brecha” entre a cultura em que estão imersas crianças e jovens e a cultura escolar tradicional para, em seguida, propor formas de superação desse desajuste cultural entre o dentro e o fora da escola.

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J. Eduardo García, Francisco F. García, José Martín, Rafael Porlán Tradução: José Carlos Libâneo* CULTURA ESCOLAR E NOVOS MODELOS CULTURAIS: DUAS REALIDADES INCOMPATÍVEIS?* ARTIGOS Resumo: este texto apresenta resultados de debates promovido numa rede de discussão pela Internet, com a participação de investigadores de didática da Universidade de Sevilha, Espanha, e professores de escolas públicas e privadas. O tema dos debates esteve centrado na relação entre a escola e as novas opções culturais que permeiam a sociedade. Os autores partem da constatação de que vem aumentando consideravelmente a “brecha” entre a cultura em que estão imersas crianças e jovens e a cultura escolar tradicional para, em seguida, propor formas de superação desse desajuste cultural entre o dentro e o fora da escola. Palavras-chave: escola e culturas juvenis, cultura escolar e cultura das mídias, tecnologias da informação e comunicação e educação, renovação da escola A ‘DETERIORAÇÃO DA EDUCAÇÃO’ N o dia 2 de novembro de 2007 foi publicada na imprensa espanhola a seguinte notícia: “a porcentagem de estudantes de 15 anos, reprovados no curso 2005-2006, chega a 42% (após vários anos de constante elevação desse índice)”. A “deterioração escolar” (nos termos usados por um jornalista) é explicada por quatro razões: o ensino obrigatório até os16 anos, a chegada massiva de filhos de imigrantes no sistema educativo, a 216 , Goiânia, v. 13, n. 2, p. 215-232, jul./dez. 2010. pressão social sobre o professorado para que eleve o nível de exigência do alunado e a falta de investimentos na educação. O que fazer? Promover mais o esforço do alunado? Os professores precisam ser mais rigorosos na avaliação elevando seus níveis de exigência? Ou trabalhar mais os conteúdos com os estudantes, sobretudo língua e matemáticas? Fará falta mais disciplina na sala de aula? Estas ideias, difundidas em muitos segmentos sociais, não só carecem de suportes científicos como, também, são ingênuas, uma vez que se ignora que a juventude atual está imersa em um processo de socialização diferente daquele de alguns anos atrás. No entanto, o problema ficará solucionado com mais professores de apoio e mais investimentos, como reivindicam outros setores ‘progressistas’? Se o que aparece na imprensa é um indicador de um sentimento da sociedade, estaríamos diante de um enfoque inadequado do problema, pois no diagnóstico da situação não se considera um fato básico: os desajustes existentes entre as demandas da cultura escolar tradicional e as concepções, expectativas e interesses que as ‘novas opções culturais’ geram em nossos adolescentes. PARA UM DIAGNÓSTICO MAIS COMPLEXO Para nos aproximarmos de um diagnóstico mais complexo da situação que supere uma visão simplificadora bastante frequente na ‘opinião pública’, conviria apresentarmos algumas questões e reflexões. Em geral, atendendo ao conjunto do sistema escolar-, pode-se afirmar que existe, de fato, atualmente, uma clara “brecha” entre a cultura em que estão imersas crianças e jovens e a cultura acadêmica da escola, mas essa brecha, de alguma forma, sempre existiu. O que ocorria era que, em épocas anteriores, determinados mecanismos de coerção social mantinham esse desajuste em certos limites, e os valores dominantes tornavam invisível problema. Com efeito, a escola continua sendo uma instituição em que as relações entre pessoas, especialmente entre o professorado e o alunado, são assimétricas. Mais ainda, no contexto escolar, mesmo que à primeira vista não se possa constatar, continua o exercício de poder de algumas pessoas e alguns coletivos sobre outros, como ocorre em outros contextos sociais. Esse autoritarismo se manifesta, entre outros aspectos, no próprio currículo e em sua concretização em matérias, em uma estrutura cronoespacial (agrupamentos por aulas e matérias, horários etc.). Os alunos 217 , Goiânia, v. 13, n. 2, p. 215-232, jul./dez. 2010. procedentes, em grande parte, de uma cultura muito diferente da cultura acadêmica, manifestam sua reação frente a essa escola e sua cultura em formas de ‘desinteresse’ e ‘má vontade’, que se traduzem em reações de indiferença hostil, de absenteísmo, de provocação que, às vezes, levam a situações conflitivas com o professorado ou com os próprios colegas. No entanto, essas atitudes e comportamentos não estão gerando nenhuma energia positiva para transformar o sistema. De fato, não podem ser considerados propriamente uma luta contra o sistema mas, quando muito, uma forma de resistência, não consciente, frente ao mesmo. O fato é que isto está levando a uma rejeição mútua entre professores (e a cultura acadêmica que representam), e os alunos (e as culturas em que se encontram imersos); ou, ao menos, em grande parte desses coletivos. Pode-se admitir que essa brecha tenha aumentado nos últimos tempos, mas esse aumento deve ser atribuído, fundamentalmente, não tanto à “degeneração cultural” das novas gerações de jovens – afinal, são filhos da sociedade em que vivem, como sempre tem sido -, mas ao fato de a cultura acadêmica ter permanecido quase imobilizada, como há décadas, enquanto a sociedade e sua cultura continuam evoluindo. Desse modo, as duas margens da brecha se distanciam. Nesse sentido, é pelo menos surpreendente a manutenção de um modelo educativo realmente obsole- to no contexto de una sociedade que vem sofrendo nas últimas décadas profundas transformações (GARCÍA PÉREZ, 2005). Mais do que isso, a própria cultura escolar (na qual se incluem diversas subculturas, como a cultura profissional dos/das docentes) contribui para tornar mais “visível” e “insuportável” este desajuste, talvez como mecanismo de justificação por as coisas não funcionarem e como forma de atribuir responsabilidades a outros fatores externos à escola (ainda que esses fatores estejam ali cotidianamente, tal como ocorre com os alunos/as que a cada dia chegam à escola trazendo consigo sua cultura). Analisaremos, a seguir, com mais detalhe o desajuste “cultural” ao qual vimos nos referindo. A ‘NOVA’ CULTURA Para compreendermos como a escola responde à chegada nas escolas das gerações pós-modernas ou hipermodernas (há nomes para todos os gostos), devemos começar por analisar a cultura das sociedades de consumo do século XXI. [...] As características desta ‘nova cultura’ não representa uma visão de mundo coerente, mas o resultado da interação difusa e instável de uma enorme diversidade de projetos sociais. 218 , Goiânia, v. 13, n. 2, p. 215-232, jul./dez. 2010. Quais são os eixos que compõem este novo mundo? O individualismo consumista, o mercado e a globalização da economia são os grandes eixos sobre os quais está organizada a sociedade hoje, impondo-se sobre as instituições tradicionais (Estado, partidos políticos, sindicatos...), com a consequente desconfiança em relação às grandes ‘utopias’ revolucionárias, as visões de mundo e as ideologias da modernidade, o desinteresse pela luta política e ideológica tradicional, e o enfraquecimento do Estado ‘compensatório’ e controlador. Neste contexto, a racionalidade econômica dominante torna-se ‘pensamento único’. Para alguns autores, o pensamento único se impõe como um ‘não-pensamento’, no sentido de que leva à perda de identidade e do sentido das coisas, à passividade e à impotência, enfim, de qualquer tentativa de mudar o estabelecido, ao ceticismo, à inércia e ao nada (CARIDE; MEIRA, 2001; DEUTSCH, 1996). Qualquer alternativa não é outra coisa senão uma utopia sem sentido. Ele nega até mesmo a mudança: chegamos ao “fim da história”, pois só existe uma maneira de entender e agir que corresponde ao liberalismo econômico e da sociedade de mercado. Os meios de comunicação, o poderoso aparato comunicacional atual são, de alguma maneira, o pensamento único, ao mesmo tempo em que se encarrega de propagar e consolidar essa ideia, convencendo a população que se vive no único mundo possível (FERNÁNDEZ, 1998.) Há um fatalismo ambiental: as guerras e a violência, a desigualdade e a pobreza, a degradação ambiental, são apresentadas como acontecimentos inevitáveis. O pensamento único corresponde a uma “tendência à homogeneização” (VERDÚ, 2003), atualmente dominante na nossa sociedade. Apesar dos particularismos, os nacionalismos e os folclorismos, os estilos de vida estão cada vez mais próximos do modelo ocidental: as multinacionais vendem o mesmo em toda parte, embora com algumas concessões às peculiaridades locais, todos os aeroportos, shopping centers, parques temáticos, hospitais e prédios de escritórios são iguais em qualquer país do mundo; as grandes produções cinematográficas enchem os cinemas em qualquer lugar do planeta; qualquer equipe de futebol cheio de “famosos” é recebida com expectativas similares na Europa e no extremo oriente. Mas esta é uma uniformidade que não entra em conflito com a diversidade. A sociedade de à mudança constante, à diferença, tornam nosso mundo uma “desordem organizada”, no qual se encaixa uma grande variedade de atitudes pessoais, crenças, formas de relacionamento. Na verdade, “vende” ser diferente – claro, é uma diferença programada pelos planejadores de imagem - num mundo de pessoas que acreditam que são únicas. A diversidade é aceita, 219 , Goiânia, v. 13, n. 2, p. 215-232, jul./dez. 2010. sim, para fundi-la em um único produto “multicultural”, em uma mistura de estilos, no “kitsch” (VERDÚ, 2003). Para este autor, assistimos a uma “orgia de miscigenação”, e a uma volubilidade da identidade pessoal. Para manter a sociedade de consumo é necessária uma nova cultura. Nesse sentido, as novas tecnologias da informação e os meios de comunicação-lazer colocam as bases de uma cultura de superficialidade e do efêmero, da desmedida, do excesso, do ter e ser ‘sempre mais’, da renovação constante, do viver no presente. Cultura da gratificação instantânea, da primazia do aqui e agora, do hedonismo. Trata-se de um consumo associado à busca da comodidade e da facilidade. Valores tradicionais como a constância e o êxito pelo trabalho pessoal estão sendo abandonados. Ninguém espera, quer-se a satisfação imediata, o bem-estar em curto prazo. Especialmente, as novas gerações dos países desenvolvidos, abarrotadas de bens de consumo desde a infância, conseguidos sem aparente esforço, superprotegidas, bombardeadas pela propaganda nos meios de comunicação que anunciam o sucesso social por outros meios que não o estudo, o esforço e o trabalho pessoal, sentem cada vez menos necessidade de resolver, por si só, os problemas do seu entorno. Este é um novo hedonismo, associado ao relativismo moral (“vale tudo”), e ao aumento do individualismo, ou seja, menos solidariedade, intolerância e falta de coesão social (YUS, 1998). A cultura da superficialidade é baseada mais na manipulação de grandes quantidades de informação do que na qualidade da mesma (nível de complexidade do conteúdo da informação, grau de organização da mesma). É uma abordagem superficial das coisas em que não interessa a essência, a substância, mas a aparência, o estilo, o look. É muito mais importante no mundo das aparências o continente do que o conteúdo, a marca do que a substância, mais o que está na moda do que o prático e funcional. Os produtos de consumo valem mais pelo seu caráter de símbolos, isto é, um certo estilo de vida, um certo status social, uma determinada identidade de grupo, que pela sua utilidade real. A publicidade atual não apresenta os benefícios dos produtos, mas a ideologia associada a essa marca (VERDÚ, 2003). Conforme indicado por este autor, “o século XX foi o ultimo século sólido, tanto em coisas como idéias, e agora é a hora da leveza” (VERDÚ, 2003, p. 160). O consumidor torna-se, assim, um consumidor de formas, mais preocupado com seu estilo do que com suas convicções ideológicas. Nesse sentido, a relação entre as pessoas e o mundo adquire um caráter mais infantil e simples, imediato e passageiro. Na sociedade de consumo o importante é “conquistar” e “mimar” o consumidor, para 220 , Goiânia, v. 13, n. 2, p. 215-232, jul./dez. 2010. o que se “decora” o produto com “extras” de todo tipo: por exemplo, nos jornais e seus complementos como CDs, livros e similares, que se tornam mais relevantes para o comprador do que o próprio jornal. A hostilidade do meio e a dureza da vida cotidiana são compensadas pelo prazer do mundo leve, infantilizado, suave e artificial que nos oferece a indústria do entretenimento e da comunicação. Não se pede ao cidadão para ser criativo e que pense, mas que adira a um entretenimento de rotina. O futebol, o reality show, o tele-lixo em geral, são as drogas mais comuns para todas as pessoas, a melhor maneira de esquecer a frustração e escapar dos problemas profissionais e conflitos interpessoais. Tudo isso em uma cultura fundamentalmente icônica (imagem), que abandona progressivamente o uso do livro. É, também, a ‘cultura da simulação e do espetáculo’. O que existe é o que está nos meios de comunicação, as pessoas se distanciam cada vez do seu entorno natural. O ideal da nova cultura é o formato do ‘parque temático’. A realidade é, cada vez mais, uma ‘realidade virtual’: não há contacto direto com o mundo, mas com a interpretação do mundo, que vem pela televisão ou Internet. Dessa forma, o virtual torna-se real e o real torna-se virtual. A televisão é agora o nosso entorno imediato, o meio que vivenciamos como ‘o real’. Esta é uma realidade recriada, o cenário para o puro entretenimento. Mas não é uma criação inovadora: seus planejadores pretendem apenas a reelaborar o que conhecido e comunicá-lo bem, utilizar novamente o que foi bem sucedido. Aos poucos, entramos num mundo da ficção científica, os seres humanos isolados uns dos outros, vivendo uma “vida artificial”, ligados à televisão, à Internet ou aos robôs de estimação. Para Verdú (2003), assistimos o surgimento de uma nova forma de capitalismo, o capitalismo de ficção, no qual o que importa não é tanto produzir e consumir bens tangíveis tradicionais, mas criar e consumir uma nova realidade. O cidadão se torna, assim, um consumidor-espectador e a realidade transforma-se em puro espetáculo. Também banaliza o que é complexo: tudo agora é light, da democracia à ecologia e ao desenvolvimento sustentável. Os termos se convertem em casca sem conteúdo, ou melhor, adquirem um conteúdo mágico na boca de políticos e técnicos: desenvolvimento sustentável, turismo verde, preservação da qualidade ambiental etc. Assim, por exemplo, a ideia de reciclagem adquire um sentido de tirar as nossas culpas, ou seja, como reciclamos não devemos ter culpas por nosso consumismo desvairado. A dor e a violência convertem-se em espetáculo fácil: a televisão nos apresenta desgraças humanas como una distração a mais de sua programação. A 221 , Goiânia, v. 13, n. 2, p. 215-232, jul./dez. 2010. intimidade, antes zelosamente guardada no mundo privado, se exibe agora na televisão sem nenhum pudor; e os sentimentos e emoções de pessoas concretas se convertem em uma mercadoria comum (VERDÚ, 2003). O consumo ilimitado e descontrolado requer do hipercâmbio, a pressa e o culto à novidade. A relevância atual da forma sobre o fundo (isto é, a aparência ao invés do conteúdo), tem a ver, também, com a ‘aceleração do ritmo da atividade humana’. Trata-se de ter cidadãos entretidos e felizes que ‘mariposeiam’ de uma atividade para outra, que compram compulsivamente, que não podem – nem devem – deixar-se aborrecer, e que têm que estar, para isso, em um constante estado de hiperatividade (VERDÚ, 2003). Nesta vida agitada os indivíduos têm que processar grandes quantidades de informação muito rapidamente. Isto supõe, inevitavelmente, um tratamento superficial de tais informações: não há tempo nem paciência para refletir, para construir argumentos, para ter uma visão de conjunto. Além disso, a enorme quantidade de informação que chega é muito pouco estruturada; por exemplo, nos meios de comunicação ou na Internet não há um sistema de ideias, mas ideias soltas, tornando muito difícil sua seleção e tratamento. Tornamo-nos escravos ao invés de usuários, das novas tecnologias da informação e comunicação, pois estamos continuamente conectados a computadores, celulares, caixas eletrônicos e outros dispositivos que, paradoxalmente, presume-se que eles estão lá para economizar esforço e tempo, e satisfazer nossas necessidades. O truque é fazer-nos crer que estes serviços existem para tornar nossa vida mais confortável, quando na verdade o objetivo é aumentar o consumo e acelerar ainda mais o fluxo da atividade comercial em que estamos imersos. A atividade social pública, ou seja, as relações de trabalho, as trocas comerciais, os meios de comunicação, invade nossa privacidade, por isso estamos começando a ter a sensação de que temos menos tempo para nós, que qualquer outro ser humano na história (RIFKIN, 2001, p. 9). Como indicado por esse autor, a integração em um mundo em rede significa que cada minuto disponível é uma oportunidade para nos conectarmos à rede (ou ao celular, Internet, televisão etc.), de modo que o “eu penso, logo existo” de Descartes agora é substituído por “estou conectado, logo existo”. A sociedade de consumo introduz a ‘pressão do tempo’, não só no trabalho, mas em todas as situações da nossa vida (lazer, saúde, educação, consumo...). Você tem que ser móvel, maleável, sempre ativo (embora não esteja claro o significado de toda essa atividade), consumindo com impaciência cada vez mais. Tudo caduca rapidamente, tudo é descartável, em uma empresa controlada pela novidade, pela moda, pelas estratégias de sedução do consumidor. As téc- 222 , Goiânia, v. 13, n. 2, p. 215-232, jul./dez. 2010. nicas de promover do consumo e a contínua criação de novas necessidades levaram a uma aceleração em todos os níveis. Em particular, a informação nos inunda e aumentam os intercâmbios de todo tipo, em um mundo regido por uma alta velocidade de mudança. Esta ideologia do presente é compatível com uma cultura do futuro fundamentada na ideia do progresso tecnocientífico e no ‘otimismo tecnológico’, preocupada com a saúde e o futuro do planeta, e nem tanto na perspectiva de uma cosmovisão alternativa ou revolucionária, mas numa visão mais pragmática de prevenção ante os riscos vindouros (LIPOVETSKY, 2006). Em todo caso, trata-se de uma perspectiva do futuro que não questiona o modo socioeconômico dominante, tal como aparece em propostas institucionais de um desenvolvimento sustentável ou de proteção da saúde. No entanto, a sociedade consumista também traz consigo novas patologias sociais e individuais. Em primeiro lugar, o capitalismo selvagem dominante supõe uma acentuação da desigualdade, assim como insegurança, risco e incerteza para amplas camadas da população. O progressivo desmantelamento da segurança laboral (no trabalho) supõe ter que viver no presente porque o futuro não está nada claro. Trata-se de insegurança laboral, mas também psicológica. Por um lado, a hiperatividade nos leva ao estresse permanente. As consequências da hiperatividade são claras: não só se potencia o pensamento simplificador, mas também cai nossa qualidade de vida: mais violência, angústia, depressão, estresse, insônia, esgotamento, associados a um ritmo de atividade para o qual a espécie humana não está biologicamente preparada. Os dados apresentados por Rifkin (2001) são impactantes: 43% dos adultos nos Estados Unidos têm problemas de saúde provocados por estresse, milhões de crianças nesse país são diagnosticados com uma nova síndrome, a alteração hiperativa por déficit de atenção - as crianças se distraem muito, são incapazes de centrar a atenção, se impacientam com facilidade, se mostram excessivamente impulsivas e se frustram facilmente - provocado por um ambiente em que os ritmos de atividade vêm marcados pela televisão, videogames ou computadores. A aceleração do ritmo de atividade humana supõe, também, que se trabalha com demandas de corto prazo, quase sem previsão de futuro. Os políticos precisam desenvolver seus programas em curtos períodos de tempo marcados pelos períodos eleitorais, a dinâmica financeira muda de um dia para outro e a indústria fabrica produtos de consumo de pouca duração para que não diminua a produção, os cientistas precisam publicar em alta velocidade para manter seu status profissional, 223 , Goiânia, v. 13, n. 2, p. 215-232, jul./dez. 2010. os meios de comunicação atendem só à novidade e ao imediato. Todos, em suma, vivemos o presente. Esta ideologia tem um efeito pernicioso para a resolução da crise global em que estamos imersos, pois os problemas que enfrentamos exigem um tratamento a longo prazo. O fato é que as mudanças tecnológicas chegam na frente da reflexão sobre as consequências dos mesmos (enchemos o meio ambiente de produtos químicos de todo tipo antes de nos perguntarmos sobre seus efeitos na saúde, damos carne às vacas para aproveitar seus próprios restos sem pensar no prejuízo para os próprios consumidores, utilizam-se celulares sem saber dos possíveis efeitos da radiação no ser humano). Trata-se de una atuação irreflexiva e irresponsável, que não contempla nem o princípio de precaução nem da solidariedade sincrônica e diacrônica. Além disso, os indivíduos já não têm grandes visões de mundo em que se integrar e se sentir seguros. Há um abandono das visões de conjun- to, dos posicionamentos ideológicos e éticos mais amplos, uma perda de credibilidade das visões de mundo tradicionais, e a prevalência de crenças parciais e dispersas, das opções políticas específicas, da perda de identidade. Um aspecto chave da crise global atual é a perda dos referentes que orientavam nossa visão de mundo. Como observa Tedesco (1996, p. 12): O peculiar deste momento histórico é que as fontes tradicionais de identidade desapareceram e que as novas fontes se caracterizam justamente pela ausência de pontos fixos de referência. A identidade, portanto, deve ser construída (p. 15). Isto leva à obsolescência do sistema de partidos políticos tradicionais e, conseqüentemente, uma grave crise de representação. As adesões tradicionais se corroem e surgem fenômenos de deslocalização e relocalização nas relações de pertencimento a um grupo e das identidades nacionais e culturais. Na cúpula, há processos de construção de conjuntos políticos supranacionais, enquanto que na base se assiste o ressurgimento do localismo e particularismo. Há uma perda de fundamentos, uma falta de critérios e normas gerais, uma descrença nos grandes ideais científicos, políticos e sociais, uma exaltação do subjetivo, das preferências individuais e das éticas de grupos particulares frente aos argumentos universais, uma falta de sentido e uma perda de continuidade histórica. Obviamente, o capitalismo atual vê com bons olhos o abandono geral das visões do mundo, à medida que, se os indivíduos e grupos sociais 230 , Goiânia, v. 13, n. 2, p. 215-232, jul./dez. 2010. surgem os problemas e por parte dos atores envolvidos, deveríamos considerar alguns princípios de atuação que podem orientar as ações daqueles que estão interessados em superar esta situação de ‘choque’ de culturas. Assim: Frente ao absolutismo epistemológico, propomos uma ‘democracia epistemológica’ (ou seja, todos em uma classe podem opinar sem medo de ser censurado, aceita-se a divergência, o debate deve ser baseado em dados e/ou argumentos) e um diretivismo gradual nos procedimentos de trabalho (para construir coletivamente o conhecimento é preciso aprender novas formas de trabalho). A ‘construção do conhecimento escolar’ deve ser articulada em torno de problemas sócio-ambientais abertos, significativos, funcionais e relevantes. Os alunos trabalham com estes problemas e em seu tratamento aprendem determinados conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais. É um trabalho interdisciplinar e coletivo, que deve preparar as pessoas para participar na gestão desses problemas, em que o aluno deve saber “criar” conhecimento usando a riqueza de informações que lhe chegam tanto das fontes tradicionais como das novas fontes (meios de comunicação, Internet, jogos de computador etc.). Em todo o tempo deve-se trabalhar com a ideia de que os alunos são capazes de elaborar por si mesmos suas respostas para esses proble mas, embora com a ajuda e orientação do educador. Nesse sentido, o conhecimento escolar deve ser processual e evolutivo. Em um mundo tão diverso e em mudança, os alunos devem aprender a resolver problemas, devem saber selecionar e processar a riqueza de informação existente. Assim, propomos uma metodologia didática baseada na pesquisa do aluno. Um possível caminho didático seria: primeiro, se apresenta e descreve o problema a tratar; em seguida, os alunos dão uma primeira resposta de trabalhos – individual e em grupos de trabalho - sem forçar consensos falsos; depois, passar ao confronto de ideias explicitadas com dados e argumentos baseados em informações disponíveis de várias fontes (livros, Internet etc.), às contribuições do professor, aos resultados de observações e experimentos realizados por eles, aos debates entre eles (uma vez que nem todos os indivíduos e equipes têm o mesmo ponto de vista), assim como com a utilização de muitos outros recursos didáticos que fornecem informações para tratar um problema. O trabalho se conclui com atividades de finalização (relatórios individuais e de grupo, apresentação de outros grupos, realização ações concretas etc.). A resposta aos problemas evolui em todo este processo, ao mesmo tempo em que os problemas se reformulam e se tornam-se mais complexos. 231 , Goiânia, v. 13, n. 2, p. 215-232, jul./dez. 2010. Nesta abordagem educativa, a avaliação e o acompanhamento são entendidos como uma regulação do processo de ensino-aprendizagem, envolvendo professores e alunos, com dois objetivos básicos: o contínuo ajuste da intervenção educativa à evolução do pensamento dos alunos, e que este conheça e controle seu próprio processo de aprendizagem. Nota 1 NT: A Rede Investigación y Renovación Escolar (Ires) é formada por grupos de professores de todos os níveis de ensino que fazem investigação pedagógica a partir da escola. Este texto é resultado de debates mantidos na Red Ires, valendo-se da Internet, entre 2006 e 2007. Referências CARIDE, J.A.; MEIRA, P.A. Educación ambiental y desarrollo humano. Barcelona: Ariel, 2001. FERNÁNDEZ, J. Contra la ingenuidad mediática. In: SOSA, N. M.; JOVANÍ, A.; BARRIO, F. A. 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Tradução de José Carlos Libâneo ** Doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Membro do Grupo de Pesquisa/CNPq Teoria histórico-cultural e didática. v. 309, p. 7-23, 1996. VERDÚ, V. El estilo del mundo. La vida en el capitalismo de ficción. Barcelona: Anagrama, 2003. YUS, R. Pensamiento complejo, humanismo crítico y educación global. Aula de Innovación Educativa, 77, p. 6-7, 1998. Abstract: this paper presents the results of debates which took place on a discussion network, via Internet, in which researchers into teaching at the University of Seville, Spain, and teachers from public and private schools, participated. The discussion was centered on the relationship between the school and the new cultural options which permeate society. After observing that there is an increasingly wider “gap” between the culture in which children and young people are steeped and the traditional school culture, the authors then propose ways of overcoming this cultural imbalance between the experiences ‘inside’ and ‘outside’ the school. Key words: school and youth cultures, school and media cultures, information technologies, communication and education, school renewal .