scieee Open visual document viewer

A dessacralização de um biombo com características orientais em madeira policromada revelada através do estudo laboratorial e as suas implicações na intervenção de conservação e restauro

Morais, Ana Cristina Seco de; Cruz, António João; Rego, Carla

Abstract

Durante uma intervenção de conservação e restauro, foi verificado que um biombo em madeira policromada, com características orientais, apresentava extensos repintes. Conforme apurado através de imagens de infravermelho, esses repintes tinham o objetivo de ocultar a origem ocidental das figuras e os símbolos cristãos nas pinturas de 12 cartelas. Originalmente, as representações eram de atos da vida de São Domingos de Gusmão, e os repintes visaram a dessacralização do objeto, provavelmente durante o período em que o cristianismo foi proibido na China (de 1724 até à década de 1840). Esta dessacralização corresponde a um tipo particular de iconoclastia não intencional, que não pretendia atacar o que as imagens representavam, mas preservar a comunidade a que pertencia o biombo, a qual manteve suas crenças religiosas, e o próprio objeto. A ponderação dos diversos aspectos relevantes levou à decisão de não remover esses repintes, não obstante sua natureza grosseira, devido ao seu valor histórico e documental.

Full text

VANDALISMO E ICONOCLASTIA VANDALISM AND ICONOCLASM 67 n.º 5 2017 A DESSACRALIZAÇÃO DE UM BIOMBO COM CARACTERÍSTICAS ORIENTAIS EM MADEIRA POLICROMADA REVELADA ATRAVÉS DO ESTUDO LABORATORIAL E AS SUAS IMPLICAÇÕES NA INTERVENÇÃO DE CONSERVAÇÃO E RESTAURO THE DESACRALIZATION OF A POLYCHROME WOODEN FOLDING SCREEN WITH ORIENTAL FEATURES REVEALED TROUGH THE SCIENTIFIC STUDY AND ITS IMPLICATIONS ON THE CONSERVATION- RESTORATION TREATMENT Ana C is ina Seco de Mo ais Labo a ó io de Conse ação e Res au o, Ins i u o Poli écnico de Toma - [email p o ec ed] An ónio João C uz Labo a ó io de Conse ação e Res au o, Ins i u o Poli écnico de Toma ; Labo a ó io HERCULES, É o a; ARTIS – Ins i u o de His ó ia da A e, Faculdade de Le as, Uni e sidade de Lisboa - [email p o ec ed] Ca la Rego Labo a ó io de Conse ação e Res au o, Ins i u o Poli écnico de Toma - [email p o ec ed] RESUMO Du an e uma in e enção de conse ação e es au o, oi e i icado que um biombo com ca ac e ís icas o ien ais em madei a polic omada ap esen a a ex ensos epin es que, como se apu ou a a és de imagens de in a e - melho, p e ende am ocul a , nas pin u as de 12 ca elas, a o igem ociden al das igu as e os símbolos c is ãos. O iginalmen e es a am ep esen ados ac os da ida de São Domingos de Gusmão e os epin es isa am a dessac alização do objec o, p o a elmen e du an e o pe íodo em que o c is ianismo oi p oibido na China (de 1724 a é à década de 1840). Es a dessac alização co esponde a um pa icula ipo de iconoclas ia não in encional que não p e endeu a aca o que as imagens ep esen a am, mas p ese a a comunidade a que pe encia o biombo, a qual man e e as suas c enças eligiosas, e o p óp io objec o. A ponde ação dos di e sos aspec os ele an es le ou à decisão de não emoção desses epin es, não obs an e a sua na u eza g ossei a, de ido ao seu alo his ó ico e documen al. PALAVRAS-CHAVES Iconoclas ia | Dessac alização | Radiação in a e melha | Repin es | Conse ação e es au o. ABSTRACT Du ing a conse a ion- es o a ion in e en ion, i was e i ied ha 12 ca ouches o a polych ome wooden olding sc een wi h O ien al ea u es had ex ensi e epain ing which, as was shown by in a ed images, ied o conceal he wes e n o igin o he pain ed igu es and he Ch is ian symbols. O iginally, ac s o he li e o S . Dominic o Guzman we e depic ed and he epain s, p obably made in a pe iod o ime du ing which Ch is iani y was banned in China ( om 1724 un il he 1840s), aimed he desac aliza ion o he objec . This desac aliza ion co esponds o a pa icula ype o unin en ional iconoclasm which did no in end o a ack wha he images ep esen ed, bu o p ese e he communi y, which kep i s eligious belie s, and he objec i sel . The de ailed analysis o he issues posed by hese epain s led o a decision ha con empla es hei main enance, despi e he c ude na u e o hese addi ions, due o hei his o ical and documen al alue. KEYWORDS Iconoclasm | Desac aliza ion | In a ed adia ion | Repain s | Conse a ion- es o a ion. ART IS ON 68 n.º 5 2017 INTRODUÇÃO Um biombo com ca ac e ís icas o ien ais em madei a polic omada, du an e a in e enção de conse ação e es au o a que es á a se sujei o no Ins i u o Poli écnico de Toma , no âmbi o de uma disse ação do espec i o mes ado, e elou-se como um in e essan e caso de uma pa icula o ma de iconoclas ia que, a a és de ex ensos epin es, se aduziu numa signi ica i a al e ação da imagem pin ada e na dessac alização do objec o. O in e esse do caso esul a ainda que do ac o de en ol e uma ob a de ipo pouco comum e de esse ipo de mani es ações se pouco conhecido, que dos p oblemas de conse ação e es au o, elacionados com a emoção – ou não – dos epin es, que o biombo coloca em esul ado de odas es as ci cuns âncias. Embo a alguns aspec os dessa dessac alização sejam pe cep í eis po simples obse ação da ob a, o es udo labo a o ial ealizado1 pe mi iu isualiza de o ma mais ex ensa e mais de alhada as al e ações e ec uadas na imagem, assim como p opo cionou dados sob e aspec os ma e iais impo an es pa a o conhecimen o do pe cu so his ó ico do biombo. São essas al e ações que aqui se p e ende ap esen a bem como os p oblemas de conse ação que susci am. Ou os aspec os des e caso, designadamen e, os elacionados com os ma e iais e as écnicas e as suas implicações, já o am abo dados nou a publicação (Mo ais e al., 2016) e aqui apenas se suma iam os dados ele an es. 1. Nesse es udo oi u ilizado lupa binocula , mic oscópio digi al po á il (Dino-li e AM7013MZT), o og a ia documen al ge al e de po meno , o og a ia de luz asan e, o og a ia de in a e melho (Sony DSC-H9), o og a ia de luo escência de ul a iole a (lâmpadas Philips TL-D Blackligh Blue e câma a Canon EOS 5D Ma k II), equipamen o mul iespec al (IESL FORTH IRIS-II), adiog a ia (equipamen o analógico Gila doni A -Gil), espec ome ia de luo escência de aios X (ampola de aio X com ânodo de p a a e de ec o Amp ek XR-100CR) e análise es a ig á ica com ecu so a mic oscopia óp ica. O BIOMBO E A SUA DESSACRALIZAÇÃO O biombo pe ence ac ualmen e a um coleccionado pa icula e sob e es a peça, an es da sua ecen e en ada no me cado da a e, sabe-se apenas que pe enceu à colecção dos Ma queses da P aia e Mon o e, mas o es udo écnico já e ec uado p opo cionou alguma in o mação sob e a sua o igem e da ação (Mo ais e al., 2016). É compos o po seis olhas, a iculadas en e si, cada uma com 180 cm de al u a e ce ca de 62 cm de la gu a [ ig. 01], cons i uídas po di e sas ábuas, unidas po ca ilhas de bambu, cujo a amen o é ei o po encabeços nos opos unidos ambém po ca ilhas de bambu e p egos de e o em o ma de escápula. O biombo em, po an o, uma es u u a pesada ca ac e ís ica de ob as de o igem chinesa, o igem es a que ambém se e ela naquelas écnicas de cons ução, assim como na deco ação independen e de cada olha. Fig. 01· An e so da 1.ª olha do biombo ( o og a ia de Gonçalo de Figuei edo, IPT). VANDALISMO E ICONOCLASTIA VANDALISM AND ICONOCLASM 69 n.º 5 2017 2. Folha 1: Ex emozo Pelicano, / em es a g u a habi a / e - e anceio a en a P ole / de eu sangue amamen a . Folha 2: Te na e doce Bengualinha / ua sua e a monia // da cano a Fillomella / não in eja amelodia. Folha 3: Tímida pomba innocen e / Doce imagem dacandu a / em epoiza nes a G u a / senão e enjoa ama gu a. Folha 4: Não e assus e, ócas a Rolla, / minha sen ida exp essão / em geme eu Fado is e / jun o amim nasolidão. Folha 5: Tu és Sua e Ha monia / das almas e nas Su p eza / E u doce Fillomella / o can o da Na u eza. Folha 6: En eixando agen il pluma / o aidozo Pauão / só nos eios pés a en a, / que as neg o o co ação. 3. Folha 1: Mais que a ida os seus Pin ões / Ama o B u o singula . Folha 2: Teu molle, aguei o can o / no as mágoas deza ia. Folha 3: Vi e no e mo Deze o / a imides mais segu a. Folha 4: Vem acaba onde acaba / Meu saudozo Co ação. Folha 5: Mas nem So e Can o aleg e / minha exal ada T is eza. Folha 6: Dec ua magoa passado / Vem busca aSolidão. A iden i icação, po análise química, de azul da P ússia e, mais especi icamen e, da mis u a de azul da P ússia com au ipigmen o, em ez de um pigmen o e de, na deco ação do an e so das olhas pe mi e conclui que é pouco p o á el que o biombo seja an e io ao século XIX (de quando da am os exemplos dessa mis u a conhecidos no O ien e, em pa icula na China), não podendo se , de o ma alguma, an e io ao século XVIII – uma ez que aquele pigmen o azul oi p epa ado pela p imei a ez pouco an es de 1710 (Mo ais e al., 2016). A deco ação é signi ica i amen e di e en e nas duas aces, que a espei o da imagem, que da écnica de deco ação. Quando oi iniciada a in e enção, o e e so de cada olha ap esen a a-se e es ido com papéis de pa ede de mo i os lo ais [ ig. 02], aplicados em di e en es ocasiões, que, po di e sas azões, especialmen e pa a se p ocede à es abilização da es u u a, o am emo idos. Po es a azão, ac ualmen e o biombo exibe o undo liso, de co e melha, que es a a ocul o pelos papéis. No an e so, sob e um undo e melho, as olhas ap esen am p o usa deco ação polic omada, no essencial o ganizada em ês ca elas ao edo das quais se desen ol em mo i os ege alis as em ele o. As ca elas supe io es, que são as de meno dimensão, incluem uma a e e uma quad a2 que usa a na u eza de o ma alegó ica [ ig. 03], enquan o as ca elas do cen o e da base das olhas, enquad adas po ba as com pad ão es ilizado de lo es, são encimadas po ilac e as com ases que con inuam da supe io pa a a in e io 3 e con êm – ou con inham – cenas pin adas no seu in e io com ep esen ações hagiog á icas de São Domingos de Gusmão, designadamen e episódios desc i os na Legenda Áu ea elacionados com o seu desejo de ma í io, a sal ação da ig eja de São João de La ão, a undação da o dem dominicana ou a essu eição de um náu ago, en e ou os. A supe ície polic omada, onde sob essai o con as e en e a co e melha do undo e os dou ados dos mo i os deco a i os em ele o e dos con o nos das ca elas, ap esen a ex ensos epin es. De uma o ma ge al, nas ca elas supe io es, esses epin es limi a am-se às quad as, as quais, como Fig. 02· Re e so da 1.ª olha do biombo, an es do início do a amen o de conse ação e es au o ( o og a ia de Gonçalo de Figuei edo, IPT). Fig. 03· Pa e do an e so da 1.ª olha do biombo com ca ela supe io ( o og a ia de Gonçalo de Figuei edo, IPT). ART IS ON 70 n.º 5 2017 se e i icou a a és de análise es a ig á ica, não são o iginais – ainda que não enha sido possí el apu a o que ocupa a inicialmen e esse espaço (se ou as quad as ou se ou os mo i os). Já as a es só pon ualmen e o am epin adas. As ilac e as que encimam as ou as ca elas ambém não são o iginais e sob as ases isí eis exis em ou as que ainda não oi possí el pe cebe se são o iginais ou se co espondem a um epin e mais an igo. Nas ca elas hagiog á icas, os epin es, ce amen e execu ados nou a ocasião, são g ossei os, em nada alo izando a composição inicial, e ocul am á ios po meno es, nomeadamen e símbolos eligiosos, como osá ios, c uci ixos ou al a es, en e ou os, que o am comple amen e dissimulados. Es es epin es isa am ambém a ans o mação das pe sonagens, sucedendo que as igu as, o iginalmen e de aces e ajes ociden ais, o am “achinesadas” a a és da aplicação de longos e inos bigodes, além e em sido ac escen ados chapéus de o ma o ien al a umas enquan o ou as o am o nadas cal as. Es as ans o mações são exempli icadas com o que se obse a na 1.ª olha do biombo. Na ca ela cen al, são ac ualmen e isí eis qua o igu as com aspec o o ien al olhando pa a o edi ício à en e do qual se encon am [ ig. 04]. Na igu a da esque da, a olho nu, obse a-se um osá io ao pei o – um dos a ibu os de São Domingos (Réau, 1958: 392) –, mas os es os de in a exis en es sob e o mesmo suge em que a ac ual isibilidade esul ou de uma en a i a de emoção dos epin es. A imagem de in a e melho ob ida mos a que essa mesma igu a, em ez do chapéu cónico, pa ecia e um ba e e eclesiás ico e, em ez dos calções e meias, exibia uma única [ ig. 05]. Túnicas en e ga am igualmen e duas igu as da di ei a, uma das quais segu a a um osá io nas mãos. Os bigodes de odas as igu as o am ac escen ados de modo ex emamen e osco, assim como os chapéus da igu a da di ei a e de uma qua a igu a no a andim. Quan o ao edi ício, se ia uma ig eja, uma ez que es a am pin ados sinos nas duas janelas da o e cen al, ac ualmen e ocul os po uma camada de in a cinzen a aplicada de o ma mui o descuidada. A pin u a o iginal, com semelhanças de Fig. 04· Aspec o isí el da ca ela cen al da 1.ª olha do biombo ( o og a ia de Gonçalo de Figuei edo, IPT). Fig. 05· Imagem de e lexão de in a e melho (1000 nm), ob ida com o equipamen o mul iespec al, da ca ela cen al da 1.ª olha do biombo. 4. Painel de São Domingo de Guzmán, do século XIV, p o enien e de ig eja San Miguel de Tama i e de Li e a, ac ualmen e no Museu Nacional d’A de Ca alunya (h p://museunacional.ca /es/colleccio/ abla-de-san o-domingo-de-guzman/anonim-a ago/015825-000). VANDALISMO E ICONOCLASTIA VANDALISM AND ICONOCLASM 71 n.º 5 2017 composição com uma pin u a medie al espanhola4, pa ece ep esen a uma das ocasiões em que São Domingos chegou a um mos ei o com as po as ence adas, po se a de, e nele en ou com os seus companhei os po e ei o da o ação sem incomoda os ades que do miam (Va azze, 2003: 619-620). Na ca ela po baixo des a, a compa ação en e a imagem isí el e a imagem de in a e melho mos a que a igu a no 1.º plano, à di ei a, usa a única e um osá io ao pei o, endo à sua en e uma igu a ajoelhada e de mãos pos as, p esen emen e escondida sob uma in o me mancha acinzen ada [ igs. 06 e 07]. Na mão esque da pa ecia e o que Fig. 06· Aspec o isí el da ca ela in e io da 1.ª olha do biombo ( o og a ia de Gonçalo de Figuei edo, IPT). Fig. 07· Imagem de e lexão de in a e melho (1000 nm), ob ida com o equipamen o mul iespec al, da ca ela in e io da 1.ª olha do biombo. pode se um amo de lí ios – um dos a ibu os de São Domingos (Réau, 1958: 392). Duas igu as no cen o, ago a cal as, os en a am longos cabelos ( al como ou as) e chapéu de modelo ociden al. Também aqui, como na gene alidade do biombo, os longos e inos bigodes o am ac escen ados de modo mui o osco. Nes e caso es a a ep esen ada a ca idade de São Domingos pa a com os doen es e des a o ecidos, equen emen e e e ida na sua hagiog a ia. Como oi di o, as al e ações desc i as a espei o da 1.ª olha são semelhan es às obse adas nas ou as olhas do biombo. Essas al e ações não pa ece e em sido e ec uadas odas de uma só ez, pois nalguns casos manchas de in a escondem igu as com bigodes semelhan es aos que se obse am nas igu as à is a, mas as ca ac e ís icas écnicas suge em e em sido ealizadas em ocasiões mui o p óximas, e en ualmen e co espondendo a duas e apas de um mesmo p ocesso. Independen emen e desse po meno e do conc e o signi icado das 12 cenas ep esen adas nas ca elas, que nem semp e é ácil de apu a , é e iden e que o iginalmen e es a am pin adas cenas da ida de São Domingos ou dos dominicanos e, na u almen e, incluíam um signi ica i o núme o de elemen os com mani es o simbolismo c is ão que, em de e minado momen o, o am escondidos, ao mesmo empo que as igu as ociden ais ep esen adas o am o ien alizadas. Ou seja, uma ob a com uma o e componen e eligiosa, que, independen emen e da unção u ili á ia de qualque biombo, ambém inha uma unção ca equé ica, oi ans o mada numa ob a apa en emen e de índole secula , sem qualque e iden e e e ência à eligião c is ã. É excepção o desmemb amen o de um co po que se obse a numa das ca elas, que ilus a o desejo de ma í io de São ART IS ON 72 n.º 5 2017 Domingos (Va azze, 2003: 616), que, po ém, pode e um signi icado bem di e en e con o me su ge num con ex o hagiog á ico, como inicialmen e, ou num con ex o apa en emen e laico, como passou a sucede a pa i do momen o em que o am ei os os epin es. Nes e úl imo caso pode ia e (ou, pelo menos, pode ia se -lhe a ibuída) uma in enção dissuaso a. Em con apa ida, es a mesma ca ela que ep esen a o ma í io exibe ma cas de andalismo semelhan es às ap esen adas, com alguma equência, po ou as ob as pic ó icas (F eedbe g, 1985: 27): o algoz que desmemb a o co po oi des igu ado com um ins umen o co an e, especialmen e nos olhos [ ig. 08], num ac o que, além de aduzi a con usão en e a imagem e o ep esen ado e a con icção de que dani ica a imagem diminui o pode do ep esen ado ou de quem es e simboliza (F eedbe g, 1985: 25-33), demons a igualmen e o ambien e de de oção em que o biombo en ão se inse ia. O ac o de essas ma cas se sob epo em a um epin e que esconde uma igu a pe mi e conclui que esse ac o de andalismo acon eceu depois da dessac alização da imagem, o que signi ica, po sua ez, que o biombo pe maneceu num meio de é c is ã não obs an e aquela ans o mação. Fig. 08· Ma cas do andalismo a que oi sujei o o algoz igu ado na 4.ª olha do biombo – 4.ª olha da sequência em que oi ecebido e não necessa iamen e da mon agem o iginal ( o og a ia de Gonçalo de Figuei edo, IPT). Os ex ensos epin es que ocul am os símbolos c is ãos e a ans igu ação dos eligiosos co espondem a uma dessac alização que, mui o p o a elmen e, es á elacionada com a p oibição do c is ianismo na China em 1724, no seguimen o da con o é sia dos i os (Bays, 2012: 28-32). No con ex o de pe seguição aos c is ãos que en ão se seguiu, é ácil de comp eende essa dessac alização como uma o ma de, sem a des uição ísica do biombo, p ese ando-o como mó el de apa a o ou de uso comum, se e i a em as consequências da posse de objec os com símbolos c is ãos. Po an o, essa p o unda al e ação da imagem causada pelos epin es, ao con á io do caso do algoz, não esul ou de um ac o de andalismo, nem, mais especi icamen e, de um ac o iconoclas a al como es e ge almen e é en endido, is o é, ealizado com o objec i o imedia o e isí el de dani ica ou des ui as imagens (Co dess e Tu can, 1993) e, indi ec amen e, com a in enção de a aca o que es as ep esen am (McClanan e Johnson, 2016: 3). Essa apa en e des uição das imagens eligiosas e e, nes e caso, uma in enção p o ec o a, que da comunidade a que pe encia o biombo, que do p óp io objec o (que simplesmen e podia e sido des uído). Com e ei o, o andalismo a que depois oi sujei a a igu a do algoz mos a cla amen e que não hou e in enção de a aca o que as imagens de na u eza hagiog á ica ep esen a am. Tal ez es e caso se possa desc e e como de iconoclas ia não in encional. Ainda que a in e p e ação a ançada pa a o epin e possa suge i que o mesmo enha oco ido em 1724 ou pouco depois – sendo o biombo, assim, an e io a 1724 –, al da ação, no en an o, é mui o pouco p o á el, uma ez que na pin u a, em zonas em que não oi de ec ado qualque indício de epin e, oi u ilizado azul da P ússia, um pigmen o sin é ico p epa ado pela p imei a ez algu es en e 1704 e 1710, possi elmen e em 1706 (K a , 2008). Ainda que já enha sido iden i icado em pin u as de ca ale e execu adas a pa i de 1709 (Ba oll, 2008), a sua p odução oi limi ada e o seu uso icou es i o a de e minados meios a ís icos com o es elações com algumas co es eu opeias a é, p ecisamen e, 1724, quando se iniciou a sua p odução indus ial em di e sos países eu opeus e a sua u ilização passou a se equen e (Be ie, 1997). No O ien e, o seu uso iniciou-se signi ica i amen e mais a de e oi mui o eduzido du an e o século XVIII (Win e , 2008: 32- 33), sucedendo que na China, pelo menos na egião VANDALISMO E ICONOCLASTIA VANDALISM AND ICONOCLASM 73 n.º 5 2017 de Can ão, só es á documen ado a pa i de ce ca de 1775 (Bailey, 2012). Po an o, a p esença do azul da P ússia no biombo le a à conclusão de que es e oi execu ado já depois da p oibição do c is ianismo na China. Pa ece, no en an o, que a pe seguição dos c is ãos após 1724 não oi uni o me e que, a é à década de 1840, quando o c is ianismo deixou de se p osc i o na China, sucede am-se momen os de pe seguição mais e oz, como na década de 1740, 1784-1785, 1805 e 1813, com pe íodos em que, nas egiões mais a as adas da capi al, e am comuns e isí eis p á icas ca ólicas (Bays, 2012: 32-33). Sendo assim, o epin e a que oi sujei o o biombo pode da a de um desses momen os de pe seguição mais in ensa – p o a elmen e um dos úl imos endo em conside ação a equência de uso dos pigmen os. Quan o ao con ex o em que o biombo oi ealizado, o p og ama iconog á ico da pin u a o iginal mos a o conhecimen o di ec o ou indi ec o da Legenda Áu ea, possi elmen e po pa e do encomendan e ( endo em con a as limi ações a ís icas do pin o ), e deno a um es ilo cla amen e ociden al, ainda que de pouca qualidade. Simul aneamen e, ao ní el da es u u a, a ob a en ol eu o uso de ma e iais e écnicas de cons ução o ien ais. A combinação des as ca ac e ís icas de di e en es egiões suge e que o biombo oi pin ado po um a is a eu opeu no O ien e. Já a ocul ação dos símbolos c is ãos e ociden ais, pelas ca ac e ís icas ex emamen e oscas desses epin es, pa ece e sido ealizada po alguém com eduzida expe iência a ís ica, ao con á io do que sucedeu com os epin es, ce amen e ealizados nou a ocasião, que das ca elas supe io es com as quad as, que das ilac e as que encimam as ou as ca elas. No passado, o biombo oi objec o de uma p o unda e ex ensa al e ação que en ol eu a aplicação de papéis de pa ede no e e so e epin u a, pelo menos em duas ocasiões, de di e sos mo i os do an e so. A decisão de emoção dos papéis, quando oi iniciada a in e enção de conse ação e es au o, não oi especialmen e di ícil de oma : os papéis não e am o iginais, inham sido aplicados sem coe ência com a ob a o iginal, nalgumas zonas es a am bas an e dani icados, não inham qualque signi icado his ó ico conhecido e, sob e udo, e a necessá io emo ê-los pa a se pode a a do supo e, que se encon a a agilizado colocando em isco a ob a. Não obs an e a d amá ica mudança que o iginou no e e so do biombo, essa emoção e a necessá ia pa a p ese a algo que oi conside ado bas an e mais impo an e: as pin u as do an e so, onde eside o p incipal alo des e objec o. Ainda que ac ualmen e seja habi ual a e e ência ao di o p incípio da in e enção mínima, adop ado nas in e enções com o a gumen o de que assim se espei a a ob a, na ealidade o que se p e ende é, pesando o que na ob a se mani es a, minimiza as pe das de signi icado causadas pela in e enção (Viñas, 2009: 53-57). O a, nes e caso, oi conside ado que a emoção dos papéis azia pa e do mínimo que e a indispensá el aze pa a p ese a o biombo e, po an o, o seu signi icado. Es a d amá ica al e ação acabou po anula a ou a ans o mação igualmen e d amá ica que inha oco ido quando esses mesmos papéis inham sido colados. Os epin es, em pa icula os e ec uados com o objec i o de ocul a os símbolos c is ãos, po ém, coloca am – e colocam – p oblemas mais complexos. Se no passado e a habi ual a quase au omá ica decisão de eliminação de epin es, mui o especialmen e nas pin u as de ca ale e, com o objec i o – ilusó io – de ecupe a a ob a o iginal e p ese a o seu signi icado, nos empos mais ecen es a si uação é bem di e en e. Com e ei o, é conside ado que qualque pa e de um objec o, o iginal ou não, é uma legí ima pa e do mesmo e a decisão sob e a sua p ese ação, ou não, não depende apenas de se ou não o iginal, mas ambém dos alo es que lhe são a ibuídos (Appelbaum, 2007: 257-258). Independen emen e do e ei o es é ico que possam OS PROBLEMAS DE CONSERVAÇÃO E RESTAURO COLOCADOS PELA DESSACRALIZAÇÃO DO BIOMBO ART IS ON 74 n.º 5 2017 e , es es epin es êm um g ande alo his ó ico e documen al que se ans e e pa a o biombo no seu odo. Po isso, emo ê-los não e a apenas uma in usão no objec o, aliás como qualque ou a in e enção (Viñas, 2009: 52), mas e a uma mui o signi ica i a mu ilação da ob a e, de o ma alguma, apa en a a se uma in e enção mínima. No en an o, não os emo e aca e a a man e algo ei o de o ma mui o osca que es e icamen e p ejudica a pin u a o iginal, ainda que es a não seja de ele ada qualidade, e implica a man e escondido o signi icado hagiog á ico dessa mesma pin u a. Mas, po ou o lado, alo iza o signi icado da pin u a o iginal e emo e os epin es conduzi ia à pe da do signi icado his ó ico e à pe da da memó ia da pe seguição aos c is ãos na China du an e os séculos XVIII e XIX egis ada nos epin es. Se no caso dos papéis do e e so oi admi ido que as consequências posi i as da in usão que cons i uiu a sua emoção supe a am as consequências nega i as, no caso dos epin es isso não sucedeu. En e a pe u bação es é ica dos epin es das ca elas hagiog á icas e o seu signi icado his ó ico e documen al, oi conside ado que es e e a mais ele an e, con e indo especial alo ao biombo. Idên icas azões conduzi am à esolução de man e as ma cas do andalismo da igu a do algoz, ainda que es e ipo de ma cas seja mais conhecido. Ob iamen e que o ac o des es epin es não cons i uí em um isco pa a a conse ação ísica da ob a mui o ajudou nessa omada de decisão. Pelo con á io, e a menos a o á el o ac o de o biombo in eg a uma colecção pa icula – um con ex o em que os c i é ios his ó icos e documen ais ge almen e são menos alo izados do que nas colecções ins i ucionais. Quan o aos epin es das ca elas supe io es (com as quad as) e das ilac e as, ambém oi omada a decisão de não os emo e , ainda que usando di e en e a gumen o. Apa en emen e pode ia se e ocada a sua manu enção po coe ência com a decisão omada a espei o das ou as ca elas, mas essa azão não oi alo izada uma ez que são epin es bem di e en es, qualque que seja o pon o de is a conside ado: es é ico, ma e ial, c onológico ou do signi icado his ó ico. O ac o decisi o, que e i ou a ponde ação de ou os c i é ios, oi o o al desconhecimen o, não obs an e as adiog a ias e os ou os exames ealizados, do que es á po baixo desses epin es e do seu es ado de conse ação, sendo, po isso, mui o a iscado o seu le an amen o. A solução adop ada em a an agem de, ao con á io da e en ual esolução opos a, não se necessa iamen e de ini i a, icando abe a a possibilidade de, em qualque ocasião, com mais in o mação ou ou os c i é ios, pode se anulada, não condicionando, po an o, o u u o ma e ial da ob a. A emoção dos papéis e a manu enção dos epin es o am as decisões omadas na pe spec i a da conse ação, mas, como em qualque ou o caso, a sua conc e ização icou penden e da conco dância do p op ie á io. Es a oi ob ida e o abalho es á em cu so. O biombo pin ado com ca ac e ís icas o ien ais que es á a se in e encionado e elou-se um in e essan e caso de iconoclas ia não in encional, possi elmen e oco ido no início do século XIX, que não p e endeu a aca o que as imagens ep esen a am, mas, num con ex o de p oibição do C is ianismo na China, p e endeu an es p ese a a comunidade a que pe encia o biombo, a qual, de uma o ma elada, man e e as suas c enças eligiosas. Es e ac o condicionou p o undamen e a in e enção de conse ação e es au o pois os ex ensos epin es g ossei os que o biombo ap esen a, que são a ma e ialização desse ac o, que numa ou a si uação p o a elmen e se iam emo idos, o am nes e caso man idos como memó ia de um momen o his ó ico. Numa ou a pe spec i a, es e caso mos a de que o ma a His ó ia, a Conse ação e Res au o e as Ciências podem in e ac ua de modo a mu uamen e se escla ece em e, assim, consegui em melho esponde às ques ões que lhes são susci adas po uma ob a cuja comp eensão buscam. CONCLUSÃO VANDALISMO E ICONOCLASTIA VANDALISM AND ICONOCLASM 75 n.º 5 2017 APPELBAUM, Ba ba a – Conse a ion T ea men Me hodology. Ox o d: Bu e wo h-Heinemann, 2007. BAILEY, Ka e – “A no e on P ussian blue in nine een h-cen u y Can on”. S udies in Conse a ion, 57(2) (2012), 116-121, doi:10 .1179/2047058412Y.0000000002. BARTOLL, J. – “The ea ly use o P ussian blue in pain ings”. 9 h In e na ional Con e ence on NDT o A 2008, Je usalem, 2008, h p://www.nd .ne /a icle/a 2008/pape s/029ba oll.pd . BAYS, Daniel H. – A New His o y o Ch is iani y in China. Chiches e : Wiley-Blackwell, 2012. BERRIE, Ba ba a – “P ussian blue”. Fi zHugh, Elisabe h Wes (ed.) – A is s’ Pigmen s. A Handbook o Thei His o y and Cha ac e is ics, ol. 3. Washing on: Na ional Galle y o A , 1997, pp. 191-217. CORDESS, Ch is ophe ; TURCAN, Maja – “A andalism”. The B i ish Jou nal o C iminology, 33(1) (1993), 95-102, doi:10.1093/ox o djou nals.bjc.a048293. FREEDBERG, Da id – Iconoclas s and Thei Mo i es. Maa ssen: Ga y Schwa z, 1985. KRAFT, Alexande – “On he disco e y and his o y o P ussian Blue”. Bulle in o he His o y o Chemis y, 33(2) (2008), 61-67. MCCLANAN, Anne; JOHNSON, Je – “In oduc ion: ‘O o a muse o i e ... ‘“. McClanan, Anne, Johnson, Je (ed.) – Nega ing he Image. Case S udies in Iconoclasm. London-New Yo k: Rou ledge, 2016, pp. 1-13. MORAIS, Ana C is ina Seco de; CRUZ, An ónio João; REGO, Ca la – “O con ibu o da conse ação e es au o pa a o conhecimen o da his ó ia de um objec o: o caso de um biombo com ca ac e ís icas o ien ais em madei a polic omada”. Res Mobilis - Re is a in e nacional de in es igación en mobilia io y obje os deco a i os, 5(6-I) (2016), 173-187, doi:10.17811/ m.5.2016.173-187. RÉAU, Louis – Iconog aphie de l’A Ch é ien, ol. III-1. Pa is: P esses Uni e si ai es de F ance, 1958. VARAZZE, Jacopo de – Legenda Áu ea. São Paulo: Companhia das Le as, 2003. VIÑAS, Sal ado Muñoz – “Minimal in e en ion e isi ed”. RICHMOND, Alison, BRACKER, Alison (ed.) – Conse a ion. P inciples, Dilemmas and Uncom o able T u hs. Ox o d: Bu e wo h-Heinemann, 2009, pp. 47-59. WINTER, John – Eas Asian Pain ings. Ma e ials, S uc u es and De e io a ion Mechanisms. London: A che ype Publica ions, 2008. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS