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A organização militar (stratiotiké sýntaxis) e a estrutura econômica e política do império Persa na Ciropédia de Xenofonte

de Simoni Milione, Vitor

Abstract

Este artigo tem como objetivo analisar um aspecto da filosofia política de Xenofonte comumente negligenciado pelos intérpretes: a organização militar, isto é, a hierarquia e a cadeia de comando, como o elemento que oferece a estrutura econômica e política do império Persa descrito na Ciropédia. A transposição desse modelo militar hierárquico confere à estrutura do Estado persa um caráter racional que visa, do ponto de vista econômico, a eficiência na produção de recursos e o equilíbrio fiscal; e, do ponto de vista político, a eliminação de conflitos internos e da anarquia, bem como a rapidez na transmissão das ordens e a eficácia na execução de tarefas burocráticas, na medida em que cada um conhece o seu lugar e as suas funções nesse sistema hierárquico, que se mantém através do poder do soberano disseminado em todas as instâncias do governo.

Full text

A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 56. Segundo cua imes e de 2024. Pp. 181-201. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i56.08 A o ganização mili a (s a io iké sýn axis) e a es u u a econômica e polí ica do impé io Pe sa na Ci opédia de Xeno on e The mili a y o ganiza ion (s a io iké sýn axis) and he economical and poli ical s uc u e o he Pe sian empi e in he Cy opaedia Vi o de Simoni Milione1 Uni e si é de Mon éal (Canadá) ORCID: h ps://o cid.o g/0000-0003-3511-8087 Recibido: 15-01-2024 Acep ado: 29-05-2024 Resumo Es e a igo em como obje i o analisa um aspec o da iloso ia polí ica de Xeno on e comumen e negligenciado pelos in é p e es: a o ganização mili a , is o é, a hie a quia e a cadeia de comando, como o elemen o que o e ece a es u u a econômica e polí ica do impé io Pe sa desc i o na Ci opédia. A ansposição desse modelo mili a hie á quico con e e à es u u a do Es ado pe sa um ca á e acional que isa, do pon o de is a econômico, a e iciência na p odução de ecu sos e o equilíb io iscal; e, do pon o de is a polí ico, a eliminação de con li os in e nos e da ana quia, bem como a apidez na ansmissão das o dens e a e icácia na execução de a e as bu oc á icas, na medida em que cada um conhece o seu luga e as suas unções nesse sis ema hie á quico, que se man ém a a és do pode do sobe ano disseminado em odas as ins âncias do go e no. Palab as-cla e: Xeno on e, iloso ia g ega, iloso ia polí ica, o ganização mili a , economia, pode polí ico. 1 ([email p o ec ed]). Vi o de Simoni Milione ecebeu seu Ph.D em Filoso ia pela Uni e si é de Mon éal, onde a ua como pesquisado . Ele ap esen ou e publicou a igos na á ea de his ó ia da iloso ia an iga, no adamen e sob e Xeno on e, Pla ão, e Es oicismo, assim como sob e a ep esen ação de Sóc a es em au o es da An iguidade. 182 Vi o de Simoni Milione A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 56. Segundo cua imes e de 2024. Pp. 181-201. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i56.08 Abs ac The goal o his a icle is o analyse an aspec o Xenophon’s poli ical philosophy commonly o e looked by schola s: he mili a y o ganiza ion i.e. he hie a chy and he chain o command, as he elemen ha gi es he economical and poli ical s uc u e o he Pe sian empi e in he Cy opaedia. The ansposi ion o his hie a chical mili a y model endows he s uc u e o he S a e wi h a a ionali y which aims, om an economical pe spec i e, a he e iciency in he p oduc ion o esou ces and he iscal balance; and, om a poli ical pe spec i e, a he elimina ion o in e nal con lic s and ana chy, bu also a he e icacy in he ansmission o o de s and he speed in he execu ion o adminis a i e asks, since e e ybody knows his place and unc ions in his hie a chical sys em, which is main ained by he so e eign’s powe dissemina ed h ough all he ins ances o he go e nmen . Keywo ds: Xenophon, ancien G eek philosophy, poli ical philosophy, mili a y o ganisa ion, economy, poli ical powe . In odução: a p oblemá ica do es udo, o seu escopo e o concei o de s a io iké sýn axis A Ci opédia con a a his ó ia de Ci o o Velho, do seu nascimen o a é a sua mo e. Xeno on e concen a a maio pa e da sua na ação nos inc í eis ei os mili a es ealizados ao longo da conquis a p og essi a, pelos Pe sas, do que hoje chamamos de O ien e Médio. Na pa e inal desse “ omance ilosó ico” (VII, 5-VIII, 1-7), Xeno on e desc e e com cuidado, e apa po e apa, a es u u ação do impé io pe sa. E é nes a pa e onde emos se desenha o que se pode ia chama de “concepção xeno ôn ica do Es ado”, da qual analisa emos aqui apenas uma ação. A p obléma ica ge al des e a igo é a seguin e: Po que eco e ao pa adigma mili a pa a pensa a es u u a econômica e polí ica do Es ado? Quais p oblemas Xeno on e en a esol e anspondo ce os elemen os desse pa adigma pa a a es u u a do Es ado? A hipó ese que eu segui ei nes e es udo é a seguin e: quando ele pensa o Es ado em seu ní el es u u al, Xeno on e usa como modelo um aspec o especí ico da a e da gue a: a o ganização mili a (em G ego an igo, s a io iké sýn axis). O esul ado dessa ansposição é uma concepção de polí ica e de Es ado mui o o iginal, na medida em que se en a iza os aspec os écnicos, p agmá icos e bu oc á icos do go e no. O escopo des e a igo consis e na e cei a e úl ima e apa da o ganização do impé io pe sa. Na p imei a e apa (VII, 5, 37-59), a a a-se de delimi a com cla eza a elação en e os conquis ado es e os po os conquis ados, assim como as medidas de segu ança em o no de Ci o, do seu palácio eal e da sua capi al. 183 A o ganização mili a (s a io iké sýn axis) e a es u u a econômica e polí ica do impé io Pe sa na Ci opédia de Xeno on e A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 56. Segundo cua imes e de 2024. Pp. 181-201. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i56.08 Na segunda e apa (VII, 5, 70-86-VIII, 1, 4-8), a dis ância en e encedo es e de o ados é ainda mais ap o undada quando Ci o es abelece seus luga es e suas unções, os de o ados assumindo um papel pu amen e econômico, ao passo que os encedo es, que desde en ão azem pa e da co e impe ial, assumem um papel polí ico-adminis a i o. A co e de Ci o é, po assim dize , o sis ema ne oso cen al do impé io e é po isso que o einamen o mili a e, sob e udo, a p á ica cons an e da i ude são pa es in eg ais do modo de ida na co e impe ial. Com e ei o, a supe io idade mili a e mo al é essencial pa a que Ci o a inja um dos seus obje i os p incipais: a conse ação (so e ía) e a es abilidade (aspháleia) do impé io (VII, 5, 75-76). Na e cei a e apa da o ganização do impé io, Ci o se di ige da co e pa a o impé io como um odo. Den o dos limi es des e a igo, p e endo analisa dois aspec os da es u u a do Es ado pe sa a iculados à ideia de “s a io iké sýn axis”. 1. A o ganização econômica, ou seja, o sis ema que ga an e o equilíb io en e ecei as e despesas e a p odução dos ecu sos necessá ios à manu enção do Es ado. 2. A o ganização polí ica, que isa a adminis ação dos habi an es do as o impé io, a segu ança do e i ó io e a di usão das i udes do ei e do seu pode . An es de p ossegui mos, se ia pe inen e dize algumas pala as sob e a noção-cha e de “s a io iké sýn axis”, que é, aliás, um hapax na ob a de Xeno on e. T a a-se, ao meu e , de um dos ce nes pa a en ende mos aa concepção xeno ôn ica de Es ado, de modo que a análise do p óp io e mo já nos o e ece alguns elemen os impo an es ace ca desse aspec o da iloso ia polí ica de Xeno on e. O adje i o s a io ikós – que podemos aduzi po “mili a ”, “gue ei o” ou “bélico” - eme e à udo o que diz espei o à ida e ao mé ie de soldado, po exemplo, o einamen o ísico, o manejo de a mas, os equipamen os e a ida no acampamen o mili a . É po isso que Xeno on e, na Ci opédia IV, 5, 39, usa a exp essão “σκηνὴ καλῶς στρατιωτική”, pa a se e e i às endas belamen e o ganizadas, ou seja, com odas as comodidades de uma enda mili a , po exemplo, í e es, bebida, se içais, oupas de cama e es imen as, assegu ando assim que as opas enham os ecu sos necessá ios pa a uma ida ag adá el em expedição. Já o subs an i o sýn axis - que pode íamos aduzi po “sis ema”, “a anjo”, “o ganização” ou “es u u a” - eme e, de um pon o de is a polí ico, à o ganização e à disposição da o alidade do Es ado, seja ele um impé io ou uma pólis; e de um pon o de is a especi icamen e mili a esse subs an i o eme e à o dem du an e uma ba alha, ao exé ci o o ganizado em o mação de 184 Vi o de Simoni Milione A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 56. Segundo cua imes e de 2024. Pp. 181-201. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i56.08 comba e2, ou ainda ao p óp io con ingen e de soldados3. O a, conside ando o campo semân ico desses dois e mos, a noção de s a io iké sýn axis pa ece e indo de modo na u al à men e de Xeno on e, o que e o ça, ademais, a nuance mili a do e mo sýn axis, mas que e ela ambém um aspec o c ucial do seu pensamen o sob e o Es ado, a sabe , que oda a sua es u u a econômica, polí ica e bu oc á ica de e e como undamen o o exé ci o, pois ele o nece o melho pa adigma possí el de ges ão e o denamen o pa a uma comunidade humana. Isso signi ica, como ica á cla o ao longo des e es udo, que são p io izadas a e iciência, a e icácia, a apidez, o con ole, a igilância, a obediência e a hie a quia em odos os p ocessos que cons i uem a ida social, polí ica e econômica do Es ado. Não é po acaso que Xeno on e escolheu como modelo da sua e lexão polí ico- ilosó ica o impé io pe sa, pois, no seu empo, e a a mais complexa e mais he e ogênea comunidade humana exis en e. 1. A o ganização dos assun os econômicos do Es ado pe sa. Olhemos ago a com a enção o p imei o ex o, que diz espei o especi icamen e à o ganização econômica do Es ado pe sa. Mesmo sendo um ex o bas an e g ande, ale a pena ci á-lo in ex enso, na medida em que ele condensa as p incipais in o mações conce nen es aos assun os econômicos do impé io c iado po Ci o o Velho. [Ci o] pensou que de e ia p imei o e um pouco de laze (σχολῆς), se deseja a es a ap o a cuida de ques ões de eno me impo ância (τῶν κρατίστων ἐπιμελεῖθαι). Po um lado, conside ou que não e a possí el negligencia as ecei as (προσόδων ἀμελεῖν), pe cebendo que necessa iamen e mui as se iam as despesas de um impé io as o. Po ou o lado, sabia que es a cons an emen e às ol as com a g ande quan idade de bens (πολλῶν κτημάτων) que possuía signi ica ia que não e ia empo disponí el (ἀσχολίαν) pa a cuida da p ese ação do impé io como um odo (τῆς τῶν ὅλων σωτηρίας ἐπιμελεῖσθαι). [14] Assim, ao examina como as ques ões econômicas pode iam es a bem-a anjadas (τά τε οἰκονομικὰ καλῶς ἔχοι) pa a que ele i esse empo li e (ἡ σχολὴ), e le iu como unciona a a o ganização mili a (τὴν στρατιωτικὴν σύνταξιν). Em ge al, os sa gen os são esponsá eis po dez homens; os enen es, pelos sa gen os; os capi ães, pelos enen es; os co onéis, pelos capi ães; os gene ais de b igada, pelos co onéis, de o ma que ninguém ica a sem supe isão (οὐδεὶς ἀτημέλητος), nem hou esse mui os milha es de homens, e semp e que o gene al do exé ci o desejasse u iliza o exé ci o pa a algum im, bas a ia que ele desse comandos pa a o gene al de b igada. [15] Ci o, 2 C . Ci op. II, 4, 1: “Um dia, quando Ci o azia a e is a ge al do exé ci o em a mas e do seu posicionamen o em ba alha (καὶ σύνταξιν) (...).” 3 C . Xen. Hel. V, 2, 37. 185 A o ganização mili a (s a io iké sýn axis) e a es u u a econômica e polí ica do impé io Pe sa na Ci opédia de Xeno on e A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 56. Segundo cua imes e de 2024. Pp. 181-201. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i56.08 en ão, cen alizou ambém as a i idades econômicas (συνεκεφαλαιώσατο τὰς οἰκονομικὰς πράξεις) nesse mesmo modelo, de modo que, ainda que dialogasse apenas com alguns poucos homens (ὀλίγοις διαλεγομένῳ), nenhuma pa e da sua admnis ação e a po ele negligenciada (μηδὲν τῶν οἰκείων ἀτημελήτως ἔχειν). Assim, e ia mais empo li e (σχολὴν...πλείω) do que em o esponsá el po uma única casa ou um único na io. Depois de es abelece suas p óp ias unções (οὕτω δὴ καταστησάμενος τὸ αὐτοῦ), passou a ins ui os homens de seu cí culo a aze uso do mesmo sis ema (ταύτῃ τῇ καταστάσει)4. Tomando emp es ado elemen os do sa oi - ai e mili a , Ci o es abelece uma in e essan e conco dância en e duas á eas habi ualmen e dissociadas: a adminis ação impe ial e o exé ci o (Azoulay 2009: 168). Nessa pe spec i a, é pe inen e assinala que a es u u ação do Es ado pe sa a pa i da o ganização mili a esponde a dois obje i os complemen a es: (i) a necessidade de empo li e pa a o ei e os seus associados, ou seja, amigos e aliados que o ajuda am na sua conquis a mili a e (ii) a adminis ação e icaz dos assun os econômicos. Ob e empo li e já e a uma g ande p eocupação de Ci o desde a p imei a e apa da o ganização do impé io. Nes e ex o, lemos que Ci o p ecisa de empo li e pa a concen a oda a sua a enção nas “ques ões de eno me impo ância”, mas não é e iden e, p ima acie, a que essa exp essão se e e e. Começamos a en endê-la algumas linhas adian e, quando lemos a exp essão “τῆς τῶν ὅλων σωτηρίας ἐπιμελεῖσθαι” (li e almen e, “ocupa -se da p ese ação do odo”), associada ao isco que Ci o co ia de não ob e o empo li e necessá io pa a cuida da conse ação do impé io, que se o na um dos seus obje i os p incipais logo após a conquis a da Babilônia (VII, 5, 76). Além disso, o e mo ò hólon (o odo) é su icien emen e gené ico pa a engloba odos os habi an es do impé io, assim como as suas ins i uições, os campos cul i á eis, as p á icas sociais e eligiosas, a in a-es u u a (po exemplo, po os, p édios públicos e es adas), e c. Assim, o obje i o de es u u a o seu go e no a pa i da o ganização mili a é, an es de udo, poupa Ci o da a enção de cada elemen o necessá io ao uncionamen o do impé io e di ecioná-la a uma isão global dele; po ou as pala as, Ci o que se libe a da p eocupação com as minúcias do seu go e no. Em ez de ealiza múl iplas a e as e, com isso, co e o isco de negligência, Ci o se concen a nas a i idades que dizem espei o a um ei5. É po isso que ele es abelece um sis ema (ka ás asis) que não é au ônomo, ou seja, que unciona independen emen e do sobe ano; em con apa ida, bas a que Ci o ansmi a suas o dens a um núme o ín imo de no á eis pa a que elas sejam apidamen e 4 Ci op. VIII, 3, 13-15 ( odas a ci ações da Ci opédia p o êm adução L. Sano 2021). 5 Vale no a que essa ideia es á o almen e em con o midade com o p incípio de especialização aplicado à o ganização do acampamen o mili a (Ci op. VIII, 5, 6-9), e que ela apa ece ambém em Ci op. VIII, 2, 7-9. Em ez de ealiza múl iplas e dis in as a e as e, com isso, co e o isco de negligência, Ci o se concen a em a e as que incumbem a um ei. O mesmo p incípio ale, é cla o, pa a odos os subo dinados que, como e emos, execu am unções limi adas e especí icas. 186 Vi o de Simoni Milione A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 56. Segundo cua imes e de 2024. Pp. 181-201. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i56.08 di undidas po odo o impé io, assim como bas a que o gene al comunique suas o dens a um punhado de co onéis pa a que elas sejam apidamen e di undidas pelas opas. Vale obse a que o empo li e que Ci o deseja é exa amen e aquele que é de inido e de endido po Sóc a es nas Memo á eis III, 9, 9: e empo li e não signi ica dedica -se nem à inação e nem às más ações; ao con á io, deseja-se empo li e pa a se aze algo de melho , mais nob e ou mais p odu i o. T a a- se, po an o, na Ci opédia VIII, 1, 13-15, de aco do com concepção soc á ica ace ca do empo li e, de ob e empo pa a as melho es a i idades (Demon 1990: 294). Assim, não é po acaso que o modo de ida ado ado po Ci o e sua co e pa eça mui o com o modo de ida do p óp io Sóc a es (Mem. I, 6, 4-10), que isa ambém ob e empo li e pa a ajuda os amigos e pa a se i a pólis (ibid. I, 6, 9). Na mesma o dem de ideias, a ins au ação de um sis ema de go e no que p opo ciona empo li e a Ci o e aos seus companhei os se ia o almen e inú il se ele não osse acompanhado da p á ica da i ude na co e, que eno a e e o ça esse empo li e, na medida em que eles não despe diça ão seu empo sa is azendo aos múl iplos p aze es o e ecidos pelos bens ma e iais adqui idos após a conquis a. O segundo obje i o da ansposição da o ganização mili a à es u u a do Es ado diz espei o à boa admnis ação dos assun os econômicos. Nes e pon o, é in e essan e obse a que Xeno on e u iliza os e mos à oikonomiká (e mais adian e às oikonomikás p áxeis, a i idades econômicas) e p osódon ( ecei as), que azem pa e do campo semân ico da oikonomía. Pa ece-nos que o e mo à oikonomiká possui um signi icado mais ab angen e que o e mo p osódon, p incipalmen e se pensa mos na de inição de oikonomía no Econômico: a boa adminis ação do pa imônio (εὖ οἰκεῖν τὸν...οἶκον - Ι, 2), o que comp eende a capacidade de paga odas as despesas, de economiza dinhei o e de aumen a o p óp io pa imônio (I, 4). A noção de oîkos ab ange com e ei o odas as posses (k éma a) que se adminis a e que se sabe como aze bom uso delas (I, 5-9), incluindo ob iamen e as iquezas ( à kh éma a, I, 10) e, su p eenden emen e, os inimigos e os amigos (I, 14-15). A oikonomía é en ão a a e de bem adminis a e de bem u iliza a o alidade das posses que azem pa e do oîkos. O a, na medida em que um dos aspec os da a e econômica é o pagamen o de odas as depesas, é o almen e comp eensí el que Ci o se p eocupe com as ecei as (p ósodoi): a adminis ação do impé io pe sa, de ido à sua imensidão, ge a ia g andes despesas, de modo que os co es do Es ado p ecisam es a semp e cheios. Nessa pe spec i a, pode-se dis ingui os kh éma a (o dinhei o, as iquezas ou os ecu sos em ge al), dos p ósodoi, que são especi icamen e as ecei as que an o um indi íduo, quan o uma pólis ou um impé io – ob êm a a és das iquezas que p oduzem; a a-se en ão, quando se ala de p ósodoi, de 187 A o ganização mili a (s a io iké sýn axis) e a es u u a econômica e polí ica do impé io Pe sa na Ci opédia de Xeno on e A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 56. Segundo cua imes e de 2024. Pp. 181-201. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i56.08 inanças, de iscalidade e de liquidez. É p eciso econhece que Xeno on e não especi ica, no ex o que es amos analisando, o igem das ecei as do impé io, nem a na u eza de suas g andes despesas. No que conce ne às ecei as, elas de em p o i em g ande pa e, pode-se supo , do u o do abalho da massa de abalhado es compos a majo i a iamen e pelos po os conquis ados, bem como dos impos os pagos pelos súdi os6; quan o às despesas, já que es amos alando de um as o impé io, elas de em comp eende , po exemplo, a o ganização de es as eligiosas e de concu sos a lé icos, a manu enção das es adas, das o as de comé cio, das opas e dos emplos, mas, sob e udo, a polí ica e e gé ica adical de Ci o7. Se ia legí imo pe gun a se as ecei as (p ósodoi) em ques ão são públicas ou p i adas. De minha pa e, es ou con encido de que se a a das ecei as p i adas de Ci o e isso, po duas azões. Em p imei o luga , a p esença do ocabulá io da oikonomía na Ci opédia VIII, bem como a compa ação en e os Pe sas encedo es e o “mes e”, despó es (Ci op. VII, 5 72-73; 83), indicam cla amen e que o Es ado pe sa é concebido po Xeno on e como um oîkos em la ga escala no qual Ci o assume a igu a do pa e amilias gene oso e bene olen e8. Sendo assim, enquan o “pai” e che e de um impé io-oîkos, uma das p incipais ob igações de Ci o é ga an i o equilíb io das inanças. Em segundo luga , o emp ego da exp essão τὸ πολλῶν κτημάτων ὄντων αὐτόν ἔχειν em VIII, 1, 13 indica que o que de e se bem adminis ado pela o ganização mili a que Ci o ado a são os seus p óp ios bens, que se con undem, como e emos, com a ecei as do impé io. Con udo, isso não que dize que os p óp ios súdi os de Ci o não possuíam ambém p op iedades e ecei as p i adas. Na Ci opédia VIII, 2, 7, Xeno on e a i ma que, ainda que Ci o supe asse odo mundo em e mos de olume de ecei as (πολὺ γὰρ διενεγκὼν ἀνθρώπων τῷ πλείστας προσόδους λαμβάνειν), ele supe a a ainda mais pela quan idade inigualá el de p esen es o e ecidos (πολὺ ἔτι πλέον διήνεγκε τῷ πλεῖστα ἀνθρώπων δωρεῖσθαι). Po ou as pala as, os súdi os do impé io possuíam ealmen e ecei as p i adas, a di e ença em elação a Ci o si uando-se a ní el quan i a i o9. Pa ece-me que encon amos aí, ale a 6 Na Ci op. VII, 5, 79, os po os conquis ados são designados como abalhado es (ἐργάτας) e pagado es de impos os (δασμοφόρους), o que indica que o Es do Pe sa ecolhia ce amen e impos os dos seus súdi os; na Ci op. VIII, 1, 9, den e os nume osos uncioná ios que compunham o s a do impé io, encon am-se os iscais de ecei as (προσόδων ἀποδεκτῆρες), cuja a e a de ia se a de ge encia os di e sos impos os e axas que compunham a ecei a do impé io. 7 C . Ci op. VIII, 2, 1-7; 3, 19-24; 4 passim. 8 Pa a uma oco ência da me á o a do “pai bene olen e” aplicada a Ci o, e Ci op. VIII, 2, 9. Como bem en a izou Wo ono (1993: 47), “[i]ci, la é é ence amiliale co espond à un mou emen de ecou s e s un p o ec eu nécessai e ; ce i e pa agé es un indice du pa allélisme des ela ions en e suje e oi, solda e o icie .” 9 Ve ambém Ci op. VIII, 6, 5, onde se lê que Ci o dis ibuiu a mui os dos seus amigos, em odas as egiões conquis adas, e as, casas e se içais, o que con i ma que, pelos menos uma pa e dos seus súdi os, ambém possuíam bens p i ados. 188 Vi o de Simoni Milione A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 56. Segundo cua imes e de 2024. Pp. 181-201. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i56.08 pena en a iza , uma das di e enças c uciais en e um ei como Ci o e um i ano: no caso de um go e no i ânico, os bens dos pa icula es es ão semp e sob ameaça, na medida em que o i ano pode omá-los de assal o a qualque momen o e de manei a a bi á ia e iolen a. É p eciso econhece que Ci o se ese a a o di ei o de oma os bens dos seus associados mas, é undamen al ma ca essa di e ença, segundo um igo oso p incípio de mé i o: po exemplo, aquele que não equen a a assiduamen e a co e impe ial e a p i ado dos seus bens, que e am em seguida o e ecidos a um ou o que Ci o ac edi a a se capaz de se ap esen a quando necessá io (Ci op. VIII, 1, 20). Essa edis ibuição de bens mos a en ão que (i) Ci o inha a úl ima pala a ace ca dos bens daqueles que aziam pa e da sua en ou age, (ii) e que ele seguia à isca uma polí ica cla a de ecompensas e punições, onde odos sabiam exa amen e o que e a p eciso aze pa a, de um lado, se ecompensado e, de ou o, não se punido. Nes e pon o, uma dis inção mui o impo an e p ecisa se ei a. Quando se a i ma que os súdi os do impé io possuíam bens p i ados, es á se e e indo exclusi amen e aos encedo es, ou seja, aos Pe sas e seus aliados, cujos bens o am la gamen e aumen ados g aças à conquis a do impé io assí io; os po os conquis ados, po sua ez, o am comple amen e despossuídos. De a o, Ci o nunca elimina a dis inção en e encedo es e encidos; além disso, não apenas ele não busca es abelece uma κοινωνία en e odos os seus súdi os (apenas en e ele e os seus amigos e aliados), mas ele se es o ça po man e as oposições en e conquis ado es e conquis ados (Ca lie 1978: 151). Ci o a i ma igo osamen e que os bens e os co pos dos po os conquis ados pe encem aos encedo es, uma elação social que eme e, às ezes explici amen e, à elação en e mes e (despó es) e esc a o (doúlos)10. Esse ipo elação não em nada de su p eenden e, sob e udo se se conside a que o impé io de Ci o é pensado como um gigan esco oîkos, e segundo o modelo g ego, os esc a os abalham pa a os seus mes es. Isso con i ma, ademais, que uma das on es de p ósodoi consis e p ecisamen e nos p odu os do abalho dos po os conquis ados, bem como os impos os pagos ao Es ado pe sa. Pa adoxalmen e, mesmo sendo a pessoa mais ica do impé io, Ci o nunca hesi a a em coloca seus p óp ios bens à disposição dos seus amigos e subo dinados e isso, sob a o ma de uma polí ica e e gé ica adical, de modo que suas posses e ecei as pa icula es e am a on e mesma do bem- es a do Es ado ou, e omando uma exp essão que encon amos em VIII, 1, 13-15, “da p ese ação do impé io com um odo” (τῆς τῶν ὅλων σωτηρίας)11. Nessa pe spec i a, Ci o segue ielmen e um dos conselhos de Simônides, que emp ega, no a -se-á, um ocabulá io simila ao da Ci opédia: 10 Pa a alguns echos onde a oposição en e conquis ado es e conquis ados apa ece cla amen e e às ezes com cono ações de se idão, e Ci op. VII, 5 ,36; VII, 5, 73; VIII, 1, 43. T a a-se de uma pe spec i a g ega adicional, segundo a qual o encede na gue a em di ei o aos co pos e aos bens dos pe dedo es (c . Anab. III, 2, 28; III, 2, 39) 11 Sob e o e e ge ismo p odigioso de Ci o, e Azoulay 2004a: 357-367. 189 A o ganização mili a (s a io iké sýn axis) e a es u u a econômica e polí ica do impé io Pe sa na Ci opédia de Xeno on e A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 56. Segundo cua imes e de 2024. Pp. 181-201. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i56.08 Você não de e, Hie ão, abs e -se de gas a os seus bens p i ados (οὐδ’ ἀπὸ τῶν ἰδίων κτημάτων ὀκνεῖν δαπανᾶν) pa a o bem comum (εἰς τὸ κοινὸν ἀγαθόν); de a o, na minha opinião, aquilo que se desembolsa pa a a cidade (τὰ εἰς τὴν πόλιν ἀναλούμενα) é gas o mais pa a o necessá io (μᾶλλον εἰς τὸ δέον τελεῖσθαι) que aquilo que se desembolsa pa a o esou o pessoal do i ano (ἢ τὰ εἰς τὸ ἴδιον ἀνδρί τυράννῳ)12. O a, po causa da polí ica e e gé ica de Ci o, as on ei as en e as es e as pública e p i ada são na u almen e con undidas, na medida em que a p ospe idade de Ci o o na-se indis in a da p ospe idade dos seus súdi os, o que es á, aliás, o almen e de aco do com os ensinamen os de Sóc a es nas Memo á eis III, 2, 4, onde se diz que a i ude p óp ia do bom che e (ἀγαθοῦ ἡγεμόνος) é a ap idão a o na p óspe os (τὸ εὐδαίμονας ποιεῖν) aqueles que ele go e na13. Sendo assim, ainda que Ci o ope e modi icações impo an es em sua a e de go e na , aplicada ago a em con ex o impe ial, ela pe manece imu á el num pon o essencial: seu e e ge ismo adical a inge an o os seus amigos e aliados que ago a se o nam associados (koinonés) no go e no, quan o os po os conquis ados, pe mi indo desse modo que ele ob enha a amizade e a obediência olun á ia de odos. Quan o ao e mo à oikeîa – que apa ece em VIII, 1, 15 pa a se e e i à adminis ação dos bens de Ci o – ele apa ece às ezes como o an ônimo de à poli iká, de modo que ele eme e aos in e esses e aos bens pa icula es po oposição aos in e esses e bens públicos. Na passagem que es amos analisando, à oikeîa, que ambém es á associado à ideia de skholé, pa ece se dis ingui -se de à oikonomiká; obse a-se en ão que Xeno on e ac escen a, além da necessidade de ocupa -se dos assun os mais impo an es, o empo li e necessá io pa a que Ci o se ocupe ambém dos seus assun os pessoais, a en ende , pa ece-me, como o aspec o mais ín imo da sua ida, a sabe , sua amílía14. Essa inquie ação já ha ia sido demons ada po C isan as em VII, 5, 56, aquando de uma sé ie de discu sos onde ambém é ques ão de encon a os meios de p opo ciona o empo li e (σχολή) pa a Ci o e seus p óximos. C isan as insis e pa a que Ci o se ins ale numa casa pa a melho usu ui do seu pode ; pois um la , segundo C isan as, é o luga mais sac o, mais ag adá el e mais ín imo (οἰκειότερόν); a insis ência de C isan as em do a o de que 12 Hie ão, XI, 1 (minha adução). Azoulay (2009: 166), obse a com acuidade um pa adoxo simila ao que encon amos no inal da Ci opédia: “De açon pa adoxale, le y an doi donc ans o me la ci é en oikos pou mieux econs ui e un monde commun : idion e koinon se con onden ainsi ha monieusemen .ˮ De o en a iza que não conside o Ci o um i ano. Pelo con á io, pa ece-me que se Hie ão ado a odas as medidas p opos as po Simônides, ele se o na á um e dadei o basileús, come é o caso de Ci o (sob e es e pon o, e Do ion 2021a: 113-114 n. 345). 13 Sob e a equi alência en e, de um lado, os papéis do bom che e e do bom pai e, de ou o lado, a igu a dos subo dinados e dos ilhos, e Ci op. VIII, 1, 1; VIII, 8, 1. 14 Pa a algumas oco ências de à oikeîa no sen ido de “ocupações domés icas” ou “assun os ín imos/ amilia es”, e Ci op. IV, 3, 12; VIII, 5, 17; VIII, 6, 5; Hel. VII, 1, 4. 196 Vi o de Simoni Milione A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 56. Segundo cua imes e de 2024. Pp. 181-201. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i56.08 i. Ci o não pode, com uma i ude pu amen e humana, conse a sozinho o impé io e os bens de odos os seus amigos e aliados; ii. Po isso, além da delegação de a e as e unções, é necessá io que os sá apas e seus subo dinados imi em (μιμεῖσθαι) em cada de alhe Ci o e sua co e impe ial, ou seja, o seu modo de ida e as suas p á icas sociais; só assim Ci o pode á se pa a os sá apas um bom de enso e es es, em con apa ida, bons aliados de Ci o; iii. Ci o en a iza que ele não es á dando o dens a esc a os (τοῖς δούλοις), na medida em que udo o que ele exige dos sá apas ele p óp io se es o ça pa a aze igual. Ci o econhece a dimensão da a e a de adminis ação do impé io e a impossibilidade, apesa da sua i ude e compe ência, de azê-lo sozinho, daí a impo âcia de di undi as suas qualidades, delegando aos sá apas uma pa e das unções polí icas e exo ando-os a ado a o mesmo modo de ida que ele e os seus associados que azem pa e da co e da Babilônia25. A conse ação dos bens e, pa alalemen e, do impé io, depende po an o da ep odução exa a em cada p o íncia da ida na co e de Babilônia, cada sá apa sendo, po assim dize , um a a a de Ci o, de sua au o idade e de suas i udes. A analogia en e a co e de Ci o e as co es dos sá apas e a ideia de ecip ocidade que de i a dessa analogia não podia se mais cla a: do mesmo modo que Ci o e sua co e de em se i uosos pa a auxilia os sá apas em caso de pe igo, os p óp ios sá apas e suas co es espec i as de em p a ica a i ude pa a se o na em o es aliados de Ci o nessa g ande emp ei ada que é a p ese ação e a es abilidade do impé io. Aqueles que êem Ci o como um mona ca absolu o acima da lei, quiçá um i ano, pa ecem e igno ado o ex o acima, no qual Ci o a i ma cla amen e que seus companhei os não são esc a os, na medida em que, nessa elação de ecip ocidade, o p óp io Ci o de e p es a con as dos compo amen os que ele exige dos seus semelhan es e dos seus subo dinados. Desse modo, enquan o modelo de condu a po excelência, Ci o ambém es á, al ez mais do que odos, subme ido às mesmas eg as que ele impõe26. No en an o, é p eciso econhece que exis e uma dissime ia en e Ci o e os sá apas, p incipalmen e po que es es são comple emen e desp o idos de opas. Ci o possui a quase o alidade do pode mili a , de modo que, na condição de che e sup emo, ele em a úl ima pala a sob e odas as a i idades mili a es do impé io, sejam elas de ensi as ou ag essi as. 25 Nessa pe spec i a, B eebaa (1983: 130) obse a com acuidade: “The sa aps ha e o make b anch-es ablishmen s o he oyal cou and o copy he ins i u ions o he impe ial cen e . Likewise, he s a s a e o copy he ac ions, a i udes and li es yle o hei supe io s. A all le els, au ho i ies ha e o imi a e hei supe io s in he hie a chical chain; so, ul ima ely, comple e imi a ions secu ed he di usion o oyal excellency o e he whole e i o y.” 26 Ve Ci op. VII, 5, 85. Ve ambém ibid. VIII, 1, 23-39, onde Xeno on e desc e e cuidadosamen e odas á eas nas quais Ci o se ia de exemplo de i ude e de compe ência. 197 A o ganização mili a (s a io iké sýn axis) e a es u u a econômica e polí ica do impé io Pe sa na Ci opédia de Xeno on e A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 56. Segundo cua imes e de 2024. Pp. 181-201. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i56.08 Mas isso não que dize que os sá apas não enham nenhum pode eal, como a i ma equi ocadamen e B eebaa (1983: 130). Eles não es ão o almen e desp o idos de au onomia, como se eles ossem simples an oches de Ci o. De a o, es amos lidando com um egime moná quico, mas que possui mesmo assim aços ma can es de a is oc acia e oliga quia, na medida em que a espinha do sal do impé io é cons i uída po um pequeno g upo de a is oc a as, do qual o p óp io Ci o az pa e27. É po isso que eles buscam, ademais, se dis ingui dos po os conquis ados po meio dos des iles impe iais, mas ambém ado ando um modo de ida undado num egime equilib ado (díai a mé ia) e, sob e udo, nos exe cícios (pónoi) des inados aos homens nob es (aga hoí) ou, se quise mos, aos homens li es (eleu he íoi), p oibidos aos po os conquis ados (VII, 5, 78-85)28. Ci o, na condição de mona ca, possui ce amen e mais pode , g aças simul aneamen e à sua compe ência polí ica e sua o ça mili a , mas ele não go e na, insis amos nes e pon o, de modo i ânico. Ele ambém go e na com o auxílio dos seus associados (koinonés), como indica o exemplo de C isan as, en iado como sá apa à Ásia Meno . C isan as me eceu seu luga à di ei a de Ci o du an e um banque e exa amen e po que (i) ele oma a decisões p oa i amen e, ou seja, sem consul a Ci o, quando ele p óp io sabia o que e a melho de se ei o; (ii) além disso, cada ez que ha ia algo a dize aos aliados, ele suge ia a Ci o as pala as que ele es ima a con enien e que ele p onunciasse; (iii) ele oma a às ezes o luga de Ci o em dicu sos di igidos aos aliados, quando Ci o inha esc úpulos de ele p óp io discu sa ; (i ) ele semp e se mos a em busca de ecu sos excenden es que possam se ú eis a Ci o; ( ) po im, os sucessos de Ci o dão mais p aze a C isan as do que ao p óp io Ci o (VIII, 4, 11), um dos compo amen os, segundo a concepção xeno ôn ica da amizade (philía), do amigo exempla : se egozija com os sucessos dos amigos29. O a, pa ece cla o, a pa i do exemplo de C isan as, que os associados de Ci o, sá apas ou não, não são simples ma ionen es, mas na e dade – e po oposição aos po os conquis ados – pa cei os a i os no go e no do impé io. Que os sá apas em pa icula , e os amigos de Ci o em ge al, sejam e e i men e sujei os polí icos, o ex o abaixo o mos a, a meu e , com cla eza: 27 A p óp ia e minologia que Xeno on e emp ega no inal da Ci opédia indica os aços a is oc á icos e oligá quicos do impé io de Ci o, o que e u a, ao meu e , a hipó ese da i ania ou de uma mona quia absolu a a an la le e. C . VII, 6, 14 (πᾶσαι δὲ συγκεφαλαιοῦνται πολιτικαὶ πράξεις εἰς ὀλίγους ἐπιστάτας); e ambém o emp ego abundan e do e mo á is oi pa a quali ica os koinonés; VII, 5, 35; VIII, 1, 8, 39 e 44; VIII, 2, 26; VIII, 5, 23 e 26; VIII, 6, 11 e 14. 28 Johns one (1994) demons ou mui o bem que a inco po ação do pónos co esponde a uma es a égia dos a is oc a as pa a se dis ingui em das classes sociais conside adas in e io es. Esse p econcei o ideológico pode ia o nece uma explicação suplemen a pa a a in e dição do einamen o mili a impos a aos po os conquis ados: apenas os a is oí êm o di ei o de p a ica uma ão nob e a i idade (kálon é gon). Isso e o ça, ademais, a ideia segundo a qual o impé io pe sa na Ci opédia é uma in e essan e mis u a de mona quia, oliga quia e a is oc acia. 29 Ve , p.ex. Mem. I, 6, 14; II, 2, 5-14; II, 4, 6; II, 6, 35; III, 9, 8; Econ. IX, 12. 198 Vi o de Simoni Milione A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 56. Segundo cua imes e de 2024. Pp. 181-201. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i56.08 A o ganização es abelecida po Ci o nessa época é man ida a é hoje do mesmo modo (ὁμοίως) em odas as gua das sob o comando do ei. Todas as co es dos homens em posição de lide ança são equen adas semelhan emen e (πᾶσαι δὲ αἱ τῶν ἀρχόντων θύραι ὁμοίως θεραπεύονται); odas as casas, g andes ou pequenas, são adminis adas de o ma idên ica (ὁμοίως); os melho es homens den e os p esen es são hon ados pelos assen os que ocupam po odos; odas as iagens são a anjadas do mesmo modo e odas as a i idades polí icas es ão cen alizadas em alguns poucos homens que es ão no con ole (πᾶσαι δὲ συγκεφαλαιοῦνται πολιτικαὶ πράξεις εἰς ὀλίγους ἐπιστάτας)30. Esse ex o e o ça a ideia de que o bom uncionamen o do sis ema hie á quico c iado po Ci o depende da imi ação igo osa (i) de odos os p ocedimen os de adminis ação, da es e a pública à es e a p i ada, (ii) do mé odo de iagem (pa a que o Rei ou o seus uncioná ios possam supe isiona as p o íncias), (iii) das eg as de dis ibuição de hon as e ecompensas e, po úl imo, (i ) do egime de ida e dos hábi os co idianos da pa e daqueles que ocupam al as unções. A polí ica de delegação anda, po an o, jun o com o que pode íamos chama de “polí ica de inspi ação” (Azoulay 2009: 170), onde o exemplo de Ci o es imula a imi ação, que apa ece nesse ex o pelo uso epe ido do ad é bio ὁμοίως. Ci o consegue, dessa o ma, não apenas di undi suas i udes e o seu modo de ida, mas ainda e i a oda possibilidade de imp e is o, de con usão e de dissolução da hie a quia. Tal qual no exé ci o, cada indi íduo que possui um papel no go e no como sus en áculo do impé io conhece o seu luga , bem como os de e es e compo amen os a elados ao seu pos o. Ao implemen a essa medida, usando seus amigos e aliados como in e mediá ios en e ele e os seus go e nados e ins ando-os a imi á-lo, Ci o az com que eles se o nem ex ensões da sua pe sonalidade e do seu pode polí ico (Ta um: 1989: 199). Além disso, se no acampamen o mili a o pode emana da enda do che e si uada no cen o (VIII, 5, 9), no impé io de Ci o o pode emana da capi al, ela ambém si uada no cen o, em di eção às on ei as mais longínquas do e i ó io. Nessa pe spec i a, do mesmo modo que Ci o cen alizou os assun os econômicos (VIII, 1, 15), os assun os polí icos ambém o am “cen alizados” (συγκεφαλαιοῦνται) nas mãos de um pequeno g upo de di igen es. Dessa o ma, em ez de dispe são e en aquecimen o do pode pelas múl iplas egiões do impé io, obse a-se, ao con á io, g aças ao sis ema c iado po Ci o, uma concen ação do pode . E ao inco po a as sa apias ao sis ema hie á quico de cunho mili a , a p esença e o pode do ei se azem semp e esmagado es, na medida em que eles não se diluem po con a da dis ância em elação ao cen o do impé io. Os sá apas e, de modo ge al, os companhei os de Ci o, possuem en ão um pode ela i o, que encon a ce amen e o seu pon o culminan e 30 Ci op. VIII, 6, 14. 199 A o ganização mili a (s a io iké sýn axis) e a es u u a econômica e polí ica do impé io Pe sa na Ci opédia de Xeno on e A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 56. Segundo cua imes e de 2024. Pp. 181-201. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i56.08 na igu a de Ci o, mas que não é, a despei o disso, um pode ic ício. O a, é exa amen e po que a au onomia e o pode dos sá apas não são ic ícios que Ci o c iou um co po de inspe o es (VIII, 6, 16). Todos os anos, um inspe o isi a a as p o íncias semp e acompanhado de opas, (i) caso um dos sá apas p ecisasse de soco o, (ii) se alguém í ima de desmedida p ecisasse se apaziguado, (iii) se osse necessá io conse a alguma negligência na cap ação de ibu os e, po im, (i ) se se al a a com qualque ou a p esc ição . Se o inspe o não podia ele mesmo esol e os p oblemas iden i icados, ele en ia a um ela ó io a Ci o, que delibe a a ace ca do indisciplinado. Xeno on e a i ma, po im, que o inspe o pe manecia “in isí el”, na medida em que não se sabia nunca exa amen e quando ele a ia a sua inspeção, de modo que Ci o conseguia ga an i a e icácia desse sis ema g aças ao elemen o-su p esa31. 3. Conclusão P opomos nes e a igo uma análise de um dos aspec os da iloso ia polí ica de Xeno on e: a o ganização mili a como es u u a dos assun os econômicos e polí icos do Es ado pe sa e que, de modo su p eenden e, az eco na con empo aneidade, na medida em que a polí ica é po ele pensada em e mos de hie a quia, e icácia, e iciência, apidez e ges ão acional de pessoas e de ecu sos ma e iais. É in e essan e no a que Xeno on e i a dos meand os da ida mili a elemen os essenciais pa a pensa o que ele ac edi a se a melho o ganização possí el pa a qualque comunidade humana, o que az o iginalidade pa a o seu pensamen o ilosó ico, pois nenhum dos seus con empo âneos pensou o Es ado de o ma semelhan e. À guisa de uma conclusão mais esquemá ica, en emos esponde às ques ões colocadas no início e que mo i a am es e es udo. - Po que eco e ao pa adigma mili a pa a pensa a es u u a econômica e polí ica do Es ado? O pa adigma mili a , mais especi icamen e a s a io iké sýn axis, apa ece na Ci opédia como o esquele o do Es ado pe sa: odos os assun os econômicos e polí icos do impé io de Ci o são adminis ados a pa i de uma complexa hie a quia, na qual o luga e as unções de cada um são bem es abelecidos e igo osamen e espei ados; a é mesmo Ci o es á subme ido ao sis ema que ele c iou, sis ema esse que não é au ônomo, mas que depende di e amen e da a i idade do che e sup emo. Além disso, ela pe mi e concen a o pode nas 31 “Cy us makes equen inspec ions and unde akes pe iodic p og esses h ough his Kingdom. Wha he is no able o in es iga e he delega es o ci cui commissione s, o ice s who pe o m a unc ion simila o he inspec o s-gene al o a mode n mili a y es ablishmen . Hence a communi y so o ganized and supe ised as o dec ease he elemen o he unp edic able, he haphaza d and he a bi a y, will measu ably inc ease and secu e he leade ’s con ol o e his ollowe s. (Wood 1964: 59).” 200 Vi o de Simoni Milione A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 56. Segundo cua imes e de 2024. Pp. 181-201. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i56.08 mãos de poucos no á eis, cujas o dens são apidamen e disseminadas ao longo da cadeia de comando. Ela pe mi e ambém elimina , na medida do possí el, os con li os in e nos, a con usão e a ana quia ins au ando a e icácia, a apidez, a igilância mú ua, a p ospe idade ma e ial e a obediência olun á ia em elação ao sobe ano. G aças a essa o ganização de ipo mili a , é possí el ins au a , ademais, dois ipos de polí ica complemen a es: uma polí ica de delegação, onde o sobe ano dis ibui a odos os seus associados unções polí ico- adminis a i as, e uma polí ica de inspi ação na qual o sobe ano, g aças ao seu p óp io exemplo (pa ádeigma), es imula os seus subo dinados a p a ica a i ude, de modo que as suas qualidades são di undidas po odo o impé io. Po im, nesse sis ema, ninguém é excluído, de modo que odos, encedo es e de o ados, êm o seu papel a cump i e o bom uncionamen o do Es ado depende de que cada um exe ça as suas unções. - Quais p oblemas Xeno on e en a esol e anspondo ce os elemen os do pa adigma mili a à es u u a do Es ado? (i) A p ese ação e a es abilidade do Es ado, daí a necessidade de ins au a a o dem e a disciplina a a és da concen ação do pode mili a nas mãos do sobe ano, da igilância e do con ole pe manen es das p o íncias e dos al os uncioná ios, da ins au ação uma es u u a hie á quica igo osa onde cada um conhece mui o bem o seu luga e suas unções; (ii) o go e no e icaz de um as o e i ó io, daí a c iação da co e dos sá apas como cópias da co e impe ial; (iii) a obediência olun á ia, daí a ins au ação de uma polí ica e e gé ica adical onde odos os que ealizam belas ações são gene osamen e ecompensados; (i ) a e iciência adminis a i a, daí a p eocupação com a negligência e o descuido e a c iação de um sis ema hie á quico no qual cada um em a ibuições especí icas; ( ) o p oblema da p ospe idade ma e ial, daí a necessidade do equilíb io en e ecei as e despesas. 201 A o ganização mili a (s a io iké sýn axis) e a es u u a econômica e polí ica do impé io Pe sa na Ci opédia de Xeno on e A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 56. Segundo cua imes e de 2024. Pp. 181-201. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i56.08 Re e ências bibliog á icas Ama al de Almeida P ado, Anna Lia. Xeno on e: Econômico, São Paulo, Ma ins Fon es, 1999. Azoulay, Vincen . Xénophon e les g âces du pou oi : de la cha is au cha isme, Pa is, Publica ions de la So bonne, 2004a. Azoulay, Vincen . “The Medo-Pe sian Ce emonial : Xenophon, Cy us and he King’s Body”. In: Ch is ophe Tuplin, ed., The Wo ld o Xenophon, S u ga , F. S eine Ve lag, 2004b. Azoulay, Vincen . “Cy us, disciple de Soc a e ? Public e p i é dans l’œu e de Xénophon”. In: É udes Pla oniciennes, ol. 6 (2009), pp. 153-173. B eebaa , A.B. “F om Vic o y o Peace: Some Aspec s o Cy us’ S a e in Xenophon’s Cy upaedia”. In: Mnemosyne, ol. 36, núm. 2 (1983), pp. 117-134. Ca lie , Pie e. “L’idée de mona chie impé iale dans la Cy opédie de Xénophon”. 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