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O papel da família na utilização da Internet por portugueses de 50 e mais anos: uma análise de género

Silva, Patrícia; Delerue Matos, Alice; Martínez Pecino, Roberto

Abstract

A Internet tem ganhado importância social. Contudo, as pessoas mais velhas têm ficado à margem da “revolução digital”. Os estudos têm-se centrado nas características sociodemográficas, económicas e de saúde destes indivíduos, como determinantes da utilização da Internet, não considerando o papel das relações familiares. Este trabalho visa, precisamente, analisar o papel da família na utilização da Internet numa perspetiva de género e incide sobre uma amostra de 1657 indivíduos com 50 e mais anos, inquiridos no projeto share. Os resultados evidenciam o distinto contributo da família para a utilização da Internet por homens e mulheres mais velhos/as e salientam a importância das políticas públicas na redução das desigualdades de género.

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PATRÍCIA SILVA ALICE DELERUE MATOS ROBERTO MARTINEZ-PECINO O papel da família na utilização da Internet por portugueses de 50 e mais anos: uma análise de género Análise Social, lvi (2.º), 2021 (n.º 239), pp. 322-341 https://doi.org/10.31447/as00032573.2021239.06 issn online 2182-2999 edição e propriedade Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Av. Professor Aníbal de Bettencourt, 9 1600-189 Lisboa Portugal — analise.soci[email protected] Análise Social, 239, lvi (2.º), 2021, 322-341 O papel da família na utilização da Internet por portugueses de 50 e mais anos: uma análise de género. A Internet tem ganhado importância social. Contudo, as pessoas mais velhas têm ficado à margem da “revolução digital”. Os estudos têm-se centrado nas características sociodemográficas, económicas e de saúde destes indivíduos, como determinantes da utilização da Internet, não considerando o papel das relações familiares. Este trabalho visa, precisamente, analisar o papel da família na utilização da Internet numa perspetiva de género e incide sobre uma amostra de 1657 indivíduos com 50 e mais anos, inquiridos no projeto share. Os resultados evidenciam o distinto contributo da família para a utilização da Internet por homens e mulheres mais velhos/as e salientam a importância das políticas públicas na redução das desigualdades de género. palavras-chave: Família; Internet; género; adultos de 50+ anos. The role of the family in the use of the Internet by Portuguese aged 50 and over: a gender analysis. The Internet has gained social importance. However, older people have been left out of the so-called “digital revolution”. Studies have focused on sociodemographic, economic, and health characteristics of these individuals as determinants of Internet use, without considering the role of family relationships. This work aims, precisely, to analyze the role of the family in Internet use, from a gender perspective with a sample of 1657 individuals aged 50 and over, interviewed in the share project. Results show a different contribution of the family to Internet use by older men and women and underline the importance of public policies in reducing gender inequalities. keywords: family; Internet; gender; adults 50+. https://doi.org/10.31447/as00032573.2021239.06 PATRÍCIA SILVA ALICE DELERUE MATOS ROBERTO MARTINEZ-PECINO O papel da família na utilização da Internet por portugueses de 50 e mais anos: uma análise de género A Internet tem vindo a ganhar importância no desenvolvimento da vida social, transformando-se num dos principais meios de comunicação e interação. Contudo, alguns grupos, como o dos idosos, têm ficado à margem da revolução digital. Os estudos sobre adultos mais velhos têm identificado um conjunto de características sociodemográficas, económicas e de saúde destes indivíduos, como determinantes da utilização da Internet. Além destas caraterísticas, as relações familiares podem afetar consideravelmente a utilização desta tecnologia particularmente em países com tradições familiaristas, tais como Portugal. Este trabalho visa, precisamente, analisar o papel da família na utilização da Internet por portugueses de 50 e mais anos, numa perspetiva de género. O presente estudo incide sobre uma amostra de 1657 indivíduos (747 homens e 910 mulheres), inquiridos no âmbito do projeto share (Survey of Health, Ageing and Retirement in Europe) e que representam a população portuguesa de 50 e mais anos. Os resultados obtidos, através de análises de regressão logística binária, evidenciam o distinto contributo da família para a utilização da Internet por cada um dos géneros. Mais concretamente, constata-se que quanto maior o número de filhos, maior a frequência de contactos, assim como uma maior distância geográfica entre a residência dos indivíduos de 50 e mais anos e respetivos filhos está associada a maior probabilidade de utilização da Internet pelo género feminino. Mas nenhuma associação foi encontrada entre os referidos fatores e a probabilidade de utilização da Internet pelo género masculino. Por outro lado, foi ainda possível constatar que a probabilidade de as mulheres 324 PATRÍCIA SILVA, ALICE DELERUE MATOS E ROBERTO MARTINEZ-PECINO que residem com um cônjuge/companheiro(a) utilizarem a Internet é menor do que a das mulheres separadas, divorciadas ou viúvas. Estes resultados apontam para o papel distinto desempenhado pela família no que diz respeito à utilização da Internet por homens e mulheres de 50 e mais anos. Os resultados deste estudo salientam a importância das políticas públicas na redução das desigualdades entre géneros relativamente à utilização da Internet e na promoção de uma sociedade mais inclusiva. INTRODUÇÃO O rápido desenvolvimento das Tecnologias de Informação e Comunicação (tic) oferece aos indivíduos oportunidades sem precedentes, mas nem todos delas usufruem. Com efeito, a sociedade Pós-Moderna encerra novas desigualdades relacionadas com o acesso e utilização da tecnologia que têm justificado o aumento significativo da atenção prestada à divisão ou fratura digital e seus potenciais efeitos (Cruz-Jesus, Oliveira, & Bacao, 2012). Os estudos identificam os adultos mais velhos, os jovens pouco escolarizados e as pessoas pertencentes ao quartil inferior de rendimentos como os grupos mais vulneráveis à exclusão digital (Bucy, 2000; Hüsing & Selhofer, 2004). Este fosso digital tem sido considerado muito preocupante no caso dos idosos, uma vez que constituem um grupo de importância numérica crescente. De acordo com a teoria da Modernização, segundo a qual se propõe explicar a mudança que ocorreu no estatuto e papéis dos idosos em função do grau de industrialização (Dias, 2012), numa sociedade marcada pela mudança acelerada e pelo progresso tecnológico, os mais velhos são caracterizados como indivíduos resistentes à inovação e à utilização das tecnologias (Doll et al., 2007). Em Portugal, a utilização da Internet por este grupo da população continua a constituir um importante desafio dado o reduzido número de utilizadores que o integram (ine, 2017; Silva, Delerue Matos e Martinez-Pecino, 2017), pelo que é importante conhecer os fatores que afetam a utilização da Internet, de modo a evitar a marginalização dos adultos mais velhos. Com efeito, a tecnologia está cada vez mais associada à realização de tarefas inerentes ao quotidiano destas pessoas (Dias, 2012; Neves, Amaro e Fonseca, 2013), como comunicar, realizar compras, marcar consultas no Serviço Nacional de Saúde, realizar procedimentos administrativos, entre outras. A importância do conhecimento das determinantes da utilização da Internet pelos indivíduos mais velhos reside ainda no facto de a sua utilização na segunda metade da vida estar associada a uma maior qualidade de vida (qdv) (Silva, Delerue Matos e Martinez- Pecino, 2018), a sentimentos de maior bem-estar ( Antonucci, Ajrouch e Manalel, 2017; Chopik, 2016; Neves e Amaro, 2015; O PAPEL DA FAMÍLIA NA UTILIZAÇÃO DA INTERNET POR PORTUGUESES DE 50 E +ANOS 325 Russell, Campbell e Hughes, 2008) e de menor solidão (Silva, Delerue Matos e Martinez-Pecino, 2020). A literatura científica tem posto em evidência algumas das determinantes da adoção e utilização da tecnologia (Neves e Amaro, 2015). Muitas pesquisas sobre grupos etários mais velhos têm apontado para o facto de as características sociodemográficas, económicas e de saúde destes indivíduos condicionarem a utilização da Internet (Carpentere Buday, 2007; Choi e Dinitto, 2013; Demoussis e Giannakopoulos, 2006; Dias, 2012; Eastman e Iyer, 2004; Friemel, 2014; Lee, Chen e Hewitt, 2011; Luijkx, Peek e Wouters, 2015; Rosenthal, 2008; Selwyn, Gorard e Furlong, 2003; Wilson, Wallin e Reiser, 2003). Tendo em consideração que as relações familiares são consideradas muito importantes para os indivíduos, autores como Van Biljon e Renaud (2008) recomendam que os modelos explicativos de acesso e utilização da Internet integrem variáveis relacionadas com este tipo de relações. Para os adultos mais velhos, em particular, a família assume grande importância (Bowling, 1995) por, entre outras funções, providenciar suporte e contribuir para a integração social dos indivíduos (Kohli, Künemund e Ludicke, 2005). A UTILIZAÇÃO DA INTERNET POR INDIVÍDUOS DE 50+ ANOS: O PAPEL DA FAMÍLIA Os estudos no âmbito da Ciência, Tecnologia e Sociedade (cts) têm enfatizado a importância de todos os elementos envolvidos nos processos de adoção e utilização da tecnologia, rejeitando o determinismo tecnológico (Madsen e Kræmmergaard, 2016; Xie, 2003) e salientando a capacidade de agência dos adultos mais velhos neste tipo de processos (Peine, 2019). Referenciais teóricos, como a teoria do Ator-Rede (tar), destacam a importância das interações entre indivíduos nos processos de utilização da tecnologia (Latour, 2005), apontando para a relevância daquelas que são estabelecidas entre atores sociais influentes, como é o caso dos familiares próximos (Tatnall, 2014). Também Bakardjieva (2005) salientou a importância das redes sociais próximas nos processos de adoção e utilização da Internet, desenvolvendo o conceito de “warm expert”. De acordo com Bakardjieva (2005) os “warm expert” são pessoas com conhecimentos e competências informáticas (especialistas informais) que desempenham um papel muito importante no apoio à utilização das tecnologias de informação e comunicação por pessoas com conhecimentos tecnológicos reduzidos. De acordo com a mesma autora, estes atores sociais estabelecem uma mediação entre o universo tecnológico e a situação concreta do utilizador da tecnologia com quem mantêm um relacionamento pessoal próximo (Bakardjieva, 2005, p. 99). 326 PATRÍCIA SILVA, ALICE DELERUE MATOS E ROBERTO MARTINEZ-PECINO Este papel é geralmente desempenhado pelos membros mais jovens da família (Taipale, 2019). Com efeito, as pesquisas sobre grupos etários mais velhos têm destacado a importância do papel desempenhado por familiares próximos (Lüders e Gjevjon, 2017; Olsson e Viscovi, 2018), tais como os filhos (Olsson e Viscovi, 2018). Os adultos mais velhos preferem recorrer aos “warm expert” do que a profissionais formais no processo de adoção e integração da tecnologia no seu quotidiano (Olsson e Viscovi, 2018). Com efeito, num contexto em que a importância destes atores sociais tem aumentado, Taipale (2019) refere-se ao “Warm Expert 2.0” para representar estes especialistas informais que, cada vez mais, auxiliam os membros mais velhos da família na utilização e gestão da tecnologia (Taipale, 2019). O papel da família na adoção e utilização da tecnologia pelos mais velhos tem também sido enfatizado por diversos outros estudos empíricos ( Martinez-Pecino, Delerue Matos, e Silva, 2013; Neves, Franz, Munteanu e Baecker, 2018; Russell et al., 2008; Silva, 2019; Sanday Tsai et al., 2017; Van Biljon e Renaud, 2008). No mesmo sentido, os diversos quadros teóricos na área do envelhecimento que remetem para a existência de uma restruturação das redes sociais à medida que as pessoas envelhecem (Antonucci, Ajrouch, e Birditt, 2014; Carstensen, 1995; Charles e Carstensen, 2010; Khan e Antonucci, 1980) destacam o papel crescente que a família assume sobre elas. Apesar de ser um processo de restruturação dinâmico, heterogéneo e fortemente relacionado com o percurso de vida (Cornwell, Laumann e Schumm, 2008), o processo de envelhecimento caracteriza-se, em geral, pelo reforço das relações familiares dos indivíduos (Mollenhorst, Volker e Flap, 2014; Shaw et al., 2007). Também os contextos de migração ou de distanciamento geográfico de familiares instigam os mais velhos a recorrer à Internet com o objetivo de assegurarem a comunicação e a preservação dos laços sociais (Antonucci et al., 2017; Neves et al., 2018). Neste âmbito, a Internet tem figurado, em Portugal, como uma tecnologia que permite estabelecer interações, mesmo que de forma indireta, entre os mais velhos e seus familiares (Neves e Amaro, 2015; Silva, 2019). De facto, as pesquisas científicas têm evidenciado o efeito de compensação da Internet, ou seja, a sua capacidade de atenuar alguns fatores geralmente associados à idade (Neves, 2015), como, por exemplo, a redução da dimensão das redes sociais por perda de alguns dos seus elementos. Simultaneamente, a Internet potencia o impacto positivo das redes sociais na qualidade de vida (qdv) dos portugueses de 50 e mais anos (Silva et al., 2018). As relações familiares condicionam o acesso e uso da Internet. Com efeito, os cônjuges são frequentemente retratados como capazes de se influenciarem O PAPEL DA FAMÍLIA NA UTILIZAÇÃO DA INTERNET POR PORTUGUESES DE 50 E +ANOS 327 mutuamente de forma positiva, ainda que, com alguma frequência, os homens não apoiem as suas esposas na compra de equipamento tecnológico (Luijkx et al., 2015). Os países do Sul da Europa apresentam algumas especificidades nesta matéria, pois, contrariamente ao que acontece na maioria dos países europeus, a ausência de cônjuge é favorável à adoção e utilização da tecnologia (Peacock e Künemund, 2007). Os filhos e os netos também têm sido considerados importantes agentes de motivação para a utilização da tecnologia (Lindsay, Smith e Bellaby, 2007; Luijkx et al., 2015; Martinez-Pecino et al., 2013; Neves e Amaro, 2012; Neves et al., 2018). Os netos têm-se destacado pelo papel positivo que desempenham no processo de familiarização dos avós com a tecnologia (Neves e Amaro, 2012, 2015; Delerue Matos e Neves, 2012). Já o papel assumido pelos filhos tende a ser mais limitado (Eynon e Helsper, 2015; Rebelo, 2015). Se alguns estudos sublinham o facto de estes incentivarem a utilização da tecnologia (Russell et al., 2008), outros acrescentam que não auxiliam posteriormente no processo de familiarização com o equipamento, o que desencadeia sentimentos de frustração nos mais velhos (Silva, 2019). A literatura científica assinala a importância dos estudos sociológicos sobre a relação entre a família e a tecnologia (Barbosa e Casimiro, 2018). Em Portugal, a importância da família tem sido reforçada por diversos trabalhos relativos à utilização da Internet pelas pessoas mais velhas (Dias, 2012; Martinez-Pecino et al., 2013; Neves e Amaro, 2012, 2015; Silva et al., 2018). Contudo, permanece pouco explorada a importância que assumem, a este nível, membros específicos da família, tais como cônjuges e filhos. Por outro lado, é sobejamente conhecida a existência de diferenças de género nos papéis desempenhados pelos indivíduos no seio da família (Aboim, 2007; Aboim e Wall, 2002; Wall et al., 2010) e a importância do género enquanto preditor das trajetórias de vida dos adultos mais velhos, em Portugal (Wall e Aboim, 2015). Simultaneamente, tem sido também fortemente salientada a importância das questões de género nos processos de utilização da tecnologia (Bimber e Barbara, 2000; Dias, 2012; König et al., 2018; Silva, 2019). Contudo, faltam estudos que tenham simultaneamente em conta o impacto das relações familiares e do género na utilização da Internet, em Portugal. Este artigo visa precisamente analisar o papel da família na utilização da Internet por portugueses de 50 e mais anos, numa perspetiva de género. METODOLOGIA Este estudo incidiu sobre 1657 indivíduos portugueses (747 homens e 910 mulheres), inquiridos no âmbito do projeto share (Survey of Health, Ageing 328 PATRÍCIA SILVA, ALICE DELERUE MATOS E ROBERTO MARTINEZ-PECINO and Retirement in Europe) em 2015 (vaga 6) e que representam a população portuguesa, não-institucionalizada, com 50 e mais anos. Os questionários em capi (Computer Assisted Personal Interviewing) foram aplicados presencialmente por entrevistadores devidamente formados. Informação adicional sobre a metodologia do estudo share pode ser consultada nos manuais de metodologia do projeto (Malter e Börsch-Supan, 2013, 2017). As análises estatísticas foram realizadas com o software spss, versão 25. Em primeiro lugar, realizaram-se análises descritivas. Para avaliar a interdependência entre duas variáveis qualitativas utilizou-se o teste do Qui-Qua- drado. Procedeu-se também à comparação de médias através de testes t de Student para amostras independentes. Os resultados destes testes foram complementados com medidas de magnitude de efeito (Cohen’s d/Phi), pois, entre outros motivos relacionados com a potência do teste e com a probabilidade de erro tipo I, as amostras de grandes dimensões podem conduzir a resultados estatisticamente significativos mesmo que as diferenças entre os grupos sejam reduzidas (Marôco, 2014, p. 248). A interpretação dos resultados foi baseada em Cohen (1988). Num segundo momento, realizou-se uma regressão logística binária (método Enter) para cada um dos géneros, de forma a analisar o papel da família na utilização da Internet por portugueses de 50 e mais anos. Com este objetivo, construiu-se um primeiro modelo que permite avaliar o contributo das características sociodemográficas e de saúde para a utilização da Internet. A este modelo foram posteriormente adicionadas as variáveis relacionadas com a família. Este segundo modelo permite estimar o contributo de algumas das características da estrutura e dinâmica familiares para a utilização da Internet. VARIÁVEIS CONSIDERADAS NA ANÁLISE Variável relativa à utilização da Internet: variável dicotómica que permite distinguir os indivíduos que recorreram a esta tecnologia pelo menos uma vez nos últimos sete dias para enviar ou receber e-mails, procurar informações, fazer compras ou para qualquer outra finalidade (1) dos indivíduos que não a utilizam (0). Esta variável tem o estatuto de variável dependente na análise de regressão logística binária, sendo a resposta afirmativa (1) a categoria de referência. Variáveis relacionadas com a família: situação conjugal: (1) “casado(a) ou em união de facto a residir com um cônjuge/companheira(o)” ou (0) “solteiro(a), viúvo(a), divorciado(a) ou casado(a) a viver separado(a) do(a) marido/ esposa”; número de filhos; idade dos filhos; frequência média de contactos durante o último ano com os filhos (escala de (1) “nunca” a (7) “diariamente”); O PAPEL DA FAMÍLIA NA UTILIZAÇÃO DA INTERNET POR PORTUGUESES DE 50 E +ANOS 329 distância geográfica entre a residência do próprio e a residência dos filhos (escala de (1) “no mesmo alojamento/casa” a (8) “mais de 500 quilómetros de distância”). Outras variáveis sociodemográficas e económicas: idade; anos de escolaridade, autoperceção de stress financeiro: (1) “grande dificuldade” ou “alguma dificuldade” em suportar as despesas mensais e (0) “facilidade” ou “muita facilidade” em fazer face às despesas mensais; participação em atividades sociais: (1) participação em pelo menos uma das seguintes atividades: realização de trabalho voluntário ou de caridade; frequência de um curso ou formação; frequência de uma associação desportiva, social ou de outro tipo; participação numa organização política ou relacionada com a comunidade; leitura de livros, revistas ou jornais; realização de jogos com palavras e números com palavras-cruzadas ou Sudoku; realização de jogos de cartas ou outros jogos como o xadrez, ou (0) sem participação nas atividades anteriores; utilização do computador no local de trabalho: (1) utilização do computador ou tablet no exercício da profissão atual ou anterior e (0) não utilização do computador em contexto profissional. Variáveis de saúde: sintomas depressivos avaliados pela escala euro-d, distinguindo-se (1) os indivíduos com sintomas significativos de depressão, ou seja, que obtiveram uma pontuação igual ou superior a 4 pontos na escala euro-d de 12 itens (Prince et al., 1999) e (0) os indivíduos que obtiveram pontuações inferiores na mesma escala; limitações físicas: número de limitações na realização das dez atividades seguintes: caminhar 100 metros, estar sentado cerca de duas horas; levantar-se de uma cadeira depois de estar sentado durante algum tempo; subir vários lanços de escadas sem descansar; subir um lanço de escadas sem descansar; inclinar-se, ajoelhar-se ou agachar-se; colocar ou levantar os braços acima do nível dos ombros; puxar ou empurrar objetos grandes; levantar ou carregar pesos com mais de 5 quilos; apanhar uma moeda pequena que se encontra em cima de uma mesa. A pontuação final corresponde ao número de limitações físicas, mencionadas por cada indivíduo. RESULTADOS quem são os utilizadores da internet com 50+ anos, em portugal? Em Portugal, apenas ¼ dos adultos de 50 e mais anos, aproximadamente, utiliza a Internet (27,2%). O recurso a esta tecnologia é mais frequente no género masculino (31,3%) do que no feminino (23,8%)1. Estas evidências reforçam 1 As diferenças de género são estatisticamente significativas: χ2 (1) = 11,584; p = ,001). 336 PATRÍCIA SILVA, ALICE DELERUE MATOS E ROBERTO MARTINEZ-PECINO CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo concorre para a discussão sobre o papel dos cônjuges e dos filhos na utilização da Internet pelos mais velhos, concluindo que a família afeta de forma diferenciada a utilização da Internet por homens e mulheres de 50 e mais anos, em Portugal. Evidencia a importância dos papéis sociais de género e da familiarização precoce com a tecnologia durante o exercício da atividade profissional para a utilização da Internet em idades avançadas. Esta pesquisa apresenta, no entanto, algumas limitações. A principal prende-se com a escassez de informação existente no projeto share sobre a utilização da Internet. Com efeito, o projeto compreende apenas uma pergunta sobre a utilização versus não-utilização da Internet, o que impossibilita que se discriminem os diferentes usos desta tecnologia (König et al., 2018). Também a escassez de variáveis relativas à estrutura e dinâmica familiares impede uma análise mais aprofundada do papel da família na utilização da Internet pelos portugueses de 50+ anos. Recomenda-se, assim, a inclusão de novas questões sobre a utilização da tecnologia e a recolha de informação adicional sobre a família em projetos futuros. Apesar destas limitações, este estudo permite apresentar também recomendações para as políticas públicas. A primeira prende-se com a necessidade de integrarem uma perspetiva de género, tendo em conta as iniquidades das mulheres face à tecnologia. A segunda recomendação aponta para a importância das medidas políticas adotarem uma perspetiva de percurso de vida, fomentando a aprendizagem ao longo da vida, de modo a evitar a marginalização digital em idades avançadas e a capacitar os indivíduos mais velhos para uma utilização adequada da tecnologia. O PAPEL DA FAMÍLIA NA UTILIZAÇÃO DA INTERNET POR PORTUGUESES DE 50 E +ANOS 337 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS aboim, S. (2007), “Clivagens e continuidades de género face aos valores da vida familiar em Portugal e noutros países europeus”. In K. Wall, L. Amâncio (eds.), Família e Género em Portugal e na Europa, Lisboa, Imprensa das Ciências Sociais, pp. 35-92. aboim, S., wall, K. (2002), “Tipos de família em Portugal: interações, valores, contextos”. Análise Social, 163, 37(2), pp. 475-506. antonucci, T. C., ajrouch, K. J., birditt, K. (2014), “The convoy model: explaining social relations from a multidisciplinary perspective”. Gerontologist, 54(1), pp. 82-92. antonucci, T. C., ajrouch, K. 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