Descolonização do currículo no processo de aprendizagem. A experiência da SP Escola de Teatro – centro de formação das artes do palco
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DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO
NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM.
A EXPERIÊNCIA DA SP ESCOLA DE
TEATRO – CENTRO DE FORMAÇÃO
DAS ARTES DO PALCO
ELISABETH SILVA LOPES
IVAM CABRAL
JOAQUIM C. M. GAMA
Colonización - e i o io es ablecido po gen e que no es de ahí
Ao se obse a a de inição em espanhol da pala a ‘colonização’, emos a dimensão
de seu sen ido geog á ico, polí ico e cul u al. Is o é, o na-se impo an e
comp eende que o e mo ‘ e i ó io’ não é apenas aplicado às ques ões de
domínio geog á ico e polí ico, mas a odo o p ocesso his ó ico, social e cul u al
que a colonização eu opeia ge ou e impôs à Amé ica La ina. Fala de e i ó io
es abelecido po pessoas que não são do p óp io e i ó io equi ale a inclui
nas discussões sob e colonização aspec os a elados ao que podemos denomina
‘colonialidade do sabe ’ (Lande , 2000).
Há uma he ança eu ocên ica do conhecimen o, epis emológica, que
de e minou manei as de pensa , comp eende e o ganiza o mundo, e que não
é legí ima à colonizada e ao colonizado. Ao econhece , po exemplo, que os
g egos in en a am o pensamen o ilosó ico ociden al, não podemos ac edi a
que somen e eles enham a hegemonia do pensamen o.
Foi no âmbi o dessas pe spec i as de descons ução da hegemonia e da
epis emologia da cul u a eu ocên ica sob e o Ociden e que, en e julho e agos o
de 1998, oco eu o Cong esso Mundial de Sociologia, em Mon eal, pa ocinado
pela UNESCO. Pa iu-se da ideia de que a colonização e i o ial eu opeia
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ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA
e a colonialidade do sabe são pa es cons i uin es de uma mesma moeda de
exp op iação, domínio e explo ação. Desde en ão, há uma p eocupação em
ecupe a a iden idade dos di e en es luga es, quan o ao modo de e e concebe
o mundo, con igu ando a ideia de que exis em múl iplos mundos, com sabe es
di e sos, e que de em coexis i , dialoga , e não se subjuga .
Especi icamen e, no B asil, essas p eocupações ize am eme gi ques ionamen os
sob e as pe spec i as eu opeias uni e sais, globalizan es, como undamen os do
conhecimen o disciplina sob e o mundo. Os es udos sob e o pós-colonialismo
b asilei o, o pensamen o c í ico à colonialidade, ouxe am à baila ambém
aspec os e e en es às ma izes ame índias e a icanas que azem pa e da base
cul u al b asilei a, e que o am e i adas dos cu ículos das escolas de educação
básica.
O a o de e oco ido o im do colonialismo não aca e ou o im da
colonialidade. Assim, pe du a sob e nós o legado cul u al, hegemônico, impos o
pelo colonizado eu opeu b anco, que ai desde ques ões econômicas às c ises
de iden idade, em seus múl iplos a o es, elacionadas aos indígenas e aos
a odescenden es.
Dessa manei a, na con empo aneidade, ao se pensa no cu ículo da escola
pública, e, po conseguin e, na o mação de indi íduos, o na-se p emen e
a necessidade de his o iciza essas ques ões e descoloniza o conhecimen o
sis ema izado, ensinado e disponibilizado pelas docen es e pelos docen es aos
discen es e às discen es. Comp eende-se, assim, o cu ículo ambém como campo
de ques ionamen o de sabe es hegemônicos, uni e sais, que desquali ica am e
desquali icam pe spec i as de mundo que não se enquad a am, e con inuam
não se enquad ando, nas con igu ações econômicas, pe e sas, e neolibe ais,
cujas o ças de pensamen o alo izam a na a i a his ó ica do conhecimen o
uni e sal, obje i o e cien í ico. Inclui-se ambém a necessidade de e isão do
es abelecimen o da cul u a judaico-c is ã como pad ão, inculada à ideia de
Deus (o sag ado), do indi íduo (o humano) e da na u eza. Essa íade cos uma
sepa a o co po da men e, e a azão do p ocesso de simbolização do mundo,
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DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM
ge ando co pos azios de signi icados e a exclusão do pensamen o simbólico
como o ma de exp essão humana sob e a ida.
Nas ci ilizações ociden ais, a cisão en e o co po e a men e acabou po c ia uma
issu a epis emológica en e a azão e a na u eza. Não se conhece al sepa ação
em ou as cul u as (Lande , 2000).
É jus amen e buscando ompe com a base das sepa ações en e co po e men e
que se á possí el pensa num conhecimen o co po i icado e con ex ualizado
nas expe iências, cujo subje i o e obje i o não são uni e sais, e que de e se
comp eendido den o de um quad o c í ico, his ó ico e emancipa ó io. Assim,
são mui os os desa ios a se em en en ados.
Num mundo no qual pa ecem impo -se, po um lado, o pensamen o único, e po
ou o, a agmen ação da con empo aneidade, quais se iam as po encialidades
c í icas que se ab em ao con inen e do conhecimen o, en ol endo iden idade
e cul u a? Que pe spec i as educacionais e co en es concei uais su gem da
necessidade de da oz e sen ido às lu as dos po os his o icamen e excluídos,
como os po os neg os e indígenas? Como se ecolocam os elhos-no os emas
sob e a iden idade, a miscigenação e a expe iência his ó ica e cul u al de cada
g upo social? Como o cu ículo pode omen a discussões ace ca da ealidade
local e mundial, o pensamen o c í ico en e às imposições das sociedades
neolibe ais, e o conhecimen o hegemonizado, de e minado e impos o pelos
países di os desen ol idos? Como é possí el descoloniza o cu ículo das
pe spec i as da indús ia cul u al de massa? (Gama, 2017).
Sabe-se que a pio dominação é aquela que, na u alizada, deixa de se ques ionada,
pa a de se pe cebida como al, e é ele ada à exp essão de um mundo globalizado,
que desquali ica iden idades, sen imen os e pe cepções locais e indi iduais,
p óp ias de cada cul u a.
Den o desse quad o, é p eciso um comp omisso e e i o das educado as e
dos educado es pa a ques iona , imagina e pensa em o mas de supe a as
dispa idades educacionais.
É p eciso ha e um es o ço pa a que g upos excluídos - pob es; meninas e
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meninos de ua; abalhado as e abalhado es; mulhe es e/ou homens u banos
e/ou de zonas u ais; as nômades e os nômades mig an es; os po os indígenas;
as e ugiadas e os e ugiados, deslocadas e deslocados dos seus e i ó ios
po gue as, ques ões sexis as, é nicas e aciais - não so am qualque ipo de
disc iminação no acesso ao conhecimen o e no di ei o à educação.
O cu ículo p ecisa ompe com a con o mação colonial do mundo, na qual
exis e a cul u a uni e sal, eu opeia, e a cul u a dos ou os (Lande , 2000).
É p eciso encon a ou as o mas de o ganiza o conhecimen o, po meio
do qual a lógica eu ocên ica hegemônica seja comba ida, não só no p ocesso
epis emológico da colonização, mas ambém na pe manência de sua cosmo isão
de mundo, ainda p esen e em países como o B asil.
De aco do com Lande (2000), a cosmo isão de mundo es á apoiada na
ideia de mode nidade. T a a-se de comba e a cosmo isão baseada em qua o
dimensões, a sabe : 1. uni e salização da his ó ia a elada à ideia de p og esso,
cujos ideais es ão de e minados pela classi icação e hie a quização dos po os;
2. a sup emacia da sociedade libe al-capi alis a, como balizado a das elações
sociais; 3. a eliminação das múl iplas pe spec i as cul u ais e sociais, p óp ias
das inúme as sociedade que ocupam o mundo; e 4. a necessidade de de e mina
a supe io idade de de e minados conhecimen os de uma sociedade, em elação
a odos os ou os p oduzidos po di e sos po os.
As qua o dimensões ap esen adas po Lande indicam caminhos que de em se
epensados, ao se conside a a lógica eu ocên ica como o ma de o ganização
do pensamen o, do empo e do espaço pa a odos os po os. Nas o mulações
cu icula es, de emos le a em conside ação ou os pon os de is a, ansmu ando
as e e ências eu opeias, comp eendidas, acei as e di undidas como supe io es e
uni e sais.
Repensa os cu ículos das escolas públicas b asilei as implica ambém modi ica
a o ma de se da sociedade. Ao se ans o ma o disposi i o colonizado do
conhecimen o, em-se a opo unidade de ambém modi ica o se humano
e a sociedade. Dessa manei a, ou as o mas de pensa e concebe o mundo,
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as di e sas possibilidades de o ganização da sociedade e os inúme os sabe es
p ecisam se obse ados, analisados e expos os às es udan es e aos es udan es.
Todos p ecisam se es imulados a encon a , na sua p óp ia cul u a, caminhos
que indiquem suas capacidades de p odução e o ganização do conhecimen o,
pa a que deixem de se a ados como di e en es, adados a pe manece den o
do g upo dos des a o ecidos, econômica e in elec ualmen e.
Um cu ículo que p i ilegia conhecimen os eu ocên icos acaba po legi ima a
missão ci ilizado a/no malizado a da colonização (Lande , 2000).
A educação em a ob igação de u iliza di e en es ecu sos pedagógicos e didá icos
que c i iquem os p ocessos his ó icos de e angelização e de ci ilização do humano
b anco sob e as demais pessoas. Não az sen ido ac edi a que um único pad ão
ci iliza ó io, sob o p e ex o de desen ol imen o do mundo con empo âneo,
globalizado, seja ainda enca ado como o ma supe io , na u al e necessá ia à
ele ação das capacidades cogni i as das es udan es e dos es udan es. To na-se,
assim, necessá io inse i nos cu ículos a concepção de comunidade, em que a
pa icipação popula e ambém o sabe popula sejam pa es cons i uin es da
o ganização e sis ema ização do conhecimen o, ao mesmo empo que ambém
seja possí el ques iona e desen ol e o pensamen o c í ico sob e a hegemonia
do conhecimen o uni e sal.
A elabo ação de um cu ículo menos p esc i i o e mais c í ico em como
ho izon e de expec a i as a ideia de emancipação po meio de p áxis, que
p essupõe a cons ução do pensamen o c í ico ol ado à desna u alização das
o mas canônicas de conhece e ap ende . De e-se ambém epensa o papel
social do conhecimen o, conside ando as elações en e o sujei o e o mundo, seu
ca á e his ó ico, ansi ó io, e a mul iplicidade de ozes sob e a ida e es e.
To na-se, ainda, undamen al minimiza as ensões en e mino ias e maio ias
hegemônicas, ab indo espaços pa a modos al e na i os de p oduzi e o ganiza
o conhecimen o. Po im, e e mé odos que se o na am co en es, ac í icos
e hegemônicos no modo de seleciona e a alia o conhecimen o (Mon e o, in
Lande , 2000).
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Ao se deb uça sob e a ideia de um cu ículo con empo âneo b asilei o, se á
p eciso coloca ambém em discussão a o mação das docen es e dos docen es, e
inclui es o ços que implicam a descons ução do ubíquo, da desna u alização e
desuni e salização da mode nidade, pa a que haja o o alecimen o das ma cas
cul u ais pessoais.
Fa o es da economia que de e minam a p odução cul u al, a manei a de
p oduzi sujei os humanos e o dens sociais den o de um único pad ão, de em
se ques ionados pelos cu ículos. É p eciso in es i na comp eensão e na c í ica
aos mecanismos simbólicos e imaginá ios que o nam legí imos de e minados
domínios, azendo desapa ece as con adições e na u alizando o conhecimen o.
Nesse sen ido, as pe spec i as p agmá icas, ac í icas, jun amen e com as
p esc i i as, do cu ículo p ecisam se e is as, ab indo um espaço maio pa a os
p ocessos de cons ução e exe cício do imaginá io, pois é po meio da cons ução
e ep esen ação simbólica que o sen ido de comunidade – nacional, é nica e
sexual – adqui e o ma e con eúdo, e pode se econhece como al.
Em ace dessas ques ões, o cu ículo con empo âneo de e não só sa is aze às
necessidades básicas de ap endizagem e acesso ao conhecimen o sis ema izado,
como ambém es abelece um campo de deba e e ques ionamen o. De e
undamen almen e conside a os e i ó io de sabe es que acompanham cada
pessoa – po exemplo, sabe es o ais, sabe es ances ais, sabe es adqui idos na
escola e compõem sua ede conhecimen os e olha es sob e o mundo. Assim,
o cu ículo p ecisa es a abe o a iden i ica emá icas que êm como oco a
di e sidade e o mul icul u alismo, si uando-se no âmbi o dos deba es,
di ecionado pa a uma educação em oposição ao e nocen ismo. T a a-se de um
cu ículo pau ado em no os pa adigmas, en e eles as eo ias pós-coloniais e
es udos cul u ais. Nesse sen ido, não se a a apenas de c ia leis que legi imem
os cu ículos das escolas b asilei as ou a p esc ição de mé odos e didá icas a
se em abalhados em sala de aula.
ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA
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A inse ção no cu ículo de emá icas é nicas po o ça de lei, po si só, não
dá con a de eduzi o osso que sepa a a escola, no B asil, da comunidade da
qual ela az pa e e dos sujei os que a compõem na sua di e sidade. (A aújo;
Ba os, 2015, p.2)
Faz-se, assim, necessá ia a ampliação dos es udos, isando acompanha
p opos as, pa âme os e o ien ações de on es o iciais, de cole i os de educado es
e da academia, pa a que se possa descons ui paula inamen e a concepção
epis emológica eu ocên ica, que em disciplinado os co pos e pe pe uado
a condição b asilei a de colonizados. Ou seja, os cu ículos, e aquilo que se
ensina po meio deles, êm pe pe uado a imagem de po os subal e nos, polí ica,
econômica e cul u almen e. E, simul aneamen e, ambém em di undido a ideia
de homogenia cul u al e iden i á ia, excluindo ou desquali icando ou os ma cos
p óp ios das cul u as locais b asilei as.
Pa a a e icácia des e olha sob e o cu ículo con empo âneo b asilei o, não bas a
inclui um ol de con eúdo a se desen ol ido em sala de aula, ou olclo iza
ques ões ligadas à expe iência a o e à di e sidade egional b asilei a, po exemplo,
p omo endo ei as cul u ais nas escolas. É p eciso agi mais p o undamen e pa a
al e a a manei a de concebe e exe ce p á icas cu icula es. Além da lógica
de o ganização eu ocên ica, p agmá ica e hegemônica, é necessá io ambém
a alia o p óp io cu ículo, a manei a como es á es u u ado, a que in e esses ele
esponde, e em quais alo es ci iliza ó ios e humani á ios es á pau ado. Somen e
dessa manei a se á possí el epensá-lo, não apenas como caminho pa a ep oduzi
e eduzi o p ocesso de ensino e ap endizagem a p á icas me odológicas, mas
en endendo-o como a e a o cul u al e impo an e ins umen o polí ico
des inado à o mação social dos indi íduos.
A escolha de de e minadas disciplinas em p ejuízo de ou as acabou po legi ima
a desigualdade social, p i ilegiou de e minadas o mas de sabe , e calou inúme os
segmen os cul u ais e his ó icos. De e-se en ende o cu ículo escola como uma
cons ução comuni á ia, po meio da qual es ão en ol idas ques ões de sabe e
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pode . Po essas azões, de ende-se a cons an e e isi ação c í ica dos cu ículos e
a busca po uma p opos a que e li a a dinâmica e a di e sidade social b asilei a
(A aújo; Ba os, 2015).
Além das ques ões epis emológicas, eu opeias e coloniais p esen es na educação
e cul u a b asilei as, não se pode deixa ambém de des aca a in luência da
li e a u a educacional no e-ame icana na consolidação da educação de massa
b asilei a. No início do século XX, os EUA passa am a pon ua os deba es ace ca
dos cu ículos b asilei os, p opondo uma educação des inada a o ma sujei os
pa a a economia ou pa a a democ acia. Dessa manei a, associa-se a escola e
seus ins à dinâmica indus ial e adminis a i a do capi alismo. O cu ículo
passa a especi ica , po meio dos planos de ensino, os obje i os p e endidos, os
esul ados a se em alcançados, a me odologia a se aplicada e a mensu ação dos
esul ados, de inindo aquelas e aqueles que es ão ap as ou ap os pa a o me cado
(A aújo; Ba os, 2015).
O dilema ace ca dos obje i os dos cu ículos do século XX - o ma pessoas pa a a
economia ou pa a a democ acia – ouxe à ona eo ias c í icas sob e o cu ículo,
colocando em oposição eo ias adicionais que p io iza am os elemen os écnicos
na sua cons i uição e a aliação. O modelo adicional acabou po ge a alunas
e alunos desin e essados, p o esso as e/ou p o esso es desmo i ados, ime sos
em um cu ículo con eudis a e em uma educação ac í ica. Ou seja, uma escola
dis an e da dinâmica da ida e da sociedade, incapaz de exe ci a a al e idade
das en ol idas e dos en ol idos no p ocesso educacional, inap a pa a lida com
as ques ões é icas e polí icas, e pa a epensa a sociedade b asilei a den o das
pe spec i as da di e sidade de gêne o, mul ié nica, mul i acial e mul icul u al.
Pa a as eo ias c í icas, o mais impo an e não e am as écnicas de como aze o
cu ículo, mas o desen ol imen o de concei os que pudessem comp eende as
ques ões polí icas, sociais e cul u ais p esen es na sua cons i uição (Sil a, 2011).
Nesse âmbi o, ganha am des aque as pe spec i as cu icula es que aziam
maio p oximidade com o co idiano das alunas e dos alunos, que alo iza am as
discussões é nicas e de gêne o, as his ó ias locais e os sabe es popula es.
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Esse pe cu so his ó ico e pedagógico colocou o cu ículo das escolas públicas
b asilei as dian e da necessidade de e o mula a p óp ia escola e seus cu ículos,
po meio de p áxis pedagógicas e eo ias ligadas à educação, capazes de
p oblema iza e inclui o mul icul u alismo, a al e idade e a di e sidade.
Ressal a-se que o mul icul u alismo es á embasado em es udos eó icos
epis emológicos, ao mesmo empo que se a a ambém de uma p á ica
social. Ou seja, p ecisa se pe cebido como um ins umen o de lu a polí ica,
con es ado a, que comba e os p econcei os e as disc iminações de indi íduos
e g upos cul u ais his o icamen e subme idos a p ocessos de ejeição e/ou
silenciamen o. O mul icul u alismo em na sua base a de esa do pe encimen o
iden i á io dis in o de pad ões hegemônicos, alidados e acei á eis po
de e minados segmen os sociais, que que em impo suas pe spec i as de mundo
sob e as ou as pessoas, sejam ais imposições no espaço escola ou no con ex o
social mais amplo (A aújo; Ba os, 2015).
Dessa o ma, os cu ículos p ecisam es a em pe manen e p ocesso de a aliação
e cons ução, endo em is a que eles de em con empla pe spec i as dos
Es udos Cul u ais. Es es, po sua ez, eme gem con a a adição dominan e,
que legi ima apenas a cul u a a elada às g andes ob as li e á ias e a ís icas, ou
com o imaginá io de uma de e minada sociedade econhecida pelos seus alo es
uni e sais. Os cu ículos b asilei os p ecisam se is os como espelhamen o
do mul icul u alismo, como exp essão da expe iência humana, e como um
impo an e campo de signi icação social.
Mesmo comp eendendo o cu ículo como uma de i ação do pensamen o
c í ico, e apoiado no econhecimen o das p oblemá icas sociais b asilei as, é
p eciso que as p o esso as e os p o esso es sejam incen i adas e incen i ados a
comp eende o p ocesso de ensino e ap endizagem po meio de conhecimen os
mul idisciplina es, ansdisciplina es e in e disciplina es, conside ando o
espei o à condição humana, o di ei o à exis ência em suas múl iplas o mas de
exp essão, e o di ei o ao p ocesso de ap endizagem. Dessa o ma, a educação se á
o caminho pa a a
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são espaços pa a con e ências, e o a se con igu am como salas pa a as esidências
a ís icas. Assim, es a unidade em ca ac e ís icas de um cen o cul u al, com
a i idades aos domingos e segundas- ei as.
Com base em múl iplas expe iências e encon os com a is as que es ão na lida,
a escola ponde a o papel social das A es Cênicas em módulos que alo izam a
emancipação c iado a, o pensamen o c í ico e a con luência absolu a de alen os
e poé icas, des iando-se da elação hie á quica e homogeneizado a que cos uma
es a p esa às bases educacionais.
Os p essupos os do cu ículo da Escola são:
• Ensino não hie á quico: a Escola se baseia em um modelo de ensino
que ompe com o egime de subo dinação das pedagogias adicionais.
O conhecimen o a ança de aco do com abalhos p á icos e e lexi os,
le ando em conside ação o i mo de ap endizagens das es udan es e dos
es udan es.
• Ensino não cumula i o: busca dilui comple amen e o pa âme o de
que a es udan e e o es udan e no qua o semes e são mais a ançados do
que aqueles e aquelas no es ágio inicial. Compa imen a o conhecimen o
a ís ico é uma con adição imp odu i a, pois ele de e se abalhado
como um mecanismo de expansão, desdob amen o na u al do aze
a ís ico, e não de acumulação.
• Ensino modula : um módulo co esponde à unidade de con eúdos
e p á icas daquele semes e. A es udan e e o es udan e da SP Escola de
Tea o equen am qua o módulos independen es em uma das linhas
de es udo que compõe as a es do palco, cada um com a du ação de um
semes e e iden i icado po uma co : e de, ama elo, azul e e melho.
Assim, o na-se possí el cons ui aje ó ias indi iduais no p ocesso de ensino
e ap endizagem, no qual a ques ão da acessibilidade, como já oi pon uado,
o na-se um dos p incípios no eado es do sis ema pedagógico. Dessa o ma,
o concei o de inclusão social é edimensionado. Em ge al, p essupõe-se que
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as pessoas que es ejam o a de algum sis ema – seja de bem-es a social ou
abundância econômica – necessi am se inco po adas po uma e cei a ou po
um e cei o.
Aquelas e aqueles supos amen e excluídas e excluídos podem se ans o ma ,
assim, em se es sem au onomia, ma ione es ine es, em uma elação de
ansi i idade que ex apola seu pode de escolha singula .
A SP Escola de Tea o p opõe subs i ui a noção de inclusão social po
acessibilidade, em odos os nossos p oje os a ís icos e pedagógicos. E i a-se,
assim, a obje i icação das pessoas, que p ecisa iam, po sua condição de op imida,
op imido, excluída ou excluído do cí culo de opo unidades socioeconômicas,
se em inse idas den o de algo, po o ças ex e nas alheias às suas condições
exis enciais. Ao con á io, as pessoas de em se comp eendidas como se es a i os,
que azem escolhas de aco do com os e i ó ios que almejam acessa , em ez de
se conside adas obje os que p ecisam se incluídas po alguém. As pessoas em
si uação de ulne abilidade social não p ecisam se inco po adas po agen es
exógenos. Necessi am, sim, de um ambien e sociopolí ico que lhes p opo cione
boas escolas, biblio ecas e espaços cul u ais, associados a in aes u u a e icien e,
sis ema de saúde e emp ego (Aquiles; Cab al; Ga cía, 2018).
Com es e p essupos o, o acesso à SP Escola de Tea o oco e po di e sas ias.
Inicialmen e, um p ocesso que ga an a uma escola mul icul u al, habi ada
po odos os pe is é nicos, polí icos, de gêne o, o ien ação sexual ou o igem
socioeconômica. Em segundo luga , o acesso é ga an ido po meio dos cu sos
g a ui os. Além disso, exis em bolsas de es udo que p o êm supo e pa a a é
me ade das es udan es e dos es udan es. Sem a Bolsa-Opo unidade, uma
g ande pa cela, o iunda de amílias economicamen e desp i ilegiadas, não e ia
condições de a ca nem mesmo com o anspo e a é a escola. Finalmen e,
um p og ama de in e câmbios in e nacionais ga an e o acesso a impo an es
uni e sidades o a do B asil.
A chamada “inclusão social” pode se elacionada a he anças de subo dinação
colonial, como esc a idão, dogma ismo eligioso, in ole ância é nica, ganância
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pela iqueza ma e ial e pode polí ico, pa ia cado e he e ono ma i idade. Esses
pad ões de subo dinação subes imam e minam alen os e capacidades indi iduais.
Spi ak (1988) abo da a ques ão do chamado subal e no, e e indo-se à ação de
encon a uma oz “den o e o a do ci cui o de iolência epis êmica da no ma
impe ialis a e da educação” (p.283). Quando enxe gamos a acessibilidade como
aje ó ias abe as pa a que qualque um possa iaja a é qualque e i ó io, a
au onomia indi idual e o li e-a bí io se expandem, ao in és de se em limi ados
po ba ei as econômicas, sociais, é nicas ou bio ísicas. Assim, o que se p opõe
é uma no a abo dagem concei ual e p agmá ica, e não simplesmen e uma
modi icação semân ica. O obje i o é p omo e o ala gamen o das discussões
sob e esses alo es na sociedade. Con udo, isso de e se semp e en endido como
uma a enida de mão dupla, pa a que se assegu e o diálogo. Com isso, a oca e a
po osidade são componen es cen ais do sis ema pedagógico da Escola (Aquiles;
Cab al; Ga cía, 2018).
Uma igu a cen al no desen ol imen o da pedagogia da escola oi o geóg a o
b asilei o Mil on San os (2009). Pa a ele, o e i ó io é a u ilização que os
se es humanos azem do espaço geog á ico, e a o ma como se c iam as edes
de elações no mesmo. A globalização, em seu pensamen o, de e se en endida
como uma das dimensões da cons ução das elações sociais.
Ao ala da “na u eza do espaço”, San os a i ma que es e
(...) se impõe a a és das condições que ele o e ece pa a a p odução, pa a
a ci culação, pa a a esidência, pa a a comunicação, pa a o exe cício da
polí ica, pa a a exp essão das c enças, pa a o laze como condição do ‘ i e
bem’. (San os, 2009, p.55)
Le ando adian e essas ideias, um dos obje i os da escola é u iliza o ea o pa a
ocupa e ans o ma o e i ó io. Po an o, en ende como o aze ea al, as
a is as e os a is as podem in e agi nes e e i ó io é undamen al pa a de ini o
p óp io p ocesso de ap endizagem das es udan es e dos es udan es.
ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA
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Ou o p essupos o eó ico que em ap imo ado o cu ículo da Escola, na busca
da descolonização do sabe e da hie a quia do conhecimen o, é a noção de
“pedagogia da au onomia”, c iada pelo pedagogo b asilei o Paulo F ei e. Es e
concei o é undamen al, pois e i a um olha colonizado sob e o p ocesso de
c iação e ap endizagem ea al. Pa a as a is as e os a is as docen es, o in ui o
não é ansmi i conhecimen os. An es, e sob e udo, há mui o o que ap ende
com as jo ens e os jo ens es udan es. Assim, o eixo de nosso p ocesso pedagógico
pode se esumido na ase de Paulo F ei e:
Ninguém igno a udo. Ninguém sabe udo. Todos nós sabemos alguma coisa.
Todos nós igno amos alguma coisa. Po isso ap endemos semp e. (F ei e,
1983, p.39)
Desse modo, não exis e conhecimen o p é io ob iga ó io a se ensinado an es
da p á ica. Ao con á io, o sabe é cons uído a pa i de expe iências eais; é
cons uído a pa i de p oje os cênicos escolhidos odo semes e, e de e minados
como pa âme os às es udan es e aos es udan es. Consequen emen e, a
ap endizagem acon ece an o a pa i do singula quan os das conexões
elacionais es abelecidas en e odas as en ol idas e odos os en ol idos no
abalho a ís ico. O conhecimen o é compa ilhado de di e en es manei as,
en e odas e odos que pa icipam do p ocesso de ensino e ap endizagem.
Finalmen e, o e cei o p essupos o undamen al pa a a elabo ação do p oje o
pedagógico da SP Escola de Tea o oi o concei o de ‘pensamen o sis êmico’ de
F i jo Cap a, a pa i do con ex o, que é adicalmen e opos o ao pensamen o
analí ico. Segundo o au o ,
(...) análise signi ica isola algo com o in ui o de en endê-lo; o pensamen o
sis êmico signi ica coloca esse algo em um con ex o de um odo maio .
(Cap a, 2000, p.41)
DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM
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Sua abo dagem sis êmica en a iza os p incípios de o ganização, em de imen o
do uncionamen o de elemen os indi iduais. Como co olá io, es udan es são
enco ajadas e enco ajados a expe imen a á ios p ocessos de ap endizagem,
como pa e de um sis ema a iculado de pensamen o e ação.
Dessa o ma, a Escola é semp e sensí el aos concei os de hib idação e cul u a
poli alen e. O B asil em uma complexa o ma de in e agi , nega e disc imina
hábi os sociais e linguís icos. Os b asilei os compa ilham, num mesmo
e i ó io, ances alidades eu opeias, a icanas e ame índias. Mas isso não
signi ica que essas pe spec i as cul u ais es ejam in eg adas, apaziguadas ou em
diálogo. Ao con á io, olha-se mui o mais pa a a Eu opa do que pa a a p óp ia
Amé ica La ina, quando se pensa em ea o ou na o ganização do pensamen o
eó ico sob e as a es cênicas. São Paulo é uma cidade po oada an o po
imig an es como po mig an es de ou as egiões do país. Ao se conside a os
con ex os aqui ap esen ados, o na-se undamen al uma abo dagem pedagógica
não hie á quica, dando igual alo às o igens e ca ac e ís icas singula es de odas
e odos que i em e compa ilham o e i ó io b asilei o.
Is o diz espei o especialmen e ao modo de p odução da educação ea al, que
é ocada na c iação de no os ma e iais e e e ências (ou sua essigni icação), ao
in és de acei a sem c í icas o cânone ociden al como um modelo e e encial e
uni e sal. Po an o, o obje i o não é ep oduzi as “g andes” na a i as, nem
eina as es udan es e os es udan es à exaus ão pa a dominá-las. Ao con á io,
a in enção é c ia aje ó ias au o ais, e é po isso que odos os p oje os ea ais
(Expe imen os) ap esen am d ama u gia o iginal desen ol ida pelas es udan es
e pelos es udan es.
Na SP Escola de Tea o não há ex os d ama ú gicos “clássicos” a se encenados
pelas u mas de es udan es; em ez disso, o oco es á ol ado às pe spec i as da
con empo aneidade. Assim como não há disciplinas acadêmicas a se em cu sadas,
não há aulas no cu so écnico em ea o que se concen em na d ama u gia
g ega, shakespea iana ou de Becke , po exemplo. No en an o, esses con eúdos
podem se acessados como ma e iais de pesquisa ou como o icinas especiais nos
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cu sos de ex ensão, mas nunca enquad ados como on e ex ual p imá ia pa a a
encenação. A adição clássica é de in e esse cen al, apenas se e quando es i e
associada a uma p opos a con empo ânea de mon agem.
Como exemplo dessa pe spec i a, uma es udan e pode ia p ocu a mais
in o mações a espei o de um d ama u go como Eu ípides ou Tchekho , pa a
esc e e suas p óp ias peças. No en an o, esses au o es se i iam apenas como
e e ência em e mos de p ocedimen o, con eúdo ou o ma. Es a abo dagem ai
além do simples desman elamen o do cânone ea al al amen e eu ocên ico; em
ez disso, ep esen a a oxigenação da p odução de no os concei os al e na i os
e ma e iais ea ais. O mesmo se aplica a ou as e e ências. Na escola, o
eó ico mais so is icado nos es udos pós-coloniais é ão impo an e quan o o
a is a local, que é um d ama u go e in é p e e au odida a. As es udan es e os
es udan es êm au onomia pa a decidi se seu desen ol imen o pessoal como
a is as se á mais balizado po um ou ou o ipo de conhecimen o, ao longo do
desen ol imen o de qualque p oje o especí ico (Aquiles; Cab al; Ga cía, 2018).
Todo esse p ocesso o na signi ica i as noções como plu alidade e al e idade.
Elas são is as como on es de ene gia e po encial c ia i o, bem como elemen os
que queb am pa adigmas anac ônicos e p o ocam ans o mações sociocul u ais.
Na SP Escola de Tea o, po exemplo, as es udan es e os es udan es lidam
cons an emen e com ques ões como iden idade de gêne o e empode amen o
social, de ido à conexão his ó ica da ins i uição com a comunidade ansexual e
ma ginalizada da p aça Roose el (Cab al; Vázquez, 2016). Essas ques ões não
es ão apon adas no cu ículo apenas como discussões ans e sais ao seu p ocesso
de o mação. A p opos a é mais ampla, e é pa e cons i uin e dos emas que
são le ados à cena, du an e os expe imen os cênicos desen ol idos pelas e pelos
jo ens a is as dos cu sos. No p ocesso de pesquisa, du an e as in es igações
cênicas e nas abe u as das salas de ensaio, as es udan es e os es udan es êm
espaço pa a discu i ques ões de gêne o, aça e classe, apoiados em pe spec i as
de au o as e au o es con empo âneos que êm se dedicados a e le i sob e
esses emas. Também es ão em cena as expe iências pessoais que cada jo em
DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM
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ca ega consigo ou que o am i enciadas den o da p óp ia escola. Assim, não
se a a de apenas descoloniza conhecimen os nem ampouco ans o ma a
ques ão em emas de es udos. Ao con á io, a a-se de cons ui dia iamen e
a i udes e posicionamen os que conduzam à i ência de pos u as an icoloniais,
an i acismo e con a qualque p econcei o iden i á io. São expe iências que
de em es a p esen es na es u u ação das p opos as pedagógicas e a ís icas
da Escola, na condução do abalho de c iação e nas p opos as cênicas das
es udan es e dos es udan es. Essas expe iências oco em de mui as manei as no
co idiano da Escola. Elas es ão p esen es nas escolhas dos ma e iais didá icos,
nas a is as con idadas e a is as con idados pa a as mesas de discussão e ó uns
de deba es, nas elações es abelecidas en e os en ol idos no p ocesso de ensino
e ap endizagem e, undamen almen e, no modo de es a e se pe cebe numa
Escola plu al, ho izon al, que em in e esse pela pesquisa, pela ino ação e pela
cons ução de elações in e pessoais saudá eis, pau as na polissemia de ozes e
cul u as. Nesse sen ido, a escola busca di imi a dis ância en e comp eende
eo icamen e os p opósi os da con i ência plu al e a ealização da ans o mação
social pela A e e com o Tea o. Po meio de uma abo dagem pedagógica e
a ís ica, que es á em cons an e e lexão, o desejo deixa de se um pa adigma
concei ual e passa a se con igu a como o p imei o passo pa a a consolidação
de uma p opos a de ap endizagem mú ua, cujas expe iências i idas no âmbi o
da Escola e, po an o, du an e o p ocesso de c iação ea al, são capazes de
edimensiona a ida humana, ampliando pe spec i as undadas em hie a quias
aciais e descons uindo a sup emacia de uma de e minada cul u a sob e ou as
cul u as e e i ó ios que endem a sepa a “nós”, “elas” e “eles”.
Um álbum musical pa a ilumina alguns caminhos
No segundo semes e de 2015, como semp e oco e na Escola, um g upo de
a is as docen es es a am empenhadas e empenhados em de ini uma au o a
con empo ânea pa a se i de base às discussões do módulo que i ia oco e
em 2016. Jun amen e com es a escolha, esse g upo ambém busca a seleciona
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ma e iais (imagens, ex os, ou ma é ias jo nalís icas) pa a inicia as pesquisas
cênicas, bem como a eleição de uma a is a pedagoga pa a que as es udan es e
os es udan es pudessem encon a na aje ó ia dessa a is a a inspi ação pa a as
in es igações es é icas do semes e.
Em ge al, essas discussões semp e le am em con a o que es á o bi ando en e as
es udan es e os es udan es, e deco em ambém, mui as ezes, dos p oblemas
encon ados nos abalhos de semes es an e io es. E acon eceu que, naquele
momen o, segundo semes e de 2015, eio à ona um expe imen o cênico que
ala a da mulhe , da ques ão do empode amen o, e da iolência; ainda uma
iolência su il, po que acon ecia num casamen o em que o ma ido não que ia
que a mulhe abalhasse o a, e insis ia, a odo cus o, que ela se o nasse dona
de casa. Esse expe imen o oi bas an e con unden e, e apon a a pa a algumas
ques ões que sabíamos que e iam que se ecupe adas em algum momen o. Em
uma eunião pedagógica, J. C. Se oni, coo denado de Cenog a ia e Figu ino e
Técnicas de Palco, ouxe a in o mação de que, em 2016, se ia comemo ado o
cen ená io do samba. Hugo Possolo, coo denado de A uação, ez co o, dizendo
que se ia in e essan e abalha com le as de samba. Imedia amen e, pe cebeu-
se que as le as de samba, p incipalmen e dos mais an igos, aziam uma dose
o e de machismo e in ole ância.
Foi ine i á el lemb a do machismo de canções como “Ai! Que saudade da
Amélia”, de A aul o Al es e Má io Lago:
Você só pensa em luxo e iqueza / Tudo o que ocê ê, ocê que / Ai meu
Deus que saudade da Amélia / Aquilo sim é que e a mulhe / Às ezes passa a
ome ao meu lado / E acha a boni o não e o que come / E quando me ia
con a iado / Dizia “meu ilho, o que se há de aze ?” / Amélia não inha a
meno aidade / Amélia é que e a mulhe de e dade (1942).
DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM
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“Mulhe indiges a”, de Noel Rosa:
Mas que mulhe indiges a / Me ece um ijolo na es a / Essa mulhe não
namo a / Também não deixa mais ninguém namo a / (...) Ela é mais
indiges a do que p a o / De salada de pepino à meia-noi e / Essa mulhe
é ladina / Toma dinhei o, é a é chan agis a / A ancou- me ês den es de
pla ina / E oi logo ende no den is a (1932).
E “Emília”, de Wilson Ba is a e Ha oldo Lobo:
Que o uma mulhe que saiba la a e cozinha / Que de manhã cedo me
aco de na ho a de abalha / Só exis e uma / E sem ela eu não i o em paz/
Emília (1941).
E, nessa eunião, mais uma ez o expe imen o do Módulo Ve melho, aquele da
cena do casamen o, eio à baila. Po an o, e a undamen al se conec a com o
nosso empo, com as ques ões que nossas es udan es e nossos es udan es inham
apon ando.
Em azão disso, a ideia de celeb a o cen ená io do samba pe deu o ça. Mas,
naquele momen o, um CD azia bas an e sucesso en e as a is as e os a is as da
Escola: “A mulhe do im do mundo” (2015)2, de Elza Soa es, p oduzido pelo
selo Ci cus.
Assim, a pa i daquele momen o, es a a escolhido o ma e ial de abalho.
Fal a a, no en an o, de ini Ope ado e A is a Pedagogo.
2 O CD de Elza Soa es, com 11 canções, p oduzido po Guilhe me Kas up e E ns on Bönninghausen
(o álbum é de músicas compos as, em sua maio ia, po homens b ancos), mis u a á ios gêne os musicais,
como samba, ock, ap e ele ônica, com emas como iolência domés ica, ansexualidade, u banidade
e acismo, en e ou os. Em 2016, o álbum ecebeu o p êmio G ammy La ino, na ca ego ia Álbum de
Música Popula B asilei a. A icha écnica do CD eúne os seguin es composi o es: José Miguel Wisnik,
Rômulo F óes, Alice Cou inho, Douglas Ge mano, Kiko Dinucci, Clima, Celso Sim, Joana Ba ossi,
Fe nanda Diaman , Rod igo Campos, Cacá Machado, Ma celo Cab al e Albe o Tassina i.
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Com o CD “A mulhe do im do mundo”, oi p eciso busca e e ências eminis as
que dialogassem com o nosso empo. Fo am dias pesquisando, indo a ás de
e e ências, a é que chegou a nossas mãos o abalho da nige iana Chimamanda
Ngozi Adichie, especialmen e um li o chamado “Sejamos odos eminis as”
(2014), u o de uma con e ência ealizada pela undação no e-ame icana
Sapling, na qual a esc i o a ap esen ou uma ideia pa a o eminismo do século
21, a pa i de suas expe iências pessoais, e de endeu a inclusão e consciência da
mulhe na con empo aneidade.
Nesse momen o, ambém ci cula a nas edes sociais Twi e e Facebook a
hash ag #meup imei oassedio. Um mo imen o po in e médio do qual as
mulhe es começa am a desc e e expe iências de assédios que ha iam so ido
em suas idas.
Assim, a pe spec i a con empo ânea de Chimamanda começa a a aze sen ido.
En im, inha-se o Ma e ial de T abalho (o CD “A mulhe do im do mundo”3) e
o Ope ado (o li o “Sejamos odos eminis as”); mas ainda e a necessá io busca
a A is a Pedagoga, alguém que pon uasse o diálogo en e esses dois luga es.
E a p eciso de ini quem se ia essa a is a. Tínhamos, de an emão, uma única
ce eza: de e ia se uma mulhe . O nome da a iz, encenado a e d ama u ga
espanhola Angélica Liddell imedia amen e oi lemb ado e de inido.
Angélica é uma das g andes ozes emininas na esc i a ea al con empo ânea.
Ela inha indo ao B asil em 2014, du an e a Mos a In e nacional de Tea o de
São Paulo (MITsp), pa a ap esen a a pe o mance “Eu não sou boni a” – um
abalho con essional sob e um abuso sexual que ha ia so ido.
3 As canções des e CD azem uma d ama u gia sono a que ai do samba ao ock, passando pelo ap,
ele ônico e punk ock. Uma a iedade mui o ampla pa a as in es igações cênicas das es udan es e dos
es udan es. Elza Soa es é uma mulhe neg a, de 80 anos, com uma his ó ia de ida cu iosa e que pa ecia
me ece um olha mais a en o. De amília pob e, Elza i eu na pe i e ia do Rio de Janei o, oi mãe aos
14 anos, e, p ecisando da con a da ma e nidade, começou a can a nessa época, quando pa icipou do
p og ama de A y Ba oso na Rádio Tupi. Aos 15 anos, já inha sido mãe pela segunda ez e pe dido os
dois ilhos, e o ma ido adoece a de ube culose. Viú a aos 21 anos, com cinco ilhos, abalhou como
emp egada domés ica e axinei a. No início dos anos 1960, en im, o nou-se conhecida e, após qua o
elacionamen os, en ol eu-se com o jogado de u ebol Ga incha. Te e que en en a odos os ipos de
p econcei o po se pob e, neg a e mulhe .
DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM