scieee Open visual document viewer

Da doutrina do interesse bem compreendido n’A Democracia na América

Nicolete, Roberta K. Soromenho

Abstract

Frágil é, segundo Alexis de Tocqueville, o equilíbrio em que se encontra a liberdade em um estado social de igualdade de condições. Tomados pela sua maior paixão, a da igualdade, os homens democráticos podem assistir a conversão da liberdade em despotismo ao se entregarem à busca exclusiva de seus interesses e bens privados, ao abdicarem da faculdade de julgar, deixandose guiar servilmente pela opinião da maioria, a fonte da autoridade em tal estado social. Em face disso, este artigo sustenta que, ao discorrer acerca dos costumes estadunidenses, n’A Democracia na América, o autor não faz mera descrição mas delineia uma teoria social, a doutrina do interesse bem compreendido, a qual relacionaria, na república americana, a virtude e o interesse, e poderia fornecer elementos para instruir as sociedades democráticas.

Full text

A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 Da dou ina do in e esse bem comp eendido n’A Democ acia na Amé ica1 The Doc ine o In e es P ope ly Unde s ood in Democ acy in Ame ica Robe a K. So omenho Nicole e2 Uni e sidade de São Paulo (B asil) Recibido: 06-08-18 Ap obado: 10-05-19 Resumo F ágil é, segundo Alexis de Tocque ille, o equilíb io em que se encon a a libe dade em um es ado social de igualdade de condições. Tomados pela sua maio paixão, a da igualdade, os homens democ á icos podem assis i a con e são da libe dade em despo ismo ao se en ega em à busca exclusi a de seus in e esses e bens p i ados, ao abdica em da aculdade de julga , deixando- se guia se ilmen e pela opinião da maio ia, a on e da au o idade em al es ado social. Em ace disso, es e a igo sus en a que, ao disco e ace ca dos cos umes es adunidenses, n’A Democ acia na Amé ica, o au o não az me a desc ição mas delineia uma eo ia social, a dou ina do in e esse bem comp eendido, a qual elaciona ia, na epública ame icana, a i ude e o in e esse, e pode ia o nece elemen os pa a ins ui as sociedades democ á icas. Pala as-cha e: libe dade, i ude, in e esse, in e esse bem comp eendido, A Democ acia na Amé ica, Tocque ille. 1 Ag adeço aos p o esso es Eunice Os ensky e Ma celo Jasmin pelas lei u as e a An onio He mosa, Ma ia Luisa Rod iguez e Ne e Basabe pela gene osidade. O p esen e a igo consis e em e são expandida de uma comunicação sob e o mesmo ema ap esen ada no IV Seminá io Discen e da Ciência Polí ica da USP, em 2014. T a a-se ainda de e são modi icada do Capí ulo 2, do li o Quando a polí ica caminha na escu idão – In e esse e i ude n’A Democ acia na Amé ica de Tocque ille, (Nicole e 2018: 69-119). Es e abalho oi apoiado pela Fundação de Ampa o à Pesquisa do Es ado de São Paulo (FAPESP p ocesso 2010/02307-8). 2 ([email p o ec ed]) Pós-dou o anda no Depa amen o de Filoso ia da Uni e sidade de São Paulo (USP-B asil). Dou o a (2017) pelo P og ama de Pós-G aduação em Ciência Polí ica (USP) e pela École des Hau es É udes en Sciences Sociales (EHESS-F ança). Mes a (2013) em Ciência Polí ica (USP). Au o a de Quando a polí ica caminha na escu idão – In e esse e i ude n’A Democ acia na Amé ica de Tocque ille. São Paulo: Ed. Alameda, 2018 e de “Ca ecismo do cidadão - cons i ucionalismo e sobe ania popula em Guillaume de Saige”. Re is a B asilei a de Ciências Sociais – RBCS (101) 2019, no p elo. 450 Robe a K. So omenho Nicole e A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 Abs ac Acco ding o Alexis de Tocque ille, in he s a e o equali y o condi ions libe y is unde se ious h ea . The passion o equali y, which is he i s and mos in ense passion o a democ a ic people, may p omp hem o exchange libe y o despo ism, in so a as hey a e willing o su ende hemsel es en i ely o he sea ch o ma e ial goods and sel -in e es , and o esign hei powe o judgmen o he sake o he opinion o he majo i y, which is he eal sou ce o au ho i y in such a social s a e. Taking his agile balance be ween libe y and equali y in o accoun , his pape aims he conside a ion o Ame ican cus oms which allows Tocque ille o pos ula e a social heo y (no a desc ip ion o his socie y), he doc ine o in e es p ope ly unde s ood, which may link analy ically i ue and in e es and ins uc democ a ic socie ies. Key-wo ds: Libe y, Vi ue, In e es , in e es p ope ly unde s ood, Democ acy in Ame ica, Tocque ille. Pa a o p o esso Sé gio Ca doso In odução “O in e esse, aí es á o seg edo [...] O in e esse que no mais se p oduz os ensi amen e e se anuncia como uma eo ia social [...] E a República é pa a isso o melho dos go e nos”. (Ca a de Tocque ille a Chab ol)3 Em uma ca a en iada a E ns Chab ol, em 9 de Junho de 1831, Alexis de Tocque ille indaga median e qual a i ício se elaciona iam homens ão di e en es en e si e ciosos dos seus in e esses quan o os es adunidenses obse ados em sua iagem à Amé ica. Na pena ocque illeana, a p oposição que se e de espos a à especulação clássica ace ca do undamen o mo al pa a a ação polí ica en e os homens mobiliza a linguagem polí ica dos in e esses e da i ude4. 3 No o iginal: “Qui se de lien à des élémen s si di e s? Qui ai de ou cela un peuple? L’in é ê , c’es là le sec e [...]”. A adução é de esponsabilidade da au o a, quando as edições não es i e em mencionadas. 4 Nesse aspec o, es amos de aco do com Lucien Jaume, a quem Tocque ille e a he dei o do g upo de Coppe , em especial, Benjamin Cons an , ao p i ilegia os in e esses e o jogo cons i ucional, em oposição aos libe ais dou iná ios, mais bem ep esen ados na igu a de F ançois Guizo , seu p o esso . Embo a não es eja no escopo des e a igo compa a Tocque ille com Cons an ou com os dou iná ios, pois há ampla bibliog a ia sob e isso, é p eciso menciona que o deba e sob e o luga 451 Da dou ina do in e esse bem comp eendido n’A Democ acia na Amé ica A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 A a i mação do au o (“o in e esse, aí es á o seg edo) suge e que o in e esse não apenas esponde ia pela associação en e os homens em uma sociedade democ á ica, cuja ca ac e ís ica p incipal é o indi idualismo e o sen imen o de apequenamen o em meio a mul idão (Tocque ille 2004: 138; TII, P2, c6)5, mas que o in e esse se anuncia ia “como uma eo ia social”. Com e ei o, o au o admi e o in e esse como elemen o cons i u i o das epúblicas mode nas sem inculá-lo, de imedia o, à sua co upção6. De ano ações espa sas e imp essões pa ilhadas em suas co espondências, o ema do in e esse eapa ece em dois capí ulos da ob a mais conhecida do au o , A Democ acia na Amé ica [1835-1840]. Acos umados com o juízo elogioso que Tocque ille ende eça aos homens da No a Ingla e a, omados po in enso desejo ma e ial, dados à in eja e ao egoísmo, no mesmo ins an e em que zelam pelo in e esse comum, causa inquie ação aos lei o es a seguin e o mulação, a ce a al u a d’A Democ acia: “essa gen e c ê segui a dou ina do in e esse, mas só em dela uma ideia g ossei a e, pa a zela melho pelo que chamam seus negócios, negligenciam o p incipal, que é pe manece donos de si mesmos” (Tocque ille 2004: 172; TII, P2, c14). A “gen e”, a qual o ancês se e e e no exce o, segui ia ce a dou ina do in e esse, não osse ela desconside ada pelo au o como me a ideia g ossei a e de u pada. De u pada, pois eme e à busca de bem-es a e segu ança ma e ial sem a en a pa a o “domínio de si”7. O a, es a íamos dian e de um impasse na in e p e ação do capí ulo 14 d’A Democ acia (“Como, nos ame icanos, o gos o pelas uições ma e iais se une ao amo à libe dade e à p eocupação com os negócios públicos”): udo le a a c e que a “gen e” e e ida no exce o se ia o po o es adunidense. En e an o, como a a gumen ação na sequência dos capí ulos que a am da dou ina do in e esse e do indi idualismo nas sociedades democ á icas indica, a paixão pelo bem-es a não p i a a os ame icanos da libe dade, po que, en e eles, o in e esse e a bem comp eendido (bien en endu). É possí el sai desse impasse na in e p e ação, se no a mos dos in e esses em uma sociedade pós- e olucioná ia é incon o ná el em ambos os g upos, ainda que as consequências e apos as polí icas sejam in ei amen e dis in as. Ve : Jaume 1997 e Meuwly 2002. 5 Pa a acili a a localização das ci ações, is o que são di e sas as edições da ob a disponí eis, odas as ci ações da A Democ acia na Amé ica são especi icadas po omo (T), pa e (P) e capí ulo (c). 6 Lemb emos que, pa a Mon esquieu, a i ude é o p incípio das Repúblicas (Mon esquieu LIII cap. 3). 7 Ou as passagens d´A Democ acia (2004) pode iam sus en a a cen alidade que a ideia de independência, como domínio de si, possui na composição da noção de libe dade ocque illeana: “[...] é di ícil pa a o cidadão ecebe de o a sua eg a. Esse gos o e esse uso da independência o seguem nos conselhos nacionais [...]” (Tocque ille 2004: 105; TII, P1, c21). A nossa in e p e ação é co obo ada po Jean-Fabien Spi z, segundo o qual “(...) nesse sen ido, ele [Tocque ille] é a ado à manu enção da ideia de que a independência em elação à dominação é o núcleo do concei o de libe dade” (Spi z 1995: 484), e Reis: “a ideia ocque illeana de libe dade supõe a independência indi idual, em p imei o luga ” (Reis 2010: 84). Jasmin ambém des aca a au ode e minação como o sen ido in ínseco da noção de libe dade (Jasmin 2005: 239). 452 Robe a K. So omenho Nicole e A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 que o au o ope a um deslocamen o do pon o obse ado, a Amé ica, e amplia o alcance de suas análises. Tal ampliação se ia ma cada po e iden e up u a, po b usca gene alização, na seguin e sen ença, a qual inicia um no o momen o na a gumen ação do capí ulo: “De a o, há uma passagem pe igosíssima na ida dos po os democ á icos” (Tocque ille 2004: 172 g i os nossos). A in e p e ação sus en ada nes e a igo é a de que es e no o momen o na a gumen ação do au o é aquele no qual o ancês abo da as implicações das uições ma e iais e dos in e esses pa a a ida polí ica dos “po os democ á icos” em ge al – e não apenas da sociedade es adunidense. A gumen amos que pa e da es a égia e ó ica de Tocque ille consis ia em ins ui as sociedades democ á icas – em pa icula , a F ança – eco endo às suas análises nas e as do ou o lado do A lân ico. Fundem-se, nesse momen o da ob a, aspec os desc i i os e p esc i i os pa a a democ acia. Ao discu i a dou ina do in e esse bem comp eendido, en e ou as acepções do e mo in e esse, o au o o na não apenas indissociá eis mas complemen a es o in e esse e o no o es ado social de igualdade de condições. Po essa azão, sus en amos que o deslocamen o da desc ição de um caso pa icula , a sociedade es adunidense, pa a as democ acias en endidas de modo mais ge al e abs a o (Benoî 2013: 337) é um mo imen o e ó ico que pe mi iu a Tocque ille incula uma dou ina mo al ele ada e ampa ada na enúncia de si às sociedades a is oc á icas e, com isso, ab i a sua in es igação sob e a i ude possí el nas epúblicas mode nas, a as ando- se ao mesmo empo do u ili a ismo anglo-saxão e da i ude na acepção de Mon esquieu (Schlei e 2000: 294). Com e ei o, o a gumen o desen ol ido nes e a igo comp eende um es o ço, na p imei a seção, de ecusa de sen idos usuais do e mo “in e esse”, median e o qual inse imos Tocque ille em um deba e mais amplo ace ca de dou inas mo ais do in e esse, a pa i das ês acepções do e mo po ele mesmo esboçadas nas no as de p epa ação pa a A Democ acia. Indicadas as objeções de Tocque ille a ais dou inas, o emp ego da exp essão adje i a “bem comp eendido” pa ece á menos o ui o bem como o sen ido usual da pala a in e esse, na acepção de “espe a de an agens ou de ganhos”, se á a as ado. Na segunda seção, nos deb uçamos sob e a dou ina do in e esse bem comp eendido (l’in é ê bien en endu), en a izando nela ce a elação en e a i ude e o in e esse. Esses e mos são con as an es em mui as ob as do pensamen o polí ico, azão pela qual examinamos duas in e p e ações opos as, a de Ma in Ze e baum e Roge Boesche, os quais ei e am a lei u a da dou ina em cha e excessi amen e pola izada en e o in e esse ou a i ude. A gumen amos que, na pena de Tocque ille, a i ude do homem democ á ico se calca sob e o seu in e esse (Meuwly 2002: 208). Mais do que isso, as linguagens da i ude e do in e esse es ão a iculadas na dou ina do in e esse bem comp eendido. A esse espei o, não cabe eco e apenas à ob a publicada mas é decisi o o es udo 453 Da dou ina do in e esse bem comp eendido n’A Democ acia na Amé ica A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 das no as de p epa ação, nas quais o au o a i ma “p ecisa da Amé ica” pa a p o a que “nas épocas democ á icas, a i ude e o in e esse es ão em aco do” (Tocque ille 2010: 920 no a g). O a o de se di igi a uma sociedade democ á ica é condição necessá ia do es abelecimen o dessa dou ina, a qual se apa a do esquecimen o de si, i ude a is oc á ica, e adqui e aços de u ilidade. Ap oximado, no mais das ezes, do u ili a ismo de Ben ham ou do libe alismo de Cons an , Tocque ille a amen e oi in e p e ado median e a menção que ele az de passagem a Mon aigne – em a a ap esen ação das suas on es. A sequência do a igo segue a senda da i onia con ida na e e ência ao au o dos Ensaios, indicando como Tocque ille se ap oxima e se a as a da ideologia ancesa da on ade ge al. A in e p e ação sus en ada, nes a seção do a igo, é a de que a acepção de i ude con ida na dou ina do in e esse bem comp eendido é o elemen o undamen al da al e ação de sen ido p e endida nas linguagens da i ude e do in e esse, pe mi indo- nos, a nós, lei o es con empo âneos, omá-la não apenas como uma ca ego ia ocque illeana desc i i a, mas como uma eo ia social com elemen os, em pa e, no ma i os pa a as sociedades democ á icas. 1. Dou inas do In e esse Na economia ex ual d’A Democ acia na Amé ica, a comp eensão da noção de in e esse e, especi icamen e, do concei o “in e esse bem comp eendido” (“l’in é ê bien en endu”) apenas se comple a quando pe co emos oda a Pa e II, do Tomo II [1840], bem como as no as de p epa ação da ob a, pois a exposição da dou ina o igina-se na discussão ace ca do indi idualismo nas sociedades democ á icas. Os comen ado es da ob a, de modo ge al, se concen am sob e a ca ac e ização do indi idualismo nas sociedades de igualdade de condições e, po se a ada di e amen e em apenas dois capí ulos, a dou ina do in e esse bem comp eendido é ida po ema secundá io no a gumen o ge al da ob a8. En e an o, um pe cu so mais amplo nos pe mi e ecolhe di e sos elemen os e idenciando a inse ção do in e esse bem comp eendido em uma discussão mais ge al ace ca de dou inas mo ais. Isso po que, uma das p io idades en e os con empo âneos a Tocque ille, en e inais do século XVIII e início do XIX, e a jus amen e a de pensa o modo pelo qual de e iam se elacionados os indi íduos em uma sociedade que não mais conhecia laços ixos e imu á eis 8 Ainda que apenas em dois capí ulos a dou ina do in e esse seja abo dada, não se a a de um ema meno - e é isso que jus i ica sua cen alidade nes e a igo. Analisá-la pode nos le a a comp eende o undamen o mo al da ação polí ica dos homens no es ado social que subs i ui a o dem a is oc á ica. Pa a Pie e Manen , aliás, o a o de dois capí ulos d’A Democ acia ap esen a em como ema cen al jus amen e a dou ina sinaliza ia a impo ância do obje o no a gumen o do au o (Manen 1993: 167). A esse espei o e ambém: Meuwly 2002: 207-210. 454 Robe a K. So omenho Nicole e A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 de pe encimen o e que ampouco o e ecia um undamen o incon es á el pa a a composição da au o idade polí ica. O abismo e a a imagem amplamen e emp egada no pe íodo e azia e e ência não apenas à ú ia dos e en os e olucioná ios, mas à desconce an e passagem do An igo egime pa a o no o es ado social iguali á io. Desse modo, a ideia de que os in e esses dos indi íduos es ei a iam odos no pu o egoísmo e o na ia os homens indi e en es aos demais, p oduzindo uma o dem polí ica ma cada pelos in e esses indi iduais, pa ecia se disseminada em dis in os discu sos polí icos. Po ém, o idealismo de uma ida i uosa não ha ia sido comple amen e sup imido, de modo que o complexo diálogo en e os in e esses e as i udes pe du ou nes e pe íodo (c . A mi age 2009: 10). Tocque ille busca o na al elação indissociá el no in e io da sociedade democ á ica, a ibuindo ce o sen ido a um e mo polissêmico e dispu ado no pe íodo: o in e esse9. O indício mais con unden e de que, ao analisa a dou ina do in e esse, Tocque ille mi a a, em pa e, a composição de um deba e sob e dou inas mo ais é ex ual e se encon a em um agmen o dos ascunhos d´A Democ acia10. Nesse agmen o, Tocque ille explici a que o obje i o do capí ulo e a “es abelece dis inções en e as di e en es dou inas do in e esse” (Tocque ille 2010: 923, no a n). A pa i disso, o au o esboça ês dou inas que, em compa ação, o e ecem o sen ido de uma qua a, a dou ina do in e esse bem comp eendido. O nosso obje i o nes a seção é expo al esboço, inse indo os comen á ios de Tocque ille em um deba e mais ge al sob e dou inas do in e esse. 9 “La doc ine de l’in é ê bien en endu - qui co espond, pa na u e, le plus exac emen possible à la démoc a ie - es une ep ise des idées des Lumiè es pa le p agma isme des Amé icains. Les g ands hommes de la é olu ion amé icaine [...] on mis en é idence l’idée que le bien commun e le bien indi iduel son complémen ai es e non pas an agonis es” (Benoî 2013: 345). 10 Cabe essal a que Adam Smi h, em Teo ia dos Sen imen os Mo ais (Pa e 7, Seção 2), ao sis ema iza di e en es na u ezas da i ude, as eduz a ês classes (a bene olência, a p udência e a con eniência), di idindo os a e os humanos em “egoís as” ou “bene olen es”. Não emos p o as ma e iais, nem mesmo nos ascunhos d’A Democ acia, que nos pe mi a in e i que Tocque ille – quem a amen e e ela suas on es – es i esse em diálogo com o escocês ao esboça as dou inas do in e esse, embo a conhecesse a ob a de Smi h. Pode se a i mado, po ém, que ele eme e – e mesmo pa a aseia – a Smi h na análise desen ol ida no capí ulo XX (TII, PII) “Como a a is oc acia pode ia o igina -se da indús ia” (c . D esche 1994: 60-61). Toda ia, é possí el a i ma que o au o d’A Democ acia não es á ocupado com a jus i icação da o igem dos desejos e a e os, pois pa a Tocque ille o amo ao bem-es a e a p edisposição ao ú il não apa a os homens da busca po alguma espécie de i ude p óp ia às sociedades democ á icas. A c í ica de Smi h ende eçada a Hu cheson, na Teo ia dos Sen imen os Mo ais, segundo a qual o au o não ha ia alçado o in e esse a um pa ama ele ado em sua eo ia e ampouco conside ado que o amo -p óp io pode ia es a na o igem de ações i uosas pode ia es a na pena de Tocque ille. En e an o, a c ença no bene ício econômico do “sel -in e es ” que pe meia oda a A Riqueza das Nações (“We add ess ou sel es, no o hei humani y bu o hei sel -lo e, and ne e alk o hem o ou own necessi ies bu o hei ad an ages. Nobody bu a begga chuses o depend chie ly upon he bene olence o his ellow-ci izens” LI, cap. 2, “Do p incípio que o igina a Di isão do T abalho”) e o e ece o solo da ciência econômica não pode se ans e ida pa a a A democ acia apenas po que Tocque ille coloca no cen o de sua análise o concei o de “in e esse”. Sob e os ascunhos d´A Democ acia cabe des aca o abalho de Ma celo Jasmin (Jasmin 2000: 71-87). 455 Da dou ina do in e esse bem comp eendido n’A Democ acia na Amé ica A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 A p imei a das dou inas expos a pelo ancês consis i a na ideia de que é azoá el supo que os in e esses dos ou os de em se ebaixados dian e dos in e esses que conce nem exclusi amen e a si. T a a-se, nas pala as do au o , de ude egoísmo ou de um egoísmo ins in i o, azão pela qual apenas com mui a concessão me ece ia o nome de dou ina11. A esse compo amen o de egoísmo g ossei o, Tocque ille con on a á o “egoísmo escla ecido”, ao discu i a dou ina do in e esse bem comp eendido. Após a indicação dessa dou ina undamen almen e egoís a, ha e ia ambém a da u ilidade, com a qual, insis e Tocque ille, a dou ina do in e esse bem comp eendido “não de e ia se con undida”, pois, ainda que nes a es eja con ido ce o aço de u ilidade, não se a a de uma dou ina cujo undamen o úl imo seja a u ilidade12. Es amos de aco do com o es udioso Lucien Jaume, pa a quem a u ilidade, nesse caso, não passa de um alo secundá io13. Além des as no as do au o , publicadas na edição c í ica da ob a, ou a e idência ex ual de que Tocque ille p e endia se a as a da mo al u ili á ia pode se encon ada na “In odução” d’A Democ acia. Pa ece-nos azoá el in e p e a que con a os u ili a is as, “paladinos da ci ilização mode na”, como Tocque ille a eles se epo a, ele a i ma: “em nome do p og esso, es o çando-se po ma e ializa o homem, que em encon a o ú il sem se p eocupa com o jus o, a ciência longe das c enças e o bem-es a sepa ado da i ude” (Tocque ille 2001: 18; TI, In odução, g i os nossos). A objeção às dou inas mo ais ap esen adas po Tocque ille pe mi e sus en a que o adje i o “bem comp eendido” (bien en endu) emp egado à dou ina não é o ui o e e ela ia uma no ma mo al jus a ampa ada nas c enças e nos cos umes e na qual a ga an ia do bem-es a não se apa a ia da i ude. Po im, es á a dou ina mais pu a e ele ada undamen ada no de e . T a a- se, nas pala as do au o , de um a o median e o qual o homem pene a no pensamen o di ino, de modo que ele pe cebe que o obje i o de Deus é a o dem e se associa li emen e ao Seu desígnio14. Pa a o nosso a gumen o, é impo an e essal a que um aço ca ac e ís ico dessa dou ina essencial ou ima e ial é a insis ência na necessidade de ex i pa as paixões. Um con ole do homem sob e algo que lhe escapa, os seus desejos, em nome de uma mo i ação supe io , de um de e . Desc en e de que os homens ab am mão de suas paixões, Tocque ille 11 Nos ascunhos d’A Democ acia, lê-se: “Il y a une doc ine de l’in é ê qui consis e à c oi e qu’on doi ai e plie l’in é ê des au es hommes de an le sein e qu’il es na u el e aisonnable de ne s’emba asse que de celui-là. C’es un égoïsme ins inc i , g ossie , qui mé i e à peine le nom de doc ine”. (Tocque ille 2010: 924). 12 “Elle [la doc ine] es en e mée dans celle de l’u ile, mais n’en ai qu’une pa ie” (idem). 13 Além de Jaume, Guellec ambém a i ma a ecusa de Tocque ille de se ia a Ben ham (Guellec 2004: 401). Há eses di e gen es nesse aspec o da ob a. Ce os es udiosos salien am a p oximidade de Tocque ille com Je emy Ben ham, en e ou os: Pie e Bi nbaum (1970) Jean-Claude Lambe i (1983). 14 “Il y a en in une doc ine in inimen plus pu e, plus éle ée, plus imma é ielle sui an laquelle la base des ac ions es le de oi ” (idem). 456 Robe a K. So omenho Nicole e A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 a i ma que essa dou ina ensina o homem a mo e , is o que as ecompensas do “comba e aos ícios” (pa a emp ega os e mos das alego ias c is ãs) encon a - se-ão em ou o mundo. T a a-se de anca oposição à dou ina do in e esse bem comp eendido, a qua a dou ina do in e esse expos a pelo au o , a qual az o homem ap ende a i e no p esen e, pois a ealização de seus in e esses es á na e a, nos e mos dele. À di e ença en e a e cei a e qua a dou inas, cen al no a gumen o do au o , ol a emos adian e. O a, mos amos as e idências ex uais que o nam explíci a a in es igação de undamen os mo ais ou p incípios da ação pa a as ações polí icas democ á icas. Mas qual se ia o sen ido de se inse i em um deba e sob e dou inas do in e esse? Na “Ad e ência”, Tocque ille a i ma que “a democ acia não pode da os u os que os homens espe am senão em combinação com a mo alidade”. Nas ano ações do plano de abalho do Tomo II d’A Democ acia, ele a i ma que “a dou ina do in e esse bem comp eendido é a dou ina ilosó ica que a igualdade az nasce ” (Tocque ille 2010: 759, no a a) e que “esse mesmo es ado social ez com que os homens ado assem a dou ina do in e esse bem comp eendido como eg a p incipal de ida” (idem). Essas duas p oposições encon adas nas ano ações pa a A Democ acia nos pe mi em a i ma que, median e essa in es igação ace ca de dou inas mo ais, o au o p e endia en ende o undamen o mo al da ação conce ada dos homens, em um es ado social democ á ico que não mais es abelecia ínculos necessá ios e pe manen es en e as pessoas, o iginados do nascimen o delas. Não po menos, como já a i mamos, a discussão ace ca da dou ina é inse ida na Pa e II, no Tomo II, d’A Democ acia, na qual Tocque ille isa discu i os e ei os da democ acia sob e os sen imen os dos ame icanos, pa indo da explicação das azões pelas quais os po os democ á icos se iam menos zelosos na de esa da libe dade po se em compelidos, nesse es ado, aos ape i es do con o o ma e ial e da ida p i ada. Concen ados exclusi amen e na segu ança ma e ial e na de esa obs inada da igualdade, é a ideia de libe dade que lhes escapa, o nando-se “a eba ados pelas conquis as”, man endo-se “ o a de si”, “sem a en a pa a o domínio de si”. Os e mos escolhidos pelo au o pa a explica al a anjo social cono am o assen imen o dos homens, em al si uação, ao domínio de ou em. A uição ma e ial é ap esen ada como o p aze mais ele ado no es ado iguali á io, azão pela qual eles não desejam senão a paz pública e a anquilidade. Os homens das sociedades democ á icas eclamam a boa o dem, mas, nesse caso, Tocque ille a es a a esc a idão deles à sua paixão: “a paz pública é um g ande bem; mas não que o esquece que é a a és da boa o dem que odos os po os chegam à i ania” (Tocque ille 2004: 173; TII, P2, c14). Reconhecemos, pois, que con a uma consequência possí el do indi idualismo, aço inelu á el da democ acia, o au o es á sus en ando, em in as clássicas, que o homem de e se senho de si, em nome da p óp ia libe dade: “uma nação que não eque de seu go e no mais que a manu enção 457 Da dou ina do in e esse bem comp eendido n’A Democ acia na Amé ica A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 da o dem já é esc a a no undo do co ação; é esc a a do seu bem-es a , e o homem que a de e aguilhoa pode apa ece ” (idem). Segue-se, en ão, o a gumen o bas an e conhecido de Tocque ille: além de ce o a anjo ins i ucional e das leis, p o usamen e discu idas no Tomo I de sua ob a, a análise minuciosa nos indica que a p ese ação do es ado democ á ico depende á de alguma disposição a i a p esen e nos cos umes dos homens, nos seus hábi os associa i os, no seu en ol imen o cons an e nos assun os comuns, e i ando a degene ação da democ acia em despo ismo. Desse modo, se a igualdade e a o p incípio do no o es ado social e se al p incípio se con e ia na maio paixão dos homens dessa sociedade – desejando-a a é mesmo em si uações nas quais a libe dade e a sac i icada –, eles não se iam le ados à deso dem mo al (e ampouco a epública p i a a-os de seu in e esse pessoal15), po que essa dou ina no ada en e os ame icanos le a a-os a bem comp eende os seus in e esses. Com e ei o, ela se des aca a como a “ eg a p incipal da ida”, nos e mos do au o , no ada en e os es adunidenses, os quais são ma cados pelo indi idualismo, al como os demais po os democ á icos. 2. A Dou ina do In e esse Bem Comp eendido Nes a seção nos ocupamos da qua a dou ina delineada pelo au o , cuja análise cons i ui os capí ulos oi o e no e da Pa e II do Tomo II d’A Democ acia. Iniciamos a discussão com a exposição esumida da in e p e ação dos comen ado es selecionados sob e essa emá ica ocque illeana. Sabemos que não se a a de expo oda a in e p e ação deles e que eco es podem di icul a a comp eensão o al de ob as de comen á io. En e an o, a b e idade na exposição se jus i ica pela necessidade de a a do ema especí ico do p esen e a igo e em po obje i o con as a , em seguida, a nossa lei u a com elemen os des acados nessas in e p e ações. Segundo o in é p e e Ma in Ze e baum, a paixão ma e ial dos homens nos empos democ á icos é ida po Tocque ille como o “pon o imu á el” de uma sociedade de igualdade de condições, is o é, que de ubou a impo ância de odas as on es adicionais de mo alidade, que se apa ou do pe suasi o a gumen o das an agens alcançadas no plano celes ial, quando a condu a da alma osse ap op iada na e a (Tocque ille 2001: 279; TI, P2, c6). Ao assumi a cen alidade dos in e esses, Ze e baum in e p e a a dou ina do in e esse bem comp eendido (ao menos, a p incípio) como a solução ocque illeana ao “p oblema da democ acia”, qual seja, a ausência de um undamen o 15 O a gumen o i e ocá el nesse pon o é de Spi z ao examina o modo pelo qual Tocque ille cinde “a al e na i a simplis a e p imá ia da libe dade nega i a e da libe dade posi i a” (Spi z 1995: 475-490). 464 Robe a K. So omenho Nicole e A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 po assim dize , à on ade dos homens: “[...] que a humanidade concen ada en e os cidadãos adqui a en e eles uma no a o ça pelo hábi o de se e pelo in e esse comum que os eúne” (idem)21. Mas Tocque ille é o au o que esis e à ideologia ancesa da on ade ge al (Guellec 2004: 401). Dian e de al cons a ação, não se ia equi ocado a i ma que, se é e dade que os au o es palmilham o mesmo e eno no que diz espei o ao desencan o da i ude p óp ia das sociedades mode nas, a solução polí ica pa a a ação comum não é a mesma. Na pena ocque illeana di icilmen e islumb a íamos qualque alusão a um sen imen o na u al de humanidade ao qual Rousseau pa ece eco e – ao menos no a igo “Economia” pa a a Encyclopèdie –, pois a dou ina não se ixa nos hábi os e cos umes dos es adunidenses po algum elemen o ine en e à na u eza humana, mas po uma con ingência his ó ica. Mas se o caminho da a gumen ação pa a se chega aos cos umes não oi o mesmo, Tocque ille ce amen e conhece e alude à ob a do geneb ino, quando a i ma que as de oções e as i udes ins in i as, aços ca ac e ís icos das sociedades a is oc á icas, já es a am longe dos homens nas sociedades democ á icas. Com esse pa alelismo, ecu so habi ual que a as a in encionalmen e do campo imedia o das conside ações as o mas sociais an igas pa a melho ealça a expe iência democ á ica, Tocque ille lança luz sob e a passagem de uma sociedade a is oc á ica, ampa ada na de oção e no esquecimen o de si, pa a uma sociedade cuja i ude mos a a-se ú il (l’u ili a isme éclai é) à conquis a do in e esse pa icula . E a disso, a inal, de que se a a a o II olume d’A Democ acia na Amé ica: o es ado social democ á ico ez nasce di e sos sen imen os e opiniões que não exis iam nas elhas sociedades a is oc á icas da Eu opa. Po an o, se Tocque ille pa e da mesma cons a ação ace ca da cen alidade dos in e esses no es ado mode no, as implicações mo ais pa ecem bas an e dis in as das e lexões de Rousseau. Com essas conside ações, es amos a i mando que, embo a a emá ica enha sua o igem num diálogo pos -mo em com o geneb ino, é possí el no a no desen ol imen o da emá ica a inclinação à p osa de Mon aigne. Seguimos com mais aga a nossa a gumen ação nesse momen o. Ao ap esen a o luga ocupado pela dou ina do in e esse, a pa i da passagem das sociedades a is oc á icas pa a as democ á icas e, po an o, dos no os elemen os capazes de se i em de es ímulo pa a a i ude (não mais a gló ia, e sim os in e esses), Tocque ille a i ma: “não há pode na e a capaz de impedi que a igualdade c escen e das condições le e o espí i o humano à busca do ú il e disponha cada cidadão a se echa em si mesmo” (Tocque ille 2004: 21 Não sus en amos aqui uma ideia simplis a de Rousseau median e a qual apenas es a ia aos homens o sac i ício em nome do g upo, ampouco a de que a ob igação do go e no se ia a de impo ao po o a on ade ge al, anulando as pa icula idades. O p oblema aqui, em e mos ge ais, é que no a igo da Enciclopédia Rousseau supõe uma i ude como “con o midade em udo” à on ade ge al median e educação pública (c . Lepan 2002: 151). 465 Da dou ina do in e esse bem comp eendido n’A Democ acia na Amé ica A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 150). Tal adágio az eco à sen ença de Mon aigne, nos Ensaios, na qual ele assinala os excessos da p esunção humana, econhece a g andeza que apenas cabe ia a Deus, e se ol a a essa na u eza humana mo al e aca cujos ideais de em se mais baixos, desde o exó dio do Da Gló ia: Eis como apenas a Deus cabem gló ia e hon as e não há nada ão dis an e da azão quan o nos po mos a buscá-las pa a nós mesmos; pois, sendo in e io men e pob es, nossa essência sendo impe ei a e p ecisando con inuamen e de melho a, é nisso que de emos nos a aina (Mon aigne II, 16: 429 g i os nossos). Rese amos, po assim dize , a gló ia a Deus e buscamos nós, p o idos de uma condição impe ei a, aquilo de que emos maio necessidade; nos ocupamos do necessá io e, apenas em segundo plano, dos o namen os azidos pela i ude. A disjunção en e gló ia e i ude e e uada po Mon aigne é passo undamen al – sem com isso que e mos es abelece nenhuma con inuidade en e as ob as – pa a a junção que Tocque ille ope a en e i ude e in e esse, com aciocínio (i ônico) análogo ao au o dos Ensaios: “du ido que os homens ossem mais i uosos nas e as a is oc á icas do que nas ou as, mas é ce o que nelas se ala a sem cessa das belezas da i ude, mas es uda am em seg edo de que modo ela e a ú il” (Tocque ille 2004: 147, g i os nossos). A i ude sublime – ca ac e ís ica da sociedade de homens olun a iamen e de o ados ao bem comum – ganha o segundo plano das conside ações ocque illeanas e, ao modo do seu an ecesso , Mon aigne, a na u eza humana agmen ada, in e essada an es pelo ú il do que pelo belo, ganha cen alidade. E a esse o “con a o social” possí el na democ acia: “Nos Es ados Unidos, quase não se diz que a i ude é bela. Sus en a-se que é ú il, e p o a-se isso odos os dias. Os mo alis as ame icanos não p e endem que seja necessá io sac i ica -se a seus semelhan es, po que é g andioso azê-lo”. E comple a adian e: “Pe cebe am que, em seu país e em seu empo, o homem e a ol ado pa a si po uma o ça i esis í el e, pe dendo a espe ança de de ê-lo, passa am a pensa apenas em conduzi-lo” (Tocque ille 2004: 148). É jus amen e nesse momen o da a gumen ação e dian e da di iculdade de explica as azões pelas quais os mo alis as e iam con encido os seus cidadãos da pe inência e u ilidade de agi de ce o modo que Tocque ille lança o a gumen o de au o idade (e não es a ia pensando na audiência ancesa?), ci ando Mon aigne: “Se, po sua e idão, eu não seguisse o caminho e o, segui- lo-ia po e descobe o po expe iência, que no inal das con as é comumen e o mais eliz e o mais ú il” (idem). Mas é ambém um apelo i ônico a Mon aigne, seguindo Lau ence Guellec, in ocado na a gumen ação como au o idade ou e e ência cul u al dos ame icanos: “A dou ina não é no a, po an o; mas, en e os ame icanos 466 Robe a K. So omenho Nicole e A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 dos nossos dias, ela oi uni e salmen e admi ida, o nou-se popula ” (idem)22. An es disso, o au o ese a a os p imei os pa ág a os do oi a o capí ulo pa a con as a as sociedades a is oc á ica e democ á ica, do pon o de is a dos de e es. Na p imei a, a dou ina o icial em ma é ia de mo al indica a a con eniência de aze o bem sem in e esse. Com isso, p o essa am que uma ação de e ia se in e essada apenas na beleza ine en e a ce o a o ido po i uoso. O a o é que “à medida que a imaginação oa mais al o e que cada um se concen a em si mesmo” – essa é a o mulação que ma ca a passagem empo al no nascimen o de uma no a mo al no es ado social de igualdade – “[...] os mo alis as se assus am com a ideia de sac i ício e não ousam mais o e ecê-lo ao espí i o humano” (Tocque ille 2004: 149). Po seu al o igo no esquecimen o de si, “como Deus mesmo”, i oniza o au o , essa mo al ele ada não é p a icá el senão quando o mundo e a conduzido po um pequeno núme o de homens. Num mundo democ á ico, os homens ampa am-se não na beleza das ações, mas nas an agens indi iduais dos cidadãos nos pon os de coincidência com o in e esse ge al23. O que equi ale a a i ma que a u ilidade se incula, nessa mo al de no o ipo (já p opagada po Mon aigne, mas egis ada no No o Mundo), à jus iça, po que são a os não mais ao alcance de poucos en u osos, mas de odos. De e-se no a que a in es igação desse apelo essal a a dis ância empo al (“po que a época das de oções cegas [...] já ai longe de nós”) na qual pa ece esidi a di e ença de comp eensão dos in e esses en e dois mundos, o a is oc á ico e o democ á ico24. Ou o a es abelecidos em suas c enças, em uma o dem cuja legi imidade não e a con es ada [“hou e um empo, sob a an iga mona quia, em que os anceses expe imen a am uma espécie de aleg ia ao se sen i em en egues, sem ecu sos, ao a bí io do mona ca [...]” (Tocque ille 2001: 274)], os homens se a a am a um amo ins in i o à pá ia. Mas há uma up u a nessa o dem e nisso eside o in e esse da e lexão mo al ocque illeana e, especi icamen e, da i ude em sociedades democ á icas. Em al up u a, os cos umes são mudados, as c enças são abaladas, o o gulho das lemb anças é esmaecido, como as seguin es linhas pe mi em no a : 22 Emp egamos “i onia” no sen ido expos o po Lau ence Guellec: “L’i onie n’es plus polémique e enco e moins pamphlé ai e puisque Tocque ille ne se ba pas au nom d’un monde condamné à dispa aî e mais en é ine à l’in e se la dispa i ion du modèle cul u el a is oc a ique. [...] L’i onie sa i ique es l’exac e mesu e de la dis ance ou du ecul que Tocque ille insc i en e lui-même e la socié é qu’il déc i ” (Guellec 2004: 402). 23 Ha e ia ou a ia pa a explica esse pon o de con e gência que, en e an o, não con adiz o a gumen o sus en ado nes e a igo: a a-se da iliação de Tocque ille aos mo alis as anceses do século XVII, en e os quais, La Roche oucauld, Pascal, além dos Jansenis as. Pa a eles, a eo ia do amo p óp io não sepa a os homens uns dos ou os, mas le a-os a agi em conce o e a se se i em mu uamen e em nome do julgamen o que os ou os podem e de si mesmos. Essa ia de aciocínio se ia o “in e esse p op iamen e comp eendido” c . Jaume 2008: 159-193. 24 Re e ência ao í ulo de Sheldon Wolin (2001), Tocque ille be ween wo wo lds. 467 Da dou ina do in e esse bem comp eendido n’A Democ acia na Amé ica A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 En ão, os homens não pe cebem mais a pá ia, a não se sob uma o ma aca e du idosa; não a colocam mais nem no solo, que se o nou, a seus olhos, uma e a inanimada, nem nos usos de seus ances ais, que o am ensinados a conside a um jugo; nem na eligião [...]; nem nas leis [...]; nem no legislado [...] (Tocque ille 2001: 275; TI, P2, c6). Se o au o a i ma que o amo pela cidade (pa a emp ega mos a imagem de Rousseau) o a banido, es a ia ao homem, en egue a si mesmo, in e p e a o in e esse pessoal. Como in e p e á-lo é a ques ão que o pa isiense lei o de Rousseau não deixa de busca 25: onde epousa ia na sociedade de igualdade de condições, na qual os espí i os se assemelham, as c enças se esmaecem e as on ades se equi alem, o undamen o que associa ia a ida pa icula e o bem- es a de seus concidadãos? É en ão que o au o expõe mais sis ema icamen e, a pa i do qua o pa ág a o, a eo ia ge al “com a ajuda da qual [os es adunidenses] alcançam esse esul ado”, essa no a espécie de i ude. A di iculdade, alguém pode ia obje a , é a de sabe a que se e e e o sac i ício e se, como espa anos, os homens nas sociedades de igualdade sac i ica iam os seus p óp ios desejos a um bem julgado maio , ampa ados em uma ideia de de e . O exame mais de ido da a gumen ação ocque illeana no capí ulo nono, “Como os ame icanos emp egam a dou ina do in e esse bem comp eendido em ma é ia de eligião”, pe mi e-nos sus en a que, embo a o au o emp egue no a amen o da ques ão o e mo “sac i ício”, ele não o az ao modo de ce os mo alis as pa a os quais a elicidade na ida es a ia na igília ce ada das paixões ou, pa a emp ega os e mos do au o , “que só se ia possí el adqui i uma elicidade du adou a ecusando-se mil p aze es passagei os e que, en im, é p eciso iun a sem cessa sob e si mesmo pa a melho se i ” (Tocque ille 2004: 151; TII, P2, c9). Com e ei o, não é p eciso ence os p óp ios impulsos, e eando-os, e ampouco ado a “p incípios pu os” como guias das ações humanas, pois o homem p essupos o po Tocque ille é um sujei o me gulhado nos seus in e esses e desejoso, e não um se de na u eza ele adíssima: “Um ame icano se ocupa de seus in e esses p i ados como se es i esse sozinho no mundo e, no ins an e seguin e dedica-se à coisa pública como se os es i esse esquecido” (Tocque ille 2004: 174; TII, P3, c14). O in e esse é um dado, mas conexo à i ude. Em uma de suas ano ações, Tocque ille a i ma que a dou ina do in e esse bem comp eendido pode se ú il em odas as sociedades, mas “mui o mais ú il” naquelas em que os homens não se e i am pa a o p aze pla ônico de aze o 25 Nesse aspec o, disco damos de Ze e baum, ao a i ma que Tocque ille e ia passado longe dessa discussão: “I is disconce ing o ealize ha Tocque ille seems obli ious o he possibili y o some i econcilable con lic be ween public and p i a e in e es . He does no e en conside whe he men a e well equipped o deal wi h he common good as hey a e wi h hei own...” (Ze e baum 1967: 148). 468 Robe a K. So omenho Nicole e A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 bem e nas quais eles eem o ou o mundo p on o pa a deles escapa . Is o é, con ence os homens median e ecompensas u u as se ia a e a inú il. Aliás, a eligião é ú il, pa a Tocque ille, no capí ulo mencionado, menos po que de e mina p incípios, mas po ensina aos homens a aze pequenos sac i ícios em nome de um bem maio es imado. Se as ecompensas de uma al es u u a de ação são a ingidas no p esen e e não lançados a algum pon o dis an e do u u o, a i ude, pode-se dize , ganha cada ez mais con o nos empo ais. E, de aco do com Pocock, o empo é go e nado po o ças como os cos umes e a p á ica (c . Pocock 1975). Com isso, no a-se que a dou ina do in e esse bem comp eendido, essa no a espécie de i ude, não é um cons angimen o ex e io à na u eza dos homens, mas jus amen e ampa a-se nas suas paixões, nos seus in e esses e nos seus cos umes. Não é po menos que uma das pala as usadas com mais equência n´A Democ acia é “ins in o”. Ins in o não signi ica, na ob a, um compo amen o b u o, mas uma “espon aneidade cul i ada” pelo cos ume – a exp essão, de pa oxismo ao gos o ocque illeano, é de Goldhamme (Goldhamme 2006: 152). Se as ci cuns âncias obse adas po Tocque ille e am inaudi as, is o é, se o no o es ado social o e ecia a possibilidade de cada um sa is aze a sua paixão, em especial a ma e ial, não se ia p eciso supo que os in e esses indi iduais ossem apagados ou que os homens não se o ien assem indi idualmen e, pois o modo pelo qual cada homem comp eende á o seu in e esse indi idual es a á sujei o ao cos ume26. Tal como Mon aigne, o au o pa ece con encido de que se não são seguidos os caminhos ce os, po que são ce os, de e-se segui aqueles que, no inal das con as, cons a ou-se expe imen almen e, pa a aseando o au o , que no ge al são os de maio u ilidade. E não ha iam sido obse ados pelo au o os abalhos dos legislado es que concede am ida a cada po ção do e i ó io, descen alizando o pode ; a adminis ação dos pequenos negócios e as associações de mil ma é ias; a c iação dos jo nais e de e en os que euniam os homens, a despei o da eimosa endência à eclusão, in eja e o gulho, as paixões despe as nos empos democ á icas?27 Com e ei o, ao a i ma que pa a alcança a elicidade nes e mundo um homem enha “se acos umado a sac i ica sem es o ço o p aze do momen o ao in e esse pe manen e” (Tocque ille 2004: 152; TII, P2, c9); Tocque ille isa ealça que al homem não “con abiliza” os cus os de agi desse modo, pois “o cos ume p epa ou-o de an emão pa a supo á-lo” (idem, g i os nossos). 26 Qual a noção Tocque ille sus en a, quando emp ega o e mo “cos ume”? Nas pala as dele: “lemb o aqui ao lei o o sen ido ge al em que emp ego a pala a cos ume. En endo po essa pala a o conjun o das disposições in elec uais e mo ais que os homens azem consigo, no es ado de sociedade” (Tocque ille 2001: 541, no a 8; TI, P2, c9). Há ou a passagem, n’A Democ acia, na qual o au o de ine cos umes associando o e mo a “mo es” (c . Tocque ille 2001: 338; TI, P2, c9). 27 Ve : “Con e sa ions wi h M .G ay”, de 22 de se emb o 1831. Jou ney o Ame ica. 469 Da dou ina do in e esse bem comp eendido n’A Democ acia na Amé ica A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 Conside ações inais Como a gumen amos no p esen e abalho, o au o d’A Democ acia não buscou undamen a nenhuma p emissa an opológica da dou ina do in e esse bem comp eendido, eo ia social p óp ia à democ acia. Em ez disso, obse ando os cos umes p esen es na No a Ingla e a, a i ma que aos homens não deixa ia de pa ece sensa o, azoá el e jus o (po an o, de aco do com o seu p óp io bem) agi de al modo. Tampouco o au o aludiu a alguma acilidade da a e a de pensa o bem comum associado ao in e esse. Pelo con á io, ao a a do modo pelo qual os homens comba em o indi idualismo median e as associações, as leis e man êm esse gos o pela libe dade, o au o emp ega e mos que deno am a di iculdade de aze os homens des ia em a isão de si mesmos. Pa ece-nos coe en e, po an o, a in e p e ação de que Tocque ille en a a dep eende de uma expe iência his ó ica especí ica os elemen os desejá eis aos es ados sociais democ á icos no ge al. A sociedade es adunidense o necia- lhe, po an o, um modelo epis emológico (c . Benoî 2013: 336). Pa a an o, Tocque ille imp ime um ca á e e ó ico na sua p osa, isando admi a e mo e 28 a sua audiência. Disso não deixa dú idas a p oposição, em o ma de sín ese, que inci a ia à ação os seus ou in es: “os ame icanos comba e am pela libe dade o indi idualismo que a igualdade azia nasce , e ence am” (Tocque ille 2004: 150; TII, P2, c8 g i os nossos). O eo elogioso das desc ições dos cos umes es adunidenses, cons i uídas de ases hipe bólicas e ca egadas de adje i os, oi a escolha a gumen a i a de Tocque ille: uma esc i a ão mais pungen e quan o mais p e endia ins ui o compo amen o dos anceses, a quem se des ina a a ob a. Ou, pa a emp ega mos os e mos de Schlei e , o que oi di o sob e a Amé ica se ia “em ampla medida, uma espos a a sua audiência ancesa”. É po essa azão que Tocque ille não emp eende a uma desc ição posi i is a da democ acia es adunidense, como oi amplamen e lido, mas ampa ou a sua esc i a em expedien es de pe suasão29 a im de legi ima o es ado social de igualdade de condições na F ança30. Essa in e p e ação é, de es o, in ei amen e coe en e com a decla ação ocque illeana, na “Ad e ência”: “enquan o eu inha os meus olhos ixos na Amé ica, eu pensa a na Eu opa” (Tocque ille 2010: 28, no a o). Po essa azão, o au o se di ige di e amen e 28 A e e ência incon o ná el nes e pon o é à Re ó ica, de A is ó eles, LI, c2, §1. 29 Sob e esse aspec o, endossamos a ese de Lau ence Guellec (2004), a quem o uso p ódigo de ecu sos exp essi os e es ilís icos, o apelo cons an e do lei o , pe mi e no a Tocque ille em p ocesso e ó ico e di igindo-se a audiência ampla. 30 Que Tocque ille enha emp eendido um es o ço de ca ego ização bem como de con encimen o é in e p e ação comum a Guellec (2004), Le o (1999), Mélonio (1993) e Rosan allon (2000). Dian e de homens ou in ei amen e de o ados à causa epublicana, ou a emanescen es do jacobinismo, bem como a ul amona quis as, que pa eciam que e e aze o casamen o do ono com o al a , Tocque ille não se iden i ica a comple amen e com nenhum deles e e a a eles que se di igia (sua “li e a u a polí ica”, como ele a i ma em uma ca a en iada a Ke golay, em 15 dezemb o de 1850). 470 Robe a K. So omenho Nicole e A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 aos seus con e âneos e, após anuncia a di iculdade do seu ema, que pode ia le á-lo a suspende o juízo ace ca do que acaba a de desc e e , segue a é o inal do capí ulo, pa ág a o a pa ág a o, com exo ações à dou ina do in e esse bem comp eendido, como “[...] de odas as eo ias ilosó icas a mais ap op iada às necessidades dos homens do nosso empo” (Tocque ille 2004: 149). Com e ei o, o a gumen o não assinala nenhuma ilusão ace ca da in luência que apenas as associações obse adas em sua a essia do A lân ico e iam sob e a epública ancesa, mesmo po que em nenhum momen o ele p ediz ais ins i uições como emédio exclusi o pa a os males azidos pela igualdade de condições em quaisque sociedades. Pelo con á io. O ancês econhece que, di e en e da sociedade dos salões, nas quais os poucos pode osos, eunidos e conhecidos po odos, in luenciam di e a e decididamen e o cu so da sociedade, as associações p ecisam compo a um g ande núme o de cidadãos pa a que enham o ça exp essi a. Se Tocque ille enxe ga nas associações o co esponden e à ação dos “pa icula es pode osos” (Tocque ille 2004: 135; TII, P2, c5) é po que, median e elas, os homens independen es, isolados e acos, al como a igualdade os ize a, pode iam adqui i a capacidade e o cos ume de p oduzi coisas em comum e po si mesmos, man endo-se independen es – ees abelecendo a necessá ia elação en e a igualdade e a libe dade. Isso nos pe mi e a i ma que ele en aíza his o icamen e as suas análises e se di ige a sociedades democ á icas, cujo undamen o de ação, o i edu í el da mo al, é que mudou: a pa i de en ão, não se ia mais possí el pos ula a i ude senão associada ao in e esse. Há, po an o, uma espécie no a de i ude31, menos gene osa, mas acessí el a odos; não mais ampa ada no amo desin e essado, ce amen e, mas nascida das luzes, o que acaba po con undi-la com o in e esse pessoal. A dou ina do in e esse bem comp eendido cede aos homens a pe cepção que há dependência en e eles. Ela não p oduzia g andes de oções, mas indica a aos homens “pequenos sac i ícios”, an o “a quem os impõe a si quan o a quem deles se ap o ei a” (Tocque ille 2004: 148; TII, P2, c8). Tais sac i ícios, po sua ez, não p oduziam he oísmos, não ele a am alguns poucos homens acima do ní el da humanidade, mas oda a espécie (Tocque ille 2004: 149). A dou ina do in e esse e idencia a que e am a as as i udes ex ao diná ias, é e dade, mas que a i ude se es endia à o alidade dos cidadãos, egula men e empe ados e senho es de si. A dou ina do in e esse bem comp eendido é gene alizá el como a eo ia ilosó ica democ á ica po excelência, concluímos, po que, abso os na mul idão, é uma a uação i uosa do homem a despei o de si mesmo: 31 A alusão é ei a ao e mo de Spi z “ e u d’espèce nou elle” (Spi z 1995: 455) que, de e se essal ada, não é no a, nos e mos ocque illeanos, po que ele a a ibui à Mon aigne, como discu imos an e io men e. 471 Da dou ina do in e esse bem comp eendido n’A Democ acia na Amé ica A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 Vá ias das paixões que gelam os co ações e os di idem são ob igadas en ão a se e i a pa a o undo da alma e aí se esconde . O o gulho se dissimula; o desp ezo não ousa mani es a -se. O egoísmo em medo de si mesmo. (Tocque ille 2004: 126; TII, P2, c4). 472 Robe a K. So omenho Nicole e A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 Bibliog a ia: A mi age, Da id; Fi zmau ice, And ew; Cond en, Conal (eds.). Shakespea e and Ea ly Mode n Poli ical Though . New Yo k, Camb idge Uni e si y P ess, 2009. Benoî , Jean-Louis. Tocque ille. Pa is, Tempus Pe in (2 ed.), 2013. Bi nbaum, Pie e. Sociologie de Tocque ille. Pa is, 1970. Boesche, Roge . The S ange Libe alism o Alexis de Tocque ille. New Yo k, Co nell Uni e si y P ess, 1987. Cou an , A naud. Une c i ique épublicaine de la démoc a ie libé ale. Pa is, Ma e e Ma in, 2007. D esche , Seymou . Tocque ille and England. Camb idge, Mass., Ha a d Uni e si y P ess, 1964. Goldhamme , A hu . T ansla ing Tocque ille: The Cons ain s o Classicism. IN: The Camb idge Companion o Tocque ille (Ed. Welch, Che yl). New Yo k, Camb idge Uni e si y P ess, 2006. Guellec, Lau ence. Tocque ille e les langages de la démoc a ie. Pa is, Hono é Champion, 2004. Jasmin, Ma celo. Alexis de Tocque ille: a his o iog a ia como ciência da polí ica. Belo Ho izon e, Edi o a UFMG, IUPERJ, 2005. _____ . In e esse bem comp eendido e i ude em A Democ acia na Amé ica. IN: Pensa a República. Belo Ho izon e, Edi o a UFMG, 2000. Jaume, Lucien. Tocque ille: les sou ces a is oc a iques de la libe é. Pa is, Faya d, 2008. _____ . L’Indi idu e acé ou la pa adoxe du libé alisme ançais. Pa is, Faya d, 1997. Lambe i, Jean-Claude. Tocque ille e les deux démoc a ies. Pa is, 1983. Le o , Claude. Desa io da esc i a polí ica ( ad. Eliana Souza). São Paulo: Discu so edi o ial, 1999. Lepan, G. Les condi ions de la e u: le pa io isme. In: Rousseau. Discou s su l’économie poli ique (ed. Be na di, B uno). Pa is, V in, 2002. Manen , Pie e. Tocque ille e la na u e de la démoc a ie. Gallima d, 1993. Mans ield, Ha ey; Win h op, Delba. Tocque ille´s New Poli ical Science. IN: The Camb idge Companion o Tocque ille (ed. Welch, Che yl). New Yo k, Camb idge Uni e si y P ess, 2006. Mélonio, F ançoise. Tocque ille e les F ançais. Pa is, Aubie , 1993. Meuwly, Oli ie . Libe é e socié é: Cons an e Tocque ille ace aux limi es du libé alisme mode ne. Genè e; Pa is: D oz, 2002. Mon aigne, Michel de. Les Essais. II, c.16. Pa is, M. Sonnius, 1595 [BnF, disponí el em: <ca alogue.bn . /a k:/12148/cb30967155d.public>]. Mon esquieu. Cha les de. O espí i o das Leis. (T ad. C is ina Mu achco). São Paulo, Ma ins Fon es, 2005. 473 Da dou ina do in e esse bem comp eendido n’A Democ acia na Amé ica A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 449-474. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.19 Nicole e, Robe a So omenho. Quando a polí ica caminha na escu idão - In e esse e i ude n’A Democ acia na Amé ica de Tocque ille. São Paulo, Alameda, 2018. Pocock, John. The Machia ellian Momen - Flo en ine Poli ical Though and he A lan ic Republican T adi ion. New Je sey, P ince on Uni e si y, 1975. Reis, Helena Esse . A i ude na iloso ia polí ica de Tocque ille, Philósophos - Re is a de Filoso ia 4 (2): 83-94 (1999). Rosan allon. Pie e. Le momen Guizo . Pa is, Gallima d, 1985. _____ . La démoc a ie inache ée. Pa is, Gallima d, 2000. Rousseau, Jean-Jacques. Du Con a Social ou Essai su la Fo me de la République (Manusc i de Genè e). (ed. Bacho en, Blaise e al.). Pa is, Lib ai ie Philosophique J. V in, 2012. _____ . O Con a o Social - p incípios do di ei o polí ico (T ad. An ônio de Paula Danesi). São Paulo, Ma ins Fon es, 2006. _____ . Ve be es polí icos da Enciclopédia/ Economia (T ad. Ma ia das G aças). São Paulo, Edi o a Unesp/ Discu so Edi o ial, 2006b. Schlei e . James. The Chicago companion o Tocque ille’s Democ acy in Ame ica, 2012. _____ . Making o Tocque ille’s Democ acy in Ame ica. Libe yFund, 2000. Smi h. Adam. The Theo y o Mo al Sen imen s (ed. Knud Haakonssen). Camb idge, Camb idge Uni e si y P ess, 2002. _____ . Weal h o Na ions (ed. Je y E ensky). Camb idge, Camb idge Uni e si y P ess, 2015. Spi z, Jean-Fabien. La libe é Poli ique. Essai de généalogie concep uelle. Pa is, P esses Uni e si ai es de F ance/PUF, 1995. Tocque ille, Alexis de. Selec ed Le e s on poli ical and socie y. (Ed. e ad. Boesche, Roge ). Be keley, Uni e si y o Cali o nia P ess, 1985. _____ . A Democ acia na Amé ica: Leis e cos umes (TI). (T ad. Edua do B andão). São Paulo, Ma ins Fon es, 2001. ____ . A Democ acia na Amé ica: Sen imen os e opiniões (TII). (T ad. Edua do B andão). São Paulo, Ma ins Fon es, 2004. _____ . Democ acy in Ame ica: His o ical-C i ical Edi ion o De la démoc a ie en Amé ique. A Bilingual F ench-English edi ion (ed. Nolla, Edua do). Indianapolis, Libe y Fund, 2010. _____ . Jou ney o Ame ica (ed. Maye , J.P.), Doubleday Ancho Books, 1971. Wolin, Sheldon. Tocque ille be ween wo wo lds - The Making o a Poli ical and Theo e ical Li e. P ince on Uni e si y P ess, 2001. Ze e baum, Ma in. Tocque ille and The P oblem o Democ acy. Palo Al o, Cali o nia, S an o d Uni e si y P ess, 1967.