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Fake news: como compreender a evolução do engano mediado

Santos, Sílvio Correia

Abstract

As fake news e a manipulação informativa não são fenómenos novos. No entanto, as particulares circunstâncias tecno-sociais do nosso tempo criaram um contexto muito favorável ao aumento sua visibilidade. Este artigo propõe uma revisão não sistemática da literatura, articulando e problematizando dimensões que contribuam para uma compreensão mais profunda do momento atual, bem como das condições que delimitaram este trajeto. Começando pela dimensão historiográfica da mentira mediada pela imprensa, é analisado o processo que conduziu ao aparecimento da falsidade como consequência da rápida evolução do jornalismo. Posteriormente, propõe-se o seu enquadramento no complexo contexto da sociedade em rede, no qual se têm colocado desafios aos quais os jornalistas e as empresas de media têm tardado em responder. As dinâmicas cognitivas do indivíduo, que hoje tem acesso a uma quantidade inédita de informação, são também abordadas como peças da problematização multidimensional aqui proposta. Ao abordar um contexto que podemos classificar como promotor de uma sobredose informacional permanente e implacável, este artigo não pretende responder a dúvidas sobre a quantificação dos impactos da desinformação. Antes, são enfatizadas as complexas inter-relações que, ao longo dos anos, deram forma a um problema que, em última instância, é um desafio civilizacional.

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Fake news: como compreender a evolução do engano mediado Fake news: understanding the evolution of mediated deception Sílvio Correia Santos Universidade de Coimbra | Largo da Porta Férrea, 3004-530, Coimbra | Portugal | http://orcid.org/ 0000-0002-6208-7311 | silvio.s[email protected] : 22/02/2021 | Aceptación: 31/08/2021 Resumo As fake news e a manipulação informativa não são fenómenos novos. No entanto, as particulares circunstâncias tecnosociais do nosso tempo criaram um contexto muito favorável ao aumento sua visibilidade. Este artigo propõe uma revisão não sistemática da literatura, articulando e problematizando dimensões que contribuam para uma compreensão mais profunda do momento atual , bem como das condições que delimitaram este trajeto. Começando pela dimensão historiográfica da mentira mediada pela imprensa, é analisado o processo que conduziu ao aparecimento da falsidade como consequência da rápida evolução do jornalismo. Posteriormente, propõe-se o seu enquadramento no complexo contexto da sociedade em rede, no qual se têm colocado desafios aos quais os jornalistas e as empresas de media têm tardado em responder. As dinâmicas cognitivas do indivíduo, que hoje tem acesso a uma quantidade inédita de informação, são também abordadas como peças da problematização multidimensional aqui proposta. Ao abordar um contexto que podemos classificar como promotor de uma sobredose informacional permanente e implacável, este artigo não pretende responder a dúvidas sobre a quantificação dos impactos da desinformação. Antes, são enfatizadas as complexas inter-relações que, ao longo dos anos, deram forma a um problema que, em última instância, é um desafio civilizacional. Abstract Fake news and information manipulation are far from being a novelty . However, the particular techno-social circumstances of our time have increased its visibility and people’s exposure to these manifestations. This article proposes a nonsystematic literature review, articulating and problematizing various dimensions that contribute to a deeper underst anding of the specificities and complexities of the current context, as well as the conditions that brought us here. Based on a historiographic approach of the upsurge of lies mediated by the press, the article analyses the process that led to the appearance of falsehood as a clear consequence of the rapid evolution of journalism . This path eventually led to the c omplex context of the network society, with its numerous challenges that journalists and media companies have been unable to fully address. The cognitive processes of people, fully immersed in an unprecedented amount of information, are also addressed as pieces of the multidimensional problematization that is proposed in the article. By analyzing a system that promotes a permanent and relentless informational overdose, this article does not intend to quantify the impacts of disinformation. Rather, it emphasizes the complex interconnections that, over the years, have shaped a problem that, ultimately, is a civilizational challenge. Palavras chave: fake news, desinformação, jornalismo. Keywords: fake news, disinformation, journalism. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 54 (2021) | 122 - 139 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i54.07 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 122 1. INTRODUÇÃO Nos últimos cinco anos, a preocupação com as chamadas fake news atingiu um patamar inédito. Para compreender a especificidade deste período, deverão ser consideradas várias linhas profundamente inter-relacionadas, que deram corpo à era da permanente conectividade: a natureza participativa da cultura (Jenkins, 1992; 2008; Olsson, 2010); a forma como a sociedade mudou à custa das dinâmicas tecno-sociais que resultam da ação coletiva (Castells, 1996; 1997b) e a disfunção intrínseca ao ecossistema informacional contemporâneo designada como desordem informacional (Wardle e Derakshan, 2017). O fim da era dos mass media – ou, na expressão de Olsson, da “ecology of broadcasting” (2010), teve um impulso de ordem técnica. Criaram-se novos canais de comunicação e interação social, novos hábitos de consumo e formas de produção cultural. Estabeleceu-se uma dinâmica “grassroots” (Jenkins, 2013) que tem como personagem central uma nova figura, prevista por Toffler ainda no início dos anos 80. O “prosumer” resultou de um estilhaçar das fronteiras que a segunda vaga (a fase da industrialização) havia estabelecido entre o consumidor e o produtor (Toffler, 1981)1. Agora, essa nova figura poderia ser qualquer pessoa que tivesse acesso à tecnologia. Bruns chamou-lhe “produser” (2007). A revista Time referiu-se a ela como “You” e escolheu-a, em 2006, como a pessoa do ano. Com a sua consagração, complexificaram-se o ecossistema informacional e os seus fluxos. Jenkins, Ford e Green (2013) referem-se a esta alteração como sendo a passagem de uma matriz de distribuição para uma de circulação. As pessoas – explicam os autores, partilham, misturam, criam e reutilizam informação de formas que refletem e resultam em novas dinâmicas tecno-sociais (2013). É, pois, um novo ecossistema híbrido que se posiciona no contexto da cultura participativa (Jenkins, 2008). Aqui, os indivíduos são atores em práticas mediáticas colaborativas, em conjunto com outros utilizadores e produtores de outras escalas (Olsson, 2010, p. 100). Esta dinâmica tecno-social e inter-relacional, movida por uma permanente conectividade, alimenta a chamada inteligência coletiva (Lévy, 1997). O conceito2, desenvolvido por Pierre Lévy (1997), foi recuperado recentemente por Henry Jenkins (2008). Lévy explicava que a inteligência coletiva existe no novo ambiente algorítmico: “o nosso poder aqui é a nossa capacidade de criar, avaliar, organizar, ler e analisar dados. Qualquer ato neste meio algorítmico reorganiza a memória comum: lendo, etiquetando, comprando, publicando, gostando, subscrevendo, etc. Nós criamos colaborativamente o nosso ambiente comum” (Lévy, 2015, p. 753-754). Pariser descreveu esta estrutura como um meta-cérebro (2012, p. 15) em que cada elemento comunica com outros, criando uma imensa rede neuronal. Estas novas interações entre o humano, a tecnologia e a informação sustentam o novo “ecossistema” informacional híbrido e convergente. Falamos de uma estrutura social baseada na conectividade permanente. A sociedade em rede tem uma dimensão global. Mesmo não incluindo toda a gente, ela afeta toda a gente, como 1 O “prosumer”, de Toffler, estava preso à produção industrializada do seu tempo, segundo Bruns (2007), que propôs uma outra figura, habitante da era digital: o “produser”. 2 Outros escreveram sobre “inteligência coletiva” antes de Lévy, no entanto, pensando-a fora da sociedade digital (Malone e Bernstein, 2015). Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 54 (2021) | 122 - 139 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i54.07 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 123 Fake news: como compreender a evolução do engano mediado Sílvio Correia Santos explica Castells (2005, p. 5), ao promover uma nova dinâmica: é “a lógica de um espaço de fluidez sobre um espaço de lugares” (Castells, 1997a, p. 14). No contexto informacional, uma ameaça também tem impactado grandemente as interrelações informacionais ao ter-se tornado sistémica. Claire Wardle e Hossein Derakshan referem-se à complexidade da poluição informativa que caracteriza os fluxos de informação hoje: chamam-lhe “information disorder” (2017). Essa é uma das faces mais visíveis de um tempo que podia ter sido imaginado por Debord quando, em 1967, escreveu que “num mundo realmente invertido, o verdadeiro é parte do falso” (2003, p. 16). Este é o tempo da Infoxicação, tal como foi designado por Aguaded e Romero-Rodríguez (2015; 2018), bem como por Romero-Rodríguez, Casas-Moreno e Caldeiro-Pedreira (2018). É o tempo da prevalência do infotainment, das narra vas super ciais e sensacionais, da primazia do conte do que é pensado para aumentar o tr fego e do desdém pelas preocupaç es deontológicas ( omeroodríguez; Casas-Moreno e Caldeiro-Pedreira, 2018, p. 75-76). É também a “post-truth society” no seio da qual o facto é cada vez menos importante como ferramenta de validação (Lewandowsky, Ecker e Cook, 2017; McIntyre, 2018). É este o contexto que este artigo analisa, através de uma revisão bibliográfica da evolução da desinformação, com foco nas chamadas fake news. Para além de um enquadramento que sistematiza a forma como as fake news chegaram aos jornais e neles se desenvolveram, este artigo situa a mentira mediada como uma manifestação da humanidade que, na era da permanente conectividade, encontra um terreno fértil para a sua disseminação (quer cognitiva, quer tecnicamente). 2. DA MENTIRA NOS JORNAIS À CONFIANÇA NO JORNALISMO Não é possível localizar a primeira aparição de fake news ou a primeira manipulação informativa. Aquilo que existe é um conjunto de registos que incluem sonetos, panfletos e outras formas de divulgação que, aleatoriamente, o homem, o tempo e as circunstâncias preservaram (Darnton, 2017). O que desses episódios dispersos podemos extrair com segurança é que tais práticas terão uma raiz tão antiga quanto a própria mentira e o engano, constituindo-se como manifestações primordiais e quotidianas da condição humana, quantas vezes até expedientes necessários à própria sobrevivência. São exteriorizações de falsidade, enquanto prática cultural multidimensional que não pode ser vista apenas como reprovável (Barnes, 1994, p. 2) e que deve ser reconhecida como um instrumento que serviu para a manutenção das estruturas de poder na sociedade ao longo dos séculos (Creech e Roessner, 2019). Apontemos o foco para o jornalismo. É na imprensa norte americana que reside a matriz do que hoje chamamos desinformação. Na sua origem, estão os embustes – “hoaxes”, em inglês. Eles existem desde que h um suporte escrito para as notícias (Finneman e Thomas, 2018). Há referências à falsidade na imprensa anteriores ao século XIX (Love, 2007; Finneman e Thomas, 2018; Uberti, 2016), tanto nos Estados Unidos da América (EUA) como em Inglaterra. No entanto, será o desenvolvimento da imprensa no século XIX, em Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 54 (2021) | 122 - 139 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i54.07 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 124 Fake news: como compreender a evolução do engano mediado Sílvio Correia Santos particular nos EUA, que há de tornar, pela primeira vez, a falsidade num verdadeiro problema e trazer a expressão “fake” para a discussão p blica. O contexto é o do final do primeiro quartel do século XIX. Um primeiro aumento dos leitores de jornais é conseguido pela Penny Press, quando pessoas comuns passaram a dispor, a preço acessível, de um recurso até então reservado aos mais cultos (Thornton, 2009; Tucher, 1994). Neste período, a evolução tecnológica e as novas práticas jornalísticas incutiram uma nova dinâmica que transformaria o jornalismo num negócio florescente e altamente competitivo, (Love, 2007; McChesney, 2010; Tucher, 1994). Porém, ao longo do século XIX, uma mudança mais significativa ocorre, preparando o terreno para o nascimento do jornalismo moderno. A Penny Press abandonou o pendor político das publicações anteriores, ligando, pela primeira vez, os seus leitores da classe trabalhadora ao quotidiano da vida comum (Neronte, 1987). Essa década de 1830 viu emergir, nos EUA, uma “revolução que levou ao triunfo das ‘notícias’ sobre o ‘editorial’ e do ‘facto’ sobre a ‘opinião’, e que levaria, com o tempo, à difícil aliança dos jornalistas com a objetividade” (Schudson, 1978, p. 14). Podemos enquadrar esse movimento numa vaga mais ampla que, ao longo do século XIX, com especial acutilância na sua derradeira fase, se sentiu: “a cultura americana afastou-se decididamente do idealismo e do romanticismo, e procurou ver, representar e abarcar o mundo tal como ele era” (Tucher, 2013, p. 91). Apesar disso, não é nesta fase que os jornais se tornam bastiões da verdade. Este é um período pleno de enganos e mentiras na imprensa. É neste contexto que surge a mais famosa fraude da imprensa da época. O Moon Hoax foi um conjunto de histórias que o New York Sun publicou, em agosto de 1835, nas quais se relatavam e ilustravam as descobertas de um cientista que havia identificado vida na Lua (Castagnaro, 2012; Gorbach, 2018). Este caso desencadeou uma primeira discussão acerca “da natureza das notícias, da audiência e das expectativas de ‘realidade’” (Castagnaro, 2012, p. 255). Essa discussão antecipou uma outra, que teria lugar no final do século XIX, quando o chamado Yellow Journalism foi acusado de instigar a guerra entre Espanha e os EUA (Castagnaro, 2012; Spencer, 2007). O “fake” tornara-se uma realidade tão presente no jornalismo americano ao longo do século XIX, que chegou a ter uma leitura diferente de “lying”. Na revista Writer, dedicada ao ofício da escrita, William Hills escrevia em 1887 sobre o jornalista: “ele deve ser capaz de ‘enganar’ [fake] brilhantemente para fazer o seu trabalho bem. Tem de ser um romancista dotado” (Tucher, 2013, p. 93). Hills referia-se à arte de colocar no texto pormenores que, embora não verdadeiros, pudessem tornar a história mais entusiasmante para o leitor. Completavam-na no que era omissa, mas não deveriam alterar o contorno dos factos da narrativa e, precisamente, por isso, “to fake” não era o mesmo que “to lie” (Tucher, 2013, p. 93). Era uma pr tica comum, desculpada pelos pares, desde que em prol da verdade (Tucher, 2013; Schudson, 1978). Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 54 (2021) | 122 - 139 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i54.07 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 125 Fake news: como compreender a evolução do engano mediado Sílvio Correia Santos Não obstante a gradação moral desses embustes, no final do século XIX, estas práticas tinham materializado uma vaga de falsidade (Creech e Roessner, 2019). A palavra “fake”, jargão endógeno para referência a esse embelezamento da história, saltava, nessa altura, para as bocas das pessoas, já como expressão de uma nova inquietação dos leitores em relação ao dever de verdade do jornalismo (Tucher, 2013; Creech e Roessner, 2019). Percebia-se que a atitude dos jornalistas tivera consequências, porquanto muitos leitores tinham, até então, construído uma ideia do jornalismo como meio sensacionalista e pouco fidedigno (McChesney, 2010; Creech e Roessner, 2019). Porém, algo estava a mudar. Do lado dos publishers, crescia a convicção de que, economicamente, um jornalismo neutro e não enviesado podia ser bom (McChesney, 2010, p. 301). Essa motivação empresarial acabou por conduzir à divisão entre a imprensa informativa, focada nos factos, de que era um exemplo o New York Times; e a Yellow Press, sensacional, focada nas histórias e no entretenimento, onde se destacava o New York World, dirigido por Pulitzer (Roggenkamp, 2013; Schudson, 1978). Esta bifurcação levará à adoção, já nos anos 20 e 30 do século XX, da objetividade como ideal (Schudson, 1978). A objetividade surgiu como um método que permitia responder a um ceticismo crescente, impulsionado pelo mercado e pela democracia, numa cultura em mudança na qual os factos precisavam de ser confiáveis (Schudson, 1978, p. 122). É este o contexto da criação do jornalismo profissional moderno, com o nascimento das primeiras escolas de jornalismo nos EUA e uma separação entre o que é editorial e o que é da gestão (McChesney, 2010, p. 302). É o momento em que passa a ser expectável confiar no jornalismo. 3. PARA UMA DELIMITAÇÃO CONCEPTUAL DA VERDADE E DA FALSIDADE NO JORNALISMO É frequente encontrarem-se sobreposições ou equívocos conceptuais quando se aborda este domínio. Porém, é fundamental perceber de que forma diferentes práticas e conceitos se conjugam ou excluem, para se contribuir para um quadro de referência epistemológico sólido. Uma primeira delimitação remete para três conceitos: “verdade [truth] significa uma correspondência entre a linguagem e o estado das coisas; mentira [lying] é uma tentativa de induzir em erro usando linguagem que o falante sabe ser falsa; e engano [deception] é uma tentativa de induzir em erro usando linguagem” (Blum, p. 291). O engano é, tendencialmente, uma categoria mais ampla, na qual a mentira pode ser incluída. Faz parte de uma série de comportamentos interpessoais, conhecidos como aversivos (Bryant, 2008). Tal como o engano é próprio da natureza humana, a verdade sempre foi essencial para o desenvolvimento da sociedade (Bok, 1979). A verdade é a atitude expectável na relação interpessoal. Ao longo do século XX, as pessoas habituaram-se, também, a esperar que o jornalismo fosse uma fonte de informação verdadeira. O jornalismo Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 54 (2021) | 122 - 139 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i54.07 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 126 Fake news: como compreender a evolução do engano mediado Sílvio Correia Santos integra o que Foucault designou por “regimes da verdade” (1980), sendo claros os mecanismos e as instâncias que, diariamente, enformam a notícia como representação do real. A notícia é, como Robert Park (1940) postulou, um instrumento para conhecer o mundo. É nessa medida que o jornalismo existe, como lembram Kovach e Rosenstiel, para proporcionar aos cidadãos a informação de que eles precisam para serem livres e capazes de se autogovernarem (2014). O engano impede esse processo, como descreve Bok: “na medida em que o conhecimento d poder, então a mentira afeta a distribuição do poder; aumenta o poder de quem mente e diminui o do enganado, alterando as suas escolhas a diferentes níveis” (1979, p. 20). Um engano apresenta-se como uma manifestação intrincada e diversa. Para compreender essa complexidade, Bryant propõe um quadro com cinco dimensões, que podem ter diversas gradações: a) a intenção, que pode ir da maldade à bondade; b) as consequências, que medem o impacto da mentira; c) quem beneficia dela, uma vez que esta pode ir do altruísmo ao benefício próprio; d) qual é o grau de verdade, que pode ir do parcial ao inexistente; e e) a aceitabilidade, que depende das circunstâncias do engano (2008, p. 30-31). Se direcionarmos o foco para o domínio dos media, para o chamado ecossistema informacional, a primeira delimitação conceptual que devemos convocar é a de “desordem informacional”, proposta por Wardle e Derakshan, que compreende três dimensões: dis-information, “informação que é falsa e deliberadamente criada para prejudicar”; mis-information, “falsa mas não criada com a intenção de causar mal”, e mal-information, “informação que é baseada na realidade, usada para causar dano” (2017, p. 20). É aqui que se situam as chamadas fake news, uma expressão frequentemente usada para designar uma grande variedade de manifestações. A notícia falsa é uma das formas de engano mediado - “mediated deception” como é designado por Finneman e Thomas (2018, p. 2) e pode tomar várias formas. A proposta de Tandoc, Lim e Ling (2017) consiste numa classificação ao longo de dois eixos, o da intenção e o da factualidade. Fake news pode, assim, referir-se a: a) conteúdos de sátira, de que o Daily Show será o exemplo mais conhecido, que usam humor para abordar as notícias; b) paródia, que também recorre ao humor e ao formato das notícias convencionais, diferindo da sátira na inclusão de informações não-factuais; c) fabricação de notícias, textos sem base factual, que procuram passar por credíveis; d) manipulação de imagem, que pode ir da simples colocação de um filtro de cor à alteração narrativa; e) publicidade e relações públicas, onde se incluem, por vezes, materiais em forma de notícia ou, mais recentemente, formas como o clickbait; e f) propaganda, a criação de mensagens no campo político com intenção de moldar a perceção pública (Tandoc, Lim e Ling, 2017, p. 5-11). Colocando esta tipologia na matriz axial de verdade e factualidade, observa-se que a sátira tem baixa intenção Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 54 (2021) | 122 - 139 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i54.07 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 127 Fake news: como compreender a evolução do engano mediado Sílvio Correia Santos de enganar e alta factualidade, uma vez que recorrem a factos reais. A fabricação terá baixa factualidade e alta intenção de enganar (Tandoc, Lim e Ling, 2017). Esta é, porventura, a dimensão central da notícia falsa: a intenção ou não de dolo. Como explicava Bok, “a questão moral sobre se estamos ou não a mentir não se resolve ao estabelecer a falsidade do que se diz. (...) É preciso saber se [o/a autor(a)] tinha intenção de enganar com a frase” (1979, p. 6). A partir daí, aquilo que se diz ou escreve pode tomar as mais diversas formas, manipulando, distorcendo ou equivocando (McCormack, 2009). A aceção da expressão que hoje causa mais preocupação - a dos conteúdos fabricados (Tandoc, Ling e Lim, 2017) - refere-se a um conteúdo muito específico. É algo que, em geral, tem intenção de desinformar, aproximação estética à notícia, e adota elementos narrativos próprios do jornalismo ( omeroodríguez, Valle-Razo e TorresToukoumidis, 2018, p. 270). 4. DO QUE FALAMOS HOJE PARA EXPLICAR O BOOM DA DESINFORMAÇÃO? A manipulação através da informação mediada não é recente, nem nunca deixou de ocorrer, apesar de hoje o contexto ser distinto do que existia antes da Web 2.0. Para além das tendências já mencionadas, a pesquisa tem identificado outros movimentos, características ou, simplesmente, buzzwords que, com maior ou menor consenso, têm sido convocados para explicar o fenómeno. Entre eles, destacam-se: a) a polarização; b) os populismos; c) os comportamentos do produser e as resistências cognitivas; d) a relativização do facto; e) a crise de confiança no jornalismo e na política; e f) a matriz algorítmica da internet. Muitos destes aspetos inter-relacionam-se e articulam-se com outras tendências já mencionadas. Porém, a análise do impacto da desinformação a partir destes prismas oferece insights relevantes para a compreensão do problema. A ideia de polarização não é nova, apesar de poder ser exacerbada pela matriz algorítmica da internet. Não obstante, a adoção de posições extremadas que refletem uma mundivisão maniqueísta do bom e do mau, do eu e do outro, tem crescido neste contexto (Hetherington e Weiler, 2009). Autores como Poole e Rosenthal (1984) identificavam, já na década de 1980, uma polarização crescente no terreno da política americana que impedia uma representação mais fiel do eleitorado middle-of-the-road. Essa tendência tem-se acentuado nos últimos anos (McCarty, Poole e Rosenthal, 2016), ganhando muita visibilidade com a presidência de Donald Trump. A polarização política é, igualmente, crescente na visão pública da ciência (Lewandowsky, Gignac e Oberauer, 2013), como acontece, especificamente, com o problema do aquecimento global (McCright e Dunlap, 2011). Nesse tema concreto, a divisão começou por refletir visões políticas opostas (Antonio e Brulle, 2011). No entanto, foi-se desenvolvendo uma linha paralela aos opositores que argumentam eticamente contra. Esse é o pantanoso terreno dos chamados negacionistas. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 54 (2021) | 122 - 139 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i54.07 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 128 Fake news: como compreender a evolução do engano mediado Sílvio Correia Santos O negacionismo tem tido uma visibilidade crescente. Como explicam Russell e Blackburn, “é a rejeição de factos científicos indiscutíveis (...). Difere do debate científico, que surge da incerteza implícita no método científico” (2017, p. 3). Com efeito, não é a mesma coisa que o ceticismo científico, uma vez que não se baseiam ambos num mesmo sistema de verificação. A negação dos factos e da ciência tem sido bastante estudada: alterações climáticas (Sezen-Barrie, Shea e Borman, 2019), espécies invasoras (Russell e Blackburn, 2017), HIV-SIDA/AIDS, (Chigwedere, et al., 2008; Kalichman, 2009), as vacinas (Flaherty, 2011; Schmid e Betsch, 2019), o Holocausto (Atkins, 2009) ou, mais recentemente, a COVID-19 (Jaiswal, LoSchiavo, e Perlman, 2020). Com diferentes impactos para a saúde pública, estes movimentos não são, efetivamente, novos. É a estrutura comunicacional da sociedade em rede que favorece a sua visibilidade e lhes proporciona espaço de crescimento. No contexto da infoxicação, anteriormente mencionada, estes posicionamentos são altamente apelativos para determinados media, beneficiando a sua exposição da falta de contexto e verificação por parte dos jornalistas. Nesta linha, os movimentos populistas tiveram, igualmente, uma visibilidade aumentada nos últimos anos, sobretudo com a campanha eleitoral e o subsequente mandato de Donald Trump. Porém, antes dele, houve vários movimentos na Europa e não só. Nada disto é novo, uma vez mais. Como explica Mudde, o populismo “é uma ideologia que considera que a sociedade est separada em dois grupos homogéneos e antagonistas, ‘o povo puro’ contra ‘a elite corrupta’, e defende que a política deve ser uma expressão da ‘volonté générale’ do povo” (2007, p. 543). Essa expressão é materializada num discurso simplista e emotivo sobre a realidade social ou política, apontado às “entranhas” do povo (Mudde, 2007, p. 543), refletindo os seus medos e revoltas e propondo soluções simplistas que permitam resolver os problemas que, em última instância, são quase sempre causados por uma elite corrupta e moralmente inferior ao povo (Mudde, 2007; Muller, 2016). O populismo é aquilo que Mudde (2007) chamou de ideologia “thincentred”, podendo ser combinado com outras ideologias. O conceito de “thin-centred” foi cunhado por Freeden (1996; 1998) para se referir a um movimento que se isola de quadros ideológicos mais amplos e coerentes. Também aqui há grande recetividade por parte do contexto da infoxicação, que se alimenta da espetacularização e do impacto rápido. Muitos movimentos populistas têm boa aceitação nos media cuja matriz de infoentretenimento é mais vincada, como explica Prior (2019). As suas argumentações simplistas de causa e efeito parecem também muito apropriadas ao terreno comunicacional atual. Para além da sua utilização pelos movimentos negacionistas, as estratégias que recorrem à fabricação informativa foram recentemente associadas a movimentos populistas. A utilização do WhatsApp na eleição do presidente brasileiro Jair Bolsonaro e o episódio do “kit gay” são disso exemplo (Davis e Straubhaar, 2019). Uma vez mais, Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 54 (2021) | 122 - 139 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i54.07 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 129 Fake news: como compreender a evolução do engano mediado Sílvio Correia Santos importa invocar Trump, um caso de estudo paradigmático sobre a comunicação mediada por plataformas sociais e a fabricação de informação (Bovet e Maske, 2019; Allcott e Gentzcow, 2017; Bakir e McStay, 2017; Guess, Nyhan e Reifler, 2018; McIntyre, 2018; entre outros). A sua ação foi tão marcante que o Twitter baniu permanentemente Trump, no início de 2021; antes disso, tanto o Twitter como o Facebook haviam começado a colocar etiquetas nas mensagens de Trump, quando estas continham informação enganosa ou não confirmada. Manjoo (2008) explica que foi este maniqueísmo que acabou por nos conduzir a uma luta global sobre o que é ou não real. Nos últimos anos, uma expressão tem emergido para designar o terreno dessa batalha: pós-verdade. O uso do prefixo “pós” significa, habitualmente, o que está para lá de algo. Neste caso específico, ilustra algo que se tornou irrelevante. Pós-verdade, como explica McIntyre, não implica a não existência de verdade, mas sim a desvalorização das evidências que a suportam. Mihailidis e Viotty (2018) explicam como, ao invés de procurarem a verdade como unificação, as pessoas podem procurar “verdades” que sustentem as suas posiç es antagónicas (2018, p. 8). A Web 2.0 veio facilitar a cada um a possibilidade de escolher a sua “verdade” (Manjoo, 2008). Há quem defenda que a matriz algorítmica da internet e das plataformas sociais pode favorecer esta construção de uma verdade alternativa. Mesmo antes de se tornar relevante na vida das pessoas, a internet trazia a promessa de o utilizador receber apenas a informação que lhe interessava, impedindo-o de sucumbir perante a quantidade (Negroponte, 1996; Sunstein 2007). O que começou por parecer positivo, originou alguma preocupação, particularmente, a partir de 2009, quando a Google operou uma mudança fulcral no seu motor de busca. Os resultados de qualquer pesquisa deixavam de ser iguais para todos os utilizadores, uma vez que o algoritmo passava a ter em conta informações individuais e preferências de pessoas classificadas com perfis semelhantes, tentando desta forma prever os gostos individuais e modificando-se, assim, a forma como cada um encontra informação nova (Pariser, 2011). Esta dinâmica, que Pariser chamou de “filter bubble” representa uma cisão, na medida em que cada utilizador está sozinho na sua bolha, essa bolha é invisível e a participação nela não é opcional (Pariser, 2011, p. 12). O que estas visões defendem é que a matriz algorítmica funciona como um gatekeeper que reforça convicções existentes e promove uma realidade individual na qual se tem contacto limitado com a diferença, o que pode ser pernicioso quando se trata de posições políticas extremistas. Sunstein (2007) havia chamado este fenómeno de “echo chambers”. Estas leituras, embora teórica e argumentativamente válidas, têm encontrado oposição em alguma pesquisa. É o caso dos trabalhos de Flaxman, Goel e Rao (2016) ou Krafft, Gamer e Zweig (2017) que mostram que o impacto destes processos poderá ser, na prática, modesto. No mesmo sentido, Messing e Wetwood (2014) mostram que as redes sociais favorecem o contacto com a diferença ideológica e destacam que o Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 54 (2021) | 122 - 139 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i54.07 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 130 Fake news: como compreender a evolução do engano mediado Sílvio Correia Santos Jenkins, H. 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É um melómano apaixonado pelo som, aprendiz de jardinagem e desportista por prazer. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 54 (2021) | 122 - 139 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2021.i54.07 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 139 Fake news: como compreender a evolução do engano mediado Sílvio Correia Santos