Full text
Pedagogia da esperança: memória, escrita experiencial e reflexividade (auto)crítica em Paulo Freire Revista Internacional de Educação de Jovens e Adultos, v. 04, n. 07, p. 34-49, jan./jun. 2021 34 PEDAGOGIA DA ESPERANÇA: MEMÓRIA, ESCRITA EXPERIENCIAL E REFLEXIVIDADE (AUTO)CRÍTICA EM PAULO FREIRE José González-Monteagudo (US)* https://orcid.org/0000-0002-3094-8092 Mario León-Sanchez (US)** https://orcid.org/0000-0002-2649-944X Verónica Sevillano-Monje (US)*** https://orcid.org/0000-0002-1533-5829 RESUMO O objetivo de nosso artigo é apresentar, discutir e avaliar criticamente as contribuições de Paulo Freire em seu livro Pedagogia da Esperança de 1992, focalizando a escrita experiencial e engajada, a memória, a resistência e a emancipação. A Pedagogia da Esperança é uma evocação – quase um quarto de século depois – do contexto pessoal, profissional, político e cultural no qual a Pedagogia do Oprimido foi desenvolvida. Destacamos os conteúdos, desafios, contribuições e debates gerados pela escrita envolvida e experiencial presente na Pedagogia da Esperança, particularmente em relação às questões sociais e educacionais, tudo a partir de uma perspectiva crítica e engajada. Este documento tem quatro seções. A primeira parte consiste em uma introdução e contextualização de Freire ahd seu itinerário. Após uma segunda seção sobre a metodologia, a terceira seção descreve e comenta o conteúdo, as tramas e as características narrativas da Pedagogia da Esperança. Na seção sobre considerações finais, discutimos as implicações, impacto e relevância deste livro para o atual momento político e educacional no Brasil e em muitos outros países, sob governos que estão desenvolvendo * PhD em pedagogia e professor na Faculdade de Educação da Universidade de Sevilha (Espanha). Ele trata de pesquisas qualitativas e biográfico-narrativas, teorias educacionais contemporâneas, educação de adultos e aprendizagem ao longo da vida, diversidade cultural, migrações, mobilidades acadêmicas, educação comparativa e internacional, políticas educacionais. Ele participou de diferentes projetos de pesquisa e intervenção europeus e transnacionais. Ele tem sido professor visitante em numerosas universidades da Europa e América. E-mail: [email protected]. ** Graduado em Educação Social e Mestre em Psicologia Aplicada, Universidade de Castilla La Mancha. Doutorando com bolsa de pré-doutorado no Departamento de Teoria e História da Educação e Pedagogia Social da Universidade de Sevilha. Atualmente, ela está trabalhando em sua tese sobre as perspectivas das famílias de imigrantes e dos professores do ensino médio, concentrando-se na identificação de modelos de educação intercultural inclusiva. E-mail: [email protected]. *** Graduado em Pedagogia e Mestre em Formação e Orientação Profissional para o Emprego, Universidade de Sevilha, Espanha. Doutorando com bolsa de pré-doutorado no Departamento de Teoria e História da Educação e Pedagogia Social da Universidade de Sevilha. Interesses de pesquisa: educação inclusiva e intercultural, crianças e jovens em dificuldade social, transição para a vida adulta. E-mail: vse[email protected].
José González-Monteagudo; Mario León-Sanchez; Verónica Sevillano-Monje Revista Internacional de Educação de Jovens e Adultos, v. 04, n. 07, p. 34-49, jan./jun. 2021 35 políticas neoconservadoras e neoliberais. PALAVRAS-CHAVE: Paulo Freire; memória; escrita experiencial; esperança; reflexividade. ABSTRACT PEDAGOGY OF HOPE: MEMORY, EXPERIENTIAL WRITING AND (SELF)CRITICAL REFLEXIVITY IN PAULO FREIRE The aim of our article is to present, discuss and critically evaluate Paulo Freire's contributions in his 1992 book Pedagogy of Hope, focusing on experiential and engaged writing, memory, resistance and emancipation. Pedagogy of Hope is an evocation – almost a quarter of a century later – of the personal, professional, political and cultural context in which Pedagogy of the Oppressed was developed. We highlight the contents, challenges, contributions and debates generated by the involved and experiential writing present in Pedagogy of Hope, particularly in relation to social and educational issues, all from a critical and engaged perspective. This paper has four sections. The first part consists of an introduction and contextualisation of Freire ahd his itinerary. After a second section on the methodology, the third section describes and comments the contents, plots and narrative features of Pedagogy of Hope. In the section on final considerations, we discuss the implications, impact and relevance of this book for the current political and educational moment in Brazil and many other countries, under governments that are developing neoconservative and neoliberal policies. KEYWORDS: Paulo Freire; memory; experiential writing; hope; reflexivity. RESUMEN PEDAGOGÍA DE LA ESPERANZA: MEMORIA, ESCRITURA EXPERIENCIAL Y REFLEXIVIDAD (AUTO)CRÍTICA EN PAULO FREIRE El objetivo de nuestro artículo es presentar, discutir y valorar críticamente las aportaciones de Paulo Freire en su libro de 1992, Pedagogía de la esperanza, poniendo relieve en la escritura experiencial e implicada, la memoria, la resistencia y la emancipación. Esta obra constituye una evocación -casi un cuarto de siglo despuésdel contexto personal, profesional, político y cultural en el que se gestó la Pedagogía del oprimido. Destacamos los contenidos, retos, aportaciones y debates que ha generado la escritura implicada y experiencial presente en la Pedagogía de la esperanza, particularmente en relación con las cuestiones sociales y educativas, todo ello desde una perspectiva crítica y comprometida. Este trabajo tiene cuatro secciones. La primera parte consiste en una introducción y contextualización sobre Freire. Tras una segunda sección sobre el recorrido metodológico, la tercera sección describe y comenta los contextos, procesos, contenidos, tramas y características narrativas de la Pedagogía de la esperanza. En la sección sobre consideraciones finales, discutimos las implicaciones, el impacto y la pertinencia
Pedagogia da esperança: memória, escrita experiencial e reflexividade (auto)crítica em Paulo Freire Revista Internacional de Educação de Jovens e Adultos, v. 04, n. 07, p. 34-49, jan./jun. 2021 36 de este libro para el momento político y educativo que se vive en Brasil -y en muchos otros países-, bajo gobiernos que desarrollan políticas neoconservadoras y neoliberales. PALABRAS CLAVES: Paulo Freire; memoria; reflexividad; esperanza; escritura experiencial. INTRODUÇÃO: CONTEXTO HISTÓRICO E BIOGRÁFICO DE PAULO FREIRE O objetivo de nosso artigo é apresentar, discutir e avaliar criticamente as contribuições de Paulo Freire em seu livro Pedagogia da Esperança (PE) de 1992, com foco na escrita experiencial, narrativa e escrita implícita, enfatizando as dimensões de resistência e empoderamento neste tipo de narrativas. Este artigo tem quatro seções. A primeira parte consiste em uma introdução e contextualização do Freire. Após, uma segunda seção sobre o percurso metodológico, a terceira seção descreve e comenta o conteúdo, as tramas e as características narrativas da PE. Na parte final, discutimos as implicações, impacto e relevância deste livro para o momento político e educacional atual. Iniciamos nosso trabalho oferecendo uma síntese histórica sobre o itinerário intelectual e pedagógico de Freire, a fim de situar a PE no contexto global de sua vida e trabalho (CORTESÃO, 2019; DICKAMN, DICKMAN, 2016; HADDAD, 2019; KOHAN, 2019; MOTA NETO, 2016; TORRES, 2019; STRECK, REDIN, ZITKOSKI, 2010). Freire nasceu em 1921 em Recife (Pernambuco, Brasil), em uma das regiões mais pobres do país. Ele estudou Direito, mas deixou a profissão no dia em que começou a lidar com seu primeiro caso. O que realmente o interessava era a língua e a educação. Começou a ensinar português em uma escola particular. Ele se casou com Elza, professora e mais tarde diretora da escola. Desta união nasceram cinco filhos. Freire foi nomeado diretor do Departamento de Educação e Cultura do SESI, um órgão da organização patronal brasileira. Ele trabalhou lá de 1947 a 1957. Em 1959 defendeu sua tese de doutorado, intitulada Educaçao e atualidade brasileira, e obteve o título de professor de filosofia e história da educação na Universidade do Recife. Naquela época, Freire defendeu uma abordagem sócio-educativa nacionalista e liberal e colaborou com um grupo de sociólogos, economistas e educadores que queriam contribuir para o desenvolvimento de um Brasil moderno e pós-colonial. Neste contexto, e, ao longo dos anos 60 e 70, Freire desenvolveu suas primeiras experiências educacionais com adultos analfabetos, evoluindo para posições marxistas e progressistas. Freire foi um membro fundador do Movimento de Cultura Popular do Recife. Gradualmente, ele se destacou nacionalmente por sua prática de alfabetização. Em 1964, o golpe militar contra o Presidente Goulart pôs fim ao ambicioso programa nacional de alfabetização para o qual Freire havia sido nomeado como responsável. Depois de passar 70 dias na prisão, exilou-se na Bolívia, onde foi novamente surpreendido por outro golpe de Estado. Finalmente conseguiu chegar ao Chile, onde se estabeleceu entre 1964 e 1969, trabalhando como assessor do Instituto de Reforma Agrária e do Ministério de Educação
José González-Monteagudo; Mario León-Sanchez; Verónica Sevillano-Monje Revista Internacional de Educação de Jovens e Adultos, v. 04, n. 07, p. 34-49, jan./jun. 2021 37 Nacional. No Chile, continuou a desenvolver programas de alfabetização. Em 1969, Freire encerrou sua carreira na América Latina. Quando ele partiu para Harvard como professor visitante, já havia escrito três livros importantes: Educação: a Prática da Liberdade, publicada em 1967, uma adaptação de sua tese de doutorado; Extensão ou Comunicação? Conscientização no meio rural, publicado em 1969; e Pedagogia do oprimido, publicado em 1970, mas escrito dois anos antes. Em nossa opinião, isto conclui a primeira etapa do Freire. A abordagem política, epistemológica e metodológica está bem definida nestes trabalhos: a crítica à educação bancária, à opressão e ao colonialismo; a educação libertadora como alternativa; a "politização" ou não da educação; a reconciliação do cristianismo e do marxismo; e, finalmente, a conscientização e o método psicossocial de alfabetização. A segunda etapa de sua vida ocorreu fora da América Latina, primeiro nos Estados Unidos, onde trabalhou em Harvard por pouco menos de um ano, e, sobretudo, em Genebra, onde viveu de 1970 a 1980. Durante este período, destaca-se o livro Carta à Guiné-Bissau sobre Alfabetização, publicado em 1977. Outro trabalho importante deste período é uma coleção de textos e comentários de Freire sobre sua própria teoria e metodologia educacional, publicados pelo INODEP. Sua passagem por Harvard contribuiu para seu reconhecimento e aceitação internacional. Na Harvard Educational Review (vol. 40, no. 2) ele publicou dois artigos fundamentais em 1970. Mas o que foi decisivo para este período foi sua colaboração com o Conselho Mundial das Igrejas, com sede em Genebra. Freire e sua equipe lançaram numerosas campanhas de alfabetização, especialmente para a África, numa época em que os novos estados africanos pós-coloniais estavam tentando estabelecer seus projetos nacionais. Na época, os livros de Freire foram traduzidos para vários idiomas e foram amplamente distribuídos internacionalmente. Sua mensagem, sua figura carismática e sua pedagogia libertadora se espalharam pelo mundo. A terceira etapa foi depois de seu exílio. Em 1980 retornou definitivamente ao Brasil para, como ele gostava de dizer, "reaprender o país" e trabalhou como professor universitário. Em 1986, sua esposa Elza morreu. Dois anos depois ele se casou com Ana Maria Araújo. Nos anos 80, publicou dois livros: A importância do ato de ler, em 1982; e A política de educação, em 1985. Nesses anos colaborou com educadores críticos norte-a- mericanos como D. Macedo, H. A. Giroux, I. Shor e M. Horton. Na segunda metade dos anos 80 Freire começou uma série de "livros falados", resultado de discussões com educadores, sociólogos e filósofos como F. Betto, A. Faundez, D. Macedo, I. Shor, M. Gadotti, S. Guimarães, A. Nogueira e outros. Entre 1989 e 1991 foi Secretário de Educação da cidade de São Paulo, sob a administração do Partido dos Trabalhadores. Foi uma nova experiência política, mas também uma mudança de interesses. A partir daquele momento, Freire acentuou seu interesse nos livros falados o dialogados. Os temas de seus textos se expandiram, dando mais espaço à escolaridade obrigatória, ao currículo escolar, ao professor, ao aluno e à relação educativa, com um foco específico no ensino fundamental e médio. De 1991 a 1996, ainda publicou, sozinho, um livro por ano: Educação na cidade; Pedagogia da esperança; Profesora sim, tia não; Cartas à Cristina; A sombra desta mangueira; e finalmente, alguns meses antes de sua morte, Pedagogia da autonomia. Uma novidade nestes traba-
Pedagogia da esperança: memória, escrita experiencial e reflexividade (auto)crítica em Paulo Freire Revista Internacional de Educação de Jovens e Adultos, v. 04, n. 07, p. 34-49, jan./jun. 2021 38 lhos dos anos 90 foi a crítica ao neoliberalismo e à chamada pós-modernidade lúdica. A importância da dimensão experiencial e narrativa da escrita também é destacada nestas obras posteriores, particularmente na PE, livro de 1992 que constitui o foco central de nosso texto. A fim de entender melhor o lugar da PE no itinerário de Freire como um todo, acreditamos que é útil diferenciar e contrastar dois momentos ou etapas de sua carreira. O primeiro momento refere-se aos anos finais dos anos 60, que terminaram com a publicação da Pedagogia do Oprimido. O segundo momento está situado na última década de sua vida, aproximadamente entre 1985 e 1997. É importante entender a diferença entre estes dois períodos da obra de Freire, já que nosso artigo se concentra em um livro do segundo período, embora este livro seja uma evocação e releitura da Pedagogia do Oprimido, que é a obra central do primeiro período. A fim de caracterizar a diferença entre estes dois momentos, nos concentramos na concepção da crítica e em como ela evolui entre as duas fases indicadas. Em 1970, três anos após a publicação de Educação: A Prática da Liberdade, Freire publicou Pedagogia do Oprimido, uma obra que havia escrito entre 1967 e 1968. Neste trabalho, seu discurso é radicalizado e adota um conteúdo marxista e revolucionário. Entretanto, além das formas concretas através das quais Freire situa suas ideias, acreditamos que há uma continuidade em todas as suas publicações ao longo das três décadas que decorreram entre o início da escrita da Pedagogia do Oprimido, em 1967, e seu último livro, Pedagogia da Autonomia, publicado no final de 1996, vários meses antes de sua morte. A apresentação de ideias em Pedagogia do Oprimido revela uma abordagem politizada, baseada em citações de Lenin, Mao, Castro e Che Guevara, entre outros, em um contexto geopolítico de guerra fria, colonialismo e autoritarismo. A partir deste livro, as propostas metodológicas e epistemológicas dependerão de uma opção política previa para liberar os oprimidos. Assim, o dispositivo metodológico, as concepções de conhecimento e as opções políticas e ideológicas estão implicados mutuamente. Freire fala dos alunos como pesquisadores críticos, da necessidade de conhecimento crítico da realidade, da legitimidade da dúvida crítica problematizadora, da reflexão crítica, da percepção crítica, da análise crítica, da inserção crítica na realidade e, é claro, da consciência crítica. A visão da crítica, ligada ao racionalismo e ao ponto de vista causal da realidade, é radicalizada a partir da Pedagogia do Oprimido. A ação educativa e a ação política são entendidas como duas formas de realizar a revolução. O educador e o político são revolucionários que aspiram a superar a contradição oprimida pelo opressor e a estabelecer uma sociedade sem classes. Além da invasão cultural, típica das situações de dominação, chegaremos a uma revolução cultural permanente. O segundo momento que queremos destacar ocorre a partir de 1985, em um cenário pós-moderno, diverso e neoliberal, nos anos em que o Muro de Berlim caiu e a diversidade social e educacional se aprofundou. Neste último período, Freire publicou os chamados livros falados e outros livros de autoria individual. A PE está situada dentro do novo estilo de escrita, que é mais experiencial e narrativo. É interessante refletir sobre as mudanças ocorridas ao longo do quarto de século entre o primeiro e o último livro de Freire. Nos anos 80 e 90, o marxismo-leninismo estava agonizando e as experiências do socialismo real na URSS
José González-Monteagudo; Mario León-Sanchez; Verónica Sevillano-Monje Revista Internacional de Educação de Jovens e Adultos, v. 04, n. 07, p. 34-49, jan./jun. 2021 39 e nos países satélites estavam fracassando. O projeto de mudança social revolucionária implementado por um partido, uma vanguarda ou uma elite revolucionária havia entrado em uma crise profunda. A economia, a sociedade, a tecnologia e a cultura haviam mudado radicalmente. A expansão do capitalismo neoliberal, a globalização econômica, a descolonização, a migração e o desenvolvimento acelerado de novas tecnologias haviam perturbado o contexto internacional do final dos anos 60, caracterizado pela guerra fria, o expansionismo da URSS e dos Estados Unidos, e as utopias revolucionárias baseadas no partido único. No contexto dos anos 90, Freire criticou o neoliberalismo, mas a linguagem e a abordagem tinham mudado. Diante da ferocidade da ética do mercado, Freire falou sobre a ética universal do ser humano. Em Pedagogia da autonomia, Freire contrasta criticidade com ingenuidade, e curiosidade epistemológica com curiosidade ingênua (FREIRE, 1996, p. 32-34). Além disso, neste trabalho, como em outros livros deste último período de sua obra, descobrimos um Freire preocupado sobretudo com a educação formal. Em qualquer caso, a continuidade de sua mensagem em relação às etapas anteriores é indiscutível. Para prová-lo, basta enumerar as três partes da Pedagogia da autonomia: não há ensino sem aprendizagem; ensinar não é transferência de conhecimento; ensinar é uma atividade especificamente humana. Em seu último trabalho, Freire fala da reflexão crítica sobre a prática, tema que muito o ocupou durante seu mandato, entre 1989 e 1991, como Secretário de Estado da Educação do Estado de São Paulo. Suas propostas são mais contextuais e matizadas, depois de todas as lições aprendidas de seu exílio e de seu tempo como responsável político da educação formal. Os esforços do feminismo e do pós-mo- dernismo crítico para abordar uma interpretação pós-marxista do Freire são muito interessantes. Criticar o Freire não implica rejeitar toda sua abordagem pedagógica e política. Estas críticas enriquecem o trabalho de Freire e o situam nos cenários de mudança e complexidade de nossa atual sociedade globalizada, neoliberal, digitalizada, multicultural e diversificada. A diferença, o conflito, o eu instável, a complexidade, a incompletude, a dispersão e a pluralidade são características distintivas do pós-mo- dernismo, compatíveis com a abordagem de Freire, embora esta abordagem esteja principalmente ligada ao engajamento político com grupos oprimidos. Isto nos leva a uma realização mais complexa da conscientização do grupo, ligada nos primeiros livros de Freire a uma narrativa iluminista do progresso e da emancipação. O próprio Freire evoluiu, admitindo algumas das críticas que lhe foram feitas e desenvolvendo uma forma mais dialógica e flexível de escrever. Após um período de escrita mais racionalista, a partir de meados dos anos 80, Freire posicionou-se em relação a sua própria história pessoal e coletiva; e este posicionamento é exatamente o que as primeiras críticas feministas de Freire exigiam. É claro que esta perspectiva mais plural, dialógica e complexa é incompatível com a defesa de Freire do marxismo-leninismo e a liderança revolucionária na Pedagogia do Oprimido. Hoje, a releitura do marxismo - após o fracasso inequívoco do socialismo real, o questionamento da liderança revolucionária, a crítica pós-modernista do marxismo e a ascensão dos novos movimentos sociais - inviabiliza os projetos revolucionários, leninistas, maoístas e castristas do partido único. A leitura hoje das páginas da Pedagogia do Oprimido dedicadas à liderança
Pedagogia da esperança: memória, escrita experiencial e reflexividade (auto)crítica em Paulo Freire Revista Internacional de Educação de Jovens e Adultos, v. 04, n. 07, p. 34-49, jan./jun. 2021 40 revolucionária provoca um sorriso irônico. Esta mística de revolução, como um processo linear que deveria conduzir a uma sociedade sem classes, sem conflitos sociais, em suma, ao que Freire chama de “revolução cultural permanente”, esta mística foi abandonada. Alguns autores têm rejeitado a visão abstrata, universal e unitária da humanização e da libertação. Este rótulo genérico de humanização evita a concretização de formas específicas de opressão relacionadas a diferentes condições sociais. Em particular, as escritoras feministas insistiram nos limites do trabalho de Freire na abordagem das opressões de gênero e raça. Aludindo à não sincronização da opressão, uma autora feminista escreve que "o apelo aos oprimidos para acessar a verdadeira humanização não especifica as formas concretas de opressão experimentadas por diferentes atores sociais, bem como a possibilidade de realizar lutas entre pessoas oprimidas de diferentes maneiras por diferentes grupos" (WEILER, 1991, p. 453). Diante dos desafios do pósmodernismo e do feminismo, o trabalho de Freire pode ser relido de uma forma mais aberta e pluralista. OBJETIVOS E PROCESSO METODOLÓGICO Os objetivos de nosso trabalho são os seguintes: 1) situar a PE no itinerário pessoal, intelectual, político e profissional de Freire; 2) analisar os temas e tramas desta obra, identificando as principais dimensões presentes no livro; 3) rever a literatura produzida nos últimos anos sobre EP, oferecendo uma síntese atual do estado da arte desta produção freireana; 4) avaliar as contribuições, impacto e relevância da PE no momen- to atual. Para isso, foi utilizada a técnica de análise documental, "que consiste em examinar documentos já escritos que cobrem uma ampla gama de modalidades" (BISQUERRA, 2014, p. 349). Especificamente, foram revistas publicações referentes à PE, assim como contribuições recentes relevantes sobre o trabalho de Paulo Freire. Foi realizada uma pesquisa de textos científicos e acadêmicos em espanhol, português e inglês presentes no Google Scholar. Posteriormente, a leitura e classificação do conteúdo destas publicações nos permitiu gerar diversas categorias de análise, relacionadas a conteúdos, processos e tramas da PE, assim como diversas dimensões transversais (memória, escrita experiencial, viagens, propostas pedagógicas, crítica, autocrítica, relações pessoais, atividades profissionais, experiências formativas). Os documentos selecionados, que estão identificados na nossa bibliografia, foram analisados através de um processo de análise documental e de conteúdo, seguindo as etapas propostas por Bowen (2009). CONTEXTOS, PROCESSOS, CONTEÚDOS E TRAMAS DA PEDAGOGIA DA ESPERANÇA O contexto histórico entre o final dos anos 80 e os anos 90 é caracterizado por profundas mudanças em vários campos: processo da perestroika na URSS, iniciado em 1985; queda do Muro de Berlim em 1989, que levou à reunificação das duas Alemanhas (RDA e RFA); fim da guerra fria; fim da ditadura de Pinochet no Chile; democracia já estabelecida em Portugal e Espanha; fim do apartheid na África do Sul; fim da ditadura militar em 1985 no Brasil e início do período democrático, com predominância das políticas neoliberais e privatizadoras (CORTESÃO, 2018, p. 540). No âmbito nacional, o contexto político e histórico brasileiro foi muito negativo, com o impeachment do primeiro presidente da
José González-Monteagudo; Mario León-Sanchez; Verónica Sevillano-Monje Revista Internacional de Educação de Jovens e Adultos, v. 04, n. 07, p. 34-49, jan./jun. 2021 41 nova etapa democrática, após mais de 20 anos de ditadura, os graves problemas econômicos derivados da inflação e os freqüentes escândalos de corrupção (MEGGIATO, FLORES, RUFATO, 2020, p. 148). A PE foi publicada em setembro de 1992, depois do período de gestão política de Freire em São Paulo entre 1989 e 1991 (O'CADIZ, WONG, TORRES, 1998) e a série de livros dialogados da segunda metade dos anos 80. A PE aprofunda um estilo de escrita experiencial, subjetiva e envolvida, que certamente já estava presente nos primeiros trabalhos de Freire dos anos 60. Este estilo retórico e textual tornou-se mais forte na segunda metade dos anos 80, no contexto dos livros falados, resultado de discussões com pedagogos, sociólogos e filósofos como F. Betto, A. Faundez, D. Macedo, I. Shor, M. Gadotti, S. Guimarães, A. Nogueira e outros. Mas esta dimensão narrativa e experiencial é apresentada de forma mais explícita e radical na PE. De fato, a PE é um exemplo particularmente eloquente desta nova sensibilidade narrativa em pedagogia crítica. Neste tex- to, Freire faz um balanço da Pedagogia do Oprimido, 25 anos após sua publicação, recontando seu itinerário pessoal e intelectual, enquanto inclui a temporalidade e subjetividade como categorias vertebrais de uma retórica textual decididamente autobiográfica. Para entender melhor esta virada narrativa no itinerário do pedagogo nordestino, temos que comentar a mudança que ocorre naqueles anos em relação à escrita, em um contexto epistemológico e social que começou a celebrar a diversidade e a pluralidade. De um ponto de vista objetivista e positivista, a escrita é um instrumento neutro e impessoal, utilizado para apresentar ou expor os resultados e conclusões da pesquisa. Neste domínio, a escrita não é um problema. A linguagem ‘representa’ a realidade, e a representa de forma objetiva, distante e neutra. O empirismo lógico tem demonstrado um forte interesse na linguagem e no esclarecimento linguístico. Neste contexto, a ciência tem sido entendida como uma linguagem rigorosa, um sistema de proposições empíricas verdadeiras. O positivismo tem tido um impacto decisivo em contextos de pesquisa, intervenção e formação. Com a chamada ‘crise de representação’ – fomentada pelas abordagens pós-es- truturalista, pós-modernista, feminista e desconstrucionista – a escrita acadêmica e de pesquisa tornou-se uma questão importante, inclusive no campo da educação. G. Marcus e M. Fischer cunharam esta expressão "para se referir especificamente à incerteza dentro das ciências humanas sobre os meios apropriados de descrever a realidade social" (SCHWANDT, 2001, p. 41). Nas duas últimas décadas do século XX, houve contribuições importantes para caracterizar esta crise e oferecer caminhos alternativos. Esta nova sensibilidade intelectual compartilha as principais características da perspectiva pós-moderna: “ […] um questionamento radical da certeza e autoridade do texto acadêmico; uma rejeição da busca da 'verdade' e da razão como absolutos; uma negação da distância intelectual e moral entre o acadêmico e seus 'sujeitos' humanos; uma suspeita das narrativas da teoria totalizante (histórica, marxista, sociológica)" (ATKINSON, 1992, p. 38). Entretanto, propomos não esquecer a relevância da ideologia e do poder como forças significativas que condicionam a ação pessoal e social. A linguagem está sempre relacionada a uma retórica de representação. Em outras palavras, linguagem e escrita estão ligadas ao poder, ideologia, história, sociedade, cul-
Pedagogia da esperança: memória, escrita experiencial e reflexividade (auto)crítica em Paulo Freire Revista Internacional de Educação de Jovens e Adultos, v. 04, n. 07, p. 34-49, jan./jun. 2021 42 tura, gênero e identidade. A linguagem e a escrita não são ferramentas imparciais em contextos sociais e formativos (COFFEY, 1999). Seguindo Derrida, é verdade que "uma revelação de práticas narrativas é sempre uma revelação de formas de poder" (RICHARDSON, 1990, p. 12). Campos como a teoria, a pesquisa básica e aplicada, o ensino e a produção de conhecimento são atividades atravessadas por dimensões morais e políticas, assim como espaços de exploração e luta (RICHARDSON, 1990, p. 63; 2000, p. 929). Além disso, a escrita é uma atividade reflexiva que envolve nosso ser físico, mental, emocional e social. A virada literária e narrativa, promovida por C. Geertz, J. Bruner e outros, ampliou as formas pelas quais alguns autores conceituaram textos e enfatizou a importância das características da escrita relacionadas à pesquisa, intervenção, formação e narração da experiência (COFFEY, 1999). Nessas novas abordagens, há um forte questionamento da autoria tradicional e da visão do autor como tendo uma visão ou compreensão superior. Particularmente relevante para esta tarefa foi a publicação de 1986 da Writing Culture, editada por Clifford e Marcus (1991), que incorpora visões poéticas e políticas da teoria etnográfica e do trabalho de campo. A pesquisa feminista e a epistemologia têm sido muito influentes em relação a uma nova consciência da dimensão política, de gênero e emocional da escrita e da representação (REINHARZ, 1992; BURMAN, 1994; OLESEN, 2000; COFFEY, 1999). O feminismo insiste na subjetividade e na experiência pessoal. Reinharz lembra que "muitas feministas têm escrito que 'encontrar a própria voz' é um processo crucial da pesquisa e da escrita" (REINHARZ, 1992, p. 16). As questões de identidade própria e pessoal têm sido geralmente obscurecidas na escrita nos âmbitos sociais, formativos e experienciais. Como afirma um sociólogo inovador, "a ciência social se baseia em minimizar o eu, tratando-o como um contaminante, transcendendo-o, negando-o, protegendo sua vulnerabilidade... nós pintamos quadros nos quais esperamos não existir; ou, se existimos, somos subordinados ou quase invisíveis" (KRIEGER apud PLUMMER, 2001, p. 181). Os comentários acima nos ajudam a situar o Freire no ecossistema intelectual, de pesquisa e formativo da época em que ele produziu a PE. De fato, a intertextualidade presente na PE enfatiza a hibridização e a pluralidade da escrita, estabelecendo relações dialógicas entre diferentes vozes, registros, estilos e subjetividades, em plena coerência com o clima intelectual daquele momento histórico particular. Isto implica uma superação da perspectiva polarizada presente na Pedagogia do Oprimido, que favorece um discurso que dá maior ênfase à liberdade e à diversidade (MARCELO, CARVALHO, 2018, p. 565). A PE foi inicialmente concebida como um apêndice de uma nova edição da Pedagogia do Oprimido, mas o texto ganhou corpo e densidade, então Freire sentiu que poderia publicá-lo como um livro autônomo (HADDAD, 2019). Em nossa opinião, PE representa uma nova abordagem no itinerário de Freire como autor e escritor. De fato, após os primeiros livros, produzidos em um formato convencional, Freire passou a produzir livros-cartas e livros falados. Com a PE, Freire inicia um novo estilo narrativo que é mais subjetivo, informal e criativo (DICKAMN; DICKMAN, 2016, p. 234-235; STRECK, 2010). A PE é composta de: (a) um Prefácio, escrito por Leonardo Boff; (b) o livro em si, composto de sete seções, que não têm títulos, e que atravessam informalmente, livre
José González-Monteagudo; Mario León-Sanchez; Verónica Sevillano-Monje Revista Internacional de Educação de Jovens e Adultos, v. 04, n. 07, p. 34-49, jan./jun. 2021 49 don: Sage, 1990. ROSA, Nilson Carlos Da. Pedagogia freireana em diálogo com a sociedade contemporânea: à luz da pedagogia da esperança. In ZITKOSKI, José ; Vicente, José ; ROBAINA, Lima ; ROSA SOARES Jeferson (Org.) Paulo Freire e a educação contemporânea. Curitiba-PR: Editora Bagai, 2021, p. 86-92. SCHWANDT, Thomas. Dictionary of Qualitati- ve Research (2nd ed.). London: Sage, 2001. STRECK, Danilo R. Esperança. In: STRECK, Danilo R.; REDIN, Euclides; ZITKOSKI, Jaime J. (orgs). Dicionário Paulo Freire. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2010. STRECK, Danilo R.; REDIN, Euclides; ZITKOSKI, Jaime J. (orgs). Dicionário Paulo Freire. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2010. TORRES, Carlos (Org.). The Wiley Handbook of Paulo Freire. Nueva Jersey: Wiley-Blackwell, 2019. USHER, Robin; BRYANT, Ian; JOHNSTON, Rennie. Adult Education and the Postmodern Challenge. London: Routledge, 1997. VAN MANEN, Max. Researching Lived Experience. State University of New York Press: The Althouse Press. 1990. WEILER, Kathleen. Freire and a Feminist Pedagogy of Difference. Harvard Educational Review, vol. 61, nº 4, 1991, p. 449-474. WEILER, Kathleen. Myths of Paulo Freire, Educational Theory, vol. 46, nº 3, p. 353-371, 1996. Recebido em: 25/07/2021 Aprovado em: 07/09/2021