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Processos locais e História Global no estudo da Raia do Baixo Guadiana (Portugal e Espanha)

Albuquerque, Pedro; García Fernández, Francisco José

Abstract

O presente trabalho analisa questões relativas à aplicação das recentes metodologias do estudo da História Global aos territórios fronteiriços, valorizando a sua apetência para o desenvolvimento de relações sociais singulares e de interconexões. Este estudo centra-se, sobretudo, no Baixo Guadiana, que separa parcialmente dois países (Portugal e Espanha), assinalando-se a sua permeabilidade e o modo como, ao longo do tempo e do espaço, se desenvolveram processos locais que fazem com que as fronteiras possam ser um objecto de estudo idóneo para a História Global.

Full text

Pa a ci a es e a igo: ALBUQUERQUE, Ped o; GARCÍA FERNÁNDEZ, F ancisco José. P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha). Tempo e A gumen o , Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022. / empoea gumen o @ empoea gumen o @ empoea gumen o P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que Dou o em His ó ia pela Uni e sidade de Lisboa (ULisboa). Pesquisado Bolsei o na Fundação pa a a Ciência e Tecnologia, no Cen o de A queologia da Uni e sidade de Lisboa e na Uni e sidade de Se ilha. Pesquisado do Cen o de Es udos Globais da Uni e sidade Abe a (Po ugal). Pe ence ao g upo de pesquisa De la Tu de ania a la Bé ica (HUM-152). Lisboa – PORTUGAL unia q.ne /ped o-albuque que-c .h ml ped o.albuque [email protected] o cid.o g/0000-0003-4800-7343 F ancisco José Ga cía Fe nández Dou o em His ó ia pela Uni e sidade de Se ilha (US). P o esso Ti ula do depa amen o de P é-His ó ia e A queologia da Uni e sidade de Se ilha. Se ilha – ESPANHA us.es/di ec o io/ ancisco-jose-ga cia- e nandez [email p o ec ed] o cid.o g/0000-0002-4978-8818 h p://dx.doi.o g/10.5965/2175180314352022e0102 Recebido: 05/09/2021 Ap o ado: 16/03/2022 P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.2 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Resumo O p esen e abalho analisa ques ões ela i as à aplicação das ecen es me odologias do es udo da His ó ia Global aos e i ó ios on ei iços, alo izando a sua ape ência pa a o desen ol imen o de elações sociais singula es e de in e conexões. Es e es udo cen a-se, sob e udo, no Baixo Guadiana, que sepa a pa cialmen e dois países (Po ugal e Espanha), assinalando-se a sua pe meabilidade e o modo como, ao longo do empo e do espaço, se desen ol e am p ocessos locais que azem com que as on ei as possam se um objec o de es udo idóneo pa a a His ó ia Global. Pala as-cha e: his ó ia compa ada; es udos de on ei a; a queologia; pa imónio cul u al Local p ocesses and Global His o y in he examina ion o he Lowe Guadiana Bassin's bo de lands (Po ugal and Spain) Abs ac In his pape we examine he use o ecen me hodologies om Global S udies in he s udy o bo de lands. Bo de s o bounda ies a e c i ical o he de elopmen o unique social ela ions and in e connec ions. This s udy is mos ly ocused on he Lowe Guadiana Valley, which sepa a es pa ially wo coun ies (Po ugal and Spain). Pe meabili y and he de elopmen o local p ocesses in ime and space a e also examined, which leads o he assump ion ha bo de lands a e idoneous case- s udies o Global His o y. Keywo ds: his o y; bo de s udies; a chaeology; cul u al he i age. Em jei o de in odução A mo e globally o ien ed his o y migh well se e o encou age a sense o in e na ional ci izenship, o belonging o he wo ld and no jus o one’s own na ionali y, bu his ou come is as ye a mo e a p omise han a eali y. HUNT, 2014, p. 51 O es udo das on ei as na sua dimensão his ó ica é, ambém, a lei u a da cons ução de paisagens singula es, em que es es espaços são ac o es de P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.3 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 a acção e cap ação de população quando há uma necessidade de de esa e, ao mesmo empo, de epulsa quando es a desapa ece empo á ia ou pe manen emen e, deixando de aze sen ido num de e minado con ex o polí ico. Nes as si uações, co em o isco de con e e -se em au ên icas pe i e ias dos espec i os es ados, não só num sen ido geopolí ico, mas ambém e i o ial, económico e social. Os e i ó ios on ei iços con am, nes e caso, a his ó ia das elações in e nacionais e o modo como es as de e minam e condicionam conjun u as especí icas. Se pa i mos do exemplo das casas da Gua da Fiscal dis ibuídas ao longo da on ei a luso-espanhola em luga es es a égicos, acilmen e nos ape cebemos de que modo o seu abandono é uma consequência isí el do con ex o his ó ico ac ual, em que o p ocesso de abolição das on ei as in e nas (1991-1995) con e eu es es e i ó ios em pon os de passagem, deixando es es de se luga es de pa agem ob iga ó ia. Ou o exemplo, já no Baixo Guadiana, é a localidade ibei inha de Mé ola. Vá ios séculos an es, a sua pujança de ia-se ao ac o de que o io na egá el e a o g ande acele ado das ocas come ciais na An iguidade, al como o caminho-de- e o o oi na Re olução Indus ial. Es e meio de anspo e e, mais a de, a es ada, o nou a ci culação lu ial obsole a. Pe an e um cená io de obsolescência económica, a an iga My ilis oi lançada pa a um es ado que con as a com a iqueza de ou o a, mas soube in e e essa endência ao usa a p óp ia ila como museu que ela a a his ó ia da elação dos seus an epassados com o io, como um au ên ico po o global 1 . Es es dois exemplos lançam algumas luzes sob e o modo como os luga es e as populações ligadas à on ei a luso-espanhola azem pa e de con ex os his ó icos mais amplos e, de algum modo, con ibuí am pa a a manu enção e pe pe uação desses sis emas. As casas da Gua da Fiscal são es emunhos de cená ios em que os ep esen an es da lei e do Es ado p o egiam e ga an iam (não sem alguma cumplicidade ou coni ência) a legalidade da ci culação de pessoas e bens, ao ep imi em o con abando (MEDINA GARCÍA, 2003, p. 233 e seq.). Mé ola, po seu u no, es a egicamen e implan ada no im do oço 1 Sob e o pa imónio me olense como mo o de desen ol imen o social e económico, eja-se a ecen e e lexão de B. DEL ESPINO HIDALGO (2020). P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.4 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 na egá el do Guadiana, pa icipou ac i amen e no comé cio global do Ma e Nos um e do A lân ico, que no escoamen o de p odu os do in e io , que na ecepção de bens de pa agens mais dis an es desde, pelo menos, a Idade do Fe o (BARROS, 2008; 2010; 2013; ALBUQUERQUE; GARCÍA FERNÁNDEZ, 2017; GARCÍA FERNÁNDEZ e al., 2019). Há, con udo, mais exemplos que ilus am o que acabamos de dize . Quem, hoje, a a essa a on ei a luso-espanhola, di icilmen e eco da á as longas espe as pa a en a ou sai dos espec i os países e os ho á ios limi ados em que a ci culação nes es luga es e a pe mi ida. Vê, po ém, os an igos pos os on ei iços abandonados, sem ida e conquis ados po ege ação, como que eco dando que ali ha ia uma ba ei a e, mais ainda, á ios pos os de abalho que se ex ingui am. Nou os casos, aglome ados que c esce am g aças à ac i idade on ei iça (como Vila Fo moso – Fuen es de Oño o) êem-se o ados ao isolamen o g aças à cons ução de au oes adas que anula am o seu ca ác e de pon os de pa agem, o que ameaça a sua sob e i ência e sus en abilidade no ac ual con ex o geopolí ico (pa a o caso luso-andaluz, . MÁRQUEZ, 2010). Às eco dações do con abando e da sua igilância, bem p esen es na memó ia colec i a dos p o agonis as e dos seus descenden es, jun am-se ou as, em que uns c uza am a on ei a em busca de oalhas e lençóis po ugueses, e ou os, no sen ido con á io, p ocu a am os a amados ca amelos espanhóis. Ambos aziam es as ansacções em luga es onde as duas moedas, a Pese a e o Escudo, e am acei es. Es es e am, ob iamen e, os ou side s , e não aqueles pa a quem esse modo de ida ei o de pe meabilidades e de hib idizações ep esen a a a no malidade quo idiana. A p odução des as imagens ou olha es é, po si só, su icien emen e eloquen e pa a con as a o modo como os que i em na on ei a a êem e o modo como os que a conside am pe i e ia a imaginam. Es a a i mação em uma maio anscendência do que à pa ida possa pa ece . A concepção monolí ica da his ó ia e da sociedade como elemen os delimi ados pelas on ei as do Es ado-nação condicionou e ainda condiciona o es udo das ealidades on ei iças, c iando ba ei as epis emológicas à análise de con ac os e in luências mú uas. Assim, a abo dagem aos e i ó ios on ei iços como P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.5 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 en idades pe meá eis em a an agem de ap esen a uma isão al e na i a aos abalhos que, de um lado, e minam na ma gem di ei a do Guadiana In e nacional e, do ou o, e minam na ma gem esque da. Em suma, é possí el p opo uma e- e i o ialização da pe cepção dos e i ó ios e, sob e udo, das sociedades de on ei a, ao mesmo empo que se analisa um e i ó io de inegá el in e esse his ó ico que não oi ainda su icien emen e alo izado no âmbi o da in es igação in e nacional (c . DIENER; HAGEN 2012) Es a abo dagem de e conside a dois eixos undamen ais, a sabe , o espaço e o empo. O p imei o iden i ica-se sob e udo com o Baixo Guadiana, em pa icula o seu oço na egá el. A escolha des e e i ó io eque uma jus i icação, uma ez que se p e ende analisa as á ias o mas e escalas de e i o ialidade que se p ojec a am na paisagem de on ei a ao longo do empo. O segundo, po seu u no, implica di e en es ní eis de comp eensão do e i ó io on ei iço na dimensão empo al (diac onia e sinc onia dos p ocessos de cons ução da paisagem). Em poucas pala as, uma emancipação ace às ba ei as simbólicas ou ísicas dos Es ados-nação de e conside a que as on ei as e i o iais são, em si mesmas, uma consequência de decisões polí icas e elações de pode e, po an o, não são his o icamen e imu á eis. Nes e caso, po mo i os de espaço, cen a -nos-emos p incipalmen e na documen ação po uguesa desde os inícios da con o mação dos einos ibé icos na Idade Média, ainda que não se igno e o papel de Cas ela, p imei o, e depois, da Mona quia hispânica no eino de Espanha, nes e longo e complexo p ocesso. Nes e sen ido, uma análise diac ónica de longo espec o, nomeadamen e en e a Idade do Fe o – quando se ap ecia já uma ênue e idência da condição limina do Baixo Guadiana – e a Época Con empo ânea, p opo ciona uma in e p e ação di e en e de ou a que se cen e em casos especí icos como a de inição das on ei as en e o T a ado de Alcañices de 1297 e a Res au ação da Independência po uguesa em 1640, en e o T a ado de Badajoz (1801) e o Con énio de limi es (1926), a análise dos p ocessos que conduzi am ao T a ado de Schengen (1990), ou mesmo a elabo ação das Ca as de Fo al dos municípios on ei iços. Todos eles desempenha am um papel de e minan e nas sucessi as ans o mações da paisagem aiana ao longo dos anos e de em se es udados P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.6 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 com uma me odologia capaz de se adap a às especi icidades do objec o de es udo, sob e udo ao ní el da e i o ialidade e das elações sociais que se desen ol em localmen e (c . MEDINA GARCÍA, 2006). Es a discussão é impo an e pa a de ini os limi es epis emológicos da análise das on ei as como espaços globais. Di a pe spec i a desen ol e-se em o no de ês aspec os undamen ais: em p imei o luga , o modo como es es e i ó ios e, sob e udo, a sua paisagem, azem pa e de p ocessos his ó icos mais amplos; em segundo luga , como a condição on ei iça p opo cionou encon os que ize am des es espaços luga es, em si mesmos, sup anacionais, pelo ac o de ali con e gi em o mas de pensa , línguas, cul u as, pessoas, e c., em cumplicidades que unciona am à ma gem das imposições e elações dos cen os de pode . Em e cei o e úl imo luga , como a de inição das on ei as peninsula es se e lec iu, na época mode na, nou os e i ó ios dominados po es as duas nações na Amé ica e no Pací ico, conc e amen e en e o B asil e os ice- einados da mona quia hispânica du an e o século XVIII. É is o que o o ga à aia luso-espanhola uma au ên ica dimensão global. As pe spec i as e i o iais e empo ais, assim como a concepção da on ei a que acabámos de e e i , são ú eis pa a a lei u a do Baixo Guadiana como um espaço global de con luência, de in e conexões e de ansição, o que oi p opiciado pelo ac o de o io se na egá el e pe mi i a ci culação de me cado ias e pessoas. Des acam-se, nes e con ex o, os p incipais po os lu iais (Cas o Ma im, Ayamon e, Alcou im, Sanlúca de Guadiana e Mé ola) no ela i o ao egis o a queológico e aos documen os esc i os, que demons am uma ocação, de ec ada sob e udo a pa i dos séculos VIII-VII a.C., pa a os con ac os com ou as egiões da Península Ibé ica, do Medi e âneo e do A lân ico. É, p ecisamen e, es a ca ac e ís ica que le a à o i icação des es luga es e, ao mesmo empo, ao desen ol imen o de con ac os en e as comunidades que habi am es as á eas. O es udo desen ol ido no p esen e abalho pe mi e, po ou o lado, discu i p oblemas e p opos as de u u o pa a o es udo das on ei as como unidades de análise da His ó ia Global e como paisagens humanas e pa imónios ma e iais e ima e iais que podem se alo izados pela sua singula idade P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.7 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 enquan o mani es ações de hib idização e cumplicidades. P opõe-se, assim, uma ia de pesquisa que nos pa ece p omisso a pa a o u u o des es e i ó ios e a sua sus en abilidade. 2. Espaço e empo da e na on ei a luso-espanhola No con ex o ac ual, as e lexões que ul apassam as ba ei as impos as pelas on ei as êm indo a ganha p o agonismo (OLSTEIN, 2015; CONRAD, 2019), ao mesmo empo que o deba e sob e as escalas em que os es udos globais de em mo imen a -se (mais ecen emen e, DE VRIES, 2019; DE VITO, 2019; LEVI, 2019; HODOS, 2020). A na u eza des a discussão ob iga a ci cunsc e e o discu so que se segue ao caso especí ico dos e i ó ios on ei iços pa a, des e modo, assinala com maio p ecisão a posição e as icissi udes des e ema no âmbi o da His ó ia Global. Como en idades his ó icas e cons uções sociais que se p ojec am sob e um de e minado espaço ísico, as on ei as podem se analisadas nas pe spec i as espacial (com as suas espec i as escalas) e empo al, is o é, como e lexos ou consequências das di e en es es a égias de posse, con olo e pe cepção de um e i ó io, assim como as suas ans o mações em de e minados momen os e ao longo do empo. Es as abo dagens são de e minan es pa a delinea a his ó ia da ocupação des a paisagem e, consequen emen e, a in e acção que pode e deco ido das di e en es es a égias de e i o ialidade. Es a a i mação em alguma essonância na ac ualidade quando conside amos as consequências da adesão dos países peninsula es ao Espaço Schengen no eo denamen o do e i ó io e das elações in e - egionais (c . ALBUQUERQUE; GARCÍA FERNÁNDEZ, 2019; ALBUQUERQUE e al. 2020). A ques ão dos “jogos de escalas”, pa a usa a exp essão de J. Re el (1996), adqui e pa icula ele ância na discussão sob e a c iação e manu enção de on ei as. A mic oescala pe mi e, po exemplo, analisa com maio ou meno p ecisão as singula idades das elações sociais, polí icas e económicas de uma comunidade on ei iça com o cen o e com os izinhos. Ao mesmo empo, é um pon o de pa ida pa a e i ica se es es con ac os são o esul ado de p ocessos P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.8 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 an e io es ou se, po ou o lado, são consequência da cons ução dos limi es e i o iais, i.e., êm uma dimensão es u u al e conjun u al. Po ou as pala as, é possí el analisa um espaço on ei iço an o no seu uncionamen o in e no como na sua elação com ou as unidades e en idades sem e a p e ensão de cons ui um discu so aplicá el a odas as escalas (pa a uma abo dagem ge al, c . CONRAD, 2019, p. 166-168). Como e emos, o es udo da mic o-his ó ia iden i ica as especi icidades de cada luga , assim como modelos que podem se con as ados com as na a i as ge ais da cons ução de on ei as. Is o equi ale a dize que possibili a a ca ac e ização das eacções locais a p ocessos desen ol idos à escala egional, nacional e in e nacional, e que a mic oescala, pelo menos no caso que nos ocupa, não pode en ende -se o a da elação de complemen a idade e an agonismo que man ém com ou os âmbi os, nomeadamen e com as es a égias de e i o ialidade. O mesmo e i ó io pode, po isso, co esponde a duas on ei as: uma, imaginada, ep esen ada e impos a pelos Es ados, e ou a i ida pelas comunidades que ocupam es as á eas ma ginais. As á ias polí icas de delimi ação e i o ial depende am, essencialmen e, do modo como se concebia o espaço e se en endia a “ on ei a” em cada pe íodo (GOMES 1991, p. 358 e seq., com o uso des e e mo e ou os elacionados com os limi es e i o iais; c . CORDERO TORRES, 1960, p. 97 e seq.; FÈBVRE, 1962, p. 11-24; FERNANDES, 2009; DIAS, 2009, p. 8). O caso da o mação da on ei a luso- espanhola na sequência da “ econquis a” e da ul e io consolidação dos einos ibé icos é, nes e con ex o, de g ande in e esse, uma ez que e ela o modo como as di e en es pe cepções do e i ó io a ec a am a pe ença de comunidades a uma ou ou a co oa, com a cons ução das suas p óp ias adições e o mas de ida, e como os in e esses locais in luencia am a delimi ação dos espaços nacionais (GARCIA, 1986; GOMES, 1991, p. 365 e seq.; MEDINA GARCÍA, 2006). Numa ob a ecen e, T. He zog assinala que as negociações de e mina am quais as po oações que de e iam pe ence a uma e a ou a co oa, e elando uma pe cepção do espaço como uma sequência de “ilhas num ma de e a” (HERZOG, 2018, p. 209) na de inição dos einos ibé icos (c ., en e ou os, GOMES, 1991, p. 370; COSME, 1992; FERNANDES, 1996; 2009; HERZOG, 2018: , p. 205 e P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.9 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 seq.). Na ausência de mapas que iden i icassem com igo a linha dema cado a, descu a am-se especi icidades como cada uma dessas “ilhas” ge ia as suas es a égias de ocupação e p ojecção do e no e i ó io, o que deu o igem a dispu as, man idas du an e á ias décadas, en e os in e esses locais, eclesiás icos e égios (IMÍZCOZ BEUNZA, 2011), assim como mo imen os en e um e ou o lado das espec i as on ei as que o a e am ole ados, o a e am ep imidos (HERZOG, 2018, p. 212-214). Ac escem, ainda, ac os simbólicos associados à colocação de ma cos, cuja emoção ou des uição podia se conside ada uma a on a (GOMES, 1991, p. 367-371) 2 . Com a o mação e expansão dos einos c is ãos peninsula es, o nou-se necessá io delimi a a acção dos mona cas pa a que os súbdi os pudessem sabe a quem de iam obedece , sob e udo quando es a a em discussão os pode es, exe cidos localmen e, das o dens mili a es en e an o ins aladas nos e i ó ios conquis ados. Nes e sen ido, um b e e olha sob e as polí icas on ei iças de D. Dinis ( . 1279 – 1325) e D. Manuel ( . 1495-1521) pode se e elado das ans o mações na pe cepção, mas p incipalmen e na ep esen ação, des es e i ó ios, uma ez que an ecedem a imagem ca og á ica dos einos e dos seus limi es. O econhecimen o e de esa das on ei as oi uma das maio es p eocupações de D. Dinis, não só com a assina u a de a ados como o de Alcañices (1297), mas ambém com a c iação de á ios ipos de es ímulos ao po oamen o desses e i ó ios (BAQUERO MORENO, 1988; MARQUES, 1998) 3 . Es e mona ca, cognominado O Ag icul o , deu con inuidade à polí ica de delimi ação do seu pai (D. A onso III) e a ibuiu ca as de o al a localidades on ei iças 4 (ANDRADE, 2001, p. 45-46) e o es a u o de Concelhos a á ias po oações aianas, ao mesmo empo que es abelecia cou os de homiziados como o de Nouda (1308). Es es núcleos des ina am-se a p o ege as on ei as de incu sões 2 Ve emos mais adian e, ao e e i as dispu as on ei iças no B asil en e Po ugal e Espanha na segunda me ade do século XVIII, a impo ância da ca og a ia. 3 A bibliog a ia sob e a o ganização e i o ial dos séculos XIII e XIV é abundan e e inaba cá el num ex o como o que se ap esen a. Consequen emen e, os abalhos ci ados dizem espei o, sob e udo, a sín eses sob e aspec os conc e os. 4 No Baixo Guadiana, a ibuiu as seguin es: Cas o Ma im (1282, 5 anos depois da p imei a ca a, concedida po D. A onso III), Se pa, Mou a, Nouda (1295), Mou ão (1296) e Alcou im (1304) P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.16 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 Fig. 3: Mapa de Po ugal (Ál a es Seco 1561) e po meno do Baixo Guadiana en e Cas o Ma im/ Ayamon e e Oli ença Fon e: h ps://pu l.p /21805/se ice/media/jpeg (cons. 14/05/2021) Fig. 4: “Mapa Gulbenkian”, de João Teixei a Albe naz (1640) Fon e: h ps://pu l.p /23505/2/ (cons. 24/05/2021) Pode dize -se que a pe cepção do e i ó io e lec e a o ma de concebe o pode polí ico e a sua p ojecção no espaço, o que é, aliás, no ó io no impac o que os es udos ca og á icos anceses i e am, a pa i de 1720, em Po ugal, especialmen e na polí ica de S.J. Ca alho e Melo, Ma quês de Pombal, e em Espanha. Em ambos os Es ados, as no idades écnicas po iam em causa o P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.17 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 domínio dos e i ó ios sul-ame icanos e asiá icos ma cados pelo me idiano e an ime idiano de To desilhas”, inci ando os go e nos a p omo e em le an amen os opog á icos exaus i os em e i ó io nacional numa p imei a ase, e na Amé ica e no Pací ico numa segunda (ALEGRIA; GARCÍA, 1991, p. 268- 269; NÚÑEZ DE LAS CUEVAS, 1991, p. 186). A ca og a ia, ins umen o adminis a i o e de apoio ao comé cio e à ci culação ma í ima e e es e, oi omen ada, igualmen e, a a és da o mação de po ugueses e espanhóis nas escolas ancesas, o iginando á ios p ojec os, uns que não chega am a conc e iza -se (po exemplo, o mapa de España de Jo ge Juan em Espanha, e de Aze edo Fo es em Po ugal), e ou os que p ocu a am ap esen a in o mações com um g au de p ecisão sem p eceden es apesa das suas na u ais limi ações (po exemplo, Tomás López), en e elas a ausência de escalas ixas e p ecisas (Aleg ia; Ga cía, 1991, p. 269 e seq.). É, po es e mo i o, impo an e assinala o modo como es as concepções iaja am pa a o ou o lado do Oceano na segunda me ade de Se ecen os, com os a ados de Mad id (1750) e de San o Ilde onso (1777), que de ini am as on ei as das possessões po uguesas e espanholas na Amé ica e no Pací ico 13 . A ca og a ia assumiu nas acções diplomá icas um p o agonismo excepcional, uma ez que u gia pô im a á ios episódios de con li o egis ados na sequência da undação de colónias po uguesas como Sac amen o (1680) e Mon e ideu (1723) 14 e e o mula o já ul apassados limi es de To desilhas ixados em 1494 com os no os meios en ão disponí eis (FERREIRA, 2007; CORREA, 2016). O conhecido “Mapa das Co es” de 1749 oi, nes e con ex o, de e minan e pa a que se decidissem as anjas de e i ó io que co esponde iam a cada nação de uma manei a e icaz ( ig. 5), se indo depois de e amen a pa a que os écnicos en iados ao e eno pudessem p ocede às espec i as dema cações, como magis almen e analisou J. Co esão (c . DIAS, 2005: 65; FERREIRA, 2007; 2010; CHAVES, 2014, p. 223 e seq.). Os subsequen es desen ol imen os écnicos ao ní el da geodesia acabam po e ela -se de e minan es pa a localiza com g ande p ecisão no e eno os limi es dos Es ados nacionais, consolidando-se como ins umen os imp escindí eis pa a a in e enção dos go e nos a odos os 13 O ilme A Missão (1986), ealizado po R. Jo é, e a a p ecisamen e a eo ganização e i o ial deco en e do T a ado de Mad id. 14 Mon e ideu oi, 3 anos depois da undação, a asada e e undada pelos Espanhóis. P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.18 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 ní eis (CLPE 1926/1928; ALEGRIA; GARCIA, 1991, p. 271e seq.; DIAS, 2003; BRANCO, 2006; GARCÍA; MOREIRA, 2008) 15 . Pode, po an o, dize -se que o modo como os pode es econhece am e in e p e a am as on ei as luso-espanholas modi icou-se ao longo dos séculos, impondo-se nos e i ó ios ul ama inos e adqui indo, po conseguin e, uma dimensão global que pode se analisada com maio p o undidade nou a ocasião. Fig. 5: “Mapa dos con ins do B azil com as e as da co oa de Espanha na Amé ica Me idional” ou “Mapa das Co es” (1749) 16 Fon e: h p://www.a pd .d .go .b /map_i a_5/ (cons. 26/05/2021) 15 Os inqué i os se ecen is as, como e lexo da isão ilus ada, cons i uem, nes e con ex o, on es de eno me in e esse pa a a alia o modo como se en endia, em meados desse século, os e i ó ios e as espec i as on ei as. Es e ema se á al o de es udo monog á ico. 16 Veja-se, nes a e e ência, a ansc ição do documen o, assim como o exaus i o es udo de Jaime Co esão sob e a igu a de Alexand e de Gusmão, amplamen e ci ado po FERREIRA 2001. P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.19 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 O pe cu so ap esen ado deixa en e e a necessidade de p omo e abo dagens mul i ace adas em que a análise do pa icula não pe ca de is a o seu luga num conjun o mais amplo e ice- e sa . Como bem ale ou A. de Sousa (1998), é necessá io conside a ambém a eno me a iabilidade das i ências das comunidades on ei iças em unção do luga e da p óp ia conjun u a em que se p oduzem as in e acções. Ou seja: qualque análise que não conside e ou os espaços nos mesmos momen os, ou á ios momen os no mesmo espaço, co e o isco de se edu o a (c . GOMES, 1991) 17 . Ques iona emos mais adian e a impo ância des es p essupos os eó icos no es udo compa a i o ou elacional dos p ocessos his ó icos das on ei as, mas po ago a impo a e e i o segundo aspec o a a a nes e capí ulo: a dimensão empo al. Nes e âmbi o os p oblemas são, no undo, semelhan es, uma ez que a u ilidade de uma análise sinc ónica é iden i ica aspec os po ezes menos pe cep í eis numa abo dagem de longa du ação. É nes e sen ido que a imagem de an iguidade e es abilidade da on ei a luso-espanhola não pa ece esis i aos a gumen os que sob essaem da análise documen al de pequenas dispu as que iam além dos a ados e que chega am mesmo a di icul a a sua implemen ação. Es as mul iplica am-se du an e á ias décadas e não o am acilmen e esol idas, mas não é descabido a i ma que os con o nos dos dois países ibé icos se man i e am, g osso modo, ela i amen e es á eis. O es udo das on ei as, que na sinc onia, que na diac onia, não de e, po isso, cen a -se exclusi amen e na imagem que os Es ados p oduzem sob e os espaços pe i é icos, assim como numa pe cepção gene alizado a que não conside e di e enças ao ní el do impac o da cons ução das ex emas nas comunidades limí o es. Um es udo diac ónico em, po um lado, a pa icula idade de e ela a he e ogeneidade da ocupação des es espaços e a sua e olução, assim como as polí icas de delimi ação (GOMES, 1991). Uma abo dagem sinc ónica em, po ou o lado, a an agem de pe mi i a ca ac e ização da elação das sociedades com o e i ó io em dis in os pon os 17 Es a análise compa a i a pe mi e iden i ica a singula idade de casos como o Guadiana em elação a ou as egiões, como assinala o es udo de R.C. Gomes (1991) elabo ado sob e um impo an e le an amen o de documen os medie ais e mode nos. Sob e a on ei a do Guadiana, c ., en e ou os, GARCIA, 1983 e COSME, 1992. P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.20 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 da on ei a e em momen os conc e os como, po exemplo, as consequências da aplicação de um a ado de de inição de limi es, ou mesmo de inicia i as des inadas a es imula o po oamen o de uma á ea limí o e. As duas pe spec i as não são incompa í eis com a concepção des es luga es como espaços globais, já que ambas (mas especialmen e a p imei a) possibili am a análise a in e acção en e comunidades e as ans e ências ou os seus e ei os, dependendo do ipo de ques ões que se colocam ao objec o de es udo nou as egiões e, inclusi e, nou os con inen es. A í ulo de exemplo, o es udo das in e pene ações linguís icas eque uma isão diac ónica, enquan o a ca ac e ização de uma população que ocupa um luga a pa i de um de e minado momen o (c . sup a os cou os de homiziados) é mais p ecisa quando é pe spec i ada em sinc onia. A sua e olução e papel nas edes de in e acção são, po ou o lado, aspec os que de em se conside ados num espec o c onológico mais ala gado, de modo a a alia quais os e ei os a médio e longo p azo sob e o e i ó io en ol en e e as elações com o “ou o lado”. As di e en es abo dagens aos e i ó ios on ei iços não são, como podemos cons a a , incompa í eis, mas sim complemen a es. A undação de um núcleo populacional jun o ao e mo de um eino, ou mesmo os p i ilégios ou o gados pelos mona cas pa a ga an i a ixação de população em luga es es a égicos, cons i uem pila es undamen ais da de esa das on ei as e da con igu ação da paisagem aiana. Es as “ilhas de po oamen o” são, po ou o lado, ocos de in e acção com ou as comunidades que de inham, ou não, a mesma unção no ou o lado da linha. Ou seja, es as decisões polí icas são o pon o de pa ida pa a o desen ol imen o de no as ealidades cuja singula idade az com que as on ei as sejam, como e emos no p óximo capí ulo, espaços globais. 3. As on ei as como espaços globais A cons ução da His ó ia Global como e amen a me odológica não pode se dissociada da imagem, eiculada sob e udo a pa i da década de 90 do século XX, da ideia de um passado (e, logo, um u u o) pa ilhado em que os me cados e as elações humanas não conheciam on ei as e unciona am em P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.21 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 ede, e que um acon ecimen o num luga pode ia e epe cussões signi ica i as nou os 18 . Es a concepção ep esen a uma emancipação ace às na a i as nacionais que concebiam a his ó ia, as sociedades e as línguas como elemen os delimi ados po on ei as ígidas. As no as pe spec i as alo iza am, sob e udo, en elaçamen os e conexões que ul apassam os limi es e i o iais e que se desen ol em em edes mais amplas de con ac os e in e acções es imulados que pelo comé cio, que pelos mo imen os expansionis as, que pelas mig ações. Po ou as pala as, a His ó ia Global p omo e a descompa imen ação das his ó ias nacionais (CONRAD, 2019, p. 13 e seq.). Nas pala as de S. Con ad, es a o ma de esc e e a His ó ia “Foca-se […] nas ques ões de mobilidade e do in e câmbio, nos p ocessos que anscendem as on ei as e as ba ei as. Toma a in e conexão global como pon o de pa ida e az da ci culação e do in e câmbio de coisas, pessoas, ideias e ins i uições os seus p incipais obje os de análise” (CONRAD, 2019, p. 15-16) Os e i ó ios on ei iços são, p ecisamen e, ba óme os das elações in e nacionais e in e comuni á ias, pela sua capacidade de sepa a e, ao mesmo empo, de uni e pe mi i o con ac o, a hib idação, a in e dependência e a cons ução de iden idades pa ilhadas (as chamadas “iden idades de on ei as”). Es a análise, a nosso e , é impo an e num con ex o em que as on ei as polí icas deixa am de se ele an es nos con ex os nacionais, p incipalmen e no in e io do Espaço Schengen. 3.1. Compa ações e/ ou conexões Nos úl imos anos, a u ilidade das análises his ó icas compa a i as em indo a se o emen e ques ionada, uma ez que p oduzem oposições biná ias des inadas a iden i ica semelhanças e di e enças en e as chamadas unidades de compa ação, ao mesmo empo que pa ecem igno a o es udo das conexões en e elas (WERNER; ZIMMERMANN, 2006; BERG, 2013, p. 6-11; PARTHASARATHI, 2013; STEINMETZ, 2014; OLSTEIN, 2015; c . DETIENNE, 2010). Po ou o lado, o 18 O momen o em que se esc e e es e ex o é, al ez, aquele que mais e elou o ace o des a a i mação, uma ez que acon ecimen os que a ec am o plane a in ei o como a pandemia do Co id-19 exigem um e dadei o es o ço global, do mesmo modo que a p o ecção da na u eza. P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.22 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 obse ado de e ia man e uma posição equidis an e em elação aos elemen os ou p ocessos que analisa, o que equi ale a dize que de e ia conhece as duas unidades com o mesmo g au de p o undidade, o que nem semp e acon ece. O in es igado , po no ma, es á mais amilia izado com uma das unidades e con as a-a com a ou a, colocando ques ões que esol em os p oblemas do elemen o p incipal (c . WERNER; ZIMMERMANN, 2006, p. 33-34). Es es dois ipos de abo dagem – compa ações e in e conexões – são especialmen e ele an es no modo como se concebem as elações on ei iças, ou mesmo as p óp ias on ei as, enquan o enómenos de sepa ação ou comunicação. Ambos p opo cionam isões di e en es e a é mesmo con adi ó ias, simplesmen e po que um acon ecimen o pode jus i ica um e o ço da sepa ação e in e ompe um pe íodo de in e acção. Nes e sen ido, é ú il di e encia p ocesso e pe spec i a: a con li ualidade pode ob iga a olha duas en idades sepa adas po uma linha de on ei a como di e en es (c . in a , Sanlúca de Guadiana e Alcou im), mas a pe spec i a ac ual, ao alo iza es es espaços como luga es p i ilegiados de conec i idade e ans e ência a pa i das elações – nem semp e econhecidas – es abelecidas en e as suas gen es, ende a in e p e á-los como uma única en idade. As on ei as são, não obs an e, con ex os singula es cuja análise não é compa í el com in e p e ações edu o as do seu papel no con ex o das his ó ias egionais e nacionais. Po ou as pala as: a ideia de sepa ação é ú il pa a comp eende o po quê de uma undação num de e minado luga , ou mesmo de edi ícios que in ocam si uações de igilância mú ua, mas, po ou o lado, al si uação não pa ece e impedido o es abelecimen o de con ac os e a é mesmo cumplicidades en e um e ou o lado da linha que sepa a es es g upos humanos. Embo a o mé odo compa a i o enha sido uma das p imei as en a i as de concebe análises his ó icas ans on ei iças, acabou po se ques ionado a pa i da “his ó ia elacional” ou his oi e c oisée que, segundo os seus p incipais de enso es, a igu a-se como uma e amen a me odológica mais e icaz pa a anscende o “e ei o de on ei a” e ca ac e iza com maio con undência p ocessos de in e conexão e in e dependência ão ca ac e ís icos do diálogo ans on ei iço e da His ó ia in e nacional (CONRAD, 2019, p. 53 e seq.). P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.23 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 A análise elacional ou his ó ia pa ilhada da on ei a de e, po an o, concen a -se naqueles p ocessos sinc ónicos (se al o possí el, locais), enquan o o es udo compa a i o é ú il quando se obse am p ocessos em diac onia. Ambos podem incidi sob e espaços di e en es, mas es a duplicidade pode e ela -se de g ande u ilidade pa a alo iza a on ei a enquan o objec o de in es igação singula em e mos his ó icos, an opológicos e a é mesmo linguís icos. 3.2. Dinâmicas globais das conexões ans on ei iças “Los Se ninguéim,/ como eu,/ semo da on e a,/ neim daquí neim dalí,/ no es noso u suelo que pisamo/ neim a lingua que alemo”. Fabián Se e o Como espaços de con e gência das expe iências humanas e in e esses pa ilhados, as on ei as podem con e e -se em ema de es udo da his ó ia global pelo modo como e ocam polí icas e i ências elacionadas com a mobilidade e a in e conexão, ou mesmo como e lec em enómenos de escala mais ampla. É, nes e con ex o, pa icula men e in e essan e aze à colação as mig ações e as iden idades colec i as que se c iam em no os espaços ocupados (c . GUNGWU, 1997, p. 3) e na elação com as comunidades izinhas. Es es enómenos podem, con udo, es a condicionados pelo p óp io con ex o his ó ico, uma ez que es e pode impo , elimina ou desloca on ei as, ou mesmo es imula a deslocação de pessoas pa a um no o luga de modo a ga an i mais e icazmen e a sua ocupação, de esa e igilância. Po ou o lado, pode conduzi , como e e imos na in odução, ao abandono epen ino ou p og essi o de um luga quando aquela unção deixa, simplesmen e, de exis i . É, pois, opo uno assinala as pala as de E. Van de Vleu en e T. Feys, uma ez que esumem a discussão em epíg a e: “acco ding o he so-called ‘bo de pa adox’, bo de s igge legal and illegal c oss-bo de lows by i ue o he sepa a ions hey c ea e” (2016, p. 29) 19 . Es e pa adoxo pe mi e a i ma que as 19 “De aco do com o chamado ‘pa adoxo da on ei a’, as on ei as desencadeiam luxos ans on ei iços g aças às sepa ações que elas p óp ias c iam” ( adução dos au o es) P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.24 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 on ei as ge am dinâmicas globais de in e acção, conexão e ans e ência g aças ao ac o de delimi a em e i ó ios e de cons i uí em, g aças a essa condição, pon os de encon o. To na-se assim necessá io conside a as duas aces des es p ocessos: a p imei a em a e com negociações e decisões que conduzem à delimi ação e i o ial; a segunda oca-se sob e udo nas elações sociais e económicas, bem como nos enómenos de hib idização e mul icul u alidade comuns nos espaços on ei iços. Es as hib idizações, e lec idas, po exemplo, na paisagem linguís ica dos e i ó ios on ei iços ibé icos (MEDINA GARCÍA, 2006, p. 720-721; PONS, 2014), es emunham elações sociais que ão mui o além do discu so o icial, do mesmo modo que a p á ica do con abando (FREIRE e al., 2009), e que cons i uem o que Medina Ga cía de iniu como “ on ei a da ida quo idiana”. Es es con ex os e con ac os são, consequen emen e, p opícios à c iação de iden idades mis as que não se adequa am às (nem se e iam nas) imagens que as en idades nacionais c ia am sob e os seus izinhos a pa i dos pode es cen ais (MEDINA GARCÍA, 2006, p. 719-720). O oco no es udo dos con ac os e in luências ecíp ocas pode e ela a exis ência de enómenos globais de con luência, à escala local e ao longo de á ios séculos, que dão o igem a casos pa icula men e in e essan es, como pa ece se o caso da cidade de Oli ença/ Oli enza, que em, hoje, um pa imónio ma e ial e ima e ial que es emunha a elação com dois países di e en es, ao mesmo empo que se dis ingue deles pelo modo como cons uiu uma iden idade singula . “Não sou po uguês nem sou espanhol, sou oli en ino” (Pablo González, com. Pe s.) é, al ez, a exp essão que melho sin e iza es a elação de pe ença com um espaço cuja iqueza his ó ica se de e, p ecisamen e, às ci cuns âncias pelas quais es a ila ex emeña passou desde a sua undação. No ou o lado do A lân ico, encon amos uma si uação pa ecida na on ei a en e o B asil e o U uguai, ma cada pa cialmen e po cu sos lu iais. Nes e caso, os limi es coloniais imp ecisos e os sucessi os li ígios e i o iais di imidos en e ambos os países o igina am uma ealidade híb ida com uma iden idade pa ilhada, nem semp e econhecida, plasmada no uso do denominado “Po uñol i ense” ou “Po unhol” (STURZA, 2019), cuja singula idade e alo social conduziu, P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.25 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 ecen emen e, a de endê-la pe an e a UNESCO como pa imónio cul u al ima e ial (ALBERTONI, 2019). Es es dois casos demons am que as iden idades de on ei a nem semp e se adequam à igidez das elações de pe ença ansmi idas nos discu sos e dispu as dos Es ados-nação, e que podem se palco de enómenos linguís icos de g ande ele ância, ais como o Po uguês oli en ino (en e ou os VASCONCELOS, 1890-1892; CARRASCO, 2007; FERNANDES, 2017), que se encon a nes e momen o ambém em p ocesso de classi icação como Bien de In e és Cul u al (BIC) em Espanha. Chama, nes e con ex o, a a enção o ac o de es e pa imónio se , em boa medida, o esul ado da con luência de duas línguas globais e e ela uma hib idização comum nas á eas on ei iças (PONS, 2014), al como se cons a a nou os luga es da Península Ibé ica (CARRASCO, 2007) e no “Po uñol” alado em á ios luga es da Amé ica do Sul (c . LIMÃO, 2015). Os enómenos linguís icos não são, ob iamen e, os únicos, já que ou os pa imónios, nomeadamen e o con abando, ambém uni am pessoas dos dois lados da on ei a luso-espanhola, assim como nas suas co esponden es ealidades ansoceânicas, e o am, igualmen e, esponsá eis pela o mação de iden idades compósi as e ans on ei iças ou, se p e e i mos, de p ocessos sociais que ul apassa am, ao longo de á ias décadas, os limi es de inidos pelos Es ados Ibé icos. 4. Glocaliza a on ei a do Baixo Guadiana À luz dos p essupos os eó icos que emos indo a ap esen a ao longo des as linhas, o Baixo Guadiana cons i ui um objec o de es udo de inegá el in e esse. A sua na egabilidade en e a oz e, sensi elmen e, a á ea de Mé ola, onde ambém con luíam o as e es es, ez des e io uma ia de con ac o en e o in e io alen ejano e andaluz, o A lân ico e o Medi e âneo e, consequen emen e, um cená io p opício à con luência de in o mações, gen es e bens de á ios quad an es do Velho Mundo. O es udo a queológico des es con ac os ao longo do an igo Anas e ela es a po encialidade, p incipalmen e em sí ios de ocação po uá ia como Cas o Ma im, Ayamon e e Mé ola. Es es sí ios o am in ensamen e ocupados e P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.32 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 na a i as pá ias sob e os limi es e i o iais, que em sinc onia que em diac onia (c . CONRAD, 2019, p. 159 e seq.). Como imos ao longo des as linhas, a his ó ia das on ei as não se ci cunsc e e aos á ios p ocessos de de inição e negociações, inci ando a e isi a os documen os e ap o unda os es udos a queológicos que de inam com cla eza as á ias ases de ocupação des es e i ó ios. Como se pôde cons a a , a his ó ia das on ei as chega mesmo a con undi -se com a his ó ia da o mação das nacionalidades e das á ias ans o mações da imagem que o Es ado inha de si mesmo e do alcance do seu pode . É po es e mo i o que a de inição das on ei as é um ema indiscu i elmen e ele an e nas g andes sín eses de His ó ia dos einos peninsula es, azendo pa e, hoje, de uma amplíssima bibliog a ia. Con udo, pelo que pudemos ap ecia na sua consul a, os abalhos ci cunsc e em-se aos espec i os âmbi os nacionais sem que se enha dado, a é ao momen o, uma con luência que nos pa ece salu a . Pa adoxalmen e, a análise da on ei a como “ ac o geog á ico” (LÓPEZ TRIGAL, 1984; GASPAR, 1987) é, nes e con ex o his o iog á ico, mais ecen e e só começou a da os p imei os passos nos inais da década de 70 do século XX (c . ALBUQUERQUE; GARCÍA FERNÁNDEZ, 2019), ab indo caminho pa a no os olha es sob e o es ado de e i ó ios ma cados po séculos de his ó ias das elações in e nacionais e in e comuni á ias. Vol amos, com is o, ao p incípio des e ex o e ao que e e íamos como o e ei o das conjun u as his ó icas sob e os e i ó ios de on ei a e a o mação de con ex os singula es cuja iqueza pa imonial é indiscu í el. Os “sabe es” e os “ ala es” aianos co em, hoje, o isco de desapa ece de e i ó ios cujo abandono e en elhecimen o é mais que e iden e, deixando a ás de si séculos, milénios, de con ac os, ans e ências, iden idades e mani es ações híb idas. P opo ciona , pe an e es es cená ios, e amen as pa a a alo ização cul u al des as á eas, mesmo num con ex o de pe da de impo ância das on ei as in e nas eu opeias, pode se um pon o de pa ida pa a ga an i a sus en abilidade e a esiliência des es e i ó ios e, sob e udo, des as comunidades. P ocessos locais e His ó ia Global no es udo da Raia do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) Ped o Albuque que, F ancisco José Ga cía Fe nández Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e010x, jan./ab . 2022 p.33 Tempo e A gumen o, Flo ianópolis, . 14, n. 35, e0102, jan./ab . 2022 Re e ências ALBERTONI, Pablo. Rei indicaciones glo opolí icas en espacios de ensión: la on e a u uguayo-b asileña, GLOTTOPOL. Re ue de sociolinguis ique en ligne, Rouen, 32, p. 61-75, 2019. ALBUQUERQUE, Ped o; GARCÍA FERNÁNDEZ, F ancisco José. Mé ola en e el B once Final y el inicio de la p esencia omana p oblemas y pe spec i as de in es igación. Habis, Se ilha, 48, p. 7-30, 2017. ALBUQUERQUE, Ped o; GARCÍA FERNÁNDEZ, F ancisco José. A queólogos (s)em on ei as: o P ojec o ANA-lise e o es udo do po oamen o do Baixo Guadiana (Po ugal e Espanha) en e os séculos VIII a.C. e I d.C. Memó ia em Rede , Pelo as,11(21), p. 131-157, 2019. ALBUQUERQUE, Ped o; GARCÍA FERNÁNDEZ, F ancisco José; PALMA, Ma ia de Fá ima. 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