122 ARTICLE / ARTIGO CONSERVAR PATRIMÓNIO 34 (2020) 122-133 · https://doi.org/10.14568/cp2018072 · ISSN 2182-9942 ARP · Associação Profissional de Conservadores-Restauradores de Portugal · http://revista.arp.org.pt LUCIANA BARROS1 ANTÓNIO JOÃO CRUZ1,2,3 * LEONOR LOUREIRO1, 3 1. Instituto Politécnico de Tomar, Estrada da Serra, 2300-313 Tomar, Portugal 2. Laboratório HERCULES, Universidade de Évora, Largo Marquês de Marialva 8, 7000809 Évora, Portugal 3. Techn&Art - Centro de Tecnologia, Restauro e Valorização das Artes, Instituto Politécnico de Tomar, Estrada da Serra, 2300-313 Tomar, Portugal *
[email protected] KEYWORDS Perforated cardboard Embroidery Glass beads Micro-consolidation Micro-infill INTERVENÇÃO / INTERVENTION Intervenção de conservação dum bordado com missangas em papel perfurado: problemas e soluções Conservation intervention on an embroidery with beads on perforated cardboard: problems and solutions Resumo O papel perfurado é um material rígido muito usado como suporte de bordados na 2.ª metade do século XIX, mas muito pouco conhecido actualmente. Os casos de intervenção são raros e, por isso, apresenta-se aqui a intervenção de um exemplar bordado com missangas de vidro, de 1879, que se encontrava em mau estado de conservação. A intervenção foi complexa, sobretudo devido à fragilidade da obra e à existência de diferentes materiais ligados entre si que não permitiam os tratamentos a que estes são habitualmente sujeitos quando isolados. A operação mais complexa foi a acção simultânea de microconsolidação e micropreenchimento que envolveu a inserção de fibras de papel japonês e Tylose MH300 a 4 % entre as camadas do papel perfurado e a inserção de tiras de papel japonês por entre as linhas do bordado, entrelaçando-as com estas. Para o acondicionamento do bordado, foi necessário simultaneamente evitar as condições mais desfavoráveis para a conservação do vidro e do papel. Abstract Perforated cardboard is a rigid material widely used during the second half of the 19th century as an embroidery support, but very little-known today. Intervention cases are rare, and so an intervention on a poor condition 1879 glass beads embroidered specimen is presented here. The intervention was a complex task, mainly due to the fragility of the object and the existence of different materials linked to each other, that did not allow the execution of treatments to which they are usually subjected when isolated. The most intricate operation was the simultaneous action of micro-consolidation and micro-infill. These involved the insertion of Japanese paper fibres and 4 % Tylose MH300 between the perforated paper layers, and the insertion of Japanese paper strips between the embroidery lines. For the embroidery housing, it was necessary simultaneously to avoid the most unfavourable conditions for both the preservation of the glass and the paper. PALAVRAS-CHAVE Papel perfurado Bordado Missangas de vidro Microconsolidação Micropreenchimento II Colóquio Investigações em Conservação do Património II Colloquium Investigations in Heritage Conservation
123 CONSERVAR PATRIMÓNIO 34 (2020) Luciana Barros, António João Cruz, Leonor Loureiro Introdução Neste artigo apresenta-se a intervenção de conservação de um bordado com missangas de vidro, realizado num suporte de papel perfurado com dimensão de 276 mm de largura por 342 mm de altura, que mostra um cavalo e cavaleiro apeado rodeados por moldura de flores, sobre uma faixa com a data de 1879 (Figura 1). Pertence a uma colecção particular e, segundo o actual proprietário, o bordado foi realizado pela sua tia-avó, Guilhermina Duarte Leal Machado, aos 15 anos de idade, no Porto. O papel perfurado é um suporte relativamente rígido, quase cartão, que apresenta pequenos furos distribuídos a intervalos regulares, sendo sobretudo usado para bordados. Surgiu na 2.ª metade do século XVIII e teve grande popularidade na 2.ª metade do século XIX, especialmente no Reino Unido e nos Estados Unidos, por ser um suporte Figura 1. Bordado antes da intervenção. mais barato e mais fácil de bordar do que os tecidos. Nessa ocasião, em que bordar era uma ocupação comum, o papel perfurado era comercializado com significativa diversidade de tipos e foi incorporado numa grande variedade de objectos de uso quotidiano, tais como marcadores de livros, caixas e cestos [1]. Não obstante ter alguma resistência física, o papel perfurado tende a estalar com o manuseamento e pode rasgar com facilidade. Devido a isso, são actualmente conhecidos poucos exemplares de objectos em que tenha sido empregue [1]. A conjugação desta situação com o facto de tais objectos terem sido usados, sobretudo, em estratos sociais pouco elevados, explica que os bordados em papel perfurado só raramente sejam mencionados em estudos sobre bordados [1]. Além disso, tanto quanto é do nosso conhecimento, tratamentos de conservação e restauro dos mesmos são assunto de uma única publicação [2].
124 CONSERVAR PATRIMÓNIO 34 (2020) Intervenção de conservação dum bordado com missangas em papel perfurado: problemas e soluções O objecto na origem deste artigo encontrava-se em mau estado de conservação, especialmente devido aos problemas do suporte. Este apresentava falta de coesão entre as diferentes camadas que o constituem, assim como diversos rasgões, dobras e lacunas, de que resultou a não manutenção dos fios bordados nas respectivas posições originais, potenciando a ocorrência de danos nas linhas e nas missangas. A necessidade da sua intervenção era evidente, mas também as dificuldades de intervenção: por um lado, devido à fragilidade da obra e à inclusão de diferentes materiais ligados de uma forma que excluía os tratamentos de conservação e restauro a que habitualmente são sujeitos quando isolados; por outro lado, devido à mencionada escassez de bibliografia sobre outros casos que pudessem auxiliar na definição dos procedimentos e na escolha dos materiais a utilizar. Este contexto conduziu ao estudo dos papéis perfurados com base nas fontes documentais do século XIX [1] e ao presente artigo, que apresenta o caso desse exemplar de bordado em papel perfurado, nomeadamente os seus problemas de conservação e as soluções adoptadas, que tiveram como objectivo principal a estabilização e preservação futura do conjunto constituído pelas missangas, fios e papel. A divulgação deste trabalho, realizado no âmbito da dissertação de Mestrado em Conservação e Restauro da primeira autora, pretende contribuir para o maior conhecimento deste tipo de objectos e dar conta de procedimentos que podem ser úteis para a intervenção doutros exemplares. Métodos de exame e análise Fotografia A documentação fotográfica realizada antes, durante e após a intervenção foi realizada com câmara Canon EOS 5D Mark II e objectiva Canon Macro Lens EF 100mm 1:2.8 USM. Para as fotografias de luz normal e de luz rasante foram usadas fontes de luz Hedler DX15 com lâmpada BA 150 SET de 150 W. Para a fotografia de fluorescência de ultravioleta foram utilizadas lâmpadas Philips TLD 36W/08. Microscopia e testes microquímicos Devido à diminuta dimensão do bordado, parte do estudo e da intervenção foram efectuados com recurso à lupa binocular Leica M320 IVC com ampliação até 40×. Foi igualmente usado, especialmente para documentação, um microscópio de mão Dino-Lite AD7013MZT(R4), que proporciona ampliação até 250×. A observação de amostras de papel (fibras e cortes estratigráficos) foi realizada num microscópio óptico Olympus CH30. Para os cortes estratigráficos, as amostras dos papéis foram encapsuladas em resina epóxida Epoxicure, da Buehler. A identificação das fibras dos papéis, das linhas e do tecido usado num reforço antigo foi efectuada através de análise morfológica [3] e de testes de coloração com os reagentes Lofton-Merritt e Herzberg [4], num microscópio Nikon Eclipse E400 POL com uma câmara acoplada DinoEye C-Mount Camera AM7023CT(R4), da Dino-Lite. Devido às limitações da espectroscopia de infravermelho para a detecção de amido na presença de celulose, em resultado da semelhança dos seus espectros, a possibilidade de uso de cola de amido no papel, sugerida pela espectroscopia de infravermelho, foi averiguada com o teste de Lugol [5]. Detecção de actividade biológica A possibilidade de existência de actividade biológica no papel foi testada através de colonização biológica. Para o efeito, foram recolhidas oito amostras, por meio de zaragatoas, em diversas zonas do papel. A incubação foi efectuada em meio de cultura de agar nutritivo (Himedia, ref.ª M001-500G) misturado com água desionizada, aquecido e esterilizado em autoclave durante 15 min a 120 ºC. A incubação foi realizada a 22 ºC, durante um mês. Espectroscopia de infravermelho com transformada de Fourier Com o objectivo de identificar o adesivo utilizado entre as camadas do papel perfurado, uma amostra recolhida nessa zona foi analisada por espectroscopia de infravermelho por transformada de Fourier (FTIR). O espectro foi obtido com o equipamento Alpha, da Bruker, em modo ATR, entre 4000 e 400 cm-1, com resolução de 4 cm-1. Espectrometria de fluorescência de raios X Para a caracterização da composição do revestimento metálico da folha de papel aplicada no verso do bordado, foram obtidos espectros de fluorescência de raios X (XRF) com um equipamento portátil constituído por ampola de raios X Oxford Instruments com ânodo de prata (tensão de 30 kV, intensidade de corrente de 25 µA), detector Amptek XR-100CR e analisador multicanal Amptek PO-2. pH do vidro De modo a avaliar o tipo de degradação do vidro das missangas, foi medido o pH do vidro usando papel indicador humedecido com água desionizada e colocado durante 3 segundos, sem pressão, sobre as missangas de vidro [6]. Valores básicos de pH são considerados indicadores de lixiviação e instabilidade do vidro. Caracterização da obra Segundo as observações de microscopia e os testes microquímicos, o suporte de papel perfurado é composto por três camadas de papel de pasta de trapo, formada por fibras de algodão e linho. Tem espessura total de 0,48 mm. Devido à sua tonalidade mais escura, a camada intermédia aparenta ser mais compacta do que as outras, ainda que a espessura
125 CONSERVAR PATRIMÓNIO 34 (2020) seja semelhante (Figura 2). De acordo com os espectros de FTIR e, sobretudo, de acordo com os resultados do teste de Lugol, as camadas estão unidas por cola de amido. O papel apresenta 20 perfurações por polegada (8 perfurações por centímetro) e, por isso, inclui-se no tipo de papel, com mais de 18 perfurações por polegada, destinado aos trabalhos mais minuciosos [7]. No verso, o papel perfurado assenta sobre uma folha de papel com revestimento metálico de cor dourada na face interior. Trata-se de uma situação comum em que se aproveitava o efeito decorativo resultante do brilho metálico observado através das perfurações [1, 8, p. 58]. Essa folha, com espessura total de 0,095 mm, apresentava-se cosida ao papel perfurado no topo, por meio de ponto corrido, de simples execução. O revestimento metálico, segundo o espectro de XRF (análise semiquantitativa), é de folhas metálicas de uma liga de cobre e reduzida concentração de zinco usada em imitação de folhas de ouro. O bordado, com um desenho detalhado, foi feito apenas com missangas enfiadas em linha de algodão, não sendo detectável qualquer tipo de marcas auxiliares no papel, utilizando o meio ponto. Na frente, o ponto assume sempre a mesma direcção, mas pelo verso é notório que este não foi usado de uma forma regular, observando-se extensas zonas com as linhas de fio na diagonal em vez de estarem apenas na vertical. As missangas são de cor uniforme, umas de vidro transparente e outras de vidro opaco. Têm tom branco, amarelo, castanho, vermelho, rosa e verde e, no caso do vidro opaco, há também missangas com tom violeta, azul e preto. São de forma esférica achatada e têm menos de 2 mm de largura e 1 mm de espessura, pelo que pertencem à categoria de missangas muito pequenas [9]. As reduzidas diferenças de tamanho parecem estar relacionadas com a cor. Segundo os resultados preliminares de XRF obtidos por Inês Coutinho e Márcia Vilarigues, são de vidros de chumbo com composição semelhante, salvo no que diz respeito ao elemento responsável pela cor. De acordo com estes resultados, foi usado o antimónio como opacificante. Luciana Barros, António João Cruz, Leonor Loureiro Figura 2. Corte estratigráfico do papel perfurado observado no microscópio óptico. Figura 3. Fotografia com luz rasante do verso do papel perfurado (a) e do bordado (b), antes da intervenção. ab
126 CONSERVAR PATRIMÓNIO 34 (2020) Intervenção de conservação dum bordado com missangas em papel perfurado: problemas e soluções As características do suporte, designadamente a grande densidade de perfurações, o emprego de missangas em vez de apenas linha de bordar e a complexidade do desenho denotam um contexto social elevado, o que foi confirmado pelas informações fornecidas pelo actual proprietário, familiar da autora do bordado. Os erros na execução dos pontos, que se observam apenas no verso (Figura 3a), podem-se explicar pela inexperiência da sua autora naquela ocasião, algo que pode ser relacionado com o facto de o papel perfurado ser frequentemente o primeiro suporte utilizado durante a aprendizagem das técnicas de bordar [10, p. 28]. Ainda sobre o contexto em que foi realizado o bordado, é de notar que na ocasião existia no Porto uma importante comunidade de origem inglesa, ou seja, com ligações a um país onde o bordado em papel perfurado teve a maior divulgação e uso. Estado de conservação O suporte do bordado encontrava-se em mau estado de conservação. O adesivo que unia as camadas do papel perfurado já não exercia eficazmente a sua função. A perda de resistência resultante dessa falta de coesão, a tensão exercida pelo bordado e o manuseamento, nem sempre cuidado, a que o objecto foi sujeito ao longo de décadas originaram graves empolamentos, rasgões e lacunas, sobretudo na zona central (Figuras 3b, 4 e 5). No verso do papel perfurado era visível um pequeno reforço com tecido. Tendo em conta os pontos que o atravessavam e sua ligação com as missangas, foi realizado durante a execução do bordado. O papel perfurado, além de sujidade generalizada, apresentava áreas consumidas por insectos, sobretudo na periferia, e diversas manchas, nomeadamente linhas de maré, especialmente visíveis na fotografia de fluorescência de ultravioleta. Esta permitiu também detectar manchas que aparentavam ser de microorganismos. No entanto, a Figura 4. Pormenor do bordado com rasgões e lacunas do papel perfurado e missangas mal posicionadas (fila azul superior, do lado esquerdo) e missangas em falta (por baixo do algarismo 7). Figura 5. Pormenor de zona do papel perfurado em risco de destacamento com rasgões e lacunas, observado com microscópio de mão.
127 CONSERVAR PATRIMÓNIO 34 (2020) Luciana Barros, António João Cruz, Leonor Loureiro provavelmente resultante de queimadura com cigarro que também deixou marca no verso do papel perfurado. As linhas de algodão encontravam-se quebradas em diversos locais, eventualmente devido a corte causado pelas irregularidades do vidro no interior das missangas [12, p. 320], do que resultou a perda de algumas. As missangas apresentavam problemas por si só: as de vidro transparente verde e vermelho e as de vidro opaco azul e rosa tinham na superfície localizados depósitos espessos de sujidade ou outros materiais e as de vidro vermelho transparente, além disso, apresentavam estalados, fracturas e lacunas (Figura 6). Foi efectuada a medição superficial do pH com o objectivo de averiguar se estes problemas tinham origem química ou física. Os resultados obtidos mostraram que o pH, igual a 5, era igual em todas as missangas, incluindo as que não apresentavam esses depósitos, e, por isso, sugerem que a degradação não deriva de processos de lixiviação, que teriam como consequência o aumento do pH [6], mas é consequência de processos apenas de natureza física como depósito de sujidades. O facto de os estalados, fracturas e lacunas se limitarem às missangas de vidro vermelho transparente pode decorrer da menor resistência física destas devido à sua menor dimensão ou à sua composição química, sendo esta última hipótese discutida em estudo ainda em curso. Intervenção de conservação Objectivos e princípios da intervenção O bordado encontrava-se num estado de grande fragilidade que tornava indispensável uma urgente intervenção de conservação e restauro, sob pena de os danos rapidamente se acentuarem. Considerando que o valor da obra, mais do que da sua estética, resulta do seu valor documental – quer de uma técnica caída em desuso, quer da história familiar –, a intervenção, com a concordância do proprietário, adoptou essencialmente um carácter conservativo, procurando sobretudo estabilizar e preservar o bordado. Sendo uma peça de colecção privada, foram claramente apresentadas ao proprietário as implicações dessa opção, nomeadamente a impossibilidade de expor o bordado, numa moldura, na vertical, por o papel, mesmo após a intervenção, não suportar o peso do bordado devido ao seu frágil estado de conservação. A opção escolhida, portanto, foi a de fazer a intervenção mínima necessária para se atingir o objectivo de estabilizar e preservar o bordado [13] e, depois, guardá-lo num passepartout colocado dentro de uma caixa de acondicionamento, protegido da poeira e das variações de temperatura e de humidade relativa. Nesta intervenção mínima incluiu-se a limpeza superficial do bordado, a consolidação e preenchimento do papel perfurado de modo a reforçar a sua resistência Figura 6. Depósito superficial (a), fractura (b) e lacuna (c) em missangas vermelhas transparentes observados com microscópio de mão. colonização biológica não confirmou esta hipótese, pois, por um lado, só numa das oito amostras recolhidas para colonização biológica se observou microorganismos (fungos do género Aspergillus) e, por outro lado, o desenvolvimento desse fungo apenas numa zona marginal da caixa de Petri sugere que essa identificação, como acontece com alguma frequência [11], resultou de contaminação. Junto ao canto inferior esquerdo do papel com revestimento metálico observou-se uma pequena lacuna, a b c
128 CONSERVAR PATRIMÓNIO 34 (2020) Intervenção de conservação dum bordado com missangas em papel perfurado: problemas e soluções física e a união das linhas de algodão quebradas. Não foram incluídas nem a remoção de manchas do papel perfurado por processos de lavagem, que seriam perigosos para a peça, nem a aplicação de missangas nas zonas em que faltam, nem a reintegração cromática das manchas e lacunas. A não aplicação de novas missangas, além de não prejudicar os objectivos visados na intervenção, decorreu de não existirem no mercado missangas com características semelhantes e de ser impossível passar novas linhas nalgumas perfurações do papel sem o risco de o rasgar. Sem essa aplicação também não se justificava a reintegração cromática do papel, que em nada contribuiria para a estabilização e preservação da obra e que, a ser realizada, afectaria a coerência geral da intervenção. Quanto à escolha dos materiais, seleccionaram-se materiais diferenciados compatíveis entre si, compatíveis com os materiais originais do bordado e passíveis de utilização em mais do que uma operação. Desmontagem e pré-consolidação do papel perfurado A intervenção iniciou-se com a remoção da linha que unia o papel perfurado e o papel com revestimento metálico, com o auxílio de pinça e sonda, pois ambos tinham de ser intervencionados separadamente. Para evitar danos, o bordado foi apoiado num suporte, especificamente criado para o efeito, composto por placa com núcleo de espuma revestido por papel branco (K-line), de 5 mm espessura, envolvida por têxtil não tecido de poliéster de fibra oca (Dracalon), por ser um material macio, e, em contacto com o bordado, têxtil não tecido de poliéster (Bondina 30 g/m2, Preservation Equipment, ref.ª 492-3228), por ter uma superfície de contacto muito suave. Devido à extensa área do suporte em risco de destacamento, que não resistiria à limpeza (como, por exemplo, se observa no pormenor visualizado na Figura 4), foi efectuada uma pré-consolidação com adesivo aplicado com pincel e pressão exercida com sonda, tendo sido usado o mencionado têxtil não tecido de poliéster (Bondina) entre esta e o papel perfurado de modo a não brunir a superfície durante a pressão. A dobradeira de osso não se mostrou um instrumento útil para pressão por ser demasiado grossa para as zonas a consolidar, de diminuta dimensão e circundadas de missangas. Para a pré-consolidação, assim como nas outras operações que envolveram o uso de adesivo, foi usado um éster de celulose com pH=7 (Tylose MH300 a 4 %) que, além de ser utilizado nos tratamentos de documentos gráficos e de têxteis, é compatível com a cola de amido, presente no papel perfurado, e é resistente a fungos [14]. Limpeza do bordado Inicialmente, a limpeza a seco foi realizada com movimentos de rolamento de cotonetes, mas o processo mostrou-se pouco eficaz. Experimentou-se, de seguida, a limpeza com um pincel de cerdas macias e aspiração, que se revelou eficaz e, portanto, foi adoptada. Para o efeito, foi utilizado um aspirador Museum BlowVac Electronic HEPA com têxtil não tecido de poliéster (Reemay 34 g/m2) na extremidade da peça de aspiração para um maior controlo da força de sucção e recuperação fácil de possíveis pedaços de missangas aspirados. A limpeza foi sempre efectuada pela seguinte ordem: frente, verso, frente. Uma borracha branca sem ftalatos e sem látex (Staedtler Mars Plastic) foi utilizada somente na remoção de uma mancha de sujidade agregada na frente do papel perfurado, por esta se encontrar numa zona estável e sem empolamentos. Foi aplicada uma pressão reduzida e os resíduos foram removidos por aspiração. Por fim, as missangas foram limpas, por via húmida, com cotonetes embebidos numa solução de água e etanol (30:70). O processo foi muito eficaz, mas apenas superficialmente. Com efeito, devido ao entrelaçamento de materiais e à fragilidade do bordado, era impossível remover a sujidade presente entre as missangas e o suporte sem causar danos. Consolidação e preenchimento A diminuta dimensão das missangas e o facto de, em resultado de se tratar de um bordado, as missangas estarem em contacto entre si e o papel impossibilitaram alguns tratamentos expectáveis, como a consolidação do vidro com Paraloid B72 [15] que poderia ter sido realizada se não existissem essas condicionantes que impedem a aplicação do adesivo de forma homogénea e localizado apenas nas missangas a necessitar de consolidação. Assim, não foi efectuado nenhum tratamento de consolidação das missangas. Relativamente ao papel perfurado, foi efectuada a consolidação nas zonas onde as camadas se encontravam desagregadas mas sem lacunas significativas e o processo foi semelhante ao da pré-consolidação. As zonas com empolamentos não foram consolidadas nem planificadas porque aqueles eram demasiado acentuados para serem planificados sem risco de criação de mais danos em redor, designadamente nas missangas mais próximas. Além disso, seria necessário injectar cola entre as camadas, uma operação que, no caso de um excesso de cola, poderia originar um significativo aumento de rigidez local e de brilho. Acresce ainda que, de uma forma geral, a planificação não tem grande influência na conservação do papel [16, p. 155]. Nas zonas com rasgões e nas zonas fragilizadas, com o auxílio de sonda, pinça e lupa binocular, foi efectuada microconsolidação com inserção de pequenos pedaços de papel japonês (Tengujo, 11 g/m2, Arte & Memoria, ref.ª 200639) e adesivo (Tylose MH300 a 4 %) entre camadas do papel perfurado (Figura 7). Esse papel japonês foi escolhido por ser muito fino e resistente e, assim, poder ser inserido entre camadas do papel perfurado sem aumentar significativamente a sua espessura. Nalgumas zonas não foi possível inserir as fibras de papel japonês entre as camadas do papel perfurado. Nalguns casos o suporte estava demasiado fragilizado, a ponto de não se
129 CONSERVAR PATRIMÓNIO 34 (2020) Luciana Barros, António João Cruz, Leonor Loureiro conseguir separar as camadas sem provocar significativa perda de material. Noutras zonas existia bordado que podia ser danificado pela abertura das camadas. Nestes casos, as fibras de papel japonês foram aplicadas na superfície do verso do papel perfurado. Nas zonas de bordado com lacunas ao nível do suporte foi realizado o micropreenchimento de forma semelhante à microconsolidação, ainda que a operação tenha sido muito mais complicada devido à necessidade de manter as perfurações e deixar as missangas bem posicionadas. Nestas áreas foram inseridas tiras de papel japonês apenas nas zonas não perfuradas do suporte, mas passando-as por entre as linhas, entrelaçando-as com estas, para as missangas ficarem correctamente alinhadas (Figuras 8 e 9). Este processo foi muito delicado e moroso porque as tiras de papel japonês tinham de ser cortadas de forma muito Figura 7. Etapas da microconsolidação do papel perfurado, observadas através da lupa binocular: a) zona em risco de destacamento; b) colocação de papel japonês; c) inserção do papel japonês entre as camadas do papel perfurado; d) inserção de Tylose; e) aplicação de pressão para auxiliar o processo de colagem; f) aspecto final da zona microconsolidada. a b c d e f
130 CONSERVAR PATRIMÓNIO 34 (2020) Limpeza, planificação e consolidação do papel com revestimento metálico O papel com revestimento metálico foi limpo com esponja (Smoke Sponge, Preservation Equipment, ref.ª 961-1002), pois a sujidade estava desagregada e era pouco abundante e, por isso, não era necessário aplicar métodos mais agressivos. De seguida, na face exterior do papel (sem revestimento metálico), as dobras e os vincos foram atenuados com cotonete húmido e aplicação de pesos. Embora, de uma forma geral, a planificação não tenha grande influência na conservação do papel, o efeito estético proporcionado pela visibilidade do papel com revestimento metálico através das perfurações do papel perfurado era prejudicado pelas dobras e pelos vincos e, consequentemente, considerou-se que esse tratamento era necessário neste caso. As zonas com rasgões e lacunas foram consolidadas, nessa mesma face, com papel japonês Tengujo e Tylose MH300 a 4 %. Montagem e acondicionamento O papel perfurado e o papel com revestimento metálico foram reunidos usando a linha original assim como o mesmo ponto e as perfurações originais. Figura 8. O processo de micropreenchimento de uma lacuna do papel perfurado numa zona com missangas, visto a partir do verso do bordado. A ordem da inserção do papel japonês é representada pela sequência do tom usado na representação, do amarelo até ao vermelho. Figura 9. Aspecto inicial (a) e após micropreenchimento (b) da zona a que se refere o esquema da Figura 8. precisa, pois com menor dimensão não teriam resistência suficiente para suportar a operação de passagem entre as linhas e com maior largura ultrapassariam a zona não perfurada do suporte e deixariam insuficiente espaço para as linhas. Adicionalmente, para a complexidade do processo contribuíram também o facto de o meio-ponto do bordado estar mal executado, dificultando a percepção da continuidade do mesmo, e as deformações e o mau posicionamento já adquirido pelas linhas devido a estarem sem suporte há demasiado tempo (Figura 10). União das linhas de algodão Com o auxílio da lupa binocular, as extremidades das linhas quebradas foram abertas e interligadas com sonda e pinça e unidas com Tylose MH300 a 4 %. De uma forma geral, essa união foi realizada no verso do papel perfurado. As linhas foram unidas tendo em conta a sua situação no momento de intervenção, ou seja, ficaram lassas, porque a tensão que de outra forma seria criada originaria danos nos outros materiais do bordado. Segunda limpeza do bordado Após a estabilização do bordado, foi repetida a limpeza, nomeadamente a limpeza geral a seco com pincel e aspirador e a limpeza por via húmida das missangas com mistura de etanol e água. No final desta última verificou-se que ainda existiam resíduos de fibras do cotonete, pelo que foi repetida a limpeza a seco com pincel e aspirador. No final, conseguiu-se um adequado equilíbrio visual entre as zonas de lacunas de missangas e de papel perfurado sem necessidade de recurso a reintegração cromática. Intervenção de conservação dum bordado com missangas em papel perfurado: problemas e soluções a b