scieee Open visual document viewer

Bando surso em silenciosa lua

Mattos Corrêa, Elenice

Full text

1692 Bando su so em silenciosa lua Elenice Ma os Co êa A is a Plás ica e a e-educado a. Onco ô é um passo de dança com a língua. É uma língua dançando. Tom Zé 10 Bando Su do em Silenciosa Lua – na a i as do olha , é um p oje o pa a a p odução de um documen á io que nasce du an e a expe imen ação de uma pesquisa de dou o ado em In o má ica na Educação pela Uni e sidade Fede al do Rio G ande do Sul, ol ada a in es igação da ma é ia audio isual, como o ídeo digi al, na a i idade docen e e discen e, pa a sublinha algumas a iculações possí eis e po en es en e p odução audio isual e educação. Colabo ado es: Tânia Ma a Gali Fonseca, Liliana Passe ino, Elisa Ma isa, Leona do Ma ins Ga a elo, Luis A u Cos a. Pa a es a ealização audio isual, ope amos com os concei os de imagem-mo imen o, imagem- empo e abulação, sus en ados em Deleuze e Gua a i, como anco agens concei uais do p oje o. A imagem a a dessa es ei a elação dos sen idos humanos com o mundo: imagens isuais, imagens sono as, imagens ác eis, imagens ges uais, imagens óp icas que se des e i o ializa pa a o plano de imanência onde o na-se a imagem do pensamen o, a imagem que o pensamen o se dá ao pensa . A imagem do pensamen o, compos a po concei os ilosó icos, po unções cien í icas e po a ec os e pe cep os a ís icos, se cons i ui num co po sem ó gãos simul aneamen e ma é ia ce eb al e acon ecimen o pensamen o. Um pensamen o, que se lança ao ainda não pensado é um acon ecimen o que exp essa em e bos in ini i os que são as o ças em uncionamen o em uma mis u a de co pos (Deleuze e Pa ne , 1998: 77). O audio isual, como modo de exp essão, ins ala-se nos limia es indisce ní eis en e o sono o e o isual, ansbo dando os egimes linguís icos de exp essão e p odução do pensamen o. A pa i de um p oje o de expe imen ação audio isual com um cole i o de p o esso es de uma escola de educação de adul os da Rede Municipal de Ensino de Po o Aleg e (RME), en amos em con a o um cole i o de de icien es audi i os, que cons i uem pa e dos alunos público da escola. O Cen o Municipal de Educação dos T abalhado es – CMET Paulo F ei e que in eg a a RME, comp eende um cole i o em o no de 1.000 alunos, que a iam na aixa e á ia en e os 15 e os 90 anos, nas inúme as especi icidades dos alunos com de iciência ( isual, audi i a, sínd ome de down, au ismo), alunos com necessidades especiais deco en es de g a es dé ici s 10 Tom zé: An ônio José San ana Ma ins, é composi o , can o e a anjado b asilei o, conside ado uma das igu as mais o iginais da música popula b asilei a. Pa icipou do mo imen o musical T opicália nos anos 1960, o nando-se uma oz al e na i a in luen e no cená io musical b asilei o. Ganha no o iedade in e nacional com o músico b i ânico Da id By ne. Disponí el em: h p://www. omze.com.b /. Da a do acesso: se /2011. Tom Zé, em en e is a pa a um documen á io sob e o G upo Co po (impo an e g upo de dança b asilei o), e e e-se ao í ulo de um dos espe áculos do g upo. Onco ô é uma exp essão do diale o minei o (Minas Ge ais) que que dize , em po uguês: onde que eu es ou?. Quando Tom Zé ê es a exp essão dando nome a um espe áculo de dança, ele pensa a língua, ele pensa a pala a em sua co po eidade sono a - onco ô i a dança (Documen á io: G upo Co po 30 anos – uma amília b asilei a. Canal B asil, 03.02.2011, 22h30min). 1693 de ap endizagem, em ulne abilidade social, e na di e sidade de adul os abalhado es em ge al. Den e es e público di e si icado encon am-se as u mas ol adas pa a os de icien es audi i os. Foi a pa i de um p oje o pedagógico ílmico – o Filme Su do – ealizado po uma das p o esso as do g upo de pesquisa, ol ado pa a o ensino de geog a ia com os alunos de icien es audi i os, que se deu o con a o com es e cole i o de alunos. O Filme Su do, a a-se de uma mon agem cons uída nos limi es dos con eúdos disciplina es e do modelo didá ico/pedagógico, pela o e endência que emos (p o esso es) de pedagogiza as o mas exp essi as. Mas a po ência do ilme su do e em sua su dez. Nessa mon agem, o dize é o almen e ges ual, em que cada aluno ap esen a, à sua manei a, algumas in o mações básicas ace ca do ema em pau a. A “língua mãe” do de icien e audi i o é uma língua ges ual compos a po elemen os inculados a cada país/idioma e po um conjun o de ges os in e nacionais que se em pa a a exp essão básica à comunidade su da p o enien e de di e en es idiomas. Em uma a edu a pela in e ne , encon amos 109 códigos 11 denominados línguas ges uais e de sinais que codi icam sinais e ges os, subs i uindo o som da oz alada, pa a a exp essão de enunciados, que deixam de se pala as de o dem e se o nam ges os de o dem. Um disposi i o como uma língua ges ual é um ema anhado de linhas, um agenciamen o maquínico e um cole i o de enunciação. De inidos e cons uídos a pa i de um código lingüís ico, os sinais ou os ges os demandam disposi i os especí icos que en ol em classi icado es ou ma cado es co po ais: além da igu a icônica dos sinais da ilológicos, há um conjun o de exp essões ei as com a pa e supe io do co po, que implica sinais e ges os ei os com as mãos, dedos e b aços, oncos e exp essões aciais. Assim, as línguas de sinais são compos as po , pelo menos, 3 di e en es ipos de sinais ou ges os: 1. um al abe o da ilológico que são pos u as ou igu as compos as com as mãos pa a designa le as, núme os, símbolos, sílabas, que de i am dos al abe os esc i os; 2. uma gama a iada de sinais c iados pa a designa em pala as especí icas conhecidas e de g ande uso, como nomes de coisas, comidas, países, cidades, ade eços, espo es, a i idades, p o issões, doenças, co es, obje os, o mas, e c. Exis em, ainda, as línguas auxilia es que se em pa a a exp essão básica à comunidade su da p o enien e de di e en es idiomas 12 . Essas línguas in e pene am-se e combinam-se às línguas in e nacionais auxilia es. Es e aço peculia lhes pe mi e um ânsi o di e enciado no mundo po di e sos e i ó ios e países. Além disso, po con enção in e nacional, os de icien es audi i os êm a ga an ia legal de iaja em po anspo e odo iá io g a ui amen e. Is o az desse bando su do uma espécie de g andes iajan es que expe imen am, com ce a eqüência uma pon a de des e i o ialização no exe cício do deslocamen o. Es a língua auxilia a o ece o deslocamen o desses bandos. Além disso, os su dos cos umam c ia sinais singula es pa a nomea pessoas, animais ou coisas especí icas. Cos umam in en a um ges o pa a usa no cole i o que pa eça e a e com aquela pessoa. Tais sinais uncionam, de ce a o ma, como apelidos (apodos). O cos ume de a ibui em-se no os nomes-ges os em cole i o, az com que os su dos sejam, ge almen e, nomeados po di e sos ges os cons uídos ao longo da sua ida e nos di e en es g upos que a a essam. Eles es endem es e p ocedimen o pa a nomea os ou in es de sua con i ência, 11 25 na Á ica, 22 nas Amé icas, 25 na Ásia, 37 na Eu opa e 6 no O ien e Médio. Disponí el em: h p://p .wikipedia.o g/wiki/Anexo:Lis a_de_1%C3%Adnguas_ges uais. Da a do acesso: jan/2011. Em ge al, elas se dis ibuem po países ou egiões e elacionam-se com algum idioma. Po ém, em que pese sua o e ligação aos idiomas o ais e esc i os, as chamadas línguas de sinais ou ges uais emon am épocas an e io es à o alidade. 12 Ges uno: língua ges ual in e nacional ou língua in e nacional de sinais no B asil, é uma língua in e nacional auxilia , mui as ezes usada pelos su dos em con e ências in e nacionais, ou in o malmen e, quando iajam. Signuno: é um código ges ual do espe an o, que de i a-se do Ges uno. O seu al abe o con ém sinais especiais e ca ac e es especí icos do Espe an o. 1694 como, no caso, os p o esso es. Mesmo que se enha um nome-sinal já escolhido ou indo de um ou o luga , c iam-se no os sinais pa a denomina no os memb os de um g upo, du an e o con í io no cole i o. Foi, en ão, a pa i do le an amen o de algumas peculia idades ace ca des es bandos é que se despe a o in e esse em in es iga o modo de ansi a , habi a e ap eende o mundo do de icien e audi i o. A mon agem Filme Su do, se iu-nos, ambém, pa a analisa um pouco mais a elação língua-comunicação – ges o-exp essão em uncionamen o nes e p oje o ílmico. Além do som, essa mon agem ambém é quase desp o ida de legendas, ou in e í ulos com elemen os esc i u ais. Assim, ez-se uma conexão des a mon agem com o cinema mudo. No cinema mudo, a mon agem, ge almen e, in e cala um ou mais planos-seqüência com in e í ulos: uma imagem isual es á ica que co a o plano ílmico com elemen os da na a i a ex ual de um diálogo ou de um na ado da his ó ia. A imagem isual é compos a pelo plano ílmico, pelos elemen os esc i u ais do plano ílmico e pelos elemen os esc i u ais dos in e í ulos, basicamen e 13 . Os elemen os esc i u ais podem es a con idos no plano ílmico, quando um ca az, um le ei o, inse ido na cena, é ilmado, ou podem compo os in e í ulos. A mon agem ealizada no Filme Su do di e e nas unções e nos modos de u ilização dos in e í ulos, dos a os (da ges ualização) da ala e dos elemen os esc i u ais como expe imen ados no cinema mudo. Na língua de sinais, es amos em uma expe imen ação cinema og á ica onde são as mãos e o onco e os b aços e a ace que alam. Deleuze analisa o a o de ala como um componen e da imagem em mo imen o. O a o de ala, no cinema mudo, conce ne aos in e í ulos u ilizados e, no cinema alado, diz espei o ao ing esso da banda sono a da ala. O a o de ala az e duplamen e, p oduzindo uma elação com as duas unções do olho analisadas po Deleuze (Deleuze, 2005: 267-270). O cinema mudo exige uma dupla unção do olho: uma es inge-se ao a o de le enquan o a ou a ao de e . O le epo a-se à ope ação da isão que lê os elemen os esc i u ais que compõem a na a i a inse idos na o ma de in e í ulos ou p esen es no plano ílmico. O e pa a Deleuze, a imagem que é is a, epo a-se a oda uma p imei a ope ação da isão que não passa pelo egis o da língua. Na língua de sinais, a dupla unção do olho di e encia-se da manei a como é colocada em uncionamen o no cinema mudo. Aqui, o lido e e ua-se pela lei u a de um sinal que é ges ual. É uma ope ação de i ada da língua esc i a. É um a o de ala em que as in e ações da imagem se deixam e . As in e ações dos co pos enca nam os acon ecimen os. O sinal ges ual, p essupõe uma ou mais línguas e se ende eça pa a a lei u a. A língua de sinais en a em uma po en e subs ância e modo de exp essão, que p escinde do som. A imagem is a é lida. Na dupla unção do olho, o lido é uma modalidade do e . E nessa modalidade de isão ope a-se odo um modo de uncionamen o do pensamen o. O esc i o mani es a a lei con ida na imagem isual. T a a-se daaquilo que de e se en endido ia língua ace ca de uma in o mação. Já a imagem isual não-linguís ica pode conse a uma inocência p óp ia da ida imedia a na u alizada que não p ecisa de linguagem. Diz 13 Um exemplo de elemen os esc i u ais explo ados com iqueza, podemos encon a em um clássico como Nos e a u, de Mu nau. Os elemen os esc i u ais apa ecem em alguns agmen os da ilmagem e, po ezes, mis u am-se aos in e í ulos (co es com imagens es á icas de um ex o) quando ilma-se uma ca a, um papel com um esc i o nele con ido, uma ilmagem de uma imagem quase es á ica se não osse pela oscilação da câme a. F agmen o do ilme disponí el em: h p://www. iddle .com/explo e/ligisc azy/ ideos/5/. Acesso: janei o, 2011. 1695 Louis Audibe que a imagem isual conse a uma ce a na u eza ísica inocen e (Audibe , A somb a do som, apud Deleuze, 2005: 267). O que se des aca é como a língua de sinais e o modo de le do de icien e audi i o, ope am um modo singula de esc i a e de lei u a. Na lei u a de um ex o esc i o imp esso sob e uma supe ície plana, o olho mo imen a-se sob e uma imagem es á ica ou quase es á ica enquan o que na lei u a ges ual o olho acompanha um plano-seqüência, uma imagem isual em mo imen o, pa a mon a a pala a ges iculada. Aqui, a unção le do olho emba alha-se com a unção e em ge al na medida em que, ao mesmo empo, um ges o is o nos eme e ao sinal lido de uma le a. A imagem isual de cada plano-sequência, a dança das mãos e dos b aços, se o na, simul aneamen e, isí el e legí el. Nas expe imen ações de B ech com o cinema, Deleuze sublinha a po encialização do ges o acionada pelo ea ólogo-cineas a. O ges o, nes e âmbi o, não se eduz à imagem-mo imen o enquan o ação na a i a e linguagem. O ges o implica uma ea alização di e a dos co pos. O ges o – as a i udes de um co po (seus modos de se exp essa ) – colocam o pensamen o na elação com o empo, insc e em o empo no co po e, assim, o pensamen o na ida (Deleuze, 2005: 227-28). Assi, uma língua ei a de ges os ambém sec e a (no sen ido de sec e a , aza , esco e ), uma máquina de exp essão que p ecindem da ma é ia sono a. As a i udes de um co po dão a e um p ocesso de ap endizagem e de singula ização. Assim, me gulha no mundo sob a iloso ia de Deleuze e Gua a i, despe a-nos o in e esse em pensa a imagem na elação com os sinais ges uais e in es iga ace ca do modo singula de pe cepção e ap eensão de mundo do de icien e audi i o. Po an o, es e p oje o de documen á io p opõe como uma das possibilidades de explo ação ílmica, uma in es igação “áudio” e isual que explo e a g a ação p oduzida pelos de icien es audi i os. Com eles p e ende-se pensa o modo de se des e bandos do ados de uma peculia idade que en ol e um ce o silêncio na elação com o mundo. De um agmen o ílmico da pesquisa de dou o ado, ex aímos um depoimen o de uma p o esso a a ce ca do modo singula de comunicação e exp essão do de icien e audi i o: M: … E o cinema, eu ico pensando, o cinema mudo, eu penso no nosso aluno su do que ê o ilme não legendado, mui os não dominam a língua esc i a e eles es ão só endo essa imagem [ isual]. … Como é que ele enxe ga isso? Em que pese a p o esso a en enda po língua, pe gun amo-nos o que é es a den o ou o a da língua?, o que de ine essa on ei a? A língua ges ual, enquan o língua, es abelece uma ansmissão de pala as de o dem ope ando po uma sé ie de elemen os es u u ais: g amá icas, ocabulá ios, al abe os, sinais, classi icado es, que a o nam ácil de maneja e p á ica pa a ap ende e pa a usa e pa a classi ica uma mensagem. Mas o ges ual mímico, an o quan o o sono o da ala, az escapa algo que não necessa iamen e pe ence ao lingüís ico. Exp essa -se com luz e com som e com pala as é p óp io do de i -humano do homem. T a a-se de aze apa ece acon ecimen os inco po ais que ans o mam a ma é ia em mo imen o. C ia-se, en ão, um co po mul iplo que ocupa um espaço liso em mo imen o u bilhona (Deleuze e Gua a i, 1997: 226). Assim, ecoloca-se a ques ão enunciada: eu ico pensando pa a um de icien e audi i o … como é que ele enxe ga um ilme sono o sem som, um ilme alado sem legenda (ou mesmo com legenda quando ele não sabe le o idioma)? Ampliando a ques ão, pe gun amos: como o de icien e audi i o ap eende es a na a i a imagé ica? Como ele ap eende a ma é ia mo en e do mundo? Que di e enças no pensa -exp essa acionam es a di e ença ocasionada pela p i asão de um sen ido? REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS DELEUZE, Gilles (1995): O mis é io de A iana. T adução de Edmundo Co dei o. Lisboa, Passagens. 1696 DELEUZE, Gilles (2005): A imagem- empo. T adução de Eloisa A aújo Ribei o. São Paulo, B asiliense. DELEUZE, Gilles, e PARNET, Clai e (1998): Diálogos. T adução de Eloisa A aújo Ribei o. São Paulo, Edi o a Escu a. DELEUZE, Gilles (2008): En médio de Spinoza. T adução da equipe edi o ial Cac us. Buenos Ai es, Edi o a Cac us, 2ª ed. DELEUZE, Gilles, e GUATTARI, Felix (1995): Mil pla ôs – capi alismo e esquizo enia. T adução de Ana Lúcia de Oli ei a e Lúcia Cláudia Leão. .2. São Paulo, Edi o a 34. DELEUZE, Gilles, e GUATTARI, Felix (1996): O que é iloso ia? T adução de Ben o P ado J . e Albe o A onso Muñoz. Rio de Janei o, Edi o a 34. DELEUZE, Gilles, e GUATTARI, Felix (1997): Mil pla ôs – capi alismo e esquizo enia. T adução de Pe e Pál Pelba e Janice Caia a. .5. São Paulo, Edi o a 34. GUATTARI, Félix (1992): Caosmose. Um no o pa adigma es é ico. T adução de Ana Lúcia de Oli ei a e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janei o: Ed. 34.