scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Contexto histórico do marketing político no Brasil: das manifestações de 2013 até a campanha presidencial de 2022

Coelho, Patricia Margarida Farias; Castro, Maria Isabel Pimentel de; Nunes, Silvio Gabriel Serrano

Abstract

O aumento de pessoas conectadas à internet e redes sociais provocou significativas mudanças nas práticas de marketing político das campanhas eleitorais no Brasil e do mundo. Este artigo se estrutura a partir de um contexto histórico da evolução do marketing no Brasil. Temos dois objetivos específicos: (i) apresentar de forma sucinta o contexto histórico e político do marketing no Brasil a partir das manifestações de 2013 e (ii) compreender o panorama das eleições presidenciais de 2022. O arcabouço teórico que sustenta este trabalho são os estudos sobre marketing político de Albuquerque (1998) & Gomes, Fernandes, Carvalho (2020), Braga (2010), Elis (2020), Reis & Silva (2009). A metodologia utilizada é a empírica, com base bibliográfica (Gil, 2003), e o método é o hipotético-dedutivo. Os resultados alcançados confirmam que os candidatos à presidência no Brasil utilizam das redes sociais como forma de compartilhar os valores defendidos por eles em suas campanhas políticas, esperando influenciar na decisão de voto de seus eleitores e explicitando a importância do marketing digital nas campanhas políticas.

Full text

IROCAMM VOL. 6, N. 1 - Year 2023 Received: 27/12/2022 | Reviewed: 7/01/2023 | Accepted: 9/01/2023 | Published: 31/01/2023 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/IROCAMM.2023.v06.i01.07 Pp.: 104-116 e-ISSN: 2605-0447 104 Contexto histórico do marketing político no Brasil: das manifestações de 2013 até a campanha presidencial de 2022* Historical context of political marketing in Brazil: from the 2013 demonstrations to the 2022 presidential campaign Contexto histórico del marketing político en Brasil: de las manifestaciones de 2013 a la campaña presidencial de 2022 Patricia Margarida Farias Coelho [email protected] Universidade Santo Amaro/Universidade Metodista de São Paulo [email protected]/[email protected] 0000-0002-1662-1173 Maria Isabel Pimentel de Castro Pinto Universidade Santo Amaro [email protected] 0000-0002-0199-708X Silvio Gabriel Serrano Nunez [email protected] Universidade Santo Amaro (Unisa) – Brasil 0000-0001-5565-0965 https://dx.doi.org/10.12795/IROCAMM.2023.v06.i01.07 104 27/12/2022 7/01/2023 9/01/2023 * Este artigo é parte inicial da Pesquisa realizada pela investigadora Patricia Margarida Farias Coelho com bolsa financiada pela Fundação Carolina - Programa Movilidad de profesorado Brasil-España 2022 Silvio Gabriel Serrano Nunez 105 IROCAMM VOL. 6, N. 1 - Year 2023 Received: 27/12/2022 | Reviewed: 7/01/2023 | Accepted: 9/01/2023 | Published: 31/01/2023 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/IROCAMM.2023.v06.i01.07 Pp.: 104-116 e-ISSN: 2605-0447 Resumo O aumento de pessoas conectadas à internet e redes sociais provocou significativas mudanças nas práticas de marketing político das campanhas eleitorais no Brasil e do mundo. Este artigo se estrutura a partir de um contexto histórico da evolução do marketing no Brasil. Temos dois objetivos específicos: (i) apresentar de forma sucinta o contexto histórico e político do marketing no Brasil a partir das manifestações de 2013 e (ii) compreender o panorama das eleições presidenciais de 2022. O arcabouço teórico que sustenta este trabalho são os estudos sobre marketing político de Albuquerque (1998) & Gomes, Fernandes, Carvalho (2020), Braga (2010), Elis (2020), Reis & Silva (2009). A metodologia utilizada é a empírica, com base bibliográfica (Gil, 2003), e o método é o hipotético-dedutivo. Os resultados alcançados confirmam que os candidatos à presidência no Brasil utilizam das redes sociais como forma de compartilhar os valores defendidos por eles em suas campanhas políticas, esperando influenciar na decisão de voto de seus eleitores e explicitando a importância do marketing digital nas campanhas políticas. Palavras-chave Marketing político; rede social; mídias digitais; campanhas políticas; meios de comunicação. Abstract The increase in people connected to the Internet and social networks has caused significant changes in the political marketing practices of election campaigns in Brazil and the world. This article is structured from a historical context of the evolution of marketing in Brazil. We have two specific objectives: (i) briefly present the historical and political context of marketing in Brazil from the 2013 manifestations and (ii) understand the panorama of the 2022 presidential elections. The theoretical framework that sustains this work are the studies on political marketing Albuquerque (1998) & Gomes, Fernandes, Braga (2010), Carvalho (2020), Elis (2020), Reis & Silva (2009). The methodology used is empirical, based on bibliographic (Gil, 2003), and the method is the hypothetical-deductive. The results achieved confirm that presidential candidates in Brazil use social networks as a way to share their values in their political campaigns, hoping to influence their voters’ voting decision and explaining the importance of digital marketing in political campaigns. Keywords Political marketing; social network; digital media; political campaigns; media. Resumen El aumento de las personas conectadas a Internet y las redes sociales ha causado cambios significativos en las prácticas de marketing político de las campañas electorales en Brasil y el mundo. Este artículo está estructurado a partir de un contexto histórico de evolución del marketing en Brasil. Tenemos dos objetivos específicos: (i) presentar brevemente el contexto histórico y político del marketing en Brasil a partir de las manifestaciones de 2013 y (ii) comprender el panorama de las elecciones presidenciales de 2022. El marco teórico que respalda este trabajo son los estudios sobre marketing político de Albuquerque (1998) y Gomes, Fernandes, Carvalho (2020), Braga (2010), Elis (2020), Reis y Silva (2009). La metodología utilizada es la empírica, con la base bibliográfica (GIL, 2003), y el método es el deductivo hipotético. Los resultados logrados confirman que los candidatos presidenciales en Brasil usan las redes sociales como una forma de compartir sus valores en sus campañas políticas, con la esperanza de influir en la decisión de votación de sus votantes y explicar la importancia del marketing digital en campañas políticas. Palabras clave Marketing político; red social; Medios digitales; Campañas políticas; medios de comunicación. Silvio Gabriel Serrano Nunez 106 IROCAMM VOL. 6, N. 1 - Year 2023 Received: 27/12/2022 | Reviewed: 7/01/2023 | Accepted: 9/01/2023 | Published: 31/01/2023 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/IROCAMM.2023.v06.i01.07 Pp.: 104-116 e-ISSN: 2605-0447 1. Introdução Com a expansão da internet, temos cada vez mais pessoas conectadas às redes sociais e a distintos aplicativos (Castells, 1999). O marketing político, ao reconhecer as potencialidades da tecnologia, emerge e amplia rapidamente suas ações para o ambiente digital (Coelho, 2014). Albuquerque (1998) explica que o marketing político é considerado uma atividade recente que já está adaptada pelas novas possibilidades permitidas pela Internet. Ainda segundo o autor, no Brasil, a introdução do marketing nas campanhas eleitorais passou a influenciá-las, decisivamente, por conta do contexto político brasileiro, marcado pelo fim do regime militar, em 1989, nas eleições diretas que elegeram Fernando Collor de Melo. Nesse aspecto, o processo de redemocratização do Brasil foi, certamente, o momento em que as estratégias de marketing se tornaram imprescindíveis para a obtenção de êxito nas campanhas eleitorais subsequentes. No entanto, vale salientar que o marketing da campanha do ex-presidente Fernando Collor de Melo teve nas emissoras de TV seus principais meios de divulgação, haja vista que as redes sociais foram criadas em momento posterior, nos anos 2000. Outro exemplo, de muito sucesso no marketing político digital e mais atual, ocorreu nas eleições americanas de Barack Obama, em 2008, auxiliando o candidato a arrecadar dinheiro, o que foi decisivo para ele vencer as eleições (Braga, 2010). A partir de então, os políticos começaram a intensificar, cada vez mais, esse meio de comunicação, em especial as redes sociais, que favorecem e auxiliam no desempenho dos candidatos a fim de angariar mais votos, uma vez que cria a ilusão de aproximação entre candidato e eleitor (Gomesetal., 2009). Assim sendo, destacamos que o principal conceito do marketing é atender e criar necessidades no e para o consumidor. Com a nova realidade da sociedade digital (Castells, 1999), o marketing político precisou se adaptar, reestruturando-se e configurando suas ações para serem compartilhadas na e pela internet, por meio de uma estratégia de visibilidade que busca a participação e o engajamento dos eleitores/internautas nas campanhas políticas, e pelo uso das redes sociais como plataforma de consumo de informações políticas (Locketal., 2010). A partir desse contexto, esta pesquisa desenvolve uma reflexão sucinta sobre o contexto histórico e político do marketing no Brasil a partir das manifestações de 2013 até as eleições presidenciais de 2022. Para tanto, esta análise tem dois objetivos bem claros e específicos, a saber: (i) expor sucintamente o panorama histórico e político das campanhas no Brasil a partir das manifestações de 2013 e (ii) verificar o cenário das eleições presidenciais de 2022 no Brasil. O arcabouço teórico que sustenta este trabalho são os estudos sobre marketing político de Albuquerque & Gomes (1998), Fernandes, Carvalho (2020), Braga (2010), Elis (2020), Reis & Silva (2009), dentre outros. A metodologia utilizada nesta pesquisa é empírica, com base bibliográfica, conforme Gil (2013). O método utilizado é o hipotético-dedutivo. A hipótese que sustenta este trabalho é a de que, com a expansão da internet, surgiram novas possibilidades de criação de conteúdo de marketing político, divulgadas por meio das redes sociais, que cada vez mais estão sendo utilizadas nas campanhas políticas no mundo e no Brasil. Silvio Gabriel Serrano Nunez 107 IROCAMM VOL. 6, N. 1 - Year 2023 Received: 27/12/2022 | Reviewed: 7/01/2023 | Accepted: 9/01/2023 | Published: 31/01/2023 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/IROCAMM.2023.v06.i01.07 Pp.: 104-116 e-ISSN: 2605-0447 A justificativa desta temática se deu porque as campanhas políticas no Brasil estão cada vez mais imigrando e se utilizando do marketing digital – é partir desta indagação que este artigo se construiu. Gostaríamos, também de ressaltar que, por ser o tema da eleição presidencial de 2022 tão recente, não existe bibliografia científica sobre o assunto, e desse modo utilizaremos, neste estudo, artigos, links de site e notícias jornalísticas, pois são os materiais mais disponíveis e mais específicos sobre o tema. Apresentado o nosso tema, objetivos, hipótese, justificativa, metodologia e arcabouço teórico, daremos continuidade a nosso estudo apresentando de forma breve e sucinta o panorama histórico e social das manifestações de 2013. 2. Contexto histórico 2.1. A revolta popular nas ruas em 2013 e os avanços políticos no Brasil A eleição para presidente da República, em que o povo elegeu Jair Messias Bolsonaro em 2018, pode ser explicada sob alguns aspectos a partir da análise das manifestações populares que tomaram conta de mais de 360 cidades, com mais de 700 protestos espalhados por todo o Brasil (Ely, 2018). Um detalhe aparentemente insignificante levou as massas a manifestações espetaculares nas avenidas dos grandes centros urbanos: o aumento de R$ 0,20 das tarifas de transportes urbanos na maior cidade do País, São Paulo. Daí, a pauta foi sendo preenchida por vários outros pontos que diziam respeito à forma desrespeitosa e indecente com que o Estado tratava a cidadania no País. A população saiu às ruas em protesto contra a corrupção, pela insatisfação com os gastos da Copa do Mundo, para pedir serviços públicos dignos, hospitais com o mínimo de infraestrutura para atender à população, segurança pública, transportes públicos decentes para suprir as demandas das grandes cidades, cujo crescimento desenfreado e sem precedentes pode ter contribuído para o ápice do caos urbano naquele ano de 2013, em que a presidente da república era Dilma Rousseff (Sorj, 2014). A novidade daquele acontecimento histórico de 2013 foi, certamente, a forma pela qual se deram as mobilizações até que as manifestações ganhassem as ruas: as redes e mídias sociais. Segundo Bernardo Sorj (2014), os jovens que organizaram os protestos acabaram mobilizando gente de todas as idades, de todas as camadas sociais, de todos os partidos. Não estavam ligados, em sua maioria, a sindicatos, organizações governamentais, empresas ou partidos políticos. E isso só foi possível pela ascensão dos novos sistemas de comunicação, incluindo a internet: A confluência entre os novos meios de comunicação e o quadro institucional, no Brasil e em outros países democráticos, apresenta outra afinidade eletiva: as mensagens curtas do MSN e das redes sociais são as mais adequadas para criar sinergia entre indivíduos que não têm nem estão à procura de grandes marcos ideológicos [...] O novo espaço público virtual funciona de forma viral através de mensagens curtas, aglutinando indivíduos em torno de um mínimo denominador comum, em geral, algo a que se é contra. Assim, predominam na internet, a denúncia e o mal-estar de indivíduos que se sentem impotentes em relação aos poderes constituídos (2014, p. 90). Silvio Gabriel Serrano Nunez 108 IROCAMM VOL. 6, N. 1 - Year 2023 Received: 27/12/2022 | Reviewed: 7/01/2023 | Accepted: 9/01/2023 | Published: 31/01/2023 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/IROCAMM.2023.v06.i01.07 Pp.: 104-116 e-ISSN: 2605-0447 Note-se que algumas das grandes demandas das referidas manifestações foram os protestos contra a corrupção, com a ausência de partidos políticos na organização dessas manifestações. O questionamento das instituições, da organização do Estado brasileiro, perpassava pela crítica aos partidos políticos, pela consciência de que os seus representantes não estavam à altura dos cargos que ocupavam pela deficiência das políticas públicas enaltecidas nesses protestos. A ojeriza aos partidos se fez presente quando muitos preferiram sair às ruas de branco, demonstrando, a desvinculação das siglas partidárias (Marinho, 2018). O mais importante a destacar nas jornadas de junho de 2013 é que a semente dos movimentos anticorrupção e de aversão à classe política fora plantada ali e, mais tarde, serviu de mote para o marketing que levou Jair Messias Bolsonaro a alçar o posto de chefe do executivo federal, em 2018, como veremos adiante. O clamor das ruas, contudo, não foi suficiente para evitar a reeleição da presidente petista em 2014, Dilma Rousseff, que derrotou o adversário do Partido da Social Democracia Brasileira por uma margem que, embora não fosse tão ínfima, despertou as dúvidas sobre a lisura da derrota do candidato e exgovernador de Minas Gerais, Aécio Neves, presidente do principal partido de oposição ao PT. Esse foi o caldo de cultura que produziu o combustível para o movimento popular, o qual terminou no impeachment da presidente (Carvalho, 2020). Carvalho (2020) explica que as dúvidas inconsistentes sobre a possibilidade de fraude nas urnas do sistema eletrônico de votação e apuração eleitoral se tornariam o grande tema de marketing da direita nostálgica da ditadura militar, que não tardou a encontrar na retórica falaciosa da direita radical, participante marginal e inexpressiva das manifestações de 2013 em diante, adotada no marketing do deputado Jair Messias Bolsonaro, que passou a utilizar o marketing do combate à corrupção. Concomitante a essa ação de marketing adotada pelo deputado Jair Messias Bolsonaro, no Brasil para combater à corrupção instalada sobretudo pelo PT foi instalada a operação Lava-Jato, com sede numa vara criminal de Curitiba, a partir da investigação de um escândalo de malversação de verbas públicas no Banco do Estado do Paraná (Banestado), protagonizado de um lado pelo doleiro Alberto Yousseff e, do outro, pelo juiz Sérgio Moro e pelo procurador Deltan Dallagnol que veio para substituir a operação Castelo de Areia. A cobertura nos meios de comunicação das investigações da operação Lava-Jato atingiu seu ponto máximo quando o presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Roberto Jefferson, que tinha desempenhado papel preponderante na defesa de Collor no processo de impeachment na Câmara dos Deputados, deu entrevista à repórter Renata Lo Prete, da Folha de S. Paulo, denunciando um sistema de compra de apoio parlamentar pelos dirigentes do PT, apelidado, inicialmente, de mensalão, referência à periodicidade de pagamento de propinas milionárias, e, depois, de petrolão, por causa da revelação do que se convencionou chamar de propinoduto, administrado pelo diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, e registrado em programas de computação das empreiteiras envolvidas, principalmente a Odebrecht (Carvalho, 2020). Dessa forma, a Operação Lava-Jato foi muito além do mensalão e do petrolão, e o mais popular presidente da República, segundo as pesquisas, Luís Inácio da Silva, foi condenado em processos envolvendo corrupção, o que impediu sua recandidatura pela única lei inspirada e produzida pelo povo, a da Ficha Limpa. Silvio Gabriel Serrano Nunez 109 IROCAMM VOL. 6, N. 1 - Year 2023 Received: 27/12/2022 | Reviewed: 7/01/2023 | Accepted: 9/01/2023 | Published: 31/01/2023 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/IROCAMM.2023.v06.i01.07 Pp.: 104-116 e-ISSN: 2605-0447 As sessões de julgamento no STF passaram a ter audiências recorde nas redes de televisão. Policiais federais começaram a ser aplaudidos em praça pública nas manifestações de rua. O juiz Sérgio Moro, bem como seu colega Marcelo Bretas, do Rio, e o procurador Deltan Dallagnol, tornaram-se heróis nacionais. O juiz Sérgio Moro foi um dos responsáveis pela prisão do presidente Lula (Carvalho, 2020). Luís Inácio da Silva foi preso e mantido em uma cela na Polícia Federal, em Curitiba. Ressaltamos que mesmo preso o ex-presidente mantinha um enorme prestígio popular. As eleições presidenciais de 2018 fizeram emergir um candidato ao cenário nacional, Jair Messias Bolsonaro, cujo percurso político como parlamentar durante a Nova República e sob a égide da Constituição Federal de 1988 fora marcada por declarações absolutamente incompatíveis com a ordem democrática instaurada no país, depois do fim da ditadura, inserindo na pauta nacional diversos aspectos reacionários no debate político (Ely, 2018). Ely (2018) explica que Jair Messias Bolsonaro, capitão do Exército reformado por acordo para evitar punição do Superior Tribunal Militar (STM) devido à sua militância terrorista pelo aumento do soldo, emergiu dos insignificantes movimentos de nostalgia da ditadura de 1964 como o maior beneficiário de uma série de circunstâncias favoráveis a suas pretensões de chegar ao poder maior da República. Destacamos que Bolsonaro já faz parte do pequeno quadro de políticos contemplados com um adjetivo derivado de seu nome e que designa um conjunto de ideias. Dentre aqueles considerados bolsonaristas “raiz”, encontramos valores e ideias associados a uma aversão ou mesmo ódio ao Partido dos Trabalhadores (PT) em razão de suas políticas públicas de inclusão social, além das questões envolvendo o partido nos episódios do mensalão e da Lava-Jato, um sentimento de abandono por parte dos representantes da política tradicional, uma apologia ao armamento da população, um temor acerca de uma suposta mudança no modelo de família tradicional e na questão da liberdade religiosa, desconforto com a questão da educação sexual nas escolas e com as novas identidades de gênero, a defesa de menor protagonismo estatal na economia por meio de um liberalismo econômico, críticas e ofensas às instituições, a exemplo do Supremo Tribunal Federal, apologia da ditadura militar, o aparelhamento da Administração Pública por quadros militares em detrimento de escolhas de civis para os cargos, a narrativa do combate ao comunismo e suas “ameaças”, o avanço do agronegócio, por meio da flexibilização da legislação ambiental, críticas constantes aos veículos de imprensa por supostas coberturas jornalísticas injustas ao governo de Bolsonaro, além de posturas negacionistas em relação à ciência, especialmente no que tange ao aquecimento global e à pandemia de Covid-191. Bolsonaro sob o comando de seu filho Carlos, que chama de “zero dois”, ele pilotou uma rede de canais na comunicação por internet de fazer inveja aos grandes investidores que fazem isso comercialmente. Carvalho (2020) explica que o candidato vencedor em 2018 usou disparos de WhatsApp proibidos pela legislação eleitoral. A Justiça Eleitoral não tomou nenhuma atitude para puni-lo, mas o atual presidente do TSE, Alexandre de Morais, tornou pública a decisão para não permitir a repetição do feito em 2022. Dessa forma, o candidato à presidência Jair Messias Bolsonaro, não pôde repetir os disparos quatro anos depois do pleito em que abusou disso. Em 2018, ele foi esfaqueado em comício na rua em Juiz de Fora, Minas Gerais, na véspera de 7 setembro. Eis aí um marketing de martírio, que pode até não ser desejado, mas é certamente eficaz. Por causa da facada, ele pôde faltar confortavelmente a debates que gostaria de evitar. 1 O que é ser bolsonarista? Matheus Magenta da BBC News Brasil em Londres 14 dezembro 2022. https://www.bbc.com/portuguese/brasil-62490534 Silvio Gabriel Serrano Nunez 110 IROCAMM VOL. 6, N. 1 - Year 2023 Received: 27/12/2022 | Reviewed: 7/01/2023 | Accepted: 9/01/2023 | Published: 31/01/2023 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/IROCAMM.2023.v06.i01.07 Pp.: 104-116 e-ISSN: 2605-0447 Ele nunca se importou em desobedecer frontalmente à legislação eleitoral vigente, promovendo manifestações proibidas pelo TSE por serem fora do período autorizado pela eleição. Aproveitando de uma das estratégias do marketing, ele utilizava em suas manifestações a motociatta, inventada pelo Partido Fascista de Benito Mussolini na Itália nos anos 20 e 30 do século passado (Ely, 2020). Essa estratégia de andar de motos para fazer campanha política foi utilizada por Bolsonaro nos anos de 2018 e 2022, tornando uma característica de suas campanhas. 3. Campanha de 2022 no Brasil: a volta de Lula e o desgaste pós-pandemia na e da imagem de Bolsonaro A campanha de 2022, em que Lula disputou sua quinta eleição presidencial e a segunda tentativa de reeleição contra a primeira reeleição do presidente Jair Messias Bolsonaro, foi marcada, do início ao fim, por um clima exacerbado de polarização, que, de fato, teve início na época da disputa entre PT e PSDB. Em 2006, o ex-dirigente sindical, Luís Inácio da Silva, enfrentou no segundo turno o ex-governador do Estado de São Paulo que mais ocupou o principal gabinete do Palácio do Governo no Morumbi, Geraldo Alckmin. O PT carregava, então, o peso contrário de dois processos no Supremo Tribunal Federal, um chamado de mensalão, o outro de petrolão. O próprio ex-presidente não tinha sido até então processado, mas era visto como principal beneficiário das propinas de consórcios de empreiteiras que ganhavam grandes obras no Brasil e no exterior, em países governados por ditadores de esquerda com ligações com o Fórum de São Paulo: Cuba, Venezuela, Angola, Nicarágua dentre outros. Nesta época Lula venceu Geraldo Alckmin: o derrotado teve menos votos no segundo turno do que no primeiro, o que fala, por si só, sobre a diferença do apoio popular dos dois. Lula ganhou, e, governou pela segunda vez a presidência do país, e a partir daí estabeleceu-se uma divisão que predomina no País até hoje, agora de forma ainda mais radicalizada: nós e eles. A divisão era reproduzida graficamente num mapa geográfico em que os países com eleitorado petista tinham a cor vermelha, e os adversários tucanos e ditos liberais, a azul. Uma divisão quase perfeita, reproduzida nos mapas eleitorais dos pleitos de 2018 e 2022. A palavra da moda em 2022 foi “polarização”. E ela foi mais marcante no que diz respeito ao ódio ao adversário, tratado como inimigo. Lula, que não pôde disputar o voto popular quatro anos antes, substituído por Haddad, ao longo do governo de Jair Messias Bolsonaro foi solto, teve seus processos criminais interrompidos e driblou a lei da ficha limpa, que, como aqui já foi dito, é o único documento legal realmente popular sem intromissão dos chamados “representantes do povo”, nem na elaboração do texto (Carvalho, 2020). Com processos na ONU e a satanização da Operação Lava-Jato, do juiz Sérgio Moro e do procurador Deltan Dallagnol, a palavra de ordem passou a ser Lula Livre. O símbolo visual era a primeira letra das duas palavras, a letra L, formada pelo polegar e pelo indicador, substituindo até o popularíssimo V da Vitória, consagrado internacionalmente. Silvio Gabriel Serrano Nunez 111 IROCAMM VOL. 6, N. 1 - Year 2023 Received: 27/12/2022 | Reviewed: 7/01/2023 | Accepted: 9/01/2023 | Published: 31/01/2023 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/IROCAMM.2023.v06.i01.07 Pp.: 104-116 e-ISSN: 2605-0447 Na campanha da reeleição de Jair Messias Bolsonaro, grupos de jovens liderados por seu filho Carlos tentaram reproduzir o mesmo predomínio da linguagem digital no marketing político. Já não era mais, contudo, uma novidade e as táticas, basicamente apoiadas em fake news, importadas do exterior, principalmente do republicano Donald Trump nos Estados Unidos e de seu principal guru, Steve Bannon, com os quais os bolsonaristas Eduardo Bolsonaro e o influente filósofo dos radicais de direita Olavo de Carvalho mantinham relações (Coelhoetal., 2021). O marketing de Bolsonaro se estruturou em uma “cultura política digital antissistema”, que conforme explica Nobre: [...] o bolsonarismo dispõe de uma esfera pública alternativa relevante, controlando uma importante rede de desinformação e propaganda, fazendo uso extensivo de robôs conforme a necessidade e exigências do momento. Com a ocupação da presidência da República, a partir de 2019, Bolsonaro investiu ainda mais pesadamente na criação de um ecossistema sustentável, tanto em termos financeiros como de mobilização. Esse movimento permitiu ainda o cancelamento de contas no Twitter e no Facebook e uma migração em massa para o Telegram, caracterizado pelo total anonimato do usuário e pela utilização autorizada da automação. [...] Foi contra a ideia mesma de partido que se criou aos trancos e barrancos essa cultura política digital antissistema, tornada por Bolsonaro anti-institucional a partir do momento em que venceu a eleição presidencial de 2018. A selvageria dessas novas formas de fazer política tem a ver não apenas com a falta de modelo institucional, mas também com a selvageria própria do mundo digital em seu nascimento – continuamos à espera do “contrato social” que irá nos retirar do “estado de natureza” digital (2022, p. 205). Ely (2020) explica que outra diferença fundamental é que os disparos de WhatsApp não tiveram a mesma eficácia de antes e, se ainda predominavam entre os adeptos do presidente em exercício, as fake news passaram a ser combatidas pela cúpula do Poder Judiciário com grande repercussão no noticiário da imprensa e na propaganda política dos candidatos Nobre complementando a afirmação de Ely (2020) explica que: Outra dimensão, muito mais ampla, desse tema, é a regulação da vida digital, o problema de saber em que condições a sociedade poderia recuperar algum controle sobre suas criaturas internéticas. São conhecidas as enormes dificuldades de regular esse tipo de criatura. Na discussão técnica, é um debate que muitas vezes aparece sob a rubrica da ‘interoperabilidade’ (2022, p. 245). Já em 2018, Jair Messias Bolsonaro foi eleito no segundo turno, com 55,13% dos votos válidos, restando para Fernando Haddad, do PT, 44,7%. Das urnas eletrônicas resultou um País dividido, com ligeira tendência para a direita.2 Jair Messias Bolsonaro recorreu a outras práticas de marketing para se adaptar às novidades apontadas pelas pesquisas de opinião pública, que, junto com o que ele chama de “mídia”, foram seus inimigos favoritos. Herdou do Partido Integralista, versão católica do fascismo de Benito Mussolini, liderado pelo escritor Plínio Salgado, o lema: Deus, Pátria, Família.3 Imitou também o golpismo dos integralistas.4 Também em 2018, o capitão, como Jair Bolsonaro é tratado pelos mais chegados, explorou o êxito popular das operações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, posicionando-se como o candidato contra a corrupção, o comunismo e os maus costumes. A receita foi repetida em 2022, mas dessa vez os arrependidos e traídos pelas promessas não cumpridas também tinham um inimigo: o comportamento do líder da direita. 2 https://especiais.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/resultados/brasil-2turno-presidente/. 3 https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2022/08/29/deus-patria-familia-lema-de-bolsonaro-tem-origem-fascista-entenda.htm. 4 https://www.google.com/search?q=golpe+integralista&oq=golpe+integralista&aqs=chrome..69i57j0i512j0i22i30.6276j0j7&sourceid=chrome&ie=UTF-8. Silvio Gabriel Serrano Nunez 112 IROCAMM VOL. 6, N. 1 - Year 2023 Received: 27/12/2022 | Reviewed: 7/01/2023 | Accepted: 9/01/2023 | Published: 31/01/2023 DOI: https://dx.doi.org/10.12795/IROCAMM.2023.v06.i01.07 Pp.: 104-116 e-ISSN: 2605-0447 Como presidente, Jair Messias Bolsonaro chamava de comunistas todos os que não votassem nele, e adotou crendices tresloucadas num momento trágico da vida mundial, a disseminação do novo coronavírus, propagando a Covid-19. Além de acusar as vacinas de transformarem quem as tomasse em jacarés, chegou ao cúmulo de dizer que os vacinados tinham mais risco de contrair Aids.5 O chefe do Poder Executivo negou-se a comentar o número de mortes pela pandemia dizendo que não é coveiro.6 Disse: “Todos nós vamos morrer um dia”. Bolsonaro chegou ao ponto de imitar pacientes que morreram asfixiados na crise mais aguda da falta de oxigênio em Manaus, capital do Estado do Amazonas7. Esse absurdo, dentre muitos outros, foi cometido num recurso de marketing, que ele lançou: uma live transmitida por rede social ao vivo de seu escritório no Palácio da Alvorada, prédio público onde vive. Sobre esse governo, é possível se fazer, ainda, a seguinte análise: Para compreender a presidência Bolsonaro, é preciso lembrar que não se trata de um governo normal em tempos normais. Governos normais, eleitos em tempos de rotina republicana, são ancorados em maiorias parlamentares e balizados pelas instituições e valores constitucionais. Do ponto de vista político, tendem ao centro, sejam de direita ou esquerda; do ponto de vista administrativo, eles procuram conciliar seus princípios ideológicos com uma Administração eficiente, a fim de se manter no poder. Para isso lançam mão dos quadros de seus partidos, que presidem e aproveitam a burocracia técnica que serve ao Estado. Governos normais são compreendidos dentro dos modelos de ciência política, no qual o mote segundo o qual “as instituições estão funcionando” não é diagnóstico, é pressuposto. Ocorre que o governo Bolsonaro não é um governo normal, nem normais são os tempos que correm. Por isso, se ele nos aparece tão singular ou insólito no seu cotidiano e sua análise exige, portanto, mais criatividade e interpretação (Lynch et al., 2022, p. 72). O marketing bolsonarista abusou de atos públicos como recursos eleitorais de sua campanha, mas o Tribunal Superior Eleitoral não teve fôlego ou fogo para puni-lo pelo evidente crime eleitoral. Sem contar a compra de votos com o uso de programas de socorro a pobres e desempregados. Na eleição de 2022, a polarização atingiu níveis nunca alcançados. Semeou a discórdia em famílias, locais de trabalho, redes pessoais de comunicação por computador e todos os possíveis tipos de relacionamento. Desde suas primícias, a campanha firmou-se na rejeição e não na predileção dos eleitores pelos candidatos fortes. Jair Messias Bolsonaro apostou todas as fichas no ódio ao PT e a suas bandeiras, além da corrupção revelada pela Operação Lava-Jato, questionada ferozmente pelo petismo. Luiz Inácio Lula da Silva apostou em temas caros ao cotidiano do eleitorado: desemprego, ameaça da volta da inflação e o comportamento estabanado de um chefe de governo que nunca se cansou de acusar o pleito de fraudulento pelas urnas eletrônicas. No final, ficou claro que o País está mais dividido agora do que estava há quatro anos. Lula teve 50,90% dos votos válidos, e Bolsonaro, 49,10%, quase dois pontos percentuais, algo que equivale a 2 milhões de votos8. O atual governo perdeu, e o que ganhou ficou com um imenso País dividido de forma irremediável, irrecuperável. Uma tarefa gigantesca para ambos os lados. Uma sequência de crises a resolver. Apesar 5 https://www.cnnbrasil.com.br/politica/policia-federal-ve-crime-em-fala-de-bolsonaro-sobre-vacina-e-aids/. 6 https://www.youtube.com/watch?v=IrKpqx74BWY. 7 https://www.youtube.com/watch?v=Vv2nOBOhz8E. 8 https://agenciabrasil.ebc.com.br/eleicoes-2022/apuracao/resultados-eleicoes/br/brasil-br/segundo-turno.