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ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA ANA CATARINA PEREIRA ALFREDO TAUNAY LILIANA ROSA NELSON ARAÚJO (Editores) DIÁLOGOS E INQUIETUDES ARTÍSTICAS CINEMA E OUTRAS ARTES III LABCOM COMUNICAÇÃO & ARTES
CINEMA E OUTRAS ARTES III DIÁLOGOS E INQUIETUDES ARTÍSTICAS ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA ANA CATARINA PEREIRA ALFREDO TAUNAY LILIANA ROSA NELSON ARAÚJO (Editores) LABCOM COMUNICAÇÃO & ARTES
Título Cinema e Outras Artes III Diálogos e Inquietudes Artísticas Editores Anabela Branco de Oliveira, Ana Catarina Pereira, Alfredo Taunay, Liliana Rosa, Nelson Araújo Editora LabCom www.labcom.ubi.pt Coleção Ars Direção Francisco Paiva Revisão Com o apoio do Departamento de Artes da UBI e da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação – Sopcom Design Gráfico Liliana Rosa (capa) Cristina Lopes (paginação) ISBN 978-989-654-664-9 (papel) 978-989-654-666-3 (pdf) 978-989-654-665-6 (epub) DOI 10.25768/20.04.05.01.12 Depósito Legal 469489/20 Tiragem Print-on-demand Universidade da Beira Interior Rua Marquês D’Ávila e Bolama. 6201-001 Covilhã. Portugal www.ubi.pt Covilhã, 2020 © 2020, Anabela Branco de Oliveira, Ana Catarina Pereira, Alfredo Taunay Liliana Rosa, Nelson Araújo. © 2020, Universidade da Beira Interior. O conteúdo desta obra está protegido por Lei. Qualquer forma de reprodução, distribuição, comunicação pública ou transformação da totalidade ou de parte desta obra carece de expressa autorização do editor e dos seus autores. Os artigos, bem como a autorização de publicação das imagens, são da exclusiva responsabilidade dos autores. Ficha Técnica
PARTE 2 PINTURA 123 Refutação de posição de Andrei Ujica e Boris Groys. Partilhas: cineastas-pintores/pintores-cineastas 125 Carlos Alberto de Matos Trindade e Maria Elisa Coelho de Almeida Trindade O impulso ecfrástico no filme-ensaio: uma análise a partir de Santiago, de João Moreira Salles 147 Jorge Vaz Gomes O Regresso – Exemplo de um filme em diálogo com outras artes 161 Maria do Rosário Lupi Bello O que procuram e encontram os pintores no cinema? 177 Fausto Cruchinho Reflexões em torno das possíveis referências artísticas para a reconstituição histórica no filme Os crimes de Limehouse, de Juan Carlos Medina 193 Carlos Alberto de Matos Trindade Mário Peixoto’s Limite|Limit (1931) in between avant-garde and modernism 215 Juliana Froehlich PARTE 3 PROCESSOS CRIATIVOS 237 Hello, this is my day today – dos Weather Diaries de George Kuchar à geração pós-internet 239 Ana Luísa Azevedo A enciclopédia como arte cinematográfica: ensaio sobre um género impossível e indispensável 259 Luís Nogueira
REFUTAÇÃO DE POSIÇÃO DE ANDREI UJICA E BORIS GROYS. PARTILHAS: CINEASTAS-PINTORES/PINTORES-CINEASTAS Carlos Alberto de Matos Trindade e Maria Elisa Coelho de Almeida Trindade Introdução Num dos textos do catálogo da exposição dedicada a David Lynch, na Fundação Cartier, em Paris (2007), aquele que regista uma conversa entre o crítico de arte e filósofo alemão Boris Groys e o argumentista e realizador romeno Andrei Ujica (2007: 105-112), é colocada uma questão não muitas vezes abordada. Segundo Ujica, procurando evidenciar o caso singular de Lynch, aqueles cineastas cujas origens ou fonte de criatividade se situam na Pintura foram sempre, no Cinema, uma minoria, constituindo mesmo o grupo mais pequeno. Como diz, “… a maior parte dos cineastas vem da literatura, e sobretudo da prosa, por vezes também vêm do teatro, uns poucos da poesia, o que torna manifesto que o cinema é essencialmente uma arte narrativa” (Groys & Ujica, 2007: 107 [tradução nossa]). Mas como também admite, essa minoria, na história do Cinema, não foi de maneira nenhuma insignificante. Os exemplos mais significativos que aponta dessa minoria (saliente- -se, que só refere estes) são os seguintes: Murnau, que estudou História da Arte e cuja contribuição principal foi transpor para o cinema um estilo de pintura, o Expressionismo; Tarkovsky, cuja aspiração mais profunda terá sido sempre ser pintor, prática que não exerceu senão como hobby, assim como não se tornou poeta, o seu outro grande desejo; e David Lynch.
Refutação de posição de Andrei Ujica e Boris Groys. Partilhas: cineastas-pintores/pintores-cineastas 126 O que distinguiria este último é que trabalhou como artista plástico desde o início da carreira, e continua a fazê-lo, embora, a partir do momento em que os seus filmes lhe deram renome internacional, essa faceta teria ficado, por assim dizer, ‘obscurecida’. Ora, é facilmente comprovável que o que afirmam os dois autores citados é, em certa medida, pouco rigoroso, como procuraremos demonstrar: trata-se de um erro de avaliação ou revela desconhecimento; ou, então, intencionalmente procuram desvalorizar a contribuição dos cineastas com formação em artes plásticas. Cineastas-pintores/pintores-cineastas Começamos por referir, propositadamente, um conjunto de cineastas que, como Lynch, prosseguiram uma carreira como artistas plásticos. São eles: os ingleses Humphrey Jennings, Derek Jarman e Peter Greenaway, o japonês Hiroshi Teshigahara, e o norte-americano Julian Schnabel. Filho de pai arquitecto e mãe pintora, Humphrey Jennings (1907, Walberswick – Poros, Grécia, 1950), conhecido como cineasta sobretudo pelos documentários que realizou durante a II Guerra Mundial, como Listen to Britain (1942), começou a pintar antes de realizar filmes, tendo sido também cenógrafo de teatro. Em 1934 juntou-se à GPO Film Unit, dirigida por John Grierson, mas continuou a pintar e a expor; em 1936, expôs na Exposição Surrealista Internacional de Londres (nas Burlington Galleries), da qual foi aliás um dos organizadores, juntamente com André Breton, Herbert Read e Roland Penrose1. Elena Von Kassel-Siambani (2007: 184) também o perfila como um precursor da Pop Art, por considerar que as suas colagens são muito próximas das realizadas em 1956 por Richard Hamilton. 1. Também foi co-fundador da revista London Bulletin, órgão oficial do movimento surrealista inglês. O primeiro número foi editado em Abril de 1938, ainda com o título London Gallery Bulletin, depois abreviado nos números seguintes.
Carlos Alberto de Matos Trindade e Maria Elisa Coelho de Almeida Trindade 127 Imagens 1 e 2: Humphrey Jennings, The House of the Woods (1939-44), à esquerda; Train (Locomotive), 1939-49, à direita. Pinturas a óleo s/ tela. Filho de um artista multifacetado, Hiroshi Teshigahara (Tóquio, 1927-2001) graduou-se em 1950 na Tokyo National University of Fine Arts. Pintor e escultor – também ceramista, calígrafo, encenador de nô –, celebrado cineasta de vanguarda, iniciou a sua carreira no cinema com o documentário Hokusai (1953), dedicado ao famoso pintor japonês do século XIX. Mas ficou conhecido sobretudo por dois filmes adaptados de novelas do escritor japonês Kobo Abe: Woman in the Dunes, de 1964, que lhe valeu o Prémio Especial do Júri no Festival de Cannes do mesmo ano, e foi nomeado em 1965 para o Óscar de melhor filme estrangeiro, e The Face of Another (1966). Como pintor, foi influenciado pela arte ocidental, sobretudo pelos surrealistas – além dos cubistas –, mas pretendeu retratar a realidade social e política japonesa2. Mais tarde, como escultor, celebrizou-se pelas suas instalações com bambus3, tendo participado – com Passage de bambous – nomeadamente na famosa exposição Magiciens de la Terre, no Centro Georges Pompidou e na Grande Halle de la Villette (1989), considerada um dos momentos fundadores do processo de globalização da arte contemporânea. 2. Para um maior desenvolvimento sobre as características da obra de Hiroshi, e sobretudo enquanto pintor e cineasta, vd. Jacline Moriceau (2010: 126-139). 3. De facto, descendia de uma linhagem de artesãos do ikebana (arranjo floral), antiga prática aristocrática. O seu avô Wafu foi um mestre famoso, e o pai Sofu fundou, em 1926, a Sogetsu School of Ikebana, com a qual impulsionou a ideia do ikebana como forma artística, mais do que prática decorativa, ao incorporar outros materiais além de flores. Em 1979, após a morte do pai, assumiu a direcção da escola, como o iemoto (‘grande mestre’), e alargou o ikebana a novos territórios.
Refutação de posição de Andrei Ujica e Boris Groys. Partilhas: cineastas-pintores/pintores-cineastas 128 Imagens 3, 4 e 5: Hiroshi Teshigahara, xilogravura para edição do Seiki no Kai (The Century Association), 1949/50, à esquerda; Lunch (1953), pintura a óleo sobre tela, ao centro; Dancing Bamboo (1997), instalação no Hiroshima Museum of Contemporary Art, à direita. Após ter estudado História da Arte no King’s College, em Londres, Derek Jarman (1942, Northwood – Londres, 1994), que também foi poeta, prosseguiu os seus estudos em Pintura na Slade School of Art, a partir de 1963. Considerou-se sempre sobretudo um pintor, que teve a oportunidade ocasional de usar o filme ou o vídeo para alguns projectos. De facto, Jarman nunca se assumiu como cineasta, apesar de ser autor de um número apreciável, e relevante, de filmes. O último, o seu filme-testamento, Blue (1993)4, ficou para a história como uma experiência-limite em termos formais, ao mesmo tempo mais pessoal e mais arrojado do que os precedentes: insólito e difícil de classificar, até porque pode parecer um contra-senso apelidar como ‘filme’ uma película que não contém qualquer iconografia para projectar; todavia, persiste a luz, a projecção ininterrupta de um raio de luz azul no ecrã rectangular transformado num campo de cor, que vai variando, umas vezes mais escuro outras vezes mais claro, apenas acompanhada de uma banda sonora eclética, em que se cruzam diversas narrativas com acompanhamento musical e efeitos de som (naturalistas ou abstractos). O mínimo que se pode dizer em relação a Peter Greenaway (n. 1942, Newport, País de Gales) é que as referências à história da arte, e sobretudo à pintura, são uma constante nos seus filmes, mesmo quando estes não abordam directamente temas artísticos. Além disso, é possível estabelecer uma continuidade temática entre as obras que produziu na qualidade de artista plástico e alguns filmes que realizou. Acresce que muitos dos seus 4. Realizado quando já estava muito debilitado e praticamente cego devido à sua situação de doente terminal de Sida (AIDS).
Carlos Alberto de Matos Trindade e Maria Elisa Coelho de Almeida Trindade 135 pintou cenários para o teatro, e realizou ilustrações para livros. Também se sabia que, por vezes, devido a problemas de financiamento para os seus projectos se serviu do seu talento para pagar o salário dos seus colaboradores, com pequenas pinturas15. Contudo, talvez não se tivesse uma verdadeira consciência da amplitude do seu labor enquanto pintor: uma lacuna colmatada com o recente documentário The Eyes of Orson Welles (2018), de Mark Cousins16. Os italianos Michelangelo Antonioni (1912, Ferrara – Roma, 2007), Damiano Damiani (1922, Pasiano di Pordenone – Roma, 2013) e Pier Paolo Pasolini (1922, Bolonha – Óstia, 1975). Após ter frequentado a Academia de Belas-Artes de Brera, Milão, Damiani iniciou-se no cinema como decorador e cenógrafo, antes de ter passado à realização. Antonioni, arquitecto de formação, começou desde jovem a pintar e desenhar, e nunca deixou de o fazer. A influência da pintura nos seus filmes fez-se sentir através do tratamento do espaço, muito enquadrado e organizado, mas também no interesse que sempre prestou às possibilidades do uso expressivo da cor no cinema. Nos últimos anos, sucederam-se exposições em que foram expostas pinturas suas, sobretudo uma série de pequenas aguarelas de carácter quase abstracto que começou a produzir no início da década de 196017, intitulada Montagne incantate, a que aplicou um processo experimental: em finais dos anos 70, resolveu fotografá-las para ampliar os detalhes, convertendo as miniaturas em impressões de grande formato. Também Pasolini, nome maior do cinema e da literatura italiana do pós-II Guerra Mundial, foi pintor autodidacta. Coincidindo com uma retrospectiva dos seus filmes no MoMA de Nova Iorque (13 Dezembro 2012 / 5 Janeiro 15. Como aconteceu quando fez uma adaptação do Mercador de Veneza, de Shakespeare: vd. JeanPierre Berthomé e François Thomas (2007: 286). 16. Entretanto, na sequência da estreia do documentário, foi editada a seguinte obra, que se aconselha a quem queira conhecer melhor esta faceta de Orson Welles: Simon Braund (2019). Orson Welles portfolio. Sketches and Drawings from the Welles Estate. Londres: Titan Books. 17. Mas também as realizadas a partir de 2001, sobre tela ou cartão.
Refutação de posição de Andrei Ujica e Boris Groys. Partilhas: cineastas-pintores/pintores-cineastas 136 2013), esteve patente numa galeria do Soho a exposição Pier Paolo Pasolini: Portraits, Self Portraits,que apresentou 40 pinturas e desenhos, divulgando junto do grande público esta faceta menos conhecida da sua actividade artística. Pasolini começou a interessar-se pela pintura ainda jovem estudante, após as aulas de História da Arte que teve na Universidade de Bolonha, no início dos anos 1940, com o proeminente historiador Roberto Longhi, e manteve ao longo dos anos actividade regular como pintor diletante, embora com alguns hiatos. Os seus pintores favoritos foram Masaccio, Giotto, Piero della Francesca e alguns maneiristas como Pontormo ou Rosso Fiorentino. Em filmes como Evangelho Segundo São Mateus (1964), La Ricotta, episódio de Rogopag (1963), ou Decameron (1971), no qual encarna ele próprio o papel do ‘melhor discípulo de Giotto’, como é designado, essas suas preferências são muito óbvias. Imagens 12, 13 e 14: O. Welles, auto-retrato, n. datado, à esquerda; Antonioni, aguarela da série Montagne incantate, ao centro; Pasolini, Self-Portrait with a Flower in His Mouth (1947), óleo s/cartão, à direita. Os polacos Andrzej Wajda (1926, Suwalki – Varsóvia, 2016), Roman Polanski (n. 1933, Paris) e Jerzy Skolimowski (n. 1938, Łódź). Depos de ter cursado a Academia das Belas-Artes de Cracóvia, Wajda transitou para a National Film School em Łódź, onde se diplomou. A pintura foi uma influência marcante na sua linguagem visual, em particular a polaca, como esclarece no documentário My inspirations (2016), onde compara pinturas específicas a imagens dos seus filmes. Também foi um notável desenhador, que andava sempre com um sketchbook; o desenho foi sempre
Carlos Alberto de Matos Trindade e Maria Elisa Coelho de Almeida Trindade 137 para ele uma ferramenta importante para o ajudar a concretizar as suas ideias. Polanski, em 1950, iniciou estudos na Escola de Belas Artes de Cracóvia, e concluiu-os em Katowice, antes de estudar Realização na Escola de Łódź (a partir de 1954). Skolimowski, nome essencial do cinema polaco, considerado o ‘pai’ da Nouvelle Vague do seu país, graduou-se na Faculdade de Etnografia de Varsóvia antes de ingressar na Escola de Łódź. Além de argumentista e actor, realizou mais de 20 filmes desde 1960; porém, a partir de 1991 (entre este ano e 200818, não realizou qualquer filme), dedicou-se sobretudo à actividade de pintor, que considera a sua verdadeira paixão, e hoje em dia encara-se mais como artista plástico do que como cineasta19. Influenciado pelo expressionismo abstracto, e também por Francis Bacon, produz normalmente obras de grande escala, em muitas das quais a figura humana tem presença relevante: têm sido expostas regularmente desde 1996, quer em exposições individuais, quer em colectivas. Se ainda concede filmar de vez em quando, tal parece dever-se em grande parte a razões financeiras, como referiu numa entrevista: NOTEBOOK: If you’ve found that you prefer painting to filmmaking, then why make films? SKOLIMOWSKI: It’s difficult to make a living out of painting, and since I paint large-sized [canvases], there are not too many of them. Working on a film is economically much more rewarding. And also, I know that I have a certain talent for filmmaking, and I shouldn’t be wasting it. [jokingly] I prefer painting, but from time to time I have to suffer and go make a movie. (Skolimowski apud Sachs, 2011) 18. Ano de que data o filme Quatro noites com Ana. Seguiu-se o thrillerpolítico Essential Killing, que recebeu o Prémio especial do Júri no Festival de Veneza de 2010. 19. Em 2015, recebeu um doutoramento honoris causa da Academia de Belas Artes de Łódź.
Refutação de posição de Andrei Ujica e Boris Groys. Partilhas: cineastas-pintores/pintores-cineastas 138 Imagens 15, 16 e 17: Andrzej Wajda, desenho (1987), à esquerda; Jerzy Skolimowski, Selfportrait e The Judgement (2000), óleo s/tela, ao centro e à direita. Também foram pintores o russo-arménio Sergei Parajanov (1924, Tbilisi – Erevan, 1990), o italiano Ermanno Olmi (n. 1931, Treviglio, Bergamo) e os franceses René Allio (1924, Marselha – Paris, 1995) e Maurice Pialat (1925, Cunlhat – Paris, 2003). Este último é, sem sombra de dúvidas, autor de um dos melhores filmes realizados até hoje sobre um artista: Van Gogh (1991); o qual se inicia com um plano de uma mão (do próprio Pialat) a pintar um céu azul. A pintura foi de facto a primeira vocação de Pialat, abandonada contra sua vontade, que se diplomou pela École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs de Paris, e chegou a expor no Salon des moins de 30 ans, após a Libertação de Paris no fim da II Guerra Mundial. Em 2013, por ocasião do décimo aniversário da sua morte, em paralelo com uma retrospectiva de todos os seus filmes, a Cinemateca Francesa organizou a exposição Pialat, Peintre et Cinéaste – patente entre 18 de Fevereiro e 7 de Julho –, na qual foi exposta uma selecção de 33 pinturas e 16 desenhos realizados entre 1942 e 1947, na sua maioria, entretanto depositados nas suas colecções (juntamente com arquivos inéditos) pela viúva do cineasta. Tratou-se de uma ocasião rara para entrar em contacto com uma faceta do futuro cineasta praticamente desconhecida do grande público: antes desta, apenas algumas das suas pinturas tinham sido expostas em 2003 (15 Setembro/30 Outubro) no
Carlos Alberto de Matos Trindade e Maria Elisa Coelho de Almeida Trindade 139 Grenierdes Grands-Augustins, seguindo-se outra no Institut Lumière em Lyon (6 Dezembro 2003/11 Janeiro 2004), por iniciativa de Sylvie Pialat. Imagens 18, 19 e 20: M. Pialat, Enfant assis, óleo s/tela, à esquerda; Paysage, óleo s/tela, ao centro; R. Allio, Sans titre (1961), tinta s/papel, à direita. René Allio, pouco conhecido em Portugal – talvez, só através de La Vieille Dame indigne (1965), a sua primeira longa-metragem e a mais famosa –, antes de realizar filmes, iniciou a sua carreira artística como pintor, em paralelo com a de cenógrafo para teatro (e, mais tarde, também para óperas), onde alcançou grande notoriedade internacional, tendo sido colaborador habitual dos maiores encenadores da sua geração. A sua pintura de cariz abstracto informalista, fundada no traço do gesto, foi sempre reivindicada por ele como a unidade profunda de toda a sua obra. Alguns dos seus filmes, como Les Camisards (1973) ou Un médecin des Lumières (1988), revelam uma clara inspiração pictórica. Foi também um notável pensador sobre as relações entre o cinema e as outras artes, mormente a pintura.20 Entre os cineastas mais contemporâneos, encontramos ainda outros exemplos: Dennis Hopper, Rob Nilsson, Marco Bellocchio, Franco Piavoli, Abbas Kiarostami, Jean-Jacques Beineix, Lam Lê, Takeshi Kitano, Jane Campion, Hal Hartley, Todd Haynes, ou Matteo Garrone.21 20. Sobre a sua carreira relevante como pintor, cenógrafo e cineasta, vd. Guy Gauthier (1993). Para conhecer o seu pensamento, vd. René Allio (2016). 21. Sobre Marco Bellocchio, Franco Piavoli e Matteo Garrone, vd. Anna Maria Montaldo e Giona A. Nazzaro (2015). Sobre Lam Lê, vd. Jacques Faton, Benoît Peeters e Philippe de Pierpont (1992: 63-71).
Refutação de posição de Andrei Ujica e Boris Groys. Partilhas: cineastas-pintores/pintores-cineastas 140 O norte-americano Rob Nilsson (n. 1939, Rhinelander, Wiscosin), prestigiado autor do cinema independente, realizador (com John Hanson) de Northern Lights (1978), premiado com a Camèra d’or no Festival de Cannes de 1979, ou de Heat and Sunlight (1988), vencedor do Grande Prémio no Sundance Festival (1988), entre outros, é também actor, poeta e pintor. Estudou Arte na Universidade de Harvard, e começou a pintar durante uma estada na Europa, nos anos 60; autor de pinturas com cunho expressionista22, manteve desde então uma actividade regular. Tem realizado exposições do seu trabalho sobretudo em galerias na área de Cambridge/Boston, mas também em São Francisco. A pintura foi o primeiro amor do iraniano Abbas Kiarostami (1940, Teerão – Paris, 2016), diplomado pela Escola de Belas-Artes da Universidade de Teerão. Antes de iniciar a sua carreira no cinema, durante os anos 60, manteve uma grande actividade como ilustrador para livros de crianças, designer de cartazes e, sobretudo, na publicidade e na criação de genéricos para filmes. Homem de muitas facetas, o francês Jean-Jacques Beineix (n. 1946, Paris), realizador de Diva (1980), aquele que ainda será hoje o seu filme mais famoso, devido ao enorme sucesso de público e algum crítico, a sua primeira longa-metragem, ou de Betty Blue (37º,2 le matin, 1986), nomeado para o Óscar de melhor filme estrangeiro, é também argumentista, fotógrafo, escritor, músico (pianista) e pintor. Começou a dedicar-se à pintura na década de 1990, quando realizou a sua primeira exposição individual (em 1996); não é surpreendente esse seu interesse, como refere Karl French (2004: 20), “[c] onsidering his talent for elegantly designed compositions and other visual flourishes…” 22. O seu site oficial inclui uma secção onde podem ser vistas algumas das suas pinturas: https:// www.robnilsson.net/film.
Carlos Alberto de Matos Trindade e Maria Elisa Coelho de Almeida Trindade 141 Imagens 21, 22 e 23: R. Nilsson, pintura em capa de livro, à esquerda; Beinix, La fin du monde (2000), óleo s/tela, ao centro; Kitano, pintura para Hana-bi, à direita. Artista plástico autodidacta, Takeshi Kitano (n. 1947, Tóquio) começou a pintar em 1994 na sequência de um acidente de mota, como parte do seu processo de reabilitação23. As suas pinturas, muito idiossincráticas, puderam ser apreciadas publicamente, pela primeira vez, na grande mostra organizada em 2010 pela Fundação Cartier, em Paris: Beat Takeshi Kitano, Gosse de peintre (19 Março/12 Setembro). Até aí, recusara sempre expô- -las, por as considerar uma prática pessoal, privada: porém, pinturas suas marcam presença nos filmes Hana-bi (1997) e Kikujiro (1999), e, antes disso, publicara obras numa revista de arte japonesa (a Geijutsu Shincho). A mesma exposição – concebida como uma grande instalação, com objectos insólitos, cenários, máquinas, além das pinturas – foi apresentada depois em Tóquio em 2012 (na Tokyo Opera City Gallery). Jane Campion (n. 1954, Wellington, Nova Zelândia) diplomou-se em Pintura no Sydney College of the Arts (1979)24. Apesar de ter deixado de pintar, por causa da sua formação artística gosta de pensar através do desenho, que lhe é bastante útil no seu processo criativo, porque raciocina sobre um filme sobretudo em termos visuais. É ela própria que realiza sempre os storyboards para os seus filmes, a partir daquelas que considera serem as cenas-chave25. 23. Vd. Karl French (2004: 115-118). 24. Após se ter graduado em Antropologia, na Victoria University of Wellington. 25. Vd. entrevista com a realizadora em Mike Goodridge (2002: 80-83).
Refutação de posição de Andrei Ujica e Boris Groys. Partilhas: cineastas-pintores/pintores-cineastas 142 São filmes que, como Piano (1993) ou O Retrato de uma Senhora (1996), sem dúvida revelam um grande talento para a composição plástica das imagens. Figura importante do cinema independente norte-americano das décadas de 1980 e 1990, Hal Hartley (n. 1959, Lindenhurst, Long Island) estudou Pintura no Massachusetts College of Art, em Boston, antes de prosseguir uma formação cinematográfica26, e realizar os seus primeiros filmes. Hartley, que também é músico (sob o pseudónimo de Ned Rifle), terá optado pelo cinema em detrimento da pintura porque, como afirmou numa entrevista, “I was intrigued by fine art, but my skills were in graphic design” (Hartley apud Bauchet, 2010: 223)27. Contudo, um aspecto importante permaneceu da sua relação com a pintura; como é verificável, a cor tem uma grande importância nos seus filmes, que, em alguns, é bem viva, luminosa, como em Trust (1990) ou Amateur (1994). De facto, realça Marie-Cécile Bauchet: la couleur est utilisée comme ‘valeur ajoutée’; le cinéaste semble étendre la durée des plans, ralentir les mouvements de caméra afin que le spectateur puisse se concentrer, promener son regard sur la ‘composition de la couleur’, comme il le ferait sur une toile. (2010: 223) Em 2014, Hartley editou um livro28 contendo reproduções de pinturas suas de pequeno formato, dos seus anos de formação e inícios dos anos 80, além de storyboards, esboços e desenhos técnicos, realizados já no seu trabalho posterior no cinema e no teatro. Todd Haynes (n. 1961, Encino, Los Angeles) diplomou-se em Arts and Semiotics pela Brown University, onde começou a fazer experiências no cinema durante a década de 1980 – foi aí que dirigiu a sua primeira curta-metragem Assassins –, antes de se mudar para Nova Iorque onde se 26. Na Universidade de Nova Iorque: ingressou em 1980 na Purchase Film School. 27. A citação é retirada da seguinte obra: Hal Hartley (1992). Simple Men and Trust. Londres: Faber and Faber, p. xii. 28. Hal Hartley (2014). From Here to the Station. L.d.: Possible Films LLC. Edição limitada de 700 exemplares.
Carlos Alberto de Matos Trindade e Maria Elisa Coelho de Almeida Trindade 143 envolveu no cinema independente. A pintura e o desenho costumam fazer parte do processo criativo de Haynes, que tem revelado um sentido plástico apurado em filmes como Far From Heaven (2002), I’m Not There (2007) ou Carol (2015); nomeadamente para o estudo e caracterização das personagens principais e para a elaboração dos storyboards. O último citado é atravessado por muitas referências pictóricas, principalmente ao pintor norte-americano Edward Hopper. Imagens 24, 25 e 26: H. Hartley, Broke, pintura, à esquerda; T. Haynes, estudo para Far From Heaven (2002), pintura para I’m Not There (2007), ao centro e à direita respectivamente. Mas, além de todos aqueles que já referimos, também é significativo o número de realizadores que tiveram uma educação formal (académica), ou aprendizagem autodidacta e prática profissional, na área adjacente do Desenho, amiúde inseparável da Pintura. Por razões de limitação de espaço, limitamo-nos a nomeá-los: os franceses Georges Méliès (Paris, 1861-1938) e Patrice Chéreau (1944, Lézigné – Paris, 2013); o soviético Sergei M. Eisenstein (1898, Riga – Moscovo, 1948); os ingleses Alfred Hitchcock (1899, Londres – Los Angeles, 1980) e Ridley Scott (n. 1937, South Shields); o italiano Federico Fellini (1920, Rimini – Roma, 1993); o indiano Satyajit Ray (Calcutá, 1921-1992); os americanos Vincente Minnelli (1903, Chicago – Beverly Hills, 1986), Saul Bass (1920, Nova Iorque – Los Angeles, 1996), Terry Gilliam (n. 1940, Minneapolis) e Tim Burton (n. 1958, Burbank); o canadiano Gilles Carle (1928, Maniwaki – Granby, 2009); o espanhol Carlos Saura (n. 1932, Huesca); o mexicano Guillermo del Toro (n. 1964, Guadalajara).
Refutação de posição de Andrei Ujica e Boris Groys. Partilhas: cineastas-pintores/pintores-cineastas 144 Por fim, também não devemos deixar de referir o campo específico do Cinema de Animação, geralmente e erradamente considerado um género menor para crianças, mas que o insuspeito cineasta e teórico soviético Sergei M. Eisenstein considerava a forma mais pura e completa de cinema, onde muito naturalmente encontramos muitos nomes oriundos das artes plásticas. O mesmo acontece no campo específico do denominado Cinema Experimental ou vanguardista, onde tantas e fundamentais pesquisas se fizeram. Seria possível, assim pudéssemos, elencar dezenas de nomes. Referências bibliográficas Allio, R. (2016). Les Carnets I. 1958-1975. Lavérune: Éditions L’Entretemps. Ballester, J. P. (2011). La pintura en el cine y los ‘storyboards’ de Akira Kurosawa. In Los dibujos de Akira Kurosawa. La mirada del Samurái (pp. 47-48). Madrid: Fundación Colección ABC/ Tf Editores. Barsacq, L. (1970). Le Décor de Film. Paris: Éditions Seghers. Bauchet, M.-C. (2010). La couleur comme quête d’absolu dans l’oeuvre de Hal Hartley. In P.-L. Thivat (Dir.), LIGEIA Dossiers sur l’art. Peintres Cinéastes. XXIII Ano, n.º 97-98-99-100, Janeiro-Junho, pp. 221-232. Berthomé, J.-P., & Thomas, F. (2007). Orson Welles en acción. Madrid: Ediciones Akal. Braund, S. (2019). Orson Welles portfolio. Sketches and Drawings from the Welles Estate. Londres: Titan Books. Bresson, R. (1978). Bresson explica Bresson. In Bresson (pp. 30-33). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. DRAWING Into Film: Director’s Drawings (1993). Nova Iorque: Pace Gallery. Faton, J., Peeters, B., & Pierpont, P. de (1992). Storyboard – le cinéma dessiné. Paris: Editions Yellow Now. French, K. (2004). Art by Film Directors. Londres: Mitchell Beazley. Gallagher, T. (2007). King Vidor et la peinture. In P.-L. Thivat (Dir.), LIGEIA Dossiers sur l’art. Peinture et Cinéma. XX Ano, n.º 77-78-79-80, JulhoDezembro, pp. 206-211. Gauthier, G. (1993). Les chemins de René Allio. Paris: Les Éditions du Cerf.