PERSONA. Revista do Departamento de Teatro e Cinema da ESAP
Full text
1
DIRETOR:
Mes e Ma co Mi anda
COMISSÃO CIENTÍFICA:
P o . Dou o Melo Fe ei a, P o .ª Dou o a Anabela Oli ei a,
P o . Dou o Cos a Valen e, P o . Dou o Luís Noguei a,
Mes e e Dou o ando Jo ge Palinhos, P o .ª Dou o a Ma a
F ei as e P o . Dou o José Manuel Cou o
COMISSÃO EDITORIAL:
Mes e Ma co Mi anda, Mes e Isolino Sousa e
Encenado Robe o Me ino
SECRETARIADO
Liliana Ga cês
DESIGN GRÁFICO E PAGINAÇÃO
So ia Mi anda
PROPRIETÁRIO / EDITOR:
CESAP – Coope a i a de Ensino Supe io A ís ico do Po o, C l
Rua do In an e D. Hen ique, nº 131, 4050-298 Po o
NIF/NIPC: 501 350 195
SEDE DE REDACÇÃO:
Depa amen o de Tea o e Cinema da ESAP
La go de S. Domingos, nº 80, 4050-545 Po o (Sala 1º Mouzinho)
Con ac o: [email p o ec ed]
Nº DO REGISTO DA ERC
126413
ÍNDICE
EDITORIAL | CARLOS MELO FERREIRA
> 5
O ESPECTADOR DE CINEMA E A EXPERIÊNCIA DA IMAGEM
> 8
AS FORMAS DE ANTÍGONA: UM ESTUDO HERMENÊUTICO SOBRE CRIATIVIDADE E
DIVERSIDADE EM SÓFOCLES
> 22
A CRIAÇÃO DA POÉTICA EM TARKOVSKY
> 38
DE VAUCLUSE AO RIBATEJO: O ESTATUTO DO TRADUTOR
DE TEATRO COMO CO-AUTOR
> 47
APARELHO VOADOR A BAIXA ALTITUDE
CINE-ENSAIOS DE J.G. BALLARD E SOLVEIG NORDLUND: HOLOGRAMAS
DE UM FUTURO PRÓXIMO EM QUE TOLERÂNCIA E FEMINISMO
CONDUZEM A UMA MUDANÇA DE PARADIGMA
> 61
CENA DE CINEMA:
QUESTÕES SOBRE A ESCRITA DO ROTEIRO CINEMATOGRÁFICO
> 90
EL ARTE DE ESQUIVAR LA CENSURA Y LA
REPRESION: TEATRO Y DICTADURAS DEL CONO SUR
> 101
NARRATIVAS ENTRE A PRESENÇA E A PAISAGEM:
ECOS PÓS-DRAMÁTICOS NO CINEMA CONTEMPORÂNEO.
> 120
HIROSHIMA MON AMOUR: REALIZAÇÃO E RECEPÇÃO.
> 135
PUBLICIDADE TELEVISIVA: PROBLEMAS DE GÉNERO
> 148
CRIAÇÃO NA ERA DA INTERRUPÇÃO
> 169
JEFF WALL
DOUBLE SELF-PORTRAIT
> 179
ENTREVISTA | NUNO CARINHAS
> 192
O ea o e o cinema são i mãos, o que
não es á em ques ão e jus i ica a c iação de
uma no a e is a de ea o e cinema. Mas são
i mãos amigos ou inimigos? Essa é a ques ão
que a ‘Pe sona’ se coloca desde o seu p imei o
núme o, dedicado ao ema C iação.
No ea o e no cinema c ia-se a pa i
do nada, abula asa, ou a pa i do an e io , do
que já exis e? E a a e, que an o o ea o como
o cinema são, se e pa a apazigua ou pa a
desinquie a ?
Embo a enhamos as nossas espos as
a es as e ou as pe gun as, quisemos colocá-las
aqui pa a que os pa icipan es nes e p imei o
núme o nos ajudem a esponde -lhes e, desse
modo, pensem o ea o e o cinema connosco.
Se o ea o en en ou e con o mou o
mi o, o cinema, he dei o desse e dou os mi os,
e á c iado ou os, nomeadamen e o da sua
p óp ia na u eza a ís ica. Po isso pe gun amos
ambém: o cinema é e dadei amen e uma
a e? E o ea o bas a-se no ex o esc i o ou
p ecisa da encenação, do espec áculo cénico
pa a se cump i ?
A a e implica um ac o de c iação,
que se consubs ancie num objec o que po si
p óp io pense e nos aça pensa . Mui a gen e
esc e eu sob e isso coisas di e en es, nem
semp e con adi ó ias. Como pensa am, e como
pensam na ac ualidade o ea o e cinema?
E nas ou as a es, que pa a es a e is a
ambém são chamadas, como é? Também se
c ia? E como se c ia na ac ualidade? Po que as
nossas ques ões não se que em echadas no
passado mas lançadas pa a o p esen e.
O cinema ainda exis e? E na a i ma i a,
o que é? E o ea o, hoje em dia, pa a que
se e?
Domina mui o nos nossos dias a
pe spec i a da en abilidade: ou um p odu o
cul u al ende dinhei o ou não ale a pena.
Acei amos nós es a a i mação ou emos alguma
ou a pe spec i a alo a i a a coloca como
al e na i a?
A pe gun a que aqui nos colocamos,
no nº 1 des a e is a, é se ale a pena i e ,
como ale a pena i e ? É melho nem seque
pensa mos nisso ou é p e e í el ques iona mos
o sen ido que isso az – ou não az?
Temos como pon o de pa ida a ideia
de que se de e ques iona udo, mesmo o que é
dado como ce o, indiscu í el, especi icamen e
nas á eas do ea o e do cinema. Po exemplo:
a a e e a ida são a mesma coisa? A emoção
az algum sen ido no ea o e no cinema? E qual
o luga que neles ocupa o pensamen o?
Não es amos aqui pa a os aquie a
mas pa a os desinquie a , p o oca a ossa
eacção e lec ida, o osso pensamen o, com
as nossas p opos as conc e as de e lexão
sob e objec os conc e os do ea o, do cinema
e das ou as a es.
A nossa manei a de se é não se mos
indi e en es e não que e mos p o oca a
indi e ença. Como oi e como é o ea o? Como
oi e como é o cinema? E que elação/ elações
man êm, se algumas, com as ou as a es?
E pa a que se em, se se em pa a alguma
coisa?
Que emos se imp e isí eis e como
al que emos se enca ados. T ansdisciplina es
mas desassossegados e desa umado es de
ideias ei as, pa a o que os ap esen amos uma
sé ie de p opos as logo de início. Pelo menos
nisso se emos o iginais e exigen es.
P ocu a emos não ansigi com a
acilidade e apos a do lado do conhecimen o
e da cul u a, pa indo do p incípio de que a
igno ância e a al a de cul u a, pelo menos
no ea o, no cinema e nas ou as a es
não bene iciam ninguém. Esse o con ibu o
que, de o ma desinibida e desempoei ada,
que emos da pa a o pensamen o a ís ico
con empo âneo.
Po isso começamos po pe gun a :
C iação, a bem dize , o que é, no ea o, no
cinema e nas ou as a es? Venham connosco
e depois digam se aleu a pena. Nós es amos
aqui pa a ac escen a
Foi po isso que c iámos es a no a e is a,
no que assumimos uma p imei a ideia sob e
C iação.
CRIAÇÃO
Ca los Melo Fe ei a
Ca los Miguel de Sá e Melo Fe ei a, na u al de Lisboa,
é Dou o ado em Ciências da Comunicação – Cinema pela Faculdade de
Ciências Sociais e Humanas da Uni e sidade No a de Lisboa.
P o esso Auxilia na Escola Supe io A ís ica do Po o, onde
lecciona:
His ó ia do Cinema, Análise de Filmes, Filmologia,
Teo ias do Cinema na Licencia u a em Cinema e Audio isual;
An opologia Visual, Semiologia e Semió ica na
Licencia u a em Design e Comunicação Mul imédia;
His ó ia e Teo ia do Cinema no
Mes ado em Realização – Cinema e Tele isão.
Pa icipou em Con e ências, Colóquios e Encon os In e nacionais
e egeu seminá ios emá icos e wo kshops sob e cinema.
É In es igado In eg ado do Cen o de
Es udos A naldo A aújo, Unidade
de I&D da FCT, e memb o da AIM – Associação de
In es igado es da Imagem em Mo imen o.
Publicou “O cinema de Al ed Hi chcock” (1985),
“T u au e o cinema”
(1991), “As poé icas do cinema” (2004),
“C uzamen os – Es udos de A e, Cinema e
A qui ec u a” (co-Ped o Viei a de Almeida, 2007) e
“Cinema – Uma A e Impu a” (2011). Tem cen enas de a igos e ensaios
sob e cinema publicados na imp ensa cul u al e na imp ensa da
especialidade.
NOTA BIOGRAFICA | CARLOS MELO FERREIRA
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8
O ESPECTADOR
DE CINEMA E A
EXPERIÊNCIA
DA IMAGEM
Hen ique Coda o *
RESUMO | P opomos, nes e abalho, e le i a espei o do
espec ado de cinema e da expe iência da Imagem em nossos
dias. Tomando como pon o de pa ida os abalhos dos ilóso os
Ma ie-José Mondzain e Jacques Ranciè e, en amos, num p imei o
momen o, mos a o uncionamen o do olha en e à imagem,
des elando com isso o que Mondzain chama de ‘disposi i o
eclesiás ico’, sis ema que se u iliza do signo da enca nação
como elemen o cen al a im de es abelece uma ges ão econômica
e polí ica do isí el. Num segundo momen o, p opomos epensa
o papel do espec ado nessa dinâmica, não mais a pa i da
passi idade que lhe é habi ualmen e des inada, mas buscando ê-
lo como um espec ado emancipado, al como de ende Ranciè e,
sujei o do olha , da pala a e do julgamen o.
PALAVRAS-CHAVE | Imagem. Espec ado . Cinema. Imaginá io.
Enca nação.
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1| AQUILO
QUE VEMOS
Pensa o cinema é um exe cício que p essupõe inúme os desa ios e que em mobilizado
es o ços de di e en es eó icos, o iundos dos mais di e sos campos de conhecimen o.
O a en endido como a e - a sé ima den e elas, po excelência a a e da mode nidade;
aquela que, pa a alguns, consegui ia euni em si mesma odas as demais o mas
a ís icas -; o a denunciado como espe áculo - um sis ema egido pela economia
capi alis a, p odu o e ao mesmo empo máquina p odu o a de uma cul u a das massas,
uma écnica au oma izada de con ole - o cinema, é ce o, não se esume a uma
coisa nem à ou a. Na e dade, pa adoxalmen e, ele acaba assumindo-se como as duas
coisas ao mesmo empo: an o a e quan o indús ia, an o im quan o meio. Aliás,
al ez seja jus amen e dessa ambiguidade que ele e i e sua e dadei a po ência;
quiçá seja essa dualidade on ológica que lhe pe mi a, ao mesmo empo, se sujei o
e obje o, espelho e ealidade, o e ecendo assim, àqueles que sob e ele eo izam,
uma mul iplicidade de pe spec i as, a iculações e desdob amen os.
Podemos dize que a comunicação, á ea de es udo p i ilegiada nes e ensaio,
dedica-se a comp eende os p ocessos de mediação que su gem da in e ação en e dois
ou mais indi íduos. Como um campo cien í ico, seu obje i o maio se ia eo iza
ace ca dos meios de comunicação (ou dos media, se p e e i mos um e mo mais
uni e sal) e daquilo que po eles é p oduzido, le ando em conside ação o luga
ocupado pelos a o es desse supos o “p ocesso”, sejam eles chamados de emisso es e
ecep o es, in e a o es e in e agen es, ou ainda au o es e espec ado es. Nou as
ezes, po ém, ela adqui e a es de concei o, passando a se en endida como a p óp ia
capacidade elacional que nos pe mi e es a jun os, di idi um mesmo empo e um mesmo
espaço - e um mesmo “meio” -, e elando po conseguin e alguma coisa pe encen e à
o dem do compa ilhamen o; algo que, ao se o na comum a um de e minado g upo ou
sociedade, pe mi i ia aos seus memb os c ia laços e es abelece o mas dis in as
de con i ência.
Se o ges o de comunica az explíci o an o o desejo da pa ilha quan o a
necessidade do pe encimen o, ele ambém, diale icamen e, de e se pensado como o
esponsá el po aze apa ece um aspec o que ele a do uni e so da singula idade,
daquilo que não é cole i o nem comum, mas, ao con á io, único e o iginal em cada
indi íduo. O a, é a o que qualque o ma de oca, enha ela na u eza ma e ial
ou simbólica, p essupõe um dis anciamen o, um hia o en e os pa icipan es desse
comé cio. Assim, se a comunicação pode se explicada como a ci culação de signos
e de ges os es abelecida en e sujei os di e en es, é exa amen e dessa di e ença
que ela e i a sua o ça. É da insupe á el sepa ação en e os co pos que nasce, em
cada uma das pa es en ol idas, o desejo de e e de ala sob e aquilo que se ê.
“Somen e assim é que o sujei o pode á, en ão, aze sua apa ição no mundo”*
* A bibliog a ia consul ada pa a a composição desse a igo é quase oda em língua ancesa. Assim, odas as ci ações aduzidas que igu am no ex o são de nossa in ei a espons-
abilidade.
16
“Aquilo que se ece in isi elmen e en e os olhos e as imagens cons i ui a
ama de um sen ido compa ilhado, de uma escolha no des ino das paixões que nos
a a essam”, in e e a ilóso a (MONDZAIN, 2002, p.59). Es e di o Homo Spec a o
*(MONDZAIN, 2007) se e, é ce o, pa a designa aquele que o e ece seu olha na
expe iência da ap eciação daquilo que lhe é dado a e ; mas e e e-se ambém - e
sob e udo - àquele “que p oduz os signos que lhe pe mi i ão ou i e e , aze ou i
e aze e os mo imen os de seu desejo e de seus p óp ios pensamen os” (MONDZAIN,
2007, p.11). Ao econhece na a i idade espec a o ial um papel a i o e dinâmico no
compa ilhamen o do sensí el, a ilóso a desco ina uma in e essan e analogia en e
a imagem e a pala a, en e o mu hos (a ábula) e o logos (a pala a).
O pode de abulação (mu hos) se ia a única e e dadei a condição de acesso
ao logos, pois “não há ansmissão de conhecimen o sem uma e ó ica da e dade”
(MONDZAIN, 2007, p.121). Ao se a a essado pelo daimôn - di indade que pa a os
g egos elaciona a-se às a e ações humanas e ao seu pode de imaginação (phan asia)
-, o discu so, a pala a pos a em mo imen o, con oca ia o desejo do sujei o
(MONDZAIN, 2007, p.121). Nossas an asias, são ins umen os de uma cena ização, de
uma icção do mundo. É na a i idade do con a que a ealidade adqui e uma o ma,
que os e en os ganham um empo e um espaço, e que os sujei os passam a e um nome,
um os o e uma iden idade. A a és da icção, o cinema - po excelência a a e da
mode nidade - lhes dá uma o ma e acaba po coloca em ação a igu a da libe dade
que condiciona o sujei o da pala a. Segundo Mondzain, é necessá io iccionaliza a
libe dade, imaginá-la - ou, em ou os e mos, compo sua imagem - pa a man e i a
a c ença, jus amen e a única ene gia e dadei amen e polí ica. A libe dade é uma
icção no sen ido li e al do e mo, “uma imagem que se in e põe en e os sujei os
e pe mi e que eles oquem de luga ” (MONDZAIN apud ALLOA, 2010, p. 58).
Es a analogia que a a essa oda a ob a da ilóso a se e de pon o de pa ida pa a
nos ap oxima mos de uma supos a on ologia do sujei o espec ado . Mondzain lhe o nece
o luga de um p odu o de sen idos ao mesmo empo em que des aca os mo imen os de seu
desejo e de seus pensamen os como mo o da dialé ica es abelecida en e o e e o dize .
A a iculação dessas ca ego ias, bem como seu uncionamen o, in e essam-
nos aqui de o ma pa icula , pois esse jogo de equi alências e de oposições nos
possibili a desa ela a noção de espec ado de uma insis en e passi idade - o
que o p óp io e mo, de pa ida, já suge e -, encon ando-lhe um no o luga nessa
dinâmica. Pa a Mondzain, a pa icipação a i a do olha en e à imagem p essupõe
qualque expe iência es é ica, o que az com que en endamos o sujei o espec ado
como um sujei o in ei o, que pensa e que deseja; ou, como p e e e Jacques Ranciè e,
um “espec ado emancipado”.
Na mesma pe spec i a que Mondzain, Ranciè e (2008) suge e que
“aquele que ê não sabe e ” se e como a máxima que guia oda a his ó ia
do pensamen o ociden al ace ca do binômio imagem/espec ado , desde a
ca e na de Pla ão a é a noção debo diana da sociedade do espe áculo.
Pa a ele, a emancipação do espec ado e ela-se uma espécie de ges o de a i mação
da sua capacidade de e e de pensa a espei o daquilo que lhe é dado a e .
* Mondzain (2007) explo a longamen e o ca á e eminino da imagem, a en
17
Como Mondzain, Ranciè e (2008) ambém elaciona o e ao pensa , encon ando
na a i idade espec a o ial a possibilidade legí ima da conquis a da libe dade, pois
emancipa , lemb emos, signi ica exa amen e libe a -se do pode de uma au o idade.
“A emancipação começa quando comp eendemos que olha é ambém agi ” (RANCIÈRE,
2008, p. 18). É a a és das ap oximações e dos dis anciamen os de seu olha que o
mundo en ão pode adqui i sen idos, ganha o ma e composição. O espec ado , dessa
manei a, não é apenas um con emplado dis an e, mas ambém um in é p e e a i o do
espe áculo que lhe é o e ecido. “Ele compõe seu p óp io poema com os elemen os do
poema que se ap esen am dian e dele” (RANCIÈRE, 2008, p.19).
Ranciè e ol a-se ao uni e so do ea o a im de en a comp eende a
elação en e a emancipação in elec ual e a ques ão do espec ado em nossos dias.
P imei amen e, não se ia em ão lemb a que o e mo espec ado , o iundo do la im
spec a o , e a u ilizado pa a e e i -se à a i idade de obse a ou con empla um
espe áculo, mas ambém se ia, na G écia an iga, pa a designa o luga ocupado
po um cidadão no p óp io espaço do ea o. Di o de ou o modo, ele é um elemen o
cen al na economia de qualque espe áculo. Sua elação com a pala a eo ia
- do g ego heo ía - ampouco é o ui a, pois eo iza signi ica jus amen e
obse a um obje o de e minado, especula sob e ele. Nesse sen ido, o e ece seu
olha à con emplação de um espe áculo signi ica ia pensá-lo; eo iza ace ca de
sua dinâmica e das implicações que dela deco em. Ao menos de um pon o de is a
a is o élico, o ea o ap esen a-se como a condição da possibilidade da ida na
polis (MONDZAIN, 2007, p. 212), e é dessa manei a que Ranciè e o comp eende:
como uma espécie de lócus o iginá io do espec ado ; luga mais que p opício pa a
e le i a p opósi o da in e elação da a e, domínio do sensí el, com a polí ica,
espaço do compa ilhamen o.
O ilóso o des aca o pa adoxo undamen al que eme ge das mais di e sas
c í icas di igidas às a es da cena e que, segundo ele, pode ia se o mulado de
manei a bas an e simples: “não há ea o sem espec ado ” (RANCIÈRE, 2008, p. 8). É
cla o que al axioma se es ende ia igualmen e ao cinema, ou ainda a qualque ou a
o ma de a e do espe áculo, pois como de ende Ranciè e, apesa de suas espec i as
pa icula idades e de suas no á eis di e enças, o ges o da encenação pa ece se o
amálgama comum de odas elas. Ao analisa as c í icas que conside am a a i idade
espec a o ial como elemen o cen al nas discussões ace ca da elação da a e com a
polí ica, o au o , en e an o, pa ece mui o mais p eocupado em comp eende o que
az de um sujei o que ê um sujei o da cul u a do que a aca uma supos a cul u a do
espe áculo. Na e dade, Ranciè e con ida-nos a “sai do cí culo”, pa i de ou as
p essuposições que não mais espondam a uma lógica que co obo a a o dem social
ins i uída. Nesse exe cício, o ilóso o con apõe duas pe spec i as eó icas que,
ainda que dis in as en e si, se sus en a iam sob e um mesmo egime de oposições,
uncionando como os lados con á ios de uma mesma moeda.
A p imei a dessas oposições in e e que, no caso do espe áculo ea al, e
se ia o con á io de conhece . Nele, o espec ado es a ia passi amen e posicionado
en e a um jogo de apa ências, cujo p ocesso de p odução e a ealidade que esconde
lhe são, de a o, desconhecidos.
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O ges o de camu la ou maquia a ealidade da ia ao espe áculo um ca á e
ilusó io, que encon a na passi idade da con emplação sua condição p imo dial. Já a
segunda pe spec i a opõe o e a qualque o ma de ação que conduza ao conhecimen o
e ao sabe , uma ez que o olha do espec ado , na encenação, é subjugado pelas
somb as do ilusionismo pe o má ico dos co pos, deixando-se po ele seduzi .
“Assim, se espec ado é es a sepa ado an o de sua capacidade de conhece , quan o
de seu pode de agi ” (RANCIÈRE, 2008, p. 8). A pa i dessas duas p emissas que
se apoiam em uma conclusão pla ônica a espei o da a e, pode-se supo que qualque
espe áculo acaba po coloca em cena um pa hos, a mani es ação de um sin oma
elacionado ao desejo e ao so imen o, u o da di isão de um sujei o que, de odo
modo, se ia mesmo esul ado da igno ância (RANCIÈRE, 2008, p. 9).
Ranciè e explica que o ea o su ge como uma o ma cole i a da cons i uição
do sensí el que e mina po ca ac e iza -se como o espaço i o da comunidade,
“ ans o mando as o mas sensí eis e comuns da expe iência humana” (RANCIÈRE,
2008, p. 12). Toda ia, se quem diz ea o diz espec ado , o ilóso o nos con ida,
endossando as e lexões de Be ol B ech e An onin A aud, a pensa numa o ma
ea al na qual al passi idade es i esse subme ida a um ipo di e en e de elação,
implicando e designando aquilo que é ealmen e p oduzido em cena: o d ama. “D ama
que dize ação” eco da-nos Ranciè e (2008, p. 09). É po meio do d ama que o
ea o se o na o luga no qual uma ação cole i a pode se conduzida. Tal ação
sus en a-se no mo imen o dos co pos que, uma ez colocados em cena pa a nela
a ua em, buscam ambém mobiliza ou os co pos, p o ocando-lhes ou a ez uma ação.
Po an o, se em alguma medida o espec ado enuncia ao seu pode de julgamen o -
ainda que momen aneamen e -, é pa a ecupe á-lo e ea i á-lo a a és da mise en
scène; da in eligência, da ene gia e da economia p oduzidas po essa pe o mance
dos co pos que ocupam o espaço da cena.
A noção de mise en scène se e exa amen e pa a ques iona o luga do espec ado
em elação a um sis ema de ep esen ação, pois ela se con e e na p óp ia mise
en ela ion en e o olha e o espe áculo (COMOLLI, 2008, p. 79). Pa a Jean-Louis
Comolli (2008), coloca em cena signi ica conside a o espec ado como susce í el
de se ans o ma ; ele é um se desejan e capaz de mo e -se, de muda de luga .
Se o mal do sujei o espec ado eside numa espécie de abandono de si mesmo, es e
abandono se ia, po ou o lado, ine en e e imp escindí el à sua condição. Pa a que
a a i idade espec a o ial acon eça, nos eco da Comolli, é semp e p eciso alguma
o ma de dis anciamen o; um mo imen o de ecuo o na-se incon o ná el pa a que o
sujei o espec ado possa en ão nasce .
O espec ado não é mais o homem que se se e de seus olhos enquan o
odos os ou os sen idos epousam, mas o héa ès, aquele que obse -
a ou con empla aquilo que o mundo ou um ou o homem lhe dá a sen i
(...). É um cidadão omado pelo espe áculo de uma ação que age sob e
ele e que ele, po sua ez, ans o ma á em seguida em alguma ou a
coisa. Essa ans o mação, que ele de e à po ência do logos e não ao
pode de seus olhos, az com que ele se o ne um cidadão capaz de
julga aquilo que ê e de decidi o que que com os ou os. (...) O
logos é, an es de qualque coisa, uma elação; elação do sujei o a
um “ o a” (deho s) ou uma elação que se e e i a en e o sujei o que
ê e aquele que diz o que ê. (MONDZAIN, 2007, p. 15).
19
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O cinema, como imos, é um obje o híb ido, um enômeno que eúne a e e
indús ia. Fundado sob e um egime de con adição, ele se ale dessa ambi alência a
im de sus en a o seu luga no mundo, pois é jus amen e ela que lhe econhece esse
duplo e insepa á el es a u o. Assim, o aze de um ilme semp e se á um abalho
cole i o, uma a i idade na qual os ges os, os a e os e as pe o mances dos co pos
são conduzidos e ao mesmo empo se deixam conduzi em nome da sa is ação de um
desejo. Di o de ou o modo, cada um dos pa icipan es desse p ocesso p oje a seus
desejos em nome de um mundo a se p oje ado.
En ende como, his o icamen e e cul u almen e alando, nossa elação com a
imagem em sendo cons uída, pa ece-nos um ges o de g ande alia pa a comp eende mos
a impo ância do papel do espec ado nessa dinâmica. “Ela (a imagem) espe a que
nós a pensemos à luz de sua p óp ia his ó ia, (...) p ecisamos comp eende os
elemen os de sua genealogia” (MONDZAIN, 1996, p. 11). A pa i das e lexões de
Mondzain, en amos en ão mos a que essa elação ainda esponde a um disposi i o
di o eclesiás ico, ainda que a Ig eja enha pe dido seu monopólio pa a um me cado
de isibilidades, pa a uma di a indús ia do en e enimen o que subjuga qualque
o ma de e lexão em nome de um comé cio do olha . É em azão de mobiliza paixões
que a imagem se o na elemen o c ucial desse me cado, dessa supos a economia.
O que a imagem pa ece mesmo susci a é uma espécie de luga de c ise, como de endem
an o Dessan i quan o Mondzain. Essa c ise se ia p o ocada po uma ans o mação na
manei a de en ende mos o papel do espec ado e a in luência da imagem no co idiano.
É isso que Ranciè e mos a ao en a sub e e a o dem do pensamen o c í ico, que
ao esponde a um sis ema de pensamen o pla ônico, ap eende o luga do espec ado a
pa i da noção de passi idade, o que ce amen e em a o nece à imagem uma ou a
onicidade. Isso e o ça a hipó ese lançada po Mondzain a espei o da possibilidade
de que a Ig eja, ap o ei ando-se da ideia de al passi idade, enha lançado mão de
seu disposi i o eclesiás ico, encon ando na enca nação sua mais pe ei a alego ia.
Como a i ma Mondzain (2007, p.82), o ca á e enigmá ico de uma imagem al ez
seja jus amen e sua ausência de mis é io. O in isí el, nela, não se esconde, mas ao
con á io, se mani es a. Seu enigma não é um seg edo e não epousa em nenhum sabe
ocul o ou ese ado. Ela é o enigma de oda ca ne que i e e que é habi ada pela oz. Essa
oz enuncia a mani es ação daquilo que p oduz seu p óp io desejo de e . Um desejo.
20
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BIBLIOGRAFIA
22
AS FORMAS
DE ANTÍGONA
um es udo he menêu ico sob e
c ia i idade e di e sidade em Só ocles
José Edua do Sil a, Isabel Menezes e Joaquim Luís Coimb a
RESUMO | Tendo sido esc i a há quase 2500 anos, não deixa
de se su p eenden e que An ígona con inue a se e isi ada,
hoje em dia, e con inue a inspi a inúme as c iações ea ais,
a igos, ecensões c í icas, en e ou os. As pala as de
Só ocles sob e i e am aos séculos e, pela sua sa u ação
semân ica, p es am-se con inuamen e a uma eno me di e sidade
de in e p e ações e cons uções de signi icado, que se
exp essam sob e udo na imensa p o usão de di e en es obje os
es é icos que lhes dão o ma. Es a di e sidade é ambém um dos
aspe os cen ais da ob a. O p esen e a igo p ocu a le an a
possibilidades pa a a sua in e p e ação, que possam se
pe inen es ao olha con empo âneo, nomeadamen e e le i sob e
as limi ações e implicações que a ação humana e as suas escolhas
êm na cons ução do mundo. P opomos que, pa indo de duas
posições absolu amen e an inómicas (ma e ializadas po An ígona
e C eon e), Só ocles ap esen a uma pe spe i a c í ica sob e
uma p oblemá ica eminen emen e polí ica e plena de a ualidade:
a das elações en e as classes di igen es e as classes
di igidas, designadamen e, sob e de e minado ipo de p á icas
das classes di igen es que le am à cons ução de um mundo que
não a ende à di e sidade humana que o compõe. Ao mesmo empo,
explo amos, nos p ocessos indi iduais e elacionais da c iação
do espe áculo ea al, possibilidades eó icas pa a ul apassa
ais an inomias como con adições cons i uin es do p ocesso de
cons ução de um mundo p og essi amen e mais iá el e inclusi o
da di e sidade.
NOTAS DO AUTOR | Es e es udo es á a se ealizado no âmbi o do P og ama
Dou o al em Psicologia na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação
da Uni e sidade do Po o. A co espondência e e en e a es e a igo de e
se en iada pa a Joaquim Luís Coimb a e pa a José Edua do Sil a Faculdade de
Psicologia e de Ciências da Educação da Uni e sidade do Po o Rua do D . Manuel
Pe ei a da Sil a, 4200-392 Po o. E-mails: [email p o ec ed];
[email p o ec ed]
23
INTRODUÇÃO: SÓFOCLES,
CRIADOR DE SIGNOS
Só ocles exp ime-se a a és da icção. Pelo a o c ia i o da esc i a dá
o ma às suas emoções, ans o mando a sua expe iência subje i a em linguagem. É
na linguagem que ele se obje i a a si mesmo e ao obje i a -se au og ama iza-se,
al e ando as condições, o mas e con eúdos do i ido psicológico (De ida, 2006).
Aos seus lei o es é concedida a possibilidade de in e p e a , segundo a p óp ia
expe iência subje i a de cada um, a ob a que nos deixou, num exe cício he menêu ico
c ia i o – o que se o na e iden e na c iação do obje o es é ico ea al mas
não só – cons uindo e econs uindo sen idos pa a as pala as que Só ocles
esc e eu e eo izando sob e as azões áci as que o mo e am à sua explici ação. As
in e p e ações são as unções que ans o mam obje os ma e iais em ob as de a e
(Chalumeau, 1997).
Segundo Ba hes (2007), Saussu e c ia dois concei os (de cuja união esul a o
concei o de signo): o signi ican e (o plano da exp essão) e o signi icado (o plano do
con eúdo) que, po sua ez, se elacionam com alguma “coisa” que exis e no “mundo”,
o e e en e. Sendo cla o que es a dis inção se e apenas o p opósi o analí ico, ela
pe mi e-nos a analogia, já p opos a po Lacan (1999 [1957-1958]) e Todo o (2008
[1976]), en e os concei os psicológicos de con eúdo mani es o e con eúdo la en e
p opos os po F eud (2009 [1900]), em que a dimensão psicológica a e i o-emocional
pe manece numa exis ência in isí el, da o dem do ecalcado, enquan o ca ece de
uma o ma que lhe dê exp essão ( o mação do inconscien e, pa a eco e a uma
o iginalidade conce ual lacaniana). Que emos com is o dize que é pela mani es ação
dos sinais signi ican es que emanam dos es ados emocionais que podemos e acesso
a es a dimensão psicológica, ou seja, é quando a emoção se ans o ma em linguagem
que ela se o na comunican e, pois assim o na-se passí el de se in e p e ada e
ein e p e ada pelo p óp io e pelo ou o. Àqueles a quem isso possa in e essa ,
só lhes es a eo iza sob e o signi icado desses mesmos sinais, co endo semp e
o isco de in e p e a “mal” o seu signi icado – que dize , aze in e p e ações
desses sinais, que não co espondam ao que o emisso p e endia ansmi i – a é
po que podem não domina as suas es u u as sin á icas e semân icas, mas, sob e udo
po que se insc e em em his ó ias, con ex os, singula idades e ânsi os do desejo
di e sos, incomensu á eis e insubs i uí eis. Po ém é um isco que al ez alha a
pena assumi , uma ez que pode inaugu a uma possibilidade de um diálogo in e acional
e nesse exe cício, elacional e dialé ico (uma lógica que pa ece subjaze a
odos os p ocessos e olu i os), co emos ambém o isco de o na mais amplo o
nosso conhecimen o de nós p óp ios e do mundo. De es o, o e o e a c ia i idade
pa ecem e g andes a inidades: só nos é possí el comp eende que a expe iência
imedia a nos induziu de alguma o ma em e o, a pos e io i (Ma u ana, 1997).
24
E is o indica que é co endo o isco de agi e ambém de e a , que podemos
expe imen a i além dos limi es do nosso conhecido, cons a ando pos e io men e o
e o da nossa pe ceção imedia a, ou seja, o e o é condição (e apa) necessá ia pa a
p og edi pa a es ádios pos e io es de conhecimen o. Po ou o lado, apenas se pode
ala de c iação quando alguma coisa que eme ge (que se mani es a ou o na explíci a)
ac escen a algo a um mundo p e iamen e exis en e. Pa a que al possa acon ece ,
é necessá io que o sujei o, num a o c ia i o, ul apasse expe iencialmen e os
limi es do (seu) mundo conhecido, azendo uma incu são po ou os “mundos” de que é
compos o o “mundo” (Goodman, 1978). Nesse pe cu so, não de e emos es anha e ainda
menos, lamen a , se nos depa a mos com o e o; pelo con á io, o seu econhecimen o
é de ex ema impo ância uma ez que o conhecimen o do mundo e de nós p óp ios se
cons ói de o ma ecip ocamen e implicada. Em suma, podemos dize que ambém é pela
capacidade de e a , que nos conseguimos econhece enquan o sujei os c ia i os. A
cons ução de conhecimen o e de au oconhecimen o é, ela mesma, um a o c ia i o, de
implicação mú ua, que nos o na capazes de ac escen a no as o mas às p e iamen e
exis en es, cons uindo assim e sões al e na i as de mundos. O plu alismo, ine en e
a es as e sões, é aplicá el, po um lado, aos múl iplos p ocessos de cons ução,
po ou o, à di e sidade de esul ados de cons ução, i.e., à mul iplicidade de
mundos possí eis, e iden emen e elacionados e pa ilhando g ande pa e dos seus
p edicados.
Nes e es udo, o mulamos a hipó ese de que, em An ígona, Só ocles não só
le an a a ques ão de como o pode pode enca a a di e sidade como um p oblema, que é
exp essa no con on o de duas pe spe i as do mundo que se opõem e não se elacionam
(nas pe sonagens de An ígona e C eon e), como ambém nos deixa, implíci as,
possí eis o mas de pe spe i a es as an inomias, omando, como exemplo, a manei a
como, nos p ocessos ene gé icos e dinâmicos da c iação a ís ica, a di e sidade é
uma consequência desejada do a o c ia i o e do exe cício da libe dade. Sus en amos
ainda que a isão que aqui es á subjacen e p opõe uma e iden e indissociabilidade
das dimensões a e i a, cogni i a e da ação na ida humana, em sin onia com as
con ibuições mais ecen es do cons u i ismo psicológico (e.g., Guidano, 1991).
O MITO DE ANTÍGONA
Impo a, pa a uma melho comp eensão do p esen e es udo, aze uma b e e
con ex ualização do mi o em que su ge es a ob a e dos acon ecimen os que a
p ecedem. Segundo Jabouille (Jabouille, Fialho, Figuei edo, Lou enço, Gue ei o
& San os, 2000), o mi o de An ígona não exis e na mi ologia g ega p imi i a,
ele é um dos elemen os mínimos a uan es de um ciclo mí ico mais as o: o ciclo
de Tebas. An ígona, ilha de Édipo é, po an o, uma pe sonagem ecen e de um
dos segmen os es u u ais de um mi o, que em Édipo como pe sonagem p incipal.
Édipo assume o pode em Tebas após o mis e ioso assassina o do ei Laio.
25
Casa pos e io men e com Jocas a (a an iga esposa de Laio) e des e
casamen o nascem qua o ilhos: E éocles, Polinices, An ígona e Ismena.
Numa sequência p og essi a de acon ecimen os, Édipo descob e: que inha
inad e idamen e assassinado o ei Laio e que es e e a o seu p óp io pai; que a mulhe
que omou po esposa (Jocas a) e a, na ealidade, a sua mãe; e, consequen emen e, que
os ilhos de ambos e am u o dessa união inces uosa. Face a es es acon ecimen os
e em p o undo desespe o, Édipo escolhe pe u a os olhos e ecolhe-se pa a mo e
exilando-se em Colono, na Á ica, endo sido acompanhado e assis ido po An ígona
a é aos seus úl imos momen os.
Es as ágicas descobe as azem-no e i a -se pa a a sua mo e e abdica do
ono. Na sequência dis o, os seus ilhos - E éocles e Polinices - eclamam o pode
sob e o ono de Tebas, decidindo que a go e na iam al e nadamen e. Mas, quando e mina
o seu p imei o manda o, E éocles decide que que p ossegui com a sua go e nação e
expulsa o i mão Polinices, que, po sua ez, se e ugia em A gos, cidade go e nada
po Ad as o. Polinices casa com Egeia, ilha do ei Ad as o e, apoiado pelo sog o
e mais cinco p íncipes, eúne um exé ci o e a aca Tebas. Não ha endo um encedo
e iden e, a gue a decide-se num comba e singula en e os dois i mãos e ambos mo em,
pela espada um do ou o. Como ambos mo em, C eon e, io de ambos, assume o pode
e o dena que apenas o cadá e de Polinices, o a acan e de Tebas, ique insepul o.
O cas igo pa a quem desobedecesse a es e édi o eal se ia a lapidação pública.
É exa amen e com es a o dem de C eon e que se inicia odo o segmen o de
An ígona. Es a o dem pode á se conside ada a ação o iginal, que i á ex ema em
An ígona e C eon e duas posições opos as, dico ómicas, incomunican es, mu uamen e
exclusi as, num con li o que se e ela á insaná el a é ao des echo ágico.
A lógica dialé ica, que podemos encon a nos p ocessos con ínuos de
desen ol imen o, não em aqui luga . Os dois pe sonagens que conduzem a e olução
dos acon ecimen os – An ígona e C eon e – não concedem aze a sín ese da
sua expe iência dialé ica e acabam po pe de o con olo dos acon ecimen os
que eles p óp ios coloca am em ma cha, acabando po se em ul apassados
po eles, azendo a mo e a quase odos aqueles que lhes e am p óximos.
Mas o p oblema adensa-se quando cons a amos que, pa a cada uma das
posições, conseguimos encon a legi imidade, coe ência e uma explicação que a
jus i ica: se, po um lado, An ígona sen e que os seus dois i mãos êm que,
imp e e i elmen e, e as mesmas hon as úneb es (p ocedimen o undamen ado pela
cul u a onde se inse e), C eon e, enca egado de zela pelo go e no de Tebas e
pela manu enção da o dem na cidade, ac edi a que não pode deixa passa incólume
a a on a de Polinices e legisla no sen ido de o na es e caso exempla , pa a
e i a possí eis éplicas. É sob e es e con li o que assen a oda a ação da ob a.
32
O mundo que inha cons uído, no seu isolamen o obs inado, começa a ui à
sua ol a: An ígona, sen indo que inha cump ido a sua unção de i mã depois de
p es a as hon as úneb es a Polinices, ao e -se enclausu ada i a, suicida-se;
Hémon, único ilho de C eon e ainda i o e noi o de An ígona, en a libe a a sua
amada da clausu a, mas depa ando-se com ela mo a, acaba po suicida -se ambém,
não sem an es a en a , sem sucesso, con a a ida do Pai; Eu ídice, esposa de
C eon e, ao sabe da mo e de seu ilho Hémon, amaldiçoa o seu ma ido e ambém se
suicida; po im, C eon e, pe an e odos es es acon ecimen os e conscien e da sua
esponsabilidade neles, deseja mo e , mas al não lhe se á concedido. Ele i e á
e so e á, pa a pode e le i sob e os seus e os:
Na sua in e enção inal, o co o (“anapes os”), az a sín ese dos acon ecimen os,
lou ando a sensa ez e ale ando pa a os pe igos da al i ez e da insolência.
CONCLUSÃO: UMA PROPOSTA
ONTOLÓGICA RELATIVISTA
DE SÓFOCLES
Nes e abalho sob e An ígona, p ocu ámos ealça as p oblemá icas
ela i as à condução da ida cole i a na cons ução da cul u a (libe dade ace
ao de e minismo das o ças da na u eza), nomeadamen e o p oblema da ges ão do
pode po pa e daqueles a quem cabe a a e a de zela pelo bem-es a comum
e pela libe dade. O desen ol imen o humano, sendo um p ocesso in insecamen e
c ia i o, esul a ine i a elmen e na eme gência de uma di e sidade de o mas
indi iduadas e de indi íduos singula es e, consequen emen e, numa mul iplicidade
de pe spe i as sob e a ealidade. Es e é um a o de e minan e, que de e á se
ido em con a po pa e de alguém que quei a conduzi os des inos de um cole i o.
Sabe lida com os possí eis p oblemas ad indos dessa p o usão de o mas e
de pe spe i as indi iduais de e á ce amen e aze pa e das compe ências
de quem decide le a a cabo esse emp eendimen o (A end , 1995 [1950]).
“C eon e: Venha sob e mim o mais belo des ino, o dia de adei o, o
melho de odos! Que enha e nunca mais eu eja ou o!
Co o: Falas do u u o. Mas ago a é empo de decidi o que aze com
es es que aqui jazem. Aos deuses cabe decidi o es o.
C eon e: Mas são es es os meus o os!
Co o: Não peças nada; não podem os mo ais escapa ao des ino que
lhes es á ese ado.” (Só ocles, 2011 [420 a.c.]).
33
Quando C eon e oma o pode , a o ma que elege pa a lida com es e p oblema é
a eco ência a p á icas me amen e coe ci as, inibido as da ação e consequen emen e
da c ia i idade e do su gimen o da di e sidade, impondo pela o ça o consenso numa
ealidade una, o que não em a su i o e ei o desejado - nomeadamen e em An ígona
- e desencadeia a agédia. Ao exp essa o acasso de C eon e, cujo p ocedimen o
é desap o ado pelos deuses, o sup emo pode da G écia an iga, Só ocles explici a a
ideia de que as pe spe i as dogmá icas que anulam a possibilidade de eme gência das
que lhe são al e na i as (pe soni icadas aqui em C eon e), são insu icien es an o
pa a esponde às necessidades dos cidadãos, como pa a conduzi o desen ol imen o
de um cole i o. Es as pe spe i as, equen emen e assen es em ígidas e simplis as
on ologias ealis as e epis emologias acionalis as de p ocessamen o de in o mação,
igno am a lógica mais ge al dos p ocessos do uncionamen o psicológico humano:
a indissociabilidade en e a e os, compo amen os e cognições. Assim, o au o
e idencia a indispensabilidade de adoção de pe spe i as que possam comp eende ,
econhece e inclui as di e sas cons uções de ealidade que eme gem do a o
c ia i o no p ocesso de desen ol imen o.
Mais ecen emen e, da con luência de á ias disciplinas - e al ez do
econhecimen o des a mesma insu iciência e inadequação dos modelos on ológicos
ealis as - eio a su gi o cons u i ismo psicológico, que, le ando a cabo
uma in es igação mais ap o undada e con inuada sob e o uncionamen o psicológico
humano, p opõe o econhecimen o de que os se es humanos c iam e cons oem
a i amen e as suas ealidades pessoais (Mahoney & Lyddon, 1988), o que conduz à
necessidade de uma mudança na o ma de olha a ealidade ( ela i ismo on ológico).
Ce amen e que es as pe spe i as não in luencia am o pensamen o de Só ocles,
pois são desen ol imen os ecen es a que apenas podemos e acesso nos dias
de hoje. Também não conseguimos encon a nas pala as de Só ocles indicações
que apon em pa a a p ocu a de hipó eses de esolução pa a as p oblemá icas
que expusemos, a não se no elogio da sensa ez da in e enção inal do co o:
Po es as azões, pa ece-nos que, é sob a o ma es é ica da na a i a ágica
que Só ocles exp ime o seu pon o de is a. E e i amen e, não podemos deixa de
no a que Só ocles e a, ele mesmo, um c iado cujas o mas de exp essão a ís ica
são a esc i a d amá ica e o ea o; e que a a e p opõe uma isão do mundo que
pa ece es a em sin onia com uma isão on ológica ela i is a e com uma pe spe i a
cons u i is a do uncionamen o psicológico humano. No caso especí ico da c iação
ea al, depa amo-nos com um p ocesso elacional cole i o, em que a di e sidade é uma
consequência desejada do p ocesso c ia i o e cada pe o mance ea al é uma p opos a
de ealidade al e na i a (e e éme a), em que oi possí el iabiliza a inclusão de
di e sos elemen os, indi íduos, pe spe i as e cons uções de ealidade dis in as.
Tomando is o em conside ação, pa ece-nos in e essan e ealça , de en e odas
as p opos as que podemos e nes a ob a, uma, que sendo ão ób ia, co e o isco
“O melho de udo é a sensa ez; aí mo a a elicidade...” (Só ocles,
2011 [420 a.c.]).
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de passa despe cebida. Falamos do ac o de es a icção e sido esc i a pa a se
in e p e ada e ep esen ada, ou seja, se colocada em cena, idimensionalmen e.
Podemos dize que, de alguma o ma, só após essa obje i ação a ob a encon a a sua
comple ude. Se conside a mos, ainda que de o ma não ap o undada, os p ocedimen os
e p ocessos indi iduais e cole i os de abalho que es ão en ol idos nes a
ans o mação, al ez possamos e mais um islumb e sob e as mo i ações de Só ocles,
no que diz espei o a possibilidades de esolução que a ques ão da di e sidade põe.
A CONSTRUÇÃO DO
OBJETO TEATRAL
Quando o pon o de pa ida pa a a cons ução do obje o ea al é uma ob a
esc i a, os abalhos de ea o iniciam-se com a análise e in e p e ação da ob a.
Es e abalho analí ico é apenas uma das dimensões da c iação da ep esen ação
e i á a ia , nas suas conclusões, pe spe i as e p opos as, de aco do com a
a iabilidade dos indi íduos en ol idos e espe i os con ex os. Is o co esponde
a uma p imei a abo dagem da ob a, em que a equipa a ís ica se eúne em ol a de
uma mesa de abalho (na gí ia ea al “ abalho de mesa”), le an ando e discu indo
di e en es in e p e ações da ob a, co esponden es aos di e en es pon os de is a
dos indi íduos p esen es. Pa a além das di e en es pe spe i as sob e o en endimen o
ge al da ob a e sob e as pe sonagens, que i ão se discu idas e pos e io men e
in e p e adas pelos di e en es a o es, ambém es a ão p esen es as pe spe i as de
di e en es linguagens que i ão con lui na cons ução do espe áculo: a cenog a ia,
a luz, a música/sono idade e os igu inos (só pa a ci a os mais equen es). Es e
abalho analí ico não inibe a ap esen ação de p imei os esboços ou p opos as
co esponden es aos pon os, a pa i dos quais os c iado es se p opõem cons ui
a sua p óp ia linguagem no espe áculo. É a con luência de odas as pe spe i as e
linguagens acima mencionadas que, mais a de, i á cons i ui o espe áculo.
Num segundo momen o, as di e en es equipas (a o es, músicos, cenóg a os,
igu inis as) sepa am-se (passando a acompanha -se pon ualmen e) pa a da
seguimen o à ma e ialidade das suas ideias, ago a conc e amen e in luenciadas
pelas pe spe i as, suges ões, p eocupações, sensibilidades, limi ações e desejos
que o am pa ilhadas com odos os ou os elemen os de cada uma das ou as
á eas – dando a possibilidade de pode ado a ou os pon os de is a ( omada
de pe spe i a) pa a além do seu e in eg á-los como elemen os a e em con a
na sua cons ução eal do obje o es é ico. Es e p ocesso de obje i ação das
eo ias le an adas pelo abalho analí ico é ago a pos o à p o a espacialmen e,
ma e ialmen e e elacionalmen e, num p ocesso dinâmico de expe imen ação. Is o
oco e den o de um p ocesso dialé ico, mu á el e de e olução não linea , à p ocu a
das ans o mações mais iá eis que len amen e ão eme gindo pa a cons ui a ob a.
35
A igu a designada pa a conduzi es es mo imen os é o encenado e a sua
in luência é de e minan e. Es e po á em ma cha os p ocessos necessá ios pa a
que seja possí el in eg a oda a di e sidade de elemen os em causa ao longo
de oda a e olução do espe áculo e o sucesso des e emp eendimen o é, em g ande
pa e, esponsabilidade sua. Tal como na ob a, C eon e é incumbido de conduzi
a e olução dos acon ecimen os e os cidadãos con e em-lhe aci amen e o pode
necessá io pa a oma as decisões, ambém na cons ução do espe áculo de ea o
a equipa a ís ica con e e aci amen e ao encenado a con iança, pa a que es e
possa oma odas as decisões inais, mesmo que es as não eúnam a conco dância
de odos. O desen ol imen o do obje o es é ico é mediado, em g ande pa e,
pela capacidade do encenado em desa ia a c ia i idade dos in e enien es –
c iando ní eis adequados de desa io/con o o pa a cada um deles – e da o ma
a um con ex o em que seja possí el aze a in eg ação dos ma e iais a ís icos
ge ados. Pa a que al seja possí el, se á necessá io um en endimen o po pa e
dos c iado es, conc e izá el po p ocessos de pa ilha e negociação in e pessoal
– de aco do com as eg as pessoais de iabilidade – susci ando a possibilidade da
adoção de pon os de is a al e na i os sob e a ealidade, o nando-a mul i o me.
Tendo em con a es es p essupos os, o abalho e olui segundo uma lógica dialé ica
en e a explo ação (expe imen ação) e a in eg ação de elemen os (seguindo a eg a
da iabilidade) - sob a mediação do encenado , que é o elemen o elacional en e os
di e sos c iado es. Enquan o obje o a ís ico, o sucesso des e p ocesso de c iação
es á dependen e, en e ou os a o es, da qualidade do p ocesso explo a ó io e do
sucesso da in eg ação dos elemen os da c iação no mesmo obje o es é ico ea al.
O obje o es é ico cons ui -se-á como ma é ia simbólica, den o de uma linguagem
(Goodman, 2006). A es a linguagem co esponde uma e são possí el de mundo, que
eme ge da con e gência de di e en es pe spe i as de mundos que emanam de di e en es
indi íduos. Um mundo mul i o me que, an es de mais, apon a pa a a possibilidade da
cons ução de uma ideia mul i o me de mundo.
Uma e cei a ase inicia-se com a es eia do espe áculo. O público em
ac escen a sen ido a um obje o es é ico que, desde o início, oi pensado e
cons uído no p essupos o de que i ia se is o po um público. A elação dialé ica
az-se ago a ambém com o espe ado , que, numa in e ação elacional com o obje o
es é ico, cons ui á, ele p óp io, eo ias esul an es da sua in e p e ação
dele, a ibuindo-lhe signi icados. A qualidade da e olução nes a e cei a
ase i á es a elacionada (em g ande medida) com a qualidade elacional que
eme giu du an e a cons ução do obje o es é ico, nomeadamen e com o ac o de o
obje o eme gen e e sido c iado de o ma su icien emen e lexí el, que possa
acomoda no os elemen os que sejam es ímulos à con inuidade da sua ans o mação.
Des a o ma, cons a amos que o e éme o exe cício ea al implici amen e
p opos o po Só ocles, assen a sob e udo nos aspe os c ia i os, ene gé icos e
dinâmicos que pau am as eg as da ida. Tal conjun o de p ocedimen os, não só
se encon a em sin onia com uma pe spe i a on ológica ela i is a, como ambém
explo a, quase ine i a elmen e, a iabilidade da cons ução um mundo plu al, capaz
de c ia condições pa a pode compo a e in eg a oda a di e sidade de o mas que
a c ia i idade humana pode p oduzi , ou seja ensaia a possibilidade de cons ução
de um mundo, capaz de in eg a os di e sos mundos que p oduz (Goodman,1978).
36
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BIBLIOGRAFIA
37
38
A CRIAÇÃO DA
POÉTICA EM
TARKOVSKY
Ana Fe a ia
A singula idade do cinema de And ei Ta ko sky aleu-lhe pa a além de p es ígio
in e nacional e de um luga na his ó ia, á ios ipos de di iculdades no p ocesso
de inancia , c ia e lança os seus ilmes ou em encon a público pa a o mesmo. Os
seus ilmes e as suas concepções da ida e da a e anspo a am-no pa a um pa ama
dis in o daqueles a quem nos habi uámos a chama de “di ec o s” ou “au eu s”. Como
disse D. P. Ams ong em Ta ko sky’s T ini y, and he
Room which Ful ils one’s
Inne mos Desi e
:
O que a li e a u a se ê ob igada a ilus a com pala as, dis o cendo
ou embelezando, po não e como se mais iel, consegue o ilme ansc e e
di ec amen e, sem necessidade de macula o objec o du an e a sua ansc ição pa a o
no o médium. Pa a Ta ko sky, apenas um ilme que enha o igem na obse ação di ec a
da ida pode se conside ado como “cinema poé ico”, po que uma imagem no cinema não
é mais do que a obse ação de um enómeno ao longo de um pe íodo de empo e empo,
em odas as suas mani es ações, é a ideia sup ema de a e cinema og á ica. Quando o
cinema se cinge a aze ilus ações, como no caso de inúme as adap ações li e á ias
ou ea ais, o sucesso come cial pode se endencialmen e posi i o, mas não o sucesso
a ís ico. E o ealizado esponsá el po al ilme, po mais compe ências écnicas
e objec i os conc e os que possua, não me ece á o nome de “a is a” a é se capaz
de, a a és de uma unidade de imagens, cons ui um en edo de pensamen os e c enças
que possam se ansmi idos ao público, con idando-o a pensa e a du ida consigo.
Ta ko sky ez ilmes, mas dize que ele oi um ealizado é
insul á-lo; dize que ele oi um “ ilm-make ” é subes imá-lo e
mesmo a pala a ancesa u ilizada pa a os a is as de cinema não
é su icien emen e e dadei a. Os comen ado es de cinema dizem-nos
que exis e uma linguagem cinema og á ica, uma g amá ica; se assim
é, en ão Ta ko sky é um dos poucos poe as do cinema e, mais do que
isso, ele é cla amen e o melho .
D.P.Ams ong in Ta ko sky’s T ini y, and he Room which Ful ils one’s Inne mos Desi e,
T adução nossa.
39
Se Ta ko sky diz que “ udo o que é no o em a e, eme ge como espos a a uma
necessidade espi i ual e a sua unção é aze essas ques ões que são de sup ema
ele ância pa a a nossa época” , é p ecisamen e po que, pa a si, a a e em um objec i o
di e so do do en e enimen o, que é ap oxima o se humano num plano emocional e
in elec ual supe io de modo a azê-lo p ospe a espi i ualmen e. Como al, é an o
mais na u al a sua ejeição do “cinema de massas” quan o mais undo se o na o abismo
que o sepa a do “cinema de a e” que semp e de ende a. Em a e não podem exis i
géne os (comédia, d ama, musical, wes e ns, e o ) – es as ca ego ias só se concebem
no seio dos media e da sociedade de consumo – são imposições ex e io es aos p óp ios
ilmes. “Só exis e uma manei a de pensa o cinema: poe icamen e” , a i mou Ta ko sky.
Toda a complexidade de uma imagem, com odos os seus inúme os signi icados,
não pode se o almen e ansc i a po pala as mas pode sê-lo pela a e e se á
an o mais bela quan o mais iel à “Ve dade da Na u eza Humana”. Ci ando Ta ko sky,
“Quando o pensamen o é exp esso numa imagem a ís ica, isso signi ica que uma
o ma oi descobe a pa a ele, uma o ma que se ap oxima do mundo do au o , da
sua busca po um ideal.” Es a necessidade de sepa ação en e a li e a u a e o
cinema ai c escendo no conscien e do ealizado usso, p oduzindo uma dis inção
acen uada en e o ealismo das p imei as ob as e a combinação en e o subjec i o e
o objec i o das úl imas (com a mis u a de ac os, sonhos, sen imen os e pensamen os
ou a inclusão de pedaços de poesia lida ou a e isual ilmada).
A unção de um ealizado , como de um pin o , não é a de ag ada alguém em
especial ou ec u a público – é sim uma unção social que consis e em exp imi
a e dade escondida na ma e ialidade da ida. É o papel do ilme, que não enha
como im único o comé cio, e lec i o mundo e a p óp ia alma do homem, sem a
necessidade do uso de signos, pe mi indo a ideia de obse ação da Na u eza a a és
do empo, al como ela é, sem a macula . É o empo imp esso na sua o ma eal
que em aze ao cinema o seu es a u o de a e, es ando ao ealizado a a e a
de esculpi esse mesmo empo, sem des ui a ealidade. O empo em, assim,
desempenha o papel ulc al nes a no a poé ica que se c ia, assim como o som o é
pa a a música e a co pa a a pin u a. Ace ca do empo e da memó ia, disse Ta ko sky:
A unção das imagens que o espec ado encon a á ao longo de um ilme
se á a de demons a ida e não ideias sob e ida, ou seja, é necessá io aze
uma dis inção en e a missão e angelis a de e ela e a de ensina . A a e de
Ta ko sky se e um p opósi o mo al, an o pa a o a is a como pa a o espec ado ,
sendo o p imei o um mediado mo al e espi i ual en e o di ino e o humano.
O empo e a memó ia undem-se um no ou o (…) Mas a memó ia é um
algo ão complexo que nenhuma lis a de a ibu os pode de ini a
o alidade das imp essões a a és das quais ela nos a ec a (…)
Abandonado pela sua memó ia, uma pessoa o na-se p isionei a de uma
exis ência ilusó ia; quando cai o empo, ela é incapaz de con inua
a ap eende o mundo ex e io – po ou as pala as, ela é condenada
à loucu a
Ibid., p.58. T adução nossa.
40
É na u al, po an o, que Ta ko sky enha sis ema icamen e con es a a ideia
da u ilização da a e pa a es imula o p og esso social ou polí ico, obse ando
que o seu abalho pode ajuda a desen ol e o espí i o e a in eligência, mas que
exis i ão ou as o mas mais e icazes pa a ope a mudanças e ec i as na sociedade.
A unção mo al e é ica da a e de Ta ko sky baseia-se, en ão, na aquisição
de conhecimen os sob e si e sob e o mundo que o odeia, an o pa a o a is a como
pa a o espec ado . O seu objec i o é explo a o signi icado da exis ência pa a
o homem, is o que é o mundo in e io de cada um que o in e essa, o mundo que as
acções come idas apenas e elam. Diz Ta ko sky, e ci o, “Tal ez odo o p opósi o
pa a a ac i idade humana esida na consciência a ís ica, no seu ac o c ia i o
inú il e al uís a.”* Po isso mesmo, o concei o de a is a que Ta ko sky c ia pa a
si p óp io, descenden e da adição Russa de e e ência ao génio a ís ico, é o
de um se so ido e a o men ado, bas an e an i é ico aos in elec uais do século
XX. A a e possui uma na u eza a is oc á ica (não necessa iamen e elacionada
com a dis inção comum das classes) e o a is a, po e sido ag aciado com uma
sensibilidade especial ace ao mundo e ao empo em que i e, em a esponsabilidade
de se a oz daqueles que não êm as mesmas capacidades, mas es ão dispos os a
aze um es o ço pa a comp eendê-lo. Ci ando Ta ko sky: “A beleza é escondida dos
olha es daqueles que não p ocu am a e dade, pa a quem ela é con a-indicada. Mas
a p o unda al a de espi i ualidade dessas pessoas que êem a a e e a condenam,
o ac o delas não es a em nem desejosas nem p epa adas pa a conside a o sen ido
e o objec i o da exis ência num signi icado supe io , é no malmen e masca ado
po a i mações ulga es.”**
Re e indo-se a si, Ta ko sky u iliza a apenas o adjec i o “ alen oso”, que
apa ece semp e in imamen e ligado à humildade, à esponsabilidade e à since idade.
Possui alen o é, pa a ele, um in o únio: “O a is a é semp e um se o e es á
semp e a en a paga pelo dom que ecebeu como que po milag e. Apesa disso, o
homem mode no não que aze qualque sac i ício, mesmo que a e dadei a a i mação
do se possa apenas se exp essa a a és do mesmo.”*** Es as ca ac e ís icas são uma
consequência da concepção do a is a e da sua unção que Púchkin ap esen a no seu poema
“O P o e a” (imp esso na sua o alidade no capí ulo de O Sac i ício de Sculping in
Time). Nes e poema, o a is a a o men ado, “com o espí i o mo o de sede”, é ocado po
um Se a im e ans o mado num p o e a que padece no dese o a é ou i a oz de Deus:
Con udo, es e a is a es á p es es a descob i que o e dadei o dom aca e a
consigo an a aleg ia quan o so imen o, a é ao pon o de ameaça a ida. E
mesmo que não seja possí el encon a um sen ido pa a a ida, o a is a, como o
cien is a, con inua ão a aze o Homem in e oga -se sob e esse géne o de ques ões.
* Ibid., p.248. T adução nossa.
** Ibid., p.42. T adução nossa.
*** Ibid., p.38. T adução nossa.
E gue- e, ou e e ê, p o e a,
Da minha on ade e omes,
Ma es e e as pe co e, queime
Teu e bo o co ação dos homens
“O P o e a” de Aleksand Púchkin in
O Ca alei o de B onze e ou os poemas, p. 95.
41
Con udo, ao con á io da ciência, a in e p e ação que a a e az do
mundo é subjec i a e não deco e de uma ixação e subs i uição de pa adigmas
colec i amen e acei es como mais ace ados, mas sim de uma descobe a semp e
única e no a da Na u eza. Pa a Ta ko sky a a e pode se is a como um símbolo
do p óp io uni e so, cuja mani es ação espi i ual não pode se pe cebida pelo
se humano a a és de nenhuma o ma p agmá ica. É pa a se in é p e e desse
uni e so e pa a pe mi i que, a a és da sua ob a, as pessoas se pe cebam
melho umas às ou as num ní el in elec ual, emocional e psicológico supe io
que o a is a se sac i ica e caminha à ma gem da sociedade que que con e e .
A missão úl ima do a is a é o e ece uma isão espi i ual do mundo e uma
espe ança no u u o pa a aqueles que mais p ecisam dela. Ci ando Ta ko sky “... A
a e de e anscende assim como obse a ; o seu papel é usa uma isão espi i ual
como meio de supo a a ealidade: como ez Dos oe sky, o p imei o a e dado
exp essão ao início da doença da época.”* Ta ko sky possuía algumas dú idas
sob e a exis ência de g andes c iado es de cinema que se pudessem compa a com os
g andes au o es de li e a u a do passado (com excepção de B esson, Be gman, Bunuel,
An onioni), p ecisamen e po encon a no cinema uma p eocupação maio em ag ada
ao público, p e e indo o ulgo ec ea do ex e io em ez da ep esen ação do seu
p óp io mundo in e io . A esses poucos “poe as do cinema”, aos quais o a, po
ezes, apon ado o anco do público, po ha e ealizado ob as que exp essa am os
seus p óp ios “demónios”, ab indo caminho a uma elação simbió ica en e o a is a
e o espec ado , elogiou semp e o ealizado usso o seu se iço pa a com a a e e
o público.
Os dois úl imos ilmes que Ta ko sky ealizou são exemplos pe ei os da exp essão
desses emo es in e io es, enquan o p ocesso de cu a e de alen o pa a c ises espi i uais
ou emocionais. A ideia inicial de Nos algia e a aze um ilme sob e um homem que se
echa em casa com a amília du an e qua en a anos à espe a do im do mundo, a é se
expulso pelas au o idades e ou i o seu ilho mais no o pe gun a -lhe se se ia esse
o momen o do “ im do mundo”. Con udo, o guião esc i o em conjun o com Tonino Gue a,
pa a se odado em I ália, acaba po se adensa e a dis ância à sua Rússia (que se
i ia a e ela pe pé ua) o na-se num elemen o c ucial pa a o desen ola da his ó ia.
O p o agonis a, Go chako , um esc i o usso, iaja pela I ália com o objec i o
de pesquisa a ida de um composi o usso que, in eliz naquele país, decidi a
ol a à e a na al pa a em b e e se ma a . Logo de início, Go chako em exp essa
a sua con icção da impossibilidade de se aze aduções de a e, o que implica que
um i aliano não pudesse i ealmen e a pe cebe a a e e, ine i a elmen e, o po o
usso e ice- e sa. É, po an o, na u al o seu sen imen o de desampa o naquele país
es angei o. Enquan o Eugénia, a sua guia e adu o a, en a seduzi-lo e le á-lo a
se in iel, Go chako ai sonhando, ou endo isões, da sua casa de campo e da amília
que o espe am no seu país, de onde ele e á, supos amen e, ugido. É possí el pe cebe
que a men e do p o agonis a se di ide en e es as duas ealidades – en e I ália
e Eugénia (ca ac e izada isicamen e como o es e eo ipo da beleza Renascen is a)
que ep esen am a beleza me amen e es é ica e, po isso, es é il, a co upção e
* And ei Ta ko sky in Sculping in Time, p.96. T adução nossa.
48
ESTATUTO E ACTIVIDADE
DO TRADUTOR
A ac i idade adu i a em sido adicionalmen e de inida pela ensão en e
pólos opos os, dada a absolu a impossibilidade de ans e ência pe ei a: idelidade
e aição, domes icação e es angei ização*, pe eição do o iginal e a impe eição
da cópia imi ado a. O adu o é inúme as ezes igno ado e subal e nizado, de endo
a sua ac i idade ica in isí el e muda sob a oz do au o . No en an o, é aqui
mesmo que nasce um dos pa adoxos da si uação do adu o : quan o mais in isí el a
sua ac uação, an o mais manipulado e á sido o ex o pa a melho se adequa que
ao es ilo da língua que ao gos o da cul u a de chegada. A pa i do século XIX,
exigia-se ao adu o li e á io uma inspi ação quase di ina, bem como a capacidade
de p oduzi uma ob a de a e, e não an o que osse um especialis a em adução e
nas suas especi icidades. A adução li e á ia e a en endida como uma ac i idade
indomá el, que esul a a da capacidade de eesc i a sup ema e inde iní el do
adu o quando ep oduzia uma ob a li e á ia na sua língua ma e na. Es a abo dagem
essencialis a deco e do es a u o do au o omân ico enquan o possuido de um génio
c iado di ino e anscenden e, ine á el (po in luência di ec a da iloso ia
idealis a). Nes e pa adigma, o papel do adu o e a sub alo izado e a sua ac i idade
desc i a em e mos subjec i os. O ex o e a in aduzí el e o adu o de ia se
iel ao ex o o iginal. No e se a es e p opósi o que a adução de poesia ei a
po um poe a econhecido do sis ema ainda hoje al e a o es a u o do ex o no campo
do sis ema cul u al de chegada, pois além de ha e maio p obabilidade de essa
adução i a se ecebida como ob a associada a um au o de subs i uição ( eja-se
a adução de Vasco G aça Mou a das Rimas de Pe a ca) e já não como me a cópia,
há a c ença subjec i a de que apenas um poe a pode aduzi poesia.
Na e dade, o au o de um ex o li e á io an ecipa o e ei o p e endido
e en a e balizá-lo de aco do com essas expec a i as do público-al o, usando
pa a an o linguagem li e á ia ica em polissemia e ambiguidades, pois a uga à
con encionalidade** de o ma e exp essão é um dos seus objec i os p imo diais. O
que é aduzido não pode se a in enção o iginal do au o , mas a in e p e ação dessa
in enção pelo adu o (No d, 1997: 85) e o ecep o equen emen e acei a essa
in e p e ação como sendo a in enção o iginal do au o . Aliás, uma ob a li e á ia
pe ence a um cânone inse ido um sis ema cul u al ab angen e e cuja ans e ência
i á deses abiliza o cânone do sis ema cul u al de chegada, o que se epe cu i á
no p óp io sis ema de pa ida (c . F ei, 2002).
* É da An iguidade Clássica que o am impo ados os p imei os e mos que exp imiam a dico omia en e adução li e al (maio idelidade ao ex o de pa ida) e idiomá ica
(maio anspa ência, is o é, um ex o que pa eça, ao lei o na i o da língua de chegada, como se o ex o osse o iginalmen e esc i o nessa língua). O e mo do G ego Clássico
pa a adução, μετάφρασις (“me aph asis”, me á ase, “uma ans e ência discu si a”), deu o igem ao concei o de me á ase, ou seja, uma adução li e al (“wo d- o -wo d) —
que con as a com o sen ido de pa á ase (“dize po ou as pala as”, do g ego παράφρασις, pa aph asis). Me á ase co esponde, de aco do com as e minologias mais ecen es,
à equi alência o mal; e a pa á ase, à equi alência dinâmica (Munday, 2001: 42).
** Excepção ei a às o mas li e á ias ixas e con encionadas. A uga à con encionalidade se á equi alen e à sub e são das eg as de linguagem ípica dos ex os li e á ios.
49
A dinâmica desse sis ema cul u al depende ainda dos cus os de adução, po que
há um c i é io de alo e necessidade, de me ecimen o, na escolha de aduzi
um de e minado au o . No d salien a ainda um ou o aspec o ulc al da adução
li e á ia: o adu o em de ans e i não só a mensagem do ex o de pa ida, mas
ambém a o ma de exp essão especí ica da mensagem de pa ida, a ingindo-se assim
e ei o e unção equi alen es.*
Uma das discussões mais u í e as en e eó icos da adução de ex o
d amá ico diz espei o ao escopo da adução, en e simples ans e ência de ma e ial
linguís ico, semió ico e cul u al, a é à adap ação que esul a numa ap op iação o al
do ex o e sua acul u ação**. Venu i (1995) analisa a si uação pa icula do mundo
anglo-ame icano em que as aduções são escassas e quando exis em são comple amen e
anspa en es, ou seja, a acção do adu o o na o ex o num p odu o comple amen e
adap ado, domes icado, azendo uma “ edução e nocên ica do ex o es angei o aos
alo es cul u ais da cul u a de chegada” (com ên ase no signi icado). Po oposição,
Venu i ap esen a um mé odo mais adical, de es angei ização ( o eignizing, com
ên ase no signi ican e), que consis e “numa p essão e nodes ian e sob e esses
alo es [da al e idade] pa a egis a a di e ença cul u al e linguís ica do ex o
es angei o”, expondo assim o lei o a uma cul u a no a, alheia à sua.***
Pa a es e au o , a iolência e nocên ica exe cida sob e o ex o masca a a
disjunção que sepa a os ex os de pa ida e de chegada. Na e dade, es a eo ia
es á imp egnada de ce o peso ideológico e desen ol e o concei o de esis ancy,
que consis e numa adução não luen e na cul u a de chegada e a é p o oca ó ia. Os
ex os que seguem es a linha eó ica são ma cadamen e he e ogéneos, pois acen uam
a di e ença e a descon inuidade. Pode se ia a gumen a que, no caso pa icula do
ex o pe o ma i o, ealizado pa a ep esen ação em empo eal e sem possibilidade
de epe ição, es a decisão adu ó ia pode p ejudica e a é impedi a descodi icação
po pa e do público. Po ém, em Po ugal an o se ap esen am adap ações de peças ao
con ex o nacional, com adequação linguís ica e cul u al de nomes de pe sonagens e
de luga es, po ezes a é de si uações, como aduções iéis ao o iginal, no que diz
espei o a opónimos, an opónimos e con ex os si uacionais, ainda que, po no ma,
a es u u a e bal espei e a da língua po uguesa. Assim, “a luidez da adução
é p opo cional à in isibilidade do adu o ” (F ei, 2002: 26) e, ac escen e-se, é
no espaço en e a anspa ência da domes icação e a opacidade da es angei ização
que ambém se si ua o pode c ia i o e a co au o ia do adu o .
Assim, o adu o pode á igualmen e decidi , quan o à unção que o ex o
e á na cul u a de chegada, se de e aze uma adução documen al ou ins umen al
(concei os p óximos de “ o eignizing” e “domes ica ion” de Venu i, 1995).
* No d, 1997: 89 “ In li e a y ansla ion, he ansla o is expec ed o ans e no only he message o he sou ce ex bu also he speci ic way he message is exp essed in he
sou ce language. This would ideally es ablish equi alence be ween sou ce and a ge ex wi h ega d o bo h ex unc ion and ex e ec . An ideal ansla ion would hen ha e
he same unc ion and e ec as he sou ce ex .”
** Che Suh (2002: 56): c . Aal onen (1993:26-7): ew i ing, ansplan ing, na u alising, neu alising; Michèle Lalibe é (1995:519-21): anspose complè emen , adap a ion,
ec éa ion; Jane Kous as (1988:129, 132): aduc ion-assimila ion, déplacemen , dé acine de son con ex e; Jane Kous as (1995:529): In eg a ing o eign wo ks, anspose,
eapp op ia e, adap a ion; Louise Ladouceu (1995:31, 36): adap a ion, aduc ion e hnocen ique; Susan Bassne (1991:101-2): la ge-scale amendmen s, ew i ing, adap a-
ion.
*** Venu i, 1995:20 ( adução nossa). Schleie mache em 1813 já discu e es a dico omia no seu a ado “Me hoden des Ube se zens” (Biguene & Schul e, 1992: 36-54).
50
Em elação ao e ei o es é ico li e á io do ex o, o adu o pode á imi a o
es ilo do ex o de pa ida, o que pode á esul a num en iquecimen o da língua, da
li e a u a, bem como da cul u a de chegada, ou adap a esse es ilo às con enções
de língua, da li e a u a e da cul u a de chegada. No d oca bas an e es a ensão
en e a adução documen al e a ins umen al, ou seja, en e a es angei ização
e a domes icação. Aliás a au o a admi e (103) que as abo dagens uncionalis as
não de endem a p io i uma adução ins umen al, mas econhece a sua an agem po
omen a maio a iedade de aduções li e á ias. Daqui se pode in e i que, pa a a
au o a, a possibilidade de ha e di e en es e sões de uma mesma ob a deco en es de
di e en es in e p e ações de á ios adu o es se á an ajoso e não um obs áculo.
Como se iu, o adu o é um lei o especial, que analisa e in e p e a
um ex o ( ase semasiológica), com uma in enção de inida, e depois o eesc e e
num código linguís ico di e en e ( ase onomasiológica). Na e dade, é a sua
in e p e ação do ex o que o adu o ans e e e não o p óp io ex o de pa ida,
o que explica a pa cialidade de cada adução, na medida em que esul a de um ac o
de lei u a i epe í el, único (F ei, 2002: 33-34). A linguagem do ex o li e á io
é na u almen e ambígua e sub e si a, podendo o adu o e se en ado a eduzi
essa ambiguidade pa a p omo e a legibilidade, po exemplo. Po ém, ele nunca pode
esquece -se de que o ex o de pa ida já adqui iu o es a u o de ob a de a e no
sis ema cul u al de pa ida e, assim, e á de concebe um p odu o que a inja o
es a u o de uma ob a de a e com uncionalidade equi alen e no sis ema cul u al
de chegada. A es e p opósi o F ei ap esen a o e ei o de e o no, segundo o qual
há e luxo e ecundação mú ua en e os ex os de pa ida e de chegada. Aqui su ge
ou o pa adoxo: há semp e a sensação de pe da na ans e ência ex ual, mas é esse
mo imen o que pe mi e a sob e i ência e ci culação do ex o de pa ida den o de
no os sis emas cul u ais, indo a é a en iquecê los.
O caso pa icula do adu o -au o le an a um ou o p oblema: a sua oz
es é ica pode sob epo -se à p óp ia oz do au o do ex o de pa ida, no caso de o
adu o se le ado a “co igi ” o o iginal de aco do com o seu p óp io p og ama
es é ico li e á io, num acesso de “an agonismo c ia i o” (F ei, 2002:77). De ac o,
a adução, ao con á io do ex o de pa ida, em de p o a a sua c edibilidade
e é o p óp io au o , cuja in luência nes e p ocesso de ans e ência é quase
nula, que a ibui alo ao ex o de chegada, icando o adu o subo dinado a um
es a u o secundá io. E, no en an o, é es e que cons ói o ex o de chegada al qual
é ecebido pelo público, sendo esponsá el pelo uncionamen o e in eg ação desse
ex o na cul u a de chegada. Aliás, a c ia i idade do p ocesso adu ó io é al
que, enquan o o ex o de pa ida pe manece es á el e imu á el, o de chegada pode e
múl iplas conc e izações, odas elas álidas e esul an es de uma expe iência de
lei u a de um dado adu o . Salien e-se ainda que o adu o de e consul a á ias
ob as de e e ência (algumas eó icas, di e sas ob as o iginais e aduzidas do
au o do ex o de pa ida, g amá icas, en e ou as), ainda que, no caso pa icula
de uma p imei a adução de um ex o na cul u a de chegada, ele não possa consul a
ou as aduções dessa mesma ob a, não endo po isso um e mo de compa ação.
51
Assim, en e os pólos opos os da adução imi a i a e da mais au ónoma, o adu o em
ao seu dispo á ios g aus de au onomia, consoan e não só as escolhas linguís icas
que p e ende aze , mas ambém espei ando a p óp ia polí ica adu i a que p e ende
segui (ou que os ou os agen es cul u ais in e enien es lhe pe mi em segui ).
No caso pa icula da adução de ea o, coloca se a dico omia en e
adução in e linguís ica e in e semió ica, o que o igina inúme as e aduções
de um mesmo ex o, adequadas a si uações comunica i as di e en es, ou seja, a
di e sas encenações. Também aqui, nes e campo especí ico da adução li e á ia, há
uma pola ização que opõe adução li e á ia in e linguís ica es i a do ex o à
adução in e semió ica do ex o pe o ma i o (Elam, 1980: 3)*. Po exemplo, Zube -
Ske i (1988: 486) ap esen a uma de inição bas an e ab angen e de adução de
ea o: “D ama ansla ion is de ined as he ansla ion o he d ama ic ex om
one language and cul u e in o ano he and as he ansposi ion o he o iginal,
ansla ed and adap ed ex on o he s age”. Logo, a adução de ex o d amá ico
pa a palco ca ac e iza-se pela maio e eme idade, como se pode e i ica pela peça
À Espe a de Godo , que só no ano 2000 oi aduzida duas ezes, uma delas po José
Ma ia Viei a Mendes pa a os A is as Unidos (publicada pela Co o ia) e ou a po
Inês Lage pa a a companhia Da id e Golias (is o depois de em 1998 e ha ido uma
encenação des e ex o pela Sei a T upe com adução de Isabel Al es**). Assim, as
necessidades ine en es à adução de cada peça ambém são deco en es das opções
cénicas e o ex o e á de se con enien emen e adequado, o que po ezes de e mina
a e eme idade dessas aduções pela sua desadequação às opções cénicas de uma no a
p odução.***
À ESPERA DE GODOT
Um au o não pode, à pa ida, e i ica se a adução é acei á el de aco do
com a sua inalidade es é ica, com excepção dos casos de bilinguismo como em Samuel
Becke . Aqui se á legí imo ques iona a p óp ia hie a quia en e adução e ex o
o iginal, is o que ambos os ex os, o ancês e o inglês, são o iginais e ap esen am
di e enças en e si. O es a u o p i ilegiado de au o - adu o pe mi iu que Samuel
Becke i esse uma libe dade c ia i a que o adu o comum no malmen e não em.
Sa ah Can (1999, 141) nega a hie a quização en e e são o iginal ( ancesa) e a
adução (inglesa), suge indo que ambas as e sões o mam a ob a no seu conjun o.
Aliás, o ac o de Becke esc e e numa língua es angei a pe mi iu lhe a ingi um
g au de des amilia ização em elação à língua que omen ou o despojamen o da sua
linguagem a ís ica que alo iza a ausência e o silêncio.
* A p opósi o das á ias eo ias de adução de ex o d amá ico e Rega in e con on a com as posições de Pa ice Pa is (1999) e de Susan Bassne (1991).
** Os egis os CETBase (do Cen o de Es udos de Tea o da Uni e sidade de Lisboa), bem como os do Te a-Base (do Cen o de Es udos Compa a is as da Faculdade de Le as
da Uni e sidade de Lisboa) ap esen am se e aduções di e en es de À Espe a de Godo pa a encenações p o issionais a é à da a. Além das qua o já mencionadas, há uma elab-
o ada po Rica do Albe y em 1962 pa a o Tea o Expe imen al de A ei o, bem como uma adap ação de 1993 po Má io Viegas (Enquan o se es á à Espe a de Godo ) e, em 2006,
oi elabo ada uma adução de F ancisco Luís Pa ei a pa a o Tea o
*** Me idional. Lamen a elmen e, há mais cinco companhias que ap esen a am es a peça em po uguês, mas sem e e ência aos adu o es ou às edições publicadas u ilizadas
pa a concepção do espec áculo. Re i a-se que há oda uma discussão eó ica sob e a dico omia que opõe a adução de ex o d amá ico pa a papel, pa a ci culação em edição
imp essa, e a adução pa a palco, pa a a encenação de um espec áculo i o, o que coloca p oblemas e in e e e nas es a égias emp egadas pelo adu o .
52
No undo, o dis anciamen o pe mi e ao au o bilingue (e a é ao adu o ) uma maio
p edisposição pa a a sub e são de eg as de linguagem, o que pe mi e a expansão das
possibilidades es é icas do ex o.
Em À espe a de Godo é a p óp ia ausência que é ma e ializada, jun amen e
com a imobilidade, o es aziamen o do palco e o abismo da au o-pe cepção (Can ,
1999: 146). Na e dade, a simplicidade minimalis a é apenas supe icial e não pode
se en endida de o ma educionis a, pois a simplicidade de exp essão esul a
em complexidade de in e p e ação. A epe ição e a a iação são es a égias de
es aziamen o de sen ido e os jogos de sons são ecu sos es é icos que não podem se
sub alo izados nem a enuados pelo adu o . É a p óp ia linguagem que se desin eg a
o nando-se e iden es as con adições e a ins abilidade de sen ido. A dissociação
en e a pala a (in enção) e a acção (o mo imen o) ambém é consequência dos
limi es da linguagem e salien a a ilusão de ha e comunicação en e pe sonagens. A
p óp ia linguagem adqui e es a u o de ema da peça e não apenas de meio de exp essão
a ís ica (Can : 154). E Backe é igualmen e me iculoso nas indicações cénicas
que, po ezes, cons oem momen os e dadei amen e co eog á icos em palco. Es a
b e e análise p e ende apenas salien a alguns dos aspec os que qualque adu o
des a peça de Samuel Becke e á de e em con a e que se i ão de o ien ação pa a
a análise da peça que se á ei a de seguida.
Os con ex os polí ico e sócio económico in luenciam as condições de ecepção
de ex os d amá icos, o que acon eceu no caso da peça aqui ap esen ada, cuja
p imei a adução em Po ugal oi ealizada no con ex o ep essi o da censu a do
Es ado No o. Na e dade, a p óp ia e são inglesa da peça oi censu ada pelo Lo d
Chambe lain’s O ice, o o ganismo esponsá el pela censu a ao ea o no Reino
Unido a é 1968 e cuja ac uação e a bas an e ep essi a. Na e dade, em 1955 Becke
oi ob igado a adap a a peça, nomeadamen e e i ando ou subs i uindo linguagem
conside ada imp óp ia (como e ec ion) e ges os a aliados como obscenos, e hou e
a é pedidos en iados pa a o gabine e de censu a pa a que a peça osse o almen e
banida (Hall, 2005). Em Po ugal, es a ob a oi subme ida a censu a p é ia, mas
ob e e pe missão pa a o espec áculo, apesa de b e es al e ações de ce as pala as
que os censo es desap o a am. Na e dade, mesmo quando não há censu a polí ica, a
p imei a adução de um au o numa dada cul u a ende a se a mais sua izada pa a
po encia a acei ação de ideias no as jun o do público e do sis ema cul u a.
À Espe a de Godo é a peça que in oduz o ea o do absu do em Po ugal,
endo ge ado nume osas eacções in lamadas ( e Fadda, 1998) na imp ensa e a é no
público. Jo ge de Sena é um dos que assinala a sua es eia ão coe ânea (na e dade,
es a peça inha sido es eada em Pa is em 1953 e dois anos depois em Lond es, e
o ex o o a publicado em Po ugal pouco an es da es eia nacional). De ac o, o
c í ico e e e aspec os admi á eis, como a excepcional qualidade da ob a, o cu o
espaço de empo que sepa a a es eia mundial da es eia po uguesa, o ac o de e
sido pe mi ida alguma libe dade de linguagem ou a al a de p epa ação do público
pa a o “an i- ea o”:
53
O au o p ossegue, elogiando a encenação de F ancisco Ribei o (“Ribei inho”),
mas epa a que as pe sonagens de iam e menos “pungência humana” e “so essem mais
po acaso” [Sena, 1989: 240], sendo iden i icado o p oblema na adução:
A emodelação do ex o iden i icada po Sena insinua a au o censu a exe cida
pelo adu o , não só como o ma de con o na a censu a o icial, mas ambém
al ez pa a que o público de “backg ound cul u al lacunoso, especialmen e no campo
ea al” [Fadda, 1998: 78], acei asse a peça.
À ESPERA DE GODOT
De seguida, se ão ap esen ados exemplos de qua o edições da peça, cujos
códigos se em pa a as iden i ica : WFG e e e se à edição inglesa, AAG à ancesa,
AEG e e e se à adução de An ónio Noguei a San os de 1959 e AEG2 e e e se à
edição aduzida po José Ma ia Viei a Mendes*. As duas aduções ap esen adas
mos am a o ma sub il como o adu o manipula o ex o e as elações es abelecidas
en e os signos da língua de pa ida e de chegada pa a eicula sen ido, sendo es a
selecção ambém uma ma ca da in e p e ação do adu o e do seu es a u o de co
au o . Além disso, odo o adu o es á sujei o a censu a es u u al, deco en e do
exe cício de pode da sociedade sob e os discu sos cul u ais, e que se mani es a
em o mas de con olo sem leis especí icas.
* No e se que no p e ácio es e adu o assume u iliza a segunda edição da Fabe and Fabe de 1965, que ap esen a mais al e ações em elação ao ex o ancês, o que e á mo i a-
do a escolha, edição ainda não publicada à da a da p imei a adução de An ónio Noguei a San os.
«O ac o excepcional de e sido supe io men e au o izada uma lin-
guagem – a da peça – que al ez o não osse nou o palco (a menos
que, sob a o ma de ocadilho po co, em palcos de e is a, já que
a é ao pob e Gil Vicen e, que esc e ia pa a eis bem educados, se
co a a língua), em nada diminui a impo ância des a ap esen ação, a
p azo ela i amen e cu o sob e a es eia mundial de uma peça que é
das mais admi á eis do nosso empo. Não me cong a ulo com a libe al-
ização que al pe mi iu, po que disco do da si uação de cons angi-
men o que a jus i ica. Mas o caso é que des a ez uma ob a discu ida
chegou na al u a da discussão, e não in a anos depois (…)» [Sena,
1989: 238].
«o ex o da adução que é iel mas não exac a (não sei se po acção
do adu o , se po ligei o a anjo do encenado pa a da um pouco
de ca ne à po uguesa àquele esquele o), pois pe de em secu a as ix-
ian e o que ganha em ib ação imp essionan e. Toda ia, es e ex o de
Noguei a San os – que não li – é dos melho es que nos em sido dado
a ou i em palcos po ugueses ul imamen e» [sublinhado nosso. Sena:
241].
54
Daqui esul a ou o pa adoxo, is o que a au o censu a do adu o ai
in luencia as suas escolhas pa a que, em ez de se banida, a ob a en e e
ci cule no sis ema cul u al. Du an e oda a peça, An ónio Noguei a Pin o iu se
en ado a aduzi e i ando o es ilo minimalis a ca ac e ís ico da peça, op ando
equen emen e po ases mais comple as e longas do que se iam adequadas, com um
ce o egis o coloquial popula quando al nem es á ma cado no o iginal (p oblema
iden i icado po Jo ge de Sena). Es as escolhas e lec em uma cla a necessidade
de ap esen a ao público um es ilo menos desconce an e do que o ap esen ado
pelo ex o de pa ida, com o seu minimalismo es azian e e as suas epe ições. Na
seguin e ala de Pozzo pode e i ica se a necessidade que o adu o em 1959 sen iu
de complemen a o sen ido das ases o iginais, c iando um con ex o e ap esen ando
uma linguagem mais acei á el pa a o público:
A ap eciação alo a i a da exp essão compa a i a é ão bom como e a decla ação
da incompe ência de Lucky (nem p’ a isso se e) es ão ausen es nos ex os de
pa ida, que apenas e e em que Lucky ca ega como um po co, cuja unção não é
de animal de ca ga. O adu o a i ma ex ualmen e o que o ex o apenas pe mi e
in e i , ans o mando uma exp essão de ambiguidade numa asse ção. Po ou o lado,
su p eenden emen e, mais adian e, a exp essão meia dúzia de pon apés no cú apa ece
sem qualque obse ação da censu a, à semelhança de ou as passagens de egis o de
língua mais ma ginal.
Mas quando Lucky pon apeia Es agon e es e mani es a do , emos como o
adu o ac escen a sen idos às ases o iginais e duplica o núme o de pala as
usados (o sublinhado salien a as inse ções ausen es nos ex os de pa ida):
[AAG: 98] En eali é il po e comme un po c. Ce n’es pas son
mé ie .
[WFG: 99] In eali y he ca ies like a pig. I ’s no his job.
[AEG: 34] A e dade é que como animal de ca ga é ão bom como um
po co. Nem p’ a isso se e.
[AEG2: 44] A e dade é que ele pa ece um po co a ca ega . Não é
a p o issão dele.
[AAG: 102] Le salaud! La ache! (il elè e son pan alon.) Il m’a
es opié!
[WFG: 103] Oh he swine! (He pulls up he leg o his ouse s)
he’s c ippled me!
[AEG: 36] O a a g ande bes a! Escoceia que nem um bu o! (Le an-
a a calça pa a examina a pe na). Que canelada! Vou ica coxo!
[AEG2: 45] Ai a po ca! (Sobe um pouco as calças.) A ancou-me a
pe na.
55
Pode -se-ão in e p e a as inse ções em AEG como uma es a égia de ecupe ação
(ou de compensação) pela ei e ação da o ma de exp essão des a pe sonagem ao longo
da peça, mas, ao mesmo empo, há a domes icação da pe sonagem, cuja éplica exp ime
um egis o popula pe ei amen e de aco do com a adição da língua po uguesa.
O segundo ac o da peça inicia se com uma canção que é uma das ma cas
au o ais mais lag an es da au onomia do adu o . Aqui, a es a égia de adução
ins umen al é ob iamen e p e e ida, ainda que os adu o es se man enham mais
p óximos an o do con eúdo como da o ma do ex o inglês. Pa a e i a a ansc ição
de demasiado olume de ex o, op ou-se po omi i as in e upções e epe ições da
canção, assim como as indicações cénicas. Na e dade, an o a e são inglesa como
a ancesa ap esen am ima e o ex o o na se epe i i o, ci cula e edundan e,
is o que a pe sonagem, Vladimi , pá a e epe e di e sas ezes alguns e sos e
o p óp io ex o da canção epe e a es o e inicial, pois e a esse o con eúdo da
p óp ia insc ição umula .
A canção segue a es u u a de imas in an is, mas num om iolen o e quase
sádico, uncionando como uma pausa na a i a den o da peça, com e e ência me a-
ex ual, pois a insc ição umula é a e oma da es o e in odu ó ia. De no o,
Becke manipula a linguagem numa sucessão de jogos e e e ências sub is. As opções
po uguesas usam ambas a es u u a de quad a em edondilha maio , ípica da poesia
popula , mas An ónio Noguei a San os, no en an o, é consis en e no uso da ima
c uzada enquan o José Ma ia Viei a Mendes não o ça a ima em odos os e sos,
mesmo que use ima c uzada. Na e dade, nos o iginais nem odos os e sos imam e
há jogos com ima impe ei a ou sons apa en ados. Repa e se que não deixa de se
cu ioso que An ónio Noguei a San os u ilize uma aça po uguesa, o podengo, o que
ai de ini o ipo de cão quando nos o iginais não há qualque e e ência a aça.
[WFG: 193]
A dog came in he ki chen
And s ole a c us o b ead.
Then cook up wi h a ladle
And bea him ill he was dead.
Then all he dogs came unning
And dug he dog a omb
And w o e upon he ombs one
Fo he eyes o dogs o come:
A dog came in he ki chen
And s ole a c us o b ead.
Then cook up wi h a ladle
And bea him ill he was dead. (…)
[AAG: 192]
Un chien in dans l’o ice
E p i une andouille e
Alo s à coups de louche
Le che le mi en mie es
Les au es chiens ce oyan
Vi e i e l’ense eli en …
Au pied d’une c oix en bois blanc
Où en passan on pou ai li e:
Un chien in dans l’o ice
E p i une andouille e. (…)
56
Mais adian e, An ónio Noguei a San os p ocu ou domes ica o ex o po uguês,
seguindo o exemplo de Becke , que adap ou as e e ências a opónimos à sono idade
da língua inglesa. Es a passagem, como em mui as ou as do ex o, é ica em
consonâncias e jogos de pala as que eme em pa a linguagem mais obscena, num
egis o de língua coloquial ma ginal.
[AEG: 71-72]
Cão podengo es omeado
Aboca um osso à socapa.
Mas sal a lhe o dono i ado
Faz lhe os ossos numa papa.
Co e oda a canzoada
O podengo a en e a .
E sob e a campa é g a ada
Es a insc ição umula .
Cão podengo es omeado
Aboca um osso à socapa.
Mas sal a lhe o dono i ado
Faz lhe os ossos numa papa. (…)
[AAG: 208]
ESTRAGON
Mais non, je n’ai jamais é é dans le Vaucluse! J’ai coulé ou e ma
chaude-pisse d’exis ence ici, je e dis! Ici! Dans la Me decluse!
VLADIMIR
Pou an nous a ons é é ensemble dans le Vaucluse, j’en me ais ma
main au eu. Nous a ons ai les endanges, iens, chez un nommé
Bonnelly, à Roussillon.
[WFG: 209]
ESTRAGON
No I was ne e in he Macon coun y! I’ e puked my puke o a li e
away he e, I ell you! He e! In he Cackon coun y!
VLADIMIR
Bu we we e he e oge he , I could swea o i ! Picking g apes o
a man called . . . (he snaps his inge s) . . . can’ hink o he
name o he man, a a place called . . . (snaps his inge s) . . .
can’ hink o he name o he place, do you no emembe ?
[AEG: 78]
ESTRAGON
Es ás enganado. Nunca es i e no Riba ejo. Tenho passado oda a po ca
da minha ida aqui, digo e eu. Aqui, na Ribame da!
VLADIMIR
A e dade é que es i emos os dois no Riba ejo. Punha as mãos no
ogo. Andá amos a aze a indima pa a um ipo, que não me lemb o o
nome.
[AEG2: 83]
ESTRAGON
Não, nunca es i e em Vaucluse. Passei oda a pu a da minha ida
aqui. Aqui! Na Me dacluse!
VLADIMIR
Ia ju a que es i emos lá jun os. A apanha u as pa a um al de…
(es ala os dedos)… não me consigo lemb a do nome do homem, num
sí io chamado … (es ala os dedos)… não me consigo lemb a do sí io,
não e lemb as?
57
Nes e exemplo é cla o como ambos os adu o es seguem a e são inglesa,
escapando assim à necessidade de elabo a uma decisão adu i a em elação ao
an opónimo (Bonnelly) e ao opónimo (Roussillon). Na adução de An ónio Noguei a
San os, o lápis do censo salien ou as ês epe ições da pala a Riba ejo, mas
deixou in ocada Ribame da, ainda que se possa supo que oi o ocadilho com
es a pala a que mo i ou a acção censó ia. É admi á el a es a égia, an o pela
c ia i idade e ousadia, como pela adequação ao es ilo e às es a égias das e sões
o iginais, apesa de a indesejada in e dição se acilmen e expec á el. Repa e-se
na a enuação eu emís ica da exp essão po ca da minha ida em compa ação com pu a da
minha ida, pois as aduções são eguladas pelo con ex o sócio-económico e polí ico
de uma sociedade eal: o ex o aduzido depende das possibilidades conc e as num
dado momen o his ó ico, económico e polí ico de uma sociedade especí ica.
No úl imo exemplo, Vladimi en a ado mece Es agon com uma can ilena que
na e são ancesa consis e na epe ição do som Do e na inglesa na epe ição da
pala a Bye.
Na e são ancesa, Vladimi en oa a sílaba do epe idamen e, c iando um jogo
com a p imei a no a musical (dó), como uma descons ução da canção de embala . A
sono idade de Do e adieu é apa en ada, o que de ce a o ma in e imos pela epe ição
da pala a bye na e são inglesa, como se osse uma despedida, ainda que no amen e
se a e de um caso de dissociação de e bo e mo imen o (Es agon não ai a lado
nenhum).
[AAG: 248]
VLADIMIR
[moins o ]
Do do do do
Do do do do
Do do do do
Do do...
[WFG: 249]
VLADIMIR
(so ly)
Bye bye bye bye
Bye bye bye bye
Bye bye bye bye
Bye bye . . .
[AEG: 93]
VLADIMIR
(com oz mais sua e)
Ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó
Papão ai- e embo a
De cima desse elhado
Deixa do mi o menino
Um soninho descansado.
[AEG2: 78]
VLADIMIR
(sua emen e)
Ó-ó-ó-ó-ó
Ó-ó-ó-ó-ó
Ó-ó-ó-ó-ó
Ó-ó-
64
Da o mação adqui ida em ciências na u ais, Balla d ans e i ia pa a a
li e a u a uma objec i idade cujo po encial e lexi o necessi a se descobe o po
quem lê já que, nas suas pala as, “ i emos hoje den o de um eno me omance”*,
esba endo-se a linha en e icção e eal, sonho e ida, imaginação e mundo. Ao
esc i o con empo âneo compe e, des a o ma, abalha a ealidade ejei ando
pe spec i as mo alis as e em unções equipa adas às do cien is a que busca soluções
pa a de e minados p oblemas: “Tudo o que lhe es a é concebe di e sas hipó eses e
es á-las à luz dos ac os que obse a.”**
A en o às pa icula idades mencionadas, B agança de Mi anda de ine o au o
como a ípico den o do géne o a que inicialmen e se dedicou: “Con a iamen e
à icção cien í ica que semp e examinou o u u o do p esen e, que se sal a ia
seguindo os caminhos da azão, Balla d ende a in e oga o p esen e do u u o, nos
sí ios onde es e é mais en e isí el. Le ando, ao in és, aos limi es da azão.”
***De enso de um es a u o ansi ó io do pe íodo de caos, bem como da sua na u al
p og essão pa a a up u a e o igem de no os pa adigmas, Balla d se ia um esc i o
do abismo e da u opia, que en e iu mo i os de espe ança na e ol a, na con es ação
e na consciência de alguns (ainda que poucos) se es humanos. A ansiedade e a noção
de esgo amen o dos modelos igen es pe passam assim, não só Apa elho oado (…)
(o iginalmen e publicado em 1976), como g ande pa e dos seus omances.
Do pon o de is a emá ico, julgamos que es a p eocupação com a pe da de
alo es e o legado às ge ações seguin es cons i ui a cha e que une a sua ob a à de
Sol eig No dlund – aspec o pa icula men e no ó io em ês das longas-me agens
da cineas a, coinciden emen e adap adas da li e a u a: A é amanhã, Má io (1994, a
pa i de con o da esc i o a sueca G e e Roulund, que pa icipa na esc i a do guião
e que ep esen a o papel de u is a, no ilme), Comédia in an il (1998, baseada
no omance homónimo do esc i o sueco Henning Mankell) e es e Apa elho oado a
baixa al i ude (2002). Pa a além des as ob as, a ealizado a man e e ligações à
li e a u a, na adap ação de O espelho len o (2010, cu a-me agem a pa i de con o
de Richa d Zimle ) e de A mo e de Ca los Ga del (2011, longa-me agem baseada no
omance homónimo de An ónio Lobo An unes).
Nascida em Es ocolmo, na Suécia, no ano de 1943, Sol eig No dlund em
o mação supe io em His ó ia de A e. Nos anos 70, começou a abalha em cinema,
como mon ado a, em ilmes de João Césa Mon ei o, Manoel de Oli ei a, João Bo elho,
Albe o Seixas San os e Thomas Ha lan****. Fundado a do G upo Ze o*****, pa icipou
em á ios ilmes colec i os, en e os quais A lei da e a (1976), es eando-se,
em 1978, como ealizado a de icção, com o ilme Nem pássa o nem peixe (média-
me agem). Pa a além das longas-me agens já e e idas, ealizou ainda Dina e Django
(1983) e A ilha (2003), cons i uindo, jun amen e com Monique Ru le , Ma ga ida Gil
e Noémia Delgado, uma das ep esen an es da p imei a ge ação de mulhe es cineas as,
em Po ugal.
* Idem, p. 25.
** Idem
*** Idem, ps. 7 e 8.
**** Dados biog á icos consul ados em Ramos, J. L. (1989). Dicioná io do cinema po uguês ( olume 1: 1962/1988). Lisboa: Caminho.
***** Coope a i a de p odução, undada no inal dos anos 70, com sede no Tea o do Bai o Al o (Lisboa), onde ambém se encon a a sedeado, e ainda hoje se man ém, o Tea o
da Co nucópia. Do colec i o ize am pa e, pa a além de Sol eig No dlund, Acácio de Almeida, Albe o Seixas San os, Fe nando Belo, Joaquim Fu ado, José Luís Ca alhosa,
Leonel E e, Lia Gama, Paola Po u, Se as Gago e Te esa Caldas, en e ou os.
65
Com uma a enção dispe sa po di e en es géne os e emas, au o es como Jo ge
Lei ão Ramos de endem que a ilmog a ia de No dlund não ap esen a uma ma ca
uni icado a, desen olando-se an es em ciclos echados. Sob e es a pe spec i a,
pode obse a -se que, em Dina e Django, a ealizado a cede o p o agonismo da acção
a um casal de jo ens ma ginais, que amam e ma am como es elas de o ono elas. O
d ama de A ilha, po sua ez, cen a-se num amo pa e nal, abso en e e neu ó ico,
di igido a uma adolescen e, í ima de maus a os. A na a i a é aqui menos
linea , coadju ada pelo desempenho ealis a do ac o Nuno Melo e pela di ecção de
o og a ia de Acácio de Almeida. Ainda assim, se a en a mos ao ac o de a in ância,
a adolescência e a p óp ia p eocupação com as ge ações u u as cons i uí em emas
comuns a es a úl ima longa-me agem e à an e io ilogia de ilmes (A é amanhã,
Má io; Comédia In an il e Apa elho oado a baixa al i ude), o a gumen o ela i o
à al a de um es ilo pessoal acaba po pe de consis ência. No nosso en ende ,
a o e consciência polí ica e social dema cada em oda a ob a da cineas a pode
unciona como mecanismo p opulso de unidade emá ica e, consequen emen e, de
legi imação da sua pos u a au o al.
Reconhecendo, ambém nes e pon o, ce as in e ex ualidades (é icas e
es é icas) en e J. G. Balla d e Sol eig No dlund, conside amos que a ealizado a
u iliza a a e como eículo de demons ação de ês aspec os undamen ais: o
des espei o que os se es humanos nu em en e si; a agilidade das í imas mais
comuns; e a u gência do su gimen o de no os alo es, no os cuidados e no as pessoas.
Suma iados de uma o ma gené ica, os seus ilmes lançam um ale a exis encialis a
sob e o caos que consubs ancia o inal do século XX e início do século XXI. A es e
e á que sucede -se, suben ende-se, uma no a é ica e um maio espei o pelo ou o.
A FEMINIZAÇÃO DE UM
CONTO ESSENCIALMENTE
MASCULINO
A coincidência de emá icas e p eocupações sociais cons i ui assim, como
emos indo a demons a , uma das sine gias e pon os o es que elacionam a ob a
de J.G. Balla d e Sol eig No dlund. Res ingindo ago a a nossa a enção ao con o
e ilme que de am mo e à p esen e in es igação, cen amo-nos nas especi icidades
que es e p ocesso adap a i o compo ou, elemb ando que, pelas páginas iniciais
da na a i a balla diana pe passa o con i e à localização imaginá ia do lei o /a
num eso abandonado, algu es em Espanha. Nelas se iaja a é um u u o p óximo,
em da a ince a, na companhia de um io de pe sonagens iconoclas as: Richa d
Fo es e (And é, no ilme) é o bu oc a a sedu o ; Judi h Fo es e , a u u a mãe-
modelo; e dou o Gould, o isioná io in elec ual que ompe con enções.
66
No con o, como no ilme, lei o es e espec ado es são in o mados de que, nos úl imos
anos, os se es humanos i e am p o undas mudanças gené icas, passando a ge a se es
mu an es. A ob iga o iedade de ealização de exames médicos, bem como a cons an e
de ecção des as al e ações, ans o ma o abo o induzido numa p á ica co en e
sendo que, nos a os casos em que a g a idez é le ada a é ao im, os ecém-nascidos
(a que No dlund a ibui o nome de “Z.O.T.E.s”) são imedia amen e eliminados.
No ilme, a iagem que Judi e e And é emp eendem, du an e a noi e, assume o
es a u o me a ó ico de uga ao caos u bano e p ocu a da e dade. O eceio e a ansiedade
ace ao desconhecimen o do código gené ico da c iança são a enuados pelo silêncio
e abandono do eso onde se ins alam. Ao mesmo empo, a biza ia das pe sonagens
com que se ão depa ando, associada à cobe u a ele isi a no iciosa que des aca
o dec éscimo da população mundial, e o ça as dú idas de ambos no que conce ne à
iden idade humana e às leis que a p ocu am egulamen a . Disponibilizando ago a
do empo e espaço necessá ios pa a e lec i sob e o p esen e e o u u o, o casal
consciencializa-se que a no malidade é uma subjec i idade - impos a po um sis ema
pe igosamen e homogeneizado e acei e po uma es u u a social desin o mada.
Reco endo a meios de comunicação e/ou de exp essão a ís ica dis in as,
Balla d e No dlund colocam-nos assim pe an e a possibilidade de a humanidade es a
a ejei a e elimina a p imei a ge ação de uma no a a ian e de homo sapiens,
p essupondo uma dis ância à essência biológica e aos ígidos códigos sociais que
es ingem as no mas de um co po: homem ou mulhe , com limi es mínimos e máximos
de peso e al u a. Se á es e o hipe - eal e o simulac o de Baud illa d? Começa á
a de ini -se, na pós-mode nidade, um se pós-humano? Pode á, a pa i des e
ques ionamen o, e lec i -se ace ca da in ansponí el desigualdade da de iciência
ou debilidade ísicas e a sua coexis ência com uma igualdade ju ídica de di ei os –
ecen e e ágil conquis a dos go e nos democ á icos ociden ais? Analisando os dois
objec os cul u ais (li o e ilme), di íamos que es as ques ões e ão in e essado
pa icula men e a Sol eig No dlund já que, no ilme, o casal é con on ado com
a i ência de uma Z.O.T.E. Ao conhece em Ca mem, a ilha que Gould se ecusou a
elimina , cons a am que es es se es possuem um sis ema pe cep i o dis in o (são
cegos e apenas sensí eis à co e de luo escen e), uma in eligência supe io
e um sen ido de in e dependência p o undo, necessi ando uns dos ou os pa a se
p o ege em.
Complemen ando a e lexão, as p imei as cenas do ilme exibem um cená io
o weliano, pe pe uado po um sis ema de go e nação con olado . Com um discu so
iconog á ico mais polí ico do que Balla d, No dlund icciona em o no de uma
p opaganda alienado a e massi a u ilizada pelo egime, median e a explo ação de ges os
e slogans de um op imismo o çado e mobilizado de massas, que não se encon a am
p esen es no con o: ou imos “We belie e in he u u e” epe idas ezes, a a és
dos al i alan es espalhados pelas uas, sendo a e são po uguesa (“Ac edi amos no
u u o”) igualmen e u ilizada nos diálogos en e o casal e um agen e da polícia ou
com os hóspedes do eso . No ilme, e ambém sem qualque p ecedência li e á ia,
são ainda mos ados ca azes que e lec em uma ce a homogeneização da aça, com a
imagem de uma c iança loi a e a espec i a legenda: “This is us”.
67
Em e mos compa a i os, a ob a de Balla d anspa ece assim menos a noção
de con olo ígido po pa e das au o idades, uma ez que, seguindo o pe cu so
ca ac e ís ico que de iniu o seu es ilo li e á io, o esc i o op a po desc e e
exaus i amen e a a qui ec u a luxu ian e dos mo éis de bei a de es ada, a alienação
conjun a e a eu o ia sexual man ida apesa dos nascimen os de c ia u as mu an es.
Elemen os onde, de alguma o ma, ecoam as suas p óp ias pala as: “As nossas idas
es ão sujei as ao impé io desses dois g andes lei mo i es do século XX: o sexo e
a pa anóia.”* No dlund, po seu lado, alo iza a u ilização de cená ios somb ios,
como o ho el abandonado de a qui ec u a dos anos 50 (em T óia) e o dec épi o
consul ó io do dou o Gould, eple o de ca azes de Z.O.T.E.s
P osseguindo a compa ação das duas ob as, pode dize -se que, no p ocesso de
adap ação, Sol eig No dlund conseguiu ex ai , de 20 páginas de um ex o abso en e e
concen ado, uma longa-me agem mais densa, con ex ualizada em Po ugal. Nela se iam
explo ados no os e p o ícuos de alhes, mas ambém uma isualização e iden i icação
dis in as po pa e do espec ado /a: enquan o lemos Apa elho oado a baixa al i ude
a a és das sensações e pe sonalidade con u bada de Richa d Fo es e , assis imos a
um ou o Apa elho oado (…) pelos olhos da igualmen e con u bada mas mais esolu a
Judi e. No con o, a pe sonagem p incipal é um uncioná io público que desobedece
à lei, p essionado po uma esposa que eng a ida pela sé ima ez. No ilme, a mesma
posição é ocupada po es a mulhe que mani es a um imenso desejo de se mãe e
de, simul aneamen e, p o a que o “sis ema” é causado da eminen e des uição da
humanidade.
A ealizado a in e e, des a o ma, a masculinização do con o inicial,
ompendo a limi ação de uma pe sonagem eminina que se cingia a se incubado a
de um no o se . Sob o olha de Sol eig No dlund, Judi e assume-se como a o ça
impulsionado a de oda a ama: é ela quem decide le a a g a idez a é ao im,
impele o ma ido a pa i em pa a um luga dis an e e isolado, ul apassa uma g a idez
con li uosa e, sob e udo, econhece os abus da sociedade que a odeia, bem como as
po encialidades de uma no a o ma de ida. Finalmen e, é ela quem oma a decisão
(in luenciada pelos simbólicos encon os com Ca mem) de espei a a di e ença e
pe mi i a sob e i ência do seu ilho. Ao con á io da es an e humanidade - que
ap egoa ac edi a num u u o igual ao momen o p esen e, com sis emas hegemónicos
de seg egação e higienização homicidas – Judi e expe iencia a epi ania de que es es
ecém-nascidos não são mons os. Ao ap oxima -se de Ca mem, a ges an e ans o ma
a es anheza inicial em espei o, concluindo que se encon a pe an e uma e olução
(e não um e ocesso condená el) da espécie humana. A ida, al como a conhecia a é
ao momen o, es a ia a chega ao im, dando luga a uma no a o ma de exis ência.
Quando ques ionada pelo ma ido se a Z.O.T.E. se á capaz de c ia e ama aquele
ecém-nascido da mesma o ma que eles, Judi e esponde: “Se que emos mos a -lhe
o nosso amo , emos que deixá-lo i e no mundo dele. O nosso mundo acabou, And é.
Adeus, Elias…”
* Decla ação do au o já ci ada an e io men e.
68
Po úl imo, e ainda ela i amen e às di e enças na pe spec i a de géne o com
que lemos o li o e assis imos ao ilme, é no ó ia uma cen alização de Balla d em
Gould – a pe sonagem secundá ia, angua dis a e inadap ada, com endências suicidas
ace ao que conside a se a má o mação, não dos Z.O.T.Es, mas dos p óp ios se es
gene icamen e iguais a si. Já Sol eig No lund, que não esconde es es aços,
p e e e e idencia os de Ca mem - a c ia u a que consubs ancia as emidas mudanças
gené icas, de en o a de uma beleza exó ica e sensibilidade ex ema, que i e num
qua o algo psicadélico e que agueia pelos co edo es azios do ho el em jei o
de holog ama do u u o. No ilme, como já e e imos, se á ela a inspi a a decisão
inal de Judi e, cabendo ao dou o Gould a es i a missão de consciencialização de
And é pa a um des ino açado pela mulhe . A a alidade, a impulsi idade sexual,
a nos algia e o desgos o que ca ac e izam o con o, são menos explo ados pela
ealizado a, que p e e e ques iona a audiência sob e a legi imidade dos sis emas
de go e nação e os p econcei os de uma no malidade ins i uída. As suas pe sonagens
são mais in e enien es nos seus des inos, e lec indo e ac uando em con o midade
com as p óp ias obse ações e conclusões.
Exis indo uma dú ida (legí ima), pa ilhada po au o as eminis as como
Anne e Kuhn e Clai e Johns on, a espei o da co espondência en e o aumen o do
núme o de mulhe es ealizado as e o núme o de pe sonagens emininas ealis as,
menos es e eo ipadas e mais independen es, Sol eig No dlund pode á, des a o ma,
se enca ada como um exemplo posi i o dessa ligação. Nes e caso conc e o, e no
a amen o da mesma emá ica, Balla d demons a uma ape ência maio pa a abalha
a pe sonagem masculina p incipal (a ibuindo-lhe maio es esponsabilidades no
deco e da acção), enquan o a ealizado a cons ói uma pe sonagem eminina com o e
pe sonalidade, lucidez e capacidade de decisão, econhecí el pelas espec ado as do
seu ilme. Sublinhando-se que es e é um exemplo ao qual pode ão se con apos os
ou os ealizado es ( ão ou mais eminis as) e ealizado as (compa a i amen e
menos), conside amos, ainda assim, o ac o ele an e pa a a p esen e análise.
A FEMINIZAÇÃO DE UM
CONTO ESSENCIALMENTE
MASCULINO
Po en e as singula idades do p ocesso adap a i o de Apa elho oado a baixa
al i ude e ela-se uma o ça das desc ições balla dianas e uma pa alela densidade
imagé ica de No dlund, mediada pelo silêncio. De um lado, o esc i o des aca o
azio dos cená ios en ol en es:
69
Do ou o, a ealizado a ilma os mesmos espaços, imiscuindo o silêncio do
azio no encon o não- e bal de Judi e e Ca mem. As sensações isí eis, mas não
p onunciadas - nas quais o cinema pode á mani es a ela i a p eponde ância, quando
compa ado com a li e a u a -, adqui em aqui uma cen alidade e um simbolismo p óp io.
Na ausência de pala as, a ole ância demons ada pela pe sonagem eminina cen al
consag a o espei o pelas capacidades, dignidade e aspi ações de ou os se es que, em
ez de susci a em descon o o ou descon iança, ge am cu iosidade e ascínio. Sob e
es e aspec o, se á impo an e elemb a que o incen i o a compo amen os idên icos,
al como a conquis a de de e minados di ei os, ep esen a ia um p ocesso len o e
con li uoso, ao longo da His ó ia. Pa a que um ideal cosmopoli a e mul icul u alis a
de igualdade en e odos e odas osse, inalmen e, ins i uído se iam necessá ios
séculos de iloso ia humanis a, consag ação da Decla ação Uni e sal dos Di ei os
do Homem e do Cidadão (1789) e pos e io a anço pa a uma Decla ação Uni e sal dos
Di ei os Humanos (1948).
En e as ágeis e nunca de ini i as conquis as da pós-mode nidade encon a-
se assim o abandono da concepção de uma supe io idade o iginal e da legi imação
ep esen a i a de de e minada nacionalidade, sexo, eligião ou aça: o ou o que
deixa de se enca ado como limi e ex e no, passando a se pa e cons i uin e de
uma o alidade, numa al e na i a possí el de se e de exis i . No p óp io ilme,
o p ocedimen o de Judi e (apenas en endido pelo médico e inalmen e acei e pelo
ma ido), demons a es a agilidade, sendo ap esen ado como excepção. As es an es
pe sonagens, hóspedes do eso , de aços assus ado amen e biza os e quase
ci censes, ep esen am a posição an agónica de obediência à lei e de epulsa
pe an e a di e ença, mani es ando iden idades es á icas que não se plu alizam no
con ac o com a al e idade.
A pos u a des es homens e mulhe es (que ep esen am os úl imos humanos al
como a espécie é conhecida a é àquele momen o) consubs ancia-se, des e modo,
na ecusa de qualque ap oximação aos no os se es e no aplauso das medidas de
con olo, e ec uadas pelo uncioná io de higienização. Os seus p econcei os e
a i udes e lec em um e ocesso pe an e o humanismo p og essi amen e ins i uído
nas úl imas décadas e uma endência quase in ínseca pa a a disc iminação, pelo que
não podemos deixa de nos ques iona sob e a o igem des es enómenos.
“Pelas pegadas isí eis na a eia ina que o en o espalha a pelo
chão, e a e iden e que, ao longo dos anos, inham en ado ali
alguns iajan es de passagem, que inham omado uma bebida ou duas
ao balcão e saído sem aze quaisque es agos. Acon ece a o mesmo
em odos os lados que ele isi a a. As pessoas inham abandonado
cen enas de cidades e ae opo os como se quisessem deixá-los em
condições de uncionamen o pa a os seus sucesso es.”
Balla d, J. G. (1987). Apa elho oado a baixa al i ude. Lisboa: Edi o ial Caminho, p. 93.
70
De um pon o de is a ilosó ico e polí ico, Hannah A end conside a que a génese
da in ole ância ( acis a, xenó oba, homo óbica, en e ou as) pode encon a -se
num desconhecimen o do que é es ipulado como igualdade. P ojec ando a mode nidade
como um pe íodo de ausência de p o ecção das condições pessoais e di e enciado as,
a au o a ale a pa a as duas possí eis consequências da al a de mensu abilidade ou
análise explica i a da igualdade enquan o ac o social: a ín ima hipó ese de es a
se o na p incípio egulado de o ganização polí ica, e a p obabilidade maio de
se acei e como qualidade ina a de odo o indi íduo (conside ado “no mal” se o
igual a odos os ou os e “ano mal” se o dis in o). Nes a pe spec i a, a i ma:
A al e ação de uma isão polí ica pa a uma isão social da igualdade é
pa icula men e danosa, segundo A end , em sociedades in ole an es a indi íduos ou
g upos especiais, uma ez que, nesse con ex o, as suas di e enças são colocadas
em e idência. O ecen e (e não con enien emen e explici ado) di ei o e á assim,
na sua opinião, di icul ado as elações aciais, po se con inua a lida com
di e enças na u ais inal e á eis ace a qualque posição polí ica: “É pelo ac o
de a igualdade exigi que eu econheça que odo e qualque indi íduo é igual a
mim que os con li os en e g upos di e en es, que po mo i os p óp ios elu am
em econhece no ou o essa igualdade básica, assumem o mas ão e i elmen e
c uéis.”*
P ocedendo a uma análise do pensamen o acis a alemão, Hannah A end de ende
que o seu p og essi o en aizamen o esul ou da sus en ação da consciência de uma
o igem comum e do es o ço de uni um po o con a o domínio es angei o. Em e mos
eó icos, sublinha que, enquan o es a o igem oi baseada na pa ilha de uma língua,
não pôde se conside ada uma ideologia acial. Tal designação o aleceu-se, no
en an o, a pa i do início do século XIX, ao se em di undidos concei os como
“pa en esco de sangue”, “laços amilia es”, “unidade ibal” e “o igem pu a, sem
mis u as”**. P oposi adamen e, e -se-á igno ado o ac o de a o igem de oda a
ida humana se , ambém ela, comum – si uação que Balla d e No dlund explo am, em
con ex o pa alelo, numa na a i a onde os se es abo ados ou eliminados à nascença
são u o de elações en e os humanos.
Em Apa elho oado (…), como no egime nazi desc i o pela au o a, a o ça
o na-se a essência da acção e do pensamen o polí ico, no p eciso momen o em que
se sepa a da comunidade polí ica à qual de e ia se i .
* Idem, p. 77.
** Idem, p. 196.
“Quan o mais endem as condições pa a a igualdade, mais di ícil se
o na explica as di e enças que ealmen e exis em en e as pessoas;
assim, ugindo da acei ação acional dessa endência, os indi íduos
que se julgam de a o iguais en e si o mam g upos que se o nam
mais echados com elação a ou os e, com is o, di e en es.”
A end , H. (1998). O igens do o ali a ismo. São Paulo: Companhia das le as, p. 76.
71
Também nes e aspec o, Sol eig No dlund e á conco dado com o p edomínio mencionado,
ao des aca , no ilme, o e iginoso dec éscimo da população eu opeia e no e-
ame icana, o ando à in isibilidade e à insensibilidade nó dicas odos os es an es
con inen es. A p essuposição de uma aça se ia assim, segundo A end :
Um mundo que já an as ezes dis anciou e di e enciou se es humanos en e si
(b ancos e neg os, nacionais e es angei os, c is ãos e judeus, homo e he e ossexuais)
pode á assim e olui , num u u o p óximo iccionado po Balla d e No dlund, pa a
um mundo que ejei a os seus p óp ios ilhos, con e indo aos ociden ais o di ei o
de decidi sob e a ida e a mo e de um imenso conjun o de pessoas a quem designam
como os ou os. Pa alelamen e, as eais mani es ações de in ole ância e acismo
analisadas po Hannah A end pode ão i a se esponsá eis pela des uição de
odas as o mas de ida:
Nes a pe spec i a, Apa elho oado a baixa al i ude anspa ece uma in ínseca
al a de en endimen o num uni e so à de i a e o im da u opia ociden al de con o o
e bem-es a . Re lexos de um mundo eal e de uma con empo aneidade onde igo am o
medo do e o ismo, do desemp ego, da c ise, da gue a e da di e ença. O medo que
jus i ica o ecu so à iolência, o compo amen o despó ico dos go e nan es e a
suspensão empo á ia da cidadania. O mesmo medo que da ia mo e à con e ência de Mia
Cou o, p o e ida em 2011, no Es o il, na qual suge e: “Há quem enha medo que o medo
nunca acabe”. Con igu ando ambém a sensação dominan e como supo e de polí icas
o ali a is as e i acionais, o esc i o moçambicano conc e izou a eo ia nomeando
exemplos conc e os, incómodos e de ini i os:
“uma en a i a de explica a exis ência de se es humanos que ica am
à ma gem da comp eensão dos eu opeus, e cujas o mas e eições de
al o ma assus a am e humilha am os homens b ancos, imig an es ou
conquis ado es, que eles não deseja am mais pe ence à mesma comum
espécie humana.”
Idem, p. 215.
“Se a ideia de humanidade, cujo símbolo mais con incen e é a
o igem comum da espécie humana, já não é álida, en ão nada é mais
plausí el que uma eo ia que a i me que as aças e melha, ama ela
e neg a descendem de macacos di e en es dos que o igina am a aça
b anca, e que odas as aças o am p edes inadas pela na u eza a
gue ea em umas con a ou as a é que desapa eçam da ace da e a.
(…) Pois não impo a o que digam os cien is as, a aça é, do pon o
de is a polí ico, não o começo da humanidade mas o seu im, não a
o igem dos po os mas o seu declínio, não o nascimen o na u al do
homem mas a sua mo e an ina u al.”
Idem, p. 187.
72
Nes e sen ido, e já na década de 70, quando publica a ob a ci ada, Hannah
A end ei e a que a humanidade e á a ingido um pon o de up u a, pau ado po
sin omas mis os de espe ança e emo . A di e ença undamen al en e as i anias do
passado e as di adu as mode nas co espondia en ão, segundo a au o a, ao ac o de as
p imei as usa em o e o como “meio de ex e mínio e amed on amen o dos oponen es”,
enquan o as segundas o aplicam como “ins umen o co iquei o pa a go e na as massas
pe ei amen e obedien es.”* Não obs an e, elemb a, o medo exace bado só assume a
o ma de go e no no úl imo es ágio do seu desen ol imen o, suben endendo-se que,
a é esse momen o, e á ha ido cedência da pa e das í imas e dos obse ado es
inac i os. Em concomi ância, o ilme de Sol eig No dlund é ambém denunciado de
um gene alizado acili ismo no assimila de eg as impos as po um pode polí ico,
sem qualque ipo de con es ação ou deba e, pelo que e o namos a ase inicial de
Mia Cou o e nos a e emos a p opo uma e o mulação. Na con empo aneidade, como no
u u o ec iado em Apa elho oado (…), os sis emas despó icos con inua ão a se
omen ados po massas subse ien es, ha endo, po isso “quem enha medo que o medo
acabe”, ge ando pensamen o, incon o mismo e e ol a.
AUTORAS QUE
MARCARAM A HISTÓRIA
DE UM GÉNERO
As singula idades des e Apa elho oado (…) podem assim se cons a adas,
como emos indo a comp o a , a di e sos ní eis, eme endo-nos pa a o seu o iginal
p ocesso adap a i o, mas ambém pa a a a idade de uma longa-me agem de icção
cien í ica ealizada po uma mulhe , e em Po ugal.
* A end , H. (1998). O igens do o ali a ismo. São Paulo: Companhia das le as, p. 26.
“Há nes e mundo mais medo de coisas más do que coisas más
p op iamen e di as. No Moçambique colonial em que nasci e c esci,
a na a i a do medo inha um in ejá el cas ing in e nacional. Os
chineses que comiam c ianças, os chamados e o is as que lu a am
pela independência e um a eu ba budo com um nome alemão. Esses
an asmas i e am o im de odos os an asmas: mo e am quando
mo eu o medo. Os chineses ab i am es au an es à nossa po a, os
di os e o is as são hoje go e nan es espei á eis e Ka l Ma x,
o a eu ba budo, é um simpá ico a ô que não deixou descendência. O
p eço dessa cons ução de e o oi, no en an o, ágico pa a o
con inen e a icano.”
Cou o, M. (2011). Muda o medo. Es o il: Es o il Con e ences.
Video da con e ência disponí el em: h p://www.you ube.com/wa ch? =jACccaTogxE
73
Numa ápida e e ência a ou as p oduções nacionais, eco damos que, em 1988,
An ónio de Macedo inha já es eado Os emissá ios de Khalom, an ecipando o desag ado
de uma isão canónica (e p eponde an e) sob e o géne o, ao a i ma publicamen e*:
“A e dade é que alguns memb os dos jú is me disse am, mais a de, que o meu ipo
de cinema e a ‘um cinema que não in e essa a’ – um cinema an ás ico, um cinema
‘desligado das ealidades’, um bocado an asioso, e esse ipo de imaginá io não
in e essa a ao cinema po uguês.”**
Ví ima da ins i uição sis emá ica de de e minados p econcei os, ou de uma
“di adu a do gos o” que pau a( a) os o ganismos públicos, An ónio de Macedo se ia
um dos mais incomp eendidos e mal-amados ep esen an es do No o Cinema Po uguês,
com um pe cu so ma cado pela pos u a c í ica e a desin eg ação a ís ica: “Eu azia
pa e do Cinema No o, mas nou a panela. Não me in e essa a o cinema po uguês dos
anos 50, mas ambém não me in e essa a o ou o cinema, aquilo a que eu chama a a
escola do bocejo.”***
Recen emen e ( e)descobe o e homenageado (po ia de um ca álogo e de uma
e ospec i a na Cinema eca Po uguesa, em 2012, e pelo ibu o p es ado na 33ª
edição do Fan asPo o, em 2013), An ónio de Macedo a es a não apenas a len idão
do p ocesso de econhecimen o a ís ico em Po ugal mas ambém uma abe u a, ainda
que ímida, pa a ou os ipos de géne os e ep esen ações no cinema po uguês.
Len amen e, Sol eig No dlund, como ou os cineas as con empo âneos, êm indo
a comp o a que a dico omia cinema de au o e sus cinema come cial se pode
dissipa , dando luga a inúme as zonas cinzen as de in e essan es hib idismos
que sa is azem, ao mesmo empo, equisi os cul u ais e o in e esse do público. As
ecen es incu sões da dupla Tiago Guedes e F ede ico Se a pelo cinema de e o
(Coisa uim, 2006), de Rod igo A eias pelo wes e n (Es ada de palha, 2012), ou
de Edga Pê a po um expe imen alismo p o ocado e consis en e (desde Manual de
e asão, de 1994, a Ba ão, de 2011), cons i uem exemplos dessa desejá el dispe são
de ocos e p opos as.
Numa pe spec i a dis in a, ou a das singula idades des e Apa elho oado
(…) se á, como já e e imos, a sua ealização po uma mulhe , a ando-se a icção
cien í ica ( an o na li e a u a como no cinema), de um géne o adicionalmen e
masculino. Sob e es e aspec o, não de em, no en an o, igno a -se as a as excepções,
nas quais nos cen amos seguidamen e median e a elabo ação de uma sín ese his ó ica.
Começando, na u almen e, po iden i ica o seu início, se á ácil cons a a que,
apesa da polémica em o no de uma inde inição au o al de F ankens ein, acaba po
exis i uma conco dância ela i a à sua p imei a edição no ano de 1818 e à sua
ligação a uma mulhe , Ma y Shelley.
* Nes e pon o, conside amos con enien e sublinha que nos a emos unicamen e às longas-me agens de icção cien í ica, no sen ido mais es i o do e mo (a icção cujo
p og esso é jus i icado pela ciência, e não po elemen os mís icos, imagina i os ou an asiosos), como adian e desen ol e emos. Au o es, como Ri a Palma, conside am a
exis ência de ou os ilmes po ugueses, numa pe spec i a mais ampla, que engloba elemen os do cinema an ás ico ou a inse ção de e ei os isuais especí icos associados ao
géne o. Seguindo essa linha de pensamen o, a au o a nomeia as seguin es p oduções nacionais: O Louco (Ví o Manuel, 1946), A Con ede ação – O Po o é que az a His ó ia
(Luís Gal ão Teles, 1977), O Rei das Be lengas ou a independência das di as (A u Semedo, 1978), Um S/ Ma ginal (José de Sá Cae ano (1981), A lân ida – do ou o lado do
espelho (Daniel Del-Neg o, 1985), A sé ima le a (Simão dos Reis e José Dias de Sousa, 1988), A o ça do a i o (Ped o M. Rui o, 1992), Manual de E asão LX94 (Edga Pê a,
1994), A jangada de ped a (Geo ge Sluize , 2002)
** Macedo, A. (2008). Ci ado po Palma, R. (2009). “O u u o num ão de escadas. A icção cien í ica no cinema po uguês.” Em: 8º Lusocom. Uni e sidade Lusó ona de Humani-
dades e Tecnologias: Lisboa.
*** Macedo, A. (2012). Po Lamei a, J. “O ma e ick do cinema po uguês”. Suplemen o Ípsilon, Jo nal Público: 7 de Se emb o de 2012.
Disponí el em: h p://ipsilon.publico.p /cinema/ ex o.aspx?id=309959
80
Pela coincidência de con ex ualização his ó ica, se ia de espe a que Apa elho
oado (…) e lec isse uma abo dagem semelhan e a es es úl imos ilmes. No en an o,
es amos em c e que o minimalismo cinemá ico (e algo poé ico) da ob a de No dlund
e ela, ao in és, uma nos algia da simplicidade. A a qui ec u a ec ilínea dos anos
50, bem como o p óp io gua da- oupa das pe sonagens, pa ece ecua á ias décadas
no empo, si uando quem assis e em da a e local ince os. Os apa elhos a que Gould
eco e pa a ealiza exames médicos são ambém econhecí eis e pouco ino ado es,
num consul ó io onde a ecnologia não e á chegado a pene a . Sol eig No dlund
da ia um oque in imis a e es anhamen e amilia ao ilme, com as habi uais
es ições económicas a di a em uma quase ausência de e ei os especiais, pelo que
não conseguimos deixa de nos ques iona : pode ia a poesia se alcançada de ou a
o ma? A música e ocado a seleccionada po Johan Zach isson, associada à paixão
pelos jogos de luz mani es ada po Acácio de Almeida, e à mon agem cuidada e luen e
de Snezana Lalic, complemen am o e ei o.
Sob e es e aspec o, Rosi B aido i conside a igualmen e que o ul a-mencionado
“ iun o da ecnologia”, abo dado na maio ia dos ilmes de icção cien í ica, não
co esponde a um a anço da c ia i idade humana, no sen ido de p odução de no as
imagens e ep esen ações. Nes as ob as, a au o a cons a a uma epe ição de emas e
clichés an igos, sob o dis a ce de a anços cien í icos, concluindo se necessá io
mais do que uma máquina pa a que se al e em os modelos de pensamen o:
T a ando-se Apa elho oado (…) de uma das a as icções cien í icas ealizadas
po uma mulhe , ao longo de oda a his ó ia do cinema, e endo sido ilmada num
pe íodo em que á ios au o es cibe eminis as de endem que a ecnologia i á assumi
um papel essencial na conquis a da igualdade en e os sexos – embo a o açam de
um pon o de is a ociden al e na p essuposição de um acesso uni o me aos a anços
p ognos icados – se ia expec á el que o ilme anspa ecesse algumas des as c enças
e alo es. Não obs an e, e apesa de não e sido es e o alinhamen o eó ico seguido
po Sol eig No dlund, a espe ança deixada pela mensagem inal pa ece an ecipa essa
mesma igualdade: Judi e inicia o p ocesso de sal ação de uma no a ge ação de homo
sapiens (e, com ela, de oda a humanidade) com base, única e exclusi amen e, no seu
pode de obse ação, aciocínio e juízo c í ico (sem ecu so a mode nas écnicas
de ep odução, ele anspo e ou lei u a da men e dos que a odeiam).
“A ciência da icção, que é o ema do cinema e da li e a u a de
icção cien í ica, eque mais imaginação e maio igualdade sexual
pa a alcança uma ‘no a’ ep esen ação de uma humanidade pós-
mode na. A menos que a nossa cul u a esponda ao desa io e in en e
no as o mas de exp essão que esul em ap op iadas, a ecnologia
se á inú il.”
B aido i, R. (1996). Un cibe eminismo di e en e. Associación E-muje es. A igo disponí el
em: h p://e-muje es.ne /con en / osi-b aido i-cibe eminismo-di e en e, p. 17. No o iginal:
“La icción de la ciencia, que es el ema del cine y la li e a u a de ciencia icción,
equie e más imaginación y más igualdad sexual pa a llega a una ‘nue a’ ep esen ación de
una humanidad pos mode na. A no se que nues a cul u a esponda al e o e in en e o mas
nue as de exp esión que esul en ap opiadas, la ecnología se á inú il.”
81
Não se obse ando, no ilme, uma eu o ia do cibe espaço e do mode no con o o
po ele po enciado, ão pouco se pe pe ua a nos algia pelos empos an igos,
an e io es ao apa ecimen o das mode nas ecnologias, supos as mo i ado as da
supe icialidade, ímpe o e ieza das elações pessoais. Suge e-se, des e modo, a
impo ância da consciência do empo p esen e que Ka l Jaspe s e lec e na ase
colocada em epíg a e no início des e a igo (“Não almeja nem os que passa am nem
os que i ão. Impo a se de seu p óp io empo.”), e que Hannah A end , po sua
ez, e isi a ao a i ma : “Já não podemos nos da ao luxo de ex ai aquilo que
oi bom no passado e simplesmen e chamá-lo de nossa he ança, deixa de lado o mau
e simplesmen e conside á-lo um peso mo o, que o empo, po si mesmo, elega á ao
esquecimen o.” *Enca a as di iculdades con empo âneas, sem eco e à nos algia e
à glo i icação de empos an igos ou à mis i icação do que há-de i é a p opos a da
au o a, que consag a ainda: “A co en e sub e ânea da his ó ia ociden al eio à
luz e usu pou a dignidade de nossa adição. Essa é a ealidade em que i emos.”**
Assumindo um posicionamen o polí ico e ilosó ico idên ico ao de A end ,
Rosi B aido i cons a a que a p ocu a de e úgio no passado ou no u u o compo a
uma a i ude nega i a, endo como consequência imedia a a negação e negligência da
c ise c ónica do humanismo clássico, pa a além do não en endimen o da ansição
do mundo humanís ico pa a o mundo pós-humano. Não su p eenden emen e, elemb a,
es e au o-engano elemen a é inúme as ezes compensado po mo imen os que ad ogam
a chegada do messias. Face a ais con adições da con empo aneidade, a au o a
suge e que se busquem soluções e no as pe spec i as em géne os li e á ios como
a icção cien í ica, po não se encon a em sob eca egados de nos algia e po
cul i a em uma é ica de lúcido au oconhecimen o. Nes e sen ido, de ende que alguns
dos mais des acados in é p e es iconoclas as da c ise con empo ânea são ac i is as
eminis as, como a esc i o a Angela Ca e e as o óg a as Cindy She man ou Ba ba a
K uge . Incluímos Sol eig No dlund, e es e seu ilme em pa icula , nes a lis agem,
já que oda a na a i a se cen a na c í ica e na p ocu a de soluções al e na i as
a um sis ema ins i uído, bem como no su gimen o de no as iden idades. Reg essando
a uma dimensão humanis a da exis ência, demons a-se espei o po alo es de
ole ância e de igualdade, ao mesmo empo que se ques ionam as mudanças do p esen e
e se e idencia uma u gência de cuida do u u o.
Pa a que es a e lexão oco a, é ambém de salien a que a ealizado a não ap esen a
o no o géne o pós-humano eco endo às ó mulas “p og essis as” u ilizadas po
g ande pa e dos ilmes de icção cien í ica, nos quais as c ianças são concebidas
a a és de écnicas de ep odução al e na i as: em Alien é o compu ado “mãe” que
ge a no as c ia u as; em The boys om B azil (F anklin J. Scha ne , 1978) eco e-
se ao p ocesso de clonagem; enquan o os G emlins (Joe Dan e, 1984 e 1990) nascem do
con ac o com a água. Não se á es a, no en an o, a opção de Balla d e de No dlund: em
Apa elho oado (…) as c ianças são concebidas da o ma mais con encional possí el,
en e casais cons i uídos po homem e mulhe .
* A end , H. (1998). O igens do o ali a ismo. São Paulo: Companhia das le as, p. 13.
** Idem.
82
Sublinhe-se, po ou o lado, que as elações de géne o ilmadas pela ealizado a
não e oluem pa a uma ( ambém ela es e eo ipada) and oginia dos co pos e das o mas
de es i , comum a á ias icções cien í icas dos úl imos anos (como os já ci ados
Ma ix ou Dune, Da id Lynch, 1984).
A es e espei o, Rosi B aido i suge e p ecisamen e que uma das g andes
con adições das imagens de ealidade i ual é a ec iação de um ma a ilhoso
“mundo sem sexos”, con ígua à ep odução de “algumas das imagens mais banais e
simplis as da iden idade sexual, e ambém de classe e aça, que se pode concebe .”
*Na sua opinião, a eno ação do an igo mi o da anscendência como uma uga do co po
( anspos a pa a a pós-mode nidade como uma igualdade en e os sexos, conquis ada
pela anulação das dis inções en e co pos masculinos e emininos), cinge-se a
uma epe ição do modelo pa ia cal clássico que consolidou a masculinidade como
abs acção e a eminilidade como um segundo sexo. A negação de uma cla a dis inção
sexual en e os géne os (que exis e e que é salu a ) conduz assim, na opinião da
au o a, a um hib idismo amo o e a uma pe da de iden idade sexual, que nada em a
e com as iniciais ei indicações eminis as de acesso a uma igualdade de di ei os.
Nes e sen ido, o ilme de Sol eig No dlund sublinha uma di e enciação p o unda en e
homens e mulhe es, sem que es a sus en e a adicional in isibilidade ou anulação
de um dos géne os (o eminino). A e idenciação p oduzida e ela, inclusi amen e, o
bem-es a alcançado numa elação a dois, quando baseada na comp eensão mú ua e no
espei o pelo ou o.
A ETERNA PROCURA
DE UM FEMINISMO
INCLUSIVO
Nes a ase do a igo, é possí el a i ma que uma das azões pelas quais
o es udo des e ilme é ão in e essan e de um pon o de is a eminis a se á o
já desc i o p ocesso de eminização do con o balla diano. A cen alidade que
a ealizado a a ibui ao encon o de Judi e e Ca mem eme e-nos, no en an o,
pa a ou os concei os igualmen e ca os aos es udos eminis as, sus en ando mesmo
algumas das ei indicações mais ac uais. Em Apa elho oado (…), duas mulhe es que
apa en emen e nada e iam em comum, conseguem comp eende -se e acei a as suas
di e enças, pe mi indo a sal ação de uma no a ge ação de mu an es.
* B aido i, R. (1996), já ci ado, p. 17. No o iginal: “las ma a illas de un mundo sin sexos mien as que, simul áneamen e, ep oducen algunas de las imágenes más banales y
simplis as de la iden idad sexual, y ambién de clase y aza, que se e puedan ocu i .”
83
Con udo, a expe iência que pa ilham, bem como a inespe ada capacidade
de en endimen o, e elam não apenas o me o egis o de dados senso iais (ou a
aquisição de habilidades e compe ências po meio da epe ição), mas an es o
desen ol imen o de um p ocesso que as si ua numa ealidade social. De um pon o de
is a exis encialis a, es a se á a mesma expe iência eminina que Vi ginia Wool
espelhou nos seus omances, e sob e a qual disse a ia mais ap o undadamen e em Um
qua o só pa a si. No p imei o ensaio da ob a, e lec indo sob e o momen o em que
pisa o el ado da ic ícia Uni e sidade de Oxb idge e se ape cebe de que aquele é
um e eno ese ado a elemen os do sexo masculino, a au o a a i ma:
A acumulação de expe iências simila es, que in a ia elmen e a posiciona am
como mulhe , pe mi iu assim a Vi ginia Wool sin e iza o p ocesso a a és do qual,
de o ma mais ou menos conscien e, odas as mulhe es pa ilham uma iden idade.
Po engloba , como emos, subjec i idade, sexualidade, co po, educação e polí ica,
o concei o “expe iência” o na -se-ia eco en e nos es udos sob e mulhe es.
Ul apassando o es a u o de me a in uição ou sensibilidade supos amen e emininas,
p oduz-se, como elemb a Te esa de Lau e is, não po ideias ex e nas, alo es ou
causas ma e iais, “mas po um en ol imen o pessoal e subjec i o nas p á icas,
discu sos e ins i uições que a ibuem signi icado ( alo , impo ância e a ec o)
aos acon ecimen os do mundo.”* Po essa azão, au o as como Ka hleen Weile e
I is Young de endem, ac ualmen e, a necessidade de inse ção de uma componen e
empí ica na pedagogia e o mação eminis as, enquan o mecanismo de in e io ização
e ex e io ização, não apenas da expe iência imedia a e di ec a, mas ambém de
p ocessos mais ge ais e engloban es. A a és des e mé odo pedagógico, e segundo
g ande pa e dos seus de enso es/as, se á possí el e lec i -se sob e as melho es
es a égias de desen ol imen o de elações sociais emancipa ó ias.
Na opinião de Ka hleen Weile , o ac ual pe íodo de mudança e de o es
con es ações à epis emologia, à educação e à p óp ia o ganização dos sis emas
polí icos ociden ais se á a o á el a uma o mação de pendo mais humanis a e
iguali á io, bem como à ecupe ação de me odologias al e na i as de ensino. Nes e
sen ido, a au o a suge e uma e isi ação da p opos a pedagógica o mulada po
Paulo F ei e nos anos 60, median e uma cuidada e necessá ia adap ação pós-mode na
e in eg acionis a.
* Lau e is, T. (1982). Alice doesn’ . Feminism, Semio ics, Cinema. Blooming on: Indiana Uni e si y P ess. No o iginal: “… bu by one’s pe sonal, subjec i e, engagemen in he
p ac ices, discou ses, and ins i u ions ha lend signi icance ( alue, meaning, and a ec ) o he e en s o he wo ld.”, p. 159.
“Foi assim que dei comigo a caminha com ex ema apidez po
um el ado. Imedia amen e apa eceu a igu a de um homem que me
in e cep ou. Inicialmen e, nem comp eendi que as ges iculações do
cu ioso objec o com um aque e uma camisa de ce imónia me ossem
di igidas. O os o exp imia ho o e indignação. Mais o ins in o do
que a azão ie am em meu auxílio: e a um bedel; eu e a uma mulhe .
Is o e a o el ado; ha ia jun o uma e eda. Apenas os memb os do
co po di ec i o da uni e sidade e os mes es ali são au o izados; o
saib o é o meu luga .”
Wool , V. (1929). Um qua o só pa a si. Lisboa: Relógio d’água, ps. 20 e 21.
84
Da mensagem essencial de F ei e, desen ol ida a pa i do abalho com
camponeses no B asil, Chile e Guiné Bissau, e ém-se, como esumidamen e eco damos,
que o im da op essão de e á se a ingido pela con es ação dos alo es dominan es.
Reconhecendo que, “como a i mação eloquen e e apaixonada sob e a necessidade e a
possibilidade de mudança a a és da lei u a do mundo e da pala a, não há um ex o
con empo âneo compa á el”*, Ka hleen Weile p opõe que a pedagogia eminis a e eja
e en iqueça o p ojec o ei eano de libe ação do sujei o.
En e as p incipais agilidades apon adas pela au o a à sua pedagogia (e
que de e iam, na sua opinião, se al o p io i á io de ees u u ação), encon am-
se o uso lag an e do e e en e masculino (comum na década de 60), e a sua
p essuposição de que, quando os op imidos se pe cepciona em na sua elação com
o mundo, i ão agi colec i amen e pa a o muda . Pa a Ka hleen Weile , F ei e
assumiu uma uni o midade de odos os p ocessos de op essão, igno ando a hipó ese
de expe iências con adi ó ias. Limi ando o es a u o de pa ão e ope á ios ao de
op esso e op imidos, a au o a a i ma não e sido conjec u ada a possibilidade
de lu a en e pessoas op imidas po di e en es g upos, pa a as quais ci a dois
exemplos: o homem op imido pelo pa ão que, po sua ez, op ime a esposa; e a mulhe
b anca, op imida pelo sexismo, que op ime a mulhe neg a.
Conscien e da di iculdade de aplicação p á ica de p incípios ão gene alis as
às eo ias eminis as (pela não abo dagem de especi icidades aciais, sexis as ou
mesmo ísicas) e ei e ando semp e a sua necessidade de ac ualização, a au o a
nomeia a exis ência de pon os em comum en e as duas p opos as, ais como: a
missão de ans o mação social; a isão da op essão como pa e da exis ência
e da consciencialização do se humano; e a de inição da jus iça como po encial
libe ado a e cons u o a de um mundo melho . Assumindo uma es u u a he e ogénea
dos p óp ios es udos eminis as (que aba cam isões ão dis in as como socialis as,
libe ais, pós-mode nas, adicais e conse ado as), Weile conside a essencial que
se comp eenda a aiz da sua pedagogia nos mo imen os de libe ação das mulhe es
que, nos anos 60 e 70, busca am uma mudança social – objec i o comum à pedagogia
ei eana. O p ocesso de consciencialização da op essão como o ma de a anula
de e á assim inicia -se a pa i da expe iência pessoal, en iquecida, po sua ez,
e no caso da pedagogia eminis a, pela di e sidade de ideologias acima e e idas.
A es e espei o, eco damos que as p óp ias eo ias eminis as en en a am
c í icas semelhan es às que Weile di ige a Paulo F ei e. Desde os anos 70 que
di e sas au o as e mili an es lésbicas e/ou neg as - como bell hooks, nos EUA, e
Sueli Ca nei o, no B asil - con es am o emen e a concep ualização uni e salis a
“mulhe ”, po a associa em a um pon o de is a edu o de mulhe es b ancas,
he e ossexuais e classe média. A pa des e concei o, Judi h Bu le ejei a ia a
ca ego ia “géne o” (ainda que p omo ida pelo eminismo como o ma de não cingi
a de inição da mulhe à sua biologia), que conside a igualmen e no malizado a,
es i a a uma oposição biná ia en e eminino e masculino, e complemen ada po uma
p essuposição he e ossexual:
* Weile , K. (2004). “F ei e e uma pedagogia eminis a da di e ença.” Em Re is a Ex Aequo – Associação Po uguesa de Es udos das Mulhe es, nº 8. Po o: Cel a Edi o a, p. 94.
85
E idenciando uma o e in luência oucaul iana, Bu le sus en a que a
de inição de uma iden idade de géne o exclui ou des alo iza ce os co pos, p á icas
e discu sos, obscu ecendo, em simul âneo, o ca ác e cons uído (e con es á el)
dessa mesma iden idade. Na opinião da au o a, a ma iz cul u al a a és da qual
es a se o nou in eligí el implica que “ce os ipos de ‘iden idades’ não possam
‘exis i ’ - nomeadamen e aquelas em que o géne o não é consequência do sexo e aquelas
em que as p á icas do desejo não são consequência nem do sexo nem do géne o.”* A
eo ização da expe iência quo idiana p e is a pela pedagogia eminis a mani es a
assim, segundo Judi h Bu le , uma endência incon o ná el pa a a homogeneização,
e o çando o que já inha sido socialmen e ins i uído como no mal e des ian e. O
dilema com que, nos úl imos anos, as p opos as des e eo se êm con on ado - e
que as ez e olui pa a co en es cada ez mais especí icas, como o eco eminismo e o
eminismo quee , en e ou as - é ainda o de desc e e as mulhe es como um colec i o
social, e i ando um also essencialismo que no maliza e exclui. Tendo sido acusadas
de e nocen ismo, as au o as e au o es eminis as necessi am ac ualmen e, de aco do
com Bu le , de c ia co en es inclusi as, que possam ab ange odas as aças,
idades, classes, sexualidades e nacionalidades.
Pe an e os desa ios colocados, e numa en a i a de espos a aos mesmos, I is
Young elemb a que a negação da exis ência de um colec i o social mulhe es em
como consequência o e o ço dos p i ilégios “daqueles que mais bene iciam man endo
as mulhe es di ididas”**. Na sua opinião, a consciencialização é undamen al pa a
que as p óp ias mulhe es deixem de pe cepciona os seus p oblemas e so imen os
como pessoais e in ansmissí eis, de endo en ende -se a op essão como um p ocesso
sis emá ico, es u u al e ins i ucional. Pa a conc e ização des es objec i os,
a au o a p opõe que deixem de se emp ega os e mos “g upo” ou “colec i o” na
e e ência a mulhe es, e se use an es o concei o “se ialidade”, desen ol ido po
Sa e em C í ica da azão dialéc ica (de 1960). Concep ualiza o géne o como uma
sé ie social - um ipo especí ico de colec i idade que o ilóso o dis ingue dos
g upos – e á como p incipal an agem a não exigência de simili ude de a ibu os,
in e esses, objec i os, con ex o ou iden idade.
* Idem. No o iginal: “(…) ce ain kinds o ‘iden i ies’ canno ‘exis ’ — ha is, hose in which gende does no ollow om sex and hose in which he p ac ices o desi e do no
‘ ollow’ om ei he sex o gende .”
** Young, I. M. (2004). “O gêne o como se ialidade: pensa as mulhe es como um colec i o social.” Em Re is a Ex Aequo – Associação Po uguesa de Es udos das Mulhe es, nº 8.
Po o: Cel a Edi o a, ps. 118 e 119.
“A ideia de que pode ia exis i uma ‘ e dade’ do sexo, como Foucaul
i onicamen e a denomina, é c iada p ecisamen e po p á icas
egulado as que ge am iden idades coe en es a a és de uma ma iz
de eg as de géne o igualmen e coe en es. A he e ossexualização
do desejo eque e ins au a a p odução de oposições disc e as e
assimé icas en e ‘ eminino’ e ‘masculino’, comp eendidos es es
concei os como a ibu os que designam ‘homem’ e ‘mulhe ’.”
Bu le , J. (1999). Gende ouble – eminism and he sub e sion o iden i y. New Yo k
and London: Rou ledge, p. 23. No o iginal: “The no ion ha he e migh be a ‘ u h’
o sex, as Foucaul i onically e ms i , is p oduced p ecisely h ough he egula o y
p ac ices ha gene a e cohe en iden i ies h ough he ma ix o cohe en gende no ms.
The he e osexualiza ion o desi e equi es and ins i u es he p oduc ion o disc e e and
asymme ical opposi ions be ween ‘ eminine’ and ‘masculine’, whe e hese a e unde s ood as
exp essi e a ibu es o ‘male’ and ‘ emale’.”
86
Numa se ialidade, de ende Young, “a pessoa sen e não apenas os ou os, mas ambém
a si p óp ia como um Ou o, is o é, como alguém anónimo. Todos são o mesmo que o
ou o na medida em que cada um é Ou o além de si p óp io”*, al como na mencionada
pa ilha de expe iências en e as pe sonagens emininas de Apa elho oado (…), em
que Judi e se coloca a si p óp ia no luga de Ca mem.
Conc e izando a sua ese, I is Young sublinha não exis i em condições
especí icas pa a aze pa e de uma sé ie: os memb os não são necessa iamen e
idên icos pelo que podem chega a oca de posições en e si. Na de inição
sa e iana, a unidade da sé ie é amo a e olá il, sendo o es a u o de memb o
de inido pela i ência em o no das mesmas es u u as p á ico-ine es do dia-a-
dia. Mulhe se á, des e modo, e segundo Young, “o nome de uma elação es u u al
com objec os ma e iais al como o am p oduzidos e o ganizados po uma his ó ia
an e io , que conse a necessidades ma e iais de p á icas passadas.”** Mulhe es
são, em conclusão, os se es humanos posicionados como emininos po de e minadas
ac i idades, en e as quais ine i a elmen e se encon am as associadas ao co po
eminino (g a idez, pa o e/ou amamen ação), a pa de ou as menos ób ias (como
o uso de ce as ep esen ações isuais e e bais, oupas, cosmé icos e o p óp io
design de de e minadas peças de mobiliá io).
Nes a pe spec i a, a expe iência se ializada de pe ença a um géne o deixa
de implica o econhecimen o mú uo e a iden i icação posi i a de cada elemen o
enquan o pa e de um g upo. Assumi “eu sou mulhe ” é, de aco do com Young, um
ac o anónimo que não me de ine na minha indi idualidade colec i a, mas que me
possibili a oca de luga com ou as mulhe es da sé ie. E a au o a exempli ica:
As es u u as de géne o, al como as es u u as de aça, classe ou eligião,
não nomeiam, po an o, quaisque a ibu os dos sujei os (nem ão pouco cons i uem
uma iden idade), mas an es de e minam necessidades p á ico-ine es, que condicionam
as suas idas e com as quais e ão de lida . A o ma como o decidem aze a ia
em unção do con ex o ou da pe sonalidade de cada um/a, podendo chega ao pon o da
ocul ação de ca ac e ís icas num p ocesso de au ode inição. Dize que uma pessoa é
uma mulhe pode assim p e e algo sob e os cons angimen os e expec a i as ge ais
com que e á de lida , mas não an ecipa, como elemb a Young, qualque isão sob e
os seus alo es, a i udes e posicionamen o social.
* Idem, p. 125.
** Idem, p. 129.
“Li no jo nal sob e uma mulhe que oi iolada e empa izei com
ela po que econheço que na minha expe iência se ializada eu sou
iolá el, sou um objec o po encial de ap op iação masculina. Mas
es a consciência despe sonaliza-me, cons ói-me como Ou a pa a ela
e como Ou a pa a mim p óp ia numa oca se ial, em ez de de ini o
meu sen ido de iden idade.”
Idem, p. 131.
87
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Em conclusão, gos a íamos de sublinha que a ecupe ação do concei o
“se ialidade” ope ada po I is Young e lec e dois p incípios undamen ais que
dissol em, no nosso en ende , as e e nas acusações de homogeneização e e nocen ismo
apon adas às p opos as eminis as, nomeadamen e: a exis ência de inúme as
mulhe es que não conside am o ac o de se em mulhe es como pa e essencial da sua
iden idade; e as inúme as a iações iden i á ias en e as que se assumem como al.
Coinciden emen e, es a é ambém a mensagem ilosó ica (e polí ica) ansmi ida pelo
ilme, uma ez que, median e a ansposição do con o balla diano pa a a sé ima
a e, as suas pe sonagens emininas passam a se econhecidas como elemen os de
uma sé ie. Des e modo, ao coloca -se no luga de Ca mem, Judi e enca a-a como
alguém di e en e, mas igual a si, si uando-a numa ealidade onde ambém ela pode ia
exis i .
De um pon o de is a exis encialis a “se mulhe ” se á exac amen e isso, pelo
que conside amos que a e são cinema og á ica de Apa elho oado a baixa al i ude
ul apassa os obs áculos colocados a uma po encialmen e danosa gene alização do
concei o. Con igu ando o en endimen o en e as duas mulhe es de ca ac e ís icas
gené icas e compe ências linguís icas dis in as como a solução ou a espe ança
pa a os p oblemas da humanidade, Sol eig No dlund alo iza a expe iência e o
conhecimen o p óp ios de um géne o, abs endo-se de conside ações mís icas sob e uma
supos a essência eminina.
Ao mesmo empo, po en e os cená ios caó icos de u u os cinzen os aqui
ec iados, econhecemos que a o igem dos p oblemas humanos ep esen a um ciclo
quase-nie zschiano de “e e no e o no” ao longo da His ó ia. O medo da di e ença,
ealis icamen e apon ado po Hannah A end como a génese de mo imen os an i-
semi as, impe ialis as e o ali á ios, pe manece á, na isão iccionada de Balla d
e No dlund, como a base de um sis ema despó ico e de uma no malidade subjec i amen e
impos a. Face à apocalíp ica con es ação de Dos oie ski, “se Deus mo eu, udo
é possí el”, Sol eig No dlund ilma sob e o necessá io es abelecimen o de no os
limi es, alo es e ideais, com uma espe ança omân ica de sal ação pelo amo .
A a és dele espe a-se que su ja um maio cuidado e a enção pa a com o ou o, numa
in eg ação humanis a de múl iplas manei as de se .
88
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2001, odisseia no espaço (S anley Kub ick, 1968).
FILMOGRAFIA
89
96
O palco pode adqui i o mas di e sas, o que a e a di e amen e a elação des e
pa a com o espec ado , da clássica pola ização palco-pla éia do palco i aliano,
às o mas que buscam um maio en ol imen o en e a cena e o público, como o caso
do palco elisabe ano ou de p opos as ligadas ao ea o con empo âneo como aquelas
di e amen e in luenciadas pelos esc i os eó icos de An onin A aud. Esse espaço
p i ilegiado de ep esen ação pode ainda ese a su p esas pa a o espec ado no
deco e da ap esen ação ea al, como a da e elação de no os espaços, a é en ão
ocul os, que podem al e a uma pe cepção inicial da ab angência da cons ução
cênica, ou de e ei os de luz que c iam no as ambien ações pa a a cena. Qualque que
enha a se o caso, a pe cepção, po pa e do espec ado , do local de ep esen ação
se á semp e uma pe cepção dis anciada e o alizan e, comandada po um olha que em
o domínio de odo o espaço cenog á ico. Ou o a o comum no ea o diz espei o
à imobilidade do espec ado . A dis ância de obse ação do espec ado de ea o
em elação à cena é uma dis ância ixa. O que equi ale a dize que o espec ado
man ém semp e um mesmo pon o de is a do local de ep esen ação. Todas essas
elações impõem, ao d ama u go, um modo de comunica en e palco e pla éia, o que
pode íamos chama de um modo da ea alidade. O ea o não admi e o ges o pequeno,
o de alhe, a in imidade. Se es as qualidades es i e em no conjun o de ambições do
d ama u go, se ão alcançadas apenas de o ma ap oximada, não com a in ensidade que
obse amos no cinema. Mais do que isso, a in imidade no ea o exige que se emo a a
ep esen ação do g ande palco em oca de luga es meno es que possibili e o con a o
p óximo en e o a o e seu público, o que implica em uma sensí el diminuição do
núme o de espec ado es po espe áculo.
Já o o ei o de cinema não abalha com a mesma noção de palco, como local
único e p i ilegiado da ep esen ação, mas com um espaço mais abe o sem limi es
cla amen e de inidos, um luga do mundo. Ao abalha com essa noção de luga
do mundo, o o ei is a abalha ambém com uma noção de onip esença. Ausen e a
igu a do palco, como espaço geog á ico que cen aliza uma ep esen ação, ica
des ei a as limi ações espaciais que acomoda iam a mo imen ação dos pe sonagens
em cena. Em ez de um espaço único (o palco) que se á e es ido po uma ou á ias
ambien ações cenog á icas, ab e-se ao o ei is a a possibilidade de se abalha
com uma di e sidade de espaços do mundo, cada um deles com sua p óp ia ambien ação
cenog á ica, o que signi ica “cola ” o espec ado ao pe sonagem e não ao espaço de
ep esen ação, o palco. No espaço cenog á ico do cinema (pensado ainda na manei a
como es e é a ado no o ei o) o espaço da ep esen ação possui an o in e esse
quan o o espaço que es á além. Pa a o espec ado de cinema e, po con aminação,
pa a o lei o do o ei o, ão eal quan o o espaço que es á dian e de si, na ela,
é o espaço que es á o a da ela, mesmo que esse espaço nunca enha a se e elado
a ele. Tudo o que es á o a de quad o é pe cebido como uma ex ensão do mundo que,
embo a não nos seja dada a olha , é pa e do espaço de domínio do pe sonagem.* À
essa dispe são épica, que queb a com a concen ação d amá ica do palco, soma-se a
possibilidade de se abalha com uma elação de p oximidade do espec ado com a
cena (o pe sonagem e seu en o no).
* Sob e esse assun o e : Nana ou “os dois espaços” em: BURCH, Noel. P áxis do cinema. São Paulo: Edi o a Pe spec i a, 1992.
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I a odos os luga es onde a his ó ia acon ece e, mais do que isso, pode e um
con a o ín imo com cada um dos pe sonagens, pe cebe o ges o pequeno, o de alhe,
aspec os que pode ão se essal ados depois com a pos e io inse ção de planos
p óximos na mon agem. O planejamen o de uma cena, no o ei o, le a em conside ação
um pon o de obse ação p i ilegiado, do espec ado , que o coloca den o do local da
ep esen ação, den o do cená io. Como conseqüência, a ep esen ação não p ecisa
mais anspo uma dis ância pa a alcança o espec ado . A exp essão ísica do a o
não p ecisa i além do espaço cenog á ico ao qual ele es á ci cunsc i o, se comunica
apenas com esse espaço. Em elação à exp essão do a o ea al, cujo domínio se
es ende pa a além das dimensões do palco, a exp essão do a o cinema og á ico é uma
exp essão da in imidade, que encon a sua jus i ica i a apenas den o do uni e so
da icção.
A cons a ação exp essa aqui, e e en e ao luga da ep esen ação, libe a
o o ei o da dependência do ex o ea al. Pa a aquele que abalha com o ex o
d amá ico, a a-se de dois campos de a uação com possibilidades exp essi as
dis in as a se em explo adas. Pa a o cinema, a esc i a de cenas d amá icas se e
apenas pa a a o ganização ex ual do ilme, ela exis e, como au ônoma, apenas na
p imei a e apa de o ei ização. É uma desc ição que é ei a pelo o ei is a pa a
se , pos e io men e, pico ada, na o ma de di e sos planos, pelo di e o . O plano
se ap op ia dos elemen os da cena e os e-con igu am. Pela o ma do eco e, o
plano ope a uma seleção dos elemen os insc i os em um espaço maio . E en ualmen e
o di e o pode se ale de uma noção de equi alência (equi alência i ual!) en e
plano e cena, a o comum no p imei o cinema em que a câme a se limi a a ao papel de
egis a , de uma posição ixa, o e en o d amá ico em oda a sua du ação. A cena
d amá ica só e á unção no pe íodo de p é-p odução do ilme. Se i á pa a c ia uma
ambien ação cenog á ica undamen al no in e io da qual oco e á um acon ecimen o a
se egis ado a a és das omadas de câme a de aco do com as desc ições de planos,
encon adas no o ei o écnico. A cena ás a desc ição do e en o a se egis ado
e não do “como” esse mesmo e en o de e á se egis ado.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Esse a igo pa e de uma assimilação assumidamen e clássica an o no que
diz espei o as e e ências ea ais como as cinema og á icas, no que conce ne
a esc i a de seu ex o d amá ico. O que se p e ende é es abelece um pon o de
pa ida pa a uma e lexão a ce ca dos p ocessos de esc i a do o ei o de cinema.
Pode íamos, no en an o, i além, inspi ados, quem sabe, em um con a o mais p óximo
com nomes da d ama u gia con empo ânea como Samuel Becke , Be na d-Ma ie Kol ès,
Heine Mulle , Ha old Pin e , en e ou os.
98
Pin e , aliás oi ambém um excelen e o ei is a de cinema endo, de ce a o ma,
in es ido em uma concepção de cena dis an e dos modelo clássico no que diz espei o
as es u u as ex e nas e in e nas, nem semp e guidada po um quad o de mo i ações
p eso a uma lógica clássica.
Em elação as e e ências cinema og á icas, o a igo se apoia em uma concepção
de o ei o o emen e baseada na cons ução de uma mise-en-scène. Vale lemb a
que um abalho de di eção pode mui o bem es azia nossa pe cepção de cena, an o
no que diz espei o a pe cepção espacial, de domínio do a o , como em elação a
seu con eúdo d amá ico. É o que Jacques Aumon comen a em elação ao abalho da
di e o Clai e Denis em L’in us:
Tais opções de decupagem pode iam i suge idas po um o ei o cujo ex o
le asse em con a essa agmen ação, a desc ição da pa e pa a cob i um odo
sem necessa iamen e le a em conside ação o e ei o de con inuidade da cena,
p incipalmen e no que conce ne a pe cepção do espaço de ep esen ação. Quem sabe,
um ex o que se alesse mais das associações li es do omance, com o e apelo
poé ico. Não es a íamos mais alando de cena d amá ica. A ques ão se ia apenas
equilib a a libe dade de esc i a com as exigências que en ol em uma p odução
cinema og á ica. Sabemos, no en an o, que esse não é o caso em elação a o ma de
abalho de Clai e Denis no que ange a esc i a do o ei o. Clai e Denis não chega a
abandona a cena como base de sua decupagem, o que, aliás, em a se bem pe cep í el
em seus ilmes. A p óp ia di e o a, quando pe gun ada a ce ca da o ma ação de
seus o ei os, esponde que, na apa ência, seus o ei os não di e em em nada de
um o ei o pad ão, com cenas, núme os de sequência, e c.* O caso ce amen e se ia
ou o se u ilizassemos como e e ência ilmes de ca a e mais expe imen al como Sem
sol (Sans soleil, 1983), de Ch is Ma ke , documen á io de mon agem cuja es u u a
é oda apoiada na in e ensão épica e poé ica de uma locução o a de campo que
cons u a, com o ex o, imagens ob idas em luga es como Japão e Guinea Bissau, ão
dis an es um do ou o.
Apesa de ha e um ce o consenço en e os manuais de o ei o no que diz
espei o a uma o ma de esc i a pad ão, nem odos os o ei os de cinema são
necessa iamen e esc i os a pa i da cena d amá ica. Em li o Ro ei o de documen á io:
da p é-p odução à pós-p odução (PUCCINI, 2011), comen amos la gamen e sob e esses
ou os ipos de o ei os esc i os, no caso, pa a o ien a a p odução de um ilme
documen á io. Nosso in e esse, no en an o, oi o de se a e a ques ões ela i as
a cena do o ei o e a seu p ocesso de esc i a, o que o ien ou odo o pe cu so de
e lexão. Es amos, po an o, a ando de um ipo de esc i a d amá ica que se e aos
p opósi os de um ilme.
* Em In he Limeligh : Clai e Denis disponí el em h p://www.be linale- alen campus.de/s o y/48/3548.h ml, acesso 27/03/2012.
(...) não há encenação no sen ido de disposição do plano como
quad o: os planos são quase semp e po meno es – p incipalmen e
os os os em g ande plano – , o que acaba po impedi , quase
pe manen emen e, que se es abeleçam men almen e as elações
espacio- empo ais en e pe sonagens e en e planos.
(AUMONT, 2008, p. 179)
99
AUMONT, Jacques. O cinema e a encenação. Lisboa: Tex o & G a ia, 2008.
BAZIN, And é. O cinema, ensaios. São Paulo; B asiliense, 1991.
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RYNGAERT, Jean-Pie e. Le o ea o con empo âneo.
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BIBLIOGRAFIA
100
101
EL ARTE DE
ESQUIVAR LA
CENSURA Y LA
REPRESION
ea o y dic adu as del cono su
Ma io A. Rojas
The Ca holic Uni e si y o Ame ica
EL TEATRO Y SUS
VARIABLES INTER Y
EXTRA TEXTUALES
El ea o es un a e que sólo adquie e pleno sen ido en su enunciación escénica,
en la ins ancia única en que un ac o o g upo de ac o es se in e elacionan con
un público cong egado en una plaza, en un pa que, en la calle de una ciudad o, lo
más usual, en un espacio escénico con encional con una escenog a ía especialmen e
diseñada pa a su ep esen ación. Tan o en su esc i u a como en su ealización
escénica, el ex o ea al o espec acula no depende sólo del uso de un epe o io
de signos y códigos escénicos, del alen o y abajo de d ama u gos, di ec o es,
escenóg a os, écnicos de luz y sonido, y elenco, sino ambién de muchas a iables
con ex uales o ex e nas que in e ienen en su p oducción y ecepción. Una c isis
económica, un espacio escénico di e en e al o iginal ( al como puede sucede en los
es i ales de ea o), la censu a de un égimen au o i a io sea local o nacional,
epe cu en en una pues a en escena.
102
En es e a ículo, al e e i nos al ea o del pe iodo dic a o ial y de la pos -
dic adu a que se p odujo en la A gen ina, Chile y U uguay, países del llamado
Cono Su , pond emos a ención a aquellos ac o es que ue on de e minan es en su
p oducción y ecepción, en pa icula , la ue e censu a aplicada al ea o. En
nues a exposición conside emos sólo el ea o ep esen ado que, a nues o pa ece ,
u o un ue e impac o en el ambien e cul u al del país; a ese ea o, que con su
deci y hace , desa ió a la ep esión dic a o ial. Como chileno, el acen o es a á
pues o en el ea o de mi país. Conclui emos con una mención del ea o que, una
ez e minadas las dic adu as, es imonia sus secuelas y signa las cica ices y
aumas sociales y pe sonales que aun la en en la memo ia colec i a y hace que
ese pasado, de an o e o y iolencia, no quede en el ol ido.
EL TRIUNFO DE LA
REVOLUCIÓN CUBANA Y SUS
REPERCUSIONES EN LOS PAÍSES
DEL CONO SUR
Una ápida mi ada al pe iodo an e io a las dic adu as, nos lle a a la
e olución cubana (1959), la cual p odujo un ue e impac o en la egión: hizo que
aumen a a el pode polí ico de los pa idos de izquie da e incen i a a la o mación
de g upos e oluciona ios: los Tupama os en U uguay, los Mon one os, en A gen ina,
y el Mo imien o de Izquie da Re oluciona io (MIR) en Chile. Es os g upos p omo ían
cambios sociales ápidos, ans o maciones sociales que conduje an a la ealización
de p oyec os polí icos y sociales, como los que p omo ía Fidel Cas o en Cuba.
Es a ola e oluciona ia -causada en el ondo po las ensiones de la Gue a
F ía, en que las dos g andes po encias de en onces se dispu aban la hegemonía
del plane a- p eocupó mucho a los Es ados Unidos de Amé ica (EUA) que emía la
expansión del comunismo so ié ico po oda Amé ica La ina. Pa a con a es a la
in luencia so ié ico-cubana en la egión, el p esiden e John Kennedy, c eó la
llamada Alianza pa a el P og eso, un p og ama de asis encia económica con que se
p e endía disminui la pob eza de la egión. Sin emba go, a los no eame icanos, no
les omó mucho iempo pa a da se cuen a que los esul ados de es as medidas e an
muy di íciles de cumpli , que omaban mucho iempo, en an o que la in luencia de
Cas o a anzaba, como un sunami, po oda la Amé ica La ina. An e es a si uación,
el gobie no no eame icano, decidió emplaza la Alianza pa a el P og eso po una
ayuda mili a , de más ápido e ec o, que de u ie a la p opagación del ma xismo y
ayuda a a las oliga quías amigas a man ene sus hegemonías nacionales.
103
Se impuso la llamada “Ley de Segu idad de Es ado”, que daba a los mili a es la
o den de elimina a los g upos gue ille os y a la izquie da ma xis a con el in
de es ablece el “o den ins i ucional”. P og esi amen e, los mili a es ue on
aumen ando su pode e in luencia has a el pun o de ins ala se ellos mismos en el
pode .
El p ime país en su i los p ime os e ec os de la dic adu a mili a ue
U uguay. En junio de 1973, el p esiden e José Ma ía Bo dabe y, después de un
año de gobie no, p esionado po los mili a es, implan ó con ellos un égimen
au o i a io y ep esi o que, en 1976, e mina ía comple amen e bajo el con ol
de los uni o mados. Bo dabe y disol ió el pa lamen o; decla ó ilíci a la Cen al
Nacional de T abajado es, in e ino las uni e sidades, es ableció la censu a de
p ensa, y sup imió los pa idos polí icos. Se con ola on odas las ac i idades
cul u ales del país y se dio comienzo a un la go pe iodo de ep esión. De es e modo,
los a acados ue on no sólo Los Tupama os, sino un amplio sec o de la sociedad
ci il. Algo simila ocu ió en los o os países del Cono Su .
En el siglo XX, Chile había gozado de una democ acia ela i amen e es able
y p obado gobie nos de di e en es endencias ideológicas. Después de una eñida
con ienda elec o al, en 1969, Sal ado Allende, ue elegido p esiden e. La elección
democ á ica de un p esiden e ma xis a, se con e ía en un nue o dolo de cabeza
pa a EUA. Pese al es ue zo de la CIA y de la oliga quía chilena po impedi lo,
Allende asumió la p esidencia del país en 1970. Pe o e a impe ioso que su gobie no
acasa a. La p esión y el boico , den o y ue a del país, ue on sis emá icos y
enaces. Finalmen e, Allende ue de ocado, el 11 de sep iemb e de 1973 (o o 11
de sep iemb e de e o ) po una Jun a Mili a al mando de Augus o Pinoche .
La dic adu a A gen ina, ino es años después de la chilena. Desde el golpe
mili a de 1955 que había en iado al exilio a Juan Domingo Pe ón, A gen ina había
enido a ias dic adu as, con algunos hia os democ á icos. En 1973, después de 18
años de exilio, Pe ón e o nó a su país pa a ocupa de nue o el sillón p esidencial
con un amplio apoyo popula . Sus pa ida ios enían una e p o unda en su mí ica
igu a, pe o el caudillo mu ió al año siguien e con su popula idad o almen e
desplomada y sus pa ida ios di ididos. Su segunda esposa, Isabel Pe ón asumió la
p esidencia, pe o no e a la ca ismá ica E i a. Después de un caó ico gobie no,
que se le escapó comple amen e de las manos, en 1976 ue de ocada po el ejé ci o
bajo el mando de Jo ge Ra ael Videla, dándose inicio a una de las dic adu as más
sang ien as del siglo XX en ese país.
104
TEATRO Y REPRESIÓN
DICTATORIAL: VIOLENCIA,
HOSTIGAMIENTO, CENSURA
Y CASTIGO EJEMPLAR
En los es países, la ep esión dic a o ial a ec ó p o undamen e el ea o.
Se clausu a on salas de ea os y se pe siguió a conocidos a is as. Nume osos
di ec o es y p o esionales del ea o queda on cesan es; o os ue on enca celados,
o u ados, asesinados o lanzados al exilio. Sin emba go, a pesa del e o , de la
p eca iedad de sus medios y del hos igamien o ep esi o, len amen e ue eme giendo
un ea o con es a a io que se o alece ía a medida que los egímenes au o i a ios
se iban desgas ando.
En U uguay, El Galpón, el g upo ea al más impo an e del país, se con i ió
en el más igo oso oposi o y ue midiendo la ole ancia de la p esión mili a has a
que, al aspasa la aya pe mi ida, a ines de 1975, sus miemb os ue on enca celados
y muy p on o expulsados del país. El di ec o u uguayo, A ahualpa del Cioppo,
conocido en oda Amé ica La ina po sus excepcionales esceni icaciones, ambién
u o que sali al des ie o. El g upo que pe maneció en el país y que u o más éxi o
en so ea la censu a y man ene i o el ea o u uguayo no o icial ue el Tea o
Ci cula , que inco po ó en sus espec áculos alusiones a la ep esión dic a o ial,
que el público descodi icaba y ap obaba; al comienzo, con u i as mi adas o
disimulados ges os que, con el paso del iempo, se con e i ían en aplausos. En el
momen o en que sucede el golpe de es ado, el Tea o Ci cula p epa aba Ope ación
Masac e, de Robe o Walsh que se log ó es ena a pesa del con ol mili a . En e
las ob as ep esen adas po el g upo igu an: Mo i a de B ech que, como odos
los ex os del au o alemán, es aba ca gada de mensajes polí icos, Espe ando la
ca oza (1974) de Jacobo Langsne , que enía ases alusi as al con ol mili a .
Babilonia del a gen ino A mando Discépolo (1977) cuyo ema gi a en o no a la ida
de inmig an es eu opeos en Buenos Ai es, que el público elacionaba con el masi o
exilio de u uguayos a Eu opa y la angus ia de sus amilia es po no sabe de ellos.
A pa i de una ecopilación de ex os españoles clásicos, el Tea o Ci cula mon a
ambién Los comedian es (1977-1978) en que se hacía una e e encia indi ec a a la
censu a y a las innume ables p ohibiciones dic a o iales que a ec aban la lib e
exp esión social, cul u al y a ís ica del país. De impo ancia ue ambién la
esceni icación de Qui oga (1978) de Víc o Manuel Lei es sob e la ida del esc i o
Ho acio Qui oga, quien se e en la ob a en los momen os inales de se ecluido en
un sana o io de Buenos Ai es. La ida de Qui oga se econs uye e ospec i amen e
desde un p esen e sin espe anzas que podía elaciona se con el di ícil momen o que
i ía el país.
105
En su p og ama cul u al, el gobie no mili a izado de Bo dabe y p opiciaba un
a e que esal a a los “ alo es humanos uni e sales”, in ensi ica a los sen imien os
pa ió icos y omen a a aquella iden idad nacional imaginada o mi i icada po el
discu so o icial. Así, en 1975, la Comedia Nacional que e a espaldada po el
o icialismo, en la íspe a de los 150 años de independencia, mon ó la ob a A igas,
sol de Amé ica de Edga do Ubaldo Gen a, una ob a aca onada, llena de clichés, y de
escaso alo li e a io. Es e espec áculo o maba pa e de los es ejos o iciales
del año de la “o ien alidad” ( eco demos que el nomb e o icial de es e país es
República o ien al del U uguay). En odo es o, como bien lo señala el c í ico
u uguayo Roge Mi za, había una g an pa adoja ya que “un gobie no de ac o sin o a
legi imación que la ue za [buscaba] apoyo en la igu a de quien ue p esen ado
siemp e po la his o iog a ía u uguaya como un de enso de la sobe anía popula ”
(Mi za, 1997, pp. 90-91). Como éplica a es a manipulación del mi o A igas, se
c ea án, pos e io men e, dos ob as. Una, Y nues os caballos se án blancos, que
Mau icio Rosenco esc ibe desde la cá cel, en que A igas es e a ado como un hé oe
que acasa pe o sin enuncia jamás a sus ideales y, la o a, A igas, Gene al del
pueblo en que El Galpón en que se des aca al A igas es adis a y epublicano.
En Chile se emi ie on lis as neg as que p ohibían los con a os a p o esionales
del ea o. En diciemb e de 1973, el 90% de los ac o es es aba sin abajo, y un
25% había salido al exilio. El p ime g upo ea al que se a e ió a desa ia
la censu a, ue el Aleph (homónimo de un cuen o de Jo ge Luis Bo ges), di igido
po Osca Cas o, que an sólo a un año de impone se la dic adu a, es enó Y al
p incipio exis ía la ida, compues a de ex os ex aídos de la Biblia, de El Quijo e
y el P incipi o que con enía di ec as alusiones a la dic adu a. La escena que más
esal aba en la ob a, e a la de un capi án, que a pun o de nau aga , a engaba a
su ipulación a enca a con alen ía la si uación. Pa a el público chileno, la
descodi icación de la alego ía e a ácil: aludía a dos e e en es: al legenda io
y mí ico A u o P a , que según el discu so o icial, an es de se embes ido po un
ba co enemigo, du an e la llamada Gue a del Pací ico, a engó a la ipulación a
lucha has a mo i . Pe o había o o e e en e más inmedia o y sen ido: el capi án
ep esen aba a Allende, di igiéndose po adio a los chilenos minu os an es de que
la Moneda, el palacio p esidencial ue a bomba deado, en un discu so que ma có
un hi o en e el é mino de la democ acia y el comienzo de la e a pinoche is a.
Inc eíblemen e, es a ob a de Cas o se man u o en ca ele a po casi un mes. Pe o,
llegado el momen o, los mili a es no a da on en aplica le al g upo un cas igo
ejempla . Osca Cas o y o os miemb os del Aleph ue on enca celados. Después de
pasa po a ios campos de concen ación (donde con inúo haciendo ea o con o os
p esos polí icos), Cas o ue expulsado del país. No se a e ie on a ma a le po que
su caso e a ya conocido en el ámbi o in e nacional. El gobie no e i aba una eacción
simila a la que causó el asesina o de Víc o Ja a quien, además de composi o e
in é p e e de música popula , e a conocido como un ac o y di ec o de ea o de
econocido alen o. A Cas o no le ma a on pe o sí a su mad e y a un miemb o del
g upo, quienes o man pa e de la la ga lis a de desapa ecidos que ensomb ece la
his o ia de los es países del Cono Su , donde muchas An ígonas espe an ealiza
oda ía el sag ado i o úneb e.
112
FIN DE LAS
DICTADURAS Y SUS
SECUELAS
La du ación de las dic adu as del Cono Su ue desigual: A gen ina (1976-1983),
U uguay (1973-1985) y Chile (1973-1990). Los gobie nos que les sucedie on, debido
a que habían he edado de las dic adu as enmiendas cons i ucionales y p og amas
económicos que a o ecían a las capas más al as de la sociedad, ue on llamados
“gobie nos de ansición” que, los escép icos p e i ie on llama los de “democ acias
amo dazadas”. An es de deja el pode , los mili a es p omulga on dec e os de
au o-amnis ía con el in de p o ege se de odo juicio en su con a. En U uguay,
Julio Ma ía Sanguine i, el p esiden e elegido una ez e minada la dic adu a,
in odujo la ley Caducidad de la P e ensión Puni i a del Es ado, que ue ap obada
po el Cong eso en 1986. Con es a ley se p e endía deja sin la posibilidad de
juicio a mili a es y policías in oluc ados en iolaciones de sus conciudadanos. En
A gen ina, al con a io, una de las p ime as medidas del p esiden e Raúl Al onsín
ue la anulación de la ley de au o-amnis ía y la c eación de la Comisión Nacional
sob e la Desapa ición de Pe sonas (CONADEP) p esidida po el esc i o E nes o
Sába o. Al año siguien e del in o me de CONADEP i ulado “Nunca más”, se lle ó a
juicio a los in eg an es de las es Jun as Mili a es, que culminó con la condena
a p isión pe pe ua de a ios mili a es de al o ango. Sin emba go, en 1989, el
ecién elec o Ca los Menem indul ó a la mayo ía de los que es aban bajo p oceso, y,
en diciemb e de 1990, o o indul o dejó en libe ad a los mili a es que cumplían
sen encias. En junio de 2005, la co e sup ema a gen ina e ocó dos leyes de
amnis ía que p o egía a los mili a es in oluc ados en iolaciones de los de echos
humanos. El esul ado de es as medidas y o as aun es án po e se. En Chile,
an es de deja el pode , Pinoche se au onomb ó senado i alicio de la República,
asegu ándose así una iple inmunidad: p esidencial, pa lamen a ia y diplomá ica.
A pesa los es ue zos que se hicie on pa a enjuicia le po la esponsabilidad que
le cabía en el asesina o y o u a de an os chilenos y po los audes que se
descub ie on en sus cuen as en el ex anje o, mu ió sin se enjuiciado y condenado.
Decían que su ía de demencia senil (es a ue la excusa que se usó ambién pa a
de ol e lo a Chile cuando, po o den del juez español Bal aza Ga zón, ue de enido
en Ingla e a en 1998). Hay mili a es de al o ango que han sido enjuiciados, pe o
que i en en p isiones especiales, que algunos cali ican de lujo.
¿Qué sucedió con el ea o hacia el inal de las dic adu as y qué se ha
hecho después pa a man ene la memo ia i a, la lucha con a la impunidad y salda
cuen as con los deudos de los asesinados?
113
En 1988, dos meses después que un plebisci o nacional le die a el o undo
NO a la con inuidad de Pinoche , se es enó en San iago La Neg a Es e , di igida
po And és Pé ez, el di ec o chileno de más alen o de las úl imas décadas del s.
XX. Pa a muchos c í icos, es a pieza ma có un an es y un después en la his o ia
del ea o chileno. Basada en un poema del olklo is a Robe o Pa a, he mano del
poe a Nicano Pa a y de la olklo is a Viole a Pa a, se puede de ini como una
ob a polí ica, pe o dis anciada del discu so didác ico, que se había con e ido en
pa adigma del ea o de concienciación social. Has a en onces, en Chile, el ea o
de ca ác e popula , al e na i o y con es a a io se hacia en espacios ce ados y/o
ma ginales. Asis i a sus espec áculos e a en sí un desa ío, una acción polí ica de
al o iesgo. Po o o lado, es aba el ea o eli is a, bien si uado en la ciudad,
que se ía a una clase bien educada, que en su mayo ía se ajus aba a los es ilos
ea ales p e e idos po del égimen: ob as de clásicos españoles y uni e sales o
comedias li ianas. Los públicos no se mezclaban. El es eno de La Neg a Es e cambió
es a si uación. Se hizo al ai e lib e, en la cima del Ce o San a Lucía, si uado
en el co azón mismo de San iago de Chile y ue is a po un público que p ocedía de
odas las clases sociales, de ni el educacional e ideologías di e en es. Fue un
signo emblemá ico del in de la dic adu a. La in eg ación de elemen os popula es
en la ob a de Pé ez, e a una celeb ación de la di e sidad social y acial que la
dic adu a había igno ado po an o iempo. Se mos ó a ese dolido, pe o esis en e
Chile, lúdico y pica esco. La Neg a Es e e omaba así el hilo de T es Ma ías y una
Rosa.
EL TEATRO COMO
PRESERVADOR
DE LA MEMORIA
Con el en usiasmo y lleno de op imismo po el e o no a la democ acia, And és
Pé ez, en 1991, lle ó a la escena Allende, ideada como un ibu o a Sal ado
Allende y al gobie no de la Unidad Popula . La ob a ue un acaso. Pa a muchos
chilenos, an o Allende como Pinoche pe enecían a un pasado que había que supe a
y no con e i lo en un las e pa a la cons ucción del u u o. Sin omá icamen e,
una ecepción simila expe imen ó la pues a de La mue e y la doncella de A iel
Do man, a pesa del eno me éxi o que había enido en el escena io in e nacional,
en B oadway y Lond es, y lle ada ambién con éxi o al cine po Roman Polanski en
1992. Su a gumen o es simple, una muje o u ada, casualmen e, se encuen a con
su o u ado y, en una si uación de pode es in e idos, ella a a de paga le con
la mismo moneda.
114
La opción po el ol ido e a p ecisamen e lo que que ían los que habían apoyado
la dic adu a. Había que ol ida el pasado, ol ida los aumas su idos, pone en
hia o una his o ia de 17 años. Como bien lo sos ienen los u uguayos Ma celo y Ma en
Viña , en F ac u as de la memo ia. C ónicas pa a una memo ia po eni , no se puede
silencia la his o ia po que:
En cuan o enómeno social, la enunciación escénica no sólo ep esen a y
educa sino que en su p oducción, en su conc eción, en su elación con un público,
gene a nue os sen idos, “ iene un luga p i ilegiado en el sis ema de ela os y
mi os que in eg an el imagina io colec i o de una sociedad” (1995a, p.121). Así,
siguiendo la a gumen ación de los Viña , el ea o pos -dic a o ial no puede eludi
el impo an e papel que le co esponde pa a la ecupe ación de la memo ia, po que
“sólo la memo ia puede exo ciza el ho o de lo i ido y p epa a las condiciones
pa a un ol ido cons uc i o” (Viña , 117).
Es a es una a ea que han emp endido d ama u gos como G iselda Gamba o con
An ígona u iosa (1986) y Jo ge Hue as con An ígonas: Linaje de Hemb as (2001) po
ejemplo, quienes eseman izan y econ ex ualizan el mi o g iego. An ígona simboliza
la memo ia colec i a que se esis e al ol ido y a la esignación. Como Oma Pacheco,
que con el G upo de Tea o lib e que di ige, ha c eado con g an inu a es é ica una
ilogía sob e la memo ia del ho o Memo ia, Cinco pue as (1995) y Cau i e io
(2001).
Raquel Diana, u uguaya d ama u ga y ac iz de El Galpón, esc ibió en 1998,
Cuen os de Hadas ace ca de es gene aciones de muje es, de hadas e es es, que
desde su subje i idad hablan de las cica ices que han dejado en ellas, la p isión,
la clandes inidad, la cá cel, la o u a. En el p og ama de mano de su es eno,
dice la au o a:
Si el mundo pa ece a eces un labe in o, inaba cable, oscu o, con mons uos
iejos y nue os acechando, y no se en iende, y duele, las hadas ienen un hilo
de A iadna. Van a ando la memo ia sin deja hilachas suel as, po que no es bueno
ol ida se de donde es á la pun a de la madeja. Saben bo da lo es aun sob e la
ela más is e y eje los sueños pa a que no se pie dan. Hil anan cas illos en
el ai e, po que saben bien lo que es es a con los pies sob e la ie a. Las hadas
ienen un hilo de A iadna pa a que noso os no nos ayamos a pe de (P og ama de
mano de Cuen o de hadas. Las cu si as son nues as). También cabe en es e g upo el
ea oxlaiden idad.
Le an a las p osc ipciones de la memo ia del ho o es gene a
condiciones de ecupe ación de las ep esen aciones del pasado y
la e o mulación de la pe enencia cul u al. La ilusión de bo a y
empeza cuen a nue a es un idealismo pelig oso. Todo lo con a io,
el pac o de silencio pa a anula y exo ciza el ho o i ido
alimen a con lic os la en es y esen imien os que, de no elabo a se
en la palab a, de i a án hacia la iolencia, en ac o no simbolizado
(Viña , pp. 117).
115
TEATROXLAIDENTIDAD:
EL DECIR Y ACTUAR
MÁS ALLÁ DEL ESCENARIO
Un mo imien o ea al pos -dic a o ial es impo an e el Tea oxlaiden idad
(TxI) que su gió en Buenos Ai es en 2000, cuando un g upo de a is as del ea o se
asoció a las Abuelas de la Plaza de Mayo pa a “suma se a la lucha po la es i ución
de casi 500 niños secues ados y ap opiados du an e la dic adu a” (Rago). En la
página de in e ne del TxI se explici a sus mo i aciones:
… la p o unda necesidad de a icula legí imos mecanismos de de ensa con a
la b u alidad y el ho o que signi ican el deli o de ap opiación de los bebés y
de niños y la sus i ución de sus iden idades de un modo o ganizado y sis emá ico
po pa e de la dic adu a mili a . Deli o que aun hoy con inúa igen e. Ve www.
ea oxlaiden idad.ne )
El TxI se inicia con la ob a de Pa icia Zanga o A p opósi o de la duda,
compues a de ela os es imoniales de pa ien es de niños que ue on secues ados
du an e la dic adu a y que es es enada en el Cen o Cul u al Rica do Rojas y,
más adelan e, con inúa su ep esen ación en el Cen o Cul u al Recole a. En los
cinco años de exis encia del TxI se han ep esen ado ob as de au o es conocidos
como Mad espe anza de Ma io Cu a, El nomb e de G iselda Gamba o, Viudas de A iel
Do man, El que bo a los nomb es y El manchado de A iel Ba chilon, como ambién de
au o es menos conocidos, al menos en el ámbi o in e nacional como Alejand o Ma eo,
con su ob a I a Sca amuzza, de Al edo Rosembaum, Blanco sob e Blanco, Alicia
Muñoz Supongamos. En e las ganado as pa a se ep esen adas en el 2005 igu an,
en e o as, de And és Bine i, Una caja blanca, de Julie a Amb ossoni, El Mudo y
de Bea iz Pus ilnik, A bus o sin es ella, de Sil ia Ai a. Los espec áculos del
TxI e an g a ui os. En el año 2001 ie on ce ca de 30.000 espec ado es asis ie on
al ciclo de TxI. El mo imien o que empezó en Buenos Ai es y se ha ex endido a las
p o incias y c uzado el A lán ico. En el junio de 2004 se ealizó una empo ada de
TxI en Mad id. En una en e is a a p opósi o de es e ciclo en Mad id, A u o Bonín
da cuen a de los log os de TxI.
Daniel Dibiase ag ega:
En Abuelas se les da [a los chicos] apoyo de odo ipo. En ese ance, uno de
los con lic os más di íciles pa a es os chicos es indaga en sus pad es adop i os,
que no siemp e son ap opiado es.
. . . cuando se ins ala el ciclo de Tea o x la iden idad se
sex uplican los llamados a la Asociación de Abuelas. No odos los
que dudan son chicos ap opiados. A los que se les a i ica que sí lo
son, se les da la opo unidad de pode hace algo con esa ce eza.
(Cab e a)
116
Sob e es os emas delicados noso os enemos en el ea o la en aja de pode usa
la me á o a, aunque haya gen e que diga que con es as cosas no hace me á o a”
(Cab e a).
EL TEATRO
COMO CONSTRUCCIÓN DE
CONTRARRELATOS
El ea o es un medio e icaz pa a man ene la memo ia i a, del pasado eliz,
pe o ambién del aumá ico. Es a es una unción social imp escindible, po que como
bien lo exp esan los Viña :
Cualesquie a que sean las p opues as escénicas, alejadas o no del canon
a ís ico impues o po una hegemonía cul u al, el ea o sigue siendo uno de los
medios a ís icos más e icaces en la cons ucción de con a ela os que (se aplican
aquí concep os de los Viña ) ayuden a ec i ica las omisiones del discu so o icial,
que denuncien aquellas agencias gube namen ales monopolizado as del pode , del
sabe y la e dad. Un ea o que celeb e la di e sidad y es i uya las memo ias
plu ales, que c ea en la sociedad un sen ido de pe enencia, que e isi e el pasado
y esigni ique “simbólicamen e la memo ia en el p esen e”. El ea o debe uni se
a g upos de de echos humanos y con e i se en un ac o colec i o que exo cice el
e o y el con a- e o que, bien lo sabemos, puede se aun peo .
El psicoanálisis desde sus undamen os acumula e idencia clínica
conco dan e de que la iolencia p oducida y luego callada, el
acon ecimien o i ido y silenciado, cons uye e ec os de ma ca
pa ógena más impo an es y noci os que aquella o a his o ia de la
que se puede da cuen a po un ela o, aun ho o oso, des igu ado
en los excesos de su e dad y men i a, pe o de cualquie mane a,
ma e ia ex ual de una expe iencia i ida y de su elabo ación.
Es imp escindible que haya muchas memo ias y muchos ol idos que se
exo cicen en la escena p i ada y en la escena pública y que balbuce
en una palab a humana con o e sial, no la e dad monolí ica y de
es i pe maniquea que nos legó la dic adu a como palab a p e alen e y
como discu so dominan e
(Viña , 15)
117
NO
HAY OLVIDO
En Chile, po in se es á log ando es o. El público, sob e odo los jó enes
que no i ie on la dic adu a, quie en sabe más sob e lo ocu ido. Así la ob a de
Do man La mue e y la doncella se ha e-es enado con g an éxi o el 15 de ma zo de
2012 y el au o ha sido dis inguido po el Senado de la República po su apo e a
la cul u a y po su de ensa de los de echos humanos. Un g upo de conocidos au o es
ha pa icipado en la exi osa se ie de ele isión “Los a chi os del Ca denal”,
basada en el abajo ealizado po la Vica ía de la Solida idad en de ensa de los
de echos humanos du an e la dic adu a mili a . Un suceso simila ha sido la se ie
ele isi a “Los 80”, p o agonizada po los conocidos au o es Daniel Muñoz y Tama a
Acos a, (inspi ada en una se ie española) que ela a la his o ia de una amilia
de la clase media chilena, que como muchas amilias chilenas su ió los impac os
sociales y económicos de la dic adu a. Pa a el ea o NO HAY OLVIDO.
Ve sión modi icada y ac ualizada de un a ículo apa ecido en Nue as apo aciones a los es udios
ea ales. Edi o es: Héc o B ioso y José V. Sa al. Uni e sidad de Alcalá: Alcalá de Hena es, 2007. Una
sín esis de es a nue a e sión ue leída en una con e encia o ganizada po UNICEPE y po el Fes i al
In e nacional de Tea o de Exp essão Ibé ica (FITEI) en Opo o el 31 de mayo de 2012.
El día o la noche en que el ol ido es alle
sal e en pedazos o c epi e
los ecue dos a oces y de ma a illa
queb a án los ba o es del uego
a as a án po in la e dad po el mundo
y esa e dad se á que no hay ol ido.
(Ma io Benede i)
118
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BIBLIOGRAFIA
119
120
NARRATIVAS
ENTRE A
PRESENÇA E A
PAISAGEM:
ecos pós-d amá icos no cinema
con empo âneo.
Pablo Gonçalo
RESUMO | Es e ensaio abo da a elação en e o sujei o e a
pe o mance no ilme No qua o de Vanda, de Ped o Cos a, e no
eali y-show O amo segundo B. Schianbe g, de Be o B an , que
ambém ealizou um ilme homônimo a pa i da sé ie ele isi a.
Nesse eco e se ão inse idos alguns concei os do ea o pós-
d amá ico, como a peça-paisagem, e o deba e sob e a p esença
como o ma de insc ição de sen ido e de d ama u gia. P e ende-
se salien a esses dois concei os - de p esença e de paisagem
- como possí eis concei os pa a a comp eensão da singula idade
es é ica de pa e do cinema con empo âneo.
PALAVRAS-CHAVE | Ro ei o de cinema; Cena d amá ica; Tea o.
ABSTRACT | This essay add essees he ela ionship be ween
he subjec and pe o mance in a documen a y by Ped o Cos a
and a eali y-show by Be o B an . This b eakdown, we inse
some concep s o pos -d ama ic hea e , as he landscape-s age,
and he deba e o he p esence as a o m o insc ip ion o
meaning and d ama. Bo h p esence and landscape migh be seen as
possible concep s o unde s and some aes he ic singula i ies o
con empo a y cinema
PALAVRAS-CHAVE | Documen a ies. Reali y-shows. Landscape.
Pos -d ama ic. Subjec i i y. Con empo a y cinema.
121
I
Uma pa e signi ica i a das ob as expe imen ais e na a i as do cinema
con empo âneo e idenciam um ce o dis anciamen o en e a algumas ca ego ias que
no abiliza am os pe íodos conhecidos como clássico, mode no e pós-mode no. Tal ez,
desde os anos se en a, es ejamos obse ando mudanças es u u ais na d ama u gia, na
na a i a, nas encenações e nas o mas de assis i aos ilmes p oduzidos. Mudanças
que salien am mesclas de di e sos es ilos, e isões de gêne os consolidados, assim
como a ap op iação de alguns mo es ca os ao cinema mode no. Há, pa alelamen e, no
a ual campo dos es udos cinema og á icos, a busca po uma no a con igu ação de
concei os que possam aba ca e explica esse complexo cená io.
P e ende-se aqui chama a a enção pa a dois concei os o iundos das a es cênicas a im
de lida com algumas dessas singula idades do cinema con empo âneo. Nesse sen ido,
p esença e paisagem se ão comp eendidas como ins âncias d amá icas e d ama ú gicas
que suge em no as cons elações na a i as. São concei os que, al ez, nos pe mi am
e isa algumas das classi icações comuns nos es udos de cinema, como opacidade
e anspa ência (XAVIER, 2005); cinema pós-mode no, pós-clássico, disposi i os,
subje i idade e obje i idade e, inclusi e, algumas on ei as que di idi iam, ou
mesmo mescla iam, as noções de icção e documen á io. Se ão abo dadas, com esse
in ui o, duas ob as audio isuais: O amo segundo B. Schianbe g (2009), de Be o
B an ; e No qua o de Vanda (2000), de Ped o Cos a.
O amo segundo B. Schianbe g su ge como um eali y-show exibido em qua o
episódios na TV Cul u a, no B asil*. Em cena, um casal. Ela é uma a is a isual.
Ele, um a o . O a o é que o casal o jou-se pa a o ilme começa – o que suge e
um ce o a ambíguo ao c ia em ealidades a pa i de icções - e in e agiu com a
câme a, com a equipe audio isual e com os olha es do público.
Há di e sas ques ões que podem se dep eendidas desse p oje o. En e elas, aquela
que se á o p incipal obje o des a e lexão: se hou e en ol imen o, seja ic ício,
seja “ eal”, en e Feliz (Gus a o Machado) e Gala (Ma ina P e ia o), como es e
e o se ealiza ia e acon ece ia pa a a câme a? Em ou os e mos, p e ende-se le
esse ilme, nos mos a ia ce o amo , “au ên ico”, con empo âneo, pós- omân ico –
o que se ia um sen imen o de auge e clímax, quem sabe – pa a diluí-lo en e a sua
pe o mance e a sua mani es ação po meio da linguagem audio isual.
No qua o de Vanda ambém é uma ob a de ime são. Seu di e o passou meses
sozinho no local que in i ula o documen á io. Obse ou sem in e e i . E Vanda i eu
esses mesmos meses a d oga -se. Ela, sua i mã Zi a e alguns amigos da izinhança
incessan emen e uma am e inje a am he oína.
* A ob a oi ealizada pa a o núcleo de No a Teled ama u gia da TV Cul u a. No si e da TV, a sua ap esen ação essal a a con aminação do co idiano e do documen á io po
aspec os iccionais como uma das p incipais ônicas da ob a.
Que o ea o não se o ne senho das a es
Que o a o não se o ne o sedu o dos au ên icos
(NIETZSCHE, 1999, p.33)
128
En e an o, a casa não é apenas a ex ensão e a adje i ação de Gala – é o
locus, o e i ó io e a p óp ia paisagem que a compõe. Sua ga a, que pe ambula pelos
qua os. A disposição dos mó eis e dos obje os que e idenciam uma casa-a eliê, um
local p openso à expe imen ação es é ica e e ó ica. A é mesmo quando ê o ilme
A concepção (2006), de José Edua do Belmon e, cujo diálogo abo da a ques ão da
essência de uma pe sonalidade, é uma paisagem ín ima que se cons ói po meio da
imagem e é assim ecida pa a o espec ado . A pe sonagem não é mais cons uída po
um pe cu so ou a co d amá ico bem de inido, mas, dis in amen e, po um mapa de
sensações dispe so no seu e i ó io exis encial.
Po ou o lado, Gala ilma cons an emen e sua casa e seu namo ado. É pela
imagem que a casa-paisagem se dissol e em ou as paisagens.* Essa mu ação ica
e iden e na pa e inal do ilme, que se chama O amo segundo Gala e mos a a
ob a que ela oi p oduzindo ao longo do eali y-show. A linguagem da ideoa e e
a dissolução dos pad ões da imagem audio isual con encionais ambém apon am pa a
uma o ma de pe cebe o ou o embalada po uma subje i idade dis in a. Na len e-
e ina de Gala, Feliz ans o ma-se num obje o de sua poé ica. Dessa o ma, o que
e a amo , e pode ia se um d ama psicológico ou uma o ma de c i ica os laços
a e i os con empo âneos (BAUMAN, 2008), lu ua e e apo a, com ce a le eza, en e as
paisagens o madas pela casa, pelas imagens ilmadas e pelo luxo de sensibilidade
de Gala.
Pa alelamen e, a cons ução da “pe sonagem” Feliz en ol e seus ensaios, as
cenas que cos u a e a ua; ou quando “di ige” Gala. Como na sequência de beijos que
Feliz ensina Gala a beija em cena. Eles beijam-se di e sas ezes e o espec ado
ica um an o con uso sem sabe qual beijo oi o do casal, qual oi o dos a o es
e qual se ia o da cena. A ema ando a seqüência, Feliz lemb a uma i ônica ase de
Fe nanda Mon eneg o pa a o seu ma ido: “Nunca e aí – o a de cena”. De ce a
o ma, Feliz desdob a-se e e ela-se en e ao a o de se a o : es á semp e em
cena, semp e encenando, num ensaio cons an e. E essa incessan e cons ução de cenas
es ende-se pa a o momen o “d amá ico” do ilme, quando os dois discu em um pouco a
elação. São cenas ípicas de um casal, cenas o jadas, exage adas e que alcançam
um om d amá ico que oscila en e o also e o simulac o:
* Nesse a o, e nesse ges o, o eali y-show de B an ambém c ia um pequeno di e encial en e ao modelo Big B o he , pois os “a o es” não são apenas co pos ilmados, mas
ambém p odu o es de imagens.
Quando dois sujei os (que o mam um casal) discu em segundo uma
oca eg ada de éplicas e com is as a e a ‘úl ima pala a’,
esses dois sujei os já es ão casados: a cena é pa a eles o
exe cício de um di ei o, a p á ica de uma linguagem da qual são
co-p op ie á ios, um de cada ez, diz a cena, o que que dize :
nunca ocê sem eu, e ice- e sa (...). Nenhuma cena em um sen ido,
nenhuma p og ide pa a um escla ecimen o ou uma ans o mação.
A cena não é nem p á ica nem dialé ica; é luxuosa, ociosa: ão
inconseqüen e quan o um o gasmo pe e so: não ma ca, não suja.
(BARTHES, 2003, p.51-55)
129
Em No qua o de Vanda há uma composição peculia da paisagem po in e médio
da p o agonis a. Vanda ala mui o. Con e sa com odos que passam no seu qua o
e d ogam-se com ela. Essas alas, con udo, a amen e possuem um om psicológico
ou uma in e io idade.* Ainda que opaca, Vanda é a pe sonagem que liga, po meio
de uma ede de con a os, odos os ou os pe sonagens, sob e udo os homens que se
d ogam nas casas da edondeza. Ela conduz o ilme ecendo o mesmo io que liga
o p o agonis a a ou as pe sonagens num en edo adicional, mas, pa adoxalmen e,
dissol e-se e dilui-se na paisagem do seu bai o. De o ma complemen a , ela ambém
ecebe á ios desses izinhos pa a papea na sua cama, no seu qua o, e idenciando
paisagens que o a se expandem e o a se con aem.
Mas é p incipalmen e pelo jogo com o som e com as suges ões sono as, isuais
e d amá icas que eme gem do o a de campo, no ex acampo, que Ped o Cos a compõe
a paisagem que ci cunda Vanda, seu qua o e o bai o de Fon ainhas, como apon a
Comolli na sua análise sob e o ilme:
Ainda que sem usa o concei o de paisagem, Comolli desc e e a elação que se
dá en e campo e ex acampo como se uma paisagem osse. São espaços de icção.
Numa cons ução espacial que po si só causa descon o o. Ademais, emos uma
câme a es á ica, sem mo imen os, sem decupagem den o do quad o, o que ge a um
con inamen o do espec ado , que en ão de e á olha de manei a concen ada, sem
ugas nem espi os, pa a o qua o e o bai o.
Essa paisagem que compõe o bai o de Fon ainhas é inoculada pela des uição. Hoje,
esse bai o não exis e mais, pois oi subs i uído po um condomínio popula . A câme a
de Cos a, po an o, ambém egis a esse a o de es acelamen o ma e ial e simbólico
do bai o. São momen os de um documen á io que az da uína, da esca ação quase
a queológica, o seu sen ido poé ico.** Nesse aspec o oda a cons ução espacial do
ilme – sua paisagem – é cadenciada po um acuamen o. Um mo imen o en e os quad os
que le a o espec ado à edução do espaço.
É nesse ambien e de acuamen o que melho se comp eende a posição das d ogas
no ilme. Essa su il e minuciosa cons ução a qui e ônica inse e as d ogas num
luxo con ínuo en e a paisagem e as pe sonagens.
* São alas desp o idas de d ama icidade, con e sas ancas e o ui as, assim como os diálogos de Es agon com Vladimi em Espe ando Godo , de Samuel Becke (BECKETT,
2006). São alas de pessoas comuns. E são assim logo na p imei a cena, quando Vanda e Zi a iem sob e a noção de clímax e chegam a pe gun a o que se ia o clímax, como se
hou esse desde já uma a i mação: aqui o espec ado não e á cadência ampouco e olução d amá ica.
** As uínas do bai o de Fon ainhas, em Lisboa, eme em às uínas de Be lim logo após a II Gue a Mundial, ilmadas po Rosellini em Alemanha ano ze o, e às de uma cidade
milena na China que oi inundada e conc e izou-se na paisagem de Em busca da ida, de Jia Zhang-Kee.
O ex acampo aqui não é o que o quad o co a, nem mesmo o que ele
esconde, mas o que es á o a da casa, o a do qua o, ou seja, uma
lis a de ou os luga es, p óximos, con ínuos, mas não a iculados
ao campo como seu sensí el p olongamen o. O ex acampo é aqui
localizado, pode-se dize cadas ado, já que as esca adei as o
des oem. Assim, o qua o unciona como campo; e o bai o, como
ex acampo. Isso equi ale a dize que ele em um os o, uma o ma,
um desenho, um des ino. Po isso, alei de pe sonagem. O ex acampo
do qua o pe de oda a dimensão de in isibilidade, menos a das
somb as que o alimen am. Digamos, sem medo do idículo, que aqui o
ex acampo o nou-se isí el.
(COMOLLI, 2010, p. 97)
130
Como se ossem ges os de cumplicidade, momen os olá eis, mas imbuídos de
a e os. São ocas mú uas, embo a ensas, silenciosas e ne osas, pois p enhe de
in e esses.
Tal como oco e quando Ped o, um amigo, le a lo es ao qua o de Vanda.
Ele comen a que sen e al a de a , que a d oga es á a i a -lhe o ôlego. Vanda,
en ão, p ocu a um emédio pe ei o pa a cu a seu amigo. Diz que é imba í el e, num
ímpe o since o de solida iedade, compa ilha com o amigo uma d oga di e en e, que
supos amen e se di e encia apenas po se líci a.
Após pe ambula en e Fon ainhas e alguns de seus habi an es, ol a-se a
Vanda. Obse a-se, em seu qua o, um indi íduo conscien e de sua condição.* Ela
osse sem pa a , aspa os es os de he oína na sua lis a ele ônica enquan o
esc e e um a iso em le as g andes pa a, al ez, se expos o na enda: “Hoje não
há iado. Só amanhã”. Há, em Vanda, um “o gulho sel agem” (COMOLLI, 2010), ou uma
“ e ol a p i ada de ho izon es” (COMOLLI, 2008), mas, sob e udo, uma ecusa, uma
esignação. Nesse sen ido, as d ogas soam como uma en ega e uma sina (ARTAUD,
1964). Em de e minado momen o Vanda con e sa com um amigo neg o. Ele eclama: “A
ida que a gen e le a que é a ida da d oga”. Como se hou esse opção. No en an o,
Vanda e uca: “Não é a ida que a gen e le a, é a ida que a gen e é ob igado a
e ”**.
Em No qua o de Vanda não há sal ação nem edenção pela imagem. Pelo con á io,
a imagem é depu ada de al o ma que descons ói a paisagem e o na-se ão somen e
imagem. Se há paisagem, ela se compõe no mesmo ímpe o em que se despedaça. Ela
pa ece esquad inhada po um desespe o silencioso que liga, numa solida iedade
comuni á ia, cada um dos seus habi an es. A paisagem é cons an emen e cei ada, al
como as esca adei as a escangalha pedaços de conc e o, al como a á o e na imagem
inal do ilme: uma á o e só onco, pois co ada ao meio. Um oco numa paisagem
cujo de i é um es a ela umo a uínas den e ou as uínas.
IV - A JANELA SIMULADA:
PROXIMIDADE E DISPERSÃO
Embo a enhamos cen ado nossa análise em duas ob as que se ap oximam de um
pa adigma de documen á io, podemos pe cebe as noções de p esença e paisagem numa
mi íade de ilmes con empo âneos ei os dos anos se en a aos nossos dias.
* Nesse aspec o ale compa a esse ilme com Es ami a, de Ma co P ado.
** Esse en en amen o di e o com as d ogas, do lado de Vanda, se assemelha, em pa e, com ce a pos u a al i a de Nicholas Ray no ilme Um ilme pa a Nick, de Wim Wende s.
Esse ensaio, como se sabe, ilma os úl imos dias de ida do cineas a no e-ame icano. Ele es á com cânce e não deixa de uma e ossi de en e pa a a câme a. A mo e iminen e
não o in imida. A a imanha de Wende s, po ou o lado, es á em cono a e sublima essa mo e po meio da imagem. É pela imagem, é em cena, que Nicholas mo e – e se
“e e niza”. Há aqui um mo imen o pa ecido com o cu a-me agem Di-Glaube , de Glaube Rocha.
131
Ob as de di e o es como Jean-Ma ie S aub e Danièle Huille , Robe B esson,
And ei Ta ko sky, Michelangelo An onioni, Wim Wende s, Theo Angelopoulos, Aleksand
Soku o , Bella Ta , Abbas Kia os ami, B uno Dumon , alguns ilmes de Gus Van San ,
Hou Hsiao-Hsien, Jia Zhang-Ke, Tsai-Ming Liang, Chan al Ake man, Luc ecia Ma el,
Clai e Denis, Julio B essane Ka im Aïnouz e Cao Guima ães, en e an os ou os,
pa ecem, em alguns momen os, compa ilha das escolhas es é icas e d ama ú gicas
aqui des acadas.
Esse conjun o de ob as oge, cla amen e, da pau a mode na que apos a ia o a
na explici ação dos meios e das écnicas audio isuais, o a no seu ocul amen o.
Tampouco oscila ia en e esses dois polos, como ealiza pa e do cinema chamado de
pós-mode no ou pós-clássico (MASCARELLO, 2006, p.336), em que ob as como as dos
I mãos Coen, Ped o Almodó a , Quen in Ta an ino e La s Von T ie se iam, al ez,
alguns dos exemplos possí eis. A pau a do ealismo cinema og á ico e nas a es,
de ce o ca á e mimé ico (AUERBACH, 2010); (BORDWELL, 1985) ambém não pa ece
ap op iada, já que não se busca cos u a es e icamen e ep esen ações de ce as
noções de ealidade, mas, an es, insc e e co pos, luzes e mo imen os que c iem uma
suges ão de p esença e de paisagem.
Tal ez seja necessá ia uma ap op iação, nos es udos de cinema, desse a cabouço
pós-d amá ico, e uma in es igação sob e se há, de a o, a eme gência de um “es u u a
de sen imen o” que una no as o mas de esc i a, de d ama u gia e pad ões con e gen es
de assis i e expe imen a o espe áculo cinema og á ico. Fo mas, ob iamen e, que
não buscam uma hegemonização, mas a uam nas ma gens e con i em ha monicamen e com
os demais “gêne os” que enume amos.
A ên ase em p esença e paisagem pode no abiliza aspec os es é icos que se
dis anciam de uma ce a dico omia en e pe o mance, a uação e au en icidade, a qual,
po sua ez, pe meia boa pa e do deba e sob e a p odução do documen á io b asilei o
con empo âneo. Es a -se-ia, di e en emen e, con i endo com o mas d amá icas de
cons ução de pe sonagem, as quais salien am ins an es de o e cunho pe o má ico,
pois apos am na p esença ao in és de um a co d amá ico e psicológico. Pa alelamen e,
ha e ia uma d ama icidade isual e uma busca de ges os que enga ilhem sensações de
ealidade, o mas a e ei as, descen adas e pa a á icas de d ama ização.
É po esse caminho que, al ez, as noções de p esença e paisagem desdob em-se
numa moldu a iccional que busca uma o ma de p oximidade en e aos pe sonagens
e uma dispe são d amá ica em elação à his ó ia na ada. Mais do que ece um
con li o, uma e i a ol a ou uma e olução psicológica de uma pe sonagem, os ilmes
desses cineas as passam a noção de p oximidade, como se o espec ado es i esse
no modo de um documen á io de obse ação (NICHOLS, 2007), no qual a desc ição
p eponde a en e a uma cono ação psicológica. São momen os em que é possí el
acompanha a espi ação, os pequenos ges os, o co idiano, bem como os ins an es
ín imos, modula es e ugidios.
132
Numa das suas mais ecen es ob as, o di e o de ea o e a is a mul imídia
Robe Wilson, conhecido po se um dos pionei os nos expe imen os pós-d amá icos,
ealizou ca o ze “ ideo po ai s” como se ossem paisagens, com pe sonagens como
B ad Pi , Ca oline de Mônaco, Di a on Tesse, S e e Buscemi, Johnny Depp, Gao
Xingjian, en e ou os. Re a ados em elas g andes, ilmados com uma câme a es á ica
e uma iluminação minuciosa, Wilson su ilmen e o e ece sensações de p oximidade e
de dispe são.
No os o do esc i o chinês Gao Xingjian emos se insc e e , len amen e, uma
ase. Não é p eciso sabe quem ele é, nem é necessá io conhece a sua biog a ia.
Não ei indica-se a lei u a dos seus li os. Wilson con ida o espec ado a olha as
ugas, o empo conc e o exp esso no seu os o. Mos ado como uma másca a mo uá ia,
cinza, com os olhos en eab indo-se, a pe sonagem pe manece muda.
Ao e mina a ase que se esc e e no seu os o – insc e e-se como imagem,
como coisa e como esc i a (HANDKE,1985), lemos: La soli ude es une condi ion
nécessai e à la libe é. Fo ma-se um e a o-paisagem. Pincelam-se momen os em que
se compa ilham solidões. Fo mas de subje i idade, en e quem ê e quem é e a ado,
que não buscam a iden i icação nem a opacidade, mas a c iação de uma di e ença, um
ges o singelo e su il que sepa a aquele que se mos a daquele que obse a. Ou, quem
sabe, uma o ma poé ica que apon a pa a uma libe ação dos ce ceamen os d amá icos.
133
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FILMOGRAFIA
134
135
HIROSHIMA
MON AMOUR:
ealização e ecepção.
Alessand a B um
RESUMO | Es e a igo p ocu a iden i ica alguns elemen os
do p ocesso c ia i o do cineas a Alain Resnais na ealização
de Hi oshima Mon Amou (1959). A pa i de depoimen os de
in eg an es da equipe de ilmagem, de en e is as concedidas à
imp ensa po Alain Resnais e Ma gue i e Du as e ambém a a és
da epe cussão do ilme na imp ensa ancesa, é possí el e ela
a aje ó ia desse a is a que ampliou o e e encial do cinema
como exp essão c ia i a e poé ica.
PALAVRAS-CHAVE | Cinema F ancês; P ocesso C ia i o; Hi oshima
Mon Amou
P o esso a Adjun a do cu so de Cinema e Audio isual e do P og ama de Pós-
g aduação em A es, Cul u a e Linguagens do Ins i u o de A es e Design da
Uni e sidade Fede al de Juiz de Fo a/MG. Dou o a pelo P og ama de Pós-g aduação
em Mul imeios, Ins i u o de A es/ Unicamp, endo de endido a ese Hi oshima
Mon Amou e a ecepção da c í ica no B asil, com apoio da FAPESP. A ualmen e
desen ol e a pesquisa A Nou elle Vague sob a ó ica de c í icos/cineas as do
Cinema No o com apoio da P opesq/UFJF. E-mail: [email p o ec ed]
ABSTACT | This a icle seeks o iden i y some elemen s o he
c ea i e p ocess o ilm di ec o Alain Resnais in he conduc
o Hi oshima Mon Amou (1959). Based on s a emen s om membe s
o he c ew, in e iews o he p ess by Alain Resnais and
Ma gue i e Du as and also h ough he impac o he ilm in he
F ench p ess, i is possible o e eal he ajec o y o his
a is who has expanded he ame o he ilm as a c ea i e and
poe ic exp ession.
KEYWORDS | F ench Cinema, C ea i e P ocess, Hi oshima Mon
Amou
136
Hi oshima Mon Amou (90min, 1958) su giu da encomenda que Alain Resnais
ecebeu do p odu o Ana ole Dauman da A gos Films, o mesmo que ha ia p oduzido o
cu a ambém di igido po Alain Resnais Nui e B ouilla d (32min, 1955)*, pa a
ealiza um documen á io de longa-me agem sob e os e ei os da bomba a ômica. A
A gos Films que a é o momen o só ha ia p oduzido ilmes de cu a du ação, se associa
à p odu o a japonesa Daiei pa a a ealização de um longa-me agem. O p oje o
consis ia em uma co-p odução anco-japonesa, e uma das condições impos as pela
p odu o a Daiei e a de que pa e das ilmagens oco esse no Japão. Alain Resnais
acei a o p oje o, que con a ia ambém com Ch is Ma ke como colabo ado pa a a
esc i a do o ei o. Ma ke abandona o p oje o logo no início e Resnais, que inha
acabado de le o li o Mode a o Can abile (1958), pensa no nome de Ma gue i e Du as
como colabo ado a.**
Resnais inicia a pesquisa sob e o assun o e o con a o inicial com as imagens
de a qui o ez com que ele mudasse o umo do p oje o: “J’ai é é ès pe ubé ca
ces documen s é aien ès o s e cons i uaien en eux-mêmes le documen ai e
que je de ais ai e”*** (RESNAIS apud CAHIERS DU CINÉMA, no . 2000. p.72). P e endo
ambém uma epe ição de Nui e B ouilla d, Resnais p opõe al e a o p oje o pa a
uma his ó ia iccional que pudesse e como pano de undo a bomba a ômica. Alain
Resnais o nece a Ma gue i e Du as o que conside a se a “concepção algéb ica da
ob a” e diz a ela que gos a ia de ealiza um ilme onde os pe sonagens não i essem
uma elação di e a com a ca ás o e da bomba a ômica. Ma gue i e Du as acei a o
p oje o p on amen e, mo i ada pela admi ação que nu ia pelo abalho de Alain
Resnais, sob e udo pelo cu a-me agem Nui e B ouilla d. Apesa de e acei ado o
con i e, Du as a i ma, em en e is a pa a o jo nal Le Monde (10 jun. 1959), que após
e conco dado em esc e e o o ei o ela inha a sinopse e a ase “Tu n’as ien
u à Hi oshima”**** e que nos p imei os 15 dias passou en e 10 e 13 dias pensando
em desis i do p oje o.
Além do desen ol imen o da his ó ia, Ma gue i e Du as esc e eu ainda “as
e idências no u nas – no as sob e Ne e s”, a pedido de Alain Resnais. T a a-se
da desc ição dos acon ecimen os i idos pelo pe sonagem de Emmanuelle Ri a quando
jo em na cidade de Ne e s, bem como de suas ca ac e ís icas compo amen ais.
Ma gue i e Du as pode cons ui seu ex o com mui a independência, já que Alain
Resnais p opo cionou a ela a libe dade de não p ecisa c ia um ex o p eso ao
o ma o de um o ei o de cinema. Du as pôde se exp essa em uma linguagem que lhe é
p óp ia, a li e a u a. Mas mesmo desse modo, Du as não conside ou a a e a ácil,
como a i ma em a igo pa a o jo nal F ance Obse a eu (Du as, 31 jul. 1958):
* Nui e B ouilla d é um documen á io de cu a-du ação sob e os campos de concen ação Nazis a.
** An es de Ma gue i e Du as, o p odu o Ana ole Dauman pensou nos nomes de F ançoise Sagan e Simone de Beau oi . A p imei a chegou a se con idada pa a uma eunião,
mas não compa eceu.
*** T adução: “Eu iquei mui o pe u bado, esses documen os e am mui o o es e cons i uíam eles mesmos o documen á io que eu de e ia aze ”. ( odas as aduções des e a igo
o am ealizadas pela au o a do mesmo)
**** T adução: “Você não iu nada em Hi oshima.”
137
Essas decla ações o am esc i as po Ma gue i e Du as ês dias após Alain
Resnais e pa ido pa a o Japão com o o ei o pa a o início das ilmagens. Du as,
nesse a igo/depoimen o, não esconde a ansiedade de sabe o que ai se ei o da
his ó ia que ela esc e eu, mas sabe que e á que agua da dois meses pelo e o no
de Resnais com a película, pa a somen e assim pode e o que seu ex o se o nou.
Esse oi o p imei o abalho de Ma gue i e Du as como o ei is a, a elação mais
p óxima que a esc i o a inha a é en ão com o cinema oi pe mi i a adap ação de
seu li o Ba age con e le paci ique. Expe iência que em nada lhe ag adou, uma
ez que conside a que o ilme*, ealizado po René Clemen , não se pa ece com seu
li o. Com Alain Resnais, Ma gue i e Du as não se decepcionou. Em en e is a ao
semaná io Les Nou elles Li é ai es (BOURIN, 18 jun. 1959) decla ou que ao assis i
as imagens b u as do ma e ial japonês pensou que Resnais se ia o maio di e o de
cinema ancês, e ques ionada sob e o esul ado inal diz: “Je suis comme au so i
d’un oman. Je me sens assou ie”**.
Essa elação do ilme com o omance oi uma das c í icas nega i as que Alain
Resnais ecebeu após a exibição do ilme. Resnais oi cons an emen e acusado de
ealiza um ilme excessi amen e li e á io, mas ques ionado sob e isso em uma
en e is a pa a o jo nal Ca e ou (JAUBERT, 07 mai. 1959) Resnais esponde:
* Ba age con e le paci ique (1956, 103 min)
** T adução: “Eu es ou como saída de um omance. Eu me sin o sa is ei a.”
Resnais me disai quand même, jusqu’au bou :
-Fai es de la li é a u e. Ne ous occupez pas de moi.
Oubliez la camé a.
O je n’a ais pas le emps, en neu semaines, de ai e de la
li é a u e. Resnais le sa ai pa ai emen . Comme il sa ail que je
n’a ais pas le emps de ai e un scéna io. Que je ne sa ais pas.
Cependan , il con inuai à me conseille la li é a u e. Jusqu’au
de nie jou il me l’a conseillée. S’il y a ai à sau e la ace
de quelque chose, du an ce délai, Resnais a ai choisi de sau e
la ace li é ai e de l’en ep ise. Un accommodemen de cellui-ci à
la sauce cinéma og aphique ne l’in é essai pas du ou . Il p é é e
donc que on l’on asse de la mau aise li é a u e, mais la sienne,
que du mau ais cinéma qui, o cémen , ne se ai pas le sien.
- Allez-y. On a de la chance pa ce que ce n’es pas un ilm op
cloue . Alo s on pou a di e à peu p és ce qu’on eu . Fai es
exac emen ce qui ous plai a.
T adução: “Resnais me dizia apesa de udo, a é o im:
- Faça Li e a u a. Não se ocupe de mim. Esqueça a câme a.
O a, eu não inha empo, em no e semanas, de aze li e a u a. Resnais sabia disso
pe ei amen e. Como ele sabia que eu não inha empo ambém de aze um o ei o. Que eu não
sabia. En e an o, ele con inua a a me aconselha a li e a u a. A é o úl imo dia ele me
aconselhou. Se hou esse algo a sal a du an e esse pe íodo, Resnais e ia escolhido sal a
o lado li e á io da emp ei ada. Uma adap ação desse lado à condição cinema og á ica não o
in e essa a em nada. Ele p e e e en ão que se aça uma má li e a u a, mas a sua, que um mau
cinema, e iden emen e, não se ia o seu.
- Vamos. A gen e em so e po que não é um ilme excessi amen e de inido. En ão se pode á
dize um pouco mais o que a gen e que . Faça exa amen e o que lhe ag ada”.
C’es oulu. J’ai même ai spéci ie su le con a , à l’a icle
deux: “ce ilm se a li é ai e, héâ al e adiophonique!”. Le
ex e doi a i e à en oû e le spec a eu , à le soûle . J’igno e
si la en a i e es éussie, mais j’ai oulu qu’il en soi ainsi.
T adução: “É in encional. Eu mesmo iz especi ica no con a o, no a igo segundo: ‘es e
ilme se á li e á io, ea al e adio ônico!’. O ex o de e chega a en ol e o espec ado ,
enb iagá-lo. Eu não sei se consegui, mais eu quis que osse assim.”
144
- C’es um ilm qui e me des po es, cons a a Louis Malle.
Ce qui é ai , d’ailleu s, l’exp ession d’une égale
e mu uelle admi a ion pou “Hi oshima”.
Quan à Alain Resnais, es é à Pa is, il a décidé d’a end e lundi
pou a on e Cannes e ses passions. On peu ê e explosi e
néanmoins p uden .
T adução: “- É uma m...!
- É o único g ande ilme do es i al! A ob a de um au ên ico gênio! Exclama Max Fa alelli.
- Odioso! U a Ma cel Acha d.
- Um su p eenden e poema! Se ex asia Micheline P esle.
- Um poema de u pado po um ignóbil di e o , esponde Acha d o a de si.
- O mais belo ilme que eu i desde 500 anos! Clama Claude Chab ol, lu ando he oicamen e, em
p imei a linha, no acalo ado co po a co po com Acha d.
- Um ilme ma a ilhoso que esquece comple amen e o público! Co ne eia Coc eau em dó maio (en
con e-u ), num as o mo imen o de asas neg as.
- É um ilme que ab e as po as! Assegu a Clouzo .
- É um ilme de echa po as, cons a a Louis Malle.
Is o que e a, aliás, a exp essão de uma igual e ecíp oca admi ação po “Hi oshima”.
Quan o a Alain Resnais, que icou em Pa is, decidiu espe a segunda- ei a pa a a on a
Cannes e suas paixões. Se pode se explosi o e en e an o p uden e.”
Esse diálogo, que chega a se cômico, é e elado ao nos ap esen a o
e môme o dos deba es que se segui ão a pa i dessa p imei a exibição. Essa
pla eia al amen e especializada não pe maneceu indi e en e, deixando cla o que
algo de no o acaba a de se ap esen a . Os jo nais anceses con i mam o incômodo
e es ampam em suas manche es o sen imen o p o ocado pelo ilme. Le Fes i al de
Cannes. Hi oshima mon amou , le ilm le plus “scandaleux” e le plus discu é de
ou le es i al é a manche e do a igo de Simone Dub euilh pa a o Libé a ion
em 9 de maio de 1959. Pa a Dub euilh Hi oshima, mon amou é escandaloso po que
não segue as con enções do amo e é o mais discu ido po que negligencia os a os
pa ió icos ou mo ais. Michèle Fi k, com explíci a e e ência ao a igo de Simone
Dub euilh, in i ula Alain Resnais: “Hi oshima, mon amou ”, ilm scandaleux?(FIRK,
14 de mai. 1959) a en e is a que ealiza com o cineas a com obje i o de discu i
as eações nega i as à ob a na imp ensa. Fi k pe gun a a Resnais sob e a elação
en e o d ama cole i o e o d ama pessoal, e Resnais con inua a a i ma que o
soldado alemão não em mui a impo ância na na a i a, e que a ob a é eple a de
elemen os con adi ó ios ci ando como exemplo a sequência inicial em que in e cala
a idéia da bomba a ômica com a pele dos aman es. Ques ionado sob e o a o de o
ilme se li e á io, Resnais diz não e nada con a a li e a u a, mui o pelo
con á io, lemb a dos cu as em que abalhou com esc i o es e comple a: “dans le
cas d’Hi oshima, je pense que dialogue e monologue doi en a i e à c ée chez
le spec a eu une so e d’hypnose.”*
Apesa de o a da compe ição o icial e das eações an i é icas, Hi oshima
Mon Amou saiu de Cannes com o p êmio da Fédé a ion in e na ionale de la p esse
cinéma og aphique (FIPRESCI) e o p êmio da Socié é des Ec i ains du Cinéma e de
la Télé ision. Na compe ição o icial do Fes i al, a F ança oi ep esen ada po
O phée noi de Ma cel Camus**, que ecebeu a Palma de Ou o e ambém, pelo p imei o
longa-me agem de F ançois T u aul , Les Qua e Cen s Coups, con emplado com o
p êmio de melho di eção.
* T adução: “No caso de Hi oshima, eu penso que diálogo e monólogo de em consegui c ia no espec ado uma espécie de hipnose.”
** T a a-se de uma p odução F ança, I ália e B asil. No B asil, ecebeu o í ulo de O eu do Ca na al.
145
No mês seguin e, em 10 de junho de 1959, Hi oshima Mon Amou oi lançado
come cialmen e em duas salas de cinema em Pa is: Geo ge V e Vendôme. Na p imei a
sala, o ilme pe maneceu em ca az po 17 semanas e na segunda po 16, pe azendo
um o al de 33 semanas, a ingindo uma ci a de 160.368 mil e espec ado es, apenas na
cidade de Pa is. Se inclui mos as “ illes-clé” (Bo deaux, Lille, Lyon, Ma seille,
Nancy, S asbou g e Toulouse) o ilme a inge um público de 255.900 mil.*
A condição de g ande encedo do Fes i al de Cannes de 1959, em mui o
colabo ou pa a a a uação do ilme no ci cui o come cial. De qualque o ma, o
desempenho de Hi oshima, mon amou oi conside ado espe acula , uma ez que nem
mesmo os p odu o es espe a am amanha acolhida po pa e do público, já que iniciou
sua ca ei a come cial com indica i o de acasso de público po se conside ado
pela c í ica um ilme “di ícil” pa a o espec ado , além das ques ões mo ais e
polí icas. O p ognós ico da c í ica em sua azão de se , o ilme de Alain Resnais
ado a uma linguagem na a i a a essa aos pad ões es é icos ado ados no pe íodo,
p o ocando um es anhamen o a é mesmo na c í ica especializada, que se di ide em
opiniões posi i as e nega i as.
Pa a Alain Resnais a boa acei ação do público à Hi oshima Mon Amou e aos
ilmes da no a ge ação de cineas as se de e ao p óp io público. Resnais comen a:
“une nou elle géné a ion de éalisa eu s a pu naî e peu -ê e pa ce que le public
de jeunes es plus ap e à conce oi un changemen dans le ilm”(RESNAIS apud
BABY, 14 ago 1959).** Resnais apon a pa a a p esença de um público mais jo em e
com p á icas compo amen ais no as, idéia que se encon a elacionada à sé ie de
a igos de F ançoise Gi aud publicadas no L’Exp ess em 1957 em que a exp essão
Nou elle Vague é usada pa a ca ac e iza a mudança de alo es da no a ge ação.
Não es a dú ida que a polêmica em o no de Hi oshima Mon Amou colocou o ilme
de Resnais em des aque nos jo nais diá ios e ambém nas e is as especializadas,
o que em mui o pode e susci ado o in e esse do público, po ém, udo isso é
apenas um de alhe a mais na aje ó ia desse cineas a. Em sua longa ca ei a,
Alain Resnais ealizou ilmes que ansi a am nas mais di e sas á eas de exp essão
a ís ica, passando pela pin u a, pela li e a u a, o ea o e pelas his ó ias em
quad inho. Alain Resnais adqui iu enome mundial e se consolidou, já com os seus
ês p imei os longas-me agens, como um dos mais impo an es a is as do século
XX. Reconhecimen o público que ecebeu em 1995 ao se p emiado pelo conjun o de sua
ca ei a na Bienal de Veneza, em 1998 no Fes i al de Be lin e em 2009, no Fes i al
de Cannes, onde ap esen a a seu mais no o ilme Les He bes Folles, ecebendo o
p êmio pelo conjun o de sua ca ei a e po sua con ibuição pa a a his ó ia do
cinema. Alain Resnais é um cineas a que nos ap esen a os elemen os necessá ios pa a
amplia o e e encial do cinema como exp essão c ia i a e poé ica.
* Esses dados o am disponibilizados na edição especial “in e no 1959-1960” da e is a Le Film F ançais, que az ainda esul ados de alhados de 150 ilmes que a ingi am mais
de 100 mil en adas, com g á icos e abelas es a ís icas sob e a equência dos ilmes anceses e es angei os lançados no pe íodo comp eendido en e 1958-1959.
** T adução: “Uma no a ge ação de di e o es pode nasce al ez po que o público jo em é mais ap o a concebe uma mudança no ilme.”
146
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BIBLIOGRAFIA
147
148
TV ad e ising: gende ouble
PUBLICIDADE
TELEVISIVA:
p oblemas de géne o.
João Paulo Quei oz
RESUMO | Ao longo de um ano ez-se uma análise de con eúdo
quan i a i a a pa i de uma amos a de 5.414 anúncios dos
p incipais canais gene alis as de Po ugal. Com base na
li e a u a académica oi possí el es abelece ês hipó eses
– espei an es ao géne o da oz “o ”, à idade do pe sonagem
masculino s. eminino, e ao alo do p odu o anunciado em
elação ao géne o do pe sonagem a ele associado – que e ela am
que o en iesamen o p e alecen e em ou os países ambém se
e i ica em Po ugal.
PALAVRAS-CHAVE | Anúncios, Géne o, En iesamen o, Análise de
Con eúdo Quan i a i a
Uni e sidade de Lisboa, Faculdade de Belas-A es e CIEBA, Cen o de In es igação
e Es udos em Belas-A es
[email p o ec ed]
ABSTACT | A quan i a i e con en analysis sampled 5.414 TV
ads in Po ugal’s main b oadcas e s h oughou he yea . Based
on li e a u e, a se o h ee hypo hesis - ega ding gende
o oice o e , age o gende ed cha ac e , and he alue o he
ad e ised i em by a gende ed cha ac e , - e ealed ha he
p e ailing biases is kep in Po ugal, jus as i was in o he
coun ies om li e a u e.
KEYWORDS | Ads, Gende , Bias, Quan i a i e con en analysis
149
1.INTRODUÇÃO
Nes e a igo p oblema izam-se os en iesamen os de géne o no ecido audio isual
po uguês, omando-se como obje o a publicidade ele isi a. Con ex ualizam-se ês
hipó eses undamen adas em in es igação semelhan e, o iunda de ou os países, e
ap esen am-se os esul ados. Faz-se p imei o uma e isão da li e a u a no que
espei a a análise de con eúdo quan i a i a, no sen ido de si ua a linha de
pesquisa empí ica que aqui oi e e uada.
A o mulação mais sucin a de Análise de Con eúdo Quan i a i a é de Be na d
Be elson: “…uma écnica de in es igação que p ocu a a desc ição obje i a, sis emá ica
e quan i a i a do con eúdo mani es o da comunicação” (1952, p. 18).
2. ANÁLISE DE
CONTEÚDO QUANTITATIVA
2.1 CONSOLIDAÇÃO
Em e mos diac ónicos, as p imei as análises de con eúdo que obse am
exigências de alidação in e na e es abelecem p o ocolos de eplicabilidade o am
as dos eze Payne Fund S udies, dez olumes publicados de 1929 a 1932, o ganizados
po William H. Sho . Es a in es igação, inanciada po uma undação p i ada,
mobiliza dezenas de pesquisado es, das Uni e sidades de No a Io que, Chicago, Iowa,
Yale, Pennsyl ania e Ohio, em o no de um g ande p oje o de iden i ica os con eúdos
do cinema e elacioná-los com as a i udes das c ianças (Lowe y e De Fleu , 1983, p.
31 55). Es udam-se os e ei os em 2.000 c ianças a a és de en e is as e algumas
medições menos comuns, como po exemplo medi a condu i idade da pele du an e
sessões de cinema, ou o egis o de pad ões de sono. Den o des e es udo, Edga Dale,
da Uni e sidade de Ohio, coo dena a análise de con eúdo dos ilmes is os pelas
c ianças. Depois de analisa 1.500 sinopses cons ói uma g elha onde ca ego iza
10 ipos de ilmes. En ia depois juízes codi icado es às salas de cinema, onde
são is os 115 ilmes segundo es as ca ego ias. Es a análise de con eúdo seguiu
as exigências a uais da análise de con eúdo quan i a i a como, po exemplo, medi
a iabilidade ou consis ência dos juízos, ou es abelece um núme o mínimo de dois
codi icado es independen es pa a cada ilme (Dale, 1935).
150
Du an e a Segunda Gue a Mundial, nos EUA, su gem leis que ob igam à
iden i icação da on e, p o eniência, ou au o ia de udo o que é publicado. É
ob iga ó ia a menção ‘publicidade’ em odas as mensagens com essas ca ac e ís icas.
Leis como o McCo mack Ac , Ha ch Ac , Voo his Ac e a Pos al Law (Lasswell, 1939/1949,
p. 174) o nam o ema do con eúdo susce í el de subi à ba a do ibunal. Nes e
con ex o o Wa Communica ions Resea ch P ojec da Biblio eca do Cong esso, di igido
po Ha old Lasswell, apoiado po sub enções da Fundação Rocke elle , desen ol e
abalho ex ensi o de de eção de p opaganda (Lasswell e Lei es, 1949, p. ).
Lasswell se á chamado, como especialis a, a apoia o p ocu ado público.
É ou ido em qua o p ocessos: os da edi o a Bookniga, da agência de no ícias
T ansocean, e dos cidadãos F ied ich Auhagen e William Pelley. Como esul ado
o juiz conside a como p o as (e idences) as in e ências ob idas po análise de
con eúdo (Lasswell, 1939/1949, p. 392, no a 9). Den o de um clima de c ispação
ideológica, é um passo de legi imação ju ídica e social pa a a análise de con eúdo
quan i a i a.
A análise de con eúdo é, desde 1949, uma écnica em c escen e consolidação,
eo izada e p a icada po um conjun o de in es igado es como Ha old Lasswell,
Na han Lei es, Raymond Fadne , Ab aham Kaplan, Da id Kaplan, Alexande Min z,
I hiel De Sola Pool, Joseph Goldsen, Alan G ey, I ing Janis e Se gius Yakobson e
ab angendo á eas di e sas como as Ciências Polí icas, a Psicologia, a Sociologia,
a An opologia e a Linguís ica (Lasswell e al., 1949). Os abalhos são publicados
em e is as académicas de Ciências Polí icas, Psicologia Social e mass media
(Jou nalism Qua e ly, Psychome ika, Public Opinion Qua ely). É empo pa a os
p imei os cong essos, o p imei o em 1956, no Illinois, o Wo k Con e ence on Con en
Analysis o he Social Science Resea ch Council (De Sola Pool, 1959).
Discu e se a alidade das a iá eis enquan o ‘p o as.’ Dis ingue-se en e
a iá eis mani es as e la en es ou seja, en e conside a o ex o como um encadeado
de ac os (p o as) ou um encadeado de sen idos (juízos).
Nas p imei as de inições conside a se uma ‘oco ência’ como um ‘ ac o.’ A
unidade ano ada é jus i icada na unidade do ex o – po exemplo, a pala a ‘Hi le .’
Mas a p á ica de análise az com que se ano e a e e ência ‘Hi le ’ ambém po
in e p e ação com anspa ência a iá el (ex.: ‘o üh e ,’ o ‘líde nazi’) ou, ao
in és, se egis em alsas e e ências (ex.: ‘esse pequeno Hi le ’).
A ‘oco ência’ abandona o plano dos ac os pa a passa a conside a se
p esen e ou ausen e consoan e a con o midade com uma cha e de c i é ios: o concei o
passou a cons uc o.
Nes e con ex o, Pike (1954) dis ingue ní eis de análise de con eúdo: os ní eis
emic e e ic (de phonemic e phone ic). O emic co esponde ao con eúdo exp esso e
en endí el pelos seus u ilizado es (os concei os explíci os), o e ic deb uça se
sob e o con eúdo numa pe spe i a de in es igação em busca de indicado es la en es
(os cons uc os a pesquisa ).
151
Ten a eduzi se, pelo ên ase na ano ação exclusi a da oco ência de ac os
na subs ância da mensagem, o espaço de manob a dos analis as que eco em a
ag egados de signi icados a p io i (os dicioná ios de ca ego ias), pa a ex ai
as a iá eis e es abelece as espe i as associações, com as análises ac o iais e
de con ingência. A es a análise, que admi e o uso de cha es semân icas, é chamada
‘análise de con eúdo ins umen al.’ Suge e se na denominação ‘ins umen al’ o seu
ca ác e aplicado à esolução de p oblemas de in es igação (ní el e ic).
Como esul ado des as discussões é pos o em ques ão o pa adigma desc i i o ou
‘ ep esen acional’ (ní el emic), exigindo-se mé odos mais igo osos de alidação
in e na. Es es p ocedimen os passam a in eg a o p o ocolo da análise de con eúdo:
mede se a ‘consis ência’ en e os di e en es a os de juízo do codi icado , calcula se
a pe cen agem ou o índice da ‘conco dância’ en e dois ou mais juízes codi icado es
pa a o mesmo i em obse ado, e ga an e se a eplicabilidade da obse ação.
Assim a análise de con eúdo en a numa ase de ma u idade cien í ica: podem
es a -se hipó eses e in e i conclusões. Podem sujei a se à análise de con eúdo
di e sos p odu os da in es igação: inqué i os, en e is as, eações comunica i as
em con ex o expe imen al (indi iduais ou em g upo), es es p oje i os, amos as.
Em 1967 mais de 350 in es igado es eúnem-se no cong esso de Filadél ia
(Annembe g School o Communica ions) (Ge bne e al., 1969). O leque disciplina
ala ga se: a Sociologia, Psicologia, Psicologia Social, Psiquia ia, Psicanálise,
His ó ia, Es udos de Jo nalismo, Es udos de Media, Ma ke ing, Economia, Ciências
Polí icas, Linguís ica, Es é ica, Musicologia, Di ei o, Ma emá ica, Lógica e
In eligência A i icial.
As análises de con eúdo, que inham começado po se quase exclusi amen e
ex uais, passam, a é ao im da década de 60, a deb uça se ambém sob e oda a
espécie de ma e iais comunica i os. Analisam se ex os não lexicais, ão a iados
como ilmes (Wol ens ein e Lei es, 1950), selos de co eio (S oe ze , 1953), a e
(Go don, 1952; Paisley, 1964), o og a ias em e is as (Wayne, 1956), publicidade
em e is as (Shuey, King e G i i h, 1953; Cox, 1969; Kassa jian, 1969), onalidades
ocais (S a kwea he , 1956), agmen os ce âmicos (A onson, 1958), p og amas
ele isi os (Head, 1954; Sch amm, Lyle e Pa ke , 1961; Ge bne , 1969), desenhos
in an is (C addick, 1961, 1962; Bad i e Dennis, 1964), exp essões aciais e ges uais
(Ekman, 1965), banda desenhada (Spiegelman, Te willige e Fea ing, 1952; idem,
1953; Ba cus, 1961; 1963; Eh le e Johnson, 1961; Saenge , 1965) ou música (Paisley,
1964; La Rue, 1967).
152
2.2 A ANÁLISE DE
CONTEÚDO QUANTITATIVA
E A TELEVISÃO.
A ele isão ai se omada como obje o de análise de con eúdo no abalho
de Sch amm, Lyle e Pa ke (1961). Cen ado nos usos e ecompensas que as c ianças
de á ias cidades dos EUA e do Canadá ex aem da TV, os au o es p ocedem, a pa
com ou os mé odos, à análise de con eúdo de cinco dias ú eis de ele isão, em
Ou ub o de 1960, das 16h às 21h, em qua o canais. De e a am mui as oco ências de
iolência, como po exemplo dezenas de cenas de i os ou de iolência co po al,
além de mui as ou as mo bilidades, como suicídios ou aciden es de au omó el.
Es e abalho em a sua sequência em análises de con eúdo ei as nos anos
seguin es, como os abalhos coo denados po Bake e Ball (1969) no âmbi o da
Violence Commission c iada pelo P esiden e Johnson em 1968. Es e abalho, conhecido
po P esiden ’s Repo , nasce da pe ceção pública do aumen o da iolência nos
EUA dos anos 60. A componen e de análise de con eúdo do ela ó io é con iada a
Geo ge Ge bne , da Annenbe g School o Communica ion, de Filadél ia. U ilizando os
mais exigen es p o ocolos cien í icos, incumbe a pa es de juízes (ou os que não
au o es) a codi icação das g a ações ídeo p opo cionadas pelas p óp ias cadeias
ele isi as. Descob e, po exemplo, que nos canais ABC, CBS e NBC, em 1967 68,
a média de p og amas iolen os nunca desce dos 80 po cen o, chegando mesmo, no
canal ABC, em 1968, aos 90,9 po cen o. Apon am ambém que, dos 455 pe sonagens
p incipais codi icados em 183 p og amas, 53 po cen o são iolen os. Nos mesmos 183
p og amas são iden i icados 1.215 inciden es iolen os.
Jun am se ao P esiden ’s Repo , no começo da década de 70, os cinco olumes
do ela ó io do Su geon Gene al’s Scien i ic Commi ee on Tele ision and Social
Beha io (1971), inanciado pelo Cong esso Fede al dos EUA (Lowe y e De Fleu ,
1985, p. 327). Incluído no p imei o dos cinco olumes, o es udo de Ge bne usa a
análise de con eúdo sob e p og amas de 1969. Compa a os dados com os que ob i e a
an es, no seu abalho publicado no P esiden ’s Repo , ela i o aos anos de 1967
e 68. A conclusão oi a da manu enção ge al da ap esen ação de a os iolen os
nas sé ies, em média oi o po ho a. Ge bne no a que os pe sonagens iolen os são
homens, ame icanos, sol ei os, de classe média ou al a, de idade madu a, enquan o
que as suas í imas endem a se não b ancas, es angei as, e de es a u o in e io .
Obse a ainda que os desenhos animados ap esen am con eúdos com mais iolência, o
iplo de a os des e ipo, quando compa ados com p og amas de adul os. De ac o,
apenas 3 dos 95 p og amas in an is codi icados en e 1967 e 1969, não con inham
iolência (Ge bne , 1971, p. 36).
153
Ge bne conclui que a iolência na TV é i eal e que, pe an e as duas eses
adicionais, uma que a conside a um simples e lexo da ealidade, ou a que a
conside a um guia de compo amen os e a i udes, nenhuma ecebe supo e dos seus
dados, uma ez conside ado o absu do global do modo como a iolência é ap esen ada.
Gu e i ch (1971), nou o abalho no mesmo olume, az o es udo longi udinal da
iolência na TV en e os EUA, a G ã B e anha, a Suécia e Is ael, e conclui que
os ní eis de iolência são mais ele ados nos EUA, obse ando ao mesmo empo uma
ame icanização de con eúdos nos ou os países. Apon a como mo i o possí el o
ac o de as cadeias de ele isão ame icanas não se em de se iço público e se
basea em o almen e nas ecei as da publicidade, pe seguindo audiências a a és do
sensacionalismo.
2.3 ANÁLISE DE
CONTEÚDO E AS
QUESTÕES DE GÉNERO
O Géne o começa a se analisado po análise de con eúdo em 1949, po Child,
Po e e Le ine. Analisa am o con eúdo de uma amos a de 914 ex os ex aída de
in a ‘li os de lei u a,’ publicados en e 1930 e 1946, nos EUA, e descob i am
que os pe sonagens emininos co espondiam a apenas 27 po cen o dos pe sonagens
p incipais e e am ap esen ados como ímidos, sem ambições, semp e dependendo de
um ou o pe sonagem mais impo an e. Ao con á io, os pe sonagens masculinos
ap esen a am aços de au o idade e au onomia.
Sob e o medium ele isão, Smy he (1953; 1954) e Head (1954) ap esen am as
p imei as análises de con eúdo que se deb uçam sob e as sé ies em ho á io nob e,
nos EUA, ano ando que apenas um e ço dos pe sonagens, sejam es es p incipais
ou secundá ios, são emininos. Es a linha de análise de sé ies d amá icas é
p osseguida nos anos seguin es nomeadamen e pelos es udos de Ge bne e seguido es,
e os esul ados são coe en es com es a endência, ac escen ando se, po exemplo, que
os homens eúnem quase odas as p o issões de p es ígio, e ambém que o p es ígio
é sob e ep esen ado na ele isão (De Fleu , 1964; Can o , 1973; Tedesco, 1974;
Tu ow, 1974; Miles, 1975; O’Kelly e Bloomq is , 1976). Um dos es udos de Ge bne
(1972) e ela que o g upo mais i imado pela iolência é o das mulhe es não b ancas
e o g upo ‘mais segu o’ é o dos homens b ancos.
Nos anos 80 obse am se mudanças com um aumen o de pe sonagens p incipais
emininos nos ilmes (Segga , Ha en e Hannonen Gladden, 1981). Nas eleno elas,
po seu u no, onde é no ada menos ação e mui o diálogo, há uma endência pa a a
pa idade en e géne os de pe sonagens p incipais (Ka zman, 1972; Downing, 1974).