Nº 58 | OTOÑO 2022 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.03 72-88 Jornalismo cultural e temporalidade nos dossiês da revista brasileira Cult (2019) Cultural journalism and temporality in the dossiers of the Brazilian magazine Cult (2019) Anna Cavalcanti Universidade Federal do Rio Grande do Sul | Ramiro Barcelos, 2705, 90035-007 Porto Alegre, Brasil 0000-0002-3005-6537 ·
[email protected] Cida Golin Universidade Federal do Rio Grande do Sul | Ramiro Barcelos, 2705, 90035-007 Porto Alegre, Brasil 0000-0002-6251-5435 · golin.cos[email protected] Fechas: Recepción: 30/06/2022 . Aceptación: 16/09/2022 . Publicación: 15/10/2022 Resumo Este artigo propõe uma leitura da dimensão temporal do jornalismo cultural, enfatizando a característica recorrente desse segmento editorial de atualizar o passado e de construir memória ao mediar a cultura. Valemonos da experiência da Cult, a mais longeva revista cultural brasileira, há 25 anos em circulação no mercado editorial. Com base no aporte teórico e metodológico da hermenêutica de Paul Ricoeur, particularmente de sua proposta de tríplice mímesis, analisamos uma amostra de seis edições mensais publicadas entre julho e dezembro de 2019, concentrando-nos na seção principal, intitulada Dossiês, por meio das chamadas de capa e dos textos internos. A partir da categoria temporal da diacronia e dos enquadramentos encontrados na amostra de dossiês, encontramos evidências do caráter contextualizador das narrativas comum ao perfil do jornalismo de revista. Identificamos a diacronia por intermédio de uma recorrente ausência dos tradicionais marcadores cronológicos jornalísticos, uma das características que impulsiona o potencial da publicação analisada de recircular ao longo do tempo, ainda que visando a um leitor restrito. Entendemos que os dossiês da Cult são recursos afirmativos de um jornalismo cultural que está em fricção com o passado por meio de um tempo presente lento e distendido, mostrando-se em contraponto à temporalidade jornalística comumente associada à velocidade, à aceleração e ao instantâneo. Palavras-chave: jornalismo cultural, temporalidades, jornalismo de revista, diacronia, revista Cult. Abstract This paper proposes a reading of the temporal dimension of cultural journalism, emphasizing the recurring characteristic of this editorial segment of updating the past and building memory by mediating culture. We draw on the experience of Cult, the longest-running Brazilian cultural magazine, which has been in circulation in the publishing market for 25 years. Based on the theoretical and methodological contribution of Paul Ricoeur’s hermeneutics, particularly his proposal for a triple mimesis, we analyzed a sample of six monthly editions published between July and December 2019, focusing on the main section, entitled Dossiers, through its covers and internal texts. From the temporal category of diachrony and the frameworks found in the sample of dossiers, we found evidence of the contextualizing character of
Jornalismo cultural e temporalidade nos dossiês da revista brasileira Cult (2019) Anna Cavalcanti /Cida Golin 73 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.03 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 72-88 narratives in the profile of magazine journalism. We identified diachrony through a recurrent absence of traditional journalistic chronological markers, one of the characteristics that drives the potential of the analyzed publication to recirculate over time, even if aiming at a restricted readership. We understand that Cult’s dossiers are affirmative resources of a cultural journalism that is in friction with the past through a slow and distended present time, showing itself in counterpoint to journalistic temporality commonly associated with speed, acceleration and instantaneous. Keywords: cultural journalism, temporalities, magazine journalism, diachrony, Cult. 1. Introdução Intérprete e júri do bom gosto, crítico voraz apto a silenciar ou dar voz a quem elege, o jornalismo de cultura desempenha uma função que ultrapassa o poder de hierarquizar e traduzir: ele se propõe a desestabilizar, questionar, deslocar o foco a novas percepções e processos relativos à cultura contemporânea, em diálogo constante com o passado1. Sendo o jornalismo cultural ancorado no presente da produção periódica, entendemos que esse segmento privilegia a dimensão contextual e reflexiva, inserindo seus temas em uma historicidade. Nesse sentido, sublinhamos a potência do viés temporal na reflexão sobre o jornalismo cultural e seus produtos, encontrando na área indícios de uma temporalidade que se contrapõe ao tempo jornalístico hegemônico, associado que é à aceleração, ao instantâneo e ao chamado presenteísmo. Tendo como pressuposto o jornalismo como forma de conhecimento, trazemos, neste artigo, uma leitura do jornalismo cultural a partir de seu viés recorrente de atualizar o passado e de construir memória ao mediar a cultura. Para tanto, a fim de iluminarmos a dimensão temporal narrativa do jornalismo cultural, valemo-nos da hermenêutica do filósofo francês Paul Ricoeur, especialmente de sua proposta de tríplice mímesis. Acreditamos que, nesse nicho jornalístico, o tempo pode ser narrado de maneira distendida, lenta e reiterada. Características comumente discutidas, como o excessivo atrelamento à agenda cultural, a superficialidade dos textos e a marginalização da crítica, podem ser repensadas quando tomadas como objeto de reflexão, especialmente no âmbito das revistas culturais. Para testarmos nossa hipótese, analisaremos uma amostra de seis edições mensais impressas da revista brasileira Cult, todas as quais publicadas em 2019. Ressaltamos que essa amostra faz parte da investigação mais ampla de uma tese que articulou outras categorias temporais relativas ao jornalismo cultural, como a efeméride e a crítica. Trata-se, nesse sentido, de uma amostra limitada, porém representativa do percurso editorial que a revista apresentou nos últimos 10 anos. Fundada em 1997, a Cult é a revista cultural impressa (hoje também em formato digital) mais longeva do país, sendo remanescente de uma tradição profícua de revistas e de suplementos culturais que, nas duas últimas décadas, migraram para versões exclusivamente digitais ou encerraram suas atividades. A opção por estudar uma revista parte, sobretudo, da representatividade da temporalidade por ela mediada, ou seja, da sua periodicidade mensal, por meio da qual ela se aproxima de um caderno de cultura semanal ou de um suplemento quinzenal, materialidades comuns ao segmento aqui estudado. 1 Nas primeiras décadas do século XXI, em função do ecossistema digital e da hegemonia das redes, o jornalismo cultural perdeu seu protagonismo no que concerne à chancela da visibilidade da produção cultural. No entanto, tal jornalismo ainda mantém a força de conferir legitimidade e credibilidade aos temas que escolhe divulgar.
Jornalismo cultural e temporalidade nos dossiês da revista brasileira Cult (2019) Anna Cavalcanti /Cida Golin 74 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.03 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 72-88 Chamamos a atenção, também, para o fato de que algumas características associadas ao jornalismo cultural ganham novo tratamento quando abordadas sob a perspectiva do jornalismo de revista, segmento focado em determinado perfil editorial, voltado a um público-leitor previsto e selecionado com antecedência por uma publicação. Em contraponto ao periódico diário, os textos de uma revista de cultura têm a possibilidade de serem mais longos, o que influencia diretamente a possibilidade de aprofundamento das matérias. Esse aspecto também possibilita que a crítica, sempre que desejada, possa ser contemplada, o que permite que ela saia da margem e retorne ao centro da produção editorial. A partir do estudo dos dossiês de capa, por meio de suas chamadas e dos textos internos, foram encontrados enquadramentos temáticos que, como conjunto, reverberam a proposta editorial da publicação. Essa análise apresentou simetrias e repetições as quais optamos por explorar através de uma leitura hermenêutica, dando a ver as relações entre narrativa e temporalidade. Entendemos o recorte analisado como um fragmento de uma coleção, pistas que representam um singular projeto de revista, mas que também reverberam no contexto comum ao jornalismo cultural de revista. Para esse estudo, temos como pano de fundo trabalhos anteriores que investigam a revista Cult nos campos jornalístico, literário e filosófico, como as dissertações de Tsutsui (2006), de Soares (2012) e de Oliveira (2015). No entanto, vale destacar que nenhuma dessas pesquisas analisa um entrecruzamento entre jornalismo cultural e temporalidade. 2. A perspectiva hermenêutica sobre o jornalismo de cultura: o fundamento docontexto O jornalismo, enquanto instituição social (Franciscato, 2005), é uma referência fundamental para o entendimento dos tempos vivenciados por uma sociedade. Trata-se de um dos parâmetros a partir do quais os grupos sociais constroem seu próprio senso de tempo público, ou seja, é um importante referencial coletivo sobre o que é assumido como passado, presente e futuro. Esses termos relativos à temporalidade, cotidianamente compartilhados, são recorrentes do narrar jornalístico, uma das instâncias responsáveis pela mediação do tempo conforme o experienciamos. O ritmo das narrativas jornalísticas, reproduzido no cotidiano, é dominado por uma lógica aceleradora de tempo. Mais do que isso: o instantâneo, noção que envolve a referência de atualidade contemporânea (Antunes, 2007), veicula uma percepção de imediatez, supondo que o tempo do jornalismo não pode se descolar do tempo do mundo. O evento evocado sob essa temporalidade deriva de um sentido de que algo só ganha visibilidade porque irrompe; assim, quanto maior for o sentido de intempestivo, maior a carga de notoriedade. Nessa direção, o sentido de atualidade, colado à noção de “imediatismo”, comprime o passado, expande o futuro e apreende o presente, como observa Ricoeur (2010) ao descrever aquilo que é sincrônico. Para o autor, a qualificação do tempo se relaciona diretamente com o modo narrativo; afinal, é somente pela dimensão narrativa que o tempo pode ser vivido e apropriado pelo ser humano. Como dito anteriormente, para pensarmos acerca da temporalidade da narrativa jornalística, partimos da tríplice mímesis ricoeuriana. No primeiro tomo da obra Tempo e Narrativa, Ricoeur propõe construir uma relação entre tempo e narrativa, demonstrando o papel mediador da construção da
Jornalismo cultural e temporalidade nos dossiês da revista brasileira Cult (2019) Anna Cavalcanti /Cida Golin 75 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.03 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 72-88 intriga2 por meio de um círculo de três camadas superpostas: mímesis I (preconfiguração), mímesis II (configuração) e mímesis III (reconfiguração)3. É construindo a relação entre esses três modos miméticos que o autor estabelece a mediação entre tempo e narrativa. O círculo hermenêutico ricoeuriano corresponde, pois, ao caráter circular temporal que constitui a narrativa. Ou seja, narrar, enquanto ato ancestral do ser humano, é a possibilidade de configurar e reconfigurar os sentidos temporais de nossa experiência de leitura no/do mundo4. A perspectiva da análise hermenêutica no jornalismo, segundo Quiroga (2017), permite a compreensão da prática jornalística como produtora de consciência acerca da historicidade do tempo. Conforme o autor, partindo do filósofo Hans-Georg Gadamer, a produção jornalística sempre foi decisiva à formação de uma consciência que temos da história ou, ainda, da “plena consciência da historicidade de todo presente” (Gadamer, 2006, p. 17). Logo, compreender os fundamentos que elevam o jornalismo à condição de narrativa da história do tempo presente significa inserir-se em um campo que envolve a historicidade de um entendimento de mundo (mímesis I). Entendemos que o background histórico e o universo cultural, os quais constituem o contexto associado a fatos narrados no jornalismo, devem ter protagonismo. A esse propósito, Zamith (2011) ratifica não existir jornalismo sem contextualização, definindo esta como “uma operação da construção noticiosa que tem em vista dar ao receptor da mensagem o contexto em que o acontecimento se verificou” (Zamith, 2011, p. 58). Contextualizar é, então, “um processo que envolve operações e estratégias cognitivas e é condição indispensável para a construção de conhecimento” (Lückman, 2020, p. 16). Para dar relevo ao contexto como elemento que oferece um pano de fundo historicizante, pretendemos entendê-lo como uma ação narrativa que se operacionaliza na mímesis I. O fornecimento de background e de antecedentes históricos e sociais é, no jornalismo cultural, característica comum quando da operacionalização da narrativa. Isso se deve, especialmente, por ser nesse segmento editorial que se encontram, com mais frequência, textos como ensaios, críticas e resenhas, narrativas que têm por caráter intrínseco a capacidade de retomar reflexivamente trajetórias e conteúdos do campo artístico. É a partir de tal aspecto que apontamos o acionamento da diacronia5 como chave de leitura da temporalidade no jornalismo de cultura. 2 A ideia de “intriga” é definida por Ricoeur como a parte da narrativa na qual se expõe, de forma encadeada, um acontecimento por meio de estágios decisivos, tais como “começo”, “meio” e “desenlace”. 3 Essa primeira ação mimética (mímesis I) refere-se ao mundo cultural que nos cerca, propondo que toda narrativa pressupõe, tanto do narrador quanto de seu leitor, uma familiaridade no que diz respeito a agentes, objetivos, meios e circunstâncias. Já a mímesis II é a agenciadora dos fatos, configura a sucessibilidade e exerce as funções de mediação e integração. Por fim, a mímesis III concerne ao mundo do leitor e às diferentes interpretações postas em marcha no processo de leitura e de apropriação. A partir das leituras de Agostinho e de Aristóteles, Ricoeur compreende que cada uma dessas ações miméticas corresponde, respectivamente, a um mundo pré-figurado (mímesis I), a um mundo em configuração (mímesis II) e a um mundo que se reconfigura continuamente (mímesis III), a partir das múltiplas leituras e experiências que nos atravessam. 4 Cabe ressaltar que, para Ricoeur, o tempo torna-se tempo humano à medida que é narrado, vale dizer, enquanto narramos e experienciamos o mundo, estamos simultaneamente a interpretá-lo, em uma leitura e em uma ressignificação constantes. 5 Tomamos, aqui, o termo “diacrônico”, de empréstimo à linguística, como distinto do termo “sincrônico”. Ambos os conceitos indicam formas diferentes de perspectiva no estudo de uma língua – em um momento específico (sincronia) ou ao longo do tempo (diacronia).
Jornalismo cultural e temporalidade nos dossiês da revista brasileira Cult (2019) Anna Cavalcanti /Cida Golin 76 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.03 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 72-88 3. Atemporalidadenasrevistasimpressasdecultura Na vasta literatura sobre jornalismo cultural, encontramos alguns pontos comuns dentre as muitas características atribuídas a essa prática jornalística. Entendemos que o segmento realiza uma função de mediação, que “converte códigos artísticos e literários – herméticos e esotéricos – em linguagem mais ampla, adequada a um auditório maior” (Golin et al., 2010, p. 129); que é uma espécie de “herdeiro do ensaísmo humanista” (Piza, 2003, p. 16); que “oscila entre a reprodução do já existente e disponível para o consumo e a criação parcialmente permitida e existente nessa editoria” (Gadini, 2009, p. 29), além de constituir uma “plataforma interpretadora” (Faro, 2006, p. 3), quer dizer, uma perspectiva de leitura dos mapas culturais de uma época. Há, ainda, na literatura sobre o tema, o consenso de que o segmento “deve ter espírito crítico, comentários interpretativos, desenho atrativo” (Zambrano e Villalobos, 2010, p. 72), deve “interpretar a criatividade potencial do ser humano” (Rivera, 2003, p. 17) e “não se [definir] intrinsecamente por uma temática, mas por um modo próprio de abordagem” (Vogel, 2008). Nesse percurso em torno de um conceito, percebe-se que algumas ideias centrais parecem se repetir e podem ser condensadas por uma qualidade estruturante: o jornalismo cultural se caracteriza por um modo processual de criação, apontando para um passado em permanente latência a partir de um repertório crítico, seletivo e, principalmente, produtor de memória. No jornalismo cultural, a crítica, a resenha e a agenda são formatos textuais comumente encontrados. A crítica e a resenha tendem a ser retrospectivas por natureza, isto é, discutem sobre coisas e obras que já ocorreram e já foram escritas. Em contraponto, na cobertura cultural, a agenda é outra forma particular de mediação temporal no âmbito de um caderno ou suplemento. Local de serviço, constam ali sugestões de atividades semanais ou mensais que marcam uma programação datada, estreitamente vinculada com o presente e com o futuro. Dessa maneira, vemos que, em um mesmo espaço, o jornalismo cultural pontua um ritmo que reforça a espera e o porvir, ao mesmo tempo que constrói uma visão crítica retrospectiva. Identificamos, nessa fricção comum à cobertura cultural, uma polarização temporal que caracteriza a crítica como reativa e a agenda, como proativa. É importante destacar que, no jornalismo cultural, as críticas são escritas antes ou depois de um determinado evento, conforme cronograma alinhado ao movimento das editoras, dos teatros e de outras instituições de artes. Diante dessa temporalidade distinta de produção, há um claro descolamento da temporalidade emergente, que irrompe, uma vez que algumas matérias não são produzidas necessariamente à medida que um determinado evento ocorre ou durante sua realização mas antes ou depois dele – havendo, pois, uma maior independência da factualidade, com vistas a uma suposta atemporalidade do conteúdo a ser criado. O jornalista cultural teria, então, o papel delicado de traçar rotas e de ser um mediador de experiências; não como um direcionador, que aponta objetivamente e de forma resoluta sobre aquilo que “é’ ou “não é” digno de ser visto, lido, assistido. Sua função principal seria a de despertar, lançar luz, trazer à tona aquilo que ainda é obscuro, alçando um olhar de resistência para o que já é tido como “dado”. Na discussão que aqui propomos, há um gênero textual fundamental – o ensaio – que se sobressai na materialidade a ser abordada. No caso da revista Cult, tal gênero se encontra principalmente na mais importante seção da revista, intitulada “Dossiê”, que analisaremos a seguir. Entendemos o ensaio
Jornalismo cultural e temporalidade nos dossiês da revista brasileira Cult (2019) Anna Cavalcanti /Cida Golin 77 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.03 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 72-88 como um gênero textual de relevância, uma forma crítica por excelência, o qual implica um texto em aberto, que ensaia uma leitura abrindo-se mais para perguntas do que para respostas. Na constituição dos dossiês da revista Cult, conseguimos perceber a expressão de gêneros em profusão, como crítica, resenha e ensaio, práticas textuais que visam a tensionar os objetos em questão, temáticas que muito frequentemente tem proximidade com os campos da filosofia e da psicanálise. Em meio à demora ou à urgência de uma escrita, mas sempre a partir da criação de um espaço para o pensamento, acreditamos que as revistas constituem linhas múltiplas e sobrepostas de uma época (Luna, 2017, p. 265). Com base em elementos como crítica literária, crítica cultural e dossiês, esses periódicos falam sobre o contemporâneo a partir de uma temporalidade editorial própria, flertando com uma duração que se distende na medida em que são produtos colecionáveis. Vemos, aqui, os rastros do conceito etimológico da revista, ou seja, o ato da re-vista, de examinar, de inspecionar mais detidamente, pressupondo o exercício da crítica e do ensaio e, portanto, da reflexividade em relação ao passado e ao porvir, reflexividade essa inscrita no agendamento do presente. Isso revela uma tentativa editorial de compreender os contextos sociais, um movimento dos veículos em estabelecer pontes entre teoria e prática, articulando o pensamento intelectual e acadêmico com a sociedade. Por isso, é válido examinar a seção “Dossiê” da Cult, que busca ler, interpretar e, consequentemente, tatear um pouco as diversas realidades circundantes. 4. Apontamentossobrealeiturahermenêuticadosdossiêsdarevistacult A revista Cult foi criada em 21 de julho de 1997, em São Paulo, e pode ser considerada a mais longeva revista de cultura do Brasil, estando há 25 anos no mercado editorial. A primeira fase da Cult, entre julho de 1997 e fevereiro de 2002, corresponde ao período da Editora Lemos, sob o comando do jornalista Manuel da Costa Pinto. Nessa época, a Cult – Revista Brasileira de Literatura dava ênfase à criação literária, tendo como slogan “o mundo das palavras, da cultura e da literatura”. Constituíase em um espaço de reflexão sobretudo acerca de literatura, por meio da publicação de ensaios, de resenhas literárias, de poesias e de textos ficcionais em prosa. Em 2002, a revista foi vendida para a Editora Bregantini. Com sede em São Paulo, a revista aborda temas ligados às artes, à literatura, à filosofia e à psicologia, com conteúdos produzidos por jornalistas e por acadêmicos. Cada edição da Cult apresenta um dossiê que, organizado em torno de um tema específico, pretende contribuir com um debate de saberes e de conhecimentos de interesse público. Observamos que a Cult, paulatinamente, foi se transformando em um periódico acadêmico de viés mais geral, isto é, por intermédio da publicação de ensaios, sobretudo, na seção Dossiê. Trata-se de textos que propõem uma visada reflexiva a respeito de questões do tempo presente, visada em que é preciso, necessariamente, olhar o passado e o futuro de forma simultânea. Complementam as edições, via de regra, matérias especiais, artigos, resenhas, ensaios, entrevistas e perfis que contemplam aspectos variados da cultura. A revista se mantém através de anunciantes e de assinaturas. Atualmente, quando circula em poucos exemplares impressos para as bancas, a publicação apresenta, na capa, especialmente a seção Dossiê, a qual se tornou o elemento central, o ponto focal da materialidade da revista impressa.
Jornalismo cultural e temporalidade nos dossiês da revista brasileira Cult (2019) Anna Cavalcanti /Cida Golin 78 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.03 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 72-88 Acreditamos que o formato da revista Cult, mesmo nas suas distintas fases editoriais, aproximase, em parte, daquilo que pesquisadores argentinos definem como revista independente de cultura. Essa expressão designa periódicos que se “propõem a ser veículo[s] de algo”, ou seja, projetos de intervenção não regidos pela lógica da mercadoria. A partir disso, entende-se que o periodismo cultural não se constitui como um campo especializado de temas, mas pela possibilidade de oferecer um olhar “especial” na leitura da cultura de seu tempo. (Badenes, 2017, p. 22-23). As revistas culturais são, portanto, formas de participação no social e se estruturam como redes de sociabilidade. Em uma leitura de conjunto da publicação, centrada em suas chamadas de capa e textos internos, averiguamos que a publicação apresenta, por meio de seus temas, um conceito de “atualidade expandida”, vale dizer, a revista Cult aborda assuntos que não se atêm ao presente imediato. Assim, a ideia de “atualidade jornalística”, por mais primazia que tenha no campo profissional, não impede que a revista se inscreva em um tempo próprio, a partir de um conjunto de repertórios com os quais deseja dialogar. A fim de buscarmos elementos sobre esse tempo próprio da publicação, consideramos a primeira página da publicação, a capa, como o espaço que será referencial para leitura e análise do miolo. Como as matérias são poucas e extensas, praticamente todo o conteúdo ganha menção na capa, página mais importante e onde uma revista deve transmitir sua identidade. Em periódicos de periodicidade ampliada, a capa ganha um peso ainda maior, conferindo uma visibilidade mais ampla ao tema abordado. Portanto, é a partir das chamadas de capa e de seus textos internos que observaremos a temporalidade da Cult, entendendo que, enquanto narrativa textual, a revista estabelece uma mediação de conhecimento e parte de uma visão de mundo prévia do leitor. Com base nesse aspecto, apontamos o acionamento da diacronia como chave de leitura da temporalidade no jornalismo cultural. 5. Sobreadiacronianojornalismodecultura Analisando as matérias de capa das seis edições da revista Cult –referentes a julho, agosto, setembro, outubro, novembro e dezembro de 2019–, apresentadas por suas chamadas e pelos textos internos, conseguimos perceber evidências sobre a relevância do caráter contextualizador e, também, a ênfase no background, em um pano de fundo no qual se ancora a narrativa. Essas características denotam um necessário repertório por parte de quem lê e de quem escreve, dando a ver, a princípio, que o texto apresenta potencial diacrônico: ele não se atém a um presente imediato e pode ganhar qualidade ao longo do tempo, tendo-se em vista seus marcadores históricos e sociais. Ao pensarmos acerca da diacronia, partimos do paradigma do presentismo jornalístico6, o qual é predominante na temporalidade jornalística e repercute na construção narrativa do jornalismo em geral. A diacronia seria, portanto, uma possibilidade de examinar o jornalismo de cultura como um segmento em que não há, necessariamente, um vínculo cronológico explícito com o presente factual. Em outras palavras, uma ausência, nesse segmento editorial, de marcadores temporais mais nítidos, 6 O jornalismo é reconhecido por atuar na construção da experiência do tempo e exercer a função pública de informar e de oferecer o presente social (Gomis, 1991; Franciscato, 2005) vivenciado atualmente pela apologia do presentismo (Hartog, 2005). Ao ancorar-se fortemente na produção dessa atualidade, fortalece uma crença coletiva na existência de uma temporalidade social sincrônica (Tétu, 2000).
Jornalismo cultural e temporalidade nos dossiês da revista brasileira Cult (2019) Anna Cavalcanti /Cida Golin 79 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.03 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 72-88 datados, orienta a nossa forma de experienciar a cultura. O presente ganha, assim, a dimensão alargada de “contemporâneo”, abarcando um rastro temporal mais extenso e mais profícuo. A ausência de marcadores como mês, data, hora, deixam o leitor sem o referencial básico a respeito do que motiva uma determinada publicação. Dessa maneira, ao não estar ancorado em um tempo cronológico específico, o texto mostra-se inacabado: há sempre um novo presente possível de entrar em fricção com o passado, há sempre novas formas de leitura e de tensionamento. Entendemos que, quando os textos não se atêm cronologicamente a uma data ou a um acionamento temporal específico, quando eles não se fecham no cronos, eles se abrem a uma leitura inacabada, inconclusa e, portanto, atemporal. Sobre isso, Mar de Fontcuberta (1999) explica haver dois tipos de contextualização no jornalismo: a sincrônica, de caráter simultâneo ao acontecimento em questão, que aborda as circunstâncias políticas, sociais, geográficas e de outras diversas ordens relacionadas à notícia; e a diacrônica, que descreve a evolução cronológica dos fatos vinculados ao tema tratado. Nesse sentido, percebemos, no jornalismo cultural, um caráter “contextualizável sincronicamente com o que está acontecendo em outros lugares, e diacronicamente com passados e futuros diferentes, de curta, média ou longa duração” (Borrat e Fontcuberta, 2006, p. 280). Por isso, consideramos que o distanciamento temporal e, assim, o passado (longínquo ou não) são, no jornalismo de cultura, potentes acionadores da experiência temporal. Ao se eximirem de um marcador temporal específico, as matérias que apresentaremos a seguir adotam um padrão diacrônico por não perderem seu potencial ao longo do tempo e, indo além, por serem passíveis de múltiplas releituras. Logo, não entendemos que a ideia de “diacronia” se reflete como a repetição de um valor eterno do passado no presente, mas, sim, como a cultura pode se reinventar diante de um presente que a refigura. 5.1. A diacronia na revista Cult Ao investigarmos o caráter diacrônico do jornalismo cultural nas capas da Cult com foco nas chamadas e nos dossiês, percebemos que a revista tende a seguir um padrão, mês a mês, ao manter seções previamente estabelecidas. Por isso, identificamos, em sua materialidade, mais ênfase no potencial colecionável – característica comum a outras publicações impressas de cultura (figs. 1 a 6). A ideia de “coleção”, característica em suplementos e em almanaques, consolida-se pelo descolamento daquilo que é noticiado relativamente ao presente factual. Essas referências ao passado permitem aos leitores um entendimento melhor do presente, ao construírem conexões, ao sugerirem inferências, ao oferecerem analogias e ao fornecerem explicações. Na Cult, esse caráter colecionável é um dos principais fatores que desdobra o rastro temporal de cada publicação, ampliando a possibilidade de leituras à luz de uma ideia de um tempo presente que pode se estender ao longo de anos. A identidade editorial desses produtos, ao apresentar uma coerência entre cada uma das edições, orienta uma leitura sobre tal caráter colecionável por meio de três dimensões: a organização, a duração e a contemplação . A primeira dimensão, a da organização, aponta para o fato de que os objetos em questão correspondem a um conjunto regido por uma ordem, por uma forma de organização, tendo sob princípio o acúmulo, a posse ou a preservação. Tem-se, assim, um contrato comunicativo que vai além da informação veiculada pelos objetos. Já a segunda dimensão, a da duração, remete à potência das referidas edições de portarem “passados”, de deixarem o tempo em aberto e de tomá-lo
Jornalismo cultural e temporalidade nos dossiês da revista brasileira Cult (2019) Anna Cavalcanti /Cida Golin 80 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.03 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 72-88 a partir de referências temporais outras que não apenas o presente. Por fim, a terceira dimensão, a da contemplação, refere-se à valorização desses objetos e à capacidade de adoração pela singularidade de uma coleção. Veremos tais dimensões espelhadas nos dossiês da Cult, especialmente em razão do potencial de reconfiguração dos temas abordados, de um constante rearranjo configurado pelo leitor, que retorna àquelas capas como objeto de apreço e de admiração. Figuras 1. Capa da edição de julho de 2019 da revista Cult Fonte. Revista Cult. Figuras 2. Capa da edição de agosto da revista Cult Fonte. Revista Cult. Figuras 3. Capa da edição de setembro da revista Cult Fonte. Revista Cult. Figuras 4. Capa da edição de outubro de 2019 Fonte. Revista Cult.
Jornalismo cultural e temporalidade nos dossiês da revista brasileira Cult (2019) Anna Cavalcanti /Cida Golin 87 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.03 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 72-88 Franciscato, C. (2005). A Fabricação do Presente. Editora da UFS. Gadamer, H. G. (2006). O Problema da Consciência Histórica. Fundação Getúlio Vargas. Gadini, S. (2009). Interesses cruzados: a produção da cultura no jornalismo brasileiro. Paulus. Golin, C., Cardoso, E., Keller, S. y Muzykant, P. (2010, 8-10 de novembro) Jornalismo e representação do sistema cultural: a identidade das fontes na cobertura de cultura do jornal Diário do Sul (Porto Alegre, 1986-1988) [ponencia]. VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo. Faculdade de Comunicação, Universidade Federal do Maranhão. São Luís, Brasil. Gomis, L. (1991). Teoria del periodismo: como se forma el presente. Paidós. Hartog, F. (2005). Time and heritage. Museum International, 57, 7-18. Lückman, A. P. (2020). A noção de contexto no Jornalismo: uma proposição a partir da Teoria da Complexidade. [Tese de Doutorado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul]. Repositório Institucional UFRGS. https://lume. ufrgs.br/handle/10183/212486 Luna, V (2017). Formas de crítica para nomear uma época. En: Badenes, D. Editar sin patrón. La experiencia política-profesional de las revistas culturales independientes, 257-289. Club Hem Editores Oliveira, G. M. V. S. (2015). Da popularização da filosofia à expertise filosófica: uma problematização do papel do intelectual na mídia. Revista CULT 1997-2013. [Dissertação de Mestrado, USP]. Piza, D. (2003). Jornalismo cultural. Contexto. Ricoeur, P. (2010). Tempo e narrativa. WMF Martins Fontes. Rivera, J. B. (2003). El periodismo cultural. Paidós. Quiroga, T. (2017). Consciência histórica, hermenêutica e suas origens no Romantismo Alemão. In: Porto O, S. D.; Mota, C. L. (Ed.). Hermenêutica e análise dos discursos em jornalismo, 47-73. Insular. Soares, M. B. (2012). Poesia em revista: O apagamento do tema nos periódicos Bravo! e Cult. [Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul]. Tavares, F. M. B. (2020). Jornalismo e colecionismo: elos para pensar memórias e valores editoriais. In: Prado, D. F. B; Tavares, F. M. B.; Tavares, M. da S. (Ed). Mídia, tempo e interações sociais: conceitos em circulação, 285-311. Selo PPGCOM/UFMG. Tétu, J.F. (2000). La temporalité des récits d’information. In: Vitallis etal. (Ed.). Médias, temporalités et démocratie, 91-108. Apogée. Tsusui, A. L. N. (2006). Revista Cult: canal de expressão pública da produção cultural. [Dissertação de Mestrado, Universidade Metodista de São Paulo]. Vogel, D. (2008). O jornalismo cultural contra a comunicação. Cultura e Mercado. Zambrano, M., Villalobos, O. (2010). Presencia del periodismo cultural y de espetáculo en la prensa zuliana. Anagramas: rumbos y sentidos de la comunicación, 9 (17), 67-82. Zamith Silva, F. A. D. (2011). A contextualização no ciberjornalismo. [Tese de Doutorado, Universidade do Porto]. Semblanza de las autoras AnnaCavalcanti é jornalista, doutora em Comunicação e Pós-Doutoranda na Westfälische Wilhelms- Universität (WWU, Münster). Participa do Núcleo de Estudos em Jornalismo e Publicações Culturais do Laboratório de Edição Cultura & Design (LEAD-CNPq) da FABICO|UFRGS.
Jornalismo cultural e temporalidade nos dossiês da revista brasileira Cult (2019) Anna Cavalcanti /Cida Golin 88 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.03 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 72-88 Cida Golin é jornalista, doutora em Letras, professora Titular nos cursos de Jornalismo e de Museologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Porto Alegre, Brasil). Coordena o Núcleo de Estudos em Jornalismo e Publicações Culturais do Laboratório de Edição Cultura & Design (LEAD- CNPq) da FABICO|UFRGS.