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Lógica Conversacional, aprendizagens arquitetônicas

Tapia Martín, Carlos; Rodrigues Alves, Manoel

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137 revista de pesquisa em arquitetura e urbanismo instituto de arquitetura e urbanismo iau-usp Carlos Tapia Martín Arquitecto, Universidad de Sevilla, España, ETS Arquitectura, Departamento de Historia, Teoría y Composición Arquitectónicas, professor invitado Instituto de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo en São Carlos, SP, Brasil, [email protected] Manoel R. Alves Arquiteto, Instituto de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo en São Carlos, Avenida Trabalhador São-carlense 400, São Carlos, SP, Brasil, CEP 13566-590, [email protected] transcrição uando Platão desenvolveu sua estrutura de diálogo, deu origem a uma forma distinta de chegada ao conhecimento. Se reconhece, desde então, que a condição do monólogo na consciência científica e suas formas derivadas de expressão, como o artigo científico ou o libro monográfico, não cobrem integralmente o campo das compreensões e dos descobrimentos. Há uma parte delas que só aparece por meio do intercambio oral. O filósofo H. G. Gadamer retoma este argumento para desenvolver sua teorização sobre a hermenêutica em 1960, e acrescenta que a filosofia, em seu conjunto e ao largo da história, se constitui por correções, emendas, variações, anotações sobre o anterior, gerando um diálogo que dura milênios. Peter Sloterdijk, em 1999, promove a atualização desse sentido quando, citando ao poeta Jean Paul, acrescenta os livros ao gênero de intercâmbios dialogantes, uma vez que esperam resposta interpretativa de seus leitores. Há um tipo de comovedora amizade na forma desses intercâmbios por meio da escrita: não são apenas livros, são cartas. Para nós, poesias de compreensão e descobrimento. Com o objetivo de comover a partir dos diálogos mantidos pelos arquitetos Steven K. Peterson, D. Grahame Shane e Roberto Fernández, com quem firmamos estas entrevistas da revista Risco -Marta López-Marcos, Manoel Rodrigues Alves e Carlos Tapia-, pretendemos encontrar essa condição platônica do sentido do oral, ou da epistolar em Sloterdijk, para aprender de quem desenvolveu uma rica trajetória de reflexão do campo arquitetônico, de seu ensino, de sua prática e de suas condições de produção. Para nós, como arquitetos, coloca-se a dificuldade de saber se, hoje, somos herdeiros que matizam, negam ou aperfeiçoam a seus mentores. A via estatutária da arquitetura não é homogénea, assim como não cultiva afinidades duradouras, profissionalmente falando. Sem querer que isso seja entendido como uma crítica que advogue pela busca de um tempo com unicidade de espírito -nivelação essa que não nos interessa em sua ideologia-, o que percebemos é a possibilidade de articular uma diversidade de pensamentos arquitetônicos que provejam aberturas, tanto pelo que dizem como pela maneira que empregam a linguagem para dizê-lo. E isso acontece no formato de entrevista, porque o diálogo usa uma linguagem que mantém uma historicidade própria, logrando superar as fronteiras dos povos e dos tempos, ao dar a conhecer sutilezas de sentido que um método científico clássico exclui por princípio. Além do que, ao falarmos, as questões introduzidas se observam inseridas em uma realidade comum, gestada no mesmo instante, posto que somos interpelados a interpretar tanto as coisas como a realidade mesma. Gadamer descreve o prazer da conversação quando reconhecemos que nenhum de nós abarca uma verdade completa em seu pensamento, mas que, ao mesmo tempo, a verdade inteira pode aí envolver-nos a uns e outros, desde nossas posições individuais. O interessante reside, ao fim, na prolixa rede de relações que surge ao falarmos, V15N1 Q Lógica Conversacional, aprendizagens arquitetônicas Lógica Conversacional, aprendizajes arquitectónicos Lógica Conversacional, aprendizagens arquitetônicas. Lógica Conversacional, aprendizajes arquitectónicos. 138 transcrição que se produz por, e em cima de, nós mesmos, a mesma onde os leitores encontram um horizonte mais próximo de suas próprias compreensões, a sobrepor ao exposto. Outro filósofo, quanta falta fazem, Félix Duque, enumerou três formas de estar no contrário em 2009. Na primeira, está ligada ao que defendemos aqui. Na relação entre virtualidade, escritura e oralidade, estabeleceu que esta última permite uma abordagem carnal, corpóreo, exposto, palavra como tempo-significado. É algo que se escapa, como quando alguém sangra. E fechar essa ferida é escrever. Em nossa sociedade contemporânea de posses e tendências de vida efêmera, da instantaneidade, uma lógica conversacional aporta o equilíbrio das vozes que obrigatoriamente não tem predomínio entre si. Aonde o escutar é mais importante do que o falar, e onde os modos são tão esclarecedores quanto os conteúdos. Algo assim já havia no momento final do Ancien Regíme francês. Benedetta Craveri investigou sobre esse tema em “A Cultura da Conversação”. Ali a vida mundana foi elevada à categoria de arte inimitável, onde o homem tem uma percepção de si mesmo e da sociedade em que vive. Muito tempo se passou desde 1789. Se os modos e maneiras daqueles tempos não mais condizem com as nossas, o conversar necessariamente se mantém, como constatamos pelos resultados que aqui apresentamos, como um dos prazeres mais enriquecedores que ainda devemos cuidar. A proliferação desse formato nas revistas especializadas de arquitetura parece prometer um futuro vigoroso. As razões para convidar a esses arquitetos eram muitas. Seus escritos são habituais em nossas referências; o desejo de transformá-las em cartas de amizade ainda maior. Diversos projetos comuns com alguns deles abriram a porta para essa oportunidade. No caso de Steven Peterson, a pesquisa sobre espaço e negatividade de Marta López-Marcos levou-a a estudar com afinco seu texto seminal ‘Anti-Space’, de 1980, tantas vezes mencionado na historiografia arquitetônica. Após várias tentativas em que o diálogo não encontrava um terreno comum, por fim as palavras se acomodaram em uma atualização mais temporal do que programática de texto tão necessário. O resultado poderia estar em consonância com o eco extraordinário do texto original. Steven Peterson, que também é físico, nasceu em Indianápolis, EUA, em 1940. Estudou em Cornell e foi discípulo de Colin Rowe. Trabalhou para Skidmore, Owen & Merrill em Chicago de 1965 a 1968. Foi docente em Princeton e em Columbia, em Nova Iorque. Seu estúdio, Peterson Littenberg, foi um dos três finalistas, em 2003, para a Zona Zero de Manhattan com uma proposta que foi valorada pelo sistema de espaços verdes propostos para a área, composto por grandes jardins públicos e extenso bulevar arborizado ao sul de Battery Park. A entrevista com Grahame Shane é uma decantação que provém de uma via distinta: a amizade estabelecida (por centenas de e-mails ao longo de cinco anos) a esta carta de amizade. A generosidade do Professor Shane não tem matizes. A cada dúvida, a cada pregunta, uma resposta elaborada com a dedicação possível apenas para quem sabe o que significa ser universitário: essa espécie de escritório de correios que canaliza os desejos de estudantes em todo o mundo. Ainda que nascido em Covent Garden em 1945, Reino Unido, vive em Nova Iorque há mais de 40 anos com sua esposa, a artista Regina Wickham. Como Peterson, foi discípulo de Colin Rowe. É professor na Universidade de Columbia, mas também o foi na Cooper Union e muitas outras. Incansável viajante, desenhista excepcional y especialista em Urban Design , ministra cursos na Europa e na Ásia e seus livros são parte obrigatória de bibliografias sobre a cidade contemporânea. Por último, destacamos a mirada míope eurocêntrica com que ensinamos nas escolas de arquitetura, mirada essa que não mais atende as necessidades de formação profissional do arquiteto de hoje, mirada essa que alcança pouco mais de um palmo além dos nossos narizes. Mas bastam outros aromas para perceber que há outras arquiteturas, outras sensibilidades, outras interpretações aprofundadas, que inclusive empurram para fora da cena o já conhecido. E aí, o procedimento da conversação foi para nós o telegrama urgente, mais do que a carta, de atualização. Agora diríamos que são extensos whatsapps , dada a mão fértil do professor argentino Roberto Fernández e a difusão que alcançam. Nascido em 1946, trabalha em distintos países e universidades, ainda que sua filiação seja em Buenos Aires. Também viaja assiduamente, mas sempre com um desejo de um maior trânsito: de países a disciplinas, de temáticas de estudo a práticas universitárias. Seus livros tem uma afeição curiosa, seu desgaste físico, por quantidade de uso, V15N1 Lógica Conversacional, aprendizagens arquitetônicas. Lógica Conversacional, aprendizajes arquitectónicos. 139 transcrição é inversamente proporcional a sua vigência, que se mantém rejuvenescida como poucos. As três entrevistas, desenvolvidas durante um processo de aproximadamente um ano, ainda que cada uma delas tenha seu sentido próprio, cruzam questões de um a outro entrevistado, de forma que é importante que as três se mantenham juntas. Convidamos todos a conversar. --------------- Cuando Platón desarrolló su estructura de diálogo, dio curso a la petición de una diferente forma de llegada al conocimiento. Se reconoce desde entonces con ello que la condición del monólogo en la conciencia científica y sus formas derivadas de expresión, como el artículo científico o el libro monográfico, no cubren completamente el amplio campo de las comprensiones y los descubrimientos. Hay una parte de ellas que solo aparece en la forma de su intercambio oral. El filósofo H. G. Gadamer retoma este argumento para desarrollar su teorización sobre la hermenéutica en 1960, y añade que la filosofía en su conjunto y a lo largo de la historia son correcciones, enmiendas, variaciones, anotaciones sobre lo anterior, generando un diálogo que dura ya milenios. La actualización de ese sentido la da P. Sloterdijk en 1999 cuando, citando al poeta Jean Paul, añade al género de los intercambios dialogantes a los libros, que esperan respuesta interpretativa de sus lectores. Hay una suerte de amistad conmovedora en la forma de esos intercambios, por medio de la escritura: son cartas, más que libros. Para nosotros, poesías de comprensión y descubrimiento. Con el objetivo de conmover a partir de los diálogos mantenidos por los arquitectos Steven K. Peterson, D. Grahame Shane y Roberto Fernández con quienes firmamos esta sección de la revista Risco, Marta López-Marcos, Manoel Rodrigues Alves y Carlos Tapia, pretendemos encontrar esa condición platónica del sentido de lo oral y la de lo epistolario en Sloterdijk para aprender de quienes han desarrollado una rica trayectoria en el campo arquitectónico. Para nosotros, como arquitectos, se nos plantea la dificultad de saber si hoy somos herederos que matizan, niegan o perfeccionan a sus mayores. La vía estatutaria de la arquitectura no es homogénea y no se cultivan últimamente afinidades duraderas, profesionalmente hablando. Sin querer que ello sea una crítica por la que procurar un tiempo con unicidad de espíritu -esa nivelación no nos interesa en su ideología-, lo que sí percibimos es la posibilidad de articular una diversidad de pensamientos arquitectónicos que provean aperturas tanto por lo que dicen como por la manera en que emplean el lenguaje para decirlo. Y eso acontece en el formato de entrevista, porque el diálogo usa un lenguaje que mantiene su propia historicidad, logrando superar las fronteras de pueblos y tiempos, al dar a conocer sutilezas de sentido que un método clásicamente científico excluye por principio. Al hablar, además, las cuestiones planteadas se observan insertas en una realidad común, gestada en ese instante, puesto que somos interpelados a interpretar tanto las cosas como la realidad misma. Gadamer describe el goce de la conversación cuando reconocemos que ninguno de nosotros abarca una verdad completa en su pensamiento, pero que, al mismo tiempo, la verdad entera puede ahí envolvernos a unos y a otros desde las posiciones individuales. Lo interesante reside, al fin, en la prolija red de relaciones que surgen al hablar, que se producen por encima de nosotros mismos, y donde los lectores encuentran un horizonte más cercano de compresiones, las propias, a colocar sobre lo expuesto. Otro filósofo, cuánta falta hacen, Félix Duque, enumeró tres formas de estar a la contra en 2009. En la primera, se vincula con lo que aquí defendemos. En la relación entre virtualidad, escritura y oralidad, estableció que esta última permite un acercamiento carnal, corpóreo, expuesto, palabra como tiempo-significado. Es algo que se escapa como cuando uno se desangra. Y taponar esa herida es, escribir. En nuestra moderna sociedad de las poses y tendencias de efímera vida, una lógica conversacional aporta el equilibrio de las voces que obligadamente no tienen predominio entre sí. Donde la escucha es más importante que hablar y donde los modos son tan esclarecedores como los contenidos. Algo así ya había en el momento final del Ancien Regíme francés. Benedetta Craveri investigó sobre ello en “La cultura de la conversación”. Allí fue la vida mundana elevada a la categoría de arte inimitable, donde el hombre tiene una percepción de sí mismo y de la sociedad en la que vive. Mucho tiempo ha pasado desde 1789. V15N1 Lógica Conversacional, aprendizagens arquitetônicas. Lógica Conversacional, aprendizajes arquitectónicos. 140 transcrição Aquellas maneras no van con las nuestras, pero conversar se mantiene, así lo constatamos por los resultados que aquí presentamos, como uno de los placeres más enriquecedores que aún deberíamos cuidar. La proliferación de este formato en las revistas especializadas de arquitectura aparentemente augura un futuro vigoroso. Las razones para invitar a estos arquitectos eran muchas. Sus escritos eran habituales entre nuestras referencias; el deseo de convertirlos en cartas de amistad, aún mayores. Diversos proyectos comunes con algunos de ellos dieron la oportunidad. En el caso del profesor Peterson, la investigación sobre espacio y negatividad de Marta López-Marcos la llevó a estudiar con ahínco su seminal texto ‘Anti- Space’ de 1980, tantas veces mencionado en la historiografía arquitectónica. Tras varios intentos donde los diálogos no encontraban un suelo común, se fue acomodando el intercambio de los dones de la palabra hasta obtener una actualización más temporal que programática de tan necesario texto. El resultado podría estar en consonancia con el extraordinario eco del original. Steven Peterson nació en Indianápolis, EEUU, en 1940. Estudió en Cornell y fue discípulo de Colin Rowe. También es físico. Trabajó para Skidmore, Owen & Merrill en Chicago desde 1965 a 1968. Fue docente en Princeton y en Columbia, en Nueva York. Su estudio, Peterson Littenberg, fue uno de los 3 finalistas en 2003 para la Zona Zero de Manhattan con una propuesta que fue valorada por sus grandes jardines públicos y su paseo arbolado, que se extiende al sur a Battery Park y juntos querían ser uno de los mayores espacios verdes del centro. La entrevista a Grahame Shane es una decantación que proviene por vía contraria: de la amistad por carta (cientos de emails durante 5 años) a esta carta de amistad. La generosidad del profesor Shane no tiene matices. A cada duda surgida, una respuesta elaborada con la dedicación que sólo da quien sabe qué significa ser universitario: esa especie de oficina de correos que canaliza los deseos de estudiantes en todo el mundo. Aunque es nacido en Covent Garden en 1945, Reino Unido, vive en Nueva York desde hace más de 40 años con su esposa, la artista Regina Wickham. Como Peterson, fue discípulo de Colin Rowe. Es profesor en la Universidad de Columbia, pero también lo ha sido en Cooper Union y muchas otras. Viajero incansable, dibujante excepcional y experto en Urban Design, dicta cursos en Europa y Asia y sus libros son parte obligada de las bibliografías sobre ciudad contemporánea. Por último, durante años la mirada miope que es el eurocentrismo con que enseñamos en las escuelas de arquitectura no atendía más allá del primer palmo tras nuestras narices. Pero basten otros aromas para percibir que hay otras arquitecturas, otras sensibilidades, otras profundísimas interpretaciones, que incluso empujaban fuera da la escena lo ya conocido. Y ahí el procedimiento de la conversación para nuestra puesta al día fue entonces el telegrama urgente, más que la carta. Ahora diríamos que son whatsapps largos, dada la fértil mano del profesor argentino Roberto Fernández y la difusión que alcanzan. Nacido en 1946, trabaja en distintos países y universidades, aunque su afiliación es a la de Buenos Aires. También viaja asiduamente, aunque siempre muestra una querencia por transitar más: de países a disciplinas, de temáticas de estudio a prácticas universitarias. Sus libros tienen una curiosa afección, su desgaste físico, por cantidad de uso, es inversamente proporcional a su vigencia, que se mantiene rejuvenecida como pocos. Las tres entrevistas, hechas durante un proceso que ha durado aproximadamente un año, aunque cada una de ellas ha tenido tiempos propios, cruzan cuestiones de uno a otro entrevistado, con lo que es importante que las tres se mantengan juntas de a futuro. Invitamos a la charla a todos. V15N1