Antropologia comprometida, antropologias de orientação pública e descolonialidade. Desafios etnográficos e descolonização das metodologias
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Chap e Ti le: ANTROPOLOGIA COMPROMETIDA, ANTROPOLOGIAS DE ORIENTAÇÃO
PÚBLICA E DESCOLONIALIDADE. DESAFIOS ETNOGRÁFICOS E DESCOLONIZAÇÃO DAS
METODOLOGIAS
Chap e Au ho (s): Juan Ca los Gimeno Ma ín and Ángeles Cas año Mad oñal
Book Ti le: Epis emologías del Su
Book Sub i le: epis emologias do Sul
Book Edi o (s): Ma ia Paula Meneses and Ka ina Bidaseca
Published by: CLACSO
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Epis emologías
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ANTROPOLOGIA COMPROMETIDA,
ANTROPOLOGIAS DE ORIENTAÇÃO
PÚBLICA E DESCOLONIALIDADE
DESAFIOS ETNOGRÁFICOS E
DESCOLONIZAÇÃO DAS METODOLOGIAS1
Juan Ca los Gimeno Ma ín
Ángeles Cas año Mad oñal
COMPROMISSO DA ANTROPOLOGIA E
ORIENTAÇÃO PÚBLICA DO SEU CONHECIMENTO
A an opologia, enquan o disciplina que se ins i ucionalizou no úl i-
mo e ço do século XIX, en en a desa ios impo an es num mundo
globalizado, que ob iga a e e a comp eensão an o do pa icula e
do uni e sal como das suas elações. Conside amos que é possí el
man e como pa e de um consenso na nossa disciplina que de en-
demos cien i icamen e o ac o cen al de que nós os humanos somos
uma espécie, mas que apenas somos e podemos se humanos não
de uma o ma abs a a e gene al, mas, sim, de o ma elacional, en-
quan o memb os de comunidades ou po os especí icos. Além disso,
em an opologia, de endemos que as cul u as não cons i uem algo
1 Es e a igo su ge a pa i das e lexões p opiciadas a pa i da comunicação
ap esen ada pelos au o es ao XIII Cong esso de An opologia da Fede ação de
Associações do Es ado Espanhol (FAAEE), em se emb o de 2014, como p o ocação
pa a uma ampla discussão sob e a an opologia e a descolonialidade. Es a é uma
e são ampliada e e o mulado dessa p opos a. O a igo oi publicado o iginalmen e
em Cas año, A.; Solazzi, J. L. e Gimeno, J. C. (eds.) 2016 “Descoloniza as Ciências
Humanas: Campos de pesquisa, desa ios analí icos e esis ências — Pa e 2”, dossiê
na e is a OPSIS, Ca alâo-GO, V. 16, Nº 2, julho/dezemb o, pp. 262-279.
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EPISTEMOLOGÍAS DEL SUR / EPISTEMOLOGIAS DO SUL
p ede inido, mas, sim, algo que se “ az” ao agi mos como humanos,
e ambém de endemos o di ei o de cada um e de odos nós, que p o-
cedemos de uma a iedade de cul u as pa icula es, a o na mo-nos
humanos de aco do com a ação especí ica das nossas p óp ias cul u-
as e não em e mos abs a os. Cla o que ao longo do empo oco e-
am á ios p ocessos que le a am à homogeneização e pad onização,
mas semp e com alcance limi ado. Enquan o humanos, con inuamos
a se o que semp e omos; somos humanos à nossa manei a. Es a
concepção cien í ica da cul u a de ende que a humanidade é, e sem-
p e se á, di e en e. Se le a mos a sé io es a decla ação sob e a di e -
sidade cul u al humana, emos de en en a as suas consequências
na nossa o ma de en ende os di ei os humanos, ou seja, o mais uni-
e sal que hoje emos à mão. Como a i ma Te ence Tu ne : se, em an-
opologia, “os di ei os humanos es ão de inidos como di ei os pa a
chega a se humanos, es es de em consis i , no mínimo, na p o eção
des a capacidade humana essencial pa a a p odução, obje i ação, e-
alização e ans o mação de si mesmos e das suas elações sociais”
(Tu ne , 2010: 59, neg i o ac escen ado). Essa capacidade só se ad-
qui e em de e minados luga es e em condições his ó icas pa icula-
es. Se acei a mos es es a gumen os da an opologia, que a iculam
o uni e sal (di ei os) com o pa icula das cul u as em que nascemos
e nos socializamos, de e íamos comp ome e -nos a c ia e man e as
condições que p o ejam a sua capacidade pa a a p odução e ans o -
mação de si mesmas, dos di e en es cole i os humanos, que, na sua
di e sidade, cons i uem a humanidade, especialmen e nos casos de
po os cujos di ei os es ão ameaçados.
Uma ez mais, se le ássemos a sé io as consequências des es
a gumen os, o u u o da an opologia não e ia que e apenas, ou
an o, com o sucesso das elabo ações eó icas e me odológicas que
se p essupõem numa disciplina, mas ambém com as es a égias
pa a man e a a iedade e iqueza da di e sidade cul u al que
emos conside ado como algo adqui ido e em elação ao qual se
desen ol eu a disciplina. Como assinala June Nash, na sequência
de uma e lexão sob e o seu p óp io pe cu so, nos úl imos sessen a
anos da an opologia, as p á icas do abalho de campo da disciplina
muda am d as icamen e (Nash, 2015: 63). Ela iden i ica uma sé ie
de ans o mações: 1) a passagem do obse ado obje i o pa a o
obse ado pa icipan e; 2) a mudança de oco da p á ica no ma i a
pa a a inclusão da a u a social e da e ol a; e 3) uma ên ase especial
na c iação de espaços pa a o diálogo e os in e câmbios cul u ais com
as pessoas que es udamos. Es as mudanças podem se esumidas nas
suas p óp ias pala as:
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Juan Ca los Gimeno Ma ín e Ángeles Cas año Mad oñal
No pa adigma eme gen e do abalho de campo, os an opólogos es ão
a da um passo em en e na c iação de espaços pa a um in e câmbio
de pon os de is a que conduza à comp eensão mú ua. Como
in es igado es comp ome idos não só emos que obse a e pa icipa
num p ocesso con ínuo de mudança, mas ambém con ibui pa a
as condições pa a a sob e i ência e a c ia i idade das pessoas que
es udamos. (Nash, 2015: 68)
Na concepção de June Nash, a an opologia ex a asa em á ias di e-
ções, que ac edi amos que podem elaciona -se com a ideia de uma
an opologia de o ien ação pública. Nos EUA, exis e uma an opo-
logia chamada an opologia pública que em elação com o público e
com a ida a ual, is o é, que não es á es i amen e es i a ao âmbi o
académico e em que e uma pa icipação a i a. Es a posição en en-
a a ideia dominan e no meio académico dos EUA de que o abalho
académico em que se exclusi amen e pa a a p odução de conheci-
men o académico e não de e suja -se com a polí ica. Pelo con á io,
pa a alguns académicos do Sul, como Akhil Gup a2, não oma uma
posição polí ica se ia uma abdicação de esponsabilidade po que as
pessoas com p epa ação, incluindo os an opólogos, êm uma espon-
sabilidade em elação às suas comunidades.
A an opologia de o ien ação pública es á elacionada com
uma isão p oblema izado a da “an opologia” que p ocu a mos a
e desen ol e a sua capacidade pa a en en a de o ma e icaz a
comp eensão dos p oblemas sociais do mundo con empo âneo, o
que chamamos o “nosso empo”, iluminando essas p oblemá icas e
con ibuindo pa a a sua discussão pública com a in enção explíci a
de pa icipa a i amen e na p oposição e implemen ação das
ans o mações sociais que se es ão a p oduzi , incluindo a a aliação
e análise das suas consequências. Es as ans o mações há mais de
500 anos que se dão na a iculação do local e do global, cons uindo
o mas de pode , de sabe e de se que são o obje o da an opologia,
pelo menos desde o século XIX. Na an opologia, emos en ado dize
algo sob e es as conexões, embo a as ên ases e as pe spec i as enham
mudado ao longo do empo. Hoje, a globalização, e a consciência sob e
ela, pe mi e-nos o mula no as pe gun as sob e es as ans o mações
assim como ques iona os ins umen os concep uais e me odológicos
2 Vic o ia Sand o d, numa en e is a, ela a a sua descobe a des e ipo de
an opologia, que a le ou a oma essa opção, numa eunião com um dos seus
p o esso es de S an o d, Akhil Gup a, que inha ei o o seu abalho no seu país, a
Índia: “Eu ala a com ele de uma con o é sia que exis e nos Es ados Unidos de que
o abalho académico em que se exclusi amen e pa a a p odução de conhecimen o
académico e não de e suja -se com a polí ica” (Ruiz, 2015).
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EPISTEMOLOGÍAS DEL SUR / EPISTEMOLOGIAS DO SUL
adequados pa a as abo da , po ou as pala as, con ida-nos uma ez
mais a “ ein en a mo-nos”.
“An opologia de o ien ação pública” de ia se um e mo
pa a nos ajuda a supe a a dis inção adicional en e “ eo ia”
e “aplicação”. É di e en e da an opologia aplicada e ambém
de uma an opologia es i amen e académica (mas az uso de
ambas). Es e ipo de an opologia es á longe de conside a que
o p incipal obje i o da p odução eó ica an opológica seja
discu i eo icamen e, cen ando-se em “disponibiliza his ó ias
e nog á icas simples e in o madas do mundo eal” (no sen ido de
Said, 2006: 168) em que i emos ealmen e, his ó ias secula es e
mundanas: ala do mundo e es á conscien e de que é p oduzida
no mundo e pa a o mundo. As polémicas en e eo ia e aplicação
an opológica êm como esul ado despe diça ene gias e inibi
os deba es que são impo an es e u gen es, deba es elacionados
com as lu as es a égicas que es ão a oco e na cons ução do
mundo con empo âneo: as que se dão pela jus iça, pela dignidade
humana, pelo di ei o de um mundo sus en á el, pela igualdade
de géne o, e c. As pe gun as ele an es são, en e ou as, como e
po que azão is o acon ece? o que ap endemos? o que podemos
aze ? Tal ez as di e enças mais no á eis não es ejam en e a eo ia
e a aplicação, mas, sim, en e o uso da eo ia e da aplicação pa a
ações ans o mado as ou pa a ações que ep oduzem o s a u quo
(San os, 2005). Tomemos como pon o de pa ida a pe gun a que
coloca Osca Cala ia pa a as ques ões sob e a unção pública da
an opologia (e das ciências sociais) (Cala ia, 2005): a quem pe ence
a an opologia, o conhecimen o an opológico? Se a an opologia é
conside ada como um conhecimen o social sob e o mundo, sob e a
di e sidade his ó ica e cul u al que con ém, não se de ia conside a
que a an opologia de ia pe ence a esse mesmo mundo? Se é um
conhecimen o sob e os “ou os”, não de ia pe ence ambém a
esses “ou os” que são conhecidos a a és da an opologia?
UMA VASTA TAREFA DE DESCOLONIALIDADE PELA FRENTE
O mundo con empo âneo, na sua di e sidade, con inua a es a o dena-
do a pa i do pon o de is a dos an opólogos ociden ais, enquan o as
ou as o mas de conhecimen o, os “ou os” sis emas de sabe , pe ma-
necem subo dinados às exigências de uma me a eo ia dominan e an-
opológica cen ada no Ociden e, que é a que apa ece nos manuais de
an opologia e li os de his ó ia da disciplina. Po que não usa os
concei os la ino-ame icanos, a icanos e asiá icos do mundo, de socie-
dade, de g upos sociais, de p ocessos sociais, po que não usa as con-
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Juan Ca los Gimeno Ma ín e Ángeles Cas año Mad oñal
cepções do bem i e e ou os concei os semelhan es cunhados pelos
an opólogos e an opólogas de cada luga e que de i am dos modos
a icanos, la ino-ame icanos ou asiá icos de codi ica a ealidade e
cen a a nossa a enção nos elemen os dis in i os de i ados deles na
ma iz disciplina da an opologia e ambém das ou as ciências so-
ciais? Se a an opologia abalha na c iação e ep odução de in e p e-
ações, se o seu obje i o oi semp e cons i ui um a qui o e uma biblio-
eca dos di e sos signi icados que as sociedades humanas êm
p oduzido e são capazes de p oduzi nos di e en es espaços e empos,
en ão ai sendo ho a de não se limi a a ca aloga es es signi icados e
in e p e ações, mas de os pô em p á ica. Cla o que is o é mais ácil de
dize do que de aze . Po que é ão di ícil le a a cabo es e p oje o? Em
que condições se pode ia aze ? Em que consis e a a e a? A p imei a
a e a des e es o ço consis e em descons ui a “An opologia” como
um sis ema de pensamen o p oduzido hegemonicamen e. É p eciso
desmon a os mecanismos pelos quais uma e são pa icula de an o-
pologia p oduzida num de e minado con ex o his ó ico — o su gimen-
o da Mode nidade iluminada que sucede ao Renascimen o — deixa de
apa ece como um p odu o localizado num e i ó io e num empo
conc e os pa a se con e e num p oje o global e uni e sal, esc i o em
maiúsculas. A segunda a e a, que em de se le a a cabo de o ma
con e gen e com a p imei a, consis e em abo da a exis ência de con-
igu ações de conhecimen o e pode que ão além do pa adigma da
mode nidade, “ou os” pa adigmas, ou as o mas de pensa . Reco-
nhece a exis ência dos p ocessos de p odução de ou os conhecimen-
os signi ica e em con a o ac o de que o conhecimen o sob e o mun-
do e sob e as ans o mações que oco em não se esgo a no pa adigma
do conhecimen o hegemónico. Como di ia o sociólogo po uguês Boa-
en u a de Sousa San os: o conhecimen o do mundo não se esgo a no
conhecimen o ociden al do mundo (San os, 2005). T a a-se de con i-
bui pa a o desen ol imen o de uma paisagem plu al de an opologias
que seja menos de inida pelas hegemonias me opoli anas e es eja
mais abe a ao po encial he e oglóssico da globalização. Faz pa e de
uma an opologia c í ica da an opologia: uma an opologia que não
cabe em si mesma, que ex a asa, ao descen a , his o iza e plu aliza
o que du an e an o empo oi en endido como “An opologia” (Lins
Ribei o e Escoba , 2006). A p odução de conhecimen os an opológi-
cos que su gem a pa i de ou os e i ó ios e luga es de enunciação,
a que se em chamado “an opologias do Sul”, eme ge aqui como uma
plu alidade de ocos de p odução an opológica a pa i de posições
p óp ias. O econhecimen o des a di e sidade de an opologias é
acompanhado da demanda pa a cons ui “a” an opologia como e-
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EPISTEMOLOGÍAS DEL SUR / EPISTEMOLOGIAS DO SUL
sul ado da p áxis das an opologias do mundo3. Uma ez que o luga
de enunciação é undamen al pa a a na u eza do enunciado, emos a
con icção de que a an opologia não pode se eduzida à que é p odu-
zida pelas o ças hegemónicas. Pelo con á io, o econhecimen o da
di e sidade de an opologias que se p a icam no mundo no início do
século XXI e dos seus modos no po encial plu alizado da globalização
pode ia pe mi i que os an opólogos em di e en es locais do mundo
bene iciassem des a di e sidade. As an opologias são capazes de con-
ibui de manei a dialógica pa a a cons ução de um conhecimen o
mais he e oglóssico e anscul u al. O econhecimen o das di e en es
an opologias o na possí el e -se mais consciência das condições so-
ciais, epis emológicas e polí icas da p odução an opológica, en en-
dendo que as “ou as” con igu ações an opológicas es ão localizadas
no in e io de uma con igu ação de pode mundial de inida pela globa-
lização impe ial e a globalidade colonial (o mundo que Aníbal Quijano,
Wal e Mignolo e os in elec uais que pa ilham a abo dagem descolo-
nial denominam mode no-colonial) que as p oduz como pe i é icas.
Aqui é necessá io conside a a elação das an opologias, e o seu papel
com as ecnologias da p odução da al e idade, e a sua ligação com
p oje os socioeconómicos e polí icos que cons i uem a ma iz mode -
no/colonial na sua ipla dimensão da colonialidade do pode /do sabe /
do se . A e cei a a e a consis e em le a a sé io a ques ão da colonia-
lidade, não apenas pa a exigi espei o pelas p oduções an opológicas
do Sul, mas pelo p óp io “Sul”. As an opologias, e nós an opólogos
como seus ep esen an es, de em e consciência de es a mos p esos
numa posição in e média pa icula en e uma ciência, eli is a como
oda a ciência, e a unção emancipado a que quise mos desempenha
pa a os “seus” po os. De emos con inua a p oblema iza esses “seus”
po os po que os po os são só seus, de si p óp ios e não são de nin-
guém. Como podemos en ão e i a que a nossa p á ica de in es igação
e esc i a (e ou as o mas de ep esen ação que u ilizemos) não seja
a e ada po es a genealogia elacionada com o pode e o con olo? Es-
c e e cons i ui uma p á ica li e á ia que es á semp e ligada a egimes
de pode : a e nog a ia, esc e e sob e os ou os, é ine i a elmen e um
exe cício de pode que pe mi e aos que esc e emos e au o idade so-
b e os ou os sob e os quais esc e emos. Como podemos en ão se i
pa a a emancipação mais ampla de que alá amos an es sem conside-
3 No li o cole i o sob e as an opologias mundiais (Lins Ribei o e Escoba , 2006),
analisa-se a di e sidade de an opologias que se p a icam no mundo, analisando
o empo p esen e como um momen o de ein enção da an opologia associado
às al e ações nas elações en e os an opólogos localizados em di e en es locais
do sis ema-mundo. O g upo em como pon o de e e ência o si e da “ ed de las
an opologías del mundo” (<www. am-wan.ne >).
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Juan Ca los Gimeno Ma ín e Ángeles Cas año Mad oñal
a o pode da “nossa” p óp ia posição? O que implica ia pa a a(s)
an opologia(s) assumi que ela(s) mesma(s) é(são) o p odu o de um
modo indus ial de p odução em e mos das mic op á icas da acade-
mia? Ao aze is o de o ma sé ia, como a i mam Res epo e Escoba ,
al ez e mos como “an opologia” ou “an opólogos” de am se aban-
donados dando luga a uma e a pós-an opológica (Res epo e Esco-
ba , 2004), como a que é p opos a po Ma ele (Ma ele, 2001: 66). Vin-
cula a p odução an opológica às p á icas cul u ais popula es e des es
g upos — en endendo es as não de manei a ingênua, mas a iculada
com as o mas em que ope a a colonialidade do pode , do sabe e do
se e que az com que es as mesmas p á icas colabo em (ou possam
azê-lo) na p odução da desigualdade, da disc iminação, da exclusão,
da ma ginalização — pode ge a ou a agenda que se en ec uze com
as an opologias eme gen es do mundo en en ando, ao mesmo em-
po, a p odução impe ial da an opologia com a endência eli is a da
p odução an opológica em oda a pa e. Es as p á icas cul u ais ques-
ionam os nossos p óp ios concei os usados pa a as en ende . Es e é
um apelo cla o pa a o desman elamen o das dis inções undacionais
en e o académico e o não académico. Es a di isão suge e que exis em
dois lados — a academia e o que lhe é ex e io —, o p imei o de inido
po uma acionalidade especí ica e uma sé ie de p á icas ex e io es e
di e en es de ou os campos da ida social. Po conseguin e, com e-
quência a discussão cen a-se em como lança uma pon e ou c ia co-
nexões en e a academia e os ou os campos. Mas a ques ão undamen-
al é en ende que o que p oduz e man ém essa on ei a é, ele p óp io,
um mecanismo que pe mi e o desen ol imen o de de e minadas polí-
icas de conhecimen o. Pa a aze um pa alelo com a e nog a ia do
Es ado, uma ez que se enham em con a as p á icas quo idianas de e/
p odução do conhecimen o académico, a on ei a adical en e acadé-
mico e ou os campos da ida social o na-se di usa. Mas es e apelo
não en ol e dei a o a o nosso abalho nem subo diná-lo pa a que
abalhe “pa a” ou os. É nossa esponsabilidade con inua a disponi-
biliza his ó ias e nog á icas simples e in o madas do mundo eal em
que i emos ealmen e, his ó ias secula es e mundanas (no sen ido de
Said, 2006), mas, p ecisamen e po isso, pa a p oduzi es as his ó ias
que se dis anciem c i icamen e do pode , que digam a e dade ao po-
de , é necessá io ab i o campo, ab i mos o campo não só às ou as
an opologias com as quais dialoga , ambém aos “ou os” e às “ou-
as”, ao que são e ao que que em e ao que sonham ambém, po que o
desejo é ambém um mo o da cons ução do mundo.
O encon o en e uma an opologia ex a asada e conscien e
da sua he ança colonial e da plu alidade de âmbi os e ní eis
da plu alidade de ex a asamen o p oduz uma plu alidade de
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EPISTEMOLOGÍAS DEL SUR / EPISTEMOLOGIAS DO SUL
an opologias de o ien ação pública, comp ome idas e descolonizadas
e, em consequência, um desa io pa a es abelece con e sas en e elas
e en e elas e o mundo.
AS PROPOSTAS DE DESCOLONIZAÇÃO
DAS METODOLOGIAS EM DEBATE
Incen i ados pelas expe a i as de e isão da p odução e das p á icas
an opológicas que su gi am no XIII Cong esso de An opologia da
Fede ação de Associações do Es ado Espanhol (FAAEE), que se ea-
lizou em Ta agona, em se emb o de 2014, mani es ámos o in e esse
de aze uma p opos a di ecionada pa a: 1) da isibilidade à endên-
cia c escen e da abo dagem descolonial nas p á icas e nog á icas e
na An opologia Social e 2) p omo e o deba e e a e lexão cole i a
sob e elas. Conside ámos o Simpósio “An opologia e descoloniali-
dade. Desa ios e nog á icos e descolonização das me odologias”, que
e e luga no e e ido Cong esso, como uma opo unidade pa a es a-
belece e p opo ciona um ó um no qual ap esen a as abo dagens
me odológicas das e nog a ias de colabo ação e ab i um deba e sob e
os desa ios e di iculdades que en ol em es as ans o mações na/da
disciplina. P opo ciona um enquad amen o pa a o o alecimen o de
edes de colabo ação en e in es igado es nes a pe spec i a ambém
azia pa e do nosso in e esse ao e e ua es a p opos a. Pa imos de
um conjun o de ideias que a am de cap a as ib ações e inquie u-
des de uma sé ie de p á icas e nog á icas que ques ionam a in e a-
ção clássica en e sujei os in es igado es e sujei os/obje os e nog a a-
dos, p o ocando ans o mações epis emológicas na An opologia. A
modo de sín ese, e com o obje i o de con inua a deba e sob e algo
que apenas es á o mulado como esboço, e omamos as ques ões que
lançámos nesse con i e, em que a ámos de es abelece a necessidade
de a icula as elações en e p á icas an opológicas comp ome idas,
ques ionado as de uma an opologia pu amen e académica e es é il,
e coloca uma sé ie de p opos as de ação.
Em p imei o luga , pe gun ámo-nos sob e as agendas que os
an opólogos e as pessoas podem pa ilha e as possibilidades de
p a ica a ph onesis, além da epis eme e da echné, como o ma de
conhecimen o (Giménez, 2012). As on es da ph onesis são espaços
colabo a i os pa a o desen ol imen o do conhecimen o, den o
dos quais o sabe p o issional dos in es igado es se combina com
o dos in e essados locais pa a de ini um p oblema a en en a .
Se econhecemos que a An opologia e as suas me odologias são
p odu os coloniais, e o çados pelos c i é ios de neu alidade
e obje i idade, pe gun amo-nos como se ão as me odologias
descolonizadas e pelas agendas que se p opõem pa a a p odução de
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posição si ua-se cla amen e no p óp io p ocesso de lu a: ao
o ganiza -se, ao analisa as condições op essi as e, acima de
udo, ao lu a con a essas condições e e le i sob e a p óp ia
expe iência, desen ol e-se uma comp eensão empí ica e eó-
ica da ealidade social que nenhum académico con encional
pode ia alcança . Po an o, os que de endem es a posição en-
dem a en ende o seu papel não como a o es que p oduzem
conhecimen o, mas, sim, como p omo o es e esc ibas: docu-
men am sabe es já bem o mulados e, às ezes, assumem am-
bém a a e a de aduzi-los pa a linguagens econhecidas pela
academia. Os abalhos de colabo ação de Luis Guille mo Vas-
co U ibe, especialmen e com os guambianos, especi icamen e
como solidá io (com capacidades de an opólogos), exempli i-
cam es a o ien ação (Dagua, Vasco e A anda, 1998).
Hale insis e em de ini a in es igação mili an e como uma mili ância
pela “ ida”. Wal e Mignolo, pelo seu lado, assinala que a in es iga-
ção a i is a e os p oje os descolonizado es êm em comum a omada
do pode epis émico ace ao domínio epis émico que mili a em p ol
dos luc os e da acumulação indi idual (de pessoas, países ou emp e-
sas) (Mignolo, 2011), mas é necessá io comp eende as di e enças nas
agendas dos di e sos a o es en ol idos nes es p ocessos colabo a i os
de in es igação. Pa a Linda Tuhiwai Smi h, in elec ual mao i que p o-
mo e me odologias de in es igação descolonizado as consis en es em
p á icas cul u almen e desen ol idas no mundo mao i conducen es
à sua au ode e minação (TUHIWAI, 2012), pa a Cumes, an opóloga
maia (Cumes, 2008), ou pa a Glo ia Anzaldúa, uma c í ica cul u al
chicana (Anzaldúa, 1999), a in es igação eque uma in e são da ela-
ção canónica en e disciplina e conhecimen o, en e academia e a i is-
mo. Enquan o pa a os an opólogos o es o ço se cen a em e o mula
a An opologia e despojá-la da sua he ança impe ial/colonial (ou seja,
descoloniza a an opologia), pa a as an opólogas maia e mao i o
p oblema cen al não es a ia na An opologia, mas na si uação e na
posição dos maias e dos mao i no mundo. Pa a Cumes e Smi h, o
seu papel como an opólogas consis i ia em aplica os seus conheci-
men os e compe ências em desen eda es e nó; a An opologia se ia
aqui um ins umen o simples. Pa a elas, o p oblema cen al es a ia
nou a pa e, e a An opologia é apenas uma manei a de lhe acede e
de o esol e . Aqui, a espos a à ensão en e academia e a i ismo ica
esol ida a a o da segunda. É es a a única al e na i a? Pa a Hale, a
espos a a es a pe gun a não é uní oca: depende.
A pa i do econhecimen o de que as on ei as en e es as
posições são ênues, e que mui os es o ços de in es igação
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comp ome ida ab angem mais do que uma delas, Hale a gumen a
que uma axonomia como es a pode ajuda -nos a en en a a
agmen ação a ual de “in es igação comp ome ida”, o que nos
en aquece pe an e os nossos ad e sá ios comuns. As di e enças en e
elas são eais e mui as ezes p o undas. Os a gumen os de undo da
in es igação descolonizada ão di e amen e con a o in elec ual
público, descons oem o seu comp omisso, conside ando-o
como uma co ina de umo pa a cob i mé odos que con inuam a
ca ega o “ a do colonial”, e que, embo a si am pa a econhece
academicamen e o seu abalho, deixam na somb a as p oblemá icas
de injus iça e desigualdade que subjazem a essa ealidade. G edhill
dá con a da capacidade de mui os p o issionais em aze uma ca ei a
académica com es es p oblemas (G edhill, 2000). Hale econhece que
ele mesmo, a pa i das posições da An opologia a i is a, c i icou as
co en es mais mode adas da posição descolonizado a, que põem a
ên ase p imo dial na p odução de no os pa adigmas epis emológicos
e pouco nas elações de in es igação, que se pode con e e
com acilidade num exe cício ão eli is a como o da academia
adicional, cujo esul ado é a p omoção indi idual e académica.
Os que pos ulam a e icácia da in es igação pa a o a anço na jus iça
social cos umam exp essa impaciência em elação à in es igação
mili an e, a gumen ando que a sua ên ase no p ocesso subes ima a
possibilidade de alcança os esul ados e os bene ícios conc e os de
uma in es igação “bem o mulada”. Os pa idá ios da in es igação
mili an e c i icam, po sua ez, a in es igação a i is a po de ende
ideais iguali á ios que con adizem as hie a quias pe sis en es en e
os “académicos” e os in elec uais o gânicos. Po ezes, es as posições
são de endidas com um adicalismo que deixa pouco espaço pa a
o diálogo e as c í icas mú uas doem mais po que pe encemos, em
úl ima ins ância, ao mesmo lado.
Pe an e es a si uação, Hale p opõe-nos, como an opólogos,
de ende um en endimen o plu alis a da in es igação comp ome ida
que aba que es as qua o posições. Não emos que escolhe uma ou
ou a, pelo menos não pa a semp e. Em cada ocasião podemos aze
uso de algumas delas, dependendo do con ex o em que se p oduz a
nossa in es igação e em unção dos pa cei os que enhamos nela.
Como cole i o dedicado à an opologia, ge i es e plu alismo de
an opologias comp ome idas passa ia em p imei o luga po en en a
pe gun as como es as: Quais são os p incípios que p e endemos
de ende em elação às condições con unden es de so imen o social
e às desigualdades múl iplas no nosso meio? Como pomos em p á ica
es es p incípios — a pa i do pos ulado de ab i as nossas ins i uições
a memb os dos g upos ma ginalizados a é ao de assegu a que os
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esul ados da in es igação sejam bem usados? Po ou as pala as:
a ibui um nome e apelido ao adje i o “comp ome ido”.
Hale, além disso, lança-nos uma e lexão incómoda. Se, como
an opólogos, não somos capazes de iden i ica , ex e naliza e
ap ende a pa i das con adições que exis em no in e io da
An opologia comp ome ida que p a icamos — sem impo a seja
qual o das qua o posições ou se é uma combinação delas —, en ão
o nosso p óp io “comp omisso” (com a “ ida”, não com a academia)
é pouco de ensá el.
A a i mação an e io em uma impo ância p agmá ica, uma ez
que cons i ui um con i e ao diálogo, à con e sa. Hale es á a chama -
nos pa a con i e com as di e enças en e an opologias e con e ê-
las num a o de en iquecimen o e de o ça cole i a. As con adições
são ine en es a qualque p ocesso de in es igação comp ome ida
(começando pela con adição que exis e en e o nosso comp omisso
com um mundo melho e os p i ilégios e iden es — de o mação,
de aça ou e nicidade, de géne o, de condições ma e iais — de que
gozamos como os in es igado es) e que su gem ine i a elmen e da
di e ença en e a in es igação em si e o a i ismo (Ley a, 2011).
Ac edi amos que es a e lexão pode se complemen ada com
ou as de Boa en u a de Sousa San os, quando se con on a
com as di iculdades de cons ui a pa i de posições polí icas
comp ome idas no con ex o a ual (San os, 2008). Um dos p oblemas
que se a as am é o en en a a si uação de plu alidades pola izadas.
Faz um apelo pa a in e e a ideia de que poli iza as di e enças é
equi alen e a pola izá-las. No âmbi o das posições comp ome idas
(com a “esque da”), p opõe que a poli ização se enha a da po
meio da despola ização. Ou seja, da p io idade à cons ução de
coligações e a iculações à ol a de p á icas cole i as conc e as,
discu indo as di e enças no âmbi o dessa cons ução. Is o acili a ia
que as ações cole i as não se subes imassem nem boico assem po
causa das di e enças, c iando um con ex o de deba e (con e sa,
di íamos) que acili a ia a unidade de ação. Dando p io idade à
pa icipação em ações cole i as conc e as, não despe diçando
qualque expe iência social de esis ência po pa e dos op imidos,
explo ados ou excluídos; conside ando as dispu as eó icas e as
di e enças no con ex o das ações e semp e com o obje i o de as
o na mais isí eis e o alecê-las. E, po úl imo, mas não menos
impo an e: semp e que um dado sujei o/cole i o ques ione o
obje i o e abandone a ação cole i a, de e azê-lo de manei a que
en aqueça o mínimo possí el a posição dos sujei os que con inuam
comp ome idos com a ação.
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