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A mediatização do cuotidiano

Cláudio Ribeiro, Luís

Abstract

Se por um lado, a crise de recursos nas redacções editoriais e o desejo do arquivo e edição - presente em todos os cidadãos que usam dispositivos de gravação, como um telemóvel ou máquina fotográfica - tornaram-se aliados (o material de não profissionais tornou-se importante para compor as peças jornalísticas, mesmo de uma câmara de videovigilância instalada no espaço público, aumentando a exposição ao erro na interpretação); por outro lado, este desejo bem humano de arquivo e de participação na informação do acontecimento afasta os seus utilizadores do acontecimento, constituindo-se o real não o lugar da existência e da experiência mas o espaço de propagação de acontecimentos que «devem» ser registados para memória futura.

Full text

A MEDIATIZAÇÃO DO CUOTIDIANO Luís Cláudio Ribei o Uni e sidade Lusó ona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa luis.claudio. ibei o@uluso ona.p Resumo Se po um lado, a c ise de ecu sos nas edacções edi o iais e o desejo do a qui o e edição - p esen e em odos os cidadãos que usam disposi i os de g a ação, como um elemó el ou máquina o og á ica - o na am-se aliados (o ma e ial de não p o issionais o nou-se impo an e pa a compo as peças jo nalís icas, mesmo de uma câma a de ideo igilância ins alada no espaço público, aumen ando a exposição ao e o na in e p e ação); po ou o lado, es e desejo bem humano de a qui o e de pa icipação na in o mação do acon ecimen o a as a os seus u ilizado es do acon ecimen o, cons i uindo-se o eal não o luga da exis ência e da expe iência mas o espaço de p opagação de acon ecimen os que «de em» se egis ados pa a memó ia u u a. Keywo ds:media, in o mação, desejo, acon ecimen o e eal. 1. ABERTURA A espan osa ealidade das coisas É a minha descobe a de odos os dias. Cada coisa é o que é, E é di ícil explica a alguém quan o isso me aleg a, E quan o isso me bas a. (Fe nando Pessoa – Albe o Caei o) 926 A g ande o ça da imagem nos jo nais, nas ele isões e ago a na in e ne semp e le an ou mui os p oblemas à he menêu ica e o que e a a ealidade ali colocada. Pe an e a ealidade da imagem e do «is o acon eceu», in e essa indaga que «is o» é es e no empo de uma comunicação global em que o agen e da in o mação já não é apenas o esponsá el pela cap u a da imagem e sua edição mas um pouco odos os cidadãos que êm um equipamen o que lhes pe mi e g a a ou esc e e e en ia . O «is o» da imagem sabemos que se ompeu numa ans-he menêu ica que po ezes coloca em causa a p óp ia ealidade em que se que consubs ancia . Passamos mui o apidamen e, em um século, de um medo da imagem à sua p oli e ação acompanhada po ex o ou não. Mas o ex o ambém ele, oi pe dendo a sua unção escla ecedo a e a as ou-se da nomeação e iden i icação de uma ealidade o og a ada. Uma o og a ia expos a na in e ne ou num jo nal digi al, como acon eceu du an e o mês de Agos o com a di ulgação de mo os, na maio ia c ianças, po a aque de, p esume-se, gás Sa in, desen ol e em comen á ios mais in e p e ações que o ex o do jo nalis a que a p ecedia ou enquad a a. Mui os desses comen á ios que acompanhamos no jo nalismo digi al são de alguém que já não que em e , se a as a am da cons ução da no ícia e da o og a ia que ep oduz o massac e pa a se coloca em no papel de azedo es de opinião, cons uindo ali as suas possí eis ideias. O is o que acon eceu, e que sabemos que sim po que a imagem nos pa ece iel a uma ealidade, é sob epos o pela ideologia e po lei u as que p omo em no as in e p e ações de um acon ecimen o que endo oco ido nós não p esenciamos. Desejo eco e aqui a um pequeno li o de Joan Fon cube a278 que se em deb uçado sob e o excesso da imagem no jo nalismo, o seu sen ido e, sob e udo, sob e uma enomenologia da imagem. Nesse li o mui o in e essan e Fon cube a conside a que as polí icas da isão de e iam aze ês pe gun as: O que se pode mos a ? O que é legí imo da a e ? E como calcula os e ei os e as consequências? Deixo es a úl ima ques ão pa a a psicologia e ica ei nas p imei as duas com uma al e ação que conside o impo an e pa a o jo nalismo con empo âneo: O que se pode mos a e esc e e ? O que é legí imo da a e , ou i e esc e e ? 2. O QUE SE PODE MOSTRAR E ESCREVER? Em elação à p imei a ques ão a espos a pa ecia simples há uns anos: podemos mos a e esc e e sob e udo o que acon ece na es e a pública. E a uma boa espos a mas apidamen e, como mos am eó icos dessa á ea como Habe mas, a es e a pública 278Fon cube a, Joan. (2011). Indi e encias o og á icas y é ica de la imagem pe iodís ica. Ba celona: Edi o ial Gus a o Gili, SL. 927 oi sendo miscigenada pela es e a p i ada, cons i uindo-se espaços em que não se econhecem os limi es do espaço público, p i ado, comum ou ín imo. Se o p óp io expõe a sua ida p i ada e ín ima na blogos e a ou em edes sociais, ad e e-nos po um lado que não sabe o que é o limi e da in o mação e, po ou o lado, cons i ui-se como na ado da sua p óp ia his ó ia que deseja uni e sal. Podemos i con a es a a en u a? Não, mas ambém não podemos conside a esse ex o ou imagem, in o mação ele an e pa a a cons ução do acon ecimen o e do eal. Mas os jo nalis as não eco em mui as ezes a es es abalhos? Reco em e po ezes sem a de ida dis ância e a amen o o que possibili a con li os que se iam acilmen e ul apassados se econhecêssemos os limi es e a unção do que se dis ibui pelas edes sociais e pela blogos e a, is o é, pelo espaço digi al media izado. Não es á aqui em causa um p oblema de censu a que pode ia se medicamen o pa a o excesso de supos a in o mação sob e acon ecimen o, mas o ele a da noção de acon ecimen o e de ealidade de que enquan o homens na his ó ia que emos aze . No en an o, que emos aze pa e a pa i e den o de um espaço discu si o que seja e osímil e g a i ique o es a i o. Cla o que sabemos de imagens que o am pos e io men e enquad adas e que muda am uma sociedade ou uma comunidade: lemb o os i os no cemi é io de S a C uz, em Timo Les e, algumas imagens das á ias e oluções no No e de Á ica, da Tunísia à Líbia, e mesmo ago a (Agos o-2013) na Sí ia, o pode coloca-se em ma cha pa a uma explicação dessas imagens que undem ealidades polí icas con o e sas. No en an o, ambém sabemos que a quan idade de in o mação que ci cula pelos mass media e pelo digi al sob e essa imagem ou um ex o em an o igo como o le an amen o ei o em campo po in es igado es c edenciados. A e dade aos nossos olhos pa ece se semp e a da imagem ou ex o que chega p imei o. P oduzindo depois um e ei o i al que é di ícil desloca pa a o a dessa e dade p imei a. O que nos ica nos olhos, imagem ou ex o, é semp e uma p imei a ez que unda um discu so do qual, se não desejamos in es iga , di icilmen e dele saímos. E se uma imagem oi manipulada, e se um de e minado ex o se unda num e o? Não in e essa. Mas de e ia in e essa , como semp e acon eceu no g ande jo nalismo. Mui as agências de comunicação i em da o mação da p imei a e dade, já que sabem que quando ins alada di icilmen e pode á se emo ida. O mesmo se passa desde semp e com os e os come idos pelo jo nalismo. O jo nal e ou mas o que ica em nós é o e o não a co eção ei a no dia seguin e. Sob e udo a esc i a, pela sua his ó ia e qualidades, anspo a um g au de e dade que se assemelha a um axioma in iolá el. E como axioma não em mais do que uma lei u a e uma in e p e ação. O p oblema mode no da esc i a que se disseminou de uma o ma p o unda po odos os meios, u ilizando o p óp io como co pus de con aminação, a ingiu no con empo âneo azões pa a alguma desc ença. A in oxicação não p o ém da quan idade de in o mação 928 pos a a ci cula sob e o mesmo acon ecimen o, mas da qualidade e ní eis de sen ido pos os a ci cula . Se há dois séculos os mui os que assis iam ao acon ecimen o o na am-se po isso po ado es de um g au de e dade que e a acilmen e co ompido po ou as ozes sem c édi o po não ha e esc i a pa a essas ozes, o acesso con empo âneo a um g ande conjun o de disposi i os, no malmen e em ede, colocam em cada oz um c édi o de e dade que o na dissipa i o o acon ecimen o e, pio , o na obsole a a noção de impa cialidade que odo aquele que in o ma p e ende busca . A quan idade de comen á ios e no ícias, e comen á ios dessa no ícia, in alida o p óp io acon ecimen o como es u u a de sen ido e, mais, in alida a possibilidade de uma ep esen ação do eal. Es e p oblema não é no o, mas sabemos hoje que nunca oi ão sé io, no sen ido em que a p oli e ação de « ealidades» pa ece apon a pa a acon ecimen os dis in os e nunca pa a o mesmo. O que oi humano há mui o p ecisou de um in e mediá io, um médium, pa a essa ep esen ação do eal. P imei o a linguagem o al, depois eio a esc i a (e es a in oduziu um ní el a ançado de uído na cons ução semân ica na mesma e nou as línguas ecep o as po adução dessa in o mação), depois eio odo o apa a o de meios que se coloca am en e aquilo que é humano e a na u eza (physis pa a os g egos). Cada ez que aumen ou a dis ância en e a pa e na u al e a pa e humana, es a sepa ação de eu-se à in odução de mais mediado es. O que no pon o de is a on ológico acon eceu esume a uma ase: pa a ala mos do que é na u al o humano em que ob iga o iamen e passa po um mediado . Es e a as amen o é cada ez maio e az um p oblema há mui o analisado: há um es iamen o da concepção da noção de na u eza e, em mui os casos na e a digi al, o descob imen o que já nada sabemos do que ica o a do humano e mesmo a noção de homem se es á a esba e na cons ução de uma linguagem in e média em que o humano se con e e em mediado do disposi i o e não o con á io. Aqui, depois da pe da pa cial da noção de na u eza es amos a pe de a noção de humano, a pala a que inha sido o cen o de odo o sabe ociden al e não só, já que o mundo e a apenas uma ex ensão do desejo de conhece e espan o humano (como o diziam os p é-soc á icos e não só). En ão podemos dize que a in oxicação in o ma i a (in oxicácion, na designação des a con e ência in e nacional) não ad ém da quan idade mas da indi e ença que epousa sob e essa quan idade e sob e a qualidade do que é esc i o ou o og a ado. Es a indi e ença, pa adoxalmen e, epousa sob e a indis inção do que de e se con eúdo pa a di ulgação já que os mesmos con eúdos pos os a ci cula p o êm de um sujei o ime so nas suas p óp ias concepções do acon ecimen o. Es a ime são des ia o sen ido da mensagem e quando chega ao ecep o o que se p oduzem são no os ní eis de 929 eacção ao ex o ou à o og a ia e não ao núcleo da no ícia. O que John Sule de ine (em The Psychology o Cybe space279) como desinibição óxica, em oposição a desinibição benigna, pe ence não à comunicação mas ao compo amen o indi idual do sujei o que odos econhecemos quando lemos um jo nal digi al. Mesmo que possamos acei a o «ci izen jou nalism» sabemos que à chegada ica á incluído na g ande ede de esc i a e o no do mesmo acon ecimen o, ge ando a dispe são de sen ido desse mesmo acon ecimen o. Cla o que o ní el panop ico dos ac uais media digi ais, associados em ede e com disponibilidade de a qui o e po á eis, apenas se ez sen i nos úl imos anos. No su gimen o dos p imei os objec os écnicos de ep odução (som e imagem, sob e udo) es a a a p e ensão de um a qui o do mundo. O undado da Kodak, Geo ge Eas man, apela a na década de 80 do século XIX pa a a cap u a de imagens po pa e dos o óg a os amado es, e insis ia na ecolha de aspec os da ida pública, incluindo aciden es odo iá ios (es e apelo oi depois usado na a e po a is as do século XX, na Pop A po exemplo). A ede e os disposi i os mó eis ie am acele a a pa ilha e o panóp ico. A desinibição pe an e o uso de equipamen os ep odu o es oi logo analisada pelos media. Em 1884, o NYT usou a designação de «The Came a Epidemic» (A Câma a Epidémica) pe an e a quan idade de imagens ecolhidas po u en es de cama as o og á icas, que incidiam mais sob e a ida p i ada e o co po do que compo amen os e hábi os públicos: «ca ic u is s o en in e p e ed he in usions by amadeu pho og aphe s as sexually mo i a ed, bu he came a seemed o ha e a de- humanizing e ec on bo h sexes.»280 A écnica, mesmo a de qualque cama a, de ilma ou o og á ica, não é indi e en e à cap ação. Po o a, a ecnologia não p oduz uma é ica isolada do humano, po essa azão não pode ha e uma indi e ença écnica. O que a ecnologia em uso pelo humano que que comunica p oduz é, como imos, uma e na indi e ença pelo mundo como se já não o habi ássemos mas i êssemos sob e o p o ocolo écnico que são uma ex ensão dominado a dos nossos eixos mo ais e é icos. E a passagem da ep esen ação po ou os ep odu o es al e am subs ancialmen e o que no início pode ia es a isen o de po enciais exp essões de uma on ade. Tal como não podemos al e a o disposi i o naquilo que é o seu « aze », ambém não podemos deseja uma obse ação assép ica da imagem ou da esc i a. Tal como a cul u a e o indi íduo, ambém as imagens são cons uções. Chegados a es e pon o in e essa, pa a esponde mos à p imei a pe gun a, que e a «o que se pode mos a ou esc e e ?», ques iona a unção dos meios de 279 h p:// uecen e publishing.com/psycybe /psycybe .h ml, acedido em 2 de Se emb o de 2013. 280 Huh amo, E.: Pocke s o Plen y. Em Riese M. (ed ). (2011): The Mobile Audience. Ams e dam and New Yo k: Rodopi. 930 comunicação no século p esen e. Chamamos meios de comunicação não apenas àqueles que se ap esen am sob e supo es adicionais, mas odo o disposi i o que eúne con eúdos e os dispe sa em di e en es supo es e pla a o mas po ecep o es ligados. A comunicação é semp e um p ocesso que sob e de e minado código p e ende c ia um sen ido compa ilhado. Como imos o p ocesso man ém-se em odos os disposi i os con empo âneos. Há pa a além do desejo de ins au a uma comunidade, o desejo de dispe sa nessa comunidade um en endimen o do acon ecimen o. Pa a al acon ece não é necessá io nenhuma suspensão do juízo ou da azão. No en an o, nos no os disposi i os digi ais e nos media sociais, que uncionam sob e de e minado p ocesso e p o ocolo, o que abunda já não é a en a i a de euni uma comunidade pa a o en endimen o do enómeno, depois de in o mada pelos media, mas o ques ionamen o sis emá ico do objec o comunicacional (quando se ques iona a na u eza do emisso e do acon ecimen o), bem como a p óp ia no ícia (quando se ques iona a é ica, a mo al e a es é ica da mesma, que o mesmo é dize do emisso ). Há, po an o, ní eis de descons ução da comunicação que não e am inham exp essão há alguns anos. O que se pe deu não oi a espessu a da in o mação, ela con inua lá, endo a exp essão das ma gens ganho a o ça de um cen o que an igamen e pe encia ao signi icado. As ma gens de que alamos são as que possibili am a abe u a do que es á esc i o ou ep esen ado (como numa imagem) pa a ou os pon os o a daquele ac o comunicacional. Se olha mos com a enção pa a os comen á ios nos jo nais digi ais ou nos media sociais, o que in e essa à maio ia dos comen ado es é o des io e não o núcleo a pa i do qual se cons i ui a comunidade e o en endimen o dela p óp ia. O odo o nou-se agmen o de si, e cada um de nós apoia-se num agmen o não pa a elucida o mundo mas pa a aze pa e de um espaço que es á en e o mundo e aquilo que é humano. Aos poucos deslocamo-nos desse cen o o gânico da comunidade humana pa a o espaço dos mediado es, e o que aí in e essa não é o que passou a se ma gem, mas as nossas ideias e pe cepções sob e o papel dos mediado es e dos seus con eúdos. Também a espessu a daquilo que e a o humano se o nou mais delgada, o nando-se ago a espesso a cons ução cada ez maio de ní eis de sen ido pa a o que é mos ado ou esc i o. Não é po acaso que os jo nais que êm mui os lei o es na Web p omo em ankings de no ícias ou a igos mais comen ados. Somos quase semp e inocen es pe an e as no as modalidades de os disposi i os cap a em olhos e lei o es; de ica mos en edados sob e eg as que não aziam pa e da nossa o ma de pensa os enómenos e a sua exp essão: o acon ecimen o ou o enómeno deixou de se subs ância da in o mação pa a passa a se aciden e a pa i do qual se quali icam os nossos pon os de is a ( omo em sen ido dis in o as elhas noções de aciden e e 931 subs ância a is o élicas. Na e dade, sem a espessu a da subs ância udo pa ece e - se o nado aciden e). A esc i a oi semp e um depósi o da memó ia indi idual e colec i a. As ou as ecnologias de comunicação apidamen e se ans o ma am ambém num depósi o do eal, um a qui o que é cada ez mais po á il, nanizado e cada ez mais indi idual. A ideia do colec i o pouca impo ância em nos nossos a qui os e na o ça exp essi a que se colocam nos comen á ios ou con eúdos que se en iam pa a publicação nos meios digi ais. O que se mos a é a exp essão de um a ec o indi idual que como al es á sujei o à cons ução do mesmo e não do ou o, esse pa a onde apon a odo o sabe e comunicação. A ilusão e e encial de que ala a Roland Ba hes podemos en endê-la nos nossos a qui os, milhões e milhões de o og a ias, ídeos, cinema, li os e ex os digi alizados. Com es es milhões de documen os não podemos aze mui o, mas sen imos que gua damos do passado algo que possa se exp essi o, como memó ia, no u u o. Nes e sen ido, os nossos álbuns ou a qui os uncionam mais como acla amen o das nossas memó ias ou eco dações, iluso iamen e, já que a amen e a eles ol amos ou se ol amos apagou-se o espaço e o empo p ecisos da sua cap u a. Cap u a o nosso passado pelas imagens e documen os o nou-se po isso um es o ço ingló io. Vi emos, mais do que nunca, sob e um p esen e agmen ado que apenas olha o passado e o de i a pa i de pa ículas mui o ci cunsc i as. O que Pla ão coloca a como ne as o pa a a esc i a (na sua ob a Fed o), a pe da p og essi a da memó ia, é qualidade ago a dos meios que u ilizamos pa a cap u a o nosso quo idiano. A du ée de Hen i Be gson, ão impo an e pa a se en ende os acon ecimen os a ec i os do passado, a pa i de agmen os do p esen e, podendo assim cons i ui eg essos, é cons i u i a ainda do nosso empo e dos nossos objec os, mas o na-se cada ez mais imp ecisa, já que a écnica « ouba» essas ligações pa a as deposi a no con eúdo. Quando em nós se pe de essa a inidade, deixa de se possí el econs ui o açado a é esse pon o cen al do passado a pa i do qual essa imagem ou documen o ganha sen ido e espessu a. Sabemos que não amos deixa de que e se media. A p oli e ação de objec os écnicos e o desejo de comunica não cessa naquilo que é humano. Assim sendo, e ol ando à pe gun a inicial, o que de em os jo nais, ele isões e demais media publica ? Sabendo que não é possí el uma isão assép ica do acon ecimen o, c emos que o sabe aze de alguns, a sua ap endizagem e expe iência, pode se , como o oi du an e séculos, a única ia pa a uma comunicação asse i a do acon ecimen o. Po es a azão, a publicação abe a de odos os comen á ios, ídeos, documen á ios em canais de comunicação não se e o in e esse da in o mação nem os seus objec i os. O ecep o não en ende melho o enómeno a pa i de um conjun o 932 as o de exposições a esse mesmo enómeno, às ezes em segundo e e cei o g au (quando não exis e nenhuma elação en e o que se esc e e e o acon ecimen o). Po es as azões de em publica -se con eúdos que se enquad em num li o de es ilo e que possibili em um quad o ge al do dado, do acon ecimen o. A edição de odos os con eúdos, mesmo comen á ios, de e se edi ado e não publicados aqueles que nada con ibuem pa a o escla ecimen o dos lei o es ou espec ado es, ou são «assassinos» das noções de comunicação e de in o mação. O comp omisso não de e se ei o com a quan idade mas com a qualidade. Sabemos, no en an o, que as edacções de hoje se es aziam odos os dias e que o jo nalis a pode aze múl iplas a e as diá ias. Es a a i ude das emp esas de comunicação e in o mação le a a um es aziamen o do igo que de e se o p incípio da edição. Isso não signi ica que se de em a as a os con ibu os do cidadão ans o mado em comunicado ou «jo nalis a». Es es con ibu os de em, no en an o, obedece aos p incípios ge ais que o ien am uma publicação e que são po odos os jo nalis as conhecidos. De e po isso mos a -se e esc e e -se udo que dê sob e o «objec o» uma o alidade, sob a in luência do p óp io acon ecimen o e da sua impo ância pa a a comunidade, e nunca sob e o domínio da a ecção indi idual do objec o ou da opinião. Também as imagens de em se enquad adas não segundo uma na a i a li e á ia, já que isso desen ol e he menêu icas que podem po em causa a p óp ia no ícia ou in o mação, mas que desen ol a uma ligação in o macional en e a esc i a e a imagem. O aciden e e o iá io de Compos ela eio p o a que odos somos juízes e nes e o ício podemos in o ma , mesmo que e adamen e. Em elação ao maquinis a, como já inha acon ecido nou as no ícias, a sua biog a ia, as suas elações nas edes sociais o na am-se elemen os de acusação. Es amos num empo em que o que azemos pode se elemen o de acusação de uma acção no u u o, mesmo que nada do que iz ou esc e i enha elação com a acção em julgamen o. Ce o ou e ado, es e julgamen o das edes sociais não de e aze pa e da in o mação. 3. O QUE É LEGÍTIMO DAR A VER, A OUVIR E A ESCREVER? Es a pe gun a não em apenas uma espos a. A pala a «legí imo» em aqui um con o no semân ico que é necessá io analisa . Legí imo é, em língua po uguesa e nou as línguas, o que es á con o me a lei e as suas qualidades não se opõem à lei. A pala a lei na G écia an iga e a nómos (ȃyȝȠȢ). E nómos é o subs an i o do e bo 933 némein que signi ica a «dis ibui »281, mas ambém o que de e se lido em público e no in e esse da comunidade. Assim, unindo as pala as nómos elex, o que implica uma passagem de uma comunidade o al, em que udo e a público e não ha ia esc i a com as ca ac e ís icas ac uais do p i ado, a uma p oli e ação esc i a do pode a a és da p óp ia lei, ainda do domínio público (são poucos os exemplos do apa ecimen o da oz in e io e de uma lei u a em silêncio), a lei é o que se dis ibui na comunidade e é público e se aplica no mesmo sen ido a odos os que aí habi am. Po isso, legí imo é o que a es e a de acções dos habi an es que em como p incípio o que a lei dis ibui como egulado dessa mesma comunidade. Seman icamen e conse a-se na pala a esc i a pa e dessa adição e algumas das qualidades. Podemos ala de uma esc i a que não sendo lei, não em essa p e ensão, in o ma pela sua dis ibuição sob e a ealidade e a sua o ganização; incula-se a es a esc i a (e mais a de às imagens que ep esen am po ções do eal) o e osímil e a e dade e a noção de sujei o em emancipação. Na e dade, o sujei o em-se emancipando desde o p incípio da mode nidade, c iando hábi os que se undam nas noções de libe dade e de exp essão, bem como em es u u ações no as de pe cepção do eal. Assim, é possí el que na soma de sen idos que eligam o sujei o ao mundo se encon e espaço pa a a acção comunicacional indi idual que pa e, quase semp e, no que no sujei o que é in ínseco, es u u an e. Há, no en an o, uma alha que epousa na noção indi idual de pa ilha e de sen ido pa a o acon ecimen o. A objec i idade –essa semp e an iga qualidade da in o mação e da comunicação – mos a-se con empo aneamen e «in lamada» pelo sujei o, não pelo seu «cogi o» mas pelo seu pulsa . E es e pulsa in alida, na maio ia das ezes, o essencial das p op iedades do objec o em comunicação, que de e ia se elacional, empo al e espacial. A noção de campo de Pie e Bou dieu, onde a lo a a sepa ação en e as es e as pública e p i ada que sabemos es a em hoje in e ligadas pelos meios de comunicação à dis ância e no empo eal é, sob e udo, «uma es enog a ia concep ual de um modo de cons ução de um objec o que ai comanda – ou o ien a – odas as opções p á icas da pesquisa». E ac escen a: «o objec o em ques ão não es á isolado de um conjun o de elações de que e i a o essencial das suas p op iedades»282. Embo a o campo em delimi ação e iden i icação em Bou dieu seja o da sociologia é ambém nas suas 281 C . S enb o, J. (1993): Ph asikleia – An An h opology o Reading in Ancien G eece.New Yo k (Í haca): Co nell Uni e si y P ess. A pala a némein pa ece e su gido no século VII A.C. e se ia pa a a dis ibuição de e as pelos colonos e mas signi ica ambém o que de ia se lido, em público, ou ap o a se lido. Pa a além des e sen ido que lhe é ansmi ido pelo e bo, nómos é ambém o pode p a icado o almen e. Vi ia-se ainda numa comunidade o al. A passagem da lei o al à lei esc i a dá-se, sob e udo, com a pala a la ina lex que e a a lei esc i a dos omanos. 282 Bou dieu, P. (1989): O Pode Simbólico. Lisboa e Rio de Janei o: Be and e Di el. Pg. 27. 934