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Duas ou três coisas que sei sobre ele. O museu de arte contemporânea de Serralves

Neves, Eduarda

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33 / aquilo a que assis imos é à ans o mação do museu numa espécie de con en o da economia global 1. Tal ez a a e colapse quando nela in e e e o capi al A c escen e amilia idade en e museu e capi al ap oxima-o da lógica do ni elamen o ou, se quise mos, de um ce o ipo de espí i o que se alimen a do en e enimen o bes -selle . O museu de a e con empo ânea de Se al es, à semelhança de mui os dos seus pa es, pa ece es a me gulhado nes a es a égia. Anúncios publici á ios, aixas, ca azes que nos suge em a doação de 0,5% do nosso IRS pa a que o museu possa “i mais longe”, dominam o espaço. Des a o ma, engolem imagens que p opõem comunica -nos exposições p esen es e u u as. Ga an ida a idelidade ao happy end e a ap oximação con o á el aos pa ocinado es e o ganizado es, con ibui pa a assegu a a boa imagem das emp esas, p omo e o u ismo e o show business. Se, po um lado, o consumo de massas, endo chegado desde há mui o ao museu, oscila en e os domingos em amília, as cu iosi y shops e a sin onia com a na u eza, po ou o lado, a musealização pa ece con inua a sua es a égia o ali á ia e o alizado a. No e i ó io das a es plás icas, o museu em cump ido o seu papel na economia de sal ação do mode nismo. A c escen e disseminação da au onomia disciplina da p á ica pic ó ica em indo a con a com o aumen o dos seus adep os. O pu ismo, como mui os ou os ismos, é i esis í el. É como o posi i ismo. Podemos e i ica que os es o ços pa a sal a a pin u a oscilam en e a As úcia da Razão e a p ocu a do Sujei o da His ó ia. É o Fim da His ó ia de Hegel que pa ece o na -se o d ama da ac ualidade. A cul u a ociden al, deso ien ada, olha cada ez mais pa a ás, à p ocu a do seu p óp io abo. Fal a-me o a , di ia Nie zsche. Duas ou ês coisas que sei sob e ele... / Edua da Ne es Duas ou ês coisas que sei sob e ele O museu de a e con empo ânea de Se al es EDUARDA NEVES 34 / O museu pa ece hoje oscila en e o e o no a uma ocação idílica da a e (numa espécie de second li e) e a concepção p agmá ica do capi al. São es as aspi ações que a pin u a ainda pa ece con inua a cump i melho que ou as p á icas a ís icas. Es á po sabe se, de ac o, es e meio con inua a explo a as suas po encialidades ou se, po ezes, es amos pe an e o apelo do me cado. 1 Es e, econhecendo à pin u a o a gumen o de au o idade, o pode da adição e do dinhei o ou a au a da g ande ARTE, in e pela a exis ência ma e ial do apa elho ideológico. Como bem o mulou Al husse : “Não são as condições de exis ência eais, o seu mundo eal, que os ‘homens’ ‘se ep esen am’ na ideologia, mas é a elação dos homens com es as condições de exis ência que lhes é ep esen ada na ideologia. É es a elação que es á no cen o de oda a ep esen ação ideológica, po an o imaginá ia, do mundo eal. (...) é a na u eza imaginá ia des a elação que undamen a oda a de o mação imaginá ia que se pode obse a em oda a ideologia.” 2 Se, po um lado, na ideologia é ep esen ada a elação imaginá ia dos indi íduos com as elações eais em que i em, po ou o, a sua exis ência é ma e ial pois es á semp e p esen e no apa elho e nas suas p á icas. A a és do disposi i o ideológico, os nossos compo amen os e as nossas escolhas pa icipam das p á icas eguladas do apa elho; dele dependem as c enças que cada um ac edi a e , li e e conscien emen e, escolhido, insc e endo-as assim nos ac os das suas p á icas. Em qualque museu onde nos encon emos, e o de Se al es pa icipa nes e disposi i o, as conexões en e p og amas exposi i os e me cado, as ap esen ações de colecções que mais pa ecem unciona como banco de ocas, e a a e con empo ânea não ociden al pa ocinada po g andes emp esas que in es em globalmen e, e lec em a o ma a a és da qual o museu cons i ui a ex ensão de p ojec os económicos que se em o u ismo, a economia global e a designada p ospe idade económica. Numa lógica de coope ação mú ua, o Ou o não escapa à globalização e o museu con o ma- -se ao capi al. E e no e o no do mesmo. Obse a Bo is G oys que o discu so p oduzido pelos meios de comunicação sob e a e global, apenas con oca ou signi ica endas ele adas de ob as. 3 Pa a es e au o , a a e ins i ucional não é global pois não exis em ins i uições in e nacionais de a e. Se global é a economia e não a a e, en ão, aquilo a que assis imos é à ans o mação do museu numa espécie de con en o da economia global. O museu, que é uma coisa men al, al ez p ecise de mais ince eza e menos p opaganda. Mais exp op iação. No museu de Se al es, desde a sua c iação, pudemos e múl iplas exposições, assis i a di e sos espec áculos, pa icipa em ó uns de discussão, ou i a is as e ou os agen es do campo da a e que ma ca am Duas ou ês coisas que sei sob e ele... / Edua da Ne es 1. Sob e es e assun o consul a : Hans Ul ich OBRIST, “Wha Makes Pain ing an “U gen ” Medium Today”, in A space: h ps:// www.a space.com/magazine/ in e iews_ ea u es/expe _eye/ supe cu a o -hans-ul ich-ob is - on-wha -makes-pain ing-an- u gen -medium- oday-54218 [consul ado a 27/09/2016]. Ve ainda o núme o 2 da edição online da Re is a P a iques Pic u ales – “Ralen i pein u es”, 2015 (di . An oine PERROT), in h p://p a iques-pic u ales.ne / a icle27.h ml# ex e [consul ado a 10/05/2018]. 2. Louis ALTHUSSER, Ideologia e Apa elhos Ideológicos do Es ado, Lisboa: Edi o ial P esença, 1980, p.81. 3. Bo is GROYS, A A e na Época da In e ne : h ps://www.you ube. com/wa ch? =VTg4YVV D6M [consul ado a 10/05/2018]. Sob e a p oblema ização dos con o nos concep uais en e a e global e uni e sal, e en e is a des e au o a An ónio GUERREIRO in Elec a, nº1, Lisboa: Fundação EDP, Ma ço 2018, pp.14-23. 35 / e con inuam a ma ca a his ó ia daquela p á ica e do exe cício c í ico do pensamen o. Nes e museu que não que emos nem de emos pe de , os di ec o es não se de em eduzi a simples manage s, ou passa o seu empo a p ocu a sponso s, a a e não é comp eendida como um e en o, nem o ca álogo como simples p odu o que se esgo a no alo de oca e o núme o de bilhe es endidos não é con abilizado como num es ádio de u ebol. 2. Documen os de cul u a, documen os de ba bá ie Os museus, não sendo luga es sag ados, nem espaços o ados à incomunicabilidade, não podem da -nos a imp essão de unciona como “casas de de enção, as casas de eabili ação, as casas de p aze , ou seja, pa a ala como odo o mundo, as p isões, os asilos, (...) os salões de chá. (...) em ce os dias o museu pa ece (...) esul a de uma des as ins i uições ou mesmo das ês.” 4 Po ém, enquan o ins i uições que gua dam o pa imónio público, assumem-se, cada ez mais, como emp esas. Nes e âmbi o, o seu papel c í ico e o ac o de a “economia (se ) global mas a polí ica (se ) local” 5, pa ecem não cons i ui ealidades compa í eis com a p odução dos a is as locais, cuja ob a é secunda izada pelos museus. Dado que as expec a i as locais nem semp e se ajus am aos de en o es do pode económico, os a is as são impedidos de cons ui um ou o ipo de isibilidade no e i ó io da a e con empo ânea, em con o midade com a economia de me cado. En egues a uncioná ios da economia cul u al e condenados a ins umen o dos conselhos de adminis ação, os museus endem a p omo e cada ez mais as exposições da moda, espec acula es e en á eis, udo o que, equen emen e, a cena local não possibili a. A p á ica da inge ência, que pode pa ece -nos dis an e é, de ac o, cada ez mais eal, e icaz e in isí el. A í ulo de exemplo, eco demos que Szeemann se demi iu da Kuns halle Be n de ido à p essão do conselho de adminis ação e do go e no municipal de Be na pa a al e a a p og amação. Quan os di ec o es de museus es a ão disponí eis pa a esis i des a o ma? Se al es não é excepção a es a paisagem. (I) documen os de cul u a Em en e is a ao jo nal Exp esso, com da a de 5 de Maio de 2018, a a is a po uguesa Joana Vasconcelos diz-nos que: “ainda com 20 e poucos anos, ui con idada a pa icipa numa exposição colec i a em Se al es, ainda no empo do Vicen e Todolí, onde o João Fe nandes e a comissá io. Só inha uma peça, es a a a sai da escola, nem sabia bem o que ia aze .7 ” Duas ou ês coisas que sei sob e ele... / Edua da Ne es 4. Nelson GOODMAN & Ca he ine ELGIN, Es hé ique e Connaissance. Pou change de suje , Pa is: Édi ions de l Écla , p. 69. 5. Bo is GROYS, A A e na Época da In e ne : h ps://www.you ube. com/wa ch? =VTg4YVV D6M [consul ado a 10/05/2018]. 6. Sob e es e assun o, consul a : Hans BELTING, “Con empo a y a and he museum in he global age”, in Ciclo de con e ências L’Idea del Museo: Iden i à, Ruoli, P ospe i e, Dezemb o, 2006 (o g. Musei Va icani): h ps://zkm.de/de/hans- bel ing-con empo a y-a -and- he-museum-in- he-global-age [consul ado a 1/11/2012]. 7. Ana SOROMENHO, “As minhas ‘Valquí ias’ são moles, são g andes e malucas. Como eu”, Jo nal Exp esso, 5 de Maio, 2018, p. 29. 36 / Duas ou ês coisas que sei sob e ele... / Edua da Ne es O museu, que é uma coisa men al, al ez p ecise de mais ince eza e menos p opaganda. Mais exp op iação. 37 / Duas ou ês coisas que sei sob e ele... / Edua da Ne es Vasconcelos con i ma que a sua p óxima exposição “I’m You Mi o ” segui á em i ine ância do Guggenheim de Bilbau pa a Se al es (Janei o de 2019) e Ro e dão. A exposição, segundo a a is a, é p oduzida pelo museu espanhol que es abelece con ac os com ou os museus e p opõe “a sua ca ei a, é uma o ma de di idi cus os. (...) Ainda ou o dia es i e em Se al es com o di ec o do Guggenheim pa a e mos exac amen e essa ques ão.” 8 Assim, o e o no ao Museu de Se al es e po que es e oi o p imei o onde expôs, diz a igu a -se como um “ ol a a casa.” 9 (II) documen os de ba bá ie A p opósi o da ecepção da sua ob a em Po ugal, diz ainda Joana Vasconcelos: “A cul u a a ís ica em Po ugal, que é um país mui o pequeno, com meios pob es, e não chega pa a odos, a pa i dos anos 80 seguiu uma adição mui o mais minimalis a, que em de uma he ança “beuysiana” e, plas icamen e, sou excessi amen e ba oca. Não enho medo do excesso, nem da escala, nem da co . É uma es é ica que não acolhe o discu so de uma ce a c í ica.” 10 O a, as a i mações sup aci adas, implicam que a a is a inicie uma e isão p o unda e compa a i a dos seus conhecimen os de his ó ia da a e, nacional e in e nacional. Independen emen e do maio ou meno econhecimen o da sua ob a 11, é inacei á el o conjun o de e os g ossei os que ece. Não só não comp eende o minimalismo e a ob a de Beuys, como a mul iplicidade de p á icas a ís icas em Po ugal, a pa i dos anos 80, lhe escapa em absolu o. Tal ez os minimalis as e Beuys i essem bas an e a dize -lhe sob e excesso, co e escala. Pu o documen o de ba bá ie, pa a ala com Wal e Benjamin. En e a p imei a e a úl ima exposição de Joana Vasconcelos que deco e á no museu de a e con empo ânea da Fundação de Se al es, á ias ans o mações oco e am nes a ins i uição. Saí am di ec o es e cu ado es, en a am ou os, oi al e ada a cons i uição do Conselho de Adminis ação, no as equipas de abalho e, ob iamen e, ins i uídos ou os modos de ope a . Se, no p imei o caso, sabemos quem con idou e comissa iou a exposição de Joana Vasconcelos, no segundo caso, desconhecemos, pelo menos a é ao momen o em que esc e emos es e ex o, quem, em Se al es, negociou, no âmbi o da, como diz a a is a, “ca ei a” de exposições que o Guggenheim de Bilbau p opõe a ou os museus. Ce amen e que em Se al es a a is a assegu a á uma exposição – espec áculo. Se á uma exposição com eno me a luência de público e g ande bilhe ei a. Polí icos es a ão ga an idos na abe u a. A dis opia ambém. 8. Idem, p. 31. 9. Idem, p. 31. 10. Idem, p. 29. 11. Julgamos não se es e o con ex o adequado pa a analisa es a ques ão. 38 / 3. O museu é um na io No ex o Des Espaces Au es, Michel Foucaul iden i ica os espaços he e o ópicos como espaços eais e e ec i os, o a de odos os luga es, mas localizá eis.12 Adqui em o mas dis in as e não êm ca ác e necessa iamen e uni e sal. Possuem, no in e io da sociedade, uncionamen os especí icos e êm a unção singula de esis ência, des io, e asão, que se ai ans o mando em con o midade com o momen o his ó ico e a cul u a na qual se enquad am. P essupondo um sis ema que as isola e que, simul aneamen e, pe mi e a sua abe u a, as he e o opias compo am ambém uma unção que se desdob a. Po um lado, p oduzindo um espaço idealizado, denunciam como ainda mais ilusó io o espaço eal, po ou o, c iam um espaço eal que se que ão pe ei o e egulado quan o o nosso é deso ganizado. O na io cons i ui-se, pa a Foucaul , como a he e o opia po excelência: “o ba co é um pedaço lu uan e de espaço, um luga sem luga , que i e po si mesmo, que é echado sob e si e que é deixado, ao mesmo empo, ao in ini o do ma (...). Comp eendem po que é que o ba co oi pa a a nossa ci ilização, desde o século XVI a é aos nossos dias, (...) a maio ese a de imaginação. O na io é a he e o opia po excelência. Nas ci ilizações sem ba cos os sonhos secam, a espionagem subs i ui a a en u a, e a polícia, os co sá ios.” 13 Cu iosa e coinciden emen e em 2013, quando a ep esen ação po uguesa chegou à 55ª Bienal de Veneza,14 nenhum na io oi en iado mas sim um cacilhei o o ganizado à imagem de uma emp esa, como i emos opo unidade de, à al u a, e e i no nosso ex o já aqui e e enciado. Chega am os agio as mas não os co sá ios. En ende o museu de a e con empo ânea de Se al es como um na io, na sua dimensão he e o ópica, p essupõe a cons ução de um luga -comum que se sub ai à ideologia da uni e salidade e à e ó ica enciclopédica. Um espaço azio, em po ência, espaço de en a i as e ince ezas, não um ese a ó io de mecenas. Como de ende Foucaul , é quando os homens se encon am na condição de up u a com o seu empo adicional que a he e o opia unciona cla amen e. É es a ligação singula en e he e o opia e he e oc onia que o museu de a e con empo ânea de Se al es pode ia celeb a como seu acon ecimen o. Tal como a he e o opia p essupõe um deho s, um luga p i ilegiado, em es ado de c ise, ambém o museu nos de e ga an i a possibilidade de, num único luga eal, associa á ios espaços em si mesmo incompa í eis. Um es ado de abismo. Uma a en u a pa a a a e e o pensamen o. O museu como a essia. Enquan o agua damos a ma e ialização do p og ama de in enções do no o di ec o daquele museu, João Ribas 15, ecen emen e nomeado, Duas ou ês coisas que sei sob e ele... / Edua da Ne es 12. Re omamos as a i mações p oduzidas sob e as elações en e a e e he e o opia, abo dadas no nosso a igo “A and U opia. The Si ens’ Lesson”, in C i ical S udies No es: a , becoming and pa icipa ion#13 (o g. Edua da NEVES, Nuno RODRIGUES and Susana CALÓ). Po o: CEAA, 2014, pp. 9-14. 13. Michel FOUCAULT, “Des Espaces Au es”, in Di s e éc i s IV (1980-88). Pa is: Gallima d, 1994, p.762. 14. Joana Vasconcelos oi a a is a con idada, endo sido Miguel Amado o comissá io. 15. Rica do Jo ge FONSECA, “João Ribas é o no o di e o do museu de a e con empo ânea de Se al es”, Jo nal de No ícias, 25.01.18: h ps://www.jn.p /a es/in e io / joao- ibas-e-o-no o-di e o -do- museu-de-a e-con empo anea- de-se al es-9073495.h ml [consul ado a 26/01/2012]. 39 / iquemos com as lúcidas pala as de Theodo Ado no: “To nou-se mani es o que udo o que diz espei o à a e deixou de se e iden e, an o em si mesma como na sua elação com o odo, e a é mesmo o seu di ei o à exis ência. A pe da do que se pode ia aze de modo não e lec ido ou sem p oblemas não é compensada pela in inidade mani es a do que se o nou possí el e que se p opõe à e lexão. (…) Com e ei o, a libe dade absolu a na a e, que é semp e libe a de num domínio pa icula , en a em con adição com o es ado pe ene de não-libe dade no odo.” 16 · Duas ou ês coisas que sei sob e ele... / Edua da Ne es 16. Theodo ADORNO, Teo ia Es é ica, Lisboa: Edições 70, 2008, p.11. Casa Se al es © ly ap.com.