Processos locais e História Global no estudo da Raia do Baixo Guadiana (Portugal e Espanha)
Abstract
O presente trabalho analisa questões relativas à aplicação das recentes metodologias do estudo da História Global aos territórios fronteiriços, valorizando a sua apetência para o desenvolvimento de relações sociais singulares e de interconexões. Este estudo centra-se, sobretudo, no Baixo Guadiana, que separa parcialmente dois países (Portugal e Espanha), assinalando-se a sua permeabilidade e o modo como, ao longo do tempo e do espaço, se desenvolveram processos locais que fazem com que as fronteiras possam ser um objecto de estudo idóneo para a História Global.
Full text
Pa a ci a es e a igo:
ALBUQUERQUE, Ped o; GARCÍA
FERNÁNDEZ, F ancisco José. P ocessos
locais e His ó ia Global no es udo da
Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e
Espanha). Tempo e A gumen o
,
Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102,
jan./ab . 2022.
/ empoea gumen o
@ empoea gumen o
@ empoea gumen o
P ocessos locais e His ó ia Global
no es udo da Raia do Baixo
Guadiana (Po ugal e Espanha)
Ped o Albuque que
Dou o em His ó ia pela Uni e sidade de Lisboa (ULisboa).
Pesquisado Bolsei o na Fundação pa a a Ciência e Tecnologia,
no Cen o de A queologia da Uni e sidade de Lisboa e na
Uni e sidade de Se ilha. Pesquisado do Cen o de Es udos
Globais da Uni e sidade Abe a (Po ugal). Pe ence ao g upo
de pesquisa
De la Tu de ania a la Bé ica
(HUM-152).
Lisboa – PORTUGAL
unia q.ne /ped o-albuque que-c .h ml
ped o.albuque [email protected]
o cid.o g/0000-0003-4800-7343
F ancisco José Ga cía Fe nández
Dou o em His ó ia pela Uni e sidade de Se ilha (US).
P o esso Ti ula do depa amen o de P é-His ó ia e
A queologia da Uni e sidade de Se ilha.
Se ilha – ESPANHA
us.es/di ec o io/ ancisco-jose-ga cia- e nandez
[email p o ec ed]
o cid.o g/0000-0002-4978-8818
h p://dx.doi.o g/10.5965/2175180314352022e0102
Recebido: 05/09/2021
Ap o ado: 16/03/2022
P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha)
Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández
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P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do
Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha)
Resumo
O p esen e abalho analisa ques ões ela i as à aplicação das ecen es
me odologias do es udo da His ó ia Global aos e i ó ios on ei iços, alo izando a
sua ape ência pa a o desen ol imen o de elações sociais singula es e de
in e conexões. Es e es udo cen a-se, sob e udo, no Baixo Guadiana, que sepa a
pa cialmen e dois países (Po ugal e Espanha), assinalando-se a sua pe meabilidade
e o modo como, ao longo do empo e do espaço, se desen ol e am p ocessos locais
que azem com que as on ei as possam se um objec o de es udo idóneo pa a a
His ó ia Global.
Pala as-cha e: his ó ia compa ada; es udos de on ei a; a queologia; pa imónio
cul u al
Local p ocesses and Global His o y in he examina ion o
he Lowe Guadiana Bassin's bo de lands (Po ugal and
Spain)
Abs ac
In his pape we examine he use o ecen me hodologies om Global S udies in
he s udy o bo de lands. Bo de s o bounda ies a e c i ical o he de elopmen o
unique social ela ions and in e connec ions. This s udy is mos ly ocused on he
Lowe Guadiana Valley, which sepa a es pa ially wo coun ies (Po ugal and Spain).
Pe meabili y and he de elopmen o local p ocesses in ime and space a e also
examined, which leads o he assump ion ha bo de lands a e idoneous case-
s udies o Global His o y.
Keywo ds: his o y; bo de s udies; a chaeology; cul u al he i age.
Em jei o de in odução
A mo e globally o ien ed his o y migh well se e o encou age a
sense o in e na ional ci izenship, o belonging o he wo ld and
no jus o one’s own na ionali y, bu his ou come is as ye a
mo e a p omise han a eali y.
HUNT, 2014, p. 51
O es udo das on ei as na sua dimensão his ó ica é, ambém, a lei u a da
cons ução de paisagens singula es, em que es es espaços são ac o es de
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a acção e cap ação de população quando há uma necessidade de de esa e, ao
mesmo empo, de epulsa quando es a desapa ece empo á ia ou
pe manen emen e, deixando de aze sen ido num de e minado con ex o
polí ico. Nes as si uações, co em o isco de con e e -se em au ên icas
pe i e ias dos espec i os es ados, não só num sen ido geopolí ico, mas ambém
e i o ial, económico e social.
Os e i ó ios on ei iços con am, nes e caso, a his ó ia das elações
in e nacionais e o modo como es as de e minam e condicionam conjun u as
especí icas. Se pa i mos do exemplo das casas da Gua da Fiscal dis ibuídas ao
longo da on ei a luso-espanhola em luga es es a égicos, acilmen e nos
ape cebemos de que modo o seu abandono é uma consequência isí el do
con ex o his ó ico ac ual, em que o p ocesso de abolição das on ei as in e nas
(1991-1995) con e eu es es e i ó ios em pon os de passagem, deixando es es
de se luga es de pa agem ob iga ó ia. Ou o exemplo, já no Baixo Guadiana, é a
localidade ibei inha de Mé ola. Vá ios séculos an es, a sua pujança de ia-se ao
ac o de que o io na egá el e a o g ande acele ado das ocas come ciais na
An iguidade, al como o caminho-de- e o o oi na Re olução Indus ial. Es e
meio de anspo e e, mais a de, a es ada, o nou a ci culação lu ial obsole a.
Pe an e um cená io de obsolescência económica, a an iga
My ilis
oi lançada
pa a um es ado que con as a com a iqueza de ou o a, mas soube in e e essa
endência ao usa a p óp ia ila como museu que ela a a his ó ia da elação dos
seus an epassados com o io, como um au ên ico po o global
1
.
Es es dois exemplos lançam algumas luzes sob e o modo como os luga es
e as populações ligadas à on ei a luso-espanhola azem pa e de con ex os
his ó icos mais amplos e, de algum modo, con ibuí am pa a a manu enção e
pe pe uação desses sis emas. As casas da Gua da Fiscal são es emunhos de
cená ios em que os ep esen an es da lei e do Es ado p o egiam e ga an iam
(não sem alguma cumplicidade ou coni ência) a legalidade da ci culação de
pessoas e bens, ao ep imi em o con abando (MEDINA GARCÍA, 2003, p. 233 e
seq.). Mé ola, po seu u no, es a egicamen e implan ada no im do oço
1
Sob e o pa imónio me olense como mo o de desen ol imen o social e económico, eja-se a
ecen e e lexão de B. DEL ESPINO HIDALGO (2020).
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na egá el do Guadiana, pa icipou ac i amen e no comé cio global do
Ma e
Nos um
e do A lân ico, que no escoamen o de p odu os do in e io , que na
ecepção de bens de pa agens mais dis an es desde, pelo menos, a Idade do
Fe o (BARROS, 2008; 2010; 2013; ALBUQUERQUE; GARCÍA FERNÁNDEZ, 2017;
GARCÍA FERNÁNDEZ
e al.,
2019).
Há, con udo, mais exemplos que ilus am o que acabamos de dize . Quem,
hoje, a a essa a on ei a luso-espanhola, di icilmen e eco da á as longas
espe as pa a en a ou sai dos espec i os países e os ho á ios limi ados em
que a ci culação nes es luga es e a pe mi ida. Vê, po ém, os an igos pos os
on ei iços abandonados, sem ida e conquis ados po ege ação, como que
eco dando que ali ha ia uma ba ei a e, mais ainda, á ios pos os de abalho
que se ex ingui am. Nou os casos, aglome ados que c esce am g aças à
ac i idade on ei iça (como Vila Fo moso – Fuen es de Oño o) êem-se o ados
ao isolamen o g aças à cons ução de au oes adas que anula am o seu ca ác e
de pon os de pa agem, o que ameaça a sua sob e i ência e sus en abilidade no
ac ual con ex o geopolí ico (pa a o caso luso-andaluz, . MÁRQUEZ, 2010).
Às eco dações do con abando e da sua igilância, bem p esen es na
memó ia colec i a dos p o agonis as e dos seus descenden es, jun am-se
ou as, em que uns c uza am a on ei a em busca de oalhas e lençóis
po ugueses, e ou os, no sen ido con á io, p ocu a am os a amados ca amelos
espanhóis. Ambos aziam es as ansacções em luga es onde as duas moedas, a
Pese a e o Escudo, e am acei es. Es es e am, ob iamen e, os
ou side s
, e não
aqueles pa a quem esse modo de ida ei o de pe meabilidades e de
hib idizações ep esen a a a no malidade quo idiana.
A p odução des as imagens ou olha es é, po si só, su icien emen e
eloquen e pa a con as a o modo como os que i em na on ei a a êem e o
modo como os que a conside am pe i e ia a imaginam. Es a a i mação em uma
maio anscendência do que à pa ida possa pa ece . A concepção monolí ica
da his ó ia e da sociedade como elemen os delimi ados pelas on ei as do
Es ado-nação condicionou e ainda condiciona o es udo das ealidades
on ei iças, c iando ba ei as epis emológicas à análise de con ac os e
in luências mú uas. Assim, a abo dagem aos e i ó ios on ei iços como
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en idades pe meá eis em a an agem de ap esen a uma isão al e na i a aos
abalhos que, de um lado, e minam na ma gem di ei a do Guadiana
In e nacional e, do ou o, e minam na ma gem esque da. Em suma, é possí el
p opo uma e- e i o ialização da pe cepção dos e i ó ios e, sob e udo, das
sociedades de on ei a, ao mesmo empo que se analisa um e i ó io de
inegá el in e esse his ó ico que não oi ainda su icien emen e alo izado no
âmbi o da in es igação in e nacional (c . DIENER; HAGEN 2012)
Es a abo dagem de e conside a dois eixos undamen ais, a sabe , o
espaço e o empo. O p imei o iden i ica-se sob e udo com o Baixo Guadiana, em
pa icula o seu oço na egá el. A escolha des e e i ó io eque uma
jus i icação, uma ez que se p e ende analisa as á ias o mas e escalas de
e i o ialidade que se p ojec a am na paisagem de on ei a ao longo do empo.
O segundo, po seu u no, implica di e en es ní eis de comp eensão do e i ó io
on ei iço na dimensão empo al (diac onia e sinc onia dos p ocessos de
cons ução da paisagem). Em poucas pala as, uma emancipação ace às
ba ei as simbólicas ou ísicas dos Es ados-nação de e conside a que as
on ei as e i o iais são, em si mesmas, uma consequência de decisões polí icas
e elações de pode e, po an o, não são his o icamen e imu á eis. Nes e caso,
po mo i os de espaço, cen a -nos-emos p incipalmen e na documen ação
po uguesa desde os inícios da con o mação dos einos ibé icos na Idade Média,
ainda que não se igno e o papel de Cas ela, p imei o, e depois, da Mona quia
hispânica no eino de Espanha, nes e longo e complexo p ocesso.
Nes e sen ido, uma análise diac ónica de longo espec o, nomeadamen e
en e a Idade do Fe o – quando se ap ecia já uma ênue e idência da condição
limina do Baixo Guadiana – e a Época Con empo ânea, p opo ciona uma
in e p e ação di e en e de ou a que se cen e em casos especí icos como a
de inição das on ei as en e o T a ado de Alcañices de 1297 e a Res au ação da
Independência po uguesa em 1640, en e o T a ado de Badajoz (1801) e o
Con énio de limi es (1926), a análise dos p ocessos que conduzi am ao T a ado
de Schengen (1990), ou mesmo a elabo ação das Ca as de Fo al dos municípios
on ei iços. Todos eles desempenha am um papel de e minan e nas sucessi as
ans o mações da paisagem aiana ao longo dos anos e de em se es udados
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com uma me odologia capaz de se adap a às especi icidades do objec o de
es udo, sob e udo ao ní el da e i o ialidade e das elações sociais que se
desen ol em localmen e (c . MEDINA GARCÍA, 2006).
Es a discussão é impo an e pa a de ini os limi es epis emológicos da
análise das on ei as como espaços globais. Di a pe spec i a desen ol e-se em
o no de ês aspec os undamen ais: em p imei o luga , o modo como es es
e i ó ios e, sob e udo, a sua paisagem, azem pa e de p ocessos his ó icos
mais amplos; em segundo luga , como a condição on ei iça p opo cionou
encon os que ize am des es espaços luga es, em si mesmos, sup anacionais,
pelo ac o de ali con e gi em o mas de pensa , línguas, cul u as, pessoas, e c.,
em cumplicidades que unciona am à ma gem das imposições e elações dos
cen os de pode . Em e cei o e úl imo luga , como a de inição das on ei as
peninsula es se e lec iu, na época mode na, nou os e i ó ios dominados po
es as duas nações na Amé ica e no Pací ico, conc e amen e en e o B asil e os
ice- einados da mona quia hispânica du an e o século XVIII. É is o que o o ga à
aia luso-espanhola uma au ên ica dimensão global.
As pe spec i as e i o iais e empo ais, assim como a concepção da
on ei a que acabámos de e e i , são ú eis pa a a lei u a do Baixo Guadiana
como um espaço global de con luência, de in e conexões e de ansição, o que
oi p opiciado pelo ac o de o io se na egá el e pe mi i a ci culação de
me cado ias e pessoas. Des acam-se, nes e con ex o, os p incipais po os
lu iais (Cas o Ma im, Ayamon e, Alcou im, Sanlúca de Guadiana e Mé ola) no
ela i o ao egis o a queológico e aos documen os esc i os, que demons am
uma ocação, de ec ada sob e udo a pa i dos séculos VIII-VII a.C., pa a os
con ac os com ou as egiões da Península Ibé ica, do Medi e âneo e do
A lân ico. É, p ecisamen e, es a ca ac e ís ica que le a à o i icação des es
luga es e, ao mesmo empo, ao desen ol imen o de con ac os en e as
comunidades que habi am es as á eas.
O es udo desen ol ido no p esen e abalho pe mi e, po ou o lado,
discu i p oblemas e p opos as de u u o pa a o es udo das on ei as como
unidades de análise da His ó ia Global e como paisagens humanas e pa imónios
ma e iais e ima e iais que podem se alo izados pela sua singula idade
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enquan o mani es ações de hib idização e cumplicidades. P opõe-se, assim, uma
ia de pesquisa que nos pa ece p omisso a pa a o u u o des es e i ó ios e a
sua sus en abilidade.
2. Espaço e empo da e na on ei a luso-espanhola
No con ex o ac ual, as e lexões que ul apassam as ba ei as impos as
pelas on ei as êm indo a ganha p o agonismo (OLSTEIN, 2015; CONRAD,
2019), ao mesmo empo que o deba e sob e as escalas em que os es udos
globais de em mo imen a -se (mais ecen emen e, DE VRIES, 2019; DE VITO,
2019; LEVI, 2019; HODOS, 2020). A na u eza des a discussão ob iga a
ci cunsc e e o discu so que se segue ao caso especí ico dos e i ó ios
on ei iços pa a, des e modo, assinala com maio p ecisão a posição e as
icissi udes des e ema no âmbi o da His ó ia Global.
Como en idades his ó icas e cons uções sociais que se p ojec am sob e
um de e minado espaço ísico, as on ei as podem se analisadas nas
pe spec i as espacial (com as suas espec i as escalas) e empo al, is o é, como
e lexos ou consequências das di e en es es a égias de posse, con olo e
pe cepção de um e i ó io, assim como as suas ans o mações em
de e minados momen os e ao longo do empo. Es as abo dagens são
de e minan es pa a delinea a his ó ia da ocupação des a paisagem e,
consequen emen e, a in e acção que pode e deco ido das di e en es
es a égias de e i o ialidade. Es a a i mação em alguma essonância na
ac ualidade quando conside amos as consequências da adesão dos países
peninsula es ao Espaço Schengen no eo denamen o do e i ó io e das elações
in e - egionais (c . ALBUQUERQUE; GARCÍA FERNÁNDEZ, 2019; ALBUQUERQUE
e
al.
2020).
A ques ão dos “jogos de escalas”, pa a usa a exp essão de J. Re el (1996),
adqui e pa icula ele ância na discussão sob e a c iação e manu enção de
on ei as. A mic oescala pe mi e, po exemplo, analisa com maio ou meno
p ecisão as singula idades das elações sociais, polí icas e económicas de uma
comunidade on ei iça com o cen o e com os izinhos. Ao mesmo empo, é um
pon o de pa ida pa a e i ica se es es con ac os são o esul ado de p ocessos
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an e io es ou se, po ou o lado, são consequência da cons ução dos limi es
e i o iais, i.e., êm uma dimensão es u u al e conjun u al. Po ou as pala as,
é possí el analisa um espaço on ei iço an o no seu uncionamen o in e no
como na sua elação com ou as unidades e en idades sem e a p e ensão de
cons ui um discu so aplicá el a odas as escalas (pa a uma abo dagem ge al,
c . CONRAD, 2019, p. 166-168).
Como e emos, o es udo da mic o-his ó ia iden i ica as especi icidades de
cada luga , assim como modelos que podem se con as ados com as na a i as
ge ais da cons ução de on ei as. Is o equi ale a dize que possibili a a
ca ac e ização das eacções locais a p ocessos desen ol idos à escala egional,
nacional e in e nacional, e que a mic oescala, pelo menos no caso que nos ocupa,
não pode en ende -se o a da elação de complemen a idade e an agonismo que
man ém com ou os âmbi os, nomeadamen e com as es a égias de
e i o ialidade. O mesmo e i ó io pode, po isso, co esponde a duas
on ei as: uma, imaginada, ep esen ada e impos a pelos Es ados, e ou a i ida
pelas comunidades que ocupam es as á eas ma ginais.
As á ias polí icas de delimi ação e i o ial depende am, essencialmen e,
do modo como se concebia o espaço e se en endia a “ on ei a” em cada pe íodo
(GOMES 1991, p. 358 e seq., com o uso des e e mo e ou os elacionados com
os limi es e i o iais; c . CORDERO TORRES, 1960, p. 97 e seq.; FÈBVRE, 1962, p.
11-24; FERNANDES, 2009; DIAS, 2009, p. 8). O caso da o mação da on ei a luso-
espanhola na sequência da “ econquis a” e da ul e io consolidação dos einos
ibé icos é, nes e con ex o, de g ande in e esse, uma ez que e ela o modo como
as di e en es pe cepções do e i ó io a ec a am a pe ença de comunidades a
uma ou ou a co oa, com a cons ução das suas p óp ias adições e o mas de
ida, e como os in e esses locais in luencia am a delimi ação dos espaços
nacionais (GARCIA, 1986; GOMES, 1991, p. 365 e seq.; MEDINA GARCÍA, 2006).
Numa ob a ecen e, T. He zog assinala que as negociações de e mina am
quais as po oações que de e iam pe ence a uma e a ou a co oa, e elando
uma pe cepção do espaço como uma sequência de “ilhas num ma de e a”
(HERZOG, 2018, p. 209) na de inição dos einos ibé icos (c ., en e ou os, GOMES,
1991, p. 370; COSME, 1992; FERNANDES, 1996; 2009; HERZOG, 2018: , p. 205 e
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seq.). Na ausência de mapas que iden i icassem com igo a linha dema cado a,
descu a am-se especi icidades como cada uma dessas “ilhas” ge ia as suas
es a égias de ocupação e p ojecção do e no e i ó io, o que deu o igem a
dispu as, man idas du an e á ias décadas, en e os in e esses locais,
eclesiás icos e égios (IMÍZCOZ BEUNZA, 2011), assim como mo imen os en e
um e ou o lado das espec i as on ei as que o a e am ole ados, o a e am
ep imidos (HERZOG, 2018, p. 212-214). Ac escem, ainda, ac os simbólicos
associados à colocação de ma cos, cuja emoção ou des uição podia se
conside ada uma a on a (GOMES, 1991, p. 367-371)
2
.
Com a o mação e expansão dos einos c is ãos peninsula es, o nou-se
necessá io delimi a a acção dos mona cas pa a que os súbdi os pudessem
sabe a quem de iam obedece , sob e udo quando es a a em discussão os
pode es, exe cidos localmen e, das o dens mili a es en e an o ins aladas nos
e i ó ios conquis ados. Nes e sen ido, um b e e olha sob e as polí icas
on ei iças de D. Dinis ( . 1279 – 1325) e D. Manuel ( . 1495-1521) pode se
e elado das ans o mações na pe cepção, mas p incipalmen e na
ep esen ação, des es e i ó ios, uma ez que an ecedem a imagem ca og á ica
dos einos e dos seus limi es.
O econhecimen o e de esa das on ei as oi uma das maio es
p eocupações de D. Dinis, não só com a assina u a de a ados como o de
Alcañices (1297), mas ambém com a c iação de á ios ipos de es ímulos ao
po oamen o desses e i ó ios (BAQUERO MORENO, 1988; MARQUES, 1998)
3
. Es e
mona ca, cognominado
O Ag icul o
, deu con inuidade à polí ica de delimi ação
do seu pai (D. A onso III) e a ibuiu ca as de o al a localidades on ei iças
4
(ANDRADE, 2001, p. 45-46) e o es a u o de Concelhos a á ias po oações aianas,
ao mesmo empo que es abelecia cou os de homiziados como o de Nouda
(1308). Es es núcleos des ina am-se a p o ege as on ei as de incu sões
2
Ve emos mais adian e, ao e e i as dispu as on ei iças no B asil en e Po ugal e Espanha na
segunda me ade do século XVIII, a impo ância da ca og a ia.
3
A bibliog a ia sob e a o ganização e i o ial dos séculos XIII e XIV é abundan e e inaba cá el
num ex o como o que se ap esen a. Consequen emen e, os abalhos ci ados dizem espei o,
sob e udo, a sín eses sob e aspec os conc e os.
4
No Baixo Guadiana, a ibuiu as seguin es: Cas o Ma im (1282, 5 anos depois da p imei a ca a,
concedida po D. A onso III), Se pa, Mou a, Nouda (1295), Mou ão (1296) e Alcou im (1304)
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Fig. 3: Mapa de Po ugal (Ál a es Seco 1561) e po meno do Baixo Guadiana en e
Cas o Ma im/ Ayamon e e Oli ença
Fon e: h ps://pu l.p /21805/se ice/media/jpeg (cons. 14/05/2021)
Fig. 4: “Mapa Gulbenkian”, de João Teixei a Albe naz (1640)
Fon e: h ps://pu l.p /23505/2/ (cons. 24/05/2021)
Pode dize -se que a pe cepção do e i ó io e lec e a o ma de concebe
o pode polí ico e a sua p ojecção no espaço, o que é, aliás, no ó io no impac o
que os es udos ca og á icos anceses i e am, a pa i de 1720, em Po ugal,
especialmen e na polí ica de S.J. Ca alho e Melo, Ma quês de Pombal, e em
Espanha. Em ambos os Es ados, as no idades écnicas po iam em causa o
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domínio dos e i ó ios sul-ame icanos e asiá icos ma cados pelo me idiano e
an ime idiano de To desilhas”, inci ando os go e nos a p omo e em
le an amen os opog á icos exaus i os em e i ó io nacional numa p imei a
ase, e na Amé ica e no Pací ico numa segunda (ALEGRIA; GARCÍA, 1991, p. 268-
269; NÚÑEZ DE LAS CUEVAS, 1991, p. 186). A ca og a ia, ins umen o
adminis a i o e de apoio ao comé cio e à ci culação ma í ima e e es e, oi
omen ada, igualmen e, a a és da o mação de po ugueses e espanhóis nas
escolas ancesas, o iginando á ios p ojec os, uns que não chega am a
conc e iza -se (po exemplo, o
mapa de España
de Jo ge Juan em Espanha, e de
Aze edo Fo es em Po ugal), e ou os que p ocu a am ap esen a in o mações
com um g au de p ecisão sem p eceden es apesa das suas na u ais limi ações
(po exemplo, Tomás López), en e elas a ausência de escalas ixas e p ecisas
(Aleg ia; Ga cía, 1991, p. 269 e seq.).
É, po es e mo i o, impo an e assinala o modo como es as concepções
iaja am pa a o ou o lado do Oceano na segunda me ade de Se ecen os, com
os a ados de Mad id (1750) e de San o Ilde onso (1777), que de ini am as
on ei as das possessões po uguesas e espanholas na Amé ica e no Pací ico
13
.
A ca og a ia assumiu nas acções diplomá icas um p o agonismo excepcional,
uma ez que u gia pô im a á ios episódios de con li o egis ados na sequência
da undação de colónias po uguesas como Sac amen o (1680) e Mon e ideu
(1723)
14
e e o mula o já ul apassados limi es de To desilhas ixados em 1494
com os no os meios en ão disponí eis (FERREIRA, 2007; CORREA, 2016). O
conhecido “Mapa das Co es” de 1749 oi, nes e con ex o, de e minan e pa a que
se decidissem as anjas de e i ó io que co esponde iam a cada nação de uma
manei a e icaz ( ig. 5), se indo depois de e amen a pa a que os écnicos
en iados ao e eno pudessem p ocede às espec i as dema cações, como
magis almen e analisou J. Co esão (c . DIAS, 2005: 65; FERREIRA, 2007; 2010;
CHAVES, 2014, p. 223 e seq.). Os subsequen es desen ol imen os écnicos ao
ní el da geodesia acabam po e ela -se de e minan es pa a localiza com
g ande p ecisão no e eno os limi es dos Es ados nacionais, consolidando-se
como ins umen os imp escindí eis pa a a in e enção dos go e nos a odos os
13
O ilme
A Missão
(1986), ealizado po R. Jo é, e a a p ecisamen e a eo ganização e i o ial
deco en e do T a ado de Mad id.
14
Mon e ideu oi, 3 anos depois da undação, a asada e e undada pelos Espanhóis.
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ní eis (CLPE 1926/1928; ALEGRIA; GARCIA, 1991, p. 271e seq.; DIAS, 2003; BRANCO,
2006; GARCÍA; MOREIRA, 2008)
15
.
Pode, po an o, dize -se que o modo como os pode es econhece am e
in e p e a am as on ei as luso-espanholas modi icou-se ao longo dos séculos,
impondo-se nos e i ó ios ul ama inos e adqui indo, po conseguin e, uma
dimensão global que pode se analisada com maio p o undidade nou a ocasião.
Fig. 5: “Mapa dos con ins do B azil com as e as da co oa de Espanha na Amé ica
Me idional” ou “Mapa das Co es” (1749)
16
Fon e: h p://www.a pd .d .go .b /map_i a_5/ (cons. 26/05/2021)
15
Os inqué i os se ecen is as, como e lexo da isão ilus ada, cons i uem, nes e con ex o, on es
de eno me in e esse pa a a alia o modo como se en endia, em meados desse século, os
e i ó ios e as espec i as on ei as. Es e ema se á al o de es udo monog á ico.
16
Veja-se, nes a e e ência, a ansc ição do documen o, assim como o exaus i o es udo de Jaime
Co esão sob e a igu a de Alexand e de Gusmão, amplamen e ci ado po FERREIRA 2001.
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O pe cu so ap esen ado deixa en e e a necessidade de p omo e
abo dagens mul i ace adas em que a análise do pa icula não pe ca de is a o
seu luga num conjun o mais amplo e
ice- e sa
. Como bem ale ou A. de Sousa
(1998), é necessá io conside a ambém a eno me a iabilidade das i ências das
comunidades on ei iças em unção do luga e da p óp ia conjun u a em que se
p oduzem as in e acções. Ou seja: qualque análise que não conside e ou os
espaços nos mesmos momen os, ou á ios momen os no mesmo espaço, co e
o isco de se edu o a (c . GOMES, 1991)
17
. Ques iona emos mais adian e a
impo ância des es p essupos os eó icos no es udo compa a i o ou elacional
dos p ocessos his ó icos das on ei as, mas po ago a impo a e e i o segundo
aspec o a a a nes e capí ulo: a dimensão empo al.
Nes e âmbi o os p oblemas são, no undo, semelhan es, uma ez que a
u ilidade de uma análise sinc ónica é iden i ica aspec os po ezes menos
pe cep í eis numa abo dagem de longa du ação. É nes e sen ido que a imagem
de an iguidade e es abilidade da on ei a luso-espanhola não pa ece esis i aos
a gumen os que sob essaem da análise documen al de pequenas dispu as que
iam além dos a ados e que chega am mesmo a di icul a a sua implemen ação.
Es as mul iplica am-se du an e á ias décadas e não o am acilmen e
esol idas, mas não é descabido a i ma que os con o nos dos dois países
ibé icos se man i e am,
g osso modo,
ela i amen e es á eis.
O es udo das on ei as, que na sinc onia, que na diac onia, não de e, po
isso, cen a -se exclusi amen e na imagem que os Es ados p oduzem sob e os
espaços pe i é icos, assim como numa pe cepção gene alizado a que não
conside e di e enças ao ní el do impac o da cons ução das ex emas nas
comunidades limí o es. Um es udo diac ónico em, po um lado, a
pa icula idade de e ela a he e ogeneidade da ocupação des es espaços e a
sua e olução, assim como as polí icas de delimi ação (GOMES, 1991). Uma
abo dagem sinc ónica em, po ou o lado, a an agem de pe mi i a
ca ac e ização da elação das sociedades com o e i ó io em dis in os pon os
17
Es a análise compa a i a pe mi e iden i ica a singula idade de casos como o Guadiana em
elação a ou as egiões, como assinala o es udo de R.C. Gomes (1991) elabo ado sob e um
impo an e le an amen o de documen os medie ais e mode nos. Sob e a on ei a do
Guadiana, c ., en e ou os, GARCIA, 1983 e COSME, 1992.
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da on ei a e em momen os conc e os como, po exemplo, as consequências
da aplicação de um a ado de de inição de limi es, ou mesmo de inicia i as
des inadas a es imula o po oamen o de uma á ea limí o e.
As duas pe spec i as não são incompa í eis com a concepção des es
luga es como espaços globais, já que ambas (mas especialmen e a p imei a)
possibili am a análise a in e acção en e comunidades e as ans e ências ou os
seus e ei os, dependendo do ipo de ques ões que se colocam ao objec o de
es udo nou as egiões e, inclusi e, nou os con inen es. A í ulo de exemplo, o
es udo das in e pene ações linguís icas eque uma isão diac ónica, enquan o
a ca ac e ização de uma população que ocupa um luga a pa i de um
de e minado momen o (c . sup a os cou os de homiziados) é mais p ecisa
quando é pe spec i ada em sinc onia. A sua e olução e papel nas edes de
in e acção são, po ou o lado, aspec os que de em se conside ados num
espec o c onológico mais ala gado, de modo a a alia quais os e ei os a médio
e longo p azo sob e o e i ó io en ol en e e as elações com o “ou o lado”.
As di e en es abo dagens aos e i ó ios on ei iços não são, como
podemos cons a a , incompa í eis, mas sim complemen a es. A undação de um
núcleo populacional jun o ao e mo de um eino, ou mesmo os p i ilégios
ou o gados pelos mona cas pa a ga an i a ixação de população em luga es
es a égicos, cons i uem pila es undamen ais da de esa das on ei as e da
con igu ação da paisagem aiana. Es as “ilhas de po oamen o” são, po ou o
lado, ocos de in e acção com ou as comunidades que de inham, ou não, a
mesma unção no ou o lado da linha. Ou seja, es as decisões polí icas são o
pon o de pa ida pa a o desen ol imen o de no as ealidades cuja singula idade
az com que as on ei as sejam, como e emos no p óximo capí ulo, espaços
globais.
3. As on ei as como espaços globais
A cons ução da His ó ia Global como e amen a me odológica não pode
se dissociada da imagem, eiculada sob e udo a pa i da década de 90 do
século XX, da ideia de um passado (e, logo, um u u o) pa ilhado em que os
me cados e as elações humanas não conheciam on ei as e unciona am em
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ede, e que um acon ecimen o num luga pode ia e epe cussões signi ica i as
nou os
18
. Es a concepção ep esen a uma emancipação ace às na a i as
nacionais que concebiam a his ó ia, as sociedades e as línguas como elemen os
delimi ados po on ei as ígidas. As no as pe spec i as alo iza am, sob e udo,
en elaçamen os e conexões que ul apassam os limi es e i o iais e que se
desen ol em em edes mais amplas de con ac os e in e acções es imulados
que pelo comé cio, que pelos mo imen os expansionis as, que pelas
mig ações. Po ou as pala as, a His ó ia Global p omo e a
descompa imen ação das his ó ias nacionais (CONRAD, 2019, p. 13 e seq.). Nas
pala as de S. Con ad, es a o ma de esc e e a His ó ia
“Foca-se […] nas ques ões de mobilidade e do in e câmbio, nos
p ocessos que anscendem as on ei as e as ba ei as. Toma a
in e conexão global como pon o de pa ida e az da ci culação e
do in e câmbio de coisas, pessoas, ideias e ins i uições os seus
p incipais obje os de análise” (CONRAD, 2019, p. 15-16)
Os e i ó ios on ei iços são, p ecisamen e, ba óme os das elações
in e nacionais e in e comuni á ias, pela sua capacidade de sepa a e, ao mesmo
empo, de uni e pe mi i o con ac o, a hib idação, a in e dependência e a
cons ução de iden idades pa ilhadas (as chamadas “iden idades de on ei as”).
Es a análise, a nosso e , é impo an e num con ex o em que as on ei as
polí icas deixa am de se ele an es nos con ex os nacionais, p incipalmen e no
in e io do Espaço Schengen.
3.1. Compa ações e/ ou conexões
Nos úl imos anos, a u ilidade das análises his ó icas compa a i as em
indo a se o emen e ques ionada, uma ez que p oduzem oposições biná ias
des inadas a iden i ica semelhanças e di e enças en e as chamadas unidades
de compa ação, ao mesmo empo que pa ecem igno a o es udo das conexões
en e elas (WERNER; ZIMMERMANN, 2006; BERG, 2013, p. 6-11; PARTHASARATHI,
2013; STEINMETZ, 2014; OLSTEIN, 2015; c . DETIENNE, 2010). Po ou o lado, o
18
O momen o em que se esc e e es e ex o é, al ez, aquele que mais e elou o ace o des a
a i mação, uma ez que acon ecimen os que a ec am o plane a in ei o como a pandemia do
Co id-19 exigem um e dadei o es o ço global, do mesmo modo que a p o ecção da na u eza.
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obse ado de e ia man e uma posição equidis an e em elação aos elemen os
ou p ocessos que analisa, o que equi ale a dize que de e ia conhece as duas
unidades com o mesmo g au de p o undidade, o que nem semp e acon ece. O
in es igado , po no ma, es á mais amilia izado com uma das unidades e
con as a-a com a ou a, colocando ques ões que esol em os p oblemas do
elemen o p incipal (c . WERNER; ZIMMERMANN, 2006, p. 33-34).
Es es dois ipos de abo dagem – compa ações e in e conexões – são
especialmen e ele an es no modo como se concebem as elações on ei iças,
ou mesmo as p óp ias on ei as, enquan o enómenos de sepa ação ou
comunicação. Ambos p opo cionam isões di e en es e a é mesmo
con adi ó ias, simplesmen e po que um acon ecimen o pode jus i ica um
e o ço da sepa ação e in e ompe um pe íodo de in e acção. Nes e sen ido, é
ú il di e encia p ocesso e pe spec i a: a con li ualidade pode ob iga a olha
duas en idades sepa adas po uma linha de on ei a como di e en es (c .
in a
,
Sanlúca de Guadiana e Alcou im), mas a pe spec i a ac ual, ao alo iza es es
espaços como luga es p i ilegiados de conec i idade e ans e ência a pa i das
elações – nem semp e econhecidas – es abelecidas en e as suas gen es,
ende a in e p e á-los como uma única en idade. As on ei as são, não obs an e,
con ex os singula es cuja análise não é compa í el com in e p e ações edu o as
do seu papel no con ex o das his ó ias egionais e nacionais. Po ou as pala as:
a ideia de sepa ação é ú il pa a comp eende o po quê de uma undação num
de e minado luga , ou mesmo de edi ícios que in ocam si uações de igilância
mú ua, mas, po ou o lado, al si uação não pa ece e impedido o
es abelecimen o de con ac os e a é mesmo cumplicidades en e um e ou o
lado da linha que sepa a es es g upos humanos.
Embo a o mé odo compa a i o enha sido uma das p imei as en a i as
de concebe análises his ó icas ans on ei iças, acabou po se ques ionado a
pa i da “his ó ia elacional” ou
his oi e c oisée
que, segundo os seus p incipais
de enso es, a igu a-se como uma e amen a me odológica mais e icaz pa a
anscende o “e ei o de on ei a” e ca ac e iza com maio con undência
p ocessos de in e conexão e in e dependência ão ca ac e ís icos do diálogo
ans on ei iço e da His ó ia in e nacional (CONRAD, 2019, p. 53 e seq.).
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A análise elacional ou his ó ia pa ilhada da on ei a de e, po an o,
concen a -se naqueles p ocessos sinc ónicos (se al o possí el, locais),
enquan o o es udo compa a i o é ú il quando se obse am p ocessos em
diac onia. Ambos podem incidi sob e espaços di e en es, mas es a duplicidade
pode e ela -se de g ande u ilidade pa a alo iza a on ei a enquan o objec o
de in es igação singula em e mos his ó icos, an opológicos e a é mesmo
linguís icos.
3.2. Dinâmicas globais das conexões ans on ei iças
“Los Se ninguéim,/ como eu,/ semo da on e a,/ neim daquí
neim dalí,/ no es noso u suelo que pisamo/
neim a lingua que alemo”.
Fabián Se e o
Como espaços de con e gência das expe iências humanas e in e esses
pa ilhados, as on ei as podem con e e -se em ema de es udo da his ó ia
global pelo modo como e ocam polí icas e i ências elacionadas com a
mobilidade e a in e conexão, ou mesmo como e lec em enómenos de escala
mais ampla. É, nes e con ex o, pa icula men e in e essan e aze à colação as
mig ações e as iden idades colec i as que se c iam em no os espaços ocupados
(c . GUNGWU, 1997, p. 3) e na elação com as comunidades izinhas. Es es
enómenos podem, con udo, es a condicionados pelo p óp io con ex o
his ó ico, uma ez que es e pode impo , elimina ou desloca on ei as, ou
mesmo es imula a deslocação de pessoas pa a um no o luga de modo a
ga an i mais e icazmen e a sua ocupação, de esa e igilância. Po ou o lado,
pode conduzi , como e e imos na in odução, ao abandono epen ino ou
p og essi o de um luga quando aquela unção deixa, simplesmen e, de exis i .
É, pois, opo uno assinala as pala as de E. Van de Vleu en e T. Feys, uma
ez que esumem a discussão em epíg a e: “acco ding o he so-called ‘bo de
pa adox’, bo de s igge legal and illegal c oss-bo de lows by i ue o he
sepa a ions hey c ea e” (2016, p. 29)
19
. Es e pa adoxo pe mi e a i ma que as
19
“De aco do com o chamado ‘pa adoxo da on ei a’, as on ei as desencadeiam luxos
ans on ei iços g aças às sepa ações que elas p óp ias c iam” ( adução dos au o es)
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on ei as ge am dinâmicas globais de in e acção, conexão e ans e ência g aças
ao ac o de delimi a em e i ó ios e de cons i uí em, g aças a essa condição,
pon os de encon o. To na-se assim necessá io conside a as duas aces des es
p ocessos: a p imei a em a e com negociações e decisões que conduzem à
delimi ação e i o ial; a segunda oca-se sob e udo nas elações sociais e
económicas, bem como nos enómenos de hib idização e mul icul u alidade
comuns nos espaços on ei iços.
Es as hib idizações, e lec idas, po exemplo, na paisagem linguís ica dos
e i ó ios on ei iços ibé icos (MEDINA GARCÍA, 2006, p. 720-721; PONS, 2014),
es emunham elações sociais que ão mui o além do discu so o icial, do mesmo
modo que a p á ica do con abando (FREIRE
e al.,
2009), e que cons i uem o
que Medina Ga cía de iniu como “ on ei a da ida quo idiana”. Es es con ex os e
con ac os são, consequen emen e, p opícios à c iação de iden idades mis as que
não se adequa am às (nem se e iam nas) imagens que as en idades nacionais
c ia am sob e os seus izinhos a pa i dos pode es cen ais (MEDINA GARCÍA,
2006, p. 719-720).
O oco no es udo dos con ac os e in luências ecíp ocas pode e ela a
exis ência de enómenos globais de con luência, à escala local e ao longo de
á ios séculos, que dão o igem a casos pa icula men e in e essan es, como
pa ece se o caso da cidade de Oli ença/ Oli enza, que em, hoje, um pa imónio
ma e ial e ima e ial que es emunha a elação com dois países di e en es, ao
mesmo empo que se dis ingue deles pelo modo como cons uiu uma iden idade
singula . “Não sou po uguês nem sou espanhol, sou oli en ino” (Pablo González,
com. Pe s.) é, al ez, a exp essão que melho sin e iza es a elação de pe ença
com um espaço cuja iqueza his ó ica se de e, p ecisamen e, às ci cuns âncias
pelas quais es a ila
ex emeña
passou desde a sua undação. No ou o lado do
A lân ico, encon amos uma si uação pa ecida na on ei a en e o B asil e o
U uguai, ma cada pa cialmen e po cu sos lu iais. Nes e caso, os limi es
coloniais imp ecisos e os sucessi os li ígios e i o iais di imidos en e ambos os
países o igina am uma ealidade híb ida com uma iden idade pa ilhada, nem
semp e econhecida, plasmada no uso do denominado “Po uñol i ense” ou
“Po unhol” (STURZA, 2019), cuja singula idade e alo social conduziu,
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ecen emen e, a de endê-la pe an e a UNESCO como pa imónio cul u al
ima e ial (ALBERTONI, 2019).
Es es dois casos demons am que as iden idades de on ei a nem semp e
se adequam à igidez das elações de pe ença ansmi idas nos discu sos e
dispu as dos Es ados-nação, e que podem se palco de enómenos linguís icos
de g ande ele ância, ais como o Po uguês oli en ino (en e ou os
VASCONCELOS, 1890-1892; CARRASCO, 2007; FERNANDES, 2017), que se
encon a nes e momen o ambém em p ocesso de classi icação como
Bien de
In e és Cul u al
(BIC) em Espanha. Chama, nes e con ex o, a a enção o ac o de
es e pa imónio se , em boa medida, o esul ado da con luência de duas línguas
globais e e ela uma hib idização comum nas á eas on ei iças (PONS, 2014), al
como se cons a a nou os luga es da Península Ibé ica (CARRASCO, 2007) e no
“Po uñol” alado em á ios luga es da Amé ica do Sul (c . LIMÃO, 2015). Os
enómenos linguís icos não são, ob iamen e, os únicos, já que ou os
pa imónios, nomeadamen e o con abando, ambém uni am pessoas dos dois
lados da on ei a luso-espanhola, assim como nas suas co esponden es
ealidades ansoceânicas, e o am, igualmen e, esponsá eis pela o mação de
iden idades compósi as e ans on ei iças ou, se p e e i mos, de p ocessos
sociais que ul apassa am, ao longo de á ias décadas, os limi es de inidos pelos
Es ados Ibé icos.
4. Glocaliza a on ei a do Baixo Guadiana
À luz dos p essupos os eó icos que emos indo a ap esen a ao longo
des as linhas, o Baixo Guadiana cons i ui um objec o de es udo de inegá el
in e esse. A sua na egabilidade en e a oz e, sensi elmen e, a á ea de Mé ola,
onde ambém con luíam o as e es es, ez des e io uma ia de con ac o en e
o in e io alen ejano e andaluz, o A lân ico e o Medi e âneo e,
consequen emen e, um cená io p opício à con luência de in o mações, gen es e
bens de á ios quad an es do Velho Mundo.
O es udo a queológico des es con ac os ao longo do an igo
Anas
e ela
es a po encialidade, p incipalmen e em sí ios de ocação po uá ia como Cas o
Ma im, Ayamon e e Mé ola. Es es sí ios o am in ensamen e ocupados e
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na a i as pá ias sob e os limi es e i o iais, que em sinc onia que em
diac onia (c . CONRAD, 2019, p. 159 e seq.). Como imos ao longo des as linhas,
a his ó ia das on ei as não se ci cunsc e e aos á ios p ocessos de de inição e
negociações, inci ando a e isi a os documen os e ap o unda os es udos
a queológicos que de inam com cla eza as á ias ases de ocupação des es
e i ó ios.
Como se pôde cons a a , a his ó ia das on ei as chega mesmo a
con undi -se com a his ó ia da o mação das nacionalidades e das á ias
ans o mações da imagem que o Es ado inha de si mesmo e do alcance do seu
pode . É po es e mo i o que a de inição das on ei as é um ema
indiscu i elmen e ele an e nas g andes sín eses de His ó ia dos einos
peninsula es, azendo pa e, hoje, de uma amplíssima bibliog a ia. Con udo, pelo
que pudemos ap ecia na sua consul a, os abalhos ci cunsc e em-se aos
espec i os âmbi os nacionais sem que se enha dado, a é ao momen o, uma
con luência que nos pa ece salu a . Pa adoxalmen e, a análise da on ei a como
“ ac o geog á ico” (LÓPEZ TRIGAL, 1984; GASPAR, 1987) é, nes e con ex o
his o iog á ico, mais ecen e e só começou a da os p imei os passos nos inais
da década de 70 do século XX (c . ALBUQUERQUE; GARCÍA FERNÁNDEZ, 2019),
ab indo caminho pa a no os olha es sob e o es ado de e i ó ios ma cados po
séculos de his ó ias das elações in e nacionais e in e comuni á ias. Vol amos,
com is o, ao p incípio des e ex o e ao que e e íamos como o e ei o das
conjun u as his ó icas sob e os e i ó ios de on ei a e a o mação de con ex os
singula es cuja iqueza pa imonial é indiscu í el.
Os “sabe es” e os “ ala es” aianos co em, hoje, o isco de desapa ece de
e i ó ios cujo abandono e en elhecimen o é mais que e iden e, deixando a ás
de si séculos, milénios, de con ac os, ans e ências, iden idades e mani es ações
híb idas. P opo ciona , pe an e es es cená ios, e amen as pa a a alo ização
cul u al des as á eas, mesmo num con ex o de pe da de impo ância das
on ei as in e nas eu opeias, pode se um pon o de pa ida pa a ga an i a
sus en abilidade e a esiliência des es e i ó ios e, sob e udo, des as
comunidades.
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