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Da Asia de Diogo de Couto : dos feitos que os portuguezes fizeram na conquista e descubrimento das terras e mares do Oriente : decada sexta, parte segunda

Couto, Diogo de

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parse AoA Ae ES Rr esa es Esdos erica gica DA ASIA | | D E DIOGO DE COUTO Dos reiTos, QuE OS PORTUGUEZES FIZERAM NA CONQUISTA, E DESCUBRIMENTO DAS TERRAS, E MARES DO ORIENTE. DECADA SEXTA ida PARTE SEGUNDA, LISBOA Na Recta OFFICINA TrroGRAFICA, ANNO M:DCCGLXXXI. Coni Liceriça da Real Meza Genforia ; e Privilegio Real, ra = ” E EEE TAS INDICE “DOS CAPITULOS, QUE SE CONTÉM ams NESTA PARTE IL D A sD-E-GA DA VE EAV RO VI (= TI. De como os naturaes da Ci- dade de Adém fe confederdram com ElRey de Camphar , e lhe entregá- ram aquella Cidade: e do recado que man- dáram a Ormuz , e a Goa a pedir foc- corro. Pag. 1. CAP. II. Decomo D. Paio de Noronha def- pedio recado ao Governador D. Soão: de Cafiro: e de como ElRey de Camphar foi foccorrer o filho; que tinha os Turcos cer> cados: e do que mais fuccedeo. IO. CAP. HI. Decomo EiRey de Campher com- metteo os: Turcos : e de como foi morto em bum afjalto, e os Turcos foram cer» car q Cidade de Adém «cedo mais que = lhe acontecto. E 15. CAP. IV. Do recado , que o Governador D. João de Cafiro teve de Adém: e co- mo mandou few filho D, Alvaro de Caf tro de foccorro: e das galés dos Turcos, que Jabiram de Moçá emfavor dos feus : e do que D. Paio fez. Dao | a CAP. INDICE CAP. V. De como D. Paio de Noronha fe. foi fecretamente de Adém : e os Turcos entráram aquella Cidade, ematáram ao Principe, e feus irmãos :'e do que acon- teceo. a D. João de Taide na joruada: e de como os Turcos lhe corréram. 30. CAP. VI. Decomo D. Álvaro de Cafiro ches. gou aos Ilheos de Canecanim , onde foube a perda da Cidade de Adém: e de como “foi fobre a fortaleza de Caxém, e a tos 0/1072 38. CAP. VI. Do Armada de Lourenço Pires de Tavora, que chegom ao Reyno com-as novas da vitoria de Dio: e das ndos que EIRey dejpedio em Outubro: e des hom- ras , emercês que mandou ao Governa- dor D. Soho de Cafiro, 49. aê VHL. Que contéma cópia das cars » que ElRey D. Foão ; e o Infante D. Luis Seu irmão eferevéram ao Vifo- Rey D. Soão de Cafiro. 55 CAP. IX. Decomo o Fifa-Rey D. soão de “= Cafiro adoeceo : e de huma -notavel falla . “que fez aos Officiaes de ElRey fobre fua . “pobreza : cede como faleceo : e em que tempo: e das partes, e qualidades de Ss fua pela : es 62. LI- DOS CAPITULOS. E dA aa SER, asi AP, 1. De como por morte doViloRey D. João de Cafiro fuccedeo Garcia de Sá: e das. pazes que fez com o Idals - sENG: Pag.73. CAP. II. De como matáram em-Dio Luiz Falcão, Capitão daquella fortaleza: edas Armadas. , que ElRey defpedio pera a India. = SST O CAP. IH. De como vefia Armada do-anno de 1548. deque era Capitão-mor Manoel de Mendoça ,- trouxeram os Padres da Companhia huma cabeça das onze mil Virgens, que foi muito bem recebida em Goa : e-das novas que o Governador Gar- cia de Sá teve de Dio, e defpachou Mar- tim Correa da Silva pera aquella forta- teza: edos Embaixadores que a Goa vie- tam dos Reys vizinhos. j ER CAP, IV. De como o Governador Garcia de dá partio pera o Norte: e das pazes que fez com ElRey de Cambaya ,.e man- dow Francifco de Sá a Surrate. 88. CAP. V. De como ElRey de Tanor ma cof ta do Malavar fe fez Chriftão, e veio à | Goa: e do grande recebimento que fe lhe eae j ST RABA EB 2; CAP: VE: Das confoss que acontecêrcia a TE * Ui Fran- INDICE EFrancifco de Sá em Surrate com bumas uios de Mouros : e de como o Governa- dor Garcia de Sá defpachom as coufas. de Maluco: e do cafamento de duas fi. lhas. 106. CAP. VH. Das confas ; que acontecéram em Ormuz mo alevantamento de Bislalá : e de como D. Manoel de Lima o mando matar. IO. CAP. VHI Do que aconteceo a Diogo Soa- “ves de Mello em Pegil: e de como foi em companhia daquelle Rey contra o de Sião: e do poder , eftado , e ordem com que ef: te Rey caminha : e do que lhe aconteceo até chegar a Sião. Erss CAP. IX. Da deferipção da Cidade de Sião: e de como o Bramá a commetteo, fem fa- ser confa alguma: e de como for contra a Cidade de Comambee. | 159% CAP. X. De como faleceo o Governador Gar cia de Sá : e des partes , e qualidades ei da 133. ETUURO q é ABRI. De como por morte do Governador 4 Garcia de Sá Juccedeo no governanço «da India forge Cabral: e da Armada que | > efte aumo de 1549 partia do Reyno , de que . es era ( Dos CAPITULOS, era Capitão mor D. álvaro de Noro- nha. Tas: CAP.II. De como o Rey da Pimenta fe paf- Sou à parte do Camorim , perfilhando-fe com elle : e do recado que o Governador teve diijo. E 143 CAP. III. De como o Governador forge Ca- bral partio pera Cochim: e das confas que paljiram naguella Cidade, em quan- to nella efieve: e de como ElRey da Co- ta lhe mandou pedir foccorro contra o Madune. 148, CAP. IV. De outro recado que o Gover- nador Jorge Cabral teve de Ceilão do Principe de Candea: e de como D. For- ge de Cafiro partio pera Ceilão: e do que o Governador fez em Cochim até fe re- colher : eo que aconteceo a Bafiião de Só mo Malavar. 154. CAP. V. De como o Governador forge Ca- bral defpachou D. Alvaro de Noronha pe- ra entrar na fortaleza deOrmuz: e da Armada que mandou em fua companhia , de que fu por Capitão mór Luiz Figuei- ra: e das novas que a Goa vieram de galês: e de como o Governador mandou Gonçalo Vaz de Tavora « efpiallas: e da Armada que mandou a Maluco, de que foi por Capitão mir D. Rodrigo de Me- NeXES, - 159. ia CAP, INDICE CAP. VI. Da difimulação com que FIRey de Candea mandou pedir a D. Jorge de Cafiro Padres pera fe fazer Chriflão: e de como lhe mandou dous, e com elles o Capitão Fraucez: e do que lhes Juccedeo na viagem. 165. CAP. VII. De como ElRey da Cota, e Dom Jorge de Cafiro partiram pera Ceitava- ca: e dos fitios dos fortes que por efe caminho acháram : e de como os ganhá- ram, e desbaratáram o Madune , e lhe tomáram a Cidade de Ceitavaca. 169, CAP. VII, De como o Rey da Pimenta fê tornou pera o feu Reyno: e de como o Ca- pitão de Cochim o foi bufcar a Bardela: e da grande batalha que lhe deo, em que elle, e ElRey de Bardela morréram. 180. CAP. IX. De como o Camorim paffou aa Reyno da Pimenta pera tomar polfe del. de, por lhe pertencer pela perfilbação: & - de como Fernão Rodrigues de Mari pars tio pera Goa va mez de Sunho com no- vas das galés : e da efpautofa viagem que fez. 7 187. CAP. X. Das coufas, que acontecéram em Maluco até chegar Jordão de Freitas: e de como Bernaldim de Scufa entregou a fortaleza a Chriftovão de Sá : e de ou- tras confas que mais palláram. 195 CAP. XI, Das coufas , que o Governador For Dos CAPITULOS. Forge Cabral fez emGoa: e de como lhe vieram novas, que as galês fetorndram a defarmar, e defpedio Manoel de Soufa de Sepulveda pera Cochim: e de como cer- cou os Principes Malavares na Ilha de Bardela : e do que mais fuccedeo. 201. CAP. XII Dogue aconteceo a Luiz Figuei- ra com bumas galés de Rumes: e de co- mo foi aoCinde, e javoreceo aquelle Rey contra os Nautaques: e da deforaça que “lhe aconteceo. 206. CAP. XHI, De como o Governador Jorge Cabral partio pera Cochim , e de cami-. nho defiruio as Cidades de Capocate, Ti- racole, Coulete, e Panane: e de como ef- tando pera dar em Bardela , lhe deram povas que era chegado o Vifo-Rey Dom Aronfo de Noronha, É 210. LIVRO IX (e AP. T. De como ElRey D. Foão o III, 4 wiandou por VifoRey da India Dom «Aijonfo de Noronha mo auno de Isso : € do que lhe aconteceo na viagem até che- gar a Cochim. 2a CAP. TI. Dealgumas coufas, em que oVi- Jo-Rey D. Affonfo de Noronha provéo em Cochim : e da Armada que mandou ao Elireito, Jobre que houve diferenças an- tre FN'D'I CE tre D. Seronymo de Cafr pubsbraos 6 D. Fernando de Menezes , filho do Vifo- Rey: e da grande vitoria que os mofos “houveram em Cochim de fima de oito mil Nayres “moncos : e de como Jorge Ca- bral fe embarcou pera o Reyno: e das partes, e qualidades de jua peljoa. 230. CAP. 01. Dogue aconteceo a Luiz Figuei- va no Efireito do mar Roxo: e de como encontrou o Turco Cafdr com as fuas ga- teotas : e de como de defconfiado inveftia a Capitania : e de como foi morto , e o “fez navio tomado. 236. CAP. IV. De como os Turcos tomdram a fortaleza de Catifa : e de como o Vifo- Rey D. Affonfo de Noronha mandou Dom “Antão de Noronha com buma grofja Ar- mada pera a tornar a cobrar: e dos mais Capitães que defpachou pera fóra : e de como D. Diogo de Noronha fe perdeo no rio de Mazagão: e do que lhe aconteceo ate vir a Goa. 243 CAP, V. Da liga que ElRey de Viantena convocou contra a fortaleza de Malaca: e da difjimulação com que mandoy vzfi- tar o Capitão. D. Pedro da Silva da Gas ma. AÇO CAP. VI. De como os Reys da liga def- embareáram em Malaca , e ganhdram as povoações defóra, e queimiram as ndos q, pos CAPITULOS. que eftavam mo porto: e do que fez o Cas “ pitão D. Pedro da Silva da Gama. 257. CAP.VII. De como os inimigos começáram a bater a fortaleza : e de como chegou a ella D. Garcia de Menezes: e de hu- ma fabide que fez aos inimigos, em que o matdiram. Es 263. CAP. VII. Doque aconteceo ao homem que levor o recado do cerco de Malaca: e de como Gil Fernandes de Carvalho, que ef- tava em Quedá, fe fez preftes pera a ir foccorrer : e como efte recado chegou ao porto grande: e dos foccorros que fe ajun- tiram: e das confas que fuccedêram em Malaca vefte cerco. 270: CAP. IX. Do grande affalto que os Mou- ros deram à fortaleza ; de que fabirana desbaratados : e do que-os inimigos de- termindram em damno da fortaleza : e de outro grande confelho que deo o mef- mo homem contra o intento dos ININUÇOS ; pelo-que fe alevantáram os Malaios do «cerco, e ficáram os fáos: e de como Gil Fernandes de Carvalho chegou a Malas ca, e deo batalha aos inimigos em que "os desbarator. “279. CAP. X. Do que aconteceo na jornada « - D. Rodrigo de Menezes até chegar a Maluco: e-das diferenças que Bernals aim de Soufa teve com Chriflovão de Sá fo- EnsDI-CE fobre aquella Capitania: e de como Ber. -naldim de Soufa foi cercar afortaleza de Geslolo : e do que lhe aconteceo na def: embarcação. 290: CAP. XI. Do fitio , e fortificação da for- taleza de Geilolo, e de como os noflos a batéram : e das confas que fuccedéram no cerco : e dos ardis de que ElRey de Tidore ufou pera ver fe deixavam os noflos o cerco. | 299. CAP. XII. De como Bernaldim de Soufa to- “mou bum poço de agua , de que os cer-. cados bebiam: e de como por falta delle Je entregáram a partido. 309. CAP. XHI. De comoo Capitão entrou na fortaleza de Geilolo, e das ervezas que Je uella fizeram: e de como fe derribou: “me das mais confas que fuccedéram. 317, CAP, XIV. Do que-atonteceo a D. Antão de Noronha na jornada de Catifu: e de como bateo. aquela fortaleza , e os Tur- “cos a defpejáram, e do defafire que alli aconteceo aos nofjos. | 22% CAP. XV. De como D. Antão de Noronha “for ter a Bacorá, e entrou o vio Eufra- tes , e tomou huma fortaleza aos Tur. cos: e docardilde-queo Bexá ufom pe- “ra a nolja Armada fe recolher. 333. CAP. XVI. Daguerra que o Madune tor-. von a fazer ao Rey da Cota : e de co- ss mo pos CAPITULOS. mo matdiram elle Rey por defafire: e da Armada que efe anno de fincoenta e bum “partio do Reyno, de que era Capitão mor Diogo Eopes de Soufa : e de como o Vi- Jo-Rey D. Affonfo de Noronha partio pe- ora Ceilão. 238. CAP. XVIL De como oVifo-Rey Di Afon- Jo de Noronha defembarcou em Columbo , efe vio como Rey da Cota : e do com certo que ambos fizeram contra o Madu- ne: e de como o desbaratáiram, , e tons “vam a Cidade de Ceitavaca. 345 CAP, XVHI. De como D. Antão de Noro- aba veio de Ormuz , e foi por Capitão mir ao Malavar, e doque lhe aconteceo: “e das coufas em que o Vifo-Rey provea em Ceilão : e de como foi a Cochim, & deo no Chembe : e do que alli lhe fucce- “deo, ssa. CAP. XIX, De como D. Fernando de Me- vezes filho do VifoRey foi invernar a Cochim e de como Francifio Lopes de Sonfa foi entrar na: Capitania de Malu- "co: e das confas que o Vifo-Rey DAf fonfo de Noronha ordenou deerea do cra- “vo: e do que fuccedeo em Ceilão; 360. CAP. XX. De como Bernaldim de Sowfa foi contra ElRey de Tidore, e lhe fez der- ribar a fortaleza ve das defavenças que teve con D. Rodrigo de Menezes: e das ee a COM ÍNDICE coufas, que mais fuccedêram até fe emp “barcar pera a India. 266, CAP. XXI. Do que aconteceo ds ndos que partiram pera o Reyno: e da defaven- turada perdição do galeão 8. João ma cota da Cafraria. 379. CAP. XXIT. Do que fez Manoel de Soufa - de Sepulveda depois de eftar em terra : e do que lhe aconteceo no caminho: e da muita piedofa , e laftiimofa morte de fua mulher , e filhos: e de como cile fe met- tco pelo mato, onde defappareceo. 386, LIVRO X. AP. IT. De como o Turco mandou bu ma Armada de vinte e finco galés, de que era General Pirbec, pera Baço- rd: e do que aconteceo a algumas ga- Jês com os uollos navios vaquelle Eftreis Os “Pages 404 CAP. TI. Decomo Pirbec paflow pera Ma: — cate :-e-como o Feitor de Calayate par-. tio com recado pera Goa: e-de como os Turcos defembarciram em Mafcate : € do cerco que puzeram à fortaleza : e de como os de dentro fe lhe entregáram a “partido. 411. CAP. IH. De como a Armada dos Turcos chegou a Ormuz : edo cerco que puze. Eos ram Dos CAPITULOS. “ram à fortaleza: e do que aconteceo em todo o difcurfo delle. MIS CAP. IV. De como os Turcos alevantáram o cerco : e dos recados que palláram an- tre Pirbec ,.e o Capitão : e de como os imimigos faquedram a Ilha de Queixo- me. 423: CAP. V. Do recado que chegou a Goa das galés: e de como D. Diogo de Noronha o Corcós, e D. Antonio de Noronha par- tiram pera Ormuz em duas fultas: e de como o Vifo-Rey D. Affonfo de Noronha Je preparou pera ir em pefjoa ao foccor- ro : e da falla que fez na Camara de Goa ; pedindo-lhes ajuda , e emprefBi- mo. . fot CAP. VI. Da Armada que efe amo de — Jincoênta e dous partio do Reyno , de que era Capitão mór Fernão Soares de Alber- garia : e de como o VifoRey D. Afon- jo de Noronha fe embarcou pera Ormuz: edas novas que no caminho teve das ga- “dês ferem recolhidas : e de como defpedia D. Autão de Noronha com huma grofa “rmada pera aquella fortaleza : e de co- mo mandou Francifco Barreto com poderes de Governador a Cochim à fazer acar- $a das vdios do Reyno. 43% CAP. VIL De como Diogo de Mello Gde pitão de Ceilão, prendeo Tribuly Pandar pas INDICE pai de EiRey : e das confas que nele tempo acontecéram em Malaca no prin cipio da Capitania de Dom Álvaro de Taíde. 441. CAP. VIIL Das coufas , que acontecêram a Francifio Barreto emCochim: e de cos mo D. Pedro da Silva, e Bernaldim de Souja chegáram aGoa: e do que oVaifa- Rey D. Afonfo de Noronha fez. ago: CAP, IX. De huma Armada de Malavas res, que foi à cofia da Pefearia, e dos damnos que por-ella andou fazendo: € de como Gil Fernandes de Carvalho ar mou alguns navios á fua cufia, e a foi bulcar: e de como encontrou efia Armas da , e pelejou comella, e a desbaratou , e tomo. 7 E 456. CAP. X. Do que aconteceo a D. Antão de “Noronha na jornada até Ormus : e do. que fez Pirbec tanto que chegou a Baço- rá: e do que mais palou D. Antão de — Noronha , até entregar a Armada a Dom. Diogo de Noronda. 465: CAP, XL. Decomo Francifco Lopes de Sou- fe chegou a Maluco, e das coufas que fez: e de como faleceo : e das differem “ças que houve fobre quem fuccederia na “quella Capitania: edes coujas que fobre sho fez o Rey. E = dio CAP, XIL Das coufas que efe anno acons a Ze pos CAPITULOS. tecêram em Ceilão : e de como Tribuly Pandar , que eftava prezo, fe fez Chri- São , efugio da prizão : e dos damos que fes, e de outras coufas. 478. CAP. XHI. De como o Turco teve recado do Baxá de Baçorá, das coufas que Pir- bec fez em Mafcate, cOrmuz: e de co- mo mandou Moradobec , que lhe tornaflê quinze galés ao porto de Moçá: e de co- mo Pirbec chegou d Corte, e o Turco lhe mandon cortar a cabeça: e de como Dow Diogo de Noronha fe encontrou com Mo- radobec: e da muito notavel batalha que as galés tiveram com o galeão de Gonça- lo Pereira Marramague. 485. CAP. XIV. Da Armada que efte auno de fincoenta e tres partio do Reyno, de que era Capitão mór Fernão de Alvares Ca- bral: e das confas em que ElRey man- dou prover: e de como 0 Vifo-Rey D. Af- Jonfo de Noronha partio pera Cochim. 494. CAP. XV. Dealgumas coufas que aconte- céram ao Vifo-Rey D. «dfonfo de Noro- nba até chegar a Cochim : e dos confe- lhos que tomou fobre der mo Chembe a de como fe ajjêntou darem mas Ilhas ala- gadas, e de como as defiruiram. sor. CAP. XVI Das revoltas que houve no Reyno de Cambaya por morte de Soitão Mabamude: e de como D. Diogo de Al- WEZ Inpice pos CAPITULOS. “gmeida deo na Cidade de Dio; é a def: Êruio. | e 508, CAP. XVII. Das pazes que o Vifo-Rey. D. Afonfo de Noronha fez com o Rey de Chembe : e das ndos que partiram pera o Reyno: e de como fe perdeo a ndo São Bento na cota da Cafraria. “ST 8 CAP. XVII. Dascoufas ,emqueo Vifo-Rey D. Áfonfo de Noronha proveo: e de conio mandou feu filho D. Fernando de Menezes com buma drmada ao Efireito: e da fen- zença que fe deo contra D. Álvaro de Tui- de, Capitão de Malaca : e dos Capitães que foram entrar em uas fortalezas : é do que aconteceo na jornada a D. Francífio de Menezes até chegar a Ormuz. 520: CAP. XIX. De como D. Diogo de Noronha , Capitão de Dios, tomou a fortaleza aos Mouros: e da gente que Abifcam mandou de Joccorro: e do recontro , que com ella teve Fernão de Caftanholo , em que fot morto com dezefete foldados : e de como D. Diogo de Noronha acúdio , e lançou os Mouros fôra da Ilha. 529 CAP. XX. De como o Turco mandou outro Capitão , chamado Alecheluby , por lhe levar as galés de Baçorá a Suez : e de como fabio de Baçorá, e feencontrou com a Armada de b. Fernando de Menezes e lhe tomou feis galés. “537 o -— DES : E ecrã Es EA RS E JR SU RM JE ; hs EO eai es, INS a ta Va ia o RR oheolovtueto deste onto ofooth ato vie ato ojrafosfofo fo fo tr ato oferta fo ofoofs efe stoafo ate fo ofonto sfo ota elo nfo to DECADA SEXTA. EIVRO VI Da Hiftoria da India. SO CAP TT BODE De -como os naturaes da Cidade de Adém Se confederdram com ElRey de Camphar:, e lhe entregáram aquella Cidade : e do recado que mandiram a Ormuz, ea Goa “a pedir foccorro. sa 7 O Cap. IV. do V. Liv. da quins | ta Decada fica dito, como o | Baxá Soleimão Eunuco:, des | pois de fe levantar desbaratas | do de fobre Dio, fugindo á io TT Armada Portugueza -, fora ter à Cidade de Adém , onde deixou por Ba- xa Mir Mollafá:, torto de bum olho, com quinhentos Turcos de guarnição. Em feu lu gar Íuccedeo: depois outro Baxá ; chamado Marzão., homem tambem mão, e perverfo;, Conto Tom.III Pal. A. co- 2 - ASIA pe Drogo DE Couro como todos os Turcos o são. Elle com to- dos os-mais ufando de fuas-naturezas , af “fim avexáram, maltratáram , e perfeguiram “aos naturaes, e moradores daquella Cidade, affrontando-os em. fuas mulheres , e filhas, que de não poderem já fofirer mais, tratá- ram de facudir do pefcoço tão pezado ju- go., e izentarem-fe de tão tyrannica fervi- dão; e pera illo fe carteáram em muito le- gredo com Alibem Soleimão, Rey de Cam- phar feu. vizinho , promettendo-lhe entrada dentro na: Cidade , e de: o levantarem por feu Rey. Por tal modo tratáram elte negos cio, que lhe-deo ElRey orelhas, e lançou mão dos cumprimentos. E ordenado antre el- les o modo “que fe havia de-ter, depois de tudo aflentado, partio ElRey de Camphar com mil homens do Ífeu Reyno , que dei- xou entregue a feu filho mais velho , levan- do comfigo dous que tinha mais ; hum le- gitimo, moço detreze, Ou quatorze annos; e outro: baftardo de vinte e dous, homem mui formofo, e bem diípofto, e de muito bom entendimento; e tal ordem teve na jor- " nada, que chegou de noite a Adém , e foi demandar a porta por onde havia de entrar a Cidade, onde já os conjurados o efpera- vam, que o mettêram dentro: fem ferem fen- tidos. Elogo commettêram o Caftello, que foi entrado a pouços golpes, e mortos Os É Ras que, “Dec VE Er VISE Ar 4. 3 que nelle eftavam de guarnição , e cativos “vinte e finco Turcos, os mais delles bom- bardeiros, ficando fenhor do Caftello. O Baxá Marzão tanto que Íentio o re= boliço, ajuntou os Turcos, que feriam per- to de quinhentos, e fe fez forte em feus Pa- ços , porque não fabia o que aquillo era , e alli elleve até amanhecer. ElRey de Cam- phar, que eftava no Caftello, paffada a noi- te, le poz em ordem pera ir dar batalha ao Baxá , porque já fabia que eflava forte nos' Paços, mandando-lhe diante hum reca- do, em que lhe fazia a faber , como fora chamado dos moradores daguella Cidade pe- ra feu Rey; que fe quizefle, que fé viffem ambos em campo , e que fe averiguafle a- quelle negocio por armas em huma batalha campal, que eftava preítes pera illo. E que fe tambem lhe quizeíte largar aquella Cida- de, que era fua, que elle lhe dava licença pera fe poder fahir della livremente com fuas “mulheres, filhos, armas, etudo o mais que comíigo pudeflem levar. se Dado efte recado ao Baxá, como elle, e todos ellavam medrofos , aflentáram dei- -xar a Cidade, como logo fizeram, levando cada hum o que pode, ficando ElR ey de Camphar fenhor de tudo, e havido de tos dos os natúraes por Rey. E logo mandou fortificar a Cidade, e proveo os paílos , e | e Ai | ba- 4 ASIA pe Diogo DE Covro baluartes de gente de guarnição , porque bem entendeo que os Turcos não eram hos mens , que diflimulavam com affrontas. O Baxá Marzão com todos os feus fe foram metter em huma fortaleza, que eftava pera o certão, quali oito leguas, donde fahia tos dos os dias.a dar vilta à Cidade., occupans do-lhe os campos todos, e tomando-lhe os paílos do certão , pera que lhe não pudef: | fem entrar mantimentos, no que lhe deo grande trabalho. Vendo ElRey que daquel- la maneira ficava arrifcado a huma defavene tura, e fome , chamou a confelho os mos radores de Adém , e praticou com elles o modo que fe podia ter pera os Turcos os. não :nquietarem , nem pôrem de cerco, pors que hia já fentindo a falta de tudo. - É praticando fobre ifto, foram os mais de parecer, que mandaílem a Ormuz a pe- dir foccorro aos Portuguezes, e que fe lhes promettefle a fortaleza , pera com feu fas vor, e protecção ficarem Ífeguros dos Tur- cos. E que entre tanto mandafle recado a feu filho , que ficava em Camphar, que a- “Juntafle toda a gente que pudefle , e fofle cercar a fortaleza dos Turcos, e trabalhaf fe pela tomar, primeiro que foflem foccore ridos de Baçorá. Pareceo-lhe a ElRey mui to bem aquelle confelho, e com muita pref fa efcreveo a feu filho , que ajuntafe a - Mu Dee VI btv VIC apl 3 mil homens , e foffe cercar os Turcos , & fe não levantalle de fobre aquella fortaleza fem lha tomar ; e juntamente defpedio hu- ma terrada com cartas ao Capitão de Or- muz, emque lhe pedia o mandaffe foccor- rer , offerecendo-lhe os partidos que difle- mos da fortaleza da Cidade, e Alfandega della. a O Principe de Camphar em lhe dando as cartas do pai, ajuntou logo tres mil ho- mens muito bem negociados, e foi com el- les marchando pera a fortaleza, em que os Turcos eftavam , que tendo aávifo de fua ida; ferecolhêtam dentro, é fe fortificáram. O Principe lhe poz cerco; mas por fer man= cebo., e pouco experimentado , deixou de to- mar a fortaleza nos primeiros dias. Os que levavam o recado pera Ormuz , foram to- mar Caxém pera fazerem agua; e fabendo aquelle Rey. como hiam bufcar os Portugue- zes pera lheentregarem a Cidade de Adém;, como era grande inimigo dos Turcos, por ferem aborrecidos de todos , e era muito ami- go dos Portuguezes, defpedio logo trezen- tos Fartaquins em foccorro de Adém, man= dando oferecer a ElRey de Camphar tudo O que mais houvefle milier até os Portugue- zes chegarem. Eites chegáram em poúcos' dias áquella Cidade ; onde foram mui bem' tecebidos de ElRey , e póltos nos mais im> por- 6 ASIA pe Droco DE Covro. - portantes , e principaes paflos , e baluartes pera fua defensão. à A terrada que hia pera Ormuz , entrou em breves dias do Cabo de Refolgate pera dentro no mez de Outubro paílado., e-alli encontrou D, Paio de Neronha, que andas. va por Capitão mór daquelle Eftreito com doze navios de remo. E fabendo do Embai- xador de ElRey de Camphar ao que hia a Ormuz , defpedio huma das fuftas da fua Armada em fua companhia, com cartas 20 Capitão D. Manoel de Lima, em que lhe pedia por mercê, que fe elle não havia de ir em peíloa áquelle negocio , lhe déffe lie cença pera o fazer com aquella Armada que trazia, Chegado efte recado a Ormuz , -pa- receo-lhe ao Capitão elte negocio duvidofo; e houve que não poderia ElRey de Cam- phar fuftentar-fe contra os Turcos, porque. eltava certo acudir-lhe foccorro de Baçora ; e que fe fe metteíle cabedal naquella jorna- da, eltava arrifcado a fer de nenhum effei- to: pelo que logo deípedio o Embaixador de ElRey , e a fulta de D. Paio , a quem elcreveo, que foíle em companhia do Em- baixador de Adém , em dous navios quaes elle eícolhelle, e os mais deixafle em guar-. da daguelle Eltreito ; e que fe achafle ain- da ElRey de Camphar naquella Cidade, que. fe meitele dentro com fincoenta homens, por- Deco Vl Liv: VI CART PO porque ellés baftavam pera fe defender dos Turcos, em quanto lhe não. hia mais foc- corro; e que'lhe defpedifle logo recado pe- ra lhe mandar gente, e navios ; e quando não, que fe tornafle pera aguelle Eftreito. : Dado efte recado a D. Paio: de Noro- nha, logo fe partio pera Adém na galeota em que andava, que fe chamava Santa Iía= bel, em que levava quarenta foidados elco= lhidos; e outro navio, de que era Capitão Pero Fernandes de Carvalho com trinta. Os Cavalleiros conhecidos que D. Paio efcos lheo pera efta-jornada foram, João de AI- boguerque, Antonio da Rocha, Franciíco Vieira, Diogo Correa; Antonio de Figuei- redo, Antonio Cornejo , que ainda hoje vi- ve em Chaul, de quem foubemos a mór par- tes deltas coufas, Pero Cornejo Ífeu irmão, Chrifovão das Neves, Martim Gralho; Francifco Rodrigues, e outros. E dando á véla pera Adém em companhia-do Embai- xador, foram correndo a cofta de Arabia; tomando todas as angras , enceadas, e ba- hias, por onde encontráram algumas gel-: vas , e terradas de Mouros da outra cota: de Barborá , Zeilá , Mete", que tomáram:, humas vafias , outras com feus recheios:; fugindo-lhes: pera a terra todos, fômente tres que fe cativáram. E chegando á forta- leza de Dofar , entrando a bahia , lhe ati= | rá- a 8 ASIA pr Droco ve Cotro ráram muitas bombardadas; e achando fur= ta huma não carregada de cifas , lhe puzes ram o fogo, que ardeo braviflimamente; e huma terrada que Íe foi abicar a terra , a foram tirar a poder de efpingardadas;, eaf faftando-a pera fóra , armáram nella huma forca, em que enforcáram os tres Mouros, que tomáram nas terradas atrás , e outros alguns que acháram na não; e depois puze- ram fogo à terrada á vifta da fortaleza. | Partidos dalli chegáram a Xaél, cujo Rey foi fempre amigo dos Portuguezes , e eflava fóra em campo contra o Rey de Caxém, que tendo fabido que tinham de Adém man- dado chamar os Portuguezes pera lhe entre- garem aquella Cidade , receando-fe delles, deixou recado na fortaleza, que fe por alli paílafe Armada Portugueza, a proveflem de tudo o neceílario , fazendo da neceflidade virtude; porque já que vinham fer feus vi» zinhos, queria começar a grangear fua ami- zade. Os Regedores da fortaleza tanto que viram as fultas em feu porto, mandáram vi- fitar D. Paio com hum prefente de coufas da terra, e agua em abundancia , offerecen- do-lhe o de que mais tiveíle neceflidade. Dom Paio pela que tinha acceitou tudo, detendo- le alli aquelle dia, e ao outro tornou a con- tinuar feu caminho, e foram tomar o por-. to de Berrumá antes de Adém , donde par» e ti= Dec VI. Lrv. VL Car. IL O tiram 4 meia noite, e foram tomar de ma- drugada a bahia daquella Cidade, onde fur- gíram. Foram logo dadas a ElRey novas, que eram chegadas fuftas dos Portuguezes , com o que toda a Cidade fe alvoroçou, e deípedio peíloas principaes de fua cafa, pe- ra que foflem defembarcar o Capitão , à quem mandou os parabens de fua vinda, e muito refreíco de carneiros, gallinhas, ede outras coufas que havia na terra. > D. Paio fe negociou logo, e defembar- cou com Íó quatro homens que efcolheo , e na praia achou alguns cavallos , mui bem concertados , e acubertados pera fua peíloa. E cavalgando em hum, os mais levou diante de fi, e os foldados derredor delle, e en» trou em cafa de ElRey, que o recebeo com muita honra, deitando-lhe aos hombros hu- ma formofa Xamata, que são huns pannos de feda, e algodão lavrados de ouro, que aquelles Reys coftumam a trazer por capas, e he a mór honra que podem fazer a huma peíloa grande, quando a querem muito fef- tejar, e honrar. Alli logo praticáram Íobre as coufas daquella Cidade, dizendo-lhe, que era de ElRey de Portugal, eque como fua lha entregava, pera tratar de fua fortifica- ção , e defensão. E por ferem horas de jan- tar, o mandou agazalhar em humas cafas;, que peraifio tinha-deípejadas, e fe lhe deo tO- 10 ÁSIA pe Drotó De COvro todo o neceflario. Aqui elteve D. Paio até noite, que fe recolheo ao Ífeu navio, e ao outro dia defembarcou com toda a gente das fultas pofta em armas , que ainda que tão pouca, luftrava muito:, e foi ver ElRey que o levou pela mão, e lhe foi a moftrar o muro, é fortificação da Cidade da banda do certão, entrando nos baluartes, em que eltavam os dous filhos, que'recebêram Dom Paio com muita honra. Alli deixou em com- panhia do legitimo Pero Fernandes de Car- valho com dez foldados, e-com o baltardo Antonio de Figueiredo com outros tantos, e Os outros repartio por eftancias mais peri- gofas: com ilto ficáram os naturaes mais deí- cançados, por delcarregarem fobre os, nof fos todo o trabalho da fortificação, e vigia. 2E-A PL Ur O De como D. Paio de Noronha defpedio re- cado ao Governador D. Foão de Capo: e de como ElRey de Camphar foi foccor-: rer o filho , que tinha os Turcos cercas dos: e do que mais fuccedeo. Ntre as coulas que D. Paio de Noro- nha tratou com ElRey, das primeiras foi, que devia;mandar Embaixador ao Go-. vernador a dar-lhe conta do que era paffa- do , e pedir-lhe foccorro , porque elle de- ter- Dre. VI. Liv: VI Cap IL tr terminava: de mandar hum navio com reca- do, de como ficavã naquella Cidade. A El- Rey pareceo bem aquelle confelho, eman- dou logo embarcar hum feu cunhado , ir- mão de fua mulher , no navio S. Francif- co, em que tinha ido Pero Fernandes de Carvalho, de que D. Paio de Noronha deo a Capitania a Diogo Correa, e por elleef | crevéram ambos ao Governador todas as couías fuccedidas até então, pedindo-lhe, que lhe mandafle gente, e munições pera fe- . gurança daquella Cidade , que ficava a de- voção , e ferviço de ElRey de Portugal, dando ElRey a feu cunhado todos os feus poderes pera tudo o que aflentafle com o Governador. ; Es Efte navio fe fez à véla tres dias depois de D. Paio chegar áquella Cidade, e de fua Jornada adiante daremos razão , porque hê necefiario continuarmos com o Principe de Camphar, que eflava fobre a fortaleza dos Turcos. | Kite Principe fe houve tão foxo nefte ne- gocio, pela pouca experiencia que tinha das coufas da guerra, que deo atrevimento aos. Turcos pera lhe fahirem algumas vezes ; e dar-lhes alguns aflaltos com perda, e affron= ta lua , do que o pai foi logo avifado ; e Teceando que a pouca difciplina militar do filho défle occafião aos Turcos pera que qe 12 ASIA dE Droco DE Covro baratarem de todo, determinou de lhe foc correr. E porque tinha a Cidade de Adém fegura em poder dos Portuguezes, quiz el- le em pefloa acudir áquelle negocio primei ro, que viefle a maior mal. Difto deo con- ta a [). Paio, pedindo-lhe, que em quanto elle hia foccorrer feu filho , quizeíle tomar aquella Cidade em fua guarda com os dous filhos que nella deixava , e com os trezen- tos Fartaquins que lhe vieram de foccorro;, porque fe elle não foffe averiguar aquelle negocio, nunca:teria fim, que como elle lá chegaíle enviaria feu filho ; que lhe pedia muito , que tanto que tivelle novas de fua chegada, o foíle efperar á porta da Cida- de, e o levafle pela mão até o metter em fua eltancia, e lhe déffe alguns Portuguezes pera fva guarda. Ifto lhe pedio parece, por | fegurar o filho que havia de fer o herdei- ro , porque devia de fe recear dos outros filhos. Pedindo mais a D. Paio , que fe el- le morrefle naquella demanda, o fizefle logo. alevantar por Rey. D. Paio dife, que o fer- viria em tudo como lhe mandava. KiRey fe deípedio delle, levando dous mil homens comíigo , e no caminho encon- trou o filho que fe hia recolhendo, por não poder áturar os aílaltos dos Turcos , em que lhe matáram muita gente. E fabendo o que era paílado , ficou enfadadiflimo., e-apai- | xo- es Do. Vl py VISCASH. 13 xonando-fe contra o filho, não lhe queren= do efcutar razões, tomando-lhe a gente que trazia, lhe mandou , que fe fofle pera Adém;, e que não entrafle na Cidade fem o Capi- tão dos Portuguezes o ir bufcar, e o levar pela mão até o pôr na fua eftancia ; e que não fizeíle fenão o que lhe elle mandafle. Deípedido o Principe; foi ElRey mar- chando pera a fortaleza dos Turcos, eo Principe pera Adém. Aquella noite que fe ElRey partio, fe recolheo D. Paio de No- ronha nos Paços com alguns Portuguezes , e toda a noite ouviram por toda a Cidade grande revolta , e muitos gritos, e alaridos; e andar a gente pelas ruas de-huma parte pera a outra , o que embaraçou muito os noflos, pornão faberem o que aquillo era, e toda a noite eftiveram com as armas nas mãos na mór confusão , e temor que podia fer. Tantos que amanheceo , não fazendo D. Paio difeurfo , nem confideração algu= ma, e lem mandar faber o que aquillo eras, fe fabio dos Paços , e fe foi embarcar na fua galeota , e della mandou recado a Pero Fer- nandes de Carvalho , e aos mais que elta- vam nas eflancias, que fe recolheflem, co- mo fizeram. Ito fentiram os filhos de EL Rey muito, porque eltavam com elles fe- guros, e defeançados. À | Ao outro dia chegou á porta da-Cida- | “de 14 ASIA DE Droco DE Covro de o filho mais velho de ElRey , e nãó quiz entrar dentro , fenão pela: ordem que feu pai lhe tinha dado ; pelo que mandou recado à D. Paio de Noronha, de como era chegado , pedindo-lhe o foffe recolher na Cidade, porque não podia entrar nella fem elle, por aflim lho ter feu pai mandado. D. Paio fe lhe mandou efeufar com fe fin- gir mal difpoflo;, mandando-lhe dizer, que mui bem podia entrar na Cidade, pois era fua. Sobre ifto tornou o Principe a lhe man- dar dizer , que todavia elle não havia de trafpaílar os mandados de (eu pai, nem ha via de entrar fem elle ; e fobre ifto corré- ram recados de parte a parte por quatro ve- “zes, fem D. Paio querer defembarcar. Ven- do o Principe aquillo:, entrou na Cidade, é fe foi metter na eflancia do pai com feus criados , e apaniguados. "Tanto que anoite- ceo, mandou D. Paio a Antonio de Figuei- redo, e a Pero Fernandes de Carvalho com os foldados de fua companhia; que fe fof em: pera a eftancia do Principe, e que tan- to que fole manhã, logo fe recolheflem ao navio, onde elle fe deixou ficar. Ifto foi con- tinuando muitos dias , fem D. Paio defem- barcar nelles, com ter cada dia muitos te- cados do Principe, e com-alguns Cavallei- ros honrados de fua companhia lhe fazerem algumas lembranças de fua honra, determi. 7 É nan- Dre VE Liv. VI Cap: DI 13 nando efperar alli no mar recado do Gover- mador , porque houve por fem dúvida que. lhe fariam traição. HE A Pops UsdO De como ElRey de Camphar commetteo os Turcos: e de como foi morto em bum af Jatto, e os Turcos foram cercar a Cida- - de de ddém:: e domais que lhe aconteceos É LRey de Camphar tanto que fe apar=. —“ tou do filho, como difíemos no Capis tulo atrás, foi marchando pera'a fortaleza dos Turcos, que logo foram avifados de fua ida, e eftavam recolhidos nella. E chegan- do ElRey'a ella, lhe poz cerco á roda; e a commetteo com muita determinação por alguns dias, havendo fempre mortes , é da= - mnos de ambas as partes. ElRey como era muito animofo ; e bom cavaleiro, deter= minou de averiguar aquelle negocio depref- fa, e mandou pera efte sffeito fazer muitas efcadas, pera metter todo o cabedal naquel- le derradeiro affalto. Etendo tudo “preítes, commetteo a fortaleza comgrande furia, “e animo , rodeando-a de efcadas, e commer- tendo “os Camphares 4 fubida mui animofa- “mente; mas todavia como o haviam com Turcos, homens tão experimentados na guer= Ta, etão curfados nos trabalhos, aum es 4 16 ASIA pe Drioco pE Covro lhes muitas mortes, e feridas, mas não fem damno feu. ElRey de Camphar andava ani- mando os feus, fazendo-os fubir, e acudin- do as partes mais neceílarias; e em fim tan- to trabalhou, que cavalgáram os feus o mus ro, travando-fe em fima huma afpera bata- lha. Mas quiz a ventura dos Turcos, que fe défle huma efpingardada em ElRey de Camphar, de que cahio logo morto. Os feus tanto que o viram afim , perdendo o ani- mo, torndram a alargar os lugares que ti- nham ganhado , e fe recolhêram a feu ar- raial com bem de damno. E fem tratar mais de Adém, foram logo caminhando pera Cam- phar, fem lhes lembrar que deixavam o feu Principe naquella Cidade ;. porque eftavam certo irem os Turcos comefta vitoria a cer- callo , ficando tão defcoraçoados , que neim mandáram avifar o Principe, nem tratáram de mais, que de fegurarem fuas vidas. “As novas da morte de ElRey , ou hu- ma fama Íurda della, chegou a Adém , fem fe faber como, nem por onde, e aflim che- gáram às orelhas do Principe , que as en- cubrio o melhor que pode, porque receou que os Portuguezes o defamparafle , e que “todos os da Cidade fe levantaflem contra el- le. Não deixou de chegar a D. Paio de No- ronha hum rumor defte negocio, com que fe embaraçou , e mandou perguntar ao Prine - Cl= Dec. VI. Liv. VI. Car. HE. fz cipe , que novas tinha de ElRey feu pai s. elle lhe mandou dizer, que muito boas;-e. todavia indo-fe ellas declarando mais, lhe. tornou a mandar dizer , que-Ífe era verdas de que ElRey era morto, lhonão negaíle , porque foubeile certo, que fetal fizeífe;, que fe iria. Vendo-fe o: Principe apertado ; lhe mandou dizer em fegredo-a verdade de tu+ do, e que por-lhe parecer aflim neceflário , e por os Íeus fe não alterarem;, o tinha 'en- cuberto , e que illo havia elle tambem de fazer, por não darem animo aos naturaes pe ra tratarem alguma alteração ; porque o tem- po não eltava pera nojos, nem pera deícon-. faças. a “o Jto fez algum abalo em D. Paio de Nos ronha; mas já lhe era neceflario efperar res cado do Governador, como lhetinha eferi- to. Os Turcos tanto quevíram o arraial dos inimigos levantado-, mandando-os- efpiar , fabendo de certo que fe hiam-pera Cam- phar, foi o feu alvoroço grande; porque bem entendêram que em Adém havia de ha= ver alguma mudança com as novas da mor-= te de ElRey , e alguns defconcertos antre os filhos.; e não querendo perder- tão boa occafião , foram logo: pôr: cerco á Cidade, amanhecendo hum dia fobre-ella. -D, Paio -de Noronha foi avifado difto:; e mandou dizer ag Principe, que-à primeira confa que Conto, Tom III. Pai. Br 18 ASIA pr Diogo DE CovTo havia de fazer , era mandar arrecadar em “boa. prizão aos vinte e finco Turcos, que ferviam de bombardeiros , ainda que pera mais fegurança, era melhor mandar-lhes cor- “tar as cabeças pelos não vigiarem. O Prin- -cipe osmandou logo metter em huma for- te mafmorra , ea chave della mandou en- “tregar a Pero Fernandes de-Carvalho. Os “Turcos começáram a dar muitos; € mui continuos aflaltos á Cidade, ainda que não tinham altilheria, mas tinham muitos, e mui groffos mofquetões , que afleftavam fobre pontaletes, amparados com huma ro- cha: que-eftava perto, donde os defparavam nos muros, e baluartes , com que derriba vam muitos; e da banda da praia de baixa “gar faziam o: mefmo. À todos eftes rebates acudiam Pero Fernandes de Carvalho, e An- tonio de Figueiredo com feus foldados , que - Suftentavamo pezo todo, rebatendo os int migos , e animando aos naturaes. O Princi- pe, e feus irmãos moftráram fempre muito grande-animo ,-pelejando , e animando os “jÍens nas efancias em que ellavam. D. Paio -de Noronha a alguns. aflaltos que houve a «preflados, Ífahio a terra, e acudio a-elles; mas 'paflados tornou-fe a embarcar. Os Tur “tos, que eram homens que fe não defcuida- vam de couía alguma, tiveram algumas im. -telligencias- com alguns dos naturaes ; que E É “guar- Dec VicLity VLC api TA 49 guardavam algumas eftancias , peitando-os grandemente pera lhe darem entrada; e de tal maneira tratáram eftas coufas, que as le- váram ao cabo, concertando de em hum dia limitado lhes darem de noite entrada , como fizeram. É pera divertirem os noílos;, commettêram o baluarte do. Principe , em que eltava Pero Fernandes de Carvalho, com grandes gritas ; e eftrondos: E eftando a coufa embaraçada .na briga, deram os na- turaes entrada-a Marzam , que com duzen- tos e fincoenta Turcos foi mettido dentro na “Cidade por-huma porta , fem: os fentir al- guem ,-e-deixou-fe ficar da banda de. den “tro, ou porque fenão atreveo a entrar, ou por efperar pela: manhã , porque era já no quarto d'alva. . E Na eftancia do Principe fe pelejava com muito valor; laborando: a efpingardaria: dos -noflos, com que derribáram: alguns Turcos. A: manhã vinha já efelarecendo , e os Ca- pitães “Turcos, que elfavam noaffalto, não fabiam «o que era acontecido a Marzam:, porque não fentiam revolta na Cidade, o -que os embaraçou. muito. Os que eftavam dentro foram fentidos , e correo logo-hu= ma voz pelas eftancias , que eram “Turcos entrados na Cidade , a que acudíram alguns Fartaquins pera aquella parte, por onde -di- «quam que eftavam. Na eftancia do Principe es SD a - foi 29 ASIA pe Drogo ne Covo foi fentida“a confusão , fem fe faber coufa al- guma; e fahindo-fe Pantaleão da Maia pe ra ir vero que era”, foi ajuntando alguns Fartaquins, e chegando áquella- parte, que vio os Turcos dentro ; que começavam a arrebentar ( porque já efclarecia a manhã) não defmaiou, nem moltrou fraqueza, an- tes -com muito animo remetteo com elles, bradando por Sant-Tago ; e com illo os eme baraçoú de feição , que os deteve , fendo “mui bem ajudado de fincoenta , ou feffenta Fartaquins , que' pelejáram valorofamente, Pantaleão da Maia apertou tanto com elles, que osfez outra vez acuar, etornar ao ly gar emque dantes eftavam, pondo-fe ás ef pingardadas com elles , não defparando ti- ro que não matafle algum. As novas diflo corréram logo por toda a Cidade., a que acúdio Pero Fernandes: de Carvalho com al: guns Portuguezes, pedindo ao Principe, que de não: bulife de faa eftancia ; e ajuntando toda a: gente que' pelo caminhoachou =, foi correndo aquella' parte , onde achou Panta- leão da Maia ás efpingardadas com os'Tur- cos, é dando nelles com grande furia , os fo ram “levando ;-matando daquele: primeiro impeto oitenta ; e os mais fe: deitáram pe los muros-abaixo fobre as rochas » que da quella parte havia, em: que fe alguns efpe. daçáram ; ficando-lhes alli fuas armas , que se possa os bes VE LáyoVi Cóp 21 -Os Fartaquins recolhêram , que ainda que tos - dos pelejáram nefte trance muito valorofa-. mente, todavia a honra, e gloria defta yi- toria fe deve a Pantaleão da Maia, porque “elle foi a unica occafião della. Os Turcos, que eltavam no aflalto , tendo as novas do que tinha acontecido ao Baxá Marzam , fe recolhêram muito triftes pera fuas tendas; € tanto que foi noite, levantáram. o campo; e “Je foram metter na fortaleza, onde primei- ro ellavam com mais de cento menos. - Tamo que ao outro dia amanhecéo;, que Os noflos tiveram rebate de ferem os inimi- -gosrecolhidos, difle Pero Fernandes de Car- valho ao Principe, que fahifle ao campo ;-e feguille os inimigos, que hiam desbarata- dos, que eftava certa a vitoria. O Principe O fez afim, levando todos os Portuguezes;, e foi mais de huma legua fem os poder en- contrar. E voltando, chegou ao arraial dos Urcos, onde acháram muitos mortos, e al- “guns feridos tão mal, que os não pudéram “devar, O Principe mandou pôr a tudo o fo- - 805em que fe tudo confumio. D. Paio de Noronha , que eftava embarcado , mandou “Vifitar o Principe ; e dar-lhe os parabens'da Vitoria, e dizer-lhe, que os Turcos que ef- tavam prezos lhes mandaffe logo cortar as - cabeças , porque não ficalle daquella gente, - Que era. perverfa , algum, vivo. O Principe | RESO) | 22 ASTA pe Droco nE Covro o fez logo afim , mandando-os matar , € lançar no fogo, que andava no exercito, e fe recolheo á Cidade, onde mandou cafti- gar alguns culpados na entrada dos Í'urcos. Ao. ouútro dia fahio D. Paio a terra , € foi vifitar o Principe, e lhe dife, que de- via mandar recado a Camphar a fazer gen- te, pera ir commetter a fortaleza dos Pur- cos, e acaballos de deftruir de todo ,-e lan- gallos fóra daquellas terras , porque com o medo que levavam, não haviam de efperar. Ao Principe pareceo bem aquelle confelho, e mandou hum criado feu em huma embar- cação pequena, e ligeira , e com elle hum “Íoldado , chamado Francifco Vieira , pera fazer dar preíla aquelle negocio , ficando o Principe provendo na guarda, e defensão da Cidade , que tudo carregava fobre os nof- os. . EA Pp [E EEB O IV. Do recado, que o Governador D. João de Cafiro teve de Adém: e de como mandou Jeu filho D. Alvaro de Cafiro de foccor- ro: e das galés dos Turcos , que fabiram de Moça em favor dos feus: e do que. D. Paio fez. | Po Diogo Correa de Adém , com | o cunhado de ElRey de Camphar, que . levavam recado ao Governador, como fica | Dre: VE Liv. VI Cap, IV. 23 dito no fegundo Capitulo defte fexto livro, como hiam com monção, foram na entra- da de Janeiro tomar a cofta da India; e fa- bendo eltar o Governador em Baçaim, fo=. ram demandar aquella Cidade , onde. def- embarcáram , mandando o Governador -re= ceber o cunhado de ElRey mui bem ,-e lhé fez muitas honras, e gazalhados. E. vendo as cartas, e fabendo o que era fuccedido , e como a Cidade de Adém eftava por El- Rey de Portugal, ficou muito alvoroçado, e o houve por grande ventura fua , tendo muitos cumprimentos de ElRey , mandan- doio agazalhar , e dar-lhe todo o neceflario. O Governador mandou logo: chamar feu filho D. Alvaro de Caftro, e lhe dife, que fe fizele preftes pera acudir áquelle negocio com muita brevidade. As novas corrêram lo go pela Cidade, que caufavam em todos grande alvoroço, acudindo todos os Fidal- gos; e Capitães a fe oferecerem ao Gover- nador pera aquella jornada, o que elle efti- mou muito, fazendo logo rol dos que ha- viam de ir nella, indo-fe pôr na praia a dar Ordem à Armada , que havia de mandar. E antre todos os navios de remo eftolheo trin- ta, Os melhores negociados, que logo man- oucifrar, concertar, eaperceber de todo o necellario , nomeando os Fidalgos que ha- vam de ir-nelles ; que eram os feguintes = “24 ASENDE Droco DE Couro D. Antonio de Noronha, filho do Vifo- | Rey D. Garcia de Noronha, Antônio Mo- -niz Barreto ; que diziam que hia nomeado por Capitão de Adém, D. Pedro Deça, D. Fernando Coutinho, Pero de Taíde in | ferno, D. João de Faldes Alvaro Paes de É dinheiro + mandou carregar huma caravella Sotto-Maior » Fernão Peres de Andrade, Pes telho do Infante D. Luiz , Luiz Homem, Alvaro Serrão , Belchior Botelho, Veador To Lopes de Soufa, Ruy Dias Pereira, Pe. “10 Botelho o Porca , irmão de Diogo Bo- da Fazenda, que hia pera os negocios das. quella Cidade ; Gomes da Silva, + Antonio da Veiga, Luiz Alvares de Soufa , João Ros. drigues Correa , Diogo Correa , o mefmo que veio de Adém, Diogo Banha, hum ca- tur de Pero Preto, “Alvaro da Gama : Fei- : tor. da Armada, e outros. E porque o Governador eftava falto! de de drogas pera as defpezas da Armada, (porque valiam na cofta de Arabia muito;) | de que fez Capitão André de Aguiar. E man- tos, de que fez Capitão Affonfo Jorge. “Andando o Governador dando preía à Armada, chegou áquelle porto hum navio dou carregar outra caravella de mantimen- da outra coíta de Arabia, em que vinha | hum Embaixador de ElRey de Caxém, que | Q Governador mandou defembarcar SE Pee | var “aDxe.-VE Eiv. VI Cal IV. 25 “var diante de fi. Elle fe humilhou a feus pés, “ dando-lhe cartas que lhe ofeu Rey mandou, “em que lhe dizia : » Que confiado em: fer: » grande fervidor de ElRey de Portugal ;-e “a'muito antigo amigo-do Eltado da Índia, » lhe mandava pedir ajuda , e foccorro pe-. “ara tornar a cobrar parte do feu-Reyno:,. “» que ElRey- do Fartaque few vizinho lheti-. » nha tomado ; que lhe pedia puzefle osolhos -»em fua neceflidade , e lhe quizeíTe - valer »rella , porque-não acabafle de perder'o » Reyno , em que todos os Portuguezes , 'que » por alli paflavam , achavam gazalhado, e “» recolhimento. » O Governador diffe ao Em- “baixador , que tudo o em que pudeffe aju- “dar, e favorecer a ElRey feu Senhor, o fa- ria. E que fora ditofo em fucceder o nego- “ciode Adém, e em mandar lá aquella Ar-. mada, porque teria o foccorro mais depref- fa; mandando-lhe que fe agazalhaffe;, e ne- facial » porque -a Armada havia de partir opor sas SEA O Governador vendo que era muito úe- cellario acudir-fe a Adém com muita: pref- fa, é que feu filho D. Alváro de Caftro era “forçado deter-fe alguns dias. por caufa dos Provimentos da Armada, defpedio com mui- ta prela D. João de Taíde: com quatro “na- “vios, de que eram Capitães, afóra elle, -Gos “mes da Silva, Antonio da-Veiga:, e outro, 7 a 26: ASIA pe Diogo DE Covro a que não achámos o nome; dando-lhe por regimento, que fe mettefle na fortaleza de Adem até chegar feu filho. Eftes navios de. ram á véla, e por lhes dar o Noroelte grof fo, defapparelhou hum, de cujo Capitão não achâmos o nome, e foi-lhe forçado tornar- fe pera Baçaim : os mais foram Ífeguindo fua jornada ,-em que os deixaremos até tornar a elles. *- O Governador ficou dando preíla á mais Armada, que defpedio alguns dez dias de- pois de fe partir D. João de Taíde , dando grandes regimentos a feu filho, e encommen- dando-lhe muito , que reftituifle ElRey de Caxem a feu Eftado; e mandou embarcar o cunhado de ElRey de Adém com D. Antos. nio de Noronha , muito fatisfeito”; e con: tente, mandando áquelle Rey muitas peífas “ricas, e curiofas; e o Embaixador de Ca- xém fe foi no feu navio, muito encommen- dado a D. Alvaro de Caftro. Dada elta Ar- mada à véla, foi feguindo fua. viagem, em que a deixaremos, porque he neceflario con- tinuarmos com as coufas de Adém. - D. Paio de Noronha (como aflima dif. femos) efteve fempre embarcado , efperan- do por recado de Ormuz, aondetinha man: dado huma champana com cartas ao Capi- tão, em que lhe dava conta de todasas. coufas fuccedidas até então, e lhe pedia lhe | E man- Dro-VL=ErveNL-Cap IV. 27 mandafle gente, munições , e-mantimentos: . E eltando alli, fahio da boca do Eftreito hu= ma naveta, que fe for chegando pera a ba- hia. D. Paio a foi demandar , e della fou- be ter do Guazil de Ormuz, enão lhe fou- beram dar razão , nem novas de Moçá , nem : de Suéz, porque vinha dos portos do Abe- xim , e fazendo-a fyrgir em huma enceada; antes de chegar a Adém, fe tornou ao por- to, e mandou recado ao Principe da embar- cação , porque já fe tinha viflo da fortale- za. Elte Ea dia fobre a tarde teve Dom Paio recado, que apparecia outra embarca- ção, e mandou Pantaleão da Maia, que a fofle reconhecer de fima de huma guarita al- ta , donde fe afirmou fer galé, e aflim-o dife ao Principe, que logo mandou metter na naveta do Guazil quarenta efpingardei- ros. Pouco depois derâm- duas almadias re- cado a D. Paio , que appareciam duas ga- lés de Turcos, com o que ficou fobrefalta- do ; mandando pedir ao Principe , que o provelle de gente, como fez, com fincoen- . ta Fartaquins , que mandou embarcar em hum tarranquim , que alli eftava, de que fez Ca- pitão Chriftovão das Neves ; e fazendo-fe preítes na fua galeota com todos os Portu- Buezes que mandou recolher ; foi bufcar a terrada do Guazil pera a recolher ao por- to; e chegando a ella aachou mui creípa; É É e '28 ASIA DE Droco DE Covro e póltos os Mouros, que eram perto de cen- “to, em'armas pera: fe defenderem das ga- Jés,- que já viam, e vendo os noflos, deram grandes apupadas de alvoroço. As galés , que “eram pequenas, huma vinha aterra a remo, -e a outra ao mar ávéla. Elta vendo os nof- Jos navios, com muita preífa ferrando do remo fe foi chegando pera-a outra, que já a hia demandar. D. Paio deo-toa á naveta do Guazil, e foi-fe fahindo da enceada , e as galeotas o hiam feguindo ;- o que-vilto e por elle, poz em parecer de todos. os Por- tuguezes fe pelejaria com as galeotas ;, di zendo-lhes, que eram pequenas, e que nas quellas tres embarcações que tinham havia “muita gente. Os companheiros lhe difleram, “que fe recolhefle. a Adém,, que lhe eftava entregue ; e que defendeflem. até morrerem todos Íobre, ella: Com iflo. fe foi D. Paio : Tecolhendo pera a bahia , vindo já as ga- - Jeotas a tiro de camello. 7 Eq Recolhido -D. Paio , mandou com mui- “ta prefla deitar ao mar huma galeota de tres, que ellavam: varadas de longo da couraça , -e a provêo de artilheria, que lhe mandou o “Principe, com muitas. munições , e a entre- -80u à Chriltovão das Neves, com os Farta. “quins, que lhe-o Principe tinha mandado ; e ajuntando os Portuguezes todos, Iltes. dif- fe; que elle fem embargo de tudo determi- Naás j Dec. VI. Liv: VI Cap: 1V..29 nava de pelejar com as galés , (que foram: furgir na enceada, onde eflava a naveta,). porque pera iflo tinha aquellas duas galeo-. tas cheias de muito boa gente , é a: naveta do Guazil, que fe offereceo pera o acom= panhar. Atodos pareceo bem, etoda aquel-. la noite fe preparáram de pelonros , e-pol-. vora; etanto que amanheceo , tomáram o re-. mo em punho, e foram demandar a encea-. da até onde as galês fetinham recolhido ;-e | antes de chegarem, as víram fahir de dentro. com huma galé Real mais, que aquella nois: te fe foi ajuntar aellas. Vendo D. Paio quão: deligual partido ficava tendo , fe tornou a res. colher pera a-bahia. RH Às galês furgiram fóra da enceada, on- de elliveram finco , ou feis dias, em que fe ajuntáram a ellas mais oito galés mui for- mofas., e outras quatro. galeotas , que to- maram O remo , e pafláram de largo. por de- fronte da Cidade, e foram furgir em outra enceada adiante de Adém , onde havia obri- gada dos Levantes, que ventavam. rijo, def- emmaiteando-fe , e armando fuas tendas, co- mo quem queria eftar devagar. Dallimandou o Baxá., que nellas vinha; recado aos. Tur- “Cos que-eftavam: na fortaleza, e huma: come Panhia-mais deduzentos homens, pera que foflem, pôr cerco a Adém , como: logo fize= Tam; tanto: que: fe lhe-deo. E partindo - Rus 2, 30 ASIA pe Diogo dr CóvrTo la ; vieram aflentar feu arraial á viftadosmy- ros , commettendo-os por aílaltos algumas vezes, achando fempre grande refiftencia nos noflos; porque fempre D. Paio: mandou af. fiftir Pero Fernandes de Carvalho na eflan- cia do Principe, por não defamparar tudo de todo. O Baxá das galés mandou defem- barcar-algumas peças de artilheria, pera ba- tarem a Cidade. da banda do-certão, e an» tre ellas foi huma, que-lançava: pelouro de tres: palmos e meio de roda;, que fe affef- tou em: hum: morró., que ficava fendo: pa- drafto da fortaleza, donde a: começou a ba- ter rijamente; lançando-lhe dentro muitos pe- louros, de que recebêram aílás de damno. 6 ASAS INTO dO io De como D. Paio de Noronha fe foi fecre- “tamente de Adém: e os Turcos entráram “ aquella Cidade , e matdram ao Princi- pe, e feus irmãos: e do que aconteceo à “D. João de Taíde na jornada : e de co mo os Turcos the corrêéram. Eat, Endo o Principe as rijas batarias: que lhe davam, e o damno que faziam ca- | da dia de mortos, e feridos, eo medo que | todos: os naturaes moflravam, fe houve por perdido; e mandou pedir a D.Paio, que o nr apego quizelle ver , porque tinha muitas coufas | : que Dec. VÊ Liv. VI. Cap V. 3 que tratar com elle. D.Paio o fez, indo á eftancia em que elle-eftava; O Principe lhe deo conta de tudo o que paflava, pedindo- lhe; que paflaffe com todos os Portuguezes pera aquellas cftancias , e que-o ajudaffe a defender aquella Cidade , que era de ElRey de Portugal. D. Paio lhe diffe que fi, e deis xou-fe ficar aquelle dia com elle , em que os Mouros foram continuando com fua bas taria , mettendo aquella: peça: groffa muitos pelouros dentro na'Cidade. D. Paio como a não tinha vio , e vio'o eltrago que fazia todas as vezes que tirava, houve aquelle ne- * gocio por muito arrifcado ; e diilimulando , tanto que foi fobre a tarde, que a bataria ceílou, foi-fe elle recolhendo pera a fua em- barcação , eelcreveo hum eferito a hum fol- dado, por nome Diogo Vaz, de fua obrie gação , em que lhe dizia: » Que tanto que a aguelle ville, déffe recado em fegredo a » todos os Portuguezes , pera que depois que »anoitecefle fe recolheflem- aos navios de » dous em dous”, fem fazerem alvoroço; » O que todos fizeram. Sómente hum Manoel Pereira, que diffe que aquella Cidade era de ElRey: de Portugal, que a não havia de largar, nem havia por onde; deixando-fe fi- car no baluarte do filho mais moço de El- Rey, onde eftavam recolhidos todos osfole “dados, D, Paio fe fahio-da bahia de “a em 22: ASTA DE. Diroso DE Covro : fem: o.ninguem faber., e dando á véla, fe fez. “na cofta do Abexim por fe defviar das ga. lés.: Ao outro: dia foi o Principe avifado de “Suacida, o que fentio em eftremo; mas en. cubrio-o aos Íeus o melhor que. pode scanig “fim por não-haver alteração nos naturaes , como. poros Turcos o não faberem;, ( pot- que fó a fama deeftarem os Portuguezes na-. quella Cidade lha fazia inexpugnavel, e ac- “commettiam com defconfianças. ) Não dei-. xaáram elles: de continuar nas -Íuas batarias, em que Manoel-Pereira fez coufas de hor mem de grande animo, esforço; e honra, correndo .as eftancias ,. animando. a todos, “com-lhes fegurar, que não tardaria muito o foccorro de Goa; com o:que o Principe, e Os: irmãos já. não receavam osinimigos , fa zendo tudo .o que. lhes parecia neceffario pe ra defensão: daquella Cidade:, repairando-a, “e reedificando-a o melhor que. podiam, pe- Iejando em todos: os aflaltos mui esforçada- “mente , não os largando nunca o Manoel Pereira, que era todo o feu-confelho., pois ques nada. faziam. fem. elle. - Ecerto, que nos faz: perder o gofto def. ta eferitura., não fabermos: dar a conhecer efte. Manoel Pereira: por patria , e-parentes, | porque era muito: jufto, ficafle bem conheci | do'no Mundo:;- mas: coube-lhea forte, e ven | tura de outros muitos, à quem o. defeuido po: - Por Dec VI im VicG apro 33 Portuguez , (de que nos não podemos dei- xar de queixar muitas vezes, )-tem fepulta- do em perpétuo efquecimento. E não ficará tambem de todo nelle hum Francifco Vieira, de quem no Capítulo atrás demos razão, que o Principe tinha manda- do de Adém a Camphar bufcar gente. Elte eitando-a fazendo naquella Cidade, dando- lhe as novas de como D. Paio fe fora de Adém , largando tudo por mão, fe embarcou na almadia em que tinha idos e de noite en- trou na bahia por antre as galés , e defem- barcou em terra, e foi muito bem recebido na Cidade ; dando conta ao Principe , de como deixava alguma gente ordenada pera vir após elle, e que não lhe foffrêra o co- ração efperar por ella ; que vinha alli offe- tecido ao ferviço de ElRey de Portugal, e fe, O Principe o eftimou muito , e afim elle, e Manoel Pereira fizeram, em quanto durou o cerco, coufas muito notaveis, e di- gnas de maior galardão, do que ambos tie veram. É Havendo vinte e hum dias que D. Paio fe tinha ido: de Adém fem os Turcos o fa- berem, quiz a defaventura que fugiffe hum dos naturaes da Cidade , e fe fofle ao ar- raial dos Turcos, e fendo levado ao Baxá, lhe difle como os Portuguezes eram idos, € que a Cidade eftava com pouca gente, of- “Conto. Tem. LIT. P, 1d. C fe- 324 ÁSIA pe Droco pnE CovrTo ferecendo-fe-lhe pera os metter dentro nel: la por hum paflo mui efcufo. Parece que nef te negocio não entrou elo fó, mas havia de ir concertado com algum dos Capitães de alguma eftancia; porque efta meíma noite no quarto da modorra foram mettidos na Ch dade, e como áquellas horas eftavam todos defcuidados, arrebentando pelos baluartes , foram matando , e efpedaçando a quantos achavam. Sentindo o Principe a grita, eal- voroço, fem faber o queera, tomou as ar mas , e com os que o feguíram acudio ao baluarte do irmão baftardo , onde a revolta era grande, porque aquelle Infante pelejava com muito valor, e esforço. E acudindo 0 Principe alli, deo com os Turcos, que vi- nham recrefcendo; e depois de elle , e feu irmão terem bem moltrado feu esforço , e coração, foram efte Principe , e feu irmão mortos com todos osfeus, não fem damno, e eftrago dos Turcos, de que elles por fas mãos derribáram muitos. O irmão mais mo- ço do Principe , com quem eftava Manoel Pereira , e Francifeo Vieira no feu baluar- te, tambem foi entrado de hum número de Turcos, com quem todos tiveram huma muito aípera batalha, fazendo afim o Prin. cipe, como os Portuguezes , coufas muito | notaveis, fuftentando aquelle baluarte até fe. perderem todos. E vindo-lhes novas que 0. Se Prin- Dec Vk bay: VIicCap VM. 35 Principe era morto, e a Cidade toda entre= gue nas mãos: dos Turcos , tomáram Ma- noel Pereira, e Francifco Vieira o moço In= fante, e fe foram fahindo do baluarte, O que então pudéram fazer, aflim pelo gran- de efcuro que fazia, como pela confula res volta que havia em todas as partes, andan- do já tudo mifturado fem fe conhecerem huns aos outros , e fe fahiram fóra da Ci- dade com alguns da cafa do Principe; e fos ram caminhando aprefladamente pera Cams phar. Os Turcos andáram pela Cidade fa- zendo tamanhas cruezas , que foi efpanto, não dando vida a coufa alguma que a tivefs fe, tornando aficar fenhores della como dantes. e D. João de “Taide , que deixámos pare tido de Baçaim com os tres navios, foi fes guindo fia viagem atraveflando de largo , e em poucos dias foi haver vifta da cota de Arabia, e de longo della foi demandar a Cidade de Adém , cuidando achar nella Dom Paio, porque não tornou falla por toda aé quella cofta-do que lá hia. E eritrando a ba- hia a remo, foram dar de rofto com as ga+ lés , que eftavam dentro bem chegadas ao baluarte que faz a bahia, e-não fe embaras gando em coufa alguma, tornáram a voltar pera fóra largando as vélas , porque vens tava ainda o levante rijo. Os Turcos em vens sá C ii do 36 ASIA pe Drocgo DE Covro do os navios leváram ancora com muita prek ja, e fahiram após elles tão apreílados , que antes de terem andado huma legua os alcan- çáram. Gomes da Silva, e Antonio da Vei ga, que lhe ficáram mais perto , vendo-fe debaixo dos efporões das galés, como hiam cozidos com aterra, houveram por melhor partido vararem nella, e falvar Íuas peffoas, como fizeram. D. João de Taíde , que le- vava melhor navio, foi mettendo de ló tu- do o que pode, efcapando algumas vezes de- baixo dos efporões de tres galés que o fe guiam , ajudando-fe da véla , e do remo, animando os marinheiros , e dando-lhes mui to dinheiro; e quiz fa boa fortuna que fo» breveio a noite , e tanto que o ar efeure- ceo , fazendo-fe em outro bordo , foi cor- rendo pera a cofta do Abexim , e em pot cos dias foi tomar o Ilheo de Mete na cof ta de Barbora, e Zeilá. Alli varou onavio, . e o efpalmou, e o alimpou , dando huma larga folga aos marinheiros do trabalho paf fado. - A gente dos dous navios que varáram. em terra, foram de longo do mar pera Cam phar , onde acháram Manoel Pereira , e Fran | cifco Vieira, que tinham chegado como. Infante, que já eflava jurado por Rey, que. os mandou agazalhar mui bem , e dar-lhes todo o neceflario, . Se e ? Aa E ne É DE e. Vl ty VI CAP V: 37 E tornando a D. Paio, tanto que fe fas hio de Adém , foi demandando a cofta do Abexim, e della tornou a voltar pera ir ef= perar a Caxém recado da India. E corren> do a cofta da Arabia , tomou por ella fal la, e foube ficar já a Cidade de Adém em poder dos Turcos , e o Principe, € todos mortos; e indo demandar Caxém, antes dé lá chegar encontrou com dous navios, que D. Manoel de Lima, Capitão de Ormuz, lhe mandava de foccorro, de que eram Capi- tães Aleixos de Carvalho , e Braz Cortez » que levavam gente, mantimentos, e munições ; e vendo-fe com elles lhes deo conta do que palava , e de como tinha por novas , qué a Cidade de Adém era perdida , o que ele les muito fentíram, ainda que o não pude- Jam crer , dizendo-lhes Aleixos de Carva- lho, queelle havia de paflar a Adém, e fa- ber a certeza do que lá hia , pois elle não tinha outra, que a que lhe deo a gente da terra. D. Paio o quiz tirar dilo , mas não pode, pelo que lhe foi forçado tornar a vol- tar com elles. E chegando a Xaél, queten- do entrar no porto afaber novas, lhes ati- ráram da fortaleza ( que tinham os Farta- quins tomada a ElRey de Caxém noflo amiz 8º ) tantas bombardadas , que os houve: ram de metter no fundo. E fahindo-fe pes. sa fóra:, tomando confelho , Se e EE 38 ASIA pz Drogo pe Couro efperar recado da India aos Ilheos de Ca- necanim , (porque por huma terrada que achá- ram de Caxém fouberam como os Turcos eftavam em Adém, ) e afim os foram de- mandar, e alli fe deixáram ficar. D. João de Taide tanto que efpalmou, e alimpou o feu navio , determinou de it efperar na cofta de Caxém a D. Alvaro de Callto, que não podia tardar muito, e dan- do á véla com os Ponentes, fe foi affaltan- do de Adém, e depois foi demandar a ter- ra; e chegando aos Ilheos de Canecanim, achou D. Paio de Noronha com os outros navios , e delle fouberam o que lhe tinha fuccedido com as galés, e aflentáram de el perar alli a Armada, como fizeram, tendo grande vigia no mar. CALI EURO VI De como D. Álvaro de Cafiro chegou aos Jlbeos de Canecanim , onde foube a per- da da Cidade de Adém: e de como foi fo- “brea fortaleza de Caxém, e a tomou. P Artido D. Alvaro de Caftro de Baçaim, À logo o Governador D. João de Caftro o fez timbem pera Goa, pera acudir ás cols. fas do Sul, e pera de mais perto continua! | ma guerra do Idalxá , dando defpacho ato. Bas as coufas daquellas fortalezas do Not. te, Dec Vi Lave VEL GARE NL 39 te, deixando na enceada de Cambaya com huma boa Armada D. Jorge Baroche, e el- culando-fe de tudo o mais, deo 4 véla pera Goa já em Abril, Chegado áquella Cidade, começou logo a entender no defpacho das coulas do Sul, aviando pera ir entrar em Malaca D. Pedro da Silva da Gama, filho do Conde Almirante D. Vaíco: da Gama por acabar Simão de Mello, que lá eitava, feu tempo. E pela mefma maneira defpachou Duarte de Miranda Capitão da carreira de Maluco, que foi embarcado no galeão Bu- fara, carregado de gente , provimentos , rou- pas, mantimentos , e munições , e de cai- x0es cheios de efquipações feitas, convem a faber, calções , chapeos, capatos , pera lá fe repartirem pelos foldados ; porque nefte tempo tinham os Governadores tanta conta com elles, que até os veltidos feitos lhes mandavam, o que tudo fe lhes dava ; e co- mo chegava o galeão da carreira, mandava 0 Capitao chamar a todos , e repartia pot elles tudo, ecomilfo lhes pagava feus quar- teis, e mantimentos. O que tudo fe mudou; porque todas as coufas boas acabam depref- la, e as más nunca. : Defpedidos eftes Capitães , ficou o Go- vernador defaffogado pera profeguir na guer- ra do Idalxá , mandando dobrar as fultas, e manchuas, que andavam nos rios, que fi- E | Ze- so ASIA DE Diogo DE Covro zeram grandes deltruições em fuas aldêas. E orque he razão que continuecmos com Dom Alvaro de Caftro , deixaremos por ora tu- do o mais até feu tempo. | Partido de Baçaim, como temos dito no Cap. IV. dele VI. Liv. com toda fua Ar- mada junta , como levava os levantes em pop» pa, foi em poucos dias haver vita da cof. ta de Arabia , e fem tomar porto algum ,. foi de longo della demandar a Cidade de Adém. Chegando aos Ilheos de Canecanim, lhe fahiram os noffos navios, de quem fou- be tudo o que era. fuccedido , aflim da per- da de Adém, como das galés que corrêram a D. João de Taíde. Io fentio D. Alvaro de Caftro em eltremo , porque bem enten- deo que fora tudo pelo grande defcuido, e pouco difeurfo de D. Paio de Noronha: O Embaixador , e cunhado do Rey velho morto de Adém , que hia embarcado com D. Antonio de Noronha, fe foi ao navio . do Capitão mór muito trifte, e defconfola- do pelas ruins novas que tinha ouvido. Dom Alvaro de Cafiro trabalhou pelo confolar ; mas não pode elle: pedio que mandaífe al. gum navio a Camphar a faber a certeza das “quellas novas dos Portuguezes , que lá di- ziam que eftavam , porque elle as não poe dia crer. O Capitão mór lhe pareceo bem, e defpedio logo D. João de Taíde pera ir a | lã dá Dido is nisi trees, — po mm ams Dec VE LivoVI Car VI. qt lá a faber o que era paílado , ea recolher a gente das fuítas de fua companhia, que já fabiam que lá eftava, E D. João de “Taíde chegou a Camphar , e os Portuguezes o foram receber à praia com grande alvoroço , e delles foube toda a verdade , e em fua companhia foi vifitar ElRey , que lhe fez muitas honras, e lhe contou por extenfo tudo o que era paffado, e de como depois de D. Paio fe fahir de Adeém, fe fulftentára vinte e hum dias, pelo esforço , e animo de Manoel Pereira, e Fran- cifco Vieira, e de como elles o livráram;, e por elles eftava naquelle feu Eftado. Dom João de Taíde fentio muito as novas ; e pe- dindo licença a ElRey pera levar todos os Portuguezes , lha deo, e hum tarranquim pera irem, porque não cabiam todos na fuf- ta, e comelles voltou pera o Capitão mór.- D. Alvaro de Caftro recebeo aquelles perdi dos com muitos gazalhados , e de Manoel Pereira , e Francifco Vieira foube muito par- ticularmente todas as novas ,- de que ficou muito anojado , por fe perder huma coufa tamanha por culpa de hum-Fidalgo tão hon- rado. | 4 O Embaixador cunhado de ElRey de Camphar , certificado da morte de feu cu- nhado , e de feus filhos, ficou em tão gran- de eitremo defconfolado , que pedio ao Ca- E pi- 42 ASIA pE Droco DE Cov'ro pitão mór, que lhe delle licença pera fe it pera Camphar, já que fora tão mofino, que foi feu trabalho debalde. D. Alvaro teve com elle muitas palavras de cumprimentos, e lhe deo algumas pelas , aílim pera elle, como pera ElRey Ífeu fobrinho , dizendo- lhe, que fe confolafle , porque ElRey feu cunhado, efeus fobrinhos morrêram como muito bons cavalleiros em defensão do feu Reyno; que quem morria tão honradamen- te , mais fe lhe devia ter inveja , que má- goa. A ilto refpondeo o Mouro, ( que era muito avifado, ) que antes eíla era a dor que levava , de ver morrer em ferviço de ElRey de Portugal hum cunhado , e dous lobrinhos, emuitos parentes, e hum Capi- tão Portuguez não querer fazer outro tan- to por ferviço , e honra de feu Rey; com ilto fe defpedio delle. D. Alvaro fentio mui to aquellas palavras, pelo que tocava ao cré- dito ; e honra dos Portuguezes , e muito mais as devia pera bem de fentir D. Paio de Noronha, diante de quem as elle difle. Delpedido o Embaixador pera Camphar, poz o Capitão mór em confelho o que fa- ra, e por todos os Capitães fe aflentou, | que no negocio de Adém não havia que fas. zer, € que já que ficava de vago , deviam | de ir favorecer ElRey de Caxém, e reflita. | ir-lhe a fortaleza de Xaél, aflim pelo man- | dar | - Dec. VI Liv. VI. Car. VI 43 dar o Governador , como pera caftigarem os Fartaquins que nella eftavam, por esbom- bardearem os noílos navios, quando no feu porto entráram, como diflemos no Capitu- lo atrás. Allentado ifto, deo D. Alvaro de Caftro á véla pera Xael, onde chegou na en- trada de Abril, e entrou dentro com todos os navios, fem da fortaleza lhe atirarem bombardada alguma , e logo defembarcou em terra com toda a gente, e mandou or- denar algumas efcadas dos deftures dos na= vios pera commeiterem a fubida, - À fortaleza de Xaél era hum Caftello pe queno de adobes com quatro cubellos , e tu= do tão eftreito , que baltava pera o guardar, e defender trinta e finco Fartaquins, porque não tinha mais dentro em fi. O Capitão del- les vendo defembarcar os noflos, lançou fó- ra huma mulher velha, que fabia fallar Por- tuguez, por quem mandou perguntar. ao Ca- pitão , que era o que queria , que elle era fervidor de ElRey de Portugal ; e fe que- ria aquelle Caítello, que logo lho entrega- ria, e que fe iriam com fuas peíloas, ear- mas. D. Alvaro de Caftro ouvio a velha , perante os Capitães, e houve alguns de pa- recer, que lhe haviam de acceitar a forta- leza afim como a offereciam , pois della não queriam mais , que entregalla a ElRey de Caxem; mas os mais differam , que fe ens, Fes três a4 ASIA pe Diogo DE Covro tregaílem todos os que nella eftavam à mer- cê do Capitão mór. Ào que a velha dife, que os Fartaquins não eram homens que fe entregaffem afim. E tornando-fe pera a for- taleza, difle de fóra o que fe tinha aflenta- do. À ifto refpondêram os de dentro: Que chamais entregar dmercê? E deitando tó- ra algumas bandeiras, começáram a atirar al- gumas bombardadas, de que matáram alguns, e feríram muitos. D. Alvaro abalou com tos do o poder, e rodeou a fortaleza, arriman- do logo algumas efcadas, por onde os nof- fos começáram a fubir, franqueando-lhes os outros o muro com a arcabuzaria, que erá tanta, que não oufáram os Fartaquins a ap- parecer. Fernão Peres foi o primeiro que cos meçou a Íubir por huma eícada, levando O feu guião diante, e a poder de golpes o póz em fima do muro. Por outra parte tambem fubio Pero Botelho quafi ao mefmo tempo, e diante delle o feu guião, que levava hum Reynol, de hum pelote- preto comprido , mui valente homem , que Íubio ao muro, e com huma mão fultentou o guião, e com a outra pelejou valorofamente, e tudo feno: tava debaixo mui bem. Como eftes dous Ca: pitães foram em fima , e ganháram aquella parte, ficou logo franca pera fubirem todos: Antonio Moniz Barreto, D. Antonio dê Noronha, D. João de Taíde, e outrosCas Siga pl- “Deco Vl Bim: VisGCariVE 45 pitães foram demandar a porta, levando os feus foldados deftures pera vaivens; e indo Antonio Moniz Barreto diante, deo em hu- ma trapeira, que eftava cuberta, onde fe ef- calavrou todo de mãos, e roíto, e todavia levantando-fe foi feguindo os mais que che- gáram á porta, e a começáram a arrombar. Os noflos, que já eftavam em fima do muro;, foram accurralando os Fartaquins em dous ““eubelios, onde fe fizeram fortes , e fe de- fendêram valorofamente. Alguns dos noflos delcêram abaixo pera abrirem as portas aos que eftavam de fóra, e asacháram por den- tro entulhadas com fardos de tamaras , de que eltavam tão maciflas , que não davam de fi nada aos vaivens ; e defentulhando-as, as abriram , e entráram todos, e fubidos aos muros, acháram os Fartaquins, que fe de- fendiam nos cubellos, que eltavam cercados dos noflos, pelejando como leões bravos, e algumas vezes fahiam fóra a dar nos noflos , ferindo-os bravamente, fem receio de morte, nem de feridas, que todos traziam. De hu- ma vez Ífahio hum valente Fartaquim de hum deftes cubellos, por fe ver apertado dos de fóra, e remetteo com Gomes Ferreira, ho- mem Fidalgo, mui bom-cavalleiro, que era o que mais o períeguia, eferrando com el- le, olevou nos braços; e como era mui for- solo, e membrudo, deo com elle no chão, ES e 46 ASIA pr Diogo DE Covro eo levou debaixo; mas Belchior Rabello, que eftava perto delle, fe lançou logo fobre o Mouro, e ás adagadas o matou, ficando ferido em huma mão. Em fim, areferta foi grande, e os Fartaquins com ferem tão pou- cos, pelejáram esforçadamente ; mas como | o número era tão defigual, foram entrados nos cubellos, e mortos todos áefpada, cuf tando. ella cavalgada finco dos noflos, que | “ficáram mortos, e mais de quarenta feridos de efpingardadas. Defpejada a fortaleza, a entregou Dom Alvaro ao Embaixador de ElRey de Ca- xém , mandando curar os feridos , em que havia alguns perigolos , que o meímo dia embarcou na fufta de D. Paio, e o man» dou pera Goa, pera ir dar conta ao Gover- nador do que era fuccedido. D. Alvaro fe. vio com ElRey de Caxém; e porque era o. tempo gaflado , não fe deteve com elle mui- to, efe fez à véla já em oito de Abril. D. Paio chegou a Goa com os doentes, € deo as cartas de D. Alvaro de Caftro ao Governador ; e fabendo por ellas o que paf fava, ficou mui magoado, e defpedio Dom Paio fem o querer ouvir, mandando defem-. barcar os doentes para o Hofpital, ondelo-. go os foi vifitar , levando dinheiro na al gibeira, que repartio por todos , encom- mendando muito Íua cura. Cc: Cer- Dec Vi Ervo VicGari VI q * Certo, que antre as virtudes que efte Fic dalgo tinha, que eram muitas, a que mais reíplandecia nelle era a da caridade pera com os Íoldados da India, porque os não tratava fenão como fe foram todos feus filhos. Às novas de Adém corrêram logo por Goa, fi- cando D. Paio tão defacreditado com to-. dos, que era vergonha; e aflim teve ElR ey com elle tão pouca conta, que nunca o def pachou ; fenão depois de velho, e cafado, e em quanto viveo ficou com efte labéo ; porque ainda que eítas coufas de fi não são pera efquecer, na India andam fempre mais vivas na memoria dos homens, que em to- da a outra parte, tanto, que fendo efe Fi- dalgo já velho, paflou pela fua rua hum Ci- dadão rico, e honrado, eachou á fua por- ta chorando huma moça , e perguntando-lhe de que fe queixava, lhe refpondeo a moça, que em cafa de D. Paio lhe tomáram os feus moços huma gallinha , e que lha não que- ram dar. Ao que o Cidadão lhe dife: Ca- la-te, filha ; não te mates, fe fora Adém ; largáram-tas mas galinha, não ta hão de dar. D. Alvaro chegou alguns dias depois de - Paio, e o Governador lhe fez hum gran- de recebimento. E porque fabiam todos quan- to folgava o Governador de lhe engrande- Serem o negocio de Xaél, não fe li em Sage oa a8 ASIA pr Droco DÊ Covo Goa em outra coufa , fendo ella em fi tão. pequena como temos dito. E porque fobre iffo aconteceo huma galanteria , que dife hum-Cortezão-, não deixaremos de a con tar. Tinha o Bifpo D.João de Alboquerque | hum Clerigo avifado, e de ditos, com que. elle folgava de praticar, ea quem fazia muitas perguntas por efta maneira. Qual he a coufa, que de amarga fe faz doce, ea que de grande fe faz pequena ;e a que de pequena fe faz grande? Ao que o Padre lhe refpondeo mui apreífado : Que a coufa que de amarga fe faz doce , foram as bombar- dadas de maçapães, com que recebéram o. Governador D. João de Caftro, quando veio de Dio. E a coufa que de grande fe faz pe- quena , foi a tomada de Baroche, porque à | tomou D. Jorge de Menezes. E a que de pequena fe faz grande, foi Kaél, porque a. tomou o filho do Governador. O Bifpo fel tejou muito a reípofta , e a galanteria do aludir ; mas todavia ambas eftas .coufas fo- sam muito boas, emuito dignas de louvar. Ch rear = err eee po equestre DecaDa VI Liv. VI 49 - CALISULO NE. Da Armada de Lourenço Pires de Tavora;, que chegou ao Reyno com as novas. da vi- toria de Dio: e das nãos que ElRey def pedio em Outubro: e das honras, e mer= cés que mandou ao Governador D. João de Cafiro. e Ourenço Pires de Tavora , Capitão mór da Armada que partio da India, teve tão profpera viagem, que chegou ao Rey- no com todas as fuas nãos juntas, e Íurgio na barra de Lisboa ; onde ElRey eftava, que já tinha fabido as novas da vitoria de Dio, por cartas que da Ilha Terceira lhe mandaram , por huma caravela que foi dian- te alguns dias. Tanto que ElRey foube das nãos, mandou defembarcar o Capitão mór, a quem acudíram todos os Grandes, e Fi- dalgos da Corte, que o acompanháram até O Paço, onde elle entrou , levando fempre pela mão Rax Nordim, filho do Guazil de Ormuz. ElRey os recebeo mui bem; e fa- bendo do Capitão mór as coufas do cerco 3 e da vitoria mais particularmente, ordenou. de feftejar ao outro dia as boas novas » CO- mo fez , veftindo-fe elle, e os Infantes; e toda a Corte de fefta , e houve hum fole mne Oficio, e Mifla em Pontifical » € hum Conto Tom.III. Pl, D dou- so ASIA pe Dioco DE Covro douto , e grande Sermão em louvor daquel- la efpantofa vitoria, em que fe tratou da prudencia, prefteza, e esforço do Governa dor D. João de Caftro, em que todos os que fe acháram: naquelle negocio tiveram mui grande quinhão , principalmente os.mor | tos, affirmando que eram dignos de ferem. nomeados por Martyres, pois morrêram pe. la Fé de Chrito. ElRey efereveo logo ao Summo Pontifice, e a todos os Reys Chri ftãos, a mércê que lhe Decos fizera na gran. de vitoria; que o feu Governador da India, alcançára dos Capitães do Rey de Cambaya; do que todos lhe-mandáram os parabens, Não fe fallava emtoda a Europa noutra, coufa , fenão naquelle temerofo cerco dê Dio, e na grande vitoria, que os Portugue- zes alcançáram do mais poderofo Rey de todo o Oriente , cuja memoria durou por muitos tempos. el ElRey D. João , depois que aíflim por informação: de Lourenço Pires de Tavora,| como pelas cartas do Governador , foube 0 eftado em que a India ficava, e que as cols fas de-Cambaya ficavanrainda prenhes , quiz acudir a ellas-com muita prefla ; mandando negociar Ífeis nãos pera lhe mandar de foc- corro , fazendo chamamento de gente E todo o Reyno-, que acudio toda a que É. “houve mifter.: | des Egas Eee : es E Ao eso Dec. VI Liv. VI Car VIL sr E porque fe não pode dar expediente a todas as feis nãos juntas , deípedio ElRey tres; que fez à véla o primeiro de Novem- bro, dia de Todos os Santos; de que deo a Capitania mór a Martim Correa da Sil- va, a quem fez mercê da fortaleza de Dio. Os outros dous Capitães eram Antonio Pereira, e Chriftovão de Sá. E querendo El- Rey gratificar ao Governador D. João de Caltro os grandes ferviços que lhe tinha fei- to, e o grande zelo com que arrifcou feus filhos na força do Inverno, e a morte de feu filho D, Fernando de Caftro, lhe man- dou mais tres annos da governança da In- dia, com titulo de Vifo-Rey , e lhe fez mer- cé de dez mil cruzados pera ajuda de pa- gar fuas dividas , que tomaria nos direitos da Alfandega. E a feu filho D. Alvaro de Cafiro mandou o cargo de Capitão mór do mar da India, com o ordenado que te- ve Martim Affonfo de Soufa, e lhe fez mer- cémais de dous mil cruzados pera ajuda de culo; e a todos os Fidalgos que fe achá- Tam no cerco, e na batalha efcreveo cartas mui honrofas , e lhes mandou honras So “mercês, tendo tanta conta com todos, que nenhum ficou queixofo. | Partidas eflas náos, mandou ElRey dar muita preíla-ás outras tres, de que deo a Ca- Pitanta mór a Francifco Barreto » fazendos D ii lhe s2 ASIA DE Droco DE Covro. lha mercê da fortaleza de Baçaim, a' quem defpachou, e fez à véla entrada de Dezem- bro. Os Capitães de fia companhia eram D. Heitor Aranha, Fidalgo calado em Evo- ya com huma D. Maria Carcche, e Pero de Mefquita, que ElRey defpachou com a Ca pitanía do galeão da carreira de Maluco, “Todas eftas nãos foram feguindo fua derros ta; e porque-eflas da conferva de Francik co Barreto partiram mais tarde, quando to: máram Moçambique foi a tempo , que af. firmáram os Pilotos, que o não poderiam já paffar á India, pelo que ficáram alli invere nando. - E Martim Correa da Silva foi feguindo fua viagem até fe apartarem as nãos de fua con ferva com alguns temporaes que lhes de ram, e em Moçambique fe tornáram ajute tar, donde partiram meado Março, e achãs yam na linha muitas calmarias, pelo que fe detiveram muito. A não de Antonio Perer- ra, depois de paflar a linha, fe foi encoftan do a Sacotorá, onde as correntes o leváram, e por aquella paragem gaflou todo o me, de Abril. E vendo que era tarde pera ir de mandar a barra de Goa, fe fez na volta de Ormuz pera ir lá invernar, onde chegou por fim de Maio, e D. Manoel de Lima felte- | jou muito fua chegada. Antonio Pereira lhe, deo as cartas de ElRey , que hiam aa | oem mma ce us Dec VL Liv. VL Car. VIL 53 de grandes agradecimentos de feus ferviços. Eita não invernou naquelle porto, e não fa= bemos fe tornou pera o Reyno, ou fe ficou na Índia. Martim Correa da Silva , e Chriftovão de Sá, paíladas as calmarias, foram feguins' do fua derrota, e indo demandar a cota da India, lhes deram algumas trovoadas, com que Martim Correa da Silva foi defgarran- do, e fem poder ferrar a barra de Goa, foi tomar Angediva, onde fe recolheo pera in- vernar, defpedindo dalli recado ao Gover- nador, pera que o mandaffe prover de amar- ras, e de todo o mais neceífario , e pera que mandafle buícar os doentes, que trazia muitos. Chritovão de Sá, foube-fe o feu Pi- doto marear melhor ; porque tanto que to= mou fundo na cofta ca India, foi mettendo de ló pera fe pôr a balravento de Goa; co- mo fez, e foi haver vifta da terra por Ca- rapatão , e dalli foi demandar a barra de Goa, onde furgio quafi no mefmo tempo, que Martim Correa da Silva tomou Angeê- diva O Governador tanto que lhe deram novas da não -do Reyno na barra, mandou com muita preíla muitos navios pera a def- carregarem , e metterem dentro -, e defem- 'barcar Chriflovão de Sá; que recebeo com muitos gazalhados, e lhe deo a via de El- Rey, que o Governador abrio, e asa as ro- 54 ASIA DE Diogo DE Covro Provisões, e Alvarás das honras, e mercês que lhe fazia-a elle, ea feu filho, o que eltimou muito, por ver que tinha EIR ey con ta com feus ferviços. É ainda houve por mór mercê a carta, que lhe-elcreveo de fa- tisfações delles; e não eftimou menos a car. ta que o Infante D. Luiz lhe elcrevia, por que era Principe que ellemuito amava pe- las obrigações que lhe “tinha , porque elle | foi o que-o poz naquelle Eftado, e o que. folicitou com ElRey todas fuas coufas. É porque ambas são fubltanciaes, nos pas. receo bem irem aqui infertas, pera a todo tempo fe faber como os Reys de Portugal tratavam os vafiallos que o ferviam ; e pa. ra que os Vifo-Reys , e Governadores da In- | dia vejam quanto os Reys eltimam efereve- rem-lhes os merecimentos dos homens na ver- dade, fem odio, nem afeição, e não for- imarem em alguns defmerecimentos , que pes. Ja ventura não tiveram, fó por paixão, epe- ra-os homiziarem como Rey, como alguns fizeram. E tambem foi neceílario irem aqui as cópias deítas cartas por honra defte bom Governador , pera que todos farbam quão bem tomou ElRey a batalha que “deo aos Capitães de ElR ey de Cambaya, porque não faltáram calumniadores, que attribuíram «- quelle commettimento mais a doudice:, que a prudenciaee-esforço. “+: «ess CA- essDecADASVI LivoNI- gs CALITOLOS-VIE. Que contém acópia das cartas + que ElRey D. João, e o Infante D. Luiz few ir- mão eferevéram «o Vifo-Rey Dom Soão de Cafiro. CARTA-DE ELREY. » Ho-Rey amigo , eu ElRey vos en- » vio muito faudar. À vitoria que nof- » fo Senhor vos deo contra os Capitães de » ElRey de Cambaya, foi de grande con- » tentamento para mim, como he razão que peu tiveíle portal, e tamanho vencimen- »to; e por quão grandes mercês, e ajudas pniflo recebeítes de noflo Senhor; pelo que »elle feja louvado. Muito fe deve à: vofla »prudencia, e grande animo, que naquelle » dia moftraftes ,.e-aflim no que fizeftes no » grande, eapreflado foccorro que mandafs »tes á fortaleza de Dio- em tão defyairado »tempo., offerecendo o-amor de-voílos fi- »lhos ., em que fe-vio bem , quanto mais » pode: comvyofco o. que importava a meu »lerviço , que -o-effeito natural-de pai, o » que eu afim eftimo como. he-razão ; ven- »do-que não tão: fómente desbarataltes tão »grande poder de inimigos; mas ainda déf- »tes fegurança a toda a India no grande px » re- Ea | 56 ASIA DE Droco pe Covro » receio que aos inimigos della fica com ef »ta tão grande vitoria; e todos elles fervi- » ços que me fizefies , he razão que eu te- » nha na conta que elles merecem. | » Do falecimento de voíTo filho D. Fer- » nando de Caftro recebi muito grande def » prazer , e aflim por elle fer voílo filho, » como porque hia bem moltrando naquela | » idade qual houvera de fer em toda a ou- ptra; e pois acabou tão honradamente , e »em tão grande ferviço de noflo Senhor, e » meu, deveis de fentir menos fua perda, e » dar graças a noflo Senhor, por como foi » fervido que acabafle , o que fei que vós » fizeftes, moftrando ainda no efquecimento »de fua morte a lembrança do que com- »pria a meu ferviço. Deftas coufas todas eu » ferei fempre lembrado, e não fómente vo- » las conhecerei no grande contentamento » dellas, mas ainda com muitas mercês , a » que agora quiz dar principio neflas que » vos faço a vós, e à voflo filho D. Alvaro »de Caftro, guardando o remate dellas pe- pra o cabo de voflos ferviços, que eu con- »fio, e tenho por muito certo , que feram »taes ; quaes foram os que até agora me » tendes feitos. E com efta confiança, e com »a experiencia que dio tenho , defejando » muito nefte tempo de vos fazer em tudo » mercê ; confidêrando quanto ilto compria | e »a / Dec VL Liv VI Car VIII 57 pa-meu ferviço, e vendo por voílas obras » quanta mais conta tinheis com elle , que » com todas voflas coufas, houve por bem »de vos não dar a licença pera vos virdes, » como me pedís : pelo que vos encommen- »do muito , e mando , que o hajais afim » por bem, e que neffe cargo me queirais » ainda fervir outros tres annos , e no fim » delles vos mandarei licença pera vos vir- » des embora ; e eu efpero em Deos noflo » Senhor; que vos dê muito boa difpofição » pera o fazerdes. E porém fe por fima do »que tanto cumpre a meu ferviço , como »he ficardes ainda fervindo-me neflas par- dtes, vos a vós parecer que tendes toda- »via neceflidade de vos virdes, folgarei de "mo efcreverdes , e entre tanto efperareis *por minha reípofta. Pero de Alcaçova Se- Ycretário à fez em Lisboa a 20, de Outu- pbro de 1547. CARTA DO INFANTE D. LUIZ. ) Onrado Vifo-Rey. Recebi voíla car- »A Lta, que veio nefta Armada de Lou- »renço Pires de Tavora, em que dizeis, que » recebeltes a minha, que por Luiz Figuei- pra vos mandei; e agradeço-vos muito di- » zerdes-me , que vos parecêram bem as lem= 2 branças que vos fazia, e muito mais e É : » Gel= s8 ASIADE Diogo DE CovTo » de-las emobra : e abiitava pera o eucrer »-que feria aílim, ainda que vos eu não«co- » nhecêra, ouvir.oque lá fazeis, ever quão »á boca cheia meefcreveis:voífos trabalhos, » pobreza, e abítinencia, coufas com que fe » vence o diabo, o Mundo, e acarne, que » neílas partes da India tem tanto poder; 0 » que he maior vitoria, que a de ElRey de » Cambaya ; nem ainda detodo-o poder do » Turco. Pelo que em quanto viverdes, não » deveis de temer coufa alguma:, mas antes » efperai em noffo Senhor , que vos ajudará, » como agora fez na defensão, e batalha de » Dio. Em cuja vitoria vós tendes muito que » lhe louvar, pois vos fez inftrumento de tan: »to ferviço feu, e de ElRey meu Senhor; »edetanta honra volla, e detodos os Por: » tuguezes, afim dos que fe acháranr com- » volco, como dos que eftiveram aufentes » E certo, que vós tendes feito neta jornar » da , des do primeiro dia que tiveítes no- » vas do cerco de Dio, até o dia de vofa, »e nofla vitoria , tudo o que entendo que » hum valorofo, e aftuto Capitão podia far -zer, aflim na prefteza dos foccorros, co- » mo em: pordes-voífos filhos por balifas da »-fortuna , e perigos do inverno-, e mares » da India, pera que os outros os tiveílem. »em menos; no que fe moftra bem claro, » quanto mais parte tem em vós oferviço | » de Dec VI Lrv. VI Car VII So pde ElRey meu Senhor , e-obrigação-de »voflo cargo , que os efeitos naturaes de » pai , que são os que mais forção a natu- preza; e no foffrimento-que moltraítes na »morte de D. Fernando de Caftro volto fi »lho; fe confirma bemefta opinião: ecer- »to, que eu o fenti por mim; e por vós, e »0 houve por mui grande: perda, por quão » certos finaes : fe nelle viam de feu grande » esforço, e-creio que nilto lho: quiz Deos » pagar com o-tirar de vida-tão trabalho- ya, pormeio tão honrado, e de tanta glo- »ria fua, que deve de fer grande caufa de »vofia confolação. » D. Alvaro de Caftro voffo-filho não » empregou mal fua jornada”; pois com tan- »tos trabalhos, e perigos foccorreo a for- »taleza de-Dio, a tempo que fua chegada »foi por então o remedio della; e de-co- »mo fe nillo houve, e no-dar nas eftancias »dos inimigos, e emtudo o mais, lhe lan- »ço muitas. bençãos por volla parte, e:mi- » nha. Ea 4 » E tornando a volífa- determinação de »aventurardes vofla peffoa ;-eo Eltado da » Índia, por foccorrerdes Dio , foi mui »boa, pois de o não fazerdes eftava tanto “à mais aventurado : e o chegardes a Dios, »e ordenardes voíTa defembarcação , e man- » dardes que os navios commetteTem a-ter- jta, 6o ASIA pe Droco de Covro »ra:, ao tempo que havieis de dar a bata: »lha, eo modo do commetrer que niflo » tiveítes, tudo me pareceo digno de agora, »e fempre darmos muitas graças a Decos » noflo Senhor, e de Sua Alteza vos fazer » muitas mercês, a que agora dá principio, » como vereis ácerca de vós, e de volto fi olho, e afim o deve fazer, e fará aos Fi. » dalgos , e Cavalleiros, que nefla jornada » comvolco. o fervíram, em efpecial a Dom “a João Mafcarenhas, que fe houve no pezo » delle cerco como honrado Capitão, e es » forçado cavalleiro.. Folguei muito de ver »o modo que tivelles no efcrever a S. A, » fobre os ferviços que os Fidalgos, e Cas » valleiros, que neíTas partes andam, lhe f- » zeram no negocio de Dio, no que fe vio » que tinheis com feus trabalhos conta : if »to fazei fempre por amor demim, e fol- » gai de louvar os homens, porque já que. peltá certo não faltar quem diga delles os » males, (que haveis decaltigar, os que nel » les fentirdes ,) razão he tambem que os » bons os alevanteis, pera que os quê lá não » puderdes galardoar, Sua Alteza por voíl » informação o faça. 7 SA » Eu fallei fobre voíla vinda, como me. pefcreveltes , que me elle não concedeo , »emedeo pera iflo duas razões, que a meu » parecer, ainda que vós tenhais muitas pes | Ra pra Dec VI Liv. VL Car. VIIL & pra vos defejardes de vir, Sua Alteza tem » muitas mais pera vos mandar regar, que »o firvais neíle governo outros tres annos, »o que haveis de folgar de fazer por fer- » virdes a noflo Senhor , pela grande mer= » cê que vostem feito, e a Sua Alteza pela. » confiança que de vós tem, e contentamen- »to de voílo ferviço. E confai em Deos , » que vos dará forças pera poderdes com os » grandes trabalhos , e defordens da India. »E eu efpero nelle, que fazendo-o vós af » fim, venhais encher eftes picos da ferra de » Cintra, de Ermidas de voflas vitorias , e » que as vifiteis , e logreis com muito def- »canço vollo. Nas coufas particulares vos » não fallo, porque ElRey meu Senhor vos »efcreve o que ha por feu ferviço, em re- » fpofta da carta geral, que lhe elcreveftes ; » que vinha em muito bom eflilo, e em mui- » to boa ordem. Elcrita em Lisboa a 22. de à Outubro de 1547. CA- 62 ASIA pve Droco De Covro E chatos De como o Vifo-Rey D. João de Cafiro a doeceo : e de buma notavel falla que fes aos Ofiiciaes de ElRey fobre Jua pobre- za: e de como faleceo: e emque tempo: edas partes, e qualidades de Jua peljoa. O Vifo-Rey:D. João de Caftro (de cujo | titulo logo começou a ufar ) defpedio | com muita prela as cartas de ElRey pera | Dio aos Fidalgos que lá ficavam invernan- | do, e pera os Capitães de Chaul, e Baçaim, porque a todos ElRey elcreveo ; e o mef mo fez pera Cananor , e Cochim. E logo | teve o Vito Rey recado de Martim Correa | da Silva. E fabendo eftlar em Angediva, defpedio aprefladamente alguns navios de res mo, com todas as coufas que Martim Cor- rea lhe pedia, e muitas efquipações novas; e confervas pera os doentes , que mandava trazer, e muito dinheiro, e provimentos pe- ra toda a mais gente, que havia de ficar in- vernando na não, pera fe lhe pagarem feus quarteis , e darem feus mantimentos. Eltes navios voltáram logo , e por elles mandou “Martim Correa da Silva as vias de ElRey, e os doentes todos , que foram levados ao Hopital, onde foram mui bem curados. O Vifo-Rey fe pagou de dez mil au ; EA e EESTI ECE TE = ERR RE PR E RT Sr Trem Dec. Vl-Liv. VI Car IX. 6 de que lhe ElRey fez mercé, que logo pas gou a pefloas que lhos tinham empreitado pera as. deípezas das jornadas que fez. Andava o Vifo-Rey-nefte tempo achas cofo, trifte, e melancolizado, e com huns falos de tudo ; porque na verdade depois da morte de feu flho D. Fernando nunca mais o viram fem achaques ; e fobre iflo era homem , que tratava mal fua pefloa nos regalos della, porque o feu comer foi fem- pre muito moderado , e o feu dormir pou- co, eostrabalhos que tinha levados na guer= ra, foram muitos, e muito grandes, e em | fim todas eftas coufas o traziam mui fraco; e debilitado. E fobre tudo lhe deram hu- mas febres, de que logo cahio em cama á com ruim opinião dellas, eelle fe fentio de feição, que bem vio que não eftava pera éne tender em coufa alguma. Pelo que entregou o governo ao Bilpo D. João de Alboguer- que, e ordenou-lhe por Coadjutores o Ca- pitão da Cidade D. Diogo de Almeida Frei- Te, e o Doutor Francifco Tofcano, Chan- celler do Eftado , e Baftião Lopes Lobato, Ouvidor Geral, e Ruy Gonçalves de Ca- minha, Veador da Fazenda , fobre quem delcarregou todas as coufas do Eflado, por- que fe recolheo com feu ConfefTor pera tratar fó de fua alma. 7 E porque eftava tão pobre, que. não ha- - via 64 ASIA pr Droco DE Covo via em fua cafa dinheiro com que fe cor refe com as defpezas de fua enfermidade, e como ordinario de feus criados , e elle não fe queria individar , nem pedir já aos homens empreftimo , fez hum dia chama: mento de todos os Deputados, e de outros Prelados, e pefloas doutas , e religiofas, cos. mo foram o Padre Meftre Pedro , Vigario. Geral da India, Fr. Antonio do Cafal, Cof. todio de S. Francifco, o Padre M. Francif. | co, da Companhia de Jefus, e os Officiaes | da Fazenda de ElRey. E tendo todos pre- fentes, aflim deitado em fua cama, já fra co, e debilitado , lhes fez efta breve falla: Falla do Vifo-Rey. ») Andei-vos, Senhores , chamar pe- » À ra vos dizer o eftado , e neceliida-. » des a que fou chegado , que não houve. » hoje neíta cafa dinheiro com que fe com. » prafle huma gallinha pera minha peíloa ; “»pporque fiquei tão deípezo , e-individado » pelos grandes gaíftos, que fiz eftes dous an- » nos nas guerras pafladas, que até dos meus. “» ordenados eftou pago adiantado até quins » ze de Setembro que vem: e confeflo-vos; »que não oufo a pedir dinheiro emprefta- » do a peíloa alguma pera mim, como nuns pca fiz , porque o houye por mui grande p li DNS E PO ee eee err Dzc. VI Liv. VI Car. IX. 6g » inconveniente pera o homem que eftá nef- ptecargo, porque lhe convem que efteja li- » re, e ilento com os homens, pera fazer » Juftiça direita a todos. E; pois não tenho » Outro remedio, peço aos Veadores da Fa- » zenda , e Officiaes de ElRey , que aqui » eltam, que efles quatro mezes, que ha-da- » qui até virem as nãos do Reyno, me quei- » tam ordenar huma deípeza honefta da Fa- » zenda de ElRey pera os galtos de minha -p cala, conforme a minha qualidade , e á “»pefloa que reprefento. E fevirdes que te- »nho alguns gaftos defneceflarios:, e fobe- »Jos; vos peço que os corteis; e pera ilo » não quero que peíloa de minha cafa cor- » ra com as defpezas della , pera que o dinhei- »ro de 8. A. feja: defpendido: com muito »refguardo. Tambem vos peço que orde- »neis hum official pera fe lhe dar aquillo »que alvidrardes que fe póde - defpender »comigo , pera correr tudo por fua mão. YE afim vos peço, que algúmas: dividas »que ainda ficáram , que não pude, pagar , »(que todas tenho feitas em ferviço de El- » Rey nas guerras paíladas por mar, e por » eira, em dar de comer a muita gente, e à» lultentar muitos foldados ») que as queirais mandar pagar do dinheiro-de ElRey. E »afim ifto., como tudo o mais, mandareis »allentar em hum livro feparado , que efta- Couto. Tom, III, P.ii, E » Tá l 66 ASIA pe Dioco DE Covro » rá em poder do Thefoureiro de ElRey, » pera a todo o tempo que eu o puder pa- » gat, O faça. E fe eu morrer; elle haverá » por bem de me fazer mercê de tudo. E tomando hum Miflal, poz Íobre el- le a mão direita, dizendo: » Por elite jura- » mento dos Santos Evangelhos, que até ef- yta hora emque elton, não fou em encar- » go à Fazenda de ElRey de hum cruzado, y nem a alguma outra peíloa de coufa que » tomafle Chriltão , Judeo, Mouro, ou Gen » tio, nem nunca, em quanto governei a In- »dia, tive genero algum de trato de mer- » cadoria, nem poroutra alguma viatenho, »ou tive proveito algum ; antes até agora » vivi, e gaftei de meus ordenados, fem me » ajudar de outra alguma coufa. Nem em » meu poder , nem fóra delle tenho fenão »aquillo , que trouxe de Portugal pera o » ferviço , e authoridade defte cargo. É ain- » da deffa pouca prata de meu Íerviço he »-quali ametade diminuída , parte por ma fur- » tarem, parte por fe gaftar, e quebrar. É » de tal maneira, ctão regiftado fui fempre » em minhas defpezas, que fóra do ordinas »rio, não tive alguma hora poíle pera com: »-prar outra colcha , além defta que tenho »na cama ; nem em minha cafa fe achará » peça, que eu fizefle nefte Eitado , tirando » huma eípada de ouro , com algumas pe: 4 | » dras Deco Vi: E tvs VI=C api TX, 67 »dras de pouca fubftancia , e hum capace-. »te guarnecido de prata, que fiz pera meu » filho D. Alvaro , porque determinava de o » mandar efte anno;, que embora vem, a Pora »tugal, a fervir ElRey noflo Senhor na »Corte , e na guerra. E de tudo ifto que »aqui dife , e Jurei vos peço que mandeis » fazer hum Termo, em que todos os que » aqui eltais fe aflinem , pera que a todo o »tempo que fe achar o contrario difto, que »aqui jurei , ElRey noffo Senhor me cafe » tigue como a perjuro á fé, e deftruidor de »Íua honra., e fazenda. » Etfte auto fe fez logo , e hoje eftá o pros prio ; em que-todas-as pefloas nomeadas fe alináram em hum livro dos regiftos da Fas zenda dos Contos de Goa, donde o nós tis rimos, e trasladámos. E certo, que aílim devia de andar efcrito nos animos: de todos os Governadores, e Vifo-Reys da India. E fe ifto fuccedêra em tempo “daquelles anti= gos Gregos , que com muita razão pudéram trasladar efte Termo em laminas de ouro, e pregarem-nas fobre as portas do Oraculo: de Delphos, junto daquella notavel; e me moravel fentença , que nellas tinham de Nofee te ipfum. Porque não ha -mór conhe- cimento de fi mefmo:, nem: mór defprezo detudo, que oqueteve elle Vifo-Rey; por- que nem aquelle grande deíprezo de ouro, o M é 68 ASIA DE Diogo DE CovrTo e riquezas daquelle famofo Capitão Fabri “cio Romano; nem o de efloutro Themifto- cles Grego, chegáram a efte: E com muita razão pudéra a vida defte Vifo-Rey fer re- gra, e nivel de todos os outros, e os Reys de Portugal darem o traslado defte auto por regimento a todos os que pera a India def pachaflem , porque nelle lhes moftra bem a pureza, que hão de ter em fua Fazenda, o como hão de fer regiftados, e defapegados de tudo pera poderem fazer juíliça. O cos mo hão de deixar fervir aos Officiaes feus cargos, pois lhos ElRey da por feus fervis ços , como a elles a governança da India; e não taparem: as bocas tanto a todos, co- mo depois alguns fizeram; que-os não dei- xavam comer , fendo a tenção de ElRey que fe fartem em feus cargos , (como: El- Rey D, João o II. difle áquelle Almoxari- fe , que dizia, que morria de fome, que ois Unha carne, pefcado, azeite, vinho, € Dafedfito » que: fe fartaíle. ) Mas foi o Mun- dotanto de mal em peior:, e afim fe tro= cáram eítas bolas depois, que efle Vifo-Rey: pediasaos Officiaes de ElRey que lhe: dél-. fem de comer; ehoje não bafta pedirem el- “ les aos Vifo-Reys que -os fartem , porque comema todos tanto por-fuas mãos por res gra, que não levam bocado á boca», que lhes não feja contado. E: deixando ella: mas Eri te- “Dec VE Lrv. VL Car. IX. 69. teria que efcandaliza, tornemos á nofla hif- toria. Os Veadores: da Fazenda com os Depu- tados do governo , ordenáram ao Vifo-Rey pera defpezas de fua cafa tudo abaltadamen> te; mas o que lhe-limitáram;, eo livro em que fe lançou efta-defpeza , nós-o não achão mos, bufcando-o bem. A doença-do Vilo: Rey foi tanto por diante , que aos quator-. ze dias della deo a alma “a Deos noffo Se- nhor, depois de feitos todos os aétos de mui+ to bom Chriftão:, com grande dor, e má- goa de toda a India, que todos o fentiram em extremo , porque o amavam como pat. “> Faleceo a feis de Junho de 1548. em ida- de de quarenta e oito annos ; tendo gover- nado dous e oito mezes, em que entráram quatorze dias, que fó logrou otitulo de Vi- fo-Rey. Bufcou-fe feu teftamento pera ve- rem o que mandava ácerca do feu'enterra- mento , e achou-fe em huma boceta-do Rey- no, cuja chave elle comfigo trazia, e den- tro nella lhe acháram humas: diciplinas, que moftravam que ufava muito dellas ;'e a gue-= “delha da barba, que mandou de Dio em pe- nhor á Cidade de-Goa do emptreítimo , que lhe pedio pera repairar a fortaleza dos gran- des damnos , que no cerco lhe fizeram, e tres tangas Larins. Aberto o teltamento ; achou-fe nelle; que fua mulher, e feu filho E Dom vo ASIA de Droco DE Cov'ro D. Alvaro de Caftro eram feus teftamentejs ros; e mandava que o enterralem em São | Francifco , e que feus oflos-foílem depois levados 'á lua Capella de Cintra. E encom- mendava a Ífeu filho D. Alvaro de Cafiro é que logo fe-fofle pera o Reyno. As mais particularidades do teftamento não aponta mos , por-nos não ferem neceflarias pera-a hiftoria. =p 7 Foi. D. João: de Caftro filho do Gover= mador de Lisboa D. Alvaro de Caftro » (CO- mo no principio da hiftoria diflemos,) foi cafado com: Dona Leonor Coutinho ; filha. le Lionel Coutinho , que-matáram em Ca- lecut-com: o ;Marichal, ecde D. Mecia de Azevedo. “No eftado da-mocidade foi bem inftruido nas artes liberaes. » «depois de tão bom Latino,-que podia Julgar-de antre-ef- tilo , e.eftilo, (como: fe vio naquelle-curio- fo, Tratado que fez na jornada do Efrei- to do Mar Roxo, quando foi com D. Ef tevão da Gama ,) em que muito curiofamens te dá razão do porque fe chama Roxo, e daquellas manchas vermelhas que fe acham por todo aguelle Eftreito , com bem diffe- rentes fundamentos do que fizeram outros; que eferevéram fobre ifto; cujo Tratado di- rigio ao Infante D. Luiz. Foi muito incliz nado, e affeiçoado á Mathematica » de que teve por Meire o grande:, e infigne Dous : tor eDeo VE Live VicCAr IX 71 tor Pero Nunes, em companhia do Infante D. Luiz, que tambem a aprendeo. Naquel- la Armada, que ElRey mandou de foccor= ro, de que foi por Capitão mór Antonio de Saldanha, foi elle por Capitão de huma caravela. E conta-fe delle , que acabada a jornada , mandando o Imperador fazer mer= cê de dous mil cruzados a cada Capitão da- quella Armada Portugueza., fó D. João de Caftro os não quiz acceitar, dizendo, que elle fora por mandado de ElRey de Portu- gal, e que elle lhe. faria mercê. Depois o mandou ElRey a Ceita com huma Armada a talhar a Almina. E aflim fe fervio delle nas Armadas das Ilhas , e depois foi à In- dia com D. Garcia de Noronha, ao primei- ro cerco de Dio, ( como fica dito no Cap. VIII. do II. Liv. da V. Decada,) e em tudo deo de fi grande fatisfação. Morreo- lhe feu pai, herdou aquella quinta de Cin- tra, aonde fe recolheo a filofofar já depois de fer de quarenta annos , cortando todas as arvores de fruito que tinha, em cujo lu- gar fez plantar outras agreftes , e peregri- nas, e fez alli debaixo de huma lapa huma | Ermida muito devota. Aqui o hia o Infante D. Luiz ver, e communicar, e dalli fe: lhe affeiçoou de feição , que o inculcou a El- Rey pera o mandar por Governador á In- dia, onde o fervio com muito zelo, amor , É in- as as y2 ASIA pe Droco DE Covo inteireza , e pouca cubiça , como pelo de curío da hifioria fe tem-vilto, fazendo tan tas, e tão continuas gúerras aos inimigos, por mar, eporterra, andando de continuo embarcado com as armas ás coftas, que fe afirma, que de puro trabalho morreo. E tambem fe póde affirmar de fha muita cari- dade, continencia , pouca cubiça, grande temor de Deos , e em todos os mais exte- riores de Chriflão , que fua alma eflará na gloria recebendo o premio , e galardão de todos os feus trabalhos, 73 A Sé as 6 5 e MH 05 e 2 3 pa E 0 ea E pm a RE a a e O sao aRE E RE e E FEZ É EA é SIE LEME E Eis LIV ROVE “Da Hiftoria da India. - CAPILULAO am De como pormorte do Vifo-Rey D. João de Caftro fuccedeo Garciade Sá: e das» “o pazes que fez com o Idalxá. TR Sranvo ainda o corpo «do Vifo-Rey À D.João de Cafiro por enterrar, pol- to no meio da Capella, mandou o Veador da Fazenda Ruy: Gonçalves de Ca- minha trazer o cofre , em que-eltavam as » Íuccefsões da governança da India, que eram finco ; e abrindo-o perante todos.os Officiaes , Fidalgos, e Capitães, tirou a. primeira, e a deo a D. Diogo de Almeida, Capitão da Cidade , que a examinou com o Ouvidor Geral, eachou queeftavasã, e inteira, fem nella fe bolir, E tornando-a ao Veador da Fa- 74 ASIA pe Droco pe Covro Fazenda, elle a deo ao Secretario , que leo em alta voz o titulo de fóra, que dizia af. fim: Primeira Juccefsão da governança da Judia, que Jeabrirá , falecendo o Vifo-Rey D. João deCafiro, o que Deos não permit- ta; e ao pé citava ElRey aflinado. É abrin- do-a , a foi lendo alto, pera que todos a ou= viffem, eachou nella D, João Mafcarenhas, que era ido pera 0 Reyno. E tornando-a ao cofre, tirátam a fegunda, com quem fe fez a meíma diligencia ; é lendo-a, acháram Dom Jorge Tello, que tambem era ido pera o: Reyno. E tirada a terceira + COM quem tam- bem fe fez a mefima diligencia, que com a primeira , e fegunda, acháram-fucceder Gare cia de Sá, que eftava prefente; a quem lo- go alli lhe fizeram entrega da: governança da India, na fórma acoftumada naqueiles Ef tados, dando a: menagem do Eftado da In- dia nas mãos de D. Diogo de Almeida, Ca- pitão da Cidade. [ “= Aguiaconteceo huma galanteria » que fe notou a Jorge Cabral, que eftava prefente, que vendo abertas tres fuccefsões ; dife: » Dera alguma coufa agora por faber qual » he o rapaz da quinta fuccefsão, que a quar- » tabem fei que fou eu; » eaflim ofoi por falecimento defte Governador ; Como adian-= te em' feu lugar fe dirá. Ee Feito o auto da entrega da India 5 na ol Déc=-VicLrvo VH! CAPS. os “foi aos feis dias do mez de Junho do anno "de 1548, depois de fe enterrar o corpo do Vilo-Rey, o mais folemnemente que pudé- ram, fe recolheo o Governador pera fua ca- fa, e começou a entrar nos negocios de feu cargo, vilitando a Ribeira das Armadas, e os Armazens, mandando prover todos mui- to bem, e negociar os navios com muita preffa, porque determinava de fe embarcar no verão. sã! ESTE As novas da morte do: Vifo-Rey Dom João de Caftro corrêram logo por eíle cer- tão, com que o Idalxá defpedio hum Em- baixador, chamado Motabarcão:, Regedor do leu Reyno, com grandé apparato pera ir vilitar o novo Governador , ea lhe fazer novos requerimentos fobre as coufas de Mea- lecan, dando-lhe-todos os feus poderes pe- ra “tratar, e aílentar pazes, porque lhe não vinha bem: ter guerra com os Portuguezes; porque lhe-era neceílario defocenpar-fe “de tudo, pera refiftir ao Rey do Canará, que lhe fazia dura guerra ,- e por haver à mão certas Cidades, que lhe eile tinha tomadas. Efte Embaixador -chegou a Goa. em Agofa to; e o Governador o mandou bufcar;, e o recebeo com grande apparato , e depois de paflada a vifita o ouvio: Klle lhe dife: »Que o Idalxá feu Senhor dera-as terras fira »mes de Salfete ; e Bardés ao Governador | » Mar- 76 ASIApe Drogo DE Covro » Martim Affonfo de Soufa ; com condição, aque Mandaria: Mealecan pera o Reyno, »ouú pera Maluco, como: confta daquelles » contratos que aprefentava. (Que lhe pedia » lhos cumprife, e lhe entregafle Mealecan, » ou.lhe largafle as flas terras , etanadarias:» O Governador lhe refpondeo : » Que o Go » vernador, que com elle fizera: aquelles con- »tratos, eftáva no Reyno, e que elle fem | » recado PEIRey de Portugal não podia » fazer confa alguma naquele negocio. Que » le tratava Íó de fe fegurar de Mealecan ,. » que elle o teria tão fechado ; e guardado, » que na fua imaginação eftivelfe tão longe »de paflar ao Balagate, como feeftivera no »Reyno de Portugal. E que fe o pedia pes »ra o ter em cultodia em outra parte, que » em nenhuma-elle podia eftar mais feguro, » que na Ilha de Goa, rodeada: de hum mui »to largo rio, e com tantas guardas , evi- » gias , que não podia dar huma volta na »fua cama: que não fofle fentido-; com o » que fe havia de haver por fatisfeito. » O Embaixador deípedio logo correio ao Idal- xá delta reípofta, que lheefcreveo, que cons firmafle novas pazes, mandando-lhe Capitu- los dellas. E tornando o Embaixador a aper- tar com o Governador, e moftrando-lhe os apontamentos do Idalxá , depois de viltos em confelho, e praticados por todos osCas i ; pl= | Dec. VÊ Liv: VIL CAP. É. pitães, e Fidalgos , concluiram-fe as pazes' com os Capitulos feguintes. 5 » Que de novo fe confirmavam as pazes , » e amizades como dantes eltavam feitas com » os Governadores paílados, com condição ; » que logo entregaria o Idalxá o Embaixa- »dor , que lá tinha reteudo do tempo de » Martim Affonfo de Soufa. com todos os: »-Portuguezes, e todas fuas fazendas.. » Que nunca mais daria foldo a nenhum: '» Portuguez, que folle fugido pera feus Rey=" » nos. | » Que asterras firmes de Salfete, e Bar= »dés nunca mais fallaria nellas, e ficariam pa ElRey de Portugal pera todo fempre, » fem os Reys de Vifapor terem mais nellas » direito algum. ia “e ara » Que fe emalgum tempo vieflem galés: » de Rumes á India, feria elle Idalxa obri= »gado ajudar, e foccorrer o Governador , que no tal tempo governafle a India, com » mantimentos , marinheiros por feu dinhei= »ro, e que nada dito dariam em algum dos » feus portos aos Rumes, nem os agazalha- » riam nelles. E Siss | - -Eftes quatro Capitulos aflima são cs que o Idalxá concedeo ao Governador; e os que concedêram ao Idalxá, são os feguintes: » Que os Governadores da India feriam pobrigados a terem hum Reitor nftidads ;- de “8 ASIA DE Droco DE CovrTo y de Dabul, que daria cartazes a todas fuas » nãos, e navios, que daquelle porto fahif. » fem, e nelle carregaflem. » Que os mercadores, que dos portos de » Perfia, e Arabia foflem a Goa com caval- » los, os poderiam paflar ao Balagate, e que » os donos delles pudeflem levar fuas armas » fem lhes entenderem com ellas. » Que o Idalxá poderia mandar levar tos » dos os annos da Cidade de Goa quinze ca- » vallos forros de direitos pera fua pefloa. : » Que poderia o Idalxá mandar levar de » Goa todos os annostres mil pardáos, em- »-pregados nas fazendas que quizefle , fem » pagar direitos, nem lagimas da fahida. » Que o Governador da India teria Mea- » lecan em muito boa guarda, evigia, e o » não mandaria pera fóra de Goa, fem pri » meiro o fazer a faber ao Idalxá. ». Deltas pazes foram linguas Coge Porco- li por parte do Idalxá , e João de Caftro pela do Governador, e logo fe juráram na Cidade de Goa com grandes folemnidades ; e o Governador deípedio hum Embaixador pera ir à Corte de ElRey a vellas jurar, e tomar entrega do Embaixador, e Portugue- zes Elfte Embaixador foi muito bem rece= bido de ElRey , que jurou perante elle as: pazes, e as mandou apregoar por feus Rey- nos , e lhe fez entrega do Embaixador, e Efe - Pore. Drc. VI Liv. VIL Carl 79 Portuguezes. O Governador entendeo o que “faltava do Inverno «em algumas coufas do governo da Republica. E porque faltava moe- da na Cidade, mandou bater huma de ou= ro da lei dos pagodes , redondas , que vi- nham da terra firme , que era de quarenta e tres pontas, que refponde a vinte quila- tes e hum quarto, e cada marco de ouro fica refpondendo a feffenta e fete moedas, e duas tangas, oito grãos , e dezefeis avos de grão. Elta moeda mandou chapar, ecunhar . de huma parte com a figura do Bemaventu- rado Apoftolo S. Thomé, Padroeiro da In= dia, e da outra com as quinas das Armas Reaes de Portugal , e ficâram-fe chamando S. Thomés , moeda que ainda dura na In- dia, e corre por toda ella. E toda a pef- foa que metteíle ouro na moeda, mandou , que de cada marco de ouro lavrado pagaí- fe dous S. Thomés , hum pera ElRey , e outro pera os Officiaes. GASPA Teu: E O: De como matiram em Dio Luiz Falcão , Capitão daquella fortaleza : e das frma- das, que EIRey defpedio pera a India. * Stando huma noite Luiz Falcão no quar= to da prima em fua cafa, aflentado em luma cadeira, com o rofto pera huma por= | | ta, %o ASIA pE Droco DE Cotro ta, que fahia pera hum baluarte , onde os foldados vigiavam toda anoite, e tinha'an- tre as pernas hum menino , Ífeu filho natu- ral, ( que depois fe chamou Aires Falcão, e foi Capitão de Baçaim, e de Dio, e tem hoje filhos , e netos, ) e como elle eftava com candeas accezas, e os que paffavam pes ra o baluarte hiam de longo da porta, que. eltava hum pouco aberta, apontáram da ban-: da de fóra com huma efpingarda nelle ; “e tomando-o pela cabeça, deram com elle mor= to no chão ; e acudindo os feus aos gritos do menino , acháram já o Capitão morto; e correndo a voz pela fortaleza , acudiram todos a fua cafa., fem faberem donde lhe aquillo podia vir , e alli de commum con- fentimento elegêram por Capitão hum Fi dalgo pobre, acanhado, mas bom homem; e bom Chriftão , chamado D. Artur de Caf- tro. Ao outro dia depois de Luiz Falcão fer enterrado , fe tiráram grandes inquirições , fem acharem rafto de coufa alguma. — Ecomôoifo era já entrada de Setembro, defpedio D. Artur hum navio pera Goa , com cartas ao Governador do que era fuccedido. Ele navio foi tomar Baçaim ; e fabendo D. Jeronymo de Menezes, Capitão daquel- la fortaleza, o fucceflo , receando que hou- veífe na terra alguma alteração , fe embat- coulogo ; levando dous navios com fincoen- ta + | Dec VE LivoVIeG spo St ta homens” e atravellou o Golfo, (porque os Fidalgos daquelle tempo traziamimais o penfamento no ferviço de Deos ; e do Rey., que em outro algum interefle;, e afim Deos os ajudava, e honrava; e logravamo feu pouco , que. então tiravam das fortalezas ; O que hoje não vemos fazer ao feu muito dos Pagora.) Chegado D. Jeronymo a Dio, o foi D. Artur com todos os da fortaleza buf- car ao caes, e olevou pera fua cala, é lo- “go perante todos lhe pedio que quizefle to- mar entrega daquella fortaleza , e lhe offe- recia as chaves , porque-elle não queria a- quella carga. D. Jeronymo de Menezes te- ve com elle grandes cumprimentos , não que- rendo tomar as chaves , dizendo-lhe:, “que elle vinha alli a fer feu foldado,. e que tu= do eftava bem nelle; eaflim ficou fendo feu hoípede até chegar Martim Correa da Sil- va, como logo diremos , porque he necef- fario que continuemos com as nãos do Reyno. Depois que ElR ey defpedio aquellas duas Armadas, de que eram Capitães móres Mar= tim Correa da Silva , e Francifco Barreto , pelas novas que teve davitoria de Dio, las | bendo que ainda ficava o Eftado de guerra com Cambaya perigofo , determinou man- dar mais Armadas , e gente ; porque pera coufa tão importante , como. era foccorrer à Índia, em que efperava que a Lei do Evan= Conto. To. II. P. Il. E ge- 62 ASTA pr Dioco DE Couro gelho: tanto fe dilatafle, não: receava-delpe- zas:;;nem. o impediam trabalhos -( que não faltavam: no, Reyno», )-e afim mandou-com muita preíla negociar: onze nãos, que-repar- tio emrtres Capitanias. Das finco: fez Capi- tão mor «Manoel de: Mendoça-,-que defpa- chouccom as fortalezas de Cofala , e Mo- cambique, que-defpedio entrada 'de Março. Os Capitães de Ífua: companhia eram, Jorge de Mendoça , que: levava: a: Capitania de Goas' Alvaro de Mendoça ; Manoel Rodri- gues Coutinho, e-Baftião de “Taíde, -» cAsoutras feis-nãos partiram até vinte do mefmo-mez. Dastres dellas era Capitão mór D. João Henriques, que levava a Capitania de: Malaca, e os Capitães das outras duas nácseram Aires Moniz, e Antonio de Azam- buja: O outro Capitão mór era João de Men- doça-o Chu, que tambem traziara Capita- nia-de Malaca 5: e os-Capitães de fua con- jerva- eram; Fernão-de Alvarez: da Cunha, e Diogo Rebello. Eftas Armadas tiveram tão boa viagem, que Fernão de Alvarez da Cu- nha: foi ferrar a cofla da India em Julho, e porachar o tempo verde Íe recolheo a An- gediva, onde eftava Martim Correa da Sil- va -e dalli defpedio recado ao Governador, das. Armadas que eram partidas do Reyno, e das novas da faude de ElRey, que foram muito fellejadas. E entrada de Setembro fe fio Drc. VI. Lav. VII, Cap. II. 83 fizeram á véla pera Goa, ejuntamente com ellas furgiram as Armadas todas, e a de Fran- cifco Barreto, que eltava de invernada em Mo= cambique ; que foi huma formofa coufepe- ra ver, porque enchiam aquellas nãos todo aquelle porto. | Neftas Armadas mandoú ElRey os pri- meiros Frades da Ordem dos Prégadores:, pera na India exercitarem feu officio, e veio por Vigario Geral de todos o Padre Fr: Diogo Bermudes, Caftelhano, Varão dou- to, ede vida religiofa, e exemplar, etrou- xe doze Frades, que foram bem recebidos em Goa, e fundáram o célebre Convento, que hoje tem naquella: Cidade, CA PIE UAO E De como nefra Armada do amno de 1548. de que era Capitão mor Manoel de Menda- $a, trouxeram os Padres da Companhia buma cabeça das onze mil Virgens , que. - Jfoimuito bem recebida em Goa: e das no- vas que o Governador Garcia de Sá teve de Dio, e defpachou Martim Correa da Sil. “Vapera aquella fortaleza : e dos Embaixa- dores que a Goa vieram dos Reys vizinhos. M Uitas coufas vieram neftas Armadas, que alegráram a India; mas fobre'to= das foi huma cabeça das onze mil Virgens, F ii que A! 84 ASTA pe Diogo pk Covro quealguns Padres -da Companhia trouxeram, Reliquia muito pera eftimar, e que a Cidas de de Goa o fez muito, e aflim-foi recebi- da com prociífsão muito folemne., em que fe achou: o Bifpo reveftido , e o Cabido com todas as Freguezias , e Ordens , e foi levada da Sé de Goa até o Collegio de Santa Fé, que fe agora-chama de S. Paulo, que he hum dos Collegios fumptuoíilimos, que os Padres da Companhia tem'pelo Mundo dos principaes. Com eftas Armadas ficou a India profpera de nãos, que ficáram nella, (por- que fó quatro tornáram com a-carga,) de gente, de dinheiro, e mais coufas. Manoel de Mendoça, Capitão mór das finco nãos, em chegando a Goa faleceo de humas cama- ras de que vinha doente.- * 4 &. No mefmo tempo chegou o catur de Dio com as cartas de D. Artur de Caftro, e de D. Jeronymo de Menezes, em que lhe da- vam conta da morte de Luiz Falcão, que O Governador Garcia de Sá Íentio muito; pe lo que logo defpachou Martim Correa da Silva , pera ir entrar naquella fortaleza , e mandou em fua companhia o Doutor Ma- noel de Mergulhão a tirar devaíla da mor- te de Luiz Falcão; eefcreveo cartas de pran- des agradecimentos a D. Jeronymo de Me- nezes, pela prefteza com que acudio a Dio. E.aflim defpachou Jorge Cabral pera ir en. trar Dec Vkditvo VIL=E av. TI. 8 trar na Capitania de Baçaim ; por ter Dom Jeronymo de Menezes acabado feu tempo. Martim Correa da Silva partio: em navios muito ligeiros , e em oito dias foi áquella fortaleza, e-tomou poffe della, e D. Artur de Caftro fe embarcou com D. Jeronymo de Menezes pera Baçaim, que entregou a for- taleza a Jorge Cabral, e dahi-fe paflou a Goa. - O Doutor- Manoel de Mergulhão fez muito grandes diligencias fobre a morte de Luiz Falcão, até dar tratos a hum foidado por alguns indicios que houve ; mas não con-= felou coufa alguma , nem nunca fe pode defcubrir a verdade , e aflim'ficou efte ne- gocio em fegredo-muitos tempos , até que fendo Francifco Barreto Governador da In- dia, falecendo em Bengala hum mulato , que fe chamava foão Leite, que á hora de Íua morte dife, que fe não demandafle a morte de Luiz Falcão a peíloa alguma, porque el- leo matára: Se O Governador tratou de ir ao Norte , porque as coufas de Cambaya eltavam em aberto, e quiz prover a cota do Malavar; pera onde defpedio por Capitão mór Fran- cifco de Siqueira com quinze navios. Era ef te homem de calta de Nayres, muito gran- de Cavalleiro , e tinha feito tantos ferviços do Eltado , que-o fez ElRey Bida e : 1€ 86 ASIA DE Droco DE Covro lhe mandou o habito de Chrifto com boa tença. Elte verão fez pela cofta de Cananor, que-eftava alevantada , muita guerra , quei- mando-lhes muitas povoações, e deftruindo- lhes , e cortando-lhes muitas palmeiras, e fazendas. ; j Partidos eftes navios, ficou o Governador defpachando os Embaixadores do Camorim; que foram confirmar as pazes, e outros do Rey do Canará , e do Zamaluco, do Cos tamaluco , e outros que foram a vilitar o Governador por fua fuccefsão , é a confir- mar as pazes. Todos elles foram bem rece- bidos, e defpachados. E nas pazes que con- firmou com o Rey do Canará;, fez mudan- ça nos Capitulos contra o Idalxá, por já ter com elle feito pazes, ficando de fóra, que nem favorecia hum, nem outro. Paflado ilto, defpachou as nãos que ha- viam de ir tomar a carga pera o Reyno;, e efcreveo a ElRey o eftado em que a India ficava. Neltas nãos fe embarcou D. Alvaro de Caftro , filho do Vifo-Rey D. João de Caftro, por Capitão da náo Rofairo, e fe embarcáram outros muitos Fidalgos a re- querer feus ferviços. Nefta Armada mandou Coge Ceniaçadim mil quintaes de gengivre, e duzentos de pimenta , de ferviço á Rai- nha D. Catharina, pera huns chapins, pot- que tinha della todos os annos cartas muis to Dec. VI. Lrv.-VIH. Cap. 872 to honrofas, e peças, e brincos curiofos da Europa, e afim mandou hum Alifante pera fervir na Ribeira das nãos. “ Defpedidas todas as coufas dó Reyno.., fcou-o Governador fazendo preltes-toda a Armada pera fe embarcar, e acudir às cou- fas de Cambaya , porque eftavam prenhes, e podiam parir novos trabalhos. - E andans= do-fe negociando com muita prefla, lhe che- gáram cartas de Ormuz do Capitão D. Ma- noel de Lima , em que lhe fazia a faber, como ficava alevantado nas terras do Magof- tão hum Capitão Abexim Abixlalá, e que tinha tomado a fortaleza de Manojão, don- de fazia grande guerra a todo o Reyno, e lhe impedia as Cafilas que vinham pera Or- muz ; com que a Alfandega padecia gran- des faltas. Eftas novas fentio o Governador muito, por ferem aquellas rendas as princi- paes da India ; e defpedio com muita bre- vidade Pantaleão de Sá com quatro navios de remo , em que levava perto de cento e fincoenta foldados , que fe fez á véla na en- trada de Novembro, e de fua jornada adian-= te daremos razão. o 88 ASIA pe Droco DE Covrg CCAPLIULO De como o Governador Garcia de Sá partio -perao Norte : e das pazes que fez com ElRey de Cambaya , e mandow Fran" cifco de Sá a Surrate. Efpachados todos os Embaixadores ; e nãos pera Cochim, logo o Governa- dor fe começou a embarcar, entregando o governo ao Bifpo, e a D. Francilco de Li- ma, Capitão daquella Cidade, e com elles outros Deputados. E na entrada de Janeiro deite anno de quarenta e nove, em que com o favor Divino entramos, fe fez á véla: le- vavafeis galés , quatro galeões , dez cara- velas, e feflenta navios de remo. Os Capi- tães dos navios grandes eram, Francifco Bar- reto, Chriftovão: de Sá; Francifco de Sá de Menezes, D. João Henriques , João de Men- doça, Alvaro de Mendoça, Manoel Rodri- gues Coutinho, Manoel de Soufa dé Sepul- “veda, D. Antonio de Noronha, filho do Vi- fo-Rey D. Garcia de Noronha, D. João de Taide, Pero de Taíde Inferno, D. Paio-de Noronha, D.João Lobo, Lopo Vaz de Si queira, D. Duarte Deça, D. Jorge Deça Jordão de Freitas, e outros muitos Fidal- gos, e Cavalleiros, que hiam nos navios pe- quenos. & com bom tempo foi o o oL Dec. VI. Liv. VIL Car. IV. %9 dor tomar Chaul , onde fe deteve poucos dias, e paílou logo a Baçaim, pera mandar continuar na guerra de Cambaya.. Dalli defpedio Francifco de Sá de Me- nezes com huma. galé , e doze navios: pera fe ir pôr fobre Surrate , por fer avifado:, que fe efperava por huma não do Acheém muito rica. Francifco de Sá fe foi lançar 'fo= bre aquella barra , defendendo a navegação aos navios de Cambaya, em que fez algu- mas prezas. Da chegada do Governadora Baçaim foi logo avifado ElRey Soltão Ma- hamude; e como eftava já enfadado da guer- ra, epor caufa della feus vaflallos pobres, e perdidos ; e todo o mantimento de feu Reyno aflolado , e deltruido, e os pobres, | e melquinhos clamavam por paz , determi- nou de a mandar pedir. Pera ilto defpedio logo hum Embaixador , pefloa principal de fua caía , pera ir vifitar o Governador ; e dar-lhe os parabens de fua fuccefsão , e á “volta difio apalpallo com pazes , dando-lhe poderes pera tudo o que com elle affentaf- fe. Efe Embaixador partio da Cidade de Cambayete em tres navios muito ligeiros, “com muitos criados , e cala, e em poucos dias foi ter a Baçaim, e Íurgio na aguada; donde mandou recado de fua vinda. O Go- vernador mandou preparar feu recebimento, e embandeirar toda a Armada, e deo “a o go ASIA pe Diogo DE Covro do a todos os Fidalgos, e Capitãespera fe irem pera elle veítidos. muito cultofamente. E tendo tudo preftes , mandou bufcar o Em- baixador, que foi paífado a huma galé, ri- camente toldada , e alcatifada:, e acompa- nhada de outras foi entrando pelo rio por antre a Armada, que lhe deo huma formo- fa falva, e chegado a terra foi defembarca- do , e acompanhado da guarda do Gover- nador, e de todos os calados até á fortale- za, onde ellava efperando em fala ricamen- te aparamentada, e o recebeo com grandes gazalhados. E, depois de lhe perguntar pe- la faude de ElRey , e por outras coufas;, bre- vemente o defpedio , e o mandou agaza- lhar na Cidade em cafas , que: pera io ti- nha mandado preparar. Dalli a tres dias o ouvio com o Secre- tario, e alguns Fidalgos velhos, e elle lhe deo fia embaixada, cuja Íubltancia era : » Queixar-fe ElRey do Governador D. João » de Caftro, não querer cumprir os contra- » tos das pazes, que tinha feitas com o Vi- »fo-Rey D.Garcia de Noronha; e-que fo- » racaula da guerra, defejando elle de con- »lervar a paz , e amizade com ElRey de » Portugal; e que pois elle faccedêra em feu »lugar , lhe pedia quizefle emendar aquel- » las coufas, e cumprir-lhe os Capitulos das » pazes.» O Governador lhe iefpançeh: em Óf= E) enDec VI. Liv: VILCARAV. gr fórma, deitando de tudo a culpa a Coge Co- far, que fora o author de todas as guerras. E vindo o Embaixador a puxar por pazes, otemetteo ao Secretario, eoutros Officiaes. . E fazendo Ífeus apontamentos , elle por par- te do Soltão Mahamude, e o Secretario pe- la de ElRey de Portugal, que viftos em con- felho, fe vieram a concluir as pazes com as mefmas condições , que eltavam dantes af- fentadas, tirando o negocio da parede, que não foi licito conceder-fe-lhe; e nas coufas da Alfandega , que ficalle ametade do ren- dimento della pera ElRey de Portugal, af- fim como já eftava concedido ao Governa- dor D. Eftevão da Gama. Eftas pazes mandou o Governador logo apregoar por Baçaim., e Dio , jurando-as muito folemnemente; e deípedio o Embai- xador com hum rico prefente pera ElRey ; e mandou outro Embaixador pera ir à Ci- dade de Amadabá a ver jurar as pazes por Soltão Mahamude, que elle fez com gran- des feítas, e alegrias de todos, e as mandou apregoar por todo o feu Reyno, e na Ci- dade de Dio. Paífado ifto, mandáram logo, afim ElRey., como o Governador, Oficiaes pera correrem com os rendimentos da Alfan-= dega , pelo modo, e ordem que: eftava af- fentado pelos contratos feitos: com o Vilo- Rey D. Garcia de Noronha, que fe veram na “92 ASIA pE Droco DE Couro na quinta Decada no Cap. VII. do V. Liy, Com ifto cefsáram as guerras de Cambaya; e a Cidade de Dio fe tornou a engrandecer “como no eltado primeiro. O Governador vendo tudo quieto; e que não havia que fa- zer no Norte, voltou logo pera Goa, on- de chegou em Janeiro, e começou a enten- der nos provimentos de Maluco, e em ou» tras muitas coufas; e ordenou em Goa a'ca- ía da polvora no lugar em que hoje ela, e mandou armar alguns galeões, caravelas, galés; efuítas, a que deo tanta preíla, que antes que faleceffe (como logo diremos) ti- nha acabado huma fomma difto. SEA Pol ESSO ==v: De como ElRey de Tanor na cofia do Ma- lavar fefez Chriftão, e veio aGoa: edo grande recebimento que fe lhe fez. SE fe defcuidavam nefte tempo os à. N Conquiftadores efpirituaes de exercitar feu officio por todas as partes ; e aíflim ca- da dia mettiam na manada de Chrilo gran- de fomma de Infeis, em que entravam mui- tos Reys, e Senhores; e deltes, os que me recêram muito, foram o Padre M. Diogo, Clerigo, e Letrado, que he aquelle a que Mapheo chama Diogo de Borba, por fer natural daquella mefma Villa , e Miguel e A le o Dra VI Eivo VI: Cír Vo 93 Vigario Geral, ambos grandes Religiofos'; e de muita virtude ; que por ferem eftes , indo depois o Miguel Vaz pera o Reyno, otornou ElRey D. João logo a mandar com ó mefmo cargo de Vigario Geral, e com Breves do Papa , pera como Inguifidor A- poftólico devaflar em fegredo de certos Chri- fãos novos muito ricos, que viviam em Goa elcandalofamente , fazendo as ceremonias Ju- daicas, de que a India fe começava à inçar. E chegando efte Religiofo a Góa; pren- deo alguns , e os mandou pera o Reyno, o que lhe cuftou a vida, porque os mais ti- veram maneira com que o matáram com pe- conha. O Meftre Diogo, feu grande amigo , fentio tanto fua morte, que logo fe metteo Frade em S. Francifco , onde em poucos dias faleceo , e affirmava-fe que de nojo. Ef- tes homens ambos fizeram muita Chriftanda- de, e o Meftre Diogo em tempo do Go- vernador D. Eftevão da Gama paflou à cof- ta da Pefcaria chamado dos Paravás , pera fe fazerem Chriltãos. São eltes Paravás naturaes de toda aquel- la coa , e viviam de pefcar aljofres , que por ella ha muitos ; e depois que os Mou- ros fizeram alli fua' vivenda, e tiveram pof- fe, e poder, começáram aos avexar, e pri var daquella pelcaria, querendo-lhes tomar aquelle proveito pera fi. E querendo elles re- | mir 94 ASIA pE Drocgo DE Covro. mir fua-vexação , por confelho de hum João da Cruz, de fua nação, que já tinha andas do no Reyno de Portugal, mandáram Em- baixadores a. Cochim-a pedir foccorro,.€ que fe queriam fazer Chriflãos. Era: então. nefte. tempo. Capitão daquella Cidade. hum Fidalgo bom homem , chamado Gonçalo Pes reira , que zelolo do ferviço , e honra de Deos., mandou em feu favor huma Arma- da, que opprimio os Mouros , e libertou os Paravás, que fe começáram a baptizar, (porque na Armada mandou o Capitão Re- ligiolos. pera lo.) Aifio acudio o Padre Metfre Diogo , e fez muitos Chriftãos.. E como então não havia na India mais que os Frades de S. Francifco , -que: não podiam acudir a tanto, porque eram poucos, e ans davam repartidos pelas Armadas, e eltavam na Cidade de S. Thomé, (cuja Cafa já el- tava á fua conta, ) ficáram aquelles tenros Chriftãos fem poderem fer vifitados de Re- ligiofos, fenão pelas Quarefmas , a que: lhes acudiam alguns de Cochim; até que chegá= ram os Padres da Companhia, que toman- do o Padre M. Franciíco Xavier informa- ção daquelia cofta., e. daquelies Chriflãos , fe foi lá com alguns companheiros, que já tinha recebidos, e tornou a aquentar aquel- Ja Chriltandade , e augmentalla com hum grande número de Infieis , que converteo 5 ç o Dee VI Liv. VI. Cap. V.. 9% efundou por aquella Comarca perto de qua- renta Templos, em que fe-lhes adminiftraf- fem os Officios Divinos; e alli deixou-al- guns Religiofos de vida approvada' pera os doutrinarem, e enfinarem as coufas de nof- fa Fe. Ein t sn Daqui fe paflou-o Padre M. Francifco à Jlha de Malaca, onde fez Chriltãos dous Reys, ehuma grande quantidade: do povo; o que aconteceo eftes-annos atrás paflados.. E nefte prefente em que andamos , eitava por Vigario na fortaleza de Chale hum Cle- trigo, chamado João Soares, homem de boa vida, que tomougrande amizade com o Rey de Tanor, que-coftumava a ir-muitas vezes“á fortaleza ; e aíflim fe lhe affeiçoou ; que featreveo ao convidar às vodas do Se- nhor, fobre o que lhe difle tantas coufas», que o rendeo, e o catequizou. E indo ter aquella fortaleza o Padre Fr. Vicente, com- panheiro do Bifpo , que andava vifitando em leu nome; e achando 'aquelle Rey diípofto pera receber o fanto Baptifmo, lho deo em fegredo, fem o faber mais que oVigario, e o Capitão, que era Luiz Xira Lobo», que foi feu Padrinho ; e lhe puzeram nome Dom João. Efte fegredo quiz elle que fe tiveífe, porque receava alteração mos feus:, e toda- via continuava com os Padres, eouvia fuas Miflas, e prégações, fem mudar o Ee de en- 96 ASIA pe Diogo pE Couro Gentio:, nem tirarvalinha, que he a fuaine fignia pera maior diflimulação , mas trazia hum Crucifixo muito efcondido, a que fe | encommendava. E como Deos o tinha to- cado , e elle andava fatisfeito , não pode dei- xar de fe defcubrir à mulher ; e tanto lhe prégou, e tantas coufas lhe dife da bonda- de de nofla Lei, que a converteo, e a trou- | xe-aChale, e em fegredo a baptizou, o Pa- dre Vigario com dous; ou tres filhos ment- nos que tinha. E comoelle de verdade el- tava abráazado em feucoração com a Lei de | Chrito ; e todas-as- coufas della: lhe pare- ciam-cada vez melhor; e ouvindo fallar nos Officios Divinos, que em Goa fe celebra- yam: no grande apparato, e ceremonia del- les, defejou fummamente de ir a Goa; af fim pera os ver, como. pera ir dar obedien- cia ao-Bifpo, como a Prelado maior da In- dia. Tito communicou com o Vigario, que lho louvou , e o efcreveo ao Governador Garcia de Sá, e ao Bifpo, a quem ElRey tambem fignificou 'por cartas Íua vontade. Elas cartas chegáram ao Governador em fim de Março; e praticando com o Bifpo fo- bre efte negocio , ofiereceram-fe-lhe algumas difficuldades , pera o que foi necelfario fa- ger ajuntamento de Theologos. E fendo tos dos prefentes , lhes leo o Governador acars ta daguelle Rey -Chriltão, e a do Vigario, nto ps: o Dec VE bro VILCAROV. 9 pera que foubeflem dos grandes defejos que tinha de vir a Goa a dar obediencia a feu Prelado ; como filho" Catholico: da” Igreja que elle folgaria de ofatisfazer em tudo co- mo homem convertido de novo á nofla San taFé, pera que osoutros fe movellema re- cebella ; vendo quanto-nós honravamos:, e etimavamos os que: fe convertiam a ella: Os "Theologos praticáram: fobre aquelle negos cio, e differam alguns: -» Que-não: era:licis » to receber-fe hum homem , que fendo Chris yfão , trazia ainda defeuberta a infignia de y Gentio:; porque: aFé não fe havia -de con- »fellar fómente como coração. ;“rrias 'com ya boca; » e fobre ifto deram muitastazões e allegáram a Divina Eferitura O Bilpo vo= “tando naquelle negocio» difle: » Quesquan= yto á linha, que aquele Rey trazia por fó- yta, não era inconveniente. algum peraidei= yxar de fer havido por-Catholico ;'porque y da Eferitura Sagradatinhamos ; qué Jofé yab Arimathea, Nicodemus ; Gamaliel ;e y outros homens havidos-por juítos ;' e: fan- ptos, que foram Difcipulos do Senhor en= ycubertamente por imedo-dos Judeos:;: não. »mudáram feus veftidos'; e que os;Apoltos »los de Chrifto Senhor; noflo, primeiro-que »foflem cheios do Efpirito- Santo» ;: eltives »ram alguns dias efcondidos em humaccas » fa; e que S. Sebaftião:; fendo Chriltãos canis Conto. Tom. IT. P. Tl. G » da- 98 ASIA pe Droco DE Covto » dava com trajos de Gentio, e foldado Ro- » mano, e que quando lhe foi neceflario con- » feflar a Fé de Chrifto, o fez, e motreo » por ella: que aquelle Rey eltava ainda ten- »ro na Fé, e era licito concederem-lhe al. » gum: tempo pera ir mollificando feus vaf- » fallos pera os trazer á Lei de Chrifto , o » que fe havia de fazer com tempo, porque » ( fegundo o Sabio )-todas as coufas «0 ti » nham. » Com eitas-razões concedêram tos dos , que fe-lhe déffe licença pera vir a Goa, | como que deípedio o Governador logo Dom João -Lobo-com oito navios pera ir bufcar aquelle Rey ; e huma<galeota muito bem pe- trechada pera SEE pefloa, e hum João Lo- | pes ; “Cidadão de Goanella , com todo o ferviço-de cama, e meza pera fua peíloa, “Eltes navios chegáram em poucos dias à Nata de Tanór ;-tendojá elle Rey recado | da vinda dos navios: ;-por: cartas que Lui Xira Lobo lhe mandou diante. ElRey feco- meçou a negociar: pera fe embarcar -efcondi- damente , o que não-pode: fer com tanto fe gredo:, que os feus familiares o não vieflem | a faber; e acudindo'os Regedores, lhe fize: | ramforça;, eo fecháram na fortaleza. Mas como elle: baflava: comaquelle fervor, e des fejo , lá. teve :maneira'com que de noite fe lançou do muro “abaixo por huma corda, € fica lagnádnis na-cabeça ; e mãos ; foi terá | mad = : PRE -pras abeo VE Tor. Via Cap MY. <00 praia, 'e a nado foi tomar hum dos navios da Armada, e dando-fe a conhecer, foi le- vado ao Capitão mór, que com grandes hons ras o embarcou na galeota, e o entregou a João Lopes, que o agazalhou, e fervio muis to bem, dando-lhetrajos à Portugueza , que pera iflo levava feitos; e por todo o cami- nho até Goa o foi fervindo muito abaftada- mente, SRS D.João Lobo defpedio diante recado ao Governador, que lhe mandou preparar hum muito honrofo recebimento., pedindo à Ci-' dade ; que lhe fizefle todas as honras , que faria à hum Rey de Portugal, fe alli vief- fe, Chegado ElRey à barra de Goa, achou nella D. Francifco de Lima; Capitão da Ci- dade, que o efperava com muitos: navios embandeirados, e huma formofa galé ricas mente paramentada pera fua pefloa; Depois de o receber, e falvar, o paflou ágalé , e foram entrando pelo rio dentro até ás cafas de Santos, que eltavam preltes pera elle. O ro eltava coalhado de embarcações grandes ; e pequenas, embandeiradas , e enramadas , com muitos, e diverfos inftrumentos, dans ças; folias, e invenções, de feição ; que foi a mais formofa coufa, que ElRey nufica vio; e fobre tudo: o que mais eftimou , foi ver aquella formo(fura ; e grandeza da Cidade de Goa, e osdivinos Templos; que de huma; Cas SER xs e 100 ASIA pe Diocó dE Covo e de outra parte do rio lhe hiam moltran- “do, a quem elle hia fazendo feu acatamen- to. Chegado ás calas de Santos ( que etam de Antonio Pefloa ) foi defembarcado, eaga- zalhado aquelle dia, e noite com todo o fer- viço Real, que o Governador tinha repar- tido por cafados , com camas muito ricas, e curiofas. Ao outro dia fe tornou a em- barcar na galé, e rodeado de mais de cem navios de remo, cheios: de muitos inftrumen- tos de alegria, foi até o caes, que hoje he dos Vifo-Reys , onde fe lhe-deo huma fo- berba falva deartilheria com grande terror, e-efpanto. Alli defembarcou á Portugueza, com çapatos, calças, capa, e efpada de ou- ro , colar, gorra com plumas ; é no caes achou o Governador acompanhado de todos os Fidalgos ; e Capitães, que-o recebeo com muitas honras. E pondo-o à -Ífua mão direi- ta, foram andando pera a Cidade por baixo de muitos, e formofos arcos-de rama, e dê peças de feda de todas as cores, e com mui tas outras louçainhas. E - E chegando à porta, que Ífahe ao caes; achou o Capitão da Cidade com: os Verea- dores , e Officiaes da Camara muito bem vel tidos; e o Capitão D. Francifco de Lima, primeiro que ElR ey: entrafle- pera dentro chegou a elle com o Procurador. da Cida- de, que levava -nãs mãos hum muito. rico pra- Dec. VI: Lrv. VIL CAP V. tor prato de baltiães dourado , e-nelle as cha= ves da Cidade, que lhe o Capitão aprefen- tou, dizendo-lhe: » Eftas, Senhor , são-as chaves delta Ci- » dade, que hoje em nome de ElRey de Por= » tugal aprefento a V. A,; e neila póde de » hoje por diante mandar tudo , como fe fo= »ra de V. A. porque -difto he elle muito fer= »vido.» ElRey com muita graça, e com moltras de grande contentamento daquella honra, que elle eftimou fobretodas, tomou as chaves, edifle: » Que era irmão, e fer= » vidor de ElRey de Portugal, e que como »tal merecia. todas aquellas hontas , e ga- »zalhados que lhe faziam , » 'e pondo-as Ío- bre fua cabeça, às tornou ao Capitão. Acabado ifto;, eftendêram os Vereadores hum muito rico palio, e o tomnáram debai- xo, indo o Governador fempre à fua mão elquerda , praticando com elle muito rizo- nho; ealegre. E entrando naCidade, achá- ram o Bifpo reveftido em Pontifical , com hum Crucifio nas mãos, e todo o Cabido, Clerigos, e Religiofos em procifsão. Che- gado EiRey ao Bifpo, proftrou-fe de gio- lhos diante delle com muita veneração , e fez fua adoração ao Crucifixo , e O beijou com muita humildade, E afim em procif- são foi levado pela rua direita, que eflava muito ricamente paramentada;, com lindas, e tor ASIA pe Droco DE Covro e curiofas invenções, e muitas Damas pelas janellas , ricamente ornadas , e ataviadas ; que de fima lançavam muitas ; € preciofas aguas de cheiro, e muitas rofas, e boninas; e a Cidade , e aquella rua toda fe desfazia em danças, bailes, tangeres, efolias. É era tão grande o concurfo da gente , que não podiam todos os Meirinhos", e Juftiças fa- zer caminho. As bombardadas aíim no mar, como na terra eram tantas, que parecia que fe desfazia o Mundo. Chegados á Se, que eftava formofamente armada, e com muitas charamelas , e trombetas , poz o Bifpo o Crucifixo no Altar maior, e ElRey fez Íua oração muito devotamente ; e a Capella, que era excellente, cantou o Hymno Te Deum Jaudamus , rc. e no cabo delle lançou O Bifpo a benção afim veltido como eftava em Pontifical. | Acabado efte devoto acto, (que moveo muitó aquelle Rey ,) foi dalli levado às fuas proprias cafas a cavallo, acompanhado do Capitão, e de todos os Cidadãos , indo dian- te delle a guarda do Governador com os feus Officiaes. Ao outro dia foi ElRey vifitar O Governador , e lhe pedio mandaffe chamar o Bifpo”, e Prelados, e os Fidalgos velhos, que tinha' que lhe dizer; e vindo todos; lhes fez alliefta breve falla. » Depois que Deos noflo Senhor foi fera » VI - a Dre. VEcLay.oVIl Cap. V.. 103 pvido, e ordenou“ por fua Divina miferis ycordia”, que eu fahifle das trévas em que peltava, eentrafle na luz da verdade, e que ptivele conhecimento de fua Divina Lei; » nenhuma outra coufa mais defejei, que tras yzer à mefma verdade , não Ífó meus fube »ditos, e vaílallos, mas ainda: todos os » Reys; e Principes Malavares; meus vizi= »nhos, eaccender em todos o lume da Fé; »mas he neceflario proceder nefte negocio » (que he de mudar Lei) com muita ordem; »ebrandura , por quão difficultofo he que- prella arrancar logo da primeira” pancada pdas gentes , que eftam tão arreigadas em » feus antigos ritos, e fuperítições. E eu cos » mo-quem os conhece ., e fui de fua mef- » malei, e natureza, entendo que he necef- » fario muito tempo, e muitas mollificações, »e mimos, com que determino: correr com todos. E quanto ao que toca a mim, eu » me atrevo (mediante a graça Divina) pro= »metter diante defte tão -catholico ajunta- pmento , que tenha (empre: muito inteira- »mente abraçada a Fé de Chrifto;, e ao mef- »mo Deos dou por tetemunha de minha » confciencia , e cada dia lhe peço com gran- »de veneração , e humildade me - dê for- »ças pera poder refiftir nas batalhas efpiri- » tuaes contra os inimigos daalma, porque » fem-elle o não poderei fazer; € ei a » tho- % so4 ASIA DE Dioco pe Covo » tholico filho da Igreja, dou d'agora por » diante a obediencia ao Bilpo meu Prela- » do, que eltá em lugar do Summo: Ponti- » fice; e conheço a Igreja: Romana por-car » beça de toda a Chriftandade. E aílim lhe » peço-como Prelado, e Cura de minha al- »ma, que me dê o Sacramento da, Confir- > mação. + porque me não fique aéto algum » de Chriftão por fazer.» Acabada eta falla, lhe Relanden anil po: »Que louvava, e engrandecia muito. »ao Senhor Deos. por tamanha mercê co- » mo aquella; e que aquelle fanto zelo Ca- » tholico, que moftrava de feu ferviço;, el- le teria cuidado de lho pagar com o ful- » tentar: em fua Fé. E que quanto a feus » vaflallos:; era neceffario pera fe moverem »a receberem a Santa Lei de Chrifto, fabe- » rem-elles: que a-tinha-elle recebido , por- » que-os: coltumes dos Reys era muito. nã- » tural feguirem-nos. os vaílallos ; e-que-os » homens mais: fe moviam por exemplos , » que por preceitos. Que pera merecer mais » com Deos:; eobra tamanha ir diante, cum » pria defcubrir-fe a feus-vaflallos; e que não » receafle alteração alguma, e que confiafle » mais naajuda, e favor Divino + que na » prudencia, e faber humano. E que quan » to ao Sacramento da Confirmação ,-eltava » preies pera ilo; » e logo: na Capell a do Go- Deo NtalayoNILaCAroV. 465% Governador lhe deo a fanta Crifma, eo Go- 'yernador foi feu Padrinho. | Elteve ElRey dez dias em Goa, emque correo, e vifitou todos os Templos fantos, e elleve aos Officios Divinos, e à hum de Pontifical ;. que o Bifpo celebrou com mui grande apparato. Em todas as Igrejas fe lhe armava Íetial, e lhe davam o Evangelho, ea paz, e o incenfavam, como coftumam fazer aos Reys Chriltãos. Em todos. eftes dias, afim de dia, como de noite, houve muitas feftas., danças, momos:, autos, tou- TOS, canas, com tantas riquezas, e appara- tos, queeltava aquelle Rey pafimado de ver o Eftado, e coftume dos-Portuguezes. De- ram-lhe os Fidalgos muitos banquetes, e pe- cas. Paílados os dez dias, defpedido do Go- vernador, Biípo, e Cidade , fe tornou pe- ra feu Reyno nos mefmos navios. Eflas no- vas efereveo o Governador, eo Bifpo a El- Rey nas nãos feguintes:, que elle feftejou muito, e as mandou a Roma a D. Affonfo de Alencaftro, que lá eftava por Embaixa- dor, pera que o fizefle a faber ao Santo Pa- dre; que então era Julio IIE., que mandou fazer em Roma grandes procifsões, e dif fe Milla em: Pontifical., e-houve hum dous to Sermão ; emcque fe differam muitos , e grandes louvores de ElRey: D. João de Por- mE tU- 1096 ASIA pe Dioco DE Covro tugal, por em feu tempo entrarem na mas nada dos Catholicos os mais barbaros Prins cipes do Oriente. CAPITULO VI Das confas, que acontecéram a Francifco de Sá em Surrate com bumas ndos de Mou- ros: e de como o Governador Garcia de dá defpachon as coufas de Maluco: e do cafamento de duas filhas. K Ranciíco de Sá de Menezes , que ef. tava fobre Surrate efperando as nãos do ' Achém , fe deixou eftar fobre aquelle por- to até meado Março ; e huma tarde houve vita de duas formofas nãos, e de huma gas leota, que com o Noroelte em poppa vis nham demandar a terra. Eram eftas náos do porto de Vanaçarim na colta de Pegú , evi- nham carregadas de muitas , e ricas fazena das. Francifco de Sá tanto que asvio, pre parou-fe , e poíto em armas as foi deman- dar, e fendo a tiro de camello, lhes atirou a amainarem; mas como ellas vinham con- fiadas na muita artilharia, e na muita ; C€s forçada gente que traziam, não fizeram ca fo de coufa alguma, e deixaram-fe vir feu caminho com o vento, que era muito fre co. Francifco de Sá as rodeou , e foi es: bombardeando, por ver fe-as podia defap- pas Dec. Visbivo VIlzCapi VE foz arelhar , o que-não fez, ainda: que todas via lhes foi desfazendo as obras de fima. com cujas rachas lhes matáram: muita gens te; mas ellas como vinhamaviadas:, e com vento profpero , foram tambem laborando com a fua artilheria com que defapparelhá-= ram algumas fuftas, e matáram alguns fol- dados. Os noflos não oufáram a invelir as nãos, afim por ferem os mares grandes, co- mo por ellas ferem muito alterofas , e não quizeram arrifcar os navios, e aflim foram com ellas até à barra de Surrate ; onde lhes anoiteceo. Francifco de Sá vendo quetinha os navios deftroçados , e queas nãos efta- vam furtas no primeiro poço, onde lhes não podiam já fazer damno , que o não recebel- fe elle maior, voltou pera Baçaim, onde re- formou os navios, e dalli fe fez á véla pe- ta Goa. — | O Governador depois de chegar áquel- la Cidade, começou logo a entender nos ne- gocios de Maluco, e nos de Jordão de Frei= tas, que fe andava livrando das culpas, que lhe Bernaldim de Soufa tinha mandado , o e ceflou pela morte do Vifo-Rey Dom João de Caftro. E mandando o Governador que fe correífe comelle, fizeram o feito fin- do, eo defpachou com os Letrados, e pro- nunciou , que fofle Jordão de Freitas acabar O tempo de fua Capitania; e que fe lhetor- çs nat- 108 ASIA DE Dioco DE Covro nafle toda a fazenda que lhe eftava focreftada, Com efta fentença fe começou a fazer pref tes pera fe embarcar no galeão da carreira, de que era Capitão D. Jorge Deça. O Go- vernador porque fabia: que Jordão de Freis tas viera de Maluco muito quebrado com Bernaldim de Soufa, a quem por'fuas pat- tes, e qualidades quiz moftrar reípeito , e evitar efcandalos, defpachou Chriftovão de Sá, feu fobrinho, por Capitão: de huma cas ravela pera ir a Maluco , e lhe deo huma Provisão em fegredo , pera Bernaldim de Sou- fa lhe entregar a elle a fortaleza, em que fi. carta por Capitão até Bernaldim de Soufa fe embarcar pera a India, e que depois entre- gaíle a fortaleza a Jordão de Freitas; por- que não quiz que Bernaldim de Soufa , o tempo que eftivefle em Maluco, ficaffe de- baixo da jurdição de Jordão de Freitas, por atalhar deígoftos, e defordens. Partidos eftes navios, defpachou o Go- vernador alguns Capitães pera irem invernar a Dio ; ea Ormuz, e proveo nas coufas daquellas fortalezas , e de outras, como lhe melhor pareceo. E porque fe via velho, e com duas &- lhas mulheres, e fem mãi , ordenou de as cafar , como fez. A mais velha, chamada D. Leonor de Alboquerque , com Manoel de Soufa de Sepulveda , com quem fe di- zia, Dec Vk bivo VEL. Cad. VE 109 zia, que eltava já cafada a furto do pai, E a outra D. Joanna de Alboquerque com Dom “Antonio de Noronha , filho do Vilo-Rey D. Garcia de Noronha, que tinha a Capi- tania de Malaca, eera omaior, e mais for- mofo homem, que na India havia, a quem deo o bom velho em cafamento tudo o que tinha, eambos foram juntos á porta da Igreja a pé, porque poufava oGovernador nas ca- fas do Sabayo, que eftavam perto da Sé. O Bifpo os recebeo, ea Cidade lhes fez mui- tas feftas. D. Antonio de Noronha hia mui- to galante, e cuftofamente veítido. Manoel de Soufa não levava mais que ostrajos 'or- dinarios, que coflumava a trazer. De Manoel de Soufa não ficou no Mun- do geração alguma de fua mulher, porque fe perdeo indo pera o Reyno. com fua mu- lher, efilhos, como em feu lugar diremos. Teve dous filhos antes de cafar + hum mas cho, e huma femea, em huma mulher ca- fada com hum homem muito nobre, e Fi- dalgo nos livros de ElR ey, que fia mãi de- pois da morte do marido declarou por feus : afilha foi levada pera o Reyno , onde a met- téram Freira; o filho era hum foldado tão pontual; e cavalleiro;, que não oufou pefloa alguma a lho-defcubrir ; e afim faleceo cá. D. Antonio de Noronha viveo tambem Potico elle, e fua-mulher; e ficou-lhe hum SUE fi- aio ASIA-DE Dioco DE Covo filho, chamado D. Garcia de Noronha , cos mo o avô , que foi levado a Portugal mes nino, onde fecriou; e depois de ter idade pera fervir ElRey , tornou à India com hum Alvará de lembrança pera: lhe darem Ormuz Cafou-fe na India com D. Filippa., filha do “Licenciado Tintino Martins, Procurador dos Feitos da Fazenda de ElRey, homem no- bre, Chriftão velho: viveo tambem cfte Pi dalgo pouco, ficou-lhe huma filha, chamas da D. Joanna, como fua avó,-que fua mãi levou pera o Reyno, e fe foi aprelentar em Aveiro, em companhia de huma fua irmã, mulher de Francifco de Soufa- Tavares, o manco. O CAPITULO Vl Das coufas; que acontecéram em Ormuz no “alevantamento do Bislalá: e decomo Dom Manoel de Lima o mandou matar. Avia noReyno de Ormuz hum Capi A À tão Abexim, chamado Bislalá, que El» Rey de Ormuz trazia com guarnição de folks dados nas partes de Manojão, pera favores cer as cafilas que vinham pera Ormuz: das partes de Perfia , e Coraçone:, e todas as mais, pera as fegurar de muitos ladrões», que por alli as coftumavam a faltear , por cujo medo deixavam: muitas vezes de vir a Og j muz , “Dec. VLcLiv. VI Car. VII r11 muz , e aquella Alfandega padecia muitas faltas. Efte Abexim vendo-fe com poder , fez o que todos os Mouros fazem , quando fe lhes oferece occafião , que foi grangear a gente que trazia , e adquirir ontra, e le- vantar-fe com aquelas partes todas , reco- lhendo-fe na fortaleza de Manojão , que he vinte leguas: pelo fertão dentro. E dalli fa hia a faltear , e roubar as cafilas » € todas aquellas terras, com que veio a engrofiar , e a fefazer muito poderofo. Difto foi loga ElRey de Ormuz avifado., e deo conta do negocio a D..Manoel de Lima, Capitão da- quella fortaleza , pedindo-lhe que lhe déf- fe ajuda pera mandar contra o Bislalá , pois aquelle Reyno era de ElRey de Portugal ; e as perdas. lhe tocavam-mais que a elle. D, Manoel de Lima mandou logo negociar hum Aleixo Carvalho, e lhe deo cento é vinte Portuguezes pera paflar 4 outra ban- da, em companhia dos Capitães de ElR ey de Ormuz, pera irem bufcar o alevantado : e fegurarem os naturaes, que fugiam, edef- amparavam as terras. Efta gente andou da outra banda perto de dous mezes , tendo al- Suns recontros com os inimigos de pouca importancia. Gsastas ia Ends Eltando o negocio :nefte 'eftado chegou Pantaleão de Sá ,, que atrás diflemos no Cap. HI. do Liy. VII. partido: de Goa pera: e a Jr 112 ASIA DE DioGo DE Couto dir avefte negocio. D. Manoel de-Lima'o deípedio logo pera” a outra banda com a génte que levava; e coma outra que lá tie nha: Aleixo Carvalho perfez trezentos hos mens, e em companhia. dos Capitães de El Rey de Ormuz, que levavam dous mil, fo ram buícar o alevantado. E como elle ans dava muito poderofo, e era ladrão: de cala; que fabia as entradas, e fahidas», não lhe dava dos noflos confa alguma ; nem tambem fe queria encontrar com elles; porque co- mo trazia grandes eípias , não fazia mais que defyiai-fe , e fazer todos osdamnos que quéria, e podia, comendo asterras fem con- tradicção alguma. Pantaleão de Sá andou por aquelle Magoftão mais: de dous mezes, fem fazer coufa alguma, e enfadado de tudo fe recolheo pera Ormuz: fem ordem -do-Capi- tão; que ie tomou muito, e tiveram Íobre illo-taes palavras, que-o mandou Pantaleão de Sá defafiar por huma “carta. D. Manoel de Lima lhe refpondeo: por outra:» Que » elle guardava-fua, carta pera refponder a » ella, como acabaffe o tempo-daquella for- » taleza:; de que tinha dado a menagem à » ElRey:; e-como fe-defobrigaffe; elle lho, » lembraria. » Pantaleão de Sá fe embarcou pera- India; -e «depois: que:D. Manoel de Lima acabou-o feu tempo: , não: fe encon- tráram nella, porque 'o tempo o .defviou, Ê que Dec. VI. Liv. VII Cap VII 173 que Pantaleão de Sá foi defpachado depois com Cofala, e cafou na: India:, onde elteve ate o tempo do Conde do Redondo, em que fe foi pera o Reyno , e lá encontran- do-fe em huma rua, (eftando a -coufa bem “ efquecida de tantos annos , e elles tão ve- lhos; ) faudando-fe , perguntou D. Manoel de Lima a Pantaleão de Sá como eftaya ? El- le lhe refpondeo, que velho. Ao que Dom Manoel de Lima lhe dife: » Velho não efe »ta volla mercê , fenão muito bem difpof- »to» Della palavra. (fegundo que na In- dia nos contáram alguns Fidalgos ) entrou a defconfiança em Pantaleão de Sá, de ma- neira , que indo-fe pera cafa lhe mandou huma carta, em que lhe tornou a alembrar as coufas de Ormuz, pedindo-lhe que fe vifem no campo. D. Manoel de Lima o foi elperar a elle, e pelejáram , e fe feriram; e o que mais paílou, lá fe fabe no Reyno, e ficáram pera não deixarem de fer amigos, como foram. 7 ss 7 “Tornando ás coufas de Ormuz. Vendo D. Manoel de Lima que o levantado an- dava fenhor das terras fem lho poder im= pedir, tratou de o mandar matar. Tinha el- le hum criado Gallego , valente homem, e muito determinado , e tomando-o em fegre- do, lhe perguntou , fe featrevia a fazer-fe fugidiflo pera a outra banda, e metter-fe no Conto. Tom. LIL, De lhe H E 114 ASIA pe Diogo DE Covo exercito de Bislalá , e matallo á beélta ? E dizendo-lhe .o Gallego que fim, praticou el te negocio com ElRey,- e elle lhe paflou hum formão com Jettas grandes , é formo . fas, chapado com chapa de fuas Armas; em que perdoava geralmente a todos os'que andavam com Bislalá , e que ninguem en tendeífe com aquelle Gallego , fe matafle a Bislalá;vantes a'todos-os que-o favoreceilem lhes faria muita mercê. Com efte formão fe fingio o Gallego aggravado , e fugido de D. Manoel de Lima, e paffou-fe ao exerei- to , onde andavam outros Portuguezes fu- gidos, e fe agazalhou com elles. Alli fe-dei- xou andar alguns dias, e hum delles , am. dando o Bislalá a cavallo em campo no | meio de fua gente, encarou o Gallego: nel le huma béfta com hum farpão', e toman- do-o pelos peitos; deo com elle do caval- lo abaixo morto. E no mefmo inftante ale vantou em huma lança o formão de ElRey ; bradando alto: » Formão de ElRey , for- » mão de ElRey , perdão de ElRey pera to- » dos. » É acudindo alguns Paríeos, toman- | do o Gallego, vendo o formão de ElRey; eo perdão tão copiofo; e o Bislala já mor to , fe desfez o exercito , e buns fe foram . pera Ormuz , e outros pera outras partes: O Gallego fe foi pera Ormuz; e ElRey; ero Capitão lhe fizeram muitas ftercês ; é. del- DeEciD av Eiy VEG< fig defta maneira ficiram as coufas do Manos jão quietas. - CAPITULO VII. Do que aconteceo a Diogo Soares de Med: lo em Pegul : e de como foi em companhia daquelle Rey contra o de Sião: e do as der, eftado, e ordem com que efte ey caminha: e do que lhe aconteceo até che- ger a Sião. É NT O Cap. IX. do Liv. V. da quinta De- i N cada temos dado conta, como o Bra- má Rey dos Reynos de Ovú , e outros, conquiftou os de Pegú, e fujeitou todos a- quelles vizinhos. Elte vendo-fe tamanho fe- nhor , fabendo que o Rey de Sião tinha hum alifante branco, a que todos os Gen- tos tinham muito grande veneração , ha- vendo que a elle como a cabeça de toda aquella gentilidade lhe pertencia mais, que ao Rey de Sião, mandou-lho pedir por Em- baixadores , que lhe enviou com grande ma- geltade , de que o outro zombou, não lhe relpondendo a propofito. O Bramá havena. do-fe por muito ofendido , e affrontado, de= terminou logo de ir conguiftar aquelle Rey- no, e trazer o alifante branco. E fazendo chamamento de todos os Reys feus vaflal- los, ajuntou innumeraveis exercitos , com e it E SURe y 116 ASIA pe Drogo DE CovTo que partio contra aquelle Reyno quafi nos annos de 1544. E chegando áquella Cida- de, lhe poz tão eftreito cerco, que lhe man- dou aquelle Rey commetter todos os partidos que quizefle, nrando o alifante branco, que elle havia por coufa religiofa , affirmando- lhe, que fobre elle havia de perder feus Reynos. O Bramá, que havia muitos me- zes que eftava naguelle cerco, e fe elperava pelas enchentes daquelle rio, que alagão to- dos aquelles campos , fez com elle pazes com eltas condições. é “* »Que o Rey de Sião ficaria feu vaflal- »lo, elhe daria huma filha pera cafar com »ella; e que todos os annos lhe mandaria » outra dos feus principaes, e certos alifan- »tes de ferviço. » Affentadas as pazes , lhe mandou o Rey de Sião a filha, que elle re- cebeo por mulher , .e alevantando os exer- citos, voltou pera feus Reynos. Foram con. tinuando com eftas pareas até efte anno paf- fado de quarenta e oito , em que o Bramá mandou a Sião recolher as pareas como cof tumava, €a lhe trazerem a mulher. E queren- do ElRey de Sião tomar huma filha a hum “aquelles feus principaés, como tinha feito Os annos paflados a outros, de que eltavam efcandalizados, fallando-fe todos, ou fofle por confentimento do Rey , ou não, bafta que deram nos Embaixadores, e os a - : E Che Dec. VI Liv. VIL Car VIIL 117º Chegadas eftas novas ao Pegú, fentio-as | muito o Bramá, e determinou vingar aquel- la offenfa , mandando logo chamar todos feus vaílallos, e ajuntou grandes exercitos, e grandes preparamentos pera não tornar de Sião fem tomar aquelle Reyno, e haver a- quelle Rey ás mãos, Difio foi logo o Rey de Sião avifado, e fez chamamento de feus vaflallos , e fortificou a Cidade de Odia, em que refidia, lançando fóra toda a gente inu- til, deixando fó a que podia pelejar , que fe afirma que eram perto de feiscentos mil homens. E mandou fortificar hum paflo de humas ferras , por onde o Bramá havia de palar , e poz daquela parte vinte mil ho- mens de guarnição , e na Cidade recolheo mantimentos pera dous annos ; e mandou fundir muitas peças de artilheria de bronze, porque tinha officiaes excellentes , e muito cobre; que lhe vinha da China todos os an- nos .; e afirmava-fe , que: tinha quatro mil peças alleítadas pelos muros; em que havia algumas, que lançavam pelouros de quatro palmos de roda, e dalli pera baixo até fal- | Cões; e além diflo muitos trabucos , e pe- trechos de guerra pera fua defensão.. O Bramá depois que ajuntou Ífeus exer- | citos, fe poz com elles emcampo , e dizia- fe que tinha hum milhão “e quinhentos mil homens , e quatro mil alifantes , e tantos Re bois, 118 ASIA DE DroGo nE Couto bois , cavallos , e outras beltas de carga, fervidores, rofladores:, e officiaes de todas as mecanicas , em tanta quantidade , que qua- fi fe não podiam numerar. E eftando ElRey Já pera fe partir, chegou Diogo Soares de Mello , (que deiximos partido do rio de Parles , depois daquella grande vitoria das galés do Achém , como atrás fica dito no Cap. IH. do V. Liv.,) que ElRey eftimou muito, convidando-o pera ir com elle na- quella jornada:, com todos os Portuguezes que em Pegii havia; e lhe mandou dar mui- to dinheiro pera repartir por elles, como fez, ajuntando perto de oitenta. ElRey co- meçou logo a marchar nefta fórma. "Cada Rey vaífallo com toda a gente de Íeu Reyno hia feparado a huma parte, tan- ta diflancia huns dos outros , que nunca fe ajuntavam, nem milturavam, é por tal ot- dem: que fempre ElRey de Pegú ficava no “meio; e o mefmo era: ao aflentar dos arta- haes:, porque cada humo punha fobre fi, perto de-meia legua huns dos outros. Só Dio- go Soares de Mello com os Portuguezes pu- nha fua eftancia muito perto da de ElRey, porque fiava mais delles a guarda de fua pel- foa, que de feus naturaes, Às principaes pefloas que nefta jornada fe acháram com Diogo Soares de Mello, foram fewirmão, D. Fernando de Noronha, * Dre: VI. Eve VIE CarAVHI 119 filho de hum-itmão: do Marquez de Villa- Real; Clerigo ; que foi o que fe perdeo em Baçaim:, fendo Capitão da náo do Gover- nador Martim: Affonfo de Soufa., João de Soufa Rates, Athanafio de Aguiar , e ou- tros. 4 Ria Aflim foi caminhando efte barbaro gen- tio com tanta: mageltade , e grandeza, que excedia a todos-os Reys do Mundo, por- que nenhuma noite fe agazalhava:, fenão em cafas muito formofas ., todas douradas, e lavradas , que-cada dia-lhe amavam de novo pera- iflo ;: porque de, Pegú lhe leva- vam a-madeira , armação , tectos, portas , e todo. o mais neceflario fobre alifantes., que caminhavam fempre-diante ; e na paragem em-que ElRey havia de aflentar o arraial, fe aimavam as calas com tanta brevidade, que. era efpanto , porque: fó pera iflo hiam mais de dous: mil officiaes =, ferreiros, carpintei- ros ,icerradores:, pintores , douradores-, e todas as mais ; e huns armavam , outros dou- tavam, e pintavam'; outros forjavam. pre- g0s; -e-ferragem:; de: maneira, que quando JElRey chegava, tinha huns formofos Pas Sos de muitas camaras, varandas; retretes, cozinhas ,-em-que fe recolhia com fuas mus lheres, eos Paços-todos cercados á roda: como huma fortaleza: muito forte; deixan= do outra mageftade de baixellas de ouro; e é pe- 120 ASIA pr Drogo DE Covro pedraria , de cavallos a deftro, de alifan- tes ajaezados pera fua peífoa, de carros tri- unfantes guarnecidos , e lavrados deouro, que era huma máquina infinita. Delta manei- ra foram caminhando por via de Martabão, que era mais perto. a - E chegando a hum'rio,;, que alli vem em- bocar , (que era hum grande braço do Me: naó , que ferá mais de huma legua de lar- gura, ) mandou ElRey armar huma ponte fobre barcas furtas a muitasamarras, por cau-. fa da grande corrente, pera por ella paífat todo o exercito, que aílim na grandeza, co mo na obra paflou pela que mandou fazer Xerfes fobre o Elefponto , quando paílou a Grecia. Por ella palfáram aquelles innume Taveis exercitos , que o Pegú levava, e fo ram caminhando de longo de humas altiffi- mas ferras , quali vinte e finco dias:, fem acharem paflagem pera a outra banda, que parece ferem os montes Mandius de Ptho- lomeu. ER: Por efte caminho pafláram os nofTos gtan- des fomes, porque os Pegús, e Bramás não coftumavam levar nos exercitos mais quear- Toz, porque comem todas as cevandilhas da terra, folhas , e raizes de arvores. E tanto que aflentam feus exercitos, logo fe mettem pelos matos 'á caça de cobras, lagartos, bo» gios; ullos, tigres, e de toda a outra cous fa Dec VÊ Ervo VII Car. óVIOL 127 fa peçonhenta, de que fazem fuas iguarias, que comem com o arroz. Mas os Portugues zes foram comendo à faltade outras carnes; as de alifantes , cavallos:, bufaras, e ou+ tras a que não eram coltumados. E no ca- bo de vinte e-finco dias , que caminhavam de longo: daquellas ferras:, foram dar em huma quebrada que alli faziam, como a- quellas dos montes Cafpios , que hoje: cha- mam Derbent. Aqui tinha ElRey de Sião feitos huns muros fortiflimos, que tapavam aquella entrada, com vinte -e finco mil ho- mens de guarnição pera fua defensão. E porque não havia outro paflo fenão aquele, aflentou o Bramá fobre elle feu ex- ercito; e commetteo a Diogo Soares de Mel- lo aquelle negocio, e deo-lhe Calagoni, Se- nhor de Martabão , com trinta mil homens. Diogo Soares de Mello mandou affentar al- gumas peças de artilheria em alguns baftiães;, que ordenou , com que mandou bater as. tranqueiras dos inimigos por muitos dias , fem lhe fazerem mais damno que pelos al- tos, por ferem muito fortes. Os noffos qua- fi que andavam defconfiados daquelle nego- cio, e determináram de commetter aquellas ttanqueiras por aflalto, o que prováram por algumas vezes fem as poderem cavalgar, e tanto porfiáram , que fe puzeram em fima com muito rifco feu , porque lhe matáram E: dous 122 ASIA pe Didgo DE Covro dous companheiros, eferíram todos os mais, e D. Fernando de Noronha levou: huma ef- pingardada pelo pefcoço, que lho paílou de parte a parte, mas não perigou, porque lhe não tomou a guela. Subida a tranqueira, de- ram os noflos entrada franca ás gentes de Calagoni , e da outra banda tiveram gran- des batalhas: com os Siões ,:em que foram desbaratados de todo. ElRey de Pegú pal tou todos os feus exercitos por aquella par- te, e foram caminhando por campos mui- to grandes, e efpaçofos , até haverem villa da Cidade de -Odia, onde aquelle Rey -ef- tava recolhido com feiscentos mil homens de: guerra, provído de mantimentos ; e mu- nições pera-dous annos. O Bramá-aflentou o leu exercito em huma parte alta, «meia Je- gua da Cidade , ea todos os outros Reys teus vaffallos mandou: ;- que cada hum por fi aflentafle o feu em torno-delle-, de forte que ficafle impedida a entrada; e fahida; e encommendou a Diogo Soares de -Mello a bateria, que fabricou algumas trincheirasem partes mais accommodadas pera baterem: à Cidade, e nellas mandou afleftar muitas pe- ças de campo de todas-as fortes: e SD Penis VE LEveNIES 143 GAL LU LO Da deferipção da Cidade de Sião: e de co- “mo o Bramá a commetteo , fem fazer coufá alguma: e de como foi contra a Cidade de Camambee. Vo de Odia principal do Rejyno de Sião, que he efta fobre que o Bra- máeltá, fica pelo rio aílima quarenta leguas;, que he aquelle a que Abrahão Hortelio cha- ma Menaó , que pela fituação das Taboas de Ptholomeu parece Doris fluvinim, cújas bocas elle mette em perto de vinte gráos. He efte rio tamanho, é de tal fundo , que ate 4 Cidade podem chegar juncos, e nãos noffas; ferá aqui de largura de meia legua. E pela margem delle de huma, e outra par- te he todo povoado de lugares, Villas, quintas, palmares, arequaes, e de todas as fruitas da India. Dá-fe de longo delle mui- to gengivre, e tantas canas de açucar, que he hum número infinito, de que fazem mui- toaçucar, ehum vinho eltilado como agua ardente , que bebem. Ha por efte rio afi- ma algumas "Tabancas, que são como por- tagens , em que fe regiltão os que vão pe- ta a Cidade, e pagão alguns direitos, e cof tumes. E aflim meímo ha muitas Varelas, Que são Molteiros, em que vivem feus ne Tê 124 ASIA pe Droco pr Covro ligiofos, e alguns delles muito fumptuofos, e dourados pelos tectos, e curucheos. Vala elte rio Íeis mezes , e enche outros tantos; e no tempo das vafantes vão os navios pe- ra fima á toa , porque he muito alcantila- “do de ambas as partes. A vafante defce com muito grande ímpeto ; mas a enchente tão vagarota, e branda, que Ífenão enxerga. E o dia da Lua do derradeiro mez fubita- mente arrebenta, e alaga todos aquelles cam- pos, muitas leguas á roda, de feição, que ficam duas, etres braças de agua. E poref ta razão temos Sides fuas povoações em lu- gue muito altos , como os moradores do gypto, eficão no tempo deftas inundações em Ítheos no meio do mar, e fervem-fe de humas povoações ás outras com embarca- ções pequenas. Nas coftas da Cidade, que fica pelo rio allima da banda. do levante, he a terra mais alta, e pollo que fe alaga, não he tanto. Re - No tempo que .o-rio começa a encher, começam oslavradores a lavrar fuas terras, ea femeallas; e quando chegam as enchen- tes, Já O arroz elltá aflafonado, e tão alto, que ficam as efpigas por lima da agua; por- que he tão fertil, quea palha do arroz he tão grofla como hum dedo , e naquelles qua- renta dias, que duram elles enchentes, vão os lavradores com elas embarcações, que | são Dec VI Liv: VII Cap. IX. 125 so infinitas, e nellas muitas feftas , e tan- geres, a fegar, e a cortar as efpigas que fi- cam por fima da agua , e levam as alma- dias carregadas pera Íuas povoações , onde tem fuas ciras. Eltes dias são os de maior regozijo feu, que todos os mais do anno. No tempo deítas inundações todas as ali- marias do mato , veados, gazellas, tigres, vacas bravas ., e outros fe acolhem aos al- tos, ealli vam os Sides com muitas embar= cações á caça, e dellas os eftam matando às efpingardadas , fréchadas, e ás pancadas, que he huma caça de muito gofto, e recrea- ção. E he tão grande o número deftas ali- marias que matão , que carregam dalli to- dos os annos muitos juncos de feus pella- mes, eos levam a Japão, onde fazem mut- to proveito , porque daquellas pelles fazem muitos trajos , quimões, e outras coufas mui- to lavradas, como cada dia vemos trazer à | India, de que fazem formofos caparazões, baltardas , coutas, e outras curiofidades ;, porque são as pelles formofiflimamente la- vradas. Quando efte rio quer tornar a vafar , (que he em outra certa conjunção da Lua, ) fahe ElRey da Cidade com todos os feus Gran- des, em muitas embarcações muito doura- das, e paramentadas com muitas feftas, tan- geres., e inftrumentos de toda a forte; e di É zem 126 ASIA pe Diogo DE CovrTo. zem, que vai ElRey lançar a agua fóra; e eta he a fua maior fefta de todas. "Tem El Rey mandado pôr hum mafto no meio do rio, guarnecido, e forrado de fedas de co- res, e nelle pendurada: huma formofa joia pera o que mais remar, e chegar primeiro a ella. E póltos todos os navios em ala, ar- rancão a hum final que lhes fazem, e vam remando à porfiá, com tamanhos gritos, ala- ridos, e vozarias, que parece que o Mun- do fe funde; e o primeiro que chega, leva o preço. E nefte curlo fe encontram huns com os outros, e fe quebrão., é fe efpeda- ção , e defapparelhão dos remos , de manei- ra, que he huma confusão muito pera ver de fóra. Por onde não são tão barbaros , que em feus jogos , e feftas não imitem os an- tigos Troianos, ( porque da mefma manei- ra Eneas, quando chegou a Sicilia, feftejou com o curfo de fuas galés, pondo curiofos preços pera a mais ligeira.) E depois deftes S10es ganharem o preço , tornam a voltat pera a Cidade com tantas feftas , gritas, e tangeres, que parece que fe desfaz o mar, e a terra em eftrondos. Recolhido ElRey à Cidade , como naquella maré, que he a con- junção que começa a valar a agua, dizem, que o feu Rey a foi lançar fóra ; porque eltes Gentios todos os attributos que fe de- vem a Deos , os dam aos feus Reys, € E crem Dre Vl Lrvo VII Car TR. 127 crem que todos os bens lhes vem del- les. | “Quanto á grandeza da Cidade de Odia; não ha Portuguez que. dio pofla dar ver- dadeira informação , porque os não deixam andar por ella; mas póde-fe conjeéturar por huma experiencia que fez hum curio(o, com quem nós communicámos ilto. | º - Ele: diz, que eftando naquella Cidade, delejando de faber a grandeza della, fe em- barcára: em huma daquelas embarcações-da terra, pequena, e muito ligeira, com deter- minação- de rodear a Cidade, (que he toda cercada de agua,) e que partíra hum dia de madrugada do bairro dos Portuguezes , e que quando tornára. era já alta noite , e afirmava, que por fia eltimativa andaria mais de oito leguas.' He efta Cidade, como agora diflemos, rodeada do rio, e ella to- da cercada de muros de adobes , e não fi- ca antre ella, e o rio mais que hum re- eixo de oito, ounove paflos. Tem toda á roda formofos baluartes, e muitas guaritas, guarnecido tudo de muita, e mui groffa ar- tilheria de bronze. Na face da Cidade, on- de as náos furgem , tem hum arrebalde, que tambem he cercado de muro, com feus ba- luartes, onde fe agazalhão os forafteiros, e he feito a modo de Ilha, e fe divide da Ci- dade por hum efteiro , fobre que eftam ale d gu= 128 ASIA pe Diogo DE Covro gumas pontes pera fua ferventia, Tem efe arrebalde bairros feparados pera todas as na ções, pera não viverem milturados, e cada bairro tem fuas portas com que fe fecha, À Cidade he toda retalhada de braços do rio, que por muitas partes entram , e tornam a fahir por outras ao mefmo rio, e em todas eltas entradas:, e Ífahidas tem portas fecha- das com cancellas mui fortes, e grollas., pot onde abrindo-fe , entram dentro na Cidade todas as embarcações pequenas. Ha por den- tro muitos, e freícos jardins , hortas, e quin- tacs pera feus paflatempos , e outras gran- dezas que deixamos , porque não fofire a hiftoria tanto. - E tornando a ella: o Brama tanto que aífentou o arraial, começou a bater a Cida- de por muitas partes. ElRey de Sião; a par- te de que fe mais temia, (que era hum ba luarte., onde o rio era mais eftreito, e de mc nos fundo, ) à não quiz fiar fenão dos Por- tuguezes, que mandou recolher dentro , que quali feriam fincoenta , e elegêram por leu Capitão Diogo Pereira, (de que já em ou: tra parte fallâmos , fogro de D. Pedro de Caftro, irmão do Conde do Bafto, edo Ar cebiífpo de Lisboa D. Miguel de Cafiro, f- lhos de D. Dicgo de Caftro, e de D. Leo nor de Taíde, ) que all eftava com humi não fua, que com muito valor , e, a ; ga Dec VI Liv. VII Car. IX. 129. defendeo aquella parte, fazendo della mui-, to damno nos Pegús ,.e Bramás; e fem dú- vida, que foram os Portuguezes a total. oc- cafião de fe não tomar aquella Cidade, E porque as particularidades defte cerco não fazem acafo pera nofla hiftorias, as deixa- mos. dafesica Vendo o Bramá que tinha gaftado o teme po-fem ter feito coufa alguma , e que fe hiam chegando as crefcentes do grande rio Menão , temendo que fe o tomaflem na- quellas varzeas , o alagallem., e fubvertef- tem, teve modo com que mandou commet- ter os Portuguezes , que eftavam dentro, que. ou lhe déffem por alli entrada na Cidade ,- ou deixaflem de pelejar , e defender aquel- la parte, (porque nifto eftava entralla elle, ) e que lhes daria a todos tantas riquezas, e Ouro, que ficalfem todos bem ricos. A ifto lhe mandáram os Portuguezes aquella refpof- ta, que os da Cidade de Synania deram ao Conful Bruto , quando os tinha cercados, que vendo a conftancia, e valor com que fe de- fendiam , lhes mandou pedir huma fomma “de ouro, e que levantaria o cerco; ao que lhe refpondéram , que feus paílados lhes não deixaram ouro pera remirem as vidas, fe- hão armas pera as defenderem. Elta refpofta diz Valerio Maximo , que delejára fahira da boca de algum Romano, v ContoTom.III.Pal. I por- "430 ASIA DE Droco pE Covrto * porque não era digna de fer dada por ou- “tra alguma nação. Aflim eites valorofos cas -valleiros Portuguezes, que eftavam em Sião, mandáram dizer ao Bramá , que os Portu- guezes não remiam Ífuas vidas fenão comas “armas., nem: vendiam fua lealdade por todo o ouro do Mundo; que foubefle em certo, que em quanto elles follem vivos, não en- «traria elle naquella Cidade : e que ainda de- pois de todos mortos , e efpedaçados ,. te pudeífe fer, lha haviam de defender. Vejam logo quanto mais dignos de lou- vor, e engrandecer foram eftes, que aquel- les Romanos , que eltando no Capitolio cer- cados des Francezes , fe refgatáram com. Ouro. E ao | Vendo o Bramá tão grande defengano, levantou feu exercito , e foi marchando é | “vante com tenção de ir cercar a Cidade de 'Camade , ou Campape , como lhe alguas chamam, que era a legunda do Reyno, e. onde o Sião tinha todos os feus thefouros, e aflim de longo daquelle formofo rio Me- naó foi caminhando vinte dias , até chegar. águella Cidade , que era muito grande, é. formofa, cercada toda à roda com feus ba- luartes, e guaritas, e com huma formofifl- ma cava. Eftava dentro hum Capitão Sião som duzentos mil homens. de peleja ; e com | todos os provimentos .neceflarios pera muit da ; 108 sa Dec VII Ie VII CAP-IX. 13 tos tempos. O Bramá aílentou feus exercis tos derredor da Cidade , e deo o cargo de a combater a Diogo Soares de. Mello com os Portuguezes , que depois de feitas fuas trincheiras, .vallos,- e repairos, e prantar as peças de artilheria , começou por huma par= te abater a Cidade, e por outra a entulhar a cava por algumas partes, pera poder che- gar a picat o muro, o que tudo de dentro lhe defendêram , e atalháram com muito fo- go, defarmando- em vão todos os trabalhos, que: naquelle negocio tinham commettido. - - Calagoni, Senhor de Martabão , que era homem muito avifado; e efperto; mandou fabricar hum grande caftello de tres fobra- dos, fobre grandes rodas , e máquinas mui fortes, guarnecido por fóra de traves, emaf- tos mui groflos, fechados com ferragens for- tillimas pera poderem fuftentar a- furia da attilheria, E depois de acabado com grande culto; e trabalho , o fez chegar aomuro com os alifantes, pera por elle o entrar, levan- do dentro muitos homens de efpingatdas, e algumas peças de artilheria, e muitas pane- las de polvora, e outros artifícios de fogo. Os de dentro vendo abalar aquella máqui- ha, (que era huma coufa efpantofa,) met- teram em algumas bombardas groífas huns Virotões de pão ferro, tão groflos como ens= Rias ; e nas cabeças atraveíladas: em a - I ii = 132 ASIA pe Droco DE Covrto humas traves grandes ferradas , e pondo fo-. go ás bombardas , deram aquelles virotões no caftello. com tamanho terremoto, que 0 desfizeram por fima ; e dando-lhe com ou- tros, o acabáram de defmanchar, e arruinar de todo. O Bramá andava affrontado de não fazer naquella jornada alguma coufa nota- vel, eos nollos tambem andavam bem def confiados. Athanafio de Aguiar, que era hum fol- dado valorofo , ordenou humas muito grof fas, e fortes mantas com grandes traves, €. taboões ferrados por lima, e com muitas to- das, com que as fez encoltar ao muro, que mandou picar por huma grande multidão de gaftadores Pegús, e Bramás , e começáram a fazer alguns pequenos poítigos. Os de den- tro acudiram áquella parte com muitos ar. tificios de fogo, que lançáram fobre as mar tas, e fe confumiam elles fem fazerem ne. nhum nojo aos que trabalhavam. Vendo os. Sides que nada daquillo aproveitava , por caufa das mantas com que fe amparavam os que trabalhavam debaixo dellas, e que eb tavam arrifcados- a fe perderem por alli, co meçáram a fazer repairos por dentro; e não. curando já do fogo , por verem que não. impeciam com elle aos Pegús , e Bramas, que os tinham cercados, ufáram q”outro ar- dil, e elle foi, que enchéram muitas e (o) | Dec. VI: Liv: VIL Cap IR. 133 de cujidade de gente , delida com ourina', e dando com ellas do muro abaixo em fi ma das mantas fe fizeram em pedaços ;'e aquelle cujo , e fedorento licor coando-fe pe- las gretas do taboado , foi calar abaixo ,-é deo fobre os que trabalhavam, e em lhes tocando aquelle fedorento material, largá- ramlogo tudo, efe recolhêram pera as'fuas eltancias por não poderem foffrer tão mão cheiro , e pafmados -daquelle negocio , di= ziam que os Siões eram diabos, porque quan- do lhes não aproveitavam as armas ordina- ras, pelejavam com outras, de que nunca outra alguma nação -do Mundo ufou , e con= tra quem não havia repairo algum: O Bras má vendo o tempo galtado , depois de paí= fadas as enchentes , levantou feu exercito; e ferecolheo pera feus Reynos pelo mefmo caminho que levou. Si EA Bate UE 3-6 o De como faleceo o Governador Garcia de. “Sá: e das partes , e qualidades de - ua peloa.. E | ipi a “entrou: o Inverno; não fe 47 occupou- o Governador Garcia de Sá em outra coufa mais ;. que em reformar a Armada, e mandar dar preíla dos navios que tinha começados, vifitando-os: maio dos si8G jas 134 ASIA-pE Diogo de Couro dias a ribeira ,'armazens, e a cafa da pol vora.:E na entrada do mez de Junho dela era de 1549 em que andamos, adoeceo de humas febres agudas ; e como era homem de Íetenta annos , logo o cortáram de fei ção, que deo ruins finaes de fua faude ; e entendendo os: Medicos que fe lhe hia che: gando feu termo limitado, avifáram-dillo o Bifpo;, pera que lhe difleffe, que tratafe das-coufas de Ífua alma, como fez. E en tendendo elle aquella verdade, largou tudo por mão , e fe-fechou pera tratar do que lhe convinha:, confellando-fe muito: deva gar, etomando os Divinos Sacramentos; e depois fez feu teftamento ; e cumprio com todas as coufas de verdadeiro -Chrifão , e temente a Deos ; e-aos treze dias do dito mez faleceo defta vida prefente, com gran des exteriores de arrependimento de feus pec- cados. Eftiveram com eile o Bifpo, os Pa- dres de S. Franciíco, de'S. Domingos, € da Companhia , que o confoláram , e lhe lembráram as coufas que convinham à fua alma, Foi fia morté muito fentida de to- dos, porque era Fidalgo muito brando , af- favel , humano”, e tão defintereffado , que com haver: fido duas vezes Capitão de Ma- laca; e huma de Baçaim, e hum anho Go vernador: da India ; não tinha de feu mais que o dote-que deo a fuas-filhas , que não pal Dec. VLdavo VIH Car. RX 135 pallou de vinte mil cruzados a cada: huma. Falecido o Governador, fe abrio feu tela-. mento, e acháram- por feus teltamenteiros feus genros. Mandava que feu corpo fof- fe enterrado na Capella mór de noffa Senho=- ra do Rofario , no chão ao pé da fepultu- ra de fua mulher D. Catharina, e que fof- fe veltido no habito do Padre S. Francifco;, como fe fez. Foi acompanhado de todas as Ordens , Cabidos , e Freguezias, e de to- dos os Fidalgos , veítidos de preto ; e da : Irmandade da Mifericordias Co E Foi elle Fidalgo filho de João Rodrigues de Sá, o primeiro Alcaide mór do Porto +. era homem de boa eftatura , muito gentil- homem, e tão alegre , que alegrava a tos dos ; tinha huma muito alva , e veneranda barba, que lhe dava pelos peitos ; foi ho- mem de muita verdade , grande confelho , e muito zelofo do Terviço de ElRey ; foi de muito boas refpoítas, e nunça deo efcan- dalo público em quanto andou na India, fenão aquelle da mai ide Ífuas filhas , antes que a recebefle por mulher. Fez de novo finco, ou feis galeões, e caravelas, e mui- tas fultas ; mandou reformar as fortalezas de Ormuz , Dio , e Cananor. Deixou nos ar- mazens duas mil efpingardas, que mandou fazer em Cochim, Coulão, e Ceilão, e em outras partes. Fez de novo a cafa da pol- Ea à Ss VO- 136 ASIA pe Dioco DE Covrro vora; onde hoje ef, proveo-a de novos en. genhos, e encheo os armazens de mantimen- tos , cotonias , cifas , remos, e de tudo 0 mais, Não fez dividas no Eltado, e pagou algumas velhas. Não ficou delle polfteridade no Mundo, mais que lua bifneta DD. Joanna de Noronha:, filha de D. Garcia de Noro- nha feu netó , (como pouco ha diffemos,) que por não ter fua mãi dote que lhe dar, a metteo Freira no Molteiro de Aveiro, fe- gundo nos difleram. Não deixou efte Gover- nador morgados naterra, que he final que lhos teria o Senhor guardado no Ceo, on- de lua alma iria deicançar perpetuamente, nda hum anno, hum mez, e fete ldSo Sã 37 Pet RD Rd É 88 e Nas INS O Ri Rea ia k DECADA SEXTA. Li Mo RO VHE. “Da Hiftoria da India. CAPITULO De como por morte do Governador Garcia de Sá fuccedeo na governança da India Jorge Cabral: e da Armada que efre anno de 1549 partio do Reyno, de que era Ca- pitão mor D. Alvaro de Noronha. E —Evapo O corpo do Governador Gar- cia de Sá a noffa Senhora do Rofa- = rio; depois de fe lhe fazer o Offcio muito folemnemente, primeiro. que fofle en- terrado, abrio o Veador da Fazenda o co- fre, em que eftavam ainda duas fuccelsões da governança da India; de finco que El- Rey tinha mandado na Armada de Manoel de Mendoça, e-tirou à quarta, (porque na terceira tinha fúccedido Garcia de Sá,) e Bee deo-a 138 ASIA DE Drogo DE Covro deo-a ao Capitão D. Francifco de Lima, que com o Licenciado Antonio de Barbuda, Ouvidor Geral da India, a examinou, peta ver fe fe tinha neila bolido ; e achando-a pura, e fem fe nella tocar, a deo ao Secre- tario que a abrio, e lendo-a alto fe achou nella Jorge Cabral, que-eítava por Capitão de Baçaim , o que todos eltimáram muito, porque era hum Fidalgo, em que havia to- das as partes necellarias pera o cargo. E vendo que eftava em Baçaim , donde não podia vir fenão em Setembro , fe abrio o Regimento que na Índia havia fobre elte ne- gocio, e fe achou que mandava ElRey : » Que fúccedendo algum -Governador nas » vias, eftando fóra de Goa defdo cabo do » Comorim até á ponta de Dio, fe efperaf- »fe por elle, e entre tanto governafle a In- » dia o Bifpo, Capitão da Cidade, e Ou- » vidor Geral ; e que eitando deftes limites » pera fóra, fe não efperafle por elle, e fe abrif- » fe a outra Íuccelsão, » ( o que ElRey man: dou ordenar depois daquellas grandes diffe- renças que houve antre Pero Mafcarenhas, e Lopo Vaz de Sampaio, como temos con- tado na quarta Decada no Cap. VI. do Liy. 11.3 E porque 'o Bifpo, D. Francifco de Ei ma, e o Ouvidor Geral eltavam prefentes, lhes fez o Veador da Fazenda entrega da Índia, até vir o Governador Jorge cara Reco e Dee Vk brv. VIE Car. T. 139 de que fe fez hum Termo, em que todos fe allignáram. Pafifado ifto, foi o corpo do Governador Garcia de Sá enterrado , eos Regentes fe recolhêram , e começáram a cor- rer com as coufas do governo, e defpedi- ram logo correios por terra com cartas pe- ra o Governador, em que lhe faziam a fa- ber de fua fucceísão. Elas cartas lhe che- gáram primeiro, que fe acabafle o mez-de Julho ; e vendo-as elle, e fabendo da mor- te do Governador Garcia de Sá, e de Íua luccelsão ; fentio muito fua morte, e não fe alvoroçou com a governança:, antes elteve pera a não acceitar ; porque fe ascartas que fe mandaram por terra a ElRey da morte do Vifo-Rey D. João de Caflro chegáram antes das nãos ferem partidas , fem dúvida viria Governador nella; e quando não; não poderia faltar no: Setembro feguinte. -E que pera fe arrilcar a não fer Governador mais que hum mez, ouquando muito hum ano, muito melhot lhe era' deixar-fe eftar em Ba- cam, eacabar “quatro annos:, que tinha: da- quella Capitania, e ir-fe pera o Reyno com coula com que pudefle viver , e não depois de Governador embarcar-fe pobre , e fem Coufa alguma, e aflim ficou fufpenfo , fem fe faber determinar. Mas fia mulher , que era vã, como-o são todas, lhe diffe : » Que amelhor era fer quinze dias Governador da E In= 140 ASIA pe Diogo DE Covto » India, que dez annos Capitão de Baçaim; »e que já ElRey lhe ficava em mais obri » gação, e lhe havia de fazer diferentes hon- » ras, e mercês,» À Cidade de Baçaim acu- dio logo ao novo Governador , e lhe fez muitas feftas, e elle fe começou a negociar pera fe partir pera Goa, mandando pera if fo armar alguns navios muito ligeiros , em que fe embarcou aos oito dias de Agofto; e aos quinze dias de noíla Senhora da Af Sumpção chegou á barra de Goa, e dek embarcou em Pangim, onde os Regentes lhe foram entregar a India, e depois entrou nã Cidade, onde felhe fez o recebimento cof tumado , e começou a entender nas coufas do governo. E a primeira que fez, foi dele pachar Francifco Barreto pera ir entrar na Capitania de Baçaim, de que era provido; e mandou dar prefla à Armada, e lançalla ao mar, porque determinava de ir a Co- chim:, por andarem as coufas d'antre o Ca morim, e ElRey de Cochim muito rotas; e os odios antigos muito accezos. SE UR E fendo alguns dias paífados de Setem- bro, furgiram na barra de Goa quatro nãos, de finco que do Reyno partíram ; de quê era Capitão mór D. Alvaro de Noronha, filho do Vifo-Rey: D. Garcia de Noronha, que vinha defpachado coma Capitania de Ormuz. Os mais Capitães de fua confetva eram Dzc VI Liv. VI Car. 1 141 eram Diogo de' Mendoça , Jacome Triflão , e João Figueira. Da outra que faltava, era Capitão Diogo Botelho Pereira, o que foi na fulta ao Reyno , (como na quinta Deca-. da no Cap. II. do T. Liv. fica dito,) que em Outubro foi tomar Cochim. Vinha com elle embarcado Rax Nordim, filho de Rax Rarrafo, Guazil de Ormuz, que o pai man- dou pera Portugal na Armada de Lourenço Pires de Tavora., como no principio deíta Decada fe vê, no Cap. HI. do IV. EA vas que elteve tres anos no Reyno com gran- des galos , e deípezas, e fempre lhe fez El Rey tantas honras, que nos ferões Reaes o mandava aflentar nos degráos do eftrado com os filhos do Dugue de Bargança ; e fervia. huma Dama daguellas, a que mandava mui- tas peças, e brincos, muito ricos, e curio- los, e ella o favorecia pelo honrar. E de- pois de fer Guazil de Ormuz , foi águella fortaleza bum irmão defta Senhora + mance- bo o mais gentil-homem de fen tempo , e fabendo o Guazil delle, o foi bufcar, e lhe deo muito dinheiro , e peças ricas, Defpa- chou ElRey a Rax Nordim com os cargos de Guazil do Reyno de Ormuz , e com o de Juiz da Alfandega daquella Cidade, af- lim como feu pai os tinha por fua morte. Efe Diogo Botelho Pereira, por aquel- la ida que fez ao Reyno na fufla, não lhe quiz 742 ASIA DE Dioco DE Covro quiz ElRey refponder muitos annos a feus requerimentos, e depois lhe deo a Capitas nia de S. Thomé, onde adoeceo dehydro- pefia , e engroflou tanto como hum torel, e fe foi pera o Reyno ; e elte anno o def pachou ElRey com a Capitania de Cana nor, e fe embarcou afim enfermo ; e grof- fo; eaffirmava-fe, que bebia. dous almudes de agua cada dia. Entrou logo na fua Ca- Pitanía, que não logrou , porque morteo no primeiro anno. | Antes que efta Armada partie do Reys no, foi ElRey avifado, que em Hefpanha fe faziam finco nãos preftes pera pafiar a Maluco, e que o Capitão mór dellas era o melmo Fernão de la'Torre, que Fernão de Soufa de Tavora trouxe de Maluco ; e que os outros Capitães eram D. Alonfo Henri- ques , Pero Pacheco, Gonçalo de Avalos, e João Cayetano, que todos tinham ido a Maluco em companhia de Ruy Lopes de Villa-Lobos. Diflo avifou ElRey ao Gover- nador, e lhe mandou que provefle naquel- las coufas, e que mandaífe huma Armada a Maluco; o que elle determinou fazer co mo foffe tempo. E porque a cota do Ma- lavar não ficaffe defamparada, deípedio por Capitão mór dellá Francifco de Siqueira 0 Malavar , (de quem muitas vezes temos fal: lado na quinta Decada , nos foccorros do | pri- Dec, VI Liv. VII Cap. 1 143 - primeiro cerco de Dio, fendo Capitão da- “quella fortaleza o grande Antonio da Silveis 1a,) que era grande Capitão, e entendia a guerra muito bem, e tinha deftruido o Ma- lavar, como quem fabia as entradas, e fa- hidas; e pelos muitos ferviços que tinha fei- to ao Eltado., o fez ElRey D. João Fidal- go, e lhe mandou o habito de Chrifto com boatença. Levou doze navios, com que an- dou a mór parte do verão por aquella cof ta, fazendo-lhe toda a guerra que pode. E o Governador ficou dando defpacho a ou- tras muitas coufas, e aviamento ás ndos pera irem tomar a carga a Cochim. E ASP TI TUBO E De como o Rey da Pimenta Je palm á par- te do Camorim perfilhando-fe com elle : e “do recado que o Governador teve di. S Reys de Cochim (como já algu- mas vezes temos dito ) ficam tendo antre toda aquella Gentilidade do Malavar toda a fuperioridade no efpiritual, como Bragmane mór que he. E por hum muito antigo coftume , que não podemos bem ave- Hguar, são obrigados os Reys da Pimenta a lhe darem fuas mulheres , e filhas pera as levarem de fua honra, que he a maior que e lhes póde fazer , quando casão; porque “tos 144 ASIA DE DIOGO DE Covro todos eftes Gentios do Oriente tiveram fem pre em feus coftumes o intento em fuas de. licias, e torpezas, que não póde fer maior na vida, que quando eítas Princezas casão, entregarem-nas primeiro ao Rey, que a feus maridos, havendo que com iflo ficavam pu rificados. E afim depois difio, todos os fi lhos que ellas parem , fejam cujos forem, são havidos, e perfilhados pelo Rey de Co- chim, eelle os recolhe, e cria como filhos. E como o Principe de Bardela fe creava por efta razão com ElRey de Cochim , tinha tanta amizade com os Portuguezes, que hia a Cochim ver as feias, touros , e canas, porque naquelle tempo tudo eram regozi- jos , e defenfadamento. E aflim efte verão paffado , parindo a mulher do Rey da Pi- menta , mãi daguelle Principe, foi Francif- co da Silva, Capitão de Cochim, com to- dos os cafados a Bardela, onde reídia , e lhe feftejou o parto com lhe jogar as canas, e com outros paflatempos; ealgumas vezes foi ajudar aquelle Rey nas guerras que ti- nha contra ElRey de Porcá leu vizinho, tus do à conta de KlRey de Cochim. Efte Principe, que já era Rey da Pimen- ta, por certos aggravos que teve de ElRey de Cochim, que o creara como pai, deter- minou de fe paffar à parte do Camorim, pera o que fe carteou comelle, e E de | e CEAR Cs po 1 1 pr: iris; EDS SEN o aà xp E Dec VI. Liv, VII Cap IL 14% fe verem, o que o Camorim grangeou mui- to, € lhe mandou fobre iflo cartas mui hone rolas , e de grandes offerecimentos , com que elle fe fez preítes pera fe paflar a Calecut. Deltes tratos foi avifado ElRey de Co- chim, eo Capitão, que fentio muito aquel- le negocio , e tratou de o impedir por to- das as vias que pudefle , pelo grande pre- Juizo que fe feguiria ao Eftado daquellas li- anças ; porque fe aquelles Reys fe ajuntaf- tem, feria total deftruição do Reyno de Co- chim, e ficariam as nãos do Reyno fem te- tem porto , nem efcala aonde foflem carre- gar, nem a pimenta, queera o mais impora tante de tudo , porque logo os Mouros a haviam de haver toda pera fi, e paflalla a | Meca, que era o que elles muito perten- diam, porque com a nofla entrada na India lhes arrancámos das mãos aquelle trato, com que todos vieram a empobrecer. E lançan- do Francifco da Silva fuas contas a tudo 5 fe foi ver com ElRey de Cochim fobre a- quelle negocio, e o perfuadio a emendar os aggravos de que fe o Principe queixava, ao que ElRey diffe : » Que faria tudo O que »naquelle negocio lhe parecefle bem, e que »tomafle elle 4 fua conta acaballo com elle.» Com efta reípofia fe paílou logo Fran- cifco da Silva a Anche Queimal , onde a- Quelle Principe eftava, e o foi vifitar; eno Conto Tom.IILP.l. K difa 146 ASIA DE Diogo DE Couto difeurfo da vilita lhe pedio : » Que fe def » ceffe da opinião em que eflava, e que fe » lembrafle que ElRey de Cochim era feu » pai, e que o creára fempre com muito 4 vet » amor; que não era razão que por peque- » DOs aggravos fizefle tão grande mudança, » como paflar-fe ao Camorim , que era o » mór inimigo que tinha; que elle acabaria » com elle que o fatisfizele em tudo , e » que lhe lembrava a muito antiga amiza- » de que tinha com os Portuguezes , que » fempre fe moftráram grandes feus amigos, »e o fervíram em todas fuas guerras con- » tra Ífeus vizinhos; e que pela mefma ra- » zão que ficaffe inimigo de ElRey de Co » chim, ficavam os Portuguezes feus delle; » e com ifto lhe difle outras muitas coufas. Mas o Principe como eftava com aquelle ap- petite, dife: » Que elle entendia mui bem »o que lhe importava aquelle negocio , € » que já fe não havia de defcer de fua opi- » não.» Vendo-o Francifco da Silva tão re- Áoluto, e determinado, lhe dife : » Que dal- » li por diante teria o Eftado por feu inimi »go, e-que como a efle lhe faria toda à » guerra que pudeíle, porimar, e por terra, paté o deftruir de todo. » E apartando-fe delle, mandou logo apregoar guerra a fo- go, ea fangue. É deípedio Fernão Rodri- gues de Mariz comalgumas embarcações pe- | Ta Dec. VI. Liv. VII Car. IL 147 >. 3a tomar Os paílos por onde aquelle Princi- pe havia de paflar pera Calecut. O que el- le fez de feição , que não tendo aquelle Prin= cipe outro remedio , paílou 1ó, e disfarça- do pelo pé do Gate, e aflim foi ter a Ca- lecut; onde o Camorim o recebeo com mui- tas honras , e fez com elle novas perfilha- ções, por efta maneira. - » Que elle perfilhava o Camorim em fe à Principe, herdeiro de fes Reyno por fua »moste, poito que já tinha Principe herdei- »ro ; e que o Camorim perfilhava o Prin- »cipe herdeiro do Reyno da Pimenta, em » Principe fegundo herdeiro do Imperio de »Calecut por falecimento do Principe feu »fobrinho ,' que era o direito herdeiro, O aque o Principe da Pimenta pelo muito que »ganhava, fe viefle a fer herdeiro do Rey- yno de Calecut, porque pela mefima razão vo ficava fendo tambem do Reyno- da Pie »'menta. » À eftas perfilhações fe fizeram gran- des feftas em Calecut , a que acudíram tos" dos os Principes Malavares do bando do Camorim, Francifco da Silva defpedio logo hum navio muito ligeiro com cartas ao Go- vernador Jorge Cabral , em que lhe dava conta de todas aquellas coufas., e que era neceflario acudir à ellas em pefloa, porque começava a haver impedimentos nos rios por onde corria a pimenta. ElRey de Cochim K ii co- 148 ASTA pe Diogo ne Covro começou a ajuntar Íuas gentes pera acudir áquellas coufas, pelo muito que lhe impor tava. | CxAcPREoU ESQ De como o Governador Forge Cabral par. tio pera Cochim : e das coufas que paf- Járam naquella Cidade, em quanto nel. la efleve : e de como ElRey da Cota lhe andou pedir foccorro contra o Meadune, Oucos dias depois das nãos do Reyno chegadas, teve o Governador cartas de Francifco da Silva , Capitão de Cochim, em que lhe dava conta das alterações que havia antre aquelles Reys, do que ficou en- fadado , porque bem entendia: que eram trabalhos que fe levantavam"contra o Elta- do, e que lhe era neceflario acudir a ifo em pefioa; porque reccou que fe o não f- zelie, não haveria carga de pimenta pera'as nãos, e mandou dar prefla- a toda a Armas da. É na entrada: de Outubro deípedio Baf- tião de Sá, o Capeca, por Capitão mór do Malavar, com huma galé, € vinte navios de remo, de cujos Capitães não achâmosos nomes, e-elle ficou dando deípacho' ds nãos pera as deípedir pera Cochim”, como logo fez por todo Outubro. O Governador deo expediente a muitas coufas outras, e come cou-fe a embarcar , entregando o goverio ao “das nãos, Pedro Affonfo de Avelar, Dio- Dec. VI Liv. VII Car. II 149 ao Bifpo , e ao Capitão dá Cidade , e ao Ouvidor Geral, que era o Licenciado Chrif- “tovão Fernandes; e meado o mez de No- vembro deo á véla, levando antre galeões, caravelas, e galés mais de trinta, e de na- vios de remo perto de feffenta. Os Capitães que nefta jornada o acompanháram nas va- zilhas grandes , e galés (porque aos das full tas não achmos os nomes ) são os feguin- tes. - D. Antonio de Noronha, filho do Vifo- Rey D. Garcia de Noronha, D. João Hen- riques, Jorge de Mendoça, João de Men- doça Cação , outro João de Mendoça o Chú., D.Jorge de Caftro, Pantaleão de Sá, Mar- tim Affonfo de Mello: Pereira o Ombrinhos ; Manoel de Soufa de Sepulveda , Martim Affonfo de Miranda , Francifco de Mello Pereira, Fernão de Soufa de Caftello-bran- co, Gonçalo Vaz de Tavora , Pero Botelho 5 Fernão Gomes de Soufa, Belchior Botelho : que hia por Veador da Fazenda da carga 8º Botelho, Nuno Alvares Carneiro » EL “<tivão da Matricula , que hia em huma. ca- Tavela, com todos os Officiaes daquelie car- 80, pera em Cochim fazerem os deípachos dos Officiaes das nãos; e-de outras peíloas que fe hiam pera o Reyno, (porque todos Os annos hiam lá eftes Officiaes a iflo, por fe 150 ÁSIA pe Dioco DE Covtro fe haver por melhor aviamento das partes,). porque como todos os homens de todas as partes da Índia, que fe querem à perao Reyno, vam bufcar as nãos a Cochim, acha. vam alli feus defpachos. | Partido o Governador , foi em poucos dias a Cochim, e tomou cafas em terra, co- meçando a entender na carga das nãos; mas como o Rey da Pimenta eftava lançado com o Camorim , começou a faltar, porque fe impedia a paflagem della pelo rio abaixo, por Mouros que eftavam em hum forte. O. Governador mandou hum Capitão , a que não achámos o nome, com quinhentos ho- mens pera os tirar dalli, o que elle fez, commettendo-os huma madrugada ; e pofo | que achou muita refiftencia , por ferem os. de dentro mais de oitocentos, foi o forte en- | trado, e os mais dos Mouros mettidos def | pada, e o forte derribado , queimado, e | Es por terra, ficando elte Capitão naquel- es rios, favorecendo a paflagem aos mer. cadores, que traziam a pimenta de fima da | ferra, e ao pé a embarcavam em toneis em | que a levavam ao pezo, e Feitoria de El | Rey ; mas não corria tanta quanta era ne cellaria, | DeresVl=biyo VHL Ca vil. 151 fillo de ElRey de Portugal , lhe mandava: pedir com muita piedade » o quizefle foc- » correr, porque eftava no derradeiro eltre- ymo de perder feu Reyno; porque o Ma- » dune, Rey de Ceitavaca feu irmão, lhe ti= » nha tomado a mór parte delle, e o tinha » cercado na Cidade da Cota, em muito ri | »co de fe perder ; que aquelle Reyno era »de feu neto , que ElRey de Portugal lhe » tinha concedido , e.o alevantára na Cida- » de de Lisboa por herdeiro delle, e que o » Madune lho queria tomar; que lhe pedia »0 foccorrefle com muita gente , que elle daria logo dez mil cruzados em pimenta »pera a carga de huma não de Portugal, » que entregaria ao Capitão mór que lá fof- »fe; e que daria mais de pareas cento e » fincoenta bares de canela , além dos tre. »zentos que já pagava ; e que daria logo » dez alifantes pera o ferviço das ribeiras das » Armadas de ElRey de Portugal. » Ouvida a Embaixada, poz o Governador aquelias coufas em confelho dos Capitães, eFidalgos, que affentáram todos: » Que fe “»devia de dar foccorro áquelle Rey , tanto » porque era vaflallo do de Pórtugal, e pe- »los partidos que oferecia, quanto por ata= » lhar que o Madune fe não viefle a fazer » Senhor daquella Ilha , porque daria mui- nto grande trabalho ao Eftado , e Eis » de 152 ASIA pE Diogo DE Covro »de Portugal perderia os proveitos que del: »la tinha. Concluido ifto , elegeo o Governador pe. ra aquella jornada D. Jorge de Caftro feu tio, irmão de fua mãi, e lhe nomeou feis. centos homens:, em que entravam muitos Fi. dalgos, e Cavalleiros ; e mandou negociar Os navios que havia de levar, pera cujas def: pezas deo logo o Embaixador os dez mil cruzados que offereceo. O Governador man- dava dar prefla á Armada, e ás nãos, que tudo determinava defpedir entrada de Ja- neiro. | Succedeo nefte tempo andar Jacome Trif- tão, Capitão de huma das nãos, fazendo feu negocio na rua direita hum dia pela manhã, e eltando bem defcuidado , prepaílou por el- le hum homem em trajos de efcravo , edeo- lhe com huma machadinha pelo rofto ta- manho golpe, que lhe derribou ambos os queixos, e defcendo ás guelas lhas cortou, cahindo logo morto no chão ; e o que lhe deo efcoou-fe por antre a gente de feição, que nunca mais appareceo.O Governador fen- tio muito aquillo , e mandou tirar grandes inquirições fobre o cafo; mas nunca fe achou raito de confa alguma. Sufpeitou-fe que lhe nafetra aquillo de hum Chriftovão de Caf tro, que comelle viera na náo, com quem isve humas palavras na viagem. Efte hos mem Dec. VL-Lrv. VII Cáp IL 153 mem na volta deítas nãos o mandava ElRey levar prezo pera o Reyno, de que elle pa- rece folavilado, e fe metteo Frade. Depois no anno de fincoenta e oito , indo pera o Reyno com D. Luiz Fernandes de Vafcon-= cellos, (quando fe perdeo na Ilha de São Lourenço, como em feu lugar diremos,) f- cou nando com outros Frades, porque que- | rendo-os D. Luiz Fernandes de Valconcel- los tomar no batel , não fe quizeram fahir da não por ficarem confeffando , e confolan- do -os que ficavam nella, onde todos aca- báram. A Capitania defta não deo o Go- vernador a João de Mendoça o Chú, que fe foi nella pera o Reyno. O Governador deo preíla à carga , e á efcritura do Rey- no; e até dez de Janeiro defpedio as nãos, que tiveram tão boa viagem, que todas che- giram a falvamento a Lisboa por todo o mez de Julho , tendo ElRey defpedido no Março paffado a D. Affonfo de Noronha por Vifo-Rey da India, como logo adian= te diremos, CA- 154 ASIA DE Diogo DE Couto CA PETUDSO y De outro recado que o Governador Forge Cabralteve de Ceilão do delrad de Cam dea: e de como D. Jorge de Caftro par- tio pera Ceilão : e do que o Governador fez em Cochim até fe recolher : e o que aconteceo a Baftião de Sá no Malavar. Eípedidas as nãos , ficou o Governa- dor dando preíla á Armada de D. Jor- ge pera a defpedir logo; e tendo-a já pref. tes, lhe chegáram cartas dos Padres de São Francifco, que eftavam no Reyno de Can- dea, em que lhe pediam, que mandaffe al- guma gente em favor do Principe daquelle Reyno, porque fe queria fazer Chriftão. E porque he necefíario darmos particular ra- zão das coufas deite Principe , o faremos, Tinha efte Rey de Candea hum filho legiti- mo, chamado Caralea Bandar , que era her- deiro do Reyno. Efte Principe teve manei- ra com que fez com o pai que foltaffe os Frades de S. Francifco , (que prendeo , quan do Antonio Moniz Barreto foi áquelle Rey- no, como atrás temos contado no Cap. VIII. do IV. Liv. ,) que tomou tão grande amiza- de com Fr. Paícoal, que era feu Commif fario , que o commetteo o Padre pera fer Chriítão, prégando-lhe muitas veze das e | fas Dec: VI Liv. VII. Car. IV. 199 fas de nofla Fé, a que fe elle hia inclinan- do, eaffeiçoando , de maneira , que lhe não faltava mais que receber a agua do fanto Baptifmo. Difto foi o pai avifado, e tratou de matar o filho, e de dar o Reyno a ou- tro baftardo que tinha, chamado Comar Sin- ga Adafana, a que queria muito grande bem. Deltas coufas teve o Principe atoardas, ou avifo de dentro da cafa do pai ; e queren- do fugir á fua ira, tomou comfigo os Fra- des, e fe foi pera huma ferra do Reyno de Huná, e com muita gente que ofeguio , fa- zia dalli guerra ao pai, De todas eftas coufas avifáram os Padres ao Governador por aquellas cartas que lhe mandáram , pedindo-lhe que mandaíle foc- correr aquelle Principe contra o pai, que. lhe queria tomar o Reyno , e dallo a ou- to , porque fe queria fazer Chriflão. Ito eltimou o Governador muito, edeo por re-. gimento a D. Jorge de Caftro , que tanto que acabafle as coufas de Ceitavaca, paffaf- fe ao Reyno de Candea, e caftigafle aquel- le Rey pela traição de que ufou com An- tonio Moniz Barreto. Eita Armada partio na entrada deffe Ja- neiro do anno de 1550, em que com o fa- vor Divino entramos; e a nenhum dos Ca- pitães, e peíToas principaes, que nefta jorna- da fe acháram , foubemos os nomes ; : de RE ua 156 ASIA DE Droco dé Covo fua jornada adiante daremos razão. - Partida eita Armada, tratou o Governador com Elk Rey de Cochim fobre as coufas que cum- priam , pera fe atalharem as pertenções do Rey-da Pimenta, e Camorim, É porque já não havia outro meio, fenão levar o nego cio por guerra, allentáram como fe lhê ha- via de fazer, encarregando ao Capitão fa- zer-lhe por mar toda a que pudefle , pera o que lhe deixou navios, e gente perá an- darem por aquelles rios. E que ElRey de Cochim , com todos os feus alliados , lha fizelem por terra. 7 Aflentadas eftas coufas, e ordenadas, fe deípedio o Governador de ElRey; e a Ci dade, efe embarcou pera Goa, deixando de Cochim até Panane- Fernão Rodrigues de Cafiello-branco com oito navios, e pera fe recolher a invernar a Cochim; e Baítião de da com a fua Armada na cofta , onde an- dava ; e elle chegou a Goa no fim de Ja- neiro. - Si ERação Baítião de Sá andou pela cofta do: Ma- lavar todo o reto do verão, fazendo ao Ca- morim toda a guerra que pode, dando-lhe em muitas povoações, e tomando-lhe mui- tos navios, e defendendo-lhe os mantimentos de feição, que poz aquelle Reyno em mui- tas neceflidades, E fendo tempo de fe reco- lher a inyernar a Goa, o fez;, paflando E | da Dre cVisbigo VIBE Car TV, 157 la cofta do Canará , onde recolheo as pa- reas, que aquelles Reys coftumavam a pa- gar. Só os Chatins da Cidade de Barcelór fe refuláram a dar fetecentos fardos que lhes pediam ; dizendo: » Que elles não tinham pobrigação alguma que os obrigaflé a if nlo, nem elles eftavam penhorados a elles, »nem por pareas,.nem por contratos de pa- »zes; porque fe alguns annos os pagáram , pfoi porque de fuas proprias vontades of: pferecéram ao Governador Martim Affonfo »de Soufa aquelles fetecentos fardos de ar= »roz, em modo de ferviço, e não de obri= »gação ; que quando lhes moftraffem algu- »ma lua, então não tinham que fazer. » Baf: tão de Sá lhes mandou dizer : » Que baf: ptava a pole em que ElRey eitava de oi »to , Ou nove annos ; e que pois elles tos » dos effes annos os pagavam aos outros Ca- »pitães móres , elle fe não havia de levan= »tar de fobre aquelle porto, fem os levar. » Vendo os Chatins;, e Governadores da Ci- dade aquella determinação ; lhe mandáram 0s fetecentos fardos de arroz ; e logo def- pediram dous Procuradores , homens antre elles principaes, chamados Trametim Cha- im, e Drimy Chatim, pera irem tratar a- quelle negocio com o Governador. Eites homens foram a Goa, e o Gover- nador- Jorge Cabral os ouvio mui bem e x elo 158 ASIA dE Droco pE Covro elles em nome de fua Republica lhe diffe- ram: » Que os Capitães móres do Malavar » os obrigavam a lhe darem fetecentos far- » dos de arroz cada anno , não tendo elles » obrigação alguma pera illo; mas Íómen- » te porque de fuas livres vontades os de- » ram , e offerecêram ao Governador Mar- »tim Affonfo de Soufa de lerviço.. É por- » que elles delejavam de ter paz, e amiza » de com o Eftado da India, e Ífeus Gover- » nadores, e eftarem debaixo de Íua guarda, » ecamparo, que haviam por bem os Rege- » dores daquella Cidade de Barcelór de da- » rem, e pagarem cada anno de pareas qui- » nhentos fardos de arroz pera ajuda das At- » madas , e que os pagariam em Outubro, » (que era o tempo em que a novidade fe » recolhia. ») O Governador vendo fuas ra- zões , e fabendo da cafa dos Contos que não havia obrigação alguma dos ditos far- dos de arroz , lhes acceitou os quinhentos fardos, de que os Procuradores daquella Ci- dade lhe fizeram fuas obrigações , e o Go- vernador lhes paíflou carta de vallallagem., em que fe obrigava elle, e todos os Govet- nadores da India a favorecerem os morado- “tes daquella Cidade, e que lhes não feria fei- to aggtavo, nem fem razão alguma; e que lhes dariam feguros , e cartazes pera luas nãos, e navios poderem navegar por axa à | | | | | Dec. VI. Liv. VII. Car. V. 159 la cofta feguramente, Com ifto fe defpedíram os Procuradores fatisfeitos , e contentes, e corréram dalli por diante os Regedores da- quella Cidade com a obrigação deftas pa- reas muito bem, fem nunca deixarem de as pagar. CAP: AO: MV De como o Governador “Forge Cabral def. pachou D. Alvaro de Noronha pera en- trar na fortaleza de Ormuz: e da Ar- mada que mandou emfua companhia , de que foi por Capitão mor Luiz Figueira : e das novas que a Gon vieram de galés: e de como o Governador mandou CGonça- lo Vaz de Tavora a efpiallas: e da Ar- mada que mandou a Maluco, de que foi por Capitão mór D. Rodrigo de Menezes. Hegado o Governador a Goa, tratou logo de defpachar D. Alvaro de No- ronha, filho do Vifo-Rey D, Garcia de No- ronha, pera ir entrar na Capitanía de Ormuz. E porque andavam humas novas furdas de gales, fem fe faber donde vieram , ordenou de mandar huma Armada ao Elftteito pera ficar invernando em Ormuz pera Íegurar aquella fortaleza, E mandou negociar dez navios de remo , elegendo pera efa jorna- “da Gil Fernandes de Carvalho » irmão de Ruy de Soufa de Carvalho, que os Mous ros 16o ASIA pe Diogo DE Covro ros matáram em “Tangere. E depois de lhe ter promettido eita Armada , defejou de a dar a Luiz Figueira, filho do Elftribeiro mór do Infante D. Luiz, e diziam, que pelo ti ar de Goa, por Hefncitos que fe calão; e pera ilfto negou a Gil Fernandes de Carva- lho coufas, e Provisões que lhe pedia, por- que elle defgofta Me da jornada, como fez, enjeitando-a ao Governador, que era o que elle muito defejava, e logo a deo a Luiz Figueira , e mandou dar prefla a Ífeu avia- mento. Gil Fernandes de Carvalho, que era hum Fidalgo muito pontual, vendo que to- davia o Governador delconcertára com el- le, 'e dera a Armada a outro, (porque não fabia a razão que naquelle negocio houve, porque fóellava no peito do Governador, ) como aquelle negocio era de galês , não que- rendo que difleffem que deixára huma jor- nada contra Turcos por pontos leves, fre- tou hum navio de remo, e ajuntou quarens ta -Íoldados, a quem pagou de Íua caía, e fez todos os mais gaftos pera ir em com- panhia de Luiz Figueira invernar a Ormuz. O Governador defpachou D. Alvaro de Noronha, elhe deo hum galeão com mui tas munições , e juntamente com elle deb pedio Luiz Figueira com. a fua Armada, que-todos deram à vela em Março , indo em tua companhia Gil Fernandes de Re | lho, Dec. VI Lav Vil Cap V. 16% lho, e em poucos dias chegáram a Ormuz. D. Manoel de Lima lhe entregou a fortale- za por ter já acabado feu tempo ; e Luiz Figueira andou por aquelle Eftreito de Ba= corá o relto do verão, e depois fe recolheo a Ormuz, ficando Gil Fernandes de Carva- lho naquella fortaleza, dando meza a todos osfoldados que levou á fua cufta, fem ques rer tomar coufa alguma da fazenda de Ela Rey pera ifo. che pato fiada O Governador depois de defpachar ef- ta Armada pera Ormuz , começou a nego- ciar outra pera Maluco contra os Caftelha- nos , porque aílim lho mandava ElRey, e elegeo pera efta jornada D. Rodrigo de Mes nezes , Fidalgo de muitas partes. E dando prefla à Armada, a fez á véla na entrada de Abril. Hiam finco navios groflos , de que eram Capitães D. Rodrigo de Menezes , João: de Almeida, e hum foão Marecos da obri= gação do Governador. Os outros dous Cas pitães eram, D. João Coutinho, e Bernar- do de Soufa , que eram provídos das via- gens de Maluco ; e hiam cada hum em feu galeão pera tornarem com a carga do cra- vo, eambos hiam debaixo da Capitania de D. Rodrigo de Menezes, que levava-Pro- visões de Capitão mór de todo aquelle Ar- chipélago de Maluco. Nefta Armada hiam trezentos homens, muitas munições, roupas; Conto. Tom. III, P.il. L e 162 ASIA pe Droco DE CovTo e outros provimentos; e de lua viagem adi- ante daremos razão. Efqueceo-nos dizer como o Governa- dor pelas novas das galés de que já fe fal- lava, eltando em Cochim , deípedira Gon- calo Vaz de Tavora com finco navios, com regimento que fofle ao Eftreito de Meca, e tomaíle falla de alguma pefloa, e foubel- fe da certeza das galés; e que quando fe re colheífe pera fe vir pera Goa, (onde levava por regimento tornaíle a invernar, ) que viels fe por Caxém, e vilitafle aquelle Rey, que era muito amigo do Efiado, a quem efcre- veo cartas mui honrofas, e que foubefle del le as novas que havia (porque fempre avi fava aos Governadores do que havia no Ef- treito de Meca.) Partido efte Capitão na entrada de Fe- vereiro, foi feguindo fua derrota até ferrar Monte de Felix; e dalli foi demandar o Ef- treito, e entrou dentro, onde tomou algu- mas gelvas com alguns Mouros , de quem foube que em Suez fe faziam preites vinte é finco galés, mas que não fabiam pera on- de. E não podendo Gonçalo Vaz de Tavo- ra alcançar mais , fe tornou com algumas prezas que tomou , e navegando de longo da cofta da Arabia , foi tomar o porto de Caxém, e fe vio com aquelle Rey, que lhe fez muitos gazalhados. Elle lhe deo as car- se —- tas Dec VI Liv. VHL Car V. 163 tas do Governador, e algumas peças , e brin- cos, que por elle lhe mandava, que elle efli mou muito; e difle a Gonçalo Vaz de T'as vora: » Que elle era avifado, que em Suez » fe preparavam vinte e finco galés pera con-= ptra Portuguezes , mas que fe não fabia , » nem declaravam pera onde, nem que ten= »ção era a dos Turcos; mas que como el- » le fole certo da verdade, logo avifaria o. » Governador em Agolto; » e deo-lhe car- tas pera elle de grandes cumprimentos pera O ferviço de ElRey de Portugal. Gonçalo Vaz de Tavora, depois de fe prover do ne- ceflario, que lhe ElRey mandou dar de gra- ça, fe defpedio delle, e deo 4 véla pera. * Goa, aonde chegou em Maio. O Governa- dor fabendo delle, e das cartas que ElRey de Caxém lhe efcreveo a certeza das galés, alyoroçou-fe muito , porque havia que fe paflafiem á India lhe não poderiam efcapar , eaílim fe veítio mui galantemente, por mo tar a alegria que tinha, e foi-fe logo á ri= beira das Armadas , e deo ordem pera fe re- formarem , e renovarem todos os galeõdes., nãos, e galés, tomando cada vafilha deftas Os feus Capitães á fua conta com os feus Of. fíciaes , porque todo o anno os tinham or- denados , e pagos; e as coufas de fóra re- partio pelos Capitães velhos por efta ma= Teira, se s Li A 164 ASIÁ pr Dioco dE Covró “A Manoel de Soufa de Sepulveda deo o cargo dos Armazens das munições, pera mandar fazer panellas de polvora, lanças de fogo, e pelouros de toda a forte. A Dom Antonio de Noronha encarregou a cafa da polvora. A D. João Lobo deo o cuidado dos calafates. A Francifco de Mello Perei- ra entregou a tanoaria , pera mandar fazer barris, celhas, pipas, e todas as mais cou- fas defta qualidade. A Baftião de Sá deo a cordoaria. A João de Mendoça deo os Of- ficiaes de poleame. À D, João Henriques a ferraria. Todos eftes Capitães refidiam de “dia, e de noite nas cafas que tinham a car- go, dando muitos banquetes a feus Íolda- dos, com muitas folias , danças, tangeres, jogos, e outros paflatempos , com que to- dos trabalhavam com muito gofio , e mui- to contentes ; e pelos eferitos deftes Capi- tães dava o Feitor , e Thefoureiro todo o | dinheiro que pediam pera fe comprarem as coufas, que fe haviam miller, e pera asfe- rias, e pagas dos Officiaes , que elles faziam todos os fabbados ; e todo efte inverno fe deram mezas geraes aos foldados em muita abaftança. O Governador eflaya todo o dia na ribeira vendo aquelle trafego ; e aquel- la prefteza com que então trabalhavão , é acudiam.a todas as coufas., porque fó do ferviço, e obrigação da ribeira havia E ; : € — Deo VE Liv. VHL Gav: V. 165 de feiscentos homens Portuguezes de todos os oficios, a quem nunca fe lhes devia cou- da alguma , porque fe lhes pagavam a to- dos Ífuas ferias no tempo ordenado mui bem. A Cidade toda fe desfazia em feflas, e ale- grias, e aílim andavam todos tão defejofos de fe verem já és mãos com os Turcos, que o inverno já lhes parecia grande, e lhes era enfadonho , e os foldados a effa conta traziam fuas armas limpas, e muito bem con- certadas , e aparelhadas. E todos os Domin- gos; aflim elles, como os bombardeiros , fe hiam exercitar na barreira , eftando o Go- | vernador prefente, favorecendo-os; louvan- do-os, e dando-lhes preços aos que melhor o faziam. | CAPETIULOSVE Da diffimulação com que ElRey de Condea mandou pedir a D. Forge de Caftro Pa- dres pera fe fazer Chriftão : e de coma lhe mandou dous , e com elles o Capizão Francez: e do que lhes fuccedeo na via “gem. a Artido D. Jorge de Caftro de Cochim, como atrás dilicmos no Cap. II. defte Liv. VIII. , chegou a Columbo no fim def- temez de Janeiro, e defembarcando fua gen- te, começou a marchar pera Cota. O Ma- du- 166 ASIA pe Droco DE CovTo dune, que eftava com todo feu poder fobre aquella Cidade, em lhe dando novas que a noffa Armada era chegada a Columbo com muita gente em foccorro do irmão , alevan- tou o campo, e fe recolheo pera Ceitava- ca, deixando as tranqueiras dos caminhos provídas de muita gente pera defenderem os paflos aos noflos , fe quizelfem ir a Ceita- vaca. D. Jorge chegou á Cota, e foi mui- to feftejado daquelie Rey; e logo tratáram de irem ambos juntos contra o Madune, € não levarem mão daquelle negocio até o del- truirem de todo , pera não dar mais traba- lho ao Eftado com foccorros , e Armadas em favor de feu irmão, que era vaflallo de ElRey de Portugal. Pera a jornada começou ElRey a ajuntar feu poder , e negociar as coufas neceflarias de mantimentos , e fervido- res pera todo o exercito. À fama da Arma- da de D. Jorge de Caftro, e de fua chega- da a Columbo, correo logo por toda aquel- la Ilha. O Rey de Candea como eftava culpado no negocio de Antonio Moniz Barreto, co- meçou a tremer , e recear que o quizeílem caftigar pelas culpas que tinha commettidas ; e como era homem de grande artifício , € malícia, determinou de entreter D. Jorge de Caftro , e enganallo, até ver em que paras yam as coufas de antre o Madune , e feu. ir p Dec. VI. Liv. VII. Cap. VI. 167 irmão, e pera ilto defpedio logo Embaixas dores ao vifitarem. Eftes Embaixadores to- máram a D. Jorge de Caftro ainda na Co- ta, fazendo-fe preítes pera a jornada de Cei- tavaca. D. Jorge de Caftro os mandou levar diante de ElRey , onde os ouvio:, e elles lhe diferam : » Que ElRey de Candea q » mandava vifitar , e offerecer-fe pera tudo »o que foífe de ferviço de ElRey de Por- »tugal. Que elle lhe fazia a faber, que nos » negocios de Antonio Moniz Barreto, em » que elle não negava ter culpa, tinha tam- » bem fatisfações baftantes pera fer perdoa- » do. Que o Madune feu primo o inquietá- » ra, eremovéra dos defejos que tinha de fe » fazer Chriftão , pondo-lhe diante dos olhos » medos, e perdição de feu Reyno, e ale- » vantamento de feus vaflallos , com a mu= »dança da lei; e que do cafo paffado el- » le eilava arrependido , porque fempre fo- »ra affeiçoado à Lei dos Chrillãos , como »os Frades fempre entendêram nelle ; que » elle eftava muito refoluto em fe fazer Chri- » tão; que lhe pedia muito lhe mandaffe al- » guns Frades pera correrem com elle; e » que tambem fe queria reconciliar com feu »filho; e que aílim efperava em Deos de »pouco, e pouco ir movendo os feus vaf- »íallos, pera que fe fizefem Chriflãos. » Ds Jorge de Caitro eltimou muito aquela nes cms 768 ASIA pe Droco de Covro embaixada , e ordenou logo de fatisfazer áquelle Rey, mandando com os Embaixas dores dous Frades de S. Francifco , e com elles o Capitão Francez com doze foldados;, e lhes deo por regimento, que foflem por via de Negumbo, por fe defviarem das ter ras do Madune, Partidos os Embaixadores com os nof- tos, foram feguindo feu caminho, não dei xando de terem algumas brigas com gen- tes do Madune , em que os noflos corrê- ram muito rifco , e perigo , mas livrou-os Deos de todos pelo valor: de Ífeus braços, e aílim com muito trabalho chegáram a Can- dea. ElRey os recebeo muito bem, e man- dou apofentar os Frades na mefma Ermi- da, que os primeiros fizeram , que ela- va ainda em pé, e ao Capitão Francez com feus foldados perto delles , mandando-lhes dar todas as coufas necelfarias. Os Frades Começáram a fazer alguns Chrillãos , e en- tendendo em ElRey vontade pera iflo, que não tinha, porque era mão, e perverfo, e o medo O fazia contrafazer, em quanto não foubefle o que lá fe paflafle antre D. Jor ge de Caftro , e o Madune ; a quem elle favorecia em fegredo ; e aíflim trazia tanto refguardo”, e olho no Capitão Francez;- e hos Frades , que os não deixava fahir de hum certo limite, trazendo efpias em Cei- gn Iã- Dec. VI Liv: VIIL Car. VII 169 tavaca , pera fer cada dia avifado de tudo o que lá fe paflava. EsA DP: EU BrO VB: | De como ElRey da Cota, e D. Jorge de Caftro partiram pera Ceitavaca : e dos Sítios dos fortes que por efe caminho “ acháram: e de como os ganharam , e des- “ baratáram o Madune , e lhe tomáram “a Cidade de Ceitavaca. 7» Epois de ElRey da Cota ter juntas fuas É 7 gentes, e negociadas as coufas necelTa- ras pera a jornada, começou a marchar; indo D. Jorge de Caftro na dianteira com todos os Portuguezes , e ElRey com finco mil homens na retaguarda. Alim caminhá- ram todo aquelle dia até chegarem a huma tranqueira muito grande , fobre hum paffo que ficava entre o rio de Matual , é huma alagôa tamanha, que fe affirma ter finco le- guas em roda , que ellava duas leguas do porto de Columbo. Nefta parte ( porque não havia outro paflo pera Ceitavaca ) tinha o Madune feito elta fortaleza , que era de madeira, de duas faces , com entulhos mui- to largos , e ficava da banda do Norte do Ho; e na face que cahia pera à banda da Cota tinha o panno do muro. trinta bra- ças de comprido, e na ponta que ficava pe- cises ra 170 ASIA pe Drogo DE Covro ra a parte dorio, eltava hum formofo balus arte com muitas peças de artilheria: Delte baluarte até a alagôa corria hum muito ef- peflo Bambual, por eípaço de meia legua, tão intratavel, que nem as feras o podiam “romper. De longo a longo pela face de fós ra deite forte fe fazia huma formofa, e lar- ga cava, que fe enchia de agua da alagõa, que fe fervia por huma ponte levadiça. Chegado aqui o exercito, allentáram a- quelle dia o campo affaftado do forte, e ti- veram confelho fobre o modo de como fe commetteria; e allentou-fe, que foffe pelos cantos do muro, pera o que fe fabricáram grandes pontes de madeira fobre rodas , e algumas mantas fortes, e efcadas , em que fe galtáram dous, ou tres dias. E tendo tu- do preítes, hum dia de madrugada com- mettêram a fortaleza os noílos por huma par- te, e ElRey pela outra. E pondo as pon- tes em que pez a muitas bombardadas, e ef- pingardadas, que fobre elles choviam , en- coltáram as efcadas ao muro, e fubindo os noíffos por ellas , o cavalgáram , e a'poder de golpes, e cutiladas deram comfigo da ban- da de dentro ;, onde tiveram huma muito grande batalha com os inimigos , em que houve muitos damnos, emortes de parte a parte. ElRey da Cota com a fua gente, tam= bem depois de muitos trances , entrou a trane : quei- | | Dec. VI Liv. VIII Cap VIL 171 queira, com que os inimigos fe acabáram de pôr em desbarato, ea largáram de todo, mandando-lhe D. Jorge de Caftro dar logo fogo , em que toda fe confumio. Efte dia pafláram naquella parte , e mandáram (que eram muitos) a Cota pera fe curarem. A outro dia foram caminhando até che- garem á outra tranqueira, chamada a Ma- luana, que eftava em outro paffo da mefma traça, e modo de paílada. E commetten- do-a os noflos por huma parte, e ElRey pe- la outra, foientrada, e tomada, ainda que com muitos rifcos, e mortes dos noílos, e -com perda de mais de feiscentos dos. inimi- g9s, que a largáram. A outro dia foram ter a outra tranquei- ra , duas leguas delta, chamada Grubabi- lem , que era maior , e mais forte que as outras, por fer perto da Cidade de Ceita- vaca. O panno do muro, que corria na fa- Ce, era maior, e mais groílo que os das ou- tras atrás. Em cada ponta tinha dous balu- artes mui grandes, e pelo muro muitas gua- ritas muito bem providas de gente , e mu- nições. Da parte do rio, que era o mefmo Matual, corria hum efpeflo Bambual, eda outra hum muito intratavel mato. Aqui nef- ta tranqueira eftava o poder do Madune , pofto que elle eftava na Cidade. Efta tran- queira foi commettida com muito E 7 é 174 ASIA pe Droco DE Covro determiriação, e houve nelle commettimens to múitos calos efpantofos , que não parti- cularizamos , porque não fabemos os no- mes dos que os obráram ; mas por fim do negocio , ainda que foi com perda dos nof- fos, a tranqueira foi ganhada, e nella ficá- ram aquelle dia defcançando do trabalho, e curando os feridos, que eram muitos. Ao outro dia foram marchando pera Cei- tavaca , que eflava duas leguas adiante , e no caminho acháram o Madune com todo o poder. E vindos a batalha, (que foi mui- to afpera ; e cruel , em que houve muito danino ,) ficou o Madune vencido , e des- baratado , e foi fugindo pera as ferras de Dina Vaca, largando: a Cidade em mãos dos noílos, que entráram nella vitoriofos. He efta Cidade muito grande, e eftá fi- tuada antre quatro ferras, e elte mefmo rio de Matual a partia pelo meio, (que por ou- tro nome fe chama de Calane,) que vem dos confins do Reyno de Candea. Da ban- da do Sul eftam os Paços: de ElRey fobre hum tezo, que são feitos a modo de huma formofa fortaleza , com feus muros muito groflos, e fortes, e fobe-fe a elles por vin- te degrãos mui largos, e grandes. He a for- taleza quadrada, e emcada quadra tem tres portas por onde fe ferve ; defta banda fica ametade da Cidade , e da outra do Norte ] Ol= ) , Deo VI Liv. VHL Car VIL 173 outra ametade:; e nefta parte tem o mais foberbo, e fumptuofo Pagode , que ha em toda aquella Ilha, que he dedicado a hum Idolo feu, que fe chama Paramifuta. A fa- brica defte Pagode he eftranha, e affirma-fe que fe poz nella perto de vinte annos, tra-. balhando de continuo nella mais de dous mil obreiros. . Entrados os noífos na Cidade , apofen- tou-fe ElRey nos Paços do irmão , onde achou muitas riquezas; e D. Jorge de Caf- tro com os feus foldados naquella parte da Cidade , que foi mettida a facco dos nof- los, e acháram muito ouro, drogas, e fa- zendas de todas as fortes, de que fe enchê- ram bem. Depois fe pafláram á outra ban- da, e fizeram o melmo , fem tecarem os Pagodes , que lho mandou afim D. Jorge de Caftro por amor de ElRey da Cota, que nelles mandou: pôr guardas. E as gentes de ElRey foram as que mais roubáram , por- gue como ladrões de cala caváram , e def. enterráram muitas riquezas. O Madune, que etava recolhido nas ferras de Dina Vaca á vendo-fe perdido, e desbaratado, e oirmão | fenhor da fua Cidade, quiz ufar de feu artif- cio, defpedindo feus Embaixadores a ElRey feu irmão, ea D, Jorge de Caftro, que entrá- ram por Ceitavaça, e foram levados a ElRey, que os ouvio, prefente D. Jorge de caso: 174 ASIA nE Dioco DE Couro Elles lhe difleram : » Que o Madune feu » irmão lhe mandava pedir mifericordia , e » que bem confeflava que tinha muitas cul- »pas, de que já eftava bem caítigado , e “» arrependido. Que lhe pedia muito fe qui- » zefle reconciliar comelle, que eltava preí- » tes pera lhe dar todas as fatisfações necel- » farias.» ElRey, que era homem de mui- to bom coração, e natureza, (coufa alheia defta nação Chingalá , ) compadecido das mi- ferias do irmão , parecendo-lhe que já não tentaria contra elle mais fuas maldades, dif fe a D. Jorge de Caftro , que elle queria pazes com feu irmão , fe lhe a elle parecef- fe bem. D. Jorge de Caítro lhe difle: » Que » fizefle elle naquella materia o que lhe bem » vice, e o que fofle melhor pera elle, e » pera quietação do feu Reyno. » Com io deípedio ElRey os Embaixadores , por quem mandou dizer a feu irmão: » Que fe viefle » pera Ceitavaca , e que alli fe reconcilia- » riam , e affentariam as pazes, » mandan-. do-lhe hum feguro feu, e outro de D. Jor- ge de Caflro. O Madune foi logo acom- panhado de alguns Modeliares mui princi= paes ; e chegando a Ceitavaca, o recebeo o ir- mão muito bem , abraçando-o com muito amor , e boa vontade, (não havendo cou- fa alguma diffo no Madune,) e prefente Dom Jorge de Caftro fe reconciliáram , e Dec. VI. Liv. VII. Cap. VII. 17% fizeram pazes, com as condições feguine tes : » Que nunca mais elle Madune faria, » guerra a feu irmão, e que lhe largaria to- » das as terras que lhetinha tomadas. E que »daria logo a D. Jorge de Caftro cem mil » pagodes pera as defpezas daquella Armas »da, pois elle fora occafião da guerra. E, » que pera a jornada de Candea daria todos »os fervidores , e mantimentos neceflarios » por dinheiro. E que ElRey da Cota fería » obrigado a lhe dar tres mil homens pera » 0 acompanharem nella. » Feitos eftes contratos , ambos os Reys firmáram pazes a feu modo , ficando alli mui- to amigos. D. Jorge de Caftro fe começou a fazer preftes pera paflar a Candea, como lhe era mandado ; e fe aquelle Rey fetive fe feito Chriftão, haveria otrabalho da jor- nada por bem empregado , e favorecello- hia contra os feus fe tentalem alguma no- vidade, e tambem o reconciliaria com o fi lho; e quando não, caftigallo-hia pelas cul- pas paíladas. E começou a puxar por aquel- les Reys, pelas coufas que eram obrigados à lhe dar. O Madune cumprio logo com os cem mil pagodes que devia, com o que D. Jorge de Caftro fez duas pagas aos fol- dados, e aflim lhe deo os mantimentos, € fervidores que lhe foram neceflarios. - é 176 ASIA pe Didco:DE Covrd ElRey da Cota: como era grande amis go dos Portuguezes, pelas muitas obrigações; que lhes tinha ; entendendo ; e: conhecendo a-malicia do Rey de Candea ; esque tudo eram invenções: , pelo receio com que efta- va; quiz tirar a D, Jorge de Caftro daquel- la jornada, pondo-lhe diante muitos incon- venientes, e afirmando-lhe: » Que a jorna- » da'era muito arrifcada , e perigola porcau- » fa dos paflos dificultofos que tinha. E que » aquelle Rey: pofto que era feu primo com » irmão , muitas mais obrigações: tinha aos » Portuguezes que a elle: que lhe afirmava, » que não tinha por feguro o fiar-fe delle, »e porque todas as vezes que vifle-tempo, » e occafião, lhe havia de ordenar todas as: » traições que pudeífe. » D. Jorge de Cafiro lhe agradeceo aquelle confelho ; mas como eitava amarrado ao regimento do Governa- dor, não fe quiz mover a coufa alguna fó- ra delle, e lhe pedio a gente que lhe tinha | promettido, que lhe elle logo deo. - > E depois de tudo preltes, fe partio nã entrada de Abril, defpedindo-fe daquelles Reys, eo da Cota fe foi juntaménte pera feu Reyno. D. Jorge foi caminhando por fuas jornadas, de que o Rey de Candea era avifado todos os dias. E receando-fe que entrando D. Jorge de Caftro no feu Reyno com aquelle poder:o prendefle , e caftigaf- sia - É je Dec. VI. Lives VII Car VII 17% fe, não querendo ficar à fia cortezia, ajun- tou quarenta mil homens, e fortificou a fua “Cidade, com tenção de lhe defender a en- trada, trazendo nelle grandes vigias. E hu- ma noite teve rebate , que já os noflos ef tavam huma iegua da Cidade:, e acudindo ElRey com aguelle alvoroço, com toda a gente pera o efperar à entrada della , quiz nollo Senhor que tiveíle o Capitão Fran- cez (que eftava como reteudo com os feus foldados ) tempo pera fugir, e com a efeu- ridão da noite foi caminhando, e chegou a D. Jorge de. Caftro, eltando com-o exerci- to alentado huma-legua da Cidade, pera ao outro dia entrar nella, e dando-lhe rebate do modo de como ElRey o efperava, e do grande poder que-tinha ,-e de como: tudo foram invenções, ficou D. Jorge fobrefalta- do; echamou logo os Capitães a confelho, € perante, todos tornou a ouvir o Capitão Francez. Vendo todos aquillo ., votáram., »que fe deviam tornar logo a recolher, por- »que eltavam trinta leguas-pelo coração da “olha, e que haviam de paflar muitos pafé »fos efreitos, e difficultofos.; e que fe a- »quelle Rey os fole commetter, não tinham »poder pera pelejarem com elle.» Com ef- ta refolução alevantáram logo o-campo,, e voltáram com grande: preíla', mas: com mui- to boa ordem. ElRey de Candea teve pela Conto. Toma. IH. Pal. M ma- 178 ASIA pe Diroco DE Couro manhã recado de Ífua retirada , e fahindo com todo feu poder os foi feguindo por def. viados caminhos, e adiantando-Ífe os efpe- rou em huns pallos muito eftreitos, e diff cultofos , e tomando-os naquellas eftreituras;, em que os nollos fe não podiam revolver, os foram derribando” ás elpingardadas , e fré- chadas fem os noflos terem repairo algum; nem defensão. D. Jorge de Caftro com os Fidalgos, e Capitães ficáram fem poderem governar os leus, porque como todos hiam. a fio , e divididos, e muita diftancia huns dos outros; não lhes podiam valer , nem elles tinham quem o fizefle-a elles, que tam- bem hiam no mefmo rifco, e todos feridos: Afim. foram pelejando até fabirem das tér- ras de Candea;, em que osdeixáram , fican- do fetecentos homens mortos ;“e perdidos por efles mutos', em' que entravam quatro- centos-Portuguezes; e os mais Chriftãos da terra , e gente da Cota, e todos os mais que elcapáram feridos de muitas feridas. E indo caminhando pelas terras do Madune ; lhe fahio hum Modeliar feu com quinhen- tos homens «e difle a D. Jorge de Cafto; que o Madune lhe pedia que fe recolheffe por Ceitavaca, que o elperava pera lhe dar todo o neceflario. D. Jorge de Caflro mof- trou agradecer-lho muito, e'como era pru- dente, bem entendeo a malicia do Madune, fe tii EA é Dec-VIcL ey, VHL GaroVH. 170 e dile ao Modeliar , que aflim o fara. E tanto que foi noite, que fe apofentou em hum lugar deíviado . do .Modeliar ., depois de o fegurar, fe levantou , etomou o-cami- nho da Cota por caminhos defviados de Ceitavaca., ficando-lhe: nas eltancias trinta homens mal feridos, e que não podiam ca- minhar. Ão outro dia pela manhã fe levan- tou o Modeliar , e achou as eftancias-va- fias, e tomando o fato que achou, e os fe- ridos , fe foi pera Ceitayvaca. O Madune mandou cortar a cabeça a todos os Portua guezes, dizendo-lhes;, que o mefmo houve- ra de fazer ao Capitão ., e a todos. Ifto-ie foube depois de hum daqueles , que teve modo com que fugio , e fe embrenhou,:e dahi a alguns dias foi ter a Cota: D. -Jote ge foi: feu caminho muito apreflado , e en- controu ElRey da Cota com toda a fua gen- te, que o vinha bulcar, porque já tinha avi= fo da defaventura acontecida:, e adivinhada delle. D. Jorge de Caitro vendo ElRey fi cou deialivado ; e deo-lhe grandes agrade-. cimentos daquelle foccorro ;-e foi-fe com elle até à Cota, onde ElRey agazalhou-a. todos os Portuguezes:, e os curou, e deo todo O necellario. D. Jorge como farou fe foi pera Columbo:;-e na entrada-de Setembro fe paf- lou a Cochim , onde chegou pouco: antes do Governador Jorge Cabral;sus - “ss as DA. di CA- x 180 ASIA pe Dioco ne Covro AB al eba da o IL De como o Rey da Pimenta fe tornou pera o few Reyno: e de como o Capitão de Co chim o foi bufcar a Bardela: e da gran- de batalha que lhe deo , em que elle, é ElRey de Bardela morréram. Epois que o Rey da Pimenta fez com 5 Z'o Camorim as ceremonias de fuas per- filhações , fe tornou pera o feu Reyno, pou- co depois do Governador partido pera Goa, e fe metteo em Bardela com gente, e poder pera fe defender de ElRey de Cochim, e pera lhe fazer guerra, como começou a con- tinuar com muitos navios por aqueélles rios dentro. ElRey de Cochim, e o Capitão da Cidade “tratáram “de tomar aquelle Rey às mãos, é de o deftrúirem de todo ; pera o que “ajuntáram Íuas gentes , e foram contra elle, ElRey de Cochim'portetra, e osnof fos: por mar em muitas embarcações. Leva- va“o Capitão Francifco “da Silva perto de feiscentos Portiguezes”, em que entravam os da Armada de Fernão de Soufa de Caflel- lo-branco, “que já“eram recolhidos por fer ermifim de«Abrilomsa de: ot -— Chegados os noflos a Bardela, defem- barcáram' em terra ; fem lho ninguem eflor- var, e foram aflentar feu exercito em him Dec Vl: Liv VIE Casar VEM; LM campo muito grande, que eftava fóra da Ci- dade, em que o Rey de Bardela eftava com todo o feu poder , com as coltas na Cida- de. Francifco da Silva mandou alguns reca- dos a ElRey fobre fe tornar a confederar com ElRey de Cochim. E correo ifto de feição, que pedio ElRey que fe vilem fós no meio do campo antre ambos os excrci- tos, o que Francifco da Silva acceitou ; e vindo ambos Ífós à falla, lhe tornou Fran- ciíco da Silva a pôr diante as obrigações que tinha a ElRey de Cochim , e perjuizo que era pera todos aquelles Reys, ajuntar- fe, e perfilhar-fe com o Camorim; porque como era maior em poder que todos , elta- ya muito certo fazer-fe fenhor de todos a- quelles Reynos, o que nunca poderia fazer le eltivellem unidos ao de Cochim. Sobre lto lhe deo tantas razões, que lhe dife EL- Rey , » que faria naquelle negocio tudo o » que quizefle. » Francilco da Silva lhe dife: » Que fe havia de entregar nas mãos de El- » Rey de Cochim, que era feu pai, e que pelle difporia de fuas confas como bom f- »lho.» A ifto refufou ElRey tanto, que dife: » Que antes perderia a vida, e o Ef » tado , que fazer tal; que feelle o quizef- »fe levar pera Cochim, e tello na fortale- » za em refens, em quanto feguralfe as cou- nfas da paz , que fe iria com elle ; e que » tor- 182» ASIA pe Dioco DE Covro: » tornaria a desfazer as perflhações com o » Camorim.» Francifco da Silva como era homem de pouco confelho , e governo, ain- da que grande cavalleiro , amarrou-fe a fe elle entregar a ElRey de Cochim , fendo bem baftante fatisfação a que elle de fi dava, como erá entregar-fe a ale ; e depois que tivera em Ífeu poder , o tempo puderá cu- rar tudo, e tornáram-fe aquelles dous Reys a unir, e a aparentar. E vendo que Pran- cifco da Silva não quéria concluir com elle naquelle negocio, defpedio-fe delle, dizen- do-lhe: » Que pois não acceitava o que lhe »oferecia, que elle trabalharia tudo o que “»pudeffe por defender fua cala.» E reco- lhido a feu exercito, achou mais dous mil Nayres, que lhe chegáram de refrefco, com que ficou tão foberbo , que fez final de ba- talha. Francifco da Silva fe poz tambem em campo, ecomeçáram a travar huns com os. outros, e da primeira ferriada lhe derribou a nofla eipingardaria huma fomma de Nay- res, e antre elles quiz Decos que delle hu- ma elpingardada no Rey da Pimenta, cóm o que fe foi recolhendo pera a Cidade, E como hia ferido de morte, à porta de feus Paços cahio morto, fem o faberem-os que ficavam no campo em batalha muito trava- da, e cruel, em que houve muito damno de parte a parte. ade As Dre. VI'Live VII Caro VII 183 “As novas da morte; de, ElR ey. começá- ram logo-a-correr, como.que os Ífeus fe recolhêram pera a Cidade desbaratados. Fran- cilco.da Silva foi feguindo a vitoria, e en- trou na Cidade até chegar-aos -Paços de El- Rey, aque mandou pór fogo. Os inimigos tanto que viram as labaredas. nas cafas do feu Rey , tornáram a voltar fobre os noflos com tamanho impeto , que começáram a der- ribar nelles ;-e a: mór. parte, fe começou a recolher com. grande defarranjo:, ficando Francifco da Silva com perto de. cento e fin- coenta homens de opinião; que o não qui- zeram deixar. Alguns cafados. de Cochim, quelabiam muito bem os coftumes: dos Naye- res, difleram ao Capitão, que fe recolhefle, e fe contentafle com: a vitoria » porque an tre os Malavares a maior aronta.de todas era queimarem. as cafas do: Rey.. Com ilto fe foi fahindo pera-o campos pelejando fem- pre com. osinimigos , fem laber ainda da morte do Rey.: Os inimigos foram, crefcen- do; e carregando fobre os noflos.de feição, que fe víram perdidos; e ainda quiz a del aventura, pera maior perdição, que naquelle mefmo- tempo defcarregaTe ; e fe deshzelle em agua huma: medonha trovoada., que já eltava armada, que-era a primeira do invet- no ,-e foi a agua-tanta., que afíogava os noflos; e impedio a efpingardatia com gue - não 134 ASIA'DE Droco DE Couro. não pode laborar. Os inimigos entendendo o negocio, e vendo ceflar a efpingardaria ; que era o que os mais aflombrava, cobran- do animo carregaram fobre os noflos, ecom feus arcos, que a chuva não: impedia, fo- ram encravando , e derribando bem à fua vontade. Os noflos vendo-fe perdidos virá- ram as coftas, e foram-fe recolhendo pera a praia, onde eltavam os riavios, a que-fe lançavam a nado. Franciftoda Silva , que era grande cavalleiro, acompanhado de al: guns Fidalgos; e Cavalleiros (que nunca o deixaram) não quiz virar as'coflas, e foi Jempre pelejando com os inimigos, como rofto nelles., moftrando bem feú valor, ces- forço ; mas como os inimigos eram muitos; e eflavam no campo largo ; cercáram osnof- los; e apertáram com elles de feição, que derribáram D. Pedro de Soufa, Fernão “de Soula de Caftello-branco ', Fernão Rodri- gues de Mariz, Antonio Machado de Gou- vea; e outros Fidalgos, e Cavalleiros;, to- dos de feridas mortaes. 7 Francilco da Silva vendo aquelle eftra- go , difle pera os que ainda o acompanha- vam : » Que fe recolheffem , porque elle fe » não queria falvar onde via' perder tantos; » e tão esforçados Fidalgos;, e Cavyalleiros. » E com efta furia: remetteo com os inimigos como hum touro feroz , e mettendo-fe em meio Due V E ivo NVIIÉICA po V E Pos meio delles, fez confas que efpantou a tos dos. Mas como elle era fó, e os inimigos tantos, e as forças lhe cançáram, cahio ataf- falhado de crueliflimas feridas. Os inimigos vendo-o cahir , remettêram a elle pera o defarmarem , fobre o que houve tamanha re ferta, ( por quererem todos levar delle feu pedaço, ) que fe defcuidáram dos noflos ; é os feridos, que já atrás nomeámos, tiveram tempo pera ajudados dos outros fe recolhe- rem á praia, onde fobre a embarcação ha- via tamanho defarranjo , que andava o-rio coalhado de homens a nado, e afim fe re- colhêram com trabalho aos navios: Fernão de Soufa de Caftello-branco com muitas fe- ndas, e com huma efpingardada por huma perna, de que fempre foi manco: D. Pedro de Soufa outra, de que não perigou, e to- dos os mais com tantas feridas, que Fernão Rodrigues de Mariz levava quatorze; e fe- não fora a morte de Francifeo da Silva, cu- jos defpojos embaraçáram os inimigos, ne- nhum efcapava. Recolhidos todos , foram-fe pera Cochim, € fuccedeo na Capitanía Henrique de Soufa Chichorro. Ao outro dia mandou bufcar o corpo de Francifco da Silva, ao que foram alguns navios, e gente, e ao longo da praia O acháram, e a dezefete Portuguezes mais, nús todos, com feridas mortaliflimas; e re- co- 186 ASTA pe Dioco DE Covro colhidos todos , fe tornáram pera Cochim, e lhes deram mui honrofas fepulturas. | Desbaratados os nolfos ., fe recolhêram Os inimigos: pera a fua Cidade., e fizeram as exequias ao Ífeu Rey, conforme ao feu mo- do, e coftume, com muita pompa. E de- pois de feitas, todos os de [ua cafa, e que tinham delle tenças , e comedias , que feriam perto de quatro mil Nayres, fobre a mef- ma cova fe fizeram Amoucos, com fuas ce- remonias , rapando. as barbas de huma ilhat- ga, (que he o final pera ferem conhecidos, ) e juráram em feus Pagodes de morrerem to- dos em vingança da morte do feu Rey. Fei- to ilto, logo fe ajuntáram quinhentos osde mais obrigação , e foram dar na Ilha de Atú, que he de ElRey de Cochim. e a puzeram a fogos-e a ferro. Dalli paíláram a Cochim de fima, e entráram huma madrugada pela Cidade , em que fizeram grandes damnos, e cruezas , matando, e efpedaçando muita gente. ElRey com os da fua cala, e todos os mais que puderam , fe recolhêram pera a noífa Cidade, que fe metteo em revolta, porque chegáram os Amoúcos até os-atra- baldes. O. Capitão Henrique de Soufa Chi- chorro, ajuntando todos os moradores, fa- hio a bufcar os -Amoucos., e foi apôs elles até Cochim de fima, e os achou pelejando na Judiaria com os Judeos, que fe ais de- eu- Dee VI Lrv. VHL Car IX. 19% fendiam mui bem. Os noflos deram nelles, e osmettêéram todos a efpada fem lhes efca- par hum fó. Feito ifto, deixou o Capitão nas cafas de ElR ey Antonio de Sa Pinheiro com trinta foldados pera fua guarda, e elle fe re- colheo pera a Cidade, e fortificou as entra- das das ruas, porque feelperava pelos mais Amoucos , tendo fempre no campo grandes vigias, e atalaias. ei GAS PASTO SI De como o Camorim pafiou ao Reyuo da Pz- menta pera tomar pofje delle , por lhe per- tencer pela perfilbação : e de como Fer- não Rodrigues de Mariz partio pera Goa no mez de Junho com novas das galés : e da efpantola viagem que fez. : Anto que o Camorim teve novas-da-mor- A te de ElRey da Pimenta , com quem eltava perfilhado , logo determinou de ir to- mar poíle daquelle Reyno, como herdeiro delle, e começou a ajuntar feu poder com muita prefla. Dilto foi logo avifado ElRey de Cochim, que mandou rebate a Henrique de Soula Chichorro, que vendo a importan- cia do negocio ; mandou com muita preíla armar perto de quinze navios , catures, man- chuas, e tones, em que vam cento e fincoen- ta homens, e por Capitão mór de todos ele. geo 188 ASIA pe Droco DE Coviro geo feu cunhado Antonio Correa, irmão de: fua mulher, cavalleiro mui honrado, e an-. tigo no ferviço de ElRey , e lhe deo por regimento , que foffe pelos rios dentro met- ter em Chor a Manchora. (He efta huma alagôa, que fica nas coftas da Cidade de Pa- nane, que he tão grande, que afirmam os naturaes que tem vinte leguas em roda, é Della entram todos aguelles rios » que: vão fahir ao mar, que deftem da ferra, e por elles podem entrar navios de remo até fe metterem nella. No verão fe fécca toda, fi cando no meio della fempre hum braço do Ho, em que nadão catures; etodos os cam- pos à roda fe femeão de arroz » de que fe colhe huma grande quantidade. ) E porque forçado o Camorim havia de paffar hum da- quelles rios pera eftoutra banda de longo da alagõa , mandou o Capitão a feu cunhado que le mettefte nella, e lhe defendeffe o paflo. Partidos eftes navios pelos rios de Co- chim dentro, foram entrar na alagõa , on- de fe deixáram eftar com grande vigia. João Pereira, Capitão de Cranganor , com a gen- te de fua obrigação , e ElRey de Cochim; tambem fe foi pôr em outros paflos , por- “que tivefle o Camorim tudo impedido. Elle tanto que teve a fua gente junta , começou a marchar, e chegando aos eftreitos por on- «de havia de paflar, achou todos po os Dec. VI Liv. VIIL Cap. IX. 189 dos noflos navios. Antonio Correa tanto que vio a gente do Camorim, começou-os a va= rejar com a artilheria de feição, que lhe fe- tio , e derribou muitos ; e os inimigos da outra banda fe puzeram tambem com os nof- tos às efpingardadas todos os dias, e noites; que foram muitos , em que houve damno ambas as partes, As munições dos noflos fe gaftáram todas; mas João Pereira os pro- veo de tudo 6 neceílario , por hum paílo que fe chama de Matepirão , que he o mais fecco de todos.- € Dito foi avifado o Camorim, e mandou hum groffo poder a tomar aquele paflo pe- ra impedir os provimentos aos noflos ra- “vios, João Pereira, Capitão de Cranganor, - tanto que teve rebate daquelle negocio, fe paflou ao paflo com todo o poder, donde le poz á bataria com agente do Camorim, com quem teve algumas efcaramuças ; em que os noílos fizeram coufas muito notaveis ; gue por: ferem muitas ; e miudas as deixa mos , porque não foffre a hiltoria tanto: E, todavia de tal maneira lhe defendêram os noflos os paílos, que defconfiado o Camo- nim, fe carteou com ElRey de Diamper, que era do feu bando ; pera que lhe déffe palagem por feu Reyno pera o da Pimen- ta, Dito foi tambem avifado Antonio Cor- Tea; e mandou-lhe tomar o paílo de Malu- tur, 192 ASIA DE Droco DE Covro tur, que he pelo pé: da ferra, por onde elle pertendia paílar; mas como. o rio alii de maré vafia não deixava agua pera os navios nadarem , foi=lhes neceffario affaftarem-fe por não ficarem em fecco. Com ilto teve o Ca- morim tempo pera paflar á outra banda, o que ainda não pode fazer fenão em trajos de Jogue, que foi a coufa mais vituperada pera elle, que todas as da vida. É ajuntan- do-fe com ElRey de Diamper, e com ou- tros: do feu bando , paffou ao Reyno da Pi- menta, e tomou poffe delle, perfilhando o Principe Íobrinho do morto em Principe herdeiro, como tinha feito em vida de feu to. so O Capitão de Cochim, tanto que foube fer o Camorim paflado , armou todos os na- vios: que pode , e mandou recolher Antonio Correa (eu cunhado , e lhe deo mais navios, e gente, com que andou pelos rios de Bar- dela, e Diamper dentro , fazendo toda a guerra que pode:, dando-lhes em muitos lu- garesque lhes abrazou, e queimou. O Ca- pitão de Cochim'ajuntando todos os cala- dos; e toda à mais gente que havia em Co- chim., foi dar na Tlha de Parebalão, que era do: Rey da Pimenta, e a deftruio de todo, matando-lhe muita gente. E defejando de dar em 'Bardela”, mandon folicitar os Reys de Porca; e de Palur; eo Mangate Caimal, e E o Dec: VIE tyoVHL.-CAdI PR 19F o Mangate Cafta de Lua, e outros Senho- res, e Caimais, (que fempre foram do ban- do de ElRey de Cochim ,) pera-fe ajunta- rem com elle; e não fó fe efeufáram, mas ajudáram o Camorim , porque eflavam efé candalizados do Governador Martim Affon- fo de Soula lhes tirar as tenças-, que lhes ElRey de Portugal mandou dar, pelos mui- tos Íerviços que todos lhe fizeram nas guer= tas contra o Camorim, quando fe'quiz ir coroar a Repelim;, ( como na quinta Deca- dano Cap. 1. do I. Liv. fica dito ,) por on- de fe verá quanto em prejuizo da Fazenda de ElRey, e do Eftado da India são algu- mas crecenfas, que-certos Governadores, e Vifo-Reys querem fazer 4 Fazenda de El- Rey, fó pera: tirarem Certidões de ferviços, podendo-fe chamar mais deferviços ; e def truição de fua Fazenda , que: o nome que lhe elles querem pôr; porque defla: pougui- dade que eftes tinham de tençã, que fe lhes tirou, com que os tinham feguros no feryi- co de ElRey de Portugal, nafceo paffarem- fe à parte do Camorim em damno do Ef tado ; e não acudir pimenta pera as nãos - em que ElRey recebeo muitos annos huma mui notavel perda, e fazerem-fe muitas def- Pezas em grandes Armadas pera andarem pelos rios de Cochim, fazendo vir 'a pimen- la não fó comprada a mais dinheiro , mas ain- 192 ASIA DE Dioco dE Covró ainda á culta de muito fangue de vaflallos Portuguezes. E tornando à nofla ordem, a guerra fi cou dyrando todo o inverno com muitos tra- balhos; gaítos, e deípezas , com que tam» bem osinimigos ficáram bem quebrantados, Nefte tempo, que era em Junho , efereveo o Capitão de Chalé huma carta ao de Co- chim ; em-que lhe dizia, » que chegára hu- »ma não a Capocate em Maio, que viera » de Meca, e dava por novas certas , que » ficava em Suez huma Armada de galés pol- » ta já no mar pera: paflar à India, e que »elle tinha mandado tres , ou quatro Pata- » mares por terra com recado ao Governa- » dor, e que todos lhe tomáram a gente do » Camorim; que lhe' pedia, vilta a impor- » tancia do negocio: ; trabalhafle por avifar » ao Governador por todas as vias que pu- “» deffe, » | Vendo. Henrique de -Soufa Chichorro quanto aquillo importava ; e-que não havia ainda o caminho pelasterrás do Pande ( que são pera fíma da ferra) defeuberto:, como depois fe defcubrio , quiz-arrifear hum na- - vio pormar, (polto que era começo do in- verno ,)que começou logó a negociar: com muita prefla. Pera efta jornada fe offereceo Fernão Rodrigues de Matriz, que fe-nego- -ciou, e atres; dias do mez de Junho deo à 2 vês Déo Vi-Lrv. VII Cap. IX. 193 véla , levando comíigo fete companheiros. E navegando com mares muito groflos, ala- gados , e deftroçados., foram: tomar Chalé, onde fe reformáram: de todo: o neceffario ; e dando-lhe otempo hum pequeno jazigo, tornou: a feu caminho, com mares tão grof- los, e foberbos , que os comiam, e afim foram ferrar a babia de Cananor com man-. timentos podres, e perdidos. Alli fe refize- rm de outros , e tornáram à Íua jornada, E indo de monte Deli pera diante lhe cur- Jou o-tempo de feição, que fe viram per-: didos; e o que peior foi, que era o vento traveisão ,. que os não deixava navegar. E por não darem à colta, furgíram tanto á van- te como o rio de: Mangefirão , onde eftive- tam com infinito trabalho já defconfiados das vidas. Os mares crefciam tanto, etão apref- lados, que fe affirma lhe deram oito jun- tos; com que o navio fe virou ; eos Por- tuguezes tiveram tanto acordo , que cortá-: tam a amarra, e afferrados todos no navio; camarrados a cordas, e afim meímo os ma- tinheiros., permittio Deos que. os meímos mares foflem encaminhando o navio até-o embocar pelo rio de Mangefirão dentro ; «e tanto que o maito, que hia direito pera bai- Xo, tocou no fundo, com aforça da pane cada faltou o navio pera fima., e tornou-a: ficar virado, e os Portuguezes encapellados;, Conto. Tom. III. P.il. N 2 194 ASIA pe Diogo dE Covro e à nado torniram «a ferraro navio , fem perigar algum delles , e aílim chegáram á povoação cem o navio deftroçado , e desba- ratado. Os naturaes defte rio eltavam de paz com o Eltado”, mas andavam travados em guerra buts vizinhos com outros ; e"os da terra agazalháram os nofos, e lhes deram por leu dinheiro tudo o de que tiveram ne- ceflidade pera o concerto do navio. Só man- timentos não acháram , porque por caufa da guerra eftava tudo perdido, e por gran- de aderencia lhes deram dous fardos de ar- roz por fincoenta pagodes, e com elles, e algum peixe tornáram a fua viagem, e ala- gados muitas“vezes, e com immenfos tra Dalhos, e perigos foram ferrar Goa a velha pelo 8. João; e por dentro dos rios chegá- ram'a Goa. . - Fernão Rodrigues de Mariz fe vio com o Governador, e lhe deo as cartas, que de molhadas fe não podiam ler, e lhe contou todas as novas do que era paffado , aílim das galés; como da morte de Francifeo da Sil- va, e da paflagem do Camorim ão Reyno da Pimenta. “Tito fentio o Governador mui- to , porque eram coufas que moleftavam o Efiado , e porque as novas das galés lhe não haviam de deixar acudir áquellas coufas', como era necellario. A Fernão Rodrigues de Mariz fez muitas honras , e mercês, a > me - Dec. VI Lry VII. Car. IX. 195 meímo a Ífeus foldados , por fe arrifcarem aílim em huma viagem tão perigofa pelo fer- viço de ElR ey. Com eítas novas mandou o Governador dar mais preífa ás coufas da At- mada, porque fem dúvida efperava as galés na entrada de Setembro. E deixallo-hemos agora por hum pouco , porque he neceffa- ro continuar com as coufas de Maluco, que nos cabem aqui. CA PET U LOC. Das coufas » que acontecêram em Maluco até chegar Jordão de Freitas : e de co- mo Bernaldim de Souja entregou a forta- leza a Chrifiovão de Sá: e deontras cou= Jas que mais palláram. Emos deixado as coufas de Maluco - emtregoas, os noflos com o Rey de Gei- lolo, que fetinha feito o mais poderofo de todos os daquelle Archipelago. E como era mão, e tyranno , é inimigo do nome Chri- tão , fazia toda a guerra que podia aos Chriftãos de Moro, dando-lhes em fuas po- voações, deftruindo-lhas, matando, e cati= vando muitos; e contra o contrato das tte- goas recolhia em fua Cidade todos os efera- vos dos Portuguezes que fugiam de 'Terna- te. Difto andava tão efcandalizado Bernal- dim de Soufa, que defejava de lhedar hum Ji mui- 196 ASIA DE Diogo pe Couro muito grande caítigo ; primeiro que foíle ou- tro Capitão. E pera ter occafião de quebrar as tregoas:, commetteo-o ElR ey de Ternate, que lhe deixafle fazer repreza em alguma gente de Geilolo, que alli andava na Cida- de, pera atroco della haver os efcravos que aqueile Rey lá tinha em feu poder. Difto fe eicufou HiRey, aflim por fe temer do ou- tro, como por fer feu genro, feu parente; e Mouro como elle. Mas depois tendo al- guns aggravos delle , difle a Bernaldim de Soula, que naquella materia podia fazer tus do oque lhe bem pareceífe , que elle o aju- daria com tudo o que pudefle. Com ifo man- dou logo Bernaldim de Soufa armar algu- mas fuítas , e corocoras, e as proveo de gente , e munições , e as repartio em duas Capitanias, huma dellas deo a Ruy Dias Coelho ; moço da Camara do Duque de Bra- gança; (que então Ífervia de Capitão mór do mar,) a outra deo a Manoel Lobo, e os defpedio , dando-lhes por regimento , que fe folem á Ilha do Moro , cada bum por fua parte, e que fizeflem por aquella cofta do Reyno de Geilolo toda a guerra que pudefiem. Pafiados elles Capitães ao Moro, deram em alguns lugares, que mettêram a ferro, ca fogo: e cativáram algumas peífoas. E depois de terem bem de cativos, mandáram e € - di- Deco VE Les VII. € APR. 197 dizer ao Rey de Geilolo por via de Ra- que Naque, Regedor do Tolo : » Que lhes » mandafle a artilheria que tinha da fortale- »z4, e os efcravos dos Portuguezes, e que » lhe -mandariam ós cativos que tinham. » À ilto refpondeo elle: » Que não daria o »mais ruim berço por todos os cativos.» Com elle defengano fe recolhêram a Terna- te O Capitão mandou apregoar logo guer- ra contra ElRey de Geilolo , e concertous fe com ElRey de Ternate de lhe fazerem toda a que pudeflen; e afim armou logo ElRey fuas corocoras, e mandou Cachil Gu- zarate feu meio irmão da parte da mai, e feu Capitão mór do mar, pera que fole por toda a colta de Geilolo , e a deftruille ; é o Capitão mandou em fua companhia Ruy Dias Coelho com toda a Armada da forta- leza, Paffados ambos ao Moro , deram em muitos lugares de Geilolo , e depois de os deltruirem fe foram pôr fobre a fua barra; e os tiveram de cerco, fem oufarem as em- barcações dos pefcadores a fahirem fóra; porque logo erám tomadas, o que aquelle Rey teve por muito grande afronta. Pallas do o tempo do feu-provimento , voltáram pe= ra Ternate com muitas prezas , e cativos. Depois. dito fe embarcou o Rey-de Terna- te na mefma Armada, levando comíigo os. Portuguezes , e pallou a Geilolo:;.e huma ; ma- 198 ASIA pe Droco DE Covro madrugada defembarcou em hum lugar cha- mado Geima., e o deftruio , e abrazou de todo , não deixando coufa alguma em pé; e querendo dar em outros lugares, lhe che- gáram novas , que eram vindos navios da Índia; e que Jordão de Freitas vinha por Capitão da Fortaleza. E como elle era feu inimicifimo;; fentio-o tanto, que levou mão da guerra, e voltou pera Ternate. Chrifto- vão de Sá, e Jordão de Freitas chegáram ao porto de Talangame:, onde furgiram;, e logo fe foram à fortaleza”, e Bernaldim de Soufa os recebeo muito bem. -Chriltovão de Sá lhe aprefentou a Provisão, e a carta de - guia que levava, por cuja virtude lhe'en- tregou logo-a fortaleza, do que Jordão de Freitas ficou fobreialtado., porque não fa- “bia das Provisões. Bernaldim de Soufa ven- do que não fe podia iraquelle anno pera a India, (porque eftava fazendo huma não no porto de Talangame pera fe ir nella,) paf- fou-fe pera lá com todos feus criados, € amigos, que eram mais de trinta peíToas , ( porque fe reccou que os Geilolos lhe fof- fem queimar a náo, ) e alli fedeixou eflar. b) b) dando-lhe preífa. Chriftovão de Sá ficou cor- rendo com a obrigação da fortaleza. Jordão de Freitas tomou cafas em ter- ra, onde fe apofentou até lhe caber o tem- po ; fem correr com ElRey , nem ElRey com | | | Dec. VI. Liy. VII Car: Ko 199 com elle ; antes muitas peíloas lhe aconte- lhavam, que devia reconciliar-[e com ElR ey, pois havia de ficar naquella fortaleza, o que elle não quiz fazer: O Rey de Geilolo af- frontado , e magoado dos noflos lhe deltrui- rem feus lugares, armou as fuas corocoras, e mandou ao feu- Capitão mór que traba- lhafle por lhe queimar a ndo de Bernaldim de Soufa.. Efta Armada chegou. huma mas drugada ao porto de Valangame, e queren= do defembarcar fentio grandes vigias ,.e tor- nou-fe.a recolher.: Dalli paílou adiante, e foi dar em hum: lugar da mefma Ilha, cha- mado Xulá, e o queimou, e abrazou. Ber- naldim de Souia tanto. que fentio os inimi- gos, acudio á praia pera lhes defender a defembarcação , e dahi a pouco vio o fogo no lugar de Xulá., e fentio muito não ter navios. pera fahir aos inimigos; e vindo a- manhecendo chegáram alli feis corocoras , em que vinha Cachil Page , irmão de El- Rey, acudir a Xulá, pelo fogo que em Ter- nate viram. Bernaldim de Soufa efimou mui- to fua chegada , e embarcando-fe com vin- te homens em huma corocora, foi com. el- les bufcar os inimigos; e chegando a Xu- lã, víram ir a Armada de Geilolo já affaf- tada ,e recolhendo-fe. Cachil Page, e Ber- naldim -de Soufa os foram feguindo até á tarde com tanta furia , que Bernaldim sie saón | ES 7 | as 200 ASTA pe Drogo pe Covro fa, que hia diante, chegou a tiro de efpin- garda. E olhando pelas corocoras de Cachil Page, vio que ficavam mais de huma legua atras, O que Cachil Page fez de induftria, porque era fraquiflimo , e muito pufillanime ; e entendendo: de Bernaldim de Soufa que havia de pelejar com a Armada de Geilo- lo, fe fez manco, e deixou-fe ficar. Bernal- dim de Soufa vendo-fe tão perto dos inimi- gos, e que não levava navios pera os com- metter, foi fua paixão tamanha, que reben- tava ; e vendo que feria temeridade com- metter Íó os inimigos, tornou a voltar pe- ra Ternate, e os inimigos foram feu cami- nho fem o querer feguir. E chegando a 'Ta- langame muito affrontado daquella retiráda, querendo-fe fatisfazer della , mandou fazer queixume a ElRey de feu irmão Cachil Pa- ge, e pedir-lhe que lhe mandaffe finco co- rocoras, e mandou convidar à fortaleza feus amigos pera o acompanharem em huma jor- nada que queria fazer. ElRey lhe mandou as corocoras , e da fortaleza lhe acudíram mais de fincoenta homens. E embarcando-fe com todos os Portuguezes que alli tinha, e com os que lhe acudíram, partio pera Gei- lolo. Chegando ao feu porto , lançou em terra huma peífoa , por quem mandou. def- afiár ElRey pera huma batalha no mar com todas as corocoras- que. elle: quizeffe-,- por- que Dee. VL Liv. VIIL Cárp. X. 201 É que elle com fó aquellas finco “o efperava. ElRey acceitou o delafio, mas não lhe fa- hio. Bernaldim de Soufa efperou todo aquel- le dia, e noite; e ao outro dia tornou dar à vela pera Ternate, ficando ElRey muito abatido daquelle negocio. A guerra ficou cor- sendo huns aos outros, toda a que podiam, dando huns nos lugares dos outros. Em hum deftes aílaltos foi cativo aquelle foldado de Geilolo , que cortou a cabeça ao Portu- guez, por cujo feito lhe deo o Rey de Gei- lolo a filha que tinha cafada com ElRey de Ternate ; e fendo conhecido, o leváram a ElRey de Ternate, que o mandou en- forcar na praia. Nefte ellado deixamos as o de Maluco até fer tempo de'tornar a ellas. | SC ASP TATO Sd: Das confas, que o Governador Forge Ca- bral fez em Goa: e de como lhe vieram novas , que as galés fe torndram a def- armar , e defpedio Manoel de Soufa de depulveda pera Cochim : e de como cer- com os Principes Malavares na Ilha de Bardela: e do que mais fuccedeo, Aflado o Camorim ao Reyno: da Pimen- - ta, ( como atrás temos dito no Cap. IX. defte Liv. VIII.,) mandou logo convocar todos os Principes Malavares do feu bando, que 202 ASIA pe Droco pe Covro que eram dezoito, em que entrava ElRey de “Tanor feu vaflallo , o que fe fez Chri- fião em tempo de Garcia de Sá, (como fica dito no Cap. V. do VII. Liv. ) que lhe acu- diram com todo o feu poder. Elle os man- dou paflar à Ilha de Bardela com trinta mil INayres, e finco , ou feis mil Amoucos da obrigação do Rey morto, pera dalli palTa- rem a Cochim.a tomar vingança da morte daquelle Rey, deixando-fe elle ficar da ban- da do Chembe com cem mil homens de guerra, de maneira, que toda a potencia do Malavar eftava alli junta. Henrique de Sou- fa Chichorro, Capitão de Cochim, fortifi- cou muito bem a Cidade, e ElRey de Co- chim. ajuntou perto de quarenta mil homens pera defender feu Reyno. Difto avifáram pot terra ao Governador por muitos Patamares, que chegáram logo apôs Fernão Rodrigues de Mariz. O Governador andava muito oc cupado na preparação da Armada, porque determinava ir bulcar os Rumes , e ficou em- baraçado , vendo que fe lhe offereciam eltou- tros trabalhos de novo, que não eram me- nores , nem de menos obrigação pera acu- dir, que os das galés, porque eftava aquel- le Reyno arrifcado a: fe perder de todo, o que feria defiruição do: Ellado... Com eftas confas ficou fufpenfo, e cha- mou muitas vezes a confelho os Fidalgos;, a -.. Dec VI Live VII. CapsXI 203 e Capitães, e em todos ouvio varios pare- ceres. É como o Governador delejava de faber o de todos os da Cidade fobre aguel- la materia; mandou pôr na Sé de Goa hu- ma caixa com algumas fendas por fima por onde podiam caber cartas, e mandou pre- gar efcritos pelus portas das Igrejas, e pré- gar pelos Pulpitos : » Que toda a peíloa, de » qualquer qualidade que fofle, que lhe qui- zelo dar feu parecer naqueija materia, o »fofle lançar dentro naquella caixa, ou de- »clarando: feu nome: ou encubrindo-o , pe- »ra que mais tivremente pudeflem dizer tu- »do o. que entendiam; » e aflim fe come- çiram a lançar muitos. | E pela mefma: maneira efcreveo ás Ci- dades de Chaul., e Baçaim o trabalho em | que ficava, pedindo que tambem lhe deem fobre elle feus: pareceres , e o quizeflem aju- dar com navios, e gente pera aguella jor- nada , pondo-lhes diante as obrigações de leaes, e bons vaflallos, e como aquella ne- ceflidade era general , e-cabia a todos fua parte. Eltas cartas lhes foram dadas , e lo- go lhes refpondêram : » Que eftavam todos » preítes pera facrificarem as vidas por fer- » viço de Deos, do Rey, e defensão de feu »Eftlado. » Ainda que a Cidade de Chaul dizia na fuacarta , (cuja cópia temos em noflo poder :) » Que fem embargo dos mui- » tos: 204 ÁSIA DE Droao DE Covro » tos aggravos que tinham dos Governados » res pafiados, em neceflidade tão urgente, »e forçada, elles fe não lembravam mais que » do ferviço de Decos, e de ElRey; que el- » les ofereciam doze navios armados á fu »euíta, de marinheiros , foldados , manti- » mentos, e munições pera tres mezes; é ou- »tros doze com Íeus marinheiros, e que de » foldados , e mantimentos os proveífe elle ; » e allim os começáram logo a negociar com muita prefteza. O Governador dava em Goa muita prefla a todas as coufas, pera como O Verão entrafle , eftar pofto no mar pera acudir aonde fofle mais neceflario. E como tinha Armada , e armazens encarregado à Capitães, que corriam comifo, defcançava Nelles, e provia nas coufas de fóra ; porque naquelle Inverno fe não tratou de outra cou- fa, mais quedas que cumpriam á Arma- da. É indo veípera de Sant-Iago á ribeira a vilitar a Armada, perguntou áquelles Ca- pitães, em que-eltado eftavam, e elles lhe difleram, que tudo prefles; e que cada vez que quizelie pôr toda à Armada no mar; o podia fazer. Dillo ficou o Governador tão alvoroçado , que vendo ellar o melftre da ferraria, o chamou, e lhe die: » Que fizefx »fe logo trezentos pandeiros pera fe res » partir pela Armada,» (porque era muito amigo de folias.) E afim andavam as Arma- das ., Dec: VI: E iv: VIIGar XI 205 das tão alegres naquelle tempo, que fe po- dia embarcar nellas por entretenimento. E eftando com elle alvoroço, mandan= do lançar os navios ao mar, lhe chegaram as cartas de Chaul , e Baçaim do offereci- mento dos navios. E juntamente lhe efcre- veo Francifco Barreto, Capitão de Baçaim:: » Que chegára áquelle porto huma não que » viera de Meca no fim de Maio, que afir- »mava que o Turco mandára ao Baxá, que »eftava em Suez negociando a Armada, que » fobreeftiveile, e não fe bolille até feu re- pecado ; e com iflo fe tornáram as galés a »defarmar; e que era nova muito certa, e paveriguada. » Ellas novas feitejou o Go- vernador muito, por lhe ficar tempo defoc- cupado pera as coufas de Cochim. | E logo com muita prefla deípedio Mas noel de Soufa de Sepulveda com quatro na- vios de remo, de cujos Capitães não achá- mos mais nomes , que de Gonçalo Vaz de Tavora. E lhe deo por regimento , que fe fole a Cochim , e que com a Armada de Fernão de Soufa , e com todos os navios que mais fe pudeílem armar, fe fofle lançar fobre a Ilha de Bardela , onde eflavam os Principes Malavares ; e que os tivelle den- tro reteudos até elle chegar , porque logo partia após elles. Manoel de Soufa de Se- pulveda fahio com os navios por Gonigivi: É “Tha 206 ASIA DE Dioco DE Covro lha no fim de Julho, (por a outra barra ek tar ainda foberba, e perigofa.) E dando 4 véla foi feguindo feu caminho com muito rifco , e trabalho, e em poucos dias che- gou a Cochim. E ajuntando-fe com o Ca- pitão da Cidade, armáram todos os navios que havia, que eram perto detrinta, e em barcando nelles muita, e boa gente, que al. li invernou, fe paffou logo a Bardela, e fe lançou ao derredor de aquella Ilha, fechan- do nella aos Principes Malavares, de fei- ção, que fe não podiam fahir , nem ferem foccorridos do Camorim, que eftava da ou- tra banda do Chambe , como diffemos. E logo defpedio recado ao Governador de fua jornada; e de como os Principes Malavares eftavam enferrados em Bardela , e que alli lhos tinha todos: pera lhos entregar nas mãos quando quizefie, GihaP TALO cSdEs Do que aconteceo a Luiz Figueira com ba was galês de Rumes : e de.como foi ao Cinde, e favoreceo aquele Rey contra 08 — Nantaques: e da defgraça que lhe acom- Zeceo. | — Uiz Figueira, que deixímos invernan- do em Ormuz com a fua Armada » tan- to que entrou Agofto, negociou os navios, e “Drc. VI. Liv. VIII. Car. XIL 207. e os proveo do neceflario; e de quinze do mez por diante fe embarcou , ficando Gil Fernandes de Carvalho em Crmuz com a fua fuíta. Depois em Setembro partio pera Goa, onde chegou em Novembro, e faben- do fer o Governador em Cochim, o foi lã bulcar. Luiz Figueira foi feguindo fua jor- nada pera o cabo de Refolgate, (porque já em Ormuz havia novas , que fe víram pôr naquella paragem quatro galés pequenas, e as mefmas novas achou em Mafcate, onde os Portuguezes ellavam já fobre avifo., e preftes com grandes vigias fobre elles, com determinação de lhes: defenderem a defem- “barcação, fea quizeflem commetter ,) e paf- fando adiante chegou á ribeira de Teve, on- de fez aguada, e alli lhe deram novas, que as galês ellavam em Jór, hum lugar dalli à... leguas. É negociando os navios, e fa- zendo preftes as munições, fahíram dalli to- dos poltos em armas, e antes dé chegarem a Jór, houveram villa de quatro galeotas grandes , e formofas. Andava nellas hum Mouro grande coflario, chamado Cafár , que tinha fahido de Meca com tenção de faquear Malcate, e faquear as nãos que em Outu- bro haviam de partir de Ormuz pera Goa, e pera outros portos da coíta da India. Os inimigos tanto que houveram vifta da nofla Armada, virando em outro bordo , voltáram pe- 208 ASIA pe Droco DE Covro pera trás, dando toda à véla, e ajudando- fe do remo foram fugindo-o mais que: pu- deram. Luiz Figueira foi feguindo os inimi- gos tambem com a meíma preífa ; e como elles lhes levavam muita vantagem, e as gas leotas eram muito ligeiras, fe foram melho- tando de feição., que dobráram o cabo de. Rofalgate pera fóra, etomáram o caminho pera o Eltreito de Meca de longo da cofla. Luiz Figueira tambem dobrou o cabo após ellas ; levando-as á vifta, e feguio-as pou- co, porque defconfiado de as não poder al- cançar, as largou. Alguns lhe deram culpa de não as feguir até o Eltreito de Meca, ha- vendo que fem dúvida as alcançára , e to- mara em algum porto. Deixadas as galés, voltou Luiz Figueira pera o caminho de Goa , efoitomar o Cinde; os refpeitos por- que, nós o não fabemos. ElRey que eftava na Cidade de Tatá , fabendo da nofla Ar- mada, mandou hum Embaixador ao Capi- tão mór della a pedir-lhe. » que lhe qui- »zefle caltigar os Nautagues , que lhe efta- »-vam rebellados, e que lhe faria paga aos »foldados , e defpeza da Armada. » Luiz Fi- gueira querendo fervir naquelle negocio, mandou finco, ou eis navios pera irem dar no porto dos Nautagues, e deftruillos. Ef. tes navios foram áquelle negocio com o.olho, nas prezas que Íe efperayam,, e gera pes as Dre VI. Liv, VII Car. XIL 209 las coftas dos Nattaques dando-lhes em ale guns portos, e povoações, em que fizeram algum damno. E andando por ella, deo hum dos noílos navios em fecco , em parte on=: de acudiram os da terra, e cortáram as ca- beças a todos os Portuguezes, etomáram o navio com toda Íua artilheria, fem os nof- los lhes poderem valer: e não cellando aqui o mal, deo outro navio em huma reflinga, onde fe perdeo , mas fó fe falvou a gente nos mais navios. Com eftas avyalias fe reco- lhéram os mais pera o Capitão mór , que fentio em eftremo aquelle negocio, e o hou- ve por grande mofina Íua. E como andava com fobeja defconfiança do negocio das ga- les, (que os foldados lhe não perdoáram em matracas, que de noite lhe davam, ) acabou aquella deígraça , ou defaftre de o defcon-: far de todo , entriltecendo-fe de maneira , que o entendêram todos nelle; e dando 4 véla pera Goa, chegou áquella Cidade já em Novembro , fendo o Governador Jorge Ca- bral partido pera Cochim, como no Capi- tulo adiante fe dirá; e tomando algunas coufas neceflarias , fe partio em bufca delle, e chegou áquella Cidade , depois do Vifo- Rey D. Affonfo fer nella, como tudo mes lhor fe dirá adiante. 7 Conto Tom. IILPl, O CA- | 210 ASIA pe Dioco DE Covro CAPITULO IL De como o Governador forge Cabral par. tio pera Cochim , e de caminho deftruio as Cidades de Capocate, Tiracole, Con lete , e Pauane: e de como efando pera dar em Bardela , lhe deram novas “que era chegado o Vijo-Rey D. Ajfonfo de No. ronha. Anto que o Governador deípedio Ma- | A. noel de Soufa de Sepulveda, logo poz toda a-Ífua Armada no mar, e ficou elpe- rando que vieflem nos do Reyno pera fa | ber novas-;-e tomar dellas mais gente. E tanto que o Verão entrou, efcreveo a Chaul, e Baçaim , que ficava poíto no mar efperan- . do pelos navios que lhe-haviam de mandar; e entre tanto deo deípacho a muitos nego- cios, e fez paga aos foldados-, no que fe gaftou todo o mez: de-Setembro. E vendo que tardavam ndos., e que já não podiam ir fenão-a Cochim, foi-lhe neceífario aviar- fe mais deprefla, porque fe lá as achaíle, e lhe yiefle fucceflor, fe poderia embarcar pe ra o Reyno; e aílim fé faffou de todos os negocios ,.e fe embarcou de quinze de Ou- tubro por diante, entregando o governo ao Bifpo, Capitão da Cidade, e Ouvidor Ge- i ral, e na barra elleve até lhe chegarem os. “Das Dec, VI. Liv VIE Car. XIN. 217 navios do Norte, que foram perto de trin= ta, com muitos, e bons foldados, com cuja vinda fe fez logo ávéla já no fim do mez. A Armada que levava era de mais de cem avios, em que entravam perto de vinte ga- fiões ; nãos , e galés, e tudo-o mais fuítas, e bargantis. Os-Capitães , e Fidalgos, que nella jornada o acompanháram, dos que pu- demos achar os nomes , são os feguintes: D. Antonio de Noronha” filho do Vi- fo-Rey D. Garcia de Noronha, -Baftião de Sá, Pantaleão de Sá feu irmão, D. João Henriques , Francifco de Mello Pereira, João de Mendoça, D. João Lobo, Martim Af- fonfo de Miranda, Pero Botelho, Martim Affonfo de Mello Ombrinhos; Fernão Go- mes de Soufa, Gil Fernandes de Carvalho, Lopo Vaz de Siqueira, Diogo Botelho, Pe- dro Affonfo de Avelar , Jorge de Mendo- ca, e outros muitos Fidalgos, e Cavallei- ros. E feguindo Ífua jornada, foi pela cof- ta do Malavar , affolando , e deftruindo tu= do; e defembarcou em Viracole( cujo pro= prio nome he Quiçore) huma Cidade do Reyno do Camorim, grande, e formofa, e de muito trato, e mercadores, aflentada, e eltendida fobre a cofta brava duas leguas do rio de Pudepatão pera o Sul, que queimou, defiruio , ailolow, e roubou , achando os fol- dados nella grandes: prezas. O mefmo-fez à Eco li Ci- 213 ASIA ne Diogo DE Covro Cidade de Coulete , que deixou abrazada, e Ífeus palmares cortados, e todas fuas em- barcações feitas em carvões. E chegando a Calecut , determinou de defembarcar , e def- truir aquella Cidade, (porque feria a maio afronta que fe poderia fazer ao Camorim, mas foi contrariado de todos 'os Fidalgos da Armada , que lhe difleram: » Que não era » bem fe arrifcafle a lhe acontecer hum def- » aftre ; que era necefiario poupar-fe , e ir » inteiro pera o negocio de Bardela, aonde » tinha todos os Reys, e Principes Malava- » res, e lhe não podiam fugir das mãos, que pera omór, e mais importante negocio da » India, eo mais honrolo , pera o que era » neceflario ir com a mão muito folgada, » Sómente D. João: Henriques , e Luiz Xira Lobo foram de contrario parecer, dizendo: » Que fe quando alli não eftava o Camorim » ie não queimafle aquella Cidade, quando » fe elperava poder-fe fazer? Que fó por cre- » dito de fe dizer antre os Reys Mouros da » India, que defembarcára nella, o havia » de fazer. » Mas como os outros votos fo- ram tantos, e mais , deixou o Governador aquelle negocio, e paflou adiante. Chegan- do ao rice de Panane , entrou nelle com to- das as galés , e navios de remo pera quei- mar aguella Cidade, por fer a fegunda do Reyno de Calecut; € amais rica, e ce mos trá- Dec. VI Lrv. VIIL Car. XII 273 “fato que todas, e porque dellas fahiam to- dos os annos muitas nãos. carregadas de pi- menta, e gengivre pera Meca. E entrando no rio, defembarcou em terra, e commetteo | a Cidade ; e pofto que nella achou grande refiflencia, foi entrada dos dianteiros , que foram por dentro della pelejando com os inimigos, e huma multidão delles fe reco- lheo a huma formofa Mefquita , que foi com- mettida dos noílos, e a entráram , metten- do á efpada a mór parte dos que eftavam dentro; e hum tropel delles, que feriam qua- fi felTenta, fe recolhêram a huma torre, a que fe fubia por huma efcada de caracol. Os nof- fos commettéram a entrada da porta , que lhes foi muito bem defendida, e fobre ella feriram alguns dos noflos , em que entrou Baftião de Sá , que eltava mais chegado á porta, trabalhando por entrar dentro com muito valor, e esforço. À elte tempo che- gou D. Antonio de Noronha, filho do Vi- fo-Rey D. Garcia de Noronha, que era hum homem agigantado, e muito grande caval- leiro ; e vendo o trabalho em que os nof- fos eltavam , e como os Mouros fe defen- diam, palfou por todos, e chegando à por- ta com huma efpada de mão e meia , que levava, ealçando o efeudo fobre a cabeça, commetteo a porta, e a entrou, e ao tem-= po que levantou o efcudo fe arremeflou hum Mou- é. 214 ASIA vE Dioco pE Covo Mouro à elle, e lhe deo huma ferida por debaixo do braço, que lhe ficou defcuberto; mas elle tanto que foi dentro, começou a cor- tar nos inimigos de feição , que os arrancou do lugar, e os foi levando pela efcada afli- ma , indo já com elle alguns dos noffos , em que entrava Baítião de Sá; e chegando com elles ao alto, que era mais largo , tiveram huma mui formofa batalha , em que os Mou- ros por defensão de fua vida pelejáram mui- to bem; mas em fim todos foram deípeda- gados. Defpejada a Cidade, poz o Governador “toda a fua gente no campo, que feriam per- to de quatro mil homens, e mandou Frans cifco de Siqueira com alguns Capitães, que foflem com os navios de remo queimar as “nãos, que etavam duas leguas pelo rio den- tro. E-por terra de longo da ribeira man- dou hum efquadrão de dous mil homens pe- ra Os favorecerem, e el!e ficou com outros dous mil no campo. Os navios chegáram às ndos, e lhes deram fogo, em que todas el- las fe confumiram, e mais de trinta navios outros. Feito efte negocio, fe embarcou o Go- vernador, e ao outro dia furgio com a Ar- mada groffa na barra de Cochim, e-elle com as galés, etodos osmais navios dere- mo (a que toda a gente fe pafou ) en trou atm dit GA crio Tas ssgreme mreememeryem Te e rir serer BESC AL SADIA SA a NE DecoVE Live VOL Caró KI 515 trou pelo rio dentro; ce paflow pela Cidade com elles embandeirados:, e-poltos em ar- mas, efoi furgir aquelle dia no caftello de fima, Ao outro chegou: á Ilha de: Bardela;, onde achou Manoel: de Soula. de Sepulve- da com toda a Armada , quetinha a Ilha cercada com os Principes dentro ;€ falva- ram-feas Armadas com grandes feftas , e ale- grias. | Joia Surtos os navios; chamou o: Goverhas dor os Capitães , e lhes difle, que ao ou- tro dia havia de dar emterra , que fe fizeí- fem preftes: mandou-lhes que fizefemalar- do da gente que havia pelas embarcações , o que-elles foram fazer, eacháram feis mil homens Portuguezes , com todos os mora- dores de Cochim, que alli foram logo em tones, e outras embarcações ; e mandou di- zer a ElRey de Cochim, que eftava da ou- tra banda com quarenta mil homens :» Que »tiveíle preftes muitos tones , e almadias pe- pra a fua gente paflar á Ilha, quando lhe » mandafle recado. » Aquella noite galtáram todos em prepatarem fuas armas, e o-Go- vernador:em dar ordem no modo que fe ha- via deter na de defembarcação , que foi por eta maneira. | Manoel de Soufa de Sepulveda havia de levar a dianteira com dous milhomens; que havia de defembarcar por huma parte, e o Ca- 216 ASIA pe Diogo PEC | Capitão “de Cochim com outros dous mil por outra, eo Governador: como refto em meio d'ambos ; e ElRey de Cochim pela outra parte. E tanto que amanheceo, tocou o Go- vernador fuastrombeias, (que era o final a que fe leváram todos osnávios ,) e osnof- os póftos em:armas foram demandar à ter- Ta; com grandes gritas de alvoroço, e an» tes de chegarem lhes alevantáram “de lá hu- ma bandeira branca grande: capeando com ella. E O Governador mandou levar o remo, e elperou hum pouco , e logo chegou á lua embarcação huma almadía pequena, em que vinha hum homem , que lhe pedio da parte de ElRey de Tanor (o que Garcia de Sá fez Chriltão:) » Que fobreeftivelte naquilo, » que os Principes Malavares queriam com » elle paz, com todos os partidos que qui» » zefle, e que lhe défle licença pera elle vir » fallar com elie fobre aquelle negocio.» O Governador chamou os Capitães a confelho, e antre todos houve varios pareceres ; mas os mais differam : » Que fe devia de faber » 0 que aquelles Principes queriam ; e que » fendo os partidos taes , e tão honrofos , » como era razão que foflem , fe lhes con » cedeflem , porque afim fe efcufavam da- » mnos, emortes, que forçado havia de ha- » ver, € mais quando não havia perigo na » tar» Rg Ro eee ao em Dec. VI. Liv. VHL Car. XI 217 ytardança, nem lhes podia entrar mais gen- »te da que tinham , nem elles podiam fa- » hir pera fóra, que a todo o tempo os ti- » nham alli fechados. » O Governador def- pedio o homem com recado a ElRey de la- nor, dizendo-lhe : » Que por amor delle ef- » perava que fe vifle com elle deprefia, e fe » determinaflem , que elle não fe podia alli » deter muito. » Com efte recado deípedio logo ElRey outro ao Governador a Ífaber delle os par- tidos que queria que lhe fizeffem. O Gover- nador lhe mandou dizer :» Que os Principes ytodos que eftavam naquella Ilha fe haviam » de entregar em feu poder, com lhe elle fe- » gurar as vidas, e que então fariam as pa- »zes, e concertos, que foffem licitos; e ho- »neltos. » Sobre ilto foram, e tornaram re-. cados apreflados , e em efperanças, e com invenções foi ElRey de Tanor entretendo o Governador tres dias, e ao derradeiro à tar- de chegou huma embarcação que vinha de Coulão , por dentro dos rios, em que vinha hum Fidalgo , que já andára na Índia, cu- Jo nome nos não lembra , e trazia duas car- tas do Vifo-Rey D. Affonfo de Noronha, gue ficava em Coulão, huma pera o Capi- tão de Cochim , e outra pera Manoel de Soula de Sepulveda , porque não fabia ain- da da chegada do Governador alli. E faben- do 218: ASTA pe Diogo ne Covro. do-elte Fidalgo que eftava elle alli, foi de. mandar o feu navio, e entrou com elle, e lhe deo razão de fi, enovas do Vilo-Rey, e das cartas que trazia, O Governador ficou fobrefaltado,, pot- que receou que fole aquillo cauía de elle não dar fim a huma empreza tão honrofa, e mandou chamar o Capitão , e Manoel de Soufa de Sepulveda , e abrio com elles as cartas, que com poucas paluvras lhes dizia : » Que elle ficava em Coulão, e que ao ou- » tro dia feria em Cochim, que lhes man- »dava que entre tanto fobreeftivellem no » negocio que tinham antre mãos , nem fi »zellem paz, nem guerra até elle chegar.» As novas do Vifo-Rey logo fe efpalhá- ram por toda a Armada, e começou a ha- ver na gente grande alvoroço, (porque a da Índia he mais amiga de novidades, que to- das as do Mundo. ) O Governador ficou ma- goado pelo erro que tinha feito naquellas di- lações, e todavia determinou de não perder aquella honra , por lha não vir outrem at- rancar das mãos, e mandou logo chamar to- dos os Capitães , e lhes dife: » Que em quan- » to elle não entregava a India ao Vilo-Rey, » todas as coufas della elavam á lua conta, » como quem della tinha dado a menagem. » Que bem viam todos o cabedal que efta- » va mettido naquella jornada, e que não era ras Dzc: VL Lav. VII Car. XII 219 yrazão ficalle fem efeito algum; que a vi= ptoria eltava certa, eque-a honra della era »de todos; que lhes pedia, e rogava, que -»a quizellem ganhar , e fe fizeflem preites »pera o outro dia pela manhã darem em ter- yra, porque fegundo aquelles Principes ef »tavam medrofos, e faltos de tudo, havia yde haver pouco que fazer em ostomar às » mãos; que trabalhaffem todos por fazer »com que os Reynoes quando chegaffem fi- » caflem invejofos de à fua villa ganharmos ytão grande honta; como na verdade feria ya maior de todas: as que fe ganháram na » Índia. » Todos lhe differam que eftavam preítes pera o acompanharem , e que lhes parecia mui bem fua determinação. Com ifto fe def- pediram, e foram fazer preftes pera o ou- tro dia de madrugada. Effando todos com ele alvoroço , quiz Deos ( que nenhuma coufa faz fem caufa) que aquella noite, e todo o outro dia folle tanta a chuva , que alagava os navios, enão havia poger-fe ac= cender murrão, nem cevar elpingarda, pe- lo que deixou o Governador de defembar- - Car; efobre a tarde chegou o recado, que O Vilo-Rey era já chegado a Cochim, que acabou de defconfiar o Governador daquel- la empreza. Com eítas novas, os mais dos Capitães tanto que anoiteceo deixáram o Go- ver- 220 ASIA pE Diogo DÉ Covro “vernador , e fe foram pera Cochim, fican- do elle com muito poucos. Vendo-fe elle aílim atalhado , não que rendo que Manoel de Soufa de Sepulveda ficafle fem fe lhe pagarem as muitas deípe- zas, que naquella jornada tinha feito á fia cufta, e dinheiro que tinha empreftado a El. Rey pera ellas, o mandou chamar, e jun- tamente ao Secretario, e T'hefoureiro, € fa- zendo diante delle conta do que lhe era de- vido, feacháram perto de feis mil pardos, que alli lhe mandou logo contar , e fazet fuas Provisões, e papeis correntes, porque fabia quão pouco coltumavam, os que fuc- cediam na governança, pagar as dividas que feu anteceflor tinha feitas, ainda que fejam em coufas tão importantes, e neceffarias, E todavia mandou que fe não deixafle a guar- da da Ilha de Bardela , encarregando-a a Ma- noel de Soufa de Sepulveda, até o Vifo-Rey determinar o que fe havia de fazer » deixan- do-fe elle alli ficar até lhe vir recado feu. DE. ni dae io TE Te a RS ia DS de SS AT SS Rr ei E sa CI toi LUI Ss ESTA po bode [6 pn DR q E Rea ae Je qe SM pr de a ARA à Se Copa ne apa aaa pd aut a Ha aa ae Pe a aa Per Ra 2a IR 8 DECADA SEXTA. EV ROO) seseà Da Hiftoria da India. GEATETLUOLREOC De como ElRey D. João o IH. mandou por Vifo-Rey da India D. Aifonfo de Noronha no anno de 1550: e do que lhe aconte- ceo na viagem até chegar a Cochim, Era Armada de Manoel de Mendoça , que da India partio em Janeiro de qua- renta e nove, foube ElRey da morte do Vifo-Rey D. João de Caftro, que fentio muito pela perda de tão bom vaífallo , CTE- cebeo mui bem a feu filho D. Alvaro de Caf- tro, que naquella Armada veio; mas toda- via os merecimentos de feu pai , e feus não luziram por então muito nelle, porque an- dou muitos tempos aggravado , fem lhe re- Iponderem, até que depois o defpacháram E com 222 ÁSIA DE Droco DE Covtro com menos do que merecia. Mas em tem- po de ElRey D. Sebaftião veio a fer Vea- dor da Fazenda do Reyno , e dos principaes do feu Confelho de Eftado, (de quem fe di- zia que lhe tinha dado Alvará pera feu Ca- mareiro mór, por ter partes , e qualidades pera iflo.) Sabendo ElRey que ficava no go- verno da India Garcia de Sá, que era mui to velho, determinou de prover a India, e elegeo pera iflo D. Affonfo de Noronha, fi lho do fegundo Marquez de Villa-Real Dom Fernando de Noronha, a quem deo o tity- lo de Vilfo-Rey , e lhe fez outras honras, e mercês. Pera efta jornada mandou ElRey ne- gociar fincó nãos, e pagar dous mil homens, A fama defta eleição: correo logo pelo Reyno , e acudiram à Corte' muitos Fidal- gos pera o acompanharem nella, a que El- Rey deípachou, e fez muitas mercês; e os que achâmos nomeados são eftes: D. Fernan- do de Menezes , filho do Vifo-Rey Dom Antão de Noronha, feu fobrinho, filho de feu irmão; D. Garcia, e D, Luiz Tello de | Menezes irmãos, filhos do Craveiro; Gon calo Pereira Marramaque , D. Filippe de Cafe tro, Gafpar de Mello de Sampaio, defpa- chado com a Capitanía de Goa; D. Marti- nhoRolim, D. Francifco Mafcarenhas o Pa- Sia aii A EA id XD Ta A Desa A Sd ma lha, D. Rodrigo Lobo, filho de D. Pedro | Lobo ; que faleceo nefta viagem ; D. a noe De Vditv. DEC Are o noel Mafcarenhas , Jeronymo Barreto Ro- lim, D. Francifco da Cofta, filho de D. Al- varo da Cofta; D. Antonio Pereira, filho de D. João Pereira; Filippe Carneiro, filho de Antonio Carneiro, irmão de Pero de Alca- cova ; D. Braz de Almeida o torto ; Pero da Silva de Menezes , filho de Manoel de Magalhães, Senhor da Nobrega; D. Affon- fo de Monroy, Francifco Lopes de Soufa, que tinha a Capitania de Maluco; D. Braz da Silva, Luiz de Soufa, filho do Chancel- ler mór do Reyno; João da Fonfeca, Man- teiro da Rainha, que levava o cargo de Veador da Fazenda da India; Simão Ferrei- ra, que hia por Secretario, e outros muitos . Fidalgos, e Cavalleiros. Preftes efta Armada fe embarcou o Vifo- Rey em Abril ; mas foram os tempos tão contrarios, que não pode fahir pera fóra to- do aquelle mez , e ao primeiro de Maio dan- do-lhe jazigo, fahíram pera fóra quatro nãos ; S. Pedro, em que hia o Vifo-Rey; Flor de la mar, de que era Capitão D. Diogo de Noronha o Corcoz;, irão de D. Fernão de Alvarez de Noronha, Capitão geral das ga- les de Portugal, e Sumilher que foi de Él- Rey D. Sebaftião; o galeão Bifeainho , de que era Capitão Lopo de Soufa; e a não Santa Anna, em que hia D, Jorge de Mene- zes o Baroche. A outra ndo, que era o ga- re leão 224 ASIA pE Droco DE CovTo leão S. João, de Diogo de Caftro do Rio, e hia por feu contrato, de que era Capitao D. Alvaro de Taíde da Gama, filho do Con- de Almirante , que deícubrio a India, que hia provido da Capitanta de Malaca , não pode fahir aquella maré , e mudando-fe o outro dia O vento , efperou até dezoito de Maio, em que fe fez à véla, tempo em que todos defconfiavam de ella poder paflar; por- que das nãos que partiram diante, arribáram (poucos dias depois delle partir ) o galeão Bifcainho , ea não Santa Anna. Mas efte Ca- pitão D. Alvaro de Vaíde da Gama-com partir tão tarde teve muito boa viagem , pot- que parece que aos defcendentes daquelle va- lorofo Capitão D. Vafco da Gama em cer- to modo reconhecem os mares, e os ventos alguma vaflallagem , e lhes tem acatamento ; nem fabemos que até eita hora em que ifto elcrevemos , aconteceíle nefta carreira da In- dia algum naufragio, ou perigo aos defcen- dentes defte valorofo Conde, paflando por ella todos os feus filhos, netos, e bifnetos. - Às nãos palláram quafi a hum mefmo tempo o Cabo de Boa Efperança, e Flor de la mar tomou logo derrota pera Moçambi- que ; por ir falta de agua, onde fe deixou ficar até Março , em que fe partio pera a India, como adiante diremos. O Vilo-Rey; e D. Alvaro de Taíde, fem fe verem, tor mas. ve Vlobiqi XaCapolo 207 -mátam a derrota por fóra da Ilha de São Lourenço, e pafláram muitos riícos, e tras balhos , com que lhes morreo alguma gente; e indo demandar a coíta da India em Outu- bro, deram-lhes.os Levantes de rofto, de feição, que foi o Vifo-Rey defcahir a Cei- ho, e D. Alvaro de Taide varou por fóra da Ilha , e foi tomar Pegú , onde fe refez “de agua, e mantimentos. O Vifo-Rey tan= to que vio terra, dife o Íeu-Piloto que era “da cofta da India; mas João Rebello de Li- ma, Piloto affamado que alli hia por paíla- geiro , dille que a terra que apparecia era Columbo , e Ceilão. O Piloto começou a porfiar que era a cota da India ; e eitando nefia contusão, chegou huma embarcação , edifle ao Vifo-Rey que a terra que appa- recia era Columbo: O Piloto -vendo aquil- lo, como era havido pelo melhor da car- teira, ficou-tão corrido , que fe metteo no leu camarote, e em tres“dias morreo de nojo. O Vilo-Rey mandou governar pera Co- lumbo, e furgio fóra.. Os da terra conhecen-= doa não fer do Reyno, foram logo a el- la alguns navios , que alli ficáram da com- panhia de D. Jorge de Caftro-; e fabendo der o Vifo-Rey, defpediram-logo recado: a Cota a ElRey , e a Gafpar de Azevedo ; Alcaide mór, que logo acudíram a Colum- bo; vindo ElRey muito bem acompanha- Conto Tom.III.P al, p do, 226 ASIA DE Drodo DE Cotvro do , que mandou vifitar o Vifo-Rey com muito refreíco , e algumas peças. O" Vifo- Rey foube de: Gafpar de Azevedo o fucce- dido havia pouco a D. Jorge de Cafiro , (cos mo diffemos no Cap. VI. do Liv. VII) e as guerras que o Madune fazia a feu ir mão ; e fabendo fer ElRey em Columbo, defembarcou-nos navios, e fe for a terra pera je ver com elle, indo acompanhado de tos dos os Fidalgos., e gente da fua náo; ere- colheo-fe emSanto Antonio, Mofteiro dos Frades Menores, onde ElRey fe foi vet com elle, paifando-fe de parte a parte grans des cumprimentos. - . | vi Alli lhe deo ElRey conta-de-fuas cous fas, e lhe pedio:, que pois era vaffallo de ElRey de Portugal, que ordenaffe-as cous fas de módo ; com que feguraffe aquelle Reys no de feu irmão: que otratava mal, ede fejava de-o matar. O Vifo-Rey lhe dife, que elle trazia io muito encarregado, eque a primeira -confa-em que puzefie as mãos, havia-de fer naquela; e a voltas diflo lhe pedio duzentos mil pardáos de empreftimo, de que fe ElRey efculou, dizendo-lhe, que eltava muito: deípezo por caufa das guerras; e que havia pouco gaftára mais de fetenta mil pardáos com: D. Jorge de Caftro. O Vie fo-Rey não-ficou muito contente ; e defpe dindo-fe delle, fe embarcou; e ElRey lhe ac “ cdeo Drc. VI Liv. IX. Carchk 22» deo pera mandar 4 Rainha naquellas nãos as peças feguintes. | Hum colar de ouro grande com perolas, e rubins , e tres cruzes de pedraria no pé com huma grande perola em baixo ; outro colar com rubins , hum no meio grande; ou- tro colar de ouro com alguns rubins, olhos de gato, e nomeio hum olho de gato gran- de com rubins á roda; tres braceletes de ou= ro, e pedraria; hum annel grande-com hum olho de gato, e rubins á roda; hum formo- fo olho de gato Íolto : o que tudo fe car- regou fobre o Feitor da Armada, e aquel- le anno foi pera o Reyno. O Vifo-Rey tam- bem levou feus brincos ; e antes de-dar à véla, fe foi ver comelle hum filho do Ma- dune, Rey de Ceitavaca , e o que paflou como Vifo-Rey: não fe fabe. Depois de o ouvir deo 4 véla pera Cochim. ElRey da Cota vendo como o Vifo-Rey fe apartára delle defgoitofo., deípedio nas luas coftas hum Bragmane Pandito com quin- ze mil pardáos , que lhe mandava de pre- fente. O Vifo-Rey chegou a Coulão, e al- li fouhe do ajuntamento dos Principes Ma- lavares em Bardela:, pelo que defpedio a= quella embarcação com as cartas que atrás diffemos no derradeiro Capitulo do oitav o livro. Ao outro dia depois da tempeftade , (por cuja caufa Jorge Cabral deixou de dar En na “228 ASIA pe Droco DE Covo ma Ilha,) fúrgio o Vifo-Rey na barra de - Cochim, e foi recebido em terra muito bem. dorge Cabral o mandou vifitar por D. Jor | ge de Caítro , feu tio meio irmão de fua mãi, e elle lhe pagou a vifita por hum Efcudei- To feu, por quem lhe mandou dizer , que fe fofle pera Cochim, e deixaile fobre a Tlha Manoel de Soufa de Sepulveda com-os ria vios de remo. O Governador aflim o fez Ré defembarcou em Cochim; e foi vifitar'o Vi fo-Rey , que o recebeo feccamente:; e alli “lhe fez entrega da India, e fe recolheo pe- ra jua cafa , mandando logo navios a Goa em: bulca de fua mulher pera fe embarcar pera o Reyno, correndo-[empre muito bem como Vilo-Rey; porque como fe não re- <eava; de coufa alguma; não quiz quebrar com elle, foffrendo-lhe algumas coulas, de que outros houveram “de lançar mão: pera queixas , (porque he mui ordinario em al- guns Governadores que acabam, quebrarem de induítria com os que lhe fuccedem, pe- ta lhes ficarem fufpeitos nas coufas que del- les elcreverem.) vo»: | : O Camorim tanto que foube da chega da do Vifo-Rey ; lhe mandou Embaixado- tes; que-tratáram com elle de pazes, que lhe elle concedeo; e não achámos com que fun- damentos, nem a fubftancia dellas. Sómen- tc nos dificram algumas pefloas , que ficou E | O Det VE Eags dk: CARO 229 o Camorim de defiltir do direito , e perfi- lhação que tinha feita com o Rey de Barde- la, e que daria dous-Principes em refens; até fe fahirem os que eftavam naquélla Ilha, que ficaria a ElRey de Cochim. Com ilfto mandou o Vifo-Rey recolher Maroel de Sou- fa de Sepulveda , e os Principes Malavares fo foram da Ilha, e o Camorim fe foi pe- ra Calecut. ERR O td D. Alvaro de Taide da Gama, Capitão do galeão S. João, que foi tomar Pegú, de- pois de tomar agua , e mantimentos, deo á | vela pera a India , e foi tomar a ponta de Cale, onde furgio , fendo entrada de No- vembro, e alli defembarcou em: terra pera curar os doentes, porque eftavam alli Por- tuguezes, e Frades de S. Francifco com hu=. ma cafinha pequena. Alli fe deteve todo o - mez de Novembro, fem lhe dar dos mui- tos. requerimentos que lhe fez Manoel de Caftro , procurador de Diogo de Caftro, cujo o galeão era. Paflado o mez fetornou a em- barcar , foi tomar Cochim a treze de De- zembro, e por não fer já tempo: pera o ga- leão ir pera o Reyno , e haver mifter con- certo, o mandou pera Goa, e fe recolheo em Goa a velha, onde invernon, e fecon= Certou. Seo CAs [Document text truncated for crawler view.]