Da Asia de Diogo de Couto : dos feitos que os portuguezes fizeram na conquista e descubrimento das terras e mares do Oriente : decada sexta, parte segunda
Full text
parse
AoA
Ae
ES
Rr
esa
es
Esdos
erica
gica
DA
ASIA
|
|
D
E
DIOGO
DE
COUTO
Dos
reiTos,
QuE
OS
PORTUGUEZES
FIZERAM
NA
CONQUISTA,
E
DESCUBRIMENTO
DAS
TERRAS,
E
MARES
DO
ORIENTE.
DECADA
SEXTA
ida
PARTE
SEGUNDA,
LISBOA
Na
Recta
OFFICINA
TrroGRAFICA,
ANNO
M:DCCGLXXXI.
Coni
Liceriça
da
Real
Meza
Genforia
;
e
Privilegio
Real,
ra
=
”
E
EEE
TAS
INDICE
“DOS
CAPITULOS,
QUE
SE
CONTÉM
ams
NESTA
PARTE
IL
D
A
sD-E-GA
DA
VE
EAV
RO
VI
(=
TI.
De
como
os
naturaes
da
Ci-
dade
de
Adém
fe
confederdram
com
ElRey
de
Camphar
,
e
lhe
entregá-
ram
aquella
Cidade:
e
do
recado
que
man-
dáram
a
Ormuz
,
e
a
Goa
a
pedir
foc-
corro.
Pag.
1.
CAP.
II.
Decomo
D.
Paio
de
Noronha
def-
pedio
recado
ao
Governador
D.
Soão:
de
Cafiro:
e
de
como
ElRey
de
Camphar
foi
foccorrer
o
filho;
que
tinha
os
Turcos
cer>
cados:
e
do
que
mais
fuccedeo.
IO.
CAP.
HI.
Decomo
EiRey
de
Campher
com-
metteo
os:
Turcos
:
e
de
como
foi
morto
em
bum
afjalto,
e
os
Turcos
foram
cer»
car
q
Cidade
de
Adém
«cedo
mais
que
=
lhe
acontecto.
E
15.
CAP.
IV.
Do
recado
,
que
o
Governador
D.
João
de
Cafiro
teve
de
Adém:
e
co-
mo
mandou
few
filho
D,
Alvaro
de
Caf
tro
de
foccorro:
e
das
galés
dos
Turcos,
que
Jabiram
de
Moçá
emfavor
dos
feus
:
e
do
que
D.
Paio
fez.
Dao
|
a
CAP.
INDICE
CAP.
V.
De
como
D.
Paio
de
Noronha
fe.
foi
fecretamente
de
Adém
:
e
os
Turcos
entráram
aquella
Cidade,
ematáram
ao
Principe,
e
feus
irmãos
:'e
do
que
acon-
teceo.
a
D.
João
de
Taide
na
joruada:
e
de
como
os
Turcos
lhe
corréram.
30.
CAP.
VI.
Decomo
D.
Álvaro
de
Cafiro
ches.
gou
aos
Ilheos
de
Canecanim
,
onde
foube
a
perda
da
Cidade
de
Adém:
e
de
como
“foi
fobre
a
fortaleza
de
Caxém,
e
a
tos
0/1072
38.
CAP.
VI.
Do
Armada
de
Lourenço
Pires
de
Tavora,
que
chegom
ao
Reyno
com-as
novas
da
vitoria
de
Dio:
e
das
ndos
que
EIRey
dejpedio
em
Outubro:
e
des
hom-
ras
,
emercês
que
mandou
ao
Governa-
dor
D.
Soho
de
Cafiro,
49.
aê
VHL.
Que
contéma
cópia
das
cars
»
que
ElRey
D.
Foão
;
e
o
Infante
D.
Luis
Seu
irmão
eferevéram
ao
Vifo-
Rey
D.
Soão
de
Cafiro.
55
CAP.
IX.
Decomo
o
Fifa-Rey
D.
soão
de
“=
Cafiro
adoeceo
:
e
de
huma
-notavel
falla
.
“que
fez
aos
Officiaes
de
ElRey
fobre
fua
.
“pobreza
:
cede
como
faleceo
:
e
em
que
tempo:
e
das
partes,
e
qualidades
de
Ss
fua
pela
:
es
62.
LI-
DOS
CAPITULOS.
E
dA
aa
SER,
asi
AP,
1.
De
como
por
morte
doViloRey
D.
João
de
Cafiro
fuccedeo
Garcia
de
Sá:
e
das.
pazes
que
fez
com
o
Idals
-
sENG:
Pag.73.
CAP.
II.
De
como
matáram
em-Dio
Luiz
Falcão,
Capitão
daquella
fortaleza:
edas
Armadas.
,
que
ElRey
defpedio
pera
a
India.
=
SST
O
CAP.
IH.
De
como
vefia
Armada
do-anno
de
1548.
deque
era
Capitão-mor
Manoel
de
Mendoça
,-
trouxeram
os
Padres
da
Companhia
huma
cabeça
das
onze
mil
Virgens,
que
foi
muito
bem
recebida
em
Goa
:
e-das
novas
que
o
Governador
Gar-
cia
de
Sá
teve
de
Dio,
e
defpachou
Mar-
tim
Correa
da
Silva
pera
aquella
forta-
teza:
edos
Embaixadores
que
a
Goa
vie-
tam
dos
Reys
vizinhos.
j
ER
CAP,
IV.
De
como
o
Governador
Garcia
de
dá
partio
pera
o
Norte:
e
das
pazes
que
fez
com
ElRey
de
Cambaya
,.e
man-
dow
Francifco
de
Sá
a
Surrate.
88.
CAP.
V.
De
como
ElRey
de
Tanor
ma
cof
ta
do
Malavar
fe
fez
Chriftão,
e
veio
à
|
Goa:
e
do
grande
recebimento
que
fe
lhe
eae
j
ST
RABA
EB
2;
CAP:
VE:
Das
confoss
que
acontecêrcia
a
TE
*
Ui
Fran-
INDICE
EFrancifco
de
Sá
em
Surrate
com
bumas
uios
de
Mouros
:
e
de
como
o
Governa-
dor
Garcia
de
Sá
defpachom
as
coufas.
de
Maluco:
e
do
cafamento
de
duas
fi.
lhas.
106.
CAP.
VH.
Das
confas
;
que
acontecéram
em
Ormuz
mo
alevantamento
de
Bislalá
:
e
de
como
D.
Manoel
de
Lima
o
mando
matar.
IO.
CAP.
VHI
Do
que
aconteceo
a
Diogo
Soa-
“ves
de
Mello
em
Pegil:
e
de
como
foi
em
companhia
daquelle
Rey
contra
o
de
Sião:
e
do
poder
,
eftado
,
e
ordem
com
que
ef:
te
Rey
caminha
:
e
do
que
lhe
aconteceo
até
chegar
a
Sião.
Erss
CAP.
IX.
Da
deferipção
da
Cidade
de
Sião:
e
de
como
o
Bramá
a
commetteo,
fem
fa-
ser
confa
alguma:
e
de
como
for
contra
a
Cidade
de
Comambee.
|
159%
CAP.
X.
De
como
faleceo
o
Governador
Gar
cia
de
Sá
:
e
des
partes
,
e
qualidades
ei
da
133.
ETUURO
q
é
ABRI.
De
como
por
morte
do
Governador
4
Garcia
de
Sá
Juccedeo
no
governanço
«da
India
forge
Cabral:
e
da
Armada
que
|
>
efte
aumo
de
1549
partia
do
Reyno
,
de
que
.
es
era
(
Dos
CAPITULOS,
era
Capitão
mor
D.
álvaro
de
Noro-
nha.
Tas:
CAP.II.
De
como
o
Rey
da
Pimenta
fe
paf-
Sou
à
parte
do
Camorim
,
perfilhando-fe
com
elle
:
e
do
recado
que
o
Governador
teve
diijo.
E
143
CAP.
III.
De
como
o
Governador
forge
Ca-
bral
partio
pera
Cochim:
e
das
confas
que
paljiram
naguella
Cidade,
em
quan-
to
nella
efieve:
e
de
como
ElRey
da
Co-
ta
lhe
mandou
pedir
foccorro
contra
o
Madune.
148,
CAP.
IV.
De
outro
recado
que
o
Gover-
nador
Jorge
Cabral
teve
de
Ceilão
do
Principe
de
Candea:
e
de
como
D.
For-
ge
de
Cafiro
partio
pera
Ceilão:
e
do
que
o
Governador
fez
em
Cochim
até
fe
re-
colher
:
eo
que
aconteceo
a
Bafiião
de
Só
mo
Malavar.
154.
CAP.
V.
De
como
o
Governador
forge
Ca-
bral
defpachou
D.
Alvaro
de
Noronha
pe-
ra
entrar
na
fortaleza
deOrmuz:
e
da
Armada
que
mandou
em
fua
companhia
,
de
que
fu
por
Capitão
mór
Luiz
Figuei-
ra:
e
das
novas
que
a
Goa
vieram
de
galês:
e
de
como
o
Governador
mandou
Gonçalo
Vaz
de
Tavora
«
efpiallas:
e
da
Armada
que
mandou
a
Maluco,
de
que
foi
por
Capitão
mir
D.
Rodrigo
de
Me-
NeXES,
-
159.
ia
CAP,
INDICE
CAP.
VI.
Da
difimulação
com
que
FIRey
de
Candea
mandou
pedir
a
D.
Jorge
de
Cafiro
Padres
pera
fe
fazer
Chriflão:
e
de
como
lhe
mandou
dous,
e
com
elles
o
Capitão
Fraucez:
e
do
que
lhes
Juccedeo
na
viagem.
165.
CAP.
VII.
De
como
ElRey
da
Cota,
e
Dom
Jorge
de
Cafiro
partiram
pera
Ceitava-
ca:
e
dos
fitios
dos
fortes
que
por
efe
caminho
acháram
:
e
de
como
os
ganhá-
ram,
e
desbaratáram
o
Madune
,
e
lhe
tomáram
a
Cidade
de
Ceitavaca.
169,
CAP.
VII,
De
como
o
Rey
da
Pimenta
fê
tornou
pera
o
feu
Reyno:
e
de
como
o
Ca-
pitão
de
Cochim
o
foi
bufcar
a
Bardela:
e
da
grande
batalha
que
lhe
deo,
em
que
elle,
e
ElRey
de
Bardela
morréram.
180.
CAP.
IX.
De
como
o
Camorim
paffou
aa
Reyno
da
Pimenta
pera
tomar
polfe
del.
de,
por
lhe
pertencer
pela
perfilbação:
&
-
de
como
Fernão
Rodrigues
de
Mari
pars
tio
pera
Goa
va
mez
de
Sunho
com
no-
vas
das
galés
:
e
da
efpautofa
viagem
que
fez.
7
187.
CAP.
X.
Das
coufas,
que
acontecéram
em
Maluco
até
chegar
Jordão
de
Freitas:
e
de
como
Bernaldim
de
Scufa
entregou
a
fortaleza
a
Chriftovão
de
Sá
:
e
de
ou-
tras
confas
que
mais
palláram.
195
CAP.
XI,
Das
coufas
,
que
o
Governador
For
Dos
CAPITULOS.
Forge
Cabral
fez
emGoa:
e
de
como
lhe
vieram
novas,
que
as
galês
fetorndram
a
defarmar,
e
defpedio
Manoel
de
Soufa
de
Sepulveda
pera
Cochim:
e
de
como
cer-
cou
os
Principes
Malavares
na
Ilha
de
Bardela
:
e
do
que
mais
fuccedeo.
201.
CAP.
XII
Dogue
aconteceo
a
Luiz
Figuei-
ra
com
bumas
galés
de
Rumes:
e
de
co-
mo
foi
aoCinde,
e
javoreceo
aquelle
Rey
contra
os
Nautaques:
e
da
deforaça
que
“lhe
aconteceo.
206.
CAP.
XHI,
De
como
o
Governador
Jorge
Cabral
partio
pera
Cochim
,
e
de
cami-.
nho
defiruio
as
Cidades
de
Capocate,
Ti-
racole,
Coulete,
e
Panane:
e
de
como
ef-
tando
pera
dar
em
Bardela
,
lhe
deram
povas
que
era
chegado
o
Vifo-Rey
Dom
Aronfo
de
Noronha,
É
210.
LIVRO
IX
(e
AP.
T.
De
como
ElRey
D.
Foão
o
III,
4
wiandou
por
VifoRey
da
India
Dom
«Aijonfo
de
Noronha
mo
auno
de
Isso
:
€
do
que
lhe
aconteceo
na
viagem
até
che-
gar
a
Cochim.
2a
CAP.
TI.
Dealgumas
coufas,
em
que
oVi-
Jo-Rey
D.
Affonfo
de
Noronha
provéo
em
Cochim
:
e
da
Armada
que
mandou
ao
Elireito,
Jobre
que
houve
diferenças
an-
tre
FN'D'I
CE
tre
D.
Seronymo
de
Cafr
pubsbraos
6
D.
Fernando
de
Menezes
,
filho
do
Vifo-
Rey:
e
da
grande
vitoria
que
os
mofos
“houveram
em
Cochim
de
fima
de
oito
mil
Nayres
“moncos
:
e
de
como
Jorge
Ca-
bral
fe
embarcou
pera
o
Reyno:
e
das
partes,
e
qualidades
de
jua
peljoa.
230.
CAP.
01.
Dogue
aconteceo
a
Luiz
Figuei-
va
no
Efireito
do
mar
Roxo:
e
de
como
encontrou
o
Turco
Cafdr
com
as
fuas
ga-
teotas
:
e
de
como
de
defconfiado
inveftia
a
Capitania
:
e
de
como
foi
morto
,
e
o
“fez
navio
tomado.
236.
CAP.
IV.
De
como
os
Turcos
tomdram
a
fortaleza
de
Catifa
:
e
de
como
o
Vifo-
Rey
D.
Affonfo
de
Noronha
mandou
Dom
“Antão
de
Noronha
com
buma
grofja
Ar-
mada
pera
a
tornar
a
cobrar:
e
dos
mais
Capitães
que
defpachou
pera
fóra
:
e
de
como
D.
Diogo
de
Noronha
fe
perdeo
no
rio
de
Mazagão:
e
do
que
lhe
aconteceo
ate
vir
a
Goa.
243
CAP,
V.
Da
liga
que
ElRey
de
Viantena
convocou
contra
a
fortaleza
de
Malaca:
e
da
difjimulação
com
que
mandoy
vzfi-
tar
o
Capitão.
D.
Pedro
da
Silva
da
Gas
ma.
AÇO
CAP.
VI.
De
como
os
Reys
da
liga
def-
embareáram
em
Malaca
,
e
ganhdram
as
povoações
defóra,
e
queimiram
as
ndos
q,
pos
CAPITULOS.
que
eftavam
mo
porto:
e
do
que
fez
o
Cas
“
pitão
D.
Pedro
da
Silva
da
Gama.
257.
CAP.VII.
De
como
os
inimigos
começáram
a
bater
a
fortaleza
:
e
de
como
chegou
a
ella
D.
Garcia
de
Menezes:
e
de
hu-
ma
fabide
que
fez
aos
inimigos,
em
que
o
matdiram.
Es
263.
CAP.
VII.
Doque
aconteceo
ao
homem
que
levor
o
recado
do
cerco
de
Malaca:
e
de
como
Gil
Fernandes
de
Carvalho,
que
ef-
tava
em
Quedá,
fe
fez
preftes
pera
a
ir
foccorrer
:
e
como
efte
recado
chegou
ao
porto
grande:
e
dos
foccorros
que
fe
ajun-
tiram:
e
das
confas
que
fuccedêram
em
Malaca
vefte
cerco.
270:
CAP.
IX.
Do
grande
affalto
que
os
Mou-
ros
deram
à
fortaleza
;
de
que
fabirana
desbaratados
:
e
do
que-os
inimigos
de-
termindram
em
damno
da
fortaleza
:
e
de
outro
grande
confelho
que
deo
o
mef-
mo
homem
contra
o
intento
dos
ININUÇOS
;
pelo-que
fe
alevantáram
os
Malaios
do
«cerco,
e
ficáram
os
fáos:
e
de
como
Gil
Fernandes
de
Carvalho
chegou
a
Malas
ca,
e
deo
batalha
aos
inimigos
em
que
"os
desbarator.
“279.
CAP.
X.
Do
que
aconteceo
na
jornada
«
-
D.
Rodrigo
de
Menezes
até
chegar
a
Maluco:
e-das
diferenças
que
Bernals
aim
de
Soufa
teve
com
Chriflovão
de
Sá
fo-
EnsDI-CE
fobre
aquella
Capitania:
e
de
como
Ber.
-naldim
de
Soufa
foi
cercar
afortaleza
de
Geslolo
:
e
do
que
lhe
aconteceo
na
def:
embarcação.
290:
CAP.
XI.
Do
fitio
,
e
fortificação
da
for-
taleza
de
Geilolo,
e
de
como
os
noflos
a
batéram
:
e
das
confas
que
fuccedéram
no
cerco
:
e
dos
ardis
de
que
ElRey
de
Tidore
ufou
pera
ver
fe
deixavam
os
noflos
o
cerco.
|
299.
CAP.
XII.
De
como
Bernaldim
de
Soufa
to-
“mou
bum
poço
de
agua
,
de
que
os
cer-.
cados
bebiam:
e
de
como
por
falta
delle
Je
entregáram
a
partido.
309.
CAP.
XHI.
De
comoo
Capitão
entrou
na
fortaleza
de
Geilolo,
e
das
ervezas
que
Je
uella
fizeram:
e
de
como
fe
derribou:
“me
das
mais
confas
que
fuccedéram.
317,
CAP,
XIV.
Do
que-atonteceo
a
D.
Antão
de
Noronha
na
jornada
de
Catifu:
e
de
como
bateo.
aquela
fortaleza
,
e
os
Tur-
“cos
a
defpejáram,
e
do
defafire
que
alli
aconteceo
aos
nofjos.
|
22%
CAP.
XV.
De
como
D.
Antão
de
Noronha
“for
ter
a
Bacorá,
e
entrou
o
vio
Eufra-
tes
,
e
tomou
huma
fortaleza
aos
Tur.
cos:
e
docardilde-queo
Bexá
ufom
pe-
“ra
a
nolja
Armada
fe
recolher.
333.
CAP.
XVI.
Daguerra
que
o
Madune
tor-.
von
a
fazer
ao
Rey
da
Cota
:
e
de
co-
ss
mo
pos
CAPITULOS.
mo
matdiram
elle
Rey
por
defafire:
e
da
Armada
que
efe
anno
de
fincoenta
e
bum
“partio
do
Reyno,
de
que
era
Capitão
mor
Diogo
Eopes
de
Soufa
:
e
de
como
o
Vi-
Jo-Rey
D.
Affonfo
de
Noronha
partio
pe-
ora
Ceilão.
238.
CAP.
XVIL
De
como
oVifo-Rey
Di
Afon-
Jo
de
Noronha
defembarcou
em
Columbo
,
efe
vio
como
Rey
da
Cota
:
e
do
com
certo
que
ambos
fizeram
contra
o
Madu-
ne:
e
de
como
o
desbaratáiram,
,
e
tons
“vam
a
Cidade
de
Ceitavaca.
345
CAP,
XVHI.
De
como
D.
Antão
de
Noro-
aba
veio
de
Ormuz
,
e
foi
por
Capitão
mir
ao
Malavar,
e
doque
lhe
aconteceo:
“e
das
coufas
em
que
o
Vifo-Rey
provea
em
Ceilão
:
e
de
como
foi
a
Cochim,
&
deo
no
Chembe
:
e
do
que
alli
lhe
fucce-
“deo,
ssa.
CAP.
XIX,
De
como
D.
Fernando
de
Me-
vezes
filho
do
VifoRey
foi
invernar
a
Cochim
e
de
como
Francifio
Lopes
de
Sonfa
foi
entrar
na:
Capitania
de
Malu-
"co:
e
das
confas
que
o
Vifo-Rey
DAf
fonfo
de
Noronha
ordenou
deerea
do
cra-
“vo:
e
do
que
fuccedeo
em
Ceilão;
360.
CAP.
XX.
De
como
Bernaldim
de
Sowfa
foi
contra
ElRey
de
Tidore,
e
lhe
fez
der-
ribar
a
fortaleza
ve
das
defavenças
que
teve
con
D.
Rodrigo
de
Menezes:
e
das
ee
a
COM
ÍNDICE
coufas,
que
mais
fuccedêram
até
fe
emp
“barcar
pera
a
India.
266,
CAP.
XXI.
Do
que
aconteceo
ds
ndos
que
partiram
pera
o
Reyno:
e
da
defaven-
turada
perdição
do
galeão
8.
João
ma
cota
da
Cafraria.
379.
CAP.
XXIT.
Do
que
fez
Manoel
de
Soufa
-
de
Sepulveda
depois
de
eftar
em
terra
:
e
do
que
lhe
aconteceo
no
caminho:
e
da
muita
piedofa
,
e
laftiimofa
morte
de
fua
mulher
,
e
filhos:
e
de
como
cile
fe
met-
tco
pelo
mato,
onde
defappareceo.
386,
LIVRO
X.
AP.
IT.
De
como
o
Turco
mandou
bu
ma
Armada
de
vinte
e
finco
galés,
de
que
era
General
Pirbec,
pera
Baço-
rd:
e
do
que
aconteceo
a
algumas
ga-
Jês
com
os
uollos
navios
vaquelle
Eftreis
Os
“Pages
404
CAP.
TI.
Decomo
Pirbec
paflow
pera
Ma:
—
cate
:-e-como
o
Feitor
de
Calayate
par-.
tio
com
recado
pera
Goa:
e-de
como
os
Turcos
defembarciram
em
Mafcate
:
€
do
cerco
que
puzeram
à
fortaleza
:
e
de
como
os
de
dentro
fe
lhe
entregáram
a
“partido.
411.
CAP.
IH.
De
como
a
Armada
dos
Turcos
chegou
a
Ormuz
:
edo
cerco
que
puze.
Eos
ram
Dos
CAPITULOS.
“ram
à
fortaleza:
e
do
que
aconteceo
em
todo
o
difcurfo
delle.
MIS
CAP.
IV.
De
como
os
Turcos
alevantáram
o
cerco
:
e
dos
recados
que
palláram
an-
tre
Pirbec
,.e
o
Capitão
:
e
de
como
os
imimigos
faquedram
a
Ilha
de
Queixo-
me.
423:
CAP.
V.
Do
recado
que
chegou
a
Goa
das
galés:
e
de
como
D.
Diogo
de
Noronha
o
Corcós,
e
D.
Antonio
de
Noronha
par-
tiram
pera
Ormuz
em
duas
fultas:
e
de
como
o
Vifo-Rey
D.
Affonfo
de
Noronha
Je
preparou
pera
ir
em
pefjoa
ao
foccor-
ro
:
e
da
falla
que
fez
na
Camara
de
Goa
;
pedindo-lhes
ajuda
,
e
emprefBi-
mo.
.
fot
CAP.
VI.
Da
Armada
que
efe
amo
de
—
Jincoênta
e
dous
partio
do
Reyno
,
de
que
era
Capitão
mór
Fernão
Soares
de
Alber-
garia
:
e
de
como
o
VifoRey
D.
Afon-
jo
de
Noronha
fe
embarcou
pera
Ormuz:
edas
novas
que
no
caminho
teve
das
ga-
“dês
ferem
recolhidas
:
e
de
como
defpedia
D.
Autão
de
Noronha
com
huma
grofa
“rmada
pera
aquella
fortaleza
:
e
de
co-
mo
mandou
Francifco
Barreto
com
poderes
de
Governador
a
Cochim
à
fazer
acar-
$a
das
vdios
do
Reyno.
43%
CAP.
VIL
De
como
Diogo
de
Mello
Gde
pitão
de
Ceilão,
prendeo
Tribuly
Pandar
pas
INDICE
pai
de
EiRey
:
e
das
confas
que
nele
tempo
acontecéram
em
Malaca
no
prin
cipio
da
Capitania
de
Dom
Álvaro
de
Taíde.
441.
CAP.
VIIL
Das
coufas
,
que
acontecêram
a
Francifio
Barreto
emCochim:
e
de
cos
mo
D.
Pedro
da
Silva,
e
Bernaldim
de
Souja
chegáram
aGoa:
e
do
que
oVaifa-
Rey
D.
Afonfo
de
Noronha
fez.
ago:
CAP,
IX.
De
huma
Armada
de
Malavas
res,
que
foi
à
cofia
da
Pefearia,
e
dos
damnos
que
por-ella
andou
fazendo:
€
de
como
Gil
Fernandes
de
Carvalho
ar
mou
alguns
navios
á
fua
cufia,
e
a
foi
bulcar:
e
de
como
encontrou
efia
Armas
da
,
e
pelejou
comella,
e
a
desbaratou
,
e
tomo.
7
E
456.
CAP.
X.
Do
que
aconteceo
a
D.
Antão
de
“Noronha
na
jornada
até
Ormus
:
e
do.
que
fez
Pirbec
tanto
que
chegou
a
Baço-
rá:
e
do
que
mais
palou
D.
Antão
de
—
Noronha
,
até
entregar
a
Armada
a
Dom.
Diogo
de
Noronda.
465:
CAP,
XL.
Decomo
Francifco
Lopes
de
Sou-
fe
chegou
a
Maluco,
e
das
coufas
que
fez:
e
de
como
faleceo
:
e
das
differem
“ças
que
houve
fobre
quem
fuccederia
na
“quella
Capitania:
edes
coujas
que
fobre
sho
fez
o
Rey.
E
=
dio
CAP,
XIL
Das
coufas
que
efe
anno
acons
a
Ze
pos
CAPITULOS.
tecêram
em
Ceilão
:
e
de
como
Tribuly
Pandar
,
que
eftava
prezo,
fe
fez
Chri-
São
,
efugio
da
prizão
:
e
dos
damos
que
fes,
e
de
outras
coufas.
478.
CAP.
XHI.
De
como
o
Turco
teve
recado
do
Baxá
de
Baçorá,
das
coufas
que
Pir-
bec
fez
em
Mafcate,
cOrmuz:
e
de
co-
mo
mandou
Moradobec
,
que
lhe
tornaflê
quinze
galés
ao
porto
de
Moçá:
e
de
co-
mo
Pirbec
chegou
d
Corte,
e
o
Turco
lhe
mandon
cortar
a
cabeça:
e
de
como
Dow
Diogo
de
Noronha
fe
encontrou
com
Mo-
radobec:
e
da
muito
notavel
batalha
que
as
galés
tiveram
com
o
galeão
de
Gonça-
lo
Pereira
Marramague.
485.
CAP.
XIV.
Da
Armada
que
efte
auno
de
fincoenta
e
tres
partio
do
Reyno,
de
que
era
Capitão
mór
Fernão
de
Alvares
Ca-
bral:
e
das
confas
em
que
ElRey
man-
dou
prover:
e
de
como
0
Vifo-Rey
D.
Af-
Jonfo
de
Noronha
partio
pera
Cochim.
494.
CAP.
XV.
Dealgumas
coufas
que
aconte-
céram
ao
Vifo-Rey
D.
«dfonfo
de
Noro-
nba
até
chegar
a
Cochim
:
e
dos
confe-
lhos
que
tomou
fobre
der
mo
Chembe
a
de
como
fe
ajjêntou
darem
mas
Ilhas
ala-
gadas,
e
de
como
as
defiruiram.
sor.
CAP.
XVI
Das
revoltas
que
houve
no
Reyno
de
Cambaya
por
morte
de
Soitão
Mabamude:
e
de
como
D.
Diogo
de
Al-
WEZ
Inpice
pos
CAPITULOS.
“gmeida
deo
na
Cidade
de
Dio;
é
a
def:
Êruio.
|
e
508,
CAP.
XVII.
Das
pazes
que
o
Vifo-Rey.
D.
Afonfo
de
Noronha
fez
com
o
Rey
de
Chembe
:
e
das
ndos
que
partiram
pera
o
Reyno:
e
de
como
fe
perdeo
a
ndo
São
Bento
na
cota
da
Cafraria.
“ST
8
CAP.
XVII.
Dascoufas
,emqueo
Vifo-Rey
D.
Áfonfo
de
Noronha
proveo:
e
de
conio
mandou
feu
filho
D.
Fernando
de
Menezes
com
buma
drmada
ao
Efireito:
e
da
fen-
zença
que
fe
deo
contra
D.
Álvaro
de
Tui-
de,
Capitão
de
Malaca
:
e
dos
Capitães
que
foram
entrar
em
uas
fortalezas
:
é
do
que
aconteceo
na
jornada
a
D.
Francífio
de
Menezes
até
chegar
a
Ormuz.
520:
CAP.
XIX.
De
como
D.
Diogo
de
Noronha
,
Capitão
de
Dios,
tomou
a
fortaleza
aos
Mouros:
e
da
gente
que
Abifcam
mandou
de
Joccorro:
e
do
recontro
,
que
com
ella
teve
Fernão
de
Caftanholo
,
em
que
fot
morto
com
dezefete
foldados
:
e
de
como
D.
Diogo
de
Noronha
acúdio
,
e
lançou
os
Mouros
fôra
da
Ilha.
529
CAP.
XX.
De
como
o
Turco
mandou
outro
Capitão
,
chamado
Alecheluby
,
por
lhe
levar
as
galés
de
Baçorá
a
Suez
:
e
de
como
fabio
de
Baçorá,
e
feencontrou
com
a
Armada
de
b.
Fernando
de
Menezes
e
lhe
tomou
feis
galés.
“537
o
-—
DES
:
E
ecrã
Es
EA
RS
E
JR
SU
RM
JE
;
hs
EO
eai
es,
INS
a
ta
Va
ia
o
RR
oheolovtueto
deste
onto
ofooth
ato
vie
ato
ojrafosfofo
fo
fo
tr
ato
oferta
fo
ofoofs
efe
stoafo
ate
fo
ofonto
sfo
ota
elo
nfo
to
DECADA
SEXTA.
EIVRO
VI
Da
Hiftoria
da
India.
SO
CAP
TT
BODE
De
-como
os
naturaes
da
Cidade
de
Adém
Se
confederdram
com
ElRey
de
Camphar:,
e
lhe
entregáram
aquella
Cidade
:
e
do
recado
que
mandiram
a
Ormuz,
ea
Goa
“a
pedir
foccorro.
sa
7
O
Cap.
IV.
do
V.
Liv.
da
quins
|
ta
Decada
fica
dito,
como
o
|
Baxá
Soleimão
Eunuco:,
des
|
pois
de
fe
levantar
desbaratas
|
do
de
fobre
Dio,
fugindo
á
io
TT
Armada
Portugueza
-,
fora
ter
à
Cidade
de
Adém
,
onde
deixou
por
Ba-
xa
Mir
Mollafá:,
torto
de
bum
olho,
com
quinhentos
Turcos
de
guarnição.
Em
feu
lu
gar
Íuccedeo:
depois
outro
Baxá
;
chamado
Marzão.,
homem
tambem
mão,
e
perverfo;,
Conto
Tom.III
Pal.
A.
co-
2
-
ASIA
pe
Drogo
DE
Couro
como
todos
os
Turcos
o
são.
Elle
com
to-
dos
os-mais
ufando
de
fuas-naturezas
,
af
“fim
avexáram,
maltratáram
,
e
perfeguiram
“aos
naturaes,
e
moradores
daquella
Cidade,
affrontando-os
em.
fuas
mulheres
,
e
filhas,
que
de
não
poderem
já
fofirer
mais,
tratá-
ram
de
facudir
do
pefcoço
tão
pezado
ju-
go.,
e
izentarem-fe
de
tão
tyrannica
fervi-
dão;
e
pera
illo
fe
carteáram
em
muito
le-
gredo
com
Alibem
Soleimão,
Rey
de
Cam-
phar
feu.
vizinho
,
promettendo-lhe
entrada
dentro
na:
Cidade
,
e
de:
o
levantarem
por
feu
Rey.
Por
tal
modo
tratáram
elte
negos
cio,
que
lhe-deo
ElRey
orelhas,
e
lançou
mão
dos
cumprimentos.
E
ordenado
antre
el-
les
o
modo
“que
fe
havia
de-ter,
depois
de
tudo
aflentado,
partio
ElRey
de
Camphar
com
mil
homens
do
Ífeu
Reyno
,
que
dei-
xou
entregue
a
feu
filho
mais
velho
,
levan-
do
comfigo
dous
que
tinha
mais
;
hum
le-
gitimo,
moço
detreze,
Ou
quatorze
annos;
e
outro:
baftardo
de
vinte
e
dous,
homem
mui
formofo,
e
bem
diípofto,
e
de
muito
bom
entendimento;
e
tal
ordem
teve
na
jor-
"
nada,
que
chegou
de
noite
a
Adém
,
e
foi
demandar
a
porta
por
onde
havia
de
entrar
a
Cidade,
onde
já
os
conjurados
o
efpera-
vam,
que
o
mettêram
dentro:
fem
ferem
fen-
tidos.
Elogo
commettêram
o
Caftello,
que
foi
entrado
a
pouços
golpes,
e
mortos
Os
É
Ras
que,
“Dec
VE
Er
VISE
Ar
4.
3
que
nelle
eftavam
de
guarnição
,
e
cativos
“vinte
e
finco
Turcos,
os
mais
delles
bom-
bardeiros,
ficando
fenhor
do
Caftello.
O
Baxá
Marzão
tanto
que
Íentio
o
re=
boliço,
ajuntou
os
Turcos,
que
feriam
per-
to
de
quinhentos,
e
fe
fez
forte
em
feus
Pa-
ços
,
porque
não
fabia
o
que
aquillo
era
,
e
alli
elleve
até
amanhecer.
ElRey
de
Cam-
phar,
que
eftava
no
Caftello,
paffada
a
noi-
te,
le
poz
em
ordem
pera
ir
dar
batalha
ao
Baxá
,
porque
já
fabia
que
eflava
forte
nos'
Paços,
mandando-lhe
diante
hum
reca-
do,
em
que
lhe
fazia
a
faber
,
como
fora
chamado
dos
moradores
daguella
Cidade
pe-
ra
feu
Rey;
que
fe
quizefle,
que
fé
viffem
ambos
em
campo
,
e
que
fe
averiguafle
a-
quelle
negocio
por
armas
em
huma
batalha
campal,
que
eftava
preítes
pera
illo.
E
que
fe
tambem
lhe
quizeíte
largar
aquella
Cida-
de,
que
era
fua,
que
elle
lhe
dava
licença
pera
fe
poder
fahir
della
livremente
com
fuas
“mulheres,
filhos,
armas,
etudo
o
mais
que
comíigo
pudeflem
levar.
se
Dado
efte
recado
ao
Baxá,
como
elle,
e
todos
ellavam
medrofos
,
aflentáram
dei-
-xar
a
Cidade,
como
logo
fizeram,
levando
cada
hum
o
que
pode,
ficando
ElR
ey
de
Camphar
fenhor
de
tudo,
e
havido
de
tos
dos
os
natúraes
por
Rey.
E
logo
mandou
fortificar
a
Cidade,
e
proveo
os
paílos
,
e
|
e
Ai
|
ba-
4
ASIA
pe
Diogo
DE
Covro
baluartes
de
gente
de
guarnição
,
porque
bem
entendeo
que
os
Turcos
não
eram
hos
mens
,
que
diflimulavam
com
affrontas.
O
Baxá
Marzão
com
todos
os
feus
fe
foram
metter
em
huma
fortaleza,
que
eftava
pera
o
certão,
quali
oito
leguas,
donde
fahia
tos
dos
os
dias.a
dar
vilta
à
Cidade.,
occupans
do-lhe
os
campos
todos,
e
tomando-lhe
os
paílos
do
certão
,
pera
que
lhe
não
pudef:
|
fem
entrar
mantimentos,
no
que
lhe
deo
grande
trabalho.
Vendo
ElRey
que
daquel-
la
maneira
ficava
arrifcado
a
huma
defavene
tura,
e
fome
,
chamou
a
confelho
os
mos
radores
de
Adém
,
e
praticou
com
elles
o
modo
que
fe
podia
ter
pera
os
Turcos
os.
não
:nquietarem
,
nem
pôrem
de
cerco,
pors
que
hia
já
fentindo
a
falta
de
tudo.
-
É
praticando
fobre
ifto,
foram
os
mais
de
parecer,
que
mandaílem
a
Ormuz
a
pe-
dir
foccorro
aos
Portuguezes,
e
que
fe
lhes
promettefle
a
fortaleza
,
pera
com
feu
fas
vor,
e
protecção
ficarem
Ífeguros
dos
Tur-
cos.
E
que
entre
tanto
mandafle
recado
a
feu
filho
,
que
ficava
em
Camphar,
que
a-
“Juntafle
toda
a
gente
que
pudefle
,
e
fofle
cercar
a
fortaleza
dos
Turcos,
e
trabalhaf
fe
pela
tomar,
primeiro
que
foflem
foccore
ridos
de
Baçorá.
Pareceo-lhe
a
ElRey
mui
to
bem
aquelle
confelho,
e
com
muita
pref
fa
efcreveo
a
feu
filho
,
que
ajuntafe
a
-
Mu
Dee
VI
btv
VIC
apl
3
mil
homens
,
e
foffe
cercar
os
Turcos
,
&
fe
não
levantalle
de
fobre
aquella
fortaleza
fem
lha
tomar
;
e
juntamente
defpedio
hu-
ma
terrada
com
cartas
ao
Capitão
de
Or-
muz,
emque
lhe
pedia
o
mandaffe
foccor-
rer
,
offerecendo-lhe
os
partidos
que
difle-
mos
da
fortaleza
da
Cidade,
e
Alfandega
della.
a
O
Principe
de
Camphar
em
lhe
dando
as
cartas
do
pai,
ajuntou
logo
tres
mil
ho-
mens
muito
bem
negociados,
e
foi
com
el-
les
marchando
pera
a
fortaleza,
em
que
os
Turcos
eftavam
,
que
tendo
aávifo
de
fua
ida;
ferecolhêtam
dentro,
é
fe
fortificáram.
O
Principe
lhe
poz
cerco;
mas
por
fer
man=
cebo.,
e
pouco
experimentado
,
deixou
de
to-
mar
a
fortaleza
nos
primeiros
dias.
Os
que
levavam
o
recado
pera
Ormuz
,
foram
to-
mar
Caxém
pera
fazerem
agua;
e
fabendo
aquelle
Rey.
como
hiam
bufcar
os
Portugue-
zes
pera
lheentregarem
a
Cidade
de
Adém;,
como
era
grande
inimigo
dos
Turcos,
por
ferem
aborrecidos
de
todos
,
e
era
muito
ami-
go
dos
Portuguezes,
defpedio
logo
trezen-
tos
Fartaquins
em
foccorro
de
Adém,
man=
dando
oferecer
a
ElRey
de
Camphar
tudo
O
que
mais
houvefle
milier
até
os
Portugue-
zes
chegarem.
Eites
chegáram
em
poúcos'
dias
áquella
Cidade
;
onde
foram
mui
bem'
tecebidos
de
ElRey
,
e
póltos
nos
mais
im>
por-
6
ASIA
pe
Droco
DE
Covro.
-
portantes
,
e
principaes
paflos
,
e
baluartes
pera
fua
defensão.
à
A
terrada
que
hia
pera
Ormuz
,
entrou
em
breves
dias
do
Cabo
de
Refolgate
pera
dentro
no
mez
de
Outubro
paílado.,
e-alli
encontrou
D,
Paio
de
Neronha,
que
andas.
va
por
Capitão
mór
daquelle
Eftreito
com
doze
navios
de
remo.
E
fabendo
do
Embai-
xador
de
ElRey
de
Camphar
ao
que
hia
a
Ormuz
,
defpedio
huma
das
fuftas
da
fua
Armada
em
fua
companhia,
com
cartas
20
Capitão
D.
Manoel
de
Lima,
em
que
lhe
pedia
por
mercê,
que
fe
elle
não
havia
de
ir
em
peíloa
áquelle
negocio
,
lhe
déffe
lie
cença
pera
o
fazer
com
aquella
Armada
que
trazia,
Chegado
efte
recado
a
Ormuz
,
-pa-
receo-lhe
ao
Capitão
elte
negocio
duvidofo;
e
houve
que
não
poderia
ElRey
de
Cam-
phar
fuftentar-fe
contra
os
Turcos,
porque.
eltava
certo
acudir-lhe
foccorro
de
Baçora
;
e
que
fe
fe
metteíle
cabedal
naquella
jorna-
da,
eltava
arrifcado
a
fer
de
nenhum
effei-
to:
pelo
que
logo
deípedio
o
Embaixador
de
ElRey
,
e
a
fulta
de
D.
Paio
,
a
quem
elcreveo,
que
foíle
em
companhia
do
Em-
baixador
de
Adém
,
em
dous
navios
quaes
elle
eícolhelle,
e
os
mais
deixafle
em
guar-.
da
daguelle
Eltreito
;
e
que
fe
achafle
ain-
da
ElRey
de
Camphar
naquella
Cidade,
que.
fe
meitele
dentro
com
fincoenta
homens,
por-
Deco
Vl
Liv:
VI
CART
PO
porque
ellés
baftavam
pera
fe
defender
dos
Turcos,
em
quanto
lhe
não.
hia
mais
foc-
corro;
e
que'lhe
defpedifle
logo
recado
pe-
ra
lhe
mandar
gente,
e
navios
;
e
quando
não,
que
fe
tornafle
pera
aguelle
Eftreito.
:
Dado
efte
recado
a
D.
Paio:
de
Noro-
nha,
logo
fe
partio
pera
Adém
na
galeota
em
que
andava,
que
fe
chamava
Santa
Iía=
bel,
em
que
levava
quarenta
foidados
elco=
lhidos;
e
outro
navio,
de
que
era
Capitão
Pero
Fernandes
de
Carvalho
com
trinta.
Os
Cavalleiros
conhecidos
que
D.
Paio
efcos
lheo
pera
efta-jornada
foram,
João
de
AI-
boguerque,
Antonio
da
Rocha,
Franciíco
Vieira,
Diogo
Correa;
Antonio
de
Figuei-
redo,
Antonio
Cornejo
,
que
ainda
hoje
vi-
ve
em
Chaul,
de
quem
foubemos
a
mór
par-
tes
deltas
coufas,
Pero
Cornejo
Ífeu
irmão,
Chrifovão
das
Neves,
Martim
Gralho;
Francifco
Rodrigues,
e
outros.
E
dando
á
véla
pera
Adém
em
companhia-do
Embai-
xador,
foram
correndo
a
cofta
de
Arabia;
tomando
todas
as
angras
,
enceadas,
e
ba-
hias,
por
onde
encontráram
algumas
gel-:
vas
,
e
terradas
de
Mouros
da
outra
cota:
de
Barborá
,
Zeilá
,
Mete",
que
tomáram:,
humas
vafias
,
outras
com
feus
recheios:;
fugindo-lhes:
pera
a
terra
todos,
fômente
tres
que
fe
cativáram.
E
chegando
á
forta-
leza
de
Dofar
,
entrando
a
bahia
,
lhe
ati=
|
rá-
a
8
ASIA
pr
Droco
ve
Cotro
ráram
muitas
bombardadas;
e
achando
fur=
ta
huma
não
carregada
de
cifas
,
lhe
puzes
ram
o
fogo,
que
ardeo
braviflimamente;
e
huma
terrada
que
Íe
foi
abicar
a
terra
,
a
foram
tirar
a
poder
de
efpingardadas;,
eaf
faftando-a
pera
fóra
,
armáram
nella
huma
forca,
em
que
enforcáram
os
tres
Mouros,
que
tomáram
nas
terradas
atrás
,
e
outros
alguns
que
acháram
na
não;
e
depois
puze-
ram
fogo
à
terrada
á
vifta
da
fortaleza.
|
Partidos
dalli
chegáram
a
Xaél,
cujo
Rey
foi
fempre
amigo
dos
Portuguezes
,
e
eflava
fóra
em
campo
contra
o
Rey
de
Caxém,
que
tendo
fabido
que
tinham
de
Adém
man-
dado
chamar
os
Portuguezes
pera
lhe
entre-
garem
aquella
Cidade
,
receando-fe
delles,
deixou
recado
na
fortaleza,
que
fe
por
alli
paílafe
Armada
Portugueza,
a
proveflem
de
tudo
o
neceílario
,
fazendo
da
neceflidade
virtude;
porque
já
que
vinham
fer
feus
vi»
zinhos,
queria
começar
a
grangear
fua
ami-
zade.
Os
Regedores
da
fortaleza
tanto
que
viram
as
fultas
em
feu
porto,
mandáram
vi-
fitar
D.
Paio
com
hum
prefente
de
coufas
da
terra,
e
agua
em
abundancia
,
offerecen-
do-lhe
o
de
que
mais
tiveíle
neceflidade.
Dom
Paio
pela
que
tinha
acceitou
tudo,
detendo-
le
alli
aquelle
dia,
e
ao
outro
tornou
a
con-
tinuar
feu
caminho,
e
foram
tomar
o
por-.
to
de
Berrumá
antes
de
Adém
,
donde
par»
e
ti=
Dec
VI.
Lrv.
VL
Car.
IL
O
tiram
4
meia
noite,
e
foram
tomar
de
ma-
drugada
a
bahia
daquella
Cidade,
onde
fur-
gíram.
Foram
logo
dadas
a
ElRey
novas,
que
eram
chegadas
fuftas
dos
Portuguezes
,
com
o
que
toda
a
Cidade
fe
alvoroçou,
e
deípedio
peíloas
principaes
de
fua
cafa,
pe-
ra
que
foflem
defembarcar
o
Capitão
,
à
quem
mandou
os
parabens
de
fua
vinda,
e
muito
refreíco
de
carneiros,
gallinhas,
ede
outras
coufas
que
havia
na
terra.
>
D.
Paio
fe
negociou
logo,
e
defembar-
cou
com
Íó
quatro
homens
que
efcolheo
,
e
na
praia
achou
alguns
cavallos
,
mui
bem
concertados
,
e
acubertados
pera
fua
peíloa.
E
cavalgando
em
hum,
os
mais
levou
diante
de
fi,
e
os
foldados
derredor
delle,
e
en»
trou
em
cafa
de
ElRey,
que
o
recebeo
com
muita
honra,
deitando-lhe
aos
hombros
hu-
ma
formofa
Xamata,
que
são
huns
pannos
de
feda,
e
algodão
lavrados
de
ouro,
que
aquelles
Reys
coftumam
a
trazer
por
capas,
e
he
a
mór
honra
que
podem
fazer
a
huma
peíloa
grande,
quando
a
querem
muito
fef-
tejar,
e
honrar.
Alli
logo
praticáram
Íobre
as
coufas
daquella
Cidade,
dizendo-lhe,
que
era
de
ElRey
de
Portugal,
eque
como
fua
lha
entregava,
pera
tratar
de
fua
fortifica-
ção
,
e
defensão.
E
por
ferem
horas
de
jan-
tar,
o
mandou
agazalhar
em
humas
cafas;,
que
peraifio
tinha-deípejadas,
e
fe
lhe
deo
tO-
10
ÁSIA
pe
Drotó
De
COvro
todo
o
neceflario.
Aqui
elteve
D.
Paio
até
noite,
que
fe
recolheo
ao
Ífeu
navio,
e
ao
outro
dia
defembarcou
com
toda
a
gente
das
fultas
pofta
em
armas
,
que
ainda
que
tão
pouca,
luftrava
muito:,
e
foi
ver
ElRey
que
o
levou
pela
mão,
e
lhe
foi
a
moftrar
o
muro,
é
fortificação
da
Cidade
da
banda
do
certão,
entrando
nos
baluartes,
em
que
eltavam
os
dous
filhos,
que'recebêram
Dom
Paio
com
muita
honra.
Alli
deixou
em
com-
panhia
do
legitimo
Pero
Fernandes
de
Car-
valho
com
dez
foldados,
e-com
o
baltardo
Antonio
de
Figueiredo
com
outros
tantos,
e
Os
outros
repartio
por
eftancias
mais
peri-
gofas:
com
ilto
ficáram
os
naturaes
mais
deí-
cançados,
por
delcarregarem
fobre
os,
nof
fos
todo
o
trabalho
da
fortificação,
e
vigia.
2E-A
PL
Ur
O
De
como
D.
Paio
de
Noronha
defpedio
re-
cado
ao
Governador
D.
Foão
de
Capo:
e
de
como
ElRey
de
Camphar
foi
foccor-:
rer
o
filho
,
que
tinha
os
Turcos
cercas
dos:
e
do
que
mais
fuccedeo.
Ntre
as
coulas
que
D.
Paio
de
Noro-
nha
tratou
com
ElRey,
das
primeiras
foi,
que
devia;mandar
Embaixador
ao
Go-.
vernador
a
dar-lhe
conta
do
que
era
paffa-
do
,
e
pedir-lhe
foccorro
,
porque
elle
de-
ter-
Dre.
VI.
Liv:
VI
Cap
IL
tr
terminava:
de
mandar
hum
navio
com
reca-
do,
de
como
ficavã
naquella
Cidade.
A
El-
Rey
pareceo
bem
aquelle
confelho,
eman-
dou
logo
embarcar
hum
feu
cunhado
,
ir-
mão
de
fua
mulher
,
no
navio
S.
Francif-
co,
em
que
tinha
ido
Pero
Fernandes
de
Carvalho,
de
que
D.
Paio
de
Noronha
deo
a
Capitania
a
Diogo
Correa,
e
por
elleef
|
crevéram
ambos
ao
Governador
todas
as
couías
fuccedidas
até
então,
pedindo-lhe,
que
lhe
mandafle
gente,
e
munições
pera
fe-
.
gurança
daquella
Cidade
,
que
ficava
a
de-
voção
,
e
ferviço
de
ElRey
de
Portugal,
dando
ElRey
a
feu
cunhado
todos
os
feus
poderes
pera
tudo
o
que
aflentafle
com
o
Governador.
;
Es
Efte
navio
fe
fez
à
véla
tres
dias
depois
de
D.
Paio
chegar
áquella
Cidade,
e
de
fua
Jornada
adiante
daremos
razão
,
porque
hê
necefiario
continuarmos
com
o
Principe
de
Camphar,
que
eflava
fobre
a
fortaleza
dos
Turcos.
|
Kite
Principe
fe
houve
tão
foxo
nefte
ne-
gocio,
pela
pouca
experiencia
que
tinha
das
coufas
da
guerra,
que
deo
atrevimento
aos.
Turcos
pera
lhe
fahirem
algumas
vezes
;
e
dar-lhes
alguns
aflaltos
com
perda,
e
affron=
ta
lua
,
do
que
o
pai
foi
logo
avifado
;
e
Teceando
que
a
pouca
difciplina
militar
do
filho
défle
occafião
aos
Turcos
pera
que
qe
12
ASIA
dE
Droco
DE
Covro
baratarem
de
todo,
determinou
de
lhe
foc
correr.
E
porque
tinha
a
Cidade
de
Adém
fegura
em
poder
dos
Portuguezes,
quiz
el-
le
em
pefloa
acudir
áquelle
negocio
primei
ro,
que
viefle
a
maior
mal.
Difto
deo
con-
ta
a
[).
Paio,
pedindo-lhe,
que
em
quanto
elle
hia
foccorrer
feu
filho
,
quizeíle
tomar
aquella
Cidade
em
fua
guarda
com
os
dous
filhos
que
nella
deixava
,
e
com
os
trezen-
tos
Fartaquins
que
lhe
vieram
de
foccorro;,
porque
fe
elle
não
foffe
averiguar
aquelle
negocio,
nunca:teria
fim,
que
como
elle
lá
chegaíle
enviaria
feu
filho
;
que
lhe
pedia
muito
,
que
tanto
que
tivelle
novas
de
fua
chegada,
o
foíle
efperar
á
porta
da
Cida-
de,
e
o
levafle
pela
mão
até
o
metter
em
fua
eltancia,
e
lhe
déffe
alguns
Portuguezes
pera
fva
guarda.
Ifto
lhe
pedio
parece,
por
|
fegurar
o
filho
que
havia
de
fer
o
herdei-
ro
,
porque
devia
de
fe
recear
dos
outros
filhos.
Pedindo
mais
a
D.
Paio
,
que
fe
el-
le
morrefle
naquella
demanda,
o
fizefle
logo.
alevantar
por
Rey.
D.
Paio
dife,
que
o
fer-
viria
em
tudo
como
lhe
mandava.
KiRey
fe
deípedio
delle,
levando
dous
mil
homens
comíigo
,
e
no
caminho
encon-
trou
o
filho
que
fe
hia
recolhendo,
por
não
poder
áturar
os
aílaltos
dos
Turcos
,
em
que
lhe
matáram
muita
gente.
E
fabendo
o
que
era
paílado
,
ficou
enfadadiflimo.,
e-apai-
|
xo-
es
Do.
Vl
py
VISCASH.
13
xonando-fe
contra
o
filho,
não
lhe
queren=
do
efcutar
razões,
tomando-lhe
a
gente
que
trazia,
lhe
mandou
,
que
fe
fofle
pera
Adém;,
e
que
não
entrafle
na
Cidade
fem
o
Capi-
tão
dos
Portuguezes
o
ir
bufcar,
e
o
levar
pela
mão
até
o
pôr
na
fua
eftancia
;
e
que
não
fizeíle
fenão
o
que
lhe
elle
mandafle.
Deípedido
o
Principe;
foi
ElRey
mar-
chando
pera
a
fortaleza
dos
Turcos,
eo
Principe
pera
Adém.
Aquella
noite
que
fe
ElRey
partio,
fe
recolheo
D.
Paio
de
No-
ronha
nos
Paços
com
alguns
Portuguezes
,
e
toda
a
noite
ouviram
por
toda
a
Cidade
grande
revolta
,
e
muitos
gritos,
e
alaridos;
e
andar
a
gente
pelas
ruas
de-huma
parte
pera
a
outra
,
o
que
embaraçou
muito
os
noflos,
pornão
faberem
o
que
aquillo
era,
e
toda
a
noite
eftiveram
com
as
armas
nas
mãos
na
mór
confusão
,
e
temor
que
podia
fer.
Tantos
que
amanheceo
,
não
fazendo
D.
Paio
difeurfo
,
nem
confideração
algu=
ma,
e
lem
mandar
faber
o
que
aquillo
eras,
fe
fabio
dos
Paços
,
e
fe
foi
embarcar
na
fua
galeota
,
e
della
mandou
recado
a
Pero
Fer-
nandes
de
Carvalho
,
e
aos
mais
que
elta-
vam
nas
eflancias,
que
fe
recolheflem,
co-
mo
fizeram.
Ito
fentiram
os
filhos
de
EL
Rey
muito,
porque
eltavam
com
elles
fe-
guros,
e
defeançados.
À
|
Ao
outro
dia
chegou
á
porta
da-Cida-
|
“de
14
ASIA
DE
Droco
DE
Covro
de
o
filho
mais
velho
de
ElRey
,
e
nãó
quiz
entrar
dentro
,
fenão
pela:
ordem
que
feu
pai
lhe
tinha
dado
;
pelo
que
mandou
recado
à
D.
Paio
de
Noronha,
de
como
era
chegado
,
pedindo-lhe
o
foffe
recolher
na
Cidade,
porque
não
podia
entrar
nella
fem
elle,
por
aflim
lho
ter
feu
pai
mandado.
D.
Paio
fe
lhe
mandou
efeufar
com
fe
fin-
gir
mal
difpoflo;,
mandando-lhe
dizer,
que
mui
bem
podia
entrar
na
Cidade,
pois
era
fua.
Sobre
ifto
tornou
o
Principe
a
lhe
man-
dar
dizer
,
que
todavia
elle
não
havia
de
trafpaílar
os
mandados
de
(eu
pai,
nem
ha
via
de
entrar
fem
elle
;
e
fobre
ifto
corré-
ram
recados
de
parte
a
parte
por
quatro
ve-
“zes,
fem
D.
Paio
querer
defembarcar.
Ven-
do
o
Principe
aquillo:,
entrou
na
Cidade,
é
fe
foi
metter
na
eflancia
do
pai
com
feus
criados
,
e
apaniguados.
"Tanto
que
anoite-
ceo,
mandou
D.
Paio
a
Antonio
de
Figuei-
redo,
e
a
Pero
Fernandes
de
Carvalho
com
os
foldados
de
fua
companhia;
que
fe
fof
em:
pera
a
eftancia
do
Principe,
e
que
tan-
to
que
fole
manhã,
logo
fe
recolheflem
ao
navio,
onde
elle
fe
deixou
ficar.
Ifto
foi
con-
tinuando
muitos
dias
,
fem
D.
Paio
defem-
barcar
nelles,
com
ter
cada
dia
muitos
te-
cados
do
Principe,
e
com-alguns
Cavallei-
ros
honrados
de
fua
companhia
lhe
fazerem
algumas
lembranças
de
fua
honra,
determi.
7
É
nan-
Dre
VE
Liv.
VI
Cap:
DI
13
nando
efperar
alli
no
mar
recado
do
Gover-
mador
,
porque
houve
por
fem
dúvida
que.
lhe
fariam
traição.
HE
A
Pops
UsdO
De
como
ElRey
de
Camphar
commetteo
os
Turcos:
e
de
como
foi
morto
em
bum
af
Jatto,
e
os
Turcos
foram
cercar
a
Cida-
-
de
de
ddém::
e
domais
que
lhe
aconteceos
É
LRey
de
Camphar
tanto
que
fe
apar=.
—“
tou
do
filho,
como
difíemos
no
Capis
tulo
atrás,
foi
marchando
pera'a
fortaleza
dos
Turcos,
que
logo
foram
avifados
de
fua
ida,
e
eftavam
recolhidos
nella.
E
chegan-
do
ElRey'a
ella,
lhe
poz
cerco
á
roda;
e
a
commetteo
com
muita
determinação
por
alguns
dias,
havendo
fempre
mortes
,
é
da=
-
mnos
de
ambas
as
partes.
ElRey
como
era
muito
animofo
;
e
bom
cavaleiro,
deter=
minou
de
averiguar
aquelle
negocio
depref-
fa,
e
mandou
pera
efte
sffeito
fazer
muitas
efcadas,
pera
metter
todo
o
cabedal
naquel-
le
derradeiro
affalto.
Etendo
tudo
“preítes,
commetteo
a
fortaleza
comgrande
furia,
“e
animo
,
rodeando-a
de
efcadas,
e
commer-
tendo
“os
Camphares
4
fubida
mui
animofa-
“mente;
mas
todavia
como
o
haviam
com
Turcos,
homens
tão
experimentados
na
guer=
Ta,
etão
curfados
nos
trabalhos,
aum
es
4
16
ASIA
pe
Drioco
pE
Covro
lhes
muitas
mortes,
e
feridas,
mas
não
fem
damno
feu.
ElRey
de
Camphar
andava
ani-
mando
os
feus,
fazendo-os
fubir,
e
acudin-
do
as
partes
mais
neceílarias;
e
em
fim
tan-
to
trabalhou,
que
cavalgáram
os
feus
o
mus
ro,
travando-fe
em
fima
huma
afpera
bata-
lha.
Mas
quiz
a
ventura
dos
Turcos,
que
fe
défle
huma
efpingardada
em
ElRey
de
Camphar,
de
que
cahio
logo
morto.
Os
feus
tanto
que
o
viram
afim
,
perdendo
o
ani-
mo,
torndram
a
alargar
os
lugares
que
ti-
nham
ganhado
,
e
fe
recolhêram
a
feu
ar-
raial
com
bem
de
damno.
E
fem
tratar
mais
de
Adém,
foram
logo
caminhando
pera
Cam-
phar,
fem
lhes
lembrar
que
deixavam
o
feu
Principe
naquella
Cidade
;.
porque
eftavam
certo
irem
os
Turcos
comefta
vitoria
a
cer-
callo
,
ficando
tão
defcoraçoados
,
que
neim
mandáram
avifar
o
Principe,
nem
tratáram
de
mais,
que
de
fegurarem
fuas
vidas.
“As
novas
da
morte
de
ElRey
,
ou
hu-
ma
fama
Íurda
della,
chegou
a
Adém
,
fem
fe
faber
como,
nem
por
onde,
e
aflim
che-
gáram
às
orelhas
do
Principe
,
que
as
en-
cubrio
o
melhor
que
pode,
porque
receou
que
os
Portuguezes
o
defamparafle
,
e
que
“todos
os
da
Cidade
fe
levantaflem
contra
el-
le.
Não
deixou
de
chegar
a
D.
Paio
de
No-
ronha
hum
rumor
defte
negocio,
com
que
fe
embaraçou
,
e
mandou
perguntar
ao
Prine
-
Cl=
Dec.
VI.
Liv.
VI.
Car.
HE.
fz
cipe
,
que
novas
tinha
de
ElRey
feu
pai
s.
elle
lhe
mandou
dizer,
que
muito
boas;-e.
todavia
indo-fe
ellas
declarando
mais,
lhe.
tornou
a
mandar
dizer
,
que-Ífe
era
verdas
de
que
ElRey
era
morto,
lhonão
negaíle
,
porque
foubeile
certo,
que
fetal
fizeífe;,
que
fe
iria.
Vendo-fe
o:
Principe
apertado
;
lhe
mandou
dizer
em
fegredo-a
verdade
de
tu+
do,
e
que
por-lhe
parecer
aflim
neceflário
,
e
por
os
Íeus
fe
não
alterarem;,
o
tinha
'en-
cuberto
,
e
que
illo
havia
elle
tambem
de
fazer,
por
não
darem
animo
aos
naturaes
pe
ra
tratarem
alguma
alteração
;
porque
o
tem-
po
não
eltava
pera
nojos,
nem
pera
deícon-.
faças.
a
“o
Jto
fez
algum
abalo
em
D.
Paio
de
Nos
ronha;
mas
já
lhe
era
neceflario
efperar
res
cado
do
Governador,
como
lhetinha
eferi-
to.
Os
Turcos
tanto
quevíram
o
arraial
dos
inimigos
levantado-,
mandando-os-
efpiar
,
fabendo
de
certo
que
fe
hiam-pera
Cam-
phar,
foi
o
feu
alvoroço
grande;
porque
bem
entendêram
que
em
Adém
havia
de
ha=
ver
alguma
mudança
com
as
novas
da
mor-=
te
de
ElRey
,
e
alguns
defconcertos
antre
os
filhos.;
e
não
querendo
perder-
tão
boa
occafião
,
foram
logo:
pôr:
cerco
á
Cidade,
amanhecendo
hum
dia
fobre-ella.
-D,
Paio
-de
Noronha
foi
avifado
difto:;
e
mandou
dizer
ag
Principe,
que-à
primeira
confa
que
Conto,
Tom
III.
Pai.
Br
18
ASIA
pr
Diogo
DE
CovTo
havia
de
fazer
,
era
mandar
arrecadar
em
“boa.
prizão
aos
vinte
e
finco
Turcos,
que
ferviam
de
bombardeiros
,
ainda
que
pera
mais
fegurança,
era
melhor
mandar-lhes
cor-
“tar
as
cabeças
pelos
não
vigiarem.
O
Prin-
-cipe
osmandou
logo
metter
em
huma
for-
te
mafmorra
,
ea
chave
della
mandou
en-
“tregar
a
Pero
Fernandes
de-Carvalho.
Os
“Turcos
começáram
a
dar
muitos;
€
mui
continuos
aflaltos
á
Cidade,
ainda
que
não
tinham
altilheria,
mas
tinham
muitos,
e
mui
groffos
mofquetões
,
que
afleftavam
fobre
pontaletes,
amparados
com
huma
ro-
cha:
que-eftava
perto,
donde
os
defparavam
nos
muros,
e
baluartes
,
com
que
derriba
vam
muitos;
e
da
banda
da
praia
de
baixa
“gar
faziam
o:
mefmo.
À
todos
eftes
rebates
acudiam
Pero
Fernandes
de
Carvalho,
e
An-
tonio
de
Figueiredo
com
feus
foldados
,
que
-
Suftentavamo
pezo
todo,
rebatendo
os
int
migos
,
e
animando
aos
naturaes.
O
Princi-
pe,
e
feus
irmãos
moftráram
fempre
muito
grande-animo
,-pelejando
,
e
animando
os
“jÍens
nas
efancias
em
que
ellavam.
D.
Paio
-de
Noronha
a
alguns.
aflaltos
que
houve
a
«preflados,
Ífahio
a
terra,
e
acudio
a-elles;
mas
'paflados
tornou-fe
a
embarcar.
Os
Tur
“tos,
que
eram
homens
que
fe
não
defcuida-
vam
de
couía
alguma,
tiveram
algumas
im.
-telligencias-
com
alguns
dos
naturaes
;
que
E
É
“guar-
Dec
VicLity
VLC
api
TA
49
guardavam
algumas
eftancias
,
peitando-os
grandemente
pera
lhe
darem
entrada;
e
de
tal
maneira
tratáram
eftas
coufas,
que
as
le-
váram
ao
cabo,
concertando
de
em
hum
dia
limitado
lhes
darem
de
noite
entrada
,
como
fizeram.
É
pera
divertirem
os
noílos;,
commettêram
o
baluarte
do.
Principe
,
em
que
eltava
Pero
Fernandes
de
Carvalho,
com
grandes
gritas
;
e
eftrondos:
E
eftando
a
coufa
embaraçada
.na
briga,
deram
os
na-
turaes
entrada-a
Marzam
,
que
com
duzen-
tos
e
fincoenta
Turcos
foi
mettido
dentro
na
“Cidade
por-huma
porta
,
fem:
os
fentir
al-
guem
,-e-deixou-fe
ficar
da
banda
de.
den
“tro,
ou
porque
fenão
atreveo
a
entrar,
ou
por
efperar
pela:
manhã
,
porque
era
já
no
quarto
d'alva.
.
E
Na
eftancia
do
Principe
fe
pelejava
com
muito
valor;
laborando:
a
efpingardaria:
dos
-noflos,
com
que
derribáram:
alguns
Turcos.
A:
manhã
vinha
já
efelarecendo
,
e
os
Ca-
pitães
“Turcos,
que
elfavam
noaffalto,
não
fabiam
«o
que
era
acontecido
a
Marzam:,
porque
não
fentiam
revolta
na
Cidade,
o
-que
os
embaraçou.
muito.
Os
que
eftavam
dentro
foram
fentidos
,
e
correo
logo-hu=
ma
voz
pelas
eftancias
,
que
eram
“Turcos
entrados
na
Cidade
,
a
que
acudíram
alguns
Fartaquins
pera
aquella
parte,
por
onde
-di-
«quam
que
eftavam.
Na
eftancia
do
Principe
es
SD
a
-
foi
29
ASIA
pe
Drogo
ne
Covo
foi
fentida“a
confusão
,
fem
fe
faber
coufa
al-
guma;
e
fahindo-fe
Pantaleão
da
Maia
pe
ra
ir
vero
que
era”,
foi
ajuntando
alguns
Fartaquins,
e
chegando
áquella-
parte,
que
vio
os
Turcos
dentro
;
que
começavam
a
arrebentar
(
porque
já
efclarecia
a
manhã)
não
defmaiou,
nem
moltrou
fraqueza,
an-
tes
-com
muito
animo
remetteo
com
elles,
bradando
por
Sant-Tago
;
e
com
illo
os
eme
baraçoú
de
feição
,
que
os
deteve
,
fendo
“mui
bem
ajudado
de
fincoenta
,
ou
feffenta
Fartaquins
,
que'
pelejáram
valorofamente,
Pantaleão
da
Maia
apertou
tanto
com
elles,
que
osfez
outra
vez
acuar,
etornar
ao
ly
gar
emque
dantes
eftavam,
pondo-fe
ás
ef
pingardadas
com
elles
,
não
defparando
ti-
ro
que
não
matafle
algum.
As
novas
diflo
corréram
logo
por
toda
a
Cidade.,
a
que
acúdio
Pero
Fernandes:
de
Carvalho
com
al:
guns
Portuguezes,
pedindo
ao
Principe,
que
de
não:
bulife
de
faa
eftancia
;
e
ajuntando
toda
a:
gente
que'
pelo
caminhoachou
=,
foi
correndo
aquella'
parte
,
onde
achou
Panta-
leão
da
Maia
ás
efpingardadas
com
os'Tur-
cos,
é
dando
nelles
com
grande
furia
,
os
fo
ram
“levando
;-matando
daquele:
primeiro
impeto
oitenta
;
e
os
mais
fe:
deitáram
pe
los
muros-abaixo
fobre
as
rochas
»
que
da
quella
parte
havia,
em:
que
fe
alguns
efpe.
daçáram
;
ficando-lhes
alli
fuas
armas
,
que
se
possa
os
bes
VE
LáyoVi
Cóp
21
-Os
Fartaquins
recolhêram
,
que
ainda
que
tos
-
dos
pelejáram
nefte
trance
muito
valorofa-.
mente,
todavia
a
honra,
e
gloria
defta
yi-
toria
fe
deve
a
Pantaleão
da
Maia,
porque
“elle
foi
a
unica
occafião
della.
Os
Turcos,
que
eltavam
no
aflalto
,
tendo
as
novas
do
que
tinha
acontecido
ao
Baxá
Marzam
,
fe
recolhêram
muito
triftes
pera
fuas
tendas;
€
tanto
que
foi
noite,
levantáram.
o
campo;
e
“Je
foram
metter
na
fortaleza,
onde
primei-
ro
ellavam
com
mais
de
cento
menos.
-
Tamo
que
ao
outro
dia
amanhecéo;,
que
Os
noflos
tiveram
rebate
de
ferem
os
inimi-
-gosrecolhidos,
difle
Pero
Fernandes
de
Car-
valho
ao
Principe,
que
fahifle
ao
campo
;-e
feguille
os
inimigos,
que
hiam
desbarata-
dos,
que
eftava
certa
a
vitoria.
O
Principe
O
fez
afim,
levando
todos
os
Portuguezes;,
e
foi
mais
de
huma
legua
fem
os
poder
en-
contrar.
E
voltando,
chegou
ao
arraial
dos
Urcos,
onde
acháram
muitos
mortos,
e
al-
“guns
feridos
tão
mal,
que
os
não
pudéram
“devar,
O
Principe
mandou
pôr
a
tudo
o
fo-
-
805em
que
fe
tudo
confumio.
D.
Paio
de
Noronha
,
que
eftava
embarcado
,
mandou
“Vifitar
o
Principe
;
e
dar-lhe
os
parabens'da
Vitoria,
e
dizer-lhe,
que
os
Turcos
que
ef-
tavam
prezos
lhes
mandaffe
logo
cortar
as
-
cabeças
,
porque
não
ficalle
daquella
gente,
-
Que
era.
perverfa
,
algum,
vivo.
O
Principe
|
RESO)
|
22
ASTA
pe
Droco
nE
Covro
o
fez
logo
afim
,
mandando-os
matar
,
€
lançar
no
fogo,
que
andava
no
exercito,
e
fe
recolheo
á
Cidade,
onde
mandou
cafti-
gar
alguns
culpados
na
entrada
dos
Í'urcos.
Ao.
ouútro
dia
fahio
D.
Paio
a
terra
,
€
foi
vifitar
o
Principe,
e
lhe
dife,
que
de-
via
mandar
recado
a
Camphar
a
fazer
gen-
te,
pera
ir
commetter
a
fortaleza
dos
Pur-
cos,
e
acaballos
de
deftruir
de
todo
,-e
lan-
gallos
fóra
daquellas
terras
,
porque
com
o
medo
que
levavam,
não
haviam
de
efperar.
Ao
Principe
pareceo
bem
aquelle
confelho,
e
mandou
hum
criado
feu
em
huma
embar-
cação
pequena,
e
ligeira
,
e
com
elle
hum
“Íoldado
,
chamado
Francifco
Vieira
,
pera
fazer
dar
preíla
aquelle
negocio
,
ficando
o
Principe
provendo
na
guarda,
e
defensão
da
Cidade
,
que
tudo
carregava
fobre
os
nof-
os.
.
EA
Pp
[E
EEB
O
IV.
Do
recado,
que
o
Governador
D.
João
de
Cafiro
teve
de
Adém:
e
de
como
mandou
Jeu
filho
D.
Alvaro
de
Cafiro
de
foccor-
ro:
e
das
galés
dos
Turcos
,
que
fabiram
de
Moça
em
favor
dos
feus:
e
do
que.
D.
Paio
fez.
|
Po
Diogo
Correa
de
Adém
,
com
|
o
cunhado
de
ElRey
de
Camphar,
que
.
levavam
recado
ao
Governador,
como
fica
|
Dre:
VE
Liv.
VI
Cap,
IV.
23
dito
no
fegundo
Capitulo
defte
fexto
livro,
como
hiam
com
monção,
foram
na
entra-
da
de
Janeiro
tomar
a
cofta
da
India;
e
fa-
bendo
eltar
o
Governador
em
Baçaim,
fo=.
ram
demandar
aquella
Cidade
,
onde.
def-
embarcáram
,
mandando
o
Governador
-re=
ceber
o
cunhado
de
ElRey
mui
bem
,-e
lhé
fez
muitas
honras,
e
gazalhados.
E.
vendo
as
cartas,
e
fabendo
o
que
era
fuccedido
,
e
como
a
Cidade
de
Adém
eftava
por
El-
Rey
de
Portugal,
ficou
muito
alvoroçado,
e
o
houve
por
grande
ventura
fua
,
tendo
muitos
cumprimentos
de
ElRey
,
mandan-
doio
agazalhar
,
e
dar-lhe
todo
o
neceflario.
O
Governador
mandou
logo:
chamar
feu
filho
D.
Alvaro
de
Caftro,
e
lhe
dife,
que
fe
fizele
preftes
pera
acudir
áquelle
negocio
com
muita
brevidade.
As
novas
corrêram
lo
go
pela
Cidade,
que
caufavam
em
todos
grande
alvoroço,
acudindo
todos
os
Fidal-
gos;
e
Capitães
a
fe
oferecerem
ao
Gover-
nador
pera
aquella
jornada,
o
que
elle
efti-
mou
muito,
fazendo
logo
rol
dos
que
ha-
viam
de
ir
nella,
indo-fe
pôr
na
praia
a
dar
Ordem
à
Armada
,
que
havia
de
mandar.
E
antre
todos
os
navios
de
remo
eftolheo
trin-
ta,
Os
melhores
negociados,
que
logo
man-
oucifrar,
concertar,
eaperceber
de
todo
o
necellario
,
nomeando
os
Fidalgos
que
ha-
vam
de
ir-nelles
;
que
eram
os
feguintes
=
“24
ASENDE
Droco
DE
Couro
D.
Antonio
de
Noronha,
filho
do
Vifo-
|
Rey
D.
Garcia
de
Noronha,
Antônio
Mo-
-niz
Barreto
;
que
diziam
que
hia
nomeado
por
Capitão
de
Adém,
D.
Pedro
Deça,
D.
Fernando
Coutinho,
Pero
de
Taíde
in
|
ferno,
D.
João
de
Faldes
Alvaro
Paes
de
É
dinheiro
+
mandou
carregar
huma
caravella
Sotto-Maior
»
Fernão
Peres
de
Andrade,
Pes
telho
do
Infante
D.
Luiz
,
Luiz
Homem,
Alvaro
Serrão
,
Belchior
Botelho,
Veador
To
Lopes
de
Soufa,
Ruy
Dias
Pereira,
Pe.
“10
Botelho
o
Porca
,
irmão
de
Diogo
Bo-
da
Fazenda,
que
hia
pera
os
negocios
das.
quella
Cidade
;
Gomes
da
Silva,
+
Antonio
da
Veiga,
Luiz
Alvares
de
Soufa
,
João
Ros.
drigues
Correa
,
Diogo
Correa
,
o
mefmo
que
veio
de
Adém,
Diogo
Banha,
hum
ca-
tur
de
Pero
Preto,
“Alvaro
da
Gama
:
Fei-
:
tor.
da
Armada,
e
outros.
E
porque
o
Governador
eftava
falto!
de
de
drogas
pera
as
defpezas
da
Armada,
(porque
valiam
na
cofta
de
Arabia
muito;)
|
de
que
fez
Capitão
André
de
Aguiar.
E
man-
tos,
de
que
fez
Capitão
Affonfo
Jorge.
“Andando
o
Governador
dando
preía
à
Armada,
chegou
áquelle
porto
hum
navio
dou
carregar
outra
caravella
de
mantimen-
da
outra
coíta
de
Arabia,
em
que
vinha
|
hum
Embaixador
de
ElRey
de
Caxém,
que
|
Q
Governador
mandou
defembarcar
SE
Pee
|
var
“aDxe.-VE
Eiv.
VI
Cal
IV.
25
“var
diante
de
fi.
Elle
fe
humilhou
a
feus
pés,
“
dando-lhe
cartas
que
lhe
ofeu
Rey
mandou,
“em
que
lhe
dizia
:
»
Que
confiado
em:
fer:
»
grande
fervidor
de
ElRey
de
Portugal
;-e
“a'muito
antigo
amigo-do
Eltado
da
Índia,
»
lhe
mandava
pedir
ajuda
,
e
foccorro
pe-.
“ara
tornar
a
cobrar
parte
do
feu-Reyno:,.
“»
que
ElRey-
do
Fartaque
few
vizinho
lheti-.
»
nha
tomado
;
que
lhe
pedia
puzefle
osolhos
-»em
fua
neceflidade
,
e
lhe
quizeíTe
-
valer
»rella
,
porque-não
acabafle
de
perder'o
»
Reyno
,
em
que
todos
os
Portuguezes
,
'que
»
por
alli
paflavam
,
achavam
gazalhado,
e
“»
recolhimento.
»
O
Governador
diffe
ao
Em-
“baixador
,
que
tudo
o
em
que
pudeffe
aju-
“dar,
e
favorecer
a
ElRey
feu
Senhor,
o
fa-
ria.
E
que
fora
ditofo
em
fucceder
o
nego-
“ciode
Adém,
e
em
mandar
lá
aquella
Ar-.
mada,
porque
teria
o
foccorro
mais
depref-
fa;
mandando-lhe
que
fe
agazalhaffe;,
e
ne-
facial
»
porque
-a
Armada
havia
de
partir
opor
sas
SEA
O
Governador
vendo
que
era
muito
úe-
cellario
acudir-fe
a
Adém
com
muita:
pref-
fa,
é
que
feu
filho
D.
Alváro
de
Caftro
era
“forçado
deter-fe
alguns
dias.
por
caufa
dos
Provimentos
da
Armada,
defpedio
com
mui-
ta
prela
D.
João
de
Taíde:
com
quatro
“na-
“vios,
de
que
eram
Capitães,
afóra
elle,
-Gos
“mes
da
Silva,
Antonio
da-Veiga:,
e
outro,
7
a
26:
ASIA
pe
Diogo
DE
Covro
a
que
não
achámos
o
nome;
dando-lhe
por
regimento,
que
fe
mettefle
na
fortaleza
de
Adem
até
chegar
feu
filho.
Eftes
navios
de.
ram
á
véla,
e
por
lhes
dar
o
Noroelte
grof
fo,
defapparelhou
hum,
de
cujo
Capitão
não
achâmos
o
nome,
e
foi-lhe
forçado
tornar-
fe
pera
Baçaim
:
os
mais
foram
Ífeguindo
fua
jornada
,-em
que
os
deixaremos
até
tornar
a
elles.
*-
O
Governador
ficou
dando
preíla
á
mais
Armada,
que
defpedio
alguns
dez
dias
de-
pois
de
fe
partir
D.
João
de
Taíde
,
dando
grandes
regimentos
a
feu
filho,
e
encommen-
dando-lhe
muito
,
que
reftituifle
ElRey
de
Caxem
a
feu
Eftado;
e
mandou
embarcar
o
cunhado
de
ElRey
de
Adém
com
D.
Antos.
nio
de
Noronha
,
muito
fatisfeito”;
e
con:
tente,
mandando
áquelle
Rey
muitas
peífas
“ricas,
e
curiofas;
e
o
Embaixador
de
Ca-
xém
fe
foi
no
feu
navio,
muito
encommen-
dado
a
D.
Alvaro
de
Caftro.
Dada
elta
Ar-
mada
à
véla,
foi
feguindo
fua.
viagem,
em
que
a
deixaremos,
porque
he
neceflario
con-
tinuarmos
com
as
coufas
de
Adém.
-
D.
Paio
de
Noronha
(como
aflima
dif.
femos)
efteve
fempre
embarcado
,
efperan-
do
por
recado
de
Ormuz,
aondetinha
man:
dado
huma
champana
com
cartas
ao
Capi-
tão,
em
que
lhe
dava
conta
de
todasas.
coufas
fuccedidas
até
então,
e
lhe
pedia
lhe
|
E
man-
Dro-VL=ErveNL-Cap
IV.
27
mandafle
gente,
munições
,
e-mantimentos:
.
E
eltando
alli,
fahio
da
boca
do
Eftreito
hu=
ma
naveta,
que
fe
for
chegando
pera
a
ba-
hia.
D.
Paio
a
foi
demandar
,
e
della
fou-
be
ter
do
Guazil
de
Ormuz,
enão
lhe
fou-
beram
dar
razão
,
nem
novas
de
Moçá
,
nem
:
de
Suéz,
porque
vinha
dos
portos
do
Abe-
xim
,
e
fazendo-a
fyrgir
em
huma
enceada;
antes
de
chegar
a
Adém,
fe
tornou
ao
por-
to,
e
mandou
recado
ao
Principe
da
embar-
cação
,
porque
já
fe
tinha
viflo
da
fortale-
za.
Elte
Ea
dia
fobre
a
tarde
teve
Dom
Paio
recado,
que
apparecia
outra
embarca-
ção,
e
mandou
Pantaleão
da
Maia,
que
a
fofle
reconhecer
de
fima
de
huma
guarita
al-
ta
,
donde
fe
afirmou
fer
galé,
e
aflim-o
dife
ao
Principe,
que
logo
mandou
metter
na
naveta
do
Guazil
quarenta
efpingardei-
ros.
Pouco
depois
derâm-
duas
almadias
re-
cado
a
D.
Paio
,
que
appareciam
duas
ga-
lés
de
Turcos,
com
o
que
ficou
fobrefalta-
do
;
mandando
pedir
ao
Principe
,
que
o
provelle
de
gente,
como
fez,
com
fincoen-
.
ta
Fartaquins
,
que
mandou
embarcar
em
hum
tarranquim
,
que
alli
eftava,
de
que
fez
Ca-
pitão
Chriftovão
das
Neves
;
e
fazendo-fe
preítes
na
fua
galeota
com
todos
os
Portu-
Buezes
que
mandou
recolher
;
foi
bufcar
a
terrada
do
Guazil
pera
a
recolher
ao
por-
to;
e
chegando
a
ella
aachou
mui
creípa;
É
É
e
'28
ASIA
DE
Droco
DE
Covro
e
póltos
os
Mouros,
que
eram
perto
de
cen-
“to,
em'armas
pera:
fe
defenderem
das
ga-
Jés,-
que
já
viam,
e
vendo
os
noflos,
deram
grandes
apupadas
de
alvoroço.
As
galés
,
que
“eram
pequenas,
huma
vinha
aterra
a
remo,
-e
a
outra
ao
mar
ávéla.
Elta
vendo
os
nof-
Jos
navios,
com
muita
preífa
ferrando
do
remo
fe
foi
chegando
pera-a
outra,
que
já
a
hia
demandar.
D.
Paio
deo-toa
á
naveta
do
Guazil,
e
foi-fe
fahindo
da
enceada
,
e
as
galeotas
o
hiam
feguindo
;-
o
que-vilto
e
por
elle,
poz
em
parecer
de
todos.
os
Por-
tuguezes
fe
pelejaria
com
as
galeotas
;,
di
zendo-lhes,
que
eram
pequenas,
e
que
nas
quellas
tres
embarcações
que
tinham
havia
“muita
gente.
Os
companheiros
lhe
difleram,
“que
fe
recolhefle.
a
Adém,,
que
lhe
eftava
entregue
;
e
que
defendeflem.
até
morrerem
todos
Íobre,
ella:
Com
iflo.
fe
foi
D.
Paio
:
Tecolhendo
pera
a
bahia
,
vindo
já
as
ga-
-
Jeotas
a
tiro
de
camello.
7
Eq
Recolhido
-D.
Paio
,
mandou
com
mui-
“ta
prefla
deitar
ao
mar
huma
galeota
de
tres,
que
ellavam:
varadas
de
longo
da
couraça
,
-e
a
provêo
de
artilheria,
que
lhe
mandou
o
“Principe,
com
muitas.
munições
,
e
a
entre-
-80u
à
Chriltovão
das
Neves,
com
os
Farta.
“quins,
que
lhe-o
Principe
tinha
mandado
;
e
ajuntando
os
Portuguezes
todos,
Iltes.
dif-
fe;
que
elle
fem
embargo
de
tudo
determi-
Naás
j
Dec.
VI.
Liv:
VI
Cap:
1V..29
nava
de
pelejar
com
as
galés
,
(que
foram:
furgir
na
enceada,
onde
eflava
a
naveta,).
porque
pera
iflo
tinha
aquellas
duas
galeo-.
tas
cheias
de
muito
boa
gente
,
é
a:
naveta
do
Guazil,
que
fe
offereceo
pera
o
acom=
panhar.
Atodos
pareceo
bem,
etoda
aquel-.
la
noite
fe
preparáram
de
pelonros
,
e-pol-.
vora;
etanto
que
amanheceo
,
tomáram
o
re-.
mo
em
punho,
e
foram
demandar
a
encea-.
da
até
onde
as
galês
fetinham
recolhido
;-e
|
antes
de
chegarem,
as
víram
fahir
de
dentro.
com
huma
galé
Real
mais,
que
aquella
nois:
te
fe
foi
ajuntar
aellas.
Vendo
D.
Paio
quão:
deligual
partido
ficava
tendo
,
fe
tornou
a
res.
colher
pera
a-bahia.
RH
Às
galês
furgiram
fóra
da
enceada,
on-
de
elliveram
finco
,
ou
feis
dias,
em
que
fe
ajuntáram
a
ellas
mais
oito
galés
mui
for-
mofas.,
e
outras
quatro.
galeotas
,
que
to-
maram
O
remo
,
e
pafláram
de
largo.
por
de-
fronte
da
Cidade,
e
foram
furgir
em
outra
enceada
adiante
de
Adém
,
onde
havia
obri-
gada
dos
Levantes,
que
ventavam.
rijo,
def-
emmaiteando-fe
,
e
armando
fuas
tendas,
co-
mo
quem
queria
eftar
devagar.
Dallimandou
o
Baxá.,
que
nellas
vinha;
recado
aos.
Tur-
“Cos
que-eftavam:
na
fortaleza,
e
huma:
come
Panhia-mais
deduzentos
homens,
pera
que
foflem,
pôr
cerco
a
Adém
,
como:
logo
fize=
Tam;
tanto:
que:
fe
lhe-deo.
E
partindo
-
Rus
2,
30
ASIA
pe
Diogo
dr
CóvrTo
la
;
vieram
aflentar
feu
arraial
á
viftadosmy-
ros
,
commettendo-os
por
aílaltos
algumas
vezes,
achando
fempre
grande
refiftencia
nos
noflos;
porque
fempre
D.
Paio:
mandou
af.
fiftir
Pero
Fernandes
de
Carvalho
na
eflan-
cia
do
Principe,
por
não
defamparar
tudo
de
todo.
O
Baxá
das
galés
mandou
defem-
barcar-algumas
peças
de
artilheria,
pera
ba-
tarem
a
Cidade.
da
banda
do-certão,
e
an»
tre
ellas
foi
huma,
que-lançava:
pelouro
de
tres:
palmos
e
meio
de
roda;,
que
fe
affef-
tou
em:
hum:
morró.,
que
ficava
fendo:
pa-
drafto
da
fortaleza,
donde
a:
começou
a
ba-
ter
rijamente;
lançando-lhe
dentro
muitos
pe-
louros,
de
que
recebêram
aílás
de
damno.
6
ASAS
INTO
dO
io
De
como
D.
Paio
de
Noronha
fe
foi
fecre-
“tamente
de
Adém:
e
os
Turcos
entráram
“
aquella
Cidade
,
e
matdram
ao
Princi-
pe,
e
feus
irmãos:
e
do
que
aconteceo
à
“D.
João
de
Taíde
na
jornada
:
e
de
co
mo
os
Turcos
the
corrêéram.
Eat,
Endo
o
Principe
as
rijas
batarias:
que
lhe
davam,
e
o
damno
que
faziam
ca-
|
da
dia
de
mortos,
e
feridos,
eo
medo
que
|
todos:
os
naturaes
moflravam,
fe
houve
por
perdido;
e
mandou
pedir
a
D.Paio,
que
o
nr
apego
quizelle
ver
,
porque
tinha
muitas
coufas
|
:
que
Dec.
VÊ
Liv.
VI.
Cap
V.
3
que
tratar
com
elle.
D.Paio
o
fez,
indo
á
eftancia
em
que
elle-eftava;
O
Principe
lhe
deo
conta
de
tudo
o
que
paflava,
pedindo-
lhe;
que
paflaffe
com
todos
os
Portuguezes
pera
aquellas
cftancias
,
e
que-o
ajudaffe
a
defender
aquella
Cidade
,
que
era
de
ElRey
de
Portugal.
D.
Paio
lhe
diffe
que
fi,
e
deis
xou-fe
ficar
aquelle
dia
com
elle
,
em
que
os
Mouros
foram
continuando
com
fua
bas
taria
,
mettendo
aquella:
peça:
groffa
muitos
pelouros
dentro
na'Cidade.
D.
Paio
como
a
não
tinha
vio
,
e
vio'o
eltrago
que
fazia
todas
as
vezes
que
tirava,
houve
aquelle
ne-
*
gocio
por
muito
arrifcado
;
e
diilimulando
,
tanto
que
foi
fobre
a
tarde,
que
a
bataria
ceílou,
foi-fe
elle
recolhendo
pera
a
fua
em-
barcação
,
eelcreveo
hum
eferito
a
hum
fol-
dado,
por
nome
Diogo
Vaz,
de
fua
obrie
gação
,
em
que
lhe
dizia:
»
Que
tanto
que
a
aguelle
ville,
déffe
recado
em
fegredo
a
»
todos
os
Portuguezes
,
pera
que
depois
que
»anoitecefle
fe
recolheflem-
aos
navios
de
»
dous
em
dous”,
fem
fazerem
alvoroço;
»
O
que
todos
fizeram.
Sómente
hum
Manoel
Pereira,
que
diffe
que
aquella
Cidade
era
de
ElRey:
de
Portugal,
que
a
não
havia
de
largar,
nem
havia
por
onde;
deixando-fe
fi-
car
no
baluarte
do
filho
mais
moço
de
El-
Rey,
onde
eftavam
recolhidos
todos
osfole
“dados,
D,
Paio
fe
fahio-da
bahia
de
“a
em
22:
ASTA
DE.
Diroso
DE
Covro
:
fem:
o.ninguem
faber.,
e
dando
á
véla,
fe
fez.
“na
cofta
do
Abexim
por
fe
defviar
das
ga.
lés.:
Ao
outro:
dia
foi
o
Principe
avifado
de
“Suacida,
o
que
fentio
em
eftremo;
mas
en.
cubrio-o
aos
Íeus
o
melhor
que.
pode
scanig
“fim
por
não-haver
alteração
nos
naturaes
,
como.
poros
Turcos
o
não
faberem;,
(
pot-
que
fó
a
fama
deeftarem
os
Portuguezes
na-.
quella
Cidade
lha
fazia
inexpugnavel,
e
ac-
“commettiam
com
defconfianças.
)
Não
dei-.
xaáram
elles:
de
continuar
nas
-Íuas
batarias,
em
que
Manoel-Pereira
fez
coufas
de
hor
mem
de
grande
animo,
esforço;
e
honra,
correndo
.as
eftancias
,.
animando.
a
todos,
“com-lhes
fegurar,
que
não
tardaria
muito
o
foccorro
de
Goa;
com
o:que
o
Principe,
e
Os:
irmãos
já.
não
receavam
osinimigos
,
fa
zendo
tudo
.o
que.
lhes
parecia
neceffario
pe
ra
defensão:
daquella
Cidade:,
repairando-a,
“e
reedificando-a
o
melhor
que.
podiam,
pe-
Iejando
em
todos:
os
aflaltos
mui
esforçada-
“mente
,
não
os
largando
nunca
o
Manoel
Pereira,
que
era
todo
o
feu-confelho.,
pois
ques
nada.
faziam.
fem.
elle.
-
Ecerto,
que
nos
faz:
perder
o
gofto
def.
ta
eferitura.,
não
fabermos:
dar
a
conhecer
efte.
Manoel
Pereira:
por
patria
,
e-parentes,
|
porque
era
muito:
jufto,
ficafle
bem
conheci
|
do'no
Mundo:;-
mas:
coube-lhea
forte,
e
ven
|
tura
de
outros
muitos,
à
quem
o.
defeuido
po:
-
Por
Dec
VI
im
VicG
apro
33
Portuguez
,
(de
que
nos
não
podemos
dei-
xar
de
queixar
muitas
vezes,
)-tem
fepulta-
do
em
perpétuo
efquecimento.
E
não
ficará
tambem
de
todo
nelle
hum
Francifco
Vieira,
de
quem
no
Capítulo
atrás
demos
razão,
que
o
Principe
tinha
manda-
do
de
Adém
a
Camphar
bufcar
gente.
Elte
eitando-a
fazendo
naquella
Cidade,
dando-
lhe
as
novas
de
como
D.
Paio
fe
fora
de
Adém
,
largando
tudo
por
mão,
fe
embarcou
na
almadia
em
que
tinha
idos
e
de
noite
en-
trou
na
bahia
por
antre
as
galés
,
e
defem-
barcou
em
terra,
e
foi
muito
bem
recebido
na
Cidade
;
dando
conta
ao
Principe
,
de
como
deixava
alguma
gente
ordenada
pera
vir
após
elle,
e
que
não
lhe
foffrêra
o
co-
ração
efperar
por
ella
;
que
vinha
alli
offe-
tecido
ao
ferviço
de
ElRey
de
Portugal,
e
fe,
O
Principe
o
eftimou
muito
,
e
afim
elle,
e
Manoel
Pereira
fizeram,
em
quanto
durou
o
cerco,
coufas
muito
notaveis,
e
di-
gnas
de
maior
galardão,
do
que
ambos
tie
veram.
É
Havendo
vinte
e
hum
dias
que
D.
Paio
fe
tinha
ido:
de
Adém
fem
os
Turcos
o
fa-
berem,
quiz
a
defaventura
que
fugiffe
hum
dos
naturaes
da
Cidade
,
e
fe
fofle
ao
ar-
raial
dos
Turcos,
e
fendo
levado
ao
Baxá,
lhe
difle
como
os
Portuguezes
eram
idos,
€
que
a
Cidade
eftava
com
pouca
gente,
of-
“Conto.
Tem.
LIT.
P,
1d.
C
fe-
324
ÁSIA
pe
Droco
pnE
CovrTo
ferecendo-fe-lhe
pera
os
metter
dentro
nel:
la
por
hum
paflo
mui
efcufo.
Parece
que
nef
te
negocio
não
entrou
elo
fó,
mas
havia
de
ir
concertado
com
algum
dos
Capitães
de
alguma
eftancia;
porque
efta
meíma
noite
no
quarto
da
modorra
foram
mettidos
na
Ch
dade,
e
como
áquellas
horas
eftavam
todos
defcuidados,
arrebentando
pelos
baluartes
,
foram
matando
,
e
efpedaçando
a
quantos
achavam.
Sentindo
o
Principe
a
grita,
eal-
voroço,
fem
faber
o
queera,
tomou
as
ar
mas
,
e
com
os
que
o
feguíram
acudio
ao
baluarte
do
irmão
baftardo
,
onde
a
revolta
era
grande,
porque
aquelle
Infante
pelejava
com
muito
valor,
e
esforço.
E
acudindo
0
Principe
alli,
deo
com
os
Turcos,
que
vi-
nham
recrefcendo;
e
depois
de
elle
,
e
feu
irmão
terem
bem
moltrado
feu
esforço
,
e
coração,
foram
efte
Principe
,
e
feu
irmão
mortos
com
todos
osfeus,
não
fem
damno,
e
eftrago
dos
Turcos,
de
que
elles
por
fas
mãos
derribáram
muitos.
O
irmão
mais
mo-
ço
do
Principe
,
com
quem
eftava
Manoel
Pereira
,
e
Francifeo
Vieira
no
feu
baluar-
te,
tambem
foi
entrado
de
hum
número
de
Turcos,
com
quem
todos
tiveram
huma
muito
aípera
batalha,
fazendo
afim
o
Prin.
cipe,
como
os
Portuguezes
,
coufas
muito
|
notaveis,
fuftentando
aquelle
baluarte
até
fe.
perderem
todos.
E
vindo-lhes
novas
que
0.
Se
Prin-
Dec
Vk
bay:
VIicCap
VM.
35
Principe
era
morto,
e
a
Cidade
toda
entre=
gue
nas
mãos:
dos
Turcos
,
tomáram
Ma-
noel
Pereira,
e
Francifco
Vieira
o
moço
In=
fante,
e
fe
foram
fahindo
do
baluarte,
O
que
então
pudéram
fazer,
aflim
pelo
gran-
de
efcuro
que
fazia,
como
pela
confula
res
volta
que
havia
em
todas
as
partes,
andan-
do
já
tudo
mifturado
fem
fe
conhecerem
huns
aos
outros
,
e
fe
fahiram
fóra
da
Ci-
dade
com
alguns
da
cafa
do
Principe;
e
fos
ram
caminhando
aprefladamente
pera
Cams
phar.
Os
Turcos
andáram
pela
Cidade
fa-
zendo
tamanhas
cruezas
,
que
foi
efpanto,
não
dando
vida
a
coufa
alguma
que
a
tivefs
fe,
tornando
aficar
fenhores
della
como
dantes.
e
D.
João
de
“Taide
,
que
deixámos
pare
tido
de
Baçaim
com
os
tres
navios,
foi
fes
guindo
fia
viagem
atraveflando
de
largo
,
e
em
poucos
dias
foi
haver
vifta
da
cota
de
Arabia,
e
de
longo
della
foi
demandar
a
Cidade
de
Adém
,
cuidando
achar
nella
Dom
Paio,
porque
não
tornou
falla
por
toda
aé
quella
cofta-do
que
lá
hia.
E
eritrando
a
ba-
hia
a
remo,
foram
dar
de
rofto
com
as
ga+
lés
,
que
eftavam
dentro
bem
chegadas
ao
baluarte
que
faz
a
bahia,
e-não
fe
embaras
gando
em
coufa
alguma,
tornáram
a
voltar
pera
fóra
largando
as
vélas
,
porque
vens
tava
ainda
o
levante
rijo.
Os
Turcos
em
vens
sá
C
ii
do
36
ASIA
pe
Drocgo
DE
Covro
do
os
navios
leváram
ancora
com
muita
prek
ja,
e
fahiram
após
elles
tão
apreílados
,
que
antes
de
terem
andado
huma
legua
os
alcan-
çáram.
Gomes
da
Silva,
e
Antonio
da
Vei
ga,
que
lhe
ficáram
mais
perto
,
vendo-fe
debaixo
dos
efporões
das
galés,
como
hiam
cozidos
com
aterra,
houveram
por
melhor
partido
vararem
nella,
e
falvar
Íuas
peffoas,
como
fizeram.
D.
João
de
Taíde
,
que
le-
vava
melhor
navio,
foi
mettendo
de
ló
tu-
do
o
que
pode,
efcapando
algumas
vezes
de-
baixo
dos
efporões
de
tres
galés
que
o
fe
guiam
,
ajudando-fe
da
véla
,
e
do
remo,
animando
os
marinheiros
,
e
dando-lhes
mui
to
dinheiro;
e
quiz
fa
boa
fortuna
que
fo»
breveio
a
noite
,
e
tanto
que
o
ar
efeure-
ceo
,
fazendo-fe
em
outro
bordo
,
foi
cor-
rendo
pera
a
cofta
do
Abexim
,
e
em
pot
cos
dias
foi
tomar
o
Ilheo
de
Mete
na
cof
ta
de
Barbora,
e
Zeilá.
Alli
varou
onavio,
.
e
o
efpalmou,
e
o
alimpou
,
dando
huma
larga
folga
aos
marinheiros
do
trabalho
paf
fado.
-
A
gente
dos
dous
navios
que
varáram.
em
terra,
foram
de
longo
do
mar
pera
Cam
phar
,
onde
acháram
Manoel
Pereira
,
e
Fran
|
cifco
Vieira,
que
tinham
chegado
como.
Infante,
que
já
eflava
jurado
por
Rey,
que.
os
mandou
agazalhar
mui
bem
,
e
dar-lhes
todo
o
neceflario,
.
Se
e
?
Aa
E
ne
É
DE
e.
Vl
ty
VI
CAP
V:
37
E
tornando
a
D.
Paio,
tanto
que
fe
fas
hio
de
Adém
,
foi
demandando
a
cofta
do
Abexim,
e
della
tornou
a
voltar
pera
ir
ef=
perar
a
Caxém
recado
da
India.
E
corren>
do
a
cofta
da
Arabia
,
tomou
por
ella
fal
la,
e
foube
ficar
já
a
Cidade
de
Adém
em
poder
dos
Turcos
,
e
o
Principe,
€
todos
mortos;
e
indo
demandar
Caxém,
antes
dé
lá
chegar
encontrou
com
dous
navios,
que
D.
Manoel
de
Lima,
Capitão
de
Ormuz,
lhe
mandava
de
foccorro,
de
que
eram
Capi-
tães
Aleixos
de
Carvalho
,
e
Braz
Cortez
»
que
levavam
gente,
mantimentos,
e
munições
;
e
vendo-fe
com
elles
lhes
deo
conta
do
que
palava
,
e
de
como
tinha
por
novas
,
qué
a
Cidade
de
Adém
era
perdida
,
o
que
ele
les
muito
fentíram,
ainda
que
o
não
pude-
Jam
crer
,
dizendo-lhes
Aleixos
de
Carva-
lho,
queelle
havia
de
paflar
a
Adém,
e
fa-
ber
a
certeza
do
que
lá
hia
,
pois
elle
não
tinha
outra,
que
a
que
lhe
deo
a
gente
da
terra.
D.
Paio
o
quiz
tirar
dilo
,
mas
não
pode,
pelo
que
lhe
foi
forçado
tornar
a
vol-
tar
com
elles.
E
chegando
a
Xaél,
queten-
do
entrar
no
porto
afaber
novas,
lhes
ati-
ráram
da
fortaleza
(
que
tinham
os
Farta-
quins
tomada
a
ElRey
de
Caxém
noflo
amiz
8º
)
tantas
bombardadas
,
que
os
houve:
ram
de
metter
no
fundo.
E
fahindo-fe
pes.
sa
fóra:,
tomando
confelho
,
Se
e
EE
38
ASIA
pz
Drogo
pe
Couro
efperar
recado
da
India
aos
Ilheos
de
Ca-
necanim
,
(porque
por
huma
terrada
que
achá-
ram
de
Caxém
fouberam
como
os
Turcos
eftavam
em
Adém,
)
e
afim
os
foram
de-
mandar,
e
alli
fe
deixáram
ficar.
D.
João
de
Taide
tanto
que
efpalmou,
e
alimpou
o
feu
navio
,
determinou
de
it
efperar
na
cofta
de
Caxém
a
D.
Alvaro
de
Callto,
que
não
podia
tardar
muito,
e
dan-
do
á
véla
com
os
Ponentes,
fe
foi
affaltan-
do
de
Adém,
e
depois
foi
demandar
a
ter-
ra;
e
chegando
aos
Ilheos
de
Canecanim,
achou
D.
Paio
de
Noronha
com
os
outros
navios
,
e
delle
fouberam
o
que
lhe
tinha
fuccedido
com
as
galés,
e
aflentáram
de
el
perar
alli
a
Armada,
como
fizeram,
tendo
grande
vigia
no
mar.
CALI
EURO
VI
De
como
D.
Álvaro
de
Cafiro
chegou
aos
Jlbeos
de
Canecanim
,
onde
foube
a
per-
da
da
Cidade
de
Adém:
e
de
como
foi
fo-
“brea
fortaleza
de
Caxém,
e
a
tomou.
P
Artido
D.
Alvaro
de
Caftro
de
Baçaim,
À
logo
o
Governador
D.
João
de
Caftro
o
fez
timbem
pera
Goa,
pera
acudir
ás
cols.
fas
do
Sul,
e
pera
de
mais
perto
continua!
|
ma
guerra
do
Idalxá
,
dando
defpacho
ato.
Bas
as
coufas
daquellas
fortalezas
do
Not.
te,
Dec
Vi
Lave
VEL
GARE
NL
39
te,
deixando
na
enceada
de
Cambaya
com
huma
boa
Armada
D.
Jorge
Baroche,
e
el-
culando-fe
de
tudo
o
mais,
deo
4
véla
pera
Goa
já
em
Abril,
Chegado
áquella
Cidade,
começou
logo
a
entender
no
defpacho
das
coulas
do
Sul,
aviando
pera
ir
entrar
em
Malaca
D.
Pedro
da
Silva
da
Gama,
filho
do
Conde
Almirante
D.
Vaíco:
da
Gama
por
acabar
Simão
de
Mello,
que
lá
eitava,
feu
tempo.
E
pela
mefma
maneira
defpachou
Duarte
de
Miranda
Capitão
da
carreira
de
Maluco,
que
foi
embarcado
no
galeão
Bu-
fara,
carregado
de
gente
,
provimentos
,
rou-
pas,
mantimentos
,
e
munições
,
e
de
cai-
x0es
cheios
de
efquipações
feitas,
convem
a
faber,
calções
,
chapeos,
capatos
,
pera
lá
fe
repartirem
pelos
foldados
;
porque
nefte
tempo
tinham
os
Governadores
tanta
conta
com
elles,
que
até
os
veltidos
feitos
lhes
mandavam,
o
que
tudo
fe
lhes
dava
;
e
co-
mo
chegava
o
galeão
da
carreira,
mandava
0
Capitao
chamar
a
todos
,
e
repartia
pot
elles
tudo,
ecomilfo
lhes
pagava
feus
quar-
teis,
e
mantimentos.
O
que
tudo
fe
mudou;
porque
todas
as
coufas
boas
acabam
depref-
la,
e
as
más
nunca.
:
Defpedidos
eftes
Capitães
,
ficou
o
Go-
vernador
defaffogado
pera
profeguir
na
guer-
ra
do
Idalxá
,
mandando
dobrar
as
fultas,
e
manchuas,
que
andavam
nos
rios,
que
fi-
E
|
Ze-
so
ASIA
DE
Diogo
DE
Covro
zeram
grandes
deltruições
em
fuas
aldêas.
E
orque
he
razão
que
continuecmos
com
Dom
Alvaro
de
Caftro
,
deixaremos
por
ora
tu-
do
o
mais
até
feu
tempo.
|
Partido
de
Baçaim,
como
temos
dito
no
Cap.
IV.
dele
VI.
Liv.
com
toda
fua
Ar-
mada
junta
,
como
levava
os
levantes
em
pop»
pa,
foi
em
poucos
dias
haver
vita
da
cof.
ta
de
Arabia
,
e
fem
tomar
porto
algum
,.
foi
de
longo
della
demandar
a
Cidade
de
Adém.
Chegando
aos
Ilheos
de
Canecanim,
lhe
fahiram
os
noffos
navios,
de
quem
fou-
be
tudo
o
que
era.
fuccedido
,
aflim
da
per-
da
de
Adém,
como
das
galés
que
corrêram
a
D.
João
de
Taíde.
Io
fentio
D.
Alvaro
de
Caftro
em
eltremo
,
porque
bem
enten-
deo
que
fora
tudo
pelo
grande
defcuido,
e
pouco
difeurfo
de
D.
Paio
de
Noronha:
O
Embaixador
,
e
cunhado
do
Rey
velho
morto
de
Adém
,
que
hia
embarcado
com
D.
Antonio
de
Noronha,
fe
foi
ao
navio
.
do
Capitão
mór
muito
trifte,
e
defconfola-
do
pelas
ruins
novas
que
tinha
ouvido.
Dom
Alvaro
de
Cafiro
trabalhou
pelo
confolar
;
mas
não
pode
elle:
pedio
que
mandaífe
al.
gum
navio
a
Camphar
a
faber
a
certeza
das
“quellas
novas
dos
Portuguezes
,
que
lá
di-
ziam
que
eftavam
,
porque
elle
as
não
poe
dia
crer.
O
Capitão
mór
lhe
pareceo
bem,
e
defpedio
logo
D.
João
de
Taíde
pera
ir
a
|
lã
dá
Dido
is
nisi
trees,
—
po
mm
ams
Dec
VE
LivoVI
Car
VI.
qt
lá
a
faber
o
que
era
paílado
,
ea
recolher
a
gente
das
fuítas
de
fua
companhia,
que
já
fabiam
que
lá
eftava,
E
D.
João
de
“Taíde
chegou
a
Camphar
,
e
os
Portuguezes
o
foram
receber
à
praia
com
grande
alvoroço
,
e
delles
foube
toda
a
verdade
,
e
em
fua
companhia
foi
vifitar
ElRey
,
que
lhe fez
muitas
honras,
e
lhe
contou
por
extenfo
tudo
o
que
era
paffado,
e
de
como
depois
de
D.
Paio
fe
fahir
de
Adeém,
fe
fulftentára
vinte
e
hum
dias,
pelo
esforço
,
e
animo
de
Manoel
Pereira,
e
Fran-
cifco
Vieira,
e
de
como
elles
o
livráram;,
e
por
elles
eftava
naquelle
feu
Eftado.
Dom
João
de
Taíde
fentio
muito
as
novas
;
e
pe-
dindo
licença
a
ElRey
pera
levar
todos
os
Portuguezes
,
lha
deo,
e
hum
tarranquim
pera
irem,
porque
não
cabiam
todos
na
fuf-
ta,
e
comelles
voltou
pera
o
Capitão
mór.-
D.
Alvaro
de
Caftro
recebeo
aquelles
perdi
dos
com
muitos
gazalhados
,
e
de
Manoel
Pereira
,
e
Francifco
Vieira
foube
muito
par-
ticularmente
todas
as
novas
,-
de
que
ficou
muito
anojado
,
por
fe
perder
huma
coufa
tamanha
por
culpa
de
hum-Fidalgo
tão
hon-
rado.
|
4
O
Embaixador
cunhado
de
ElRey
de
Camphar
,
certificado
da
morte
de
feu
cu-
nhado
,
e
de
feus
filhos,
ficou
em
tão
gran-
de
eitremo
defconfolado
,
que
pedio
ao
Ca-
E
pi-
42
ASIA
pE
Droco
DE
Cov'ro
pitão
mór,
que
lhe
delle
licença
pera
fe
it
pera
Camphar,
já
que
fora
tão
mofino,
que
foi
feu
trabalho
debalde.
D.
Alvaro
teve
com
elle
muitas
palavras
de
cumprimentos,
e
lhe
deo
algumas
pelas
,
aílim
pera
elle,
como
pera
ElRey
Ífeu
fobrinho
,
dizendo-
lhe,
que
fe
confolafle
,
porque
ElRey
feu
cunhado,
efeus
fobrinhos
morrêram
como
muito
bons
cavalleiros
em
defensão
do
feu
Reyno;
que
quem
morria
tão
honradamen-
te
,
mais
fe
lhe
devia
ter
inveja
,
que
má-
goa.
A
ilto
refpondeo
o
Mouro,
(
que
era
muito
avifado,
)
que
antes
eíla
era
a
dor
que
levava
,
de
ver
morrer
em
ferviço
de
ElRey
de
Portugal
hum
cunhado
,
e
dous
lobrinhos,
emuitos
parentes,
e
hum
Capi-
tão
Portuguez
não
querer
fazer
outro
tan-
to
por
ferviço
,
e
honra
de
feu
Rey;
com
ilto
fe
defpedio
delle.
D.
Alvaro
fentio
mui
to
aquellas
palavras,
pelo
que
tocava
ao
cré-
dito
;
e
honra
dos
Portuguezes
,
e
muito
mais
as
devia
pera
bem
de
fentir
D.
Paio
de
Noronha,
diante
de
quem
as
elle
difle.
Delpedido
o
Embaixador
pera
Camphar,
poz
o
Capitão
mór
em
confelho
o
que
fa-
ra,
e
por
todos
os
Capitães
fe
aflentou,
|
que
no
negocio
de
Adém
não
havia
que
fas.
zer,
€
que
já
que
ficava
de
vago
,
deviam
|
de
ir
favorecer
ElRey
de
Caxém,
e
reflita.
|
ir-lhe
a
fortaleza
de
Xaél,
aflim
pelo
man-
|
dar
|
-
Dec.
VI
Liv.
VI.
Car.
VI
43
dar
o
Governador
,
como
pera
caftigarem
os
Fartaquins
que
nella
eftavam,
por
esbom-
bardearem
os
noílos
navios,
quando
no
feu
porto
entráram,
como
diflemos
no
Capitu-
lo
atrás.
Allentado
ifto,
deo
D.
Alvaro
de
Caftro
á
véla
pera
Xael,
onde
chegou
na
en-
trada
de
Abril,
e
entrou
dentro
com
todos
os
navios,
fem
da
fortaleza
lhe
atirarem
bombardada
alguma
,
e
logo
defembarcou
em
terra
com
toda
a
gente,
e
mandou
or-
denar
algumas
efcadas
dos
deftures
dos
na=
vios
pera
commeiterem
a
fubida,
-
À
fortaleza
de
Xaél
era
hum
Caftello
pe
queno
de
adobes
com
quatro
cubellos
,
e
tu=
do
tão
eftreito
,
que
baltava
pera
o
guardar,
e
defender
trinta
e
finco
Fartaquins,
porque
não
tinha
mais
dentro
em
fi.
O
Capitão
del-
les
vendo
defembarcar
os
noflos,
lançou
fó-
ra
huma
mulher
velha,
que
fabia
fallar
Por-
tuguez,
por
quem
mandou
perguntar.
ao
Ca-
pitão
,
que
era
o
que
queria
,
que
elle
era
fervidor
de
ElRey
de
Portugal
;
e
fe
que-
ria
aquelle
Caítello,
que
logo
lho
entrega-
ria,
e
que
fe
iriam
com
fuas
peíloas,
ear-
mas.
D.
Alvaro
de
Caftro
ouvio
a
velha
,
perante
os
Capitães,
e
houve
alguns
de
pa-
recer,
que
lhe
haviam
de
acceitar
a
forta-
leza
afim
como
a
offereciam
,
pois
della
não
queriam
mais
,
que
entregalla
a
ElRey
de
Caxem;
mas
os
mais
differam
,
que
fe
ens,
Fes
três
a4
ASIA
pe
Diogo
DE
Covro
tregaílem
todos
os
que
nella
eftavam
à
mer-
cê
do
Capitão
mór.
Ào
que
a
velha
dife,
que
os
Fartaquins
não
eram
homens
que
fe
entregaffem
afim.
E
tornando-fe
pera
a
for-
taleza,
difle
de
fóra
o
que
fe
tinha
aflenta-
do.
À
ifto
refpondêram
os
de
dentro:
Que
chamais
entregar
dmercê?
E
deitando
tó-
ra
algumas
bandeiras,
começáram
a
atirar
al-
gumas
bombardadas,
de
que
matáram
alguns,
e
feríram
muitos.
D.
Alvaro
abalou
com
tos
do
o
poder,
e
rodeou
a
fortaleza,
arriman-
do
logo
algumas
efcadas,
por
onde
os
nof-
fos
começáram
a
fubir,
franqueando-lhes
os
outros
o
muro
com
a
arcabuzaria,
que
erá
tanta,
que não
oufáram
os
Fartaquins
a
ap-
parecer.
Fernão
Peres
foi
o
primeiro
que
cos
meçou
a
Íubir
por
huma
eícada,
levando
O
feu
guião
diante,
e
a
poder
de
golpes
o
póz
em
fima
do
muro.
Por
outra
parte
tambem
fubio
Pero
Botelho
quafi
ao
mefmo
tempo,
e
diante
delle
o
feu
guião,
que
levava
hum
Reynol,
de
hum
pelote-
preto
comprido
,
mui
valente
homem
,
que
Íubio
ao
muro,
e
com
huma
mão
fultentou
o
guião,
e
com
a
outra
pelejou
valorofamente,
e
tudo
feno:
tava
debaixo
mui
bem.
Como
eftes
dous
Ca:
pitães
foram
em
fima
,
e
ganháram
aquella
parte,
ficou
logo
franca
pera
fubirem
todos:
Antonio
Moniz
Barreto,
D.
Antonio
dê
Noronha,
D.
João
de
Taíde,
e
outrosCas
Siga
pl-
“Deco
Vl
Bim:
VisGCariVE
45
pitães
foram
demandar
a
porta,
levando
os
feus
foldados
deftures
pera
vaivens;
e
indo
Antonio
Moniz
Barreto
diante,
deo
em
hu-
ma
trapeira,
que
eftava
cuberta,
onde
fe
ef-
calavrou
todo
de
mãos,
e
roíto,
e
todavia
levantando-fe
foi
feguindo
os
mais
que
che-
gáram
á
porta,
e
a
começáram
a
arrombar.
Os
noflos,
que
já
eftavam
em
fima
do
muro;,
foram
accurralando
os
Fartaquins
em
dous
““eubelios,
onde
fe
fizeram
fortes
,
e
fe
de-
fendêram
valorofamente.
Alguns
dos
noflos
delcêram
abaixo
pera
abrirem
as
portas
aos
que
eftavam
de
fóra,
e
asacháram
por
den-
tro
entulhadas
com
fardos
de
tamaras
,
de
que
eltavam
tão
maciflas
,
que
não
davam
de
fi
nada
aos
vaivens
;
e
defentulhando-as,
as
abriram
,
e
entráram
todos,
e
fubidos
aos
muros,
acháram
os
Fartaquins,
que
fe
de-
fendiam
nos
cubellos,
que
eltavam
cercados
dos
noflos,
pelejando
como
leões
bravos,
e
algumas
vezes
fahiam
fóra
a
dar
nos
noflos
,
ferindo-os
bravamente,
fem
receio
de
morte,
nem
de
feridas,
que
todos
traziam.
De
hu-
ma
vez
Ífahio
hum
valente
Fartaquim
de
hum
deftes
cubellos,
por
fe
ver
apertado
dos
de
fóra,
e
remetteo
com
Gomes
Ferreira,
ho-
mem
Fidalgo,
mui
bom-cavalleiro,
que
era
o
que
mais
o
períeguia,
eferrando
com
el-
le,
olevou
nos
braços;
e
como
era
mui
for-
solo,
e
membrudo,
deo
com
elle
no
chão,
ES
e
46
ASIA
pr
Diogo
DE
Covro
eo
levou
debaixo;
mas
Belchior
Rabello,
que
eftava
perto
delle,
fe
lançou
logo
fobre
o
Mouro,
e
ás
adagadas
o
matou,
ficando
ferido
em
huma
mão.
Em
fim,
areferta
foi
grande,
e
os
Fartaquins
com
ferem
tão
pou-
cos,
pelejáram
esforçadamente
;
mas
como
|
o
número
era
tão
defigual,
foram
entrados
nos
cubellos,
e
mortos
todos
áefpada,
cuf
tando.
ella
cavalgada
finco
dos
noflos,
que
|
“ficáram
mortos,
e
mais
de
quarenta
feridos
de
efpingardadas.
Defpejada
a
fortaleza,
a
entregou
Dom
Alvaro
ao
Embaixador
de
ElRey
de
Ca-
xém
,
mandando
curar
os
feridos
,
em
que
havia
alguns
perigolos
,
que
o
meímo
dia
embarcou
na
fufta
de
D.
Paio,
e
o
man»
dou
pera
Goa,
pera
ir
dar
conta
ao
Gover-
nador
do
que
era
fuccedido.
D.
Alvaro
fe.
vio
com
ElRey
de
Caxém;
e
porque
era
o.
tempo
gaflado
,
não
fe
deteve
com
elle
mui-
to,
efe
fez
à
véla
já
em
oito
de
Abril.
D.
Paio
chegou
a
Goa
com
os
doentes,
€
deo
as
cartas
de
D.
Alvaro
de
Caftro
ao
Governador
;
e
fabendo
por
ellas
o
que
paf
fava,
ficou
mui
magoado,
e
defpedio
Dom
Paio
fem
o
querer
ouvir,
mandando
defem-.
barcar
os
doentes
para
o
Hofpital,
ondelo-.
go
os
foi
vifitar
,
levando
dinheiro
na
al
gibeira,
que
repartio
por
todos
,
encom-
mendando
muito
Íua
cura.
Cc:
Cer-
Dec
Vi
Ervo
VicGari
VI
q
*
Certo,
que
antre
as
virtudes
que
efte
Fic
dalgo
tinha,
que
eram
muitas,
a
que
mais
reíplandecia
nelle
era
a
da
caridade
pera
com
os
Íoldados
da
India,
porque
os
não
tratava
fenão
como
fe
foram
todos
feus
filhos.
Às
novas
de
Adém
corrêram
logo
por
Goa,
fi-
cando
D.
Paio
tão
defacreditado
com
to-.
dos,
que
era
vergonha;
e
aflim
teve
ElR
ey
com
elle
tão
pouca
conta,
que
nunca
o
def
pachou
;
fenão
depois
de
velho,
e
cafado,
e
em
quanto
viveo
ficou
com
efte
labéo
;
porque
ainda
que
eítas
coufas
de
fi
não
são
pera
efquecer,
na
India
andam
fempre
mais
vivas
na
memoria
dos
homens,
que
em
to-
da
a
outra
parte,
tanto,
que
fendo
efe
Fi-
dalgo
já
velho,
paflou
pela
fua
rua
hum
Ci-
dadão
rico,
e
honrado,
eachou
á
fua
por-
ta
chorando
huma
moça
,
e
perguntando-lhe
de
que
fe
queixava,
lhe
refpondeo
a
moça,
que
em
cafa
de
D.
Paio
lhe
tomáram
os
feus
moços
huma
gallinha
,
e
que
lha
não
que-
ram
dar.
Ao
que
o
Cidadão
lhe
dife:
Ca-
la-te,
filha
;
não
te
mates,
fe
fora
Adém
;
largáram-tas
mas
galinha,
não
ta
hão
de
dar.
D.
Alvaro
chegou
alguns
dias
depois
de
-
Paio,
e
o
Governador
lhe
fez
hum
gran-
de
recebimento.
E
porque
fabiam
todos
quan-
to
folgava
o
Governador
de
lhe
engrande-
Serem
o
negocio
de
Xaél,
não
fe
li
em
Sage
oa
a8
ASIA
pr
Droco
DÊ
Covo
Goa
em
outra
coufa
,
fendo
ella
em
fi
tão.
pequena
como
temos
dito.
E
porque
fobre
iffo
aconteceo
huma
galanteria
,
que
dife
hum-Cortezão-,
não
deixaremos
de
a
con
tar.
Tinha
o
Bifpo
D.João
de
Alboquerque
|
hum
Clerigo
avifado,
e
de
ditos,
com
que.
elle
folgava
de
praticar,
ea
quem
fazia
muitas
perguntas
por
efta
maneira.
Qual
he
a
coufa,
que
de
amarga
fe
faz
doce,
ea
que
de
grande
fe
faz
pequena
;e
a
que
de
pequena
fe
faz
grande?
Ao
que
o
Padre
lhe
refpondeo
mui
apreífado
:
Que
a
coufa
que
de
amarga
fe
faz
doce
,
foram
as
bombar-
dadas
de
maçapães,
com
que
recebéram
o.
Governador
D.
João
de
Caftro,
quando
veio
de
Dio.
E
a
coufa
que
de
grande
fe
faz
pe-
quena
,
foi
a
tomada
de
Baroche,
porque
à
|
tomou
D.
Jorge
de
Menezes.
E
a
que
de
pequena
fe
faz
grande,
foi
Kaél,
porque
a.
tomou
o
filho
do
Governador.
O
Bifpo
fel
tejou
muito
a
reípofta
,
e
a
galanteria
do
aludir
;
mas
todavia
ambas
eftas
.coufas
fo-
sam
muito
boas,
emuito
dignas
de
louvar.
Ch
rear
=
err
eee
po
equestre
DecaDa
VI
Liv.
VI
49
-
CALISULO
NE.
Da
Armada
de
Lourenço
Pires
de
Tavora;,
que
chegou
ao
Reyno
com
as
novas.
da
vi-
toria
de
Dio:
e
das
nãos
que
ElRey
def
pedio
em
Outubro:
e
das
honras,
e
mer=
cés
que
mandou
ao
Governador
D.
João
de
Cafiro.
e
Ourenço
Pires
de
Tavora
,
Capitão
mór
da
Armada
que
partio
da
India,
teve
tão
profpera
viagem,
que
chegou
ao
Rey-
no
com
todas
as
fuas
nãos
juntas,
e
Íurgio
na
barra
de
Lisboa
;
onde
ElRey
eftava,
que
já
tinha
fabido
as
novas
da
vitoria
de
Dio,
por
cartas
que
da
Ilha
Terceira
lhe
mandaram
,
por
huma
caravela
que
foi
dian-
te
alguns
dias.
Tanto
que
ElRey
foube
das
nãos,
mandou
defembarcar
o
Capitão
mór,
a
quem
acudíram
todos
os
Grandes,
e
Fi-
dalgos
da
Corte,
que
o
acompanháram
até
O
Paço,
onde
elle
entrou
,
levando
fempre
pela
mão
Rax
Nordim,
filho
do
Guazil
de
Ormuz.
ElRey
os
recebeo
mui
bem;
e
fa-
bendo
do
Capitão
mór
as
coufas
do
cerco
3
e
da
vitoria
mais
particularmente,
ordenou.
de
feftejar
ao
outro
dia
as
boas
novas
»
CO-
mo
fez
,
veftindo-fe
elle,
e
os
Infantes;
e
toda
a
Corte
de
fefta
,
e
houve
hum
fole
mne
Oficio,
e
Mifla
em
Pontifical
»
€
hum
Conto
Tom.III.
Pl,
D
dou-
so
ASIA
pe
Dioco
DE
Covro
douto
,
e
grande
Sermão
em
louvor
daquel-
la
efpantofa
vitoria,
em
que
fe
tratou
da
prudencia,
prefteza,
e
esforço
do
Governa
dor
D.
João
de
Caftro,
em
que
todos
os
que
fe
acháram:
naquelle
negocio
tiveram
mui
grande
quinhão
,
principalmente
os.mor
|
tos,
affirmando
que
eram
dignos
de
ferem.
nomeados
por
Martyres,
pois
morrêram
pe.
la
Fé
de
Chrito.
ElRey
efereveo
logo
ao
Summo
Pontifice,
e a
todos
os
Reys
Chri
ftãos,
a
mércê
que
lhe
Decos
fizera
na
gran.
de
vitoria;
que
o
feu
Governador
da
India,
alcançára
dos
Capitães
do
Rey
de
Cambaya;
do
que
todos
lhe-mandáram
os
parabens,
Não
fe
fallava
emtoda
a
Europa
noutra,
coufa
,
fenão
naquelle
temerofo
cerco
dê
Dio,
e
na
grande
vitoria,
que
os
Portugue-
zes
alcançáram
do
mais
poderofo
Rey
de
todo
o
Oriente
,
cuja
memoria
durou
por
muitos
tempos.
el
ElRey
D.
João
,
depois
que
aíflim
por
informação:
de
Lourenço
Pires
de
Tavora,|
como
pelas
cartas
do
Governador
,
foube
0
eftado
em
que
a
India
ficava,
e
que
as
cols
fas
de-Cambaya
ficavanrainda
prenhes
,
quiz
acudir
a
ellas-com
muita
prefla
;
mandando
negociar
Ífeis
nãos
pera
lhe
mandar
de
foc-
corro
,
fazendo
chamamento
de
gente
E
todo
o
Reyno-,
que
acudio
toda
a
que
É.
“houve
mifter.:
|
des
Egas
Eee
:
es
E
Ao
eso
Dec.
VI
Liv.
VI
Car
VIL
sr
E
porque
fe
não
pode
dar
expediente
a
todas
as
feis
nãos
juntas
,
deípedio
ElRey
tres;
que
fez
à
véla
o
primeiro
de
Novem-
bro,
dia
de
Todos
os
Santos;
de
que
deo
a
Capitania
mór
a
Martim
Correa
da
Sil-
va,
a
quem
fez
mercê
da
fortaleza
de
Dio.
Os
outros
dous
Capitães
eram
Antonio
Pereira,
e
Chriftovão
de
Sá.
E
querendo
El-
Rey
gratificar
ao
Governador
D.
João
de
Caltro
os
grandes
ferviços
que
lhe
tinha
fei-
to,
e
o
grande
zelo
com
que
arrifcou
feus
filhos
na
força
do
Inverno,
e
a
morte
de
feu
filho
D,
Fernando
de
Caftro,
lhe
man-
dou
mais
tres
annos
da
governança
da
In-
dia,
com
titulo
de
Vifo-Rey
,
e
lhe
fez
mer-
cé
de
dez
mil
cruzados
pera
ajuda
de
pa-
gar
fuas
dividas
,
que
tomaria
nos
direitos
da
Alfandega.
E
a
feu
filho
D.
Alvaro
de
Cafiro
mandou
o
cargo
de
Capitão
mór
do
mar
da
India,
com
o
ordenado
que
te-
ve
Martim
Affonfo
de
Soufa,
e
lhe
fez
mer-
cémais
de
dous
mil
cruzados
pera
ajuda
de
culo;
e
a
todos
os
Fidalgos
que
fe
achá-
Tam
no
cerco,
e
na
batalha
efcreveo
cartas
mui
honrofas
,
e
lhes
mandou
honras
So
“mercês,
tendo
tanta
conta
com
todos,
que
nenhum
ficou
queixofo.
|
Partidas
eflas
náos,
mandou
ElRey
dar
muita
preíla-ás
outras
tres,
de
que
deo
a
Ca-
Pitanta
mór
a
Francifco
Barreto
»
fazendos
D
ii
lhe
s2
ASIA
DE
Droco
DE
Covro.
lha
mercê
da
fortaleza
de
Baçaim,
a'
quem
defpachou,
e
fez
à
véla
entrada
de
Dezem-
bro.
Os
Capitães
de
fia
companhia
eram
D.
Heitor
Aranha,
Fidalgo
calado
em
Evo-
ya
com
huma
D.
Maria
Carcche,
e
Pero
de
Mefquita,
que
ElRey
defpachou
com
a
Ca
pitanía
do
galeão
da
carreira
de
Maluco,
“Todas
eftas
nãos
foram
feguindo
fua
derros
ta;
e
porque-eflas
da
conferva
de
Francik
co
Barreto
partiram
mais
tarde,
quando
to:
máram
Moçambique
foi
a
tempo
,
que
af.
firmáram
os
Pilotos,
que
o
não
poderiam
já
paffar
á
India,
pelo
que
ficáram
alli
invere
nando.
-
E
Martim
Correa
da
Silva
foi
feguindo
fua
viagem
até
fe
apartarem
as
nãos
de
fua
con
ferva
com
alguns
temporaes
que
lhes
de
ram,
e
em
Moçambique
fe
tornáram
ajute
tar,
donde
partiram
meado
Março,
e
achãs
yam
na
linha
muitas
calmarias,
pelo
que
fe
detiveram
muito.
A
não
de
Antonio
Perer-
ra,
depois
de
paflar
a
linha,
fe
foi
encoftan
do
a
Sacotorá,
onde
as
correntes
o
leváram,
e
por
aquella
paragem
gaflou
todo
o
me,
de
Abril.
E
vendo
que
era
tarde
pera
ir
de
mandar
a
barra
de
Goa,
fe
fez
na
volta
de
Ormuz
pera
ir
lá
invernar,
onde
chegou
por
fim
de
Maio,
e
D.
Manoel
de
Lima
felte-
|
jou
muito
fua
chegada.
Antonio
Pereira
lhe,
deo
as
cartas
de
ElRey
,
que
hiam
aa
|
oem
mma
ce
us
Dec
VL
Liv.
VL
Car.
VIL
53
de
grandes
agradecimentos
de
feus
ferviços.
Eita
não
invernou
naquelle
porto,
e
não
fa=
bemos
fe
tornou
pera
o
Reyno,
ou
fe
ficou
na
Índia.
Martim
Correa
da
Silva
,
e
Chriftovão
de
Sá,
paíladas
as
calmarias,
foram
feguins'
do
fua
derrota,
e
indo
demandar
a
cota
da
India,
lhes
deram
algumas
trovoadas,
com
que
Martim
Correa
da
Silva
foi
defgarran-
do,
e
fem
poder
ferrar
a
barra
de
Goa,
foi
tomar
Angediva,
onde
fe
recolheo
pera
in-
vernar,
defpedindo
dalli
recado
ao
Gover-
nador,
pera
que
o
mandaffe
prover
de
amar-
ras,
e
de
todo
o
mais
neceífario
,
e
pera
que
mandafle
buícar
os
doentes,
que
trazia
muitos.
Chritovão
de
Sá,
foube-fe
o
feu
Pi-
doto
marear
melhor
;
porque
tanto
que
to=
mou
fundo
na
cofta
ca
India,
foi
mettendo
de
ló
pera
fe
pôr
a
balravento
de
Goa;
co-
mo
fez,
e
foi
haver
vifta
da
terra
por
Ca-
rapatão
,
e
dalli
foi
demandar
a
barra
de
Goa,
onde
furgio
quafi
no
mefmo
tempo,
que
Martim
Correa
da
Silva
tomou
Angeê-
diva
O
Governador
tanto
que
lhe
deram
novas
da
não
-do
Reyno
na
barra,
mandou
com
muita
preíla
muitos
navios
pera
a
def-
carregarem
,
e
metterem
dentro
-,
e
defem-
'barcar
Chriflovão
de
Sá;
que
recebeo
com
muitos
gazalhados,
e
lhe
deo
a
via
de
El-
Rey,
que
o
Governador
abrio,
e
asa
as
ro-
54
ASIA
DE
Diogo
DE
Covro
Provisões,
e
Alvarás
das
honras,
e
mercês
que
lhe
fazia-a
elle,
ea
feu
filho,
o
que
eltimou
muito,
por
ver
que
tinha
EIR
ey
con
ta
com
feus
ferviços.
É
ainda
houve
por
mór
mercê
a
carta,
que
lhe-elcreveo
de
fa-
tisfações
delles;
e
não
eftimou
menos
a
car.
ta
que
o
Infante
D.
Luiz
lhe
elcrevia,
por
que
era
Principe
que
ellemuito
amava
pe-
las
obrigações
que
lhe
“tinha
,
porque
elle
|
foi
o
que-o
poz
naquelle
Eftado,
e
o
que.
folicitou
com
ElRey
todas
fuas
coufas.
É
porque
ambas
são
fubltanciaes,
nos
pas.
receo
bem
irem
aqui
infertas,
pera
a
todo
tempo
fe
faber
como
os
Reys
de
Portugal
tratavam
os
vafiallos
que
o
ferviam
;
e
pa.
ra
que
os
Vifo-Reys
,
e
Governadores
da
In-
|
dia
vejam
quanto
os
Reys
eltimam
efereve-
rem-lhes
os
merecimentos
dos
homens
na
ver-
dade,
fem
odio,
nem
afeição,
e
não
for-
imarem
em
alguns
defmerecimentos
,
que
pes.
Ja
ventura
não
tiveram,
fó
por
paixão,
epe-
ra-os
homiziarem
como
Rey,
como
alguns
fizeram.
E
tambem
foi
neceílario
irem
aqui
as
cópias
deítas
cartas
por
honra
defte
bom
Governador
,
pera
que
todos
farbam
quão
bem
tomou
ElRey
a
batalha
que
“deo
aos
Capitães
de
ElR
ey
de
Cambaya,
porque
não
faltáram
calumniadores,
que
attribuíram
«-
quelle
commettimento
mais
a
doudice:,
que
a
prudenciaee-esforço.
“+:
«ess
CA-
essDecADASVI
LivoNI-
gs
CALITOLOS-VIE.
Que
contém
acópia
das
cartas
+
que
ElRey
D.
João,
e
o
Infante
D.
Luiz
few
ir-
mão
eferevéram
«o
Vifo-Rey
Dom
Soão
de
Cafiro.
CARTA-DE
ELREY.
»
Ho-Rey
amigo
,
eu
ElRey
vos
en-
»
vio
muito
faudar.
À
vitoria
que
nof-
»
fo
Senhor
vos
deo
contra
os
Capitães
de
»
ElRey
de
Cambaya,
foi
de
grande
con-
»
tentamento
para
mim,
como
he
razão
que
peu
tiveíle
portal,
e
tamanho
vencimen-
»to;
e
por
quão
grandes
mercês,
e
ajudas
pniflo
recebeítes
de
noflo
Senhor;
pelo
que
»elle
feja
louvado.
Muito
fe
deve
à:
vofla
»prudencia,
e
grande
animo,
que
naquelle
»
dia
moftraftes
,.e-aflim
no
que
fizeftes
no
»
grande,
eapreflado
foccorro
que
mandafs
»tes
á
fortaleza
de
Dio-
em
tão
defyairado
»tempo.,
offerecendo
o-amor
de-voílos
fi-
»lhos
.,
em
que
fe-vio
bem
,
quanto
mais
»
pode:
comvyofco
o.
que
importava
a
meu
»lerviço
,
que
-o-effeito
natural-de
pai,
o
»
que
eu
afim
eftimo
como.
he-razão
;
ven-
»do-que
não
tão:
fómente
desbarataltes
tão
»grande
poder
de
inimigos;
mas
ainda
déf-
»tes
fegurança
a
toda
a
India
no
grande
px
»
re-
Ea
|
56
ASIA
DE
Droco
pe
Covro
»
receio
que
aos
inimigos
della
fica
com
ef
»ta
tão
grande
vitoria;
e
todos
elles
fervi-
»
ços
que
me
fizefies
,
he
razão
que
eu
te-
»
nha
na
conta
que
elles
merecem.
|
»
Do
falecimento
de
voíTo
filho
D.
Fer-
»
nando
de
Caftro
recebi
muito
grande
def
»
prazer
,
e
aflim
por
elle
fer
voílo
filho,
»
como
porque
hia
bem
moltrando
naquela
|
»
idade
qual
houvera
de
fer
em
toda
a
ou-
ptra;
e
pois
acabou
tão
honradamente
,
e
»em
tão
grande
ferviço
de
noflo
Senhor,
e
»
meu,
deveis
de
fentir
menos
fua
perda,
e
»
dar
graças
a
noflo
Senhor,
por
como
foi
»
fervido
que
acabafle
,
o
que
fei
que
vós
»
fizeftes,
moftrando
ainda
no
efquecimento
»de
fua
morte
a
lembrança
do
que
com-
»pria
a
meu
ferviço.
Deftas
coufas
todas
eu
»
ferei
fempre
lembrado,
e
não
fómente
vo-
»
las
conhecerei
no
grande
contentamento
»
dellas,
mas
ainda
com
muitas
mercês
,
a
»
que
agora
quiz
dar
principio
neflas
que
»
vos
faço
a
vós,
e
à
voflo
filho
D.
Alvaro
»de
Caftro,
guardando
o
remate
dellas
pe-
pra
o
cabo
de
voflos
ferviços,
que
eu
con-
»fio,
e
tenho
por
muito
certo
,
que
feram
»taes
;
quaes
foram
os
que
até
agora
me
»
tendes
feitos.
E
com
efta
confiança,
e
com
»a
experiencia
que
dio
tenho
,
defejando
»
muito
nefte
tempo
de
vos
fazer
em
tudo
»
mercê
;
confidêrando
quanto
ilto
compria
|
e
»a
/
Dec
VL
Liv
VI
Car
VIII
57
pa-meu
ferviço,
e
vendo
por
voílas
obras
»
quanta
mais
conta
tinheis
com
elle
,
que
»
com
todas
voflas
coufas,
houve
por
bem
»de
vos
não
dar
a
licença
pera
vos
virdes,
»
como
me
pedís
:
pelo
que
vos
encommen-
»do
muito
,
e
mando
,
que
o
hajais
afim
»
por
bem,
e
que
neffe
cargo
me
queirais
»
ainda
fervir
outros
tres
annos
,
e
no
fim
»
delles
vos
mandarei
licença
pera
vos
vir-
»
des
embora
;
e
eu
efpero
em
Deos
noflo
»
Senhor;
que
vos
dê
muito
boa
difpofição
»
pera
o
fazerdes.
E
porém
fe
por
fima
do
»que
tanto
cumpre
a
meu
ferviço
,
como
»he
ficardes
ainda
fervindo-me
neflas
par-
dtes,
vos
a
vós
parecer
que
tendes
toda-
»via
neceflidade
de
vos
virdes,
folgarei
de
"mo
efcreverdes
,
e
entre
tanto
efperareis
*por
minha
reípofta.
Pero
de
Alcaçova
Se-
Ycretário
à
fez
em
Lisboa
a
20,
de
Outu-
pbro
de
1547.
CARTA
DO
INFANTE
D.
LUIZ.
)
Onrado
Vifo-Rey.
Recebi
voíla
car-
»A
Lta,
que
veio
nefta
Armada
de
Lou-
»renço
Pires
de
Tavora,
em
que
dizeis,
que
»
recebeltes
a
minha,
que por
Luiz
Figuei-
pra
vos
mandei;
e
agradeço-vos
muito
di-
»
zerdes-me
,
que
vos
parecêram
bem
as
lem=
2
branças
que
vos
fazia,
e
muito
mais
e
É
:
»
Gel=
s8
ASIADE
Diogo
DE
CovTo
»
de-las
emobra
:
e
abiitava
pera
o
eucrer
»-que
feria
aílim,
ainda
que
vos
eu
não«co-
»
nhecêra,
ouvir.oque
lá
fazeis,
ever
quão
ȇ
boca
cheia
meefcreveis:voífos
trabalhos,
»
pobreza,
e
abítinencia,
coufas
com
que
fe
»
vence
o
diabo,
o
Mundo,
e
acarne,
que
»
neílas
partes
da
India
tem
tanto
poder;
0
»
que
he
maior
vitoria,
que
a
de
ElRey
de
»
Cambaya
;
nem
ainda
detodo-o
poder
do
»
Turco.
Pelo
que
em
quanto
viverdes,
não
»
deveis
de
temer
coufa
alguma:,
mas
antes
»
efperai
em
noffo
Senhor
,
que
vos
ajudará,
»
como
agora
fez
na
defensão,
e
batalha
de
»
Dio.
Em
cuja
vitoria
vós
tendes
muito
que
»
lhe
louvar,
pois
vos
fez
inftrumento
de
tan:
»to
ferviço
feu,
e
de
ElRey
meu
Senhor;
»edetanta
honra
volla,
e
detodos
os
Por:
»
tuguezes,
afim
dos
que
fe
acháranr
com-
»
volco,
como
dos
que
eftiveram
aufentes
»
E
certo,
que
vós
tendes
feito
neta
jornar
»
da
,
des
do
primeiro
dia
que
tiveítes
no-
»
vas
do
cerco
de
Dio,
até
o
dia
de
vofa,
»e
nofla
vitoria
,
tudo
o
que
entendo
que
»
hum
valorofo,
e
aftuto
Capitão
podia
far
-zer,
aflim
na
prefteza
dos
foccorros,
co-
»
mo
em:
pordes-voífos
filhos
por
balifas
da
»-fortuna
,
e
perigos
do
inverno-,
e
mares
»
da
India,
pera
que
os
outros
os
tiveílem.
»em
menos;
no
que
fe
moftra
bem
claro,
»
quanto
mais
parte
tem
em
vós
oferviço
|
»
de
Dec
VI
Lrv.
VI
Car
VII
So
pde
ElRey
meu
Senhor
,
e-obrigação-de
»voflo
cargo
,
que
os
efeitos
naturaes
de
»
pai
,
que
são
os
que
mais
forção
a
natu-
preza;
e
no
foffrimento-que
moltraítes
na
»morte
de
D.
Fernando
de
Caftro
volto
fi
»lho;
fe
confirma
bemefta
opinião:
ecer-
»to,
que
eu
o
fenti
por
mim;
e
por
vós,
e
»0
houve
por
mui
grande:
perda,
por
quão
»
certos
finaes
:
fe
nelle
viam
de
feu
grande
»
esforço,
e-creio
que
nilto
lho:
quiz
Deos
»
pagar
com
o-tirar
de
vida-tão
trabalho-
ya,
pormeio
tão
honrado,
e
de
tanta
glo-
»ria
fua,
que
deve
de
fer
grande
caufa
de
»vofia
confolação.
»
D.
Alvaro
de
Caftro
voffo-filho
não
»
empregou
mal
fua
jornada”;
pois
com
tan-
»tos
trabalhos,
e
perigos
foccorreo
a
for-
»taleza
de-Dio,
a
tempo
que
fua
chegada
»foi
por
então
o
remedio
della;
e
de-co-
»mo
fe
nillo
houve,
e
no-dar
nas
eftancias
»dos
inimigos,
e
emtudo
o
mais,
lhe
lan-
ȍo
muitas.
bençãos
por
volla
parte,
e:mi-
»
nha.
Ea
4
»
E
tornando
a
volífa-
determinação
de
»aventurardes
vofla
peffoa
;-eo
Eltado
da
»
Índia,
por
foccorrerdes
Dio
,
foi
mui
»boa,
pois
de
o
não
fazerdes
eftava
tanto
“à
mais
aventurado
:
e
o
chegardes
a
Dios,
»e
ordenardes
voíTa
defembarcação
,
e
man-
»
dardes
que
os
navios
commetteTem
a-ter-
jta,
6o
ASIA
pe
Droco
de
Covro
»ra:,
ao
tempo
que
havieis
de
dar
a
bata:
»lha,
eo
modo
do
commetrer
que
niflo
»
tiveítes,
tudo
me
pareceo
digno
de
agora,
»e
fempre
darmos
muitas
graças
a
Decos
»
noflo
Senhor,
e
de
Sua
Alteza
vos
fazer
»
muitas
mercês,
a
que
agora
dá
principio,
»
como
vereis
ácerca
de
vós,
e
de
volto
fi
olho,
e
afim
o
deve
fazer,
e
fará
aos
Fi.
»
dalgos
,
e
Cavalleiros,
que
nefla
jornada
»
comvolco.
o
fervíram,
em
efpecial
a
Dom
“a
João
Mafcarenhas,
que
fe
houve
no
pezo
»
delle
cerco
como
honrado
Capitão,
e
es
»
forçado
cavalleiro..
Folguei
muito
de
ver
»o
modo
que
tivelles
no
efcrever
a
S.
A,
»
fobre
os
ferviços
que
os
Fidalgos,
e
Cas
»
valleiros,
que
neíTas
partes
andam,
lhe
f-
»
zeram
no
negocio
de
Dio,
no
que
fe
vio
»
que
tinheis
com
feus
trabalhos
conta
:
if
»to
fazei
fempre
por
amor
demim,
e
fol-
»
gai
de
louvar
os
homens,
porque
já
que.
peltá
certo
não
faltar
quem
diga
delles
os
»
males,
(que
haveis
decaltigar,
os
que
nel
»
les
fentirdes
,)
razão
he
tambem
que
os
»
bons
os
alevanteis,
pera
que
os
quê
lá
não
»
puderdes
galardoar,
Sua
Alteza
por
voíl
»
informação
o
faça.
7
SA
»
Eu
fallei
fobre
voíla
vinda,
como
me.
pefcreveltes
,
que
me
elle
não
concedeo
,
»emedeo
pera
iflo
duas
razões,
que
a
meu
»
parecer,
ainda
que
vós
tenhais
muitas
pes
|
Ra
pra
Dec
VI
Liv.
VL
Car.
VIIL
&
pra
vos
defejardes
de
vir,
Sua
Alteza
tem
»
muitas
mais
pera
vos
mandar
regar,
que
»o
firvais
neíle
governo
outros
tres
annos,
»o
que
haveis
de
folgar
de
fazer
por
fer-
»
virdes
a
noflo
Senhor
,
pela
grande
mer=
»
cê
que
vostem
feito,
e
a
Sua
Alteza
pela.
»
confiança
que
de
vós
tem,
e
contentamen-
»to
de
voílo
ferviço.
E
confai
em
Deos
,
»
que
vos
dará
forças
pera
poderdes
com
os
»
grandes
trabalhos
,
e
defordens
da
India.
»E
eu
efpero
nelle,
que
fazendo-o
vós
af
»
fim,
venhais
encher
eftes
picos
da
ferra
de
»
Cintra,
de
Ermidas
de
voflas
vitorias
,
e
»
que
as
vifiteis
,
e
logreis
com
muito
def-
»canço
vollo.
Nas
coufas
particulares
vos
»
não
fallo,
porque
ElRey
meu
Senhor
vos
»efcreve
o
que
ha
por
feu
ferviço,
em
re-
»
fpofta
da
carta
geral,
que
lhe
elcreveftes
;
»
que
vinha
em
muito
bom
eflilo,
e
em
mui-
»
to
boa
ordem.
Elcrita
em
Lisboa
a
22.
de
à
Outubro
de
1547.
CA-
62
ASIA
pve
Droco
De
Covro
E
chatos
De
como
o
Vifo-Rey
D.
João
de
Cafiro
a
doeceo
:
e
de
buma
notavel
falla
que
fes
aos
Ofiiciaes
de
ElRey
fobre
Jua
pobre-
za:
e
de
como
faleceo:
e
emque
tempo:
edas
partes,
e
qualidades
de
Jua
peljoa.
O
Vifo-Rey:D.
João
de
Caftro
(de
cujo
|
titulo
logo
começou
a
ufar
)
defpedio
|
com
muita
prela
as
cartas
de
ElRey
pera
|
Dio
aos
Fidalgos
que
lá
ficavam
invernan-
|
do,
e
pera
os
Capitães
de
Chaul,
e
Baçaim,
porque
a
todos
ElRey
elcreveo
;
e
o
mef
mo
fez
pera
Cananor
,
e
Cochim.
E
logo
|
teve
o
Vito
Rey
recado
de
Martim
Correa
|
da
Silva.
E
fabendo
eftlar
em
Angediva,
defpedio
aprefladamente
alguns
navios
de
res
mo,
com
todas
as
coufas
que
Martim
Cor-
rea
lhe
pedia,
e
muitas
efquipações
novas;
e
confervas
pera
os
doentes
,
que
mandava
trazer,
e
muito
dinheiro,
e
provimentos
pe-
ra
toda
a
mais
gente,
que
havia
de
ficar
in-
vernando
na
não,
pera
fe
lhe
pagarem
feus
quarteis
,
e
darem
feus
mantimentos.
Eltes
navios
voltáram
logo
,
e
por
elles
mandou
“Martim
Correa
da
Silva
as
vias
de
ElRey,
e
os
doentes
todos
,
que
foram
levados
ao
Hopital,
onde
foram
mui
bem
curados.
O
Vifo-Rey
fe
pagou
de
dez
mil
au
;
EA
e
EESTI
ECE
TE
=
ERR
RE
PR
E
RT
Sr
Trem
Dec.
Vl-Liv.
VI
Car
IX.
6
de
que
lhe
ElRey
fez
mercé,
que
logo
pas
gou
a
pefloas
que
lhos
tinham
empreitado
pera
as.
deípezas
das
jornadas
que
fez.
Andava
o
Vifo-Rey-nefte
tempo
achas
cofo,
trifte,
e
melancolizado,
e
com
huns
falos
de
tudo
;
porque
na
verdade
depois
da
morte
de
feu
flho
D.
Fernando
nunca
mais
o
viram
fem
achaques
;
e
fobre
iflo
era
homem
,
que
tratava
mal
fua
pefloa
nos
regalos
della,
porque
o
feu
comer
foi
fem-
pre
muito
moderado
,
e
o
feu
dormir
pou-
co,
eostrabalhos
que
tinha
levados
na
guer=
ra,
foram
muitos,
e
muito
grandes,
e
em
|
fim
todas
eftas
coufas
o
traziam
mui
fraco;
e
debilitado.
E
fobre
tudo
lhe
deram
hu-
mas
febres,
de
que
logo
cahio
em
cama
á
com
ruim
opinião
dellas,
eelle
fe
fentio
de
feição,
que
bem
vio
que
não
eftava
pera
éne
tender
em
coufa
alguma.
Pelo
que
entregou
o
governo
ao
Bilpo
D.
João
de
Alboguer-
que,
e
ordenou-lhe
por
Coadjutores
o
Ca-
pitão
da
Cidade
D.
Diogo
de
Almeida
Frei-
Te,
e
o
Doutor
Francifco
Tofcano,
Chan-
celler
do
Eftado
,
e
Baftião
Lopes
Lobato,
Ouvidor
Geral,
e
Ruy
Gonçalves
de
Ca-
minha,
Veador
da
Fazenda
,
fobre
quem
delcarregou
todas
as
coufas
do
Eflado,
por-
que
fe
recolheo
com
feu
ConfefTor
pera
tratar
fó
de
fua
alma.
7
E
porque
eftava
tão
pobre,
que.
não
ha-
-
via
64
ASIA
pr
Droco
DE
Covo
via
em
fua
cafa
dinheiro
com
que
fe
cor
refe
com
as
defpezas
de
fua
enfermidade,
e
como
ordinario
de
feus
criados
,
e
elle
não
fe
queria
individar
,
nem
pedir
já
aos
homens
empreftimo
,
fez
hum
dia
chama:
mento
de
todos
os
Deputados,
e
de
outros
Prelados,
e
pefloas
doutas
,
e
religiofas,
cos.
mo
foram
o
Padre
Meftre
Pedro
,
Vigario.
Geral
da
India,
Fr.
Antonio
do
Cafal,
Cof.
todio
de
S.
Francifco,
o
Padre
M.
Francif.
|
co,
da
Companhia
de
Jefus,
e
os
Officiaes
|
da
Fazenda
de
ElRey.
E
tendo
todos
pre-
fentes,
aflim
deitado
em
fua
cama,
já
fra
co,
e
debilitado
,
lhes
fez
efta
breve
falla:
Falla
do
Vifo-Rey.
»)
Andei-vos,
Senhores
,
chamar
pe-
»
À
ra
vos
dizer
o
eftado
,
e
neceliida-.
»
des
a
que
fou
chegado
,
que
não
houve.
»
hoje
neíta
cafa
dinheiro
com
que
fe
com.
»
prafle
huma
gallinha
pera
minha
peíloa
;
“»pporque
fiquei
tão
deípezo
,
e-individado
»
pelos
grandes
gaíftos,
que
fiz
eftes
dous
an-
»
nos
nas
guerras
pafladas,
que
até
dos
meus.
“»
ordenados
eftou
pago
adiantado
até
quins
»
ze
de
Setembro
que
vem:
e
confeflo-vos;
»que
não
oufo
a
pedir
dinheiro
emprefta-
»
do
a
peíloa
alguma
pera
mim,
como
nuns
pca
fiz
,
porque
o
houye
por
mui
grande
p
li
DNS
E
PO
ee
eee
err
Dzc.
VI
Liv.
VI
Car.
IX.
6g
»
inconveniente
pera
o
homem
que
eftá
nef-
ptecargo,
porque
lhe
convem
que
efteja
li-
»
re,
e
ilento
com
os
homens,
pera
fazer
»
Juftiça
direita
a
todos.
E;
pois
não
tenho
»
Outro
remedio,
peço
aos
Veadores
da
Fa-
»
zenda
,
e
Officiaes
de
ElRey
,
que
aqui
»
eltam,
que
efles
quatro
mezes,
que
ha-da-
»
qui
até
virem
as
nãos
do
Reyno,
me
quei-
»
tam
ordenar
huma
deípeza
honefta
da
Fa-
»
zenda
de
ElRey
pera
os
galtos
de
minha
-p
cala,
conforme
a
minha
qualidade
,
e
á
“»pefloa
que
reprefento.
E
fevirdes
que
te-
»nho
alguns
gaftos
defneceflarios:,
e
fobe-
»Jos;
vos
peço
que
os
corteis;
e
pera
ilo
»
não
quero
que
peíloa
de
minha
cafa
cor-
»
ra
com
as
defpezas
della
,
pera
que
o
dinhei-
»ro
de
8.
A.
feja:
defpendido:
com
muito
»refguardo.
Tambem
vos
peço
que
orde-
»neis
hum
official
pera
fe
lhe
dar
aquillo
»que
alvidrardes
que
fe
póde
-
defpender
»comigo
,
pera
correr
tudo
por
fua
mão.
YE
afim
vos
peço,
que
algúmas:
dividas
»que
ainda
ficáram
,
que
não
pude,
pagar
,
»(que
todas
tenho
feitas
em
ferviço
de
El-
»
Rey
nas
guerras
paíladas
por
mar,
e
por
»
eira,
em
dar
de
comer
a
muita
gente,
e
à»
lultentar
muitos
foldados
»)
que
as
queirais
mandar
pagar
do
dinheiro-de
ElRey.
E
»afim
ifto.,
como
tudo
o
mais,
mandareis
»allentar
em
hum
livro
feparado
,
que
efta-
Couto.
Tom,
III,
P.ii,
E
»
Tá
l
66
ASIA
pe
Dioco
DE
Covro
»
rá
em
poder
do
Thefoureiro
de
ElRey,
»
pera
a
todo
o
tempo
que
eu
o
puder
pa-
»
gat,
O
faça.
E
fe
eu
morrer;
elle
haverá
»
por
bem
de
me
fazer
mercê
de
tudo.
E
tomando
hum
Miflal,
poz
Íobre
el-
le
a
mão
direita,
dizendo:
»
Por
elite
jura-
»
mento
dos
Santos
Evangelhos,
que
até
ef-
yta
hora
emque
elton,
não
fou
em
encar-
»
go
à
Fazenda
de
ElRey
de
hum
cruzado,
y
nem
a
alguma
outra
peíloa
de
coufa
que
»
tomafle
Chriltão
,
Judeo,
Mouro,
ou
Gen
»
tio,
nem
nunca,
em
quanto
governei
a
In-
»dia,
tive
genero
algum
de
trato
de
mer-
»
cadoria,
nem
poroutra
alguma
viatenho,
»ou
tive
proveito
algum
;
antes
até
agora
»
vivi,
e
gaftei
de
meus
ordenados,
fem
me
»
ajudar
de
outra
alguma
coufa.
Nem
em
»
meu
poder
,
nem
fóra
delle
tenho
fenão
»aquillo
,
que
trouxe
de
Portugal
pera
o
»
ferviço
,
e
authoridade
defte
cargo.
É
ain-
»
da
deffa
pouca
prata
de
meu
Íerviço
he
»-quali
ametade
diminuída
,
parte
por
ma
fur-
»
tarem,
parte
por
fe
gaftar,
e
quebrar.
É
»
de
tal
maneira,
ctão
regiftado
fui
fempre
»
em
minhas
defpezas,
que
fóra
do
ordinas
»rio,
não
tive
alguma
hora
poíle
pera
com:
»-prar
outra
colcha
,
além
defta
que
tenho
»na
cama
;
nem
em
minha
cafa
fe
achará
»
peça,
que
eu
fizefle
nefte
Eitado
,
tirando
»
huma
eípada
de
ouro
,
com
algumas
pe:
4
|
»
dras
Deco
Vi:
E
tvs
VI=C
api
TX,
67
»dras
de
pouca
fubftancia
,
e
hum
capace-.
»te
guarnecido
de
prata,
que
fiz
pera
meu
»
filho
D.
Alvaro
,
porque
determinava
de
o
»
mandar
efte
anno;,
que
embora
vem,
a
Pora
»tugal,
a
fervir
ElRey
noflo
Senhor
na
»Corte
,
e
na
guerra.
E
de
tudo
ifto
que
»aqui
dife
,
e
Jurei
vos
peço
que
mandeis
»
fazer
hum
Termo,
em
que
todos
os
que
»
aqui
eltais
fe
aflinem
,
pera
que
a
todo
o
»tempo
que
fe
achar
o
contrario
difto,
que
»aqui
jurei
,
ElRey
noffo
Senhor
me
cafe
»
tigue
como
a
perjuro
á
fé,
e
deftruidor
de
»Íua
honra.,
e
fazenda.
»
Etfte
auto
fe
fez
logo
,
e
hoje
eftá
o
pros
prio
;
em
que-todas-as
pefloas
nomeadas
fe
alináram
em
hum
livro
dos
regiftos
da
Fas
zenda
dos
Contos
de
Goa,
donde
o
nós
tis
rimos,
e
trasladámos.
E
certo,
que
aílim
devia
de
andar
efcrito
nos
animos:
de
todos
os
Governadores,
e
Vifo-Reys
da
India.
E
fe
ifto
fuccedêra
em
tempo
“daquelles
anti=
gos
Gregos
,
que
com
muita
razão
pudéram
trasladar
efte
Termo
em
laminas
de
ouro,
e
pregarem-nas
fobre
as
portas
do
Oraculo:
de
Delphos,
junto
daquella
notavel;
e
me
moravel
fentença
,
que
nellas
tinham
de
Nofee
te
ipfum.
Porque
não
ha
-mór
conhe-
cimento
de
fi
mefmo:,
nem:
mór
defprezo
detudo,
que
oqueteve
elle
Vifo-Rey;
por-
que
nem
aquelle
grande
deíprezo
de
ouro,
o
M
é
68
ASIA
DE
Diogo
DE
CovrTo
e
riquezas
daquelle
famofo
Capitão
Fabri
“cio
Romano;
nem
o
de
efloutro
Themifto-
cles
Grego,
chegáram
a
efte:
E
com
muita
razão
pudéra
a
vida
defte
Vifo-Rey
fer
re-
gra,
e
nivel
de
todos
os
outros,
e
os
Reys
de
Portugal
darem
o
traslado
defte
auto
por
regimento
a
todos
os
que
pera
a
India
def
pachaflem
,
porque
nelle
lhes
moftra
bem
a
pureza,
que
hão
de
ter
em
fua
Fazenda,
o
como
hão
de
fer
regiftados,
e
defapegados
de
tudo
pera
poderem
fazer
juíliça.
O
cos
mo
hão
de
deixar
fervir
aos
Officiaes
feus
cargos,
pois
lhos
ElRey
da
por
feus
fervis
ços
,
como
a
elles
a
governança
da
India;
e
não
taparem:
as
bocas
tanto
a
todos,
co-
mo
depois
alguns
fizeram;
que-os
não
dei-
xavam
comer
,
fendo
a
tenção
de
ElRey
que
fe
fartem
em
feus
cargos
,
(como:
El-
Rey
D,
João
o
II.
difle
áquelle
Almoxari-
fe
,
que
dizia,
que
morria
de
fome,
que
ois
Unha
carne,
pefcado,
azeite,
vinho,
€
Dafedfito
»
que:
fe
fartaíle.
)
Mas
foi
o
Mun-
dotanto
de
mal
em
peior:,
e
afim
fe
tro=
cáram
eítas
bolas
depois,
que
efle
Vifo-Rey:
pediasaos
Officiaes
de
ElRey
que
lhe:
dél-.
fem
de
comer;
ehoje
não
bafta
pedirem
el-
“
les
aos
Vifo-Reys
que
-os
fartem
,
porque
comema
todos
tanto
por-fuas
mãos
por
res
gra,
que
não
levam
bocado
á
boca»,
que
lhes
não
feja
contado.
E:
deixando
ella:
mas
Eri
te-
“Dec
VE
Lrv.
VL
Car.
IX.
69.
teria
que
efcandaliza,
tornemos
á
nofla
hif-
toria.
Os
Veadores:
da
Fazenda
com
os
Depu-
tados
do
governo
,
ordenáram
ao
Vifo-Rey
pera
defpezas
de
fua
cafa
tudo
abaltadamen>
te;
mas
o
que
lhe-limitáram;,
eo
livro
em
que
fe
lançou
efta-defpeza
,
nós-o
não
achão
mos,
bufcando-o
bem.
A
doença-do
Vilo:
Rey
foi
tanto
por
diante
,
que
aos
quator-.
ze
dias
della
deo
a
alma
“a
Deos
noffo
Se-
nhor,
depois
de
feitos
todos
os
aétos
de
mui+
to
bom
Chriftão:,
com
grande
dor,
e
má-
goa
de
toda
a
India,
que
todos
o
fentiram
em
extremo
,
porque
o
amavam
como
pat.
“>
Faleceo
a
feis
de
Junho
de
1548.
em
ida-
de
de
quarenta
e
oito
annos
;
tendo
gover-
nado
dous
e
oito
mezes,
em
que
entráram
quatorze
dias,
que
fó
logrou
otitulo
de
Vi-
fo-Rey.
Bufcou-fe
feu
teftamento
pera
ve-
rem
o
que
mandava
ácerca
do
feu'enterra-
mento
,
e
achou-fe
em
huma
boceta-do
Rey-
no,
cuja
chave
elle
comfigo
trazia,
e
den-
tro
nella
lhe
acháram
humas:
diciplinas,
que
moftravam
que
ufava
muito
dellas
;'e
a
gue-=
“delha
da
barba,
que
mandou
de
Dio
em
pe-
nhor
á
Cidade
de-Goa
do
emptreítimo
,
que
lhe
pedio
pera
repairar
a
fortaleza
dos
gran-
des
damnos
,
que
no
cerco
lhe
fizeram,
e
tres
tangas
Larins.
Aberto
o
teltamento
;
achou-fe
nelle;
que
fua
mulher,
e
feu
filho
E
Dom
vo
ASIA
de
Droco
DE
Cov'ro
D.
Alvaro
de
Caftro
eram
feus
teftamentejs
ros;
e
mandava
que
o
enterralem
em
São
|
Francifco
,
e
que
feus
oflos-foílem
depois
levados
'á
lua
Capella
de
Cintra.
E
encom-
mendava
a
Ífeu
filho
D.
Alvaro
de
Cafiro
é
que
logo
fe-fofle
pera
o
Reyno.
As
mais
particularidades
do
teftamento
não
aponta
mos
,
por-nos
não
ferem
neceflarias
pera-a
hiftoria.
=p
7
Foi.
D.
João:
de
Caftro
filho
do
Gover=
mador
de
Lisboa
D.
Alvaro
de
Caftro
»
(CO-
mo
no
principio
da
hiftoria
diflemos,)
foi
cafado
com:
Dona
Leonor
Coutinho
;
filha.
le
Lionel
Coutinho
,
que-matáram
em
Ca-
lecut-com:
o
;Marichal,
ecde
D.
Mecia
de
Azevedo.
“No
eftado
da-mocidade
foi
bem
inftruido
nas
artes
liberaes.
»
«depois
de
tão
bom
Latino,-que
podia
Julgar-de
antre-ef-
tilo
,
e.eftilo,
(como:
fe
vio
naquelle-curio-
fo,
Tratado
que
fez
na
jornada
do
Efrei-
to
do
Mar
Roxo,
quando
foi
com
D.
Ef
tevão
da
Gama
,)
em
que
muito
curiofamens
te
dá
razão
do
porque
fe
chama
Roxo,
e
daquellas
manchas
vermelhas
que
fe
acham
por
todo
aguelle
Eftreito
,
com
bem
diffe-
rentes
fundamentos
do
que
fizeram outros;
que
eferevéram
fobre
ifto;
cujo
Tratado
di-
rigio
ao
Infante
D.
Luiz.
Foi
muito
incliz
nado,
e
affeiçoado
á
Mathematica
»
de
que
teve
por
Meire
o
grande:,
e
infigne
Dous
:
tor
eDeo
VE
Live
VicCAr
IX
71
tor
Pero
Nunes,
em
companhia
do
Infante
D.
Luiz,
que
tambem
a
aprendeo.
Naquel-
la
Armada,
que
ElRey
mandou
de
foccor=
ro,
de
que
foi
por
Capitão
mór
Antonio
de
Saldanha,
foi
elle
por
Capitão
de
huma
caravela.
E
conta-fe
delle
,
que
acabada
a
jornada
,
mandando
o
Imperador
fazer
mer=
cê
de
dous
mil
cruzados
a
cada
Capitão
da-
quella
Armada
Portugueza.,
fó
D.
João
de
Caftro
os
não
quiz
acceitar,
dizendo,
que
elle
fora
por
mandado
de
ElRey
de
Portu-
gal,
e
que
elle
lhe.
faria
mercê.
Depois
o
mandou
ElRey
a
Ceita
com
huma
Armada
a
talhar
a
Almina.
E
aflim
fe
fervio
delle
nas
Armadas
das
Ilhas
,
e
depois
foi
à
In-
dia
com
D.
Garcia
de
Noronha,
ao
primei-
ro
cerco
de
Dio,
(
como
fica
dito
no
Cap.
VIII.
do
II.
Liv.
da
V.
Decada,)
e
em
tudo
deo
de
fi
grande
fatisfação.
Morreo-
lhe
feu
pai,
herdou
aquella
quinta
de
Cin-
tra,
aonde
fe
recolheo
a
filofofar
já
depois
de
fer
de
quarenta
annos
,
cortando
todas
as
arvores
de
fruito
que
tinha,
em
cujo
lu-
gar
fez
plantar
outras
agreftes
,
e
peregri-
nas,
e
fez
alli
debaixo
de
huma
lapa
huma
|
Ermida
muito
devota.
Aqui
o
hia
o
Infante
D.
Luiz
ver,
e
communicar,
e
dalli
fe:
lhe
affeiçoou
de
feição
,
que
o
inculcou
a
El-
Rey
pera
o
mandar
por
Governador
á
In-
dia,
onde
o
fervio
com
muito
zelo,
amor
,
É
in-
as
as
y2
ASIA
pe
Droco
DE
Covo
inteireza
,
e
pouca
cubiça
,
como
pelo
de
curío
da
hifioria
fe
tem-vilto,
fazendo
tan
tas,
e
tão
continuas
gúerras
aos
inimigos,
por
mar,
eporterra,
andando
de
continuo
embarcado
com
as
armas
ás
coftas,
que
fe
afirma,
que
de
puro
trabalho
morreo.
E
tambem
fe
póde
affirmar
de
fha
muita
cari-
dade,
continencia
,
pouca
cubiça,
grande
temor
de
Deos
,
e
em
todos
os
mais
exte-
riores
de
Chriflão
,
que
fua
alma
eflará
na
gloria
recebendo
o
premio
,
e
galardão
de
todos
os
feus
trabalhos,
73
A
Sé
as
6
5
e
MH
05
e
2
3
pa
E
0
ea
E
pm
a
RE
a
a
e
O
sao
aRE
E
RE
e
E
FEZ
É
EA
é
SIE
LEME
E
Eis
LIV
ROVE
“Da
Hiftoria
da
India.
-
CAPILULAO
am
De
como
pormorte
do
Vifo-Rey
D.
João
de
Caftro
fuccedeo
Garciade
Sá:
e
das»
“o
pazes
que
fez
com
o
Idalxá.
TR
Sranvo
ainda
o
corpo
«do
Vifo-Rey
À
D.João
de
Cafiro
por
enterrar,
pol-
to
no
meio
da
Capella,
mandou
o
Veador
da
Fazenda
Ruy:
Gonçalves
de
Ca-
minha
trazer
o
cofre
,
em
que-eltavam
as
»
Íuccefsões
da
governança
da
India,
que
eram
finco
;
e
abrindo-o
perante
todos.os
Officiaes
,
Fidalgos,
e
Capitães,
tirou
a.
primeira,
e
a
deo
a
D.
Diogo
de
Almeida,
Capitão
da
Cidade
,
que
a
examinou
com
o
Ouvidor
Geral,
eachou
queeftavasã,
e
inteira,
fem
nella
fe
bolir,
E
tornando-a
ao
Veador
da
Fa-
74
ASIA
pe
Droco
pe
Covro
Fazenda,
elle
a
deo
ao
Secretario
,
que
leo
em
alta
voz
o
titulo
de
fóra,
que
dizia
af.
fim:
Primeira
Juccefsão
da
governança
da
Judia,
que
Jeabrirá
,
falecendo
o
Vifo-Rey
D.
João
deCafiro,
o
que
Deos
não
permit-
ta;
e
ao
pé
citava
ElRey
aflinado.
É
abrin-
do-a
,
a
foi
lendo
alto,
pera
que
todos
a
ou=
viffem,
eachou
nella
D,
João
Mafcarenhas,
que
era
ido
pera
0
Reyno.
E
tornando-a
ao
cofre,
tirátam
a
fegunda,
com
quem
fe
fez
a
meíma
diligencia
;
é
lendo-a,
acháram
Dom
Jorge
Tello,
que
tambem
era
ido
pera
o:
Reyno.
E
tirada
a
terceira
+
COM
quem
tam-
bem
fe
fez
a
mefima
diligencia,
que
com
a
primeira
,
e
fegunda,
acháram-fucceder
Gare
cia
de
Sá,
que
eftava
prefente;
a
quem
lo-
go
alli
lhe
fizeram
entrega
da:
governança
da
India,
na
fórma
acoftumada
naqueiles
Ef
tados,
dando
a:
menagem
do
Eftado
da
In-
dia
nas
mãos
de
D.
Diogo
de
Almeida,
Ca-
pitão
da
Cidade.
[
“=
Aguiaconteceo
huma
galanteria
»
que
fe
notou
a
Jorge
Cabral,
que
eftava
prefente,
que
vendo
abertas
tres
fuccefsões
;
dife:
»
Dera
alguma
coufa
agora
por
faber
qual
»
he
o
rapaz
da
quinta
fuccefsão,
que
a
quar-
»
tabem
fei
que
fou
eu;
»
eaflim
ofoi
por
falecimento
defte
Governador
;
Como
adian-=
te
em'
feu
lugar
fe
dirá.
Ee
Feito
o
auto
da
entrega
da
India
5
na
ol
Déc=-VicLrvo
VH!
CAPS.
os
“foi
aos
feis
dias
do
mez
de
Junho
do
anno
"de
1548,
depois
de
fe
enterrar
o
corpo
do
Vilo-Rey,
o
mais
folemnemente
que
pudé-
ram,
fe
recolheo
o
Governador
pera
fua
ca-
fa,
e
começou
a
entrar
nos
negocios
de
feu
cargo,
vilitando
a
Ribeira
das
Armadas,
e
os
Armazens,
mandando
prover
todos
mui-
to
bem,
e
negociar
os
navios
com
muita
preffa,
porque
determinava
de
fe
embarcar
no
verão.
sã!
ESTE
As
novas
da
morte
do:
Vifo-Rey
Dom
João
de
Caftro
corrêram
logo
por
eíle
cer-
tão,
com
que
o
Idalxá
defpedio
hum
Em-
baixador,
chamado
Motabarcão:,
Regedor
do
leu
Reyno,
com
grandé
apparato
pera
ir
vilitar
o
novo
Governador
,
ea
lhe
fazer
novos
requerimentos
fobre
as
coufas
de
Mea-
lecan,
dando-lhe-todos
os
feus
poderes
pe-
ra
“tratar,
e
aílentar
pazes,
porque
lhe
não
vinha
bem:
ter
guerra
com
os
Portuguezes;
porque
lhe-era
neceílario
defocenpar-fe
“de
tudo,
pera
refiftir
ao
Rey
do
Canará,
que
lhe
fazia
dura
guerra
,-
e
por
haver
à
mão
certas
Cidades,
que
lhe
eile
tinha
tomadas.
Efte
Embaixador
-chegou
a
Goa.
em
Agofa
to;
e
o
Governador
o
mandou
bufcar;,
e
o
recebeo
com
grande
apparato
,
e
depois
de
paflada
a
vifita
o
ouvio:
Klle
lhe
dife:
»Que
o
Idalxá
feu
Senhor
dera-as
terras
fira
»mes
de
Salfete
;
e
Bardés
ao
Governador
|
»
Mar-
76
ASIApe
Drogo
DE
Covro
»
Martim
Affonfo
de
Soufa
;
com
condição,
aque
Mandaria:
Mealecan
pera
o
Reyno,
»ouú
pera
Maluco,
como:
confta
daquelles
»
contratos
que
aprefentava.
(Que
lhe
pedia
»
lhos
cumprife,
e
lhe
entregafle
Mealecan,
»
ou.lhe
largafle
as
flas
terras
,
etanadarias:»
O
Governador
lhe
refpondeo
:
»
Que
o
Go
»
vernador,
que
com
elle
fizera:
aquelles
con-
»tratos,
eftáva
no
Reyno,
e
que
elle
fem
|
»
recado
PEIRey
de
Portugal
não
podia
»
fazer
confa
alguma
naquele
negocio.
Que
»
le
tratava
Íó
de
fe
fegurar
de
Mealecan
,.
»
que
elle
o
teria
tão
fechado
;
e
guardado,
»
que
na
fua
imaginação
eftivelfe
tão
longe
»de
paflar
ao
Balagate,
como
feeftivera
no
»Reyno
de
Portugal.
E
que
fe
o
pedia
pes
»ra
o
ter
em
cultodia
em
outra
parte,
que
»
em
nenhuma-elle
podia
eftar
mais
feguro,
»
que
na
Ilha
de
Goa,
rodeada:
de
hum
mui
»to
largo
rio,
e
com
tantas
guardas
,
evi-
»
gias
,
que
não
podia
dar
huma
volta
na
»fua
cama:
que
não
fofle
fentido-;
com
o
»
que
fe
havia
de
haver
por
fatisfeito.
»
O
Embaixador
deípedio
logo
correio
ao
Idal-
xá
delta
reípofta,
que
lheefcreveo,
que
cons
firmafle
novas
pazes,
mandando-lhe
Capitu-
los
dellas.
E
tornando
o
Embaixador
a
aper-
tar
com
o
Governador,
e
moftrando-lhe
os
apontamentos
do
Idalxá
,
depois
de
viltos
em
confelho,
e
praticados
por
todos
osCas
i
;
pl=
|
Dec.
VÊ
Liv:
VIL
CAP.
É.
pitães,
e
Fidalgos
,
concluiram-fe
as
pazes'
com
os
Capitulos
feguintes.
5
»
Que
de
novo
fe
confirmavam
as
pazes
,
»
e
amizades
como
dantes
eltavam
feitas
com
»
os
Governadores
paílados,
com
condição
;
»
que
logo
entregaria
o
Idalxá
o
Embaixa-
»dor
,
que
lá
tinha
reteudo
do
tempo
de
»
Martim
Affonfo
de
Soufa.
com
todos
os:
»-Portuguezes,
e
todas
fuas
fazendas..
»
Que
nunca
mais
daria
foldo
a
nenhum:
'»
Portuguez,
que
folle
fugido
pera
feus
Rey="
»
nos.
|
»
Que
asterras
firmes
de
Salfete,
e
Bar=
»dés
nunca
mais
fallaria
nellas,
e
ficariam
pa
ElRey
de
Portugal
pera
todo
fempre,
»
fem
os
Reys
de
Vifapor
terem
mais
nellas
»
direito
algum.
ia
“e
ara
»
Que
fe
emalgum
tempo
vieflem
galés:
»
de
Rumes
á
India,
feria
elle
Idalxa
obri=
»gado
ajudar,
e
foccorrer
o
Governador
,
que
no
tal
tempo
governafle
a
India,
com
»
mantimentos
,
marinheiros
por
feu
dinhei=
»ro,
e
que
nada
dito
dariam
em
algum
dos
»
feus
portos
aos
Rumes,
nem
os
agazalha-
»
riam
nelles.
E
Siss
|
-
-Eftes
quatro
Capitulos
aflima
são
cs
que
o
Idalxá
concedeo
ao
Governador;
e
os
que
concedêram
ao
Idalxá,
são
os
feguintes:
»
Que
os
Governadores
da
India
feriam
pobrigados
a
terem
hum
Reitor
nftidads
;-
de
“8
ASIA
DE
Droco
DE
CovrTo
y
de
Dabul,
que
daria
cartazes
a
todas
fuas
»
nãos,
e
navios,
que
daquelle
porto
fahif.
»
fem,
e
nelle
carregaflem.
»
Que
os
mercadores,
que
dos
portos
de
»
Perfia,
e
Arabia
foflem
a
Goa
com
caval-
»
los,
os
poderiam
paflar
ao
Balagate,
e
que
»
os
donos
delles
pudeflem
levar
fuas
armas
»
fem
lhes
entenderem
com
ellas.
»
Que
o
Idalxá
poderia
mandar
levar
tos
»
dos
os
annos
da
Cidade
de
Goa
quinze
ca-
»
vallos
forros
de
direitos
pera
fua
pefloa.
:
»
Que
poderia
o
Idalxá
mandar
levar
de
»
Goa
todos
os
annostres
mil
pardáos,
em-
»-pregados
nas
fazendas
que
quizefle
,
fem
»
pagar
direitos,
nem
lagimas
da
fahida.
»
Que
o
Governador
da
India
teria
Mea-
»
lecan
em
muito
boa
guarda,
evigia,
e
o
»
não
mandaria
pera
fóra
de
Goa,
fem
pri
»
meiro
o
fazer
a
faber
ao
Idalxá.
».
Deltas
pazes
foram
linguas
Coge
Porco-
li
por
parte
do
Idalxá
,
e
João
de
Caftro
pela
do
Governador,
e
logo
fe
juráram
na
Cidade
de
Goa
com
grandes
folemnidades
;
e
o
Governador
deípedio
hum
Embaixador
pera
ir
à
Corte
de
ElRey
a
vellas
jurar,
e
tomar
entrega
do
Embaixador,
e
Portugue-
zes
Elfte
Embaixador
foi
muito
bem
rece=
bido
de
ElRey
,
que
jurou
perante
elle
as:
pazes,
e
as
mandou
apregoar
por
feus
Rey-
nos
,
e
lhe
fez
entrega
do
Embaixador,
e
Efe
-
Pore.
Drc.
VI
Liv.
VIL
Carl
79
Portuguezes.
O
Governador
entendeo
o
que
“faltava
do
Inverno
«em
algumas
coufas
do
governo
da
Republica.
E
porque
faltava
moe-
da
na
Cidade,
mandou
bater
huma
de
ou=
ro
da
lei
dos
pagodes
,
redondas
,
que
vi-
nham
da
terra
firme
,
que
era
de
quarenta
e
tres
pontas,
que
refponde
a
vinte
quila-
tes
e
hum
quarto,
e
cada
marco
de
ouro
fica
refpondendo
a
feffenta
e
fete
moedas,
e
duas
tangas,
oito
grãos
,
e
dezefeis
avos
de
grão.
Elta
moeda
mandou
chapar,
ecunhar
.
de
huma
parte
com
a
figura
do
Bemaventu-
rado
Apoftolo
S.
Thomé,
Padroeiro
da
In=
dia,
e
da
outra
com
as
quinas
das
Armas
Reaes
de
Portugal
,
e
ficâram-fe
chamando
S.
Thomés
,
moeda
que
ainda
dura
na
In-
dia,
e
corre
por
toda
ella.
E
toda
a
pef-
foa
que
metteíle
ouro
na
moeda,
mandou
,
que
de
cada
marco
de
ouro
lavrado
pagaí-
fe
dous
S.
Thomés
,
hum
pera
ElRey
,
e
outro
pera
os
Officiaes.
GASPA
Teu:
E
O:
De
como
matiram
em
Dio
Luiz
Falcão
,
Capitão
daquella
fortaleza
:
e
das
frma-
das,
que
EIRey
defpedio
pera
a
India.
*
Stando
huma
noite
Luiz
Falcão
no
quar=
to
da
prima
em
fua
cafa,
aflentado
em
luma
cadeira,
com
o
rofto
pera
huma
por=
|
|
ta,
%o
ASIA
pE
Droco
DE
Cotro
ta,
que
fahia
pera
hum
baluarte
,
onde
os
foldados
vigiavam
toda
anoite,
e
tinha'an-
tre
as
pernas
hum
menino
,
Ífeu
filho
natu-
ral,
(
que
depois
fe
chamou
Aires
Falcão,
e
foi
Capitão
de
Baçaim,
e
de
Dio,
e
tem
hoje
filhos
,
e
netos,
)
e
como
elle
eftava
com
candeas
accezas,
e
os
que
paffavam
pes
ra
o
baluarte
hiam
de
longo
da
porta,
que.
eltava
hum
pouco
aberta,
apontáram
da
ban-:
da
de
fóra
com
huma
efpingarda
nelle
;
“e
tomando-o
pela
cabeça,
deram
com
elle
mor=
to
no
chão
;
e
acudindo
os
feus
aos
gritos
do
menino
,
acháram
já
o
Capitão
morto;
e
correndo
a
voz
pela
fortaleza
,
acudiram
todos
a
fua
cafa.,
fem
faberem
donde
lhe
aquillo
podia
vir
,
e
alli
de
commum
con-
fentimento
elegêram
por
Capitão
hum
Fi
dalgo
pobre,
acanhado,
mas
bom
homem;
e
bom
Chriftão
,
chamado
D.
Artur
de
Caf-
tro.
Ao
outro
dia
depois
de
Luiz
Falcão
fer
enterrado
,
fe
tiráram
grandes
inquirições
,
fem
acharem
rafto
de
coufa
alguma.
—
Ecomôoifo
era
já
entrada
de
Setembro,
defpedio
D.
Artur
hum
navio
pera
Goa
,
com
cartas
ao
Governador
do
que
era
fuccedido.
Ele
navio
foi
tomar
Baçaim
;
e
fabendo
D.
Jeronymo
de
Menezes,
Capitão
daquel-
la
fortaleza,
o
fucceflo
,
receando
que
hou-
veífe
na
terra
alguma
alteração
,
fe
embat-
coulogo
;
levando
dous
navios
com
fincoen-
ta
+
|
Dec
VE
LivoVIeG
spo
St
ta
homens”
e
atravellou
o
Golfo,
(porque
os
Fidalgos
daquelle
tempo
traziamimais
o
penfamento
no
ferviço
de
Deos
;
e
do
Rey.,
que
em
outro
algum
interefle;,
e
afim
Deos
os
ajudava,
e
honrava;
e
logravamo
feu
pouco
,
que.
então
tiravam
das
fortalezas
;
O
que
hoje
não
vemos
fazer
ao
feu
muito
dos
Pagora.)
Chegado
D.
Jeronymo
a
Dio,
o
foi
D.
Artur
com
todos
os
da
fortaleza
buf-
car
ao
caes,
e
olevou
pera
fua
cala,
é
lo-
“go
perante
todos
lhe
pedio
que
quizefle
to-
mar
entrega
daquella
fortaleza
,
e
lhe
offe-
recia
as
chaves
,
porque-elle
não
queria
a-
quella
carga.
D.
Jeronymo
de
Menezes
te-
ve
com
elle
grandes
cumprimentos
,
não
que-
rendo
tomar
as
chaves
,
dizendo-lhe:,
“que
elle
vinha
alli
a
fer
feu
foldado,.
e
que
tu=
do
eftava
bem
nelle;
eaflim
ficou
fendo
feu
hoípede
até
chegar
Martim
Correa
da
Sil-
va,
como
logo
diremos
,
porque
he
necef-
fario
que
continuemos
com
as
nãos
do
Reyno.
Depois
que
ElR
ey
defpedio
aquellas
duas
Armadas,
de
que
eram
Capitães
móres
Mar=
tim
Correa
da
Silva
,
e
Francifco
Barreto
,
pelas
novas
que
teve
davitoria
de
Dio,
las
|
bendo
que
ainda
ficava
o
Eftado
de
guerra
com
Cambaya
perigofo
,
determinou
man-
dar
mais
Armadas
,
e
gente
;
porque
pera
coufa
tão
importante
,
como.
era
foccorrer
à
Índia,
em
que
efperava
que
a
Lei
do
Evan=
Conto.
To.
II.
P.
Il.
E
ge-
62
ASTA
pr
Dioco
DE
Couro
gelho:
tanto
fe
dilatafle,
não:
receava-delpe-
zas:;;nem.
o
impediam
trabalhos
-(
que
não
faltavam:
no,
Reyno»,
)-e
afim
mandou-com
muita
preíla
negociar:
onze
nãos,
que-repar-
tio
emrtres
Capitanias.
Das
finco:
fez
Capi-
tão
mor
«Manoel
de:
Mendoça-,-que
defpa-
chouccom
as
fortalezas
de
Cofala
,
e
Mo-
cambique,
que-defpedio
entrada
'de
Março.
Os
Capitães
de
Ífua:
companhia
eram,
Jorge
de
Mendoça
,
que:
levava:
a:
Capitania
de
Goas'
Alvaro
de
Mendoça
;
Manoel
Rodri-
gues
Coutinho,
e-Baftião
de
“Taíde,
-»
cAsoutras
feis-nãos
partiram
até
vinte
do
mefmo-mez.
Dastres
dellas
era
Capitão
mór
D.
João
Henriques,
que
levava
a
Capitania
de:
Malaca,
e
os
Capitães
das
outras
duas
nácseram
Aires
Moniz,
e
Antonio
de
Azam-
buja:
O
outro
Capitão
mór
era
João
de
Men-
doça-o
Chu,
que
tambem
traziara
Capita-
nia-de
Malaca
5:
e
os-Capitães
de
fua
con-
jerva-
eram;
Fernão-de
Alvarez:
da
Cunha,
e
Diogo
Rebello.
Eftas
Armadas
tiveram
tão
boa
viagem,
que
Fernão
de
Alvarez
da
Cu-
nha:
foi
ferrar
a
cofla
da
India
em
Julho,
e
porachar
o
tempo
verde
Íe
recolheo
a
An-
gediva,
onde
eftava
Martim
Correa
da
Sil-
va
-e
dalli
defpedio
recado
ao
Governador,
das.
Armadas
que
eram
partidas
do
Reyno,
e
das
novas
da
faude
de
ElRey,
que
foram
muito
fellejadas.
E
entrada
de
Setembro
fe
fio
Drc.
VI.
Lav.
VII,
Cap.
II.
83
fizeram
á
véla
pera
Goa,
ejuntamente
com
ellas
furgiram
as
Armadas
todas,
e
a
de
Fran-
cifco
Barreto,
que
eltava
de
invernada
em
Mo=
cambique
;
que
foi
huma
formofa
coufepe-
ra
ver,
porque
enchiam
aquellas
nãos
todo
aquelle
porto.
|
Neftas
Armadas
mandoú
ElRey
os
pri-
meiros
Frades
da
Ordem
dos
Prégadores:,
pera
na
India
exercitarem
feu
officio,
e
veio
por
Vigario
Geral
de
todos
o
Padre
Fr:
Diogo
Bermudes,
Caftelhano,
Varão
dou-
to,
ede
vida
religiofa,
e
exemplar,
etrou-
xe
doze
Frades,
que
foram
bem
recebidos
em
Goa,
e
fundáram
o
célebre
Convento,
que
hoje
tem
naquella:
Cidade,
CA
PIE
UAO
E
De
como
nefra
Armada
do
amno
de
1548.
de
que
era
Capitão
mor
Manoel
de
Menda-
$a,
trouxeram
os
Padres
da
Companhia
buma
cabeça
das
onze
mil
Virgens
,
que.
-
Jfoimuito
bem
recebida
em
Goa:
e
das
no-
vas
que
o
Governador
Garcia
de
Sá
teve
de
Dio,
e
defpachou
Martim
Correa
da
Sil.
“Vapera
aquella
fortaleza
:
e
dos
Embaixa-
dores
que
a
Goa
vieram
dos
Reys
vizinhos.
M
Uitas
coufas
vieram
neftas
Armadas,
que
alegráram
a
India;
mas
fobre'to=
das
foi
huma
cabeça
das
onze
mil
Virgens,
F
ii
que
A!
84
ASTA
pe
Diogo
pk
Covro
quealguns
Padres
-da
Companhia
trouxeram,
Reliquia
muito
pera
eftimar,
e
que
a
Cidas
de
de
Goa
o
fez
muito,
e
aflim-foi
recebi-
da
com
prociífsão
muito
folemne.,
em
que
fe
achou:
o
Bifpo
reveftido
,
e
o
Cabido
com
todas
as
Freguezias
,
e
Ordens
,
e
foi
levada
da
Sé
de
Goa
até
o
Collegio
de
Santa
Fé,
que
fe
agora-chama
de
S.
Paulo,
que
he
hum
dos
Collegios
fumptuoíilimos,
que
os
Padres
da
Companhia
tem'pelo
Mundo
dos
principaes.
Com
eftas
Armadas
ficou
a
India
profpera
de
nãos,
que
ficáram
nella,
(por-
que
fó
quatro
tornáram
com
a-carga,)
de
gente,
de
dinheiro,
e
mais
coufas.
Manoel
de
Mendoça,
Capitão
mór
das
finco
nãos,
em
chegando
a
Goa
faleceo
de
humas
cama-
ras
de
que
vinha
doente.-
*
4
&.
No
mefmo
tempo
chegou
o
catur
de
Dio
com
as
cartas
de
D.
Artur
de
Caftro,
e
de
D.
Jeronymo
de
Menezes,
em
que
lhe
da-
vam
conta
da
morte
de
Luiz
Falcão,
que
O
Governador
Garcia
de
Sá
Íentio
muito;
pe
lo
que
logo
defpachou
Martim
Correa
da
Silva
,
pera
ir
entrar
naquella
fortaleza
,
e
mandou
em
fua
companhia
o
Doutor
Ma-
noel
de
Mergulhão
a
tirar
devaíla
da
mor-
te
de
Luiz
Falcão;
eefcreveo
cartas
de
pran-
des
agradecimentos
a
D.
Jeronymo
de
Me-
nezes,
pela
prefteza
com
que
acudio
a
Dio.
E.aflim
defpachou
Jorge
Cabral
pera
ir
en.
trar
Dec
Vkditvo
VIL=E
av.
TI.
8
trar
na
Capitania
de
Baçaim
;
por
ter
Dom
Jeronymo
de
Menezes
acabado
feu
tempo.
Martim
Correa
da
Silva
partio:
em
navios
muito
ligeiros
,
e
em
oito
dias
foi
áquella
fortaleza,
e-tomou
poffe
della,
e
D.
Artur
de
Caftro
fe
embarcou
com
D.
Jeronymo
de
Menezes
pera
Baçaim,
que
entregou
a
for-
taleza
a
Jorge
Cabral,
e
dahi-fe
paflou
a
Goa.
-
O
Doutor-
Manoel
de
Mergulhão
fez
muito
grandes
diligencias
fobre
a
morte
de
Luiz
Falcão,
até
dar
tratos
a
hum
foidado
por
alguns
indicios
que
houve
;
mas
não
con-=
felou
coufa
alguma
,
nem
nunca
fe
pode
defcubrir
a
verdade
,
e
aflim'ficou
efte
ne-
gocio
em
fegredo-muitos
tempos
,
até
que
fendo
Francifco
Barreto
Governador
da
In-
dia,
falecendo
em
Bengala
hum
mulato
,
que
fe
chamava
foão
Leite,
que
á
hora
de
Íua
morte
dife,
que
fe
não
demandafle
a
morte
de
Luiz
Falcão
a
peíloa
alguma,
porque
el-
leo
matára:
Se
O
Governador
tratou
de
ir
ao
Norte
,
porque
as
coufas
de
Cambaya
eltavam
em
aberto,
e
quiz
prover
a
cota
do
Malavar;
pera
onde
defpedio
por
Capitão
mór
Fran-
cifco
de
Siqueira
com
quinze
navios.
Era
ef
te
homem
de
calta
de
Nayres,
muito
gran-
de
Cavalleiro
,
e
tinha
feito
tantos
ferviços
do
Eltado
,
que-o
fez
ElRey
Bida
e
:
1€
86
ASIA
DE
Droco
DE
Covro
lhe
mandou
o
habito
de
Chrifto
com
boa
tença.
Elte
verão
fez
pela
cofta
de
Cananor,
que-eftava
alevantada
,
muita
guerra
,
quei-
mando-lhes
muitas
povoações,
e
deftruindo-
lhes
,
e
cortando-lhes
muitas
palmeiras,
e
fazendas.
;
j
Partidos
eftes
navios,
ficou
o
Governador
defpachando
os
Embaixadores
do
Camorim;
que
foram
confirmar
as
pazes,
e
outros
do
Rey
do
Canará
,
e
do
Zamaluco,
do
Cos
tamaluco
,
e
outros
que
foram
a
vilitar
o
Governador
por
fua
fuccefsão
,
é
a
confir-
mar
as
pazes.
Todos
elles
foram
bem
rece-
bidos,
e
defpachados.
E
nas
pazes
que
con-
firmou
com
o
Rey
do
Canará;,
fez
mudan-
ça
nos
Capitulos
contra
o
Idalxá,
por
já
ter
com
elle
feito
pazes,
ficando
de
fóra,
que
nem
favorecia
hum,
nem
outro.
Paflado
ilto,
defpachou
as
nãos
que
ha-
viam
de
ir
tomar
a
carga
pera
o
Reyno;,
e
efcreveo
a
ElRey
o
eftado
em
que
a
India
ficava.
Neltas
nãos
fe
embarcou
D.
Alvaro
de
Caftro
,
filho
do
Vifo-Rey
D.
João
de
Caftro,
por
Capitão
da
náo
Rofairo,
e
fe
embarcáram
outros
muitos
Fidalgos
a
re-
querer
feus
ferviços.
Nefta
Armada
mandou
Coge
Ceniaçadim
mil
quintaes
de
gengivre,
e
duzentos
de
pimenta
,
de
ferviço
á
Rai-
nha
D.
Catharina,
pera
huns
chapins,
pot-
que
tinha
della
todos
os
annos
cartas
muis
to
Dec.
VI.
Lrv.-VIH.
Cap.
872
to
honrofas,
e
peças,
e
brincos
curiofos
da
Europa,
e
afim
mandou
hum
Alifante
pera
fervir
na
Ribeira
das
nãos.
“
Defpedidas
todas
as
coufas
dó
Reyno..,
fcou-o
Governador
fazendo
preltes-toda
a
Armada
pera
fe
embarcar,
e
acudir
às
cou-
fas
de
Cambaya
,
porque
eftavam
prenhes,
e
podiam
parir
novos
trabalhos.
-
E
andans=
do-fe
negociando
com
muita
prefla,
lhe
che-
gáram
cartas
de
Ormuz
do
Capitão
D.
Ma-
noel
de
Lima
,
em
que
lhe
fazia
a
faber,
como
ficava
alevantado
nas
terras
do
Magof-
tão
hum
Capitão
Abexim
Abixlalá,
e
que
tinha
tomado
a
fortaleza
de
Manojão,
don-
de
fazia
grande
guerra
a
todo
o
Reyno,
e
lhe
impedia
as
Cafilas
que
vinham
pera
Or-
muz
;
com
que
a
Alfandega
padecia
gran-
des
faltas.
Eftas
novas
fentio
o
Governador
muito,
por
ferem
aquellas
rendas
as
princi-
paes
da
India
;
e
defpedio
com
muita
bre-
vidade
Pantaleão
de
Sá
com
quatro
navios
de
remo
,
em
que
levava
perto
de
cento
e
fincoenta
foldados
,
que
fe
fez
á
véla
na
en-
trada
de
Novembro,
e
de
fua
jornada
adian-=
te
daremos
razão.
o
88
ASIA
pe
Droco
DE
Covrg
CCAPLIULO
De
como
o
Governador
Garcia
de
Sá
partio
-perao
Norte
:
e
das
pazes
que
fez
com
ElRey
de
Cambaya
,
e
mandow
Fran"
cifco
de
Sá
a
Surrate.
Efpachados
todos
os
Embaixadores
;
e
nãos
pera
Cochim,
logo
o
Governa-
dor
fe
começou
a
embarcar,
entregando
o
governo
ao
Bifpo,
e
a
D.
Francilco
de
Li-
ma,
Capitão
daquella
Cidade,
e
com
elles
outros
Deputados.
E
na
entrada
de
Janeiro
deite
anno
de
quarenta
e
nove,
em
que
com
o
favor
Divino
entramos,
fe
fez
á
véla:
le-
vavafeis
galés
,
quatro
galeões
,
dez
cara-
velas,
e
feflenta
navios
de
remo.
Os
Capi-
tães
dos
navios
grandes
eram,
Francifco
Bar-
reto,
Chriftovão:
de
Sá;
Francifco
de
Sá
de
Menezes,
D.
João
Henriques
,
João
de
Men-
doça,
Alvaro
de
Mendoça,
Manoel
Rodri-
gues
Coutinho,
Manoel
de
Soufa
dé
Sepul-
“veda,
D.
Antonio
de
Noronha,
filho
do
Vi-
fo-Rey
D.
Garcia
de
Noronha,
D.
João
de
Taide,
Pero
de
Taíde
Inferno,
D.
Paio-de
Noronha,
D.João
Lobo,
Lopo
Vaz
de
Si
queira,
D.
Duarte
Deça,
D.
Jorge
Deça
Jordão
de
Freitas,
e
outros
muitos
Fidal-
gos,
e
Cavalleiros,
que
hiam
nos
navios
pe-
quenos.
&
com
bom
tempo
foi
o
o
oL
Dec.
VI.
Liv.
VIL
Car.
IV.
%9
dor
tomar
Chaul
,
onde
fe
deteve
poucos
dias,
e
paílou
logo
a
Baçaim,
pera
mandar
continuar
na
guerra
de
Cambaya..
Dalli
defpedio
Francifco
de
Sá
de
Me-
nezes
com
huma.
galé
,
e
doze
navios:
pera
fe
ir
pôr
fobre
Surrate
,
por
fer
avifado:,
que
fe
efperava
por
huma
não
do
Acheém
muito
rica.
Francifco
de
Sá
fe
foi
lançar
'fo=
bre
aquella
barra
,
defendendo
a
navegação
aos
navios
de
Cambaya,
em
que
fez
algu-
mas
prezas.
Da
chegada
do
Governadora
Baçaim
foi
logo
avifado
ElRey
Soltão
Ma-
hamude;
e
como
eftava
já
enfadado
da
guer-
ra,
epor
caufa
della
feus
vaflallos
pobres,
e
perdidos
;
e
todo
o
mantimento
de
feu
Reyno
aflolado
,
e
deltruido,
e
os
pobres,
|
e
melquinhos
clamavam
por
paz
,
determi-
nou
de
a
mandar
pedir.
Pera
ilto
defpedio
logo
hum
Embaixador
,
pefloa
principal
de
fua
caía
,
pera
ir
vifitar
o
Governador
;
e
dar-lhe
os
parabens
de
fua
fuccefsão
,
e
á
“volta
difio
apalpallo
com
pazes
,
dando-lhe
poderes
pera
tudo
o
que
com
elle
affentaf-
fe.
Efe
Embaixador
partio
da
Cidade
de
Cambayete
em
tres
navios
muito
ligeiros,
“com
muitos
criados
,
e
cala,
e
em
poucos
dias
foi
ter
a
Baçaim,
e
Íurgio
na
aguada;
donde
mandou
recado
de
fua
vinda.
O
Go-
vernador
mandou
preparar
feu
recebimento,
e
embandeirar
toda
a
Armada,
e
deo
“a
o
go
ASIA
pe
Diogo
DE
Covro
do
a
todos
os
Fidalgos,
e
Capitãespera
fe
irem
pera
elle
veítidos.
muito
cultofamente.
E
tendo
tudo
preftes
,
mandou
bufcar
o
Em-
baixador,
que
foi
paífado
a
huma
galé,
ri-
camente
toldada
,
e
alcatifada:,
e
acompa-
nhada
de
outras
foi
entrando
pelo
rio
por
antre
a
Armada,
que
lhe
deo
huma
formo-
fa
falva,
e
chegado
a
terra
foi
defembarca-
do
,
e
acompanhado
da
guarda
do
Gover-
nador,
e
de
todos
os
calados
até
á
fortale-
za,
onde
ellava
efperando
em
fala
ricamen-
te
aparamentada,
e
o
recebeo
com
grandes
gazalhados.
E,
depois
de
lhe
perguntar
pe-
la
faude
de
ElRey
,
e
por
outras
coufas;,
bre-
vemente
o
defpedio
,
e
o
mandou
agaza-
lhar
na
Cidade
em
cafas
,
que:
pera
io
ti-
nha
mandado
preparar.
Dalli
a
tres
dias
o
ouvio
com
o
Secre-
tario,
e
alguns
Fidalgos
velhos,
e
elle
lhe
deo
fia
embaixada,
cuja
Íubltancia
era
:
»
Queixar-fe
ElRey
do
Governador
D.
João
»
de
Caftro,
não
querer
cumprir
os
contra-
»
tos
das
pazes,
que
tinha
feitas
com
o
Vi-
»fo-Rey
D.Garcia
de
Noronha;
e-que
fo-
»
racaula
da
guerra,
defejando
elle
de
con-
»lervar
a
paz
,
e
amizade
com
ElRey
de
»
Portugal;
e
que
pois
elle
faccedêra
em
feu
»lugar
,
lhe
pedia
quizefle
emendar
aquel-
»
las
coufas,
e
cumprir-lhe
os
Capitulos
das
»
pazes.»
O
Governador
lhe
iefpançeh:
em
Óf=
E)
enDec
VI.
Liv:
VILCARAV.
gr
fórma,
deitando
de
tudo
a
culpa
a
Coge
Co-
far,
que
fora
o
author
de
todas
as
guerras.
E
vindo
o
Embaixador
a
puxar
por
pazes,
otemetteo
ao
Secretario,
eoutros
Officiaes.
.
E
fazendo
Ífeus
apontamentos
,
elle
por
par-
te
do
Soltão
Mahamude,
e
o
Secretario
pe-
la
de
ElRey
de
Portugal,
que
viftos
em
con-
felho,
fe
vieram
a
concluir
as
pazes
com
as
mefmas
condições
,
que
eltavam
dantes
af-
fentadas,
tirando
o
negocio
da
parede,
que
não
foi
licito
conceder-fe-lhe;
e
nas
coufas
da
Alfandega
,
que
ficalle
ametade
do
ren-
dimento
della
pera
ElRey
de
Portugal,
af-
fim
como
já
eftava
concedido
ao
Governa-
dor
D.
Eftevão
da
Gama.
Eftas
pazes
mandou
o
Governador
logo
apregoar
por
Baçaim.,
e
Dio
,
jurando-as
muito
folemnemente;
e
deípedio
o
Embai-
xador
com
hum
rico
prefente
pera
ElRey
;
e
mandou
outro
Embaixador
pera
ir
à
Ci-
dade
de
Amadabá
a
ver
jurar
as
pazes
por
Soltão
Mahamude,
que
elle
fez
com
gran-
des
feítas,
e
alegrias
de
todos,
e
as
mandou
apregoar
por
todo
o
feu
Reyno,
e
na
Ci-
dade
de
Dio.
Paífado
ifto,
mandáram
logo,
afim
ElRey.,
como
o
Governador,
Oficiaes
pera
correrem
com
os
rendimentos
da
Alfan-=
dega
,
pelo
modo,
e
ordem
que:
eftava
af-
fentado
pelos
contratos
feitos:
com
o
Vilo-
Rey
D.
Garcia
de
Noronha,
que
fe
veram
na
“92
ASIA
pE
Droco
DE
Couro
na
quinta
Decada
no
Cap.
VII.
do
V.
Liy,
Com
ifto
cefsáram
as
guerras
de
Cambaya;
e
a
Cidade
de
Dio
fe
tornou
a
engrandecer
“como
no
eltado
primeiro.
O
Governador
vendo
tudo
quieto;
e
que
não
havia
que
fa-
zer
no
Norte,
voltou
logo
pera
Goa,
on-
de
chegou
em
Janeiro,
e
começou
a
enten-
der
nos
provimentos
de
Maluco,
e
em
ou»
tras
muitas
coufas;
e
ordenou
em
Goa
a'ca-
ía
da
polvora
no
lugar
em
que
hoje
ela,
e
mandou
armar
alguns
galeões,
caravelas,
galés;
efuítas,
a
que
deo
tanta
preíla,
que
antes
que
faleceffe
(como
logo
diremos)
ti-
nha
acabado
huma
fomma
difto.
SEA
Pol
ESSO
==v:
De
como
ElRey
de
Tanor
na
cofia
do
Ma-
lavar
fefez
Chriftão,
e
veio
aGoa:
edo
grande
recebimento
que
fe
lhe
fez.
SE
fe
defcuidavam
nefte
tempo
os
à.
N
Conquiftadores
efpirituaes
de
exercitar
feu
officio
por
todas
as
partes
;
e
aíflim
ca-
da
dia
mettiam
na
manada
de
Chrilo
gran-
de
fomma
de
Infeis,
em
que
entravam
mui-
tos
Reys,
e
Senhores;
e
deltes,
os
que
me
recêram
muito,
foram
o
Padre
M.
Diogo,
Clerigo,
e
Letrado,
que
he
aquelle
a
que
Mapheo
chama
Diogo
de
Borba,
por
fer
natural
daquella
mefma
Villa
,
e
Miguel
e
A
le
o
Dra
VI
Eivo
VI:
Cír
Vo
93
Vigario
Geral,
ambos
grandes
Religiofos';
e
de
muita
virtude
;
que
por
ferem
eftes
,
indo
depois
o
Miguel
Vaz
pera
o
Reyno,
otornou
ElRey
D.
João
logo
a
mandar
com
ó
mefmo
cargo
de
Vigario
Geral,
e
com
Breves
do
Papa
,
pera
como
Inguifidor
A-
poftólico
devaflar
em
fegredo
de
certos
Chri-
fãos
novos
muito
ricos,
que
viviam
em
Goa
elcandalofamente
,
fazendo
as
ceremonias
Ju-
daicas,
de
que
a
India
fe
começava
à
inçar.
E
chegando
efte
Religiofo
a
Góa;
pren-
deo
alguns
,
e
os
mandou
pera
o
Reyno,
o
que
lhe
cuftou
a
vida,
porque
os
mais
ti-
veram
maneira
com
que
o
matáram
com
pe-
conha.
O
Meftre
Diogo,
feu
grande
amigo
,
fentio
tanto
fua
morte,
que
logo
fe
metteo
Frade
em
S.
Francifco
,
onde
em
poucos
dias
faleceo
,
e
affirmava-fe
que
de
nojo.
Ef-
tes
homens
ambos
fizeram
muita
Chriftanda-
de,
e
o
Meftre
Diogo
em
tempo
do
Go-
vernador
D.
Eftevão
da
Gama
paflou
à
cof-
ta
da
Pefcaria
chamado
dos
Paravás
,
pera
fe
fazerem
Chriltãos.
São
eltes
Paravás
naturaes
de
toda
aquel-
la
coa
,
e
viviam
de
pefcar
aljofres
,
que
por
ella
ha
muitos
;
e
depois
que
os
Mou-
ros
fizeram
alli
fua'
vivenda,
e
tiveram
pof-
fe,
e
poder,
começáram
aos
avexar,
e
pri
var
daquella
pelcaria,
querendo-lhes
tomar
aquelle
proveito
pera
fi.
E
querendo
elles
re-
|
mir
94
ASIA
pE
Drocgo
DE
Covro.
mir
fua-vexação
,
por
confelho
de
hum
João
da
Cruz,
de
fua
nação,
que
já
tinha
andas
do
no
Reyno
de
Portugal,
mandáram
Em-
baixadores
a.
Cochim-a
pedir
foccorro,.€
que
fe
queriam
fazer
Chriflãos.
Era:
então.
nefte.
tempo.
Capitão
daquella
Cidade.
hum
Fidalgo
bom
homem
,
chamado
Gonçalo
Pes
reira
,
que
zelolo
do
ferviço
,
e
honra
de
Deos.,
mandou
em
feu
favor
huma
Arma-
da,
que
opprimio
os
Mouros
,
e
libertou
os
Paravás,
que
fe
começáram
a
baptizar,
(porque
na
Armada
mandou
o
Capitão
Re-
ligiolos.
pera
lo.)
Aifio
acudio
o
Padre
Metfre
Diogo
,
e
fez
muitos
Chriftãos..
E
como
então
não
havia
na
India
mais
que
os
Frades
de
S.
Francifco
,
-que:
não
podiam
acudir
a
tanto,
porque
eram
poucos,
e
ans
davam
repartidos
pelas
Armadas,
e
eltavam
na
Cidade
de
S.
Thomé,
(cuja
Cafa
já
el-
tava
á
fua
conta,
)
ficáram
aquelles
tenros
Chriftãos
fem
poderem
fer
vifitados
de
Re-
ligiofos,
fenão
pelas
Quarefmas
,
a
que:
lhes
acudiam
alguns
de
Cochim;
até
que
chegá=
ram
os
Padres
da
Companhia,
que
toman-
do
o
Padre
M.
Franciíco
Xavier
informa-
ção
daquelia
cofta.,
e.
daquelies
Chriflãos
,
fe
foi
lá
com
alguns
companheiros,
que
já
tinha
recebidos,
e
tornou
a
aquentar
aquel-
Ja
Chriltandade
,
e
augmentalla
com
hum
grande
número
de
Infieis
,
que
converteo
5
ç
o
Dee
VI
Liv.
VI.
Cap.
V..
9%
efundou
por
aquella
Comarca
perto
de
qua-
renta
Templos,
em
que
fe-lhes
adminiftraf-
fem
os
Officios
Divinos;
e
alli
deixou-al-
guns
Religiofos
de
vida
approvada'
pera
os
doutrinarem,
e
enfinarem
as
coufas
de
nof-
fa
Fe.
Ein
t
sn
Daqui
fe
paflou-o
Padre
M.
Francifco
à
Jlha
de
Malaca,
onde
fez
Chriltãos
dous
Reys,
ehuma
grande
quantidade:
do
povo;
o
que
aconteceo
eftes-annos
atrás
paflados..
E
nefte
prefente
em
que
andamos
,
eitava
por
Vigario
na
fortaleza
de
Chale
hum
Cle-
trigo,
chamado
João
Soares,
homem
de
boa
vida,
que
tomougrande
amizade
com
o
Rey
de
Tanor,
que-coftumava
a
ir-muitas
vezes“á
fortaleza
;
e
aíflim
fe
lhe
affeiçoou
;
que
featreveo
ao
convidar
às
vodas
do
Se-
nhor,
fobre
o
que
lhe
difle
tantas
coufas»,
que
o
rendeo,
e
o
catequizou.
E
indo
ter
aquella
fortaleza
o
Padre
Fr.
Vicente,
com-
panheiro
do
Bifpo
,
que
andava
vifitando
em
leu
nome;
e
achando
'aquelle
Rey
diípofto
pera
receber
o
fanto
Baptifmo,
lho
deo
em
fegredo,
fem
o
faber
mais
que
oVigario,
e
o
Capitão,
que
era
Luiz
Xira
Lobo»,
que
foi
feu
Padrinho
;
e
lhe
puzeram
nome
Dom
João.
Efte
fegredo
quiz
elle
que
fe
tiveífe,
porque
receava
alteração
mos
feus:,
e
toda-
via
continuava
com
os
Padres,
eouvia
fuas
Miflas,
e
prégações,
fem
mudar
o
Ee
de
en-
96
ASIA
pe
Diogo
pE
Couro
Gentio:,
nem
tirarvalinha,
que
he
a
fuaine
fignia
pera
maior
diflimulação
,
mas
trazia
hum
Crucifixo
muito
efcondido,
a
que
fe
|
encommendava.
E
como
Deos
o
tinha
to-
cado
,
e
elle
andava
fatisfeito
,
não
pode
dei-
xar
de
fe
defcubrir
à
mulher
;
e
tanto
lhe
prégou,
e
tantas
coufas
lhe
dife
da
bonda-
de
de
nofla
Lei,
que
a
converteo,
e
a
trou-
|
xe-aChale,
e
em
fegredo
a
baptizou,
o
Pa-
dre
Vigario
com
dous;
ou
tres
filhos
ment-
nos
que
tinha.
E
comoelle
de
verdade
el-
tava
abráazado
em
feucoração
com
a
Lei
de
|
Chrito
;
e
todas-as-
coufas
della:
lhe
pare-
ciam-cada
vez
melhor;
e
ouvindo
fallar
nos
Officios
Divinos,
que
em
Goa
fe
celebra-
yam:
no
grande
apparato,
e
ceremonia
del-
les,
defejou
fummamente
de
ir
a
Goa;
af
fim
pera
os
ver,
como.
pera
ir
dar
obedien-
cia
ao-Bifpo,
como
a
Prelado
maior
da
In-
dia.
Tito
communicou
com
o
Vigario,
que
lho
louvou
,
e
o
efcreveo
ao
Governador
Garcia
de
Sá,
e
ao
Bifpo,
a
quem
ElRey
tambem
fignificou
'por
cartas
Íua
vontade.
Elas
cartas
chegáram
ao
Governador
em
fim
de
Março;
e
praticando
com
o
Bifpo
fo-
bre
efte
negocio
,
ofiereceram-fe-lhe
algumas
difficuldades
,
pera
o
que
foi
necelfario
fa-
ger
ajuntamento
de
Theologos.
E
fendo
tos
dos
prefentes
,
lhes
leo
o
Governador
acars
ta
daguelle
Rey
-Chriltão,
e
a
do
Vigario,
nto
ps:
o
Dec
VE
bro
VILCAROV.
9
pera
que
foubeflem
dos
grandes
defejos
que
tinha
de
vir
a
Goa
a
dar
obediencia
a
feu
Prelado
;
como
filho"
Catholico:
da”
Igreja
que
elle
folgaria
de
ofatisfazer
em
tudo
co-
mo
homem
convertido
de
novo
á
nofla
San
taFé,
pera
que
osoutros
fe
movellema
re-
cebella
;
vendo
quanto-nós
honravamos:,
e
etimavamos
os
que:
fe
convertiam
a
ella:
Os
"Theologos
praticáram:
fobre
aquelle
negos
cio,
e
differam
alguns:
-»
Que-não:
era:licis
»
to
receber-fe
hum
homem
,
que
fendo
Chris
yfão
,
trazia
ainda
defeuberta
a
infignia
de
y
Gentio:;
porque:
aFé
não
fe
havia
-de
con-
»fellar
fómente
como
coração.
;“rrias
'com
ya
boca;
»
e
fobre
ifto
deram
muitastazões
e
allegáram
a
Divina
Eferitura
O
Bilpo
vo=
“tando
naquelle
negocio»
difle:
»
Quesquan=
yto
á
linha,
que
aquele
Rey
trazia
por
fó-
yta,
não
era
inconveniente.
algum
peraidei=
yxar
de
fer
havido
por-Catholico
;'porque
y
da
Eferitura
Sagradatinhamos
;
qué
Jofé
yab
Arimathea,
Nicodemus
;
Gamaliel
;e
y
outros
homens
havidos-por
juítos
;'
e:
fan-
ptos,
que
foram
Difcipulos
do
Senhor
en=
ycubertamente
por
imedo-dos
Judeos:;:
não.
»mudáram
feus
veftidos';
e
que
os;Apoltos
»los
de
Chrifto
Senhor;
noflo,
primeiro-que
»foflem
cheios
do
Efpirito-
Santo»
;:
eltives
»ram
alguns
dias
efcondidos
em
humaccas
»
fa;
e
que
S.
Sebaftião:;
fendo
Chriltãos
canis
Conto.
Tom.
IT.
P.
Tl.
G
»
da-
98
ASIA
pe
Droco
DE
Covto
»
dava
com
trajos
de
Gentio,
e
foldado
Ro-
»
mano,
e
que
quando
lhe
foi
neceflario
con-
»
feflar
a
Fé
de
Chrifto,
o
fez,
e
motreo
»
por
ella:
que
aquelle
Rey
eltava
ainda
ten-
»ro
na
Fé,
e
era
licito
concederem-lhe
al.
»
gum:
tempo
pera
ir
mollificando
feus
vaf-
»
fallos
pera
os
trazer
á
Lei
de
Chrifto
,
o
»
que
fe
havia
de
fazer
com
tempo,
porque
»
(
fegundo
o
Sabio
)-todas
as
coufas
«0
ti
»
nham.
»
Com
eitas-razões
concedêram
tos
dos
,
que
fe-lhe
déffe
licença
pera
vir
a
Goa,
|
como
que
deípedio
o
Governador
logo
Dom
João
-Lobo-com
oito
navios
pera
ir
bufcar
aquelle
Rey
;
e
huma<galeota
muito
bem
pe-
trechada
pera
SEE
pefloa,
e
hum
João
Lo-
|
pes
;
“Cidadão
de
Goanella
,
com
todo
o
ferviço-de
cama,
e
meza
pera
fua
peíloa,
“Eltes
navios
chegáram
em
poucos
dias
à
Nata
de
Tanór
;-tendojá
elle
Rey
recado
|
da
vinda
dos
navios:
;-por:
cartas
que
Lui
Xira
Lobo
lhe
mandou
diante.
ElRey
feco-
meçou
a
negociar:
pera
fe
embarcar
-efcondi-
damente
,
o
que
não-pode:
fer
com
tanto
fe
gredo:,
que
os
feus
familiares
o
não
vieflem
|
a
faber;
e
acudindo'os
Regedores,
lhe
fize:
|
ramforça;,
eo
fecháram
na
fortaleza.
Mas
como
elle:
baflava:
comaquelle
fervor,
e
des
fejo
,
lá.
teve
:maneira'com
que
de
noite
fe
lançou
do
muro
“abaixo
por
huma
corda,
€
fica
lagnádnis
na-cabeça
;
e
mãos
;
foi
terá
|
mad
=
:
PRE
-pras
abeo
VE
Tor.
Via
Cap
MY.
<00
praia,
'e
a
nado
foi
tomar
hum
dos
navios
da
Armada,
e
dando-fe
a
conhecer,
foi
le-
vado
ao
Capitão
mór,
que
com
grandes
hons
ras
o
embarcou
na
galeota,
e
o
entregou
a
João
Lopes,
que
o
agazalhou,
e
fervio
muis
to
bem,
dando-lhetrajos
à
Portugueza
,
que
pera
iflo
levava
feitos;
e
por
todo
o
cami-
nho
até
Goa
o
foi
fervindo
muito
abaftada-
mente,
SRS
D.João
Lobo
defpedio
diante
recado
ao
Governador,
que
lhe
mandou
preparar
hum
muito
honrofo
recebimento.,
pedindo
à
Ci-'
dade
;
que
lhe
fizefle
todas
as
honras
,
que
faria
à
hum
Rey
de
Portugal,
fe
alli
vief-
fe,
Chegado
ElRey
à
barra
de
Goa,
achou
nella
D.
Francifco
de
Lima;
Capitão
da
Ci-
dade,
que
o
efperava
com
muitos:
navios
embandeirados,
e
huma
formofa
galé
ricas
mente
paramentada
pera
fua
pefloa;
Depois
de
o
receber,
e
falvar,
o
paflou
ágalé
,
e
foram
entrando
pelo
rio
dentro
até
ás
cafas
de
Santos,
que
eltavam
preltes
pera
elle.
O
ro
eltava
coalhado
de
embarcações
grandes
;
e
pequenas,
embandeiradas
,
e
enramadas
,
com
muitos,
e
diverfos
inftrumentos,
dans
ças;
folias,
e
invenções,
de
feição
;
que
foi
a
mais
formofa
coufa,
que
ElRey
nufica
vio;
e
fobre
tudo:
o
que
mais
eftimou
,
foi
ver
aquella
formo(fura
;
e
grandeza
da
Cidade
de
Goa,
e
osdivinos
Templos;
que
de
huma;
Cas
SER
xs
e
100
ASIA
pe
Diocó
dE
Covo
e
de
outra
parte
do
rio
lhe
hiam
moltran-
“do,
a
quem
elle
hia
fazendo
feu
acatamen-
to.
Chegado
ás
calas
de
Santos
(
que
etam
de
Antonio
Pefloa
)
foi
defembarcado,
eaga-
zalhado
aquelle
dia,
e
noite
com
todo
o
fer-
viço
Real,
que
o
Governador
tinha
repar-
tido
por
cafados
,
com
camas
muito
ricas,
e
curiofas.
Ao
outro
dia
fe
tornou
a
em-
barcar
na
galé,
e
rodeado
de
mais
de
cem
navios
de
remo,
cheios:
de
muitos
inftrumen-
tos
de
alegria,
foi
até
o
caes,
que
hoje
he
dos
Vifo-Reys
,
onde
fe
lhe-deo
huma
fo-
berba
falva
deartilheria
com
grande
terror,
e-efpanto.
Alli
defembarcou
á
Portugueza,
com
çapatos,
calças,
capa,
e
efpada
de
ou-
ro
,
colar,
gorra
com
plumas
;
é
no
caes
achou
o
Governador
acompanhado
de
todos
os
Fidalgos
;
e
Capitães,
que-o
recebeo
com
muitas
honras.
E
pondo-o
à
-Ífua
mão
direi-
ta,
foram
andando
pera
a
Cidade
por
baixo
de
muitos,
e
formofos
arcos-de
rama,
e
dê
peças
de
feda
de
todas
as
cores,
e
com
mui
tas
outras
louçainhas.
E
-
E
chegando
à
porta,
que
Ífahe
ao
caes;
achou
o
Capitão
da
Cidade
com:
os
Verea-
dores
,
e
Officiaes
da
Camara
muito
bem
vel
tidos;
e
o
Capitão
D.
Francifco
de
Lima,
primeiro
que
ElR
ey:
entrafle-
pera
dentro
chegou
a
elle
com
o
Procurador.
da
Cida-
de,
que
levava
-nãs
mãos
hum
muito.
rico
pra-
Dec.
VI:
Lrv.
VIL
CAP
V.
tor
prato
de
baltiães
dourado
,
e-nelle
as
cha=
ves
da
Cidade,
que
lhe
o
Capitão
aprefen-
tou,
dizendo-lhe:
»
Eftas,
Senhor
,
são-as
chaves
delta
Ci-
»
dade,
que
hoje
em
nome
de
ElRey
de
Por=
»
tugal
aprefento
a
V.
A,;
e
neila
póde
de
»
hoje
por
diante
mandar
tudo
,
como
fe
fo=
»ra
de
V.
A.
porque
-difto
he
elle
muito
fer=
»vido.»
ElRey
com
muita
graça,
e
com
moltras
de
grande
contentamento
daquella
honra,
que
elle
eftimou
fobretodas,
tomou
as
chaves,
edifle:
»
Que
era
irmão,
e
fer=
»
vidor
de
ElRey
de
Portugal,
e
que
como
»tal
merecia.
todas
aquellas
hontas
,
e
ga-
»zalhados
que
lhe
faziam
,
»
'e
pondo-as
Ío-
bre
fua
cabeça,
às
tornou
ao
Capitão.
Acabado
ifto;,
eftendêram
os
Vereadores
hum
muito
rico
palio,
e
o
tomnáram
debai-
xo,
indo
o
Governador
fempre
à
fua
mão
elquerda
,
praticando
com
elle
muito
rizo-
nho;
ealegre.
E
entrando
naCidade,
achá-
ram
o
Bifpo
reveftido
em
Pontifical
,
com
hum
Crucifio
nas
mãos,
e
todo
o
Cabido,
Clerigos,
e
Religiofos
em
procifsão.
Che-
gado
EiRey
ao
Bifpo,
proftrou-fe
de
gio-
lhos
diante
delle
com
muita
veneração
,
e
fez
fua
adoração
ao
Crucifixo
,
e
O
beijou
com
muita
humildade,
E
afim
em
procif-
são
foi
levado
pela
rua
direita,
que
eflava
muito
ricamente
paramentada;,
com
lindas,
e
tor
ASIA
pe
Droco
DE
Covro
e
curiofas
invenções,
e
muitas
Damas
pelas
janellas
,
ricamente
ornadas
,
e
ataviadas
;
que
de
fima
lançavam
muitas
;
€
preciofas
aguas
de
cheiro,
e
muitas
rofas,
e
boninas;
e a
Cidade
,
e
aquella
rua
toda
fe
desfazia
em
danças,
bailes,
tangeres,
efolias.
É
era
tão
grande
o
concurfo
da
gente
,
que
não
podiam
todos
os
Meirinhos",
e
Juftiças
fa-
zer
caminho.
As
bombardadas
aíim
no
mar,
como
na
terra
eram
tantas,
que
parecia
que
fe
desfazia
o
Mundo.
Chegados
á
Se,
que
eftava
formofamente
armada,
e
com
muitas
charamelas
,
e
trombetas
,
poz
o
Bifpo
o
Crucifixo
no
Altar
maior,
e
ElRey
fez
Íua
oração
muito
devotamente
;
e
a
Capella,
que
era
excellente,
cantou
o
Hymno
Te
Deum
Jaudamus
,
rc.
e
no
cabo
delle
lançou
O
Bifpo
a
benção
afim
veltido
como
eftava
em
Pontifical.
|
Acabado
efte
devoto
acto,
(que
moveo
muitó
aquelle
Rey
,)
foi
dalli
levado
às
fuas
proprias
cafas
a
cavallo,
acompanhado
do
Capitão,
e
de
todos
os
Cidadãos
,
indo
dian-
te
delle
a
guarda
do
Governador
com
os
feus
Officiaes.
Ao
outro
dia
foi
ElRey
vifitar
O
Governador
,
e
lhe
pedio
mandaffe
chamar
o
Bifpo”,
e
Prelados,
e
os
Fidalgos
velhos,
que
tinha'
que
lhe
dizer;
e
vindo
todos;
lhes
fez
alliefta
breve
falla.
»
Depois
que
Deos
noflo
Senhor
foi
fera
»
VI
-
a
Dre.
VEcLay.oVIl
Cap.
V..
103
pvido,
e
ordenou“
por
fua
Divina
miferis
ycordia”,
que
eu
fahifle
das
trévas
em
que
peltava,
eentrafle
na
luz
da
verdade,
e
que
ptivele
conhecimento
de
fua
Divina
Lei;
»
nenhuma
outra
coufa
mais
defejei,
que
tras
yzer
à
mefma
verdade
,
não
Ífó
meus
fube
»ditos,
e
vaílallos,
mas
ainda:
todos
os
»
Reys;
e
Principes
Malavares;
meus
vizi=
»nhos,
eaccender
em
todos
o
lume
da
Fé;
»mas
he
neceflario
proceder
nefte
negocio
»
(que
he
de
mudar
Lei)
com
muita
ordem;
»ebrandura
,
por
quão
difficultofo
he
que-
prella
arrancar
logo
da
primeira”
pancada
pdas
gentes
,
que
eftam
tão
arreigadas
em
»
feus
antigos
ritos,
e
fuperítições.
E
eu
cos
»
mo-quem
os
conhece
.,
e
fui
de
fua
mef-
»
malei,
e
natureza,
entendo
que
he
necef-
»
fario
muito
tempo,
e
muitas
mollificações,
»e
mimos,
com
que
determino:
correr
com
todos.
E
quanto
ao
que
toca
a
mim,
eu
»
me
atrevo
(mediante
a
graça
Divina)
pro=
»metter
diante
defte
tão
-catholico
ajunta-
pmento
,
que
tenha
(empre:
muito
inteira-
»mente
abraçada
a
Fé
de
Chrifto;,
e
ao
mef-
»mo
Deos
dou
por
tetemunha
de
minha
»
confciencia
,
e
cada
dia
lhe
peço
com
gran-
»de
veneração
,
e
humildade
me
-
dê
for-
ȍas
pera
poder
refiftir
nas
batalhas
efpiri-
»
tuaes
contra
os
inimigos
daalma,
porque
»
fem-elle
o
não
poderei
fazer;
€
ei
a
»
tho-
%
so4
ASIA
DE
Dioco
pe
Covo
»
tholico
filho
da
Igreja,
dou
d'agora
por
»
diante
a
obediencia
ao
Bilpo
meu
Prela-
»
do,
que
eltá
em
lugar
do
Summo:
Ponti-
»
fice;
e
conheço
a
Igreja:
Romana
por-car
»
beça
de
toda
a
Chriftandade.
E
aílim
lhe
»
peço-como
Prelado,
e
Cura
de
minha
al-
»ma,
que
me
dê
o
Sacramento
da,
Confir-
>
mação.
+
porque
me
não
fique
aéto
algum
»
de
Chriftão
por
fazer.»
Acabada
eta
falla,
lhe
Relanden
anil
po:
»Que
louvava,
e
engrandecia
muito.
»ao
Senhor
Deos.
por
tamanha
mercê
co-
»
mo
aquella;
e
que
aquelle
fanto
zelo
Ca-
»
tholico,
que
moftrava
de
feu
ferviço;,
el-
le
teria
cuidado
de
lho
pagar
com
o
ful-
»
tentar:
em
fua
Fé.
E
que
quanto
a
feus
»
vaflallos:;
era
neceffario
pera
fe
moverem
»a
receberem
a
Santa
Lei
de
Chrifto,
fabe-
»
rem-elles:
que
a-tinha-elle
recebido
,
por-
»
que-os:
coltumes
dos
Reys
era
muito.
nã-
»
tural
feguirem-nos.
os
vaílallos
;
e-que-os
»
homens
mais:
fe
moviam
por
exemplos
,
»
que
por
preceitos.
Que
pera
merecer
mais
»
com
Deos:;
eobra
tamanha
ir
diante,
cum
»
pria
defcubrir-fe
a
feus-vaflallos;
e
que
não
»
receafle
alteração
alguma,
e
que
confiafle
»
mais
naajuda,
e
favor
Divino
+
que
na
»
prudencia,
e
faber
humano.
E
que
quan
»
to
ao
Sacramento
da
Confirmação
,-eltava
»
preies
pera
ilo;
»
e
logo:
na
Capell
a
do
Go-
Deo
NtalayoNILaCAroV.
465%
Governador
lhe
deo
a
fanta
Crifma,
eo
Go-
'yernador
foi
feu
Padrinho.
|
Elteve
ElRey
dez
dias
em
Goa,
emque
correo,
e
vifitou
todos
os
Templos
fantos,
e
elleve
aos
Officios
Divinos,
e
à
hum
de
Pontifical
;.
que
o
Bifpo
celebrou
com
mui
grande
apparato.
Em
todas
as
Igrejas
fe
lhe
armava
Íetial,
e
lhe
davam
o
Evangelho,
ea
paz,
e
o
incenfavam,
como
coftumam
fazer
aos
Reys
Chriltãos.
Em
todos.
eftes
dias,
afim
de
dia,
como
de
noite,
houve
muitas
feftas.,
danças,
momos:,
autos,
tou-
TOS,
canas,
com
tantas
riquezas,
e
appara-
tos,
queeltava
aquelle
Rey
pafimado
de
ver
o
Eftado,
e
coftume
dos-Portuguezes.
De-
ram-lhe
os
Fidalgos
muitos
banquetes,
e
pe-
cas.
Paílados
os
dez
dias,
defpedido
do
Go-
vernador,
Biípo,
e
Cidade
,
fe
tornou
pe-
ra
feu
Reyno
nos
mefmos
navios.
Eflas
no-
vas
efereveo
o
Governador,
eo
Bifpo
a
El-
Rey
nas
nãos
feguintes:,
que
elle
feftejou
muito,
e
as
mandou
a
Roma
a
D.
Affonfo
de
Alencaftro,
que
lá
eftava
por
Embaixa-
dor,
pera
que
o
fizefle
a
faber
ao
Santo
Pa-
dre;
que
então
era
Julio
IIE.,
que
mandou
fazer
em
Roma
grandes
procifsões,
e
dif
fe
Milla
em:
Pontifical.,
e-houve
hum
dous
to
Sermão
;
emcque
fe
differam
muitos
,
e
grandes
louvores
de
ElRey:
D.
João
de
Por-
mE
tU-
1096
ASIA
pe
Dioco
DE
Covro
tugal,
por
em
feu
tempo
entrarem
na
mas
nada
dos
Catholicos
os
mais
barbaros
Prins
cipes
do
Oriente.
CAPITULO
VI
Das
confas,
que
acontecéram
a
Francifco
de
Sá
em
Surrate
com
bumas
ndos
de
Mou-
ros:
e
de
como
o
Governador
Garcia
de
dá
defpachon
as
coufas
de
Maluco:
e
do
cafamento
de
duas
filhas.
K
Ranciíco
de
Sá
de
Menezes
,
que
ef.
tava
fobre
Surrate
efperando
as
nãos
do
'
Achém
,
fe
deixou
eftar
fobre
aquelle
por-
to
até
meado
Março
;
e
huma
tarde
houve
vita
de
duas
formofas
nãos,
e
de
huma
gas
leota,
que
com
o
Noroelte
em
poppa
vis
nham
demandar
a
terra.
Eram
eftas
náos
do
porto
de
Vanaçarim
na
colta
de
Pegú
,
evi-
nham
carregadas
de
muitas
,
e
ricas
fazena
das.
Francifco
de
Sá
tanto
que
asvio,
pre
parou-fe
,
e
poíto
em
armas
as
foi
deman-
dar,
e
fendo
a
tiro
de
camello,
lhes
atirou
a
amainarem;
mas
como
ellas
vinham
con-
fiadas
na
muita
artilharia,
e
na
muita
;
C€s
forçada
gente
que
traziam,
não
fizeram
ca
fo
de
coufa
alguma,
e
deixaram-fe
vir
feu
caminho
com
o
vento,
que
era
muito
fre
co.
Francifco
de
Sá
as
rodeou
,
e
foi
es:
bombardeando,
por
ver
fe-as
podia
defap-
pas
Dec.
Visbivo
VIlzCapi
VE
foz
arelhar
,
o
que-não
fez,
ainda:
que
todas
via
lhes
foi
desfazendo
as
obras
de
fima.
com
cujas
rachas
lhes
matáram:
muita
gens
te;
mas
ellas
como
vinhamaviadas:,
e
com
vento
profpero
,
foram
tambem
laborando
com
a
fua
artilheria
com
que
defapparelhá-=
ram
algumas
fuftas,
e
matáram
alguns
fol-
dados.
Os
noflos
não
oufáram
a
invelir
as
nãos,
afim
por
ferem
os
mares
grandes,
co-
mo
por
ellas
ferem
muito
alterofas
,
e
não
quizeram
arrifcar
os
navios,
e
aflim
foram
com
ellas
até
à
barra
de
Surrate
;
onde
lhes
anoiteceo.
Francifco
de
Sá
vendo
quetinha
os
navios
deftroçados
,
e
queas
nãos
efta-
vam
furtas
no
primeiro
poço,
onde
lhes
não
podiam
já
fazer
damno
,
que
o
não
recebel-
fe
elle
maior,
voltou
pera
Baçaim,
onde
re-
formou
os
navios,
e
dalli
fe
fez
á
véla
pe-
ta
Goa.
—
|
O
Governador
depois
de
chegar
áquel-
la
Cidade,
começou
logo
a
entender
nos
ne-
gocios
de
Maluco,
e
nos
de
Jordão
de
Frei=
tas,
que
fe
andava
livrando
das
culpas,
que
lhe
Bernaldim
de
Soufa
tinha
mandado
,
o
e
ceflou
pela
morte
do
Vifo-Rey
Dom
João
de
Caftro.
E
mandando
o
Governador
que
fe
correífe
comelle,
fizeram
o
feito
fin-
do,
eo
defpachou
com
os
Letrados,
e
pro-
nunciou
,
que
fofle
Jordão
de
Freitas
acabar
O
tempo
de
fua
Capitania;
e
que
fe
lhetor-
çs
nat-
108
ASIA
DE
Dioco
DE
Covro
nafle
toda
a
fazenda
que
lhe
eftava
focreftada,
Com
efta
fentença
fe
começou
a
fazer
pref
tes
pera
fe
embarcar
no
galeão
da
carreira,
de
que
era
Capitão
D.
Jorge
Deça.
O
Go-
vernador
porque
fabia:
que
Jordão
de
Freis
tas
viera
de
Maluco
muito
quebrado
com
Bernaldim
de
Soufa,
a
quem
por'fuas
pat-
tes,
e
qualidades
quiz
moftrar
reípeito
,
e
evitar
efcandalos,
defpachou
Chriftovão
de
Sá,
feu
fobrinho,
por
Capitão:
de
huma
cas
ravela
pera
ir
a
Maluco
,
e
lhe
deo
huma
Provisão
em
fegredo
,
pera
Bernaldim
de
Sou-
fa
lhe
entregar
a
elle
a
fortaleza,
em
que
fi.
carta
por
Capitão
até
Bernaldim
de
Soufa
fe
embarcar
pera
a
India,
e
que
depois
entre-
gaíle
a
fortaleza
a
Jordão
de
Freitas;
por-
que
não
quiz
que
Bernaldim
de
Soufa
,
o
tempo
que
eftivefle
em
Maluco,
ficaffe
de-
baixo
da
jurdição
de
Jordão
de
Freitas,
por
atalhar
deígoftos,
e
defordens.
Partidos
eftes
navios,
defpachou
o
Go-
vernador
alguns
Capitães
pera
irem
invernar
a
Dio
;
ea
Ormuz,
e
proveo
nas
coufas
daquellas
fortalezas
,
e
de
outras,
como
lhe
melhor
pareceo.
E
porque
fe
via
velho,
e
com
duas
&-
lhas
mulheres,
e
fem
mãi
,
ordenou
de
as
cafar
,
como
fez.
A
mais
velha,
chamada
D.
Leonor
de
Alboquerque
,
com
Manoel
de
Soufa
de
Sepulveda
,
com
quem
fe
di-
zia,
Dec
Vk
bivo
VEL.
Cad.
VE
109
zia,
que
eltava
já
cafada
a
furto
do
pai,
E
a
outra
D.
Joanna
de
Alboquerque
com
Dom
“Antonio
de
Noronha
,
filho
do
Vilo-Rey
D.
Garcia
de
Noronha,
que
tinha
a
Capi-
tania
de
Malaca,
eera
omaior,
e
mais
for-
mofo
homem,
que
na
India
havia,
a
quem
deo
o
bom
velho
em
cafamento
tudo
o
que
tinha,
eambos
foram
juntos
á
porta
da
Igreja
a
pé,
porque
poufava
oGovernador
nas
ca-
fas
do
Sabayo,
que
eftavam
perto
da
Sé.
O
Bifpo
os
recebeo,
ea
Cidade
lhes
fez
mui-
tas
feftas.
D.
Antonio
de
Noronha
hia
mui-
to
galante,
e
cuftofamente
veítido.
Manoel
de
Soufa
não
levava
mais
que
ostrajos
'or-
dinarios,
que
coflumava
a
trazer.
De
Manoel
de
Soufa
não
ficou
no
Mun-
do
geração
alguma
de
fua
mulher,
porque
fe
perdeo
indo
pera
o
Reyno.
com
fua
mu-
lher,
efilhos,
como
em
feu
lugar
diremos.
Teve
dous
filhos
antes
de
cafar
+
hum
mas
cho,
e
huma
femea,
em
huma
mulher
ca-
fada
com
hum
homem
muito
nobre,
e
Fi-
dalgo
nos
livros
de
ElR
ey,
que
fia
mãi
de-
pois
da
morte
do
marido
declarou
por
feus
:
afilha
foi
levada
pera
o
Reyno
,
onde
a
met-
téram
Freira;
o
filho
era
hum
foldado
tão
pontual;
e
cavalleiro;,
que
não
oufou
pefloa
alguma
a
lho-defcubrir
;
e
afim
faleceo
cá.
D.
Antonio
de
Noronha
viveo
tambem
Potico
elle,
e
fua-mulher;
e
ficou-lhe
hum
SUE
fi-
aio
ASIA-DE
Dioco
DE
Covo
filho,
chamado
D.
Garcia
de
Noronha
,
cos
mo
o
avô
,
que
foi
levado
a
Portugal
mes
nino,
onde
fecriou;
e
depois
de
ter
idade
pera
fervir
ElRey
,
tornou
à
India
com
hum
Alvará
de
lembrança
pera:
lhe
darem
Ormuz
Cafou-fe
na
India
com
D.
Filippa.,
filha
do
“Licenciado
Tintino
Martins,
Procurador
dos
Feitos
da
Fazenda
de
ElRey,
homem
no-
bre,
Chriftão
velho:
viveo
tambem
cfte
Pi
dalgo
pouco,
ficou-lhe
huma
filha,
chamas
da
D.
Joanna,
como
fua
avó,-que
fua
mãi
levou
pera
o
Reyno,
e
fe
foi
aprelentar
em
Aveiro,
em
companhia
de
huma
fua
irmã,
mulher
de
Francifco
de
Soufa-
Tavares,
o
manco.
O
CAPITULO
Vl
Das
coufas;
que
acontecéram
em
Ormuz
no
“alevantamento
do
Bislalá:
e
decomo
Dom
Manoel
de
Lima
o
mandou
matar.
Avia
noReyno
de
Ormuz
hum
Capi
A
À
tão
Abexim,
chamado
Bislalá,
que
El»
Rey
de
Ormuz
trazia
com
guarnição
de
folks
dados
nas
partes
de
Manojão,
pera
favores
cer
as
cafilas
que
vinham
pera
Ormuz:
das
partes
de
Perfia
,
e
Coraçone:,
e
todas
as
mais,
pera
as
fegurar
de
muitos
ladrões»,
que
por
alli
as
coftumavam
a
faltear
,
por
cujo
medo
deixavam:
muitas
vezes
de
vir
a
Og
j
muz
,
“Dec.
VLcLiv.
VI
Car.
VII
r11
muz
,
e
aquella
Alfandega
padecia
muitas
faltas.
Efte
Abexim
vendo-fe
com
poder
,
fez
o
que
todos
os
Mouros
fazem
,
quando
fe
lhes
oferece
occafião
,
que
foi
grangear
a
gente
que
trazia
,
e
adquirir
ontra,
e
le-
vantar-fe
com
aquelas
partes
todas
,
reco-
lhendo-fe
na
fortaleza
de
Manojão
,
que
he
vinte
leguas:
pelo
fertão
dentro.
E
dalli
fa
hia
a
faltear
,
e
roubar
as
cafilas
»
€
todas
aquellas
terras,
com
que
veio
a
engrofiar
,
e
a
fefazer
muito
poderofo.
Difto
foi
loga
ElRey
de
Ormuz
avifado.,
e
deo
conta
do
negocio
a
D..Manoel
de
Lima,
Capitão
da-
quella
fortaleza
,
pedindo-lhe
que
lhe
déf-
fe
ajuda
pera
mandar
contra
o
Bislalá
,
pois
aquelle
Reyno
era
de
ElRey
de
Portugal
;
e
as
perdas.
lhe
tocavam-mais
que
a
elle.
D,
Manoel
de
Lima
mandou
logo
negociar
hum
Aleixo
Carvalho,
e
lhe
deo
cento
é
vinte
Portuguezes
pera
paflar
4
outra
ban-
da,
em
companhia
dos
Capitães
de
ElR
ey
de
Ormuz,
pera
irem
bufcar
o
alevantado
:
e
fegurarem
os
naturaes,
que
fugiam,
edef-
amparavam
as
terras.
Efta
gente
andou
da
outra
banda
perto
de
dous
mezes
,
tendo
al-
Suns
recontros
com
os
inimigos
de
pouca
importancia.
Gsastas
ia
Ends
Eltando
o
negocio
:nefte
'eftado
chegou
Pantaleão
de
Sá
,,
que
atrás
diflemos
no
Cap.
HI.
do
Liy.
VII.
partido:
de
Goa
pera:
e
a
Jr
112
ASIA
DE
DioGo
DE
Couto
dir
avefte
negocio.
D.
Manoel
de-Lima'o
deípedio
logo
pera”
a
outra
banda
com
a
génte
que
levava;
e
coma
outra
que
lá
tie
nha:
Aleixo
Carvalho
perfez
trezentos
hos
mens,
e
em
companhia.
dos
Capitães
de
El
Rey
de
Ormuz,
que
levavam
dous
mil,
fo
ram
buícar
o
alevantado.
E
como
elle ans
dava
muito
poderofo,
e
era
ladrão:
de
cala;
que
fabia
as
entradas,
e
fahidas»,
não
lhe
dava
dos
noflos
confa
alguma
;
nem
tambem
fe
queria
encontrar
com
elles;
porque
co-
mo
trazia
grandes
eípias
,
não
fazia
mais
que
defyiai-fe
,
e
fazer
todos
osdamnos
que
quéria,
e
podia,
comendo
asterras
fem
con-
tradicção
alguma.
Pantaleão
de
Sá
andou
por
aquelle
Magoftão
mais:
de
dous
mezes,
fem
fazer
coufa
alguma,
e
enfadado
de
tudo
fe
recolheo
pera
Ormuz:
fem
ordem
-do-Capi-
tão;
que
ie
tomou
muito,
e
tiveram
Íobre
illo-taes
palavras,
que-o
mandou
Pantaleão
de
Sá
defafiar
por
huma
“carta.
D.
Manoel
de
Lima
lhe
refpondeo:
por
outra:»
Que
»
elle
guardava-fua,
carta
pera
refponder
a
»
ella,
como
acabaffe
o
tempo-daquella
for-
»
taleza:;
de
que
tinha
dado
a
menagem
à
»
ElRey:;
e-como
fe-defobrigaffe;
elle
lho,
»
lembraria.
»
Pantaleão
de
Sá
fe
embarcou
pera-
India;
-e
«depois:
que:D.
Manoel
de
Lima
acabou-o
feu
tempo:
,
não:
fe
encon-
tráram
nella,
porque
'o
tempo
o
.defviou,
Ê
que
Dec.
VI.
Liv.
VII
Cap
VII
173
que
Pantaleão
de
Sá
foi
defpachado
depois
com
Cofala,
e
cafou
na:
India:,
onde
elteve
ate
o
tempo
do
Conde
do
Redondo,
em
que
fe
foi
pera
o
Reyno
,
e
lá
encontran-
do-fe
em
huma
rua,
(eftando
a
-coufa
bem
“
efquecida
de
tantos
annos
,
e
elles
tão
ve-
lhos;
)
faudando-fe
,
perguntou
D.
Manoel
de
Lima
a
Pantaleão
de
Sá
como
eftaya
?
El-
le
lhe
refpondeo,
que
velho.
Ao
que
Dom
Manoel
de
Lima
lhe
dife:
»
Velho
não
efe
»ta
volla
mercê
,
fenão
muito
bem
difpof-
»to»
Della
palavra.
(fegundo
que
na
In-
dia
nos
contáram
alguns
Fidalgos
)
entrou
a
defconfiança
em
Pantaleão
de
Sá,
de
ma-
neira
,
que
indo-fe
pera
cafa
lhe
mandou
huma
carta,
em
que
lhe
tornou
a
alembrar
as
coufas
de
Ormuz,
pedindo-lhe
que
fe
vifem
no
campo.
D.
Manoel
de
Lima
o
foi
elperar
a
elle,
e
pelejáram
,
e
fe
feriram;
e
o
que
mais
paílou,
lá
fe
fabe
no
Reyno,
e
ficáram
pera
não
deixarem
de
fer
amigos,
como
foram.
7
ss
7
“Tornando
ás
coufas
de
Ormuz.
Vendo
D.
Manoel
de
Lima
que
o
levantado
an-
dava
fenhor
das
terras
fem
lho
poder
im=
pedir,
tratou
de
o
mandar
matar.
Tinha
el-
le
hum
criado
Gallego
,
valente
homem,
e
muito
determinado
,
e
tomando-o
em
fegre-
do,
lhe
perguntou
,
fe
featrevia
a
fazer-fe
fugidiflo
pera
a
outra
banda,
e
metter-fe
no
Conto.
Tom.
LIL,
De
lhe
H
E
114
ASIA
pe
Diogo
DE
Covo
exercito
de
Bislalá
,
e
matallo
á
beélta
?
E
dizendo-lhe
.o
Gallego
que
fim,
praticou
el
te
negocio
com
ElRey,-
e
elle
lhe
paflou
hum
formão
com
Jettas
grandes
,
é
formo
.
fas,
chapado
com
chapa
de
fuas
Armas;
em
que
perdoava
geralmente
a
todos
os'que
andavam
com
Bislalá
,
e
que
ninguem
en
tendeífe
com
aquelle
Gallego
,
fe
matafle
a
Bislalá;vantes
a'todos-os
que-o
favoreceilem
lhes
faria
muita
mercê.
Com
efte
formão
fe
fingio
o
Gallego
aggravado
,
e
fugido
de
D.
Manoel
de
Lima,
e
paffou-fe
ao
exerei-
to
,
onde
andavam
outros
Portuguezes
fu-
gidos,
e
fe
agazalhou
com
elles.
Alli
fe-dei-
xou
andar
alguns
dias,
e
hum
delles
,
am.
dando
o
Bislalá
a
cavallo
em
campo
no
|
meio
de
fua
gente,
encarou
o
Gallego:
nel
le
huma
béfta
com
hum
farpão',
e
toman-
do-o
pelos
peitos;
deo
com
elle
do
caval-
lo
abaixo
morto.
E
no
mefmo
inftante
ale
vantou
em
huma
lança
o
formão
de
ElRey
;
bradando
alto:
»
Formão
de
ElRey
,
for-
»
mão
de
ElRey
,
perdão
de
ElRey
pera
to-
»
dos.
»
É
acudindo
alguns
Paríeos,
toman-
|
do
o
Gallego,
vendo
o
formão
de
ElRey;
eo
perdão
tão
copiofo;
e
o
Bislala
já
mor
to
,
fe
desfez
o
exercito
,
e
buns
fe
foram
.
pera
Ormuz
,
e
outros
pera
outras
partes:
O
Gallego
fe
foi
pera
Ormuz;
e
ElRey;
ero
Capitão
lhe
fizeram
muitas
ftercês
;
é.
del-
DeEciD
av
Eiy
VEG<
fig
defta
maneira
ficiram
as
coufas
do
Manos
jão
quietas.
-
CAPITULO
VII.
Do
que
aconteceo
a
Diogo
Soares
de
Med:
lo
em
Pegul
:
e
de
como
foi
em
companhia
daquelle
Rey
contra
o
de
Sião:
e
do
as
der,
eftado,
e
ordem
com
que
efte
ey
caminha:
e
do
que
lhe
aconteceo
até
che-
ger
a
Sião.
É
NT
O
Cap.
IX.
do
Liv.
V.
da
quinta
De-
i
N
cada
temos
dado
conta,
como
o
Bra-
má
Rey
dos
Reynos
de
Ovú
,
e
outros,
conquiftou
os
de
Pegú,
e
fujeitou
todos
a-
quelles
vizinhos.
Elte
vendo-fe
tamanho
fe-
nhor
,
fabendo
que
o
Rey
de
Sião
tinha
hum
alifante
branco,
a
que
todos
os
Gen-
tos
tinham
muito
grande
veneração
,
ha-
vendo
que
a
elle
como
a
cabeça
de
toda
aquella
gentilidade
lhe
pertencia
mais,
que
ao
Rey
de
Sião,
mandou-lho
pedir
por
Em-
baixadores
,
que
lhe
enviou
com
grande
ma-
geltade
,
de
que
o
outro
zombou,
não
lhe
relpondendo
a
propofito.
O
Bramá
havena.
do-fe
por
muito
ofendido
,
e
affrontado,
de=
terminou
logo
de
ir
conguiftar
aquelle
Rey-
no,
e
trazer
o
alifante
branco.
E
fazendo
chamamento
de
todos
os
Reys
feus
vaflal-
los,
ajuntou
innumeraveis
exercitos
,
com
e
it
E
SURe
y
116
ASIA
pe
Drogo
DE
CovTo
que
partio
contra
aquelle
Reyno
quafi
nos
annos
de
1544.
E
chegando
áquella
Cida-
de,
lhe
poz
tão
eftreito
cerco,
que
lhe
man-
dou
aquelle
Rey
commetter
todos
os
partidos
que
quizefle,
nrando
o
alifante
branco,
que
elle
havia
por
coufa
religiofa
,
affirmando-
lhe,
que
fobre
elle
havia
de
perder
feus
Reynos.
O
Bramá,
que
havia
muitos
me-
zes
que
eftava
naguelle
cerco,
e
fe
elperava
pelas
enchentes
daquelle
rio,
que
alagão
to-
dos
aquelles
campos
,
fez
com
elle
pazes
com
eltas
condições.
é
“*
»Que
o
Rey
de
Sião
ficaria
feu
vaflal-
»lo,
elhe
daria
huma
filha
pera
cafar
com
»ella;
e
que
todos
os
annos
lhe
mandaria
»
outra
dos
feus
principaes,
e
certos
alifan-
»tes
de
ferviço.
»
Affentadas
as
pazes
,
lhe
mandou
o
Rey
de
Sião
a
filha,
que
elle
re-
cebeo
por
mulher
,
.e
alevantando
os
exer-
citos,
voltou
pera
feus
Reynos.
Foram
con.
tinuando
com
eftas
pareas
até
efte
anno
paf-
fado
de
quarenta
e
oito
,
em
que
o
Bramá
mandou
a
Sião
recolher
as
pareas
como
cof
tumava,
€a
lhe
trazerem
a
mulher.
E
queren-
do
ElRey
de
Sião
tomar
huma
filha
a
hum
“aquelles
feus
principaés,
como
tinha
feito
Os
annos
paflados
a
outros,
de
que
eltavam
efcandalizados,
fallando-fe
todos,
ou
fofle
por
confentimento
do
Rey
,
ou
não,
bafta
que
deram
nos
Embaixadores,
e
os
a
-
:
E
Che
Dec.
VI
Liv.
VIL
Car
VIIL
117º
Chegadas
eftas
novas
ao
Pegú,
fentio-as
|
muito
o
Bramá,
e
determinou
vingar
aquel-
la
offenfa
,
mandando
logo
chamar
todos
feus
vaílallos,
e
ajuntou
grandes
exercitos,
e
grandes
preparamentos
pera
não
tornar
de
Sião
fem
tomar
aquelle
Reyno,
e
haver
a-
quelle
Rey
ás
mãos,
Difio
foi
logo
o
Rey
de
Sião
avifado,
e
fez
chamamento
de
feus
vaflallos
,
e
fortificou
a
Cidade
de
Odia,
em
que
refidia,
lançando
fóra
toda
a
gente
inu-
til,
deixando
fó
a
que
podia
pelejar
,
que
fe
afirma
que
eram
perto
de
feiscentos
mil
homens.
E
mandou
fortificar
hum
paflo
de
humas
ferras
,
por
onde
o
Bramá
havia
de
palar
,
e
poz
daquela
parte
vinte
mil
ho-
mens
de
guarnição
,
e
na
Cidade
recolheo
mantimentos
pera
dous
annos
;
e
mandou
fundir
muitas
peças
de
artilheria
de
bronze,
porque
tinha
officiaes
excellentes
,
e
muito
cobre;
que
lhe
vinha
da
China
todos
os
an-
nos
.;
e
afirmava-fe
,
que:
tinha
quatro
mil
peças
alleítadas
pelos
muros;
em
que
havia
algumas,
que
lançavam
pelouros
de
quatro
palmos
de
roda,
e
dalli
pera
baixo
até
fal-
|
Cões;
e
além
diflo
muitos
trabucos
,
e
pe-
trechos
de
guerra
pera
fua
defensão..
O
Bramá
depois
que
ajuntou
Ífeus
exer-
|
citos,
fe
poz
com
elles
emcampo
,
e
dizia-
fe
que
tinha
hum
milhão
“e
quinhentos
mil
homens
,
e
quatro
mil
alifantes
,
e
tantos
Re
bois,
118
ASIA
DE
DroGo
nE
Couto
bois
,
cavallos
,
e
outras
beltas
de
carga,
fervidores,
rofladores:,
e
officiaes
de
todas
as
mecanicas
,
em
tanta
quantidade
,
que
qua-
fi
fe
não
podiam
numerar.
E
eftando
ElRey
Já
pera
fe
partir,
chegou
Diogo
Soares
de
Mello
,
(que
deiximos
partido
do
rio
de
Parles
,
depois
daquella
grande
vitoria
das
galés
do
Achém
,
como
atrás
fica
dito
no
Cap.
IH.
do
V.
Liv.,)
que
ElRey
eftimou
muito,
convidando-o
pera
ir
com
elle
na-
quella
jornada:,
com
todos
os
Portuguezes
que
em
Pegii
havia;
e
lhe
mandou
dar
mui-
to
dinheiro
pera
repartir
por
elles,
como
fez,
ajuntando
perto
de
oitenta.
ElRey
co-
meçou
logo
a
marchar
nefta
fórma.
"Cada
Rey
vaífallo
com
toda
a
gente
de
Íeu
Reyno
hia
feparado
a
huma
parte,
tan-
ta
diflancia
huns
dos
outros
,
que
nunca
fe
ajuntavam,
nem
milturavam,
é
por
tal
ot-
dem:
que
fempre
ElRey
de
Pegú
ficava
no
“meio;
e
o
mefmo
era:
ao
aflentar
dos
arta-
haes:,
porque
cada
humo
punha
fobre
fi,
perto
de-meia
legua
huns
dos
outros.
Só
Dio-
go
Soares
de
Mello
com
os
Portuguezes
pu-
nha
fua
eftancia
muito
perto
da
de
ElRey,
porque
fiava
mais
delles
a
guarda
de
fua
pel-
foa,
que
de
feus
naturaes,
Às
principaes
pefloas
que
nefta
jornada
fe
acháram
com
Diogo
Soares
de
Mello,
foram
fewirmão,
D.
Fernando
de
Noronha,
*
Dre:
VI.
Eve
VIE
CarAVHI
119
filho
de
hum-itmão:
do
Marquez
de
Villa-
Real;
Clerigo
;
que
foi
o
que
fe
perdeo
em
Baçaim:,
fendo
Capitão
da
náo
do
Gover-
nador
Martim:
Affonfo
de
Soufa.,
João
de
Soufa
Rates,
Athanafio
de
Aguiar
,
e
ou-
tros.
4
Ria
Aflim
foi
caminhando
efte
barbaro
gen-
tio
com
tanta:
mageltade
,
e
grandeza,
que
excedia
a
todos-os
Reys
do
Mundo,
por-
que
nenhuma
noite
fe
agazalhava:,
fenão
em
cafas
muito
formofas
.,
todas
douradas,
e
lavradas
,
que-cada
dia-lhe
amavam
de
novo
pera-
iflo
;:
porque
de,
Pegú
lhe
leva-
vam
a-madeira
,
armação
,
tectos,
portas
,
e
todo.
o
mais
neceflario
fobre
alifantes.,
que
caminhavam
fempre-diante
;
e
na
paragem
em-que
ElRey
havia
de
aflentar
o
arraial,
fe
aimavam
as
calas
com
tanta
brevidade,
que.
era
efpanto
,
porque:
fó
pera
iflo
hiam
mais
de
dous:
mil
officiaes
=,
ferreiros,
carpintei-
ros
,icerradores:,
pintores
,
douradores-,
e
todas
as
mais
;
e
huns
armavam
,
outros
dou-
tavam,
e
pintavam';
outros
forjavam.
pre-
g0s;
-e-ferragem:;
de:
maneira,
que
quando
JElRey
chegava,
tinha
huns
formofos
Pas
Sos
de
muitas
camaras,
varandas;
retretes,
cozinhas
,-em-que
fe
recolhia
com
fuas
mus
lheres,
eos
Paços-todos
cercados
á
roda:
como
huma
fortaleza:
muito
forte;
deixan=
do
outra
mageftade
de
baixellas
de
ouro;
e
é
pe-
120
ASIA
pr
Drogo
DE
Covro
pedraria
,
de
cavallos
a
deftro,
de
alifan-
tes
ajaezados
pera
fua
peífoa,
de
carros
tri-
unfantes
guarnecidos
,
e
lavrados
deouro,
que
era
huma
máquina
infinita.
Delta
manei-
ra
foram
caminhando
por
via
de
Martabão,
que
era
mais
perto.
a
-
E
chegando
a
hum'rio,;,
que
alli
vem
em-
bocar
,
(que
era
hum
grande
braço
do
Me:
naó
,
que
ferá
mais
de
huma
legua
de
lar-
gura,
)
mandou
ElRey
armar
huma
ponte
fobre
barcas
furtas
a
muitasamarras,
por
cau-.
fa
da
grande
corrente,
pera
por
ella
paífat
todo
o
exercito,
que
aílim
na
grandeza,
co
mo
na
obra
paflou
pela
que
mandou
fazer
Xerfes
fobre
o
Elefponto
,
quando
paílou
a
Grecia.
Por
ella
palfáram
aquelles
innume
Taveis
exercitos
,
que
o
Pegú
levava,
e
fo
ram
caminhando
de
longo
de
humas
altiffi-
mas
ferras
,
quali
vinte
e
finco
dias:,
fem
acharem
paflagem
pera
a
outra
banda,
que
parece
ferem
os
montes
Mandius
de
Ptho-
lomeu.
ER:
Por
efte
caminho
pafláram
os
nofTos
gtan-
des
fomes,
porque
os
Pegús,
e
Bramás
não
coftumavam
levar
nos
exercitos
mais
quear-
Toz,
porque
comem
todas
as
cevandilhas
da
terra,
folhas
,
e
raizes
de
arvores.
E
tanto
que
aflentam
feus
exercitos,
logo
fe
mettem
pelos
matos
'á
caça
de
cobras,
lagartos,
bo»
gios;
ullos,
tigres,
e
de
toda
a
outra
cous
fa
Dec
VÊ
Ervo
VII
Car.
óVIOL
127
fa
peçonhenta,
de
que
fazem
fuas
iguarias,
que
comem
com
o
arroz.
Mas
os
Portugues
zes
foram
comendo
à
faltade
outras
carnes;
as
de
alifantes
,
cavallos:,
bufaras,
e
ou+
tras
a
que
não
eram
coltumados.
E
no
ca-
bo
de
vinte
e-finco
dias
,
que
caminhavam
de
longo:
daquellas
ferras:,
foram
dar
em
huma
quebrada
que
alli
faziam,
como
a-
quellas
dos
montes
Cafpios
,
que
hoje:
cha-
mam
Derbent.
Aqui
tinha
ElRey
de
Sião
feitos
huns
muros
fortiflimos,
que
tapavam
aquella
entrada,
com
vinte
-e
finco
mil
ho-
mens
de
guarnição
pera
fua
defensão.
E
porque
não
havia
outro
paflo
fenão
aquele,
aflentou
o
Bramá
fobre
elle
feu
ex-
ercito;
e
commetteo
a
Diogo
Soares
de
Mel-
lo
aquelle
negocio,
e
deo-lhe
Calagoni,
Se-
nhor
de
Martabão
,
com
trinta
mil
homens.
Diogo
Soares
de
Mello
mandou
affentar
al-
gumas
peças
de
artilheria
em
alguns
baftiães;,
que
ordenou
,
com
que
mandou
bater
as.
tranqueiras
dos
inimigos
por
muitos
dias
,
fem
lhe
fazerem
mais
damno
que
pelos
al-
tos,
por
ferem
muito
fortes.
Os
noffos
qua-
fi
que
andavam
defconfiados
daquelle
nego-
cio,
e
determináram
de
commetter
aquellas
ttanqueiras
por
aflalto,
o
que
prováram
por
algumas
vezes
fem
as
poderem
cavalgar,
e
tanto
porfiáram
,
que
fe
puzeram
em
fima
com
muito
rifco
feu
,
porque
lhe
matáram
E:
dous
122
ASIA
pe
Didgo
DE
Covro
dous
companheiros,
eferíram
todos
os
mais,
e
D.
Fernando
de
Noronha
levou:
huma
ef-
pingardada
pelo
pefcoço,
que
lho
paílou
de
parte
a
parte,
mas
não
perigou,
porque
lhe
não
tomou
a
guela.
Subida
a
tranqueira,
de-
ram
os
noflos
entrada
franca
ás
gentes
de
Calagoni
,
e
da
outra
banda
tiveram
gran-
des
batalhas:
com
os
Siões
,:em
que
foram
desbaratados
de
todo.
ElRey
de
Pegú
pal
tou
todos
os
feus
exercitos
por
aquella
par-
te,
e
foram
caminhando
por
campos
mui-
to
grandes,
e
efpaçofos
,
até
haverem
villa
da
Cidade
de
-Odia,
onde
aquelle
Rey
-ef-
tava
recolhido
com
feiscentos
mil
homens
de:
guerra,
provído
de
mantimentos
;
e
mu-
nições
pera-dous
annos.
O
Bramá-aflentou
o
leu
exercito
em
huma
parte
alta,
«meia
Je-
gua
da
Cidade
,
ea
todos
os
outros
Reys
teus
vaffallos
mandou:
;-
que
cada
hum
por
fi
aflentafle
o
feu
em
torno-delle-,
de
forte
que
ficafle
impedida
a
entrada;
e
fahida;
e
encommendou
a
Diogo
Soares
de
-Mello
a
bateria,
que
fabricou
algumas
trincheirasem
partes
mais
accommodadas
pera
baterem:
à
Cidade,
e
nellas
mandou
afleftar
muitas
pe-
ças
de
campo
de
todas-as
fortes:
e
SD
Penis
VE
LEveNIES
143
GAL
LU
LO
Da
deferipção
da
Cidade
de
Sião:
e
de
co-
“mo
o
Bramá
a
commetteo
,
fem
fazer
coufá
alguma:
e
de
como
foi
contra
a
Cidade
de
Camambee.
Vo
de
Odia
principal
do
Rejyno
de
Sião,
que
he
efta
fobre
que
o
Bra-
máeltá,
fica
pelo
rio
aílima
quarenta
leguas;,
que
he
aquelle
a
que
Abrahão
Hortelio
cha-
ma
Menaó
,
que
pela
fituação
das
Taboas
de
Ptholomeu
parece
Doris
fluvinim,
cújas
bocas
elle
mette
em
perto
de
vinte
gráos.
He
efte
rio
tamanho,
é
de
tal
fundo
,
que
ate
4
Cidade
podem
chegar
juncos,
e
nãos
noffas;
ferá
aqui
de
largura
de
meia
legua.
E
pela
margem
delle
de
huma,
e
outra
par-
te
he
todo
povoado
de
lugares,
Villas,
quintas,
palmares,
arequaes,
e
de
todas
as
fruitas
da
India.
Dá-fe
de
longo
delle
mui-
to
gengivre,
e
tantas
canas
de
açucar,
que
he
hum
número
infinito,
de
que
fazem
mui-
toaçucar,
ehum
vinho
eltilado
como
agua
ardente
,
que
bebem.
Ha
por
efte
rio
afi-
ma
algumas
"Tabancas,
que
são
como
por-
tagens
,
em
que
fe
regiltão
os
que
vão
pe-
ta
a
Cidade,
e
pagão
alguns
direitos,
e
cof
tumes.
E
aflim
meímo
ha
muitas
Varelas,
Que
são
Molteiros,
em
que
vivem
feus
ne
Tê
124
ASIA
pe
Droco
pr
Covro
ligiofos,
e
alguns
delles
muito
fumptuofos,
e
dourados
pelos
tectos,
e
curucheos.
Vala
elte
rio
Íeis
mezes
,
e
enche
outros
tantos;
e
no
tempo
das
vafantes
vão
os
navios
pe-
ra
fima
á
toa
,
porque
he
muito
alcantila-
“do
de
ambas
as
partes.
A
vafante
defce
com
muito
grande
ímpeto
;
mas
a
enchente
tão
vagarota,
e
branda,
que
Ífenão
enxerga.
E
o
dia
da
Lua
do
derradeiro
mez
fubita-
mente
arrebenta,
e
alaga
todos
aquelles
cam-
pos,
muitas
leguas
á
roda,
de
feição,
que
ficam
duas,
etres
braças
de
agua.
E
poref
ta
razão
temos
Sides
fuas
povoações
em
lu-
gue
muito
altos
,
como
os
moradores
do
gypto,
eficão
no
tempo
deftas
inundações
em
Ítheos
no
meio
do
mar,
e
fervem-fe
de
humas
povoações
ás
outras
com
embarca-
ções
pequenas.
Nas
coftas
da
Cidade,
que
fica
pelo
rio
allima
da
banda.
do
levante,
he
a
terra
mais
alta,
e
pollo
que
fe
alaga,
não
he
tanto.
Re
-
No
tempo
que
.o-rio
começa
a
encher,
começam
oslavradores
a
lavrar
fuas
terras,
ea
femeallas;
e
quando
chegam
as
enchen-
tes,
Já
O
arroz
elltá
aflafonado,
e
tão
alto,
que
ficam
as
efpigas
por
lima
da
agua;
por-
que
he
tão
fertil,
quea
palha
do
arroz
he
tão
grofla
como
hum
dedo
,
e
naquelles
qua-
renta
dias,
que
duram
elles
enchentes,
vão
os
lavradores
com
elas
embarcações,
que
|
são
Dec
VI
Liv:
VII
Cap.
IX.
125
so
infinitas,
e
nellas
muitas
feftas
,
e
tan-
geres,
a
fegar,
e
a
cortar
as
efpigas
que
fi-
cam
por
fima
da
agua
,
e
levam
as
alma-
dias
carregadas
pera
Íuas
povoações
,
onde
tem
fuas
ciras.
Eltes
dias
são
os
de
maior
regozijo
feu,
que
todos
os
mais
do
anno.
No
tempo
deítas
inundações
todas
as
ali-
marias
do
mato
,
veados,
gazellas,
tigres,
vacas
bravas
.,
e
outros
fe
acolhem
aos
al-
tos,
ealli
vam
os
Sides
com
muitas
embar=
cações
á
caça,
e
dellas
os
eftam
matando
às
efpingardadas
,
fréchadas,
e
ás
pancadas,
que
he
huma
caça
de
muito
gofto,
e
recrea-
ção.
E
he
tão
grande
o
número
deftas
ali-
marias
que
matão
,
que
carregam
dalli
to-
dos
os
annos
muitos
juncos
de
feus
pella-
mes,
eos
levam
a
Japão,
onde
fazem
mut-
to
proveito
,
porque
daquellas
pelles
fazem
muitos
trajos
,
quimões,
e
outras
coufas
mui-
to
lavradas,
como
cada
dia
vemos
trazer
à
|
India,
de
que
fazem
formofos
caparazões,
baltardas
,
coutas,
e
outras
curiofidades
;,
porque
são
as
pelles
formofiflimamente
la-
vradas.
Quando
efte
rio
quer
tornar
a
vafar
,
(que
he
em
outra
certa
conjunção
da
Lua,
)
fahe
ElRey
da
Cidade
com
todos
os
feus
Gran-
des,
em
muitas
embarcações
muito
doura-
das,
e
paramentadas
com
muitas
feftas,
tan-
geres.,
e
inftrumentos
de
toda
a
forte;
e
di
É
zem
126
ASIA
pe
Diogo
DE
CovrTo.
zem,
que
vai
ElRey
lançar
a
agua
fóra;
e
eta
he
a
fua
maior
fefta
de
todas.
"Tem
El
Rey
mandado
pôr
hum
mafto
no
meio
do
rio,
guarnecido,
e
forrado
de
fedas
de
co-
res,
e
nelle
pendurada:
huma
formofa
joia
pera
o
que
mais
remar,
e
chegar
primeiro
a
ella.
E
póltos
todos
os
navios
em
ala,
ar-
rancão
a
hum
final
que
lhes
fazem,
e
vam
remando
à
porfiá,
com
tamanhos
gritos,
ala-
ridos,
e
vozarias,
que
parece
que
o
Mun-
do
fe
funde;
e
o
primeiro
que
chega,
leva
o
preço.
E
nefte
curlo
fe
encontram
huns
com
os
outros,
e
fe
quebrão.,
é
fe
efpeda-
ção
,
e
defapparelhão
dos
remos
,
de
manei-
ra,
que
he
huma
confusão
muito
pera
ver
de
fóra.
Por
onde
não
são
tão
barbaros
,
que
em
feus
jogos
,
e
feftas
não
imitem
os
an-
tigos
Troianos,
(
porque
da
mefma
manei-
ra
Eneas,
quando
chegou
a
Sicilia,
feftejou
com
o
curfo
de
fuas
galés,
pondo
curiofos
preços
pera
a
mais
ligeira.)
E
depois
deftes
S10es
ganharem
o
preço
,
tornam
a
voltat
pera
a
Cidade
com
tantas
feftas
,
gritas,
e
tangeres,
que
parece
que
fe
desfaz
o
mar,
e
a
terra
em
eftrondos.
Recolhido
ElRey
à
Cidade
,
como
naquella
maré,
que
he
a
con-
junção
que
começa
a
valar
a
agua,
dizem,
que
o
feu
Rey
a
foi
lançar
fóra
;
porque
eltes
Gentios
todos
os
attributos
que
fe
de-
vem
a
Deos
,
os
dam
aos
feus
Reys,
€
E
crem
Dre
Vl
Lrvo
VII
Car
TR.
127
crem
que
todos
os
bens
lhes
vem
del-
les.
|
“Quanto
á
grandeza
da
Cidade
de
Odia;
não
ha
Portuguez
que.
dio
pofla
dar
ver-
dadeira
informação
,
porque
os
não
deixam
andar
por
ella;
mas
póde-fe
conjeéturar
por
huma
experiencia
que
fez
hum
curio(o,
com
quem
nós
communicámos
ilto.
|
º
-
Ele:
diz,
que
eftando
naquella
Cidade,
delejando
de
faber
a
grandeza
della,
fe
em-
barcára:
em
huma
daquelas
embarcações-da
terra,
pequena,
e
muito
ligeira,
com
deter-
minação-
de
rodear
a
Cidade,
(que
he
toda
cercada
de
agua,)
e
que
partíra
hum
dia
de
madrugada
do
bairro
dos
Portuguezes
,
e
que
quando
tornára.
era
já
alta
noite
,
e
afirmava,
que
por
fia
eltimativa
andaria
mais
de
oito
leguas.'
He
efta
Cidade,
como
agora
diflemos,
rodeada
do
rio,
e
ella
to-
da
cercada
de
muros
de
adobes
,
e
não
fi-
ca
antre
ella,
e
o
rio
mais
que
hum
re-
eixo
de
oito,
ounove
paflos.
Tem
toda
á
roda
formofos
baluartes,
e
muitas
guaritas,
guarnecido
tudo
de
muita,
e
mui
groffa
ar-
tilheria
de
bronze.
Na
face
da
Cidade,
on-
de
as
náos
furgem
,
tem
hum
arrebalde,
que
tambem
he
cercado
de
muro,
com
feus
ba-
luartes,
onde
fe
agazalhão
os
forafteiros,
e
he
feito
a
modo
de
Ilha,
e
fe
divide
da
Ci-
dade
por
hum
efteiro
,
fobre
que
eftam
ale
d
gu=
128
ASIA
pe
Diogo
DE
Covro
gumas
pontes
pera
fua
ferventia,
Tem
efe
arrebalde
bairros
feparados
pera
todas
as
na
ções,
pera
não
viverem
milturados,
e
cada
bairro
tem
fuas
portas
com
que
fe
fecha,
À
Cidade
he
toda
retalhada
de
braços
do
rio,
que
por
muitas
partes
entram
,
e
tornam
a
fahir
por
outras
ao
mefmo
rio,
e
em
todas
eltas
entradas:,
e
Ífahidas
tem
portas
fecha-
das
com
cancellas
mui
fortes,
e
grollas.,
pot
onde
abrindo-fe
,
entram
dentro
na
Cidade
todas
as
embarcações
pequenas.
Ha
por
den-
tro
muitos,
e
freícos
jardins
,
hortas,
e
quin-
tacs
pera
feus
paflatempos
,
e
outras
gran-
dezas
que
deixamos
,
porque
não
fofire
a
hiftoria
tanto.
-
E
tornando
a
ella:
o
Brama
tanto
que
aífentou
o
arraial,
começou
a
bater
a
Cida-
de
por
muitas
partes.
ElRey
de
Sião;
a
par-
te
de
que
fe
mais
temia,
(que
era
hum
ba
luarte.,
onde
o
rio
era
mais
eftreito,
e
de
mc
nos
fundo,
)
à
não
quiz
fiar
fenão
dos
Por-
tuguezes,
que
mandou
recolher
dentro
,
que
quali
feriam
fincoenta
,
e
elegêram
por
leu
Capitão
Diogo
Pereira,
(de
que
já
em
ou:
tra
parte
fallâmos
,
fogro
de
D.
Pedro
de
Caftro,
irmão
do
Conde
do
Bafto,
edo
Ar
cebiífpo
de
Lisboa
D.
Miguel
de
Cafiro,
f-
lhos
de
D.
Dicgo
de
Caftro,
e
de
D.
Leo
nor
de
Taíde,
)
que
all
eftava
com
humi
não
fua,
que
com
muito
valor
,
e,
a
;
ga
Dec
VI
Liv.
VII
Car.
IX.
129.
defendeo
aquella
parte,
fazendo
della
mui-,
to
damno
nos
Pegús
,.e
Bramás;
e
fem
dú-
vida,
que
foram
os
Portuguezes
a
total.
oc-
cafião
de
fe
não
tomar
aquella
Cidade,
E
porque
as
particularidades
defte
cerco
não
fazem
acafo
pera
nofla
hiftorias,
as
deixa-
mos.
dafesica
Vendo
o
Bramá
que
tinha
gaftado
o
teme
po-fem
ter
feito
coufa
alguma
,
e
que
fe
hiam
chegando
as
crefcentes
do
grande
rio
Menão
,
temendo
que
fe
o
tomaflem
na-
quellas
varzeas
,
o
alagallem.,
e
fubvertef-
tem,
teve
modo
com
que
mandou
commet-
ter
os
Portuguezes
,
que
eftavam
dentro,
que.
ou
lhe
déffem
por
alli
entrada
na
Cidade
,-
ou
deixaflem
de
pelejar
,
e
defender
aquel-
la
parte,
(porque
nifto
eftava
entralla
elle,
)
e
que
lhes
daria
a
todos
tantas
riquezas,
e
Ouro,
que
ficalfem
todos
bem
ricos.
A
ifto
lhe
mandáram
os
Portuguezes
aquella
refpof-
ta,
que
os
da
Cidade
de
Synania
deram
ao
Conful
Bruto
,
quando
os
tinha
cercados,
que
vendo
a
conftancia,
e
valor
com
que
fe
de-
fendiam
,
lhes
mandou
pedir
huma
fomma
“de
ouro,
e
que
levantaria
o
cerco;
ao
que
lhe
refpondéram
,
que
feus
paílados
lhes
não
deixaram
ouro
pera
remirem
as
vidas,
fe-
hão
armas
pera
as
defenderem.
Elta
refpofta
diz
Valerio
Maximo
,
que
delejára
fahira
da
boca
de
algum
Romano,
v
ContoTom.III.Pal.
I
por-
"430
ASIA
DE
Droco
pE
Covrto
*
porque
não
era
digna
de
fer
dada
por
ou-
“tra
alguma
nação.
Aflim
eites
valorofos
cas
-valleiros
Portuguezes,
que
eftavam
em
Sião,
mandáram
dizer
ao
Bramá
,
que
os
Portu-
guezes
não
remiam
Ífuas
vidas
fenão
comas
“armas.,
nem:
vendiam
fua
lealdade
por
todo
o
ouro
do
Mundo;
que
foubefle
em
certo,
que
em
quanto
elles
follem
vivos,
não
en-
«traria
elle
naquella
Cidade
:
e
que
ainda
de-
pois
de
todos
mortos
,
e
efpedaçados
,.
te
pudeífe
fer,
lha
haviam
de
defender.
Vejam
logo
quanto
mais
dignos
de
lou-
vor,
e
engrandecer
foram
eftes,
que
aquel-
les
Romanos
,
que
eltando
no
Capitolio
cer-
cados
des
Francezes
,
fe
refgatáram
com.
Ouro.
E
ao
|
Vendo
o
Bramá
tão
grande
defengano,
levantou
feu
exercito
,
e
foi
marchando
é
|
“vante
com
tenção
de
ir
cercar
a
Cidade
de
'Camade
,
ou
Campape
,
como
lhe
alguas
chamam,
que
era
a
legunda
do
Reyno,
e.
onde
o
Sião
tinha
todos
os
feus
thefouros,
e
aflim
de
longo
daquelle
formofo
rio
Me-
naó
foi
caminhando
vinte
dias
,
até
chegar.
águella
Cidade
,
que
era
muito
grande,
é.
formofa,
cercada
toda
à
roda
com
feus
ba-
luartes,
e
guaritas,
e
com
huma
formofifl-
ma
cava.
Eftava
dentro
hum
Capitão
Sião
som
duzentos
mil
homens.
de
peleja
;
e
com
|
todos
os
provimentos
.neceflarios
pera
muit
da
;
108
sa
Dec
VII
Ie
VII
CAP-IX.
13
tos
tempos.
O
Bramá
aílentou
feus
exercis
tos
derredor
da
Cidade
,
e
deo
o
cargo
de
a
combater
a
Diogo
Soares
de.
Mello
com
os
Portuguezes
,
que
depois
de
feitas
fuas
trincheiras,
.vallos,-
e
repairos,
e
prantar
as
peças
de
artilheria
,
começou
por
huma
par=
te
abater
a
Cidade,
e
por
outra
a
entulhar
a
cava
por
algumas
partes,
pera
poder
che-
gar
a
picat
o
muro,
o
que
tudo
de
dentro
lhe
defendêram
,
e
atalháram
com
muito
fo-
go,
defarmando-
em
vão
todos
os
trabalhos,
que:
naquelle
negocio
tinham
commettido.
-
-
Calagoni,
Senhor
de
Martabão
,
que
era
homem
muito
avifado;
e
efperto;
mandou
fabricar
hum
grande
caftello
de
tres
fobra-
dos,
fobre
grandes
rodas
,
e
máquinas
mui
fortes,
guarnecido
por
fóra
de
traves,
emaf-
tos
mui
groflos,
fechados
com
ferragens
for-
tillimas
pera
poderem
fuftentar
a-
furia
da
attilheria,
E
depois
de
acabado
com
grande
culto;
e
trabalho
,
o
fez
chegar
aomuro
com
os
alifantes,
pera
por
elle
o
entrar,
levan-
do
dentro
muitos
homens
de
efpingatdas,
e
algumas
peças
de
artilheria,
e
muitas
pane-
las
de
polvora,
e
outros
artifícios
de
fogo.
Os
de
dentro
vendo
abalar
aquella
máqui-
ha,
(que
era
huma
coufa
efpantofa,)
met-
teram
em
algumas
bombardas
groífas
huns
Virotões
de
pão
ferro,
tão
groflos
como
ens=
Rias
;
e
nas
cabeças
atraveíladas:
em
a
-
I
ii
=
132
ASIA
pe
Droco
DE
Covrto
humas
traves
grandes
ferradas
,
e
pondo
fo-.
go
ás
bombardas
,
deram
aquelles
virotões
no
caftello.
com
tamanho
terremoto,
que
0
desfizeram
por
fima
;
e
dando-lhe
com
ou-
tros,
o
acabáram
de
defmanchar,
e
arruinar
de
todo.
O
Bramá
andava
affrontado
de
não
fazer
naquella
jornada
alguma
coufa
nota-
vel,
eos
nollos
tambem
andavam
bem
def
confiados.
Athanafio
de
Aguiar,
que
era
hum
fol-
dado
valorofo
,
ordenou
humas
muito
grof
fas,
e
fortes
mantas
com
grandes
traves,
€.
taboões
ferrados
por
lima,
e
com
muitas
to-
das,
com
que
as
fez
encoltar
ao
muro,
que
mandou
picar
por
huma
grande
multidão
de
gaftadores
Pegús,
e
Bramás
,
e
começáram
a
fazer
alguns
pequenos
poítigos.
Os
de
den-
tro
acudiram
áquella
parte
com
muitos
ar.
tificios
de
fogo,
que
lançáram
fobre
as
mar
tas,
e
fe
confumiam
elles
fem
fazerem
ne.
nhum
nojo
aos
que
trabalhavam.
Vendo
os.
Sides
que
nada
daquillo
aproveitava
,
por
caufa
das
mantas
com
que
fe
amparavam
os
que
trabalhavam
debaixo
dellas,
e
que
eb
tavam
arrifcados-
a
fe
perderem
por
alli,
co
meçáram
a
fazer
repairos
por
dentro;
e
não.
curando
já
do
fogo
,
por
verem
que
não.
impeciam
com
elle
aos
Pegús
,
e
Bramas,
que
os
tinham
cercados,
ufáram
q”outro
ar-
dil,
e
elle
foi,
que
enchéram
muitas
e
(o)
|
Dec.
VI:
Liv:
VIL
Cap
IR.
133
de
cujidade
de
gente
,
delida
com
ourina',
e
dando
com
ellas
do
muro
abaixo
em
fi
ma
das
mantas
fe
fizeram
em
pedaços
;'e
aquelle
cujo
,
e
fedorento
licor
coando-fe
pe-
las
gretas
do
taboado
,
foi
calar
abaixo
,-é
deo
fobre
os
que
trabalhavam,
e
em
lhes
tocando
aquelle
fedorento
material,
largá-
ramlogo
tudo,
efe
recolhêram
pera
as'fuas
eltancias
por
não
poderem
foffrer
tão
mão
cheiro
,
e
pafmados
-daquelle
negocio
,
di=
ziam
que
os
Siões
eram
diabos,
porque
quan-
do
lhes
não
aproveitavam
as
armas
ordina-
ras,
pelejavam
com
outras,
de
que
nunca
outra
alguma
nação
-do
Mundo
ufou
,
e
con=
tra
quem
não
havia
repairo
algum:
O
Bras
má
vendo
o
tempo
galtado
,
depois
de
paí=
fadas
as
enchentes
,
levantou
feu
exercito;
e
ferecolheo
pera
feus
Reynos
pelo
mefmo
caminho
que
levou.
Si
EA
Bate
UE
3-6
o
De
como
faleceo
o
Governador
Garcia
de.
“Sá:
e
das
partes
,
e
qualidades
de
-
ua
peloa..
E
|
ipi
a
“entrou:
o
Inverno;
não
fe
47
occupou-
o
Governador
Garcia
de
Sá
em
outra
coufa
mais
;.
que
em
reformar
a
Armada,
e
mandar
dar
preíla
dos
navios
que
tinha
começados,
vifitando-os:
maio
dos
si8G
jas
134
ASIA-pE
Diogo
de
Couro
dias
a
ribeira
,'armazens,
e
a
cafa
da
pol
vora.:E
na
entrada
do
mez
de
Junho
dela
era
de
1549
em
que
andamos,
adoeceo
de
humas
febres
agudas
;
e
como
era
homem
de
Íetenta
annos
,
logo
o
cortáram
de
fei
ção,
que
deo
ruins
finaes
de
fua
faude
;
e
entendendo
os:
Medicos
que
fe
lhe
hia
che:
gando
feu
termo
limitado,
avifáram-dillo
o
Bifpo;,
pera
que
lhe
difleffe,
que
tratafe
das-coufas
de
Ífua
alma,
como
fez.
E
en
tendendo
elle
aquella
verdade,
largou
tudo
por
mão
,
e
fe-fechou
pera
tratar
do
que
lhe
convinha:,
confellando-fe
muito:
deva
gar,
etomando
os
Divinos
Sacramentos;
e
depois
fez
feu
teftamento
;
e
cumprio
com
todas
as
coufas
de
verdadeiro
-Chrifão
,
e
temente
a
Deos
;
e-aos
treze
dias
do
dito
mez
faleceo
defta
vida
prefente,
com
gran
des
exteriores
de
arrependimento
de
feus
pec-
cados.
Eftiveram
com
eile
o
Bifpo,
os
Pa-
dres
de
S.
Franciíco,
de'S.
Domingos,
€
da
Companhia
,
que
o
confoláram
,
e
lhe
lembráram
as
coufas
que
convinham
à
fua
alma,
Foi
fia
morté
muito
fentida
de
to-
dos,
porque
era
Fidalgo
muito
brando
,
af-
favel
,
humano”,
e
tão
defintereffado
,
que
com
haver:
fido
duas
vezes
Capitão
de
Ma-
laca;
e
huma
de
Baçaim,
e
hum
anho
Go
vernador:
da
India
;
não
tinha
de
feu
mais
que
o
dote-que
deo
a
fuas-filhas
,
que
não
pal
Dec.
VLdavo
VIH
Car.
RX
135
pallou
de
vinte
mil
cruzados
a
cada:
huma.
Falecido
o
Governador,
fe
abrio
feu
tela-.
mento,
e
acháram-
por
feus
teltamenteiros
feus
genros.
Mandava
que
feu
corpo
fof-
fe
enterrado
na
Capella
mór
de
noffa
Senho=-
ra
do
Rofario
,
no
chão
ao
pé
da
fepultu-
ra
de
fua
mulher
D.
Catharina,
e
que
fof-
fe
veltido
no
habito
do
Padre
S.
Francifco;,
como
fe
fez.
Foi
acompanhado
de
todas
as
Ordens
,
Cabidos
,
e
Freguezias,
e
de
to-
dos
os
Fidalgos
,
veítidos
de
preto
;
e
da
:
Irmandade
da
Mifericordias
Co
E
Foi
elle
Fidalgo
filho
de
João
Rodrigues
de
Sá,
o
primeiro
Alcaide
mór
do
Porto
+.
era
homem
de
boa
eftatura
,
muito
gentil-
homem,
e
tão
alegre
,
que
alegrava
a
tos
dos
;
tinha
huma
muito
alva
,
e
veneranda
barba,
que
lhe
dava
pelos
peitos
;
foi
ho-
mem
de
muita
verdade
,
grande
confelho
,
e
muito
zelofo
do
Terviço
de
ElRey
;
foi
de
muito
boas
refpoítas,
e
nunça
deo
efcan-
dalo
público
em
quanto
andou
na
India,
fenão
aquelle
da
mai
ide
Ífuas
filhas
,
antes
que
a
recebefle
por
mulher.
Fez
de
novo
finco,
ou
feis
galeões,
e
caravelas,
e
mui-
tas
fultas
;
mandou
reformar
as
fortalezas
de
Ormuz
,
Dio
,
e
Cananor.
Deixou
nos
ar-
mazens
duas
mil
efpingardas,
que
mandou
fazer
em
Cochim,
Coulão,
e
Ceilão,
e
em
outras
partes.
Fez
de
novo
a
cafa
da
pol-
Ea
à
Ss
VO-
136
ASIA
pe
Dioco
DE
Covrro
vora;
onde
hoje
ef,
proveo-a
de novos
en.
genhos,
e
encheo
os
armazens
de
mantimen-
tos
,
cotonias
,
cifas
,
remos,
e
de
tudo
0
mais,
Não
fez
dividas
no
Eltado,
e
pagou
algumas
velhas.
Não
ficou
delle
polfteridade
no
Mundo,
mais
que
lua
bifneta
DD.
Joanna
de
Noronha:,
filha
de
D.
Garcia
de
Noro-
nha
feu
netó
,
(como
pouco
ha
diffemos,)
que
por
não
ter
fua
mãi
dote
que
lhe
dar,
a
metteo
Freira
no
Molteiro
de
Aveiro,
fe-
gundo
nos
difleram.
Não
deixou
efte
Gover-
nador
morgados
naterra,
que
he
final
que
lhos
teria
o
Senhor
guardado
no
Ceo,
on-
de
lua
alma
iria
deicançar
perpetuamente,
nda
hum
anno,
hum
mez,
e
fete
ldSo
Sã
37
Pet
RD
Rd
É
88
e
Nas
INS
O
Ri
Rea
ia
k
DECADA
SEXTA.
Li
Mo
RO
VHE.
“Da
Hiftoria
da
India.
CAPITULO
De
como
por
morte
do
Governador
Garcia
de
Sá
fuccedeo
na
governança
da
India
Jorge
Cabral:
e
da
Armada
que
efre
anno
de
1549
partio
do
Reyno,
de
que
era
Ca-
pitão
mor
D.
Alvaro
de
Noronha.
E
—Evapo
O
corpo
do
Governador
Gar-
cia
de
Sá
a
noffa
Senhora
do
Rofa-
=
rio;
depois
de
fe
lhe
fazer
o
Offcio
muito
folemnemente,
primeiro.
que
fofle
en-
terrado,
abrio
o
Veador
da
Fazenda
o
co-
fre,
em
que
eftavam
ainda
duas
fuccelsões
da
governança
da
India;
de
finco
que
El-
Rey
tinha
mandado
na
Armada
de
Manoel
de
Mendoça,
e-tirou
à
quarta,
(porque
na
terceira
tinha
fúccedido
Garcia
de
Sá,)
e
Bee
deo-a
138
ASIA
DE
Drogo
DE
Covro
deo-a
ao
Capitão
D.
Francifco
de
Lima,
que
com
o
Licenciado
Antonio
de
Barbuda,
Ouvidor
Geral
da
India,
a
examinou,
peta
ver
fe
fe
tinha
neila
bolido
;
e
achando-a
pura,
e
fem
fe
nella
tocar,
a
deo
ao
Secre-
tario
que
a
abrio,
e
lendo-a
alto
fe
achou
nella
Jorge
Cabral,
que-eítava
por
Capitão
de
Baçaim
,
o
que
todos
eltimáram
muito,
porque
era
hum
Fidalgo,
em
que
havia
to-
das
as
partes
necellarias
pera
o
cargo.
E
vendo
que
eftava
em
Baçaim
,
donde
não
podia
vir
fenão
em
Setembro
,
fe
abrio
o
Regimento
que
na
Índia
havia
fobre
elte
ne-
gocio,
e
fe
achou
que
mandava
ElRey
:
»
Que
fúccedendo
algum
-Governador
nas
»
vias,
eftando
fóra
de
Goa
defdo
cabo
do
»
Comorim
até
á
ponta
de
Dio,
fe
efperaf-
»fe
por
elle,
e
entre
tanto
governafle
a
In-
»
dia
o
Bifpo,
Capitão
da
Cidade,
e
Ou-
»
vidor
Geral
;
e
que
eitando
deftes
limites
»
pera
fóra,
fe
não
efperafle
por
elle,
e
fe
abrif-
»
fe
a
outra
Íuccelsão,
»
(
o
que
ElRey
man:
dou
ordenar
depois
daquellas
grandes
diffe-
renças
que
houve
antre
Pero
Mafcarenhas,
e
Lopo
Vaz
de
Sampaio,
como
temos
con-
tado
na
quarta
Decada
no
Cap.
VI.
do
Liy.
11.3
E
porque
'o
Bifpo,
D.
Francifco
de
Ei
ma,
e
o
Ouvidor
Geral
eltavam
prefentes,
lhes
fez
o
Veador
da
Fazenda
entrega
da
Índia,
até
vir
o
Governador
Jorge
cara
Reco
e
Dee
Vk
brv.
VIE
Car.
T.
139
de
que
fe
fez
hum
Termo,
em
que
todos
fe
allignáram.
Pafifado
ifto,
foi
o
corpo
do
Governador
Garcia
de
Sá
enterrado
,
eos
Regentes
fe
recolhêram
,
e
começáram
a
cor-
rer
com
as
coufas
do
governo,
e
defpedi-
ram
logo
correios
por
terra
com
cartas
pe-
ra
o
Governador,
em
que
lhe
faziam
a
fa-
ber
de
fua
fucceísão.
Elas
cartas
lhe
che-
gáram
primeiro,
que
fe
acabafle
o
mez-de
Julho
;
e
vendo-as
elle,
e
fabendo
da
mor-
te
do
Governador
Garcia
de
Sá,
e
de
Íua
luccelsão
;
fentio
muito
fua
morte,
e
não
fe
alvoroçou
com
a
governança:,
antes
elteve
pera
a
não
acceitar
;
porque
fe
ascartas
que
fe
mandaram
por
terra
a
ElRey
da
morte
do
Vifo-Rey
D.
João
de
Caflro
chegáram
antes
das
nãos
ferem
partidas
,
fem
dúvida
viria
Governador
nella;
e
quando
não;
não
poderia
faltar
no:
Setembro
feguinte.
-E
que
pera
fe
arrilcar
a
não
fer
Governador
mais
que
hum
mez,
ouquando
muito
hum
ano,
muito
melhot
lhe
era'
deixar-fe
eftar
em
Ba-
cam,
eacabar
“quatro
annos:,
que
tinha:
da-
quella
Capitania,
e
ir-fe
pera
o
Reyno
com
coula
com
que
pudefle
viver
,
e
não
depois
de
Governador
embarcar-fe
pobre
,
e
fem
Coufa
alguma,
e
aflim
ficou
fufpenfo
,
fem
fe
faber
determinar.
Mas
fia
mulher
,
que
era
vã,
como-o
são
todas,
lhe
diffe
:
»
Que
amelhor
era
fer
quinze
dias
Governador
da
E
In=
140
ASIA
pe
Diogo
DE
Covto
»
India,
que
dez
annos
Capitão
de
Baçaim;
»e
que
já
ElRey
lhe
ficava
em
mais
obri
»
gação,
e
lhe
havia
de
fazer
diferentes
hon-
»
ras,
e
mercês,»
À
Cidade
de
Baçaim
acu-
dio
logo
ao
novo
Governador
,
e
lhe
fez
muitas
feftas,
e
elle
fe
começou
a
negociar
pera
fe
partir
pera
Goa,
mandando
pera
if
fo
armar
alguns
navios
muito
ligeiros
,
em
que
fe
embarcou
aos
oito
dias
de
Agofto;
e
aos
quinze
dias
de
noíla
Senhora
da
Af
Sumpção
chegou
á
barra
de
Goa,
e
dek
embarcou
em
Pangim,
onde
os
Regentes
lhe
foram
entregar
a
India,
e
depois
entrou
nã
Cidade,
onde
felhe
fez
o
recebimento
cof
tumado
,
e
começou
a
entender
nas
coufas
do
governo.
E
a
primeira
que
fez,
foi
dele
pachar
Francifco
Barreto
pera
ir
entrar
na
Capitania
de
Baçaim,
de
que
era
provido;
e
mandou
dar
prefla
à
Armada,
e
lançalla
ao
mar,
porque
determinava
de
ir
a
Co-
chim:,
por
andarem
as
coufas
d'antre
o
Ca
morim,
e
ElRey
de
Cochim
muito
rotas;
e
os
odios
antigos
muito
accezos.
SE
UR
E
fendo
alguns
dias
paífados
de
Setem-
bro,
furgiram
na
barra
de
Goa
quatro
nãos,
de
finco
que
do
Reyno
partíram
;
de
quê
era
Capitão
mór
D.
Alvaro
de
Noronha,
filho
do
Vifo-Rey:
D.
Garcia
de
Noronha,
que
vinha
defpachado
coma
Capitania
de
Ormuz.
Os
mais
Capitães
de
fua
confetva
eram
Dzc
VI
Liv.
VI
Car.
1
141
eram
Diogo
de'
Mendoça
,
Jacome
Triflão
,
e
João
Figueira.
Da
outra
que
faltava,
era
Capitão
Diogo
Botelho
Pereira,
o
que
foi
na
fulta
ao
Reyno
,
(como
na
quinta
Deca-.
da
no
Cap.
II.
do
T.
Liv.
fica
dito,)
que
em
Outubro
foi
tomar
Cochim.
Vinha
com
elle
embarcado
Rax
Nordim,
filho
de
Rax
Rarrafo,
Guazil
de
Ormuz,
que
o
pai
man-
dou
pera
Portugal
na
Armada
de
Lourenço
Pires
de
Tavora.,
como
no
principio
deíta
Decada
fe
vê,
no
Cap.
HI.
do
IV.
EA
vas
que
elteve
tres
anos
no
Reyno
com
gran-
des
galos
,
e
deípezas,
e
fempre
lhe
fez
El
Rey
tantas
honras,
que
nos
ferões
Reaes
o
mandava
aflentar
nos
degráos
do
eftrado
com
os
filhos
do
Dugue
de
Bargança
;
e
fervia.
huma
Dama
daguellas,
a
que
mandava
mui-
tas
peças,
e
brincos,
muito
ricos,
e
curio-
los,
e
ella
o
favorecia
pelo
honrar.
E
de-
pois
de
fer
Guazil
de
Ormuz
,
foi
águella
fortaleza
bum
irmão
defta
Senhora
+
mance-
bo
o
mais
gentil-homem
de
fen
tempo
,
e
fabendo
o
Guazil
delle,
o
foi
bufcar,
e
lhe
deo
muito
dinheiro
,
e
peças
ricas,
Defpa-
chou
ElRey
a
Rax
Nordim
com
os
cargos
de
Guazil
do
Reyno
de
Ormuz
,
e
com
o
de
Juiz
da
Alfandega
daquella
Cidade,
af-
lim
como
feu
pai
os
tinha
por
fua
morte.
Efe
Diogo
Botelho
Pereira,
por
aquel-
la
ida
que
fez
ao
Reyno
na
fufla,
não
lhe
quiz
742
ASIA
DE
Dioco
DE
Covro
quiz
ElRey
refponder
muitos
annos
a
feus
requerimentos,
e
depois
lhe
deo
a
Capitas
nia
de
S.
Thomé,
onde
adoeceo
dehydro-
pefia
,
e
engroflou
tanto
como
hum
torel,
e
fe
foi
pera
o
Reyno
;
e
elte
anno
o
def
pachou
ElRey
com
a
Capitania
de
Cana
nor,
e
fe
embarcou
afim
enfermo
;
e
grof-
fo;
eaffirmava-fe,
que
bebia.
dous
almudes
de
agua
cada
dia.
Entrou
logo
na
fua
Ca-
Pitanía,
que
não
logrou
,
porque
morteo
no
primeiro
anno.
|
Antes
que
efta
Armada
partie
do
Reys
no,
foi
ElRey
avifado,
que
em
Hefpanha
fe
faziam
finco
nãos
preftes
pera
pafiar
a
Maluco,
e
que
o
Capitão
mór
dellas
era
o
melmo
Fernão
de
la'Torre,
que
Fernão
de
Soufa
de
Tavora
trouxe
de
Maluco
;
e
que
os
outros
Capitães
eram
D.
Alonfo
Henri-
ques
,
Pero
Pacheco,
Gonçalo
de
Avalos,
e
João
Cayetano,
que
todos
tinham
ido
a
Maluco
em
companhia
de
Ruy
Lopes
de
Villa-Lobos.
Diflo
avifou
ElRey
ao
Gover-
nador,
e
lhe
mandou
que
provefle
naquel-
las
coufas,
e
que
mandaífe
huma
Armada
a
Maluco;
o
que
elle
determinou
fazer
co
mo
foffe
tempo.
E
porque
a
cota
do
Ma-
lavar
não
ficaffe
defamparada,
deípedio
por
Capitão
mór
dellá
Francifco
de
Siqueira
0
Malavar
,
(de
quem
muitas
vezes
temos
fal:
lado
na
quinta
Decada
,
nos
foccorros
do
|
pri-
Dec,
VI
Liv.
VII
Cap.
1
143
-
primeiro
cerco
de
Dio,
fendo
Capitão
da-
“quella
fortaleza
o
grande
Antonio
da
Silveis
1a,)
que
era
grande
Capitão,
e
entendia
a
guerra
muito
bem,
e
tinha
deftruido
o
Ma-
lavar,
como
quem
fabia
as
entradas,
e
fa-
hidas;
e
pelos
muitos
ferviços
que
tinha
fei-
to
ao
Eltado.,
o
fez
ElRey
D.
João
Fidal-
go,
e
lhe
mandou
o
habito
de
Chrifto
com
boatença.
Levou
doze
navios,
com
que
an-
dou
a
mór
parte
do
verão
por
aquella
cof
ta,
fazendo-lhe
toda
a
guerra
que
pode.
E
o
Governador
ficou
dando
defpacho
a
ou-
tras
muitas
coufas,
e
aviamento
ás
ndos
pera
irem
tomar
a
carga
a
Cochim.
E
ASP
TI
TUBO
E
De
como
o
Rey
da
Pimenta
Je
palm
á
par-
te
do
Camorim
perfilhando-fe
com
elle
:
e
“do
recado
que
o
Governador
teve
di.
S
Reys
de
Cochim
(como
já
algu-
mas
vezes
temos
dito
)
ficam
tendo
antre
toda
aquella
Gentilidade
do
Malavar
toda
a
fuperioridade
no
efpiritual,
como
Bragmane
mór
que
he.
E
por
hum
muito
antigo
coftume
,
que
não
podemos
bem
ave-
Hguar,
são
obrigados
os
Reys
da
Pimenta
a
lhe
darem
fuas
mulheres
,
e
filhas
pera
as
levarem
de
fua
honra,
que
he
a
maior
que
e
lhes
póde
fazer
,
quando
casão;
porque
“tos
144
ASIA
DE
DIOGO
DE
Covro
todos
eftes
Gentios
do
Oriente
tiveram
fem
pre
em
feus
coftumes
o
intento
em
fuas
de.
licias,
e
torpezas,
que
não
póde
fer
maior
na
vida,
que
quando
eítas
Princezas
casão,
entregarem-nas
primeiro
ao
Rey,
que
a
feus
maridos,
havendo
que
com
iflo
ficavam
pu
rificados.
E
afim
depois
difio,
todos
os
fi
lhos
que
ellas
parem
,
fejam
cujos
forem,
são
havidos,
e
perfilhados
pelo
Rey
de
Co-
chim,
eelle
os
recolhe,
e
cria
como
filhos.
E
como
o
Principe
de
Bardela
fe
creava
por
efta
razão
com
ElRey
de
Cochim
,
tinha
tanta
amizade
com
os
Portuguezes,
que
hia
a
Cochim
ver
as
feias,
touros
,
e
canas,
porque
naquelle
tempo
tudo
eram
regozi-
jos
,
e
defenfadamento.
E
aflim
efte
verão
paffado
,
parindo
a
mulher
do
Rey
da
Pi-
menta
,
mãi
daguelle
Principe,
foi
Francif-
co
da
Silva,
Capitão
de
Cochim,
com
to-
dos
os
cafados
a
Bardela,
onde
reídia
,
e
lhe
feftejou
o
parto
com
lhe
jogar
as
canas,
e
com
outros
paflatempos;
ealgumas
vezes
foi
ajudar
aquelle
Rey
nas
guerras
que
ti-
nha
contra
ElRey
de
Porcá
leu
vizinho,
tus
do
à
conta
de
KlRey
de
Cochim.
Efte
Principe,
que
já
era
Rey
da
Pimen-
ta,
por
certos
aggravos
que
teve
de
ElRey
de
Cochim,
que
o
creara
como
pai,
deter-
minou
de
fe
paffar
à
parte
do
Camorim,
pera
o
que
fe
carteou
comelle,
e
E
de
|
e
CEAR
Cs
po
1
1
pr:
iris;
EDS
SEN
o
aÃ
xp
E
Dec
VI.
Liv,
VII
Cap
IL
14%
fe
verem,
o
que
o
Camorim
grangeou
mui-
to,
€
lhe
mandou
fobre
iflo
cartas
mui
hone
rolas
,
e
de
grandes
offerecimentos
,
com
que
elle
fe
fez
preítes
pera
fe
paflar
a
Calecut.
Deltes
tratos
foi
avifado
ElRey
de
Co-
chim,
eo
Capitão,
que
fentio
muito
aquel-
le
negocio
,
e
tratou
de
o
impedir
por
to-
das
as
vias
que
pudefle
,
pelo
grande
pre-
Juizo
que
fe
feguiria
ao
Eftado
daquellas
li-
anças
;
porque
fe
aquelles
Reys
fe
ajuntaf-
tem,
feria
total
deftruição
do
Reyno
de
Co-
chim,
e
ficariam
as
nãos
do
Reyno
fem
te-
tem
porto
,
nem
efcala
aonde
foflem
carre-
gar,
nem
a
pimenta,
queera
o
mais
impora
tante
de
tudo
,
porque
logo
os
Mouros
a
haviam
de
haver
toda
pera
fi,
e
paflalla
a
|
Meca,
que
era
o
que
elles
muito
perten-
diam,
porque
com
a
nofla
entrada
na
India
lhes
arrancámos
das
mãos
aquelle
trato,
com
que
todos
vieram
a
empobrecer.
E
lançan-
do
Francifco
da
Silva
fuas
contas
a
tudo
5
fe
foi
ver
com
ElRey
de
Cochim
fobre
a-
quelle
negocio,
e
o
perfuadio
a
emendar
os
aggravos
de
que
fe
o
Principe
queixava,
ao
que
ElRey
diffe
:
»
Que
faria
tudo
O
que
»naquelle
negocio
lhe
parecefle
bem,
e
que
»tomafle
elle
4
fua
conta
acaballo
com
elle.»
Com
efta
reípofia
fe
paílou
logo
Fran-
cifco
da
Silva
a
Anche
Queimal
,
onde
a-
Quelle
Principe
eftava,
e
o
foi
vifitar;
eno
Conto
Tom.IILP.l.
K
difa
146
ASIA
DE
Diogo
DE
Couto
difeurfo
da
vilita
lhe
pedio
:
»
Que
fe
def
»
ceffe
da
opinião
em
que
eflava,
e
que
fe
»
lembrafle
que
ElRey
de
Cochim
era
feu
»
pai,
e
que
o
creára
fempre
com
muito
4
vet
»
amor;
que
não
era
razão
que
por
peque-
»
DOs
aggravos
fizefle
tão
grande
mudança,
»
como
paflar-fe
ao
Camorim
,
que
era
o
»
mór
inimigo
que
tinha;
que
elle
acabaria
»
com
elle
que
o
fatisfizele
em
tudo
,
e
»
que
lhe
lembrava
a
muito
antiga
amiza-
»
de
que
tinha
com
os
Portuguezes
,
que
»
fempre
fe
moftráram
grandes
feus
amigos,
»e
o
fervíram
em
todas
fuas
guerras
con-
»
tra
Ífeus
vizinhos;
e
que
pela
mefma
ra-
»
zão
que
ficaffe
inimigo
de
ElRey
de
Co
»
chim,
ficavam
os
Portuguezes
feus
delle;
»
e
com
ifto
lhe
difle
outras
muitas
coufas.
Mas
o
Principe
como
eftava
com
aquelle
ap-
petite,
dife:
»
Que
elle
entendia
mui
bem
»o
que
lhe
importava
aquelle
negocio
,
€
»
que
já
fe
não
havia
de
defcer
de
fua
opi-
»
não.»
Vendo-o
Francifco
da
Silva
tão
re-
Áoluto,
e
determinado,
lhe
dife
:
»
Que
dal-
»
li
por
diante
teria
o
Eftado
por
feu
inimi
»go,
e-que
como
a
efle
lhe
faria
toda
à
»
guerra
que
pudeíle,
porimar,
e
por
terra,
paté
o
deftruir
de
todo.
»
E
apartando-fe
delle,
mandou
logo
apregoar
guerra
a
fo-
go,
ea
fangue.
É
deípedio
Fernão
Rodri-
gues
de
Mariz
comalgumas
embarcações
pe-
|
Ta
Dec.
VI.
Liv.
VII
Car.
IL
147
>.
3a
tomar
Os
paílos
por
onde
aquelle
Princi-
pe
havia
de
paflar
pera
Calecut.
O
que
el-
le
fez
de
feição
,
que
não
tendo
aquelle
Prin=
cipe
outro
remedio
,
paílou
1ó,
e
disfarça-
do
pelo
pé
do
Gate,
e
aflim
foi
ter
a
Ca-
lecut;
onde
o
Camorim
o
recebeo
com
mui-
tas
honras
,
e
fez
com
elle
novas
perfilha-
ções,
por
efta
maneira.
-
»
Que
elle
perfilhava
o
Camorim
em
fe
à
Principe,
herdeiro
de
fes
Reyno
por
fua
»moste,
poito
que
já
tinha
Principe
herdei-
»ro
;
e
que
o
Camorim
perfilhava
o
Prin-
»cipe
herdeiro
do
Reyno
da
Pimenta,
em
»
Principe
fegundo
herdeiro
do
Imperio
de
»Calecut
por
falecimento
do
Principe
feu
»fobrinho
,'
que
era
o
direito
herdeiro,
O
aque
o
Principe
da
Pimenta
pelo
muito
que
»ganhava,
fe
viefle
a
fer
herdeiro
do
Rey-
yno
de
Calecut,
porque
pela
mefima
razão
vo
ficava
fendo
tambem
do
Reyno-
da
Pie
»'menta.
»
À
eftas
perfilhações
fe
fizeram
gran-
des
feftas
em
Calecut
,
a
que
acudíram
tos"
dos
os
Principes
Malavares
do
bando
do
Camorim,
Francifco
da
Silva
defpedio
logo
hum
navio
muito
ligeiro
com
cartas
ao
Go-
vernador
Jorge
Cabral
,
em
que
lhe
dava
conta
de
todas
aquellas
coufas.,
e
que
era
neceflario
acudir
à
ellas
em
pefloa,
porque
começava
a
haver
impedimentos
nos
rios
por
onde
corria
a
pimenta.
ElRey
de
Cochim
K
ii
co-
148
ASTA
pe
Diogo
ne
Covro
começou
a
ajuntar
Íuas
gentes
pera
acudir
áquellas
coufas,
pelo
muito
que
lhe
impor
tava.
|
CxAcPREoU
ESQ
De
como
o
Governador
Forge
Cabral
par.
tio
pera
Cochim
:
e
das
coufas
que
paf-
Járam
naquella
Cidade,
em
quanto
nel.
la
efleve
:
e
de
como
ElRey
da
Cota
lhe
andou
pedir
foccorro
contra
o
Meadune,
Oucos
dias
depois
das
nãos
do
Reyno
chegadas,
teve
o
Governador
cartas
de
Francifco
da
Silva
,
Capitão
de
Cochim,
em
que
lhe
dava
conta
das
alterações
que
havia
antre
aquelles
Reys,
do
que
ficou
en-
fadado
,
porque
bem
entendia:
que
eram
trabalhos
que
fe
levantavam"contra
o
Elta-
do,
e
que
lhe
era
neceflario
acudir
a
ifo
em
pefioa;
porque
reccou
que
fe
o
não
f-
zelie,
não
haveria
carga
de
pimenta
pera'as
nãos,
e
mandou
dar
prefla-
a
toda
a
Armas
da.
É
na
entrada:
de
Outubro
deípedio
Baf-
tião
de
Sá,
o
Capeca,
por
Capitão
mór
do
Malavar,
com
huma
galé,
€
vinte
navios
de
remo,
de
cujos
Capitães
não
achâmosos
nomes,
e-elle
ficou
dando
deípacho'
ds
nãos
pera
as
deípedir
pera
Cochim”,
como
logo
fez
por
todo
Outubro.
O
Governador
deo
expediente
a
muitas
coufas
outras,
e
come
cou-fe
a
embarcar
,
entregando
o
goverio
ao
“das
nãos,
Pedro
Affonfo
de
Avelar,
Dio-
Dec.
VI
Liv.
VII
Car.
II
149
ao
Bifpo
,
e
ao
Capitão
dá
Cidade
,
e
ao
Ouvidor
Geral,
que
era
o
Licenciado
Chrif-
“tovão
Fernandes;
e
meado
o
mez
de
No-
vembro
deo
á
véla,
levando
antre
galeões,
caravelas,
e
galés
mais
de
trinta,
e
de
na-
vios
de
remo
perto
de
feffenta.
Os
Capitães
que
nefta
jornada
o
acompanháram
nas
va-
zilhas
grandes
,
e
galés
(porque
aos
das
full
tas
não
achmos
os
nomes
)
são
os
feguin-
tes.
-
D.
Antonio
de
Noronha,
filho
do
Vifo-
Rey
D.
Garcia
de
Noronha,
D.
João
Hen-
riques,
Jorge
de
Mendoça,
João
de
Men-
doça
Cação
,
outro
João
de
Mendoça
o
Chú.,
D.Jorge
de
Caftro,
Pantaleão
de
Sá,
Mar-
tim
Affonfo
de
Mello:
Pereira
o
Ombrinhos
;
Manoel
de
Soufa
de
Sepulveda
,
Martim
Affonfo
de
Miranda
,
Francifco
de
Mello
Pereira,
Fernão
de
Soufa
de
Caftello-bran-
co,
Gonçalo
Vaz
de
Tavora
,
Pero
Botelho
5
Fernão
Gomes
de
Soufa,
Belchior
Botelho
:
que
hia
por
Veador
da
Fazenda
da
carga
8º
Botelho,
Nuno
Alvares
Carneiro
»
EL
“<tivão
da
Matricula
,
que
hia
em
huma.
ca-
Tavela,
com
todos
os
Officiaes
daquelie
car-
80,
pera
em
Cochim
fazerem
os
deípachos
dos
Officiaes
das
nãos;
e-de
outras
peíloas
que
fe
hiam
pera
o
Reyno,
(porque
todos
Os
annos
hiam
lá
eftes
Officiaes
a
iflo,
por
fe
150
ÁSIA
pe
Dioco
DE
Covtro
fe
haver
por
melhor
aviamento
das
partes,).
porque
como
todos
os
homens
de
todas
as
partes
da
Índia,
que
fe
querem
à
perao
Reyno,
vam
bufcar
as
nãos
a
Cochim,
acha.
vam
alli
feus
defpachos.
|
Partido
o
Governador
,
foi
em
poucos
dias
a
Cochim,
e
tomou
cafas
em
terra,
co-
meçando
a
entender
na
carga
das
nãos;
mas
como
o
Rey
da
Pimenta
eftava
lançado
com
o
Camorim
,
começou
a
faltar,
porque
fe
impedia
a
paflagem
della
pelo
rio
abaixo,
por
Mouros
que
eftavam
em
hum
forte.
O.
Governador
mandou
hum
Capitão
,
a
que
não
achámos
o
nome,
com
quinhentos
ho-
mens
pera
os
tirar
dalli,
o
que
elle
fez,
commettendo-os
huma
madrugada
;
e
pofo
|
que
achou
muita
refiftencia
,
por
ferem
os.
de
dentro
mais
de
oitocentos,
foi
o
forte
en-
|
trado,
e
os
mais
dos
Mouros
mettidos
def
|
pada,
e
o
forte
derribado
,
queimado,
e
|
Es
por
terra,
ficando
elte
Capitão
naquel-
es
rios,
favorecendo
a
paflagem
aos
mer.
cadores,
que
traziam
a
pimenta
de
fima
da
|
ferra,
e
ao
pé
a
embarcavam
em
toneis
em
|
que
a
levavam
ao
pezo,
e
Feitoria
de
El
|
Rey
;
mas
não
corria
tanta
quanta
era
ne
cellaria,
|
DeresVl=biyo
VHL
Ca
vil.
151
fillo
de
ElRey
de
Portugal
,
lhe
mandava:
pedir
com
muita
piedade
»
o
quizefle
foc-
»
correr,
porque
eftava
no
derradeiro
eltre-
ymo
de
perder
feu
Reyno;
porque
o
Ma-
»
dune,
Rey
de
Ceitavaca
feu
irmão,
lhe
ti=
»
nha
tomado
a
mór
parte
delle,
e
o
tinha
»
cercado
na
Cidade
da
Cota,
em
muito
ri
|
»co
de
fe
perder
;
que
aquelle
Reyno
era
»de
feu
neto
,
que
ElRey
de
Portugal
lhe
»
tinha
concedido
,
e.o
alevantára
na
Cida-
»
de
de
Lisboa
por
herdeiro
delle,
e
que
o
»
Madune
lho
queria
tomar;
que
lhe
pedia
»0
foccorrefle
com
muita
gente
,
que
elle
daria
logo
dez
mil
cruzados
em
pimenta
»pera
a
carga
de
huma
não
de
Portugal,
»
que
entregaria
ao
Capitão
mór
que
lá
fof-
»fe;
e
que
daria
mais
de
pareas
cento
e
»
fincoenta
bares
de
canela
,
além
dos
tre.
»zentos
que
já
pagava
;
e
que
daria
logo
»
dez
alifantes
pera
o
ferviço
das
ribeiras
das
»
Armadas
de
ElRey
de
Portugal.
»
Ouvida
a
Embaixada,
poz
o
Governador
aquelias
coufas
em
confelho
dos
Capitães,
eFidalgos,
que
affentáram
todos:
»
Que
fe
“»devia
de
dar
foccorro
áquelle
Rey
,
tanto
»
porque
era
vaflallo
do
de
Pórtugal,
e
pe-
»los
partidos
que
oferecia,
quanto
por
ata=
»
lhar
que
o
Madune
fe
não
viefle
a
fazer
»
Senhor
daquella
Ilha
,
porque
daria
mui-
nto
grande
trabalho
ao
Eftado
,
e
Eis
»
de
152
ASIA
pE
Diogo
DE
Covro
»de
Portugal
perderia
os
proveitos
que
del:
»la
tinha.
Concluido
ifto
,
elegeo
o
Governador
pe.
ra
aquella
jornada
D.
Jorge
de
Caftro
feu
tio,
irmão
de
fua
mãi,
e
lhe
nomeou
feis.
centos
homens:,
em
que
entravam
muitos
Fi.
dalgos,
e
Cavalleiros
;
e
mandou
negociar
Os
navios
que
havia
de
levar,
pera
cujas
def:
pezas
deo
logo
o
Embaixador
os
dez
mil
cruzados
que
offereceo.
O
Governador
man-
dava
dar
prefla
á
Armada,
e
ás
nãos,
que
tudo
determinava
defpedir
entrada
de
Ja-
neiro.
|
Succedeo
nefte
tempo
andar
Jacome
Trif-
tão,
Capitão
de
huma
das
nãos,
fazendo
feu
negocio
na
rua
direita
hum
dia
pela
manhã,
e
eltando
bem
defcuidado
,
prepaílou
por
el-
le
hum
homem
em
trajos
de
efcravo
,
edeo-
lhe
com
huma
machadinha
pelo
rofto
ta-
manho
golpe,
que
lhe
derribou
ambos
os
queixos,
e
defcendo
ás
guelas
lhas
cortou,
cahindo
logo
morto
no
chão
;
e
o
que
lhe
deo
efcoou-fe
por
antre
a
gente
de
feição,
que
nunca
mais
appareceo.O
Governador
fen-
tio
muito
aquillo
,
e
mandou
tirar
grandes
inquirições
fobre
o
cafo;
mas
nunca
fe
achou
raito
de
confa
alguma.
Sufpeitou-fe
que
lhe
nafetra
aquillo
de
hum
Chriftovão
de
Caf
tro,
que
comelle
viera
na
náo,
com
quem
isve
humas
palavras
na
viagem.
Efte
hos
mem
Dec.
VL-Lrv.
VII
Cáp
IL
153
mem
na
volta
deítas
nãos
o
mandava
ElRey
levar
prezo
pera
o
Reyno,
de
que
elle
pa-
rece
folavilado,
e
fe
metteo
Frade.
Depois
no
anno
de
fincoenta
e
oito
,
indo
pera
o
Reyno
com
D.
Luiz
Fernandes
de
Vafcon-=
cellos,
(quando
fe
perdeo
na
Ilha
de
São
Lourenço,
como
em
feu
lugar
diremos,)
f-
cou
nando
com
outros
Frades,
porque
que-
|
rendo-os
D.
Luiz
Fernandes
de
Valconcel-
los
tomar
no
batel
,
não
fe
quizeram
fahir
da
não
por
ficarem
confeffando
,
e
confolan-
do
-os
que
ficavam
nella,
onde
todos
aca-
báram.
A
Capitania
defta
não
deo
o
Go-
vernador
a
João
de
Mendoça
o
Chú,
que
fe
foi
nella
pera
o
Reyno.
O
Governador
deo
preíla
à
carga
,
e
á
efcritura
do
Rey-
no;
e
até
dez
de
Janeiro
defpedio
as
nãos,
que
tiveram
tão
boa
viagem,
que
todas
che-
giram
a
falvamento
a
Lisboa
por
todo
o
mez
de
Julho
,
tendo
ElRey
defpedido
no
Março
paffado
a
D.
Affonfo
de
Noronha
por
Vifo-Rey
da
India,
como
logo
adian=
te
diremos,
CA-
154
ASIA
DE
Diogo
DE
Couto
CA
PETUDSO
y
De
outro
recado
que
o
Governador
Forge
Cabralteve
de
Ceilão
do
delrad
de
Cam
dea:
e
de
como
D.
Jorge
de
Caftro
par-
tio
pera
Ceilão
:
e
do
que
o
Governador
fez
em
Cochim
até
fe
recolher
:
e
o
que
aconteceo
a
Baftião
de
Sá
no
Malavar.
Eípedidas
as
nãos
,
ficou
o
Governa-
dor
dando
preíla
á
Armada
de
D.
Jor-
ge
pera
a
defpedir
logo;
e
tendo-a
já
pref.
tes,
lhe
chegáram
cartas
dos
Padres
de
São
Francifco,
que
eftavam
no
Reyno
de
Can-
dea,
em
que
lhe
pediam,
que
mandaffe
al-
guma
gente
em
favor
do
Principe
daquelle
Reyno,
porque
fe
queria
fazer
Chriftão.
E
porque
he
necefíario
darmos
particular
ra-
zão
das
coufas
deite
Principe
,
o
faremos,
Tinha
efte
Rey
de
Candea
hum
filho
legiti-
mo,
chamado
Caralea
Bandar
,
que
era
her-
deiro
do
Reyno.
Efte
Principe
teve
manei-
ra
com
que
fez
com
o
pai
que
foltaffe
os
Frades
de
S.
Francifco
,
(que
prendeo
,
quan
do
Antonio
Moniz
Barreto
foi
áquelle
Rey-
no,
como
atrás
temos
contado
no
Cap.
VIII.
do
IV.
Liv.
,)
que
tomou
tão
grande
amiza-
de
com
Fr.
Paícoal,
que
era
feu
Commif
fario
,
que
o
commetteo
o
Padre
pera
fer
Chriítão,
prégando-lhe
muitas
veze
das
e
|
fas
Dec:
VI
Liv.
VII.
Car.
IV.
199
fas
de
nofla
Fé,
a
que
fe
elle
hia
inclinan-
do,
eaffeiçoando
,
de
maneira
,
que
lhe
não
faltava
mais
que
receber
a
agua
do
fanto
Baptifmo.
Difto
foi
o
pai
avifado,
e
tratou
de
matar
o
filho,
e
de
dar
o
Reyno
a
ou-
tro
baftardo
que
tinha,
chamado
Comar
Sin-
ga
Adafana,
a
que
queria
muito
grande
bem.
Deltas
coufas
teve
o
Principe
atoardas,
ou
avifo
de
dentro
da
cafa
do
pai
;
e
queren-
do
fugir
á
fua
ira,
tomou
comfigo
os
Fra-
des,
e
fe
foi
pera
huma
ferra
do
Reyno
de
Huná,
e
com
muita
gente
que
ofeguio
,
fa-
zia
dalli
guerra
ao
pai,
De
todas
eftas
coufas
avifáram
os
Padres
ao
Governador
por
aquellas
cartas
que
lhe
mandáram
,
pedindo-lhe
que
mandaíle
foc-
correr
aquelle
Principe
contra
o
pai,
que.
lhe
queria
tomar
o
Reyno
,
e
dallo
a
ou-
to
,
porque
fe
queria
fazer
Chriflão.
Ito
eltimou
o
Governador
muito,
edeo
por
re-.
gimento
a
D.
Jorge
de
Caftro
,
que
tanto
que
acabafle
as
coufas
de
Ceitavaca,
paffaf-
fe
ao
Reyno
de
Candea,
e
caftigafle
aquel-
le
Rey
pela
traição
de
que
ufou
com
An-
tonio
Moniz
Barreto.
Eita
Armada
partio
na
entrada
deffe
Ja-
neiro
do
anno
de
1550,
em
que
com
o
fa-
vor
Divino
entramos;
e
a
nenhum
dos
Ca-
pitães,
e
peíToas
principaes,
que
nefta
jorna-
da
fe
acháram
,
foubemos
os
nomes
;
:
de
RE
ua
156
ASIA
DE
Droco
dé
Covo
fua
jornada
adiante
daremos
razão.
-
Partida
eita
Armada,
tratou
o
Governador
com
Elk
Rey
de
Cochim
fobre
as
coufas
que
cum-
priam
,
pera
fe
atalharem
as
pertenções
do
Rey-da
Pimenta,
e
Camorim,
É
porque
já
não
havia
outro
meio,
fenão
levar
o
nego
cio
por
guerra,
allentáram
como
fe
lhê
ha-
via
de
fazer,
encarregando
ao
Capitão
fa-
zer-lhe
por
mar
toda
a
que
pudefle
,
pera
o
que
lhe
deixou
navios,
e
gente
perá
an-
darem
por
aquelles
rios.
E
que
ElRey
de
Cochim
,
com
todos
os
feus
alliados
,
lha
fizelem
por
terra.
7
Aflentadas
eftas
coufas,
e
ordenadas,
fe
deípedio
o
Governador
de
ElRey;
e
a
Ci
dade,
efe
embarcou
pera
Goa,
deixando
de
Cochim
até
Panane-
Fernão
Rodrigues
de
Cafiello-branco
com
oito
navios,
e
pera
fe
recolher
a
invernar
a
Cochim;
e
Baítião
de
da
com
a
fua
Armada
na
cofta
,
onde
an-
dava
;
e
elle
chegou
a
Goa
no
fim
de
Ja-
neiro.
-
Si
ERação
Baítião
de
Sá
andou
pela
cofta
do:
Ma-
lavar
todo
o
reto
do
verão,
fazendo
ao
Ca-
morim
toda
a
guerra
que
pode,
dando-lhe
em
muitas
povoações,
e
tomando-lhe
mui-
tos
navios,
e
defendendo-lhe
os
mantimentos
de
feição,
que
poz
aquelle
Reyno
em
mui-
tas
neceflidades,
E
fendo
tempo
de
fe
reco-
lher
a
inyernar
a
Goa,
o
fez;,
paflando
E
|
da
Dre
cVisbigo
VIBE
Car
TV,
157
la
cofta
do
Canará
,
onde
recolheo
as
pa-
reas,
que
aquelles
Reys
coftumavam
a
pa-
gar.
Só
os
Chatins
da
Cidade
de
Barcelór
fe
refuláram
a
dar
fetecentos
fardos
que
lhes
pediam
;
dizendo:
»
Que
elles
não
tinham
pobrigação
alguma
que
os
obrigaflé
a
if
nlo,
nem
elles
eftavam
penhorados
a
elles,
»nem
por
pareas,.nem
por
contratos
de
pa-
»zes;
porque
fe
alguns
annos
os
pagáram
,
pfoi
porque
de
fuas
proprias
vontades
of:
pferecéram
ao
Governador
Martim
Affonfo
»de
Soufa
aquelles
fetecentos
fardos
de
ar=
»roz,
em
modo
de
ferviço,
e
não
de
obri=
»gação
;
que
quando
lhes
moftraffem
algu-
»ma
lua,
então
não
tinham
que
fazer.
»
Baf:
tão
de
Sá
lhes
mandou
dizer
:
»
Que
baf:
ptava
a
pole
em
que
ElRey
eitava
de
oi
»to
,
Ou
nove
annos
;
e
que
pois
elles
tos
»
dos
effes
annos
os
pagavam
aos
outros
Ca-
»pitães
móres
,
elle
fe
não
havia
de
levan=
»tar
de
fobre
aquelle
porto,
fem
os
levar.
»
Vendo
os
Chatins;,
e
Governadores
da
Ci-
dade
aquella
determinação
;
lhe
mandáram
0s
fetecentos
fardos
de
arroz
;
e
logo
def-
pediram
dous
Procuradores
,
homens
antre
elles
principaes,
chamados
Trametim
Cha-
im,
e
Drimy
Chatim,
pera
irem
tratar
a-
quelle
negocio
com
o
Governador.
Eites
homens
foram
a
Goa,
e
o
Gover-
nador-
Jorge
Cabral
os
ouvio
mui
bem
e
x
elo
158
ASIA
dE
Droco
pE
Covro
elles
em
nome
de
fua
Republica
lhe
diffe-
ram:
»
Que
os
Capitães
móres
do
Malavar
»
os
obrigavam
a
lhe
darem
fetecentos
far-
»
dos
de
arroz
cada
anno
,
não
tendo
elles
»
obrigação
alguma
pera
illo;
mas
Íómen-
»
te
porque
de
fuas
livres
vontades
os
de-
»
ram
,
e
offerecêram
ao
Governador
Mar-
»tim
Affonfo
de
Soufa
de
lerviço..
É
por-
»
que
elles
delejavam
de
ter
paz,
e
amiza
»
de
com
o
Eftado
da
India,
e
Ífeus
Gover-
»
nadores,
e
eftarem
debaixo
de
Íua
guarda,
»
ecamparo,
que
haviam
por
bem
os
Rege-
»
dores
daquella
Cidade
de
Barcelór
de
da-
»
rem,
e
pagarem
cada
anno
de
pareas
qui-
»
nhentos
fardos
de
arroz
pera
ajuda
das
At-
»
madas
,
e
que
os
pagariam
em
Outubro,
»
(que
era
o
tempo
em
que
a
novidade
fe
»
recolhia.
»)
O
Governador
vendo
fuas
ra-
zões
,
e
fabendo
da
cafa
dos
Contos
que
não
havia
obrigação
alguma
dos
ditos
far-
dos
de
arroz
,
lhes
acceitou
os
quinhentos
fardos,
de
que
os
Procuradores
daquella
Ci-
dade
lhe
fizeram
fuas
obrigações
,
e
o
Go-
vernador
lhes
paíflou
carta
de
vallallagem.,
em
que
fe
obrigava
elle,
e
todos
os
Govet-
nadores
da
India
a
favorecerem
os
morado-
“tes
daquella
Cidade,
e
que
lhes
não
feria
fei-
to
aggtavo,
nem
fem
razão
alguma;
e
que
lhes
dariam
feguros
,
e
cartazes
pera
luas
nãos,
e
navios
poderem
navegar
por
axa
à
|
|
|
|
|
Dec.
VI.
Liv.
VII.
Car.
V.
159
la
cofta
feguramente,
Com
ifto
fe
defpedíram
os
Procuradores
fatisfeitos
,
e
contentes,
e
corréram
dalli
por
diante
os
Regedores
da-
quella
Cidade
com
a
obrigação
deftas
pa-
reas
muito
bem,
fem
nunca
deixarem
de
as
pagar.
CAP:
AO:
MV
De
como
o
Governador
“Forge
Cabral
def.
pachou
D.
Alvaro
de
Noronha
pera
en-
trar
na
fortaleza
de
Ormuz:
e
da
Ar-
mada
que
mandou
emfua
companhia
,
de
que
foi
por
Capitão
mor
Luiz
Figueira
:
e
das
novas
que
a
Gon
vieram
de
galés:
e
de
como
o
Governador
mandou
CGonça-
lo
Vaz
de
Tavora
a
efpiallas:
e
da
Ar-
mada
que
mandou
a
Maluco,
de
que
foi
por
Capitão
mór
D.
Rodrigo
de
Menezes.
Hegado
o
Governador
a
Goa,
tratou
logo
de
defpachar
D.
Alvaro
de
No-
ronha,
filho
do
Vifo-Rey
D,
Garcia
de
No-
ronha,
pera
ir
entrar
na
Capitanía
de
Ormuz.
E
porque
andavam
humas
novas
furdas
de
gales,
fem
fe
faber
donde
vieram
,
ordenou
de
mandar
huma
Armada
ao
Elftteito
pera
ficar
invernando
em
Ormuz
pera
Íegurar
aquella
fortaleza,
E
mandou
negociar
dez
navios
de
remo
,
elegendo
pera
efa
jorna-
“da
Gil
Fernandes
de
Carvalho
»
irmão
de
Ruy
de
Soufa
de
Carvalho,
que
os
Mous
ros
16o
ASIA
pe
Diogo
DE
Covro
ros
matáram
em
“Tangere.
E
depois
de
lhe
ter
promettido
eita
Armada
,
defejou
de
a
dar
a
Luiz
Figueira,
filho
do
Elftribeiro
mór
do
Infante
D.
Luiz,
e
diziam,
que
pelo
ti
ar
de
Goa,
por
Hefncitos
que
fe
calão;
e
pera
ilfto
negou
a
Gil
Fernandes
de
Carva-
lho
coufas,
e
Provisões
que
lhe
pedia,
por-
que
elle
defgofta
Me
da
jornada,
como
fez,
enjeitando-a
ao
Governador,
que
era
o
que
elle
muito
defejava,
e
logo
a
deo
a
Luiz
Figueira
,
e
mandou
dar
prefla
a
Ífeu
avia-
mento.
Gil
Fernandes
de
Carvalho,
que
era
hum
Fidalgo
muito
pontual,
vendo
que
to-
davia
o
Governador
delconcertára
com
el-
le,
'e
dera
a
Armada
a
outro,
(porque
não
fabia
a
razão
que
naquelle
negocio
houve,
porque
fóellava
no
peito
do
Governador,
)
como
aquelle
negocio
era
de
galês
,
não
que-
rendo
que
difleffem
que
deixára
huma
jor-
nada
contra
Turcos
por
pontos
leves,
fre-
tou
hum
navio
de
remo,
e
ajuntou
quarens
ta
-Íoldados,
a
quem
pagou
de
Íua
caía,
e
fez
todos
os
mais
gaftos
pera
ir
em
com-
panhia
de
Luiz
Figueira
invernar
a
Ormuz.
O
Governador
defpachou
D.
Alvaro
de
Noronha,
elhe
deo
hum
galeão
com
mui
tas
munições
,
e
juntamente
com
elle
deb
pedio
Luiz
Figueira
com.
a
fua
Armada,
que-todos
deram
à
vela
em
Março
,
indo
em
tua
companhia
Gil
Fernandes
de
Re
|
lho,
Dec.
VI
Lav
Vil
Cap
V.
16%
lho,
e
em
poucos
dias
chegáram
a
Ormuz.
D.
Manoel
de
Lima
lhe
entregou
a
fortale-
za
por
ter
já
acabado
feu
tempo
;
e
Luiz
Figueira
andou
por
aquelle
Eftreito
de
Ba=
corá
o
relto
do
verão,
e
depois
fe
recolheo
a
Ormuz,
ficando
Gil
Fernandes
de
Carva-
lho
naquella
fortaleza,
dando
meza
a
todos
osfoldados
que
levou
á
fua
cufta,
fem
ques
rer
tomar
coufa
alguma
da
fazenda
de
Ela
Rey
pera
ifo.
che
pato
fiada
O
Governador
depois
de
defpachar
ef-
ta
Armada
pera
Ormuz
,
começou
a
nego-
ciar
outra
pera
Maluco
contra
os
Caftelha-
nos
,
porque
aílim
lho
mandava
ElRey,
e
elegeo
pera
efta
jornada
D.
Rodrigo
de
Mes
nezes
,
Fidalgo
de
muitas
partes.
E
dando
prefla
à
Armada,
a
fez
á
véla
na
entrada
de
Abril.
Hiam
finco
navios
groflos
,
de
que
eram
Capitães
D.
Rodrigo
de
Menezes
,
João:
de
Almeida,
e
hum
foão
Marecos
da
obri=
gação
do
Governador.
Os
outros
dous
Cas
pitães
eram,
D.
João
Coutinho,
e
Bernar-
do
de
Soufa
,
que
eram
provídos
das
via-
gens
de
Maluco
;
e
hiam
cada
hum
em
feu
galeão
pera
tornarem
com
a
carga
do
cra-
vo,
eambos
hiam
debaixo
da
Capitania
de
D.
Rodrigo
de
Menezes,
que
levava-Pro-
visões
de
Capitão
mór
de
todo
aquelle
Ar-
chipélago
de
Maluco.
Nefta
Armada
hiam
trezentos
homens,
muitas
munições,
roupas;
Conto.
Tom.
III,
P.il.
L
e
162
ASIA
pe
Droco
DE
CovTo
e
outros
provimentos;
e
de
lua
viagem
adi-
ante
daremos
razão.
Efqueceo-nos
dizer
como
o
Governa-
dor
pelas
novas
das
galés
de
que
já
fe
fal-
lava,
eltando
em
Cochim
,
deípedira
Gon-
calo
Vaz
de
Tavora
com
finco
navios,
com
regimento
que
fofle
ao
Eftreito
de
Meca,
e
tomaíle
falla
de
alguma
pefloa,
e
foubel-
fe
da
certeza
das
galés;
e
que
quando
fe
re
colheífe
pera
fe
vir
pera
Goa,
(onde
levava
por
regimento
tornaíle
a
invernar,
)
que
viels
fe
por
Caxém,
e
vilitafle
aquelle
Rey,
que
era
muito
amigo
do
Efiado,
a
quem
efcre-
veo
cartas
mui
honrofas,
e
que
foubefle
del
le
as
novas
que
havia
(porque
fempre
avi
fava
aos
Governadores
do
que
havia
no
Ef-
treito
de
Meca.)
Partido
efte
Capitão
na
entrada
de
Fe-
vereiro,
foi
feguindo
fua
derrota
até
ferrar
Monte
de
Felix;
e
dalli
foi
demandar
o
Ef-
treito,
e
entrou
dentro,
onde
tomou
algu-
mas
gelvas
com
alguns
Mouros
,
de
quem
foube
que
em
Suez
fe
faziam
preites
vinte
é
finco
galés,
mas
que
não
fabiam
pera
on-
de.
E
não
podendo
Gonçalo
Vaz
de
Tavo-
ra
alcançar
mais
,
fe
tornou
com
algumas
prezas
que
tomou
,
e
navegando
de
longo
da
cofta
da
Arabia
,
foi
tomar
o
porto
de
Caxém,
e
fe
vio
com
aquelle
Rey,
que
lhe
fez
muitos
gazalhados.
Elle
lhe
deo
as
car-
se
—-
tas
Dec
VI
Liv.
VHL
Car
V.
163
tas
do
Governador,
e
algumas
peças
,
e
brin-
cos,
que
por
elle
lhe
mandava,
que
elle
efli
mou
muito;
e
difle
a
Gonçalo
Vaz
de
T'as
vora:
»
Que
elle
era
avifado,
que
em
Suez
»
fe
preparavam
vinte
e
finco
galés
pera
con-=
ptra
Portuguezes
,
mas
que
fe
não
fabia
,
»
nem
declaravam
pera
onde,
nem
que
ten=
»ção
era
a
dos
Turcos;
mas
que
como
el-
»
le
fole
certo
da
verdade,
logo
avifaria
o.
»
Governador
em
Agolto;
»
e
deo-lhe
car-
tas
pera
elle
de
grandes
cumprimentos
pera
O
ferviço
de
ElRey
de
Portugal.
Gonçalo
Vaz
de
Tavora,
depois
de
fe
prover
do
ne-
ceflario,
que
lhe
ElRey
mandou
dar
de
gra-
ça,
fe
defpedio
delle,
e
deo
4
véla
pera.
*
Goa,
aonde
chegou
em
Maio.
O
Governa-
dor
fabendo
delle,
e
das
cartas
que
ElRey
de
Caxém
lhe
efcreveo
a
certeza
das
galés,
alyoroçou-fe
muito
,
porque
havia
que
fe
paflafiem
á
India
lhe
não
poderiam
efcapar
,
eaílim
fe
veítio
mui
galantemente,
por
mo
tar
a
alegria
que
tinha,
e
foi-fe
logo
á
ri=
beira
das
Armadas
,
e
deo
ordem
pera
fe
re-
formarem
,
e
renovarem
todos
os
galeõdes.,
nãos,
e
galés,
tomando
cada
vafilha
deftas
Os
feus
Capitães
á
fua
conta
com
os
feus
Of.
fíciaes
,
porque
todo
o
anno
os
tinham
or-
denados
,
e
pagos;
e
as
coufas
de
fóra
re-
partio
pelos
Capitães
velhos
por
efta
ma=
Teira,
se
s
Li
A
164
ASIÁ
pr
Dioco
dE
Covró
“A
Manoel
de
Soufa
de
Sepulveda
deo
o
cargo
dos
Armazens
das
munições,
pera
mandar
fazer
panellas
de
polvora,
lanças
de
fogo,
e
pelouros
de
toda
a
forte.
A
Dom
Antonio
de
Noronha
encarregou
a
cafa
da
polvora.
A
D.
João
Lobo
deo
o
cuidado
dos
calafates.
A
Francifco
de
Mello
Perei-
ra
entregou
a
tanoaria
,
pera
mandar
fazer
barris,
celhas,
pipas,
e
todas
as
mais
cou-
fas
defta
qualidade.
A
Baftião
de
Sá
deo
a
cordoaria.
A
João
de
Mendoça
deo
os
Of-
ficiaes
de
poleame.
À
D,
João
Henriques
a
ferraria.
Todos
eftes
Capitães
refidiam
de
“dia,
e
de
noite
nas
cafas
que
tinham
a
car-
go,
dando
muitos
banquetes
a
feus
Íolda-
dos,
com
muitas
folias
,
danças,
tangeres,
jogos,
e
outros
paflatempos
,
com
que
to-
dos
trabalhavam
com
muito
gofio
,
e
mui-
to
contentes
;
e
pelos
eferitos
deftes
Capi-
tães
dava
o
Feitor
,
e
Thefoureiro
todo
o
|
dinheiro
que
pediam
pera
fe
comprarem
as
coufas,
que
fe
haviam
miller,
e
pera
asfe-
rias,
e
pagas
dos
Officiaes
,
que
elles
faziam
todos
os
fabbados
;
e
todo
efte
inverno
fe
deram
mezas
geraes
aos
foldados
em
muita
abaftança.
O
Governador
eflaya
todo
o
dia
na
ribeira
vendo
aquelle
trafego
;
e
aquel-
la
prefteza
com
que
então
trabalhavão
,
é
acudiam.a
todas
as
coufas.,
porque
fó
do
ferviço,
e
obrigação
da
ribeira
havia
E
;
:
€
—
Deo
VE
Liv.
VHL
Gav:
V.
165
de
feiscentos
homens
Portuguezes
de
todos
os
oficios,
a
quem
nunca
fe
lhes
devia
cou-
da
alguma
,
porque
fe
lhes
pagavam
a
to-
dos
Ífuas
ferias
no
tempo
ordenado
mui
bem.
A
Cidade
toda
fe
desfazia
em
feflas,
e
ale-
grias,
e
aílim
andavam
todos
tão
defejofos
de
fe
verem
já
és
mãos
com
os
Turcos,
que
o
inverno
já
lhes
parecia
grande,
e
lhes
era
enfadonho
,
e
os
foldados
a
effa
conta
traziam
fuas
armas
limpas,
e
muito
bem
con-
certadas
,
e
aparelhadas.
E
todos
os
Domin-
gos;
aflim
elles,
como
os
bombardeiros
,
fe
hiam
exercitar
na
barreira
,
eftando
o
Go-
|
vernador
prefente,
favorecendo-os;
louvan-
do-os,
e
dando-lhes
preços
aos
que
melhor
o
faziam.
|
CAPETIULOSVE
Da
diffimulação
com
que
ElRey
de
Condea
mandou
pedir
a
D.
Forge
de
Caftro
Pa-
dres
pera
fe
fazer
Chriftão
:
e
de
coma
lhe
mandou
dous
,
e
com
elles
o
Capizão
Francez:
e
do
que
lhes
fuccedeo
na
via
“gem.
a
Artido
D.
Jorge
de
Caftro
de
Cochim,
como
atrás
dilicmos
no
Cap.
II.
defte
Liv.
VIII.
,
chegou
a
Columbo
no
fim
def-
temez
de
Janeiro,
e
defembarcando
fua
gen-
te,
começou
a
marchar
pera
Cota.
O
Ma-
du-
166
ASIA
pe
Droco
DE
CovTo
dune,
que
eftava
com
todo
feu
poder
fobre
aquella
Cidade,
em
lhe
dando
novas
que
a
noffa
Armada
era
chegada
a
Columbo
com
muita
gente
em
foccorro
do
irmão
,
alevan-
tou
o
campo,
e
fe
recolheo
pera
Ceitava-
ca,
deixando
as
tranqueiras
dos
caminhos
provídas
de
muita
gente
pera
defenderem
os
paflos
aos
noflos
,
fe
quizelfem
ir
a
Ceita-
vaca.
D.
Jorge
chegou
á
Cota,
e
foi
mui-
to
feftejado
daquelie
Rey;
e
logo
tratáram
de
irem
ambos
juntos
contra
o
Madune,
€
não
levarem
mão
daquelle
negocio
até
o
del-
truirem
de
todo
,
pera
não
dar
mais
traba-
lho
ao
Eftado
com
foccorros
,
e
Armadas
em
favor
de
feu
irmão,
que
era
vaflallo
de
ElRey
de
Portugal.
Pera
a
jornada
começou
ElRey
a
ajuntar
feu
poder
,
e
negociar
as
coufas
neceflarias
de
mantimentos
,
e
fervido-
res
pera
todo
o
exercito.
À
fama
da
Arma-
da
de
D.
Jorge
de
Caftro,
e
de
fua
chega-
da
a
Columbo,
correo
logo
por
toda
aquel-
la
Ilha.
O
Rey
de
Candea
como
eftava
culpado
no
negocio
de
Antonio
Moniz
Barreto,
co-
meçou
a
tremer
,
e
recear
que
o
quizeílem
caftigar
pelas
culpas
que
tinha
commettidas
;
e
como
era
homem
de
grande
artifício
,
€
malícia,
determinou
de
entreter
D.
Jorge
de
Caftro
,
e
enganallo,
até
ver
em
que
paras
yam
as
coufas
de
antre
o
Madune
,
e
feu.
ir
p
Dec.
VI.
Liv.
VII.
Cap.
VI.
167
irmão,
e
pera
ilto
defpedio
logo
Embaixas
dores
ao
vifitarem.
Eftes
Embaixadores
to-
máram
a
D.
Jorge
de
Caftro
ainda
na
Co-
ta,
fazendo-fe
preítes
pera
a
jornada
de
Cei-
tavaca.
D.
Jorge
de
Caftro
os
mandou
levar
diante
de
ElRey
,
onde
os
ouvio:,
e
elles
lhe
diferam
:
»
Que
ElRey
de
Candea
q
»
mandava
vifitar
,
e
offerecer-fe
pera
tudo
»o
que
foífe
de
ferviço
de
ElRey
de
Por-
»tugal.
Que
elle
lhe
fazia
a
faber,
que
nos
»
negocios
de
Antonio
Moniz
Barreto,
em
»
que
elle
não
negava
ter
culpa,
tinha
tam-
»
bem
fatisfações
baftantes
pera
fer
perdoa-
»
do.
Que
o
Madune
feu
primo
o
inquietá-
»
ra,
eremovéra
dos
defejos
que
tinha
de
fe
»
fazer
Chriftão
,
pondo-lhe
diante
dos
olhos
»
medos,
e
perdição
de
feu
Reyno,
e
ale-
»
vantamento
de
feus
vaflallos
,
com
a
mu=
»dança
da
lei;
e
que
do
cafo
paffado
el-
»
le
eilava
arrependido
,
porque
fempre
fo-
»ra
affeiçoado
à
Lei
dos
Chrillãos
,
como
»os
Frades
fempre
entendêram
nelle
;
que
»
elle
eftava
muito
refoluto
em
fe
fazer
Chri-
»
tão;
que
lhe
pedia
muito
lhe
mandaffe
al-
»
guns
Frades
pera
correrem
com
elle;
e
»
que
tambem
fe
queria
reconciliar
com
feu
»filho;
e
que
aílim
efperava
em
Deos
de
»pouco,
e
pouco
ir
movendo
os
feus
vaf-
Ȓallos,
pera
que
fe
fizefem
Chriflãos.
»
Ds
Jorge
de
Caitro
eltimou
muito
aquela
nes
cms
768
ASIA
pe
Droco
de
Covro
embaixada
,
e
ordenou
logo
de
fatisfazer
áquelle
Rey,
mandando
com
os
Embaixas
dores
dous
Frades
de
S.
Francifco
,
e
com
elles
o
Capitão
Francez
com
doze
foldados;,
e
lhes
deo
por
regimento,
que
foflem
por
via
de
Negumbo,
por
fe
defviarem
das
ter
ras
do
Madune,
Partidos
os
Embaixadores
com
os
nof-
tos,
foram
feguindo
feu
caminho,
não
dei
xando
de
terem
algumas
brigas
com
gen-
tes
do
Madune
,
em
que
os
noflos
corrê-
ram
muito
rifco
,
e
perigo
,
mas
livrou-os
Deos
de
todos
pelo
valor:
de
Ífeus
braços,
e
aílim
com
muito
trabalho
chegáram
a
Can-
dea.
ElRey
os
recebeo
muito
bem,
e
man-
dou
apofentar
os
Frades
na
mefma
Ermi-
da,
que
os
primeiros
fizeram
,
que
ela-
va
ainda
em
pé,
e
ao
Capitão
Francez
com
feus
foldados
perto
delles
,
mandando-lhes
dar
todas
as
coufas
necelfarias.
Os
Frades
Começáram
a
fazer
alguns
Chrillãos
,
e
en-
tendendo
em
ElRey
vontade
pera
iflo,
que
não
tinha,
porque
era
mão,
e
perverfo,
e
o
medo
O
fazia
contrafazer,
em
quanto
não
foubefle
o
que
lá
fe
paflafle
antre
D.
Jor
ge
de
Caftro
,
e
o
Madune
;
a
quem
elle
favorecia
em
fegredo
;
e
aíflim
trazia
tanto
refguardo”,
e
olho
no
Capitão
Francez;-
e
hos
Frades
,
que
os
não
deixava
fahir
de
hum
certo
limite,
trazendo
efpias
em
Cei-
gn
Iã-
Dec.
VI
Liv:
VIIL
Car.
VII
169
tavaca
,
pera
fer
cada
dia
avifado
de
tudo
o
que
lá
fe
paflava.
EsA
DP:
EU
BrO
VB:
|
De
como
ElRey
da
Cota,
e
D.
Jorge
de
Caftro
partiram
pera
Ceitavaca
:
e
dos
Sítios
dos
fortes
que
por
efe
caminho
“
acháram:
e
de
como
os
ganharam
,
e
des-
“
baratáram
o
Madune
,
e
lhe
tomáram
“a
Cidade
de
Ceitavaca.
7»
Epois
de
ElRey
da
Cota
ter
juntas
fuas
É
7
gentes,
e
negociadas
as
coufas
necelTa-
ras
pera
a
jornada,
começou
a
marchar;
indo
D.
Jorge
de
Caftro
na
dianteira
com
todos
os
Portuguezes
,
e
ElRey
com
finco
mil
homens
na
retaguarda.
Alim
caminhá-
ram
todo
aquelle
dia
até
chegarem
a
huma
tranqueira
muito
grande
,
fobre
hum
paffo
que
ficava
entre
o
rio
de
Matual
,
é
huma
alagôa
tamanha,
que
fe
affirma
ter
finco
le-
guas
em
roda
,
que
ellava
duas
leguas
do
porto
de
Columbo.
Nefta
parte
(
porque
não
havia
outro
paflo
pera
Ceitavaca
)
tinha
o
Madune
feito
elta
fortaleza
,
que
era
de
madeira,
de
duas
faces
,
com
entulhos
mui-
to
largos
,
e
ficava
da
banda
do
Norte
do
Ho;
e
na
face
que
cahia
pera
à
banda
da
Cota
tinha
o
panno
do
muro.
trinta
bra-
ças
de
comprido,
e
na
ponta
que
ficava
pe-
cises
ra
170
ASIA
pe
Drogo
DE
Covro
ra
a
parte
dorio,
eltava
hum
formofo
balus
arte
com
muitas
peças
de
artilheria:
Delte
baluarte
até
a
alagôa
corria
hum
muito
ef-
peflo
Bambual,
por
eípaço
de
meia
legua,
tão
intratavel,
que
nem
as
feras
o
podiam
“romper.
De
longo
a
longo
pela
face
de
fós
ra
deite
forte
fe
fazia
huma
formofa,
e
lar-
ga
cava,
que
fe
enchia
de
agua
da
alagõa,
que
fe
fervia
por
huma
ponte
levadiça.
Chegado
aqui
o
exercito,
allentáram
a-
quelle
dia
o
campo
affaftado
do
forte,
e
ti-
veram
confelho
fobre
o
modo
de
como
fe
commetteria;
e
allentou-fe,
que
foffe
pelos
cantos
do
muro,
pera
o
que
fe
fabricáram
grandes
pontes
de
madeira
fobre
rodas
,
e
algumas
mantas
fortes,
e
efcadas
,
em
que
fe
galtáram
dous,
ou
tres
dias.
E
tendo
tu-
do
preítes,
hum
dia
de
madrugada
com-
mettêram
a
fortaleza
os
noílos
por
huma
par-
te,
e
ElRey
pela
outra.
E
pondo
as
pon-
tes
em
que
pez
a
muitas
bombardadas,
e
ef-
pingardadas,
que
fobre
elles
choviam
,
en-
coltáram
as
efcadas
ao
muro,
e
fubindo
os
noíffos
por
ellas
,
o
cavalgáram
,
e
a'poder
de
golpes,
e
cutiladas
deram
comfigo
da
ban-
da
de
dentro
;,
onde
tiveram
huma
muito
grande
batalha
com
os
inimigos
,
em
que
houve
muitos
damnos,
emortes
de
parte
a
parte.
ElRey
da
Cota
com
a
fua
gente,
tam=
bem
depois
de
muitos
trances
,
entrou
a
trane
:
quei-
|
|
Dec.
VI
Liv.
VIII
Cap
VIL
171
queira,
com
que
os
inimigos
fe
acabáram
de
pôr
em
desbarato,
ea
largáram
de
todo,
mandando-lhe
D.
Jorge
de
Caftro
dar
logo
fogo
,
em
que
toda
fe
confumio.
Efte
dia
pafláram
naquella
parte
,
e
mandáram
(que
eram
muitos)
a
Cota
pera
fe
curarem.
A
outro
dia
foram
caminhando
até
che-
garem
á
outra
tranqueira,
chamada
a
Ma-
luana,
que
eftava
em
outro
paffo
da
mefma
traça,
e
modo
de
paílada.
E
commetten-
do-a
os
noflos
por
huma
parte,
e
ElRey
pe-
la
outra,
foientrada,
e
tomada,
ainda
que
com
muitos
rifcos,
e
mortes
dos
noílos,
e
-com
perda
de
mais
de
feiscentos
dos.
inimi-
g9s,
que
a
largáram.
A
outro
dia
foram
ter
a
outra
tranquei-
ra
,
duas
leguas
delta,
chamada
Grubabi-
lem
,
que
era
maior
,
e
mais
forte
que
as
outras,
por
fer
perto
da
Cidade
de
Ceita-
vaca.
O
panno
do
muro,
que
corria
na
fa-
Ce,
era
maior,
e
mais
groílo
que
os
das
ou-
tras
atrás.
Em
cada
ponta
tinha
dous
balu-
artes
mui
grandes,
e
pelo
muro
muitas
gua-
ritas
muito
bem
providas
de
gente
,
e
mu-
nições.
Da
parte
do
rio,
que
era
o
mefmo
Matual,
corria
hum
efpeflo
Bambual,
eda
outra
hum
muito
intratavel
mato.
Aqui
nef-
ta
tranqueira
eftava
o
poder
do
Madune
,
pofto
que
elle
eftava
na
Cidade.
Efta
tran-
queira
foi
commettida
com
muito
E
7
é
174
ASIA
pe
Droco
DE
Covro
determiriação,
e
houve
nelle
commettimens
to
múitos
calos
efpantofos
,
que
não
parti-
cularizamos
,
porque
não
fabemos
os
no-
mes
dos
que
os
obráram
;
mas
por
fim
do
negocio
,
ainda
que
foi
com
perda
dos
nof-
fos,
a
tranqueira
foi
ganhada,
e
nella
ficá-
ram
aquelle
dia
defcançando
do
trabalho,
e
curando
os
feridos,
que
eram
muitos.
Ao
outro
dia
foram
marchando
pera
Cei-
tavaca
,
que
eflava
duas
leguas
adiante
,
e
no
caminho
acháram
o
Madune
com
todo
o
poder.
E
vindos
a
batalha,
(que
foi
mui-
to
afpera
;
e
cruel
,
em
que
houve
muito
danino
,)
ficou
o
Madune
vencido
,
e
des-
baratado
,
e
foi
fugindo
pera
as
ferras
de
Dina
Vaca,
largando:
a
Cidade
em
mãos
dos
noílos,
que
entráram
nella
vitoriofos.
He
efta
Cidade
muito
grande,
e
eftá
fi-
tuada
antre
quatro
ferras,
e
elte
mefmo
rio
de
Matual
a
partia
pelo
meio,
(que
por
ou-
tro
nome
fe
chama
de
Calane,)
que
vem
dos
confins
do
Reyno
de
Candea.
Da
ban-
da
do
Sul
eftam
os
Paços:
de
ElRey
fobre
hum
tezo,
que
são
feitos
a
modo
de
huma
formofa
fortaleza
,
com
feus
muros
muito
groflos,
e
fortes,
e
fobe-fe
a
elles
por
vin-
te
degrãos
mui
largos,
e
grandes.
He
a
for-
taleza
quadrada,
e
emcada
quadra
tem
tres
portas
por
onde
fe
ferve
;
defta
banda
fica
ametade
da
Cidade
,
e
da
outra
do
Norte
]
Ol=
)
,
Deo
VI
Liv.
VHL
Car
VIL
173
outra
ametade:;
e
nefta
parte
tem
o
mais
foberbo,
e
fumptuofo
Pagode
,
que
ha
em
toda
aquella
Ilha,
que
he
dedicado
a
hum
Idolo
feu,
que
fe
chama
Paramifuta.
A
fa-
brica
defte
Pagode
he
eftranha,
e
affirma-fe
que
fe
poz
nella
perto
de
vinte
annos,
tra-.
balhando
de
continuo
nella
mais
de
dous
mil
obreiros.
.
Entrados
os
noífos
na
Cidade
,
apofen-
tou-fe
ElRey
nos
Paços
do
irmão
,
onde
achou
muitas
riquezas;
e
D.
Jorge
de
Caf-
tro
com
os
feus
foldados
naquella
parte
da
Cidade
,
que
foi
mettida
a
facco
dos
nof-
los,
e
acháram
muito
ouro,
drogas,
e
fa-
zendas
de
todas
as
fortes,
de
que
fe
enchê-
ram
bem.
Depois
fe
pafláram
á
outra
ban-
da,
e
fizeram
o
melmo
,
fem
tecarem
os
Pagodes
,
que
lho
mandou
afim
D.
Jorge
de
Caftro
por
amor
de
ElRey
da
Cota,
que
nelles
mandou:
pôr
guardas.
E
as
gentes
de
ElRey
foram
as
que
mais
roubáram
,
por-
gue
como
ladrões
de
cala
caváram
,
e
def.
enterráram
muitas
riquezas.
O
Madune,
que
etava
recolhido
nas
ferras
de
Dina
Vaca
á
vendo-fe
perdido,
e
desbaratado,
e
oirmão
|
fenhor
da
fua
Cidade,
quiz
ufar
de
feu
artif-
cio,
defpedindo
feus
Embaixadores
a
ElRey
feu
irmão,
ea
D,
Jorge
de
Caftro,
que
entrá-
ram
por
Ceitavaça,
e
foram
levados
a
ElRey,
que
os
ouvio,
prefente
D.
Jorge
de
caso:
174
ASIA
nE
Dioco
DE
Couro
Elles
lhe
difleram
:
»
Que
o
Madune
feu
»
irmão
lhe
mandava
pedir
mifericordia
,
e
»
que
bem
confeflava
que
tinha
muitas
cul-
»pas,
de
que
já
eftava
bem
caítigado
,
e
“»
arrependido.
Que
lhe
pedia
muito
fe
qui-
»
zefle
reconciliar
comelle,
que
eltava
preí-
»
tes
pera
lhe
dar
todas
as
fatisfações
necel-
»
farias.»
ElRey,
que
era
homem
de
mui-
to
bom
coração,
e
natureza,
(coufa
alheia
defta
nação
Chingalá
,
)
compadecido
das
mi-
ferias
do
irmão
,
parecendo-lhe
que
já
não
tentaria
contra
elle
mais
fuas
maldades,
dif
fe
a
D.
Jorge
de
Caftro
,
que
elle
queria
pazes
com
feu
irmão
,
fe
lhe
a
elle
parecef-
fe
bem.
D.
Jorge
de
Caítro
lhe
difle:
»
Que
»
fizefle
elle
naquella
materia
o
que
lhe
bem
»
vice,
e
o
que
fofle
melhor
pera
elle,
e
»
pera
quietação
do
feu
Reyno.
»
Com
io
deípedio
ElRey
os
Embaixadores
,
por
quem
mandou
dizer
a
feu
irmão:
»
Que
fe
viefle
»
pera
Ceitavaca
,
e
que
alli
fe
reconcilia-
»
riam
,
e
affentariam
as
pazes,
»
mandan-.
do-lhe
hum
feguro
feu,
e
outro
de
D.
Jor-
ge
de
Caflro.
O
Madune
foi
logo
acom-
panhado
de
alguns
Modeliares
mui
princi=
paes
;
e
chegando
a
Ceitavaca,
o
recebeo
o
ir-
mão
muito
bem
,
abraçando-o
com
muito
amor
,
e
boa
vontade,
(não
havendo
cou-
fa
alguma
diffo
no
Madune,)
e
prefente
Dom
Jorge
de
Caftro
fe
reconciliáram
,
e
Dec.
VI.
Liv.
VII.
Cap.
VII.
17%
fizeram
pazes,
com
as
condições
feguine
tes
:
»
Que
nunca
mais
elle
Madune
faria,
»
guerra
a
feu
irmão,
e
que
lhe
largaria
to-
»
das
as
terras
que
lhetinha
tomadas.
E
que
»daria
logo
a
D.
Jorge
de
Caftro
cem
mil
»
pagodes
pera
as
defpezas
daquella
Armas
»da,
pois
elle
fora
occafião
da
guerra.
E,
»
que
pera
a
jornada
de
Candea
daria
todos
»os
fervidores
,
e
mantimentos
neceflarios
»
por
dinheiro.
E
que
ElRey
da
Cota
fería
»
obrigado
a
lhe
dar
tres
mil
homens
pera
»
0
acompanharem
nella.
»
Feitos
eftes
contratos
,
ambos
os
Reys
firmáram
pazes
a
feu
modo
,
ficando
alli
mui-
to
amigos.
D.
Jorge
de
Caftro
fe
começou
a
fazer
preftes
pera
paflar
a
Candea,
como
lhe
era
mandado
;
e
fe
aquelle
Rey
fetive
fe
feito
Chriftão,
haveria
otrabalho
da
jor-
nada
por
bem
empregado
,
e
favorecello-
hia
contra
os
feus
fe
tentalem
alguma
no-
vidade,
e
tambem
o
reconciliaria
com
o
fi
lho;
e
quando
não,
caftigallo-hia
pelas
cul-
pas
paíladas.
E
começou
a
puxar
por
aquel-
les
Reys,
pelas
coufas
que
eram
obrigados
à
lhe
dar.
O
Madune
cumprio
logo
com
os
cem
mil
pagodes
que
devia,
com
o
que
D.
Jorge
de
Caftro
fez
duas
pagas
aos
fol-
dados,
e
aflim
lhe
deo
os
mantimentos,
€
fervidores
que
lhe
foram
neceflarios.
-
é
176
ASIA
pe
Didco:DE
Covrd
ElRey
da
Cota:
como
era
grande
amis
go
dos
Portuguezes,
pelas
muitas
obrigações;
que
lhes
tinha
;
entendendo
;
e:
conhecendo
a-malicia
do
Rey
de
Candea
;
esque
tudo
eram
invenções:
,
pelo
receio
com
que
efta-
va;
quiz
tirar
a
D,
Jorge
de
Caftro
daquel-
la
jornada,
pondo-lhe
diante
muitos
incon-
venientes,
e
afirmando-lhe:
»
Que
a
jorna-
»
da'era
muito
arrifcada
,
e
perigola
porcau-
»
fa
dos
paflos
dificultofos
que
tinha.
E
que
»
aquelle
Rey:
pofto
que
era
feu
primo
com
»
irmão
,
muitas
mais
obrigações:
tinha
aos
»
Portuguezes
que
a
elle:
que
lhe
afirmava,
»
que
não
tinha
por
feguro
o
fiar-fe
delle,
»e
porque
todas
as
vezes
que
vifle-tempo,
»
e
occafião,
lhe
havia
de
ordenar
todas
as:
»
traições
que
pudeífe.
»
D.
Jorge
de
Cafiro
lhe
agradeceo
aquelle
confelho
;
mas
como
eitava
amarrado
ao
regimento
do
Governa-
dor,
não
fe
quiz
mover
a
coufa
alguna
fó-
ra
delle,
e
lhe
pedio
a
gente
que
lhe
tinha
|
promettido,
que
lhe
elle
logo
deo.
-
>
E
depois
de
tudo
preltes,
fe
partio
nã
entrada
de
Abril,
defpedindo-fe
daquelles
Reys,
eo
da
Cota
fe
foi
juntaménte
pera
feu
Reyno.
D.
Jorge
foi
caminhando
por
fuas
jornadas,
de
que
o
Rey
de
Candea
era
avifado
todos
os
dias.
E
receando-fe
que
entrando
D.
Jorge
de
Caftro
no
feu
Reyno
com
aquelle
poder:o
prendefle
,
e
caftigaf-
sia
-
É
je
Dec.
VI.
Lives
VII
Car
VII
17%
fe,
não
querendo
ficar
à
fia
cortezia,
ajun-
tou
quarenta
mil
homens,
e
fortificou
a
fua
“Cidade,
com
tenção
de
lhe
defender
a
en-
trada,
trazendo
nelle
grandes
vigias.
E
hu-
ma
noite
teve
rebate
,
que
já
os
noflos
ef
tavam
huma
iegua
da
Cidade:,
e
acudindo
ElRey
com
aguelle
alvoroço,
com
toda
a
gente
pera
o
efperar
à
entrada
della
,
quiz
nollo
Senhor
que
tiveíle
o
Capitão
Fran-
cez
(que
eftava
como
reteudo
com
os
feus
foldados
)
tempo
pera
fugir,
e
com
a
efeu-
ridão
da
noite
foi
caminhando,
e
chegou
a
D.
Jorge
de.
Caftro,
eltando
com-o
exerci-
to
alentado
huma-legua
da
Cidade,
pera
ao
outro
dia
entrar
nella,
e
dando-lhe
rebate
do
modo
de
como
ElRey
o
efperava,
e
do
grande
poder
que-tinha
,-e
de
como:
tudo
foram
invenções,
ficou
D.
Jorge
fobrefalta-
do;
echamou
logo
os
Capitães
a
confelho,
€
perante,
todos
tornou
a
ouvir
o
Capitão
Francez.
Vendo
todos
aquillo
.,
votáram.,
»que
fe
deviam
tornar
logo
a
recolher,
por-
»que
eltavam
trinta
leguas-pelo
coração
da
“olha,
e
que
haviam
de
paflar
muitos
pafé
»fos
efreitos,
e
difficultofos.;
e
que
fe
a-
»quelle
Rey
os
fole
commetter,
não
tinham
»poder
pera
pelejarem
com
elle.»
Com
ef-
ta
refolução
alevantáram
logo
o-campo,,
e
voltáram
com
grande:
preíla',
mas:
com
mui-
to
boa
ordem.
ElRey
de
Candea
teve
pela
Conto.
Toma.
IH.
Pal.
M
ma-
178
ASIA
pe
Diroco
DE
Couro
manhã
recado
de
Ífua
retirada
,
e
fahindo
com
todo
feu
poder
os
foi
feguindo
por
def.
viados
caminhos,
e
adiantando-Ífe
os
efpe-
rou
em
huns
pallos
muito
eftreitos,
e
diff
cultofos
,
e
tomando-os
naquellas
eftreituras;,
em
que
os
nollos
fe
não
podiam
revolver,
os
foram
derribando”
ás
elpingardadas
,
e
fré-
chadas
fem
os
noflos
terem
repairo
algum;
nem
defensão.
D.
Jorge
de
Caftro
com
os
Fidalgos,
e
Capitães
ficáram
fem
poderem
governar
os
leus,
porque
como
todos
hiam.
a
fio
,
e
divididos,
e
muita
diftancia
huns
dos
outros;
não
lhes
podiam
valer
,
nem
elles
tinham
quem
o
fizefle-a
elles,
que
tam-
bem
hiam
no
mefmo
rifco,
e
todos
feridos:
Afim.
foram
pelejando
até
fabirem
das
tér-
ras
de
Candea;,
em
que
osdeixáram
,
fican-
do
fetecentos
homens
mortos
;“e
perdidos
por
efles
mutos',
em'
que
entravam
quatro-
centos-Portuguezes;
e
os
mais
Chriftãos
da
terra
,
e
gente
da
Cota,
e
todos
os
mais
que
elcapáram
feridos
de
muitas
feridas.
E
indo
caminhando
pelas
terras
do
Madune
;
lhe
fahio
hum
Modeliar
feu
com
quinhen-
tos
homens
«e
difle
a
D.
Jorge
de
Cafto;
que
o
Madune
lhe
pedia
que
fe
recolheffe
por
Ceitavaca,
que
o
elperava
pera
lhe
dar
todo
o
neceflario.
D.
Jorge
de
Caflro
mof-
trou
agradecer-lho
muito,
e'como
era
pru-
dente,
bem
entendeo
a
malicia
do
Madune,
fe
tii
EA
é
Dec-VIcL
ey,
VHL
GaroVH.
170
e
dile
ao
Modeliar
,
que
aflim
o
fara.
E
tanto
que
foi
noite,
que
fe
apofentou
em
hum
lugar
deíviado
.
do
.Modeliar
.,
depois
de
o
fegurar,
fe
levantou
,
etomou
o-cami-
nho
da
Cota
por
caminhos
defviados
de
Ceitavaca.,
ficando-lhe:
nas
eltancias
trinta
homens
mal
feridos,
e
que
não
podiam
ca-
minhar.
Ão
outro
dia
pela
manhã
fe
levan-
tou
o
Modeliar
,
e
achou
as
eftancias-va-
fias,
e
tomando
o
fato
que
achou,
e
os
fe-
ridos
,
fe
foi
pera
Ceitayvaca.
O
Madune
mandou
cortar
a
cabeça
a
todos
os
Portua
guezes,
dizendo-lhes;,
que
o
mefmo
houve-
ra
de
fazer
ao
Capitão
.,
e
a
todos.
Ifto-ie
foube
depois
de
hum
daqueles
,
que
teve
modo
com
que
fugio
,
e
fe
embrenhou,:e
dahi
a
alguns
dias
foi
ter
a
Cota:
D.
-Jote
ge
foi:
feu
caminho
muito
apreflado
,
e
en-
controu
ElRey
da
Cota
com
toda
a
fua
gen-
te,
que
o
vinha
bulcar,
porque
já
tinha
avi=
fo
da
defaventura
acontecida:,
e
adivinhada
delle.
D.
Jorge
de
Caitro
vendo
ElRey
fi
cou
deialivado
;
e
deo-lhe
grandes
agrade-.
cimentos
daquelle
foccorro
;-e
foi-fe
com
elle
até
à
Cota,
onde
ElRey
agazalhou-a.
todos
os
Portuguezes:,
e
os
curou,
e
deo
todo
O
necellario.
D.
Jorge
como
farou
fe
foi
pera
Columbo:;-e
na
entrada-de
Setembro
fe
paf-
lou
a
Cochim
,
onde
chegou
pouco:
antes
do
Governador
Jorge
Cabral;sus
-
“ss
as
DA.
di
CA-
x
180
ASIA
pe
Dioco
ne
Covro
AB
al
eba
da
o
IL
De
como
o
Rey
da
Pimenta
fe
tornou
pera
o
few
Reyno:
e
de
como
o
Capitão
de
Co
chim
o
foi
bufcar
a
Bardela:
e
da
gran-
de
batalha
que
lhe
deo
,
em
que
elle,
é
ElRey
de
Bardela
morréram.
Epois
que
o
Rey
da
Pimenta
fez
com
5
Z'o
Camorim
as
ceremonias
de
fuas
per-
filhações
,
fe
tornou
pera
o
feu
Reyno,
pou-
co
depois
do
Governador
partido
pera
Goa,
e
fe
metteo
em
Bardela
com
gente,
e
poder
pera
fe
defender
de
ElRey
de
Cochim,
e
pera
lhe
fazer
guerra,
como
começou
a
con-
tinuar
com
muitos
navios
por
aqueélles
rios
dentro.
ElRey
de
Cochim,
e
o
Capitão
da
Cidade
“tratáram
“de
tomar
aquelle
Rey
às
mãos,
é
de
o
deftrúirem
de
todo
;
pera
o
que
“ajuntáram
Íuas
gentes
,
e
foram
contra
elle,
ElRey
de
Cochim'portetra,
e
osnof
fos:
por
mar
em
muitas
embarcações.
Leva-
va“o
Capitão
Francifco
“da
Silva
perto
de
feiscentos
Portiguezes”,
em
que
entravam
os
da
Armada
de
Fernão
de
Soufa
de
Caflel-
lo-branco,
“que
já“eram
recolhidos
por
fer
ermifim
de«Abrilomsa
de:
ot
-—
Chegados
os
noflos
a
Bardela,
defem-
barcáram'
em
terra
;
fem
lho
ninguem
eflor-
var,
e
foram
aflentar
feu
exercito
em
him
Dec
Vl:
Liv
VIE
Casar
VEM;
LM
campo
muito
grande,
que
eftava
fóra
da
Ci-
dade,
em
que
o
Rey
de
Bardela
eftava
com
todo
o
feu
poder
,
com
as
coltas
na
Cida-
de.
Francifco
da
Silva
mandou
alguns
reca-
dos
a
ElRey
fobre
fe
tornar
a
confederar
com
ElRey
de
Cochim.
E
correo
ifto
de
feição,
que
pedio
ElRey
que
fe
vilem
fós
no
meio
do
campo
antre
ambos
os
excrci-
tos,
o
que
Francifco
da
Silva
acceitou
;
e
vindo
ambos
Ífós
à
falla,
lhe
tornou
Fran-
ciíco
da
Silva
a
pôr
diante
as
obrigações
que
tinha
a
ElRey
de
Cochim
,
e
perjuizo
que
era
pera
todos
aquelles
Reys,
ajuntar-
fe,
e
perfilhar-fe
com
o
Camorim;
porque
como
era
maior
em
poder
que
todos
,
elta-
ya
muito
certo
fazer-fe
fenhor
de
todos
a-
quelles
Reynos,
o
que
nunca
poderia
fazer
le
eltivellem
unidos
ao
de
Cochim.
Sobre
lto
lhe
deo
tantas
razões,
que
lhe
dife
EL-
Rey
,
»
que
faria
naquelle
negocio
tudo
o
»
que
quizefle.
»
Francilco
da
Silva
lhe
dife:
»
Que
fe
havia
de
entregar
nas
mãos
de
El-
»
Rey
de
Cochim,
que
era
feu
pai,
e
que
pelle
difporia
de
fuas
confas
como
bom
f-
»lho.»
A
ifto
refufou
ElRey
tanto,
que
dife:
»
Que
antes
perderia
a
vida,
e
o
Ef
»
tado
,
que
fazer
tal;
que
feelle
o
quizef-
»fe
levar
pera
Cochim,
e
tello
na
fortale-
»
za
em
refens,
em
quanto
feguralfe
as
cou-
nfas
da
paz
,
que
fe
iria
com
elle
;
e
que
»
tor-
182»
ASIA
pe
Dioco
DE
Covro:
»
tornaria
a
desfazer
as
perflhações
com
o
»
Camorim.»
Francifco
da
Silva
como
era
homem
de
pouco
confelho
,
e
governo,
ain-
da
que
grande
cavalleiro
,
amarrou-fe
a
fe
elle
entregar
a
ElRey
de
Cochim
,
fendo
bem
baftante
fatisfação
a
que
elle
de
fi
dava,
como
erá
entregar-fe
a
ale
;
e
depois
que
tivera
em
Ífeu
poder
,
o
tempo
puderá
cu-
rar
tudo,
e
tornáram-fe
aquelles
dous
Reys
a
unir,
e
a
aparentar.
E
vendo
que
Pran-
cifco
da
Silva
não
quéria
concluir
com
elle
naquelle
negocio,
defpedio-fe
delle,
dizen-
do-lhe:
»
Que
pois
não
acceitava
o
que
lhe
»oferecia,
que
elle
trabalharia
tudo
o
que
“»pudeffe
por
defender
fua
cala.»
E
reco-
lhido
a
feu
exercito,
achou
mais
dous
mil
Nayres,
que
lhe
chegáram
de
refrefco,
com
que
ficou
tão
foberbo
,
que
fez
final
de
ba-
talha.
Francifco
da
Silva
fe
poz
tambem
em
campo,
ecomeçáram
a
travar
huns
com
os.
outros,
e
da
primeira
ferriada
lhe
derribou
a
nofla
eipingardaria
huma
fomma
de
Nay-
res,
e
antre
elles
quiz
Decos
que
delle
hu-
ma
elpingardada
no
Rey
da
Pimenta,
cóm
o
que
fe
foi
recolhendo
pera
a
Cidade,
E
como
hia
ferido
de
morte,
à
porta
de
feus
Paços
cahio
morto,
fem
o
faberem-os
que
ficavam
no
campo
em
batalha
muito
trava-
da,
e
cruel,
em
que
houve
muito
damno
de
parte
a
parte.
ade
As
Dre.
VI'Live
VII
Caro
VII
183
“As
novas
da
morte;
de,
ElR
ey.
começá-
ram
logo-a-correr,
como.que
os
Ífeus
fe
recolhêram
pera
a
Cidade
desbaratados.
Fran-
cilco.da
Silva
foi
feguindo
a
vitoria,
e
en-
trou
na
Cidade
até
chegar-aos
-Paços
de
El-
Rey,
aque
mandou
pór
fogo.
Os
inimigos
tanto
que
viram
as
labaredas.
nas
cafas
do
feu
Rey
,
tornáram
a
voltar
fobre
os
noflos
com
tamanho
impeto
,
que
começáram
a
der-
ribar
nelles
;-e
a:
mór.
parte,
fe
começou
a
recolher
com.
grande
defarranjo:,
ficando
Francifco
da
Silva
com
perto
de.
cento
e
fin-
coenta
homens
de
opinião;
que
o
não
qui-
zeram
deixar.
Alguns
cafados.
de
Cochim,
quelabiam
muito
bem
os
coftumes:
dos
Naye-
res,
difleram
ao
Capitão,
que
fe
recolhefle,
e
fe
contentafle
com:
a
vitoria
»
porque
an
tre
os
Malavares
a
maior
aronta.de
todas
era
queimarem.
as
cafas
do:
Rey..
Com
ilto
fe
foi
fahindo
pera-o
campos
pelejando
fem-
pre
com.
osinimigos
,
fem
laber
ainda
da
morte
do
Rey.:
Os
inimigos
foram,
crefcen-
do;
e
carregando
fobre
os
noflos.de
feição,
que
fe
víram
perdidos;
e
ainda
quiz
a
del
aventura,
pera
maior
perdição,
que
naquelle
mefmo-
tempo
defcarregaTe
;
e
fe
deshzelle
em
agua
huma:
medonha
trovoada.,
que
já
eltava
armada,
que-era
a
primeira
do
invet-
no
,-e
foi
a
agua-tanta.,
que
afíogava
os
noflos;
e
impedio
a
efpingardatia
com
gue
-
não
134
ASIA'DE
Droco
DE
Couro.
não
pode
laborar.
Os
inimigos
entendendo
o
negocio,
e
vendo
ceflar
a
efpingardaria
;
que
era
o
que
os
mais
aflombrava,
cobran-
do
animo
carregaram
fobre
os
noflos,
ecom
feus
arcos,
que
a
chuva
não:
impedia,
fo-
ram
encravando
,
e
derribando
bem
à
fua
vontade.
Os
noflos
vendo-fe
perdidos
virá-
ram
as
coftas,
e
foram-fe
recolhendo
pera
a
praia,
onde
eltavam
os
riavios,
a
que-fe
lançavam
a
nado.
Franciftoda
Silva
,
que
era
grande
cavalleiro,
acompanhado
de
al:
guns
Fidalgos;
e
Cavalleiros
(que
nunca
o
deixaram)
não
quiz
virar
as'coflas,
e
foi
Jempre
pelejando
com
os
inimigos,
como
rofto
nelles.,
moftrando
bem
feú
valor,
ces-
forço
;
mas
como
os
inimigos
eram
muitos;
e
eflavam
no
campo
largo
;
cercáram
osnof-
los;
e
apertáram
com
elles
de
feição,
que
derribáram
D.
Pedro
de
Soufa,
Fernão
“de
Soula
de
Caftello-branco
',
Fernão
Rodri-
gues
de
Mariz,
Antonio
Machado
de
Gou-
vea;
e
outros
Fidalgos,
e
Cavalleiros;,
to-
dos
de
feridas
mortaes.
7
Francilco
da
Silva
vendo
aquelle
eftra-
go
,
difle
pera
os
que
ainda
o
acompanha-
vam
:
»
Que
fe
recolheffem
,
porque
elle
fe
»
não
queria
falvar
onde
via'
perder
tantos;
»
e
tão
esforçados
Fidalgos;,
e
Cavyalleiros.
»
E
com
efta
furia:
remetteo
com
os
inimigos
como
hum
touro
feroz
,
e
mettendo-fe
em
meio
Due
V
E
ivo
NVIIÉICA
po
V
E
Pos
meio
delles,
fez
confas
que
efpantou
a
tos
dos.
Mas
como
elle
era
fó,
e
os
inimigos
tantos,
e
as
forças
lhe
cançáram,
cahio
ataf-
falhado
de
crueliflimas
feridas.
Os
inimigos
vendo-o
cahir
,
remettêram
a
elle
pera
o
defarmarem
,
fobre
o
que
houve
tamanha
re
ferta,
(
por
quererem
todos
levar
delle
feu
pedaço,
)
que
fe
defcuidáram
dos
noflos
;
é
os
feridos,
que
já
atrás
nomeámos,
tiveram
tempo
pera
ajudados
dos
outros
fe
recolhe-
rem
á
praia,
onde
fobre
a
embarcação
ha-
via
tamanho
defarranjo
,
que
andava
o-rio
coalhado
de
homens
a
nado,
e
afim
fe
re-
colhêram
com
trabalho
aos
navios:
Fernão
de
Soufa
de
Caftello-branco
com
muitas
fe-
ndas,
e
com
huma
efpingardada
por
huma
perna,
de
que
fempre
foi
manco:
D.
Pedro
de
Soufa
outra,
de
que
não
perigou,
e
to-
dos
os
mais
com
tantas
feridas,
que
Fernão
Rodrigues
de
Mariz
levava
quatorze;
e
fe-
não
fora
a
morte
de
Francifeo
da
Silva,
cu-
jos
defpojos
embaraçáram
os
inimigos,
ne-
nhum
efcapava.
Recolhidos
todos
,
foram-fe
pera
Cochim,
€
fuccedeo
na
Capitanía
Henrique
de
Soufa
Chichorro.
Ao
outro
dia
mandou
bufcar
o
corpo
de
Francifco
da
Silva,
ao
que
foram
alguns
navios,
e
gente,
e
ao
longo
da
praia
O
acháram,
e
a
dezefete
Portuguezes
mais,
nús
todos,
com
feridas
mortaliflimas;
e
re-
co-
186
ASTA
pe
Dioco
DE
Covro
colhidos
todos
,
fe
tornáram
pera
Cochim,
e
lhes
deram
mui
honrofas
fepulturas.
|
Desbaratados
os
nolfos
.,
fe
recolhêram
Os
inimigos:
pera
a
fua
Cidade.,
e
fizeram
as
exequias
ao
Ífeu
Rey,
conforme
ao
feu
mo-
do,
e
coftume,
com
muita
pompa.
E
de-
pois
de
feitas,
todos
os
de
[ua
cafa,
e
que
tinham
delle
tenças
,
e
comedias
,
que
feriam
perto
de
quatro
mil
Nayres,
fobre
a
mef-
ma
cova
fe
fizeram
Amoucos,
com
fuas
ce-
remonias
,
rapando.
as
barbas
de
huma
ilhat-
ga,
(que
he
o
final
pera
ferem
conhecidos,
)
e
juráram
em
feus
Pagodes
de
morrerem
to-
dos
em
vingança
da
morte
do
feu
Rey.
Fei-
to
ilto,
logo
fe
ajuntáram
quinhentos
osde
mais
obrigação
,
e
foram
dar
na
Ilha
de
Atú,
que
he
de
ElRey
de
Cochim.
e
a
puzeram
a
fogos-e
a
ferro.
Dalli
paíláram
a
Cochim
de
fima,
e
entráram
huma
madrugada
pela
Cidade
,
em
que
fizeram
grandes
damnos,
e
cruezas
,
matando,
e
efpedaçando
muita
gente.
ElRey
com
os
da
fua
cala,
e
todos
os
mais
que
puderam
,
fe
recolhêram
pera
a
noífa
Cidade,
que
fe
metteo
em
revolta,
porque
chegáram
os
Amoúcos
até
os-atra-
baldes.
O.
Capitão
Henrique
de
Soufa
Chi-
chorro,
ajuntando
todos
os
moradores,
fa-
hio
a
bufcar
os
-Amoucos.,
e
foi
apôs
elles
até
Cochim
de
fima,
e
os
achou
pelejando
na
Judiaria
com
os
Judeos,
que
fe
ais
de-
eu-
Dee
VI
Lrv.
VHL
Car
IX.
19%
fendiam
mui
bem.
Os
noflos
deram
nelles,
e
osmettêéram
todos
a
efpada
fem
lhes
efca-
par
hum
fó.
Feito
ifto,
deixou
o
Capitão
nas
cafas
de
ElR
ey
Antonio
de
Sa
Pinheiro
com
trinta
foldados
pera
fua
guarda,
e
elle
fe
re-
colheo
pera
a
Cidade,
e
fortificou
as
entra-
das
das
ruas,
porque
feelperava
pelos
mais
Amoucos
,
tendo
fempre
no
campo
grandes
vigias,
e
atalaias.
ei
GAS
PASTO
SI
De
como
o
Camorim
pafiou
ao
Reyuo
da
Pz-
menta
pera
tomar
pofje
delle
,
por
lhe
per-
tencer
pela
perfilbação
:
e
de
como
Fer-
não
Rodrigues
de
Mariz
partio
pera
Goa
no
mez
de
Junho
com
novas
das
galés
:
e
da
efpantola
viagem
que
fez.
:
Anto
que
o
Camorim
teve
novas-da-mor-
A
te
de
ElRey
da
Pimenta
,
com
quem
eltava
perfilhado
,
logo
determinou
de
ir
to-
mar
poíle
daquelle
Reyno,
como
herdeiro
delle,
e
começou
a
ajuntar
feu
poder
com
muita
prefla.
Dilto
foi
logo
avifado
ElRey
de
Cochim,
que
mandou
rebate
a
Henrique
de
Soula
Chichorro,
que
vendo
a
importan-
cia
do
negocio
;
mandou
com
muita
preíla
armar
perto
de
quinze
navios
,
catures,
man-
chuas,
e
tones,
em
que
vam
cento
e
fincoen-
ta
homens,
e
por
Capitão
mór
de
todos
ele.
geo
188
ASIA
pe
Droco
DE
Coviro
geo
feu
cunhado
Antonio
Correa,
irmão
de:
fua
mulher,
cavalleiro
mui
honrado,
e
an-.
tigo
no
ferviço
de
ElRey
,
e
lhe
deo
por
regimento
,
que
foffe
pelos
rios
dentro
met-
ter
em
Chor
a
Manchora.
(He
efta
huma
alagôa,
que
fica
nas
coftas
da
Cidade
de
Pa-
nane,
que
he
tão
grande,
que
afirmam
os
naturaes
que
tem
vinte
leguas
em
roda,
é
Della
entram
todos
aguelles
rios
»
que:
vão
fahir
ao
mar,
que
deftem
da
ferra,
e
por
elles
podem
entrar
navios
de
remo
até
fe
metterem
nella.
No
verão
fe
fécca
toda,
fi
cando
no
meio
della
fempre
hum
braço
do
Ho,
em
que
nadão
catures;
etodos
os
cam-
pos
à
roda
fe
femeão
de
arroz
»
de
que
fe
colhe
huma
grande
quantidade.
)
E
porque
forçado
o
Camorim
havia
de
paffar
hum
da-
quelles
rios
pera
eftoutra
banda
de
longo
da
alagõa
,
mandou
o
Capitão
a
feu
cunhado
que
le
mettefte
nella,
e
lhe
defendeffe
o
paflo.
Partidos
eftes
navios
pelos
rios
de
Co-
chim
dentro,
foram
entrar
na
alagõa
,
on-
de
fe
deixáram
eftar
com
grande
vigia.
João
Pereira,
Capitão
de
Cranganor
,
com
a
gen-
te
de
fua
obrigação
,
e
ElRey
de
Cochim;
tambem
fe
foi
pôr
em
outros
paflos
,
por-
“que
tivefle
o
Camorim
tudo
impedido.
Elle
tanto
que
teve
a
fua
gente
junta
,
começou
a
marchar,
e
chegando
aos
eftreitos
por
on-
«de
havia
de
paflar,
achou
todos
po
os
Dec.
VI
Liv.
VIIL
Cap.
IX.
189
dos
noflos
navios.
Antonio
Correa
tanto
que
vio
a
gente
do
Camorim,
começou-os
a
va=
rejar
com
a
artilheria
de
feição,
que
lhe
fe-
tio
,
e
derribou
muitos
;
e
os
inimigos
da
outra
banda
fe
puzeram
tambem
com
os
nof-
tos
às
efpingardadas
todos
os
dias,
e
noites;
que
foram
muitos
,
em
que
houve
damno
ambas
as
partes,
As
munições
dos
noflos
fe
gaftáram
todas;
mas
João
Pereira
os
pro-
veo
de
tudo
6
neceílario
,
por
hum
paílo
que
fe
chama
de
Matepirão
,
que
he
o
mais
fecco
de
todos.-
€
Dito
foi
avifado
o
Camorim,
e
mandou
hum
groffo
poder
a
tomar
aquele
paflo
pe-
ra
impedir
os
provimentos
aos
noflos
ra-
“vios,
João
Pereira,
Capitão
de
Cranganor,
-
tanto
que
teve
rebate
daquelle
negocio,
fe
paflou
ao
paflo
com
todo
o
poder,
donde
le
poz
á
bataria
com
agente
do
Camorim,
com
quem
teve
algumas
efcaramuças
;
em
que
os
noílos
fizeram
coufas
muito
notaveis
;
gue
por:
ferem
muitas
;
e
miudas
as
deixa
mos
,
porque
não
foffre
a
hiltoria
tanto:
E,
todavia
de
tal
maneira
lhe
defendêram
os
noflos
os
paílos,
que
defconfiado
o
Camo-
nim,
fe
carteou
com
ElRey
de
Diamper,
que
era
do
feu
bando
;
pera
que
lhe
déffe
palagem
por
feu
Reyno
pera
o
da
Pimen-
ta,
Dito
foi
tambem
avifado
Antonio
Cor-
Tea;
e
mandou-lhe
tomar
o
paílo
de
Malu-
tur,
192
ASIA
DE
Droco
DE
Covro
tur,
que
he
pelo
pé:
da
ferra,
por
onde
elle
pertendia
paílar;
mas
como.
o
rio
alii
de
maré
vafia
não
deixava
agua
pera
os
navios
nadarem
,
foi=lhes
neceffario
affaftarem-fe
por
não
ficarem
em
fecco.
Com
ilto
teve
o
Ca-
morim
tempo
pera
paflar
á
outra
banda,
o
que
ainda
não
pode
fazer
fenão
em
trajos
de
Jogue,
que
foi
a
coufa
mais
vituperada
pera
elle,
que
todas
as
da
vida.
É
ajuntan-
do-fe
com
ElRey
de
Diamper,
e
com
ou-
tros:
do
feu
bando
,
paffou
ao
Reyno
da
Pi-
menta,
e
tomou
poffe
delle,
perfilhando
o
Principe
Íobrinho
do
morto
em
Principe
herdeiro,
como
tinha
feito
em
vida
de
feu
to.
so
O
Capitão
de
Cochim,
tanto
que
foube
fer
o
Camorim
paflado
,
armou
todos
os
na-
vios:
que
pode
,
e
mandou
recolher
Antonio
Correa
(eu
cunhado
,
e
lhe
deo
mais
navios,
e
gente,
com
que
andou
pelos
rios
de
Bar-
dela,
e
Diamper
dentro
,
fazendo
toda
a
guerra
que
pode:,
dando-lhes
em
muitos
lu-
garesque
lhes
abrazou,
e
queimou.
O
Ca-
pitão
de
Cochim'ajuntando
todos
os
cala-
dos;
e
toda
à
mais
gente
que
havia
em
Co-
chim.,
foi
dar
na
Tlha
de
Parebalão,
que
era
do:
Rey
da
Pimenta,
e
a
deftruio
de
todo,
matando-lhe
muita
gente.
E
defejando
de
dar
em
'Bardela”,
mandon
folicitar
os
Reys
de
Porca;
e
de
Palur;
eo
Mangate
Caimal,
e
E
o
Dec:
VIE
tyoVHL.-CAdI
PR
19F
o
Mangate
Cafta
de
Lua,
e
outros
Senho-
res,
e
Caimais,
(que
fempre
foram
do
ban-
do
de
ElRey
de
Cochim
,)
pera-fe
ajunta-
rem
com
elle;
e
não
fó
fe
efeufáram,
mas
ajudáram
o
Camorim
,
porque
eflavam
efé
candalizados
do
Governador
Martim
Affon-
fo
de
Soula
lhes
tirar
as
tenças-,
que
lhes
ElRey
de
Portugal
mandou
dar,
pelos
mui-
tos
Íerviços
que
todos
lhe
fizeram
nas
guer=
tas
contra
o
Camorim,
quando
fe'quiz
ir
coroar
a
Repelim;,
(
como
na
quinta
Deca-
dano
Cap.
1.
do
I.
Liv.
fica
dito
,)
por
on-
de
fe
verá
quanto
em
prejuizo
da
Fazenda
de
ElRey,
e
do
Eftado
da
India
são
algu-
mas
crecenfas,
que-certos
Governadores,
e
Vifo-Reys
querem
fazer
4
Fazenda
de
El-
Rey,
fó
pera:
tirarem
Certidões
de
ferviços,
podendo-fe
chamar
mais
deferviços
;
e
def
truição
de
fua
Fazenda
,
que:
o
nome
que
lhe
elles
querem
pôr; porque
defla:
pougui-
dade
que
eftes
tinham
de
tençã,
que
fe
lhes
tirou,
com
que
os
tinham
feguros
no
feryi-
co
de
ElRey
de
Portugal,
nafceo
paffarem-
fe
à
parte
do
Camorim
em
damno
do
Ef
tado
;
e
não
acudir
pimenta
pera
as
nãos
-
em
que
ElRey
recebeo
muitos
annos
huma
mui
notavel
perda,
e
fazerem-fe
muitas
def-
Pezas
em
grandes
Armadas
pera
andarem
pelos
rios
de
Cochim,
fazendo
vir
'a
pimen-
la
não
fó
comprada
a
mais
dinheiro
,
mas
ain-
192
ASIA
DE
Dioco
dE
Covró
ainda
á
culta
de
muito
fangue
de
vaflallos
Portuguezes.
E
tornando
à
nofla
ordem,
a
guerra
fi
cou
dyrando
todo
o
inverno
com
muitos
tra-
balhos;
gaítos,
e
deípezas
,
com
que
tam»
bem
osinimigos
ficáram
bem
quebrantados,
Nefte
tempo,
que
era
em
Junho
,
efereveo
o
Capitão
de
Chalé
huma
carta
ao
de
Co-
chim
;
em-que
lhe
dizia,
»
que
chegára
hu-
»ma
não
a
Capocate
em
Maio,
que
viera
»
de
Meca,
e
dava
por
novas
certas
,
que
»
ficava
em
Suez
huma
Armada
de
galés
pol-
»
ta
já
no
mar
pera:
paflar
à
India,
e
que
»elle
tinha
mandado
tres
,
ou
quatro
Pata-
»
mares
por
terra
com
recado
ao
Governa-
»
dor,
e
que
todos
lhe
tomáram
a
gente
do
»
Camorim;
que
lhe'
pedia,
vilta
a
impor-
»
tancia
do
negocio:
;
trabalhafle
por
avifar
»
ao
Governador
por
todas
as
vias
que
pu-
“»
deffe,
»
|
Vendo.
Henrique
de
-Soufa
Chichorro
quanto
aquillo
importava
;
e-que
não
havia
ainda
o
caminho
pelasterrás
do
Pande
(
que
são
pera
fíma
da
ferra)
defeuberto:,
como
depois
fe
defcubrio
,
quiz-arrifear
hum
na-
-
vio
pormar,
(polto
que
era
começo
do
in-
verno
,)que
começou
logó
a
negociar:
com
muita
prefla.
Pera
efta
jornada
fe
offereceo
Fernão
Rodrigues
de
Matriz,
que
fe-nego-
-ciou,
e
atres;
dias
do
mez
de
Junho
deo
à
2
vês
Déo
Vi-Lrv.
VII
Cap.
IX.
193
véla
,
levando
comíigo
fete
companheiros.
E
navegando
com
mares
muito
groflos,
ala-
gados
,
e
deftroçados.,
foram:
tomar
Chalé,
onde
fe
reformáram:
de
todo:
o
neceffario
;
e
dando-lhe
otempo
hum
pequeno
jazigo,
tornou:
a
feu
caminho,
com
mares
tão
grof-
los,
e
foberbos
,
que
os
comiam,
e
afim
foram
ferrar
a
babia
de
Cananor
com
man-.
timentos
podres,
e
perdidos.
Alli
fe
refize-
rm
de
outros
,
e
tornáram
à
Íua
jornada,
E
indo
de
monte
Deli
pera
diante
lhe
cur-
Jou
o-tempo
de
feição,
que
fe
viram
per-:
didos;
e
o
que
peior
foi,
que
era
o
vento
traveisão
,.
que
os
não
deixava
navegar.
E
por
não
darem
à
colta,
furgíram
tanto
á
van-
te
como
o
rio
de:
Mangefirão
,
onde
eftive-
tam
com
infinito
trabalho
já
defconfiados
das
vidas.
Os
mares
crefciam
tanto,
etão
apref-
lados,
que
fe
affirma
lhe
deram
oito
jun-
tos;
com
que
o
navio
fe
virou
;
eos
Por-
tuguezes
tiveram
tanto
acordo
,
que
cortá-:
tam
a
amarra,
e
afferrados
todos
no
navio;
camarrados
a
cordas,
e
afim
meímo
os
ma-
tinheiros.,
permittio
Deos
que.
os
meímos
mares
foflem
encaminhando
o
navio
até-o
embocar
pelo
rio
de
Mangefirão
dentro
;
«e
tanto
que
o
maito,
que
hia
direito
pera
bai-
Xo,
tocou
no
fundo,
com
aforça
da
pane
cada
faltou
o
navio
pera
fima.,
e
tornou-a:
ficar
virado,
e
os
Portuguezes
encapellados;,
Conto.
Tom.
III.
P.il.
N
2
194
ASIA
pe
Diogo
dE
Covro
e
à
nado
torniram
«a
ferraro
navio
,
fem
perigar
algum
delles
,
e
aílim
chegáram
á
povoação
cem
o
navio
deftroçado
,
e
desba-
ratado.
Os
naturaes
defte
rio
eltavam
de
paz
com
o
Eltado”,
mas
andavam
travados
em
guerra
buts
vizinhos
com
outros
;
e"os
da
terra
agazalháram
os
nofos,
e
lhes
deram
por
leu
dinheiro
tudo
o
de
que
tiveram
ne-
ceflidade
pera
o
concerto
do
navio.
Só
man-
timentos
não
acháram
,
porque
por
caufa
da
guerra
eftava
tudo
perdido,
e
por
gran-
de
aderencia
lhes
deram
dous
fardos
de
ar-
roz
por
fincoenta
pagodes,
e
com
elles,
e
algum
peixe
tornáram
a
fua
viagem,
e
ala-
gados
muitas“vezes,
e
com
immenfos
tra
Dalhos,
e
perigos
foram
ferrar
Goa
a
velha
pelo
8.
João;
e
por
dentro
dos
rios
chegá-
ram'a
Goa.
.
-
Fernão
Rodrigues
de
Mariz
fe
vio
com
o
Governador,
e
lhe
deo
as
cartas,
que
de
molhadas
fe
não
podiam
ler,
e
lhe
contou
todas
as
novas
do
que
era
paffado
,
aílim
das
galés;
como
da
morte
de
Francifeo
da
Sil-
va,
e
da
paflagem
do
Camorim
ão
Reyno
da
Pimenta.
“Tito
fentio
o
Governador
mui-
to
,
porque
eram
coufas
que
moleftavam
o
Efiado
,
e
porque
as
novas
das
galés
lhe
não
haviam
de
deixar
acudir
áquellas
coufas',
como
era
necellario.
A
Fernão
Rodrigues
de
Mariz
fez
muitas
honras
,
e
mercês,
a
>
me
-
Dec.
VI
Lry
VII.
Car.
IX.
195
meímo
a
Ífeus
foldados
,
por
fe
arrifcarem
aílim
em
huma
viagem
tão
perigofa
pelo
fer-
viço
de
ElR
ey.
Com
eítas
novas
mandou
o
Governador
dar
mais
preífa
ás
coufas
da
At-
mada,
porque
fem
dúvida
efperava
as
galés
na
entrada
de
Setembro.
E
deixallo-hemos
agora
por
hum
pouco
,
porque
he
neceffa-
ro
continuar
com
as
coufas
de
Maluco,
que
nos
cabem
aqui.
CA
PET
U
LOC.
Das
coufas
»
que
acontecêram
em
Maluco
até
chegar
Jordão
de
Freitas
:
e
de
co-
mo
Bernaldim
de
Souja
entregou
a
forta-
leza
a
Chrifiovão
de
Sá:
e
deontras
cou=
Jas
que
mais
palláram.
Emos
deixado
as
coufas
de
Maluco
-
emtregoas,
os
noflos
com
o
Rey
de
Gei-
lolo,
que
fetinha
feito
o
mais
poderofo
de
todos
os
daquelle
Archipelago.
E
como
era
mão,
e
tyranno
,
é
inimigo
do
nome
Chri-
tão
,
fazia
toda
a
guerra
que
podia
aos
Chriftãos
de
Moro,
dando-lhes
em
fuas
po-
voações,
deftruindo-lhas,
matando,
e
cati=
vando
muitos;
e
contra
o
contrato
das
tte-
goas
recolhia
em
fua
Cidade
todos
os
efera-
vos
dos
Portuguezes
que
fugiam
de
'Terna-
te.
Difto
andava
tão
efcandalizado
Bernal-
dim
de
Soufa,
que
defejava
de
lhedar
hum
Ji
mui-
196
ASIA
DE
Diogo
pe
Couro
muito
grande
caítigo
;
primeiro
que
foíle
ou-
tro
Capitão.
E
pera
ter
occafião
de
quebrar
as
tregoas:,
commetteo-o
ElR
ey
de
Ternate,
que
lhe
deixafle
fazer
repreza
em
alguma
gente
de
Geilolo,
que
alli
andava
na
Cida-
de,
pera
atroco
della
haver
os
efcravos
que
aqueile
Rey
lá
tinha
em
feu
poder.
Difto
fe
eicufou
HiRey,
aflim
por
fe
temer
do
ou-
tro,
como
por
fer
feu
genro,
feu
parente;
e
Mouro
como
elle.
Mas
depois
tendo
al-
guns
aggravos
delle
,
difle
a
Bernaldim
de
Soula,
que
naquella
materia
podia
fazer
tus
do
oque
lhe
bem
pareceífe
,
que
elle
o
aju-
daria
com
tudo
o
que
pudefle.
Com
ifo
man-
dou
logo
Bernaldim
de
Soufa
armar
algu-
mas
fuítas
,
e
corocoras,
e
as
proveo
de
gente
,
e
munições
,
e
as
repartio
em
duas
Capitanias,
huma
dellas
deo
a
Ruy
Dias
Coelho
;
moço
da
Camara
do
Duque
de
Bra-
gança;
(que
então
Ífervia
de
Capitão
mór
do
mar,)
a
outra
deo
a
Manoel
Lobo,
e
os
defpedio
,
dando-lhes
por
regimento
,
que
fe
folem
á
Ilha
do
Moro
,
cada
bum
por
fua
parte,
e
que
fizeflem
por
aquella
cofta
do
Reyno
de
Geilolo
toda
a
guerra
que
pudefiem.
Pafiados
elles
Capitães
ao
Moro,
deram
em
alguns
lugares,
que
mettêram
a
ferro,
ca
fogo:
e
cativáram
algumas
peífoas.
E
depois
de
terem
bem
de
cativos,
mandáram
e
€
-
di-
Deco
VE
Les
VII.
€
APR.
197
dizer
ao
Rey
de
Geilolo
por
via
de
Ra-
que
Naque,
Regedor
do
Tolo
:
»
Que
lhes
»
mandafle
a
artilheria
que
tinha
da
fortale-
»z4,
e
os
efcravos
dos
Portuguezes,
e
que
»
lhe
-mandariam
ós
cativos
que
tinham.
»
À
ilto
refpondeo
elle:
»
Que
não
daria
o
»mais
ruim
berço
por
todos
os
cativos.»
Com
elle
defengano
fe
recolhêram
a
Terna-
te
O
Capitão
mandou
apregoar
logo
guer-
ra
contra
ElRey
de
Geilolo
,
e
concertous
fe
com
ElRey
de
Ternate
de
lhe
fazerem
toda
a
que
pudeflen;
e
afim
armou
logo
ElRey
fuas
corocoras,
e
mandou
Cachil
Gu-
zarate
feu
meio
irmão
da
parte
da
mai,
e
feu
Capitão
mór
do
mar,
pera
que
fole
por
toda
a
colta
de
Geilolo
,
e
a
deftruille
;
é
o
Capitão
mandou
em
fua
companhia
Ruy
Dias
Coelho
com
toda
a
Armada
da
forta-
leza,
Paffados
ambos
ao
Moro
,
deram
em
muitos
lugares
de
Geilolo
,
e
depois
de
os
deltruirem
fe
foram
pôr
fobre
a
fua
barra;
e
os
tiveram
de
cerco,
fem
oufarem
as
em-
barcações
dos
pefcadores
a
fahirem
fóra;
porque
logo
erám
tomadas,
o
que
aquelle
Rey
teve
por
muito
grande
afronta.
Pallas
do
o
tempo
do
feu-provimento
,
voltáram
pe=
ra
Ternate
com
muitas
prezas
,
e
cativos.
Depois.
dito
fe
embarcou
o
Rey-de
Terna-
te
na
mefma
Armada,
levando
comíigo
os.
Portuguezes
,
e
pallou
a
Geilolo:;.e
huma
;
ma-
198
ASIA
pe
Droco
DE
Covro
madrugada
defembarcou
em
hum
lugar
cha-
mado
Geima.,
e
o
deftruio
,
e
abrazou
de
todo
,
não
deixando
coufa
alguma
em
pé;
e
querendo
dar
em
outros
lugares,
lhe
che-
gáram
novas
,
que
eram
vindos
navios
da
Índia;
e
que
Jordão
de
Freitas
vinha
por
Capitão
da
Fortaleza.
E
como
elle
era
feu
inimicifimo;;
fentio-o
tanto,
que
levou
mão
da
guerra,
e
voltou
pera
Ternate.
Chrifto-
vão
de
Sá,
e
Jordão
de
Freitas
chegáram
ao
porto
de
Talangame:,
onde
furgiram;,
e
logo
fe
foram
à
fortaleza”,
e
Bernaldim
de
Soufa
os
recebeo
muito
bem.
-Chriltovão
de
Sá
lhe
aprefentou
a
Provisão,
e
a
carta
de
-
guia
que
levava,
por
cuja
virtude
lhe'en-
tregou
logo-a
fortaleza,
do
que
Jordão
de
Freitas
ficou
fobreialtado.,
porque
não
fa-
“bia
das
Provisões.
Bernaldim
de
Soufa
ven-
do
que
não
fe
podia
iraquelle
anno
pera
a
India,
(porque
eftava
fazendo
huma
não
no
porto
de
Talangame
pera
fe
ir
nella,)
paf-
fou-fe
pera
lá
com
todos
feus
criados,
€
amigos,
que
eram
mais
de
trinta
peíToas
,
(
porque
fe
reccou
que
os
Geilolos
lhe
fof-
fem
queimar
a
náo,
)
e
alli
fedeixou
eflar.
b)
b)
dando-lhe
preífa.
Chriftovão
de
Sá
ficou
cor-
rendo
com
a
obrigação
da
fortaleza.
Jordão
de
Freitas
tomou
cafas
em
ter-
ra,
onde
fe
apofentou
até
lhe
caber
o
tem-
po
;
fem
correr
com
ElRey
,
nem
ElRey
com
|
|
|
Dec.
VI.
Liy.
VII
Car:
Ko
199
com
elle
;
antes
muitas
peíloas
lhe
aconte-
lhavam,
que
devia
reconciliar-[e
com
ElR
ey,
pois
havia
de
ficar
naquella
fortaleza,
o
que
elle
não
quiz
fazer:
O
Rey
de
Geilolo
af-
frontado
,
e
magoado
dos
noflos
lhe
deltrui-
rem
feus
lugares,
armou
as
fuas
corocoras,
e
mandou
ao
feu-
Capitão
mór
que
traba-
lhafle
por
lhe
queimar
a
ndo
de
Bernaldim
de
Soufa..
Efta
Armada
chegou.
huma
mas
drugada
ao
porto
de
Valangame,
e
queren=
do
defembarcar
fentio
grandes
vigias
,.e
tor-
nou-fe.a
recolher.:
Dalli
paílou
adiante,
e
foi
dar
em
hum:
lugar
da
mefma
Ilha,
cha-
mado
Xulá,
e
o
queimou,
e
abrazou.
Ber-
naldim
de
Souia
tanto.
que
fentio
os
inimi-
gos,
acudio
á
praia
pera
lhes
defender
a
defembarcação
,
e
dahi
a
pouco
vio
o
fogo
no
lugar
de
Xulá.,
e
fentio
muito
não
ter
navios.
pera
fahir
aos
inimigos;
e
vindo
a-
manhecendo
chegáram
alli
feis
corocoras
,
em
que
vinha
Cachil
Page
,
irmão
de
El-
Rey,
acudir
a
Xulá,
pelo
fogo
que
em
Ter-
nate
viram.
Bernaldim
de
Soufa
efimou
mui-
to
fua
chegada
,
e
embarcando-fe
com
vin-
te
homens
em
huma
corocora,
foi
com.
el-
les
bufcar
os
inimigos;
e
chegando
a
Xu-
lã,
víram
ir
a
Armada
de
Geilolo
já
affaf-
tada
,e
recolhendo-fe.
Cachil
Page,
e
Ber-
naldim
-de
Soufa
os
foram
feguindo
até
á
tarde
com
tanta
furia
,
que
Bernaldim
sie
saón
|
ES
7
|
as
200
ASTA
pe
Drogo
pe
Covro
fa,
que
hia
diante,
chegou
a
tiro
de
efpin-
garda.
E
olhando
pelas
corocoras
de
Cachil
Page,
vio
que
ficavam
mais
de
huma
legua
atras,
O
que
Cachil
Page
fez
de
induftria,
porque
era
fraquiflimo
,
e
muito
pufillanime
;
e
entendendo:
de
Bernaldim
de
Soufa
que
havia
de
pelejar
com
a
Armada
de
Geilo-
lo,
fe
fez
manco,
e
deixou-fe
ficar.
Bernal-
dim
de
Soufa
vendo-fe
tão
perto
dos
inimi-
gos,
e
que
não
levava
navios
pera
os
com-
metter,
foi
fua
paixão
tamanha,
que
reben-
tava
;
e
vendo
que
feria
temeridade
com-
metter
Íó
os
inimigos,
tornou
a
voltar
pe-
ra
Ternate,
e
os
inimigos
foram
feu
cami-
nho
fem
o
querer
feguir.
E
chegando
a
'Ta-
langame
muito
affrontado
daquella
retiráda,
querendo-fe
fatisfazer
della
,
mandou
fazer
queixume
a
ElRey
de
feu
irmão
Cachil
Pa-
ge,
e
pedir-lhe
que
lhe
mandaffe
finco
co-
rocoras,
e
mandou
convidar
à
fortaleza
feus
amigos
pera
o
acompanharem
em
huma
jor-
nada
que
queria
fazer.
ElRey
lhe
mandou
as
corocoras
,
e
da
fortaleza
lhe
acudíram
mais
de
fincoenta
homens.
E
embarcando-fe
com
todos
os
Portuguezes
que
alli
tinha,
e
com
os
que
lhe
acudíram,
partio
pera
Gei-
lolo.
Chegando
ao
feu
porto
,
lançou
em
terra
huma
peífoa
,
por
quem
mandou.
def-
afiár
ElRey
pera
huma
batalha
no
mar
com
todas
as
corocoras-
que.
elle:
quizeffe-,-
por-
que
Dee.
VL
Liv.
VIIL
Cárp.
X.
201
É
que
elle
com
fó
aquellas
finco
“o
efperava.
ElRey
acceitou
o
delafio,
mas
não
lhe
fa-
hio.
Bernaldim
de
Soufa
efperou
todo
aquel-
le
dia,
e
noite;
e
ao
outro
dia
tornou
dar
à
vela
pera
Ternate,
ficando
ElRey
muito
abatido
daquelle
negocio.
A
guerra
ficou
cor-
sendo
huns
aos
outros,
toda
a
que
podiam,
dando
huns
nos
lugares
dos
outros.
Em
hum
deftes
aílaltos
foi
cativo
aquelle
foldado
de
Geilolo
,
que
cortou
a
cabeça
ao
Portu-
guez,
por
cujo
feito
lhe
deo
o
Rey
de
Gei-
lolo
a
filha
que
tinha
cafada
com
ElRey
de
Ternate
;
e
fendo
conhecido,
o
leváram
a
ElRey
de
Ternate,
que
o
mandou
en-
forcar
na
praia.
Nefte
ellado
deixamos
as
o
de
Maluco
até
fer
tempo
de'tornar
a
ellas.
|
SC
ASP
TATO
Sd:
Das
confas,
que
o
Governador
Forge
Ca-
bral
fez
em
Goa:
e
de
como
lhe
vieram
novas
,
que
as
galés
fe
torndram
a
def-
armar
,
e
defpedio
Manoel
de
Soufa
de
depulveda
pera
Cochim
:
e
de
como
cer-
com
os
Principes
Malavares
na
Ilha
de
Bardela:
e
do
que
mais
fuccedeo,
Aflado
o
Camorim
ao
Reyno:
da
Pimen-
-
ta,
(
como
atrás
temos
dito
no
Cap.
IX.
defte
Liv.
VIII.,)
mandou
logo
convocar
todos
os
Principes
Malavares
do
feu
bando,
que
202
ASIA
pe
Droco
pe
Covro
que
eram
dezoito,
em
que
entrava
ElRey
de
“Tanor
feu
vaflallo
,
o
que
fe
fez
Chri-
fião
em
tempo
de
Garcia
de
Sá,
(como
fica
dito
no
Cap.
V.
do
VII.
Liv.
)
que
lhe
acu-
diram
com
todo
o
feu
poder.
Elle
os
man-
dou
paflar
à
Ilha
de
Bardela
com
trinta
mil
INayres,
e
finco
,
ou
feis
mil
Amoucos
da
obrigação
do
Rey
morto,
pera
dalli
palTa-
rem
a
Cochim.a
tomar
vingança
da
morte
daquelle
Rey,
deixando-fe
elle
ficar
da
ban-
da
do
Chembe
com
cem
mil
homens
de
guerra,
de
maneira,
que
toda
a
potencia
do
Malavar
eftava
alli
junta.
Henrique
de
Sou-
fa
Chichorro,
Capitão
de
Cochim,
fortifi-
cou
muito
bem
a
Cidade,
e
ElRey
de
Co-
chim.
ajuntou
perto
de
quarenta
mil
homens
pera
defender
feu
Reyno.
Difto
avifáram
pot
terra
ao
Governador
por
muitos
Patamares,
que
chegáram
logo
apôs
Fernão
Rodrigues
de
Mariz.
O
Governador
andava
muito
oc
cupado
na
preparação
da
Armada,
porque
determinava
ir
bulcar
os
Rumes
,
e
ficou
em-
baraçado
,
vendo
que
fe
lhe
offereciam
eltou-
tros
trabalhos
de
novo,
que
não
eram
me-
nores
,
nem
de
menos
obrigação
pera
acu-
dir,
que
os
das
galés,
porque
eftava
aquel-
le
Reyno
arrifcado
a:
fe
perder
de
todo,
o
que
feria
defiruição
do:
Ellado...
Com
eftas
confas
ficou
fufpenfo,
e
cha-
mou
muitas
vezes
a
confelho
os
Fidalgos;,
a
-..
Dec
VI
Live VII.
CapsXI
203
e
Capitães,
e
em
todos
ouvio
varios
pare-
ceres.
É
como
o
Governador
delejava
de
faber
o
de
todos
os
da
Cidade
fobre
aguel-
la
materia;
mandou
pôr
na
Sé
de
Goa
hu-
ma
caixa
com
algumas
fendas
por
fima
por
onde
podiam
caber
cartas,
e
mandou
pre-
gar
efcritos
pelus
portas
das
Igrejas,
e
pré-
gar
pelos
Pulpitos
:
»
Que
toda
a
peíloa,
de
»
qualquer
qualidade
que
fofle,
que
lhe
qui-
zelo
dar
feu
parecer
naqueija
materia,
o
»fofle
lançar
dentro
naquella
caixa,
ou
de-
»clarando:
feu
nome:
ou
encubrindo-o
,
pe-
»ra
que
mais
tivremente
pudeflem
dizer
tu-
»do
o.
que
entendiam;
»
e
aflim
fe
come-
çiram
a
lançar
muitos.
|
E
pela
mefma:
maneira
efcreveo
ás
Ci-
dades
de
Chaul.,
e
Baçaim
o
trabalho
em
|
que
ficava,
pedindo
que
tambem
lhe
deem
fobre
elle
feus:
pareceres
,
e
o
quizeflem
aju-
dar
com
navios,
e
gente
pera
aguella
jor-
nada
,
pondo-lhes
diante
as
obrigações
de
leaes,
e
bons
vaflallos,
e
como
aquella
ne-
ceflidade
era
general
,
e-cabia
a
todos
fua
parte.
Eltas
cartas
lhes
foram
dadas
,
e
lo-
go
lhes
refpondêram
:
»
Que
eftavam
todos
»
preítes
pera
facrificarem
as
vidas
por
fer-
»
viço
de
Deos,
do
Rey,
e
defensão
de
feu
»Eftlado.
»
Ainda
que
a
Cidade
de
Chaul
dizia
na
fuacarta
,
(cuja
cópia
temos
em
noflo
poder
:)
»
Que
fem
embargo
dos
mui-
»
tos:
204
ÁSIA
DE
Droao
DE
Covro
»
tos
aggravos
que
tinham
dos
Governados
»
res
pafiados,
em
neceflidade
tão
urgente,
»e
forçada,
elles
fe
não
lembravam
mais
que
»
do
ferviço
de
Decos,
e
de
ElRey;
que
el-
»
les
ofereciam
doze
navios
armados
á
fu
»euíta,
de
marinheiros
,
foldados
,
manti-
»
mentos,
e
munições
pera
tres
mezes;
é
ou-
»tros
doze
com
Íeus
marinheiros,
e
que
de
»
foldados
,
e
mantimentos
os
proveífe
elle
;
»
e
allim
os
começáram
logo
a
negociar
com
muita
prefteza.
O
Governador
dava
em
Goa
muita
prefla
a
todas
as
coufas,
pera
como
O
Verão
entrafle
,
eftar
pofto
no
mar
pera
acudir
aonde
fofle
mais
neceflario.
E
como
tinha
Armada
,
e
armazens
encarregado
à
Capitães,
que
corriam
comifo,
defcançava
Nelles,
e
provia
nas
coufas
de
fóra
;
porque
naquelle
Inverno
fe
não
tratou
de
outra
cou-
fa,
mais
quedas
que
cumpriam
á
Arma-
da.
É
indo
veípera
de
Sant-Iago
á
ribeira
a
vilitar
a
Armada,
perguntou
áquelles
Ca-
pitães,
em
que-eltado
eftavam,
e
elles
lhe
difleram,
que
tudo
prefles;
e
que
cada
vez
que
quizelie
pôr
toda
à
Armada
no
mar;
o
podia
fazer.
Dillo
ficou
o
Governador
tão
alvoroçado
,
que
vendo
ellar
o
melftre
da
ferraria,
o
chamou,
e
lhe
die:
»
Que
fizefx
»fe
logo
trezentos
pandeiros
pera
fe
res
»
partir
pela
Armada,»
(porque
era
muito
amigo
de
folias.)
E
afim
andavam
as
Arma-
das
.,
Dec:
VI:
E
iv:
VIIGar
XI
205
das
tão
alegres
naquelle
tempo,
que
fe
po-
dia
embarcar
nellas
por
entretenimento.
E
eftando
com
elle
alvoroço,
mandan=
do
lançar
os
navios
ao
mar,
lhe
chegaram
as
cartas
de
Chaul
,
e
Baçaim
do
offereci-
mento
dos
navios.
E
juntamente
lhe
efcre-
veo
Francifco
Barreto,
Capitão
de
Baçaim::
»
Que
chegára
áquelle
porto
huma
não
que
»
viera
de
Meca
no
fim
de
Maio,
que
afir-
»mava
que
o
Turco
mandára
ao
Baxá,
que
»eftava
em
Suez
negociando
a
Armada,
que
»
fobreeftiveile,
e
não
fe
bolille
até
feu
re-
pecado
;
e
com
iflo
fe
tornáram
as
galés
a
»defarmar;
e
que
era
nova
muito
certa,
e
paveriguada.
»
Ellas
novas
feitejou
o
Go-
vernador
muito,
por
lhe
ficar
tempo
defoc-
cupado
pera
as
coufas
de
Cochim.
|
E
logo
com
muita
prefla
deípedio
Mas
noel
de
Soufa
de
Sepulveda
com
quatro
na-
vios
de
remo,
de
cujos
Capitães
não
achá-
mos
mais
nomes
,
que
de
Gonçalo
Vaz
de
Tavora.
E
lhe
deo
por
regimento
,
que
fe
fole
a
Cochim
,
e
que
com
a
Armada
de
Fernão
de
Soufa
,
e
com
todos
os
navios
que
mais
fe
pudeílem
armar,
fe
fofle
lançar
fobre
a
Ilha
de
Bardela
,
onde
eflavam
os
Principes
Malavares
;
e
que
os
tivelle
den-
tro
reteudos
até
elle
chegar
,
porque
logo
partia
após
elles.
Manoel
de
Soufa
de
Se-
pulveda
fahio
com
os
navios
por
Gonigivi:
É
“Tha
206
ASIA
DE
Dioco
DE
Covro
lha
no
fim
de
Julho,
(por
a
outra
barra
ek
tar
ainda
foberba,
e
perigofa.)
E
dando
4
véla
foi
feguindo
feu
caminho
com
muito
rifco
,
e
trabalho,
e
em
poucos
dias
che-
gou
a
Cochim.
E
ajuntando-fe
com
o
Ca-
pitão
da
Cidade,
armáram
todos
os
navios
que
havia,
que
eram
perto
detrinta,
e
em
barcando
nelles
muita,
e
boa
gente,
que
al.
li
invernou,
fe
paffou
logo
a
Bardela,
e
fe
lançou
ao
derredor
de
aquella
Ilha,
fechan-
do
nella
aos
Principes
Malavares,
de
fei-
ção,
que
fe
não
podiam
fahir
,
nem
ferem
foccorridos
do
Camorim,
que
eftava
da
ou-
tra
banda
do
Chambe
,
como
diffemos.
E
logo
defpedio
recado
ao
Governador
de
fua
jornada;
e
de
como
os
Principes
Malavares
eftavam
enferrados
em
Bardela
,
e
que
alli
lhos
tinha
todos:
pera
lhos
entregar
nas
mãos
quando
quizefie,
GihaP
TALO
cSdEs
Do
que
aconteceo
a
Luiz
Figueira
com
ba
was
galês
de
Rumes
:
e
de.como
foi
ao
Cinde,
e
favoreceo
aquele
Rey
contra
08
—
Nantaques:
e
da
defgraça
que
lhe
acom-
Zeceo.
|
—
Uiz
Figueira,
que
deixímos
invernan-
do
em
Ormuz
com
a
fua
Armada
»
tan-
to
que
entrou
Agofto,
negociou
os
navios,
e
“Drc.
VI.
Liv.
VIII.
Car.
XIL
207.
e
os
proveo
do
neceflario;
e
de
quinze
do
mez
por
diante
fe
embarcou
,
ficando
Gil
Fernandes
de
Carvalho
em
Crmuz
com
a
fua
fuíta.
Depois
em
Setembro
partio
pera
Goa,
onde
chegou
em
Novembro,
e
faben-
do
fer
o
Governador
em
Cochim,
o
foi
lã
bulcar.
Luiz
Figueira
foi
feguindo
fua
jor-
nada
pera
o
cabo
de
Refolgate,
(porque
já
em
Ormuz
havia
novas
,
que
fe
víram
pôr
naquella
paragem
quatro
galés
pequenas,
e
as
mefmas
novas
achou
em
Mafcate,
onde
os
Portuguezes
ellavam
já
fobre
avifo.,
e
preftes
com
grandes
vigias
fobre
elles,
com
determinação
de
lhes:
defenderem
a
defem-
“barcação,
fea
quizeflem
commetter
,)
e
paf-
fando
adiante
chegou
á
ribeira
de
Teve,
on-
de
fez
aguada,
e
alli
lhe
deram
novas,
que
as
galês
ellavam
em
Jór,
hum
lugar
dalli
à...
leguas.
É
negociando
os
navios,
e
fa-
zendo
preftes
as
munições,
fahíram
dalli
to-
dos
poltos
em
armas,
e
antes
dé
chegarem
a
Jór,
houveram
villa
de
quatro
galeotas
grandes
,
e
formofas.
Andava
nellas
hum
Mouro
grande
coflario,
chamado
Cafár
,
que
tinha
fahido
de
Meca
com
tenção
de
faquear
Malcate,
e
faquear
as
nãos
que
em
Outu-
bro
haviam
de
partir
de
Ormuz
pera
Goa,
e
pera
outros
portos
da
coíta
da
India.
Os
inimigos
tanto
que
houveram
vifta
da
nofla
Armada,
virando
em
outro
bordo
,
voltáram
pe-
208
ASIA
pe
Droco
DE
Covro
pera
trás,
dando
toda
à
véla,
e
ajudando-
fe
do
remo
foram
fugindo-o
mais
que:
pu-
deram.
Luiz
Figueira
foi
feguindo
os
inimi-
gos
tambem
com
a
meíma
preífa
;
e
como
elles
lhes
levavam
muita
vantagem,
e
as
gas
leotas
eram
muito
ligeiras,
fe
foram
melho-
tando
de
feição.,
que
dobráram
o
cabo
de.
Rofalgate
pera
fóra,
etomáram
o
caminho
pera
o
Eltreito
de
Meca
de
longo
da
cofla.
Luiz
Figueira
tambem
dobrou
o
cabo
após
ellas
;
levando-as
á
vifta,
e
feguio-as
pou-
co,
porque
defconfiado
de
as
não
poder
al-
cançar,
as
largou.
Alguns
lhe
deram
culpa
de
não
as
feguir
até
o
Eltreito
de
Meca,
ha-
vendo
que
fem
dúvida
as
alcançára
,
e
to-
mara
em
algum
porto.
Deixadas
as
galés,
voltou
Luiz
Figueira
pera
o
caminho
de
Goa
,
efoitomar
o
Cinde;
os
refpeitos
por-
que,
nós
o
não
fabemos.
ElRey
que
eftava
na
Cidade
de
Tatá
,
fabendo
da
nofla
Ar-
mada,
mandou
hum
Embaixador
ao
Capi-
tão
mór
della
a
pedir-lhe.
»
que
lhe
qui-
»zefle
caltigar
os
Nautagues
,
que
lhe
efta-
»-vam
rebellados,
e
que
lhe
faria
paga
aos
»foldados
,
e
defpeza
da
Armada.
»
Luiz
Fi-
gueira
querendo
fervir
naquelle
negocio,
mandou
finco,
ou
eis
navios
pera
irem
dar
no
porto
dos
Nautagues,
e
deftruillos.
Ef.
tes
navios
foram
áquelle
negocio
com
o.olho,
nas
prezas
que
Íe
efperayam,,
e
gera
pes
as
Dre
VI.
Liv,
VII
Car.
XIL
209
las
coftas
dos
Nattaques
dando-lhes
em
ale
guns
portos,
e
povoações,
em
que
fizeram
algum
damno.
E
andando
por
ella,
deo
hum
dos
noílos
navios
em
fecco
,
em
parte
on=:
de
acudiram
os
da
terra,
e
cortáram
as
ca-
beças
a
todos
os
Portuguezes,
etomáram
o
navio
com
toda
Íua
artilheria,
fem
os
nof-
los
lhes
poderem
valer:
e
não
cellando
aqui
o
mal,
deo
outro
navio
em
huma
reflinga,
onde
fe
perdeo
,
mas
fó
fe
falvou
a
gente
nos
mais
navios.
Com
eftas
avyalias
fe
reco-
lhéram
os
mais
pera
o
Capitão
mór
,
que
fentio
em
eftremo
aquelle
negocio,
e
o
hou-
ve
por
grande
mofina
Íua.
E
como
andava
com
fobeja
defconfiança
do
negocio
das
ga-
les,
(que
os
foldados
lhe
não
perdoáram
em
matracas,
que
de
noite
lhe
davam,
)
acabou
aquella
deígraça
,
ou
defaftre
de
o
defcon-:
far
de
todo
,
entriltecendo-fe
de
maneira
,
que
o
entendêram
todos
nelle;
e
dando
4
véla
pera
Goa,
chegou
áquella
Cidade
já
em
Novembro
,
fendo
o
Governador
Jorge
Ca-
bral
partido
pera
Cochim,
como
no
Capi-
tulo
adiante
fe
dirá;
e
tomando
algunas
coufas
neceflarias
,
fe
partio
em
bufca
delle,
e
chegou
áquella
Cidade
,
depois
do
Vifo-
Rey
D.
Affonfo
fer
nella,
como
tudo
mes
lhor
fe
dirá
adiante.
7
Conto
Tom.
IILPl,
O
CA-
|
210
ASIA
pe
Dioco
DE
Covro
CAPITULO
IL
De
como
o
Governador
forge
Cabral
par.
tio
pera
Cochim
,
e
de
caminho
deftruio
as
Cidades
de
Capocate,
Tiracole,
Con
lete
,
e
Pauane:
e
de
como
efando
pera
dar
em
Bardela
,
lhe
deram
novas
“que
era
chegado
o
Vijo-Rey
D.
Ajfonfo
de
No.
ronha.
Anto
que
o
Governador
deípedio
Ma-
|
A.
noel
de
Soufa
de
Sepulveda,
logo
poz
toda
a-Ífua
Armada
no
mar,
e
ficou
elpe-
rando
que
vieflem
nos
do
Reyno
pera
fa
|
ber
novas-;-e
tomar
dellas
mais
gente.
E
tanto
que
o
Verão
entrou,
efcreveo
a
Chaul,
e
Baçaim
,
que
ficava
poíto
no
mar
efperan-
.
do
pelos
navios
que
lhe-haviam
de
mandar;
e
entre
tanto
deo
deípacho
a
muitos
nego-
cios,
e
fez
paga
aos
foldados-,
no
que
fe
gaftou
todo
o
mez:
de-Setembro.
E
vendo
que
tardavam
ndos.,
e
que
já
não
podiam
ir
fenão-a
Cochim,
foi-lhe
neceífario
aviar-
fe
mais
deprefla,
porque
fe
lá
as
achaíle,
e
lhe
yiefle
fucceflor,
fe
poderia
embarcar
pe
ra
o
Reyno;
e
aílim
fé
faffou
de
todos
os
negocios
,.e
fe
embarcou
de
quinze
de
Ou-
tubro
por
diante,
entregando
o
governo
ao
Bifpo,
Capitão
da
Cidade,
e
Ouvidor
Ge-
i
ral,
e
na
barra
elleve
até
lhe
chegarem
os.
“Das
Dec,
VI.
Liv
VIE
Car.
XIN.
217
navios
do
Norte,
que
foram
perto
de
trin=
ta,
com
muitos,
e
bons
foldados,
com
cuja
vinda
fe
fez
logo
ávéla
já
no
fim
do
mez.
A
Armada
que
levava
era
de
mais
de
cem
avios,
em
que
entravam
perto
de
vinte
ga-
fiões
;
nãos
,
e
galés,
e
tudo-o
mais
fuítas,
e
bargantis.
Os-Capitães
,
e
Fidalgos,
que
nella
jornada
o
acompanháram,
dos
que
pu-
demos
achar
os
nomes
,
são
os
feguintes:
D.
Antonio
de
Noronha”
filho
do
Vi-
fo-Rey
D.
Garcia
de
Noronha,
-Baftião
de
Sá,
Pantaleão
de
Sá
feu
irmão,
D.
João
Henriques
,
Francifco
de
Mello
Pereira,
João
de
Mendoça,
D.
João
Lobo,
Martim
Af-
fonfo
de
Miranda,
Pero
Botelho,
Martim
Affonfo
de
Mello
Ombrinhos;
Fernão
Go-
mes
de
Soufa,
Gil
Fernandes
de
Carvalho,
Lopo
Vaz
de
Siqueira,
Diogo
Botelho,
Pe-
dro
Affonfo
de
Avelar
,
Jorge
de
Mendo-
ca,
e
outros
muitos
Fidalgos,
e
Cavallei-
ros.
E
feguindo
Ífua
jornada,
foi
pela
cof-
ta
do
Malavar
,
affolando
,
e
deftruindo
tu=
do;
e
defembarcou
em
Viracole(
cujo
pro=
prio
nome
he
Quiçore)
huma
Cidade
do
Reyno
do
Camorim,
grande,
e
formofa,
e
de
muito
trato,
e
mercadores,
aflentada,
e
eltendida
fobre
a
cofta
brava
duas
leguas
do
rio
de
Pudepatão
pera
o
Sul,
que
queimou,
defiruio
,
ailolow,
e
roubou
,
achando
os
fol-
dados
nella
grandes:
prezas.
O
mefmo-fez
à
Eco
li
Ci-
213
ASIA
ne
Diogo
DE
Covro
Cidade
de
Coulete
,
que
deixou
abrazada,
e
Ífeus
palmares
cortados,
e
todas
fuas
em-
barcações
feitas
em
carvões.
E
chegando
a
Calecut
,
determinou
de
defembarcar
,
e
def-
truir
aquella
Cidade,
(porque
feria
a
maio
afronta
que
fe
poderia
fazer
ao
Camorim,
mas
foi
contrariado
de
todos
'os
Fidalgos
da
Armada
,
que
lhe
difleram:
»
Que
não
era
»
bem
fe
arrifcafle
a
lhe
acontecer
hum
def-
»
aftre
;
que
era
necefiario
poupar-fe
,
e
ir
»
inteiro
pera
o
negocio
de
Bardela,
aonde
»
tinha
todos
os
Reys,
e
Principes
Malava-
»
res,
e
lhe
não
podiam
fugir
das
mãos,
que
pera
omór,
e
mais
importante
negocio
da
»
India,
eo
mais
honrolo
,
pera
o
que
era
»
neceflario
ir
com
a
mão
muito
folgada,
»
Sómente
D.
João:
Henriques
,
e
Luiz
Xira
Lobo
foram
de
contrario
parecer,
dizendo:
»
Que
fe
quando
alli
não
eftava
o
Camorim
»
ie
não
queimafle
aquella
Cidade,
quando
»
fe
elperava
poder-fe
fazer?
Que
fó
por
cre-
»
dito
de
fe
dizer
antre
os
Reys
Mouros
da
»
India,
que
defembarcára
nella,
o
havia
»
de
fazer.
»
Mas
como
os
outros
votos
fo-
ram
tantos,
e
mais
,
deixou
o
Governador
aquelle
negocio,
e
paflou
adiante.
Chegan-
do
ao
rice
de
Panane
,
entrou
nelle
com
to-
das
as
galés
,
e
navios
de
remo
pera
quei-
mar
aguella
Cidade,
por
fer
a
fegunda
do
Reyno
de
Calecut;
€
amais
rica,
e
ce
mos
trá-
Dec.
VI
Lrv.
VIIL
Car.
XII
273
“fato
que
todas,
e
porque
dellas
fahiam
to-
dos
os
annos
muitas
nãos.
carregadas
de
pi-
menta,
e
gengivre
pera
Meca.
E
entrando
no
rio,
defembarcou
em
terra,
e
commetteo
|
a
Cidade
;
e
pofto
que
nella
achou
grande
refiflencia,
foi
entrada
dos
dianteiros
,
que
foram
por
dentro
della
pelejando
com
os
inimigos,
e
huma
multidão
delles
fe
reco-
lheo
a
huma
formofa
Mefquita
,
que
foi
com-
mettida
dos
noílos,
e
a
entráram
,
metten-
do
á
efpada
a
mór
parte
dos
que
eftavam
dentro;
e
hum
tropel
delles,
que
feriam
qua-
fi
felTenta,
fe
recolhêram
a
huma
torre,
a
que
fe
fubia
por
huma
efcada
de
caracol.
Os
nof-
fos
commettéram
a
entrada
da
porta
,
que
lhes
foi
muito
bem
defendida,
e
fobre
ella
feriram
alguns
dos
noflos
,
em
que
entrou
Baftião
de
Sá
,
que
eltava
mais
chegado
á
porta,
trabalhando
por
entrar
dentro
com
muito
valor,
e
esforço.
À
elte
tempo
che-
gou
D.
Antonio
de
Noronha,
filho
do
Vi-
fo-Rey
D.
Garcia
de
Noronha,
que
era
hum
homem
agigantado,
e
muito
grande
caval-
leiro
;
e
vendo
o
trabalho
em
que
os
nof-
fos
eltavam
,
e
como
os
Mouros
fe
defen-
diam,
palfou
por
todos,
e
chegando
à
por-
ta
com
huma
efpada
de
mão
e
meia
,
que
levava,
ealçando
o
efeudo
fobre
a
cabeça,
commetteo
a
porta,
e
a
entrou,
e
ao
tem-=
po
que
levantou
o
efcudo
fe
arremeflou
hum
Mou-
é.
214
ASIA
vE
Dioco
pE
Covo
Mouro
à
elle,
e
lhe
deo
huma
ferida
por
debaixo
do
braço,
que
lhe
ficou
defcuberto;
mas
elle
tanto
que
foi
dentro,
começou
a
cor-
tar
nos
inimigos
de
feição
,
que
os
arrancou
do
lugar,
e
os
foi
levando
pela
efcada
afli-
ma
,
indo
já
com
elle
alguns
dos
noffos
,
em
que
entrava
Baítião
de
Sá;
e
chegando
com
elles
ao
alto,
que
era
mais
largo
,
tiveram
huma
mui
formofa
batalha
,
em
que
os
Mou-
ros
por
defensão
de
fua
vida
pelejáram
mui-
to
bem;
mas
em
fim
todos
foram
deípeda-
gados.
Defpejada
a
Cidade,
poz
o
Governador
“toda
a
fua
gente
no
campo,
que
feriam
per-
to
de
quatro
mil
homens,
e
mandou
Frans
cifco
de
Siqueira
com
alguns
Capitães,
que
foflem
com
os
navios
de
remo
queimar
as
“nãos,
que
etavam
duas
leguas
pelo
rio
den-
tro.
E-por
terra
de
longo
da
ribeira
man-
dou
hum
efquadrão
de
dous
mil
homens
pe-
ra Os
favorecerem,
e
el!e
ficou
com
outros
dous
mil
no
campo.
Os
navios
chegáram
às
ndos,
e
lhes
deram
fogo,
em
que
todas
el-
las
fe
confumiram,
e
mais
de
trinta
navios
outros.
Feito
efte
negocio,
fe
embarcou
o
Go-
vernador,
e
ao
outro
dia
furgio
com
a
Ar-
mada
groffa
na
barra
de
Cochim,
e-elle
com
as
galés,
etodos
osmais
navios
dere-
mo
(a
que
toda
a
gente
fe
pafou
)
en
trou
atm
dit
GA
crio
Tas
ssgreme
mreememeryem
Te
e
rir
serer
BESC
AL
SADIA
SA
a
NE
DecoVE
Live
VOL
Caró
KI
515
trou
pelo
rio
dentro;
ce
paflow
pela
Cidade
com
elles
embandeirados:,
e-poltos
em
ar-
mas,
efoi
furgir
aquelle
dia
no
caftello
de
fima,
Ao
outro
chegou:
á
Ilha
de:
Bardela;,
onde
achou
Manoel:
de
Soula.
de
Sepulve-
da
com
toda
a
Armada
,
quetinha
a
Ilha
cercada
com
os
Principes
dentro
;€
falva-
ram-feas
Armadas
com
grandes
feftas
,
e
ale-
grias.
|
Joia
Surtos
os
navios;
chamou
o:
Goverhas
dor
os
Capitães
,
e
lhes
difle,
que
ao
ou-
tro
dia
havia
de
dar
emterra
,
que
fe
fizeí-
fem
preftes:
mandou-lhes
que
fizefemalar-
do
da
gente
que
havia
pelas
embarcações
,
o
que-elles
foram
fazer,
eacháram
feis
mil
homens
Portuguezes
,
com
todos
os
mora-
dores
de
Cochim,
que
alli
foram
logo
em
tones,
e
outras
embarcações
;
e
mandou
di-
zer
a
ElRey
de
Cochim,
que
eftava
da
ou-
tra
banda
com
quarenta
mil
homens
:»
Que
»tiveíle
preftes
muitos
tones
,
e
almadias
pe-
pra
a
fua
gente
paflar
á
Ilha,
quando
lhe
»
mandafle
recado.
»
Aquella
noite
galtáram
todos
em
prepatarem
fuas
armas,
e
o-Go-
vernador:em
dar
ordem
no
modo
que
fe
ha-
via
deter
na
de
defembarcação
,
que
foi
por
eta
maneira.
|
Manoel
de
Soufa
de
Sepulveda
havia
de
levar
a
dianteira
com
dous
milhomens;
que
havia
de
defembarcar
por
huma
parte,
e
o
Ca-
216
ASIA
pe
Diogo
PEC
|
Capitão
“de
Cochim
com
outros
dous
mil
por
outra,
eo
Governador:
como
refto
em
meio
d'ambos
;
e
ElRey
de
Cochim
pela
outra
parte.
E
tanto
que
amanheceo,
tocou
o
Go-
vernador
fuastrombeias,
(que
era
o
final
a
que
fe
leváram
todos
osnávios
,)
e
osnof-
os
póftos
em:armas
foram
demandar
à
ter-
Ta;
com
grandes
gritas
de
alvoroço,
e
an»
tes
de
chegarem
lhes
alevantáram
“de
lá
hu-
ma
bandeira
branca
grande:
capeando
com
ella.
E
O
Governador
mandou
levar
o
remo,
e
elperou
hum
pouco
,
e
logo
chegou
á
lua
embarcação
huma
almadía
pequena,
em
que
vinha
hum
homem
,
que
lhe
pedio
da
parte
de
ElRey
de
Tanor
(o
que
Garcia
de
Sá
fez
Chriltão:)
»
Que
fobreeftivelte
naquilo,
»
que
os
Principes
Malavares
queriam
com
»
elle
paz,
com
todos
os
partidos
que
qui»
»
zefle,
e
que
lhe
défle
licença
pera
elle
vir
»
fallar
com
elie
fobre
aquelle
negocio.»
O
Governador
chamou
os
Capitães
a
confelho,
e
antre
todos
houve
varios
pareceres
;
mas
os
mais
differam
:
»
Que
fe
devia
de
faber
»
0
que
aquelles
Principes
queriam
;
e
que
»
fendo
os
partidos
taes
,
e
tão
honrofos
,
»
como
era
razão
que
foflem
,
fe
lhes
con
»
cedeflem
,
porque
afim
fe
efcufavam
da-
»
mnos,
emortes,
que
forçado
havia
de
ha-
»
ver,
€
mais
quando
não
havia
perigo
na
»
tar»
Rg
Ro
eee
ao
em
Dec.
VI.
Liv.
VHL
Car.
XI
217
ytardança,
nem
lhes
podia
entrar
mais
gen-
»te
da
que
tinham
,
nem
elles
podiam
fa-
»
hir
pera
fóra,
que
a
todo
o
tempo
os
ti-
»
nham
alli
fechados.
»
O
Governador
def-
pedio
o
homem
com
recado
a
ElRey
de
la-
nor,
dizendo-lhe
:
»
Que
por
amor
delle
ef-
»
perava
que
fe
vifle
com
elle
deprefia,
e
fe
»
determinaflem
,
que
elle
não
fe
podia
alli
»
deter
muito.
»
Com
efte
recado
deípedio
logo
ElRey
outro
ao
Governador
a
Ífaber
delle
os
par-
tidos
que
queria
que
lhe
fizeffem.
O
Gover-
nador
lhe
mandou
dizer
:»
Que
os
Principes
ytodos
que
eftavam
naquella
Ilha
fe
haviam
»
de
entregar
em
feu
poder,
com
lhe
elle
fe-
»
gurar
as
vidas,
e
que
então
fariam
as
pa-
»zes,
e
concertos,
que
foffem
licitos;
e
ho-
»neltos.
»
Sobre
ilto
foram,
e
tornaram
re-.
cados
apreflados
,
e
em
efperanças,
e
com
invenções
foi
ElRey
de
Tanor
entretendo
o
Governador
tres
dias,
e
ao
derradeiro
à
tar-
de
chegou
huma
embarcação
que
vinha
de
Coulão
,
por
dentro
dos
rios,
em
que
vinha
hum
Fidalgo
,
que
já
andára
na
Índia,
cu-
Jo
nome
nos
não
lembra
,
e
trazia
duas
car-
tas
do
Vifo-Rey
D.
Affonfo
de
Noronha,
gue
ficava
em
Coulão,
huma
pera
o
Capi-
tão
de
Cochim
,
e
outra
pera
Manoel
de
Soula
de
Sepulveda
,
porque
não
fabia
ain-
da
da
chegada
do
Governador
alli.
E
faben-
do
218:
ASTA
pe
Diogo
ne
Covro.
do-elte
Fidalgo
que
eftava
elle
alli,
foi
de.
mandar
o
feu
navio,
e
entrou
com
elle,
e
lhe
deo
razão
de
fi,
enovas
do
Vilo-Rey,
e
das
cartas
que
trazia,
O
Governador
ficou
fobrefaltado,,
pot-
que
receou
que
fole
aquillo
cauía
de
elle
não
dar
fim
a
huma
empreza
tão
honrofa,
e
mandou
chamar
o
Capitão
,
e
Manoel
de
Soufa
de
Sepulveda
,
e
abrio
com
elles
as
cartas,
que
com
poucas
paluvras
lhes
dizia
:
»
Que
elle
ficava
em
Coulão,
e
que
ao
ou-
»
tro
dia
feria
em
Cochim,
que
lhes
man-
»dava
que
entre
tanto
fobreeftivellem
no
»
negocio
que
tinham
antre
mãos
,
nem
fi
»zellem
paz,
nem
guerra
até
elle
chegar.»
As
novas
do
Vifo-Rey
logo
fe
efpalhá-
ram
por
toda
a
Armada,
e
começou
a
ha-
ver
na
gente
grande
alvoroço,
(porque
a
da
Índia
he
mais
amiga
de
novidades,
que
to-
das
as
do
Mundo.
)
O
Governador
ficou
ma-
goado
pelo
erro
que
tinha
feito
naquellas
di-
lações,
e
todavia
determinou
de
não
perder
aquella
honra
,
por
lha
não
vir
outrem
at-
rancar
das
mãos,
e
mandou
logo
chamar
to-
dos
os
Capitães
,
e
lhes
dife:
»
Que
em
quan-
»
to
elle
não
entregava
a
India
ao
Vilo-Rey,
»
todas
as
coufas
della
elavam
á
lua
conta,
»
como
quem
della
tinha
dado
a
menagem.
»
Que
bem
viam
todos
o
cabedal
que
efta-
»
va
mettido
naquella
jornada,
e
que
não
era
ras
Dzc:
VL
Lav.
VII
Car.
XII
219
yrazão
ficalle
fem
efeito
algum;
que
a
vi=
ptoria
eltava
certa,
eque-a
honra
della
era
»de
todos;
que
lhes
pedia,
e
rogava,
que
-»a
quizellem
ganhar
,
e
fe
fizeflem
preites
»pera
o
outro
dia
pela
manhã
darem
em
ter-
yra,
porque
fegundo
aquelles
Principes
ef
»tavam
medrofos,
e
faltos
de
tudo,
havia
yde
haver
pouco
que
fazer
em
ostomar
às
»
mãos;
que
trabalhaffem
todos
por
fazer
»com
que
os
Reynoes
quando
chegaffem
fi-
»
caflem
invejofos
de
à
fua
villa
ganharmos
ytão
grande
honta;
como
na
verdade
feria
ya
maior
de
todas:
as
que
fe
ganháram
na
»
Índia.
»
Todos
lhe
differam
que
eftavam
preítes
pera
o
acompanharem
,
e
que
lhes
parecia
mui
bem
fua
determinação.
Com
ifto
fe
def-
pediram,
e
foram
fazer
preftes
pera
o
ou-
tro
dia
de
madrugada.
Effando
todos
com
ele
alvoroço
,
quiz
Deos
(
que
nenhuma
coufa
faz
fem
caufa)
que
aquella
noite,
e
todo
o
outro
dia
folle
tanta
a
chuva
,
que
alagava
os
navios,
enão
havia
poger-fe
ac=
cender
murrão,
nem
cevar
elpingarda,
pe-
lo
que
deixou
o
Governador
de
defembar-
-
Car;
efobre
a
tarde
chegou
o
recado,
que
O
Vilo-Rey
era
já
chegado
a
Cochim,
que
acabou
de
defconfiar
o
Governador
daquel-
la
empreza.
Com
eítas
novas,
os
mais
dos
Capitães
tanto
que
anoiteceo
deixáram
o
Go-
ver-
220
ASIA
pE
Diogo
DÉ
Covro
“vernador
,
e
fe
foram
pera
Cochim,
fican-
do
elle
com
muito
poucos.
Vendo-fe
elle
aílim
atalhado
,
não
que
rendo
que
Manoel
de
Soufa
de
Sepulveda
ficafle
fem
fe
lhe
pagarem
as
muitas
deípe-
zas,
que
naquella
jornada
tinha
feito
á
fia
cufta,
e
dinheiro
que
tinha
empreftado
a
El.
Rey
pera
ellas,
o
mandou
chamar,
e
jun-
tamente
ao
Secretario,
e
T'hefoureiro,
€
fa-
zendo
diante
delle
conta
do
que
lhe
era
de-
vido,
feacháram
perto
de
feis
mil
pardos,
que
alli
lhe
mandou
logo
contar
,
e
fazet
fuas
Provisões,
e
papeis
correntes,
porque
fabia
quão
pouco
coltumavam,
os
que
fuc-
cediam
na
governança,
pagar
as
dividas
que
feu
anteceflor
tinha
feitas,
ainda
que
fejam
em
coufas
tão
importantes,
e
neceffarias,
E
todavia
mandou
que
fe
não
deixafle
a
guar-
da
da
Ilha
de
Bardela
,
encarregando-a
a
Ma-
noel
de
Soufa
de
Sepulveda,
até
o
Vifo-Rey
determinar
o
que
fe
havia
de
fazer
»
deixan-
do-fe
elle
alli
ficar
até
lhe
vir
recado
feu.
DE.
ni
dae
io
TE
Te
a
RS
ia
DS
de
SS
AT
SS
Rr
ei
E
sa
CI
toi
LUI
Ss
ESTA
po
bode
[6
pn
DR
q
E
Rea
ae
Je
qe
SM
pr
de
a
ARA
à
Se
Copa
ne
apa
aaa
pd
aut
a
Ha
aa
ae
Pe
a
aa
Per
Ra
2a
IR
8
DECADA
SEXTA.
EV
ROO)
seseÃ
Da
Hiftoria
da
India.
GEATETLUOLREOC
De
como
ElRey
D.
João
o
IH.
mandou
por
Vifo-Rey
da
India
D.
Aifonfo
de
Noronha
no
anno
de
1550:
e
do
que
lhe
aconte-
ceo
na
viagem
até
chegar
a
Cochim,
Era
Armada
de
Manoel
de
Mendoça
,
que
da
India
partio
em
Janeiro
de
qua-
renta
e
nove,
foube
ElRey
da
morte
do
Vifo-Rey
D.
João
de
Caftro,
que
fentio
muito
pela
perda
de
tão
bom
vaífallo
,
CTE-
cebeo
mui
bem
a
feu
filho
D.
Alvaro
de
Caf-
tro,
que
naquella
Armada
veio;
mas
toda-
via
os
merecimentos
de
feu
pai
,
e
feus
não
luziram
por
então
muito
nelle,
porque
an-
dou
muitos
tempos
aggravado
,
fem
lhe
re-
Iponderem,
até
que
depois
o
defpacháram
E
com
222
ÁSIA
DE
Droco
DE
Covtro
com
menos
do
que
merecia.
Mas
em
tem-
po
de
ElRey
D.
Sebaftião
veio
a
fer
Vea-
dor
da
Fazenda
do
Reyno
,
e
dos
principaes
do
feu
Confelho
de
Eftado,
(de
quem
fe
di-
zia
que
lhe
tinha
dado
Alvará
pera
feu
Ca-
mareiro
mór,
por
ter
partes
,
e
qualidades
pera
iflo.)
Sabendo
ElRey
que
ficava
no
go-
verno
da
India
Garcia
de
Sá,
que
era
mui
to
velho,
determinou
de
prover
a
India,
e
elegeo
pera
iflo
D.
Affonfo
de
Noronha,
fi
lho
do
fegundo
Marquez
de
Villa-Real
Dom
Fernando
de
Noronha,
a
quem
deo
o
tity-
lo
de
Vilfo-Rey
,
e
lhe
fez
outras
honras,
e
mercês.
Pera
efta
jornada
mandou
ElRey
ne-
gociar
fincó
nãos,
e
pagar
dous
mil
homens,
A
fama
defta
eleição:
correo
logo
pelo
Reyno
,
e
acudiram
à
Corte'
muitos
Fidal-
gos
pera
o
acompanharem
nella,
a
que
El-
Rey
deípachou,
e
fez
muitas
mercês;
e
os
que
achâmos
nomeados
são
eftes:
D.
Fernan-
do
de
Menezes
,
filho
do
Vifo-Rey
Dom
Antão
de
Noronha,
feu
fobrinho,
filho
de
feu
irmão;
D.
Garcia,
e
D,
Luiz
Tello
de
|
Menezes
irmãos,
filhos
do
Craveiro;
Gon
calo
Pereira
Marramaque
,
D.
Filippe
de
Cafe
tro,
Gafpar
de
Mello
de
Sampaio,
defpa-
chado
com
a
Capitanía
de
Goa;
D.
Marti-
nhoRolim,
D.
Francifco
Mafcarenhas
o
Pa-
Sia
aii
A
EA
id
XD
Ta
A
Desa
A
Sd
ma
lha,
D.
Rodrigo
Lobo,
filho
de
D.
Pedro
|
Lobo
;
que
faleceo
nefta
viagem
;
D.
a
noe
De
Vditv.
DEC
Are
o
noel
Mafcarenhas
,
Jeronymo
Barreto
Ro-
lim,
D.
Francifco
da
Cofta,
filho
de
D.
Al-
varo
da
Cofta;
D.
Antonio
Pereira,
filho
de
D.
João
Pereira;
Filippe
Carneiro,
filho
de
Antonio
Carneiro,
irmão
de
Pero
de
Alca-
cova
;
D.
Braz
de
Almeida
o
torto
;
Pero
da
Silva
de
Menezes
,
filho
de
Manoel
de
Magalhães,
Senhor
da
Nobrega;
D.
Affon-
fo
de
Monroy,
Francifco
Lopes
de
Soufa,
que
tinha
a
Capitania
de
Maluco;
D.
Braz
da
Silva,
Luiz
de
Soufa,
filho
do
Chancel-
ler
mór
do
Reyno;
João
da
Fonfeca,
Man-
teiro
da
Rainha,
que
levava
o
cargo
de
Veador
da
Fazenda
da
India;
Simão
Ferrei-
ra,
que
hia
por
Secretario,
e
outros
muitos
.
Fidalgos,
e
Cavalleiros.
Preftes
efta
Armada
fe
embarcou
o
Vifo-
Rey
em
Abril
;
mas
foram
os
tempos
tão
contrarios,
que
não
pode
fahir
pera
fóra
to-
do
aquelle
mez
,
e
ao
primeiro
de
Maio
dan-
do-lhe
jazigo,
fahíram
pera
fóra
quatro
nãos
;
S.
Pedro,
em
que
hia
o
Vifo-Rey;
Flor
de
la
mar,
de
que
era
Capitão
D.
Diogo
de
Noronha
o
Corcoz;,
irão
de
D.
Fernão
de
Alvarez
de
Noronha,
Capitão
geral
das
ga-
les
de
Portugal,
e
Sumilher
que
foi
de
Él-
Rey
D.
Sebaftião;
o
galeão
Bifeainho
,
de
que
era
Capitão
Lopo
de
Soufa;
e
a
não
Santa
Anna,
em
que
hia
D,
Jorge
de
Mene-
zes
o
Baroche.
A
outra
ndo,
que
era
o
ga-
re
leão
224
ASIA
pE
Droco
DE
CovTo
leão
S.
João,
de
Diogo
de
Caftro
do
Rio,
e
hia
por
feu
contrato,
de
que
era
Capitao
D.
Alvaro
de
Taíde
da
Gama,
filho
do
Con-
de
Almirante
,
que
deícubrio
a
India,
que
hia
provido
da
Capitanta
de
Malaca
,
não
pode
fahir
aquella
maré
,
e
mudando-fe
o
outro
dia
O
vento
,
efperou
até
dezoito
de
Maio,
em
que
fe
fez
à
véla,
tempo
em
que
todos
defconfiavam
de
ella
poder
paflar;
por-
que
das
nãos
que
partiram
diante,
arribáram
(poucos
dias
depois
delle
partir
)
o
galeão
Bifcainho
,
ea
não
Santa
Anna.
Mas
efte
Ca-
pitão
D.
Alvaro
de
Vaíde
da
Gama-com
partir
tão
tarde
teve
muito
boa
viagem
,
pot-
que
parece
que
aos
defcendentes
daquelle
va-
lorofo
Capitão
D.
Vafco
da
Gama
em
cer-
to
modo
reconhecem
os
mares,
e
os
ventos
alguma
vaflallagem
,
e
lhes
tem
acatamento
;
nem
fabemos
que
até
eita
hora
em
que
ifto
elcrevemos
,
aconteceíle
nefta
carreira
da
In-
dia
algum
naufragio,
ou
perigo
aos
defcen-
dentes
defte
valorofo
Conde,
paflando
por
ella
todos
os
feus
filhos,
netos,
e
bifnetos.
-
Às
nãos
palláram
quafi
a
hum
mefmo
tempo
o
Cabo
de
Boa
Efperança,
e
Flor
de
la
mar
tomou
logo
derrota
pera
Moçambi-
que
;
por
ir
falta
de
agua,
onde
fe
deixou
ficar
até
Março
,
em
que
fe
partio
pera
a
India,
como
adiante
diremos.
O
Vilo-Rey;
e
D.
Alvaro
de
Taíde,
fem
fe
verem,
tor
mas.
ve
Vlobiqi
XaCapolo
207
-mátam
a
derrota
por
fóra
da
Ilha
de
São
Lourenço,
e
pafláram
muitos
riícos,
e
tras
balhos
,
com
que
lhes
morreo
alguma
gente;
e
indo
demandar
a
coíta
da
India
em
Outu-
bro,
deram-lhes.os
Levantes
de
rofto,
de
feição,
que
foi
o
Vifo-Rey
defcahir
a
Cei-
ho,
e
D.
Alvaro
de
Taide
varou
por
fóra
da
Ilha
,
e
foi
tomar
Pegú
,
onde
fe
refez
“de
agua,
e
mantimentos.
O
Vifo-Rey
tan=
to
que
vio
terra,
dife
o
Íeu-Piloto
que
era
“da
cofta
da
India;
mas
João
Rebello
de
Li-
ma,
Piloto
affamado
que
alli
hia
por
paíla-
geiro
,
dille
que
a
terra
que
apparecia
era
Columbo
,
e
Ceilão.
O
Piloto
começou
a
porfiar
que
era
a
cota
da
India
;
e
eitando
nefia
contusão,
chegou
huma
embarcação
,
edifle
ao
Vifo-Rey
que
a
terra
que
appa-
recia
era
Columbo:
O
Piloto
-vendo
aquil-
lo,
como
era
havido
pelo
melhor
da
car-
teira,
ficou-tão
corrido
,
que
fe
metteo
no
leu
camarote,
e
em
tres“dias
morreo
de
nojo.
O
Vilo-Rey
mandou
governar
pera
Co-
lumbo,
e
furgio
fóra..
Os
da
terra
conhecen-=
doa
não
fer
do
Reyno,
foram
logo
a
el-
la
alguns
navios
,
que
alli
ficáram
da
com-
panhia
de
D.
Jorge
de
Caftro-;
e
fabendo
der
o
Vifo-Rey,
defpediram-logo
recado:
a
Cota
a
ElRey
,
e
a
Gafpar
de
Azevedo
;
Alcaide
mór,
que
logo
acudíram
a
Colum-
bo;
vindo
ElRey
muito
bem
acompanha-
Conto
Tom.III.P
al,
p
do,
226
ASIA
DE
Drodo
DE
Cotvro
do
,
que
mandou
vifitar
o
Vifo-Rey
com
muito
refreíco
,
e
algumas
peças.
O"
Vifo-
Rey
foube
de:
Gafpar
de
Azevedo
o
fucce-
dido
havia
pouco
a
D.
Jorge
de
Cafiro
,
(cos
mo
diffemos
no
Cap.
VI.
do
Liv.
VII)
e
as
guerras
que
o
Madune
fazia
a
feu
ir
mão
;
e
fabendo
fer
ElRey
em
Columbo,
defembarcou-nos
navios,
e
fe
for
a
terra
pera
je
ver
com
elle,
indo
acompanhado
de
tos
dos
os
Fidalgos.,
e
gente
da
fua
náo;
ere-
colheo-fe
emSanto
Antonio,
Mofteiro
dos
Frades
Menores,
onde
ElRey
fe
foi
vet
com
elle,
paifando-fe
de
parte
a
parte
grans
des
cumprimentos.
-
. |
vi
Alli
lhe
deo
ElRey
conta-de-fuas
cous
fas,
e
lhe
pedio:,
que
pois
era
vaffallo
de
ElRey
de
Portugal,
que
ordenaffe-as
cous
fas
de
módo
;
com
que
feguraffe
aquelle
Reys
no
de
feu
irmão:
que
otratava
mal,
ede
fejava
de-o
matar.
O
Vifo-Rey
lhe
dife,
que
elle
trazia
io
muito
encarregado,
eque
a
primeira
-confa-em
que
puzefie
as
mãos,
havia-de
fer
naquela;
e
a
voltas
diflo
lhe
pedio
duzentos
mil
pardáos
de
empreftimo,
de
que
fe
ElRey
efculou,
dizendo-lhe,
que
eltava
muito:
deípezo
por
caufa
das
guerras;
e
que
havia
pouco
gaftára
mais
de
fetenta
mil
pardáos
com:
D.
Jorge
de
Caftro.
O
Vie
fo-Rey
não-ficou
muito
contente
;
e
defpe
dindo-fe
delle,
fe
embarcou;
e
ElRey
lhe
ac
“
cdeo
Drc.
VI
Liv.
IX.
Carchk
22»
deo
pera
mandar
4
Rainha
naquellas
nãos
as
peças
feguintes.
|
Hum
colar
de
ouro
grande
com
perolas,
e
rubins
,
e
tres
cruzes
de
pedraria
no
pé
com
huma
grande
perola
em
baixo
;
outro
colar
com
rubins
,
hum
no
meio
grande;
ou-
tro
colar
de
ouro
com
alguns
rubins,
olhos
de
gato,
e
nomeio
hum
olho
de
gato
gran-
de
com
rubins
á
roda;
tres
braceletes
de
ou=
ro,
e
pedraria;
hum
annel
grande-com
hum
olho
de
gato,
e
rubins
á
roda;
hum
formo-
fo
olho
de
gato
Íolto
:
o
que
tudo
fe
car-
regou
fobre
o
Feitor
da
Armada,
e
aquel-
le
anno
foi
pera
o
Reyno.
O
Vifo-Rey
tam-
bem
levou
feus
brincos
;
e
antes
de-dar
à
véla,
fe
foi
ver
comelle
hum
filho
do
Ma-
dune,
Rey
de
Ceitavaca
,
e
o
que
paflou
como
Vifo-Rey:
não
fe
fabe.
Depois
de
o
ouvir
deo
4
véla
pera
Cochim.
ElRey
da
Cota
vendo
como
o
Vifo-Rey
fe
apartára
delle
defgoitofo.,
deípedio
nas
luas
coftas
hum
Bragmane
Pandito
com
quin-
ze
mil
pardáos
,
que
lhe
mandava
de
pre-
fente.
O
Vifo-Rey
chegou
a
Coulão,
e
al-
li
fouhe
do
ajuntamento
dos
Principes
Ma-
lavares
em
Bardela:,
pelo
que
defpedio
a=
quella
embarcação
com
as
cartas
que
atrás
diffemos
no
derradeiro
Capitulo
do
oitav
o
livro.
Ao
outro
dia
depois
da
tempeftade
,
(por
cuja
caufa
Jorge
Cabral
deixou
de
dar
En
na
“228
ASIA
pe
Droco
DE
Covo
ma
Ilha,)
fúrgio
o
Vifo-Rey
na
barra
de
-
Cochim,
e
foi
recebido
em
terra
muito
bem.
dorge
Cabral
o
mandou
vifitar
por
D.
Jor
|
ge
de
Caítro
,
feu
tio
meio
irmão
de
fua
mãi,
e
elle
lhe
pagou
a
vifita
por
hum
Efcudei-
To
feu,
por
quem
lhe
mandou
dizer
,
que
fe
fofle
pera
Cochim,
e
deixaile
fobre
a
Tlha
Manoel
de
Soufa
de
Sepulveda
com-os
ria
vios
de
remo.
O
Governador
aflim
o
fez
Ré
defembarcou
em
Cochim;
e
foi
vifitar'o
Vi
fo-Rey
,
que
o
recebeo
feccamente:;
e
alli
“lhe
fez
entrega
da
India,
e
fe
recolheo
pe-
ra
jua
cafa
,
mandando
logo
navios
a
Goa
em:
bulca
de
fua
mulher
pera
fe
embarcar
pera
o
Reyno,
correndo-[empre
muito
bem
como
Vilo-Rey;
porque
como
fe
não
re-
<eava;
de
coufa
alguma;
não
quiz
quebrar
com
elle,
foffrendo-lhe
algumas
coulas,
de
que
outros
houveram
“de
lançar
mão:
pera
queixas
,
(porque
he
mui
ordinario
em
al-
guns
Governadores
que
acabam,
quebrarem
de
induítria
com
os
que
lhe
fuccedem,
pe-
ta
lhes
ficarem
fufpeitos
nas
coufas
que
del-
les
elcreverem.)
vo»:
|
:
O
Camorim
tanto
que
foube
da
chega
da
do
Vifo-Rey
;
lhe
mandou
Embaixado-
tes;
que-tratáram
com
elle
de
pazes,
que
lhe
elle
concedeo;
e
não
achámos
com
que
fun-
damentos,
nem
a
fubftancia
dellas.
Sómen-
tc
nos
dificram
algumas
pefloas
,
que
ficou
E
|
O
Det
VE
Eags
dk:
CARO
229
o
Camorim
de
defiltir
do
direito
,
e
perfi-
lhação
que
tinha
feita
com
o
Rey
de
Barde-
la,
e
que
daria
dous-Principes
em
refens;
até
fe
fahirem
os
que
eftavam
naquélla
Ilha,
que
ficaria
a
ElRey
de
Cochim.
Com
ilfto
mandou
o
Vifo-Rey
recolher
Maroel
de
Sou-
fa
de
Sepulveda
,
e
os
Principes
Malavares
fo
foram
da
Ilha,
e
o
Camorim
fe
foi
pe-
ra
Calecut.
ERR
O
td
D.
Alvaro
de
Taide
da
Gama,
Capitão
do
galeão
S.
João,
que
foi
tomar
Pegú,
de-
pois
de
tomar
agua
,
e
mantimentos,
deo
á
|
vela
pera
a
India
,
e
foi
tomar
a
ponta
de
Cale,
onde
furgio
,
fendo
entrada
de
No-
vembro,
e
alli
defembarcou
em:
terra
pera
curar
os
doentes,
porque
eftavam
alli
Por-
tuguezes,
e
Frades
de
S.
Francifco
com
hu=.
ma
cafinha
pequena.
Alli
fe
deteve
todo
o
-
mez
de
Novembro,
fem
lhe
dar
dos
mui-
tos.
requerimentos
que
lhe
fez
Manoel
de
Caftro
,
procurador
de
Diogo
de
Caftro,
cujo
o
galeão
era.
Paflado
o
mez
fetornou
a
em-
barcar
,
foi
tomar
Cochim
a
treze
de
De-
zembro,
e
por
não
fer
já
tempo:
pera
o
ga-
leão
ir
pera
o
Reyno
,
e
haver
mifter
con-
certo,
o
mandou
pera
Goa,
e
fe
recolheo
em
Goa
a
velha,
onde
invernon,
e
fecon=
Certou.
Seo
CAs
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