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Da usina ao assentamento: as lutas dos boias frias no século XX entre invisibilidades e releituras

Ferrante, Vera Lucia Silveira Botta; Duval, Henrique Carmona; Aly Junior, Osvaldo

Abstract

O artigo apresenta as lutas dos trabalhadores rurais boias frias no Brasil, valorizando sua riqueza e protagonismo em momentos históricos em que elas eram invisibilizadas tanto pela ditadura como por visões pré-concebidas de quem seriam os sujeitos das lutas por reforma agrária. O universo empírico da pesquisa é a região de Ribeirão Preto e Araraquara, no estado de São Paulo, representativa das contradições entre uma agricultura produtivista e a proletarização de um amplo contingente de trabalhadores. A partir deste contexto, propõe-se uma metodologia centrada nas especificidades das lutas, não deduzidas das condições objetivas, mas marcada pelas experiências vividas pelos trabalhadores e pela identificação de seus interesses.

Full text

A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.20 Da usina ao assen amen o: as lu as dos boias ias no século XX en e in isibilidades e elei u as F om he Mills o he se lemen s: he s uggles o he suga cane cu e s in he 20 h cen u y among in isibili ies and ein e p e a ions Ve a Lucia Sil ei a Bo a Fe an e1 ORCID: h ps://o cid.o g/0000-0002-0679-3852 Hen ique Ca mona Du al2 ORCID: h ps://o cid.o g/0000-0002-5791-7579 Os aldo Aly Junio 3 ORCID: h ps://o cid.o g/000-0001-9509-5791 Uni e sidade de A a aqua a (B asil) 1 ([email p o ec ed]). Licenciada em Ciências Sociais pela UNESP, dou o a e li e docen e pela UNESP! p o esso a i ula aposen ada da UNESP! A ualmen e coo denado a do p og ama de pós-g aduação em Desen ol imen o Te i o ial e Meio Ambien e, da UNIARA, coo denado a do Núcleo de Pesquisa e Documen ação Ru al (NUPEDOR), P ó Rei o a em Pós-G aduação S ic u Sensu da UNIARA, Uni e sidade de A a aqua a. Bolsis a P odu i idade IA do CNPq. Memb o do co po edi o ial da e is a Re a os dos Assen amen os! ganhado a do p êmio Visconde de Cai u de 1978, Ins i u o Robe o Simonsen pelo li o FGTS: ideologia e ep essão. 2 (hen iqueca mona@u sca .b ). P o esso Adjun o do Cen o de Ciências da Na u eza, Uni e sidade Fede al de São Ca los, campus Lagoa do Sino. G aduado em Ciências Sociais (Licencia u a e Bacha elado) pela Unesp/A a aqua a, Mes e em Ag oecologia e Desen ol imen o Ru al pela Uni e sidade Fede al de São Ca los, Dou o em Ciências Sociais pela Uni e sidade Es adual de Campinas. Pós-Dou o ado pelo PPG Desen ol imen o Te i o ial e Meio Ambien e (Unia a). É p o esso no PPG em Desen ol imen o Te i o ial e Meio Ambien e (Unia a) e no PPG em Ag oecologia e Desen ol imen o Ru al (UFSCa ). Pesquisado do Núcleo de Pesquisa e Documen ação Ru al (Nupedo ) e edi o da e is a Re a os de Assen amen os. A ualmen e é ice- di e o do Cen o de Ciências da Na u eza (CCN-UFSCa ). 3 ([email p o ec ed]) Ag ônomo o mado pela Escola Supe io de Ag icul u a Luiz de Quei oz, Mes e pelo P og ama de Ciência Ambien al da USP e Dou o pelo Ins i u o de Geociências da USP. P o esso colabo ado no P og ama de Pós-g aduação em Desen ol imen o Te i o ial e Meio Ambien e da UNIARA, A a aqua a, SP. Foi ges o público nas P e ei u as de San os e San o And é na á ea do abas ecimen o e da segu ança alimen a , e jun o à Supe in endência do Ins i u o Nacional de Colonização e Re o ma Ag á ia (INCRA) do es ado de São Paulo. Compõe o cole i o da Di e o ia da Associação B asilei a de Re o ma Ag á ia (ABRA), o G upo de T abalho Es udos C í icos sob e o Desen ol imen o Ru al do Conselho La ino-ame icano de Ciências Sociais (CLACSO), e é pesquisado do Núcleo de Pesquisa e Documen ação Ru al (NUPEDOR). 456 Ve a Lucia Sil ei a Bo a Fe an e, Hen ique Ca mona Du al y Os aldo Aly Junio A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.20 Recibido: 30-04-2022 Acep ado: 25-05-2022 Resumo O a igo ap esen a as lu as dos abalhado es u ais boias ias no B asil, alo izando sua iqueza e p o agonismo em momen os his ó icos em que elas e am in isibilizadas an o pela di adu a como po isões p é-concebidas de quem se iam os sujei os das lu as po e o ma ag á ia. O uni e so empí ico da pesquisa é a egião de Ribei ão P e o e A a aqua a, no es ado de São Paulo, ep esen a i a das con adições en e uma ag icul u a p odu i is a e a p ole a ização de um amplo con ingen e de abalhado es. A pa i des e con ex o, p opõe-se uma me odologia cen ada nas especi icidades das lu as, não deduzidas das condições obje i as, mas ma cada pelas expe iências i idas pelos abalhado es e pela iden i icação de seus in e esses. Pala as-cha e: mode nização da ag icul u a, boias ias, lu a pela e a, expe iência. Abs ac The a icle p esen s he s uggles o u al wo ke s in B azil, aluing he weal h o hese s uggles in momen s when hey we e made in isible bo h by he dic a o ship and by p econcei ed isions o who would be he subjec s o he s uggles o ag a ian e o m. The esea ch uni e se is he egion o Ribei ão P e o and A a aqua a, in he s a e o São Paulo, ha exp esses he con adic ions be ween a highly mode nized ag icul u e and he p ole a ianiza ion o a la ge con ingen o wo ke s. F om his con ex , he cons uc ion o a me hodology cen e ed on he wo ke s' expe iences is p io i ized, calling a en ion o he speci ici ies o he s uggles, wi hou deduced he objec i e condi ions, bu including he imagina ion o i s agen s, by he li ed expe iences and by he iden i ica ion o hei in e es s. Keywo ds: mode niza ion o ag icul u e, boias ias, land clain, expe ience. In odução Es e a igo ap esen a uma sín ese de um momen o da his ó ia do B asil, mais especi icamen e da egião de Ribei ão P e o e A a aqua a, que mos a a iqueza das lu as dos boias ias in isibilizadas an o pela di adu a como 457 Da usina ao assen amen o: as lu as dos boias ias no século XX en e in isibilidades e elei u as A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.20 po isões p é-concebidas de quem se iam os sujei os das lu as po e o ma ag á ia. Isso esul ou dos p oblemas do p ocesso da esc a idão e seu im, da passagem ao abalho li e assala iado que excluiu g andes massas do campo, sem econhece -lhes di ei os, mui as ezes po uma in e p e ação equi ocada da ealidade. A egião de Ribei ão P e o ap esen a his o icamen e uma ag icul u a al amen e capi alizada, com ele ados índices de p odu i idade e p ole a ização u al. Rep esen ada como um polo de a ação mig a ó ia, a egião ep oduz a o es de expulsão e a ação, implicando em um con adi ó io mo imen o populacional. A expansão da cana-de-açúca aca e a uma maio demanda de mão-de-ob a, o que explica a inda de mig an es empo á ios pa a a egião. En e an o, a subs i uição o çada da p odução de alimen os das pequenas p op iedades implicou em exp op iação, emig ação ou mo imen o de p ole a ização, p ocesso esse não linea , nem de esul ados únicos, mas que edundou em pe das, que as mesmas enham ou não signi icado um ompimen o de ini i o da elação i ida na e a. Mo imen o es e que se ep oduz de o ma ampliada no e i ó io nacional e que implica na pe da de compe i i idade e das condições de ida da ag icul u a amilia na e a, o çando a mig ação pa a as cidades e p o ocando concen ação da e a. Po ou o lado, a a ação de mão- de-ob a empo á ia nas colhei as e a é seu es abelecimen o de ini i o no es ado de SP p oduz e ei o semelhan e nos locais de o igem desses abalhado es. Em nosso en ende , as di e enciações e con adições são peças cons i u i as indissociá eis da p opos a de analisa a cons ução de lu a dos boias ias nes a egião de g andes cana iais e la anjais. O e a o usualmen e ap esen ado da egião essal a sua inse ção c escen e no me cado mundial de p odu os e no p ocesso de mode nização ag ícola, discu ido na p odução eó ica, com a as exceções, po suas de e minações es u u ais. Tais lu as, em g ande pa e, in isibilizadas, exigem uma in e p e ação desp o ida de p econcei os e de um de e se que não se mos a adequado às elei u as p opos as nes e dossiê de 200 anos de independência. A iden idade econômica da egião de Ribei ão P e o, ma cada o emen e pela p esença dos cana iais e la anjais, cons i uiu-se, em algumas análises, o nó gó dio pa a a explicação da mudança da na u eza das lu as dos boias ias. Dessa pe spec i a, o ci cui o de mode nização acele ada da ag icul u a paulis a, a concen ação do capi al e da o ça de abalho olan e, são apon ados como elemen os que e iam c iado condições pa a a “au o-iden i icação desses abalhado es enquan o ca ego ia, p é-condição pa a sua mobilização polí ica” (D’Incao, 1985). A mudança no pe il da ca ego ia de boias ias pela ap op iação de um sabe ma cado pelo exe cício con inuado de uma a i idade no conjun o da p odução u al é discu ida no bojo do p ocesso de mode nização do polo mais 458 Ve a Lucia Sil ei a Bo a Fe an e, Hen ique Ca mona Du al y Os aldo Aly Junio A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.20 capi alizado do Es ado (Al es, 1991). E iden emen e, as mudanças oco idas na base p odu i a êm que se le adas em con a. Não são p odu o de um acaso his ó ico. Sob a iden idade econômica p esen e, há ma cas nada idílicas de um p ocesso exp op iado . O obje i o des e a igo é e a a a g ande ag icul u a paulis a, sob um ou o olha , ol ado à comp eensão da cons ução das lu as dos abalhado es, especialmen e a dos boia ias, p eocupado em des enda , no in e io das ci as, exp essões his ó icas de con on os e an agonismos. F agmen os das Lu as: O Passado/P esen e Nossa p eocupação oi euni elemen os exp essi os pa a sus en a a conc e icidade de um ou o olha sob e a egião. As esis ências dos colonos, as g e es dos sujei os que o am p ole a izados, no início da década de 60, a econs ução a a és da memó ia de seus p o agonis as, de ei indicações, lu as polí icas o nam esse ou o olha necessá io pa a a comp eensão das dissonâncias que oco em no “desen ol imen o ag ícola”. A egião não ap esen a linea men e p oje os e p og amas de alo ização do capi al. Tensões, mu ações, an agonismos, con li os de in e esses são cons i u i os desse campo social, ainda que mui as ezes ais elemen os componham um lado pouco isí el da esis ência. As pe das sociais acumuladas ao longo desse p ocesso penalizam signi ica i amen e os boias ias. Analisá-las, implica em comp eende o p esen e/passado da ida desses sujei os, a exclusão/exp op iação de de e minados segmen os sociais e as mani es ações di e enciadas de ações de esis ência con es ado as dos umos assumidos his o icamen e pelo p ocesso de mudanças di adas pela lógica do capi al. Os con o nos desse con on o di e enciam-se em di e en es conjun u as. Sem des echos p og amados, o cená io do epicen o das lu as na década de 1980 emon a a a os dos anos 50 e 60, mui o pouco conhecidos. A mode nização ag ícola não oi, nem é, isen a de lu as. Munições, aíscas e a i os podem e p o ocado cica izes e e idas nos sujei os exp op iados. Há lu as, mobilizações en ol endo di e a ou indi e amen e a e a, ainda que as mesmas sejam en ol as em uma capa de silêncio p oduzido ou ep esen adas pela ó ica do insucesso dos abalhado es. Sob ma izes dis in os, a his ó ia da mode nização põe e epõe p á icas de iolência (Fe an e, Bas os, Chaia, 1987). Desse p ocesso, não es ão ausen es os boias ias, ainda que a e a não apa eça imedia amen e em suas lu as. A econs ução de suas idas, os depoimen os colhidos, indicam um longo p ocesso mig a ó io. Acompanha 459 Da usina ao assen amen o: as lu as dos boias ias no século XX en e in isibilidades e elei u as A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.20 suas andanças e caminhadas exige que olhemos a mode nização do campo paulis a sob um p isma pouco usual, da ó ica dos exp op iados da e a. O a o de mig a em de um lado pa a o ou o, em a e com o sen imen o de busca em uma al e na i a que não seja a do assala iamen o. A de e minação de se em mig an es pode se apon ada endencialmen e como a o ge ado de um mo imen o de di usão in e - egional de o mas e es a égias de lu a. O ca á e mig an e não dilui, mas pode e o ça a esis ência dos abalhado es. Assim, ainda que não incluídos como p o agonis as di e os do campo de lu as pela e a, podem e , na condição de ex-pa cei o, ex-a enda á io, ex- pequeno p op ie á io, ex-possei o, pa icipado de con on os, nos quais a e a en a em ques ão. Sua demanda po e a pode e con o nos especí icos. Pode signi ica a lu a con a es a égias pa onais ol adas pa a sua expulsão do me cado de abalho, lu a con a o insu icien e a endimen o de suas necessidades de ep odução social, lu a na condição de mig an e, ex-pequeno p op ie á io, ex- pa cei o ou ex-a enda á io po eing essa na e a, si uação pe dida ou da qual oi expulso. A expulsão do campo não oi necessa iamen e aumá ica. O in óluc o a a i o, a a és do qual é ap esen ada a cidade, pode e ge ado expec a i as, sonhos e p oje os que se us am com a p og essi a cons a ação do quad o de ca ências que os impede minimamen e de ep oduzi suas condições de ida. Di e en es empos en inchei am-se na lu a pelas pe das e insu iciências acumuladas. Pesquisas demons a am ea aliações das lei u as usualmen e ei as do p ocesso de desen ol imen o e mode nização da ag icul u a paulis a, ap esen ando-a inse ida em um ciclo de iolência (Bas os e al., 1988; Reis, 1987). O ma e ial le an ado na pesquisa de mapeamen o das lu as em São Paulo apon a, en e 1964 e 1981, a exis ência de 242 mobilizações en ol endo a posse de e a, sendo que os con li os de assala iados u ais, po se desen ol e em em cadeia ou se em encobe os pelo in óluc o das in isibilidades, não o am p op iamen e quan i icados. Ou seja, mesmo com a ep essão da di adu a sob e o mo imen o de abalhado es u ais, hou e mui a mobilização no pe íodo mili a , mui as das quais silenciadas ou que nem chega am ao conhecimen o. Daí a impo ância de azê-las à ona nesse p ocesso de olha a nossa his ó ia. Há, en e an o, exp essões de suas lu as, a dema ca igualmen e sinais de con on o. Resis ência e exp op iação u al: a expulsão dis a çada Na década de 60, sob as ma cas iniciais do p ocesso de exp op iação, espaldadas pelo man o “p o e o ” do Es a u o do T abalhado Ru al, 460 Ve a Lucia Sil ei a Bo a Fe an e, Hen ique Ca mona Du al y Os aldo Aly Junio A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.20 o sindicalismo u al, enga inhando4, é pos o sob ep essão. O p eço da egulamen ação da legislação abalhis a oi a ampla expulsão de abalhado es esiden es e sua con e são em abalhado es assala iados empo á ios, emune ados pelo empo de abalho, não mais pelo empo de p odução. P a icamen e, o E.T.R legalizou a libe ação da e a pa a os azendei os, ab indo as compo as de um caminho de comp omissos que pa ece ans o ma as conquis as dos abalhado es em espaços azios. En e an o, as lu as dos abalhado es u ais, espo ádicas, man idas sob silêncio, se ize am p esen es, em o ma de g e es localizadas, ol adas à ob enção de di ei os ou pelo pagamen o de salá ios a asados. Há ou as dimensões de lu as, apesa das mesmas ocul a em-se em e enos ins i uídos, a ados ou idos como isen os de ensões. Encon a-se, nesse caso, as lu as que êm a Jus iça do T abalho como cená io. A Jun a de Conciliação e Julgamen o a es a um mo imen o c escen e de ações abalhis as na década de sessen a a indica que a legalização de elações de abalho no E.T.R. não az a consag ação “de a o” dos di ei os. Na década de 70, sob no as ace as do Es ado, com uma si uação de assala iamen o já implan ada, com p omessas de p o eção e igo adas, o mo imen o sindical u al dá sinais de essu gimen o, ainda que nem de longe se possa ala em uma escala ene gizan e. O Es ado, a a és do Fun u al, p ocu a anes esia esse e igo amen o – cujos e ei os não se azem sen i gene icamen e – a elando ainda mais o sindicalismo às malhas do assis encialismo p e idenciá io. En e an o, as lu as mani es as no co idiano, as chamadas lu as po migalhas, nas uas dos cana iais o am inequi ocamen e sinais de esis ência às eg as pa onais. No campo legal, a egulamen ação do dissídio cole i o, po inicia i a de Sindica os da egião, pa ece mos a uma en a i a de o alecimen o – ainda ágil – do pode de ba ganha da ca ego ia. Na década de 80, a eo ien ação do Es ado, a es u u ação de no as lu as, a publicização dos mo imen os dos boias ias, seus desdob amen os, não só ampliam o campo de con li os, como iabilizam a exp essão de lu as p é- exis en es. No início dos anos 80, há dois elemen os signi ica i os das lu as desses abalhado es na egião: um mo imen o de esis ência con a a decisão pa onal de ins i ui 7 uas no luga de 5 como eg a de abalho, di igido pela CPT e di igen es sindicais e uma g e e em uma Usina – Tamoio – um ípico impé io do açúca a é inal da década de 60 (Fe an e, 1984). A pa i dos mo imen os g e is as de 1984, os boias ias passam a se is os como sujei os ins au ado es de sua his ó ia, como se não hou esse um 4 Em 1963 oi c iada a Comissão Nacional de Sindicalização e oi ap o ado o Es a u o do T abalhado Ru al isso le ou ao a anço da o ganização sindical no campo que, logo em seguida, após o golpe de 1964, passou a so e b u al ep essão. 461 Da usina ao assen amen o: as lu as dos boias ias no século XX en e in isibilidades e elei u as A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.20 passado po ás dos a os cole i os dos saques e incêndios que pipocam nas uas e no ei o dos cana iais. Po ou o lado, a inse ção dos boias ias em mo imen os de lu a pela e a na egião, a pa i de 1985, o e ece uma conc e a con apa ida à in e p e ação da p ole a ização u al como up u a comple a da elação com a e a, mo imen o usualmen e enca ado como enda pu a e simples da o ça de abalho. As o mas de ap oximação à e a podem se ou as5. Há que se edimensiona a noção de empo his ó ico e a ec iação de no os signi icados a ibuídos à e a, ques ão a se e omada ao longo desse a igo. Boias ias e a elação com a e a: Rea aliações em pau a A elação dos boias ias com a e a, pon o polêmico de in lexão, é negada em mui os diagnós icos sob e as condições de exis ência dos boias ias. Segundo esse olha , os co ado es de cana da egião, da segunda ge ação de boias ias, ao con á io de seus pais que gua dam g ande apego à e a, são ma cados pelo pa adoxo de semp e e em mo ado na cidade (Ma ini, 1984). Há, de a o, boias ias de segunda ou e cei a ge ação que nunca o am p op ie á ios dos meios de p odução, o que lhes dá, segundo algumas análises, a condição de assala iados pu os e alienados do p ocesso p odu i o, exp op iados do sabe ge ado na elação com a e a, o mados na ap endizagem de um ou o sabe , alimen ado pelo manejo do acão, pela habilidade de colhe la anja e c., que lhes ga an e uma condição especí ica, na di isão social do abalho, a de co ado de cana ou apanhado de la anja, a o de ges ação de possí eis iden idades. Ou seja, alguém que não de ém mais o conhecimen o da complexidade que en ol e a p odução ag opecuá ia. Tal concepção de e se cuidadosamen e a aliada: de um lado, pela con o e ida discussão eó ica sob e iden idade social, de ou o, pelas pe spec i as conc e as de es a em os boias ias, no mo imen o de demanda pela e a ou na inse ção nos cadas os, nos possí eis assen amen os, demons ando sinais de se necessá ia ou a discussão sob e sua cons i uição social. Assim, a ap esen ação dos boias ias como pe dedo es da e a, do sabe oca a la ou a, e a explicação de seu eapa ecimen o no cená io polí ico como po ado es de ein indicações u banas de em se cuidadosamen e analisadas, ea aliadas, pa a não se co e isco de ap esen a os boias ias como um bloco homogêneo, que e iam no p ocesso de pe das so idas, ompido 5 Veja-se a espei o as con ibuições de Moaci Palmei a (1990), que concebe a exp op iação das elações sociais ao campesina o, não como o alidade, mas como um p ocesso que en ol e lu as, e po não e um esul ado ce o, único, deixa de e sen ido pensá-lo em e mos de uma adequação uncional an ecipa ó ia a uma pos e io p ole a ização, ou mui o menos, o que o nou mais equen e nos úl imos anos, abo dá-la simplesmen e como e ei o pe e so da mode nização. Assim, a e i alização da demanda po e a po pa e dos boias ias epõe a discussão da não consolidação linea da p ole a ização e de sua necessá ia inse ção no p ocesso de desen aizamen o/ e-en aizamen o. 462 Ve a Lucia Sil ei a Bo a Fe an e, Hen ique Ca mona Du al y Os aldo Aly Junio A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.20 qualque elação com o passado como se a memó ia lhes i esse sido ex i pada d as icamen e na e adicação da e a. Pos os como sem passado, sem memó ia, os boias ias êm demons ado, no cu so de suas expe iências conc e as, a ein e são de a ibu os que es igma iza am sua his ó ia. A his ó ia da exp op iação do campo paulis a é pouco egis ada e e a ada po a os i os de esis ência. A a e a de o na isí eis lu as en ol as em uma ede de in isibilidades não se ap esen a como imedia amen e iá el nem ansi a po caminhos isen os de di iculdades. A busca de en ende espos as não explici adas em ações de esis ência e o na isí eis con o nos emudecidos, exigiu que lançássemos mão de á ios egis os, á ios olha es sob e a his ó ia desse p ocesso e a pa icipação dos abalhado es – homens e mulhe es – nessa aje ó ia. Os di e en es egis os, sob ma izes di e sos, pe mi em esga a exp essões de lu a, ainda que não se possa a i ma que o ma e ial ob ido a enda plenamen e à necessidade de ecompo a his ó ia i a de um passado man ido sob silêncio. Re a os dessa his ó ia êm de en e is as, de anos de campo – sob dis in os olha es – sob e as condições de ida, a explo ação do abalho dos boias ias, as es a égias e al e na i as ilhadas pelos abalhado es. Fala am em nome dos boias ias, denuncia am as mu ilações so idas em seu empo de ida e de abalho, mas a exp essão di e a dos p óp ios abalhado es é subes imada. Assim, esga a memó ias de um passado i ido das lu as a a és dos depoimen os de sujei os que pa icipa am ou se lemb am dessas lu as, apesa das di iculdades en en adas, ep esen ou o es o ço de analisa lu as in isí eis pela p óp ia ala dos seus poucos pa icipan es ainda i os à época da pesquisa de campo. O abalho de econs ui , pelos sujei os, lu as in isí eis pequenas lu as ou a esis ência co idiana (Sco , 2011) no dize dos ou os – mos ou que os boias ias, excluídos no campo social e polí ico, o am ao longo de mais de duas décadas, o mando uma his ó ia. A a i mação de que os mo imen os de Gua iba ep esen a am a c iação de um no o sujei o social e his ó ico de e se epensada, no seu aze -se, nos seus an eceden es, po os in isí eis, mas não ausen es, de sua p á ica social, de cons ução de suas lu as. Mesmo an es de 1960, ainda que não possamos ala p op iamen e de lu as de assala iados u ais ou de boias ias, a imp ensa al e na i a deu con a de que an es da cons i uição dema cada do mundo dos cana iais, há egis o de mobilizações e elado as de que as lu as es a am p esen es no campo paulis a, an e io men e à con igu ação his ó ica da ca ego ia boias- ias, ou seja, no bojo do p ocesso de cons i uição da p ole a ização u al. Vejamos dados e elado es dessa mobilização no Es ado de São Paulo: em 1949, g e e em Lu écia, Ve a C uz, A aça uba, le adas adian e po camponeses, colonos, abalhado es ag ícolas, ei indicando melho sis ema de medidas, pagamen o de a asados e 463 Da usina ao assen amen o: as lu as dos boias ias no século XX en e in isibilidades e elei u as A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.20 de salá ios. Na década de 50, g e es em Lins(1952) po aumen o sala ial, em Ma ília (1953), Ou inhos e Fe nandópolis, en ol endo assala iados, u mas de abalhado es, colonos, mo i adas po a asos no pagamen o, ebaixa de salá io e con a pul e ização do ca ezal; em San a C uz do Rio Pa do, Cosmópolis, Pompéia, O ien e, Se ana (1954), en ol endo, colonos, assala iados, abalhado es de usinas de açúca , po ei indicações de aumen o no p eço da colhei a, con a o p eço ascenden e de gêne os alimen ícios, descon o de aluguel de casa, po pagamen o de é ias, salá io mínimo, são um cla o indício de que as azendas paulis as não e am ese a ó ios de abalhado es calados. Dados do Jo nal Vóz Ope á ia, Te a Li e, Imp ensa Popula ap esen ados po Medei os (1989). Mesmo quando as g e es não o am a o ma p edominan e de lu a, mani es a am-se lu as, pela conquis a dos di ei os. Na egião em es udo, há egis o de algumas g e es, ais como as de Ribei ão P e o (1955/56) en ol endo abalhado es le ados pela lu a po pagamen o de salá io-mínimo, de ho as ex as, é ias, descanso emune ado. Tais lu as, egis adas quase que unicamen e pela Imp ensa Al e na i a são e iden es ma cas de que a his ó ia das ans o mações da ag icul u a paulis a não se cons uiu a pa de esis ência. Des acando que isso udo acon eceu num con ex o de b u al iolência, ep essão e censu a. A en a i a de esga á- la a pa i de di e en es egis os, não necessa iamen e anunciados da mesma o ma, impõe-se como desa io. A publicização das lu as dos boias ias paulis as Face às g e es de 1984, - ma ca da e a Gua iba – explicações cen adas na incapacidade de esis ência dos assala iados olan es, na sua ágil o ganização, u o da sazonalidade e mobilidade espacial, e no a aso congêni o do sindicalismo u al paulis a, e elam-se inadequadas, empob ecidas mesmo. De ou o lado, a comp eensão da his ó ia das lu as dos assala iados olan es, a mudança de sua na u eza e sua elação com o mo imen o sindical u al exigi am o epensa as condições de ida e abalho dos boias ias. No passado, sob di e en es o mas, i endo em espaços igiados, os boias ias emp eende am ações de esis ência. No en an o, o co idiano do seu abalho, sua si uação de p i ação e a exclusão da cidadania que lhes é impos a pe manen emen e ambém são ques ionados. Com o a anço da mecanização, pa ecem ol a à condição de in isibilidade. Suas ei indicações, suas p á icas de esis ência, mani es as algumas ezes na es e a ep odu i a, de em se comp eendidas em uma elação de unidade – ainda que con adi ó ia – ace às elações de dominação e comando i enciadas no momen o do p ocesso p odu i o. As implicações do espaço u bano e se 470 Ve a Lucia Sil ei a Bo a Fe an e, Hen ique Ca mona Du al y Os aldo Aly Junio A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.20 aio de ação lhes e a absolu amen e edado. T a a-se da elação dos boias- ias com expe iências cons i u i as de um p oje o camponês. A demanda pela e a po agen es a é en ão idos como excluídos desse ci cui o é, sem dú ida, um pon o de in lexão. Com isso, não se p e ende a i ma que a lu a pela e a pe passa homogeneamen e oda a ca ego ia dos boias ias, dando-lhe o pa ama necessá io à cons ução de um p oje o polí ico. A pa icipação dos boias- ias no p ocesso de lu a pela e a e a cons i uição de assen amen os na egião in es igada ei e am a necessidade de ou a a aliação dos umos da exp op iação e p ole a ização u al. No bojo de p eocupação em analisá-las da pe spec i a da cons ução das lu as dos boias- ias, há que se pensa na ans o mação possí el dos p ole á ios u ais e em sua cons i uição social em p op ie á ios ou candida os a uma á ea de e a na condição de assen ados. Ainda mais, a cons i uição de um assen amen o em uma usina desa i ada – Tamoio,- no in e io da qual, no início de 80 oco eu uma g e e isolada que pe maneceu po mais de 5 anos como se não demons asse nenhum sinal de ida ou de i ência dos abalhado es, e o ça a nossa p opos a analí ica de descob i , po ás de um mo imen o gene icamen e ap eendido em suas de e minações es u u ais, ecos das ozes e lu as de abalhado es pa a umos an es nunca na egados ou pouco isibilizados. A queb a do es igma da es anheza en e campesina o e polí ica não implica mecanicamen e no ompimen o do silêncio a ibuído aos ilhos da mode nização, os boias ias exp op iados da e a. Se o campesina o oi, po o ça de dis o ções eó icas, com sé ias implicações polí icas, isolado como sujei o polí ico, a concepção de his ó ia unicamen e como desen ol imen o das o ças p odu i as e das al e ações que al desen ol imen o p omo e, nas elações sociais não implicou no econhecimen o dos boias- ias, dos assala iados u ais, enquan o a o es polí icos, com di ei o a in luencia os umos e édeas do p ocesso de mode nização da ag icul u a. No bojo da con o é sia, pa ecia não ha e espaço pa a e lexões sob e o peso his ó ico possí el dos assala iados u ais. Se o c escimen o da classe ope á ia no campo e na cidade e a ala anca undamen al do p ocesso his ó ico de ans o mação da sociedade, ha ia a con icção de que as pe spec i as de explici a -se um an agonismo com o capi al es a iam ese adas ao ope a iado u bano. Aos assala iados u ais pensados e oneamen e da ó ica de sua comple a exp op iação, sem a ecupe ação das mediações com o seu passado, es a ia ese ado o silêncio. A exclusão dos di ei os de se exp essa poli icamen e e de se cons i ui como sujei os sociais pe meia a discussão das lu as dos boias- ias. Apa ecem nas análises sob e a mode nização da ag icul u a como a o de p odução undamen al ao mo imen o do capi al despojados de quaisque ca ac e ís icas de con es ação. 471 Da usina ao assen amen o: as lu as dos boias ias no século XX en e in isibilidades e elei u as A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 455-472. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.20 Exceção a esse en oque, a pe spec i a dos boias- ias con e em, além do ca á e a i mado do sis ema, a possibilidade his ó ica da p áxis negado a é con emplada em análises que apon am a empo a iedade do abalho olan e, a p incipal di iculdade pa a a ealização des a p áxis. Tempos passados, as eses sob e p ole a ização u al adqui em no os con o nos, sem se a as ada a sua comp eensão como exp essão de um p ocesso de ompimen o com o passado i ido na e a, man endo-se signi ica i amen e nas análises, e e ências às uni o midades exis en es en e as ei indicações dos boias ias e as do p ole a iado u bano. Dimensões que o am ques ionadas no cu so do p esen e abalho. P ocu a comp eende seus clamo es, em o mas de lu as isí eis ou de espaços de silêncio não signi ica pa i do p essupos o de que no campo polí ico, os assala iados de em se discu idos somen e pela ó ica da ag icul u a mode nizada, mas pela his ó ia camponesa do país. Bibliog a ia Al es, F. J. C. Mode nização da Ag icul u a e Sindicalismo: As Lu as dos T abalhado es Assala iados Ru ais na Região de Ribei ão P e o. Tese (Dou o ado em Ciências Econômicas) - Uni e sidade de Campinas, Campinas, 1991. Bas os, E.; Bugai e al. Mapeamen o dos mo imen os sociais u ais no Es ado de São Paulo, 1964-1987. 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