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A evolução do investimento directo estrangeiro em/de Portugal

Correia, Elisabete Maria Fonseca; Silva e Sousa, Sara Rute Monteiro da

Abstract

The present work essentially intends to proceed to a characterization of the main flows of foreign direct investment (FDI) that structuralize the Portuguese economy. Initially, it is proceeded one brief historical retrospect, since the middles of century XIX until the accession of Portugal in the EEC, fact of extreme importance in the analysis of the FDI flows. Next, it is presented an analysis of the evolution of the FDI flows in/of Portugal in the period understood between 1996 and 2002. For the same period, it is made the characterization of the FDI flows, namely in relation to the sectors distribution and the geographic orientation of the flows. Finally, it is proceeded one brief reflection on the impact of FDI in our economy.

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21 A EVOLUÇÃO DO INVESTIMENTO DIRECTO ESTRANGEIRO EM/DE PORTUGAL Sara Rute Monteiro da Silva e Sousa Elisabete Maria Fonseca Correia ABSTRACT The present work essentially intends to proceed to a characterization of the main flows of foreign direct investment (FDI) that structuralize the Portuguese economy. Initially, it is proceeded one brief historical retrospect, since the middles of century XIX until the accession of Portugal in the EEC, fact of extreme importance in the analysis of the FDI flows. Next, it is presented an analysis of the evolution of the FDI flows in/of Portugal in the period understood between 1996 and 2002. For the same period, it is made the characterization of the FDI flows, namely in relation to the sectors distribution and the geographic orientation of the flows. Finally, it is proceeded one brief reflection on the impact of FDI in our economy. KEY WORDS: FDI, Portugal, Evolution, Impact. 1. INTRODUÇÃO O presente trabalho pretende essencialmente proceder a uma caracterização dos principais fluxos de IDE que estruturam a economia portuguesa. Inicialmente, procede-se a uma breve retrospectiva histórica, desde os meados do século XIX até à entrada de Portugal na CEE, facto de extrema importância na análise dos fluxos de IDE. De seguida, é apresentada uma análise da evolução dos fluxos de IDE em/de Portugal no período compreendido entre 1996 e 2002. Para o mesmo período, é feita a caracterização dos fluxos de IDE, nomeadamente em relação à repartição sectorial e à orientação geográfica dos fluxos. Por último, procede-se a uma breve reflexão sobre o impacto do IDE na nossa economia. 2. BREVE RETROSPECTIVA HISTÓRICA: DO SÉCULO XIX À ENTRADA DE PORTUGAL NA CEE Portugal não escapou à evolução geral do fenómeno do investimento estrangeiro e, também por cá, desde a segunda metade do século XIX, esse afluxo de capitais estrangeiros começou a atingir uma certa importância, se bem que revestindo características bastante diferentes das que actualmente apresenta. A Inglaterra foi a primeira potência a investir em Portugal. Para além de investimentos de portfólio, em títulos de dívida pública, os ingleses dominavam a banca, os transportes (à excepção dos marítimos) e as comunicações telefónicas e telegráficas. Também o sector dos seguros estava quase por completo na posse de estrangeiros (Carneiro, M., 1991). CITIES IN COMPETITION 22 No final do século XIX, começam a surgir também os belgas (indústrias extractivas e cortiça), os alemães e os franceses (comércio, fundamentalmente, e alguma indústria). Os estrangeiros investiam essencialmente no sector extractivo e comercial, mas preferiam realizar a transformação das matérias primas nos seus países de origem, inviabilizando deste modo o desenvolvimento e a industrialização do nosso país. Este tipo de comportamento desencadeou diversas reacções: por um lado, muitos contestavam este procedimento, por outro lado, outros achavam que era “inevitável” permitir a livre entrada de capitais estrangeiros, única forma de aumentar de forma satisfatória a nossa formação de capital e de fazer face ao forte déficit na balança comercial (Carneiro, M., 1991). Quanto ao Estado, este não assumia, por sua vez, e de acordo com a doutrina dominante na época, qualquer papel dirigente ou interveniente na entrada de capitais estrangeiros ou na promoção de empresas nacionais. A viragem dá-se a partir do final dos anos 20, provavelmente devido à conjugação de dois acontecimentos, um a nível interno e outro a nível externo. A nível interno, surge então o Movimento do 28 de Maio de 1926; a nível externo, surge a Grande Depressão em 1929. Com a Grande Depressão, o comércio mundial diminui drasticamente e a atitude dos países face às trocas internacionais muda: surge uma vaga de nacionalismo e de autarcismo que faz com que se considere que, uma vez que não é possível que as regras do jogo sejam respeitadas por todos, é melhor trabalhar com o mercado nacional em regime proteccionista (Carneiro, M., 1991). Em Portugal, o Movimento do 28 de Maio vai proclamar e fomentar as ideias nacionalistas, com fortes preocupações em relação às questões de soberania. Institui-se então um regime autoritário e conservador e a atitude face ao investimento directo estrangeiro muda radicalmente (Carneiro, M., 1991). Com Salazar no poder, a sua doutrina preconizava uma forte intervenção governamental na economia e considerava que a salvaguarda de qualquer interferência estrangeira era um valor primordial. Daí que os novos investimentos estrangeiros não fossem muito bem vistos (Matos, S., 1973). Surge a Lei do Condicionamento Industrial em 1937 (que irá vigorar até 1974) e com ela, o investimento estrangeiro é afectado: qualquer transferência de propriedade de empresas de nacionais para estrangeiros, arrendamento ou licenciamento era passível de autorização ministerial, quer no Continente quer nas Colónias. Embora Salazar não hostilizasse de uma forma aberta e definida o capital estrangeiro (agia diplomaticamente) avançava a passos largos para um maior controle sobre as empresas com capital estrangeiro, e exigia pelo menos uma comparticipação portuguesa no capital social dessas empresas (Carneiro, M., 1991). Em Abril de 1943 é publicada a Lei da Nacionalização de Capitais que constituiu uma severa limitação ao capital estrangeiro, estabelecendo que apenas as empresas portuguesas (isto é, as que tivessem pelo menos 60% do seu capital social na posse de nacionais e cujos gestores fossem na maioria portugueses) poderiam explorar serviços públicos, actividades em regime de exclusivo e outras actividades que interessavam fundamentalmente à defesa do Estado ou à economia da Nação (Simões, V., 1985). Após a 2ª Grande Guerra, as condições internacionais tinham contudo sofrido profundas modificações: os nacionalismos e proteccionismos face ao Comércio Internacional estavam em vias de desaparecimento, a NOTES ON STRATEGY, PLANNING AND INTERNATIONALIZATION 23 reconstrução das diversas economias afectadas pela guerra exigia uma maior integração a nível mundial (Carneiro, M., 1991). Em Portugal, o atraso industrial em relação ao resto da Europa mantinha-se. O país mantém-se afastado da onda de liberalismo que percorre então a Europa, da integração económica europeia imposta pelo plano Marshall e da liberalização das trocas comerciais e movimentos monetários (Matos, S., 1973). Surgem, apesar disso, alguns indícios de uma certa liberalização: por um lado, é publicada a Lei 2005 (de Março de 1945) onde aparecem as primeiras tentativas consistentes de considerar o problema tecnológico e tentar atenuar o atraso nacional; por outro, assiste-se a um progressivo relaxamento da Lei do Condicionamento Industrial (Carneiro, M., 1991). Dadas as fortes ligações económicas existentes entre Portugal e os restantes países europeus, era impossível a Portugal isolar-se durante muito mais tempo e, face à alternativa de se unir à CEE ou à EFTA, várias razões de ordem económica e política levaram a optar pelo segundo organismo. Esta entrada de Portugal na EFTA (criada pela Convenção de Estocolmo) veio a revelar-se importante em termos de investimento directo estrangeiro: os possíveis investidores deparavam agora com um mercado alargado, o que fazia realçar as possíveis vantagens de localização no nosso país – salários baixos, mão-de-obra perfeitamente controlada, incentivos ao investimento e fortes barreiras à entrada de novos concorrentes. Refira-se, ainda, que a assinatura de tal acordo implicava a eliminação de quaisquer barreiras existentes à entrada de empresas oriundas de países membros dessa associação, facilitando a entrada das Multinacionais (Carneiro, M., 1991; Lopes, J., 1996). Assiste-se, simultaneamente, a uma mudança de atitude por parte do Governo no sentido de um maior desenvolvimento industrial. O Governo torna-se também mais sensível a certos problemas, como o atraso tecnológico e a falta de mão-de-obra especializada, e tenta, através de alguns projectos, atrair os investidores estrangeiros (Carneiro, 1991). Surge então a primeira tentativa de regulamentação de operações de certo modo abrangíveis pelo conceito de investimento directo estrangeiro: normas aprovadas pelo Conselho de Ministros para os Assuntos Económicos de 29 de Junho de 1960, onde se tenta estabelecer um certo controle sobre as importações de capitais efectuadas por não residentes que até aí se efectuavam pela simples venda de moeda estrangeira ao sector bancário ou mesmo a particulares (Carneiro, M., 19991). São também publicados inúmeros Decretos-Lei regulamentando os movimentos de capitais estrangeiros num sentido oposto ao da Lei da Nacionalização dos Capitais. Em 1965, é publicado o Decreto-Lei n.º 46312, de 28 de Abril, que estabelecia a autorização automática das entradas de capitais para investimentos directos num certo número de sectores (especificados no despacho de 21 de Setembro do mesmo ano). O mesmo diploma definia também as garantias habituais para aqueles investimentos: tratamento não discriminatório, indemnização em caso de expropriação, repratiamento de lucros e do produto de liquidação de investimentos. Além disso, admitia que os investimentos directos estrangeiros poderiam ser estimulados através de incentivos fiscais (Lopes, J., !996). CITIES IN COMPETITION 24 Em finais dos anos 60, a preocupação com o investimento estrangeiro leva a que sejam assinados os primeiros tratados visando impedir a dupla tributação dos lucros, em Portugal e no país de origem das Multinacionais (Carneiro, M., 1991). Entre 1961 e 1967, traduzindo este novo ambiente, a entrada de capitais estrangeiros em Portugal foi cerca de dez vezes superior ao montante dos vinte anos anteriores (Matos, S., 1973). Com a substituição de Oliveira Salazar por Marcelo Caetano em 1968, há uma maior preocupação com o problema da obtenção de nova tecnologia, e começa-se a encarar a possibilidade de, através do investimento directo estrangeiro, poder obter também essa tecnologia e não apenas capital, apoio político ou estímulo à retoma de confiança de investidores nacionais. Entretanto, a tendência para Portugal se integrar no contexto europeu torna-se mais evidente com a assinatura do acordo de comércio livre com a CEE em 1972, através do qual, o nosso país beneficiava de algumas vantagens face a um bloco económico de crescente poderio. No início dos anos 70, acentua-se portanto a liberalização económica e com ela, o investimento directo estrangeiro, sobretudo de origem da Europa Ocidental e dos EUA. Além da atitude de maior abertura por parte do Governo, e uma vez que a economia portuguesa inspirava uma certa confiança aos investidores estrangeiros (havia estabilidade monetária e política, fortes reservas cambiais e nenhuma restrição à repartição dos lucros), outras razões atraíram o grande volume de investimentos estrangeiros a que se assistiu na altura: os incentivos propostos (Decreto-Lei n.º 46312 de 1965), os baixos salários em relação ao resto da Europa, a possibilidade de entrada num mercado alargado, ou seja, todo um conjunto de vantagens locacionais oferecidas pelo nosso país a tomar em consideração pelas Multinacionais (Carneiro, M., 1991). Contudo, em 1974, com a Revolução do 25 de Abril, a situação política, social e económica é fortemente abalada e, como consequência, assiste-se a uma forte retracção dos investimentos directos estrangeiros, que se prolongou até ao final da década de 70. Refira-se, no entanto, que, apesar dos ataques aos grupos empresariais privados nacionais e da orientação socializante que predominou durante esses anos, houve o cuidado de não hostilizar os investidores estrangeiros. Por isso, os capitais estrangeiros escaparam não só às nacionalizações dos bancos, das companhias de seguros e de outras empresas, mas também à reforma agrária (Lopes, J., 1996). Internacionalmente, a Revolução portuguesa ocorreu num período de recessão: a crise petrolífera que surgira em 1973 prolonga-se por 1974 e acaba por atingir a pequena e dependente economia portuguesa. Ainda em 1974, a Lei do Condicionamento Industrial é abolida, no entanto é a própria Constituição Portuguesa (1976) a manter um prolongamento desse condicionamento, entretanto abolido, ao declarar como irreversíveis as conquistas expressas pelas nacionalizações (artigo 83º) e ao declarar que o objectivo é a transição para o socialismo (artigo 2º). Estas medidas não encorajam de modo algum novos investimentos estrangeiros: no 3º trimestre de 1975, as intenções de investimento na indústria transformadora eram de 490 mil contos (criadoras de 1872 postos de trabalho), enquanto no mesmo período em 1973 esse valor era de 3,8 milhões de contos ( 9454 postos de trabalho) e em 1974, o valor era de 3,2 milhões de contos (8579 postos de trabalho) (Carneiro, M., 1991). NOTES ON STRATEGY, PLANNING AND INTERNATIONALIZATION 25 Em 1976 e 1977, começou-se a caminhar em sentido inverso: é publicado o 1º Código de Investimento Estrangeiro (Decreto-Lei n.º 239/76) que acabou, contudo, por ser revisto posteriormente pelo Decreto-Lei n.º 348/77, tornando-se num código mais permissivo e reforçando as garantias oferecidas aos investidores estrangeiros em matéria de repatriação de lucros e de capital, de riscos de nacionalização ou expropriação e de tratamento não discriminatório em relação a empresas portuguesas (Lopes, J., 1996). Ainda em 1977, é criado o Instituto de Investimento Estrangeiro cuja função principal era a de gerir um sistema de autorizações prévias aos pedidos de investimentos directos e outras entradas de capitais de médio e longo prazo (Mendonça, A., 1997). As autorizações eram dadas caso a caso, analisando-se em cada projecto factores como a criação de emprego, a utilização de produtos nacionais, a melhoria da Balança de Pagamentos, a introdução de tecnologia mais avançada...(Carneiro, M., 1991). Todavia, o investimento estrangeiro só em 1978, em termos de fluxos, atinge níveis verificados em 1974, o que significa que houve uma diminuição em termos absolutos entre 1974 e 1978 (Simões, V., 1985). Em 1978, dá-se uma viragem no investimento directo estrangeiro com o projecto Renault: este foi, de facto, um dos projectos de maior dimensão e mais estruturante levado a cabo neste período, em Portugal. Em 1980, através da Resolução n.º 382/80 de 28 de Outubro, publica-se mesmo uma lista de sectores prioritários para a obtenção de investimento directo estrangeiro. Esta Resolução foi considerada como um primeiro passoem direcção à liberalização dos movimentos de capitais: a abertura da economia portuguesa ao capital estrangeiro sobretudo através do investimento directo, poderia consentir uma melhoria da estrutura produtiva, quer pela obtenção de acesso a novos mercados, quer pela utilização mais eficiente do nosso recurso mais abundante, ou seja, a mão-de-obra. Desta abertura esperava-se essencialmenteque se verificasse a introdução de novas tecnologias (Carneiro, M., 1991; Banco de Portugal, 1980). Ao mesmo tempo que as regras do jogo se clarificavam e a situação política era cada vez mais estável, outros factores atraíam fortemente o investimento directo estrangeiro em Portugal: estávamos cada vez mais perto de entrar na CEE; assistia-se a uma tendência para os salários reais continuarem a descer; o risco dos investimentos era reduzido; existiam sistemas de incentivos particularmente interessantes; a situação geográfica em relação aos principais mercados europeus, mais favorável do que a da maior parte dos países em vias de industrialização e uma proximidade linguística e cultural com os mercados africanos. Saliente-se, também, o comportamento político cada vez mais favorável a este aumento do investimento directo estrangeiro, traduzindo-se por montantes crescentes, de ano para ano, autorizados pelo Instituto de Investimento Estrangeiro (Carneiro, M., 1991; Lopes, J., 1996). Como reflexo destes factores, entre 1980 e 1985, as entradas de investimentos directos estrangeiros animaram significativamente, contudo, o grande salto viria a dar-se a 1 de Janeiro de 1986, quando Portugal se torna finalmente membro efectivo da CEE. Assiste-se então, a partir da segunda metade dos anos 80, a um aumento substancial do investimento directo estrangeiro em Portugal. Com Portugal na CEE, surgiam novas perspectivas aos investidores estrangeiros: aumentou a sua confiança na estabilidade política, económica e social e deu-lhes maior garantia de que as indústrias orientadas para a exportação não estavam expostas a riscos de restrições às suas vendas nos mercados europeus. Outros factores associados à nossa entrada na CEE poderão igualmente ter contribuído para esta evolução, nomeadamente, o novo Código do Investimento Estrangeiro publicado em Julho de 1986 (Decreto-Lei n,º 197- CITIES IN COMPETITION 26 D/86): em perspectiva estava o “potenciar os efeitos positivos do investimento estrangeiro em Portugal...”. Neste Código, conforme às normas de liberdade de estabelecimento e não discriminação vigentes na CEE, se consagra a substituição da autorização caso a caso para o investimento estrangeiro, por um regime de declaração prévia. Ao Estado português reservava-se apenas o direito de serinformado dos projectos de origem estrangeira, através de uma dclaração preliminar a prestar ao Instituto de Investimento Estrangeiro (Carneiro, M., 1991; Banco de Portugal, 1986 e 1987). Também como consequência da nossa entrada na CEE, é também publicado o DecretoLei n,º 214/86 de 2 de Agosto (liberdade de estabelecimentos nacionais e estrangeiros em todos os sectores económicos abertos à iniciativa privada) e um novo Código das Socirdades Comerciais (Novembro/86) (Carneiro, M., 1991). Mas a entrada de Portugal na CEE também foi fulcral para Portugal enquanto investidor no estrangeiro. Ainda que a partir de valores iniciais extremamente reduzidos, o investimento directo português no estrangeiro cresceu então mais rapidamente do que o da generalidade dos países membros da CEE. Contudo, apesar deste aumento, verificamos que Portugal continuou a ser um importador de capitais. 3. ANÁLISE DOS FLUXOS DE IDE 3.1. ANÁLISE DA EVOLUÇÃO NO PERÍODO DE 1996 A 2002 Comecemos então por analisar os valores relativos aos fluxos de IDEP (Investimento Directo Estrangeiro em Portugal), quer em termos brutos quer em termos líquidos, de 1996 a 2002: Figura n.º 1: Fluxos de IDE em Portugal (em milhares de euros) 0 2000000 4000000 6000000 8000000 10000000 12000000 14000000 16000000 18000000 20000000 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 Valores Líquidos de IDEP Valores Brutos de IDEP Fonte: GEPE com base no Banco de Portugal (Junho de 2003) Antes de mais, convém esclarecer a diferença entre os valores brutos e os valores líquidos do IDEP: o valor bruto corresponde ao crédito incluído na balança financeira, ou seja, corresponde à entrada de capitais, enquanto que o valor líquido corresponde ao saldo incluído na balança financeira, ou seja, à diferença entre o investimento (entrada de capitais) e o desinvestimento (saída de capitais). NOTES ON STRATEGY, PLANNING AND INTERNATIONALIZATION 27 De acordo com os valores apresentados no Gráfico n.º 1, verificamos que existe uma forte divergência entre os valores líquidos e os valores brutos de IDEP, facto justificado pelos elevados montantes de desinvestimento. Constatamos também que, em termos líquidos, de 1996 a 1998 assiste-se a um aumento do IDEP (de 1996 a 1997 o IDEP cresceu a uma taxa de 89,14%, de 1997 a 1998, o crescimento já não foi tão acentuado – 30,43%). Em 1999, assistimos a uma descida acentuada no IDEP, apresentando um decréscimo de 59,01% relativamente ao ano anterior. Em 2000, houve um forte aumento do IDEP, verificando-se um crescimento na ordem dos 536,29% relativamente ao ano anterior. De 2000 a 2002, o IDEP tem vindo a diminuir, apresentando no último ano de análise o valor de 4 574 040 milhares de euros. Esta contracção do IDEP nos últimos dois anos de análise deve-se a várias razões, nomeadamente ao abrandamento da actividade económica mundial e à concorrência dos países da Europa Central e Oriental em termos de capatação do investimento estrangeiro. Quanto ao IDPE (Investimento Directo Português no Estrangeiro), vejamos então os valores apresentados pelo Gráfico que se segue: Figura n.º 2: Fluxos de IDP no estrangeiro (em milhares de euros) 0 2000000 4000000 6000000 8000000 10000000 12000000 14000000 16000000 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 Valores Líquidos de IDPE Valores Brutos de IDPE Fonte: GEPE com base no Banco de Portugal (Junho de 2003) O valores apresentados para o IDPE de 1996 a 2002 permitem-nos constatar que, à semelhança do IDEP, as diferenças entre os valores brutos e os valores líquidos são acentuadas, sobretudo a partir do ano de 1998, inclusivé. Também à semelhança do que constatamos para os fluxos líquidos de IDEP, os fluxos de IDPE, em termos líquidos, apresentam uma evolução crescente até 1998. Em 1999, assiste-se a uma descida do IDPE (houve um decréscimo de 13,95% relativamente ao ano anterior). Em 2000, vericou-se um forte aumento do IDPE, assistindo-se a um crescimento na ordem dos 174,18% relativamente ao ano anterior. Apesar de um ligeiro aumento do IDPE em 2001, os valores sofrem uma descida acentuada no último ano de análise, atingindo o valor de 3 725 853 milhares de euros. CITIES IN COMPETITION 28 3.2. ANÁLISE DA REPARTIÇÃO SECTORIAL Comecemos por analisar os valores referentes aos fluxos de IDE em Portugal por sector de actividade: Quadro n.º1: Fluxos de IDE em Portugal (valores líquidos, em milhares de euros) Por sector de actividade 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 Agric., silvic. e pesca 9 467 5 186 7 651 5 413 14 864 17 761 2 858 Ind. Extractivas - 8 107 - 2 401 - 12 815 - 3 575 16 040 12 255 6 137 Ind. Transformadora 112 184 248 003 - 197 936 - 26 937 181 906 676 357 798 632 Electric., gás e água - 61 888 - 81 733 267 074 - 52 910 - 54 333 9 179 6 870 Construção 36 995 9 864 34 099 43 664 38 178 96 318 - 3 312 Comércio,aloj,restaur. 366 325 728 764 365 906 323 120 641 782 3 102 113 309 046 Transp., comunicações 69 948 551 388 86 744 216 928 470 776 307 548 493 155 Act. Financeiras 163 488 265 448 235 420 - 554 760 1 310 179 338 782 896 853 Act. Imob., serv.emp. 372 620 374 981 1 939 148 1 091 488 4 108 380 1 784 093 1 634 524 Outras actividades 83 969 66 182 99 356 115 374 639 219 240 118 377 641 Fonte: GEPE com base no Banco de Portugal (Junho de 2003) Figura n.3: Fluxos de IDE em Portugal por sector de actividade (valores brutos, em valores percentuais, para o ano de 2002) 0% 1% 21% 4% 5% 2% 32% 35% 0% 0% Agric., silvic. e pesca Ind. Extractivas Ind. Transformadora Electric., gás e água Construção Comércio, aloj. e restauração Transp., comunicações Act. Financeiras Act. Imob., serv às empresas Outras actividades Fonte: GEPE com base no Banco de Portugal (Junho de 2003) O Quadro n.º 1 e a Figura n.º 3 mostram-nos a distribuição dos fluxos de IDE em Portugal por sectores de actividade, em termos líquidos e em termos brutos respectivamente. Através da análise dos valores apresentados no Quadro n.º 1, podemos constatar que, no período em análise, assistiu-se a variações em relação ao peso dos diversos sectores de actividade enquanto receptores de IDE. Apesar das referidas variações, podemos concluir, através da Figura n.º3, que no último ano de análise, existem alguns sectores que se destacam. Deste modo, na distribuição por sectores, a indústria transformadora, em 2002, permaneceu responsável por uma parte substancial do investimento bruto realizado (35%). Nos serviços incidiu também grande parte do IDE, repartido por vários subsectores: comércio, alojamento e restauração (32%); actividades imobiliárias e serviços prestados às empresas (21%); actividades financeiras (5%); e transportes e comunicações (4%). Note-se, uma vez mais que, as eventuais diferenças entre os fluxos líquidos e os fluxos brutos devem-se aos eventuais movimentos de desinvestimento. NOTES ON STRATEGY, PLANNING AND INTERNATIONALIZATION 29 Quanto ao IDP no estrangeiro, vejamos o quadro e a figura que se seguem. Quadro n.º2: Fluxos de IDP no estrangeiro (valores líquidos, em milhares de euros) Por sector de actividade 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 Agric., silvic. e pesca 961 3 051 4 689 1 079 4 625 6 769 2 197 Ind. Extractivas 1 637 - 8 436 - 16 070 672 45 14 3 Ind. Transformadora 70 909 86 463 75 234 129 780 405 466 123 184 167 258 Electric., gás e água 212 374 - 8 818 621 817 12 680 1 673 2 845 3 078 Construção 3 094 10 947 42 194 61 314 67 687 24 567 - 4 132 Comércio,aloj.restauração 13 355 119 030 37 067 75 626 92 385 3 183 949 47 944 Transp., comunicações 4 301 194 462 - 618 791 - 469 637 - 1 439 547 - 32 563 6 119 Act. Financeiras 125 537 322 622 256 038 - 827 132 186 963 2 028 359 - 142 863 Act. Imob., serv.empresas 160 201 921 966 3 101 461 3 795 269 8 801 031 3 074 806 3 617 546 Outras actividades 11 741 41 634 - 47 796 194 229 33 319 40 854 28 697 Fonte: GEPE com base no Banco de Portugal (Junho de 2003) Figura n.º 4: Fluxos de IDP no estrangeiro por sector de actividade (valores brutos, em valores percentuais, para o ano de 2002) 1%0% 85% 1% 8% 1% 1% 3% 0% 0% Agric., silvic. e pesca Ind. Extractivas Ind. Transformadora Electric., gás e água Construção Comércio, aloj. e restauração Transp., comunicações Act. Financeiras Act. Imob., serv às empresas Outras actividades Fonte: GEPE com base no Banco de Portugal (Junho de 2003) Antes de mais, convém salientar que na análise da repartição sectorial do IDPE, deparou-se com alguma dificuldade na interpretação da evolução dos valores disponíveis por sector de actividade da empresa investidora, dado que estes valores poderão não traduzir a verdadeira realidade na origem sectorial dos fundos nacionais. Muitas vezes, o investimento directo no exterior dos grupos portugueses é realizado através das Sociedades Gestoras de Participações Sociais dos grupos, o que se traduz na contabilização dos movimentos de capitais, de acordo com a CAE-Rev. 2 (Classificação Portuguesa das Actividades Económicas), no subsector dos Serviços, “Outras Actividades de Serviços Prestados Principalmente às Empresas”, quando a verdadeira origem sectorial dos fundos corresponde, nomeadamente, aos sectores da “Indústria”, “Produção, Distribuição de Electricidade e àgua”, “Transportes e Comunicações”, entre outros (Claro, M.; Escária, S., 2003). Apesar das reservas descritas anteriormente, podemos tirar algumas conclusões da análise dos valores do Quadro n.º 2 e da Figura n.º 4. Nomeadamente, podemos constatar que, em 2002, em termos brutos, o sector dos serviços das actividades imobiliárias e serviços às empresas foi responsável por 85% dos fluxos de investimento , seguido pelo sector das actividades financeiras (8%) e pelo sector da indústria transformadora, com 3% dos fluxos. Note-se, contudo, que o sector das actividades financeiras apresentaram, em 2002, um forte montante de desinvestimento, o que justifica o valor negativo, em termos líquidos.