A resposta logística às alterações no ambiente das empresas
Abstract
As constantes alterações que se têm feito sentir no ambiente que rodeia as empresas têm-nas obrigado a uma procura, também ela constante, por novas formas de resposta. Nesta árdua tarefa, e porque cada vez mais as empresas se preocupam em colocar “o produto certo, no local certo e no momento certo”, a logística tem vindo a conquistar um lugar de destaque ao permitir dar uma resposta mais eficiente em direcção a uma maior optimização de fluxos e de processos. Assim sendo, com este trabalho, de índole teórico, pretende-se basicamente despertar ou reforçar o interesse da comunidade científica para esta nova área do saber, que por ser ainda algo nova, principalmente na Península Ibérica, merece por isso uma atenção especial.
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1 A RESPOSTA LOGÍSTICA ÀS ALTERAÇÕES NO AMBIENTE DAS EMPRESAS Susana Garrido Azevedo RESUMO As constantes alterações que se têm feito sentir no ambiente que rodeia as empresas têm-nas obrigado a uma procura, também ela constante, por novas formas de resposta. Nesta árdua tarefa, e porque cada vez mais as empresas se preocupam em colocar “o produto certo, no local certo e no momento certo”, a logística tem vindo a conquistar um lugar de destaque ao permitir dar uma resposta mais eficiente em direcção a uma maior optimização de fluxos e de processos. Assim sendo, com este trabalho, de índole teórico, pretende-se basicamente despertar ou reforçar o interesse da comunidade científica para esta nova área do saber, que por ser ainda algo nova, principalmente na Península Ibérica, merece por isso uma atenção especial. ABSTRACT The numerous changes that firms are facing in their environment are forcing them for new answers. In this hard mission and because more than ever the customers demands for the right product, in the right place and in the right time the logistics has been reaching an important place inside firms. Through logistics firms can reach a great optimization of the flows and the processes that through put the supply chain. In this context the main objective of this article is to call for and reinforce the importance of logistics. PALAVRAS CHAVE: Revisão de literatura, Logística, ambiente empresarial. 1 – INTRODUÇÃO As inúmeras alterações que se têm feito sentir, não apenas no ambiente que rodeia as empresas, mas também nas suas prioridades competitivas têm-nas despertado para a necessidade de optimização dos diversos fluxos e processos que atravessam toda a cadeia de abastecimento à qual pertencem. É neste contexto que a logística assume um papel fundamental ao permitir que as empresas enfrentem mais facilmente os desafios presentes e futuros e se posicionem estrategicamente relativamente aos seus concorrentes. 2 – CONCEPTUALIZAÇÃO Antes de se avançar importa que se atenda ao conceito de logística propriamente dito já que a logística tem passado por um processo de evolução, marcado por uma série de acontecimentos que têm afectado o meio envolvente das empresas e que têm provocado também mudanças, quer em termos terminológicos, quer conceptuais.
CITIES IN COMPETITION 2 Uma análise um pouco mais atenta à componente terminológica, permitirá constatar que, ao longo dos tempos, muitos têm sido os termos usados para designar, o objecto - logística. Algumas dessas denominações usadas, passam por: logística dos negócios, gestão de materiais, abastecimento físico, logística da distribuição, marketing logístico, distribuição total (Bowersox, 1978), engenharia da distribuição, (Johnson e Wood, 1993), logística industrial, sistemas de resposta rápida (Lambert e Stocks, 1999). A par da evolução terminológica, também em termos conceptuais, a logística tem sido alvo de um processo de mudança. Neste âmbito, e primeiramente, faz-se um levantamento das diferentes abordagens que têm sido feitas à logística. De seguida, elabora-se uma análise diacrónica às diferentes conceptualizações de logística que podem ser encontradas na literatura, agrupando-as no entanto segundo os seguintes critérios: actividades desenvolvidas pela logística, incidência, abrangência e objectivos. Numa das abordagens conceptuais feitas à logística, esta é vista como um conjunto de actividades, que vão desde a aquisição, a movimentação, a armazenagem e também a entrega dos diversos produtos e materiais ao longo da cadeia de abastecimento1 (Ratliff e Nulty, 1996). Esta mesma definição é utilizada por Wong, Maher, Nicholson e Guerney (1990) que acrescentam, no entanto, a estas actividades a gestão de existências e da documentação. O Council of Logistics Management, em 1976, (Bowersox, 1978), considerava, para além destas actividades, o serviço ao cliente, a previsão da procura, o processamento das encomendas, a selecção das instalações de fabricação e armazenagem, as compras, a embalagem, o tratamento dado aos bens com problemas de qualidade e ao lixo. Uma outra abordagem, preconizada por Ross (1998, citado em Robles, 2000), é a que considera a logística como uma ferramenta de gestão da cadeia de abastecimento. Segundo esta abordagem, a logística representa uma ferramenta de gestão da cadeia de abastecimento, que permite a fusão entre o Marketing a Produção e a Distribuição, tendo como principal objectivo possibilitar à empresa a obtenção de novas fontes de vantagens competitivas, através da oferta de serviços diferenciados aos seus clientes (Bowersox, 1990). Ainda uma outra abordagem é a que encara a logística como geradora de utilidade2. De facto, Novack, Rinehart e Wells (1992) apresentam a logística como geradora de utilidade e com vista à satisfação do cliente. Mais concretamente, nesta conceptualização a logística é definida como uma disciplina que envolve a criação de utilidade de tempo3, lugar4, quantidade, forma5 e posse6, dentro e entre as empresas. Nesta definição é preciso no entanto, esclarecer que para estes autores, a utilidade de tempo, lugar, quantidade e forma são obtidas directamente através da logística, mas a utilidade de posse é atribuída às funções Marketing e Compras, funções estas consideradas, por estes autores, como fazendo também parte da logística. Nesta mesma linha de pensamento, Lambert e Stock (1999), Bowersox (1978) e Haven (1995), definem a Logística como uma disciplina que adiciona utilidade, mas apenas utilidade de tempo e lugar. Para os primeiros autores, a utilidade de 1 Cadeia de abastecimento - alinhamento de empresas que têm como principal missão fazer chegar os produtos ao mercado (Lambert, Stock e Ellram, 1998) 2 Em vez de utilidade, alguns autores (Carvalho e Dias, 2000) optam pela designação de atributo. 3 Utilidade de Tempo – é o valor criado por tornar qualquer coisa disponível no tempo certo (Lambert e Stock , 1999). 4 Utilidade de lugar – é o valor criado ou adicionado ao produto por o tornar disponível para compra ou consumo no lugar certo. A Logística é directamente responsável por adicionar utilidade de lugar aos produtos ao mover de uma forma eficiente matérias-primas, stocks em viasde-fabrico e bens finais do ponto de origem ao ponto de consumo (Lambert e Stock, 1999). 5 Utilidade de forma – é o valor de tornar os materiais disponíveis num estado completo (Lambert e Stock, 1999) 6 Utilidade de posse – é o valor adicionado ao produto ao permitir que o consumidor se torne proprietário do bem. Esta utilidade é obtida pela oferta de créditos, descontos de quantidade, pagamentos a prestações, etc. (Lambert e Stock, 1999).
INNOVATIONS AND TECHNOLOGY PROJECTS AND OPERATIONS MANAGEMENT IN THE CITY DEVELOPMENT 3 forma não se encontra no âmbito da logística mas sim no da função Produção e a utilidade de posse7 no âmbito do Marketing, funções tidas como independentes da logística. Na perspectiva de Bowersox (1978) através da utilidade de tempo e lugar a logística consegue, por um lado, realçar a capacidade das transacções e por outro lado, assegurar que as empresas forneçam elevados níveis de satisfação aos seus clientes. Existem outros autores e organizações que abordam a logística segundo uma óptica processual. Por exemplo o Council of Logistics Management (Mears-Young e Jackson, 1997) define a logística como o processo de planeamento, implementação e controlo da eficiência e custo efectivo dos fluxos, incluindo o armazenamento de matérias-primas, existências em vias-de-fabrico, bens finais e informação, desde o ponto de origem até ao ponto de consumo, com o objectivo de ir ao encontro das necessidades dos clientes, proporcionando-lhes a máxima satisfação. Também Coyle, Bardi e Langley (1996) definem a logística como um processo que fornece uma ferramenta para as tomadas de decisão sobre, algumas actividades no âmbito da logística, como sejam: o transporte, a armazenagem, o manuseamento de materiais e a embalagem. Igualmente Carvalho (1995), defende a óptica processual da logística, uma vez que para este autor, se a logística for organizada em termos departamentais, ou seja se for adoptada uma óptica funcional, surgem mais facilmente problemas de coordenação global das actividades, desvirtuando, deste modo, o seu carácter integrador. Juedes e Webster (1996), por outro lado, optam por adoptar uma abordagem em que a Logística é considerada como a arte e a ciência da coordenação, e ao mesmo tempo, como uma função de gestão de fluxos. Na primeira perspectiva, este considera que a logística se baseia não na racionalização de actividades funcionais individuais, mas sim na coordenação e integração da interface entre tais actividades. Portanto, partilha em certa medida também da óptica processual. Na segunda perspectiva, em que a logística surge como uma função de gestão de fluxos, este defende que cabe à logística elaborar a configuração das redes de recursos, e desenvolver a programação de fluxos e processos. Uma vez feito o levantamento de algumas das abordagens à logística, encontradas na literatura, vai-se de seguida fazer uma análise às diferentes conceptualizações, considerando para isso, os seguintes critérios: funções, incidência, abrangência e objectivos da logística. Começando pela análise às funções atribuídas à logística e que constam na literatura analisada verifica-se que, estas são muito variadas. Assim, na definição dada em 1976, pela “National Council of Physical Distribution Management”, actualmente “Council of Logístics Management”, a principal função atribuída à logística é a integração de duas ou mais actividades (Kent e Flint, 1997). Adoptando sensivelmente a mesma perspectiva, Juedes e Webster (1996) considera que a logística, sendo uma autêntica arte, apresenta como principais funções a integração e a coordenação das diversas relações que se estabelecem entre as diferentes actividades logísticas. Esta definição traduz uma visão alargada da logística, reflectindo, igualmente, o novo paradigma de mudança em que a ênfase passa da gestão funcional para a gestão processual (Fawcett e Fawcett, 1995). Já neste século, o Council of Logístics Management, num esforço de adaptação a novas realidade, adoptou uma nova definição de logística, na qual considera que as funções da logística são o planeamento, a implementação e
CITIES IN COMPETITION 4 o controlo. Estas mesmas funções foram encontradas na definição de logística de Coyle, Bardi e Langley (1996), de Young e Jackson (1997) e também de Carvalho (1995). Para além destas funções, mais tarde em 1989, na definição de logística dada pelo Nevem-Workgroup encontramos também a organização. Uma perspectiva diferente é preconizada por Novack, Rinehart e Weels (1992), ao considerarem que a principal função da logística é proporcionar a máxima criação dos atributos tempo, lugar, quantidade, forma e posse, dentro e entre as empresas e os indivíduos. Adoptando uma perspectiva mais restrita e com o intuito de ligar a logística à distribuição física, Johnson e Wood (1993) consideram que a principal função da logística é assegurar a movimentação completa dos materiais e produtos. Depois de feito o levantamento de algumas das funções que têm vindo a ser atribuídas à logística, pensa-se que todas elas podem ser traduzidas numa única, a coordenação. A coordenação de actividades, de processos e de pessoas. De seguida, vai-se analisar o âmbito de incidência da logística, ou seja, os objectos sobre os quais esta desempenha as suas funções. Neste contexto, e mais uma vez, tendo como referência as definições de logística encontradas na literatura, constata-se que um dos objectos sobre os quais a logística exerce as suas funções é o produto final (Wong, Maher, Nicholson e Guerney, 1990). Esta abordagem, reflecte uma visão particionada da logística, contemplando apenas uma parte da logística, neste caso, a logística outbound ou logística para lá da produção. Uma visão um pouco mais alargada, pode ser encontrada numa das primeiras definições dadas pela National Council of Physical Distribution Management (Kent e Flint, 1997), na qual se considera como objectos da logística o fluxo de produtos finais e em alguns casos das matérias-primas. Portanto, aqui a logística desempenha as suas funções sobre fluxos de produtos, quer a montante quer a jusante. Mais tarde, em 1976, a mesma organização, alargando o âmbito de actuação da logística, considera para além destes fluxos, os relacionados com os produtos em-vias-de-fabrico (Kent e Flint, 1997). Uma outra forma de encarar a logística, e mais concretamente o seu âmbito de actuação, é a encontrada no trabalho desenvolvido pelo Nevem-Workgroup (1989). Neste trabalho, considera-se que a logística exerce as suas funções sobre determinadas actividades que, por serem preocupação da logística, são consideradas actividades logísticas. Essas actividades, em número muito restrito, são: a aquisição, o transporte e a armazenagem. A incidência da logística sobre materiais e produtos, pode ser encontrada também em Johnson e Wood (1993). Esta visão, no entanto, é um pouco limitada uma vez que contempla apenas uma pequena porção dos recursos existentes dentro de uma empresa e com necessidades logísticas. Uma visão bem mais alargada é a adoptada por Coyle, Bardi e Langley (1996), ao considerarem que a logística exerce as suas funções sobre os fluxos de matérias-primas, stocks em-vias-de-fabrico, bens finais, serviços e informação. Esta mesma abordagem pode ser encontrada na definição dada pelo Council of Logistics Management, até final do último século. Isto porque, sensivelmente a partir de 2001, a mesma organização, na sua definição oficial, e como resposta à preocupação, quer com a escassez de recursos, quer com a, preocupação
INNOVATIONS AND TECHNOLOGY PROJECTS AND OPERATIONS MANAGEMENT IN THE CITY DEVELOPMENT 5 ambiental, passou a considerar, como objecto da logística, para além dos fluxos físicos e informacionais a montante e a jusante, também os fluxos inversos. Esta mesma abordagem pode ser encontrada em Carvalho e Dias (2000). Assim, do levantamento feito a alguns dos objectos sobre os quais a logística actua, salientem-se os fluxos de matérias-primas, de materiais de produtos e de informação. Relativamente à abrangência da logística, ou seja, sobre que ponto ou pontos da cadeia logística 8 esta exerce de facto as suas funções, verifica-se, após a análise de alguns trabalhos, que existe algum consenso nas definições encontradas. Assim a maior parte dos trabalhos analisados, referem que a logística incide basicamente desde o ponto de origem das matérias-primas até ao consumo dos produtos finais, isto é, desde os fornecedores até aos clientes (Council of Logístics Management, Kent e Flint, 1997; Johnson e Wood, 1993; Carvalho e Dias, 2000; Nevem-Workgroup, 1989 e Young Jackson, 1997). No entanto, uma perspectiva mais restrita, pode ser encontrada em Wong, Maher, Nicholson e Guerney (1990), ao considerarem, que a logística exerce as suas funções a montante, acompanhando apenas os produtos finais da empresa até ao consumidor final. No que diz respeito aos objectivos da logística, apesar de haver uma certa predominância de definições de logística que apresentam maioritariamente como objectivo a satisfação dos clientes (Council of Logistics Management; Kent e Flint, 1997; Novack, Rinehart e Weels, 1992), outras podem ser encontrados, que indirectamente contribuem para a dita satisfação dos clientes, e que são: o ir ao encontro das necessidades dos consumidores (Coyle, Bardi e Langley, 1996; Bowersox, Closs e Stank, 1999), a optimização dos fluxos (Juedes e Webster, 1996), e o servir de forma global os públicos pertencentes aos vários mercados (Carvalho e Dias, 2000). Como se pode constatar pelo exposto, apesar de existirem algumas diferenças nas definições de logística encontradas na literatura, existem no entanto alguns elementos conceptuais comuns, como por exemplo: (1) processo de planeamento e controlo; (2) incidência sobre o fluxo de matéria-prima, materiais, produtos acabados e informações; (3) abrangência desde o ponto de origem até ao ponto de destino e; (4) satisfação das necessidades e preferências dos clientes. 3– A IMPORTÂNCIA DA LOGÍSTICA A importância da logística, tem sido realçada por muitos autores, dentro e fora da logística, que a têm considerado como uma nova arma competitiva ao serviço das empresas (Waller, 1998), como uma fonte de vantagem competitiva sustentada9 (Olavarrieta e Ellinger, 1997) e também como o sustentáculo da estratégia de qualquer empresa (Heskett, 1977). 8A cadeia Logística é uma rede de intermediários que têm a seu cargo as funções de transferir, armazenar, manusear e comunicar, e que contribuem para um fluxo eficiente dos bens (Coyle, Bardi e Langley, 1996). 9 Na literatura, podemos encontrar várias formas de considerar as vantagens competitivas sustentadas. Uma, preconizada por Jacobsen (1988) e também por Porter (1985), em que as vantagens competitivas são tidas como sustentadas quando se mantêm durante um longo período de tempo. Outra, apresentada por Lippman e Rumelt (1982), segundo a qual uma vantagem competitiva é considerada sustentada quando continua a existir, mesmo após surgirem esforços, por parte da concorrência, para a sua duplicação. Uma terceira atribuída a Day (1994), De Geus (1997) e a Slater e Narver (1995) que realça o papel da aprendizagem contínua como a única fonte de vantagem competitiva sustentada.
CITIES IN COMPETITION 6 A importância da logística é bem ilustrada por Bowersox e Closs (1996:3) quando referem que: “ a logística acontece em todo o mundo, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana e cinquenta e duas semanas por ano”. Ou, por Christopher (1998) quando refere também que a logística proporciona a rede que suporta a vida do dia-a-dia. Resumindo, a logística está presente em quase tudo que fazemos. A logística está presente quando se entra numa superfície comercial e se adquire um produto, quando se encomenda um livro pela internet, quando se janta num local de comida rápida, quando nos deslocamos a uma farmácia e pretendemos um medicamento com urgência, quando abastecemos o nosso automóvel de combustível. Também em termos empresariais a logística assume enorme importância. De facto ela permite que, a par do produto, os clientes tenham também acesso a um conjunto de serviços de valor acrescentado, que passam muitas vezes por opções de entrega personalizadas, participação em programas integrados de planeamento e previsão e acesso electrónico às encomendas (Keebler, Manrodt, Durtsche e Ledyard, 1999). De uma forma mais sistematizada, a importância da logística advém também do facto de esta agregar ao produto valor de lugar, de tempo (Haven, 1995), de qualidade, de informação (Novaes, 2001) e de forma (Lambert e Stock, 1999). O valor de lugar surge associado à deslocação de matérias-primas e produtos acabados entre pontos geográficos distintos. O valor de tempo encontra-se relacionado com a entrega dos produtos dentro dos prazos fixados O valor de qualidade é obtido sempre que se consegue fazer chegar o produto certo nas condições previamente acordadas. E, finalmente o valor de informação que muitas vezes se encontra agregado ao produto surge pela disponibilização de determinado tipo de informações directamente relacionadas com a encomenda. A estas quatro categorias de valor, Lambert e Stock (1999) acrescentam o valor da forma, ou seja, a capacidade de a logística tornar os materiais disponíveis num estado completo. O factor tempo, tem sido um dos principais responsáveis pela crescente importância que tem sido atribuída à logística. Na realidade, a rapidez tem caracterizado, desde sempre, o cenário empresarial, por exemplo no ciclo de vida dos produtos cada vez mais curtos (Sharman, 1984), na aposta em paradigmas de sucesso que defendem uma maximização de valor, ao menor custo possível e no menor espaço de tempo possível e também no surgimento de uma concorrência entre as empresas baseada no tempo (Stalk, 1998). Actualmente, a importância da logística advém também da possibilidade que dá às empresas de eliminarem tudo o que não acrescenta valor. Com a escassez de recursos que se faz sentir e a necessidade de haver uma melhor afectação dos mesmos, a logística permite, de facto, uma optimização na utilização dos recursos. Através dela, e fazendo justiça à posição que ocupa na cadeia de valor, consegue-se eliminar do processo tudo o que não acrescenta valor para o cliente, como seja, custos, perdas de tempo, não qualidade, etc (Novaes, 2001). A sua importância, passa também pelo papel de suporte na implementação e coordenação das estratégias de produção globais. Quando as empresas optam por dispersar as suas unidades de produção, é importante que haja uma grande coordenação e controlo de todas as actividades de planeamento e produção, para que se criem sinergias e se aumente a eficiência dos processos. Neste contexto, a logística surge como o mecanismo que permite às empresas alcançar essa coordenação e consequentemente o sucesso (Fawcett e Closs, 1993). Como acontece frequentemente, só se reconhece a importância das coisas quando elas faltam, ou quando estão a funcionar mal. É pois também interessante verificar a importância da logística pelo lado da sua não existência, ou mau funcionamento. Esta perspectiva, foi a seguida pela empresa de consultoria A. T. Kearney (Lehmusvaara e Huiskonen, 1998) que fez um levantamento dos principais problemas que podem surgir nestas situações, ou seja, quando a logística ainda não ocupa qualquer lugar dentro das empresas, ou quando, apesar de já existir, está
INNOVATIONS AND TECHNOLOGY PROJECTS AND OPERATIONS MANAGEMENT IN THE CITY DEVELOPMENT 7 no entanto a funcionar mal. Estes problemas foram classificados em quatro categorias. Na primeira categoria, designada por falta ou negligência no seguimento de regras operacionais, os principais problemas encontrados foram: produtos estragados em armazém, matérias-primas entregues nos locais errados, fraca qualidade nas entregas, incorrecta especificação dos produtos, venda de um novo produto sem o teste de produção estar completo, produtos danificados durante a descarga. Na segunda categoria, denominada falta de controlo do sistema físico, os principais problemas que surgiram foram: desvios entre as vendas planeadas e as efectivas, baixa taxa de produção de produtos vendidos com baixas margens e também a subutilização da capacidade produtiva. Dentro da terceira categoria de problemas, designada por conflitos organizacionais, encontraram a utilização de fontes de abastecimento distantes quando existiam outras mais próximas, falta de sintonia entre os objectivos a serem alcançados pelas funções marketing, produção e vendas e, a utilização de modos de transporte para escoamento de produtos menos viáveis para as empresas. Um dos indícios da importância que a logística tem vindo a conquistar no seio da comunidade científica pode ser também encontrado no número de universidades com programas de doutoramento ou de mestrado nesta área. Nesta linha de raciocínio, e com o objectivo de fazer o levantamento do “estado da arte” da logística a nível da comunidade científica, Stock e Luhrsen (1993) fizeram uma compilação de teses de Doutoramento, em áreas relacionadas com a logística, e publicadas pela UMI (University Microfilms Internacional), durante o período 1987-1991 e nas várias instituições de Ensino superior dos EUA. Com esta compilação verificaram que é considerável o número de universidades (21 universidades) onde a logística tem despertado o interesse dos investigadores. Note-se no entanto que, a universidade que apresenta maior número de teses nesta área é a de Washington (65 teses), seguindo-se-lhe, a grande distância a Ohio State University (19 teses) e em terceiro lugar a de Pensilvânia (14 teses). Fazendo agora uma análise ao estudo da logística a nível europeu, constata-se que esta está a ter também alguma dinâmica, perceptível pelo levantamento dos programas de Mestrado em Logística, em vários países europeus, e feito pela European Logistics Association (ELA, 2000). Segundo este levantamento, merece de facto destaque a Inglaterra, quer pelo número de mestrados, quer pelo número de universidades a focarem esta temática e consequentemente a impulsionar a investigação nesta área. No que toca ao nosso país, a realidade é muito diferente. Só em meados da década de 90 é que se começaram a dar os primeiros passos em direcção a um maior aprofundamento do estudo sobre a logística. Assim, fazendo um levantamento das teses de mestrado e doutoramento defendidas em Instituições de Ensino Superior, até ao ano 2000, só no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Empresariais (ISCTE) é que, num universo de 848 teses, foi possível encontrar duas directamente relacionadas com a Logística, uma de doutoramento (Carvalho, 1995) e outra de mestrado (Dias, 1999). A outra instituição onde foram encontradas teses relacionadas com a logística foi no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG). Aqui, num universo de 600 teses existem em termos de mestrado, três sobre distribuição e uma sobre logística, esta última associada à manutenção preventiva. Das 484 teses de doutoramento, existem duas sobre os transportes e uma sobre a distribuição. Portanto, como se pode constatar, a Logística é em Portugal uma área ainda a explorar. 4– A LOGÍSTICA COMO RESPOSTA ÀS ALTERAÇÕES NO AMBIENTE DAS EMPRESAS As inúmeras alterações que se têm feito sentir no ambiente das empresas, têm levado a que estas sintam cada vez mais necessidade de se adaptarem, quer interna, quer externamente. Nesse processo de adaptação, a logística tem
CITIES IN COMPETITION 8 desempenhado um papel essencial ao se revelar uma verdadeira arma competitiva ao serviço das empresas (Waller, 1998), ao permitir um melhor fluxo de materiais, uma redução dos lead times e dos níveis de existências (Titone, 1996), ao permitir também a criação de economias de custos e o aumento da eficiência das empresas (Remmel, 1991). Algumas dessas alterações que se têm feito sentir no ambiente que rodeia as empresas, e que têm exigido destas uma resposta logística urgente, são as seguintes: (1) o alargamento do seu espaço de actuação, motivado, quer pela globalização dos negócios, quer pelo crescimento do comércio internacional; (2) a aplicação de novas tecnologias de informação/comunicação nas transacções com os parceiros de negócio; (3) a existência de consumidores cada vez mais exigentes; (4) a aplicação de novas filosofias de produção e; (5) a alteração nas prioridades competitivas das empresas. Analisando sumariamente cada uma dessas alterações e começando pelo alargamento do espaço de actuação das empresas, este tem sido motivado principalmente pela procura, quer por fontes de abastecimento, quer por novos mercados para escoamento dos produtos finais (Boyson e outros, 1995), o que tem levado à perda de importância tanto das distâncias geográficas como das fronteiras nacionais (Alfnes e Strandhagen, 2000). O alargamento do espaço geográfico, motivado pela procura por fontes de abastecimento, tem como principal objectivo realçar a posição competitiva da empresa no mercado, através da aquisição e utilização de um mix de recursos mundialmente disponíveis ao mais baixo preço e de melhor qualidade. O alargamento do espaço, tendo em vista o escoamento dos produtos, assenta sobretudo numa maior aposta em mercados estrangeiros chave, onde seja possível desenvolver uma presença local mais forte e ultrapassar práticas proteccionistas, verificadas em alguns países (Fawcett e Closs, 1993). Se à dispersão geográfica das fontes de abastecimento e dos mercados, se associar também a dispersão das linhas de montagem ou de produção, está-se então perante o fenómeno da globalização dos negócios (Christopher, 1998). A globalização, que objectivamente pode ser traduzida pela quota de mercado do comércio mundial de mercadorias (WTO, 2000), tem sido bastante significativa, principalmente na década de 90, onde se assistiu ao seu apogeu (Evans, 2000). Segundo as estatísticas da Organização Mundial do Comércio, referentes ao ano de 1999, o seu valor rondava, os 4 186 bilhões de dólares (WTO, 2000). Este valor só é possível porque, nas últimas décadas, se tem vindo a assistir a um certo crescimento económico (Bowersox e Closs, 1996) e à queda das barreiras comerciais, particularmente entre os países pertencentes à União Europeia, à NAFTA (North American Free Trade Agreement) e, à EFTA (European Free Trade Association) (Demkes e Tavasszy, 2000). A queda das barreiras comerciais entre países isolados ou organizados em blocos económicos, tem sido um dos principais factores dinamizadores da globalização ao permitir: a remoção de constrangimentos; a redução de custos (HIDC, 1998); uma melhor alocação de recursos; uma maior liberdade de escolha para o consumidor; uma mais equitativa distribuição da riqueza (Christopher, 1998); o surgimento de novas e melhores tecnologias de comunicação/ informação; o aparecimento de marcas e culturas globais; o aumento da estabilidade política (Waller, 1998) e também; uma nova perspectiva de encarar a cadeia de abastecimento (Bowersox e Closs, 1996). Esta tendência em direcção à globalização, tem imposto uma nova forma aos padrões do comércio mundial e consequentemente ao fluxo físico do mesmo, já que o mundo se tornou o objectivo para grande parte das empresas que procuram e distribuem produtos a uma escala mundial (Bagchi e Virum, 1998). No entanto, é preciso não esquecer que a globalização apresenta igualmente alguns desafios para as empresas, quer sob a forma de oportunidades, quer sob a forma de custos (Keebler, Manrodt, Durtsche e Ledyard, 1999). Assim sendo, e segundo Waller (1998), os principais desafios da globalização, sob a forma de oportunidades,
INNOVATIONS AND TECHNOLOGY PROJECTS AND OPERATIONS MANAGEMENT IN THE CITY DEVELOPMENT 9 são: o potencial de servir mercados alargados com as mesmas ou novas infra-estruturas; uma maior rotação de stocks com mais alcance de clientes e; alteração nos padrões da concorrência, já que esta se passa a fazer sentir mais acentuadamente entre cadeias de abastecimento e não tanto entre empresas (Fawcett e Clinton, 1996; Keebler, Manrodt, Durtsche e Ledyard, 1999). Pensando em termos de custos, os principais desafios associados com a globalização são: a customização dos produtos, provocada pela falta de homogeneidade dos mercados mundiais; a redução dos custos de produção pelas novas localizações das unidades fabris e; a complexidade logística10 associada à gestão de uma cadeia de abastecimento global (Christopher, 1998). Tanto o alargamento do espaço de actuação das empresas como a própria globalização, têm feito com que muitas actividades cresçam do campo nacional para o internacional, se desenvolvam maiores fontes de fornecimento globais com parceiros geograficamente dispersos e também, com que as redes de transporte se tornem mais complexas e extensas. Esta realidade vem exigir das empresas uma maior aposta na gestão da cadeia de abastecimento, a formação de parcerias estratégicas com parceiros de negócio, a criação de empresas virtuais, uma maior aposta no e-business (Skjoett-Larsen, 2000) e a integração operacional e regional, através de um sistema logístico comum (Bowersox e Closs, 1996). Ou seja, vem exigir das empresas sobretudo uma resposta logística também ela global (Lambert e Stock, 1999), como forma de conseguirem entrar mais facilmente em novos mercados, melhorar a sua posição competitiva e mesmo aumentar o lucro (Gooley, 1994). Mir (2000) apresenta no entanto uma opinião menos pragmática. Para este autor, o desafio da globalização é exportar mais e melhor, cabendo não apenas à Logística mas também ao Marketing encontrarem soluções para tal desafio. Assim, na persapectiva deste autor, as empresas para exportarem mais, devem analisar e reprogramar as estratégias de marketing; para exportar melhor, devem optimizar a gestão logística. Ainda nesta linha de pensamento, Cook (1998) defende que, as empresas que se lançam na globalização, devem apostar, como garantia de sucesso, no Marketing criativo, na economia de custos, na utilização de recursos chave e como não podia deixar de ser, na logística. Um outro factor que tem em muito contribuído para alterar o ambiente das empresas é o surgimento de novas tecnologias de comunicação/informação. Estas, com destaque para a Internet, têm contribuído para alterar os padrões de negócio, facilitando a partilha de informação e a integração, sendo a forma mais conhecida o ebusiness, ou seja a “integração de um conjunto de processos, tecnologias e estratégias de negócio, com base em tecnologias e aplicações, que resultam essencialmente do potencial fornecido pela Internet” (Almeida, 2000:68). Graças às novas tecnologias de informação/comunicação, os consumidores, em todo o mundo, podem fazer as suas compras confortavelmente à escala mundial, através de meios electrónicos (Bradley, 1998). A aplicação destas novas tecnologias de informação/comunicação tem tido um crescimento surpreendente desde finais da última década. Segundo uma previsão da evolução mundial do e-business, feita pela empresa de consultoria Gartner Group, o seu crescimento será ainda mais acentuado até 2004 (Martins, 2000). Esta evolução favorável do e-business verifica-se tanto ao nível do business-to-business (B2B), ou seja, entre as actividades de comércio que envolvem várias empresas, através de uma Internet, Intranet, Extranet, transferência electrónica de dados (EDI, XML, entre outros) (Sameiro, 2000), como também ao nível do business-to-consumer (B2C), ou seja, entre as actividades de comércio que se desenvolvem entre a empresa e o consumidor (Bernardou e Tremblay, 2000). 10 A complexidade logística é influenciada pelos seguintes factores: leque de produtos, duração do ciclo de vida dos produtos, crescimento do mercado e número de canais de abastecimento/mercados (Christopher, 1998).