Full text
ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA
ANA CATARINA PEREIRA
ALFREDO TAUNAY
LILIANA ROSA
NELSON ARAÚJO
(Edi o es)
DIÁLOGOS E INQUIETUDES ARTÍSTICAS
CINEMA E
OUTRAS ARTES III
LABCOM
COMUNICAÇÃO
& ARTES
CINEMA E
OUTRAS ARTES III
DIÁLOGOS E INQUIETUDES ARTÍSTICAS
ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA
ANA CATARINA PEREIRA
ALFREDO TAUNAY
LILIANA ROSA
NELSON ARAÚJO
(Edi o es)
LABCOM
COMUNICAÇÃO
& ARTES
Tí ulo
Cinema e Ou as A es III
Diálogos e Inquie udes A ís icas
Edi o es
Anabela B anco de Oli ei a, Ana Ca a ina Pe ei a,
Al edo Taunay, Liliana Rosa, Nelson A aújo
Edi o a LabCom
www.labcom.ubi.p
Coleção
A s
Di eção
F ancisco Pai a
Re isão
Com o apoio do Depa amen o de A es da UBI
e da Associação Po uguesa de Ciências da Comunicação
– Sopcom
Design G á ico
Liliana Rosa (capa)
C is ina Lopes (paginação)
ISBN
978-989-654-664-9 (papel)
978-989-654-666-3 (pd )
978-989-654-665-6 (epub)
DOI 10.25768/20.04.05.01.12
Depósi o Legal 469489/20
Ti agem P in -on-demand
Uni e sidade da Bei a In e io
Rua Ma quês D’Á ila e Bolama.
6201-001 Co ilhã. Po ugal
www.ubi.p
Co ilhã, 2020
© 2020, Anabela B anco de Oli ei a, Ana Ca a ina Pe ei a, Al edo Taunay
Liliana Rosa, Nelson A aújo.
© 2020, Uni e sidade da Bei a In e io .
O con eúdo des a ob a es á p o egido po Lei. Qualque o ma de
ep odução, dis ibuição, comunicação pública ou ans o mação da
o alidade ou de pa e des a ob a ca ece de exp essa au o ização do
edi o e dos seus au o es. Os a igos, bem como a au o ização de
publicação das imagens, são da exclusi a esponsabilidade dos au o es.
Ficha Técnica
PARTE 2
PINTURA 123
Re u ação de posição de And ei Ujica e Bo is G oys.
Pa ilhas: cineas as-pin o es/pin o es-cineas as 125
Ca los Albe o de Ma os T indade e Ma ia Elisa Coelho de Almeida T indade
O impulso ec ás ico no ilme-ensaio: uma análise a pa i de San iago,
de João Mo ei a Salles 147
Jo ge Vaz Gomes
O Reg esso – Exemplo de um ilme em diálogo com ou as a es 161
Ma ia do Rosá io Lupi Bello
O que p ocu am e encon am os pin o es no cinema? 177
Faus o C uchinho
Re lexões em o no das possí eis e e ências a ís icas pa a
a econs i uição his ó ica no ilme Os c imes de Limehouse,
de Juan Ca los Medina 193
Ca los Albe o de Ma os T indade
Má io Peixo o’s Limi e|Limi (1931) in be ween a an -ga de
and mode nism 215
Juliana F oehlich
PARTE 3
PROCESSOS CRIATIVOS 237
Hello, his is my day oday – dos Wea he Dia ies de Geo ge Kucha
à ge ação pós-in e ne 239
Ana Luísa Aze edo
A enciclopédia como a e cinema og á ica: ensaio sob e um géne o
impossí el e indispensá el 259
Luís Noguei a
REFUTAÇÃO DE POSIÇÃO DE ANDREI UJICA
E BORIS GROYS. PARTILHAS:
CINEASTAS-PINTORES/PINTORES-CINEASTAS
Ca los Albe o de Ma os T indade
e Ma ia Elisa Coelho de Almeida T indade
In odução
Num dos ex os do ca álogo da exposição dedicada a
Da id Lynch, na Fundação Ca ie , em Pa is (2007),
aquele que egis a uma con e sa en e o c í ico de
a e e ilóso o alemão Bo is G oys e o a gumen is a e
ealizado omeno And ei Ujica (2007: 105-112), é colo-
cada uma ques ão não mui as ezes abo dada. Segundo
Ujica, p ocu ando e idencia o caso singula de Lynch,
aqueles cineas as cujas o igens ou on e de c ia i idade
se si uam na Pin u a o am semp e, no Cinema, uma
mino ia, cons i uindo mesmo o g upo mais pequeno.
Como diz, “… a maio pa e dos cineas as em da li e-
a u a, e sob e udo da p osa, po ezes ambém êm do
ea o, uns poucos da poesia, o que o na mani es o que
o cinema é essencialmen e uma a e na a i a” (G oys
& Ujica, 2007: 107 [ adução nossa]). Mas como am-
bém admi e, essa mino ia, na his ó ia do Cinema, não
oi de manei a nenhuma insigni ican e. Os exemplos
mais signi ica i os que apon a dessa mino ia (salien e-
-se, que só e e e es es) são os seguin es: Mu nau,
que es udou His ó ia da A e e cuja con ibuição
p incipal oi anspo pa a o cinema um es ilo de pin-
u a, o Exp essionismo; Ta ko sky, cuja aspi ação mais
p o unda e á sido semp e se pin o , p á ica que não
exe ceu senão como hobby, assim como não se o nou
poe a, o seu ou o g ande desejo; e Da id Lynch.
Re u ação de posição de And ei Ujica e Bo is G oys.
Pa ilhas: cineas as-pin o es/pin o es-cineas as
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O que dis ingui ia es e úl imo é que abalhou como a is a plás ico desde o
início da ca ei a, e con inua a azê-lo, embo a, a pa i do momen o em que
os seus ilmes lhe de am enome in e nacional, essa ace a e ia icado, po
assim dize , ‘obscu ecida’.
O a, é acilmen e comp o á el que o que a i mam os dois au o es ci ados é,
em ce a medida, pouco igo oso, como p ocu a emos demons a : a a-se
de um e o de a aliação ou e ela desconhecimen o; ou, en ão, in encional-
men e p ocu am des alo iza a con ibuição dos cineas as com o mação
em a es plás icas.
Cineas as-pin o es/pin o es-cineas as
Começamos po e e i , p oposi adamen e, um conjun o de cineas as que,
como Lynch, p ossegui am uma ca ei a como a is as plás icos. São eles:
os ingleses Humph ey Jennings, De ek Ja man e Pe e G eenaway, o japo-
nês Hi oshi Teshigaha a, e o no e-ame icano Julian Schnabel.
Filho de pai a qui ec o e mãe pin o a, Humph ey Jennings (1907,
Walbe swick – Po os, G écia, 1950), conhecido como cineas a sob e udo pe-
los documen á ios que ealizou du an e a II Gue a Mundial, como Lis en o
B i ain (1942), começou a pin a an es de ealiza ilmes, endo sido ambém
cenóg a o de ea o. Em 1934 jun ou-se à GPO Film Uni , di igida po John
G ie son, mas con inuou a pin a e a expo ; em 1936, expôs na Exposição
Su ealis a In e nacional de Lond es (nas Bu ling on Galle ies), da qual oi
aliás um dos o ganizado es, jun amen e com And é B e on, He be Read e
Roland Pen ose1. Elena Von Kassel-Siambani (2007: 184) ambém o pe ila
como um p ecu so da Pop A , po conside a que as suas colagens são
mui o p óximas das ealizadas em 1956 po Richa d Hamil on.
1. Também oi co- undado da e is a London Bulle in, ó gão o icial do mo imen o su ealis a inglês.
O p imei o núme o oi edi ado em Ab il de 1938, ainda com o í ulo London Galle y Bulle in, depois
ab e iado nos núme os seguin es.
Ca los Albe o de Ma os T indade
e Ma ia Elisa Coelho de Almeida T indade 127
Imagens 1 e 2: Humph ey Jennings, The House o he Woods (1939-44), à esque da; T ain
(Locomo i e), 1939-49, à di ei a. Pin u as a óleo s/ ela.
Filho de um a is a mul i ace ado, Hi oshi Teshigaha a (Tóquio, 1927-2001)
g aduou-se em 1950 na Tokyo Na ional Uni e si y o Fine A s. Pin o e
escul o – ambém ce amis a, calíg a o, encenado de nô –, celeb ado ci-
neas a de angua da, iniciou a sua ca ei a no cinema com o documen á io
Hokusai (1953), dedicado ao amoso pin o japonês do século XIX. Mas icou
conhecido sob e udo po dois ilmes adap ados de no elas do esc i o japo-
nês Kobo Abe: Woman in he Dunes, de 1964, que lhe aleu o P émio Especial
do Jú i no Fes i al de Cannes do mesmo ano, e oi nomeado em 1965 pa a
o Ósca de melho ilme es angei o, e The Face o Ano he (1966). Como
pin o , oi in luenciado pela a e ociden al, sob e udo pelos su ealis as –
além dos cubis as –, mas p e endeu e a a a ealidade social e polí ica
japonesa2. Mais a de, como escul o , celeb izou-se pelas suas ins alações
com bambus3, endo pa icipado – com Passage de bambous – nomeadamen-
e na amosa exposição Magiciens de la Te e, no Cen o Geo ges Pompidou
e na G ande Halle de la Ville e (1989), conside ada um dos momen os un-
dado es do p ocesso de globalização da a e con empo ânea.
2. Pa a um maio desen ol imen o sob e as ca ac e ís icas da ob a de Hi oshi, e sob e udo enquan o
pin o e cineas a, d. Jacline Mo iceau (2010: 126-139).
3. De ac o, descendia de uma linhagem de a esãos do ikebana (a anjo lo al), an iga p á ica
a is oc á ica. O seu a ô Wa u oi um mes e amoso, e o pai So u undou, em 1926, a Soge su School
o Ikebana, com a qual impulsionou a ideia do ikebana como o ma a ís ica, mais do que p á ica
deco a i a, ao inco po a ou os ma e iais além de lo es. Em 1979, após a mo e do pai, assumiu a
di ecção da escola, como o iemo o (‘g ande mes e’), e ala gou o ikebana a no os e i ó ios.
Re u ação de posição de And ei Ujica e Bo is G oys.
Pa ilhas: cineas as-pin o es/pin o es-cineas as
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Imagens 3, 4 e 5: Hi oshi Teshigaha a, xilog a u a pa a edição do Seiki no Kai (The Cen u y
Associa ion), 1949/50, à esque da; Lunch (1953), pin u a a óleo sob e ela, ao cen o; Dancing
Bamboo (1997), ins alação no Hi oshima Museum o Con empo a y A , à di ei a.
Após e es udado His ó ia da A e no King’s College, em Lond es, De ek
Ja man (1942, No hwood – Lond es, 1994), que ambém oi poe a, p os-
seguiu os seus es udos em Pin u a na Slade School o A , a pa i de 1963.
Conside ou-se semp e sob e udo um pin o , que e e a opo unidade ocasio-
nal de usa o ilme ou o ídeo pa a alguns p ojec os. De ac o, Ja man nunca
se assumiu como cineas a, apesa de se au o de um núme o ap eciá el,
e ele an e, de ilmes. O úl imo, o seu ilme- es amen o, Blue (1993)4, icou
pa a a his ó ia como uma expe iência-limi e em e mos o mais, ao mesmo
empo mais pessoal e mais a ojado do que os p eceden es: insóli o e di í-
cil de classi ica , a é po que pode pa ece um con a-senso apelida como
‘ ilme’ uma película que não con ém qualque iconog a ia pa a p ojec a ;
oda ia, pe sis e a luz, a p ojecção inin e up a de um aio de luz azul no
ec ã ec angula ans o mado num campo de co , que ai a iando, umas
ezes mais escu o ou as ezes mais cla o, apenas acompanhada de uma
banda sono a eclé ica, em que se c uzam di e sas na a i as com acompa-
nhamen o musical e e ei os de som (na u alis as ou abs ac os).
O mínimo que se pode dize em elação a Pe e G eenaway (n. 1942,
Newpo , País de Gales) é que as e e ências à his ó ia da a e, e sob e u-
do à pin u a, são uma cons an e nos seus ilmes, mesmo quando es es não
abo dam di ec amen e emas a ís icos. Além disso, é possí el es abelece
uma con inuidade emá ica en e as ob as que p oduziu na qualidade de
a is a plás ico e alguns ilmes que ealizou. Ac esce que mui os dos seus
4. Realizado quando já es a a mui o debili ado e p a icamen e cego de ido à sua si uação de doen e
e minal de Sida (AIDS).
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e Ma ia Elisa Coelho de Almeida T indade 135
pin ou cená ios pa a o ea o, e ealizou ilus ações pa a li os. Também se
sabia que, po ezes, de ido a p oblemas de inanciamen o pa a os seus p o-
jec os se se iu do seu alen o pa a paga o salá io dos seus colabo ado es,
com pequenas pin u as15. Con udo, al ez não se i esse uma e dadei a
consciência da ampli ude do seu labo enquan o pin o : uma lacuna colma-
ada com o ecen e documen á io The Eyes o O son Welles (2018), de Ma k
Cousins16.
Os i alianos Michelangelo An onioni (1912, Fe a a – Roma, 2007), Damiano
Damiani (1922, Pasiano di Po denone – Roma, 2013) e Pie Paolo Pasolini
(1922, Bolonha – Ós ia, 1975).
Após e equen ado a Academia de Belas-A es de B e a, Milão, Damiani
iniciou-se no cinema como deco ado e cenóg a o, an es de e passado à
ealização. An onioni, a qui ec o de o mação, começou desde jo em a pin-
a e desenha , e nunca deixou de o aze . A in luência da pin u a nos seus
ilmes ez-se sen i a a és do a amen o do espaço, mui o enquad ado e
o ganizado, mas ambém no in e esse que semp e p es ou às possibilida-
des do uso exp essi o da co no cinema. Nos úl imos anos, sucede am-se
exposições em que o am expos as pin u as suas, sob e udo uma sé ie de
pequenas agua elas de ca ác e quase abs ac o que começou a p oduzi no
início da década de 196017, in i ulada Mon agne incan a e, a que aplicou um
p ocesso expe imen al: em inais dos anos 70, esol eu o og a á-las pa a
amplia os de alhes, con e endo as minia u as em imp essões de g ande
o ma o.
Também Pasolini, nome maio do cinema e da li e a u a i aliana do pós-II
Gue a Mundial, oi pin o au odidac a. Coincidindo com uma e ospec i a
dos seus ilmes no MoMA de No a Io que (13 Dezemb o 2012 / 5 Janei o
15. Como acon eceu quando ez uma adap ação do Me cado de Veneza, de Shakespea e: d. Jean-
Pie e Be homé e F ançois Thomas (2007: 286).
16. En e an o, na sequência da es eia do documen á io, oi edi ada a seguin e ob a, que se aconselha
a quem quei a conhece melho es a ace a de O son Welles: Simon B aund (2019). O son Welles
po olio. Ske ches and D awings om he Welles Es a e. Lond es: Ti an Books.
17. Mas ambém as ealizadas a pa i de 2001, sob e ela ou ca ão.
Re u ação de posição de And ei Ujica e Bo is G oys.
Pa ilhas: cineas as-pin o es/pin o es-cineas as
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2013), es e e pa en e numa gale ia do Soho a exposição Pie Paolo Pasolini:
Po ai s, Sel Po ai s,que ap esen ou 40 pin u as e desenhos, di ulgando
jun o do g ande público es a ace a menos conhecida da sua ac i idade a ís-
ica. Pasolini começou a in e essa -se pela pin u a ainda jo em es udan e,
após as aulas de His ó ia da A e que e e na Uni e sidade de Bolonha,
no início dos anos 1940, com o p oeminen e his o iado Robe o Longhi,
e man e e ao longo dos anos ac i idade egula como pin o dile an e,
embo a com alguns hia os. Os seus pin o es a o i os o am Masaccio,
Gio o, Pie o della F ancesca e alguns manei is as como Pon o mo ou
Rosso Fio en ino. Em ilmes como E angelho Segundo São Ma eus (1964),
La Rico a, episódio de Rogopag (1963), ou Decame on (1971), no qual enca -
na ele p óp io o papel do ‘melho discípulo de Gio o’, como é designado,
essas suas p e e ências são mui o ób ias.
Imagens 12, 13 e 14: O. Welles, au o- e a o, n. da ado, à esque da; An onioni, agua ela da
sé ie Mon agne incan a e, ao cen o; Pasolini, Sel -Po ai wi h a Flowe in His Mou h (1947),
óleo s/ca ão, à di ei a.
Os polacos And zej Wajda (1926, Suwalki – Va só ia, 2016), Roman Polanski
(n. 1933, Pa is) e Je zy Skolimowski (n. 1938, Łódź).
Depos de e cu sado a Academia das Belas-A es de C acó ia, Wajda an-
si ou pa a a Na ional Film School em Łódź, onde se diplomou. A pin u a
oi uma in luência ma can e na sua linguagem isual, em pa icula a pola-
ca, como escla ece no documen á io My inspi a ions (2016), onde compa a
pin u as especí icas a imagens dos seus ilmes. Também oi um no á el de-
senhado , que anda a semp e com um ske chbook; o desenho oi semp e
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pa a ele uma e amen a impo an e pa a o ajuda a conc e iza as suas
ideias. Polanski, em 1950, iniciou es udos na Escola de Belas A es de
C acó ia, e concluiu-os em Ka owice, an es de es uda Realização na Escola
de Łódź (a pa i de 1954).
Skolimowski, nome essencial do cinema polaco, conside ado o ‘pai’ da
Nou elle Vague do seu país, g aduou-se na Faculdade de E nog a ia de
Va só ia an es de ing essa na Escola de Łódź. Além de a gumen is a e
ac o , ealizou mais de 20 ilmes desde 1960; po ém, a pa i de 1991 (en-
e es e ano e 200818, não ealizou qualque ilme), dedicou-se sob e udo à
ac i idade de pin o , que conside a a sua e dadei a paixão, e hoje em dia
enca a-se mais como a is a plás ico do que como cineas a19. In luenciado
pelo exp essionismo abs ac o, e ambém po F ancis Bacon, p oduz no -
malmen e ob as de g ande escala, em mui as das quais a igu a humana
em p esença ele an e: êm sido expos as egula men e desde 1996, que
em exposições indi iduais, que em colec i as. Se ainda concede ilma de
ez em quando, al pa ece de e -se em g ande pa e a azões inancei as,
como e e iu numa en e is a:
NOTEBOOK: I you’ e ound ha you p e e pain ing o ilmmaking,
hen why make ilms?
SKOLIMOWSKI: I ’s di icul o make a li ing ou o pain ing, and since
I pain la ge-sized [can ases], he e a e no oo many o hem. Wo king
on a ilm is economically much mo e ewa ding. And also, I know ha
I ha e a ce ain alen o ilmmaking, and I shouldn’ be was ing i .
[jokingly] I p e e pain ing, bu om ime o ime I ha e o su e and go
make a mo ie. (Skolimowski apud Sachs, 2011)
18. Ano de que da a o ilme Qua o noi es com Ana. Seguiu-se o h ille polí ico Essen ial Killing, que
ecebeu o P émio especial do Jú i no Fes i al de Veneza de 2010.
19. Em 2015, ecebeu um dou o amen o hono is causa da Academia de Belas A es de Łódź.
Re u ação de posição de And ei Ujica e Bo is G oys.
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Imagens 15, 16 e 17: And zej Wajda, desenho (1987), à esque da; Je zy Skolimowski, Sel -
po ai e The Judgemen (2000), óleo s/ ela, ao cen o e à di ei a.
Também o am pin o es o usso-a ménio Se gei Pa ajano (1924, Tbilisi –
E e an, 1990), o i aliano E manno Olmi (n. 1931, T e iglio, Be gamo) e os
anceses René Allio (1924, Ma selha – Pa is, 1995) e Mau ice Piala (1925,
Cunlha – Pa is, 2003).
Es e úl imo é, sem somb a de dú idas, au o de um dos melho es ilmes
ealizados a é hoje sob e um a is a: Van Gogh (1991); o qual se inicia com
um plano de uma mão (do p óp io Piala ) a pin a um céu azul. A pin u a
oi de ac o a p imei a ocação de Piala , abandonada con a sua on ade,
que se diplomou pela École Na ionale Supé ieu e des A s Déco a i s de
Pa is, e chegou a expo no Salon des moins de 30 ans, após a Libe ação
de Pa is no im da II Gue a Mundial. Em 2013, po ocasião do décimo
ani e sá io da sua mo e, em pa alelo com uma e ospec i a de odos os
seus ilmes, a Cinema eca F ancesa o ganizou a exposição Piala , Pein e
e Cinéas e – pa en e en e 18 de Fe e ei o e 7 de Julho –, na qual oi ex-
pos a uma selecção de 33 pin u as e 16 desenhos ealizados en e 1942 e
1947, na sua maio ia, en e an o deposi ados nas suas colecções (jun amen-
e com a qui os inédi os) pela iú a do cineas a. T a ou-se de uma ocasião
a a pa a en a em con ac o com uma ace a do u u o cineas a p a ica-
men e desconhecida do g ande público: an es des a, apenas algumas das
suas pin u as inham sido expos as em 2003 (15 Se emb o/30 Ou ub o) no
Ca los Albe o de Ma os T indade
e Ma ia Elisa Coelho de Almeida T indade 139
G enie des G ands-Augus ins, seguindo-se ou a no Ins i u Lumiè e em
Lyon (6 Dezemb o 2003/11 Janei o 2004), po inicia i a de Syl ie Piala .
Imagens 18, 19 e 20: M. Piala , En an assis, óleo s/ ela, à esque da; Paysage, óleo s/ ela, ao
cen o; R. Allio, Sans i e (1961), in a s/papel, à di ei a.
René Allio, pouco conhecido em Po ugal – al ez, só a a és de La Vieille
Dame indigne (1965), a sua p imei a longa-me agem e a mais amosa –,
an es de ealiza ilmes, iniciou a sua ca ei a a ís ica como pin o , em pa-
alelo com a de cenóg a o pa a ea o (e, mais a de, ambém pa a ópe as),
onde alcançou g ande no o iedade in e nacional, endo sido colabo ado
habi ual dos maio es encenado es da sua ge ação. A sua pin u a de ca iz
abs ac o in o malis a, undada no aço do ges o, oi semp e ei indicada
po ele como a unidade p o unda de oda a sua ob a. Alguns dos seus ilmes,
como Les Camisa ds (1973) ou Un médecin des Lumiè es (1988), e elam uma
cla a inspi ação pic ó ica. Foi ambém um no á el pensado sob e as ela-
ções en e o cinema e as ou as a es, mo men e a pin u a.20
En e os cineas as mais con empo âneos, encon amos ainda ou os exem-
plos: Dennis Hoppe , Rob Nilsson, Ma co Bellocchio, F anco Pia oli, Abbas
Kia os ami, Jean-Jacques Beineix, Lam Lê, Takeshi Ki ano, Jane Campion,
Hal Ha ley, Todd Haynes, ou Ma eo Ga one.21
20. Sob e a sua ca ei a ele an e como pin o , cenóg a o e cineas a, d. Guy Gau hie (1993). Pa a
conhece o seu pensamen o, d. René Allio (2016).
21. Sob e Ma co Bellocchio, F anco Pia oli e Ma eo Ga one, d. Anna Ma ia Mon aldo e Giona A.
Nazza o (2015). Sob e Lam Lê, d. Jacques Fa on, Benoî Pee e s e Philippe de Pie pon (1992: 63-71).
Re u ação de posição de And ei Ujica e Bo is G oys.
Pa ilhas: cineas as-pin o es/pin o es-cineas as
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O no e-ame icano Rob Nilsson (n. 1939, Rhinelande , Wiscosin), p es igiado
au o do cinema independen e, ealizado (com John Hanson) de No he n
Ligh s (1978), p emiado com a Camè a d’o no Fes i al de Cannes de 1979,
ou de Hea and Sunligh (1988), encedo do G ande P émio no Sundance
Fes i al (1988), en e ou os, é ambém ac o , poe a e pin o . Es udou A e
na Uni e sidade de Ha a d, e começou a pin a du an e uma es ada na
Eu opa, nos anos 60; au o de pin u as com cunho exp essionis a22, man-
e e desde en ão uma ac i idade egula . Tem ealizado exposições do seu
abalho sob e udo em gale ias na á ea de Camb idge/Bos on, mas ambém
em São F ancisco.
A pin u a oi o p imei o amo do i aniano Abbas Kia os ami (1940, Tee ão
– Pa is, 2016), diplomado pela Escola de Belas-A es da Uni e sidade de
Tee ão. An es de inicia a sua ca ei a no cinema, du an e os anos 60,
man e e uma g ande ac i idade como ilus ado pa a li os de c ianças,
designe de ca azes e, sob e udo, na publicidade e na c iação de gené icos
pa a ilmes.
Homem de mui as ace as, o ancês Jean-Jacques Beineix (n. 1946, Pa is),
ealizado de Di a (1980), aquele que ainda se á hoje o seu ilme mais a-
moso, de ido ao eno me sucesso de público e algum c í ico, a sua p imei a
longa-me agem, ou de Be y Blue (37º,2 le ma in, 1986), nomeado pa a o
Ósca de melho ilme es angei o, é ambém a gumen is a, o óg a o, es-
c i o , músico (pianis a) e pin o . Começou a dedica -se à pin u a na década
de 1990, quando ealizou a sua p imei a exposição indi idual (em 1996); não
é su p eenden e esse seu in e esse, como e e e Ka l F ench (2004: 20), “[c]
onside ing his alen o elegan ly designed composi ions and o he isual
lou ishes…”
22. O seu si e o icial inclui uma secção onde podem se is as algumas das suas pin u as: h ps://
www. obnilsson.ne / ilm.
Ca los Albe o de Ma os T indade
e Ma ia Elisa Coelho de Almeida T indade 141
Imagens 21, 22 e 23: R. Nilsson, pin u a em capa de li o, à esque da; Beinix, La in du mon-
de (2000), óleo s/ ela, ao cen o; Ki ano, pin u a pa a Hana-bi, à di ei a.
A is a plás ico au odidac a, Takeshi Ki ano (n. 1947, Tóquio) começou a
pin a em 1994 na sequência de um aciden e de mo a, como pa e do seu
p ocesso de eabili ação23. As suas pin u as, mui o idiossinc á icas, pu-
de am se ap eciadas publicamen e, pela p imei a ez, na g ande mos a
o ganizada em 2010 pela Fundação Ca ie , em Pa is: Bea Takeshi Ki ano,
Gosse de pein e (19 Ma ço/12 Se emb o). A é aí, ecusa a semp e expô-
-las, po as conside a uma p á ica pessoal, p i ada: po ém, pin u as suas
ma cam p esença nos ilmes Hana-bi (1997) e Kikuji o (1999), e, an es dis-
so, publica a ob as numa e is a de a e japonesa (a Geiju su Shincho). A
mesma exposição – concebida como uma g ande ins alação, com objec os
insóli os, cená ios, máquinas, além das pin u as – oi ap esen ada depois
em Tóquio em 2012 (na Tokyo Ope a Ci y Galle y).
Jane Campion (n. 1954, Welling on, No a Zelândia) diplomou-se em Pin u a
no Sydney College o he A s (1979)24. Apesa de e deixado de pin a , po
causa da sua o mação a ís ica gos a de pensa a a és do desenho, que lhe
é bas an e ú il no seu p ocesso c ia i o, po que aciocina sob e um ilme so-
b e udo em e mos isuais. É ela p óp ia que ealiza semp e os s o yboa ds
pa a os seus ilmes, a pa i daquelas que conside a se em as cenas-cha e25.
23. Vd. Ka l F ench (2004: 115-118).
24. Após se e g aduado em An opologia, na Vic o ia Uni e si y o Welling on.
25. Vd. en e is a com a ealizado a em Mike Good idge (2002: 80-83).
Re u ação de posição de And ei Ujica e Bo is G oys.
Pa ilhas: cineas as-pin o es/pin o es-cineas as
142
São ilmes que, como Piano (1993) ou O Re a o de uma Senho a (1996), sem
dú ida e elam um g ande alen o pa a a composição plás ica das imagens.
Figu a impo an e do cinema independen e no e-ame icano das décadas
de 1980 e 1990, Hal Ha ley (n. 1959, Lindenhu s , Long Island) es udou
Pin u a no Massachuse s College o A , em Bos on, an es de p ossegui
uma o mação cinema og á ica26, e ealiza os seus p imei os ilmes.
Ha ley, que ambém é músico (sob o pseudónimo de Ned Ri le), e á op ado
pelo cinema em de imen o da pin u a po que, como a i mou numa en e-
is a, “I was in igued by ine a , bu my skills we e in g aphic design”
(Ha ley apud Bauche , 2010: 223)27.
Con udo, um aspec o impo an e pe maneceu da sua elação com a pin u a;
como é e i icá el, a co em uma g ande impo ância nos seus ilmes, que,
em alguns, é bem i a, luminosa, como em T us (1990) ou Ama eu (1994).
De ac o, ealça Ma ie-Cécile Bauche :
la couleu es u ilisée comme ‘ aleu ajou ée’; le cinéas e semble é en-
d e la du ée des plans, alen i les mou emen s de camé a a in que le
spec a eu puisse se concen e , p omene son ega d su la ‘composi-
ion de la couleu ’, comme il le e ai su une oile. (2010: 223)
Em 2014, Ha ley edi ou um li o28 con endo ep oduções de pin u as suas
de pequeno o ma o, dos seus anos de o mação e inícios dos anos 80, além
de s o yboa ds, esboços e desenhos écnicos, ealizados já no seu abalho
pos e io no cinema e no ea o.
Todd Haynes (n. 1961, Encino, Los Angeles) diplomou-se em A s and
Semio ics pela B own Uni e si y, onde começou a aze expe iências no
cinema du an e a década de 1980 – oi aí que di igiu a sua p imei a cu -
a-me agem Assassins –, an es de se muda pa a No a Io que onde se
26. Na Uni e sidade de No a Io que: ing essou em 1980 na Pu chase Film School.
27. A ci ação é e i ada da seguin e ob a: Hal Ha ley (1992). Simple Men and T us . Lond es: Fabe
and Fabe , p. xii.
28. Hal Ha ley (2014). F om He e o he S a ion. L.d.: Possible Films LLC. Edição limi ada de 700
exempla es.
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e Ma ia Elisa Coelho de Almeida T indade 143
en ol eu no cinema independen e. A pin u a e o desenho cos umam aze
pa e do p ocesso c ia i o de Haynes, que em e elado um sen ido plás i-
co apu ado em ilmes como Fa F om Hea en (2002), I’m No The e (2007)
ou Ca ol (2015); nomeadamen e pa a o es udo e ca ac e ização das pe so-
nagens p incipais e pa a a elabo ação dos s o yboa ds. O úl imo ci ado é
a a essado po mui as e e ências pic ó icas, p incipalmen e ao pin o no -
e-ame icano Edwa d Hoppe .
Imagens 24, 25 e 26: H. Ha ley, B oke, pin u a, à esque da; T. Haynes, es udo pa a Fa
F om Hea en (2002), pin u a pa a I’m No The e (2007), ao cen o e à di ei a
espec i amen e.
Mas, além de odos aqueles que já e e imos, ambém é signi ica i o o
núme o de ealizado es que i e am uma educação o mal (académica),
ou ap endizagem au odidac a e p á ica p o issional, na á ea adjacen e do
Desenho, amiúde insepa á el da Pin u a. Po azões de limi ação de espaço,
limi amo-nos a nomeá-los: os anceses Geo ges Méliès (Pa is, 1861-1938)
e Pa ice Ché eau (1944, Lézigné – Pa is, 2013); o so ié ico Se gei M.
Eisens ein (1898, Riga – Mosco o, 1948); os ingleses Al ed Hi chcock
(1899, Lond es – Los Angeles, 1980) e Ridley Sco (n. 1937, Sou h Shields);
o i aliano Fede ico Fellini (1920, Rimini – Roma, 1993); o indiano Sa yaji
Ray (Calcu á, 1921-1992); os ame icanos Vincen e Minnelli (1903, Chicago –
Be e ly Hills, 1986), Saul Bass (1920, No a Io que – Los Angeles, 1996), Te y
Gilliam (n. 1940, Minneapolis) e Tim Bu on (n. 1958, Bu bank); o canadia-
no Gilles Ca le (1928, Maniwaki – G anby, 2009); o espanhol Ca los Sau a
(n. 1932, Huesca); o mexicano Guille mo del To o (n. 1964, Guadalaja a).
Re u ação de posição de And ei Ujica e Bo is G oys.
Pa ilhas: cineas as-pin o es/pin o es-cineas as
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Po im, ambém não de emos deixa de e e i o campo especí ico do
Cinema de Animação, ge almen e e e adamen e conside ado um géne-
o meno pa a c ianças, mas que o insuspei o cineas a e eó ico so ié ico
Se gei M. Eisens ein conside a a a o ma mais pu a e comple a de cinema,
onde mui o na u almen e encon amos mui os nomes o iundos das a es
plás icas. O mesmo acon ece no campo especí ico do denominado Cinema
Expe imen al ou angua dis a, onde an as e undamen ais pesquisas se
ize am. Se ia possí el, assim pudéssemos, elenca dezenas de nomes.
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