Para além de tormentas e licores de café: Um olhar crítico sobre o jornalismo cultural a partir da cobertura do show de Robert Plant no jornal La Región
Abstract
A partir de uma perspectiva crítica ao atual momento do jornalismo cultural, este artigo analisa a cobertura do portal do jornal regional espanhol La Región do show do músico inglês Robert Plant na cidade de Ourense, Galícia, Espanha. Ao todo, foram analisadas as 10 matérias relacionadas ao evento. As reflexões propostas resultam principalmente a partir dos pressupostos teóricos e epistemológicos de Roland Barthes e o conceito de fait divers aplicados à contemporaneidade.
Full text
IC – Revista Científica de Información y Comunicación 21 (2024) ∙ pp. 335-353 ∙ E-ISSN: 2173-1071 ∙ https://dx.doi.org/10.12795/IC.2024.I21.15 Para além de tormentas e licores de café: Um olhar crítico sobre o jornalismo cultural a partir da cobertura do show de Robert Plant no jornal La Región BEYOND STORMS AND COFFEE LIQUEURS: A CRITICAL LOOK AT CULTURAL JOURNALISM BASED ON THE COVERAGE OF ROBERT PLANT’S SHOW IN THE NEWSPAPER LA REGIÓN Fabio Cruz Universidade Federal de Pelotas, Brasil [email protected] 0000-0002-9933-5788 Guilherme Curi Universidade Federal de Pelotas, Brasil [email protected] 0000-0002-9464-4231 Resumo A partir de uma perspectiva crítica ao atual momento do jornalismo cultural, este artigo analisa a cobertura do portal do jornal regional espanhol La Región do show do músico inglês Robert Plant na cidade de Ourense, Galícia, Espanha. Ao todo, foram analisadas as 10 matérias relacionadas ao evento. As reflexões propostas La construcción de la memoria a través de la imagen ARCHIVO, COMUNICACIÓN Y CULTURA
336 Fabio Cruz / Guilherme Curi IC – Revista Científica de Información y Comunicación 21 (2024) ∙ pp. 335-353 ∙ E-ISSN: 2173-1071 ∙ https://dx.doi.org/10.12795/IC.2024.I21.15 resultam principalmente a partir dos pressupostos teóricos e epistemológicos de Roland Barthes e o conceito de fait divers aplicados à contemporaneidade. Palavras-chave Jornalismo cultural; Robert Plant; música; fait divers. Abstract From a critical perspective on the current moment in cultural journalism, this article analyzes the coverage on the Spanish regional newspaper La Región’s portal of the English musician Robert Plant’s concert in the city of Ourense, Galicia, Spain. In total, 10 articles related to the event were analyzed. The proposed reflections result mainly from the theoretical and epistemological assumptions of Roland Barthes and the concept of fait divers applied to contemporary times. Keywords Cultural journalism; Robert Plant; music; fait divers. Sumário/ Summary 1. Introdução / Introduction 2. Objetos de Estudos / Study Objects 3. Cabedal teórico-metodológico / Theoretical-methodological background 4. Do anúncio ao pós-show: superficialidade e supremacia dos fait divers / From the announcement to the post-show: superficiality and supremacy of fait divers 5. À guisa de conclusão / Conclusion 6. Bibliografia / Bibliography
337 Para além de tormentas e licores de café: Um olhar crítico sobre o jornalismo cultural a partir da… IC – Revista Científica de Información y Comunicación 21 (2024) ∙ pp. 335-353 ∙ E-ISSN: 2173-1071 ∙ https://dx.doi.org/10.12795/IC.2024.I21.15 1. Introdução A célebre frase do filósofo italiano Antonio Gramsci (2014, p.187), na década de 1930, ao afirmar que “a crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer”, serve de pressuposto inicial para introduzir o cerne da discussão do presente artigo. A partir da cobertura em torno dos dias do show de um dos maiores nomes da música mundial, Robert Plant, produzida por um tradicional periódico da região da Galícia, Espanha, propomos apontar, analisar e argumentar como ainda persiste, na terceira década do século XXI, um tipo antiquado de fazer jornalismo cultural arraigado em modelos de discurso que já não deveriam mais ser aplicados em detrimento de novas formas de fazer jornalismo, que ainda estão em construção, principalmente em relação ao acelerado avanço das novas mídias digitais hoje. Propomos analisar o jornalismo cultural por entender que este gênero jornalístico trata de questões simbólicas e representativas do mundo e das artes no contemporâneo. Ou seja, de novas possibilidades de pensamento e ressignificação da vida. No entanto, em contrapartida, determinados meios de comunicação, principalmente os mais antigos, são capazes de adotar uma postura mais conservadora, balizada única e exclusivamente pelo mercado. Tal prática, descompromissada socialmente e acrítica, promove informações superficiais, desprovidas de conteúdo substancial e, ao mesmo tempo, de imediata assimilação, repleta de deslizes discursivos, os chamados fait divers, conceito que será abordado ao longo do texto. Neste sentido, muito se discute academicamente (Souza, 2018, Sodré, 2014) sobre a suposta crise do jornalismo. Em entrevista para o site “Jornalistas Livres”, o jornalista brasileiro Leandro Demori, então editor-executivo da agência de notícias Intercept Brasil e agora jornalista independente, produtor da newsletter de notícias “A Grande Guerra”, afirmou que o jornalismo hoje não passa por nenhuma crise. Para ele, com as ferramentas disponibilizadas na internet, nunca tivemos um tempo tão rico e propício para investigar e trabalharmos com a produção de diferentes conteúdos jornalísticos. O que estaria em crise seria o modelo de sustentabilidade financeira das empresas. Segundo Demori, estamos descobrindo agora uma nova forma de trabalho, na qual o estilo antigo estaria longe de ser ideal, baseado, principalmente, em anúncios de governo e de empresas privadas. Para ele: “se a Nestlé coloca um anúncio no seu jornal, você não investiga a Nestlé. Porque estamos lamentando que esse modelo está acabando? Vai com deus, obrigado!”1 1. Disponível em <https://jornalistaslivres.org/nao-ha-crise-nenhuma-no-jornalismo-afirma-leandro-demori-do-the-intercept-brasil/> Acesso em 28 jan. 2024.
338 Fabio Cruz / Guilherme Curi IC – Revista Científica de Información y Comunicación 21 (2024) ∙ pp. 335-353 ∙ E-ISSN: 2173-1071 ∙ https://dx.doi.org/10.12795/IC.2024.I21.15 A declaração do jovem jornalista brasileiro certamente nos dá algumas pistas para refletirmos sobre qual tipo de jornalismo queremos produzir nos próximos anos. E o jornalismo cultural não estaria fora desta seara. Logo, propomos analisar a cobertura do portal digital do jornal La Región2 sobre a presença e show do músico Robert Plant3 na cidade de Ourense, Galícia, Espanha. Para tal, realizamos a coleta das matérias jornalísticas analisadas desde que foi feito o anúncio, no dia 1º de abril de 2023, do concerto do músico inglês com o projeto Saving Grace4. Desta forma, passamos a monitorar, quase que diariamente, o site do La Región. Ao todo, identificamos 10 matérias relacionadas ao evento. O artigo está dividido em três principais capítulos, além da introdução e conclusão. Em um primeiro momento, apresentamos os objetos de estudo da pesquisa. Em seguida, no terceiro subcapítulo, descrevemos a nossa base teórica e metodológica, principalmente a partir dos pressupostos epistemológicos de Roland Barthes e o conceito dos fait divers aplicados à contemporaneidade. Já o capítulo 4, “Do anúncio ao pós-show: superficialidade e supremacia dos fait divers”, é dedicado às análises em questão. 2. Objetos de Estudo O primeiro objeto de estudo deste artigo, como já brevemente exposto, de forma macro e genérica, é o jornalismo cultural. Por jornalismo cultural, uma das definições mais próximas daquilo que objetivamos discutir é a proposta por Branco, Targino e Gomes (2006, p.13), que afirmam que este tipo de jornalismo pode ser percebido como um “gênero especializado na divulgação de eventos de natureza artística”. Neste sentido, ele faz a “análise e avaliação de produtos simbólicos que dizem respeito ao conjunto de valores estéticos e ético-políticos da produção editorial, cinematográfica, da dramaturgia, da música”. Logo, eles afirmam, em razão dessa sua dupla configuração, esse gênero discursivo mescla informação jornalística e presença autoral de especialistas nas diferentes áreas da produção artística. Por esta razão, a partir da metodologia que será descrita a seguir, focamos nossa análise neste conjunto de valores estéticos e discursivos que compõem as notícias selecionadas para então construirmos nossos argumentos e discussões teóricas que serão trabalhados ao longo do artigo, principalmente a partir do cabedal teórico-metodológico. 2. Disponível em <https://www.laregion.es/> Acesso em 28 jan. 2024. 3. Nascido no dia 20 de agosto de 1948, em West Bromwich, Inglaterra (Rees, 2014). 4. Banda que acompanha Robert Plant desde 2019. O Saving Grace mescla elementos do blues com influências orientais e é formado pela cantora Suzy Dian, Tony Kelsey na guitarra e bandolim, Matt Worley no banjo e guitarra e Oli Jefferson na percussão.
339 Para além de tormentas e licores de café: Um olhar crítico sobre o jornalismo cultural a partir da… IC – Revista Científica de Información y Comunicación 21 (2024) ∙ pp. 335-353 ∙ E-ISSN: 2173-1071 ∙ https://dx.doi.org/10.12795/IC.2024.I21.15 De forma mais específica, o corpus do estudo em questão são matérias publicadas em formato digital sobre o show do músico Robert Plant, selecionadas do periódico La Región, um jornal tradicional regional espanhol da cidade de Ourense, Galícia, Espanha. Tendo publicado o seu primeiro número no ano de 1910, até hoje, o jornal circula na região em formato impresso e também online, com notícias locais e nacionais centradas em temas distintos como política, trabalho, saúde, esportes, educação e cultura. É necessário ressaltar que, para esta análise, consideramos as limitações estruturais e os recursos de um meio de comunicação regional, fatores estes que podem influenciar no trabalho jornalístico e condicionar a cobertura, a ponto de ser ou não especializada. Ainda Robert Plant, nosso personagem analisado, é um músico mundialmente reconhecido desde os trabalhos com a banda inglesa Led Zeppelin entre 1968 e 1980. Além do cantor, o antigo grupo do cantor era composto pelo guitarrista Jimmy Page, pelo baixista e tecladista John Paul Jones e pelo baterista John Bonham. Sucesso de vendas até hoje, o Zeppelin é comercialmente um expoente dentro do rock’n’roll5. Além disso, os quatro artistas quebraram recordes de público em concertos que fizeram do Led Zeppelin um dos principais – senão o principal – conjunto de rock da década de 1970. Com o fim do grupo em 1980, após o falecimento do baterista John Bonham, aos 32 anos (Cruz e Curi, 2023), Plant lançou-se em uma bem-sucedida carreira solo, a qual dura até hoje. O talento do artista é reconhecido por diversas publicações especializadas em jornalismo cultural, presente em listas de melhores cantores do gênero rock6, e, também, de outros gêneros musicais7. Além do trabalho como solista, o vocalista envolveu-se em inúmeras colaborações com outros artistas. Entre eles, vale mencionar a parceria com a cantora norte-americana Alison Krauss e, por último, o projeto Saving Grace. 3. Cabedal teórico-metodológico Atualmente, os meios de comunicação consistem em uma das principais – senão a principal – instituições influenciadoras da sociedade. Tal cenário foi acelerado ainda mais a partir da presença ubíqua das mídias digitais em nossas vidas, em 5. Disponível em <https://www.riaa.com/gold-platinum/?tab_active=top_tallies&ttt=TAA#search_section>. Acesso em 18 jan. 2024. 6. Seu nome ocupa uma colocação expressiva na lista dos melhores cantores de rock da revista Billboard. Disponível em <https://www.billboard.com/photos/6721847/best-rock-singers-of-all-time>. Acesso em 18 jan. 2024. 7. Um dos exemplos é a lista dos 100 maiores cantores da história, publicada pela revista Rolling Stone. Disponível em <https://www.rollingstone.com/music/lists/100-greatest-singers-of-all-time-19691231/robert-plant-20101202>. Acesso em 18 jan. 2024.
340 Fabio Cruz / Guilherme Curi IC – Revista Científica de Información y Comunicación 21 (2024) ∙ pp. 335-353 ∙ E-ISSN: 2173-1071 ∙ https://dx.doi.org/10.12795/IC.2024.I21.15 um panorama midiático contemporâneo no qual cada meio, e seu respectivo uso, é definido em relação a todas as outras mídias (Couldry & Hepp, 2020). Desta forma, ao unirem textos, sons e imagens, as diferentes formas comunicativas constroem representações da realidade no imaginário coletivo e, deste modo, acabam constituindo-se em uma espécie de formadores das identidades de todos os envolvidos neste processo. Ou seja, o mundo hoje não é simplesmente mediado, mas midiatizado. Assim, de forma contínua e recursiva, as mídias desempenham a construção daquilo que chamamos de mundo social (Sodré, 2014; Couldry & Hepp, 2020). Ao oferecer um cardápio repleto de direcionamentos éticos e políticos, sociais e culturais, a mídia estabelece um poder simbólico perante os cidadãos. Neste cenário, nos deparamos com alguns dilemas que habitam o âmbito comunicacional. Por um lado, através dos seus veículos, os meios midiáticos podem apresentar um viés crítico e educacional, quando produzem informações com substancialidade, as quais estimulam um pensar pedagógico e compromissado com a própria realidade social em que vivemos; Logo, compreender e entender a realidade dinâmica do jornalismo contemporâneo, assim como investigar as mudanças estruturais pelas quais passa o setor, de acordo com Souza (2018, p.56), nos exige uma perspectiva crítico-dialética. Em outras palavras, segundo o pesquisador, para compreender os fenômenos sociais e, em especial, o papel do jornalismo, hoje, “é fundamental relacioná-los com o todo social, visto aqui como a ordem reprodutiva material dos sujeitos em processo”. Ainda: Analisar as características definidoras do processo pelo qual passa o jornalismo significa desnudar as mediações entre as particularidades que a definem e os processos mais gerais de uma crise que envolve a própria ordem sociometabólica do capital, em que o sistema alcança seus limites estruturais ao mesmo tempo em que revela sua incapacidade civilizatória (Souza, 2018, p.57). Em sintonia com a perspectiva crítico-dialética proposta por Souza, por outro lado, encontramos exemplos de como o chamado jornalismo cultural está atrelado à reprodução de formas simbólicas que caracterizam determinados valores sociais em detrimento de outros preceitos que deveriam ganhar uma maior atenção. Neste sentido, conforme colocamos antes, determinados formatos jornalísticos tradicionais insistem em publicar informações rasas, com carência de substancialidade e, concomitantemente, de fácil assimilação. A mídia age, assim, como uma espécie de entrave para a reflexão crítica. Ao lançar mão disso, estimula um verdadeiro jejum intelectual na sociedade. Nesta realidade em que a qualidade daquilo que é produzido é, muitas vezes,
341 Para além de tormentas e licores de café: Um olhar crítico sobre o jornalismo cultural a partir da… IC – Revista Científica de Información y Comunicación 21 (2024) ∙ pp. 335-353 ∙ E-ISSN: 2173-1071 ∙ https://dx.doi.org/10.12795/IC.2024.I21.15 inversamente proporcional ao índice de audiência, vislumbramos o apogeu dos desvios discursivos, do espetáculo e do conflito. Vivenciamos o triunfo dos fait divers, conceito chave para a perspectiva teórico-metodológica deste artigo. Os chamados “fatos diversos” ou “casos do dia” consistem “na informação sensacionalista, procedente de uma classificação do inclassificável” (Cruz e Curi, 2015, p.75). Constituem-se perfeitamente em uma categoria que ilustra a ideologia acima colocada, a qual, através dos seus significados e métodos, fornece elementos medíocres e acríticos que tendem a relegar os receptores à passividade e à manipulação. Estimulando um pensar curto e efêmero, os fait divers apresentam informações excepcionais e, por vezes, insignificantes, inusitadas e inexplicáveis. Neste sentido, o intuito é único: almejar o emocional das pessoas e afastá-las do pensamento crítico. Munidos de uma natureza atemporal, os fait divers não necessitam de contexto. Despontam nos mais diversos segmentos midiáticos e com as mais distintas abordagens. Aparecem no trato da realidade e da ficção como, por exemplo, no jornalismo cultural aqui analisado, nos telejornais, no noticiário da imprensa, na publicidade, nas telenovelas, nos talk shows e nos programas humorísticos (Ramos, 1999), além, é claro, de estar presente cada vez mais nas mídias digitais, como TikTok e Instagram, com vídeos curtos e, muitas vezes, rasos e sensacionalistas. Assim sendo, as conexões dessa categoria propostas por Roland Barthes (1971), ainda pertinentes na contemporaneidade, são compostas pela singularidade, pelo grotesco e primam pela espetacularização. Neste sentido, os fait divers apresentam dois tipos que servem como base para as nossas análises: Causalidade e Coincidência. Ou seja, a partir destas categorias, buscamos verificar se há ou não a existência de fait divers nas matérias investigadas. Além disso, elucidamos que ambas possuem subtipologias, direcionadas para a compreensão da excepcionalidade, condição do estabelecimento da noção de conflito, que também nos serve de mapas metodológicos para o estudo proposto, no caso, as matérias do jornal regional La Región. Os fait divers de Causalidade é demonstrado através de dois tipos: causa perturbada e causa esperada. O primeiro acontece quando a causa presente na informação é imprecisa ou desconhecida, e também quando uma pequena causa suscita um grande efeito; Na causa perturbada, ocorrem fatos excepcionais que podem gerar surpresa, espanto, e implicam perturbação, conflito. Há um efeito (o conflito surge daí). No entanto, a causa é imprecisa, ou, até mesmo, ilógica, com carência de sentido. Há uma riqueza de desvios causais. Devido a certos estereótipos, esperamos uma causa mas surge outra, mais pobre do que a esperada. Neste gênero de relação causal, há o espetáculo de uma decepção; paradoxalmente, quanto mais ocultada, provavelmente mais percebida será essa causalidade.
342 Fabio Cruz / Guilherme Curi IC – Revista Científica de Información y Comunicación 21 (2024) ∙ pp. 335-353 ∙ E-ISSN: 2173-1071 ∙ https://dx.doi.org/10.12795/IC.2024.I21.15 O segundo tipo, a causa esperada, se dá da seguinte forma: quando a causa é normal, a ênfase da informação incide sobre as “dramatis personae” (personagens dramáticas), como, por exemplo, crianças, mães e idosos (Barthes, 1971, pp.267271). Ou seja, todas as atenções são voltadas para essas figuras, cuja tendência é a de nos sensibilizar. Barthes (1971, pp.271-274) revela os fait divers de Coincidência a partir de dois tipos: de repetição – quando a repetição de uma notícia pode levar à desconfiança, pois isso é capaz de induzir o receptor a imaginar causas desconhecidas, suspeitas, que acontecem em circunstâncias diferentes – e de antítese – quando se aproximam dois termos qualitativamente distantes. A antítese liga dois termos contrários em um só percurso, como se nunca tivessem sido distintos, estabelecendo a noção de conflito e proporcionando a emocionalidade. Uma vez unidos, a mídia e os fait divers independem de estilo jornalístico, no nosso caso, o jornalismo cultural, e mostram, ao contrário de informar com substancialidade e aprofundamento, os fatos do dia, pois têm como principal finalidade a superficialidade, com base no emocional. Desta forma, neste horizonte epistemológico do estruturalismo, produzir conhecimento da realidade significa revelar os elementos constituintes, constantes supra-espaciais e supratemporais (Demo, 1992). Levando isso em conta, notamos que o objeto é invariante, o imutável na dialética histórica. Conforme Demo (1992, p.172), o termo estrutura está conectado ao essencial dos problemas; é o fundamento, a base. “Refere um todo, onde convivem partes convergentes e divergentes em uma relação dialética, delineada pelo movimento”. Para Barthes (1971), a estrutura se constitui na peça essencial para os fait divers. Assim como aplicada nas análises que serão expostas a seguir, segundo Barthes (1997, p.106), a pesquisa semiológica busca “descobrir o tempo próprio dos sistemas, a história das formas”. Ao escolhermos a pesquisa semiológica qualitativa à quantitativa, Barthes sugere que “o objetivo é aqui distinguir unidades e não contá-las” (1979, p.11). Já no que tange à investigação da linguagem das matérias selecionadas, a pesquisa semiológica é pertinente. Segundo Barthes (1997), o princípio de pertinência constitui-se em um fator importante na pesquisa semiológica. Para compreender essa pesquisa, é necessário aceitar, francamente, desde o início (e, principalmente, no início), um princípio limitativo. Esse princípio, mais uma vez oriundo da linguística, é o princípio de pertinência: decida-se o pesquisador a descrever os fatos, reunidos a partir de um só ponto de vista e, por conseguinte, a reter, na massa heterogênea desses fatos, só os traços que interessam a esse ponto de vista, com a exclusão de todos os outros (esses traços são chamados pertinentes). (Barthes, 1997, p.103).
343 Para além de tormentas e licores de café: Um olhar crítico sobre o jornalismo cultural a partir da… IC – Revista Científica de Información y Comunicación 21 (2024) ∙ pp. 335-353 ∙ E-ISSN: 2173-1071 ∙ https://dx.doi.org/10.12795/IC.2024.I21.15 Nesse sentido, demarcar o caminho do objeto consiste em uma tarefa necessária, o que é contemplado pelo princípio de pertinência, que proporciona ao pesquisador, de acordo com os interesses de estudo, a particularização e a atenção para conteúdos restritos, no caso, a análise de um jornal regional, que pode servir como exemplo científico para investigações futuras. 4. Do anúncio ao pós-show: superficialidade e supremacia dos fait divers Como já mencionado na introdução deste artigo, passamos a monitorar e a analisar o portal do jornal regional La Región desde que foi feito o anúncio, no dia 1º de abril de 2023, do show de Robert Plant com o projeto Saving Grace. Ao todo, identificamos 10 matérias relacionadas ao evento, cinco delas dedicadas à divulgação do espetáculo até o dia da apresentação, na cidade de Ourense, na região da Galícia, Espanha. Isto posto, discutir o uso do sensacionalismo é prática corriqueira, seja nas instituições de ensino ou no exercício da profissão. Sobre este ponto, inclusive, questões que versam sobre a ética jornalística são frequentemente postas em debate. Os fait divers consistem em um termo que leva a uma imprecisão devido a um mau entendimento, o que conduz à sua deturpação (Angrimani, 1995). Assim sendo, os fait divers são vistos como algo necessariamente depreciativo, que ultrapassa o exagero. Desta forma, devido a essa ressignificação causada pelo senso comum, o fazer “sensacionalismo” pode ser interpretado como deslizes das linhas editoriais, equívocos e distorções das informações levadas aos receptores, que, por vezes, pode também mascarar os limites estruturais que existem dentro de um próprio jornal. Sabemos que a lógica dos fait divers é a lógica de mercado e parte desses escorregões e equívocos jornalísticos pode ser constatada logo na primeira matéria analisada8, veiculada no dia 1º de abril de 2023. O próprio título já apresenta uma pergunta em tom de mistério, a qual busca atingir o emocional do receptor: “Quem é a estrela do rock que visitará Celanova?” Na sequência, aparece uma foto de Robert Plant. Logo após, o texto informa que o concerto “do cantor de um dos grupos mais influentes do rock da década de 70 irá à província de Ourense”. E o suspense prossegue: “Descubra quem é!”. Depois disso, a matéria informa que o convidado da vez é “(...) um dos músicos mais importantes da cena do rock dos 70 (...)”. Por fim, a identidade do artista é 8. Disponível em <https://www.laregion.es/articulo/ourense/quien-es-estrella-rock-que-visitara-ourense/202304042009311210461.html>. Acesso em 22 jan. 2024.
350 Fabio Cruz / Guilherme Curi IC – Revista Científica de Información y Comunicación 21 (2024) ∙ pp. 335-353 ∙ E-ISSN: 2173-1071 ∙ https://dx.doi.org/10.12795/IC.2024.I21.15 por Jimmy Page em 1968, o que Robert Plant ofereceu foi um projeto acústico desenhado para atuações em auditórios como o de Ourense, e um repertório de peças com ritmos de blues, influências orientais e folk”, algo que já era previsto pela própria trajetória artística do músico, mas por possível desconhecimento e irresponsabilidade com o tema e com a editoria de cultura aqui analisada, parece ter sido desconsiderado. Ainda assim, “Robert Plant não decepcionou”, afirma a matéria. Muito pelo contrário: “O Auditório se rendeu aos seus pés”. Com a sua “poderosa voz”, Plant, foi ovacionado pela plateia (...) O ‘veterano roqueiro’ orientou todo o concerto com uma explicação sobre a origem da sua música, intimamente relacionada com o que ouvia quando era jovem. Ele também ousou falar espanhol em mais de uma ocasião, ganhando ainda mais aplausos”. Mais uma vez, o termo etarista “velho roqueiro” é acionado, algo que remete a estereótipos dignos da categoria fait divers. No encerramento da matéria, mais uma vez a conexão com a ex-banda volta à tona: “Num ambiente intimista, mas com toda a força que o caracteriza, o britânico tomou conta do palco, embora de uma forma diferente da que fez com o Led Zeppelin”. E como desfecho, válidas críticas ao trabalho apresentado. “Quase duas horas de atuação de pura fantasia para os ouvidos, que enfeitiçou aos nostálgicos e aos novos seguidores de sua música. Um concerto que ficará na história de Ourense. E como mostram os cinco minutos de aplausos ininterruptos na despedida do maestro”. Se até aqui nós pudemos perceber uma série de enganos, desvios discursivos, exageros e apelações, as quatro matérias produzidas no dia do show não escaparam das mesmas deficiências. Embora, em linhas gerais, elas tenham apresentado informações mais consistentes a respeito do espetáculo e dos artistas, constatamos a mesma superficialidade, falta de conhecimento e uso exagerado de alguns tipos de fait divers nos textos analisados. A começar por alguns títulos. Principalmente nos dois primeiros (sexta e sétima matérias), a empolgação e o impacto vestem a roupa da Coincidência através da antítese ao unir Plant a termos como “tormenta” e “garganta de fogo” numa clara tentativa de atingir o emocional do receptor. Mas, nem só de manchetes vive a antítese. Outros exemplos podem ser percebidos em expressões como: “lenda do rock and roll”, “história viva”, “ícone absoluto”, “roqueiro histórico”, “carisma”, “personalidade” e “perfeição”. Além disso, o Led Zeppelin também foi arremetido por esse subtipo barthesiano em passagens como “deuses do rock”, “poderosos” e “maestros inquestionáveis”. Não se trata aqui de tecer uma crítica ao uso da Antítese, embora salientamos o seu abuso por parte da reportagem. A questão que se impõe é outra: lançar mão do sensacionalismo pode resultar na consolidação de estereótipos e, ao mesmo tempo, no não aprofundamento e/
351 Para além de tormentas e licores de café: Um olhar crítico sobre o jornalismo cultural a partir da… IC – Revista Científica de Información y Comunicación 21 (2024) ∙ pp. 335-353 ∙ E-ISSN: 2173-1071 ∙ https://dx.doi.org/10.12795/IC.2024.I21.15 ou mascaramento de elementos informacionais mais relevantes e consistentes. Neste sentido, assim como qualquer outra prática jornalística, a editoria de cultura também necessita receber devida atenção profissional de acuidade e pesquisa do tema, no caso, a música. Além da antítese, a Causalidade através da causa esperada também surge em “veterano roqueiro” e “veterano leão zeppeliano”. Aliás, pegando carona nesta última denominação, a conexão ininterrupta com o Led Zeppelin se faz presente no que, por si só, acusa a presença da Coincidência com o subtipo da repetição. E, para encerrar, novos equívocos como, por exemplo, quando a sétima reportagem diz que Robert Plant e o Saving Grace apresentariam o primeiro disco, informação que foi desmentida no parágrafo seguinte. Passados dois dias, uma última matéria20 foi produzida pelo La Región. Com um clima pitoresco, “Robert Plant desfrutou do licor de café de Allariz antes de atuar em Ourense” mostra duas fotos nas quais o cantor aparece rodeado por alguns fãs. Em seguida, o texto afirma que o “histórico cantor do Led Zeppelin” curtiu a gastronomia da Galícia incluindo aí produtos locais como o licor café de Allariz, bebida muito popular da região. Na reportagem, é dito que na sexta-feira, véspera do show, o músico e a banda estiveram em um estabelecimento hoteleiro de Allariz degustando as produções da localidade. Sem maiores comos e porquês, a matéria finaliza dizendo que Plant não decepcionou os seguidores mais fiéis no show que fez em Ourense. Muito pelo contrário: “O cantor britânico fez as delícias do seu público com sua poderosa voz”. Foram duas horas de um concerto que mexeu com o público e que fechou “com um longo aplauso para o cantor e os membros da sua banda”, conclui. Percebemos aqui que na última matéria, o La Región fez uso dos fait divers de Causalidade através da causa perturbada. Ou seja, na reportagem, a mera curiosidade conduziu a informação. Ao mencionar que Plant havia experimentado a gastronomia e as produções locais da região como o licor de café de Allariz, a surpresa e o excepcional, características típicas dos fait divers podem ser constatadas mais uma vez. 5. À guisa de conclusão Ubíquos em todas as matérias analisadas, os fait divers são superficiais e rasos, mas de fácil entendimento. Insignificantes, exagerados e inusitados, não estimulam, não promovem elementos para a reflexão crítica. Ou seja, os fait 20. Disponível em <https://www.laregion.es/articulo/ourense/robert-plant-disfruto-licor-cafe-allariz-actuar-ourense/202309111122171243361.html>. Acesso em 23 jan. 2024.
352 Fabio Cruz / Guilherme Curi IC – Revista Científica de Información y Comunicación 21 (2024) ∙ pp. 335-353 ∙ E-ISSN: 2173-1071 ∙ https://dx.doi.org/10.12795/IC.2024.I21.15 divers prejudicam a informação. Posto isto, a questão de fundo vai além dessas considerações. Constatamos que o jornalismo cultural praticado no jornal regional analisado continua repetindo as mesmas práticas repletas dos fait divers. Neste sentido, as matérias analisadas são basilares para o nosso argumento inicial de que parte do jornalismo cultural produzido por alguns veículos de mídia tradicional e regional carecem desta nova perspectiva de fazer jornalismo, mais afinado com os novos tempos e com as novas formações de público que demandam análises mais aprofundadas e com conteúdos mais relevantes, críticos e atentos. Ainda, fazer uso de elementos para sensibilizar o público não seria algo errado e condenável, o jornalismo também trabalha com o sensível, no entanto, o problema acontece quando termos publicitários e adjetivos mascaram, prejudicam e por vezes desinformam o público em geral. Vale lembrar que isso acontece não somente com o jornalismo cultural, mas em outras editorias também. Ao nosso ver, alguns veículos de comunicação tradicionais e regionais podem estar atrelados a antigos formatos de matérias, de cunho sensacionalista e simplista, deixando de lado análises mais fieis e precisas aos trabalhos artísticos noticiados, como o caso do músico Robert Plant pelo jornal La Región. Como já mencionado, tal fato pode também ser consequência da falta de estrutura destes veículos frente ao atual momento econômico de determinadas empresas jornalísticas de médio e pequeno porte. A isso, soma-se a falta de especialização e atenção a determinadas editorias, como a de cultura, analisada aqui. Acreditamos e reafirmamos aqui que a trajetória artística de Robert Plant seja um bom caso a ser estudado justamente por carregar consigo estereótipos e questões representacionais repletas de adjetivos desnecessários que não caberiam mais nos dias de hoje e no novo jornalismo que pode existir. Ainda que ele seja um dos maiores representantes do gênero rock ‘n`roll, Plant, há mais de quatro décadas, ou seja, maior parte da sua carreira, sempre buscou atualizar o repertório e investiu em novas jornadas e experiências artísticas. Por um lado, os críticos musicais mais atentos percebem isso, no entanto, parte da mídia tradicional, como no caso analisado aqui, insiste em trazer esses rótulos à tona e produzir notícias que pouco contribuem para a maioria do público. Olhando mais o horizonte, o que devemos perceber é a maneira como a informação é explicitada. Ou seja, a miríade de tipos e subtipos dos fait divers que são utilizados fazendo com que a mensagem seja relegada a um segundo plano. Concomitante a isso, a lógica dos fait divers, que visa principalmente a audiência e o consequente lucro, reina absoluta nesse tipo de prática jornalística. Ao promover desvios causais com o provável propósito de atingir o emocional dos receptores, as matérias analisadas exacerbam o uso dos fait divers em todas
353 Para além de tormentas e licores de café: Um olhar crítico sobre o jornalismo cultural a partir da… IC – Revista Científica de Información y Comunicación 21 (2024) ∙ pp. 335-353 ∙ E-ISSN: 2173-1071 ∙ https://dx.doi.org/10.12795/IC.2024.I21.15 as expressividades possíveis. Mesmo sendo considerado um músico de valor inegável, com uma sólida carreira solo, Robert Plant é arremessado à causa perturbada quando prova o tradicional licor café de Allariz, ou é visto como um ser frágil e idoso - típica figura da causa esperada - quando é chamado de “veterano roqueiro”. Ainda, ao ser lançado à antítese, nomeado como “a tormenta” ou a “garganta de fogo”, em um sentido sensacionalista, e, também, quando é objeto da repetição, ao ser constantemente conectado ao Led Zeppelin. Não é só de tormentas e licores de café que vive o jornalismo. 6. Bibliografia Barthes, R (1971). Ensaios críticos. Lisboa: Edições 70. Barthes, R (1979). Sistema da moda. São Paulo: Nacional/USP. Barthes, R (1997). Aula. São Paulo: Cultrix. Branco, S. C., Gomes, A. D. & Targino, M. G. (setembro, 2006). Jornalismo Cultural: realidade ou idealização? In: Anais do VI Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom, XXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. (pp.1-15). Couldry, N.; Hepp, A. (2020). A construção mediada da realidade. Tradução: Luzia Araújo. São Leopoldo: Ed. Unisinos. Cruz, F. & Curi, G. (2015). Communication Breakdown: a cobertura do show de Robert Plant no festival Lollapalooza à luz do fait divers. Revista Famecos, Porto Alegre, v. 22, n. 4. Cruz, F. & Curi, G. (2023). A interculturalidade na obra musical de Robert Plant. Revista Lusófona de Estudos Culturais, Braga, v. 10, n.1. Demo, Pedro (1992). Metodologia científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas. Gramsci, Antonio (2014). Cadernos do Cárcere. 6. ed. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. V. 3. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. Ramos, R. (1999). Anotações de sala de aula. Porto Alegre: PUCRS. Rees, P. (2014). Robert Plant: uma vida. São Paulo: Leya. Sodré, Muniz (2014). Ciência do Comum. Rio de Janeiro: Vozes. Souza, R. B. R. de (2018). A dialética da crise do jornalismo: o sociometabolismo do capital e seus limites estruturais. Intercom: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 41, n. 2. https://doi.org/10.1590/1809-5844201823