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Camões e Tartessos: Leituras em torno de dois excertos d’Os Lusíadas

Albuquerque, Pedro

Abstract

Luís Vaz de Camões, no poema épico “Os Lusíadas”, refere os “Campos Tartésios” (III, 100) e o rio “Tarteso” (VIII, 29). O objectivo deste artigo é explicar a presença destas referências geográficas no poema, analisando a vida do poeta (e as discussões em torno desta) e a sua relação com o contexto cultural e intelectual no Portugal do século XVI, bem como alguns aspectos da construção deste brilhante testemunho da literatura portuguesa. Após a discussão deste contexto, analisa- se a discussão em torno das fontes clássicas, portuguesas e espanholas que, provavelmente, o autor utilizou para escrever o poema, o que é comparado com as poucas informações que detemos quando tentamos reconstruir a vida do poeta. Neste sentido, é provável que Camões tenha adquirido alguns conhecimentos na Índia e não apenas em Portugal. Concluise que as prováveis fontes para Tartessos n’”Os Lusíadas” são o “Dictionarium” de A. A. Nebrija e o “Libro de Grandezas y cosas memorables de España”, de Pedro de Medina, escrito em 1548 (i.e., antes da partida de Camões para a Índia), especialmente o primeiro na versão latina do termo (tartessus/ tartessius). Analisam-se, igualmente, as regras da métrica que, provavelmente, obrigaram o poeta a incluir, n’”Os Lusíadas” III, 100 e VIII, 29, os termos “campos tartésios” (uma alternativa a “campos de Tarifa”) e “Tarteso“ (uma alternativa a Guadalquivir, Bétis e outros sinónimos utilizados no poema). Do ponto de vista historiográfico, Camões não estava interessado neste tema, uma vez que tenta, primeiro, dar ao seu país uma espécie de identidade colectiva e uma mensagem nacionalista (Lusíadas = filhos de Luso). Estas referências levam-nos a incluir Camões na história da recepção de Tartessos na historiografia ibérica.

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SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 Resumen: Luís Vaz de Camões, no poema épico Os Lusíadas, e e e os Campos Ta ésios (III, 100) e o io Ta eso (VIII, 29). O objec i o des e a igo é explica a p esença des as e- e ências geog á icas no poema, analisando a ida do poe a (e as discussões em o no des a) e a sua elação com o con ex o cul u al e in elec ual no Po ugal do século XVI, bem como alguns aspec os da cons ução des e b ilhan e es emunho da li e a u a po uguesa. Após a discussão des e con ex o, ana- lisa-se a discussão em o no das on es clássicas, po uguesas e espanholas que, p o a elmen e, o au o u ilizou pa a esc e- e o poema, o que é compa ado com as poucas in o mações que de emos quando en amos econs ui a ida do poe a. Nes e sen ido, é p o á el que Camões enha adqui ido alguns conhecimen os na Índia e não apenas em Po ugal. Conclui- se que as p o á eis on es pa a Ta essos n’Os Lusíadas são o Dic iona ium de A. A. Neb ija e o Lib o de G andezas y co- sas memo ables de España, de Ped o de Medina, esc i o em 1548 (i.e., an es da pa ida de Camões pa a a Índia), especial- men e o p imei o na e são la ina do e mo ( a essus/ a es- sius). Analisam-se, igualmen e, as eg as da mé ica que, p o- a elmen e, ob iga am o poe a a inclui , n’Os Lusíadas III, 100 e VIII, 29, os e mos campos a ésios (uma al e na i a a campos de Ta i a) e Ta eso (uma al e na i a a Guadalqui- i , Bé is e ou os sinónimos u ilizados no poema). Do pon o de is a his o iog á ico, Camões não es a a in e essado nes e ema, uma ez que en a, p imei o, da ao seu país uma es- pécie de iden idade colec i a e uma mensagem nacionalis a (Lusíadas = ilhos de Luso). Es as e e ências le am-nos a in- clui Camões na his ó ia da ecepção de Ta essos na his o- iog a ia ibé ica. Pala as - cha e: Luís de Camões; Ta essos; Fon es; Ne- b ija; Ped o de Medina; Mé ica; His o iog a ia. Abs ac : Luís Vaz de Camões, in he epic poem Os Lusía- das, e e s he a essian ields (III, 100), and he i e Ta es- sus. The aim o his pape is o explain he p esence o hese geog aphical e e ences in he poem, analyzing he poe ’s li e (and he discussions a ound i ) and his ela ionship o he Po uguese cul u al and in ellec ual con ex in he 16 h Cen- u y, as well as some aspec s o he cons uc ion o his b il- lian es imony o he Po uguese li e a u e. A e he de i- ni ion o his con ex , we analyze he discussion abou he classical, Po uguese and Spanish sou ces ha he poe p ob- ably used o w i e he poem, which is compa ed o he sca ce CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS CAMÕES AND TARTESSOS: READING AROUND TWO EXCERPTS OF THE LUSIADS PEDRO ALBUQUERQUE* À P o esso a Annabela Ri a, po me e enco ajado a pe segui os meus sonhos. À Dudu… * A queólogo. Bolsei o da Fundação pa a a Ciência e Tecnolo- gia, na UNIARQ (Cen o de A queologia da Uni e sidade de Lisboa). Gos a ia de ag adece a á ias pessoas que o na am es e abalho pos- sí el e alician e: Ana Ma ga ida A uda, que me suge iu o ema e me enco ajou a desen ol ê-lo; a Rui Mo ais, pelos seus p eciosos apon a- men os à minha disse ação de Mes ado (Albuque que, 2008); a José B issos, José Ho a, Nuno Simões Rod igues, Ma ga ida Mi anda e Amé ico Cos a Ramalho, pelos sábios conselhos pa a es a in es i- gação. A Manuel Ál a ez Ma í-Aguila , po e o necido dois admi- á eis abalhos. Finalmen e, ao meu i mão, cunhada, mãe e pai, po odo o apoio, ca inho e paciência em odos os meus momen os. To- das as imp ecisões des e abalho de em-se, sob e udo, ao seu au o . 138 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 I. NOTA INICIAL «Nunca com Semi amis gen e an a/ eio os Campos idáspicos enchendo;/ nem A ila, que I á- lia oda espan a,/ chamando-se de Deus açou e ho - endo,/ Gó ica gen e ouxe an a, quan a/ do Sa a- ceno bá ba o, es upendo,/ co’o pode excessi o de G anada,/ Foi nos campos a ésios ajun ada» Os Lusíadas, III, 100 «Olha, po seu conselho e ousadia,/ de Deus guiada só e de san a es ela,/ só pode e o que im- possíbil pa ecia:/ ence o po o ingen e de Cas ela./ Vês, po indús ia, es o ço e alen ia,/ ou o es ago e i ó ia cla a e bela/ na gen e, assi e oz como in ini a,/ que en e o Ta eso e Guadiana habi a?» Os Lusíadas VIII, 29 Es es exce os d’Os Lusíadas mo i a am a ealiza- ção de um es udo que, como o í ulo indica, consis e numa sé ie de lei u as que podem se ei as sob e o sig- ni icado da inclusão de Ta essos no maio es emunho li e á io po uguês. Quando abo damos um au o como Luis Vaz de Ca- mões (=LC), um p imei o aspec o a conside a é a co- piosa bibliog a ia de lei u as c í icas e de pe spec i as que se deb uça am sob e a sua ob a, desde a publica- ção da «Edição P inceps» d’Os Lusíadas em 15721. Du an e es es qua ocen os anos, o am múl iplos os olha es e in e p e ações que se lança am sob e os 8816 1. Veja-se, po exemplo, a quan idade de í ulos, adian e ci a- dos, publicados em 1972 e 1980 e insc i os, espec i amen e, nas ce- leb ações da publicação do poema e da mo e do poe a (Fig. 1), sis- ema izadas em ob as como, po exemplo, Exposições bibliog á icas, como a de 1972, o ganizada po J.V. de Pina Ma ins, bem como ou- as compilações (Co eia, 1985; Ma os, 1995, e AAVV, 1980). Veja- se, nes a úl ima e e ência, a quan idade de edições do poema pu- blicadas a é 1980. Pa a es e abalho, consul a am-se as edições de Emanuel Paulo Ramos (2000, da Po o Edi o a), de He nâni Cidade (publicada pela RBA edi o es em 2005) e, pa a aspec os pon uais, as edições ac-similadas d’Os Lusíadas, com comen á ios de Fa ia e Sousa, bem como de Epi ânio da Sil a Dias (ambas de 1972). e sos des a ob a, dis ibuídos em dez Can os, não es- ando ao alcance des e abalho e do seu au o uma ex- posição mais de alhada da ecepção da ob a camoniana. Es a pode di idi -se em ês ases (Amo a 1973: 178-9). A p imei a deco e en e 1572 (edição comen ada pelo Censo Inquisi o ial F ei Ba olomeu Fe ei a) e 1825, ca ac e izando-se pela análise do alo d’Os Lu- síadas ela i amen e a ou os2. Em e mos de c í ica li- e á ia, subdi ide-se em duas ases: 1572 – 1746, com a di ulgação do poema a a és de edições comen adas, das quais se des acam as de Fa ia e Sousa e João F anco Ba e o. A c í ica neo-clássica (Willis, 1972), que p o- cedeu à e isão dos abalhos an e io es e oi ma cada po uma lei u a ao ca ác e li e á io do poema, an o em Po ugal como em ou os países, an ecedeu o que pode chama -se de lei u a omân ica d’Os Lusíadas. A publicação de Camões, de Almeida Ga e (1825), ma ca o início da segunda ase, em que as a en- ções se i a am pa a o signi icado do poema enquan o ícon de exp essão nacional(is a)3 e pa a a análise da e- alidade his ó ica subjacen e. O que equi ale a dize que LC oi, nes e pe íodo, ido como um ep esen an e do ideal Român ico. Es e en usiasmo p olongou-se a é à celeb ação do e cei o cen ená io da publicação d’Os Lusíadas (1872), al u a em que se impôs o Realismo 2. «Reduzindo ao essencial a c í ica ei a ao poema, nes e pe- íodo, pode íamos dize que, en ão, se es abeleceu que Os Lusíadas e am (ou não e am) o mais pe ei o modelo de poema he óico, po - an o supe io (ou in e io ) aos modelos an igos e mode nos desse géne os (…)» (Amo a, 1973: 178). No inal do a igo (p. 206), num espaço ese ado às c í icas de ou os au o es, A naldo Sa ai a no a que Amo a assinalou, não sem azão, que um poema como o de Ga- e pode ambém se conside ado como uma c í ica (en endida po Amo a ao longo des e abalho como «juízo de alo »). 3. 10 de Junho é, po isso, dia de mani es ações explíci as ou encobe as de (desadequados) mo imen os nacionalis as e xenó o- bos que p o ocam desalen o ao au o des as linhas, que espe a que esse dia assinale, pa a odas e odos sem excepção, uma e lexão so- b e a igualdade e sob e o país que emos e pa a onde que emos le á- lo. Se pa a o caminho que ago a se ai açando, se pa a um ou o, al e na i o. in o ma ion ha we deal wi h, when we y o econs uc he poe ’s li e. In his con ex , i ’s p obable ha Camões could ha e acqui ed some knowledge in India and no only in Po - ugal. We each he conclusion ha he p obable sou ces o Ta essus in Os Lusíadas we e he A. A. Neb ija’s Dic ion- a ium and Ped o de Medina’s Lib o de G andezas, w o e in 1548 (i.e., be o e Camões’ depa u e o India), especially he i s one in he la in e sion o his wo d (Ta essus/ Ta es- sius). We analyze as well he me ical ules ha , p obably, o ced he poe o include in Os Lusíadas III, 100 and VIII, 29 he wo ds campos a ésios (an al e na i e o campos de Ta i a) and Ta eso (an al e na i e o Guadalqui i , Be is and o he synonyms used in he poem). In he his o iog aphical poin o iew, Camões was no in e es ed in his heme, be- cause he ies, i s , o gi e o his coun y a kind o iden i y and a na ionalis message (Lusíadas = sons o Lusus). These e e ences lead us o include Camões in he his o y o he e- cep ion o Ta essus in Ibe ian his o iog aphy. Key wo ds: Luís de Camões; Ta essus; Sou ces; Neb ija; Ped o de Medina; Me ics; His o iog aphy 139 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS e se iniciou uma ase de mais ampla di ulgação da bi- bliog a ia passi a e ac i a do poema camoniano. Ou seja, do alo nacional p omo ido pelo Roman ismo, LC passou a se omado como um alo uni e sal, mo- i ando es udos mais sis emá icos sob e a sua ida e so- b e a documen ação disponí el pa a a in e p e ação do poema. Aos es udos que incidi am sob e «a linguagem, o con eúdo de sabe e pa icula men e o con eúdo de ideias e sen imen os» (Amo a, 1973: 179), ac escen a- am-se ou os que analisa am á ios documen os pa a de ini o pe cu so de ida do poe a (S o ck, 1890, apud Amo a, 1980: 10). Pa alelamen e, in oduz-se o es udo da geog a ia na c í ica do poema camoniano. Em 1883, A.C. Bo ges de Figuei edo publica uma Ca a da Geog aphia dos Lusí- adas de Luis de Camões (1883b), acompanhada po uma no a explica i a (1883a), onde a i ma que a sua ob a e a a p imei a dedicada a es a ques ão (1883a: VI – VII). Es e au o p ocu ou, den o das in o mações dispe sas pela Epopeia, as “ aízes” da concepção geog á ica ca- moniana, concluindo, po exemplo, que LC, «á p imei a is a, se a e ou mui o á cosmog aphia de P olemeu, des- p ezando a eo ia de Kope nico» (1883a: 11)4. A análise da ealidade con empo ânea do poe a, bem como a ealização de es udos biog á icos e biblio- g á icos, de endência his o icis a, o am dois aspec os c i icados po uma no a aga c í ica a pa i de inais do século XIX, que se p olongou a é aos Anos 30 da cen ú ia seguin e5. Nes e con ex o, des acam-se nomes como José Ma ia Rod igues (1905)6, Ca olina Michae- lis, Epi ânio da Sil a Dias, en e ou os (c . Amo a, 1980: 11 – 12), que p ocu a am esol e os «mis é ios da biog a ia do poe a» e analisa alguns «po meno es da ob a», sob essaindo o es udo das on es do poema camoniano. Em e mos de juízo de alo , como apon- ou Amo a (1973), es a endência analí ica não se di e- encia mui o do p og ama an e io , mas oi su icien e- men e assinalá el, ao pon o de conduzi à inaugu ação, na Faculdade de Le as de Lisboa (po Epi ânio S. Dias) 4. Man e e-se a o og a ia o iginal. Apesa des a no idade em e mos de es udos, complemen ada, anos mais a de, po Luciano Pe- ei a da Sil a (pe encen e à ase seguin e dos es udos camonianos), numa ob a in i ulada As onomia dos Lusíadas, publicada em 1913 – 1915 e eedi ada pela Jun a de In es igações do Ul ama em 1972, o p imei o a in eg a LC no con ex o da Geog a ia oi o p óp io unda- do des a ciência: Alexande Von Humbold (Ribei o, 1980: 153 – 7). Pa a le a a e ei o o seu abalho, Bo ges de Figuei edo analisou com maio a enção o Can o III, especialmen e, 6 – 20, po Vasco da Gama, bem como o Can o X (79 – 89). 5. Es es es udos o am ma cados pelo simbolismo, naciona- lismo e espi i ualismo. 6. Consul ou-se a edição ac-similada da ob a, publicada em 1979, co espondendo semp e à e e ência de Rod igues, 1905. de uma disciplina dedicada, exclusi amen e, aos es u- dos camonianos, logo ocupada po J. M.ª Rod igues, no âmbi o das celeb ações do nascimen o do poe a, em 1924 (Amo a, 1980: 12). He nâni Cidade oi discípulo de Rod igues (c . Ci- dade, 1942), ocupando, en e 1932 e 1934, o ca go dei- xado ago po aquele nos «Es udos Camonianos». Es a mudança conduziu a uma e o mulação do pensamen o que ma cou o início da e cei a ase. A p io idade pas- sou a se a análise dos « alo es especi icamen e a ís- icos de sua o ma e de seu con eúdo» (Cidade, 1951, apud Amo a, 1973: 179; 1980: 14), des acando o poe a enquan o agen e ec iado . Es a endência ma cou a ealização de á ios Con- g essos In e nacionais de Camonis as a pa i da cele- b ação do qua o Cen ená io da publicação d’Os Lusía- das (Ca alho e Sil a, 1984: 649 – 651), que ouxe am como no idade a e isão da his ó ia da c í ica ex ual, bem como a in odução de no as on es (R. Bismu , apud Ca alho e Sil a, 1984: 652) e uma análise sis e- má ica da «he ança clássica» na poesia camoniana e no Renascimen o Po uguês7. A análise dessa «he ança» 7. Pa e des a bibliog a ia é ap esen ada no pon o V («Fon- es de inspi ação ou supe ação»). De e se complemen ada com a nossa edição online da bibliog a ia ecolhida, onde se assinalam, po Figu a 1. Re is a Ociden e (1972) 140 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 é incon o ná el nes e es udo, me ecendo, po isso, um b e e apon amen o ao concei o de «clássico». Es e adqui e ês e en es di e en es na língua la- ina. A e o ma censi á ia a ibuída a Sé io Túlio colo- ca a o classicus na p imei a das cinco classes de Roma, o denadas consoan e a iqueza indi idual. Na escola, e a classicus o au o «lido e es udado», o que an ecede o concei o es é ico do Classicismo Helenís ico p o- pos o no Cânone de Alexand ia: o de classicus sc ip- o , ou au o des acado pelos seus do es na u ilização da língua ma e na, o ien ado pa a a pe eição. O sen- ido hoje aplicado de classicus pa ece su gi pela p i- mei a ez, segundo Cu ius (1957, apud Aguia e Sil a, 1962: 4), em 1548, po Thomas Sibille na ob a A e poé ique F ançois, p olongando-se ao longo do século XVIII, com o sen ido de au o excelen e e es udado8. O e mo «clássico» é u ilizado nes e abalho como uma con enção concep ual, onde se enquad a a mole he e ogénea de au o es da An iguidade G eco-la ina que es á, e en ualmen e, p esen e no poema camo- niano. Não se a a de julga a qualidade das ob as que se ão aqui ocadas, mas an es de en a pe cebe que in o mações bebidas, di ec a ou indi ec amen e, des es au o es, podem con ibui pa a a cons ução do poema e da sua o iginalidade. Em pa icula , de en a p ocu- a comp eende como LC olhou e ecebeu esses dis- cu sos, e como os ep oduziu, ec iando-os, no seu. E como, nes e, in oduziu Ta essos. As es o es que ab em es e ex o inse em-se no dis- cu so his ó ico de Vasco da Gama ao Rei de Melinde (III, 100) e na desc ição das bandei as po Paulo da Gama ao Ca ual de Calecu e (VIII, 29). Suge ida pela P o esso a Ana A uda, es a análise coloca, à pa ida, dois p oblemas. exemplo, es udos que se desen ol e am em o no da elação en e Os Lusíadas e o An igo Tes amen o. Veja-se o comen á io de Ra- malho, 1971 – 1972 à o ganização de um Cu so de Fé ias em Coim- b a (1972), dedicado à adição clássica. Igualmen e incon o ná el é o magní ico abalho de Luís de Sousa Rebelo (1980). 8. O «clássico» passa a se um concei o de e e ência nos es u- dos li e á ios com Mme. De S äel e Goe he, que lhe dão uma cono- ação es é ica em compa ação com a li e a u a Român ica. Mme. De S äel, em De l’ Allemagne subs i ui as designações opos as de Li e- a u as do Meio-dia e Li e a u as do No e po Poesia Clássica e Poesia Român ica, do mesmo modo que Goe he, conside ado como o “ undado ” do Roman ismo (Be nal, 1993: 207) e como ep esen- an e de um Helenismo eno ado que ompe a com o an e io Huma- nismo la ino (R. P ei e , apud Be nal, 1993: 206). Goe he é he dei o dos abalhos do Se ecen is a Winckelmann, que oi o p imei o a se- pa a os concei os «G egos» e «Romanos» na sua His ó ia da A e, de 1764, que inham sido uni icados po Cíce o e que e i a am a clas- si icação de «bá ba o» po pa e dos G egos em elação ao La im (Pe ei a, 2007a: 76 – 7). Reme o a lei o a ou o lei o pa a o no á el e exaus i o es udo de V. Aguia e Sil a (1962). O p imei o diz espei o aos signi icados que o e mo em nes es e sos. No caso de III, 100. 8, LC e e e-se aos «campos a ésios» e em VIII, 29,8, a um io. Es a di e enciação indica, pelo menos, á ias p o eniências dis in as, en e as quais, pelo menos, Pompónio Mela, Plínio e Es abão, assinalados pelo poe a no episódio do Adamas o (V, 50). O segundo é subsidiá io do p imei o. As bases do poema camoniano não pa ecem esgo a -se no mundo g eco-la ino, es endendo-se a ou os au o es po ugue- ses (Ga cia de Resende, Rui de Pina, João de Ba os, e c.), espanhóis (en e ou os, Juan de Mena e, p o a- elmen e, como e emos, An onio de Neb ija e Ped o de Medina) e a é mesmo i alianos. Po exemplo, an o A ânio Peixo o (1932) como He nâni Cidade (1981: 121 e 132) apon am que J.M.ª Rod igues (1905) não alo iza o su icien e a p esença da in luência espanhola nos e sos camonianos. Po ém, mesmo os au o es que se dedica am a es e amo da in e ex ualidade d’Os Lu- síadas9, incidi am sob e as on es poé icas na Lí ica e na Épica camoniana, deixando de lado ou as ob as de índole his o iog á ica p oduzidas no ou o lado da on- ei a e que, ao que sabemos, o am alo izadas po Epi- ânio Dias, ao comen a Lus. III, 17 - 20 (apud Ribei o, 1971 e Pinho, 2007b: 142 – 3)10. Es a análise, no e-se, não pa ece choca com o in e esse camoniano pela C o- nís ica e His o iog a ia po uguesas. A análise que ap esen o incide sob e oi o linhas de o ça: (I) a ida do poe a e a sua inclusão no (II) con- ex o do Humanismo, que e ão in luenciado a ap en- dizagem de LC e, consequen emen e, (III) a cons u- ção do poema. É aqui que se incluem algumas das (V) « on es» de LC, a pa i das quais é possí el explica a es u u ação dos Can os (VI) III e (VII) VIII, onde su ge Ta essos. Dediquei algumas pala as à ques ão da (VIII) mé ica, de modo a p ocu a jus i ica a es- colha de Campos Ta ésios e de Ta esso, espec i a- men e, em III, 100 e VIII, 29. É com es e quad o de e e ências, bas an e conc e o e, ao mesmo empo, limi ado, que amos deb uça -nos sob e es es dois exce os do poema camoniano, cujos esul ados são ap esen ados no pon o IX: «Ta essos n’Os Lusíadas». É, po an o, momen o de passa pa a o segundo pon o, mas não sem an es deixa um comen á io a es e abalho: o seu e dadei o alo não es á naquilo que 9. Veja-se, pa a além dos au o es já ci ados, Lemos e Almoyna, s.d.; Dasil a, 1998; Cas o, 2004; Ex eme a Tapia, 2005; de e e i ambém os es udos sob e o bilinguismo Po uguês – Cas elhano no século XVI: Lemos e Almoyna, s.d; Vázquez Cues a, 1981. 10. Consul ei uma edição ac-similada da 2ª edição (1916/ 1918, 2 Vols.) d’Os Lusíadas, com comen á ios de Epi ânio da S. Dias (1972). 141 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS ap esen a, mas no uso que dele se az, e na c í ica da lei o a ou do lei o . A sua o iginalidade es á na conju- gação de in o mações e i adas de emá icas mui o di- e sas, es udadas e ap esen adas po au o as e au o es que se deb uça am sob e o apaixonan e mundo de LC e da c í ica Camoniana. II. LUÍS DE CAMÕES (1524/ 1525 – 1580) « Tendo i ido quase isolado dos seus pa es, ne- nhum deles em sua ida se lhe e e e e só depois da mo e me eceu de um ou ou o a o amigo uma b e e alusão, que na ausência ge al delas, a inge alo de p eciosa.» He nâni Cidade (1984: 136) «Mas eu que alo, humilde, baixo e udo/ de ós não conhecido nem sonhado?/ Da boca dos pequenos sei, con udo,/ que o lou ou sai às ezes acabado./ Nem me al a na ida hones o es udo,/ com longa ex- pe iência mis u ado,/ nem engenho, que aqui e eis p esen e,/cousas que jun as se acham a amen e.» Os Lusíadas X, 154 Os elemen os disponí eis pa a a econs i uição de uma biog a ia de LC são escassos e, não a as ezes, du idosos. A começa pelo seu nascimen o. Calcula-se que e á nascido em 1524 ou 1525 (Lopes & Sa ai a, 1998: 317)11, em luga ince o (Coimb a? Lisboa? Po o?), le ando a que não se saiba, com p ecisão, com que idade e á iniciado os seus es udos em Coimb a. A da a des a en ada pa ece se pos e io a Dezemb o de 1539, da a limi e de um documen o iden i icado, na To e do Tombo, po Cândido dos San os, e publicado em 1973, onde não igu a o nome de LC (C uz, 1984). Po esses anos, D. Ben o de Camões, io do po- e a, e a P io de San a C uz de Coimb a, o que le a a pensa , jun amen e com a escola idade que pa ece e- lec i -se no poema, na possibilidade de en ada nos cu sos de A es e/ou G amá ica (C uz, 1984: 36). Não de emos, po ém, desca a a hipó ese de conhecimen- os adqui idos na Índia (Ramalho, 1980a: 1-2), a en- dendo, po exemplo, a X, 154, mas, po ou o lado, pa- ece e iden e que de inha um excelen e conhecimen o 11. Fa ia e Sousa co igiu a da a de 1517 pa a 1525, baseando- se no egis o da A mada de 1550, onde igu a o jo em LC, com a idade decla ada de 25 anos. Pa a um esquema genealógico da a- mília do poe a, eja-se a excelen e edição escola d’Os Lusíadas o ganizada po Emanuel Paulo Ramos (D.L. 2000). Veja-se, igual- men e, Li e mo e, 1984 e, pa a o «hones o es udo» de LC, Pe ei a, 2007b: passim. de La im e, com menos p obabilidade, de G ego (Pe- ei a, 2007a: 71 – 3; Ramalho, 1984: 495)12. Te á ini- ciado os seus es udos num pe íodo de maio abe u a às ans o mações in elec uais de além – on ei as, como e emos, o que conduziu ao conhecimen o de algumas ob as da An iguidade, acessí eis em ex os, o iginais ou aduzidos, imp essos ou manusc i os, ou mesmo coligidos e sis ema izados em compêndios, manuais e dicioná ios. Se ia as idioso (e, na e dade, inú il) aze aqui uma exposição de alhada do que se pensa que oi a ida do poe a. Apenas de assinala uma ida di ícil e a é mesmo e an e du an e os seus anos de ju en ude, depois de 1542, ano em que, p o a elmen e, deixa a Coimb a pa a i pa a Lisboa, onde se es abeleceu a é 1545, pa indo depois pa a Ceu a, onde pe deu um olho. Reg essado em 1548, no ano seguin e enquad a- se na ida co esã, pelo menos a é 16 de Junho de 1552, dia a ídico, que, mo i ado pela ag essão de um un- cioná io do Paço com uma espada, o le ou à P isão do T onco. A pena du ou a é 7 de Ma ço do ano seguin e, depois de uma ca a de pe dão, não deixando ou a al- e na i a a LC que não a de emba ca pa a a Índia na nau S. Ben o, eg essando apenas em 1569, já com a sua epopeia nas mãos. Em 1572, publica Os Lusíadas e mo e em 10 de Junho de 1580. É es e, em aços mui o ge ais, o p o á el umo da ida do poe a nas suas andanças pelo mundo. Vejamos ago a alguns aspec os do seu ambien e cul u al. III. O AMBIENTE CULTURAL DE CAMÕES O ambien e cul u al de LC de e se is o na pe s- pec i a do Humanismo13 e das di iculdades impos as pelo pensamen o escolás ico (censu a), bem como na ida uni e si á ia do Po ugal Quinhen is a. 12. A hipó ese de um bom conhecimen o de La im é mui o p o- á el, a endendo a á ios «la inismos» u ilizados pelo poe a na sua ob a, aos quais ou e e i -me mais adian e. A ques ão da ap endi- zagem do G ego le ou-me a in oduzi , no capí ulo das on es de LC, a discussão em o no da lei u a dos o iginais g egos dos Poe- mas Homé icos. 13. Pa a uma discussão sob e o concei o e as suas mani es- ações, c . Ribei o, 1980: 17 – 99, com bibliog a ia. O e mo su ge em 1808 com F.J. Nye hame , «pa a de ini uma concepção pedagó- gica na qual se dá o p imado aos es udos clássicos», ac escen ando-se que «po humanis a de e en ende -se undamen almen e o es udioso e cul o das a es humani a is e li e ae humanio es, exp essões cice- onianas, cujo sen ido indica que o conhecime o dessas le as o na o homem mais humano pelo que elas lhe e elam sob e a sua na u- eza e condição» (Ribei o, 1980: 69). Pa a a elação en e LC e o Hu- manismo em Po ugal, eja-se Ramalho, 1971 – 1972a; 1984; Pina Ma ins, 1981. 142 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 Sil a Dias assinala o con on o en e a Escolás ica e o Humanismo no sen ido de se o na em «hegemonias cul u ais» (1981: 13 – 21, apud Ba e o, 2000: 89), em que a p imei a p ocu a sal agua da o domínio no seu ebanho, p o egendo-o do segundo. Es e aspec o é no ó- io em 1548, ano em que se inicia um domínio huma- nis a do ensino, culminando em 1555, com a en ega do Colégio das A es à Companhia de Jesus14. Assim, «o p og ama humanis a é, ao longo de 1540 – 1560, neu a- lizado ou in eg ado na Escolás ica» (Ba e o 2000: 90). En e es as duas hegemonias, su ge uma cul u a discu si a – a dos Descob imen os e da Expansão –, um conjun o he e ogéneo que e lec e as pa es in e- essadas nes e p ocesso: Co oa, Ig eja e es an e socie- dade. Os seus discu sos, não pe encendo a nenhuma das hegemonias e, po an o, mais abe os a no as in- o mações, pouco ou nenhum impac o i e am nos p o- g amas de ensino, apesa do in e esse das suas obse a- ções pa a a ac ualização dos conhecimen os de en ão15. Bas a, po exemplo, dize que, à excepção dos Guias Náu icos (de É o a e de Munique), ob as de As ono- mia náu ica, Li os de Ma inha ia, Ro ei os e Diá ios de Na egação, encon a am-se manusc i as e inham, po an o, uma ci culação mui o limi ada. Pa alelamen e, a Ca og a ia náu ica e e ino ações ex ao diná ias, com consequências di ec as pa a o au- men o de in o mações geog á icas do mundo ex a-eu- opeu, sendo ela mesma uma consequência di ec a das iagens e da obse ação das no as e as16. A con on- ação com o sabe an igo o na-se, po an o, um esul- ado ób io de um pe íodo de p o unda ans o mação, que oi o de LC. O que jus i ica a dimensão do Homem no seu poema, como mui o bem explica Pina Ma ins: «Exal ando o génio dos Po ugueses no seu ac o colec- i o mais impo an e pa a a his ó ia do Mundo, Camões exal a implici amen e a capacidade do homem pa a e- sol e di iculdades idas a é en ão como insupe á eis: as do Oceano com os seus seg edos e medos, o mis e- ium ma is em que Os Lusíadas apa ece eduzido à sua dimensão de ealidade cognoscí el» (1981: XVIII). 14. Veja-se o es udo de Amé ico Ramalho (1980 – 1981), onde o au o ap esen a, com algum po meno , a ida uni e si á ia no pe íodo comp eendido en e 1548 e 1554. 15. Assim, os «sis emas de ocas en e os ês componen es cha e do Renascimen o Po uguês em a e com o p incípio nuclea de cada uma das cul u as. A Escolás ica e a Humanis a são cul u as de o ien ação sapiencial – dou iná ia enquan o que a cul u a da Expan- são ap esen a uma o ien ação cien í ico – objec i a» (Ba e o, 2000: 93). Es e a igo ep esen a uma in e essan e e lexão, sus en ada po uma bibliog a ia sólida, sob e a dimensão ilosó ica des as ês cul u- as discu si as, bem como sob e as di e enças exis en es en e elas. 16. Vol o a eme e pa a Ba e o, 2000: 102ss, onde o au o ap esen a bibliog a ia sob e es e ema. «O campo dou iná io – ideológico é o luga do en- con o e da ansição en e a cul u a da expansão e as cul u as humanis a, escolás ica e popula sob e a expan- são» (Ba e o, 2000: 111). É nes e con ex o que come- çam a su gi discu sos dominados po ês o ien ações dis in as (Dispe são, Au o ização e Concen ação), ca- ac e izados pelas suas di e en es posições em elação ao p ocesso que LC, em pa e, desc e e e exal a. A Dispe são ep esen a uma pos u a c í ica ace ao Me can ilismo e à decadência que a Expansão pode p o oca pa a o País. A His o iog a ia e os discu sos polí icos e ju ídicos su gem como o mas de Au o i- zação da Expansão. Na His o iog a ia, po exemplo, a p io idade é, cla amen e, dada à diáspo a e à sua his- ó ia17, se indo, pos e io men e, de base pa a a i ma a sua g andeza ace ao Impe ium de Roma (1581, na p imei a His ó ia de Po ugal, da au o ia de Fe nando Oli ei a: apud Ba e o, 2000: 111). Como exp essão da Concen ação su ge, en e ou as, a ob a que mo i ou es a in es igação, uma ez que nela se ap esen a e a- lo iza o sen ido da Expansão, ao mesmo empo que en- quad a, como e emos a seu empo, a iagem de Vasco da Gama num p ocesso his ó ico iniciado com Luso. O ensino uni e si á io esume, na pe eição, a lu a en e es as hegemonias cul u ais (Dias, 1981: 13 – 35; Ba e o, 2000: passim). As Uni e sidades man i e am- se aga adas ao espí i o “medie al” desde 1377, ano em que D. Fe nando unda uma em Lisboa. Mais a de, nos meados de Qua ocen os, D. Ped o p ocu a, sem su- cesso, unda uma Uni e sidade em Coimb a, seguindo os modelos de Pa is e Ox o d. O «pisca de olhos» a ou as endências de inais do século XV deu-se apenas em 1501. «É en ão que – à e elia da au o idade uni e - si á ia – se condimen a o medie alíssimo ex o g ama- ical de João Pas ana com alguns elemen os ex aídos do enascen is a Élio An ónio Neb ija» (Dias, 1981: 30. O sublinhado é meu). Es e úl imo nome é de ex ema impo ância pa a es e abalho, e an o mais o é que, em 1525, du an e o einado de D. João III, a Uni e sidade deu abe u a aos seus docen es pa a op a pela sua ob a. É um pe íodo em que es e Rei p ocu ou es abelece uma e o ma no ensino, apesa da esis ência po pa e do meio uni e - si á io lisboe a. Com is o, a solução encon ada oi a undação de uma Uni e sidade em Coimb a no ano de 1536, eco endo ao con i e de p o esso es nacionais e es angei os. 17. Nes e con ex o igu am nomes como Gomes Eanes de Zu- a a (c. 1410 – 1474), Gaspa Co eia (c. 1490 – c. 1563), Fe não Lo- pes de Cas anheda (c. 1514 – 1559), João de Ba os (1496 – 1570), Damião de Góis (1502 – 1574) e Diogo do Cou o (1542 – 1516). 143 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS Es e pano ama pe mi e pensa que oi num am- bien e eno ado (en e 1536 e 1555) e de en usiasmo gene alizado pela Expansão (Ma os, 1983: 5 – 11) que se in eg a pa e da ida es udan il do poe a, o que se e lec iu, como con inua emos a e , numa e dadei a epopeia (humanis a) po uguesa. IV. OS LUSÍADAS: ALGUNS ASPECTOS «Vis es que com g andíssima ousadia/ o am já come e o céu sup emo;/ is es aquela insana an- asia/ de en a em o ma com ela e emo;/ is es e ainda emos cada dia/ sobe bas e insolências ais, que emo/ que do ma e do céu em poucos anos/ enham deuses a se , e nós humanos» Os Lusíadas VI, 2918 «O a, n’Os Lusíadas, a descobe a não é apenas a mo i ação do poe a (…), mas ambém e p incipalmen e a ma é ia – p ima do poema» (Ma os, 1983: 8). O ema cen al d’Os Lusíadas é a iagem de Vasco da Gama à Índia, inse indo-a na His ó ia de Po ugal. Nes a in oduzem-se elemen os como a concepção da Geog a ia do seu empo, os conhecimen os da sua so- ciedade con empo ânea, a His ó ia de Po ugal e da An- iguidade, Mi ologia e Li e a u a Clássicas, e c. Es es elemen os ão de encon o ao seu p incipal objec i o: eng andece , p ese ando, os ei os dos Po ugueses a a és de um discu so poé ico e, ao mesmo empo, his- ó ico. T ansmi indo a His ó ia num discu so épico19, o poe a ealiza um sonho de ge ações an e io es: imo a- liza os ei os po ugueses, ao mesmo empo que e ela a supe ação dos au o es e modelos an igos a a és da Epopeia, conside ada, não sem azão, como a maio as- pi ação da poesia20. 18. Apud Ma os, 1983: 8. 19. No e-se, po exemplo, que Epi ânio da Sil a Dias assina- lou que a empes ade en en ada pelas naus comandadas po Vasco da Gama e a pu a icção, baseando-se em Cas anheda, enquan o que Sa- ai a a i ma, pelo con á io, que se a ou apenas de uma ansposição de uma e apa pa a ou a (apud Oli ei a, 1998: 417). Ou seja, es es epi- sódios ganham um ca ác e li e á io, uma ez que o poe a c ia mais um obs áculo que se localiza p óximo da conc e ização do objec i o. 20. Pa a a discussão sob e a o igem da épica g ega, eja-se o in- e essan e a igo de M.L. Wes (1988) e, mais ecen emen e, a sín- ese de M.ª H. Rocha Pe ei a, A.C. Ramalho e V.M. Aguia e Sil a na Enciclopédia Ve bo (1999: Cols. 487 – 496), onde se expõem as á- ias mani es ações des e es ilo na G écia, em Roma, nas Idades Mé- dia, Mode na e Con empo ânea. Há que assinala que a de inição mo- de na de géne os li e á ios iniciou-se depois de 1945, e omando, em pa e, o que Quin iliano já ha ia assinalado quando dis inguiu qua o géne os li e á ios (Ins . O a . X): Poesia, His ó ia, Eloquência e Fi- loso ia (Chassigne , 1998: 155). Veja-se, pa a uma análise es ilís ica da épica la ina, Bi ille e Dangel, 1997: passim. O Can o I lança a na a i a quando as naus já se en- con am no Oceano Índico (19)21 e coloca-a em simul- âneo com o Consílio dos deuses (20 – 41)22. Es e epi- sódio ma ca um in e egno na sequência da iagem: na es o e 42, os na egan es encon am-se «Já lá da banda do Aus o e do O ien e,/ en e a cos a e iópica e a a- mosa/ Ilha de São Lou enço (…)» e encaminham-se pa a Mombaça, onde se p epa a uma aição (105). A úl ima es ância, pode dize -se, é a e lexão que o poe a az sob e o «bicho da e a ão pequeno» (ou sob e a condição humana) e que e oma nos Can os IV (Velho do Res elo), V (Adamas o ) e no VI (Tempes ade). Es a ase an ecede a iagem de Mombaça a é Me- linde no Can o II, onde o Rei p e ende ou i a His ó- ia de Po ugal, que culmina na pa ida das naus e no Velho do Res elo. É nes a ase que se dá a p imei a in- e enção di ina, que dá con a da unção de in e me- diá ios e agen es das o ças na u ais en e o Homem e Deus. Chegados a Melinde, os na egan es pa ecem que e seduzi o seu ajudan e no sen ido de p ocu a em ajuda pa a conc e iza o seu objec i o23. Is o an ecede o discu so do Gama ao Rei de Melinde nos dois Can- os seguin es. O Can o V, po sua ez, ence a um ciclo: ela a a iagem en e Lisboa e Melinde, colocando no pe cu so his ó ico a missão de Vasco da Gama. A His ó ia de Po ugal, na ada nos Can os III e IV, aba ca o pe íodo comp eendido en e Luso e os anos de 1561 – 1562 (Sena, 1980, apud Oli ei a, 1998: 409)24. Tal pe cu so empo al pa ece se ap esen ado como 21. Pa a ás ica am a p oposição (1-3), a in ocação (4-5) e a dedica ó ia (6 – 18). De aco do com a exp essão de Ho ácio na sua A e poé ica (148 – 149), a na a i a é lançada in media es: «sempe ad euen um es ina e in medias es/ non secus ac no as audi o em api (…)» ou, aduzido: «Semp e se ap essa pa a o des echo e a e- ba a o audi o pa a o meio da in iga como se es a já lhe osse con- hecida» ( ad. Pinho, 2007a: 122, n. 169). Em h p://www. hela in- lib a y.com/ho ace/a spoe .sh ml encon a-se uma e são online do ex o la ino (cons. 5/10/09). O lançamen o da na a i a d’Os Lusía- das, pode dize -se, dá-se in ex ema es, ou seja, inicia-se quase em Melinde, na úl ima e apa da iagem. 22. Sigo nes e abalho a p opos a de Salgado Júnio , seguida po Sena, que u iliza o sen ido de consilium iden i icado na edição p inceps d’Os Lusíadas, em al e na i a a concilium. Diz Sena que «não se a a de uma me a ques ão o og á ica. Se é ce o que os deuses olímpicos pode iam se bispos e ca deais da “ig eja mi oló- gica”, eunidos em concílio p esidido pelo Papa (Júpi e ), mais ce o se á que apenas se eúnam em “consílio” (conselho), pa a decidi em sob e as coisas do O ien e» (1980: 131 e n.4). 23. Pa a o enquad amen o des e episódio- ipo na na a i a, eja- se o excelen e abalho de Claude B emond (1966). 24. Es es acon ecimen os, no e-se, são pos e io es aos que são na ados e, como al, são ap esen ados na p o ecia de Té is a Vasco da Gama e ep esen am o pe íodo con empo âneo do poe a. Ve e- mos mais adian e que es e pe cu so his ó ico, iniciado com Luso, não ecua à chegada de Ja e e do seu ilho Tubal à Península Ibé ica, como em Ped o de Medina ou nou os his o iado es espanhóis. 144 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 uma unidade na qual se des aca um sen ido missioná- io de lu a con a os Mou os e, com meno incidência, de lu a con a a Nob eza Cas elhana25. Es es aspec os, es udados po Paulo Oli ei a (1998) na elação que az en e a Li e a u a e a His ó ia no poema camoniano, pe mi em des aca o alo da Expansão ma í ima en- quan o ac o missioná io de expansão da Fé. Ou seja: é a con inuação da C uzada26. Das 244 es o es dedicadas ao pe cu so his ó ico dos Po ugueses, a maio ia é de- dicada à Gue a San a (Oli ei a, 1998: 411 – 3). O que impo a des aca nes e capí ulo é a passagem po Me- 25. Es e aspec o adqui e uma o ma in e essan e nas aduções pa a Cas elhano, em que os adu o es chega am mesmo a al e a o sen ido de alguns e sos, de modo a da uma isão mais a o ecida da ep esen ação camoniana. Tal é o caso de duas aduções de 1580, uma de Beni o Calde a (imp. Alcalá de Hena es) e ou a de Luís Gó- mez de Tapia (imp. Salamanca), pa ocinadas pelas espec i as uni- e sidades. Es as aduções são analisadas em po meno po Nicolás Ex eme a Tapia (1998), pelo que ou apon a alguns casos expos os pelo au o : LC, em III, 34. 1, diz «Eis que se ajun a o sobe bo Cas e- lhano»: Calde a aduz como «Veis que se jun a luego el Cas ellano». Em III, 99.1: «Es e semp e as sobe bas cas elhanas»; «És e las ame- nazas cas ellanas» (Calde a), «Desp eciado de ue zas cas ellanas» (Tapia). Es es casos mul iplicam-se ambém na adução de Hen i- que Ga cés, publicada em 1591. Se á apenas em 1818 que su gi á uma adução com no os pa âme os, mais conco dan es com o ideal Român ico, em Espanha, da au o ia de Lambe o Gil. 26. Assim, logo na segunda es ância do Can o I, o poe a a i ma que «E ambém as memó ias glo iosas/ daqueles eis que o am di- la ando/ a Fé, o Impé io, e as e as iciosas/ de Á ica e Ásia anda- am de as ando». linde enquan o episódio es u u an e da cons ução da epopeia: é onde o p esen e da iagem (iniciada, na na - a i a, em I, 19) se encon a com o passado (IV – V). O segundo ciclo do poema, iniciado no Can o VI, diz já espei o ao p esen e da iagem e ao seu desen ol- imen o a é à conclusão. Vejamos como se di idem as in e enções do poe a e os emas ao longo do pe cu so na a i o ( abela 1), de modo a sin e iza a sua dis i- buição na epopeia. Ou o an o pode se di o sob e o í ulo –Lusíadas –, que iden i ica os po ugueses como descenden es de Luso, ilho de Baco. T a a-se de um neologismo, cuja c iação oi ei indicada po And é de Resende em Ca - men e udi um e elegans Angeli And eae Resendii Lusi- ani, ad e sus s olidos poli io is li e a u ae obla a o es, imp esso em Basileia (1531) po F oben. Numa no a ao poema Vincen ius le i a e ma y (1545), o au o assi- nala, em duas ocasiões (II, 24 e 48), a o igem mi ológica do e mo, baseando-se em Plínio (Na . III, 8)27, bem como 27. «In uni e sam Hispaniam M. Va o pe enisse Hibe os e Pe sas e Phoenicas Cel asque e Poenos adi . Lusum enim Libe i pa is au lyssam cum eo bacchan ium nomen dedisse Lusi aniae e Pana p ae ec um eius uni e sae». T adução de Amílca Gue a (1995: 29): «Re e e Ma co Va ão que à Hispânia em ge al chega am Ibe os, Pe sas, Fenícios, Cel as e Púnicos; que os mis é ios (lusus) de Libe Pa e ou o delí io (lyssa) das Bacan es com ele de am o nome à Lusi ânia e Pã, seu p e ei o, a oda ela». N’Os Lusíadas, LC ci a, po ês ezes, es a pe sonagem (III, 21, VIII, 2 e 3: c . in a). O ex o de Resende é ambém ci ado po H.H. Pos (1972: 293). Tabela 1: Dis ibuição das in e enções do poe a e emas da sua epopeia (segundo Sena, 1980). Can os Poe a Viagem Deuses His ó ia de Po ugal o ais I 20 52 34 — 106 II — 82 31 — 113 III 2 — — 141 143 IV — — — 104 104 V 9 91 — — 100 VI 5 55 39 —99 VII 24 63 — — 87 VIII 392 4 — 99 IX 7 18 70 —95 X14 2 140 — 156 Somas 84 455 318 245 1102 %8 41 29 22 100 145 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS a ilológica, eco endo a Luc écio28. Já no século XX (1933), Al edo Pimen a descob e, na To e do Tombo, An iqua um Lec onium Lib i XVI, de Rhodiginus, publi- cado em 1516, iden i icando Lusiades nymphae, onde o au o assinala uma passagem do g ego (do século III) A eneu (Νυμφῶν… Λουσιάδων). A es e aspec o dedica- am-se, pos e io men e, Be na do Xa ie Cou inho e J. M.ª Rod igues (Ramalho, 1980b: 221 – 236)29. Es a pala a adqui e um sen ido iden i á io, dis- inguindo os « ilhos de Luso» daqueles que não o são, aplicando-se, po exemplo, à di e enciação Po ugue- ses/Espanhóis a i mada po LC. Es a iden i icação es- ba e-se quando o inimigo comum é o «Mou o» e há uma a i mação da C is andade30, le ando a ques io- na as á ias ans o mações que a Iden idade pode e numa mesma sociedade, ou no mesmo «Eu». A iden i- icação de Po ugal com a Lusi ânia pa ece su gi em 1481 numa o ação de D. Ga cia de Meneses (Bispo de É o a), ganhando consis ência a pa i da conquis a de G anada em 1492 (Ramalho, 1984: 492). Es as di e enças são, igualmen e, undamen ais na compa ação en e o que oi ei o na His o iog a ia Po - uguesa e na Espanhola no século XVI, enquan o cons- uções de Iden idades. Es es discu sos êm em comum a pesquisa de ex os an igos, in e p e ados no sen ido de de ini as “ aízes” des as ci ilizações eu opeias, po isso ale a pena en a , ago a, no capí ulo das « on es» d’Os Lusíadas. V. «FONTES» DE INSPIRAÇÃO OU SUPERAÇÃO «É que a poesia, sendo a e au ên ica, é ida anspos a na dignidade da pala a, e a pala a a- liosa não se comp az com exe cícios pu amen e eo- é icos. Ela é um p odu o do humano; é empo; é his- ó ia: o seu p esen e só é explicá el pelo seu passado 28. «Aeneadum gene ix, hominum di omque olup as,/ alma Venus, caeli sub e laben ia signa/ quae ma e na ige um, quae e as ugi e en is/ conceleb as, pe e quoniam genus omne animan um/ concipi u isi que exo um lumina solis (De Re um Na u a I, 1-5). O exce o az pa e de uma in ocação a Vénus, e é aduzido po Al ed E nou (1966) des e modo: «Mè e de las Énéades, plaisi nus nou i- ciè e, oi pa qui sous les signes e an s du ciel, sons se peuplen de c éa u es, puisque c’es à oi que ou e espèce i an e doi ê e conçue e de oi , une ois so ie des enèb ees, la lumiè e du soleil (…). h p://www. hela inlib a y.com/luc e ius/luc e ius1.sh ml, consul- ado a 16 de Ou ub o de 2009. 29. Reme o pa a o a igo de Ramalho publicado nes a ob a, in- i ulado «A pala a Lusíadas», onde ap esen a uma excelen e sín ese des a discussão. Do mesmo au o , eja-se o a igo publicado em 1984. 30. Es a ques ão é no ó ia no episódio da ba alha do Salado (III, 99 – 117) e o seu u u o só se á explicá el pelo seu p esen e. O p oblema das on es é (…) um p oblema undamen al ao ní el de oda e qualque pesquisa c í ica que aspi e a se igo osa e exac a». J.V. de Pina Ma ins (1972: 199) Nes as pala as, en e ê-se uma necessidade p e- men e: p ocu a en ende , no con ex o de elabo ação d’Os Lusíadas, os ex os ou os conhecimen os que LC pode e p esen es, não excluindo, cla o, si uações que podem esul a de coincidências. To na-se essencial di idi a análise em ês g upos: (1) os «clássicos»31, (2) os au o es po ugueses e (3) os au o es espanhóis, cada qual com o seu peso no poema. Des a ap esen- ação não sai –con ém salien a – uma esenha de o- das as on es de LC, o que es á o a do alcance de um único abalho32. «Cessem do sábio G ego e do T oiano/ as na e- gações g andes que ize am;/ cale-se de Alexand e e de T ajano/ a ama das i ó ias que i e am;/ que eu can o o pei o ilus e Lusi ano,/ a quem Nep uno e Ma e obedece am./ Cesse udo o que a musa an iga can a,/ que ou o alo mais al o se ale an a.» Os Lusíadas I, 3 É adição an e io a LC a compa ação en e Po - ugueses e «clássicos»33, aqui u ilizada no sen ido de supe ação nas Le as, na His ó ia e na Memó ia pós- uma34. O uso de cessa e cala (em la im, ceda e acea ) pa ece esumi a pos u a do poe a pe an e es- 31. Não se jus i ica, nes e con ex o, sepa a G egos de Roma- nos, uma ez que es a sepa ação esul a dos es udos de Winkelmann, no século XVIII, sob e a A e da An iguidade. O que que dize que Camões en endia es as duas ealidades como uma só, da qual se con- side a ia, e en ualmen e, um he dei o. 32. Como a i ma Luís de Albuque que (1981: 35): «Il es é i- den que l’immense acquis cul u el de Camões pe me a di icille- men à quelqu’un d’ose un jou indique , même a ec une p obabili é minime, ous les li es qu’il peu a oi lus. La ques ion, posé ainsi en e mes aussi géné aux, cesse, à mon a is, d’a oi quelque sens. Ce- pendan elle en au a déjà un si nous ex ayons el ou el passage ès conc e e nous en che chons l’o igine; dans ce cas nous pou ons ou e ès sou en dans la li é a u e exis an à son époque la sou ce ou les sou ces où le Poè e ou a l’in o ma ion don il manquai » (o sublinhado é do au o ). 33. Es a endência, no a Pe ei a (2007a: 63) em já do Cancio- nei o Ge al, de Ga cia de Resende. Pa a a elação en e es e ex o e o poema camoniano, eja-se, igualmen e, Mille , 1972: passim. 34. Sis ema icamen e (IV, 5; IV, 20; III, 131; III, 133; III, 136), LC e ela «a p eocupação de o nece con apa idas omanas aos he- óis e ei os po ugueses» (Pe ei a, 2007a: 74). No e-se que es e he- ói colec i o opõe-se ao he ói indi idual dos épicos an igos. Ca aldo Sículo esc e eu a D. Manuel uma ca a onde expõe uma compa ação en e a celeb ação de Eneias (que iajou da F ígia pa a I ália) e os an- epassados do ei, que «com maio equência, passa am con a os mou os em Á ica, apesa de dois inimigos que se opunham, a sabe , 152 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 sob e aquilo que p e endia ela a . A sua ob a, in i u- lada His ó ia do Descob imen o e Conquis a da Índia pelos Po ugueses, oi publicada em oi o li os en e 6 de Ma ço de 1551 e 1561, sendo es e úl imo pós umo58. Se João de Ba os e Cas anheda o am undamen- ais (como on es his o iog á icas) na cons ução do discu so camoniano sob e a iagem de Vasco da Gama, po ou o lado não podemos deixa de des aca Rui de Pina (1440 – 1522), uma ez que o seu nome es á as- sociado à esc i a da «His ó ia o icial» dos einados de D. Sancho I, D. A onso II, D. Sancho II. D. A onso III, D. Dinis, D. A onso IV, D. Dua e, D. A onso V e D. João II (Rod igues, 1905: 85), du an e o einado des e úl imo59. Consequen emen e, o na-se incon o ná el na análise do discu so do Gama ao ei de Melinde, no o- can e ao passado da sua nação. A endendo à análise de Rod igues, os «campos a ésios» não azem pa e da desc ição de Rui de Pina60 (c . Ramalho, 1984: 497). Po ou o lado, no séc. XVII, a Mic ologia de J. Ba - e o dá con a de uma sé ie de au o es espanhóis que po- diam e alguma elação com o poema camoniano (Juan de Mena, Ga cilaso de la Vega, Boscán e D. Luís de Góngo a)61. A ecepção da es é ica poé ica do país i- zinho não pa ece assumi , no con ex o que a amos aqui, uma impo ância ex ema, uma ez que Ta essos não pa ece se um ema da poesia espanhola dos sécu- 58. I (Coimb a, 1551, emendada e ac escen ada em 1554), II e III (Coimb a, 1552), IV e V (Coimb a, 1553), VI e VII (Coimb a, 1554) e VIII (Coimb a, 1561), segundo Fe ei a, 1998: 292. Os li os IX e X conside am-se pe didos (Rod igues, 1979: 65, n. 1). Es a ob a oi publicada pouco empo an es do eg esso de LC de Ceu a. 59. A e são digi al dos o iginais encon am-se na base de da- dos digi al da Biblio eca Nacional (h p://pu l.p ) (cons. a 29/08/09). 60. Há que e em linha de con a as andanças do poe a, bem como as da as de publicação das á ias c ónicas que Rod igues ana- lisa, uma ez que podem aze conco da com a ideia expos a. Jo ge de Sena (1970: 166, n. 5) assinala que a de D. A onso Hen iques (Dua e Gal ão) e á sido publicada em 1726. As de Rui de Pina (Sancho I, A onso II, Sancho II, A onso III e D. Dinis), en e 1727 e 1729, ac escen ando-se a de A onso IV, publicada em 1653 (i.e., 100 anos depois do emba que do poe a pa a a Índia), e as de D. Dua e e D. A onso V, ambas de 1790. Fe não Lopes é, ambém, um au o cu- jas publicações i am a luz do dia em da a mais a dia: D. Ped o I (1735), D. Fe nando (1816), D. João I (1ª e 2ª pa es: 1644). As Dé- cadas da Ásia, de João de Ba os, o am imp essas em 1553 (1ª e 2ª) e 1563 (3ª), i.e., num momen o em que LC se encon a o a de Po u- gal. A ob a de Cas anheda, po seu u no, iu os ês p imei os li os imp essos em 1551 – 2, do 4º ao 7º em 1556 e o 8º em 1561. É, po isso, mais p o á el o conhecimen o di ec o de Cas anheda ou de Ba- os, sem exclui , ob iamen e, os sumá ios des as ob as, mais aces- sí eis. No en an o, J. de Sena não pa ece conside a a ci culação de in o mações o ais (que, p.e., sus en am o mé odo his o iog á ico de Cas anheda). Es as o am ecolhidas na Índia, o que ab e a possibili- dade de aquisição de in o mações nes e país po pa e de LC. 61. De aco do com o comen á io in odu ó io à edição de 1982 po Aníbal Pin o de Cas o. los XV e XVI (?). No en an o, an o Ped o de Medina (1548) como Flo ián de Ocampo (1541; 1543; 1553; c . La ou a, 2001: 305 – 306), pa a ci a apenas dois au- o es an e io es a LC, a am es e assun o com alguma p o undidade e não são mencionados po Ba e o. Que is o dize que uma hipo é ica p esença da His- o iog a ia espanhola no poema camoniano ainda não oi sujei a a uma análise mais p o unda, pelo menos na p odução in elec ual dos es udos camonianos no século XX. Maio i a iamen e, es es es udos concen am-se na poesia espanhola quando p ocu am a e igua es as e- lações. Mesmo o comen á io de Fa ia e Sousa a VIII, 29 assinala Juan de Ma iana e Tomas Tamayo, e e- lando que, p o a elmen e, desconhecia Ped o de Me- dina e Ocampo. Já Epi ânio Dias não assinala Ped o de Medina nes es con ex os, como ez, po exemplo, no seu comen á io a III, 17. A ela de undo da His o iog a ia Espanhola pa ece se di e en e daquela que no eou o mesmo discu so em Po ugal, sob e udo po ques ões polí icas. Aos “Lusíadas” in e essa a discu sa e e lec i a Expan- são do conhecimen o e da Fé. O discu so da C ónica de Flo ián de Ocampo, his o iado o icial de Ca los V, ap esen a a duas aces: uma, ol ada pa a o in e io , des ina a-se a p omo e a unidade (polí ica, eligiosa e e i o ial) do po o espanhol; ou a, o ien ada pa a o ex e io , legi ima a a polí ica expansionis a dos Reis Ca ólicos (Ma í – Aguila , 2000: 3). O século XVI ma ca, assim, a consolidação de uma adição his o- iog á ica que emon a a ao Génesis e e o es amen- á io as aízes da ealeza espanhola. Vis o que, nes e con ex o, LC se ia um ecep o ex e no, é mui o p o á- el que a ques ão não enha despe ado o seu in e esse, is o que p omo e na sua ob a um sen imen o de inde- pendência que não se adequa ao discu so his o iog á- ico do ou o lado da on ei a. Não obs an e, é momen o de aze um balanço, co- meçando po assinala que «Na ob a de um poe a, po mais genial que seja a sua o iginalidade, há semp e ma é ia la ga pa a in- en a ia , que o legado espi i ual que he dou ou que lhe oi ansmi ido pela ge ação a que a sua dá con i- nuidade, que o que ele p óp io pessoalmen e assimi- lou dos ambien es de ac o ou ideias po que lhe de- co eu a ida.» He nâni Cidade, 2004: 9. A in en a iação das « on es» de LC é um deside- a o de di ícil conclusão e não de e cingi -se à lei- u a do poema. Is o po que, como opo unamen e as- sinala R.M. Rosado Fe nandes (1980: 3), o poe a é, ao mesmo empo que o agen e de ec iação, co-he dei o 153 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS dessa adição (his o icamen e localizada) de ecepção do legado li e á io da An iguidade. Es e aspec o le an a um p oblema undamen al, já assinalado: o do con ac o «em p imei a mão» com es es ex os. Um exemplo pa- ece se o de Ti o Lí io, que inspi ou João de Ba os, enquan o que es e e á inspi ado algumas passagens d’Os Lusíadas62. A c í ica camoniana concen ou-se, desde os seus p imó dios, no es udo das on es (quellen o schung), o iginando um conjun o de abo dagens in e essan e. Não é assun o des e abalho assinala odas as consi- de ações que se ece am sob e es a ques ão ao longo de qua o séculos de lei u as d’Os Lusíadas, sendo um es udo que es á mui o longe das minhas capacidades. Tal não impede de assinala dois abalhos impo an es: a edição d’Os Lusíadas comen adas po Fa ia e Sousa (1639) e uma edição de 167063, onde su ge, pela p i- mei a ez, um índice de nomes p óp ios, da au o ia de F anco Ba e o, que o iginou a Mic ologia. Exis em di e enças undamen ais en e uma e ou- a ob a. Enquan o que a p imei a explica o con eúdo de cada es o e, a segunda elabo a uma espécie de di- cioná io, o denado al abe icamen e, como su ge explí- ci o no í ulo: Mic ologia/ em a qual se explicam odos os nomes p óp ios, is o ias, abulas, nomes pe eg inos e luga es escu os con eudos em os Lusíadas de Luis de Camões (…). Com um comen á io de g ande e udição, Ba e o ap esen a um conjun o impo an e de e e ên- cias sob e Ta essos, indo mais longe do que o p óp io Fa ia e Sousa no ocan e a e mos como Bé is, Guadal- qui i , Ta i a e Ta essos. Re lec e um ex ao diná io sen ido c í ico que ai de encon o à explicação desses nomes no poema, às au o idades e à discussão de algu- mas opiniões de um modo que p e endia escla ecedo pa a qualque lei o do ex o camoniano. Es ando segu o de que es e ex o e á conseguido chega a uma pequena pa cela des a ealidade, uma ila- ção a i a é a necessidade de um es udo mais p o undo sob e es as ques ões, que englobasse múl iplas pe spec- i as e disciplinas, não só do poema camoniano, como ambém dos ou os au o es que e ão se ido de base à elabo ação d’Os Lusíadas. Nes e sen ido, ha e ia que assinala que o ema em análise – Ta essos em LC – es á en e es es dois campos, le an ando di iculdades que o au o des as linhas p ocu ou supe a . Vejamos, ago a, os Can os onde LC inse iu Ta essos. 62. Ve no a 54. 63. T a a-se da eedição de uma publicação de 1663, «que ap e- sen a a a no idade de aze , à cabeça de cada can o, o a gumen o ou súmula do seu con eúdo (…)» (p e ácio A.P. de Cas o à ob a de Ba- e o, 1982: XV). As edições de 1663 e 1670 o am imp essas ba casa de An ónio C aesbeek de Melo. VI. O CANTO III «Mas u, em quem mui ce o con iamos/ acha - se mais e dade, ó Rei benigno, e aquela ce a ajuda em i espe amos, que e e o pe dido Í aco em Alcino;/ A eu po o segu o na egamos,/ conduzidos do in é - p e e di ino,/ que – pois a i nos manda – es á mui cla o/ que és de pei o since o, humano e a o.» Os Lusíadas, II, 82 Um p imei o aspec o que se des aca nes a es o e é a p esença do Rei de Melinde como pe sonagem aju- dan e e como p o agonis a de uma cena- ipo da na - a i a de iagem: a hospi alidade. A o ma, de aco do com o pensamen o de P opp, de e mina o con eúdo (Mo ologia Skazki = P opp, 2006), o que é álido, po exemplo, pa a a an e io análise das in luências de Vi - gílio, Home o e Flaco n’Os Lusíadas. Não se a a de eduzi a iqueza do poema às sequências es á eis de P opp, mas an es de assinala que es e episódio é un- damen al, uma ez que pe mi e ao poe a, inspi ado pela Musa, in oduzi uma mensagem pela «boca» do p o a- gonis a. O mesmo oco e no Can o VIII com a cu iosi- dade do Ca ual. Es e papel é de ido, na Odisseia, po Alcínoo, que pede a Odisseu que desc e a os homens c uéis, injus- os, amigos do es angei o64 e com emo aos deuses (Od. VIII, 572 – 6 e IX, 170 – 176). Na Eneida (II e III), po seu u no, a hospi alidade de Dido pe mi e in odu- zi a ida de Eneias (c . Pinho, 2007a). Is o em elação às semelhanças. A di e ença unda- men al é que o episódio na ado po LC e lec e uma e apa da iagem de Vasco da Gama, se segui mos o e- la o do Pilo o e de ou os his o iado es con empo âneos do na egan e po uguês (Campos, 1998: 122)65. Nes e sen ido, o ou in e é colocado na sequência, i endo- a in ensamen e: o discu so na a i o, a a és da sua li- nea idade e simplicidade, o na os “ ac os”, mesmo os incoe en es, mais assimilá eis e comp eensí eis, pe - pe uando e azendo essonância do pensamen o que se p e ende dominan e. No e-se que a in e enção do po- e a nos Can os III e IV é quase inexis en e, cabendo a 64. Albuque que (em p ep.), onde exponho o po quê de consi- de a que o e mo φιλόξεινος de e se aduzido como «amigo do es- angei o» e não como «amigo do hóspede». Das qua o ezes que o e mo é u ilizado na Odisseia, o sen ido de φιλόξεινος enquad a-se em si uações em que o p o agonis a ainda não oi econhecido pe- los seus an i iões. Ou seja, mesmo conside ando o duplo sen ido de ξεῖνος como «es angei o» e «hóspede», pa ece e iden e que, an es de se econhecido como «hóspede» (h. an igo da amília ou no o h.), aquele que chega e bene icia da hospi alidade é «es angei o». 65. Gaspa Co eia, João de Ba os e Damião de Góis. Pa a as es an es e apas da iagem, c . Fe ei a, 1998: 77. 154 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 p imazia à His ó ia de Po ugal (143 es o es no III e 104 no IV), al como é salien ado po J. de Sena ( a- bela 1), que po sua ez não é assinalada ao longo de odos os es an es Can os. Nes e con ex o, há que e i ica a dis ibuição dos emas ao longo das es o es do Can o III, de modo a po- de «isola » Ta essos. Vasco da Gama desc e e a Eu opa (III, 6 – 20), ao pon o de da a sensação, como mui o bem apon a Se- bas ião Pinho (2007b: 137), de que se es á pe an e uma ca a cosmog á ica. En e a es o e 6 e a 20 des e Can o, sob essaem alguns aspec os que o am apon ados po A. Salgado Júnio (1949) em elação à isão huma- nis a da Geog a ia quinhen is a. Um desses aspec os é a concepção do Homem enquan o Se pe manen e e en- quan o p odu o da sua geog a ia66, a pon o de aze in- eg a nes e Can o a ep esen ação de duas Eu opas, em udo coinciden es com o mapa geo-polí ico Romano: a Eu opa Bá ba a po um lado (LC inicia a analepse no NE eu opeu) e a Eu opa do Impé io po ou o, na p o- cu a de um equilíb io en e a con igu ação an iga e a mode na da sua Eu opa, ap eendida e ep esen ada com os olhos de um humanis a. Pa icula men e in e essan e é a “ isualização” da Espanha (17 – 19), em que LC lidou com duas ealida- des dis in as – a di isão das p o íncias omanas e a sua ac ualidade polí ica –, no meio das quais ha ia o p o- cesso de conquis a de e as aos Muçulmanos (que não e omou es a di isão). O poe a in eg ou es a an iga ea- lidade nas es o es 17 – 19, sob e udo na úl ima, ci- ando o Ta agonês, as As ú ias, o Galego e Bé is como an igas ealidades da Hispânia (Ta aconensis, Gallae- cia, As u ia e Bae ica), equilib ando-as com Na a a, Cas ela, Leão e G anada. A agão pa ece se assimilada a Ta aco, se i e mos em conside ação o Dic iona ium de Neb ija, como apon a Salgado Júnio (1949: 289). Toda es a o dem geog á ica, iniciada com a Eu- opa do NE, em po objec i o e mina na Lusi ânia pa a, a pa i daí, inicia o discu so sob e a «sangui- nosa gue a». An es disso, de enhamo-nos mais um pouco na «la ga e a», assinalando um aspec o ão 66. Embo a não seja e iden e nes a desc ição, bem como na ap esen ação mais la a da «Máquina do Mundo», as conside ações que Salgado Júnio ece em o no da ques ão dão a en ende que LC az uso da concepção de e minis a de A is ó eles (c . Polí ica VII, 7), ap o ei ada, poli icamen e, pa a jus i ica a esc a a u a (Be nal, 1993: 196 – 7). Is o po que, assinala aquele au o (1949: 282) que LC assinala mais di e enças en e os Eu opeus Mode nos e os A icanos e Asiá icos seus con empo âneos do que en e o Eu opeu An igo e o Eu opeu Mode no, sendo nes e con ex o que de e en ende -se o sen- ido de “pe manência” do Homem Eu opeu, iden icado po LC com o Homem do Impe ium Romano (o Impé io Tu co e a conside ado como a i icial e ansi ó io). impo an e como in e essan e da ep esen ação da Eu- opa camoniana: «Eis aqui se descob e a nob e Espanha,/ como ca- beça ali da Eu opa oda (…) (III, 17). «Eis aqui, quase cume da cabeça/ de Eu opa oda, o Reino Lusi ano» (III, 20). Depois de Bo ges de Figuei edo (1883a: 22) co- men a , suma iamen e, es as passagens, Epi ânio da Sil a Dias (ed. 1972) assinalou a ob a de Ped o de Me- dina e a His ó ia de S. Domingos (I, 2, 4), de F ei Luís de Sousa, como on es li e á ias de LC pa a a elabo a- ção des a desc ição (Ribei o, 1971 Pinho, 2007: 142- 3)67. Pa a Pinho, es a suges ão não é con incen e, uma ez que exis i iam, naquele empo, ep esen ações ico- nog á icas ginecomó icas da Eu opa, nomeadamen e a de Johan Pusch, publicada po Ch is ian Wechel em Pa- is (1537; ig. 4), cujas o igens podem as ea -se já no século XIV, no Mapa «Opicinus de Canis is», da ado de 1334 – 1338 (Pinho, 2007b: 159, mapa XI; ig. 3)68. Es as ep esen ações são, p o a elmen e, as únicas an- e io es a LC, is o que a sua p oli e ação, pelas mãos de Hein ich Bun ing, se dá após a mo e do poe a em 1580 (Fig. 5). Ou a hipó ese é a consul a, po pa e de LC, do Compendium Geog aphiae Disciplinae (Basi- leia: Ioannem Opo inum), da au o ia de Guillaume de Pos el, publicada em 1561, quando o poe a se encon- a a o a de Po ugal. O au o des e Compendium e- e e C. Wechel, desc e endo ambém uma Eu opa gi- necomó ica69. 67. Ribei o (1971) az uma pequena no a a Epi ânio Dias, bem como à E nog a ia Po uguesa de J. Lei e de Vasconcellos (1936), que ab e com a ci ação de Lusíadas III, 20. Tomei con ac o com es a suges ão depois da consul a da ob a de Ped o de Medina, na qual se encon a, como e emos a seu empo, es a mesma desc ição (Cap. I). Foi com es a e e ência que decidi ap o unda um pouco mais a ques ão da ep esen ação da Eu opa po pa e de LC, is o que po- de ia ha e aqui uma indicação complemen a à ideia de que Ped o de Medina pode, igualmen e, e sido consul ado pelo poe a, a julga ambém pela coincidência da in e p e ação de Ta essos como Ca - eia (i.é., Ta i a). 68. Codice Va icano La ino 6435, ol. 84 . 69. Ao que de e ac escen a -se que o co ação ep esen a o be- ço dos Habsbu go ( igs. 4 e 5). A ep esen ação da Roma Impe ial como um símbolo uni e salizan e pa ece e ei o com que os pode- es peninsula es p ojec assem sob e os no os mundos descobe os es a concepção. A «Espanha, cabeça ali da Eu opa oda» pa ece sin- e iza es e sen imen o de uni e salização, sob e udo da Fé. Es a ima- gem se iu de supo e iconog á ico ao Rei espanhol Filipe II, co oado em 1556, que se a i ma a como «un nue o Augus o C is iano, el he- ede o de los empe ado es omanos y c is ianos y el elegido po dios pa a egi el mundo» (Villá i Tomás, 2001: 266). Veja-se, igualmen e, Pinho, 2007b: passim. 155 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS Ped o de Medina, Pos el e a ca og a ia ginecomó - ica da Eu opa são ês hipó eses p o á eis e que não se excluem mu uamen e70. O signi icado do e mo quasi, expos o no poema camoniano (III, 20), pode se um elemen o de análise da úl ima hipó ese. T a a-se, e en- ualmen e, de um la inismo que não adqui e um sen ido espacial, mas an es o de «como que» (Pinho, 2007b: 167). Ac escen a es e au o que «a imagem da igu a eminina dos mapas ginecomó icos con i ma es a po- sição absolu a [como ex emo ociden al da Eu opa] quando ap esen a Lusi ania g a ada na pa e supe io 70. C . sup a a ci ação da Geog aphia de João de Ba os, hoje i emedia elmen e pe dida, que pode e sido, segundo O lando Ri- bei o (1980: 159-160 e 175-176) a p incipal on e do conhecimen o geog á ico de LC, a pa de P olomeu. Em 1980, encon a a-se em p epa ação uma Geog a ia Res i u a, da au o ia de O. Ribei o e S. Da eau. Uma pesquisa na base de dados da BN e da Biblio eca da Faculdade de Le as na Uni e sidade de Lisboa não e elou qualque esul ado, p essupondo-se que es e abalho nunca chegou a se pu- blicado. Quan o a Ped o de Medina, a análise que se á adian e pode e o ça a p opos a de Epi ânio Dias. da has e on al da co oa da jo em ainha e lhe sob e- põe, ainda, o escudo de a mas de Po ugal, de modo a não deixa qualque espaço supe io azio» (id., ibid.). No en an o, a julga pelo ca ác e isualis a de desc i- ção camoniana, é possí el que LC se e i a, com p eci- são e mes ia, a uma ep esen ação iconog á ica e não an o a um ex o. Es a ca ac e ís ica, consubs anciada pela apa ição do e bo «Ve » po 444 ezes n’Os Lusíadas (o mais equen e a segui ao e bo «Se », com 697), ol a a e- pe i -se no Can o VIII, que amos e de seguida, bem como no Can o X que, pela p óp ia na u eza da análise aqui p opos a, não ai se conside ada. A «sanguinosa gue a» (His ó ia de Po ugal) é, en- ão, enquad ada nes e excu so geog á ico e, «no con- jun o, ocupa uma pa e conside á el do poema» (Cas- elo-B anco, 1984: 115), de endo o segundo luga dos * Pa a ou as e sões des e mapa, eja-se, no mesmo si e (cons. 6/10/09): h p://www.hen y-da is.com/MAPS/LMwebpages/230A. h ml (/230B.h ml; /230B3.h ml; /230C.h ml) Figu a 3. Opicinus de Canis is, «Ecclesia libe a a seduc o e» h p://www.hen y-da is.com/MAPS/LMwebpages/230.h ml (cons. 6/10/09)* 156 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 emas a ados po LC, com 245 es o es, logo a segui à iagem (c . Tabela 1). É nes e con ex o e (no e-se) não no an e io que su ge a e e ência aos campos a ésios. Es a impo ância de i a da p óp ia ida do poe a, deco ida en e as a mas e as le as (Be a dinelli, 2000: 57 – 58), como mani es a em VII, 7971. Re elado é, ambém, o a amen o que dá no Can o III às ba alhas de Ou ique (42ss) e Salado (99 – 117), e pelo des a- que que dá ao pe cu so dos eis: D. A onso Hen iques (III, 42 – 68 e 77 – 82), ou os einados (85 – 90 e 94 – 95), D. Dinis (III, 96 – 98) e D. Fe nando (138 – 143). No caso de Inês de Cas o (118 – 136), Paulo Oli ei a (1998) assinala que o poe a alo iza es e espisódio po ap esen a um im li e á io. A impo ância con e ida a D. A onso Hen iques e às Ba alhas de Ou ique e do Salado e elam que a emá ica 71. «Olhai que há an o empo que, can ando/ o osso Tejo e os ossos Lusi anos,/ a Fo una me az pe eg inando,/ no os abalhos endo e no os danos:/ ago a o ma , ago a espe imen ando/ os pe i- gos Ma ó cios inumanos,/ qual Cânace, que à mo e condena,/ nu[m] a mão semp e a espada e nou a a pena» (o e so 8 é ci ado po Be- a dinelli, 2000: da «Gue a San a» assume g ande ele ância no espí- i o do poe a, ac escen ando-se que «(…) quando, no can o oi a o, Paulo da Gama ala sob e as igu as pin- adas nas bandei as, a lu a con a os mou os se á, no- amen e, um aspec o eco en e» (Oli ei a, 1998: 415). Ou seja, e elam o que se en ende como « isão camo- niana da His ó ia», na qual a lu a con a o Mou o e a a i mação da independência de Po ugal ace a Cas ela (du an e a Re olução de 1383, expos a já no Can o IV e e omada no VIII) assumem o luga de maio des aque, des alo izando-se o Po o enquan o in e enien e des e p ocesso (Cas elo – B anco, 1984: 126 – 130). A His ó ia de Po ugal, ap esen ada pelo Gama, dá a en ende que o poe a a ap eende e ansmi e com um sen ido mo al e polí ico, ap oximando-se da concepção da His ó ia como magis a i ae72 ou como exemplo 72. Só no Can o III: 31, 33, 69, 74, 136 e 139, com c í icas ne- ga i as; 41, como exal ação. Ac escen am-se ou as do Can o IV, das quais p escindimos (4, 44, 57 – 58 e 95). Es es exce os são ci a- dos, nes e mesmo con ex o, po F. Cas elo – B anco (1984: 116 – 119), a igo pa a o qual eme o um complemen o ú il des a ques ão. J.V. de Pina Ma ins (1981: XX) ambém salien a a c í ica social ca- moniana, em pa e baseada em E asmo e Pe a ca. M.ª H. da Rocha Figu a 4. Eu opa – Vi go, de Johan Pusch (1537), apud Pinho, 2007b 157 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS da g andeza de um po o (Ti o Lí io, Táci o; c . Ha - og & Case i z, 1999: 190ss). LC pa ece ambém e- co e à Di ina P o idência, como apon ámos no con- ex o da p esença da mi ologia g eco-la ina no poema, pa a ap esen a episódios de gue a como o ce co de San a ém (III, 82), a Ba alha do Salado (III, 110)73, ou mesmo no milag e oco ido em Ou ique, sob e o qual Pe ei a (2007b) salien a que, em X, 154. 5-8 ( . sup a, es a es o e), LC apon a ês ca ac e ís icas undamen ais do o ado , de inidas po Cíce o: «es udo», «expe iência» e «engenho» (ci ando Co êa da Sil a). Pa a além disso, Cíce o de e se alo izado (a pa de Dioní- sio de Halica nasso, Quin iliano, Plínio-o-Moço, Salús io e Plu a co) como de enso da ideia da His ó ia como magis a i ae (c . Ha og & Case i z, 1999: 146 – 181). 73. Nes a, des aca-se a di e ença numé ica dos soldados de um e ou o lado do campo de ba alha, em cla o des a o dos C is ãos: «Es ão de Aga os ne os quase indo/ do pode dos C is ãos, aco e pequeno,/ as e as como suas epa indo/ an emão, en e o exé - ci o aga eno,/ que, com í ulo also, possuindo/ es á o amoso nome «Sa aceno»;/ assi ambém com alsa con a e nua/ à nob e e a al- heia chamam sua». assen a a aclamação de D. A onso Hen iques como Rei (III, 45 – 46)74. Es e aspec o dá a en ende que LC se baseia no P o idencialismo His ó ico (ou inalis a eo- lógico) de San o Agos inho. Pa a o au o da Cidade de Deus, es a en idade di ina é um « egulado omnis- cien e e omni iden e da his ó ia» (Soa es, 2004: 433), pelo menos desde Caim, a pa i do qual su gem as duas cidades (Ha og & Case i z, 1999: 260 – 264). A His ó- ia ap esen ada pelo Gama pa ece, po seu u no, que- e p o a que Po ugal – e a sua ealeza – e a um país elei o e p o egido po Deus, de endo a missão de ex- pandi a Fé75. 74. A ques ão dos milag es na exposição his ó ica camoniana en onca com a discussão le an ada em o no de LC enquan o «C is- ão-no o» (Cas elo – B anco, 1984: 122 – 4). 75. M.ª Luísa Cas o Soa es (2004) chega a u iliza o exce o de III, 20, an e io men e apon ado pa a explica a concepção da ca - og a ia ginecomó ica, num ou o sen ido, is o é, a «cabeça/ da Eu- opa oda» signi ica «cabeça do impé io empo al de Deus na e a». Figu a 5. Eu opa […] in o ma i ginis. I ine a ium Sac ae Sc ip u ae, Halms ad (1581/ 1587) (apud Vilá i Tomàs, 2001: 266) 158 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 Os campos a ésios su gem, en ão, in eg ados num discu so his ó ico que alo iza a lu a con a o Mou o (Ba alha do Salado), excluindo-se do discu so geog á- ico. Vol a emos a e i ica a pouca impo ância des e ema no Can o VIII. VII. O CANTO VIII Es e Can o é ma cado po uma magní ica exposi- ção que coloca o ou in e/ lei o pe an e uma sequência iconog á ica de 25 pe sonagens, com o mesmo ca ác e isualis a apon ado pa a a desc ição da Eu opa (Pinho, 2007b: 133ss). O papel do Ca ual, que pede a Paulo da Gama a explicação do signi icado das bandei as, é, po isso, simila ao do Rei de Melinde. Tal como no Can o III, o p imei o nome que su ge é o de Luso: «Es e que ês, é Luso, donde a ama/ O nosso Reino Lusi ânia chama» (VIII, 2). Cu iosamen e, LC pa ece da um sen ido esca ológico à Península Ibé- ica: «Do Dou o e Guadiana o campo u ano/, já di o Elí- sio, an o o con en ou,/ que ali quis da aos já cansados ossos/ e e na sepul u a e nome aos nossos» (VIII, 3)76. Os ou os que se seguem pa ecem se , c i e iosamen e, escolhidos, a endendo ao comen á io de J. de Sena à es- u u a des e can o: «As bandei as que o Gama le a a consigo, pa a ilus a -nos complemen a men e ace ca da His ó ia na ada nos Can os III e IV, não inham, nas suas igu as, ninguém mo o ha ia menos de in a e ês anos da sua pa ida de Lisboa. Is o é como se, pa a igu- a -se numa bandei a, osse necessá io um pe íodo pu - ga ó io, igual à idade pe ei a, a de C is o… Po ou o lado, Camões não inse e, nas bandei as, ninguém mo o depois de 97 anos de di e ença pa a a da a máxima que inclui (e nas p o ecias) no poema (ce ca de um século)» (1980: 154 – 5, os sublinhados são do au o ). Mesmo excluindo es e comen á io, e i ica-se que o objec o cen al des a desc ição das bandei as es á mui o longe de pode in eg a o io Ta eso como um elemen o p eponde an e da His ó ia de Po ugal, al como se e i ica ia no Can o III. No en an o, o discu so desc i i o e isualis a de Paula da Gama, di igido ao Ca ual, ocupa 42 de 99 Es âncias (1 – 42), enquan o que ou as 50 são dedicadas à iagem (43 – 46; 51 – 96), 4 aos deuses (com a úl ima in e enção de Baco no poema, em 47 - 50) e 3 à in e enção do poe a (97 – 99) 76. c ., sup a, a ques ão dos «Lusíadas» ou « ilhos de Luso». Pode le an a -se uma ques ão in e essan e em o no des e aspec o, endo em linha de con a que Luso é ilho de Baco e que es e em uma pos u a ag essi a con a os seus descenden es. Pa a um melho escla- ecimen o des a apa en e con adição, c . Jo ge de Sena (1980: 154). sob e a aição (Sena, 1980: 117 e 155). Es e Can o, de aco do com a análise de H.Pos (1972: 312 – 313), e á sido esc i o du an e a es adia de LC em Goa (1553 – 1556; 1560 – 1567), embo a o au o seja cau eloso nes a a i mação. Começa a desenha -se um pequeno pano ama da pouca impo ância de Ta essos no poema camoniano, pa ecendo mos a que uma azão plausí el pa a a in- odução de des e nome é a mé ica. VIII. MÉTRICA A Mé ica – do G ego me ikê – é, po de inição, uma cons ução baseada na sequência de sílabas que compõem um e so. A sua análise (quan i a i a) não só p essupõe a comp eensão da o mulação do e so, como ambém, nes e caso, pe mi e econs i ui um con- jun o de e minado de opções que LC pode e mane- jado (Gomes, 1999: cols. 748 – 9)77. An es de e as implicações des a eg a no poema camoniano, de e assinala -se a di e ença en e a mé- ica g ega (me a)/ la ina (pé) e a das línguas omâni- cas. Na p imei a, é necessá ia uma al e nância en e sí- labas longas e b e es exis en es num e so. A segunda undamen a-se numa cons ução silábico – acen ual, em que o i mo é ma cado pela in ensidade das sílabas (á onas e ónicas). A pa i do segundo qua el do século XVI, o de- cassílabo i aliano en a em Po ugal com o eg esso de Sá de Mi anda que, en e 1521 e 1526, es e e em I á- lia. De aco do com es a concepção, o e so he óico de- ia e duas sílabas ónicas (6ª e 10ª). É es e esquema que LC adop a na cons ução do seu poema78 e que ai pesa na econs i uição de alguns sinónimos que o p ó- p io poema o e ece. Em mui os casos, es as imposições e ão ob igado o poe a a aze algumas escolhas en e os á ios signi icados de e mos que p ecisa a de u i- liza , en e eles opónimos, hid onímicos, co ónimos, e c. Nes e sen ido, os campos a ésios se iam um sinó- nimo de campos de Ta i a, que LC e e e mais adian e no seu poema (III, 108). Do mesmo modo, o io Ta - esso encon a co espondência com Be is (III, 19, 60 e 85), Guadalquibi (IV, 9) e «o io que Se ilha ai ba- nhando» (III, 75). Pe mi a-se-me exempli ica . Em III, 108, LC es- c e e: «Jun os os dois A onsos, inalmen e/ nos cam- pos de Ta i a es ão de on e/ da g ande mul idão de 77. As conside ações des e capí ulo baseiam-se nes e a igo. 78. Pa a uma exposição das a ian es da Mé ica, c . Gomes, 1999: passim, bem como a bibliog a ia aí e e ida. 159 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS cega gen e». Vejamos a segunda opção nes e encadea- men o: [nos campos a ésios es ão de on e]. A 6ª e 10ª sílabas (assinaladas a neg i o) são á onas. Do mesmo modo, ão-pouco pode ia o poe a esc e e , em III, 100, [ o am nos campos de Ta i a ajun ada], p ecisamen e pelo mesmo mo i o. O mesmo pode aplica -se à lei u a de VIII, 29. Colocando a hipó ese nes es e mos, e íamos uma espos a iá el pa a a in odução de campos a esios em III, 100, e Ta eso em VIII, 29. No e-se que es as al- e na i as encon am-se odas nos Can os III e IV que, como imos, o am consag ados à exposição da des- c ição da e a e à His ó ia de Po ugal, ap esen ando uma composição silábica dis in a. Assim, al a espon- de a uma ou a ques ão: a p o eniência das in e p e- ações de Ta essos como cidade associada a Ta i a, e como um io que se chamou Be is e, no empo de LC, Guadalquibi . IX. TARTESSOS N’OS LUSÍADAS Depa amo-nos com um p oblema de on es. As que J.M.ª Rod igues apon a não pe mi em uma co espon- dência di ec a com os oi a os e sos, o que ob iga, na- u almen e, a p ocu a ou as al e na i as que possam se coe en es e possí eis. Es a ausência dos comen á- ios do au o de Fon es dos Lusíadas é explicá el se i- e mos em linha de con a que em nenhuma das on es po uguesas e i alianas que analisou ( elemb o que des- alo izou as espanholas) pa ece ha e uma ligação a Ta essos. Pa o do p incípio ( al ez equi ocado) que LC é o p imei o au o , daqueles que se apon a am, a coloca aquele nome na his ó ia da ecepção enascen- is a po uguesa. Pa a pe mi i uma con on ação mais ajus ada, e- jamos o que Rod igues (1905: 105) ci a de Rui de Pina: «[ElRey de Ma ocos, Alliboacem] passou em pessoa & eyo há Aljazi a y cõ elle, segundo o mais comum es emunho, passa am dos acon iados & pe - çebidos sessen a myl de cauallo & qua o çen os myl homeens de pee, com que amben se ajun ou ElRey de G aada com odo seu pode … Domingo a XXVII dias do mees de Ou ub o chega am (os dous eus ch is ãos) a pena do çe uo, donde os espan osos a - ayaes dos mou os ia pa eciam sob e Ta i a…» C onica del ei dom a onso (…), ls. 52 e 52 Os Lusíadas III, 100 e es e exce o da C ónica de Rui de Pina mos am como um discu so sob e o mesmo ema pode a ia em e mos de composição, embo a ap esen em uma e minologia comum. Enquan o que o p imei o u iliza Ta essos como Ta i a, o segundo men- ciona apenas es e segundo opónimo. Su gem duas hipó eses iá eis: a p imei a ela- ciona-se com a Geog a ia an iga e o segundo com a His o iog a ia. Excluindo Rui de Pina, pela ausência de Ta essos no seu ex o, es a p ocu a on es onde o ema – e, inclusi e, a elação Ta essos/ Ta i a – pode in e essa , e aí e íamos de eco e à his o iog a ia es- panhola con empo ânea de LC, bem como a ou os au- o es da An iguidade, adian e expos os, que localizam Ta essos em Ca eia. Es a elação oi alo izada po Ped o de Medina quando esc e e o Lib o de G andezas y cosas memo- ables de España, publicado em 1548. Vol a emos a es a ob a mais adian e, mas impo a e e que es e au o ambém a a a ba alha que LC e RP assinalam e não é conside ado po Fa ia e Sousa que, ao comen a III, 100 e VIII, 29, a i ma: [III, 100]. Os Campos Ta esios. Es á dicho con Ausonio epis .19 Ta esia Calpe son aquellas ie as que yacen ezinas al p omon o io Calpe, llamadas assi po Ta i a, que se llamo Ta esia, Ciudad pues a a las aizes de las colunas de He cules, in de España; i una dellas es es e mon e: i en es a campaña se jun ò essa Mo isma, i ue encida de los Reyes Po ugues, i Cas ellano. [VIII, 29] Que en e o Ta eso, e o Guadiana ha- bi a. Quie e dezi , la gen e de Andaluzia, mas pa icu- la men e de aquella que habi a en e o io Guadiana, i el Guadalqui i , que ya se llamó Ta eso: de que dixi- mos sob e la e.100 del c.3. I éanse los Geog a os; i a Ma iana; i a Don Tomas Tamayo en su doc a de ensa. Uma p imei a exclusão a aze da análise de Fa ia e Sousa em 1639 é a p esença de au o es como Juan de Ma iana e Tomas Tamayo, uma ez que es es são pos e- io es a 1580. A es as e e ências jun am-se Geóg a os sub ilmen e mencionados (em VIII, 29) e o Epig ama de Ausónio (III, 100)79. Con udo, há que delimi a o as o campo de ocasiões em que Ta essos su ge, ci cunsc e- endo-o à iden i icação desse nome com a cidade de 79. Na e dade, Ausónio o nece duas e e ências a Ta essos. No epig ama 6 (in i a io ad paulum): «(…) Paule, Camena um ce- lebe ime Cas alia um/ alumne quondam, nunc pa e ,/ au a us, au p oa is an iquio , u ui olim a esio um egulus». ou, aduzido: «(…) Paulus – once he mos amous child o he Cas alian Camenae, now hei a he o g and a he , as was o old he kingle o Ta es- sus». Mais adian e (XXIII), diz que «Condide a iam Solis equos Ta - esia Calpe/ s ideba que e o Ti an iam segnis Hibe o». Ou, aduz- ido: «Now had Ta essian Calpe hidden he Sun’s cou se s and Ti an, now eeble, plunged hissing ‘nea h he Ibe ian wa e». As aduções são de Hugh E. Whi e (1967). 160 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 Ca eia (= Ta i a) e com um io, p escindindo de ou os – igualmen e impo an es – egis os80. Tal implica e em conside ação as in o mações que o poe a e e à sua disposição du an e o seu «hones o es udo» ou, em úl- ima análise, na sua «la ga expe iência» de ida. A aná- lise des e aspec o implica, consequen emen e, ponde- a as in e p e ações sob e Ta essos com as quais pode e ido con ac o. Em 1672, João F anco Ba e o desen ol e um co- men á io mais minucioso, não se e e indo a qualque his ó ia ou c ónica espanhola, como Fa ia e Sousa, mas p ocu ando apon a pa alelos com ou os au o es. Re e- indo-se aos Ta esios Campos, «Os de Andalusia, cha- mada assi de Ta esso, luga an iquissimo de Espanha, que delle se chamou ambem Ta esia; e A ieno po esa asam chama Ta esio ao io Be ys. Plinio no p oemio do li o e cey o, Ti o Libio, lib. 8. Pomponio Mela lib. 2 dizem, que Ta esia he a mesma que Ca eia (que he Ta i a como acima dissemos) mas Silio I álico as di- ide (…) em o Li o 3 (…)»81. A elação Ta essos = Cidade = Ca eia em como ep esen an es Apiano (Ib. 63), Es abão (III 2, 14), Mela (II, 5, 96), Plínio (Na . III, 7) e Sílo I álico (III, 396), ês dos quais, como imos, explici amen e ex- pos os po LC em V, 50. O leque de ob as que elacionam Ta esso com um io é mais amplo: A gonáu icas Ó icas (1242), A is ó- eles (Me e. 350a. 36), A ieno (OM 215 – 225; 252 – 259; 267 – 302), Escimno (É o o, 164), Es ê ão de Bi- zâncio (s. . Ta êssós), Es abão (III 2, 11), Mac óbio (Sa . V, 21, 19), Pausânias (VI, 19, 3) e Es esíco o de Hime a (Ge ioneida, PMG 184). Vimos a ás a possibilidade de uma ecepção in- di ec a dos ex os an igos em LC. Podemos, po isso, eco e a uma hipó ese que oi suge ida po Amé ico Cos a Ramalho (1975) num a igo in i ulado «Sob e o nome de Adamas o »: O Dic iona ium de Aelius An o- nius Neb ija (apud Fe nandes, 1980: 7, n. 12; Ramalho, 1980a: 10-11)82, ac ualmen e disponí el na Biblio eca Nacional de Po ugal (=BNP). Consul a am-se as edi- ções mic o ilmadas de 1520, 1536, 1543 e 1545, p o- cu ando iden i ica al e ações e ac escen os nos e mos Bae ica, Ca eia e Ta essos (com os espec i os de- i ados). O lapso c onológico des as edições é, c eio, su icien e pa a ob e uma boa isão de conjun o sob e 80. Con inua a se de ex ema u ilidade a ob a edi ada po Jaime Al a e J.M.ª Blázquez (1993), onde se ap esen a um de alhado co - pus sob e as e e ências li e á ias a Ta essos, da esponsabilidade de M.ª M. My o (p. 201 – 214). Veja-se, igualmen e, Blázquez, 1969. 81. Ap esen a-se, mais adian e, es a ci ação de Silio I álico. 82. A ac escen a a G amá ica de Neb ija, que não oi consul- ada nes e abalho. a ques ão aqui a ada, e pode se enquad ado no que an es mencionei sob e a in odução da ob a de Neb ija no meio uni e si á io po uguês. Em elação di ec a com o assun o que nos impo a, Ma í – Aguila (1996: 84-5) comen a que «Neb ija (…) se in eg a ambién en e los his o iado es semi-o i- ciales de Fe nando el Ca ólico, y ejempli ica en g an medida la dialéc ica his o iog á ica que en pa e he e- da án los his o iado es del siglo XVIII. Pese a su exce- len e o mación clásica, se sen ía p o undamen e obli- gado espec o a su pa ia (…). En su opinión, España ha sido un imán pa a los in aso es desde los iempos p imi i os, siendo has a su iempo p esa y bo ín de los ex anje os. Lógicamen e, el in de es a si uación y con ello la es i ución de la unidad de España desde sus o í- genes, se enca na ía en los Reyes Ca ólicos». Vejamos, en ão, os e mos que i emos opo unidade de consul- a na sua ob a. Ta i a não apa ece mencionada no Dic iona ium, mas su ge, po exemplo, como ulgo de Ca eia na edição de 1545, imp essa em An ué pia, bem como no Dic iona ium La ino – Hispanicum e ice e sa His- panico – La inum, numa pos e io edição de 1570, am- bém imp essa em An ué pia, associada a Ta essos (i.e.. Ta essus = Ca eia = Ta i a). Es a e ou as explicações encon am-se dispe sas, en e signi icados e edições, do modo expos o na abela 2: A pa i des a pequena amos a, e i ica-se que, en- e 1520 e 1536, su gem dois no os e mos elaciona- dos com Ta essos, dos quais se des aca a essius, a, um. LC u iliza os campos a ésios pa indo, p o a el- men e, da o mulação de equidade Ta essos = Cidade da Bé ica = Ca eia, u ilizando a essius a pa i de uma edição pos e io a 1520. Mesmo a edição de 1536 iu a luz do dia quando LC e ia doze ou eze anos de idade, o que equi ale a dize que podia se consul ada em Coimb a, pa indo do p essupos o que e á ha ido, como imos, libe dade de opção pa a a escolha da ob a de Neb ija a pa i de 1525. A u ilização de Ta eso dá ambém a en ende que o poe a eco eu ao e mo la ino Ta essus, que su ge com es a o ma na edição de 1545, subs i uindo a ó mula g ega com e minação em –os, p esen e nas edições an- e io es (1520a, 1520b, 1536 e 1543). Ou seja, LC pode e ido acesso a um Dic iona ium como es e que i e- mos opo unidade de assinala , sem, necessa iamen e, e ecolhido essas in o mações em odos os au o es «clássicos» (ou de alguns deles), is o que an o a in- e p e ação do e mo n’Os Lusíadas como a e imolo- gia emp egue pa ecem i de encon o a es e documen o. Vejamos ou a hipó ese possí el. A 1 de Ou ub o de 1548, a casa de Domenico de Robe is (Se ilha) 161 SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 CAMÕES E TARTESSOS: LEITURAS EM TORNO DE DOIS EXCERTOS D’OS LUSÍADAS e mina a imp essão do Lib o de G andezas y cosas memo ables de España83, de Ped o de Medina. Es e ealiza um es udo in e essan e sob e o passado da sua «España», no qual alo iza pa icula men e a ( ambém sua) Andaluzia, bem como a explicação e imológica de á ios nomes a ibuídos às á ias egiões espanholas e “lusi anas”. É momen o de elemb a a hipó ese p opos a po Epi ânio Dias no seu comen á io a III, 17. Logo no p i- mei o capí ulo («Como España es p incipio y cabeça de 83. G aças aos es o ços das uncioná ias da Biblio eca Nacio- nal, oi possí el consul a es a ob a na edição o iginal de 1548. Na sua ap esen ação des aca-se um mapa esquema izado da Península Ibé ica, ep esen ando cidades, egiões e aciden es geog á icos. Re- gis a-se ambém a p esença de qua o ba cos na á ea do Medi e â- neo e um jun o à baía de Cádiz. De o apon a que o a igo de Sa- bio González (2003) baseia-se nos comen á ios pos e io es (1595) de Diego Pé ez de Mesa, ansc e endo um ex o que se encon a al e- ado pelo comen ado e que não co esponde, ipsis e bis, à edição o iginal de 1548. No en an o, es a al e ação não pa ece comp ome- e o sen ido do ex o. odas egiones del mundo de su assien o y igu a»), su ge uma desc ição ge al da Península Ibé ica que eco e à mesma ep esen ação ginecomó ica já assinalada: «[España] es p incipio y cabeza de odas las o as egiones del mundo. Es o mues an algunos au o es, en e los quales, uno es Plino Ve onense84 que en el lib o que hizo de la disc eción del mundo dize: la e- dondez de la ie a se di ide en es pa es: que son Eu opa, A ica y Asia y pa a deci des as comiença 84. Ped o de Medina eco e a uma adição local de Ve ona, que p e endia assinala ali o local de nascimen o de Plínio. c .Pa a o e, 1987: 687. A passagem de Plínio a que se e e e iden i ica-se em Na . III, 3: «Te a um o bis uni e sus in es di idi u pa es, Eu o- pam, Asiam, A icam. o igo ab occasu solis e Gadi ano e o, qua in- umpens oceanus A lan icus in ma ia in e io a di undi u . hinc in- an i dex e ea A ica es , lae a Eu opa, in e has Asia. e mini amnes Tanais e Nilus.XV p. in longi udinem quas diximus auces oceani pa en ,V in la i udinem, a eco Mella ia Hispaniae ad p omun u ium A icae Album, auc o e Tu anio G acile iux a geni o» (h p://www. hela inlib a y.com/pliny.nh3.h ml, cons. 16 de Ou ub o de 2009). Tabela 2: Bé is, Ca eia e Ta essos em á ias edições do Dic iona ium de Neb ija Edições Te mo no Dic iona ium 1520a 1520b 1536 1543 1545 Bae ica egio es Hispaniae quam Bae is ica xxxx Bae ica e ia pa s Hispaniae sica Bae i lu. Dic a ulgo el Reyno de G anada. x Bae icus, a, um. Adjec . U colo Bae icus hoc es . x Bae icus, a, um. Res ad Bae icam pe inens. x Bae is luuius à quo Bae ica p ouincia dic a xxxx Bae is, luuius Hispaniae a quo Bae ica p ouincia dic a ulgo Guadalquebi x Ca eia ciui as ui Hispaniae ad Calpe xxxx Ca eia, ciui as Hispaniae ad Calpen Plinio. Vulgo Ta i a x *Ta essiacus, a, um. Sil. I Ta essiacus endi ad li o a po us x x *Ta essius, a, um. Ouid. P e e a occiduas a essia li o a phoebus x x Ta essos ci i as es bae icae aedem quae Ca eia x ? x x Ta essos idem es qui Bae is po ea dic us x?x Ta essus, ciui as es Bae icae aedem quae Ca eia Põp. [Mela] x Ta essus, ide[m] es q[uae] Be is po ea dic us. Guadalquebi x Co a de Mic o ilme BN: F2417 F2408 F2322 F2323 F2315 168 PEDRO ALBUQUERQUE SPAL 17 (2008): 137-168 ISSN: 1133-4525 ISSN-e: 2255-3924 h p://dx.doi.o g/10.12795/spal.2008.i17.07 PIRES, M.ªL.G. (1982): A c í ica camoniana no século XVII. ICALP, Lisboa. POST, H.M. 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