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ODAM – A construção do moderno em Portugal: entre o universal e o singular

Figueiredo e Rosa, Edite Maria

Abstract

A ODAM explicita a inserção no espirito moderno de vertente universal e associativo, não apenas pela criação de um coletivo mas, pelo carácter abrangente do seu espaço de intervenção enquanto defensor de uma arquitetura moderna em Portugal. Desde o âmbito associativo, ao ensino, à prática profissional, até ao seu intercâmbio internacional, como testemunha a participação dos seus membros nos congressos CIAM a partir de 1951, o grupo ODAM afirma–se no debate à reivindicação dos ideais modernos em Portugal. Mas o mais significativo da produção moderna do grupo (manifestos, projetos, exposições coletivas e obras paradigmáticas) situa–se mais que no seu ideal, conforme aos grandes grupos de referência, à consciência do necessário ajuste à circunstância específica local, pobre e periférico, o que se traduziu em ensaios compartilhados, de mais–valia diferenciadora. Esta análise retrospetiva e crítica da ODAM enquanto parte do quadro mais alargado que caracteriza as “Arquitecturas em común” do moderno, para além de (re)afirmar o seu carácter universal, compreendido atualmente cada vez mais pelos seus discursos diversos, atesta a revisão crítica dos dogmas arquitetónicos modernos, presentes à data, nas arquiteturas do pós–guerra, emergentes no contexto europeu. De uma leitura, mais implícita que explicita, ressalta ainda a importância do debate, pensamentos e sobretudo da produção arquitetónica do grupo ODAM como génese da atual arquitetura portuense.

Full text

- ● EDITORIAL ● UN FUTURO COMÚN / A FUTURE IN COMMON. Juan José López de la Cruz ● ARTÍCULOS ● ¿EXISTE UN URBANISMO DEL GATCPAC SIN LE CORBUSIER? / CAN WE TALK ABOUT A GATCPAC URBANISM WITHOUT LE CORBUSIER’S INFLUENCE?. Roger Joan Sauquet Llonch ● ODAM – A CONSTRUÇÃO DO MODERNO EM PORTUGAL: ENTRE O UNIVERSAL E O SINGULAR / ODAM – THE CONSTRUCTION OF THE MODERN IN PORTUGAL: BETWEEN UNIVERSAL AND SINGULAR. Edite Maria Figueiredo e Rosa ● LA SILLA DEL GATEPAC: UN VIAJE COLECTIVO DE IDA Y VUELTA / THE GATEPAC CHAIR: A COLLECTIVE JOURNEY THERE AND BACK AGAIN. María Villanueva Fernández; Héctor García–Diego Villarías ● EL ESPACIO INTERMEDIO Y LOS ORÍGENES DEL TEAM X / The Space Between and the origins of Team X. Antonio Juárez Chicote; Fernando Rodríguez Ramírez ● PENSAMIENTOS COMPARTIDOS. ALDO VAN EYCK, EL GRUPO COBRA Y EL ARTE / SHARED THOUGHTS. ALDO VAN EYCK, THE COBRA GROUP, AND ART. Esther Mayoral Campa ● CLAUDE PARENT EN NUEVA FORMA: LA RECEPCIÓN DE ARCHITECTURE PRINCIPE EN ESPAÑA / CLAUDE PARENT AT NUEVA FORMA: THE READING OF ARCHITECTURE PRINCIPE IN SPAIN. Lucía C. Pérez Moreno ● CONSTRUYENDO UNA UTOPIE AUTRE [AMAZING ARCHIGRAM! – 50 AÑOS DE ZOOM!/ ZZZZRRTT!/ THUD!/ BLAAM!] / BUILDING A UTOPIE AUTRE [AMAZING ARCHIGRAM! – 50 YEARS OF ZOOM!/ ZZZZRRTT!/ THUD!/ BLAAM!]. Luis Miguel Lus Arana ● TAN CERCA, TAN LEJOS: ALDO ROSSI Y EL GRUPO 2C. ARQUITECTURA, IDEOLOGÍA Y DISIDENCIAS EN LA BARCELONA DE LOS 70 / SO CLOSE, SO FAR: ALDO ROSSI AND THE 2C GROUP. ARCHITECTURE, IDEOLOGY AND DISSENTS IN THE BARCELONA OF THE 70S. Carolina Beatriz García Estévez ● RESEÑAS BIBLIOGRÁFICAS ● G. ASPLUND, W. GAHN, S. MARKELIUS, G. PAULSSON, E. SUNDAHL, U. ÅHRÉN: ACCEPTERA. Pablo López Santana 11 PUBLICACIONES DE LA UNIVERSIDAD DE SEVILLA AÑO 2014. ISSN 2171–6897 – ISSNe 2173–1616 / DOI http://dx.doi.org/10.12795/ppa REVISTA PROYECTOPROGRESOARQUITECTURA AÑO V arquitecturas en común 20 14 N11 G I HUM-632 UNIVERSIDAD DE SEVILLA ARQUITECTURAS EN COMÚN 11 PROYECTO, PROGRESO, ARQUITECTURA. N11, NOVIEMBRE 2014 (AÑO V) arquitecturas en común editorial UN FUTURO COMÚN / A FUTURE IN COMMON Juan José López de la Cruz 12 artículos ¿EXISTE UN URBANISMO DEL GATCPAC SIN LE CORBUSIER? / CAN WE TALK ABOUT A GATCPAC URBANISM WITHOUT LE CORBUSIER’S INFLUENCE? Roger Joan Sauquet Llonch – (DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.01) 16 ODAM – A CONSTRUÇÃO DO MODERNO EM PORTUGAL: ENTRE O UNIVERSAL E O SINGULAR / ODAM – THE CONSTRUCTION OF THE MODERN IN PORTUGAL: BETWEEN UNIVERSAL AND SINGULAR Edite Maria Figueiredo e Rosa – (DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.02) 26 LA SILLA DEL GATEPAC: UN VIAJE COLECTIVO DE IDA Y VUELTA / THE GATEPAC CHAIR: A COLLECTIVE JOURNEY THERE AND BACK AGAIN María Villanueva Fernández; Héctor García–Diego Villarías. – (DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.03) 40 EL ESPACIO INTERMEDIO Y LOS ORÍGENES DEL TEAM X / THE SPACE BETWEEN AND THE ORIGINS OF TEAM X Antonio Juárez Chicote; Fernando Rodríguez Ramírez – (DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.04) 52 PENSAMIENTOS COMPARTIDOS. ALDO VAN EYCK, EL GRUPO COBRA Y EL ARTE / SHARED THOUGHTS. ALDO VAN EYCK, THE COBRA GROUP, AND ART Esther Mayoral Campa – (DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.05) 64 CLAUDE PARENT EN NUEVA FORMA: LA RECEPCIÓN DE ARCHITECTURE PRINCIPE EN ESPAÑA / CLAUDE PARENT AT NUEVA FORMA: THE READING OF ARCHITECTURE PRINCIPE IN SPAIN Lucía C. Pérez Moreno – (DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.06) 76 CONSTRUYENDO UNA UTOPIE AUTRE [AMAZING ARCHIGRAM! – 50 AÑOS DE ZOOM!/ ZZZZRRTT!/ THUD!/ BLAAM!] / BUILDING A UTOPIE AUTRE [AMAZING ARCHIGRAM! – 50 YEARS OF ZOOM!/ ZZZZRRTT!/ THUD!/ BLAAM!] Luis Miguel Lus Arana – (DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.07) 90 TAN CERCA, TAN LEJOS: ALDO ROSSI Y EL GRUPO 2C. ARQUITECTURA, IDEOLOGÍA Y DISIDENCIAS EN LA BARCELONA DE LOS 70 / SO CLOSE, SO FAR: ALDO ROSSI AND THE 2C GROUP. ARCHITECTURE, IDEOLOGY AND DISSENTS IN THE BARCELONA OF THE 70S Carolina Beatriz García Estévez – (DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.08) 104 reseña bibliográfica TEXTOS VIVOS G. ASPLUND, W. GAHN, S. MARKELIUS, G. PAULSSON, E. SUNDAHL, U. ÅHRÉN: ACCEPTERA Pablo López Santana 120 índice 27 PROYECTO, PROGRESO, ARQUITECTURA 26 N11_ ARQUITECTURAS EN COMÚN E. FIGUEIREDO: “ODAM - A construção do moderno em Portugal: entre o universal e o singular”. Proyecto, Progreso, Arquitectura. Noviembre 2014. Universidad de Sevilla. ISSN 2171–6897 / ISSNe 2173–1616 DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.02 E. FIGUEIREDO: “ODAM - A construção do moderno em Portugal: entre o universal e o singular”. N11 “Arquitecturas en común”. Noviembre 2014. Universidad de Sevilla. ISSN 2171–6897 / ISSNe 2173–1616 DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.02 APRESENTAÇÃO AO COLETIVO ODAM No âmbito do tema “Arquitecturas em común”, este artigo que se apresenta, pretende dar a conhecer a arquitetura de um coletivo nascido a partir dos ideais das vanguardas modernas mas periférico aos grandes centros de difusão, o grupo portuense ODAM, sigla utilizada com dupla leitura, Organização Dos Arquitectos Modernos ou Organização em Defesa de uma Arquitectura Moderna. Nesta apresentação, argumenta-se que a produção do grupo (manifestos, exposições, projetos e obras paradigmáticas) explica, não só, a afinidade com os seus grupos de referência mas o entendimento do seu conteúdo específico. Facto que se reconhece na seleção de referências da ODAM muito centrada nos CIAM liderados por Le Corbusier, ou nos exemplos de expansão latina (Grupo 7, GATEPAC, Escola Moderna Brasileira, etc.) como mais adiante se explicará. Em Portugal o Estado Novo teve, até ao pós-guerra, o efeito de atrasar a modernização do País, aspeto que configuraria a especificidade ao grupo ODAM. Por um lado, a necessária atualização a uma civilização universal ODAM – A CONSTRUÇÃO DO MODERNO EM PORTUGAL: ENTRE O UNIVERSAL E O SINGULAR ODAM – THE CONSTRUCTION OF THE MODERN IN PORTUGAL: BETWEEN UNIVERSAL AND SINGULAR Edite Maria Figueiredo e Rosa RESUMEN A ODAM explicita a inserção no espirito moderno de vertente universal e associativo, não apenas pela criação de um coletivo mas, pelo carácter abrangente do seu espaço de intervenção enquanto defensor de uma arquitetura moderna em Portugal. Desde o âmbito associativo, ao ensino, à prática profissional, até ao seu intercâmbio internacional, como testemunha a participação dos seus membros nos congressos CIAM a partir de 1951, o grupo ODAM afirma–se no debate à reivindicação dos ideais modernos em Portugal. Mas o mais significativo da produção moderna do grupo (manifestos, projetos, exposições coletivas e obras paradigmáticas) situa–se mais que no seu ideal, conforme aos grandes grupos de referência, à consciência do necessário ajuste à circunstância específica local, pobre e periférico, o que se traduziu em ensaios compartilhados, de mais–valia diferenciadora. Esta análise retrospetiva e crítica da ODAM enquanto parte do quadro mais alargado que caracteriza as “Arquitecturas em común” do moderno, para além de (re)afirmar o seu carácter universal, compreendido atualmente cada vez mais pelos seus discursos diversos, atesta a revisão crítica dos dogmas arquitetónicos modernos, presentes à data, nas arquiteturas do pós–guerra, emergentes no contexto europeu. De uma leitura, mais implícita que explicita, ressalta ainda a importância do debate, pensamentos e sobretudo da produção arquitetónica do grupo ODAM como génese da atual arquitetura portuense. PALABRAS CLAVE ODAM, Movimento Moderno, CIAM, Arquitetura Portuense. SUMMARY ODAM makes clear the insertion in a modern spirit with a universal and associative face, not only by creating a collective, but for the wide character of its intervention space while advocate of a modern architecture in Portugal. From the associative scope, the teaching, the professional practice to its international exchange, as witnesses the participation of its members in CIAM congresses since 1951, ODAM group makes its statement through debating the counterclaiming of modern ideals in Portugal. However, the most meaningful of this group modern production (manifestos, projects, collective exhibitions and paradigmatic works) is placed more than in its ideal, as per to the great reference groups, in the awareness to the adjustment of the local specific circumstance, poor and peripheral, which acknowledged shared essays of unique added value. This retrospective analysis and critique of ODAM, while part of the wider picture that characterizes the “Arquitecturas en común” of the modern, besides (re)stating its original universal character, in our days comprehended more and more by its diverse speeches, vouches the critical revision of the modern architectural dogmas, at the time, present in the post–war architectures emerging in the European context. Of a more implicit than explicit reading, stands out the importance of debates, thoughts and most of all of ODAM’s architectural production as genesis of today’s Oporto architecture. KEY WORDS ODAM; Modern Movement, CIAM, Oporto Architecture Persona de contacto/Corresponding autor: edit[email protected]. Universidade Lusófona do Porto – FCAATI Nmoderna assentaria para o grupo na obrigatória atenção aos parcos recursos locais, por outro, o despertar tardio do espírito moderno em Portugal terá colocado estes arquitetos no real conhecimento dos ideais modernos quase em simultâneo com o problematizar dos seus dogmas no contexto internacional. O breve período, no pós-guerra, de consciência da queda de regimes totalitários na Europa corresponde a uma momentânea procura da liberdade de expressão no País com todos os sectores culturais e intelectuais a criticar o quadro de crise social, cultural e económico vigente. Surgem, assim, a nível nacional duas organizações ligadas ao debate artístico, como refere Ana Tostões1, o ICAT e a ODAM. O ICAT (Iniciativas Culturais Artes e Técnicas), fundado em Lisboa, em 1946, é constituído por arquitetos e artistas e a ODAM, no Porto, fundado em 1947, constituído apenas por arquitetos e estudantes oriundos da Escola de Belas Artes do Porto (EBAP). O grupo ODAM2 juntou, assim, 36 arquitetos ligados à EBAP empenhados na renovação disciplinar da Arquitetura e constituiu-se como um momento de viragem na produção arquitetónica em Portugal3 (figura 1). 1. Membros da ODAM. Fotografia de alguns elementos do grupo na abertura da Exposição no Ateneu Comercial do Porto a 14 de Junho de 1951. 1 Proyecto, Progreso, Arquitectura. N11 “Arquitecturas en común”. Noviembre 2014. Universidad de Sevilla. ISSN 2171–6897 / ISSNe 2173–1616 / 21–02–2014 recepción–aceptación 12–09–2014. DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.02 1. Tostões, Ana: Os Verdes anos da arquitectura portuguesa dos anos 50. Porto: FAUP publicações, 1994. 2. Barbosa, Cassiano (Comp.): ODAM: Organização dos Arquitectos Modernos do Porto, 1947-1952. Porto: Edições ASA, 1972. 3. Rosa, Edite. ODAM: Valores modernos e a confrontação com a realidade produtiva. Director: Teresa Rovira LLobera. UPC, Departamento de Proyectos Arquitectónicos - ETSAB, 2006. Consórcio de Bibliotecas da Catalunha, TDX, 2010. ISBN 9788469312476. 29 PROYECTO, PROGRESO, ARQUITECTURA 28 N11_ ARQUITECTURAS EN COMÚN E. FIGUEIREDO: “ODAM - A construção do moderno em Portugal: entre o universal e o singular”. Proyecto, Progreso, Arquitectura. Noviembre 2014. Universidad de Sevilla. ISSN 2171–6897 / ISSNe 2173–1616 DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.02 E. FIGUEIREDO: “ODAM - A construção do moderno em Portugal: entre o universal e o singular”. N11 “Arquitecturas en común”. Noviembre 2014. Universidad de Sevilla. ISSN 2171–6897 / ISSNe 2173–1616 DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.02 O grupo, constituído por personalidades muito heterogéneas do ponto de vista político, cultural e geracional, tem a justificar o entendimento comum, pela falta generalizada de liberdade e de autonomia disciplinar, pelo seu posicionamento moderno e ainda pela aprendizagem inerente à formação académica da EBAP, centro organizador de tertúlias vincadas entre a escola e a prática profissional promovidas pelos mestres e seus ateliers. O grupo ODAM agregará três gerações escolares sucessivas de profissionais, professores e estudantes de arquitetura. A primeira geração, formada entre 1935 e 1940, constituída pelas figuras tutelares, arquitetos que exerciam plenamente a sua atividade profissional, como Arménio Losa, Cassiano Barbosa, Artur de Andrade, Viana de Lima e Delfim Amorim. A segunda, formada entre 1940 e 1945, constituída pelos grandes impulsionadores do grupo, arquitetos recém-formados, a maior parte exercendo sem o CODA4 (Concurso para a obtenção do Diploma de Arquitecto) e alguns dos novos professores da EBAP. A terceira geração, formada entre 1945 e 1950, constituída pelos membros estudantes, futuros protagonistas da expansão do moderno, nos anos 50, no território português. O CARÁCTER ASSOCIATIVO E O PAPEL SOCIAL DO ARQUITETO As propostas da ODAM criticam e acentuam o posicionamento retrógrado do regime, assente em arquétipos de carácter imagético e iconográfico de estilos passados, monumentais ou regionalistas5. Problemática antecipada em 1945, por um futuro membro do ODAM, Fernando Távora, no texto “O Problema da Casa Portuguesa”6, assumindo-se como a primeira posição pública contra as interpretações viciadas do regime e do denominado português suave, propondo o seu debate através de uma atualização a valores arquitetónicos modernos. A consciência de que a breve experiência modernista dos anos 20, em Portugal, tinha falhado nos seus princípios pela obscura conivência com o poder, apesar de se terem produzido algumas obras de reconhecido interesse formal (ex: Instituto Superior Técnico, 1925-37, de Pardal Monteiro)7, levou a que o grupo retomassem, como ponto de partida, o exemplo heroico do movimento moderno. Efetivamente no pós-guerra, o grupo reconheceu um padrão de condições socioeconómicas em Portugal, semelhantes às da Europa na alvorada das vanguardas modernas identificando-se com os seus ideais. A ODAM assenta, assim, numa visão de utopia social identificada com as premissas ideológicas das vanguardas modernas e numa vontade patente de fazer a reinterpretação da linguagem funcional e igualitária centro europeia dos anos 20 e 30 (ex: as experiências propostas pelo GATEPAC e a casa BLOC, ou as diversas siedlungen, etc.). A ODAM integrará, deste modo, um projeto universalista que, apostado nos novos conhecimentos científicos e tecnológicos, em prol de condições dignas de habitar para todos, imbuía a arquitetura de uma atitude democrática, atribuindo um novo papel social ao arquiteto, operando um salto qualitativo no discurso arquitetónico. O caracter associativo da ODAM revela-se nas suas múltiplas atividades, na participação no Sindicato Nacional dos Arquitectos, da Secção Distrital do Norte, na Revista Arquitectura, na formação escolar, em eventos nacionais e como veremos na participação em eventos internacionais. AS MÚLTIPLAS VALÊNCIAS DA ODAM A importância nacional da ODAM é reafirmada através da visita dos arquitetos de Lisboa ao Porto em 1947, publicada na Revista Arquitectura designada como “Inspirada lição de arquitectura contemporânea”8, atestando o carácter inovador das suas obras. Este intercâmbio profissional será decisivo para um acontecimento importante, “(…) a intervenção da ODAM como elemento aglutinador da vontade dos Arquitectos do Norte no sentido da realização do 1º Congresso Nacional de Arquitectura, efetuado em Lisboa em 1948”9. Congresso que por sua vez incentivou os arquitetos do grupo a afirmar por escrito os seus ideais, tendo apresentado treze teses individuais e uma tese coletiva onde abordam questões inerentes à construção no país, desde as políticas habitacionais, aos meios que intervêm no processo de construção e execução, à industrialização, estandardização, promoção de novos materiais e inclusive à definição de estratégias de formação dos novos arquitetos. Do encontro no Porto a Comissão Executiva traz notícia de que os arquitetos dessa cidade terão em preparação doze teses. No final serão catorze com exceção da tese “Onde se fala da Arquitectura no plano nacional e do problema português da habitação – 5000 casas de habitação no Porto – O Instituto Português da Habitação” a única assinada no Congresso coletivamente. Tese distribuída pelos próprios no Congresso, por isso, não incluída no livro de conclusões, sintetiza críticas à situação em vigor e aponta respostas ao problema da habitação10. São ainda reivindicadas as transferências da prática de uma arquitetura moderna à exigência de um ensino moderno, por parte dos membros da ODAM, notória, “(…) na expectativa de uma iminente saída da regulamentação, o diretor Joaquim Lopes e o professor Carlos Ramos, decidem iniciar a implementação da Reforma oficiosamente, convidando assistentes para a cadeira de Arquitetura e criando o Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo. Com este objetivo são convidados, sem contrato, um conjunto de arquitectos que vinham promovendo uma actividade associativa, cultural e ideológica através da ODAM: Mário Bonito, José Loureiro, Fernando Távora e Delfim Amorim, este último substituído em 1951 por Agostinho Ricca. O grupo de assistentes, coordenado por Carlos Ramos, revoluciona as disciplinas do Curso Especial, abandonando os estudos analíticos e os projectos realizados de acordo com os princípios clássicos da Arquitectura”11. A importância nacional da ODAM é posteriormente reafirmada internacionalmente pela participação de elementos do grupo na criação do grupo CIAM-Portugal formado em 1951, “Viana de Lima desloca-se a Hoddesdon com Fernando Távora e, na reunião do Conselho do CIAM realizada no dia 11 de Julho, em 1951, fica formalizada a constituição do grupo CIAM-Portugal”12, com a posterior participação em grupos de trabalho em 1952 e no CIAM X em 1956, bem como outras participações como por exemplo, o VI Congresso Luso-Espanhol de Urbanismo y de la Vivienda, em 1951 e nas proposta de membros do ODAM para o Troisième Congrès de l’Union Internationale des Architectes, (UIA) em 195313. A atividade da ODAM divulgada no Congresso de 1948, é reafirmada intensamente na exposição e ciclo de conferências realizada no Ateneu Comercial do Porto, em 16 de Junho 1951, apogeu da consciência crítica sobre a importância da arquitetura moderna na construção de uma nova sociedade portuguesa. O uso de um excer- to de um texto do MoMA de 1937 “Os nossos edifícios são diferentes do passado porque vivemos num Mundo Diferente”14 leit-motif da abertura da exposição do grupo, no Ateneu Comercial do Porto reflete, a adesão à visão internacional que se identifica com as premissas 4. CODA. Concurso para a Obtenção do Diploma de Arquitecto, exame final do curso. 5. Fernandez, Sérgio: Percurso: Arquitectura portuguesa 1930/1974. Porto: FAUP publicações, 1985. 6. Távora, Fernando, “O Problema da Casa Portuguesa”. ALÉO (Semanário). Novembro 1945. Porto: s.e.. 1945. Posteriormente ampliado para 16 páginas, nos Cadernos de Arquitectura 1947. Porto: s.e. 1947., dado o interesse que despertou na classe. 7. Almeida, Pedro Vieira de: A arquitectura do estado novo, uma leitura crítica. Lisboa: Horizonte, 2002. 8. “Intercâmbio Profissional”. Em Arquitectura. Revista de Arte e Construção, 2.ª série, ano XXII. Janeiro 1948, Nº 19. Lisboa: s.e.. 1948. p. 5. 9. Barbosa, Cassiano (Comp): op. cit., supra nota 2, p. 16. 10. Afonso, João: “A ODAM, no Debate da Profissão”. Textos produzidos no âmbito do Colóquio ‘ODAM, Colectivo e Singular’, dia 18 de Junho de 2011, no Ateneu Comercial do Porto. Inserida na iniciativa ‘ODAM, 60 anos depois | Evocação da Exposição de 1951’, organizada pela OASRN, comissariada por Edite Rosa. 11. Moniz, Gonçalo: “O Ensino Moderno da Arquitetura”. Textos produzidos no âmbito do Colóquio ‘ODAM, Colectivo e Singular’, dia 18 de Junho de 2011, no Ateneu Comercial do Porto. Inserida na iniciativa ‘ODAM, 60 anos depois | Evocação da Exposição de 1951’, organizada pela OASRN, comissariada por Edite Rosa. 12. Mota, Nelson: “Da ODAM para os CIAM: Diálogos entre a Civilização Universal e a Cultura Local”. Textos produzidos no âmbito do Colóquio ‘ODAM, Colectivo e Singular’, dia 18 de Junho de 2011, no Ateneu Comercial do Porto. Inserida na iniciativa ‘ODAM, 60 anos depois | Evocação da Exposição de 1951’, organizada pela OASRN, comissariada por Edite Rosa. 13. Andresen, João: “Besoins d’une Famille en Matière de Logement”. Em UIA, Troisième Congrès de l’Union Internationale des Architectes – Rapport Final. Lisboa: Librairie Portugal, 1953. pp. 313-319. 14. Barbosa, Cassiano (Comp.): op. cit., supra nota 2, p. 134. 31 PROYECTO, PROGRESO, ARQUITECTURA 30 N11_ ARQUITECTURAS EN COMÚN E. FIGUEIREDO: “ODAM - A construção do moderno em Portugal: entre o universal e o singular”. Proyecto, Progreso, Arquitectura. Noviembre 2014. Universidad de Sevilla. ISSN 2171–6897 / ISSNe 2173–1616 DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.02 E. FIGUEIREDO: “ODAM - A construção do moderno em Portugal: entre o universal e o singular”. N11 “Arquitecturas en común”. Noviembre 2014. Universidad de Sevilla. ISSN 2171–6897 / ISSNe 2173–1616 DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.02 propostas pelos primeiros CIAM, liderados por Le Corbusier, nos seus escritos e na Carta de Atenas e a sua aplicação à arquitetura portuguesa. A adoção de uma metodologia na ODAM de divulgação da arquitetura moderna, à semelhança das vanguardas arquitetónicas, através de manifestos coletivos, atividades públicas, escritos, desenhos e experiências projetivas, a promover o debate e o conhecimento arquitetónico, são laborados no incentivo de ampliar o espaço experimental, social, tecnológico e formal da arquitetura, tal como se expressa nos seus princípios escritos: “A Organização Dos Arquitectos Modernos (ODAM) tem como objectivo divulgar os princípios em que deve assentar a Arquitectura Moderna, procurando afirmar através da própria obra dos seus componentes como deve ser formada a consciência profissional e como criar o necessário entendimento entre os arquitectos e demais técnicos e artistas. Assim, a ODAM procura divulgar a Arquitectura Moderna através de exposições, conferências, publicações, etc. As bases sobre as quais assenta o seu labor profissional são: - Contribuir para a valorização do indivíduo e da sociedade portuguesa. Estimular os técnicos e os leigos, arquitectos formados ou em formação, engenheiros e construtores, no sentido de um eficiente e efectivo labor em prol do progresso do País; - Obstar que o amadorismo agressivo, perigoso e desonesto, alastre e lance a arquitectura no caos”15. OS ESCRITOS DA ODAM Efetivamente as teses da ODAM, reapresentadas na exposição de 1951 promovem um discurso de uma arquitetura para massas que exigiam uma matriz maquinista num país fortemente rural. Um discurso revolucionário de ideologia moderna, correspondente a um otimismo socialista que se apoia em escritos modelares como: Quand les Cathédrales étaient blanches, de 1937, Les trois établissements humaines, texto do ASCORAL (Assemblée de Constructeurs pour une Rénovation Architecturale) de 1945, La maison des hommes, ou ainda À propos de l’humanisme, textos sobretudo decorrentes da produção de Le Corbusier. No entanto, com menor incidência e protagonismo, são também dados a conhecer as ideias e os modos de atuação de outros mestres da época como Gropius, Mies, Breuer e inclusivamente o jovem Aalto revelando da parte destes arquitetos, uma atualidade arquitetónica num meio de fracos recursos comunicativos com o exterior. Os textos, escritos pelos membros da ODAM, apresentam, três níveis de aproximação. O primeiro conjunto defende um modo de atuação assente num discurso cultural em que se procura, a definição filosófica da arquitetura moderna. Escritos de Vital Lobão, Oliveira Martins, Delfim Amorim e Mário Bonito, invocam uma cultura arquitetónica abrangente e diversificada e a urgência de um estudo da arquitetura moderna circunstanciado às necessidades reais do país. Apela-se à inovação técnica e material mas, simultaneamente, ao conhecimento da realidade produtiva portuguesa, no uso dos recursos disponíveis. Introduz-se por esta via uma indecisão entre a modernidade e a tradição intrínseca ao grupo. No perseguimento desta ideia, outro elemento da ODAM, Matos Veloso enuncia princípios de metodologia projetual de atuação comum ao grupo assentes na razão como única forma possível de ultrapassar esta problemática dicotómica16. O segundo conjunto de textos, mais dirigidos à defesa de soluções desenhadas, de Viana de Lima, Arménio Losa e Matos Veloso, testemunham a vontade generalizada do uso universal da Carta de Atenas, na apologia expressa da forma radiosa das cidades, do desenho da cidade linear industrial e da estética da arquitetura maquinista do espírito novo, mas revelam, no entanto, uma sensibilidade contextual à sua aplicabilidade17. O terceiro conjunto de texto, de Arménio Losa e Mário Bonito, clamam pelo progresso do país pelo incentivo às áreas produtivas e fabris e aos meios que interferem nos processos de construção, num apelo à indústria que é tomada pela execução e promoção de novos materiais e processos de estandardização18. A partir da produção teórica, do conjunto de escritos, dos membros do grupo e da sua prática projetual, nomeadamente nos seus projetos paradigmáticos, alguns expostos na exposição de 1951, emerge a construção da forma moderna, da ODAM que se distingue sinteticamente em três momentos de aprendizagem dos fundamentos modernos19. NOVO ESPÍRITO E IMAGÉTICA TRADICIONALISTA Até à formação do grupo, em 1947, predomina uma pré-forma moderna que se caracteriza pelo uso, em simultâneo de citações tradicionalistas e do novo espírito. A dicotomia entre as formas de compor modernas e a cultura produtiva da tradição será intrínseca à génese arquitetónica da ODAM e paradigmaticamente expressa nos dois projetos diferentes, um em materiais tradicionais e outro em materiais novos, no CODA de Delfim Amorim, em 1947 (figura 2). Indica um início em que os membros da ODAM irão testar imagens e soluções funcionais nas quais está patente a vontade de fazer a seleção dos modelos modernos exteriores, mas comprometida à realidade do meio em que intervêm. A heterogeneidade é o denominador comum nas referências e modelos utilizados por estes arquitetos, que se repercutem em obras privilegiando a racionalidade dos esquemas funcionais mas num compromisso simultâneo com a representatividade ideológica do regime e os materiais tradicionais como, na obra do Edifício da Carvalhosa, de Arménio Losa e Cassiano Barbosa (figura 3). Poderemos resumir, neste início, uma preferência a modelos importados próximos ao moderno italiano, do Grupo 7, embora a maior parte das vezes se constituam mais pela formalização da expressão dos artefactos a pesar mais do que os seus conteúdos modernos. A dialética discursiva da ODAM, entre a apologia do novo versus velho avançará para a importação seletiva dos modelos internacionais ajustados à realidade social e produtiva local. Uma “metodologia da razão universal”20, pela aproximação ao universo corbusiano que corrige a aleatoriedade compositiva da eclética formação académica, num discurso simultâneo de renovação dos modelos do moderno e da verdade da arquitetura tradicional, como contraponto à arquitetura pseudo-tradicionalista do regime. A especificidade intrínseca à génese arquitetónica da ODAM será, deste modo, visível no desfasamento entre o atraso técnico e social do país, refletida na produção do grupo, numa dicotomia relativamente à adoção estética entre as formas de compor modernas e as dos valores permanentes da cultura produtiva tradicional. 2. Amorim, Delfim, CODA “A minha casa”, 1947, Por- to, Portugal. 3. Losa, Arménio e Barbosa, Cassiano, “Edifício da Carvalhosa”, 1946, Porto, Portugal. 2 3 15. Ibid, p. 19. 16. Vital, António Lobão: “A casa, o homem e a arquitectura”. pp. 33-47; Martins, Luís José de Oliveira: “A Arquitectura de hoje e as suas relações com o urbanismo”. pp. 81-96 e “De alguns factores que intervêm na limitação do desenvolvimento progressivo da arquitectura e do urbanismo”. pp. 75-79 e Veloso, António: “Habitação rural e urbanismo”. pp. 49-56. Em Barbosa, Cassiano (Comp.): op. cit., supra nota 2. 17. Lima, Viana de: “O problema português da habitação”. Em Barbosa, Cassiano (Comp.): op. cit., supra nota 2, pp. 25-31. 18. Losa, Arménio: “Indústria e construção”. pp. 71-74; Bonito, Mário: “Regionalismo e tradição”. pp. 97-107 e “Tarefas do arquitecto”. pp. 109-118. Em Barbosa, Cassiano (Comp.): op. cit., supra nota 2. 19. Rosa, Edite: op. cit., supra nota 3. 20. Vital, António Lobão: op. cit., supra nota 16, pp. 33-47. 33 PROYECTO, PROGRESO, ARQUITECTURA 32 N11_ ARQUITECTURAS EN COMÚN E. FIGUEIREDO: “ODAM - A construção do moderno em Portugal: entre o universal e o singular”. Proyecto, Progreso, Arquitectura. Noviembre 2014. Universidad de Sevilla. ISSN 2171–6897 / ISSNe 2173–1616 DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.02 E. FIGUEIREDO: “ODAM - A construção do moderno em Portugal: entre o universal e o singular”. N11 “Arquitecturas en común”. Noviembre 2014. Universidad de Sevilla. ISSN 2171–6897 / ISSNe 2173–1616 DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.02 APOGEU DO MANIFESTO MODERNO O período de 1947 a 1952 corresponde à produção mais integral e uniforme do manifesto comum. Época de maior intensidade de atividade com trabalhos de divulgação de carácter conceptual, que atinge o seu auge de radicalização moderna no ano de 1950 numa enfatização da expressividade das novas técnicas e materiais como a estética ideal a conseguir por todos os arquitetos da ODAM. A “habitação nova do espírito da civilização maquinista”21 como descreve Viana de Lima, põe o acento projetual na continuidade dos objetivos universais de racionalização, estandardização, clara organização funcional, procura do domínio (da linguagem) absoluto das tecnologias avançadas, na enfatização da expressividade da imagem do novo (materiais, técnicas, etc.) em detrimento da tradição. Para esta fisionomia moderna a ODAM selecionará o betão armado como novo material de eleição. Esta seleção fundamenta-se em vários motivos, como a ausência de outras indústrias de produção (como o aço ou a madeira), por ser um material parcialmente utilizado na edificação corrente e próximo da construção monolítica convencional e por influência dos estudos experimentais do LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil) das grandes infraestruturas em curso. Mas, o motivo principal referencia-se à expressão da máquina de habitar que remete a conteúdos mais plásticos do que estritamente técnicos. A seleção da estética purista justifica-se, assim para a ODAM por, apesar de propagandear o betão armado como motivador da sua forma, a sua expressão ser independente da técnica identificativa do novo material construtivo. A componente mecanicista de discurso internacional será, assim, mediada a partir da proposta de Le Corbusier, onde o novo universo tecnológico está incorporado na manifestação arquitetónica mas não constitui a sua finalidade última. No entanto, esta morfologia abstrata, aplicada ao novo sistema e material é sujeita pela ODAM a uma expressividade matérica densificada, alicerçadas nos temas da “Unidade, Função, Estrutura e Forma”, de formação clássica da EBAP e transcritos para os cinco pontos da ODAM, conforme escrito por Oliveira Martins.22 Confere-se uma tenção à espessura da forma moderna da ODAM, mais real que o imaterial objeto arquitetónico purista em que se enfatiza a expressividade da imagem das novas técnicas e materiais, como se reconhece no exemplo paradigmático do CODA de Oliveira Martins, de 1950 (figura 4). O desejo de renovação expresso nas obras da ODAM verifica-se, assim, mais do que no determinismo técnico ou na estandardização total, em pressupostos de racionalização, numa repetição modular do espaço de intervenção e em novas pesquisas programáticas, quer à escala do objeto, quer à escala da cidade. Na escala do objeto, a diferenciação da ODAM dos modelos do centro europeu, sobretudo após as exposições de 1951 e 1952, destaca-se no geral nas obras do grupo por formas menos rígidas, maior variedade de materiais, menos estritamente funcionalista, mais libertas e na procura de desenho integrador de boa artesania, como se verifica no Edifício de Costa Cabral, de Viana de Lima (figura 5), mas continuam intrinsecamente de matriz universalista baseadas na estruturação modular, simplicidade morfológica de espaço único, livre, fluído e pensado desde o interior. A morfologia final é caracterizada por uma maior adaptabilidade ao meio com os motivos e as ideias culturais do local, por vezes, inspirando-se formalmente na exuberância e criatividade de adaptação metamorfoseada da arquitetura moderna brasileira. Evidencia-se o repertório moderno pela expressão diferenciadora do programa e o acrescento de valências arquitetónicas substantivas, numa apologia a imagem tecnicamente avançada e uma preferência, de muitos elementos do grupo, por uma estética fabril. Estética industrial, no entanto, produzida engenhosamente através do uso de elementos rudimentares, maioritariamente artesanais (os ripados, os quebra-luz em venezianas de madeira, etc.) utilizados repetidamente, em texturas formais complexas, num claro domínio do léxico corbusiano, com um elevado nível técnico de execução como na fachada do Edifício de Ceuta de Arménio Losa e Cassiano Barbosa, (figura 6). Os estudos de proteção solar realizados nos vãos da fachada Sul que permitiram posicionar corretamente a pala e a dimensão do caixilho juntamente com os balanços da varanda em grelha, parecem contar numa só fachada a evolução dos elementos tipo corbusianos, desde as palas, à lógia, ao brise-soleil, num sistema de desenho integrado. Esta nova conceção assenta, num cuidado não especificamente no novo material, ou em tecnologia inovadora, mas sobretudo da forma que resulta da sua aplicação. O apuramento do detalhe figura-se como elemento revelador da coerência estética do todo, entre ideia e a sua materialidade, e fundamental para a expressão plástica do projeto. A obsessão pela correta artesania do porme- nor constitui-se como uma constante da ODAM levando à procura do desenho total moderno em todas as escalas de projeto. Na escala da cidade apreendida numa preocupação de sol, espaço e verdura, a estratégia da ODAM assenta na substituição da Cidade jardim de desígnio rural imposta pelo regime, pela Cidade Parque da urbanidade para todos23. No entendimento da organização populacional espontânea do território nacional, ao longo das vias principais, estes arquitetos selecionam a estruturação da cidade funcional linear, assente num zooning programático e de crescimento ilimitado de modo a resolver todos os problemas relativos à forte expressão de ruralidade do país e também os congestionamentos da cidade industrial portuense. Propõem a introdução no país da urbanidade da cidade máquina, dando primazia ao automóvel e organizando-a segundo as 5 categorias de urbanidade 4. Martins, Oliveira, CODA, “Habitação para uma família de classe média”, 1950, Porto. 5. Viana de Lima, Alfredo, Edifício de Costa Cabral, 1953, Porto, Portugal. 6. Losa, Arménio e Barbosa, Cassiano, Edifício de Ceuta, 1950, Porto, Portugal. 4 56 21. Lima, Viana de: op. cit., supra nota 17, pp. 25-31. 22. Martins, Luís José de Oliveira: op. cit., supra nota 16, pp. 81-96. 23. Rosa, Edite: op. cit., supra nota 3. 35 PROYECTO, PROGRESO, ARQUITECTURA 34 N11_ ARQUITECTURAS EN COMÚN E. FIGUEIREDO: “ODAM - A construção do moderno em Portugal: entre o universal e o singular”. Proyecto, Progreso, Arquitectura. Noviembre 2014. Universidad de Sevilla. ISSN 2171–6897 / ISSNe 2173–1616 DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.02 E. FIGUEIREDO: “ODAM - A construção do moderno em Portugal: entre o universal e o singular”. N11 “Arquitecturas en común”. Noviembre 2014. Universidad de Sevilla. ISSN 2171–6897 / ISSNe 2173–1616 DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.02 principais: Moradia, Lazer, Trabalho, Transporte e Edifícios Históricos, mas com os prazeres das condições naturais e higienistas de um Parque total. A planificação territorial para o grupo apoia-se, assim, como se confirma nos seus discursos, na formalização da Cidade Radiosa e dos Três estabelecimentos humanos de Le Corbusier. A lógica de defesa dos princípios enunciados na Carta de Atenas que apelam aos modelos da urbanística moderna, no que se refere, quer à orientação solar, quer ao uso do espaço livre, são reconhecíveis nos esquissos e desenho de projeto do Edifício de Costa Cabral (figu– ra 5).No entanto, a dificuldade de intervenção no território circunstanciará a intervenção urbana da ODAM ao bloco autónomo de habitação coletiva, quer enquanto unidade modular, construtora da cidade densificada da metrópole moderna, quer enquanto protótipo experimental condensador social, particularmente em novas formas de alojamentos de unidade habitacional. Representativo deste espírito coletivista de vivência moderna, o programa de carácter social no Edifício do Ouro de Mário Bonito, figura-se numa primeira leitura como objeto urbano que aproveita as capacidades técnicas e plásticas do novo sistema construtivo (o betão), na construção da habitação social coletiva para os funcionários da empresa Ouro. Mas, a resolução do piso de contacto com a rua, reivindica, em simultâneo, as mais-valias do bloco autónomo da Cidade Moderna de mãos-dadas com as pré-existências urbanas oitocentistas (figura 7). Esta pesquisa tipo-programático-morfológica de condensador social será visível igualmente no Edifício da Praça D. Afonso V, de Pereira da Costa, (figuras 8 e 9) ou no, já referido, Edifício de Costa Cabral. Este último não procura a sua vanguarda pela inovação tipológica do fogo, mas na agregação das várias tipologias diferenciadas numa morfologia de regra moderna, paradoxalmente, com critérios de desenho de princípios classicistas, uma aspiração de desenho, de uniformidade moderna e de composição clássica, na qual reside a ambiguidade e mais-valia deste projeto. Configura-se, em síntese, este período formal ideologicamente inspirado em Le Corbusier do Esprit Nouveau e na urbanística da Carta de Atenas numa adesão à difusão moderna internacional, maioritariamente pela aproximação formal à arquitetura brasileira e minoritariamente à arquitetura americana de Breuer ou Neutra. 7. Bonito, Mário e Pimentel, Rui, Edifício do Ouro, 1951, Porto, Portugal. 8. Costa, Pereira, Edifício da Praça D. Afonso V, 1953, Porto, Portugal. 9. A tipologia em duplex do Edifício da Praça D. Afonso V, 1953, Porto, Portugal 10. Andersen, João, Casa Lino Gaspar, 1956, Cascais, Portugal. 7 8 9 10 A LIÇÃO MODERNA NA ACEITAÇÃO DE UMA IDENTIDADE A partir de 2ª exposição do ODAM em Aveiro, em 1952, inicia-se um período de aceitação e vivência da identidade singular portuense onde transparece uma autonomia na confiança da experiência moderna adquirida. À pureza abstrata da forma associa-se a identidade local mais humanizada e a procura de valências anteriormente relegadas, a memória e o instinto. Os arquitetos pertencentes à ODAM põem, agora, em prática uma utopia do possível, onde “a uma arquitetura global que, independentemente da situação e do contexto, se resolvesse com pressupostos estéticos universalistas, assente numa visão transformadora de um homem ideal se procura agora responder simplesmente às necessidades e ânsias do homem comum”24. A partir dos anteriores valores universais, científicos e mensuráveis, interpretados com uma visão crítica (não mensurável) reminiscente nas aprendizagens escolares, da boa arte de construir, atribui-se um novo valor à memória, à história e ao cuidado na inserção da envolvente existente, permitindo-se o uso do novo ou do velho material. Mantendo a linguagem dependente da expressividade dos novos materiais, surge, no entanto, uma nova premissa, a cobertura plana e as superfícies brancas como limitadoras das possibilidades criadoras do arquiteto. Aparecem formas mais expressivas, trabalhando sobretudo a envolvente do edifício e em especial as coberturas. A sua culminação serão os grandes conjuntos de edifícios baseados em formas mais expressivas ou tectónicas em betão armado, como constitui o exemplo do projeto para as Instalações balneares, ou da casa Lino Gaspar de João Andresen (figura 10). 24. Rosa, Edite: op. cit., supra nota 3, p. 262. 37 PROYECTO, PROGRESO, ARQUITECTURA 36 N11_ ARQUITECTURAS EN COMÚN E. FIGUEIREDO: “ODAM - A construção do moderno em Portugal: entre o universal e o singular”. Proyecto, Progreso, Arquitectura. Noviembre 2014. Universidad de Sevilla. ISSN 2171–6897 / ISSNe 2173–1616 DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.02 E. FIGUEIREDO: “ODAM - A construção do moderno em Portugal: entre o universal e o singular”. N11 “Arquitecturas en común”. Noviembre 2014. Universidad de Sevilla. ISSN 2171–6897 / ISSNe 2173–1616 DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.02 Diferentemente da eleição de 1950 enfatizada apenas na expressividade da nova técnica e do novo material, a ODAM aposta, agora, na nova herança moderna através da resolução do conflito existente na correlação de opostos entre o carácter moderno e o tradicional. Procuram recuperar as permanências e não apenas o novo (material, técnico, usos, etc.) como dados humanizadores e a introdução de novos repertórios formais (orgânicos e locais) que colocam a arquitetura em harmonia com a vida real. Enfatizando tanto as aprendizagens modernas como as escolares terão a tendência para uma visão mais cuidada do contexto e aspirações do utente comum, como expressarão no trabalho apresentado no CIAM X. Será pertinente reforçar que este conflito dicotómico da ODAM coincide no contexto internacional do pósguerra ao congresso CIAM em que emergia uma nova geração crítica das utopias desenvolvidas no período entre guerras, mais interessada em centralizar o debate, na realidade do quotidiano. A aceitação progressiva da consciência individual das condições e do contexto regional da produção arquitetónica e a participação do grupo nas problemáticas das estruturas do habitat humano, propostos no CIAM X em Dubrovnik, em1956, onde representantes da ODAM apresentam o seu trabalho sobre uma comunidade rural, prenunciará um processo futuro que inverte a centralidade do debate para a singularidade específica do meio cultural (figuras 11 e 12). No contexto da cidade surge, nas propostas da ODAM, uma nova problemática identificável na maneira de articular de modo flexível e aberto os novos objetos propostos com o edificado envolvente, como se pode verificar na formalização do Edifício Parnaso, de José Loureiro. As razões compositivas, num rigor conceptual racionalista, são de autonomia formal relativamente ao local mas, através da sua fragmentação, aproximam-se à ordem urbana tradicional (morfologicamente e programaticamente) (figuras 13 e 14). Este retorno ao uso do velho far-se-á através da reinterpretação não estilista da tradição, estudando as suas razões funcionais, técnicas, vivenciais, climatéricas, culturais, no recurso às verdadeiras necessidades de cada projeto específico numa combinação da aprendizagem de razão moderna introduzida em inovação compositiva. Salienta-se que a nova preferência pelos materiais e sistemas construtivos locais será formalmente neutralizada pelos ensinamentos modernos, o que configurará à expressividade dos materiais tradicionais uma plástica moderna, transição que será paradigmática sintetizada na Casa de Ofir, de Fernando Távora (figura 15). CONCLUSÃO A ODAM, atenta às experiências arquitetónicas em curso na reconstrução europeia e à revisão dos dogmas arquitetónicos modernos presentes nas arquiteturas emergentes orienta-se progressivamente, da reivindicação de critérios modernos uniformes ao desenvolvimento da diversidade e, simultaneamente, de uma visão global e mais axiomática a uma ótica estritamente profissional e futuramente mais individual. Deste modo, a produção arquitetónica da ODAM manifesta não a traição ao espírito moderno, ao tentar copiar-lhe (inicialmente) a solução em versão portuguesa, mas revela, com mais proeminência, a própria crise da arquitetura moderna europeia. A partir do debate arquitetónico instaurado pela ODAM começase a resolver esta crise, conjuntamente com a atualização arquitetónica na (re)invenção de um moderno mais orgânico, mais diversificado e mais empenhado no conteúdo e significado do construído. 11. CIAM X, Groupe CIAM Porto – Habitat Rural, Nouvelle Communaute Agricole, Painel 2. 12. CIAM X, Groupe CIAM Porto – Habitat Rural, Nouvelle Communaute Agricole, Painel 3. 13. Loureiro, José Carlos, Edifício Parnaso, esquisso, 1954, Porto, Portugal. 14. Loureiro, José Carlos, Edifício Parnaso, 1954, Porto, Portugal. 11 12 13 14 39 PROYECTO, PROGRESO, ARQUITECTURA 38 N11_ ARQUITECTURAS EN COMÚN E. FIGUEIREDO: “ODAM - A construção do moderno em Portugal: entre o universal e o singular”. Proyecto, Progreso, Arquitectura. Noviembre 2014. Universidad de Sevilla. ISSN 2171–6897 / ISSNe 2173–1616 DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.02 E. FIGUEIREDO: “ODAM - A construção do moderno em Portugal: entre o universal e o singular”. N11 “Arquitecturas en común”. Noviembre 2014. Universidad de Sevilla. ISSN 2171–6897 / ISSNe 2173–1616 DOI: http://dx.doi.org/10.12795/ppa.2014.i11.02 Edite Maria Figueiredo e Rosa (Oliveira do Bairro, 1964) é arquitecta pela Universidade do Porto (FAUP, 1991), DEA pela Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Barcelona (ETSAB, 2000). Doutora em Arquitectura pela UPC, com a tese “Odam: Valores Moderno e a confrontação com a realidade produtiva” (ETSAB, 2006). Entre outros prémios e distinções, foi-lhe concedida uma bolsa de investigação de doutoramento (Fundação para a Ciência e Tecnologia, 2000-2004). Publicações em jornais, revistas e livros da especialidade; conferências e seminários em diversas universidades e instituições: Seoul, Helsínquia, Barcelona, Valência, Santiago de Compostela, Pamplona, Coimbra e Porto. Professora na Universidade Lusíada (1994-2012). Professora Associada da Universidade Lusófona do Porto, FCAATI (desde 2012). Investigadora I&D do CITAD, (2007-2011), de CEAU-FAUP (desde 2010) e LABART (desde 2011). Colabora com Álvaro Siza, como coordenadora de projectos e obras, públicas e privadas (desde 1991). Co-fundadora do escritório de arquitectura, erja arquitectos (1997). Bibliografía: ALÉO (Semanário). Novembro 1945. Porto: s.e.. 1945. Almeida, Pedro Vieira de: A arquitectura do estado novo, uma leitura crítica. Lisboa: Horizonte, 2002. Arquitectura: Revista Arte e Construção, 2.ª série, ano XX. N.º 19 Lisboa: s.e., 1947-1960. Barbosa, Cassiano (Com.): ODAM: Organização dos Arquitectos Modernos do Porto, 1947-1952. Porto: Edições ASA, 1972. Edite Rosa (comissária): ODAM, 60 anos depois | Evocação da Exposição de 1951. Porto: Organização OASRN 2011. Fernandez, Sérgio: Percurso: Arquitectura portuguesa 1930/1974. Porto: FAUP publicações, 1985. Rosa, Edite. ODAM: Valores modernos e a confrontação com a realidade produtiva. Director: Teresa Rovira LLobera. UPC, Departamento de Proyectos Arquitectónicos - ETSAB, 2006. Consórcio de Bibliotecas da Catalunha, TDX, 2010. ISBN 9788469312476. Tostões, Ana: Os Verdes anos da arquitectura portuguesa dos anos 50. Porto: FAUP publicações, 1994. Union Internationale des Architectes (UIA): Troisième Congrès de l’Union International des Architectes – Rapport Final. Lisboa: Librairie Portugal, 1953. Num panorama muito diversificado de razões, o mais importante para a leitura da produção arquitetónica do grupo, seus objetivos, ideias e resultados, ressalta a vontade de ajustar um novo conteúdo formal arquitetónico a realidades diversas. Pode-se caracterizar a construção da forma moderna, da ODAM, como uma arquitetura de aparente resistência à inovação, por circunstância e formação, mas que integra as valências da racionalidade moderna na obtenção de efeitos eficazes, geridos por uma instrumentalização rigorosa na procura de uma funcionalidade ajustada a vivências específicas. A nova consciência da ODAM de que o moderno não é um estilo mas um novo modo de atuação e conceção da forma arquitetónica correspondente a uma nova necessidade, da circunstância da própria cultura local, terá óbvias consequências na metodologia de projeto deste grupo, no entendimento da articulação entre os aspetos expressivos, representativos e ontológicos da profissão e ajudará a estabelecer o verdadeiro padrão de diferença no pensamento destes arquitetos. Contrariamente ao que se passava no resto da europa a arquitetura produzida pela ODAM era menos dependente das novas conceções teóricas, incluindo as de representação e menos apoiada na indústria e novos materiais, pelo que, o recurso às maneiras tradicionais do fazer, imbuídas de uma razão moderna interpretativa reflete-se no controle expressivo e preciso do desenho do projeto como componente formal de conteúdos. Este novo método de conceber e pensar o projeto resulta simultaneamente da dicotomia entre a realidade rural do País e a reivindicação de uma cultura urbana de metrópole que incute o carácter humanizado da ODAM na maquinização moderna, repercutindo-se num conteúdo disciplinar de plástica moderna (técnica e ciência), apoiada pela, tradição humanista (da verdade, moralidade e da essência) reminiscente da formação de Belas Artes. A característica de resistência à rutura, da ODAM não deixa que o vetor racionalidade governe isoladamente aliando-se ao humanismo. O racional e o humano tornam-se indissociáveis, procurando em simultâneo o universal e a condição singular no contexto de atuação. Este processo que se funda na ODAM, assentou na síntese metodológica, numa maneira de conceber o projeto que se apoia, no controlo dos conteúdos espaciais modernos e na aprendizagem da EBAP, nos seus instrumentos de trabalho e ensino e caracterizará uma didática futura. O desenho como processo metodológico pesquisador de conteúdos, até ao seu esgotamento, aplicado à dissecação quase obsessiva do projeto constitui uma característica que se poderá reconhecer como resiliente na prática da arquitetura portuguesa contemporânea. 15. Távora, Fernando, Casa de Ofir, esquisso e alçado, 1956, Ofir, Portugal. 15