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R elatórios de Estágio e Monografia intitulada “ Alterações Mitocondriais
Associadas a Experiências Adversas na Infância e a sua R elação com
P atologias Mentais na V ida Adulta” r efer entes à Unidade Cur ricular
“Estágio”, sob a orientação da Dra. Joana Car valho , da Dra. Catarina
Coelho e da P r ofessora Doutora Catarina dos R eis V ale Gomes,
apr esentados à F aculdade de F ar mácia da Universidade de
Coimbra, para apr eciação na pr estação de pr ovas públicas
de Mestrado Integrado em Ciências F armacêuticas.
Alcina de Fátima Gonçalves Mateus
Julho de 2022

Alcina de Fátima Gonça lves Mateus

Relatórios de Estágio e Monografia intitulada "Alterações Mitocondriais Associadas a
Experiências Adversas na Infância e a sua Relação com Patologias Mentais na Vida Adulta"
referentes à Unidade Curricular "Estágio", sob a orientação da Dra. Joana Carvalho, da Dra.
Catarina Coelho e da Professora Doutora Catarina dos Reis Vale Gomes, apresentados à
Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, para apreciação na prestação de provas
públicas de Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas.

Julho de 2022

AGRADECIMENTOS
Aos meus pais, pela possibilidade de chegar até aqui, pela liberdade para escolher o meu
caminho e por me apoiarem nas decisões que tomei, em especial à minha mãe, pelo amor
incondicional e por se manter ao meu lado nos altos e baixos dos últimos cinco anos.
À minha irmã, pelas boas memórias, pelas gargalhadas, por me apoiar sempre, mas
especialmente por representar para mim um exemplo de esforço e perseverança.
Ao Mateus e à Inês, os amigos que não são de sempre, mas que ficarão para sempre, pela
amizade, pelo apoio e pelos bons momentos, sem eles o percurso não teria sido o mesmo.
À minha família e amigos, que de alguma forma contribuíram para o meu percurso.
À minha orientadora, a Professora Doutora Catarina dos Reis Vale Gomes, pela
orientação, dedicação, disponibilidade e apoio ao longo da elaboração da monografia.
A toda a equipa da FRS pelos ensinamentos, pelos momentos de gargalhada, mas
sobretudo pelas maravilhosas pessoas que são e por me terem feito sentir parte da equipa.
À Dra. Joana, pela admirável Farmacêutica que é, por ter sido um exemplo para mim ao
longo de todo o estágio, pelo carinho com que sempre me acolheu e por todos os conselhos
que vou levar comigo para a vida.
Ao Dr. Rui pelo profissionalismo, pela boa disposição, pelo brio que me transmitiu e
acima de tudo pela vontade de ajudar o próximo que sempre manifestou.
Ao Diogo, pelo crescimento conjunto, pelo companheirismo, pela entreajuda e
principalmente pela excelente pessoa que é.
A toda a equipa do SF- GFM da ARSC, I. P., particularmente à Dra. Catarina Abrantes,
pela disponibilidade que sempre demonstrou , por ser um exemplo de trabalho, esforço e
dedicação à Profissão Farmacêutica.
À Dra. Ana, à Sandra, ao Mauro, ao Sr. Machado e à Lena, pelos conselhos, ensinamentos
e boa disposição, mas sobretudo por serem pessoas incríveis e por me fizeram sentir bem-
vinda do primeiro ao último dia.
À Faculdade de Farmácia e à cidade de Coimbra que me acolheram calorosamente.

A todos, o meu mais sincero obrigado!

4

ÍNDICE
PARTE I – Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária
LISTA DE ABREVIATURAS ............................................................................................................. 7
1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 8
2. FARMÁCIA RODRIGUES DA SILVA ................................................................................... 8
3. ANÁLISE SWOT ....................................................................................................................... 9
3.1. Pontos Fortes ................................................................................................ .................... 9
3.1.1. Equipa Técnica .............................................................................................................. 9
3.1.2. Planeamento do Estágio .......................................................................................... 10
3.1.3. Serviços Prestados pela Farmácia ......................................................................... 11
3.1.4. Via Verde do Medicamento ................................................................................... 12
3.1.5. Aplicação de Conhecimentos ................................ ................................................ 12
3.1.6. Competências Pessoais ........................................................................................... 12
3.2. Pontos Fracos ................................................................................................................ 13
3.2.1. Lacunas na Formação Académica ......................................................................... 13
3.2.2. Produção de Medicamentos Manipulados ................................ .......................... 13
3.2.3. Processamento de Receitas Manuais e Regimes Especiais de
Comparticipação ............................................................................................................................. 13
3.3. Oportunidades ............................................................................................................... 14
3.3.1. Heterogeneidade de utentes ................................................................................. 14
3.3.2. Contacto com Receita Eletrónica Médico-Veterinária Manual ...................... 14
3.3.3. Gestão, Rentabilidade e Faturação ....................................................................... 14
3.3.4. Participação em Formações ................................ ................................................... 15
3.4. Ameaças .......................................................................................................................... 16
3.4.1. Localização ................................................................................................................. 16
3.4.2. Rutura de Stocks e Produtos Rateados ................................................................ 16
3.4.3. Informação do Custo do Medicamento no Guia Terapêutico ....................... 16
3.4.4. Aversão ao Atendimento pelo Estagiário ........................................................... 16
3.4.5. Cedência de MSRM .................................................................................................. 17
3.4.6. Situação Atual Económica, Financeira e de Turismo do País e do Mundo . 17
4. CASOS CLÍNICOS ................................................................................................................ 18
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................ ................................ . 20
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................................... 22
PARTE II – Relatório de Estágio em Farmácia Hospitalar
LISTA DE ABREVIATURAS .......................................................................................................... 25
1. INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 26
2. ADMINISTRAÇÃO DE SAÚDE DO CENTRO, I. P. .................................................... 26
2.1. Serviços Farmacêuticos - Gabinete de Farmácia e do Medicamento ............... 27
3. ANÁLISE SWOT ................................................................ .................................................... 28
3.1. Pontos Fortes ................................................................................................ ................. 28
3.1.1. Apresentação e Receção ........................................................................................ 28
3.1.2. Instalações Adequadas ao Trabalho Desenvolvido ........................................... 28
3.1.3. Sistema de Gestão Integrado do Medicamento na ARSC, I. P. ...................... 29

5

3.1.4. Gestão e Organização Interna ............................................................................... 29
3.2. Pontos Fracos ................................................................................................................ 30
3.2.1. Distância aos Utentes, Unidades Funcionais e à Sede da ARSC, I. P. .......... 30
3.2.2. Dificuldade Pessoal na Adaptação Inicial ............................................................. 31
3.3. Oportunidades ............................................................................................................... 31
3.3.1. Requisição de Medicamentos Sujeitos a Controlo Especial ........................... 31
3.3.2. Implementação de Armazéns Avançados ............................................................ 33
3.3.3. Formação Contínua ................................................................................................ . 33
3.3.4. Participação em Reuniões ....................................................................................... 34
3.3.5. Desenvolvimento de Material de Informação e Documentos dos Serviços
Farmacêuticos .................................................................................................................................. 35
3.3.6. Participação na Requisição de Vacinas COVID-19 ........................................... 35
3.4. Ameaças .......................................................................................................................... 35
3.4.1. Contexto Económico e Político no Decurso do Estágio ................................ 35
3.4.2. Ausência Física do Farmacêutico nas Unidade de Saúde ................................ . 36
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................ . 36
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................ ..................................................... 38
6. Anexos ...................................................................................................................................... 39
PARTE III – Monografia "Alterações Mitocondriais Associadas a Experiências Adversas
na Infância e a sua Relação com Patologias Mentais na Vida Adulta”
LISTA DE ABREVIATURAS ................................ .......................................................................... 42
RESUMO ................................................................................................ ............................................ 44
ABSTRACT ....................................................................................................................................... 45
1. INTRODUÇÃO - ENQUADRAMENTO PSICO-SOCIAL DOS EFEITOS DO
STRESS NA SAÚDE MENTAL DA CRIANÇA ................................................................................. 46
2. STRESS - MEDIADORES MOLECULARES DA RESPOSTA AO STRESS E O SEU
IMPACTO NA SAÚDE MENTAL ........................................................................................................ 48
2.1. Sistema de Resposta ao Stress – Da Homeostase à Alostase ............................ 48
2.1.1. Ativação do Eixo HPA e Produção de Glucocorticoides – Resposta
Adaptativa ao Stress ....................................................................................................................... 50
3. MITOCÔNDRIA - MEDIADOR NA RESPOSTA AO STRESS ................................... 52
3.1. Ajuste da Função Mitocondrial na Presença de Stress ......................................... 53
3.2. Influência da Mitocôndria na Alostase e Carga Alostática ................................... 59
4. IMPACTO DO STRESS NO DESENVOLVIMENTO NEURONAL – DESDE A
CONCEÇÃO ATÉ À ADOLESCÊNCIA ............................................................................................ 60
4.1. Impacto do stress no desenvolvimento pré-natal ................................................. 61
5. RESILIÊNCIA – OPOSIÇÃO À DOENÇA MENTAL ................................................... 63
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................ . 64
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................ ..................................................... 67

PARTE 1
Relatório de Estágio em Farmácia Com unitária

Farmácia Rodrigues da Silva

Sob orientação da
Dra. J oana Mar ques Gan ço Marti ns de Carval ho

J aneiro – a bril 2022

7

LISTA DE ABREVIATURAS
COVID- 19

Coronavirus Disease 2019

DCI

Denominação Comum Internacional

FC

Farmacêutico Comunitário

FEFO

First-Expired, First-O ut

FRS

Farmácia Rodrigues da Silva

INFARMED, I.P.

Autoridade Nacional do Medicamento e de Produtos de Saúde, I.P.

MICF

Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas

MNSRM

Medicamentos Não Sujeitos a Receita Médica

MNSRM- EF

Medicamento Não Sujeito a Receita Médica de Venda Exclusiva em
Farmácia

MSRM

Medicamentos Sujeitos a Receita Médica

SNS

Sistema Nacional de Saúde

SWOT

Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats

VVM

Via Verde do Medicamento

8

1. INTRODUÇÃO
O Farmacêutico Comunitário (FC), um profissional de saúde altamente qualificado ,
possui responsabilidades diferenciadas na prestação de cuidados de saúde de qualidade 1 , de
modo a promover a saúde dos seus utentes e igualmente prevenindo e tratando doenças, com
intuito de promover o bem-estar físico, mental e social dos seus utentes.
Devido ao fator proximidade, o FC, desempenha um papel central na comunidade em
que está inserido. A confiança que desenvolve diariamente com os utentes, facilita a
comunicação e o à-vontade com os mesmos, pelo que muitos recorrem primeiro à farmácia
em vez de se deslocarem ao médico. Deste modo, o FC concilia duas formas de auxílio à
população, por um lado, mais científico e racional, promove o uso racional do medicamento,
bem como a literacia em saúde. Por outro lado, mais humano e empático, é um profissional
de saúde que se mostra sempre disponível , atento, preocupado e pronto a dar resposta às
necessidades dos seus utentes . Através da conciliação destas duas abordagens, o FC promove
a saúde em todas as vertentes.
Como parte integrante do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas (MICF), de
acordo com o Artigo 44.º, n.º 2 Diretiva 2013/55/EU de 20 de novembro de 2013 2 , de modo
a harmonizar o reconhecimento das qualificações dos Farmacêuticos, deve ocorrer um
período de estágio obrigatório em Farmácia Comunitária. Por consequência, e com o
propósito de aplicar conhecimento teórico e adquirir conhecimento prático, de modo a
conhecer a realidade nacional do FC , realizei o meu estágio em Farmácia Comunitária na
Farmácia Rodrigues da Silva (FRS), em Coimbra, entre os meses de janeiro e abril,
completando um total de 700 horas, com orientação da Diretora Técnica, Dra. Joana Martins
de Carvalho.
2. FARMÁCIA RODRIGUES DA SILVA
A FRS, encontra- se localizada no coração de Coimbra, mais concretamente na Rua
Ferreira Borges, próxima ao Arco de Almedina . Esta é uma zona nobre da cidade dos
estudantes onde se localizam serviços municipais, bancos e comércio de diversos tipos, que
geram um fluxo de pessoas que trabalham ou se deslocam para esta zona. H á também uma
população fixa de residentes fidelizada na farmácia, na maioria idosos , e ainda um fluxo m ais
pequeno de jovens universitários temporariamente residentes nas imediações. Por último,
existe um fluxo de turistas que é variável ao longo do ano , mas que devido à pandemia de
COVID-19 ( Coronavirus Disease 2019), nos últimos dois anos, sofreu uma diminuição muito

9

acentuada. No entanto, durante o estágio, este fluxo foi aumentando progressivamente de
forma animadora e prevê-se que cresça ainda mais até ao verão.
A equipa técnica é constituída pelo Dr. Pedro Amaro, Farmacêutico e proprietário da
FRS, pela Diretora Técnica Dra. Joana Martins de Carvalho, pelo Farmacêutico Dr. Ricardo
Manso, pelo Técnico de Farmácia Dr. Rui Lopes e pelo Técnico Auxiliar de Farmácia Diogo
Sena. Durante os dois primeiros meses, partilhei o estágio com o Ricardo Madeira, futuro
Técnico de Farmácia.
3. ANÁLISE SWOT
O acrónimo SWOT ( Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats ), traduz-se para
português, em Pontos Fortes, Pontos Fracos, Oportunidades e Ameaças, sendo que as duas
primeiras correspondem a fatores internos que podem ser controlados, enquanto as duas
últimas correspondem a fatores externos que não podem ser controlados. Esta análise, devido
à sua praticidade, objetividade e clareza, é de fácil execução permitindo desenvolver de forma
rápida uma análise completa e global das atividades desenvolvidas durante o estágio, pelo que
foi a forma escolhida para apresentar o presente relatório.
3.1. Pontos Forte s
3.1.1. Equipa Técnica
Desde o primeiro dia, sempre me senti bem-vinda e parte integrante desta fantástica
equipa. Toda a equipa expressou vontade de ensinar, paciência e disponibilidade, o que
estimul ou continuamente a minha curiosidade e vontade de aprender. Para além disso, t odos
se preocuparam em transmitir-me os melhores valores da profissão farmacêutica.
Observei neles humildade e preocupação com o próximo, que julguei já não existir na
profissão farmacêutica. Toda a equipa é atenciosa com os utentes e atenta muito na saúde e
bem-estar dos mesmos. Para mim, foi uma surpresa muito agradável saber que no meio da
cidade há uma farmácia em que os utentes são conhecidos pelo seu nome e, assim que entram
na farmácia, a equipa chama por eles com um sorriso. Muitos destes utentes são idosos de
idade avançada em situações de isolamento , que acabam por criar uma rotina de ida à farmácia
bastante regular. Quando a sua ausência é notada, alguém liga para esses mesmos utentes para
saber se estão doentes, se precisam de ajuda, ou simplesmente para saber se está tudo bem
com eles.

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Por outro lado, foram-me passados valores como o rigor, a responsabilidade , a
comunicação e o valor do olhar para os utentes, incitando em mim a vontade de ser melhor
a cada dia, permitindo-me aumentar continuamente a minha capacidade de desempenhar, com
profissionalismo a função farmacêutica, contando sempre e a qualquer momento com a equipa
para qualquer dúvida ou explicação necessária.
Assim, a equipa foi um ponto fulcral na realização do meu estágio, orientaram-me na
direção certa, nunca me falharam quando necessitei e fortaleceram-me enquanto pessoa e
enquanto Farmacêutica.
3.1.2. Planeamento do Estágio
Back office
O estágio ini ciou- se no backoffice , com receção de medicamentos e outros produtos,
seguida da conferência dos preços e prazos de val idade , cálculo ou verificação do preço de
venda ao público, marcação do preço nos produtos de venda livre e, por fim, arrumação na
respetiva prateleira ou gaveta previamente definida no sistema informático. Quant o aos
produtos anteriormente encomendados para determinados utentes, como já se encontravam
pagos, estes apareciam no sistema com st ock a negativo, sendo que, após serem rececionados,
eram separados para um local próprio, de rápido acesso, de modo a facilitar a entrega aos
utentes. Esta fase inicial permitiu-me ter um maior conhecimento e prática no Sifarma 2000 ® ,
assim como ter noção dos medicamentos e laboratórios mais dispensados na farmácia e ainda
facilitou o conhecimento do local de armazenamento de todos os produtos e medicamentos .
O backoffice demonstrou-se extremamente importante na medida em que foi a base sólida
para poder desempenhar as funções futuras de forma mais rápida, eficiente e profissional.
Atendimento ao Público
Numa fase posterior, quando o meu nível de conhecimento da farmácia e do seu
funcionamento aumentou, iniciei o acompanhamento de atendimentos, no princípio cingido à
observação e, posteriormente, com participação, que consistia em ir buscar os medicamentos
necessários para o atendimento, acompanhando assim a Diretora Técnica. Esta etapa permitiu-
me conhecer melhor o novo sistema informático Sifarma MA ® , mas também começar a
conhecer os utentes, a interagir com eles e a perceber a dinâmica do atendimento. Tive ainda
a oportunidade de assistir a alguns aconselhamento s farmacêuticos e observar alguns sinais e
sintomas de patologias que aparecem recorrentemente ao balcão da farmácia, tais como lesões
provocadas por animais, infeções virais, causadas, p or exemplo, pel o vírus varicela-zoster , entre
outras.

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Mais tarde, ini ciei o atendimento ao público, acompanhada pela Diretora Técnica que o
supervisionava de forma a dar suporte e a garantir que tudo era efetuado de forma correta.
Durante esta fase pude aumentar o contacto com o público iniciado na fase anterior e
melhorar ainda mais as minhas técnicas de comunicação . Com o atendimento ao balcão
surgiram também situações de aconselhamento, com as quais me fui familiarizando ao longo
do tempo, aumentando progressivamente a minha confiança e à vontade, refletidas no diálogo
com os utentes. A boa reputação d o Farmacêutico faz com que muitas vezes a farmácia seja
o primeiro local procurado pelos utentes quando surgem alguns sintomas, com o objetivo de
evitar uma ida à urgência hospitalar, pelo que é crucial transmitir confiança e segurança
aquando do atendimento, de modo a reforçar a credibilidade do Farmacêutico e o sucesso da
terapêutica aconselhada. Po r vezes é também fulcral ser flexível e adequar o diálogo ao
paciente que temos do outro lado do balcão, para que este consiga captar a informação que
lhe estamos a transmitir.
Durante as primeiras semanas de estágio , a Dra. Joana disponibilizou-se para me elucidar
sobre a função e o uso de um leque de produtos com os quais não tive tanto contacto durante
o MICF, tais como colírios, pomadas, soluções cutâneas, suplementos e dermocosméticos,
mas também todo o linear de produtos destinados a gripes e constipações, disfunções do trato
gastrointestinal, colutórios, antifúngicos, produtos destinados a dores musculares e produtos
veterinários . Para além de ficar a conhecer melhor o stock habitual da farmácia, fiquei
igualmente a conhecer as características mais específicas de cada produto, de modo a
identificar o mais adequado para cada situação de modo a satisfazer as necessidades dos
utentes.
O planeamento do estágio foi uma peça-chave do mesmo e o tempo que permaneci em
cada etapa fez com que eu progredisse de forma gradual e consistente nas diversas funções
que desempenhei.
3.1.3. Serviços Prestados pela Farmácia
A FRS presta serviços à comunidade tais como medição da glicémia, do colesterol e da
pressão arterial. Estes serviços permitem aproximar a comunidade da farmácia, visto que são
muito valorizados por esta, devido à proximi dade e rapidez de execução . Durante o meu
estágio fui sempre apoiada e incentivada a realizar medições de forma autónoma ,
principalmente de pressão arterial devido ao facto de esta ser a avaliação mais frequentemente
requisitada e de ser, para mim, a avaliação de mais fácil execução e a que requer menos prática.

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Para além destes serviços, a FRS é uma farmácia aderente ao cartão das Farmácias
Portuguesas, o cartão Saúda ®3 , o que traz inúmeras vantagens para os seus utentes . Os
detentores do cartão acumulam pontos consoante a compra de medicamentos de venda livre
e deslocações à farmácia, que podem posteriormente trocar por descontos monetários ou
produtos.
Outra valência é a adesão ao programa VALORMED ®4 , que permite aos utentes entregar
na farmácia medicamentos fora de uso e resíduos de embalagens vazias, aos quais será dado,
posteriormente, um fim adequado e seguro para o ambiente.
Estes dois programas são benéficos para ambas as partes e permitem uma aproximação
destas, pelo que para mim foi extremamente relevante contactar com eles e perceber melhor
como funcionam estes benefícios proporcionados pela farmácia aos seus utentes.
3.1.4. Via Verde do Medicamento
A Via Verde do Medicamento (VVM) 5 é uma via excecional de aquisição de medicamentos
abrangidos, o s quais podem ser requisitados com recurso a uma receita válida. O distribuidor
fornece o pedido com recurso a stock previamente reservado para este canal, permitindo à
farmácia ter acesso a medicamentos pertencentes à lista de medicamentos cuja
exportação/distribuição intra-comunitária é sujeita a notifi cação prévia ao INFARMED, I.P.
(Autoridade Nacional do Medicamento e de Produtos de Saúde, I.P.). Este programa que já se
encontra a funcionar em pleno, foi diversas vezes utilizado durante o meu estágio e permit iu
à farmácia garantir acesso, em 48h, a determinados medicamentos, como por exemplo o
Eliquis ® 2,5mg, para que os seus utentes pudessem prosseguir com a sua terapêutica habitual,
contribuindo para o sucesso da mesma.
3.1.5. Aplicação de Conhecimentos
O estágio na FRS permitiu-me aplicar uma vasta gama de conhecimentos que adquiri
durante o MICF. Pequenas coisas que aprendi demonstraram-se agora essenciais para
desempenhar a profissão farmacêutica. De salientar que as unidades curriculares do primeiro
semestre do 5º ano foram sem dúvida, as que mais contribuíram para o sucesso no
atendimento ao público, sobretudo no aconselhamento.
3.1.6. Competências Pessoais
A facilidade intrínseca de comunicação, aliada à forte capacidade de criar laços
interpessoais, facilitaram imenso a minha integração na equipa da FRS, do mesmo modo que

13

me permitiram interagir de forma afável com os utentes. Apesar de existir uma timidez inicial,
esta foi desaparecendo com o aumento da confiança no trabalho que desenvolvia e graças ao
suporte fornecido por parte da equipa. A minha curiosidade e a vontade insaciável de aprender
fizeram com que aproveitasse esta oportunidade ao máximo, com o objetivo de desenvolver
as minhas capacidades científicas e práticas co m o intuito de desempenhar a profissão
farmacêutica de forma exemplar.
3.2. Pontos Fracos
3.2.1. Lacunas na Formação Académica
Embora o plano curricular do MICF seja muito completo e aborde grande parte das áreas
essenciais para a formação farmacêutica, possui algumas lacunas das quais me apercebi no
decorrer do estágio. Um exemplo são as escassas formações sobre os programas Sifarma
2000 ® e Sifarma MA ® , levando a que o estágio seja iniciado com formação muito reduzida nesta
área. Outro exemplo é a falta de conhecimento dos laboratórios e nomes comerciais d os
medicamentos, isto porque, grande parte das unidades curriculares são focadas na
Denominação Comum Internacional (DCI), pelo que o conhecimento de nomes comerciais é
estreito. Por último, a fraca informação disponibil izada a nível de medicamentos de venda livre,
dificultou inicialmente o processo de aconselhamento farmacêutico, que acabou por ser
maioritariamente aprendido com o apoio didático prestado pela FRS.
3.2.2. Produção de Medicamentos Manipulados
Como a FRS não executa a preparação de medicamentos manipulados, não tive a
oportunidade de ver de perto esta área. No entanto, tive a oportunidade de observar a
preparação de suspensões orais, nomeadamente antibióticos que careciam de ser preparados
antes da administração. Este trabalho de preparação é muito mi nucioso e requer extrema
atenção durante a execução. Apesar de considerar este um ponto fraco, não considero que
tenha afetado negativamente o meu estágio, visto que há cada vez menos farmácias que
efetuam a preparação de medicamentos manipulados.
3.2.3. Processamento de Receitas Manuais e Regimes Especiais de
Comparticipação
No decurso do atendimento ao balcão contactei diversas vezes com receitas manuais.
Estas revelaram ser de difícil interpretação devido à falta de prática de leitura e de
conhecimento do nome comercial de alguns medicamentos. Além disso, é um processo

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moroso pois requer sempre a verificação do preenchimento da receita que engloba a
identificação do medicamento, dosagem e quantidad e de embalagens, verificação da assi natura
e da vinheta, prazo de validade e observação da presença de rasuras não rubricadas. Tod o
este processo é imprescindível para o processamento da receita, visto que não se verificar o
cumprimento de todos os parâmetros, a receita não po de ser dispensada com
comparticipação . Os regimes especiais de comparticipação e as complementaridades, nas
receitas manuais, foram igualmente um desafio , sendo necessário saber os códigos dos mais
recorrentes , n o entanto, a maioria das receitas manuais que surgiram tinham apenas a
comparticipação do SNS (Sistema Nacional de Saúde), o que facilitou a interpretação e o
atendimento. Todavia, com o decorrer do tempo, o processamento destas receitas foi-se
tornando mais ágil e descomplicado .
3.3. Oportunidades
3.3.1. Heterogeneidade de utentes
Como já foi referido anteriormente, a FRS possui um leque muito variado de utentes, o
que me permitiu no decurso do estágio, contactar com diversas línguas, diferentes graus de
literacia e distintas formas de pensar, pelo que foi necessário ser flexível e adequar o discurso
perante a pessoa com quem estava a contactar, para que esta percebesse toda a informação
que lhe quer ia transmitir. É de extrema importância para o sucesso da terapêutica, que o
utente saia da farmácia sem qualquer dúvida sobre esta.
3.3.2. Contacto com Receita Eletrónica Médico-Veterinária Manual
Com a implementação do Regulamento n.º 2019/6 de 11 de dezembro de 2018 6 , a partir
de 31 de janeiro, tive a oportunidade de contactar diversas vezes com a Receita Eletrónica
Médico-veterinária Manual 7 . Esta possui código de receita, código de dispensa, bem como data
de prescrição, vinheta e data-limite para a dispensa, pelo que pode ser tratada como uma
receita manual no sistema informático da farmácia. Isto permitiu-me observar de perto a
evolução da prescrição médico-veterinária, que torna a prescrição de medicamentos para
animais, cada vez mais rápida, fácil e segura.
3.3.3. Gestão, Rentabilidade e Faturação
A gestão da farmácia é o pil ar da rentabilidade. No decorrer do estágio, pude perceber
como se processa a aquisição de Medicamentos Sujeitos a Receita Médica (MSRM) ,

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Medicamentos Não Sujeitos a Receita Médica (MNSRM) e outros produtos de venda livre,
para além dos acordos existentes na farmácia, e os seus respetivos prós e contras .
As compras diretas são feitas de forma prospetiva, pelo que é necessário fazer a análise
do histórico de vendas, de modo a prever os gastos de produto e, em função destes, ajustar
as compras, para que o stock possa atender às necessidades dos utentes e simultaneamente
aumentar a rentabilidade da farmácia . A demais, a gestão evita o dinheiro parado, porque
permite avaliar quais os produtos que têm mais saída e expressão e, consequentemente,
direcionar o investimento. Além de que, ainda evita o desperdício, visto que , verificando
periodicamente a validade dos produtos e arrumando os produtos com prazo mais curto à
frente, segundo a lei First-Expired, First- Out (F E FO), faz com que haja uma circulação correta
d os medicamentos, evitando que estes passem o prazo de validade e tenham que ir para
quebras, o que causa perda de grande parte do seu valor de custo. Ao longo do estágio tornou-
se evidente que a saúde financeira da farmácia depende da gestão da mesma e do empenho da
equipa em contribuir para esse processo de gestão.
Durante o estágio tive a oportunidade de assistir e participar em todo o processo de
faturação mensal, ao lado da Diretora Técnica , a Dra. Joana, responsável pela conferência de
receitas manuais, verificação de complementaridades, registo de saída de psicotrópicos e
respetivo envio dos mesmos para cada uma das entidades responsáveis pelo pagamento da
comparticipação atribuída. Este trabalho meticuloso é de extrema relevância, visto que, caso
alguma receita não esteja conforme, a farmácia não recebe a comparticipação dessa mesma
receita.
3.3.4. Participação em Formações
Nos quatro meses de estágio, tive a oportunidade de participar em formações na FRS e
fora desta, ministradas pelo Grupo NAOS ® , Grupo L’Oreal ® , Galderma ® , B ayer ® , Sanofi ® ,
Perrigo ® , Caudalie ® , Gedeon Richter ® , entre outros. Estas formações foram rápidas e
objetivas, focaram-se nos pontos essenciais de cada produto, nas vantagens e no que os
diferencia dos concorrentes , p ermitindo-me ficar por dentro de todo o segmento de algumas
marcas, mas também conhecer novos produtos no mercado.

16

3.4. Ameaças
3.4.1. Localização
A localização central da FRS é sua aliada em determinadas situações, mas a falta de
circulação automóvel durante o dia, a inexistência de estacionamento à porta e a existência
de outras farmácias nas imediações, são fatores que diminuem a afluência a esta. A distância
desta aos CHUC faz com que não seja a Farmácia preferida em serviços noturnos.
3.4.2. Rutura de Stocks e Produtos Rateados
A existênci a recorrente de produtos rateados bem como a rutura de stocks , demonstra-
se uma ameaça, na medida em que pode afastar alguns utentes fidelizados para outras farmácias
que ainda tenham stock desses produtos. Durante o meu estágio, a FRS, concretamente o Dr.
Rui, procurou continuamente ter um maior aprovisionamento destes medicamentos, através
da persistência com os laboratórios e distribuidores. Só desta forma foi possível obter os
medicamentos, que permitiram, não só aos utentes dar continuidade ao tratamento, mas
também à farmácia não perder fidelizações.
3.4.3. Informação do Custo do Medicamento no Guia Terapêutico
A informação constante no Guia Terapêutico acerca do custo máximo dos
medicamentos, leva os utentes a questionar o Farmacêutico sobre a diferença de preço entre
este e o medicamento vendido. Esta situação aconteceu algumas vezes e foi sempre explicado
ao utente que aquele valor por vezes se encontra desatualizado, dado que é calculado, a cada
3 meses, com base no medicamento mais caro dentro dos 5 mais baratos do grupo
homogéneo a que pertence. Ou então, poderia ocorrer o caso de, naquele momento, a
farmácia não deter nenhum medicamento cujo preço estivesse abaixo do valor indicado. É
importante explicar estas situações aos utentes para que eles mantenham a confiança no
Farmacêutico e afastem a ideia errónea de que este lhes está a tentar vender um medicamento
mais caro.
3.4.4. Aversão ao Atendimento pelo Estagiário
Diversas vezes no decorrer da minha formação na FRS foram vários os utentes que
preferiram ser atendidos pelos Farmacêuticos . A raz ão era simples, escolhiam o Farmacêutico
que já conheciam e no qual tinham confiança. Contudo , havia muitos utentes que não se
importavam de ser atendidos por novos elementos na equipa da farmácia. Enquanto estagiária,

17

percebo a importância de demonstrar confiança a estes utentes, de modo a ganhar a confiança
deles e a oportunidade de demonstrar as minhas capacidades e conhecimento.
3.4.5. Cedência de MSRM
Muitos utentes dirigiram-se à FRS para comprar MSRM sem receita, perante a negação
da cedência por parte do Farmacêutico, alegaram que iriam a outra farmácia. Percebi então,
que grande parte dos utentes não compreende plenamente o conceito de MSRM . Segundo o
Artigo 114. o do Decreto-Lei n.º 176/2006, de 30 de agosto 8 , necessitam de receita médica os
medicamentos que “preencham uma das seguintes condições:
a) Possam constituir um risco para a saúde do doente, direta ou indiretamente, mesmo
quando usados para o fim a que se destinam, caso sejam utilizados sem vigilância médica;
b) Possam constituir um risco, direto ou indireto, para a saúde, quando sejam utilizados
com frequência em quantidades consideráveis para fins diferentes daquele a que se destinam;
c) Contenham substâncias, ou preparações à base dessas substâncias, cuja, atividade ou
reações adversas seja, indispensável aprofundar;
d) Destinem-se a ser administrados por via parentérica.”
Deste modo, ao não ceder MSRM , o Farmacêutico está a zelar pelos utentes, alertando-
os para o uso racional do medicamento e para a necessidade deste ser prescrito e a sua
utilização ser acompanhada pelo médico.
Neste sentido, inferi que é necessário investir mais na literacia em saúde dos utentes.
3.4.6. Situação Atual Económica, Financeira e de Turismo do País e do
Mundo
A atual situação económica mundial, aliada à pandemia e recentemente à guerra instalada
no continente europeu, criam um ambiente de insegurança e instabilidade que afetam
diretamente o turismo e consequentemente a afluência de turistas à FRS. Também o
teletrabalho e elevado número de casos positivos de COVID-19, diminuiu a convergência de
utentes. A diminuição do volume de trabalho nas farmácias poderá comprometer a
aprendizagem dos estagiários e no extremo, tornar a sua presença dispensável, já que estes
não vão observar o movimento habitual da farmácia. Na FRS apesar da diminuição do volume
de trabalho, havia sempre tarefas a desempenhar, como a execução de montras, atualização
das prateleiras, reposição de MSRM e MNSRM, inventário, controlo de prazos de validade e
verificação de receituário.

18

4. CASOS CLÍNICOS
Caso Clínico 1
Uma utente, do sexo feminino, com cerca de 45 anos de idade dirige-se à farmácia com
a filha de 4 anos que apresenta sinais de varicela. Referiu que já se tinha dirigido ao hospital ,
mas que ainda aguardava a receita médica. Precisa de alguma coisa que alivie a comichão da
criança. Perante a situação, a forma mais fácil de aliviar o prurido da criança seria o Fenistil ®
(Dimetindeno 1mg/ml) 9 gotas orais, um anti-histamínico, que permite um melhor ajuste
posológico e que possui início de ação rápido. A posologia adaptada à criança foi: 15 a 20
gotas, três vezes ao dia.
Além disso, recomendei o Pruriced ® Gel 10 apasiguante, da Uriage ® como complemento
ao tratamento. Este gel deve ser espalhado numa camada fina sobre a pele lesada, com o
objetivo de acalmar e diminuir o prurido, podendo ser utilizado várias vezes ao dia.
A utente demonstrou hesitação inicial por desconhecer ambos os produtos, mas
percebendo que esta seria a melhor opção para a criança, optou por levar os dois.
Caso Clínico 2
Um utente, sexo masculino, nacionalidade inglesa, com cerca de 38 anos de idade, dirige-
se à FRS em busca de um medicamento para parar a diarreia. Primeiro, procurei saber se
apresentava mais algum sintoma, como febre, vómitos ou diarreia com sangue, de mo do a
descartar gastroenterite/virose, ao que o utente respondeu que não. Assim, procedi à cedência
de Imodium Rapid ® (Loperamida 2mg) 11 comprimidos orodispersíveis, aconselhando a toma
de 2 comprimidos ao iniciar o tratamento, seguida de 1 comprimido cada vez que houvesse
uma nova dejeção diarreica, não excedendo 8 comprimidos por dia. Além disso, recomendei
um regulador da flora intestinal, o Boulactis Plus ® 12 que contém prebióticos, probióticos e
vitaminas do complexo B, que vão restabelecer a microbiota intestinal, promovendo o normal
funcionamento do sistema gastrointestinal e a resolução da diarreia, na posologia de 1 saqueta
por dia dissolvida num copo de água. Recomendei ainda o Dioralyte ® (Eletrólitos + Glucose) 13 ,
uma solução de reidratação, que promove a reposição de fluidos e o equilíbrio de eletrólitos
no organismo. A posologia é 1 saqueta dissolvida em 200ml de água, várias vezes ao dia, após
cada dejeção diarreica. Como medidas não farmacológicas, recomendei a ingestão de água,
para além da já referida. Por fim, informei o utente que na ausência de melhoria clínica nas
48h seguintes, deveria suspender o tratamento com Imodium Rapid ® e dirigir-se ao médico.

19

Caso Clínico 3
Uma utente, com idade compreendida entre os 45 e 50 anos, dirige-se à farmácia com
uma mordida no dedo anelar, pedindo alguma coisa para colocar no local. Em primeiro lugar
perguntei à utente qual o animal que a tinha mordido, ao que ela respondeu que foi um cão.
De seguida perguntei se ela sabia se o cão estava vacinado contra a raiva. A utente respondeu
que a mordida fora feita por um cão bebé, com cerca de 4 meses, e como tal ainda não estava
vacinado, mas a priori não teria a doença.
Perante a situação, recomendei o Diaseptyl ® Spray 14 para limpar e desinfetar a ferida sem
causar ardor, e aplicar de seguida o Fucidine ® Pomada 15 (Ácido Fusídico), um Medicamento
Não Sujeito a Receita Médica de Venda Exclusiva em Farmácia (MNSRM-EF), até 3 vezes ao
dia, num período mínimo de 8 dias, para i mpedir a proliferação de bactérias na ferida, evitan do
uma infeção. A cedência do Fucidine ® Pomada 15 enquanto MNSRM-EF, foi realizada seguindo
o Protocolo de Dispensa Exclusiva em Farmácia 16 .
Caso Clínico 4
Uma utente, com cerca de 45 anos, desloca-se à farmácia à procura de um produto para
a infeção urinária. Menciona que está no princípio do que julga ser uma infeção urinária, pois
apresenta, desde o dia anterior, micção frequente, dificuldade em esvaziar a bexiga e ardor ao
urinar. Procura um produto que evite uma ida ao médico.
Posto isto, recomendei o Cysticlean ® , 2 cápsulas diariamente durante 15 dias, uma de
manhã, outra à noite , um suplemento à base de proantocianidinas, derivadas do extrato do
arando vermelho, que tem a capacidade de impedir a adesão das bactérias às paredes da bexiga ,
mas também desalojar as que já aderiram. Além disso indiquei a toma de vitamina C, Cecrisina ®
(Ácido Ascórbico) 17 , 1 comprimido efervescente por dia, de preferência ao pequeno-almoço,
de modo a promover a acidificação da urina impedindo a proliferação de bactérias no trato
urinário. Aconselhei ainda o uso de um gel de limpeza íntima, para uma correta higienização ,
prevenindo a proliferação de bactérias que possam vir arrastadas do ânus durante a limpeza.
Concretamente , sugeri o Saforelle ® Solução de Lavagem 18 para uso diário, que vai acalmar,
proteger e limpar gentilmente, promovendo o equilíbrio natural da zona íntima, para que esta
se mantenha saudável e sem proliferações bacterianas. Por fim, como medida não
farmacológica, incentivei a ingestão de muita água a fim de facilitar a limpeza do canal urinário.
A utente aceitou todas as recomendações e levou todos os produtos, apenas
questionando se poderia usar os outros produtos mesmo após o término do Cysticlean ® , ao

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que eu respondi afirmativamente, pois o Saforelle ® 18 atua na prevenção da proliferação de
bactérias e a Cecrisina ® 17 promove o reforço das defesas do sistema imunitário, podendo
ambos ser utilizados diariamente.
Caso Clínico 5
Uma utente, entre os 65 e 70 anos, chega à farmácia à procura de um creme para o rosto.
Demonstra preocupação com algumas linhas de expressão, mas também rugas mais profundas.
Apresentei-lhe a linha Premier Cru ® 19 da Caudalie ® , constituída por creme de contorno de
olhos, sérum, creme e creme rico, com a novidade de ter uma embalagem reutilizável, sendo
apenas necessário adquirir uma nova recarga no decorrer do uso. Esta linha tem por base uma
tecnologia revolucionária patenteada, a TET8 ® , que consiste numa combinação de Honokiol e
Resveratrol, que juntos potenciam a enzima TET e os seus efeitos, atuando nas proteínas da
juventude, co rrigindo os 8 sinais do envelhecimento: rugas instaladas, rídulas, manchas,
luminosidade, firmeza, elasticidade, volume e hidratação. Deste modo, esta demonstra-se
como uma linha mais adequada para uma pele madura e com rugas mais vincadas como é o
caso da utente. Recomendei-lhe o creme rico, por ser mais adequado para o seu tipo de pele,
seca, e levou também o creme de olhos.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estágio na FRS, como culminar do MICF, deu-me a oportunidade de vivenciar o dia a
dia do FC , o que me levou a alargar consideravelmente os meus conhecimentos teóricos e
sobretudo práticos, superar todas as minhas expectativas e descobrir o gosto pelo contacto
com os utentes .
A passagem por todas as etapas dentro da FRS mostrou-me que dentro de uma farmácia
o trabalho nunca acaba e que todas as atividades são importantes, interdependentes e
imprescindíveis para o sucesso do atendimento e do aconselhamento. Para além disso, saí com
a certeza de que fui munida com ferramentas como a comunicação, a curiosidade, a
organização, a autonomia, e a aprendizagem contínua, para que nunca me falte o olhar atento
para o utente , que tantas vezes vi no rosto de toda a equipa da FRS.
Durante estes 4 meses, a FRS foi a minha segunda casa, pude observar de perto as alegrias,
as tristezas, as adversidades e as vitórias desta equipa. Apesar de muitos utentes
reconhecerem a mais-valia que é ter um Farmacêutico na comunidade, muitos ainda não
valorizam a profissão tanto quanto esta merece ser valorizada, e acabam por menosprezar o
Farmacêutico. Analisando de forma crítica , este é um problema que, do meu ponto de vista,

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requer uma solução a partir de cima, ou seja, começando nos outros profissionais de saúde ,
incentivando- os a desenvolver trabalho conjunto com o Farmacêutico . Colocando o FC na
revisão da medicação e no acompanhamento farmacoterapêutico, os utentes passariam a olhar
o Farmacêutico com outros olhos e a dar-lhe o devido valor, reconhecendo-o como o
profissional altamente qualificado que é. Consequentemente, haveria uma diminuição da
sobrecarga no S NS .
Para terminar , a gradeço profundamente a toda a equipa da FRS, especialmente à Dra.
Joana, que foi incansável e me transmitiu inúmeros ensinamentos que me permitiram crescer
tanto a nível profissional como a nível pessoal. Com ela apendi que devemos ser boas pessoas
para podermos ser bons profissionais, manter sempre a nossa humildade e humanidade, ter
brio e orgulho na nossa profissão e sobretudo lutarmos por aquilo em que acreditamos. Sem
dúvida que saio daqui com confiança e autonomia, preparada para o que o futuro reservar,
mas acima de tudo ciente da responsabilidade que é ser Farmacêutico e da importância que
este ocupa na sociedade.

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6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1.REPÚBLICA, Diário - Código Deontológico da Ordem dos Farmacêuticos de 20 de
dezembro de 2021. Diário da República, 2 a série. N. o 244. 2021.
2. PARLAMENTO EUROPEU E CONSELHO DA UNIÃO EUROPEIA - Diretiva
2013/55/UE do Parlamento Europeu e do Conselho de 20 de novembro de 2013. Jornal Oficial
da União Europeia. (2013).
3. FARMÁCIAS PORTUGUESAS - Cartão Saúda [Consult. 7 abr. 2022]. Disponível em:
https://www.farmaciasportuguesas.pt/sauda/como-funciona
4. MEDICAMENTOS, Sociedade Gestora De Resíduos De Embalagens E - Programa
VALORMED ® [Consult. 7 abr. 2022]. Disponível em : http://www.valormed.pt/intro/home
5. INFARMED, I. P. - Projeto Via Verde do Medicamento - Circular Informativa N. o
019/CD/100.20.200, atual. 2015. [Consult. 7 abr. 2022]. Disponível em: www.infarmed.pt
6. PARLAMENTO EUROPEU E CONSELHO DA UNIÃO EUROPEIA - Regulamento
(UE) 2019/6 do P arlamento Europeu e do Conselho de 11 de dezembro de 2018 relativo aos
Medicamentos Veterinários e que revoga a Diretiva 2001/82/CE. Jornal Oficial da União
Europeia. (2020).
7. DGAV, Direção Geral De Alimentação E Veterinária - Manual de Dispensa de
Medicamentos Veterinários, atual. 2022. [Consult. 9 abr. 2022]. Disponível em:
https://files.dre.pt/2s/2021/12/244000000/0014300159.pdf
8. MINISTÉRIO DA SAÚDE - DL n o 176/2006 de 30 de agosto, atual. 2006. [Consult.
9 abr. 2022]. Disponível em : https://dre.pt/dre/detalhe/decreto-lei/176-2006-540387
9. INFARMED, I. P. - Fenistil ® (Dimetindeno 1mg/ml) - Resumo das Características do
Medicamento [Consult. 8 abr. 2022]. Disponível em: https://extranet.infarmed.pt/INFOMED-
fo/detalhes-medicamento.xhtml
10. URIAGE ® - Pruriced ® Ge l [Consult. 8 abr. 2022]. Disponível em:
https://www.uriage.pt/produtos/pruriced-gel
11. INFARMED, I. P. - Imodium Rapid ® ( Loperamida 2 mg)- Resumo das Características
do Medicamento [Consult. 9 abr. 2022]. Disponível em:
https://extranet.infarmed.pt/INFOMED-fo/detalhes-medicamento.xhtml
12. VELVETMED - Boulactis Plus ® [Consult. 9 abr. 2022]. Disponível em: https://velvet-
med.pt/produto/boulactis-plus-2/

23

13. INFARMED, I. P. - Dioralyte ® - Resumo das Características do Medicamento
[Consult. 9 abr. 2022]. Disponível em: https://extranet.infarmed.pt/INFOMED-fo/detalhes-
medicamento.xhtml
14. DUCRAY - Diaseptyl ® Spray [Consult. 10 abr. 2022]. Disponível em:
https://www.ducray.com/pt-pt/diaseptyl/diaseptyl-spray
15. INFARMED, I. P. - Fucidine ® Pomada (Ácido Fusídico) - Resumo das Características
do Medicamento [Consult. 10 abr. 2022]. Disponível em:
https://extranet.infarmed.pt/INFOMED-fo/detalhes-medicamento.xhtml
16. INFARMED, I. P. - Protocolo de Dispensa Exclusiva em Farmácia - Ácido Fusídico
20mg/g [Consult. 21 abr. 2022]. Disponível em:
https://www.infarmed.pt/documents/15786/79990/1_Ac_Fusidico_2015_02_18.pdf/f075f1ac-
1f4a-482c-aab6-a6051de4eec0
17. INFARMED, I. P. - Cecrisina ® (Ácido Ascórbico) - Resumo das Características do
Medicamento [Consult. 10 abr. 2022]. Disponível em: https://extranet.infarmed.pt/INFOMED-
fo/detalhes-medicamento.xhtml
18. IPRAD, Laboratoires - Saforelle ® Solução de Lavagem [Consult. 10 abr. 2022].
Disponível em: https://pt.saforelle.com/cuidados-ginecologicos/suas-necessidades-
gynaecological-cares/solucao-lavagem/
19. CAUDALIE ® - Premier Cru ® [Consult. 10 abr. 2022]. Disponível em:
https://pt.caudalie.com/dicas-rotinas/consulta- de -beleza/premier-cru.html

PARTE II
Relatório de Estágio em Farmácia Hosp italar

Administração Regional de Saúde do Centro,
I. P.

Sob orientação da
Dra. Ca tarina Maria Vicen te Oli veira Coelho

Maio – junho 2022

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LISTA DE ABREVIATURAS
AA

Armazém Avançado

ACeS

Agrupamento de Centros de Saúde

ARSC, I. P.

Administração de Saúde do Centro, I. P.

CDP

Centro de Diagnóstico Pneumológico

CFT

Comissão de Farmácia e Terapêutica

COVID- 19

Coronavirus Disease 2019

DARWIN EU

Data Analysis and Real Worl Interrogation Network

DHPN

Doença Hemolítica Perinatal

DICAD

Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas
Dependências

ERPI

Estrutura Residencial Para Pessoas Idosas

INCM

Imprensa Nacional – Casa da Moeda, S. A.

INFARMED, I. P.

Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, I. P.

MICF

Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas

RON

Registo Oncológico Nacional

SF-GFM

Serviços Farmacêuticos - Gabinete de Farmácia e do Medicamento

SGIM

Sistema de Gestão Integrado do Medicamento

SNS

Sistema Nacional de Saúde

SUCH ®

Serviço de Utilização Comum dos Hospitais ®

SWOT

Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats

UALP

Unidade de Aprovisionamento, Logística e Património

UF

Unidade Funcion al

26

1. INTRODUÇÃO
O estágio em farmácia hospitalar, está inserido na unidade curricular “Estágio”, que
decorre no último semestre do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas (MICF) e
demonstra-se como uma mais-valia para conhecer todas as saídas profissionais.
De acordo com o Decreto-Lei n. o 44 204, de 2 de Fevereiro de 1962, designa-se por
farmácia hospitalar, “o conjunto de atividades farmacêuticas exercidas em organismos
hospitalares ou serviços a eles ligados”, que exercem atividades através de serviços
farmacêuticos 1 . O meu estágio foi realizado na Administração de Saúde do Centro, I. P. (ARSC,
I. P.), nos Serviços F armacêuticos - Gabinete de Farmácia e do Medicamento (SF- GFM). A
proximidade com esta área do exercício farmacêutico, deu-me a possibilidade de vivenciar a
realidade da profissão e as atividades desenvolvidas pelos Farmacêuticos. Assim, este relatório
espelha o meu percurso no decurso do estágio na ARSC, I. P.
2. ADMINISTRAÇÃO DE SAÚDE DO CENTRO, I. P.
Com sede em Coimbra, a ARSC, I. P. ,
abrange 78 concelhos de Portugal Continental,
localizados na reg ião centro, o que em termos
territoriais, corresponde a uma área de 23671
Km 2 , cerca de 27% da superfície continental do
país, como pode ser observado na Figura 1 2;3 .
A instituição é constituída pela Divisão de
Intervenção nos Comportamentos Aditivos e
nas Dependências (DICAD), Hospitais,
serviços centrais divididos em departamentos
e serviços descentralizados 4 , compreendendo
2 Unidades Locais de Saúde (ULS) e 6
Agrupamentos de Centros de Saúde (ACeS) :
ULS de Castelo Branco, ULS da Guarda, ACeS Pinhal Interior Norte, ACeS Dão Lafões, ACeS
Baixo Vouga, ACeS Baixo Mondego, ACeS Cova da Beira, ACeS Pinhal Litoral 3 . A população
abrangida pela ARSC, I. P., é de cerca de 1 705 405 pessoas, 17% da população de Portugal
Continental, sendo os ACeS Baixo Vouga e Baixo Mondego, os que englobam mais população 3 .
A missão da ARSC, I.P. é “garantir à população da respetiva área geográfica de intervenção o
Fig ura 1 – Concelhos abrangi dos pela AR SC ,
I. P ( Adaptado d e 3 )

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acesso à prestação de cuidados de saúde”, pressupondo uma gestão dos recursos disponíveis
que atenda às necessidades desta e ao cumprimento de políticas e programas de saúde 5 .
2.1. Serviços Farmacêuticos - Gabinete de Farmácia e do Medicamento
As instalações dos SF-GFM são constituídas pelo Gabinete da Direção, onde são
asseguradas as funções de Coordenação pela Dra. Catarina Coelho, Farmácia Central, onde
decorreu o estágio e Gabinetes nas ACeS. A equipa dos SF-GFM é constituída por 10
Farmacêuticos, para além de 6 Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica, 1 Técnico
Superior de Secretariado, 4 Assistentes Técnicos, 4 Assistentes Operacionais e 1 funcionária
da empresa de limpeza contratada.
Os SF-GFM dão apoio às Unidades Funcionais ( UF) que constituem cada ACeS, pelo que,
com a intenção de aumentar a proximidade e facilitar o contacto, cada Farmacêutico é
responsável por um ACeS, sendo que, desde janeiro de 2022, as funções em dois dos ACeS
são partilhadas por dois Farmacêuticos em cada um deles.
Os SF-GFM dão também suporte a várias entidades externas, como por exemplo,
Hospitais, Centros de Diálise, Instituições de Ensino Superior, entre outros. De entre todas
as funções desempenhadas pelos SF- GFM 2 , destaco as seguintes:
• supervisão técnica da aquisição de produtos de saúde e medicamentos e apoio à
Unidade de Aprovisionamento, Logística e Património (UALP);
• receção e armazenamento dos produtos de saúde e medicamentos adquiridos,
salvaguardando a qualidade, acondicionamento, distribuição e utilização dos
mesmos, de acordo com o disposto em lei e com as recomendações do fabricante;
• gestão de stocks de acordo com as necessidades previstas, de modo a assegurar
que não há falta de medicamentos e produtos de saúde, nem excedente dos
mesmos, promovendo o uso racional, eficaz e seguro do medicamento;
• atualização e gestão do ficheiro de medicamentos e produtos de saúde existentes
na farmácia da ARSC, I. P.;
• integração de comissões técnico-científicas, como por exemplo, Comissão de
Farmácia e Terapêutica (CFT), Conselho Consultivo da Autoridade Nacional do
Medicamento e Produtos de Saúde, I. P. (INFARMED, I. P.) e elaboração de
pareceres técnicos e informações técnicas para distribuição (Farmácia Clínica).

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3. ANÁLISE SWOT
Com o intuito de facilitar a análise do meu estágio na ARSC, I. P., procedi à realização de
uma análise SWOT ( Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats ), onde, tendo em conta
fatores internos e externos, destaco os Pontos F ortes, Pontos Fracos, Oportunidades e
Ameaças, com os quais me deparei ao longo do estágio.
3.1. Pontos Fortes
3.1.1. Apresentação e Receção
O primeiro ponto forte a destacar, foi sem dúvida, a receção calorosa que tive na
Farmácia Central. Todos os Farmacêuticos, técnicos e assistentes se apresentaram no
primeiro dia e, nomeadamente, a Dra. Catarina Abrantes , levou-me a conhecer as instalações.
Ao longo de todo o estágio tive a oportunidade de aprender com todos os que lá
trabalham, que sempre demonstraram disponibilidade, entreajuda e vontade de ensinar. O
estágio foi partilhado com a minha colega e amiga, Maria João Sacras.
3.1.2. Instalações Adequadas ao Trabalho Desenvolvido
As instalações da Farmácia Central, onde estão localizados os SF-GFM, encontram-se num
espaço comum aos Serviços de Aprovisionamento da ARSC, I. P. De modo a facilitar a
organização, os produtos farmacêuticos encontram-se distribuídos por várias áreas do
armazém, especificamente: gabinete dos serviços farmacêuticos, serviços administrativos, sala
de reuniões, câmaras frigoríficas, armazém de injetáveis de grande volume, armazém de
medicamentos/farmácia, armazém de inflamatórios e zona de dispositivos médicos.
De realçar que todas as salas de armazenamento de medicamentos têm temperatura
controlada abaixo de 25 o C, câmaras de armazenamento entre 2 e 8 o C e humidade abaixo de
60%, sendo que a temperatura é permanentemente monitorizada, com recurso a sistemas de
alerta, a fim de evitar a perda de produtos por exposição a temperaturas desadequadas.
Assim, as instalações são adequadas ao trabalho desenvolvido na ARSC, I. P., na medida
em que dão suporte a todas as atividades desenvolvidas neste local e ainda proporcionam
todas as condições adequadas para a o armazenamento de medicamentos e produtos de saúde.

29

3.1.3. Sistema de Gestão Integrado do Medicamento na ARSC, I. P.
Na ARSC, I. P., o programa informático utilizado é o Sistema de Gestão Integrado do
Medicamento (SGCIM) da Glintt . Este programa permite acompanhar o produto desde que
chega ao armazém até ao momento que sai para uma determinada UF.
O circuito do medicamento na ARSC, I. P., inicia-se com a receção de medicamentos. As
empresas de transporte fazem chegar os medicamentos à entrada da Farmácia Central, uma
Assistente Técnica recebe essa mesma medicação e um Assistente Operacional confere e
transporta os volumes todos para o interior da farmácia para, posteriormente, serem
armazenados. A Assistente Técnica dá, então, entrada dos medicamentos no SGCIM, com
respetivo lote e validade. Após análise destes dados, no caso de não haver stock do produto
ou no caso da sua validade ser inferior à do lote em uso, é imediatamente iniciada a sua
utilização. Quando esta situação não se verifica, o produto é devidamente etiquetado e
armazenado. Seguidamente, os produtos vão ser dispensados mediante a existência de um
pedido mensal ou um pedido extraordinário, previamente aprovado pelo Farmacêutico
responsável pelo ACeS. Procede-se ao atendimento, efetuado pelos Técnicos de Farmácia ou
pelas Assistentes Operacionais, segue-se a conferência do mesmo e inicia-se o processo
informático de saída efetuado pela Assistente Técnica, que vai criar os documentos
correspondentes às guias de transporte dos produtos. Todos os pedidos ficam devidamente
separados e acondicionados. Se o pedido for mensal, é transportado pela ARSC, I. P. numa
rota já definida, e entregue num determinado dia no ACeS. Se for um pedido extraordinário,
o(s) motorista(s) de cada ACeS levantam o pedido nas instalações da Farmácia Central.
Todo este sistema permite rastrear lotes, validades, quantidade de produtos enviada, dia
e hora de saída. Assim, na possibilidade da ocorrência do desaparecimento de um produto ou
quebra da rede de frio durante o transporte, torna-se mais fácil identificar os lotes extraviados
e/ou possivelmente danificados. No decurso do estágio pude acompanhar e, mais tarde,
realizar o trabalho administrativo de entrada e saída de produtos dos SF-GFM, o que me
permitiu ter um contacto mais próximo com o sistema e perceber melhor como se processa
o circuito do medicamento na Farmácia Central.
3.1.4. Gestão e Organização Interna
Todos os produtos de saúde armazenados na farmácia da ARSC, I. P., encontram-se
devidamente acondicionados e dispostos nas prateleiras da farmácia.

30

Todos os produtos são comprados segundo a quantidade que se prevê gastar e são
dispostos e armazenados conforme a sua validade, sendo os produtos com menor prazo de
validade enviados, para as UFs, em primeiro lugar. Além disso, quando um produto se encontra
rateado, é necessário ter isso em conta na satisfação de pedidos, pelo que, é importante ajustar
a quantidade a enviar, para que não falte produto noutras unidades.
Além disso, há normas e procedimentos internos elaborados pelos Farmacêuticos dos
SF-GFM, tendo em conta o Sistema de Gestão e Qualidade, para dar resposta a todos os
processos e procedimentos internos, permitindo uniformizar a resposta em qualquer situação.
Todos os documentos, emitidos aquando da satisfação de pedidos, são guardados no
sistema informático e em papel, uma vez que os triplicados da guia de transporte, são assinados
como comprovativo da entrega dos produtos de saúde.
A gestão e organização interna são fundamentais para que haja um bom funcionamento
de todo o circuito do medicamento e, consequentemente, da instituição, para além de que
possibilitam a existência de uma resposta rápida e adequada a qualquer contratempo.
3.2. Pontos Fracos
3.2.1. Distância aos Utentes, Unidades Funcionais e à Sede da ARSC, I. P.
As UFs, por conveniência e facilidade de atuação, encontram-se perto dos utentes e, po r
consequência, longe da Farmácia Central da ARSC, I. P. Apesar de benéfico para os utentes,
em termos de logística, denotam-se dificuldades de transporte dos produtos de saúde, o que,
por vezes, leva a que seja dispensada uma maior quantidade destes. Isto pode levar a excesso
de stock disponível nas UFs, aumentando a probabilidade de desperdício por falta de utilização,
prazo de validade expirado, etc. A implementação dos Armazéns Avançados (AA) nas UFs
vem colmatar estas dificuldades com uma melhor gestão e controlo de todo o processo, como
mais adiante será explicado.
A distância à Sede é igualmente uma desvantagem, visto que é necessário haver
deslocações dos Farmacêuticos para reuniões e outros assuntos que precisam de ser tratados
presencialmente.
Contudo, a distância é combatida de forma bastante eficaz, com chamadas telefónicas, e-
mails , reuniões via Microso ft ® Teams e com visitas aos ACeS, pelos Farmacêuticos responsáveis.
Durante os dois meses de estágio, apenas tive a oportunidade de visitar o Centro de
Diagnóstico Pneumológico (CDP) de Coimbra, integrante do ACeS Baixo Mondego, com a

31

Dra. Gisela, responsável por este, onde tive a oportunidade de participar no início da
implementação de um AA.
Assim, considero a distância um ponto fraco, visto que, apesar de conhecer de forma
teórica, a importância do Farmacêutico no ACeS, na minimização do desperdício e redução
dos gastos em medicamentos, considero que a visita que tive não foi suficiente para obter
pleno conhecimento prático desse mesmo trabalho, devido ao facto do armazém do CDP ter
dimensões bastante reduzidas e conter uma gama de produtos de saúde muito específica,
concordante com o seu público-alvo. A visita a outros armazéns farmacêuticos de maior
dimensão teria dado uma maior perceção da presença física do Farmacêutico nos ACeS.
3.2.2. Dificuldade Pessoal na Adaptação Inicial
Nos 4 meses que antecederam este estágio, tive a oportunidade de estagiar em Farmácia
Comunitária, onde existe um ritmo de trabalho fisicamente mais exigente e com convivência
diária com o público. No estágio na ARSC, I. P., apesar de igualmente exigente, grande parte
do trabalho é informatizado, sendo a exigência física menor e sem contacto com utentes.
Apesar de me terem feito sentir bem-vinda desde o primeiro dia, senti que a mudança rápida
de ritmo e a falta de contacto com utentes, dificultaram a minha adaptação inicial, visto que
tive que me ajustar a uma função e a uma forma de trabalho completamente diferentes.
3.3. Oportunidades
3.3.1. Requisição de Medicamentos Sujeitos a Controlo Especial
Os Medicamentos Sujeitos a Controlo Especial (MSCE) apenas podem ser dispensados
pelo Farmacêutico, em casos específicos, de acordo com a legislação e devem obedecer ao
preenchimento de formulários próprios.
Os hemoderivados, nomeadamente a imunoglobulina anti-D e antitetânica são exemplos
deste tipo de medicamentos. A imunoglobulina anti-D é administrada apenas em situações
previsíveis e específicas, descritas na Circular Normativa número 2/DSMIA da DGS 6 , sendo
administrada em situações em que a grávida tem um tipo sanguíneo Rh- e há a possibilidade
do bebé ser Rh+. A partir da 6ª semana de gravidez, existe a possibilidade de haver
sensibilização por parte das grávidas, ocorrendo produção de anticorpos anti-D por parte
destas. Os anticorpos anti-D poderão afetar o bébé, caso este seja Rh+, causando a Doença
Hemolítica Perinatal (DHPN), que resulta em morbilidade e mortalidade perinatal. Em
Portugal, cerca de 15% das grávidas são Rh-, sendo que, cerca de 2% sensibilizam antes do

32

parto, enquanto 16% sensibilizam durante o parto 6 . Assim, a administração da imunoglobulina
anti-D às 28 semanas de gestação nas grávidas não sensibilizadas, previne o desenvolvimento
de DHPN e reduz o risco de imunização para 0,1%. Como tal, dada a previsibilidade d a
administração, quando esta é necessária, deve ser preenchido o impresso Modelo n.º 1804 da
Imprensa Nacional – Casa da Moeda, S. A. (INCM) , V ia Farmácia, nos quadros A e B
(disponibilizado no Anexo I), com a devida justificação e enviado para os SF- GFM da ARSC, I.
P. Além das situações referidas, existem outras, mais específicas, indicadas na Circular
Normativa 6 já referida, que carecem igualmente de toda a documentação mencionada. N o
momento do atendimento, é preenchido o quadro C do referido modelo, pelos SF-GFM e, de
seguida, é destacada a Via Farmácia, que é armazenada em arquivo e a Via Serviço que é enviada
junto à imunoglobulina para a UF correspondente. De salientar que cada impresso é
preenchido para uma só grávida e a Imunoglobulina anti-D enviada destina-se exclusivamente
a essa mesma grávida. Ao proceder ao atendimento, o nome da grávida, entre outros dados,
é colocado num ficheiro Excel de modo a detetar se já existe outro pedido, previamente
atendido, para a mesma grávida, para evitar duplicações e o envio desnecessário de MSCE.
Todos os dados da grávida são sempre verifica dos com muita atenção e cuidado , tornando-se
este num processo minucio so.
A imunoglobulina antitetânica, devido à imprevisibilidade da sua utilização, existe em
permanência em todas as UF s, pois pode ser necessário administrá-la em situações de
emergência. Por conseguinte, é unicamente enviada em situações de reposição de um a
utilização ou perda de validade. O formulário de requisição, igualmente o Modelo n.º 1804
INCM, é enviado para as UF, apenas preenchido no quadro C, pelos SF- GFM , sendo a
informação do utente preenchida no momento da administração .
O atendimento de hemoderivados é da responsabilidade da Dra. Marta, sendo que, no
decurso do estágio, tive a oportunidade de a acompanhar e participar na dispensa.
Os psicotrópicos, estupefacientes e benzodiazepinas são outro grupo de MSCE. Estes
encontram-se devidamente acondicionados e separados, num armário trancado e apenas
acessível a farmacêuticos, de modo a proporcionar segurança durante o seu armazenamento.
A requisição deste tipo de medicamentos carece do preenchimento do Anexo X, Modelo n.º
1509 INCM (disponível no Anexo II), sendo que cada UF possui um stock previamente definido,
o qual, à medida que é gas to, vai sendo contabilizado no quadro principal do Anexo X, até ao
momento em que este fica completamente preenchido ou o stock se encontra próximo do
fim. A folha é, depois, enviada para os SF-GFM, é feita a reposição da quantidade gasta, tendo
em conta o stock pré-definido para a UF. Juntamente com os medicamentos, é enviado uma

33

nova folha do Anexo X, apenas preenchido no cabeçalho, com a informação relativa ao
medicamento, para que possa ser feito o registo de utilização. Não é possível registar
medicamentos diferentes no mesmo Anexo X.
No decorrer do MICF, o uso de imunoglobulinas é um tema pouco abordado, pelo que,
o contacto com esta área foi uma excelente oportunidade para alargar conhecimentos e
enriquecer enquanto Farmacêutica. Em relação aos psicotrópicos, estupefacientes e
benzodiazepinas, apesar de mais abordados no MICF, senti que havia ainda muito a aprender
sobre estes medicamentos. O contacto diário permitiu colmatar as falhas no conhecimento e
perceber que, o mais importante enquanto Farmacêutica, é zelar pela segurança destes
medicamentos durante o seu armazenamento, manuseamento, dispensa e administração.
3.3.2. Implementação de Armazéns Avançados
Durante o estágio, tive a oportunidade de participar no início da implementação de um
AA, numa visita ao CDP. Um AA assemelha-se a uma extensão dos SF-GFM nas várias
unidades, no qual se consegue, através do SGCIM, saber, em tempo real, qual o stock numa
determinada unidade. Este sistema de gestão é efetuado com base em níveis previamente
definidos de acordo com as necessidades da UF em questão. Cada enfermeiro local
responsável fica encarregue de atualizar o stock cada vez que é gasto um determinado produt o
de saúde do AA. Posteriormente, três dias úteis antes da rota, as Técnicas Administrativas
verificam quais os produtos que se encontram abaixo do nível de stock estipulado para uma
determinada UF e criam uma encomenda nos SF-GFM, em vez de serem as UFs a enviar o
pedido mensalmente. Assim, o AA apresenta várias vantagens, pois permite aceder aos lotes,
validades e quantida des de cada produto lá existente e, assim, diminuir o desperdício e custos
associados, facilita uma possível troca de produtos entre UFs com gastos diferentes e, por fim,
ainda facilita a execução do pedido, o que minimiza erros.
Na visita efetuada para implementar o AA, foi realizada a contagem do stock existente,
para, posteriormente, inserir a informação no SGCIM e atribuir níveis adequados às
necessidades. Este processo deu-me oportunidade de participar na implementação de um AA
e perceber a importância destes para o uso racional, efetivo e responsável do medicamento.
3.3.3. Formação Contínua
Várias formações decorreram durante o período de estágio, sendo que pude participar
em algumas delas, as quais me permitiram ampliar conhecimentos, enquanto F armacêutica. A
formação com tema “Utilização de dados em saúde no apoio à decisão”, organizada pelo

34

INFARMED, I. P., deu a conhecer várias plataformas de recolha e partilha de dados a nível
nacional e internacional, principalmente a nível oncológico. Focou-se na importância de
reportar dados científicos, para benefício da ciência, de outros profissionais e de utentes.
Algumas das plataformas são: Clusters of Excellence , Registo Oncológico Nacional (RON) e
DARWIN EU (Data Analysis and Real World Interrogation Network).
Uma outra formação, focada na “Importância da rede de frio na manutenção da eficácia
das vacinas” deu-me a oportunidade de rever toda a informação sobre as vacinas do Plano
Nacional de Vacinação e outras vacinas, como as vacinas contra a COVID-19 ( Coronavirus
Disease 2019 ). A parte imprescindível da formação centrou-se na rede de frio e nos problemas
que podem advir desta. Sendo as vacinas termossensíveis, qualquer falha no sistema de
refrigeração durante o transporte ou armazenamento, poderá provocar a perda de potência ,
pelo que é necessário existir um manual de procedimentos que garanta a eficácia e segurança
destes medicamentos. Durante a formação, pude ainda aprender como funciona o sistema
ViGIE ® , um sistema de monitorização adquirido para utilização em toda a área de abrang ência
da ARSC, I. P., nas zonas de ambiente controlado e nos equipamentos de frio 7 . Os sensores
da ViGIE ® , com recurso à inteligência artificial, permitem monitorizar a temperatura e
humidade em tempo real e emitir um alerta sempre que ocorre uma alteração significativa. O
alerta é enviado por mensagem e/ou e-mail para o Enfermeiro responsável da UF e também
para o Farmacêutico responsável pelo ACeS ao qual pertence. A sua implementação permite
uma gestão mais eficiente dos equipamentos, reduz os riscos e evita perdas, o que representa
um aumento da segurança para o utente e para a equipa. Durante o estágio tive a oportunidade
de contactar com um caso real de quebra de frio num equipamento contendo vacinas, pelo
que pude acompanhar de perto o procedimento interno utilizado neste tipo de ocorrências.
3.3.4. Participação em Reuniões
Durante o estágio na ARSC, I. P., tive a oportunidade de acompanhar o início da vacinação
com a segunda dose de reforço contra a COVID-19. Neste âmbito, pude participar em duas
reuniões, onde, na primeira, se avaliou a capacidade de vacinação de cada ACeS e ULS, e, na
segunda, o ritmo de vacinação de cada ACeS.
Participei também na reunião dos grupos de Cuidados Paliativos da ARSC, I. P., que
consistiu numa partilha de experiências entre profissionais de saúde, demonstrando a
capacidade de cooperação e entreajuda existente na ARSC, I. P.
Mais uma vez, tive a oportunidade de alargar o meu conhecimento em novas áreas.

35

3.3.5. Desenvolvimento de Material de Informação e Documentos dos
Serviços Farmacêuticos
A participação na reunião da CFT, deu-me a oportunidade de participar no
desenvolvimento de um Boletim Terapêutico sobre a Diabetes Mellitus , a disponibilizar a todos
os profissionais de saúde da ARSC, I.P. com a evidência científica disponível mais atualizada,
junto com uma primeira análise custo-efetiva das terapêuticas farmacológicas prescritas na
ARSC, I. P. Pude ainda participar no desenvolvimento de Fichas Técnicas dos medicamentos
constantes do Formulário Interno da ARSC, I. P., na elaboração de um documento sobre erros
na medicação e respetivo folheto informativo, na construção de tabelas com interações entre
medicamentos de administração intravenosa e, ainda, no levantamento de medicamentos e
outros produtos de saúde que possuem prazo de validade mais curto após abertura ,
comparativamente ao prazo de validade mencionado na embalagem original, com vista à
atualização da Norma 15 dos SF-GFM da ARSC, I. P.
3.3.6. Participação na Requisição de Vacinas COVID- 19
No decurso do estágio, houve continuamente pessoas a serem vacinadas contra a
COVID-19, no entanto, também se iniciou a segunda dose de reforço em idosos com mais de
80 anos e/ou idosos a residir numa Estrutura Residencial Para Pessoas Idosas (ERPI). A Dra.
Catarina Coelho, o Ponto Focal da Vacinação COVID-19 da ARSC, I.P., delegou na Dra.
Catarina Abrantes a responsabilidade da recolha das necessidades destas vacinas em todos os
ACeS e ULS pertencentes à ARSC, I.P., para pedido das mesmas na plataforma dos Serviços
de Utilização Comum dos Hospitais ® (SUCH ® ) criada para o efeito, uma atividade que eu tive
a oportunidade de desempenhar. Em dias predefinidos, cada ACeS, reunia e enviava via e-mail ,
o número de doses que necessitava para administrar na semana seguinte, em cada UF. Esses
dados eram posteriormente inseridos na plataforma SUCH ® , que, no dia estabelecido,
procedia à entrega das vacinas na UF correspondente. Este trabalho carece de muita atenção,
pois, como se trata de vacinas com caraterísticas muito específicas, nomeadamente em termos
de conservação, não pode haver erros que ponham em risco a sua segurança e eficácia.
3.4. Ameaças
3.4.1. Contexto Económico e Político no Decurso do Estágio
As alterações no contexto político português verificadas no final de 2021 acarretaram
consequências financeiras, que provocaram um decréscimo nas aquisições efetuadas por
organismos que dependem deste como principal fonte monetária. Como tal, a ARSC, I. P., no

36

momento do estágio não dispunha do stock pretendido de medicamentos e dispositivos
médicos, como habitualmente. Considero isto uma ameaça, porque, aliado à altura do ano em
que decorreu o estágio, fez com que não houvesse oportunidade de observar como se
processa um concurso de aquisição de produtos de saúde. Somente foi explicada a parte
teórica, que considero insuficiente para perceber todo o processo de aquisição.
3.4.2. Ausência Física do Farmacêutico nas Unidade de Saúde
Os Farmacêuticos desempenham um papel importante não só na gestão, mas em tod o o
circuito dos produtos de saúde nos ACeS dos quais são responsáveis, pelo que, são o primeiro
contato quando surge algum problema ou dúvida. Apesar do telefone e o e-mail serem um
bom meio de comunicação que, na maioria das vezes, se demonstra suficiente para solucionar
problemas, o Farmacêutico continua muito distante do seu ACeS. Com a pandemia instalada,
a distância tornou-se maior, pois diminuiu a frequência das visitas. Considero este ponto uma
ameaça, pois a presença física do Farmacêutico é essencial para fazer cumprir o uso racional
do medicamento, para evitar o desperdício e impedir que haja perdas monetárias, para além
de promover a segurança associada ao seu uso.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estágio em farmácia hospitalar, revelou-se bastante diferente daquilo que eu imaginara.
Deu-me uma visão muito diferente da farmácia hospitalar, e uma melhor perceção do papel
fundamental que o Farmacêutico desempenha na ARSC, I. P. Esta equipa de Farmacêuticos
dinâmica, transmitiu-me o brio, a competência, a responsabilidade e sobretudo o amor pela
profissão e pelo trabalho que aqui se desenvolve dia após dia. O empenho de todos foi sempre
notório, assim como a vontade de fazer mais e melhor todos os dias.
No decorrer do estágio melhorei as minhas competências enquanto Farmacêutica, adquiri
novos conhecimentos e participei em diversas atividades nas quais nunca teria tido
oportunidade de participar. Estou mais ciente do papel do Farmacêutico na sociedade e
percebi o que no futuro este poderá fazer ainda mais pela saúde e bem-estar dos utentes.
Contudo, notei que muitos Farmacêuticos ainda não têm reconhecido o seu trabalho,
por parte de outros profissionais de saúde e, apesar de o Farmacêutico fazer parte de diversas
equipas, o seu conhecimento é muitas vezes posto em causa, além de que o respeito para com
o este se encontra aquém da posição que este ocupa na sociedade. Aguardo expectante por
um futuro que consiga limar estas arestas e que dê o devido valor ao trabalho do Farmacêutico,

37

porque só desta forma, ele poderá ser integrante de equipas multidisciplinares que atuam em
prol dos utentes.
Agradeço a todos que me fizeram sentir bem acolhida desde o início, particularmente à
Dra. Catarina Abrantes, por me ter acompanhado do primeiro ao último dia e, à Dra. Marta
Pa ixão, pelos valores de profissionalismo que me transmitiu, mas também pelos momentos de
boa disposição ao longo do estágio.
Hoje sei que saio deste estágio com a certeza que evoluí a nível pessoal e profissional,
que me tornei uma pessoa melhor, mas principalmente uma melhor Farmacêutica. Cada
pessoa com quem tive a oportunidade de me cruzar transmitiu-me um pedacinho do seu
conhecimento e, graças a todos, saio mais rica para o futuro que se avizinha.

38

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. MIN ISTÉRIO DA SAÚDE - Decreto-Lei n. o 44 204 de 2 de Fevereiro de 1962, atual.
1993. [Consult. 8 jun. 2022]. Disponível em:
http://www.infarmed.pt/documents/15786/1068150/decreto_lei_44204-1962.pdf
2. ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE SAÚDE DO CENTRO, I. P. - Deliberação n. o
400/2013- Administração Regional de Saúde do Centro, I. P. Deliberação [Em linha], atual.
2013. [Consult. 8 jun. 2022]. Disponível em: https://www.arscentro.min-saude.pt/wp-
content/uploads/sites/6/2021/07/ARS-Centro-Regulamento-Interno.pdf
3. ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE SAÚDE DO CENTRO, I. P. - Perfil Regional de
Saúde - Região Centro, atual. 2016. [Consult. 8 jun. 2022]. Disponível em: https://bicsp.min-
saude.pt/pt/biufs/Paginas/default.aspx
4. MINISTÉRIO DA SAÚDE - Portaria 164/2012 de 22 de Maio - Estatuto da ARSC, I.
P., atual. 2012. [Consult. 8 jun. 2022]. Disponível em: https://dre.pt/application/conteudo/
551992
5. MINISTÉRIO DA SAÚDE - Decreto-Lei n o 22/2012 de 30 de Janeiro (Orgânica das
Administrações Regionais de Saúde), atual. 2012. [Consult. 8 jun. 2022]. Disponível em:
https://www.arscentro.min-saude.pt/wp-content/uploads/sites/6/2020/05/Lei-Organica- das -
ARS.pdf
6. SAÚDE, Direcção-Geral Da - Circul ar Normativa N o : 2/DSMIA - Profilaxia da
isoimunização Rh. Femina. ISSN 0100-7254. 27:6 (1999) 497–500.
7. INNOWAVE - ViGIE ® [Consult. 12 jun. 2022]. Disponível em: https://www.vigie
solutions.com

39

6. Anexos
Anexo I
Modelo n.º 1804 INCM

40

Anexo II
Anexo X – Modelo n.º 1509 INCM

PARTE III
Monografia

“Alterações Mitocondriais Associadas a
Experiências Adversas na Infância e a sua Relação
com Patologias Mentais na Vida Adulta”

Sob orientação da Professora Doutora
Catarin a dos Reis Va le Gomes

Julho de 20 2 2

42

LISTA DE ABREVIATURAS
ACEs

Adverse Childhood Experiences (Experiências Adversas na Infância)

ACTH

Adrenocorticotropic Hormone (Hormona Adrenocorticotrópica)

ATP

Adenosina Trifosfato

ccf-mtADN

circulating cell-free mtADN (ADN mitocondrial circulante livre de células)

COVID- 19

Coronavirus Disease 2019 (Doença do Coronavírus)

CPCJ

Comissão Nacional De Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças
e Jovens

CRF

Corticotropin-releasing Factor (Fator libertador de corticotropina)

EAI s

Experiências Adversas na Infância

ER

Endoplasmic Reticulum (Retículo Endoplasmático)

GC

Glucocorticoides

GR

Glucocorticoid Receptors (Recetores Glucocorticoides)

GREs

Glucocorticoid Response Elements (Elementos de Resposta aos
Glucocorticoides)

HPA

Hypothalamic-pituitary-adrenal (Hipotálamo-hipófise-adrenal)

MAL

Mitochondrial Allostatic Load (Carga Alostática Mitocondrial)

MAO

Monoamina Oxidase

MDV

Mitochondria-derived Vesicles (Vesículas Mitocondriais)

MPT

Mitochondrial Permeability Transition (Permeabilidade Mitocondrial)

MR

Mineralocorticoid Receptors (Recetores Mineralocorticoides)

mtADN

Ácido Desoxirribonucleico mitocondrial

mtADNcn

mitochondrial DNA copy number (número de cópias de mtADN)

mtDNA

mitochondrial DNA

nADN

Nuclear DNA (ADN nuclear)

OMS

Organização Mundial de Saúde

43

OXPHOS

Mitochondrial Oxidative Phosphorylation System (Sistema De Fosforilação
Oxidativa Mitocondrial)

PVN

Hypothalamic paraventricular nucleus (Núcleo paraventricular
hipotalâmico)

rARN

Ácido ribonucleico ribossómico

ROS

Reactive Oxygen Species (Espécies Reativas de Oxigénio)

SNC

Sistema Nervoso Central

StAR

steroidogenic acute regulatory protein (Proteína Reguladora Aguda
Esteroidogénica)

tARN

Ácido ribonucleico transportador

44

RESUMO
O stress desempenha um papel crucial no desenvolvimento de patologias do foro mental.
As Experiências Adversas na Infância (EAIs) provocam no organismo alterações decorrentes
do stress crónico. Em resposta ao stress, é ativado o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA),
que desencadeia a produção de glucocorticoides (GC). Estas hormonas mediador as da
resposta ao stress ligam-se aos recetores glucocorticoides (GR) no sistema nervoso central,
exercendo um feedback negativo, que suprime a produção de GC. Como consequência da
ativação recorrente deste mecanismo, ocorrem alterações nos GR, que desencadeiam a perda
de efetividade, que origina uma desregulação do eixo HPA. A mitocôndria é um organelo
intracelular essencial à vida eucariótica, que na presença de stress, ajusta a sua atividade de
modo a atender às necessidades energéticas do cérebro. O eixo HPA e a mitocôndria são
interdependentes, sendo que os níveis elevados de GC, interagem de forma direta, mediada
por GR, no genoma da mitocôndria e na transcrição do ADN mitocondrial (mtADN). No
momento do nascimento, o cérebro de uma criança está ainda em desenvolvimento, pelo que,
as EAIs moldam a plasticidade neuronal, com efeitos a longo prazo. Contudo, também as EAIs
maternas, e o stress durante a gravidez, podem afetar a programação do desenvolvimento
neuronal do feto. No entanto, a existência de fatores promotores de resiliência demonstrou
contrariar a tendência patológica na idade adulta. Deste modo, é muito importante investir na
investigação, para serem implementadas intervenções terapêuticas capazes de minimizar os
efeitos das EAIs e do stress nas patologias na idade adulta.

Palavras-chave: Stress, Mitocôndria, Eixo HPA, Recetores Glucocorticoides,
Experiências Adversas na infância.

45

ABSTRACT
Stress plays a crucial role in the development of mental disorders. Adverse Childhood
Experiences (ACEs) cause chronic stress-related changes in the body. In response to stress,
the hypothalamic-pituitary-adrenal (HPA) axis is activated, which triggers the production of
glucocorticoids (GC). These hormones mediating stress responses bind to glucocorticoid
receptors (GR) in the central nervous system, exerting negative feedback, which suppress es
GC production. Because of the recurrent activation of this mechanism, changes in GR occur,
triggering a loss of effectiveness, which leads to a downregulation of the HPA axis.
Mitochondria are an intracellular organelle essential to eukaryotic life, which, in the presence
of stress, adjust their activity to meet the brain's energy needs. The HPA axis and mitochondria
are interdependent, with elevated GC levels interacting directly, mediated by GR, in the
mitochondria genome and mitochondrial DNA (mtDNA) transcription. At the time of birth,
a child's brain is still developing, so ACEs shape neuronal plasticity, with long-term effects.
However, maternal ACEs, and stress during pregnancy, can affect fetal neuronal developmental
programming. Nevertheless, resilience-promoting factors have been shown to counteract
pathological tendencies in adulthood. Thus, it is very important to invest in research to
implement therapeutic interventions capable of mi nimizing the effects of ACEs and stress on
pathologies in later life.

Keywords: Stress, Mitochondria, HPA Axis, Glucocorticoid Receptors, Adverse
Childhood Experiences.

46

1. INTRODUÇÃO - ENQUADRAMENTO PSICO-SOCIAL DOS EFEITOS DO
STRESS NA SAÚDE MENTAL DA CRIANÇA
A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a saúde mental como “um estado de bem-
estar em que o indivíduo reconhece as suas próprias capacidades, pode lidar com o stress
normal da vida, pode trabalhar produtiva e frutuosamente e é capaz de contribuir para a sua
comunidade” 1 . A mesma entidade define saúde como “um estado de completo bem-estar
físico, mental e social e não somente ausência de afeções e enfermidades” 2 . Dada a sua
importância social e institucional, a saúde mental constitui um pilar de saúde pública 3 que
carece de valorização.
O progresso científico d os últimos anos permitiu derrubar o preconceito existente em
relação à saúde mental 1 . Doenças que eram negligenciadas por apenas se manifestarem através
de sintomas comportamentais e psicológicos, são agora abordadas de acordo com alterações
detetáveis a nível cerebral e metabólico. Os estudos epidemiológicos demonstram que a
população afetada está a aumentar, situação preocupante para os sistemas de saúde, uma vez
que acarreta um elevado peso económico 3 .
Durante a infância e a adolescência decorre um período de desenvolvimento 4 em que o
cérebro apresenta elevada plasticidade dependente da experiência 5 . Durante este período,
qualquer exposição, principalmente emocional, de caráter positivo ou negativo, pode causar
mudanças funcionais e estruturais, definindo o indivíduo como resiliente ou, alternativamente,
aumentando a sua vulnerabilidade à doença mental 6 .
As Experiências Adversas na Infância (EAIs) são eventos negativos, de caráter regular,
capazes de provocar no organismo alterações decorrentes do stress de elevada intensidade,
que se mantém por longos períodos, impondo o risco de prejudicar permanentemente o
desenvolvimento cerebral da criança 7 , em crianças com idade inferior a 18 anos 8 . Todos os
anos, as organizações envolvidas na proteção de menores recebem inúmeras denúncias de
casos de EAIs. Em Portugal, segundo a Comissão Nacional De Promoção dos Direitos e
Proteção das Crianças e Jovens (CPCJ), existiam no total 669 622 casos de proteção de
crianças e 41 337 situações de perigo, no ano de 2020 9 .
Para além do impacto na saúde mental, a exposição a EAIs interfere diretamente na
prosperidade das crianças 10 , aumenta as disparidades de saúde nas populações marginalizadas 3 ,
causa um rendimento escolar baixo, aumenta o risco de desemprego na idade adulta e, ainda,
diminui o rendimento familiar, igualmente na idade adulta 3 . Outra questão que deve ser tida
em conta é o aumento do encargo económico futuro com estas crianças, uma vez que, durante

47

a sua vida, acedem a serviços de saúde com maior frequência, devido às patologias associadas,
sendo este um custo que recai sobre toda a sociedade 11 .
Para perceber qual o impacto do stress desde o nascimento até à idade adulta, foi
necessário sistematizar as fontes de stress durante o crescimento. Felitti e colaboradores 8 ,
organizaram estas experiências em 3 grupos, subdivididos em 10 categorias, como
esquematizado na Figura 1.
No organismo, o stress associado a EAIs, ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA),
provocando a libertação de substâncias mediadoras de stress, das quais se salientam os
Glucocorticoides (GC). A libertação dos GC aumenta a produção de energia a nível da
mitocôndria, sendo extremamente importante face à exigência energética das células
cerebrais, despoletada pelo stress. A ativação excessiva do eixo HPA, consequente
desregulação, a exposição a elevados níveis de GC e o esgotamento da mitocôndria na
produção de energia, desencadeiam mudanças fisiológicas que alteram a resposta ao stress na
infância e implicam um risco acrescido de doenças mentais na idade adulta. Deste modo, a
comunidade médico-científica tem-se focado cada vez mais no estudo da mitocôndria, como
parte importante no processo fisiopatológico de doenças mentais desencadeadas pelo stress.
Assim, este trabalho foca-se nos mecanismos ativados durante a resposta ao stress e na
interligação que existe entre os mesmos, capaz de despoletar alterações e adaptações
fisiológicas pré-natais, na infância e na adolescência, que estão na origem de doenças mentais
na idade adulta.
Abuso Instabilidade
Doméstica
Negligência
Físico
Emocional
Sexual
Física
Emocional
Divór cio
Doença Mental
Abuso de Substâncias
Detenção de Familiar
Pr ogenitor Vítima de
Violência

Figu ra 1 – Sistemat i za ção das caus as de st r es s. As caus a s de str ess podem ser divid idas em três g r upos

principais , nomead amente, Abuso, Negligênci a e Instabilidad e D omésti ca. (Adapt a do de 8 )

48

2. STRESS - MEDIADORES MOLECULARES DA RESPOSTA AO STRESS E
O SEU IMPACTO NA SAÚDE MENTAL
O stress interfere no desenvolvimento humano mesmo antes da conceção, pois o stress
experienciado pela mãe pode influenciar a descendência. Como tal, é imperativo perceber o
que é o stress, como se materializa sob o ponto de vista biológico, e qual a resposta do
organismo perante a perceção deste.
O stress pode ser percecionado pelo indivíduo e pelos que o rodeiam, através da
alteração de comportamento, como a agitação, bem como através da elevação do ritmo
cardíaco e da pressão arterial sistólica e diastólica 7 . Quando é crónico, pode manifestar-se por
cansaço generalizado, fadiga, dores musculares e de outra natureza e alterações do trânsito
intestinal 7 . No entanto, a nível fisiológico, ocorrem muitas alterações que apenas são acessíveis
quando investigadas.
O conceito de stress, define-se como uma “resposta fisiológica” do organismo a “ameaças
à homeostasia, ou seja, ao equilíbrio dinâmico que permite manter o meio interno” no
intervalo de parâmetros considerados normais 12 . Este pode ser causado por situações diárias
que ocorrem de forma natural no decurso da vida – stress a gudo – ou situações que ocorrem
a longo prazo – stress crónico – levando a problemas de saúde mental 13 . O stress agudo pode
ocorrer no contexto da morte de um familiar, situação de medo, acidente de viação, entre
outros, em que existe uma exposição momentânea ao stress que, apesar de ser uma
experiência marcante, tem efeitos que podem ser controlados, recorrendo a apoio social e
psicológico 14 . O stress crónico, também definido por stress tóxico, caracteriza-se pelo seu
caráter prolongado , grave e repetitivo 3 , pode ocorrer em qualquer altura da vida, no entanto,
quando é vivenciado na infância, por exposição a EAIs, atua como fator inicial de todas as
alterações fisiológicas que ocorrem no organismo da criança e culminam em resultados
negativos no seu desenvolvimento neuronal, comportamental e psicológico 15 .
Perante o stress, alguns processos que visam reestabelecer o seu estado saudável,
homeostase, são ativados no organismo.
2.1. Sistema de Resposta ao Stress – Da Homeostase à Alostase
A resposta ao stress, de forma geral, tal como ilustra a Figura 2, envolve um processo
interno que compreende 3 fases. Na primeira, fase de alerta, ocorre uma interrupção do
equilíbrio homeostático e são ativados um conjunto de mecanismos que visam contrariar esta

49

ocorrência, desenvolvendo-se uma resposta dinâmica através da ativação do sistema Nervoso
Central (SNC) 3;15 . Na segunda, fase de resistência, ocorrem respostas fisiológicas e
comportamentais, com o intuito de recuperar a homeostase perdida, através do eixo HPA e
dos mediadores de stress libertados pelo mesmo, como se explana adiante. Por fim, na fase
de exaustão, considerada a mais crítica, a resposta considerada adaptativa, passa a ter um
caráter crónico, levando ao esgotamento do sistema 4 devido à exigência energética que a
adaptabilidade acarreta. Nesta última fase, os sistemas fisiológicos perdem a capacidade de
restaurar o normal funcionamento do orga nismo, o que está na origem de disfunções
diversas 3 . Todo o processo adaptativo e dinâmico que o organismo sofre para lidar com o
stress, está na origem da desregulação de outras vias biológicas, que afetam diversos outros
sistemas, como por exemplo o sistema cardiovascular e o sistema imunitário. A esse processo
dá -se o nome de alostase. Este conceito, apresentado por McEwen e Stellar , em 1993,
estabelece que a estabilidade é conseguida através da mudança 7 , com objetivo de manter todos
os sistemas do corpo humano funcionais, de forma a possibilitar a sobrevivência, enquanto a
homeostase não é reestabelecida 14;16;17 . Estes mecanismos, segundo Picard et al ., que, por um
lado, visam manter o organismo saudável, estão na génese de patologias associadas ao stress 16 .
O termo carga alostática traduz o efeito causado pela acumulação de fatores de stress, que
podem estar na origem de disfunção mitocondrial. Quanto maior a carga alostática, maior é o
stress crónico vivenciado pelo indivíduo 16 .
Figu ra 2 – Fases da resposta f isioló gica a o st ress. A r esp osta ao stress desenv olv e- se em tr ês

fases principais e, a o longo do tempo , a capacid ade de resistê ncia, após um a umento inic ial,
dec r esce co ntinuamente a parti r da f ase de exaus tão. ( Adap tado de 3 )

50

A exposição a EAIs e, consequentemente, stress crónico, perturbam a maturação dos
sistemas alostáticos, fazendo com que a resposta desencadeada em situações de stress seja
insuficiente, tardia e pouco dinâmica, aumentando a predisposição a patologias e distúrbios
psiquiátricos 7 . Ademais, Finlay e colaboradores referem também que a carga alostática pode
variar consoante o tipo de adversidade experienciada pela criança e tende a aumentar com o
aumento do número de EAIs vividos, sendo uma ferramenta fundamental na compreensão de
morbilidade e mortalidade ao longo da vida destas crianças 7;18 . Pervanidou et al ., referiram que
cerca de dois terços dos jovens passam por eventos de exposição ao stress, potencialmente
traumáticos em idade inferior a 17 anos, sendo que 5% dos jovens apresenta critérios de
inclusão em Stress Pós-Traumático devido a essas mesmas experiências negativas de stress na
infância 19 .
2.1.1. Ativação do Eixo HPA e Produção de Glucocorticoides – Resposta
Adaptativa ao Stress
O sistema de resposta ao stress é descrito como “complexo, de múltiplos níveis e
largamente dependente da regulação por feedback ” 4 e permite manter a estabilidade fisiológica
no decurso da resposta ao estímulo causador de stress 4;20 .
A resposta ao stress envolve mecanismos centrais e periféricos, nomeadamente o SNC
na sua ligação à glândula adrenal (ou suprarrenal) - eixo HPA 19 . Na presença de um estímulo
causador de stress, a resposta imediata desencadeada no organismo inicia-se com alterações
centrais que provocam a estimulação das glândulas suprarrenais a produzir catecolaminas,
nomeadamente adrenalina, que desencadeiam alterações fisiológicas imediatas, como aumento
da frequência cardíaca, aumento da pressão arterial, broncodilatação e vasodilatação
muscular 3;20 . O hipotálamo segrega o fator de libertação de corticotropina , ( corticotropin-
releasing factor , CRF) a nível do núcleo paraventricular hipotalâmico ( Hypothalamic
paraventricular nucleus , PVN), que estimula a hipófise a secretar a hormona
adrenocorticotrópica ( Adrenocorticotropic Hormone , ACTH), depois libertada na circulação
sanguínea 21;22;23 . Esta hormona atua a nível da glândula adrenal (no córtex adrenal) e ativa a
produção de GC, mais concretamente, de cortisol 5;22;24 . Os GC, através da corrente sanguínea,
podem chegar a todos os tecidos e órgãos, incluindo o cérebro 25 , onde se ligam a Recetores
Glucocorticoides (GR) e Recetores Mineralocorticoides (MR). A nível central, este processo
está implicado num mecanismo de feedback negativo, que inativa a produção de ACTH e CRF,
e culmina com a cessação da produção GC e redução da resposta ao stress 5;21;23;24;26 . O
mecanismo de feedback negativo é essencial para o normal funcionamento do eixo HPA e para

51

uma resposta adequada ao stress, uma vez que protege o organismo de danos causados por
elevados níveis de GC em circulação por longos períodos de tempo 23;27 .
Os recetores GR têm baixa afinidade para o cortisol, pelo que apenas se encontram
extensivamente ocupados no pico circadiano ou após uma resposta ao stress, quando os níveis
de GC estão persistentemente elevados, o que indica que estes estão envolvidos na regulação
dos GC, principalmente quando ocorre exposição ao stress 21;26;28 ;29 .
Apesar de terem uma expressão muito elevada nas regiões límbico-corticais, os GR e MR
podem ser encontrados em praticamente todos os tecidos 29 , no citoplasma, na membrana ou
ainda na mitocônd ria, desempenhando funçõ es diferentes. O efeito mais estudado destes
recetores centra-se na ativação ou repressão da transcrição de genes após translocação
nuclear 30 . Quando ativados pelos GC, os GR, que se encontram no citoplasma das células, são
translocados para o núcleo, onde atuam como fatores de transcrição, através da ligação a
sequências específicas de ADN ou da interação com outros fatores de transcrição, regulando
de forma positiva ou negativa a expressão de genes 25;27;30 . Na mitocôndria, os GR
desempenham uma função semelhante, atuando no mtADN, como será abordado
detalhadamente neste trabalho.
Uma criança que sofre EAIs irá vivenciar no início de vida, um stress de caráter crónico,
que irá ativar continuamente o eixo HPA, que leva à produção de CRF em quantidades acima
do normal e, consequentemente, aumenta a produção de cortisol, que ativa constantemente
o feedback negativo 19;20 . Esta ativação constante causa alterações nos GR, na sua translocação
nuclear ao nível do hipocampo e na sua dessensibilização (“resistência aos GC”), motivada
pela diminuição do número de GR 20;26;27;30;31 . Esta desregulação dos GR afeta o mecanismo de
feedback negativo, provocando um aumento da exposição a GC, que pode levar ao
aparecimento de lesões no hipocampo, nomeadamente a diminuição do tamanho da matéria
branca hipocampal esquerda, uma estrutura essencial para a contenção do eixo HPA 20;21;31 .
Lupien et al. , referem no seu trabalho “Hipótese da Neurotoxicidade”, que a exposição
prolongada a GC exerce um efeito prejudicial na regulação do eixo HPA, que influencia a
consolidação da memória. Na Figura 3 observa-se a linha azul, que representa a vulnerabilidade
associada à ativação do eixo HPA, de acordo com a resposta ao stress ao longo da vida e a
linha vermelha, que representa o efeito neurotóxico dos GC nas estruturas cerebrais. A
interação entre a vulnerabilidade e a toxicidade ao longo do desenvolvimento, determina as
modificações e os resultados fisiológicos e patológicos que advêm da resposta ao stress 32 . Para
corroborar esta hipótese, foi desenvolvido um estudo em adultos, em que se monitorizaram

52

os níveis de cortisol a cada hora,
durante 24h. Verificou-se que um dos
grupos, que apresentou um aumento
gradual de cortisol até níveis
considerados altos no final do estudo,
evidenciou problemas na memória e
um volume hipocampal mais baixo.
Contudo, outro estudo citado pelo
mesmo autor, descreve que não
houve alterações no volume do
hipocampo. Alguns autores afirmam
que poderá existir uma
predisposição genética que
influencie quer o aumento
exacerbado de GC, quer a redução
do volume hipocampal 32 . Para além do hipercortisolismo, pode ocorrer o inverso do que foi
descrito, isto é, situações em que o stress crónico pode causar hipoativação do eixo HPA, que
se traduz numa resposta lenta e pouco eficaz na produção de GC. Es tas alterações dependem
da informação genética do indivíduo e da capacidade de adaptação do organismo, permitindo
inferir que existem diferentes padrões de resposta, que poderão originar diferentes padrões
de doença 19 .
De modo a perceber os efeitos dos GC na mitocôndria, é necessário compreender a
mitocôndria, o seu papel na resposta ao stress e a interação com os GR.
3. MITOCÔNDRIA - MEDIADOR NA RESPOSTA AO STRESS
A mitocôndria é um organelo intracelular essencial à vida eucariótica 33 , pois é o principal
responsável pela produção de energia 34 , sob a forma de ATP (ade nosina trifosfato ) segundo as
necessidades da célula 35 . A mitocôndria possui o seu próprio genoma, mtADN (ácido
desoxirribonucleico mitocondrial), constituído por 37 genes que codificam: 2 rARNs (ácido
ribonucleico ribossómico), 22 tARNs (ácido ribonucleico transportador) e 13 proteínas.
Apresenta ainda 2 promotores transcricionais, um para cada uma das cadeias de mtADN 14;16;36 .
O mtADN é circular, possui cadeia dupla e a sua replicação não está dependente do genoma
da célula à qual a mitocôndria pertence 14;20;33;37 .
Figu r a 3 – “ Hipótese da Neu r otoxic idade”. A linha a zul
represen ta a vulne ra bili dad e oriunda da ativaç ã o do eixo HP A
em respos ta a EA Is. A linh a ve rmelha rep resent a a
neurotoxic idad e que advém do e f eito neu r otóxi co dos GC no

cérebro. ( Adapt ado de 32 )

53

Além da produção de energia, as mitocôndrias desempenham papéis críticos a nível da
epigenética, inflamação, síntese hormonal 14 , sinalização intracelular, biossíntese de lípidos e
ácidos nucleicos, produção de espécies reativas de oxigénio ( Reative Oxygen Species , ROS) e
homeostase do cálcio 31 . Deste modo, a mitocôndria atua como alvo, mas também como
mediador da resposta ao stress 14 , demonstrando ser um organelo resiliente e adaptável,
envolvido no retorno à homeostase 33;38 .
No âmbito deste tra balho de pesquisa, salienta-se o papel da mitocôndria como organelo
constituinte das células neuronais, em que regula a função cerebral, uma vez que pode modular
a plasticidade neuronal, mediante a exposição ao stress, tendo a sua disfunção, implicações
psiquiátricas 14 .
3.1. Ajuste da Função Mitocondrial na Presença de Stress
O cérebro constitui apenas 2% do peso do corpo, mas é responsável pelo consumo de
20% do oxigénio inalado 6 , o que pressupõe uma necessidade elevada de energia, e um elevado
número de mitocôndrias 14 . Os neurónios consomem cerca de 80% da energia disponibilizada
ao cérebro, o que corresponde, em repouso, a 4,7 mil milhões de moléculas de ATP em cada
segundo, sendo que cada região cerebral e cada tipo de célula apresenta um consumo de
energia diferente, estando a sinapse associada a um maior gasto energético 6;37;39 . Uma disfunção
mitocondrial poderá implicar um declínio nos processos cerebrais, pelo que este organelo
ocupa um papel crucial na função cerebral 14 .
Em situações de stress, o cérebro necessita de maior quantidade de energia e, para
atender a essa exigência energética, o SNC ativa vias de sinalização e sistemas endócrinos e
imunitários, aos quais a mitocôndria responde, ajustando a sua atividade 5 . Desta ativação
decorre uma mudança fisiológica, que mobiliza ácidos gordos livres e reservas de gordura,
com intuito de aumentar os níveis de glucose e lípidos na corrente sanguínea, de modo a
disponibilizar mais substrato para a produção de energia pela mitocôndria, uma vez que os
neurónios dependem inteiramente da corrente sanguínea para obter energia, visto que não
realizam gluconeogénese, sendo esta a sua única fonte de nutrientes. Os ácidos gordos e
glucose, na presença de oxigénio vão ser metabolizados pela mitocôndria 6;39;40 , dando origem
a cerca de 90% da produção de energia a nível celular 6 . Como consequência, a mitocôndria
sofre mudanças morfológicas e funcionais, através da alteração dinâmica entre a fusão e fissão,
aumentando a sua capacidade de produzir energia de forma rápida em resposta ao
fornecimento da energia requerida 6;14 .

54

O eixo HPA e a mitocôndria
estão interligados na resposta ao
stress, como se observa na Figura 4 5 .
Em situações de stress crónico, em
que o eixo HPA se encontra
desregulado, os níveis de GC
encontram-se anormalmente
elevados, promovendo a diminuição
da função mitocondrial, através de
alterações no potencial de
membrana e da diminuição da
atividade enzimática da cadeia
respiratória, tornando mais elevado
o risco de fragmentação
mitocondrial.
Simultaneamente, pode
ocorrer uma interferência na rede
comunicante de mitocôndrias, que
pode levar à perda de comunicação
entre os vários organelos. Durante este processo, há um aumento da produção de ROS e,
consequentemente, um aumento de mutações no mtADN, levando a uma diminuição da
capacidade de produção de energia 5;14;37 . Os elevados níveis de GC controlam o genoma d a
mitocôndria, que está equipada com GR, por interação com sequências mitocondriais
semelhantes a elementos de resposta aos glucocorticoides ( Glucocorticoid Response Elements ,
GREs) 22;26 . A interação entre GR e GREs mitocondriais confirma que os GC atuam
diretamente na transcrição do mtADN 22;26;41 . Além disso, os GC podem também intervir de
forma indireta, através de ações rápidas não genómicas, de interação com GR citoplasmáticos
ou GR que se encontram na membrana 26;41 . A translocação mitocondrial de GR está associada
a alterações na transcrição do sistema de fosforilação oxidativa mitocondr ial ( Mitochondrial
Oxidative Phosphorylation , OXPHOS), pelo que influencia a função mitocondrial 26 . Estes efeitos
dos GC na mitocôndria estão dependentes do tempo de exposição e dos níveis de GC
circulantes 26 . As possíveis funções mitocondriais desempenhadas pelos GR são ilustradas na
Figura 5 41 : 1) controlo transcricional de proteínas mitocondriais através de ADN nuclear
(nADN) - GR é ativado por li gação a GC, ocorre translocação destes para o núcleo, onde
Figu r a 4 – A mi tocô ndria desempe nha um p apel central na
resposta ao stress. E AIs at iv am respost as ao st r ess, através
do eixo H PA e de alte ra çõ es m etabólicas. Estas alte rações
exacerbam as alte rações já existentes , c riando um c ic lo de
progress ão da di sfunção, que culmi na no a pa r eci mento de

patologias ment ais. (Ada ptado de 5 )

55

alteram a expressão dos genes nucleares que codificam proteínas mitocondriais; 2) controlo
transcricional de fatores de transcrição codificados a nível nuclear, que afetam as proteínas
mitocondriais codificadas por nADN - GR tem influência na expressão de fatores de
transcrição que atuam no controlo de proteínas mitocondriais codificadas com nADN; 3)
controlo transcricional de proteínas mitocondriais codificadas por mtADN - GR, liga-se a GC
e após a li gação, ocorre translocação para a mitocôndria, onde regula a expressão de genes
mitocondriais através de GREs mitocondriais, exercendo uma ação direta no mtADN, ma is
rápida que a das proteínas reguladoras codificadas com mtADN; 4) ativação de proteínas de
sinalização citoplasmática, por recetores de membrana plasmática ou recetores
citoplasmáticos esteroides que afetam as mitocôndrias - GR e um transportador de GC na
membrana plasmática dão início à sinalização citoplasmática, atuando na mitocôndria e no
núcleo, promovendo a atividade não genómica; 5) efeitos não genómicos de GR ou GC ligados
à membrana mitocondrial através de recetores mitocondriais e interação destes recetores
com locais de ligação ao geno ma mitocondrial - GR pode afetar a fosforilação oxidativa de
forma direta ou indireta através da sinalização celular mitocondrial; 6) regulação d a expressão
Figu ra 5 – Possí veis funçõ es mito cond riais des empenhad a s pelos GR. 1) cont rolo t ranscricional de p roteínas
mito cond riais atr avés de nA DN ; 2) controlo t ransc r icio nal d e fat or es de trans crição co dificad os a ní vel nuc lear,
que af e tam as proteínas mito cond r iais cod ificadas por nADN; 3) cont r olo t ranscricional de proteínas
mito cond riais codific adas por mt AD N ; 4) ativaç ão de pr ote ínas de sinalização citoplasm ática, po r recetores de
mem brana plasmá tica ou receto r es citoplas mático s estero ides que afetam as mito cônd rias; 5 ) e f eitos não
genómi cos de GR ou G C ligados à mem b rana mitoc ondrial através de recetores mitoc ond riais e interação destes
recetores com l ocais de lig ação no genom a mitoco ndrial ; 6) re gulação da e xpr essão de g enes n ucleares.
(Adaptado de 41 )

56

de genes nucleares - produtos mitocondriais ou outros mensageiros celulares, oriundos das
mitocôndrias, conseguem regular a expressão de genes afetando as funções mitocondriais 41 .
Por outro lado,
para além de
responderem a GC,
as mitocôndrias
estão também
envolvidas na sua
produção. A síntese
de GC ocorre na
zona fasciculada do
córtex adrenal, como
ilustra a Figura 6. O
colesterol atravessa a
membrana
mitocondrial através
da proteína reguladora aguda esteroidogénica ( steroidogenic acute regulatory protein , StAR),
ativada devido à produção de ACTH 42 . Posteriormente, o colesterol sofre cl ivagem da cadeia
lateral pelo P450 SCC , originando a pregnenolona 42 . A seguir, sofre três reações enzimáticas no
retículo endoplasmático (ER),
seguidas da reação com 11- β -
hydroxylase, que culmina na síntese
de cortisol 22;42 .
Finalmente, como se ilustra na
Figura 7, a mitocôndria também
interfere no controlo do
comportamento alimentar, através
da monitorização de substratos
metabólicos, sendo que, a função da
mitocôndria se adequa ao tipo de
tecido em que está inserida 42 . Em
síntese, a mitocôndria responde ao
stress, essencialmente com: 1) produção aumentada de ATP necessário para “alimentar”
células em períodos de maior necessidade de energia; 2) produção de hormonas do stress,
Figu ra 7 – Este r óido génese. A génese de ho r monas es ter oid es, como os GC,
oco rr e nas mitoc ôndrias do córtex a d renal, em resposta ao aum ento de
ACTH, que ativa a impor tação de colesterol pela StAR, se ndo este o pa sso

lim itante na impo r tação de co lesterol. ( Adapt ado de 42 )
Figu ra 6 – M odel o c entrado na mobilização de subs trato

pela mitoc ôndria. No córtex a d renal, as mitoc ôndrias são a
fonte de GC, mas no utros tecido s r ecebe m o aume nto dos
substratos c ausado pelo aume nto de G C e, atrav és da
fosforilaç ão oxidativ a, sint etizam ATP. ( Adaptado de 42 )

57

nomeadamente GC, como o cortisol, que garante a mobilização de substratos essenciais para
a produção de energia, em circulação; 3) monitorização de substratos metabólicos para gestão
de comportamento de ingestão de alimentos 42 .
De notar que, devido às suas características, a mitocôndria envia sinais sobre o seu estado
funcional a outras partes da célula e a outras células, o que é particularmente importante em
situações de stress. A exposição ao stress provoca a libertação de metabolitos, moléculas de
sinalização, que indicam a capacidade mitocondrial, tais como as ROS e mtADN 14 .
O aumento dos níveis de GC associado ao stress crónico, provoca no organismo uma
necessidade acrescida de produzir energia, como referido anteriormente. Durante a produção
de energia por fosforilação oxidativa mitocondrial, as mitocôndrias produzem também
subprodutos, nomeadamente radicais livres, como as ROS 14;43 . Por outro lado, como os
mecanismos de produção de energia são continuamente utilizados, ocorre uma sobrecarga e
desgaste nas mitocôndrias, provocando um desequilíbrio na estabilidade da oxidação e
amplificando a formação de ROS 42 . A produção de ROS ocorre principalmente nos complexos
I e III da cadeia de produção de ATP, no entanto, as ROS podem também ser produzidas por
proteínas mitocondriais, como a monoamina oxidase (MAO) 44 . Apesar de possuírem alguns
efeitos favoráveis, as ROS produzidas em níveis superiores aos normais, como em situações
de stress prolongado, podem causar danos em lípidos e proteínas, prejudicando a função
bioenergética da mitocôndria, bem como o mtADN, causando a inativação do promotor e a
desregulação da expressão de genes. Este conjunto de efeitos pode gerar a morte de células
neuronais, a destruição de tecidos e ainda a estimulação processos patológicos, a nível local e
sistémico 14;39;45;46 . As disfunções mitocondriais resultantes de elevados níveis de stress, são
responsáveis pelo aparecimento de ROS no citoplasma que pode culminar numa situação de
stress oxidativo e morte celular 46 .
O mtADN, pode também desempenhar a função de molécula de sinalização mitocondrial,
fornecendo informações sobre o estado funcional das mitocôndrias. O número de cópias de
mtADN (mtADNcn) por célula não é constante em todos os tecidos, e varia de indivíduo para
indivíduo, é comummente utilizado para avaliar a capacidade bioenergética mitocondrial. Uma
alteração no mtADNcn pode indicar disfunção mitocondrial resultante de exposição
prolongada ao stress 3; 5;34 . A disfunção mitocondrial caracteriza-se por alterações dinâmicas na
morfologia e funcionamento da mitocôndria, variando entre fiss ão ou fusão mitocondrial, e
erros no mecanismo que controla a qualidade das mitocôndrias, fazendo com que, entre
outras coisas, não sejam eliminadas e se acumulem, dando origem à produção de ROS 3 . O
mtADN é mais suscetível a danos provocados por ROS do que o genoma celular, que se

58

encontra protegido pelo núcleo da célula. Além disso, os mecanismos de reparação do
mtADN são insuficientes para os danos 33;37 . Em situações de stress tóxico, quando ocorre
disfunção mitocondrial, há um aumento da replicação mitocondrial, que propicia ao
aparecimento e acumulação de mutações no mtADN 3;36 .
O ccf-mtADN ( circulating cell-free mtADN ), é um mtADN que circula livremente na corrente
sanguínea, responsável por desencadear processos
inflamatórios, que contribuem para o aumento da
produção de ROS e aumento da produção de GC já
exacerbada 16 . Apesar do mecanismo não se encontrar
bem definido, Bader et al. consideram que a libertação
de mtADN para fora da mitocôndria pode ocorrer de
3 formas distintas, como ilustra a figura 8 : 1 ) através
de poros na membrana, BAX/BAK seguido de formação
de vesículas de membrana interna; 2) permeabilidade
mitocondrial através de poros, sem formação de
vesículas ( Mitochondria-derived Vesicles , MPT); 3)
vesículas mitocondriais com membrana interna e
externa mitocondrial ( Mitochondrial Permeability Transition , MDV) 47 . Como é libertado para a
corrente sanguínea, devido à proveniência bacteriana da mitocôndria, o ccf-mtADN, é
reconhecido como uma amea ça pelo sistema imunitário, que desencadeia uma resposta
inflamatória sistémica, aumentando a produção de ROS 16;47 .
Através da avaliação de mtADN na saliva e na corrente sanguínea, é possível determinar
se o indivíduo sofreu de stress recente 16 . O impacto da EAI pode ser avaliado através do
mtADNcn que, em casos de stress, se encontra elevado. Devido ao stress, os GC ligam-se
aos GR, que seguidamente se ligam de forma direta ao mtADN, estimulando a replicação
deste, o que intensifica a expressão de genes nucleares implicados na regulação do mtADNcn
e aumenta a expressão de genes cuja função é regular a expressão de mtADNcn 3;39 .
Contrariamente, quando ocorre “resistência aos GC”, referida anteriormente, esta pode
impedir a biogénese mitocondrial, diminuindo o mtADNcn 3 .
Mutações no mtADN, segundo Picard et al. , são distintas em cada animal estudado e, como
tal, dão origem a respostas ao stress diferentes entre si, algumas contraditórias, demonstrando
que a mitocôndria modula o stress de forma independente quando comparada entre diferentes
organismos 36;42 . Estas alterações a nível mitocondrial foram comprovadas com alguns estudos
em animais. A separação materna induzida como simulação de EAI, em roedores, após o
Figu ra 8 – P ossív eis mec anismos para a

saída de mtA DN d a mi tocônd r ia.
(Adaptado de 47 )

59

nascimento, deu origem ao aparecimento de ROS em excesso nos animais, já em fase adulta,
à diminuição da produção de ATP, bem como ao decréscimo dos níveis de antioxidantes
presentes no hipocampo, o que demonstra a presença de disfunção mitocondrial nestes
animais 5 . Estudos citados por Daniels et al ., desenvolvidos em modelos animais, demonstram
que a exposição ao stress desenvolve mutações no mtADN, mas também degradação do
funcionamento do hipocampo, hipotálamo e córtex cerebral, da mesma forma que leva ao
aparecimento de comportamentos típicos de Ansiedade e Depressão nos animais. Num outro
estudo mencionado pelos mesmos autores, foi verificado que o stress induzido causou
modificações nas proteínas mitocondriais, assim como no funcionamento das sinapses
hipocampais, em modelos de roedores, sugerindo que a mitocôndria desempenha um papel
central na manutenção da integridade sináptica e neuronal, comprovando o seu envolvimento
no aparecimento de doenças associadas ao stress 14 .
3.2. Influência da Mitocôndria na Alostase e Carga Alostática
As mitocôndrias contribuem para o aumento da carga alostática. Embora exista uma
adaptação deste organelo ao stress que enfrenta, quando este é excessivo, acaba por danificar
o mtADN, provocando alterações na capacidade de produção de energia da mitocôndria,
levando à desregulação génica e ao aumento da produção de ROS 16 .
A carga alostática inerente a todas as alterações ocorridas na mitocôndria em resposta
ao stress denomina-se carga alostática mitocondrial ( Mitochondrial Allostatic Load, MAL) 16 . A
MAL é estimada com recurso à avaliação da função mitocondrial (quantitativa) através da
produção de ROS, do mtADNcn e de alterações na produção de ATP 16 . Por outro lado, po de
ser avaliada qualitativamente, através da conversão fusão/fiss ão de mitocôndrias ou da génese
de moléculas de sinalização específicas, sendo que, como a localização d a mitocôndria
influencia os parâmetros avaliados, é expectável encontrar no mesmo organismo, diferentes
mitocôndrias com diferente valor de MAL 16 .
A ocorrência de carga alostática elevada na mitocôndria leva à criação de processos
inflamatórios, que provocam, mais uma vez, a libertação de ROS e mtADN, que atuam como
sinais de alerta e causam a libertação de citocinas pró-inflamatórias que induzem a
fragmentação mitocondrial e condicionam a sua função 17 .

60

4. IMPACTO DO STRESS NO DESENVOLVIMENTO NEURONAL – DESDE
A CONCEÇÃO ATÉ À ADOLESCÊNCIA
As alterações motivadas por EAIs decorrem no início de vida das crianças, uma vez que
este período é a etapa do desenvolvimento onde se verificou existir maior probabilidade de
ocorrência de interferências no desenvolvimento neuronal 32 .
Quando uma criança nasce, o seu cérebro não se encontra completamente desenvolvido,
uma vez que apenas parte deste se encontra formado antes do nascimento 32 . Como tal, é
durante o crescimento até à idade adulta que se completa o desenvolvimento neuronal. Este
período distingue-se como crítico, pois representa um espaço de tempo ímpar 4 , durante o
qual a experiência adquirida molda a plasticidade neuronal, com efei to duradouro em vários
domínios, afetando não só o desenvolvimento cognitivo, mas também o desenvolvimento
comportamental das crianças 15 . Durante o crescimento, nem todos os períodos têm igual
impacto no desenvolvimento, sendo que a infância demonstrou ser o período com impacto
mais preponderante no futuro da criança 5 .
O modelo do “Ciclo de Vida do Stress” 32 , observado na Figura 9, defende que durante o
período antes do nascimento, período pré-natal, o stress pode afetar qualquer uma das áreas
mencionadas na imagem, quer isto dizer, que tanto afeta a amígdala, como o lobo frontal,
como o hipocampo, provocando efeitos de programação. A partir do nascimento, qualquer
uma das áreas é igualmente sensível às hormonas do stress, mas existem pequenas janelas
temporais, d urante a s qua is uma determinada área é a mais suscetível 32 . Como se observa no
esquema da Figura 9, o hipocampo é a área mais sensível a oscilações de GC, desde o
nascimento até cerca dos dois anos de idade. De seguida, a amígdala passa a ser a mais
suscetível, podendo ocorrer mudanças no seu tamanho motivadas por experiências negativas.
Na entrada na adolescência, a amígdala ainda se encontra sob influência dos GC, mas é o lobo
frontal a área mais afetada, com oscilações de volume decorrentes da exposição ao stress.
Esta exposição ao stress, no decorrer dos anos, resulta mais tarde, na idade adulta, no
aparecimento de efeitos com origem na infância ou na manutenção dos mesmos, causados
pelo enfraquecimento das 3 áreas mencionadas potenciado pelo envelhecimento e pela
senescência que o acompanha 32 .

61

Deste modo, observa-se que, o impacto no desenvolvimento cerebral ocorrido durante
a infância poderá não ter efeitos visíveis no momento em que ocorre, mas originará um
impacto mais profundo na saúde futura 3 , podendo levar ao desenvolvimento de doenças tais
como Depressão Major, Ansiedade, Stress Pós-Traumático, Bipolaridade, Abuso de
Substâncias, entre outras 5 , mas também à ocorrência de doenças crónicas 14 , igualmente numa
fase mais tardia da vida. Pode ainda aumentar a probabilidade de adesão a comportamentos
prejudiciais à saúde e influenciar o desenvolvimento fisiológico da criança ao longo dos anos 11 .
4.1. Impacto do stress no desenvolvimento pré-natal
O papel do stress no desenvolvimento pré-natal poderá ter duas origens distintas. Pode
advir de stress vivenciado pela progenitora durante a gravidez ou de experiências adversas
ocorridas durante a infância da mãe, que moldaram a sua resposta adaptativa ao stress 6;48 .
Experiências maternas antigas influenciam o desenvolvimento do bebé ainda no útero,
uma vez que as mães apresentam níveis aumentados de mtADNcn e alterações na expressão
de genes mitocondriais na placenta, reforçando o papel relevante na programação do
desenvolvimento neuronal do feto 6 . Contudo, mesmo em gravidezes saudáveis, está presente
o stress oxidativo, sendo a própria placenta a fonte do mesmo, devido à sua elevada ativi dade
mitocondrial e taxa metabólica 6 . Em investigações recentes citadas por Hoffmann et al., é
referido que o mtADNcn na placenta, pode ser uma das fontes de stress oxidativo, implícito
na programação cerebral do feto 6 . Durante o desenvolvimento, o cérebro do feto apresenta-
Figu r a 9 - Cicl o da Vid a do Stress. Este mode lo pretende e xplanar os e f eitos da exposiç ão crónic a ao

stress de sde a c onc eç ão até à id ade adulta e as co nsequê ncias dessa mes ma exposição. A ba r ra ci nzent a
represen ta os efeitos d o G C no org anism o. ( Adaptad o de 32 )

62

se muito suscetível a radicais livres, pois possui um maior consumo de oxigénio e elevada
produção de ROS 6 . Além disso, possui um elevado número de ácidos gordos e um mecanismo
de defesa antioxidante ainda fraco, o que propicia a oxidação prejudicial ao desenvolvimento
neuronal 6 .
O stress ao qual a mãe está exposta durante a gravidez pode afetar a placenta e a sua
função. Dado que as mitocôndrias pl acentárias desempenham um papel notório na gestão de
sinais endócrinos e oxida tivos, estas estão estritamente implicadas na ba rreira placentária que
protege o bebé e na programação do seu desenvolvimento geral e cerebral, enquanto este
ainda se encontra dentro do útero materno 6;38 . O stress experienci ado pela mãe aumenta a
produção de CRF pela placenta,
que vai instigar a produção de
ACTH e GC, modificando o
feedback e o desenvolvimento do
eixo HPA no feto, aumentado os
comportamentos de ansiedade e
resposta ao stress 49 . Estudos em
roedores 49 demonstraram que o
tratamento da progenitora com
GC sintéticos, durante a gravidez,
levou à ativação excessiva do eixo
HPA materno, que
consequentemente diminuiu a
sensibilidade do eixo HPA dos
filhos em idade adulta, pela diminuição dos recetores GR 48;49 . Deste modo, quando em
excesso, os GC, atuam como uma via de sinalização das adversidades experienciadas pela mãe
para o bebé, provocando neste alterações a nível de crescimento, que resultam em baixo peso
à nascença e perturbações na função de alguns tecidos e órgãos, desencadeando distúrbios
afetivos ao longo da vida e problemas no eixo HPA, que podem ser transmit idos às gerações
seguintes (Figura 10) 48 . Num estudo citado por Joseph et al. , concluiu-se que o stress materno
resultante da vivência de experiências marcantes, nomeadamente, a proximidade no momento
da queda, em 2001, do World Trade Center , por mulheres grávidas, causou aumentos de cortisol
que provocaram o nascimento de neonatos com baixo peso, que se desenvolveram de forma
lenta no início de vida e obtiveram resultados escolares baixos 48 . Isto demonstrou que os
Figu r a 10 – Ex posição a elevad os nívei s de GC pelo f eto , atr avé s
de stress exó g eno , afetam os seus sistem as de ó r gãos, a níve l
físico, psico lógic o e cardíac o. ( Adaptad o de 48 )

63

elevados níveis de cortisol influenciaram não só o desenvolvimento físico, mas também
psicológico destas crianças 48 .
Nas gravidezes cuja mãe sofre de pré-eclâmpsia, verifica-se a presença de cortisol na
placenta, que se encontra associado a neonatos com baixo peso à nascença, respostas
extremamente sensíveis ao stress e anomalias a nível neurocomportamental , para além de que
se verifica nestas crianças o risco aumentado de doenças metabólicas, cardiovasculares e
psiquiátricas, na vida adulta 6 .
Estudos epidemiológicos 49 mostram que o stress experienciado no início da gravidez tem
maior impacto no desenvolvimento cerebral do bebé. O stress ocorrido numa fase mais
avançada da gravidez pode repercutir-se na função cognitiva do feto e no aparecimento de
doenças como Hiperatividade, Ansiedade e Défice de Atenção 49 .
As mães que sofreram EAIs, ou que estiveram expostas a stress durante a gravidez,
apresentam maior densidade de mitocôndrias e consequentemente, maior respiração
mitocondrial, contudo, esta característica não se verifica nos fetos, apenas está presente no
cordão umbilical, o que indica não haver transmissão das alterações de densidade ocorridas à
geração seguinte 50 .
Apesar de tudo o que foi descrito, estudos citados por Ellen Wikeniu s , afirmam que
existem bebés expostos a stress pré-natal que não desenvolvem nenhum problema psicológico
na idade adulta, o que demonstra que se mantém aberta a possibilidade de resiliência
psicológica ao stress 51 .
5. RESILIÊNCIA – OPOSIÇÃO À DOENÇA MENTAL
Segundo a teoria da evolução de Darwin, “todas as espécies de organismos surgem e
desenvolvem-se através da seleção natural de pequenas variações herdadas que aumentam a
reprodução individual” 51 . Deste modo, numa perspetiva de sobrevivência, a adaptação e reação
perante situações adversas tornam-se essenciais para manter a vida. Do mesmo modo, durante
o desenvolvimento pré-natal, o sucesso do bebé está dependente das condições que a mãe
lhe transmite e do esforço que esta faz para manter o bebé vivo, pelo que o stress materno
antes e durante a gravidez, pode ser um fator de resiliência biológica nas crianças 51 .

64

É crucial perceber através da ciência, porque é que algumas crianças que experienciaram
EAIs adquirem resiliência 52 . Após o nascimento, a existência de fatores promotores de
resiliência, em oposição às experiências negativas vivenciadas, tais como um ambiente
acolhedor, comida saudável, exercício, estimulação sensorial e cuidados paternais,
demonstraram promover um desenvolvimento saudável nas crianças (Figura 11) 24;52;53 .

Alguns estudos recentes referidos por Ellen Wikenius , referem que as experiências
positivas durante a infância em ratos e o cuidado de cachorros durante os primeiros 6 meses
de vida, mudaram completamente a resposta ao stress e a biologia cerebral, com impacto no
comportamento e patologias futuras 51 .
É importante referir que a exposição a EAIs não é por si só geradora de resiliência, nem
deve ser usada como justificação para a promoção e ocorrência de exposições adversas. Na
verdade, o que se verifica é que em determinadas condições, controladas, a adversidade
consegue induzir a resiliência 51 .
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Sendo o desenvolvimento intrauterino e a infância períodos de vulnerabilidade aos efeitos
prejudiciais do stress, torna-se imperativo investir na investigação nesta área, por forma a criar
modelos de intervenção terapêutica que minimizem o risco de uma vida à sombra de uma
patologia 5;7 . A intervenção precoce e a prevenção são ainda as estratégias mais eficazes, mas é
fundamental ampliar o conhecimento sobre as consequências neurobiológicas do stress. Esta
informação é fundamental à identificação de novos alvos terapêuticos e na redefinição de
estratégias de intervenção alternativas. Fisiologicamente, as EAIs alteram a produção de
mediadores moleculares do stress (nomeadamente GC) e determinam respostas inadequadas
ao stress, que afetam todo o organismo. A nível orgânico, sendo o cérebro o melhor exemplo,
Figu r a 11 – Impacto c umulati vo d e experiê ncias positi vas n o f utu ro da
saúde m ental das crianças. (Adapt a d o de 52 )

65

a exposição ao stress aumenta a exigência energética. Por este motivo, a mitocôndria (o
principal organelo envolvido na produção de energia pela célula) é afetada pelo stress desde
logo por expressar GR. A mitocôndria emerge, deste modo, como um potencial alvo para
intervenções específicas, que impeçam quer o avanço, quer a manifestação da doença mental
resultante de EAIs, na idade adulta 22;30 . Esclarecer os mecanismos pelos quais o stress afeta a
mitocôndria e, assim, a fisiopatologia de doenças associadas ao stress foi o principal objetivo
do presente trabalho. A mitocôndria desempenha um papel central na resposta ao stress, pois
modula a produção de GC, mas também desenvolve uma resposta a estes, em função dos
níveis e tempo de exposição. Em conjunto com GR, os GC, controlam a transcrição e
expressão de genes mitocondriais, que condicionam a função do organelo e a produção de
energia essencial para uma resposta adequada ao stress.
Profissionais de saúde preparados para a investigação destes domínios da Neurociência,
nomeadamente os farmacêuticos em exercício na academia ou na indústria farmacêutica,
podem dar um contributo essencial. Para além disso, o farmacêutico comunitário pode ter um
papel interventivo fundamental (nomeadamente através do contacto com a mulher grávida e
na deteção de situações de risco), atendendo ao seu conhecimento sobre as consequências
das EAIs para a saúde mental e ao seu posicionamento estratégico no sistema de saúde. Um
segundo objetivo deste trabalho foi precisamente alertar o farmacêutico para o seu potencial
envolvimento na gestão desta questão social com um impacto tão importante na saúde pública
e financeira. Note-se que, em 2015 estimava-se que na União Europeia, os custos totais com
a doença mental fossem superiores a 600 milhões de euros, sendo que destes, 190 milhões
correspondiam a quantias diretas dos sistemas de saúde, 170 mil milhões a encargos dos
sistemas de segurança social e 240 milhões a despesas indiretas. De acordo com o mesmo
relatório do Conselho Nacional de Saúde, em Portugal, estes custos representavam 3,7% do
Produto Interno Bruto, correspondendo a um valor muito elevado 1 . Devido à pandemia de
COVID-19 ( Coronavirus Disease 2019), estima-se que a exposição a EAIs tenha aumentado,
devido ao isolamento necessário e à canalização dos recursos dos sistemas de saúde para a
resposta a esta infeção 11 . Contudo, o efeito deste aumento, pode vir a ser notado, após alguns
anos, com o aparecimento de doenças psiquiátricas oriundas da exposição ao stress tóxico.
A “importância de cultivar a infância” tem ganho cada vez mais relevância nas políticas de
saúde a nível mundial e na comunidade científica, uma vez que percebendo as causas, como os
fatores biológicos, genéticos, sociais e comportamentais, é mais fácil para os governos reagir
e intervir. Quanto maior é o conhecimento e a informação científica sobre um determin ado

66

problema, mais facilmente se pondera uma forma de o encarar e mais rapidamente se alcança
uma solução 1;11 . É necessário proteger as crianças de hoje, pois são elas a sociedade de amanhã.

67

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