Full text
Medei os, J. A. Communia s. 5. 2021: 27-37 // 27
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Communia s.2021.i05.02 · COMMUNIARS · 5 · 2021. ISSN 2603-6681
A e, c iação e c ia i idade:
en e a u ilidade e a
inu ilidade na
epis emologia ociden al
A , c ea ion and c ea i i y: be ween use ulness and uselessness in
Wes e n epis emology | A e, c eación y c ea i idad: en e la u ilidad y la
inu ilidad en la epis emología occiden al
JosÉ A onso Medei os | [email p o ec ed]
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ | BRASIL
Recibido · Recebido · Recei ed: 17/01/2021 | Acep ado · Acei o · Accep ed: 10/04/2021
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Communia s.2021.i05.02
A ículo bajo licencia C ea i e Commons BY-NC-SA · A igo sob licença C ea i e Commons BY-
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Cómo ci a es e a ículo · Como ci a es e a igo · How o ci e his a icle:
Medei os, A. (2021). A e, c iação e c ia i idade: en e a u ilidade e a inu ilidade na epis emologia
ociden al. Communia s. Re is a de Imagen, A es y Educacion C í ica y Social, 5, 27-37.
Resumo:
Tan o pa a o senso comum quan o pa a o senso acadêmico, c iação e c ia i idade são, espec i amen e,
um p incípio p i ilegiado pelo campo da a e e uma habilidade desen ol ida p incipalmen e po
a is as. Desse modo, a a e em sido conside ada a a i idade po excelência na qual imaginação e
c ia i idade pa ecem indissociá eis. Essa concepção oi cons uída plenamen e ao longo do século
XIX. En e an o, conside ando-se a p óp ia his ó ia da a e, nem semp e os a is as e os eó icos de am
como ce a essa aliança en e imaginação e c ia i idade no p ocesso de p odução a ís ica, pois hou e
(e há) pensado es que de endem a ideia de que a c iação/ ec iação a ís ica se ia inú il na lida do se
humano com o mundo e com a ida e, sob e udo, na cons i uição do conhecimen o.
O p esen e a igo p e ende expo como os concei os ela i os à c iação na a e o am cons uídos
his o icamen e. Pla ão não econhecia na a e de seu empo qualque p incípio in en i o, mas de
simulação comple amen e desnecessá ia ao conhecimen o, enquan o A is ó eles, ao con á io, pe cebia
na a i ude mimé ica uma po encialidade cogni i a comum e necessá ia a odos os se es humanos. No
Renascimen o, c ia signi ica a sob e udo ec ia e essigni ica os p incípios da a e clássica,
aplicando-os ao con ex o mode no. En e an o, oi nesse pe íodo que o a is a omou consciência plena
de que seu abalho, mais que epe ição écnica e es ilís ica, exigia c ia i idade na abo dagem dos
emas, sob e udo quando esse ema e a bem conhecido. Jun o com essa ideia de c iação começou a se
aça a ideia do a is a como gênio in en i o.
Pala as-cha e: A e. Imaginação. C ia i idade. Conhecimen o.
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Abs ac :
Fo bo h he common sense and he academic, c ea ion and c ea i i y a e, espec i ely, a p inciple
p i ileged by he ield o a and a skill de eloped mainly by a is s. Thus, a has been conside ed he
ac i i y pa excellence in which imagina ion and c ea i i y seem insepa able. This concep ion was buil
up in i s en i e y h oughou he 19 h cen u y. Howe e , aking in o accoun he his o y o a i sel ,
a is s and heo is s ha e no always aken o g an ed his alliance be ween imagina ion and c ea i i y
in he p ocess o a is ic p oduc ion, because he e we e (and a e) hinke s who de end he idea ha
a is ic c ea ion/c ea ion would be useless in he human being's dealings wi h he wo ld and wi h li e
and, abo e all, in he cons i u ion o knowledge.
The aim o his a icle is o explain how he concep s o c ea ion in a ha e been cons uc ed
his o ically. Pla o did no ecognise in he a o his ime any in en i e p inciple, bu a he a p inciple
o simula ion comple ely unnecessa y o knowledge, while A is o le, on he con a y, pe cei ed in
he mime ic a i ude a cogni i e po en iali y common and necessa y o all human beings. In he
Renaissance, c ea ing mean abo e all ec ea ing and esigni ying he p inciples o classical a ,
applying hem o he mode n con ex . Howe e , i was in his pe iod ha he a is became ully awa e
ha his wo k, a he han echnical and s ylis ic epe i ion, equi ed c ea i i y in he app oach o he
subjec ma e , especially when ha subjec ma e was well known. Along wi h his idea o c ea ion,
he idea o he a is as an in en i e genius began o eme ge.
Keywo ds: A . Imagina ion. C ea i i y. Knowledge.
Resumen:
Tan o pa a el sen ido común como pa a el académico, la c eación y la c ea i idad son, espec i amen e,
un p incipio p i ilegiado po el campo del a e y una habilidad desa ollada p incipalmen e po los
a is as. Así, el a e se ha conside ado la ac i idad po excelencia en la que la imaginación y la
c ea i idad pa ecen insepa ables. Es a concepción se cons uyó en su o alidad a lo la go del siglo XIX.
Sin emba go, eniendo en cuen a la p opia his o ia del a e, los a is as y eó icos no siemp e han dado
po sen ada es a alianza en e la imaginación y la c ea i idad en el p oceso de p oducción a ís ica,
po que hubo (y hay) pensado es que de ienden la idea de que la c eación/c eación a ís ica se ía inú il
en el a o del se humano con el mundo y con la ida y, sob e odo, en la cons i ución del
conocimien o.
El p esen e a ículo p e ende expone cómo se han cons uido his ó icamen e los concep os ela i os
a la c eación en el a e. Pla ón no econocía en el a e de su iempo ningún p incipio in en i o, sino de
simulación comple amen e innecesa io pa a el conocimien o, mien as que A is ó eles, po el
con a io, pe cibía en la ac i ud mimé ica una po encialidad cogni i a común y necesa ia a odos los
se es humanos. En el Renacimien o, c ea signi icaba sob e odo ec ea y esigni ica los p incipios
del a e clásico, aplicándolos al con ex o mode no. Sin emba go, ue en es e pe iodo cuando el a is a
omó plena conciencia de que su ob a, más que la epe ición écnica y es ilís ica, eque ía c ea i idad
en el plan eamien o de los emas, sob e odo cuando ese ema e a bien conocido. Jun o con es a idea
de c eación, comenzó a su gi la idea del a is a como genio in en i o.
Palab as cla es: A e. Imaginación. C ea i idad. Conocimien os.
…
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Nas sociedades u banas con empo âneas, a c ia i idade es á em al a. Ou o a ligada ao empo
li e das necessidades de subsis ência e ao cul i o do espí i o, a c ia i idade o nou-se uma
qualidade que, desejá el an o no abalho quan o no laze (Russel, 2002 ; De Masi, 1997),
man ém a men e ale a con a as mazelas da homogeneidade e a a o da busca de soluções
inédi as em á ios campos do conhecimen o. Fala-se a é em uma economia e uma indús ia
c ia i as e espe a-se que quaisque p o issionais sejam c ia i os ou in en i os ou engenhosos
ou ino ado es na lida com o abalho, com a sociedade e consigo mesmo. En e an o, essa
alo ização inédi a da c ia i idade na sociedade con empo ânea não es á anco ada numa
e alo ização das ocas simbólicas e do conhecimen o em si mesmos, mas, ao con á io, na
oca que ag ega alo mone á io a odos os obje os, elações e p oduções humanas.
Não podemos a i ma a pa i de quando e como a capacidade c ia i a passou a incidi
decisi amen e na aje ó ia do se humano, mas sabe-se que a pa i de 70 mil anos a ás, já
do ados de habilidades que ga an iam sua sob e i ência (caça e cole a alimen os; alguma
o ma de linguagem e comunicação) e na segunda le a em di eção às e as eu opeias e
asiá icas, os homo sapiens passa am a u iliza di e sas capacidades, habilidades e es a égias
que, en e ou as coisas, p opicia am a cos u a de oupas, a i ualização da mo e de seus en es,
a ab icação de obje os com ca ac e ís icas es é icas apa en emen e inú eis, a a essia de
oceanos e a submissão e ex inção de ou as espécies humanas. Embo a possamos a i ma que
as ou as espécies humanas ambém inham essas mesmas habilidades, o a o é que as
es a égias imagina i as no es uá io, na eligião, na a e e na gue a dos sapiens – odas
ligados à uma capacidade ex ao diná ia de iccionaliza e necessá ias à sob e i ência do
g upo – ende am-lhes a abe u a do caminho pa a o opo da cadeia e olu i a.
O que acon eceu com nossos ances ais sapiens en e 70 e 30 mil anos a ás, pe íodo que
comp eende o início da segunda g ande mig ação em di eção ao les e e ao oes e do hemis é io
no e a é a chegada às e as do sul do Pací ico, onde não ha ia ou as espécies humanas?
Segundo Yu al Ha a i (2015) e á ios au o es
1
, acon eceu uma “ e olução cogni i a” que
pe mi iu o desen ol imen o das capacidades de comunica , memo iza e ap ende ,
possibili ando o uso da imaginação não só como es a égia de sob e i ência do g upo, mas
como base das elações sociocul u ais que desde en ão êm sido a ônica de odas as sociedades
humanas. Baseado em es udos da biologia, da an opologia e da a queologia e olu i as,
Ha a i a i ma que oi jus amen e a pa i da comunicação, da memó ia e do ap endizado que
o sapiens desen ol eu a capacidade de iccionaliza , is o é, de c ia o mas, p o ó ipos, elações,
unções e es a égias que não exis iam na ealidade e que pe mi i am a sob e i ência da
espécie. Com esse “sal o da imaginação”, nasce am as mais an igas o mas de conhecimen o
acumulá eis que ainda hoje compa ilhamos a a és da ag icul u a, da culiná ia, da a e, do
design, da comunicação, da eligião, da ciência, da engenha ia e da sociologia.
Essa pe spec i a his ó ica é co obo ada pelas pesquisas a uais das neu ociências a a és da
descobe a de que os nossos lobos on ais (localizados dian e de cada um dos dois hemis é ios
ce eb ais, desp opo cionais se compa ados aos de ou as espécies), po si sós, não dão con a
das habilidades cogni i as supe io es (como se ac edi a a a é ecen emen e); ou as á eas
“p imi i as” do cé eb o (como o ce ebelo) e ela am-se igualmen e impo an es pa a a
expansão da in eligência humana e isso o nou-se pa icula men e e i icá el nos es udos da
1
Klein e Blake (2005) ; Janson (2015) ; Picq (2016).
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neu oes é ica desde os anos 1990 (Cappelle o, 2012). Esses es udos asse e am que os
es ímulos p o ocados pela a e acionam p ocessos neu o isiológicos ances ais que, desde
en ão, ize am com que aspec os gené icos e cul u ais ossem desen ol idos em es ei a
colabo ação – Jean-Pie e Changeux (2013) chama esse modo in e a i o da e olução de
“coe olução genes-cul u a”.
Os p imei os obje os a ís icos que chega am a é nós ambém su gi am naqueles pe íodos que
denominamos de paleolí ico e neolí ico. Es a ue as an opomó icas, u ensílios deco ados e
pin u as pa ie ais o am da ados além de 30 mil anos a ás e cons i uem os p imei os
es emunhos da capacidade humana de c ia ou ec ia o mas e obje os que, a p incípio, não
indicam nenhuma unção u ili á ia, embo a seja bem conhecida a eo ia da unção mágico-
eligiosa desses obje os es é icos pelo simples a o de que á ios deles o am encon ados em
ca e nas de di ícil acesso ou p óximos de sepul u as. P o a elmen e, a maio ia daquelas
cul u as do paleolí ico e do neolí ico não denomina am de “a e” esse ipo de p odução, mas
o e mo é aplicado e ospec i amen e jus amen e po causa do ca á e não u ili á io de ais
obje os, escul u as e pin u as. De qualque manei a, é a o que mui os desses p odu os que
concebemos como es emunhos da gênese a ís ica êm um componen e lúdico que os
dis anciam da ealidade. Johan Huizinga, ao de ende a ideia de que o homo sapiens e o homo
abe não podem se comp eendidos sem o homo ludens, indica que a noção de jogo há mui o
empo pe passa as elações humanas e é es a noção que dá sen ido à cul u a, obse ando que
“o jogo si ua-se o a da sensa ez da ida p á ica, nada em a e com a necessidade ou a
u ilidade, com o de e ou com a e dade” (Huizinga, 1999, p. 177). A a e nasce do cu o-
ci cui o que oco e quando as capacidades de imagina , de iccionaliza , de abs ai e de joga
in e agem en e si. Assim, do g a i ei o sapiens ao g a i ei o pop, a a e pa ece indica a
necessidade ances al de se inú il.
Se a c ia i idade se o nou moeda o e na sociedade con empo ânea assime icamen e
globalizada, isso se de e à a e e seus di e sos p o issionais. É no campo da a e que a
capacidade c ia i a é mais desejada, econhecida e aplaudida. Tal ez po isso mesmo, a
c iação a ís ica (ou mais p ecisamen e a “u ilidade” ou a “inu ilidade” que ela p oduz) oi
al o de mui as con endas nos campos da Filoso ia, da Religião e da Ciência, naquilo que
Gilbe Du and (1998) chamou de “iconoclas ia endêmica do Ociden e” ou que, num ou o
sen ido, A hu Dan o (2014) ca ac e izou como o “desc edenciamen o ilosó ico da a e”. Pelo
is o, a imaginação, a c ia i idade e as o mas simbólicas há mui o es ão no cen o das
discussões epis emológicas, is o é, no econhecimen o ou não da impo ância da a e pa a as
o mas de conhecimen o do mundo e de au oconhecimen o.
No Ociden e, essa discussão sob e a impo ância da a e pa a o conhecimen o emon a a
Sóc a es e Pla ão. Pa a a eo ia da mimesis soc á ico-pla ônica, o a is a (me o imi ado ) nada
sabe sob e as e dadei as ideias e o mas cons i uídas pelo demiu go (p imei o e e dadei o
c iado ) que a alma humana imo al de e econhece e con empla . Assim, a pin u a, a
escul u a e a poesia da con empo aneidade pla ônica nada mais a iam do que cons ui
simulac os a pa i das cópias que o a esão az das c iações demiú gicas e que, po isso
mesmo, e am inú eis. É po essa supos a azão que Pla ão (2016) “desabili a” o poe a como
educado , o condena ao exílio de sua sociedade ideal e, ao mesmo empo, deixa uma ma ca
p o unda na his ó ia das men alidades no Ociden e, qual seja, a de que a a e de ca á e
na u alis a, com sua beleza inú il, manipula dados da expe iência a a és da imaginação e das
sensações e o e ece en endimen os incompa í eis com a e dade. O aze do a is a
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con empo âneo de Pla ão oi conside ado inú il jus amen e po que es e, supos amen e, não
e a sábio ou não inha ciência das coisas sob e as quais ala a, pin a a ou esculpia. Funda-se
assim, no Ociden e, a ideia de que a c iação a ís ica é um es o ço cogni i o comple amen e
inú il pa a a sociedade.
Um século depois de Pla ão, o ilóso o chinês Zhaungzi (“Mes e Zhaung”) econhecia a
inu ilidade de um e dadei o sábio. Dizia que uma á o e só a ingia sua pleni ude se osse
inú il, is o é, inadequada pa a uso humano (como alimen o ou lenha). Pe cebendo que a
u ilidade de uma á o e e a a causa de seu in o únio, Zhaungzi a i ma a me a o icamen e
que “pa a conhece o que é ú il é p eciso sabe o que é inú il” (Zhaungzi apud O dine, 2016,
p. 94) – os esc i os de Mes e Zhaung o na am-se uma das on es pa a o desen ol imen o
pos e io do zen-budismo.
A is ó eles (2015), con adizendo Pla ão, pe cebe no impulso mimé ico uma ca ac e ís ica
humana impo an e pa a o ap endizado e pa a a cul u a, en endendo que a e ossimilhança
poé ica, lidando com a qué ipos e não com pa icula idades con ingenciais, ap oxima-se do
discu so ilosó ico na en a i a de des ela as essências das coisas. Além disso, o discípulo de
Pla ão comp eendeu que a ca a se, e ei o palpá el da e ossimilhança no ânimo do espec ado
da agédia g ega, con ibuía (enquan o e ei o pu ga ó io) pa a a empe ança, o equilíb io e a
ha monia dos espí i os, ou seja, pa a a “jus a medida” mo al e in elec ual que a beleza, aliada
ao bem, de e ia imp imi nos humanos e nas elações sociais. Po udo isso, A is ó eles
pe cebeu na imaginação a ís ica uma u ilidade que seus an ecesso es imedia os não pude am
(ou não quise am) comp eende .
E oi esse impulso mimé ico, aliado ao impulso lúdico que, endo a a e como mani es ação
p i ilegiada, o na am-se imp escindí eis pa a a exp essão, a comunicação e o ap endizado
humanos desde que “a nossa humanidade o nou-se consumada” – segundo as belas pala as
de Geo ges Ba aille (2015) e e indo-se às pin u as de Lascaux. Mas é necessá io no a que a
endência à imi ação lúdica, sob e udo a a és das a es, impulsionou a écnica, con e iu ao
homem o e inamen o de sua mo icidade e po encializou sua capacidade de abs ação a a és
da linguagem. A a e de nossos ances ais espalhados po odos os ecan os da e a nos
su p eende não só po suas qualidades mais ou menos mimé icas, mas ambém po sua
excelência écnica, po sua capacidade de ep esen ação e po sua manei a de nos aze
conec a com as p o undezas da na u eza (humana incluída).
À e elia do gos o a ís ico de Pla ão, a a e de seu empo (que já e a um co olá io de
in luências cul u ais o iundas de ou as ci ilizações mais an igas) o nou-se a mais conhecida
e disseminada o ma de exp essão da an iguidade medi e ânea, es endendo sua in luência ao
O ien e Médio, à cos a no e da Á ica, à boa pa e do con inen e eu opeu e a é, quiçá, ao Vale
do Indo e ao Ex emo O ien e, ambém po con a da disseminação p omo ida p imei o po
Alexand e da Macedônia e depois pelos omanos. A his ó ia dessa in luência oi e omada no
século XV e se es endeu (no bojo da colonização eu opeia) a é o século XIX, quando a a e (com
o Roman ismo) e a iloso ia (com Nie zsche) inaugu a am a e isão c í ica sob e a he ança da
cul u a clássica g ega.
No longo in e egno que ai do es acelamen o do impé io omano a é o início da colonização
eu opeia mode na, o cul o à imagem como e elação do sag ado icejou na Eu opa e no
O ien e Médio c is ãos, nas cul u as budis as da Ásia e em á ias cul u as ame índias e
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a icanas, enquan o a ep esen ação igu a i a do di ino es a a in e di ada nas cul u as
judaicas e islâmicas, ge ando uma iconoclas ia que adqui iu eno ado ulgo com o
p o es an ismo. Em odos esses casos, o que es a a em jogo e a o pode da imagem como
exp essão e eículo do conhecimen o ou, mais p ecisamen e, o ipo de conhecimen o que a
imagem pode ou não ansmi i e p i ilegia . En e an o, as di e sas o mas de
ep esen ação/mani es ação do imaginá io mágico- eligioso seguiam, g osso modo,
o ien ações bem especí icas que limi a am a capacidade c ia i a dos a is as, an o no
c is ianismo quan o no budismo.
Na a e c is ã, o a is a e a um écnico, um ope á io das chamadas “a es mecânicas”. O
exe cício da c ia i idade enquan o capacidade in e p e a i a, mesmo que limi ada a uma
concepção eligiosa da sociedade, e a uma p e oga i a dos p o issionais das a es libe ais
ligados às uni e sidades eu opeias que nascem no século XII a pa i de se e
disciplinas/assun os conside ados básicos pa a os es udos supe io es: G amá ica, Re ó ica e
Lógica (o i ium) e A i mé ica, Geome ia, Música e Cosmologia (o quad i ium, que oi
o mulado inicialmen e po Pi ágo as po ol a de 500 a.C.) (Ma ineau, 2014). Essa
sis ema ização didá ica do conhecimen o em se e “a es libe ais” emon a à Alexand ia do
início do século II (Joseph, 2008) e es a a baseada, em g ande medida, na assimilação da
he ança pla ônica, a is o élica e es óica pela dou ina c is ã. “E oi no p incipal desdob amen o
do Humanismo – o Renascimen o – que de a o começou a de o a -se o conjun o das Se e
A es Libe ais, especialmen e ‘pela mão do eólogo [...] checo Jean Amos Comenius (1592-
1670), que, em sua p incipal ob a, Magna Didac ica, não apenas az pouco das Se e A es como
es abelece as bases das pedagogias mode nas’”
2
que i ão omen a o ensino uni e si á io como
o mação especializada e es i a ao exe cício p agmá ico de di e sas p o issões. Assim,
paula inamen e ai saindo de cena a o mação uni e si á ia gene alis a pa a da luga ao
conhecimen o especializado calcado na di isão acional do abalho e, consequen emen e, na
di isão de classes que ca ac e iza á o con í io social na mode nidade.
Enquan o isso, os a esãos – pin o es, escul o es e a qui e os, que ainda não e am conside ados
a is as no sen ido mode no do e mo – ap endiam o o ício na p á ica com ou os a esãos
o ganizados em o icinas e a eliês e de emos lemb a que pin o es e escul o es ge almen e
es a am subo dinados aos a qui e os, já que pin u a e escul u a e am conside adas o ícios
complemen a es à a qui e u a e não e a a o que esses ês o ícios ossem ap endidos
conjun amen e. Não ha ia um conjun o de conhecimen os eó icos e écnicos dida icamen e
o ganizados e aplicá eis a odas as o icinas, simplesmen e po que a maio ia dos a is as
eu opeus e a anal abe a, mas a o mação do a is a nessas o icinas/a eliês e a bem
sis ema izada e comp eendia di e sas e apas, seguindo mais ou menos as adições es ilís icas
locais, passadas de ge ação em ge ação. Da G écia clássica a é aquele momen o, o a is a isual
eu opeu quase nunca oi conside ado um e udi o, di e en emen e de ou as ci ilizações – na
Índia, na China e no Islã – que i e am seus “ enascimen os” bem an es do lo escimen o
humanis a da cul u a eu opeia. Como bem ea i ma Jack Goody, “ odas as sociedades le adas
êm pe íodos de e ocação do passado, quando às ezes o an igo é es abelecido como uma
eno ada explosão de ene gia e le a a um lo escimen o da cul u a. Essas sociedades ambém
êm pe íodos em que o elemen o eligioso pe de impo ância, p oduzindo episódios
humanis as que p opo cionam mais libe dade ao homem, an o nas ciências quan o nas a es.
2
Nasse apud Noygué (“P ólogo”) (Joseph, 2008, pp. 9-10).
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Nessas á eas, a suspensão da c ença e e sua impo ância e a e ocação dos clássicos pagãos
ce amen e acili ou o caminho” (Goody, 2011, p. 8).
Segundo Goody, um an o de secula ismo (mesmo que ela i o), ou o an o de ole ância
cul u al, algum ap eço pelos clássicos do passado e alguma disposição pa a a ino ação écnica
e es ilís ica pa ecem compo a ecei a dos á ios enascimen os a ís ico-cien í icos e i icados
nas sociedades le adas em di e sos ecan os do plane a e – di íamos – cons i uem algumas
das condições p opícias pa a o exe cício da c ia i idade nas sociedades mode nas. Com o
enascimen o eu opeu não oi di e en e. Em algum momen o da i ada do século XIV pa a o
século XV, nas pin u as de Jan an Eyck, F a Angelico, Van de Weyden e Masaccio e nas
escul u as de Ghibe i e Dona ello, a ep esen ação dos co pos (com ou sem es uá io)
eadqui i am olume ia, a pe spec i a (ou o pon o de is a de quem ê) oi e omada, a
na u eza ol ou a se ep esen ada de manei a mais ealis a, a pin u a à óleo oi in en ada, e
a esana o e pin u a e escul u a adqui i am au onomia em elação à a qui e u a, o nando-se
obje os colecioná eis. Ao mesmo empo, a ideia de a is a como “c iado ” e sua independência
in elec ual dian e da adição eligiosa essu gem na Eu opa da época. Mis u ando
c is ianismo com paganismo, ealismo com idealismo, e udi o com popula e a e com ciência,
o a is a e e que de ende sua libe dade de pensamen o dian e da ú ia dos conse ado es:
Michelangelo, Tiziano, A emizia, Ca a aggio, Ve onese e Goya são apenas alguns dos
exemplos mais no ó ios de lu a pela libe dade de exp essão.
Um dos e ei os mais impo an es dessa libe dade plena e ocada pela c iação a ís ica pode se
pe cebido na p óp ia o mação do a is a que, di e enciando-se do a esão e do ope á io
b açal, começa a p oduzi a ados, manuais e g a u as com ins pedagógicos, u ilizados como
ma e iais didá icos em mui os a eliês e nas escolas de a e a pa i da Academia de Desenho
de Flo ença, c iada po Gio gio Vasa i em 1562. Mesmo conside ando que nem oda a Eu opa
oi igualmen e enascen is a ou ba oca e que o enascimen o i aliano não oi a “única cha e
pa a a mode nidade e pa a o capi alismo” (Goody, 2011, p. 11), o a is a o na-se um schola ,
um connoisseu ão conscien e de sua independência in elec ual que chega a a on a não só os
cânones a ís icos do passado imedia o, mas ambém as in e p e ações canônicas sob e o
homem, a eligião e a na u eza. Com algum a aso em elação à cul u a chinesa, po exemplo,
o a is a eu opeu passa a se conside ado como um in elec ual, is o é, um p odu o de
conhecimen o.
Esse no o s a us social do a is a ai, en ão, p oduzi e ei os mais p o undos no campo
epis emológico e o p imei o deles se e i ica na iloso ia de Immanuel Kan que, des iando-se
das que elas en e empi ismo e idealismo, p opõe no os e mos pa a a eo ia do conhecimen o
em sua amosa ilogia c í ica. Nessas ês c í icas (pa icula men e na p imei a)
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publicadas e
aduzidas en e o inal do século XVIII e o início do XIX, Kan essal a o papel undamen al
da imaginação pa a a cons ução do conhecimen o como uma espécie de pon e necessá ia
en e a a iedade das pe cepções o iundas da sensibilidade e as sín eses p oduzidas pelo
en endimen o. Com Kan , a imaginação é econhecida como condição ine en e a quaisque
p ocessos cogni i os que o se humano u iliza – Baudelai e a quali ica como “a ainha das
aculdades”. É nessa pe spec i a que os a is as omân icos ão en en a as ama as da azão
humanis a-iluminis a e sua consequen e adução no classicismo ilosó ico e a ís ico g eco-
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C í ica da azão pu a (1781; 1787), C í ica da azão p á ica (1788) e C í ica da aculdade do juízo (1790).
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COMMUNIARS · 5 · 2021. ISSN 2603-6681 · DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Communia s.2021.i05.02
omano. Ad ogando o seu aze como p odu o da imaginação e da genialidade, os omân icos
se ol am pa a as adições locais (pagãs ou c is ãs) que ha iam sido “esquecidas” pelas
endências classicis as desde o século XV. A necessidade in elec ual da a e, assim pe cebida
pelos omân icos, ajudou a sus en a a es é ica de Hegel que admi iu que a a e o na a-se, ao
longo da his ó ia da humanidade, um eículo p i ilegiado pa a a mani es ação sensí el do
espí i o em busca de sua ma u idade e au oconsciência – ques ão es a que os es e as zen-
budis as chineses e japoneses já a a am mui o an es de Hegel (Ryckmans, 2010).
Pa adoxalmen e, o oman ismo a ís ico oi um dos p imei os e o es e e lexos an o do
mul icul u alismo quan o do nacionalismo, mas aquelas noções de imaginação, de
c ia i idade e de genialidade do a is a “que queb a odas as eg as e ul apassa odos os
limi es” (C oce, 2016, p. 278), sis ema izadas ainda no século XIX, se ão basila es pa a o cená io
a ís ico-cul u al do século XX. Além do mais, é necessá io lemb a que a noção de au o ia, ão
impo an e pa a a mode nidade ociden al, oi cons uída com o decisi o apo e dos a is as,
do Renascimen o ao Roman ismo.
O século XX es emunhou uma explosão c ia i a no campo das a es sem p eceden es,
sus en ada pelas e oluções indus ial, ecnológica e u bana já cla amen e isí eis no século
an e io . Pin u a, escul u a e a qui e u a expe imen a am no os ma e iais e écnicas e/ou
encon a am no as aplicações p á icas pa a écnicas cen ená ias. O design passa a se
di e enciado da a e exa amen e po causa de sua unção, ou seja, é design udo aquilo que,
do ado de um sen ido es é ico, não ab e mão da u ilidade do p odu o – assim, a a e é cada
ez mais con inada na ca ego ia do “inú il”. Comple amen e libe ada de quaisque in enção
u ili á ia, a a e do humano mode no (u bano e indus ializado) amplia as en es pa a o
exe cício da c ia i idade: o co po, o ambien e u bano e u al, o obje o indus ializado, a
na u eza, o inconscien e e o conscien e... Tudo se o na campo de explo ação pa a a a e e,
numa a i ude que adicaliza as p e ensões de genialidade dos omân icos, o a is a e oca pa a
si o di ei o de dize o que é ou não a e e quais os seus limi es, independen emen e das
concei uações que a ciência, a eligião, a iloso ia, a his ó ia, a sociologia ou a psicologia
p e endiam da a ela. Su ge a chamada “a e pela a e”, en endida em “seu campo
expandido”
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, is o é, quaisque aspec os da ida psíquica e social que aba ca não só a
sensibilidade humana, mas ambém sua capacidade de ans o ma a di e sidade da ida em
p ocessos cogni i os que edundem em concei os.
Isso signi icou, po um lado, up u as agudas e, po ou o, e omadas mais ou menos
in encionais que causa am g andes impac os nos modos de concepção e ecepção da a e.
Como odos sabemos, essa expansão c ia i a da a e no século XX p o ocou censu as di e sas,
sendo as mais conhecidas aquelas impos as pelo nazismo, pelo s alinismo e pelo maoísmo,
que conside a am essa p odução como “a e degene ada” ou “a e bu guesa”, ou seja, como
“a es socialmen e inú eis” e pe igosas pa a a educação das massas. Dos enascen is as aos
omân icos e aos mode nis as, as no as concepções de a e semp e causa am espan o e
censu a, mas nessa longa aje ó ia o que de a o se expandiu oi a capacidade c ia i a do
a is a, o nando a a e ão di e si icada e ecossis êmica que quase já não podemos mais
obse á-la como um odo uníssono e ca ego izá el.
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Exp essão cunhada po Rosalind K auss em elação à escul u a mode no-con empo ânea (K auss, 2002).
Medei os, J. A. Communia s. 5. 2021: 27-37 // 35
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Communia s.2021.i05.02 · COMMUNIARS · 5 · 2021. ISSN 2603-6681
A a e de on em e de hoje semp e nos in e pela sob e aquele pode de imagina que ez com
que o homo sapiens galgasse o opo da cadeia e olu i a. Po mais que p esen emen e saibamos
que não di e imos quase nada de ou os se es i os, semp e dizemos que os demais
mamí e os, po mais in eligen es que sejam, “não compo ão uma sin onia, ou pin a ão o e o
da Sis ina ou esc e e ão um belo omance”. A a ogância humana, bancada po sua p óp ia
c ia i idade, coloca em isco a sob e i ência do homo di o sapiens sapiens ao insis i em
pensamen os e p á icas monocul u ais. Tudo é eduzido ao alo mone á io – que em si
mesmo é pu a icção – e à lógica p eda ó ia e genocida do luc o.
Da mesma manei a que o humano em sepa ando as espécies animais e ege ais em “ú eis” e
“inú eis” há milênios, os cinco úl imos séculos – di os “da mode nidade” – ambém
es emunha am, no bojo do colonialismo eu opeu, a sepa ação en e conhecimen os “ú eis” e
“inú eis” (ou en e conhecimen os “ci ilizados” e “sel agens”), condenando à ex inção
línguas, sabe es e p á icas cul u ais an es mesmo que a maio ia da humanidade possa seque
conhecê-las. Po igno a mos que a e olução ope a num ênue equilíb io en e he ança gené ica
e he ança cul u al, i emos num empo não só de genocídios, mas ambém de es e icídios que
colocam em isco a p óp ia sob e i ência do humano. Reco endo à Da win e à Lé i-S auss,
Pascal Picq nos lemb a que “no en an o, uma espécie não é nada sem odas as elações que a
ligam ecologicamen e às ou as” (Picq, 2016, p. 144).
O mesmo aciocínio coe olu i o é aplicá el às a es. A e omada da concepção de a e g eco-
omana pelos enascen is as e neoclássicos; as o mas de ap op iação do ba oco pelos a is as
la ino-ame icanos; a in luência da ce âmica chinesa nas a es isuais eu opeias; a e alo ização
das a es adicionais ou p é- a aeli as pelos omân icos; a abso ção das lições o mais e
composi i as da g a u a japonesa pelos imp essionis as e pós-imp essionis as; a in luência da
escul u a a icana no cubismo; e a elei u a da he ança popula e ame índia na a e mode nis a
la ino-ame icana são p o as bem conhecidas de que a imaginação na a e sob e i e g aças ao
que chamamos de “ecossis emas es é icos”(Medei os e Pimen el, 2013, pp. 7-13) e que são, em
esumo, os esponsá eis pelas capacidades de imaginação e c iação que o humano em
desen ol endo há milênios.
Mas os ecossis emas es é icos só podem se pe cebidos e usu uídos se a en a mos pa a aquela
ad e ência que Okaku a Kakuzo ez em seu O li o do chá: “de emos nos lemb a , con udo,
que a a e é aliosa apenas na medida em que ela ale conosco. A linguagem pode se uni e sal
se nós p óp ios o mos uni e sais em nossas simpa ias” (Okaku a, 2008, p. 89). A p óp ia a e
con empo ânea – ainda que assime icamen e globalizada – e sua consequen e endência
anscul u al sus en a-se naquela di e sidade de p á icas e de sabe es que, em úl ima
ins ância, nos dão es emunho de que o espí i o c iado – que al ez seja a maio de odas as
dádi as humanas (Hyde, 2010) – é an o mais p odu i o quan o mais p o undo e ecossis êmico
o o nosso conhecimen o a ís ico-es é ico. Pa a co obo a essa a i mação de coe olução
en e conhecimen o “ú il” e c ia i idade “inú il” que o humano imp ime no mundo e a pa i
do mundo, eco o, po im, a Fayga Os owe : “É isso que cala ão p o undamen e em nós.
Comp eendemos que os p ocessos de c iação ep esen am, na o igem, en a i as de
es u u ação, de expe imen ação e con ole, p ocessos p odu i os onde o homem se descob e,
onde ele p óp io se a icula à medida que passa a iden i ica -se com a ma é ia. São
ans e ências simbólicas do homem à ma e ialidade das coisas e que no amen e são
ans e idas pa a si” (Os owe , 1978, p. 53).