scieee Open visual document viewer

A escrita da história da Farroupilha na 1ª República brasileira: entre as Revoluções Cisplatinas, o PRR e o positivismo

Antunes Soares, Fabrício Antônio

Abstract

O presente artigo examina como a obra historiográfica Revoluções Cisplatinas, de 1915, do político, diplomata e historiador Alfredo Augusto Varella, representa tanto uma disputa política como uma forma de escrita da história sobre a Farroupilha. A partir da hipótese de que na Primeira República, no Rio Grande do Sul, houve uma hegemonia social e política do Partido Republicano Rio-Grandense se quer investigar como a obra de Varella articulou-se com o seu contexto. Portanto, o objetivo é analisar como foi construída a narrativa sobre a Farroupilha no contexto de disputas em torno do borgismo. Para atingir tal objetivo, usa-se o conceito de operação historiográfica de Michel de Certeau, isto é, como a partir de uma análise do lugar social, da prática científica e da escrita do texto podem-se perceber as transformações na escrita da história sobre a Farroupilha. Por fim, percebe-se que a obra analisada foi um objeto tanto de luta política como de virada interpretativa na escrita da Farroupilha.

Full text

A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 55. P ime cua imes e de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i55.03 A esc i a da his ó ia da Fa oupilha na 1ª República b asilei a: en e as Re oluções Cispla inas, o PRR e o posi i ismo The w i ing o he his o y o Fa oupilha in he 1s B azilian Republic: be ween he Cispla in Re olu ions, he PRR and posi i ismo Fab ício An ônio An unes Soa es1 Uni e sidade Es adual de Lond ina/PPGHS (B asil) ORCID: h ps://o cid.o g/0000-0002-6132-803X Recibido: 20-01-2023 Acep ado: 02-04-2023 Resumo O p esen e a igo examina como a ob a his o iog á ica Re oluções Cispla inas, de 1915, do polí ico, diploma a e his o iado Al edo Augus o Va ella, ep esen a an o uma dispu a polí ica como uma o ma de esc i a da his ó ia sob e a Fa oupilha. A pa i da hipó ese de que na P imei a República, no Rio G ande do Sul, hou e uma hegemonia social e polí ica do Pa ido Republicano Rio-G andense se que in es iga como a ob a de Va ella a iculou- se com o seu con ex o. Po an o, o obje i o é analisa como oi cons uída a na a i a sob e a Fa oupilha no con ex o de dispu as em o no do bo gismo. Pa a a ingi al obje i o, usa-se o concei o de ope ação his o iog á ica de Michel de Ce eau, is o é, como a pa i de uma análise do luga social, da p á ica cien í ica e da esc i a do ex o podem-se pe cebe as ans o mações na 1 ([email p o ec ed]). G aduado em his ó ia pela Uni e sidade Fede al de San a Ma ia, mes e em his ó ia pela Uni e sidade Fede al do Rio G ande do Sul, dou o em his ó ia pela Pon i ícia Uni e sidade Ca ólica do Rio G ande do Sul com es ágio dou o al de um ano na Uni e sidade Li e de Be lim no Ins i u o de Es udos La ino Ame icanos. A ualmen e sou p o esso colabo ado do PPGHS/UEL e p o esso in es igado da Flacso/B asil. T ês publicações ecen es. Soa es, F. A. A.. A esc i a li e á ia da his ó ia: O caso O gaúcho. Anos 90 (Online) (Po p Aleg e), . 30, p. 1-20, 2023. 2. Soa es, F. A. A.. Reesc e endo a his ó ia da Fa oupilha na comemo ação do seu Cen ená io: En e o Pe íodo Va gas, a his o iog a ia de Souza Docca e a nacionalização do egional. Ibe oame icana, . 22, p. 149-170, 2022. Soa es, F. A. A.. A esc i a li e á ia da Fa oupilha no século XIX: Um es udo de caso - O co sá io. La Razón His o ica, . 55, p. 103-126, 2022. 62 Fab ício An ônio An unes Soa es A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 55. P ime cua imes e de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i55.03 esc i a da his ó ia sob e a Fa oupilha. Po im, pe cebe-se que a ob a analisada oi um obje o an o de lu a polí ica como de i ada in e p e a i a na esc i a da Fa oupilha. Pala as-cha e: His ó ia in elec ual, His ó ia da his o iog a ia, Teo ia da his ó ia, Ope ação his o iog á ica. Abs ac This pape examines how he his o iog aphical wo k Re oluções Cispla inas, 1915, by he poli ician, diploma and his o ian Al edo Augus o Va ella, ep esen s bo h a poli ical dispu e and a o m o his o y w i ing abou he Fa oupilha. F om he hypo hesis ha in he Fi s Republic, in Rio G ande do Sul, he e was a social and poli ical hegemony o he PRR, we wan o in es iga e how Va ella's wo k a icula ed wi h i s con ex . The e o e, he aim is o analyse how he na a i e abou Fa oupilha was cons uc ed in he con ex o dispu es a ound bo gismo. To achie e his goal, he concep o his o iog aphical ope a ion o Michel de Ce eau is used, ha is, how om an analysis o he social place, he scien i ic p ac ice and he w i ing o he ex one can pe cei e he ans o ma ions in he w i ing o his o y abou he Fa oupilha. Finally, i is pe cei ed ha he analyzed wo k was an objec o bo h poli ical s uggle and in e p e a i e u n in he w i ing o Fa oupilha. Keywo ds: In ellec ual his o y, His o y o his o iog aphy, His o y heo y, His o iog aphical ope a ion. 1. In odução Esse a igo analisa como a ob a Re oluções Cispla inas, publicada em 1915, pelo polí ico, ad ogado, diploma a e his o iado Al edo Va ella (1864- 1943), é uma análise his ó ica que, po um lado, se a icula à c í ica polí ica ao egime bo gis a do Pa ido Republicano Rio-G andense2 (PRR) no Rio G ande do Sul e, po ou o lado, é uma comp eensão his ó ica ino ado a de explicação his o iog á ica da Fa oupilha. Pa a an o, a hipó ese que no eia o a igo é que Va ella econs ói e e oma a his ó ia da Fa oupilha como uma o ma de c í ica à cen alização polí ica das ins i uições dominadas pelo PRR. Pa a desen ol e a hipó ese p opos a, o a igo ale-se da ope acionalidade analí ica de en ende a ob a Re oluções Cispla inas como uma ope ação his o iog á ica (Ce eau 2007: 65-119). Po an o, um dos caminhos des a 2 Pa ido Republicano Rio-G andense (1882-1929). Su giu no im do Impé io com is as a abalha pela República. Po oda a República Velha oi o pa ido dominan e no Rio G ande do Sul. 63 A esc i a da his ó ia da Fa oupilha na 1ª República b asilei a: en e as Re - oluções Cispla inas, o PRR e o posi i ismo A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 55. P ime cua imes e de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i55.03 in es igação é sabe como a ob a, Re oluções Cispla inas, se a icula com o luga social, com a p á ica e a esc i a, em ou as pala as, como é possí el pe cebe a “ope ação his o iog á ica” na his o iog a ia sob e a Fa oupilha (Rod igues 2019) (Soa es 2019). Assim sendo, examina a ob a de Va ella como uma ope ação his o iog á ica signi ica analisá-la como a a iculação en e a) um luga social b) p á icas cien í icas e c) a esc i a de um ex o (Ce eau 2007: 66). Pa a comp eende , po an o, a his ó ia da his o iog a ia sob e a Fa oupilha (Pesan en o 2009), pa e-se do p essupos o de que qualque in es igação e na a i a his ó ica3 se encadeia com luga es, p á icas e esc i as e, ambém, suas de e minações an o sociais e cul u ais como polí icas e econômicas4. Isso aca e a uma o ma de p ocede na his o iog a ia limi ada po condições ine en es ao luga de sua p odução. Esse é, en ão, um dos equisi os do desen ol imen o da ope ação his o iog á ica, po an o, além de o nece , po um lado, a solidez social à esc i a da his ó ia, po ou o lado, o luga social, a p á ica e a esc i a, ambém a o nam possí el e, assim, a esc i a da his ó ia delineia-se “po uma elação da linguagem com o co po (social) e, po an o, ambém pela sua elação com os limi es que o co po impõe” (Ce eau 2007: 76). A Fa oupilha, ou Re olução Fa oupilha ou Gue a dos Fa apos5, oi um con li o mili a e polí ico na P o íncia de São Ped o6 en e 1835 e 1845. Ela az pa e de um duplo mo imen o his ó ico, a mon an e, az pa e das e ol as egenciais que assola am o Impé io B asilei o em seu início de consolidação (Piccolo 1985) e, a jusan e, az pa e dos con li os pla inos que a e am essa egião na cons i uição de seus Es ados-nacionais (Guazzelli 1998). Desse modo, a Fa oupilha começou como um mo imen o de au ônima polí ica da P o íncia, como as demais p o íncias b asilei as, pa a um ano depois, o na a P o íncia de São Ped o uma República sepa ada do B asil. Também, a Fa oupilha o nou-se o pila cen al da iden idade do sul- io-g andense pelas mais a iadas p á icas simbólicas ao longo de um século. 3 A na a i a, no caso des e a igo, econs ói o empo his ó ico no p esen e. Pa a Ricoeu (1994), pela junção de um sujei o e um p edicado, algo é alegado sob e o sujei o da ase. Quando o omancis a e o his o iado na am, c iam na ob a o que oi a his ó ia. A na a i a – his o iog á ica ou li e á ia – ela a a ida de pe sonagens em um en edo que p oduz a con e gência a pa i da di e gência. Os indícios do passado, nas on es e es ígios, adqui em sen ido no en edo de uma na a i a, e, des e modo, um sen ido é cons i uído pa a os enômenos que su gem dispe sos na linguagem. Assim, o mundo do ex o, que a na a i a ins i ui, é um dos luga es de sen ido do passado. 4 Isso a e iguado, é impo an e pa a o desen ol imen o desse a igo e -se em conside ação que pa a examina a his o iog a ia é necessá io en ende não apenas o seu ca á e na a i o, mas, ambém, sua dimensão social e os usos polí icos do passado na esc i a da his ó ia. As na a i as ci culam socialmen e, mas não ci culam li emen e, elas são p oduzidas e ansmi idas em um con ex o polí ico-social. São esc i as com uma inalidade: es abelece uma con o mação polí ica sob e o co po social (Ha og; Re el, 2001). 5 Ou as denominações pela qual a Fa oupilha é conhecida. 6 Nome do a ual Es ado do Rio G ande do Sul. 64 Fab ício An ônio An unes Soa es A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 55. P ime cua imes e de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i55.03 O li o his o iog á ico Re oluções Cispla inas oi esc i o e publicado po Va ella em meados da segunda década do século XX, já sob a P imei a República e o domínio au o i á io do PRR na ida polí ica do Es ado do Rio G ande do Sul. Po an o, com uma es e a pública limi ada, a socialização in elec ual de Va ella dá-se ainda quando e a in eg an e do PRR, no jo nal A Fede ação (1884-1937) – ligado ao PRR – e sendo g aduado em di ei o pela Faculdade de Di ei o em Reci e (Alonso 2002: 133-146). Em um con ex o em que an o os in eg an es do PRR quan o a oposição ede alis a se conside a am he dei os da Fa oupilha, há em Re oluções Cispla inas um en endimen o de que e a não só uma no a in e p e ação his o iog á ica da Fa oupilha, mas, ambém, uma ala anca pa a a c í ica em elação à si uação polí ica p esen e de Va ella no Es ado sulino. Além disso, seu libe alismo polí ico oi um co e que o sepa a do com ismo do PRR e das demais in e p e ações da Fa oupilha7. Po an o, pa a a ingi o obje i o aqui p opos o, di idiu-se o a igo em cinco pa es. As duas p imei a in es igam o luga social de p odução de Re oluções Cispla inas, is o é, o con ex o polí ico e social e o con ex o in elec ual da p imei a República no Rio G ande do Sul, pe íodo em que se ambien ou a esc i a do li o. A e cei a pa e a e igua a p á ica cien í ica expos a na ob a Re oluções Cispla inas. As duas úl imas pa es examinam a esc i a do ex o, em ou as pala as, como su ge, no ex o his o iog á ico, a his ó ia ali na ada. 2. Luga social (I): Con ex o polí ico e social O PRR com Júlio de Cas ilhos8, p oclamada a República em 1889, assume o pode no Es ado do Rio G ande do Sul e, após o in e egno do go e no lide ado po Ba os Cassal9, em 1892, o PRR ol a ao pode ainda an es da Re olução Fede alis a de 189310. Ademais, nesse pe íodo his ó ico, de ins i ucionalização do egime epublicano, p oduziu-se o sis ema polí ico 7 A p odução his o iog á ica an e io de ele o se ia: 1) A Gue a ci il no Rio G ande do Sul, de T is ão A a ipe (1986), publicado em 1881, e, 2) His ó ia da República Rio-G andense de Assis B asil (1982), publicado em 1882. Da p odução do mesmo pe íodo de Va ella, des aca-se: 3) Al edo Fe ei a Rod igues (1865-1942), ele esc e eu sob e a Fa oupilha em seu Almanaque Li e á io e Es a ís ico da P o íncia do Rio G ande do Sul que publicou de 1889 a é 1917. De modo esumido, do p imei o Va ella di e ge sob e o ca á e au o i á io da Fa oupilha; do segundo, Va ella di e ge sob e o ca á e ede alis a da Fa oupilha e, do e cei o, Va ella ac edi a a que a Fa oupilha se ia uma con inuação das e oluções Cispla inas; pa a Rod igues (1990) a Fa oupilha e a uma con inuação das e oluções na i is as a i mado as do espí i o nacional. 8 Júlio P a es de Cas ilho (1860-1903) oi o g ande líde polí ico do PRR. 9 João de Ba os Cassal (1858-1903) oi polí ico, jo nalis a e memb o do PRR. 10 Foi uma gue a ci il b asilei a, iniciada no Rio G ande do Sul, oco ida en e 1893 a 1895. 65 A esc i a da his ó ia da Fa oupilha na 1ª República b asilei a: en e as Re - oluções Cispla inas, o PRR e o posi i ismo A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 55. P ime cua imes e de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i55.03 co onelis a11 que oi a base do pode na República Velha12. O co onelismo, enquan o sis ema, ins i uiu-se no pe íodo em que os che es locais p incipia am a pe de a sua o ça polí ica local e necessi a am apela ao go e no que, po sua ez, ainda não e a o e o su icien e pa a ga an i sua p esença ins i ucional. Pa a Ax (2007: 92), o PRR no pode cos u ou mais comp omissos conse ado es do que p og essis as, es e e longe das decan adas idelidade pa idá ia e coe ência p og amá ica e es e e ão en ol ido com as p á icas co onelis as como qualque ou o agen e polí ico da época. Toda ia, o modelo polí ico conhecido no Rio G ande do Sul ap esen ou inegá eis especi icidades. A p incipal delas diz espei o ao quad o de ins i ucionalização au o i á ia e de sis ema ização do discu so polí ico- ideológico de jus i icação do egime. O PRR go e nou o Es ado do Rio G ande do Sul po oda a República Velha, endo nas igu as de Júlio de Cas ilhos e Bo ges de Medei os13 seus expoen es. Quando em 14 de julho de 1891, a cons i uição es adual oi p oclamada mui as o am as ques ões polêmicas, como o ealce aos mecanismos de inge ência do pode es adual nos municípios, a omissão do concei o libe al de sepa ação dos pode es e a possibilidade de eeleição ilimi ada. Ademais, a Re olução Fede alis a iniciada em e e ei o de 1893 oi uma espos a das oposições à cen alização polí ica impos a pela Cons i uição de 1891. Em 1895, com o im da Re olução Fede alis a, o p esiden e P uden e de Mo ais14 ga an iu a anis ia aos ede alis as. O Pa ido Fede alis a15, de oposição ao PRR, eo ganizou-se em 1896, mas limi ou-se a pa icipa da polí ica a a és da imp ensa a é as eleições pa a a Câma a Fede al em 1906, quando elegeu ês depu ados (F anco, 2007). Con udo, Júlio de Cas ilhos, em seguida à Re olução Fede alis a, concluiu a o ganização do apa elho de Es ado. Pa a Ax (2007: 95-96), o au o i a ismo de Cons i uição de 14 de julho de 1891 in es iu o Pode execu i o de o midá eis ins umen os de in e enção nos municípios e de con ole do apa a o es a al. Mas, ainda assim, o apa elho de es ado con inua a não sendo in aes u u almen e o e o bas an e pa a possibili a à eli e di igen e assenho eada do comando a implan ação de um egime di a o ial e de con ole absolu o. 11 Co onelismo é um concei o emp egado pa a explica a es u u a de pode que é exe cido pelo co onel, no plano local, sob e o pode público, mas que aba cou odo o sis ema polí ico do B asil, no deco e da P imei a República. 12 República Velho ou P imei a República du ou de 1889-1930. 13 An ônio Augus o Bo ges de Medei os (1863-1961) oi um polí ico sul- io-g andense, eminência pa da do PRR após a mo e de Júlio de Cas ilhos. Também, oi p esiden e do Rio G ande do Sul po 25 anos. 14 P uden e José de Mo ais Ba os (1841-1902) oi um ad ogado e polí ico b asilei o. Foi p esiden e do B asil de 1894 a 1898. 15 Pa ido polí ico que exis iu, no Rio G ande do Sul, de 1892 a 1928. 66 Fab ício An ônio An unes Soa es A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 55. P ime cua imes e de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i55.03 Con udo, ha ia no espaço polí ico e social sulino, com a p og essi a u banização e indus ialização, no os sujei os sociais em cena, c iando ocos de p essão que ameaça am o echamen o do sis ema polí ico. Pa a o au o , A especi icidade do Rio G ande do Sul em elação ao sis ema co onelis a nacional es a a numa pe manen e ensão exis en e en e o pode es adual e pode es locais, pois a na u eza dessa elação e a ao mesmo empo de coope ação e de compe ição […] enquan o nos demais es ados a eg a oi a acomodação en e esses dois e mos. Ou seja, no Rio G ande do Sul, o comando polí ico egional – ambém eme so de uma ede de comp omissos co onelís icos – p e endia sedimen a cada ez mais o con ole sob e o es ado, enquan o que os pode es locais aspi a am escapa do jugo comp esso e o ja che ias ela i amen e au ônomas (Ax 2007: 96). Um p imei o elemen o se des aca como uma epos a a hipó ese: o bo gismo. Is o é, após a mo e de Cas ilhos, Bo ges o na-se o che e do PRR e do go e no do Es ado. Assim sendo, o bo gismo ep esen a o au o i a ismo e a hegemonia es a al e polí ica do PRR, endo p o undas implicações na ida es adual e na elação en e o Es ado e o B asil. Logo, o con ex o polí ico e social o nece elemen os pa a o desen ol imen o da Fa oupilha a elliana e sua c í ica ao bo gismo. 3. Luga social (II): Con ex o in elec ual Em 16 de se emb o de 1864, nascia Al edo Va ella em Jagua ão, cidade on ei iça com o U uguai. Va ella es abeleceu-se na Capi al da P o íncia em 1881 pa a p ossegui nos seus es udos. Ob e e ing esso no Ins i u o B asilei o, onde oi aluno de Apoliná io Po o Aleg e16 e acabou in luenciado po suas ideias epublicanas (Lazza i 2004). Finalizado o es udo no Ins i u o B asilei o, oi pa a São Paulo pa a ing essa na Escola de Di ei o (Sil a 2010) (An oniolli 2017). Po ém, eg essa a Po o Aleg e só e o nando em 1886 aos es udos, em Pe nambuco, onde concluiu o cu so de di ei o em Reci e no ano de 1889. Assim, Va ella oi o mado no con ex o in elec ual iniciado pela ge ação de 1870 (Alonso, 2002) (Boei a 2019). Va ella oi empossado P ocu ado Ge al da República no Rio G ande do Sul em 1890 e, em seguida, Sec e á io dos Negócios do In e io e Ex e io em 1891. Con e eu-se em um dos pe sonagens cen ais da República no Es ado, além de se um de o ado pa idá io de Júlio de Cas ilhos. Também, nessa época, alcançou a che ia do jo nal A Fede ação. Além disso, Va ella 16 Apoliná io Po o Aleg e (1844-1904) oi um omancis a, his o iado e jo nalis a sul- io- g andense. 67 A esc i a da his ó ia da Fa oupilha na 1ª República b asilei a: en e as Re - oluções Cispla inas, o PRR e o posi i ismo A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 55. P ime cua imes e de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i55.03 oi memb o in luen e dos epublicanos da elha gua da no Es ado, em meio dos quais se encon a a no começo do PRR. Ademais, Va ella pa icipou da gue a ci il ede alis a e oi depu ado de 1900 a 1906. En e an o, em seguida ao é mino do seu manda o, a as a -se-ia da mili ância di e a na polí ica. Em 1907, com a dissensão ep esen ada pela candida u a de Fe nando Abbo 17 à p esidência da Es ado, o que o iginou ans o mações nos quad os polí icos epublicanos, Va ella icou ao lado da dissidência, disco dando da di eção que o cas ilhismo assumiu. Após esses acon ecimen os, seguiu a i idade na diplomacia e oi cônsul na Espanha (1909), no Japão (1910), em Po ugal (1913) e na I ália (1914) quando aposen a-se (Sil a 2010). Em 1920, Va ella oi memb o e socio undado do Ins i u o His ó ico e Geog á ico do Rio G ande do Sul (IHGRGS), ambém é pa ono de uma das cadei as da Academia Rio- G andense de Le as. Po im, é a p o issão de diploma a que pe mi iu-o examina a qui os desconhecidos sob e o Es ado na al, ob endo, dessa o ma, uma conside á el cole ânea de on es. Os a qui os examinados na Península Ibé ica pe mi i am a Va ella delimi a uma ela i a dis ância do que inha sendo ealizado en e a plêiade de his o iado es egionais. Documen os sob e o desen ol imen o de líde es a oupilhas com as nascen es epúblicas do P a a i iam endossa uma de suas mais polêmicas eses, a espei o da in luência pla ina não apenas na o mação do gen io io-g andense, mas ambém na p óp ia gênese e desen ol imen o da Re olução Fa oupilha (Sil a 2010: 26). Va ella es eou com seu p imei o li o chamado A cons i uição io- g andense de 1896. Con udo, somen e em 1914 começa a esc e e a his ó ia da Fa oupilha e após publica seus p incipais li os. O p imei o deles é Re oluções Cispla inas, de 1915. Pa a Oli ei a (2005: 378-379), Re oluções Cispla inas, edi adas pela li a ia po uguesa Cha d on, pode se conside ada uma ob a in e mediá ia na ob a a eliana. P ecedia pelos esc i os do im do século XIX e dezoi o anos an es de sua ob a magna His ó ia da G ande Re olução, Re oluções Cispla inas em como oco o mo imen o a oupilha e o ad en o da República Rio-G andense, a iculados aos acon ecimen os pla inos. Em elação ao desen ol imen o da hipó ese, a socialização in elec ual de Va ella, passa pelo epublicanismo de Apoliná io Po o Aleg e, pela ge ação de 1870, na aculdade de Di e o em Reci e, após, segue ca ei a ju ídica e polí ica (no Rio G ande do Sul) e como jo nalis a e eda o no jo nal A Fede ação, po im, é como diploma a que po encializa sua his o iog a ia an o pela possibilidade de ci culação in e nacional como pela opo unidade de a qui os es angei os. 17 Fe nando Fe nandes Abbo (1857-1924) oi um médico e polí ico b asilei o. Foi p esiden e do Rio G ande do Sul in e inamen e em duas ocasiões, a p imei a em 1891 e a segunda de 1892 a 1893. 68 Fab ício An ônio An unes Soa es A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 55. P ime cua imes e de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i55.03 Com odos os elemen os do luga social apon ados a é aqui cabe pe gun a : a que de e, no pe íodo do auge do pode do bo gismo, es e in e esse em uma lei u a da Fa oupilha con a o PRR e Bo ges de Medei os? Is o é, como o luga social ajudou a ope a al lei u a da Fa oupilha? C eio que uma conjec u a explica i a pode se lançada a pa i do abalho de Lo e (1975) e de Ax (2007). Aquele di ide a inse ção do Rio G ande do Sul na polí ica nacional (du an e a República Velha 1889-1930) em qua o pe íodos: 1) 1889-1894 – dependência dos p esiden es mili a es, 2) 1895-1903 – au onomia ela i a e isolamen o, 3) 1904-1908 – eme gência g adual como o ça polí ica impo an e e 4) 1909- 1930 – pa icipação em la ga escala da polí ica nacional. Assim sendo, apon a Lo e (1975), a pa i de 1910, o Rio G ande do Sul jun o com exé ci o e am, dois a o es/ a o es que pode iam deses abiliza o sis ema polí ico do ca é com lei e18. O que eio a oco e nas eleições de 1910, de 1922 e a de 1930. Po an o, o in e esse em uma elei u a da Fa oupilha, ac edi o es a nessa no a inse ção do Rio G ande do Sul na polí ica b asilei a e, assim, sua iden idade pla ina ou sepa a is a pode ia se usada poli icamen e. Po ou o lado, Ax (2007) di ide a polí ica egional sulina, du an e a República Velha, em se e pe íodos: 1) 1889- 1895 – ins i ucionalização epublicana, 2) 1895-1903 – Hegemonia cas ilhis a, 3) 1903-1907 – C ise da hegemonia, 4) 1908-1913 – Cons ução da hegemonia bo giana, 5) 1913-1920 – Hegemonia bo giana, 6) 1921-1923 – Con es ações e c ise de hegemonia, 7) 1923-1930 – Recomposição da aliança hegemônica. Po an o, a aje ó ia in elec ual e polí ica de Va ella que in e essa ao a igo é, a pa ida c onologia de Lo e (1975) a ase 3 e 4 e a pa i da classi icação de Ax (2007) a e apa 3, 4 e 5, is o é, em elação a Lo e (1975) a c escen e inse ção nacional do Rio G ande do Sul, em elação a Ax (2007) a g ada i a dominação bo gis a da polí ica es adual. Também, segundo Lo e (1975: 88), Bo ges compa ilha a com Cas ilhos, a sob iedade, o com ismo, a pouca idade com que o a ao pode e, em especial, o au o i a ismo, logo, a ascensão de Bo ges à lide ança do pa ido ma ca a a ins i ucionalização do sis ema do PRR (Lo e 1975: 89) e, assim, a con inuidade pessoal e disciplina do PRR, ajudou a impulsiona Pinhei o Machado19 e Bo ges no cená io nacional. Pa a Lo e (1975), a polí ica do PRR, em ní el nacional, busca a o a o i ismo econômico e o pa ona o ede al e, dessa o ma: Bo ges eassumiu o go e no do Rio G ande em 1913. Em ce o sen ido ele não se di e encia a de qualque Go e nado de ou a egião: es a a in e essado no pa ona o ede al. Mas oi melho sucedido que a maio ia de seus colegas. Conseguiu no go e no He mes assegu a aos io-g andenses um núme o de 18 Como e a denominada a p edominância do Es ado de São Paulo e do Es ado de Minas Ge ais na polí ica nacional. 19 José Gomes Pinhei o Machado (1851-1915) oi um polí ico b asilei o iliado ao PRR, endo sido um dos mais in luen es da República Velha. Após a mo e de Cas ilhos di idiu a lide ança do PRR com Bo ges. 69 A esc i a da his ó ia da Fa oupilha na 1ª República b asilei a: en e as Re - oluções Cispla inas, o PRR e o posi i ismo A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 55. P ime cua imes e de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i55.03 pos os impo an es além do que ob i e a em qualque adminis ação an e io . (...) Os emp egos ede ais no Rio G ande o am p eenchidos po Bo ges, que simplesmen e en iou suas nomeações às á ias epa ições e minis é ios do Rio (Lo e 1975: 166). Assim sendo, Va ella es a a na oposição a Bo ges desde o cisma de 1906- 07, con udo, o a embaixado b asilei o com a anuência do PRR, is o é, no momen o da cons ução da hegemonia e na ins i ucionalização da hegemonia bo gis a (Ax , 2007), de al modo Va ella ope a his o iog a icamen e, poli icamen e e p o issionalmen e em um luga social hos il, mas não echado a sua ci culação. Po ou o lado, (Lo e 1975) na inse ção do Es ado sulino na polí ica nacional, Va ella a ua na e agua da do bo gismo, is o é, ao mesmo empo, o e ece uma explicação polí ica e his ó ica que a o ece a oposição no Es ado sulino como a oposição em ní el nacional, pois, como no ou Lo e (1975) o Es ado (comandado pelo PRR) e a um dos a o es de deses abilização da polí ica do ca é com lei e, assim, a pena de Va ella auxilia a na con enção do bo gismo. 4. P á ica (I): com is a, pe o no mucho Va ella é o his o iado da ob a mais ex ensa e in ensa sob e a Fa oupilha. Também manejou como poucos, a seu empo, as e amen as da his o iog a ia20. Não obs an e econhece e c i ica o au o i a ismo do PRR de ma iz com iana, em Re oluções Cispla inas, Va ella con essa se um seguido da iloso ia posi i is a e de sua jus i icação do mé odo cien í ico, inspi ado nas ciências da na u eza, na cons ução da esc i a his o iog á ica. Assim, uma ques ão a se a aliada nesse pe íodo da cul u a his o iog á ica sul- io-g andense é sob e as suas conexões com a iloso ia com iana (Diehl 1998), mais que um modismo p edominan e, o com ismo es abilizou-se no Es ado, ex a asando os p óp ios limi es do PRR, sendo modelo pa a o deba e público (Boei a 1980), assim, a alusão ao posi i ismo “di uso” indica que o com ismo oi coligado a ou os luxos de iloso ias cien i icis as do século XIX, ais como o da winismo, o spence ismo e o e olucionismo. Pa a Oli ei a (2005: 378): No caso especí ico de Alcides Lima, Assis B asil e Al edo Va ella, obse a-se que, num p imei o momen o, a adoção do posi i ismo polí ico acompanhou a aje ó ia de undação e de consolidação do p oje o epublicano sul- io- g andense, que buscou, no com ismo, os elemen os que jus i icassem suas p opos as pa idá ias. Con udo, o ompimen o dos in elec uais do PRR com 20 Também, Va ella semp e oi c i icado po seu es ilo gongó ico e empolado de esc e e ; Guilhe mino (2006: 383) esume bem o espí i o dos c í icos a Va ella: “Quei amos ou não, é p eciso supo á-lo”. Ve ambém: Sil a (2019). 76 Fab ício An ônio An unes Soa es A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 55. P ime cua imes e de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i55.03 izinha da casa que ege a a mos e a, no ale do P a a” (Va ella 1915: 26, n. 1). Po an o, Va ella (1915: 30, n. 1) de ine o Es ado: A ansição, de e dize -se, é maio ainda que pa ece. Fisicamen e é aqui o ex emo do B asil, e en amos no Es ado o ien al. Plan as e animais, paisagens, a p óp ia ida, indús ias e comé cio do B asil icam pa a ás. Poli icamen e, o Impé io ai algumas cen enas de quilôme os adian e: socialmen e, odo o es o da p o íncia g a i a pa a as Repúblicas pla inas. Após as condições geo ísicas da egião, passa a na a o po oamen o. Os p imei os po oado es o am os po ugueses de Laguna, o iginá ios de São Vicen e. Pa a o his o iado de Jagua ão, é impo an e al a e iguação da população, pois “que apu a quais os componen es biológicos que a me ópole in oduziu aí, modi icações que acaso so e am o in luxo do meio, ipo que esul ou, e sua in luência no desdob amen o do enômeno polí ico em es udo” (Va ella 1915: 42, n. 1). En im, Tal azou-se, em meio incompa á el, a população ené gica do Con inen e: o b onze ijíssimo do po uguês de lei, com ac éscimo de ma é ia es anha que o ap imo ou e lai os de ou a que não no deg ada am, como ainda com ênues es ígios de aças mais colo idas, e o çan es da beleza e igo ou aumen a i os dos a ibu os mo ais do exempla humano p imi i o (Va ella 1915: 64, n. 1). Pa a en ende os e en os que esul a am no 20 de Se emb o26, Va ella (1915) conside ou p imei amen e a e olução p epa a ó ia ou as causas p edisponen es das ci cuns âncias que ope a am na população e no e i ó io io-g andense, is o é, o meio geo ísico. Depois, con inua na ando a soma de causas de e minan es do ompimen o e a de inição dos sin omá icos abalos que esul a am no es ou o e olucioná io. Ademais, dis inguindo as pa icula idades io-g andenses, o au o sus en a-se nos ela os de na u alis as es angei os e nos aspec os climá icos da egião. Po an o, Va ella (1915) co obo a dois aspec os que delimi am essa pa icula idade: a) a condição de passagem do espaço io-g andense que cons i ui ia um ambien e de mudança en e o B asil e o P a a; e b) a dualidade de seu meio geo ísico di idindo com o B asil e o P a a semelhanças na paisagem. A ançando no esboço da linhagem dos habi an es io-g andenses, Va ella (1915) ac edi a que o subsídio aço iano cons i ui ia o aço undamen al na o mação é nica do Rio-G ande, cunhando um as o indelé el, sendo o Rio G ande um esul ado da ci ilização lusa. Em seguida, exis iu a in luência espanhola. O in luxo indígena é conside ado limi ado, 26 Da a que iniciou a Fa oupilha. 77 A esc i a da his ó ia da Fa oupilha na 1ª República b asilei a: en e as Re - oluções Cispla inas, o PRR e o posi i ismo A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 55. P ime cua imes e de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i55.03 bem como o a icano, que, po causa da indús ia e do con abando, pouco colabo a am pa a o ipo io-g andense. Nas causas p edisponen es, pa a ap esen a as ligações en e o Rio G ande e o Impé io b asilei o, Va ella (1915) usa uma lei ge al da ísica no qual a unidade de um sis ema ende a ompe -se na medida em que as suas pa es não ope em mu ações comuns. Na conjun u a de con ulsão egencial a endência sepa a is a a ua como uma disposição gene alizada no espí i o popula sul- io- g andense. E, assim, No as o o ganismo combalido, udo consen e, udo conspi a, udo conco e, pa a a queb a da unidade nacional e up u a dos elos que p endiam o Rio G ande, a um sis ema cujas anslações ha iam deixado de se exa amen e comuns, con o me pude a p e e quem es udasse os a os a luz da lição genial de Galileu (Va ella 1915: 217, n. 1). De oda o ma, segue Va ella (1915), exis i ia um p o incialismo a ibuído ao io-g andense que, desde a colabo ação dos sul- io-g andenses no mo imen o de maio de 181027 e nos con li os dos o ien ais, a pa i da p opaganda e olucioná ia que igno a a on ei as, a i ica a o a elamen o do Es ado com os a os polí icos do P a a. Pa a Va ella (1915), de i a a em depaupe amen o do passado da Fa oupilha ecusa a ligação com o P a a e, assim, as ideias sepa a is as e epublicanas e iam indo pa a a P o íncia pela on ei a. Ademais, o p o incialismo se ia esul an e do a as amen o em elação à Co e e da p oximidade polí ica, cul u al e geog á ica com a egião do P a a (Gu eind, 1992). E aqui, segu amen e, es á a mais impo an e con ibuição de Va ella à his o iog a ia da Fa oupilha, is o é, o ema anhamen o da Fa oupilha com a egião do P a a. Desse modo, Va ella ompe com uma adição his o iog á ica, iniciada na República de 1889, que in e p e a a a Fa oupilha somen e den o dos ma cos do Es ado e da nação b asilei a (Soa es 2016)28. Assim, os p imei os abalos do a o e ol oso o am obse ados em 1829, depois da pe da da Cispla ina29 pelo Impé io, momen o em que p incipia uma in iga na on ei a sul- io-g andense, alusi o às conspi ações do pad e José 27 A Re olução de Maio oi uma sé ie de e en os que oco e am en e 18 e 25 de maio de 1810 na cidade de Buenos Ai es (uma colônia do Impé io Espanhol). O esul ado oi a deposição do ice- ei Bal asa Hidalgo de Cisne os e o es abelecimen o de um go e no local. A Re olução de Maio oi a p imei a e ol a bem sucedida no p ocesso de independência da Amé ica do Sul 28 Em 1935, Va ella publica ia sua ob a-p ima, His ó ia da G ande Re olução, no qual de ende ia a mesma ese, is o é, a Fa oupilha com o igem na egião do P a a. Isso, o le a ia a so e pesadas c í icas de ou os le ados e cons angimen os polí icos (Sil a 2010) (Soa es 2016) (Gu eind 1992). 29 Cispla ina oi uma p o íncia b asilei a que exis iu de 1821 a 1828 c iada pela in asão luso- b asilei a da Banda O ien al. De 1815 a 1822 o B asil oi um eino cons i uin e do Reino Unido de Po ugal, B asil e Alga es. Após a independência do B asil e a o mação do Impé io do B asil a p o íncia Cispla ina pe maneceu pa e dele. Em 1828, após a Con enção P elimina de Paz, a p o íncia da Cispla ina o nou-se independen e como U uguai. 78 Fab ício An ônio An unes Soa es A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 55. P ime cua imes e de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i55.03 Caldas30, do caudilho Juan La alleja31 e do líde da on ei a Ben o Gonçal es32. Po an o, a simul aneidade en e os e en os do P a a e os do Rio G ande é a hipó ese do his o iado de Jagua ão pa a explica o mo imen o de 1835. Va ella (1915) en endeu que a Fa oupilha nada mais se ia que um espelho das Re oluções Cispla inas em sua ascendência e p ocesso, endo p ocedência no P a a, po ém, em se en ia de odos os libe ais b asilei os. Os p essupos os de Re oluções Cispla inas, po um lado, aca e a am a explicação de e minis a e eleológica do Rio G ande do Sul, e, po ou o lado, posiciona am a Fa oupilha em um con ex o mais complexo, não só em seu ínculo com o Impé io po uguês, mas ambém com o P a a. A escolha de Va ella (1915) po abo da o passado do sul- io-g andense numa pe spec i a mais dila ada que sua o igem po uguesa se con e eu num apo e no o em elação à o igem pla ina da Fa oupilha, ida como algo danoso à iden idade nacional, ao con á io do que en ende Va ella (Gu eind, 1992), em que a ideia posi i a de libe dade em do P a a. En im, pa a ele, a “Re olução de 1835” nada mais oi que um e lexo das e oluções cispla inas, – a nossa, de 1835 a 1845 – em sua o igem e desen ol imen o a é o segundo semes e de 1837, apoiando-se daí em dian e no Rio da P a a, mas buscando consegui a i ó ia ambém com os libe ais do B asil, e, se possí el, em p o ei o de odo o B asil (Va ella 1915: 522, n. 1). Pa a Va ella (1915), a Re olução de 1835 oi uma al e ação no in e io de um sis ema no qual a ação mecânica de elação en e as pa es e o odo pa ou de unciona em sin onia. Também, dis inções geo ísicas assumi iam um ca á e decisi o na explicação da Fa oupilha. Além disso, a ca ac e ís ica do Rio G ande do Sul de se linha limí o e en e o Impé io do B asil, a Con ede ação A gen ina e a Banda O ien al, is o é, se on ei a, su ge como uma azão pa a a comp eensão da e olução de 1835 e só se az plausí el como elemen o de um encadeamen o de sucessos mais ex ensos, as Re oluções Cispla inas, o que suge e uma inclusão do passado do Rio G ande na conjun u a dos e en os da egião do P a a (Sil a 2010). Desen ol endo a hipó ese do a igo, o segundo pon o da esc i a da his ó ia de Re oluções Cispla inas é o pla inismo33, is o é, a libe dade (do libe alismo) 30 José An ônio Caldas ou Pad e Caldas (1787-1850) oi um eligioso, jo nalis a e polí ico b asilei o. 31 Juan An onio La alleja y de la To e (1784-1853) oi um mili a e polí ico u uguaio, que lide ou os T in a e T ês O ien ais. 32 Ben o Gonçal es da Sil a (1788-1847) oi um mili a e es anciei o sul- io-g andense e o g ande líde da Fa oupilha. 33 Pla inismo e e e-se a egião do P a a, is o é, aos espaços que so em a a uação do io da P a a, seus a luen es e de sua bacia hid og á ica, mo men e ao que hoje é a A gen ina, U uguai e Pa aguai, países no qual o Rio G ande do Sul é limí o e. A ualmen e o Rio G ande do Sul e o Pa aguai não azem on ei a, mas an es da Gue a do Pa aguai, a a ual egião de Missiones e a dispu ada en e 79 A esc i a da his ó ia da Fa oupilha na 1ª República b asilei a: en e as Re - oluções Cispla inas, o PRR e o posi i ismo A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 55. P ime cua imes e de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i55.03 impedida de iun a pelo Es ado moná quico b asilei o, só consegue pene a no Rio G ande do Sul pela egião pla ina limí o e ao Es ado. Pa a isso, Va ella cons ói uma p oximidade geo ísica en e o P a a e o Rio G ade do Sul, is o se de a ao ca á e de on ei a da egião. Assim, Va ella ino a, na P imei a República, ao mos a a his ó ia da Fa oupilha além dos ma cos do Es ado- Nação b asilei o. O libe alismo que em pelo P a a é uma o ma, en ão, de Va ella p opo ciona às oposições ao bo gismo um ou o a senal eó ico pa a o emba e polí ico como uma ou a inse ção do Es ado sulino no B asil. 6. Conclusão A pa i da me odologia da ope ação his o iog á ica pode desen ol e a hipó ese sob e a conexão en e polí ica e his o iog a ia na Re oluções Cispla inas. O caminho escolhido oi analisa o luga social, as p á icas cien i icas e a esc i a de um ex o. Po um lado, a ob a de Va ella, es a a em um luga social hegemonizado pelo bo gismo, que pouco espaço de a uação p opo ciona a a oposição, ambém, sua socialização in elec ual oi en ol a no epublicanismo e na Ge ação de 1870. Po ou o lado, sua p á ica cien í ica oi guiada pela epis emologia da his ó ia posi i is a em que a his ó ia é uma ciência com causas e elações mecânicas en e os e en os. Po im, em sua esc i a do ex o o concei o de libe alismo pe mi e que ele se dis ancie do posi i ismo e, assim, ep esen a a Fa oupilha de manei a ino ado a ao mesmo empo que c i ica o bo gismo. Na Re oluções Cispla inas, a Fa oupilha e ia sua eia pulsan e de libe dade indo do P a a, mas, que, além disso, em uma lei u a a con apelo, é uma o ma de ques iona o mando au o i á io do PRR no Es ado do Rio G ande do Sul, na P imei a República. Con udo, es as suas a mas concei uais pa a c ia uma ou a Fa oupilha só conseguem se en endidas em oda sua complexidade quando a iculadas em uma explicação que coloque a p á ica cien i ica, a esc i a do ex o de Va ella conjun amen e ao luga social em a ob a oi p oduzida. a A gen ina e o Pa aguai. Va ella de endia que a Fa oupilha inha como p incipal in luencia os acon ecimen os pla inos, is o é, acon ecimen os não b asilei os ou não somen e b asilei os. 80 Fab ício An ônio An unes Soa es A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 55. P ime cua imes e de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i55.03 7. Re e ências bibliog á icas Alonso, Angela. 2002. Ideias em mo imen o: A ge ação de 1870 na c ise do B asil-Impé io. São Paulo: Paz e Te a. An oniolli, Juliano F ancesco. 2017. “Tão longe quan o a p e isão cien í ica possa alcança ”: a expe iência do empo da ge ação epublicana da Faculdade de Di ei o de São Paulo (1878-1882). Tese (Dou o ado em His ó ia). – Uni e sidade Fede al do Rio G ande do Sul (UFRGS), Po o Aleg e. P. 248. A a ipe, T is ão de Alenca . 1986. Gue a ci il no Rio G ande do Sul: memó ia acompanhada de documen os lida no Ins i u o His ó ico e Geog á ico B asilei o. Po o Aleg e: Co ag, 1986. (o iginal 1881) Assis B asil, Joaquim F ancisco. 1981. His ó ia da República Rio-G andense. Po o Aleg e: E us. (o iginal 1882) Ax , Gun e . 2007. “Co onelismo indomá el: o sis ema de elações de pode ”. In: Golin, Tau; Boei a, Nelson. (coo d.); Reckziegel, Ana; AXT, Gun e (di .). República Velha (1889-1930). Passo Fundo: Mé i os, V.3, .1. Boei a, Nelson. 1980. O posi i ismo di uso. In: DACANAL, José; GONZAGA, Se gius (o gs.). RS: Cul u a e ideologia. Po o Aleg e: Me cado Abe o. Boei a, Luciana Fe nandes. 2019. Uma p o íncia de peso: a esc i a da his ó ia sul- io-g andense no século XIX. In: Soa es, Fab ício A. A.; Ma ins, Je e son Telles. His ó ia e his o iog a ia sul- io-g andense. C iciúma: EdiUnesc. Cesa , Guilhe mino. 2006. His ó ia da li e a u a do Rio G ande do Sul (1737- 1902). Po o Aleg e: Ins i u o Es adual do Li o: Co ag. Ce eau, Michel. 2007. A esc i a da his ó ia. Rio de Janei o: Fo ense Uni e si á ia. Diehl, As o . 1998. Aspec os da his o iog a ia posi i is a no exemplo da his ó ia do Rio G ande do Sul. In: A cul u a his o iog á ica b asilei a: do IHGB aos anos de 1930. Passo Fundo: Ediup . F anco, Sé gio da Cos a. 2007. O Pa ido Fede alis a. In: Golin, Tau; Boei a, Nelson. (coo d.); Reckziegel, Ana; Ax , Gun e (di .). República Velha (1889-1930). Passo Fundo: Mé i os,V. 3, . 1:129-170. Guazzelli, Cesa Augus o Ba cellos. 1998. O ho izon e da p o íncia: a República Rio-G andense e os caudilhos do Rio da P a a (1835-1845). Tese (dou o ado em His ó ia). Rio de Janei o: UFRJ/IFCS. Gu eind Ieda. 1992. His o iog a ia io-g andense. Po o Aleg e: Ed. Uni e sidade/U gs. Ha og, F ançois; Re el, Jacques. 2001. “No e de conjuc u e his o iog aphique”. In: Ha og, F ançois; Re el, Jacques (sous la di ec ion). Les usages poli iques du passe. Pa is: Ehees: 13-24. 81 A esc i a da his ó ia da Fa oupilha na 1ª República b asilei a: en e as Re - oluções Cispla inas, o PRR e o posi i ismo A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 55. P ime cua imes e de 2024. Pp. 61-81. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i55.03 Lazza i, Alexand e. 2004. En e a g ande e a pequena pá ia: le ados, iden idade gaúcha e nacionalidade (1860/1910). Unicamp/I ch, Tese (Dou o ado em his ó ia), p. 363. Oli ei a, Ma ia da Gló ia. Uma iden idade pla ina pa a o Rio G ande do Sul: análise his o iog á ica de Re oluções Cispla inas, de Al edo Va ella. In: Humanas. Po o Aleg e, . 26/27, n. 1/2, 2004/2005. Pesa en o, Sand a Ja ahy. 2009. Uma ce a Re olução Fa oupilha. In: G inbe g, Keila; Salles, Rica do (o g.). O B asil impe ial. Rio de Janei o: Ci ilização B asilei a, Vol. 2. Ricoue , Paul.1994. Tempo e Na a i a. Campinas: Papi us, Tomo I. Rod igues. Al edo Fe ei a. 1990. Vul os e a os da Re olução Fa oupilha. B asília: Imp ensa Nacional. Rod igues, Ma a C is ina de Ma os. 2019. En e a ge ação c í ica e o gi o linguís ico: con ibuição à his ó ia da his o iog a ia sul- io-g andense. In: Soa es, Fab ício A. A.; Ma ins, Je e son Telles. His ó ia e his o iog a ia sul- io-g andense. C iciúma: EdiUnesc. Sil a, Jaisson Oli ei a da. 2010. A epopéia dos i ãs do pampa: his o iog a ia e na a i a épica da g ande e olução, de Al edo Va ella. Disse ação (mes ado) U gs, I ch, Ppg-His ó ia, Po o Aleg e. Sil a, Jaisson Oli ei a da Sil a. 2019. O esc u ínio dos pa es: Al edo Va ella e a “His ó ia da G ande Re olução”. In: Soa es, Fab ício A. A.; Ma ins, Je e son Telles. His ó ia e his o iog a ia sul- io-g andense. C iciúma: EdiUnesc. Soa es, F. A. A. 2016. Fa apos de es ó ias: omance e his o iog a ia da Fa oupilha (1841 – 1999). Pon i ícia Uni e sidade Ca ólica (Puc – Rs): ese de dou o ado. Po o Aleg e. Soa es, F. A. A. 2019. His ó ia das na a i as da Fa oupilha. In: Soa es, Fab ício A. A.; Ma ins, Je e son Telles. His ó ia e his o iog a ia sul- io- g andense. C iciúma: EdiUnesc. Va ella, Al edo. 1915. Re oluções cispla inas: A República Riog andense. Po o: Li a ia Cha d on, 2 . Va ella, Al edo. 1933. His ó ia da G ande Re olução. Po o Aleg e: Edi o a e Li a ia do Globo.