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Revista Portuguesa de Estudos Regionais, nº 70 2025, 143-160 Artigo submetido a 17 de Dezembro 2023; versão final aceite a 23 de Setembro de 2024 Paper submitted on December 17, 2023; final version accepted on September 23, 2024 DOI: https://doi.org/10.59072/rper.vi70.668 Dinâmica de Adoção da Economia Circular ao Nível Regional: o Caso da Grã-Canária e da Madeira Dynamics Of Adoption of Circular Economy at Regional Level: The Cases of Gran Canaria and Madeira António Almeida [email protected] Faculdade Ciências Sociais, Universidade da Madeira Luiz Machado [email protected] Universidade da Madeira Marta Jacob [email protected] Universitat de les Illes Balears Cármen Florido [email protected] Universidad de Las Palmas de Gran Canaria Carlos Rodriguez carlos.r[email protected] Universidad de Las Palmas de Gran Canaria Resumo A economia circular (EC) surge como um tópico mediático, mobilizador e apelativo para múltiplos “stakeholders”, incluído o setor empresarial, turistas e entidades públicas, dado o consenso existente à volta da problemática da sustentabilidade e das alterações climáticas. Contudo, as decisões empresariais nesta área revestem-se ainda de um carácter voluntário, numa série de áreas e medidas. A relevância estratégica do setor turístico no contexto insular, assente numa dinâmica de colaborações e de subcontratação de serviços, sugere que o mesmo pode desempenhar o papel de modelo e exemplo, e de pressão sobre o tecido empresarial no sentido da adoção generalizada da EC, desde que salvaguardada uma intervenção estratégica por parte dos governos regionais e locais. Este estudo, baseado numa abordagem quantitativa sustentada num questionário, socorre-se de um modelo “fractional logit” para efeitos de análise das variáveis explicativas da taxa de adoção de iniciativas na área da EC. Com base numa amostra de conveniência de 90 estabelecimentos hoteleiros da Grã-Canária e da Madeira, são identificados os fatores explicativos da taxa de adoção de medidas em quatro subáreas distintas (água e energia; reciclagem; sustentabilidade; e pessoal e Responsabilidade Social e Corporativa (RSC)) de forma a identificar áreas de relevo para a intervenção por parte da administração pública. Os resultados destacam o papel do grau de comprometimento por parte dos diretores hoteleiros, e das barreiras percecionadas e do acesso a recursos disponibilizados pelas autarquias, o que releva o papel das câmaras municipais e dos governos regionais. Identicamente importante os fatores
Revista Portuguesa de Estudos Regionais, nº 70 2025, 143-160 144 estatisticamente insignificantes, nomeadamente a ausência de pressão por parte de clientes e fornecedores. Palavras-chave: economia circular; setor do turismo; hotelaria; fractional logit; governo regional; Códigos JEL: Q2; Q3; Z32 Abstract The concept of circular economy is an increasing mediatic, inspiring and appealing topic to a wide range of stakeholders, including the business sector, tourists and public officials, given the consensus around the themes of sustainability and climate change. Most decisions, interventions and measures adopted in circular economy arena are still based on a voluntaristic approach. The strategic relevance of the tourism sector in the island context based on commercial based collaborations and subcontracts suggest it may play a leading role in pressuring other sector of the economy to adopt circular economy related initiatives, provided that both local and regional governments think and act strategically. This study adopts a quantitative approach based on a questionnaire, and emplyes a fractional logit model to identify the explanatory variables promote g the adoption of EC measures. Based on a sample of 90 hotels from Grã Canaria and Madeira, we identify in this study the factors driving the adoption rate of measures in four areas (water and energy; recycling; sustainability; and Human Resources and Corporate Social Responsibility (CSR)) in order to recommend priority areas for the government. The results highlight the relevance of the factors respondent´s degree of commitment, perceived barriers and access to resources. While the key role to be played by municipalities and by the regional government is discussed, the lack of statistical significance of some variables, namely lack of pressure from suppliers and customers is also examined. Keywords: circular economy; tourism sector; hotel industry; fractional logit; regional government; JEL codes: Q2; Q3; Z32 1-INTRODUÇÃO A temática da economia circular (EC) surge como um tópico crescentemente relevante no contexto da política de desenvolvimento regional a nível europeu (European Commission, 2017; European Commission, 2020; Pascale et al., 2023; Kirchherr et al., 2023; Savini, 2023), dada a relevância dos temas das alterações climáticas, escassez de recursos críticos, e desenvolvimento sustentável, ao nível da definição das prioridades de desenvolvimento regional (Healey, 1997; Olesen, 2013; Bolger e Doyon, 2019; Gura et al., 2023; Meili e Stucki, 2023). A discussão à volta do tópico da EC no contexto europeu procura adicionar um elemento de racionalidade científicaeconómica à questão da sustentabilidade e da preservação dos ecossistemas, balizado pelas preocupações de inovação, competitividade e criação de emprego (Ghisellini et al., 2016; Geissdoerfer et al., 2017; Heshmati e Rashidghalam, 2021; Pascale et al., 2023; Corsini et al., 2023), numa tentativa de compatibilização do crescimento económico com a preservação dos ecossistemas e a redução da pressão ambiental (Domenech e Bahn-Walkowiak, 2019; Ghinoi et al., 2020 Silvestri et al., 2020; Heshmati e Rashidghalam, 2021; Kirchherr et al., 2023). Embora a investigação ao nível da esfera industrial seja extensa, constata-se um menor volume de investigação na área do turismo (Reike et al., 2018; Neves et al., 2019; Sorin e Sivarajah, 2021; Arsova et al., 2022; Gura et al., 2023; Niang et al,, 2023), questão especialmente preocupante no contexto das regiões ultraperiféricas, dada a fragilidade dos ecossistemas nestes territórios, a escassez de recursos críticos como a água, e a dependência dos mesmos do setor do turismo, dependência que acarreta com frequência processos de degradação ambiental (Guerra-Rodríguez et al., 2020).
Dinâmica De Adoção Da Economia Circular Ao Nível Regional 145 Contudo, tanto o setor do turismo (setor intensivo na utilização de alguns recursos escassos, como a água), como a administração pública (outro setor predominante no contexto insular), oferecem um elevado potencial de emergir como modelos e exemplos de boas práticas no contexto de adoção da EC (Pascale et al., 2023). Os setores em causa, em especial o setor do turismo, oferecem as condições ideais para promover uma transformação organizacional e tecnológica generalizada, via linkages com fornecedores e outros stakeholders, desde que assegurado o background normativo e financeiro adequado. O presente estudo centra-se da análise da adoção da EC no setor da hotelaria em Grã Canaria e na Região Autónoma da Madeira (RAM), de forma a identificar o ritmo de adoção, as barreiras percecionadas e as necessidades em termos de recursos (Grafström e Aasma, 2021; Veyssiére et al., 2022; Pascale et al., 2023). Julga-se assim ser possível compreender o envolvimento e comprometimento dos atores chave, (Gura et al., 2023), e perspetivar quais as áreas de intervenção prioritárias por parte dos governos regionais e dos municípios (Cahoon et al., 2013; Arnsperger e Bourg, 2016; Silvestri et al., 2020; Gemar et al., 2023). A adoção da CE é vista por Healey (1997), Olesen (2013), Bolger e Doyon (2019) e Gura et al. (2023) como uma oportunidade para exercitar um planeamento estratégico que rompa com a ordem social existente, que se assuma como transformativo, que combata a ordem neoliberal, e que ofereça mais qualidade de vida, melhores oportunidades de negócio, e a preservação da biosfera local. Embora os objetivos geralmente sejam mais limitados, exige-se de qualquer forma informação e dados. Conquanto exista uma diversidade de estudos sobre implementação de uma série de indicadores compósitos para avaliar a taxa de sucesso na adoção da EC (Arnsperger e Bourg, 2016; Silvestri et al., 2020), escasseiam estudos que analisem o ritmo de adoção do lado da oferta ao nível micro, e que permitam sugerir iniciativas relativamente ao papel dos Governos Regionais. Daí que este estudo se centre em especial na identificação das taxas de adoção de diferentes tipos de medidas na área da EC ao nível do setor hoteleiro, no intuito de quantificar a dimensão das mesmas, e de identificar os “drivers” da adoção, nomeadamente no que concerne às atitudes dos diretores hoteleiros e às barreiras percecionadas. O estudo em questão resulta da recolha de dados no âmbito de um projeto comunitário, a envolver as regiões das Canárias, Madeira e Açores. Tanto as Canárias como a Madeira assumem um papel de relevo no contexto do desenvolvimento turístico ao nível europeu, ao nível do turismo de massas (no caso das Canárias), e do turismo natureza (no caso da Madeira). Embora os resultados deste estudo reflitam a perspetiva da Grã-Canária e da Madeira, os mesmos afiguram-se de interesse (para efeitos de benchmarking), para outras regiões, confrontadas com escassez de recursos e predominância do turismo como setor chave. Este artigo estrutura-se da seguinte forma. A secção 2 oferece uma revisão da literatura. A seção 3 providencia alguns dados sobre a Grã-Canária e a Madeira como potenciais regiões-laboratórios na área da EC. A seção 4 discorre sobre a metodologia, a seção 5 discute os resultados obtidos, enquanto as conclusões constam da seção 6. 2-REVISÃO DA LITERATURA A revisão de literatura, centrada nos termos “circular economy, circular economy, circular hotels, environmental practices, green practices e eco-innovations”, permitiu constatar a existência de um número reduzido de estudos empíricos que permitam identificar taxas concretas de adoção e que se debrucem ao nível micro sobre a questão da adoção de medidas EC. Embora a noção de EC remeta para a questão da sustentabilidade ambiental e da gestão escassa de recursos, importa referir que, numa perspetiva mais estratégica, e concentrando o foco na componente económica, a noção de EC surge na agenda político-mediática dos países da União Europeia como uma tentativa de reindustrializar a União Europeia (Healey, 1997; European Commission, 2015; Geisendorf e Pietrulla, 2018; Niang et al., 2023), com base no desenvolvimento de setores competitivos, estratégicos e compatíveis com as necessidades de preservação do ambiente e com as preocupações por parte do eleitorado. Numa versão técnica e mais próxima do entendimento comum do conceito, a EC define-se como uma alternativa ao modelo de produção e consumo tradicional, do tipo take-make-consume-dispose, baseado na
Revista Portuguesa de Estudos Regionais, nº 70 2025, 143-160 146 extração de matérias-primas virgens, na produção, comercialização e consumo de produtos e na posterior eliminação dos mesmos, no final da vida útil, remetidos nalguns casos para aterros ou lixeiras industriais (Steffen et al., 2015; Beers et al., 2018; Gonçalves et al., 2021). Dado a crescente escassez de matérias primas e a degradação do ambiente a ritmo acelerado em resultado da exploração mineira e dos processos industriais utilizados, frequentemente altamente poluentes, a alternativa é reduzir, reutilizar, reciclar e recuperar materiais nas fases de produção, distribuição, consumo e fim de vida, de forma a substituir o conceito de ‘end-of-life’, com a recuperação ou extensão do ciclo de vida, no intuito de atingir o “objetivo de desenvolvimento sustentável, sem descurar questões de qualidade ambiental, prosperidade económica e equidade social” (Kirchherr et al., 2017, 224–25; Ritcher et al., 2018; Refsgaard et al., 2021). Um dos objetivos da EC é o de reduzir o consumo per capita de recursos escassos, e os níveis de poluição e degradação ambiental decorrentes da produção de bens e equipamentos, através a adaptações inovativas, ao longo de toda a cadeia de valor (definido como “narrowing”), visando abrandar o ritmo de desgaste dos produtos através da extensão do ciclo de vida dos mesmos (“slowing”) e fechar os ciclos de produção através da reciclagem e reutilização (“closing”) (Bocken et al., 2016). Constata-se uma falta de consenso no que concerne ao significado preciso do conceito de EC, o que obstaculiza e complexifica a análise do mesmo (Lieder e Rashid, 2015; Reike et al., 2018; Sacchi Homrich et al., 2018; Korhonen et al., 2018; Silvestri et al., 2020). Tendo em conta a diversidade de áreas científicas e paradigmas utilizados na análise do mesmo, não admira a pluralidade de focos de análise e a assunção de que se trata de um conceito pluridimensional, paradigmaticamente imaturo (Masi et al., 2018, 542) e contestado (Kirchherr et al., 2023, 2), não tanto na esfera técnica, mas sim nas visões normativas e nas expectativas relativamente ao evoluir da economia e da sociedade que derivam da discussão do mesmo. Ghisellini et al. (2016), Kirchherr et al. (2017), Candan e Toklu (2022) e Pascale et al. (2023) referem que o conceito de EC traduz uma realidade não-estática em constante evolução e mudança. Existe, contudo, um consenso que a EC oferece oportunidades na área ambiental, social, económica, através da gestão eficiente de recursos, poupanças de custos e redução das importações (Heshmati e Rashidghalam, 2021). A maioria dos especialistas também concorda que o conceito de EC releva a reciclagem, a regeneração e a restauração das matérias-primas escassas (Cother, 2020; Corsini et al., 2023), assim como a preservação do ambiente e o combate às alterações climáticas através de inovações ao nível da inovação, produção e consumo (Bolger e Doyon; 2019; Cother, 2020; Corsini et al., 2023; Gura et al., 2023). A Comissão Europeia tem incentivado a adoção da CE através de um conjunto de programas, iniciativas e modelos financiamento (Silvestri et al., 2020), de forma a promover inovações na gestão do ciclo de recursos, nas vertentes da produção, consumo, gestão do lixo e mercado de resíduos e subprodutos (European Commission, 2019; Velenturf e Purnell, 2021; Corsini et al., 2023). Apesar da imposição de um quadro legal robusto, transcrito em métricas e medidas de política comuns, constata-se diferenças regionais marcantes em termos da dinâmica de adoção de medidas. Conforme referem Reike et al. (2018, 251), e também Sakai et al. (2011), constatam-se disparidades em termos de “ambição e taxas de reutilização”. Silvestri et al. (2020) associam as divergências constatadas à existência de idiossincrasias regionais, o que sugere a necessidade de enfatizar a dimensão regional, na análise das práticas de adoção. O ângulo regional é sobretudo relevante no contexto da ultraperiferia, onde a questão de escassez de recursos é mais premente e onde o papel dos governos regionais surge como relevante devido ao grau de autonomia política e ao acesso majorado a fundos comunitários, tão importantes na sustentação do investimento público e privado. Ghisellini et al. (2016), Högstörm et al. (2018), Bolger e Doyon (2019), Arsova et al. (2022) atribuem às regiões e municípios um papel chave no apoio às empresas na transição para a CE (Chidakel et al., 2021). A complexidade da transformação exigida, e os custos implícitos à mesma, implica uma colaboração e solidariedade interinstitucional entre os vários stakeholders privados e públicos (Henrysson e Nuur, 2021; Cother, 2020; Corsini et al., 2023), assim como a capacidade para mobilizar todos os intervenientes chave, com experiência critica no processo (CIRCTER, 2019), e/ou acesso a recursos financeiros ou legais (Opferkuch et al., 2021).
Dinâmica De Adoção Da Economia Circular Ao Nível Regional 147 Arsova et al (2022) referem que a adoção da CE implica uma abordagem híbrida, que mistura abordagens do tipo top-down (relativa a planos de desenvolvimento e respetivos quadros legais e regulamentares, envolvimento do sistema político e da estrutura de governance e do contexto institucional em geral no apoio à inovação, incluindo subsídios) com iniciativas bottom-up (relativos às iniciativas da sociedade civil, e de determinados setores do meio empresarial, nomeadamente no que se refere à shared-economy, nas áreas da gestão do lixo e dos resíduos, assim como à pressão dos consumidores, turistas e eleitores) (Ghisellini et al., 2016; Prendeville et al., 2016; Gravagnuolo et al., 2019; Vanhamäki et al., 2020; Poponi et al., 2020; Sánchez et al., 2020;; Henrysson e Nuur, 2021; Corisni et al, 2023). No que se refere à EC, existe a capacidade a nível regional (e em certa medida, a municipal) de identificar as preferências dos empresários locais, em termos das iniciativas a implementar, e de adaptar a legislação e os programas comunitários em conformidade com as referidas preferências, para além de poder prever e modular subsídios e taxas ecológicas (Heshmati e Rashidghalam 2021; Veyssiére et al., 2022). Geissdoerfer et al. (2017), Vanhamäki et al. (2020) e Guerra-Rodríguez et al. (2020) indicam que sucesso no âmbito de uma adoção generalizada da EC implica um modelo e plano de transição, a par da cooperação entre diferentes stakeholders (empresas, estado (local, regional e nacional), baseado em boas práticas, questão sempre complexa em territórios de baixa densidade empresarial povoados por micro-empresas e PMEs com baixa capacidade de auto-financiamento (Pascale et al., 2023; Cahoon et al., 2013; Spatial Foresight et al., 2017; Refsgaard et al., 2021; Opferkuch et al., 2021; Richter e Christmann, 2023; Schmieder et al., 2023). Apesar do papel imprescindível dos governos regionais e dos municípios na definição do quadro regulamentar e nos apoios financeiros a projetos de investimento, em última análise, as decisões de investimento respeitam às empresas, que terão de identificar problemas e soluções e financiar os investimentos requeridos, em especial no que se refere a iniciativas não obrigatórias do ponto de vista legal. Diversos estudos referem a questão do acesso a recursos financeiros (medido através do cash flow), e da capacidade de autofinanciamento e de investimento por parte das empresas, em soluções EC-friendly, como um fator determinante do ritmo de inovação (Czarnitzki e Hottenrott, 2011). Contudo a componente de colaboração em rede assume também um papel importante. No caso das ilhas em geral, e das RUPs em particular, o setor do turismo assume uma importância primordial, no estabelecimento de linkages com os restantes setores da economia (Yang et al., 2018; Chidakel et al., 2021; Gemar et al., 2023), pelo que se entende que cabe ao setor da hotelaria um papel de líderes na adoção de medidas EC, através da pressão exercida sobre fornecedores e clientes para adotarem medidas compatíveis com a política ambiental da empresa. Embora o desenvolvimento da EC assente numa forte componente legal, política e mediática e ambiental, Cother (2020) refere que a adoção da EC implica o reconhecimento da componente da sustentabilidade económica, relativa à rentabilidade dos investimentos, que venham a ser concretizados nas vertentes de redução do consumo de recursos, minimização de produção de resíduos e lixo, redução de custos de produção e ganhos de produtividade. As PMEs necessitam também de apoio em termos de informação prática e à medida das necessidades, assim como análises custo-benefício que salientem as vantagens da EC, dado que pode ser mais conveniente para uma empresa comprar matérias-primas virgens (Neves et al., 2019), do que materiais reciclados (ou resíduos e lixo) (Dong et al., 2017). Mais, o custo do investimento inicial pode ser proibitivo, assim como o impacto de outras barreiras à entrada (Kirchherr et al., 2018). Noutros casos, as PMEs manifestam dificuldades em identificar e compreender oportunidades de negócio na área ambiental (Corsini et al, 2023), faltando muito frequentemente às PMEs as capacidades internas de análise dos prós e contra no que se refere à adoção de medidas EC. Compete neste caso às autoridades regionais reduzir os custos de investimento e partilhar informação relevante, através dos organismos competentes. Grafström e Aasma (2021), Kirchherr et al. (2018) e Pascale et al. (2023) identificam 4 tipos de barreiras, a saber, tecnológicas, de mercado, institucionais e do tipo regulatórias e sociais e culturais, que devem ser analisadas pelas autoridades regionais, no intuito de estabelecer programas de apoio adequados, baseados em boas práticas (Arnsperger e Bourg, 2016; Cother, 2020; Veyssiére et al., 2022; Gura et al., 2023). Como as regiões e os municípios tem capacidade de aplicação de medidas práticas de curto prazo e estratégicas, os mesmos necessitam de implementar medidas de monitorização e de apoio
Revista Portuguesa de Estudos Regionais, nº 70 2025, 143-160 148 atores chave, de forma a evitar abordagens fragmentadas e casuísticas (Kirchherr et al., 2018; Bolger e Doyon, 2019; Cother, 2020; Gura et al., 2023). A análise das barreiras e dos desafios enfrentados pelas empresas (Kirchherr et al., 2018; Cother, 2020), continua a ser um tema relevante, apesar da diversidade de medidas de apoio. As suscetibilidades, em termos de atitudes e comprometimento com a causa ambiental dos responsáveis das empresas, e as motivações dos mesmos, constituem também temas importantes. A transição para modelos de negócio EC não constitui um processo de aplicação fácil, dado implicar uma mudança de paradigma (Corsini et al., 2023), e uma alteração do modelo de negócio. Uma das questões referidas na literatura, em termos de barreiras, refere-se à questão do financiamento, conforme referido acima. Meili e Stucki (2023) mostram que o sistema bancário desempenha um papel fundamental na difusão da EC, dadas as necessidades de financiamento implícita na adoção de modelos de negócio mais ecológicos. Os instrumentos de financiamento constituem um dos drivers mais decisivos, assim como o acesso a subsídios e incentivos fiscais. O procurement publico, e o volume de “cash flows” das empresas, o que nos remete para a rentabilidade e viabilidade económico-financeira das empresas, impacta também claramente a probabilidade de adoção (Heshmati e Rashidghalam, 2021). Entre os fatores facilitadores importa ter em conta que a motivação e as convicções dos gestores e diretores acabam por ser os fatores relevantes, em adição à existência de uma equipa dedicada á analise da EC em termos das oportunidade e investimento necessários. A prática de introduzir inovações é também uma questão relevante, assim como a possibilidade de identificar benefícios e resultados rapidamente (Saarinen e Aarikka-Stenroos, 2022). Embora existam muitas soluções tecnicamente viáveis, as mesmas podem não ser financeiramente ou comercialmente sustentáveis num determinado território. Questões de competência técnica terão de ser tidas em conta, assim como as prioridades e as restrições temporais das empresas (Cother, 2020). Condicionantes culturais e mediáticas transcritas na perceção da EC como “a nice thing to do”, ou como um ótimo slogan comercial (Candan e Toklu, 2022), mas não necessariamente uma prioridade do modelo de negócios, também devem ser tidas em conta (Cother, 2020). De facto, as necessidades operacionais do dia a dia podem induzir as empresas a desenvolver os esforços nesta área “fora de horas”, com recurso a trabalho extraordinário e ao entusiamo de determinados funcionários, o que pode desmobilizar a prazo os recursos humanos afetos à implementação de medidas. Assiste-se por outro lado com frequência à resistência interna à mudança, o que pode desanimar os líderes. Dong et al. (2017), Gonçalves et al. (2021), Arbolino et al. (2020) e Kirchherr et al., (2017) referem ainda papel das redes e sistemas industriais, como fatores potenciadores, o que no caso do setor do turismo, conforme referido acima, pode contribuir para a difusão da EC através da rede de fornecedores e clientes. 3-CONTEXTO DA INVESTIGAÇÃO A questão da escassez de recursos, e a necessidade de depender de energias não renováveis (Arsova et al., 2022; Gura et al., 2023; Candan e Toklu, 2022), coloca-se com especial acuidade nas regiões ultraperiféricas (RUPs), que englobam as Canárias, Madeira, Açores, Guina Francesa, Martinica, Guadalupe e Reunião, dado o menor volume de recursos disponíveis para gerir crises como catástrofes naturais (Ismeri, 2011a; IPCC, 2014; Candan et al., 2022). A vulnerabilidade das RUPs, expressa na “predisposição para sofrer impactos negativos de origem externa” (Ismeri, 2011a, 13; 2011b) resulta da dependência da dinâmica económica global, (nomeadamente no que concerne à sua dependência do setor do turismo), mas também da sua localização periférica conducente a custos de transporte acrescidos, do rácio exportações/importações desfavorável e da reduzida diversificação do tecido económico e da exposição crescente aos riscos naturais a impactar um território reduzido. A dependência destas regiões das importações de matérias-primas essenciais e das exportações de serviços coloca-as sujeitas aos riscos decorrentes de disrupções nas importações e no comércio internacional e da instabilidade nos preços (Bayon, 2007; Ismeri Europa, 2009), para além do impacto das alterações climáticas em ecossistemas marítimos e costeiros frágeis. As RUPs
Dinâmica De Adoção Da Economia Circular Ao Nível Regional 149 necessitam, portanto, de modelos de desenvolvimento alternativos, focados na otimização do valor dos recursos naturais, e na utilização racional dos recursos, pelo máximo período de tempo possível, minimizando os resíduos e o lixo, o que nos remete de imediato para o conceito de EC. As RUPs devem preservar 3 tipos de capital (Pascal et al., 2023) para manterem os níveis atuais de desenvolvimento turístico. A manutenção do stock de capital natural, depende da disponibilidade de recursos, mas também da taxa de utilização, renovação e conservação dos mesmos, e da capacidade para operar dentro dos limites da capacidade de carga dos ecossistemas (DesRoches, 2018). Obviamente que a reciclagem de recursos evita a degradação do stock de recursos. De acordo com Pascal et al. (2023) a reutilização, renovação e reciclagem pode ser interpretada como um investimento em capital natural. A manutenção do stock de capital económico implica acesso a recursos naturais, e um sistema de governance que permita produzir bens e serviços que rentabilizem os investimentos, numa lógica sustentável. O aumento do stock de capital económico (leia-se por exemplo investimento no setor da hotelaria) depende da qualidade do stock de recursos naturais e da oferta de amenidades e outros equipamentos e serviços conducentes a experiências satisfatórias, dado a procura turística (e o investimento em novos estabelecimentos hoteleiros) assentar essencialmente neste último. O capital social, expresso através dos ativos intangíveis como uma visão e inteligência coletiva e nível de capital humano, afigura-se fundamental para assegurar níveis elevados de bem-estar na comunidade, e a capacidade de colaboração e estabelecimento de redes, input fundamental da função de produção (Anand e Sen, 2000), e sobretudo de decisões racionais entre stakeholders (Meadows, 1998; Kwok et al., 2019). Outro aspeto a ter em conta. Gössling e Rutten (2007) e Meili e Stucki (2023) mostram que o nível de rendimento regional expresso pelo poder de compra familiar e pelo volume de cash flows influencia a capacidade de adoção de inovações de uma região. Mais, maiores índices de poder de compra (e de PIB per capita), atraem mais mão de obra qualificada, capacitada para liderar a inovação ao nível empresarial. As ilhas Canária e sobretudo a Madeira exibem algumas lacunas neste respeito, como a tabela seguinte demonstra. Quadro 1: Dados chave sobre as Canárias e a Madeira Ano Canárias Espanha Madeira Portugal PIBpreçoscorrentes/€/hab 2021 19000 25500 19300 20800 € PIB/hab/média UE 74,51% 92,79% i/P 2000-2021 0,94% 2,24% 2,63% 2,45% tcma 2021 59 74 60 64 EU €/hab PPC 2021 20100 27000 22500 24300 € 2000 17500 17900 14000 15700 € Chegadas Turistas 1990 2265261 35325699 430530 8835198 hospedes 2022 13309928 133044709 1572230 27337455 hospedes 1990-2022 5,69% 4,23% 3,73% 4,13% tcma 2022/1990 5,876 3,766 3,651 3,233 Vf/Vi População 2022 2252237 47432893 251182 10352042 hab. 1990 1483529 38853227 256610 9995945 hab. 1990-2022 1,31% 0,63% -0,07% 0,11% tcma Área 2022 7445 505944 802 92226 km2 Chegadas/Área 2022 1787,767 262,963 1960,387 296,418 racio 1990 304,266 69,821 536,820 95,799 racio Chegadas/população 2022 5,910 2,805 6,259 2,641 racio 1990 0,655 1,100 0,596 1,131 racio Fonte: Dados Eurostat. Legenda: Vf/Vi (Valor Final (2022)/Valor Inicial (1990); i/P (valor na região i(Canárias; Madeira) em função do valor do país de referência P (País (Espanha; Portugal)); tcma (taxa de crescimento anual composta) O Quadro 1 demonstra que as Canárias e a Madeira exibem valores do PIB per capita abaixo da média comunitária, 59% no caso das Canárias e 60% no caso da Madeira. Dado que o crescimento populacional registado no período 1990-2022 é modesto, e dado que o crescimento no número de chegadas é significativo, a saber de 5,69% e 3,73% ao ano, não admira que a pressão em termos do número de turistas por habitante e Km2 tenha aumentado de forma significativa, e, portanto, e por arrasto, o consumo de recursos escassos como a água (IPCC, 2014). Os dados do Quadro 1 indicam que o rácio chegadas/população evoluiu de 0,655 (0,596) hospedes por habitante, em 1990, para 5,910 (6,259), em 2022, nas Canárias e na Madeira. Embora, o setor do turismo permita a ambas as regiões aliviar a “poluição da pobreza” (Sharpely, 2003, 248), a
Revista Portuguesa de Estudos Regionais, nº 70 2025, 143-160 150 expansão do mesmo registada nas últimas décadas afigura-se crescentemente insustentável (Majdak e Almeida, 2023). 4-METODOLOGIA Conforme indicado na introdução, faltam estudos ao nível regional, sobretudo no que concerne à ultraperiferia, no que se refere à EC (Ismeri, 2011a). Idem para estudos ao nível das preferências, motivações e barreiras ao nível do setor da hotelaria (Masi et al., 2018). Pelas razões expostas acima, na revisão de literatura, este estudo concentra-se em identificar o grau de adoção de uma série de medidas práticas (ex. adoção de “torneiras com temporizador ou ativação por sensor”) na área da EC, assim como a perceção dos diretores de estabelecimentos hoteleiros relativamente à importância da EC e à relevância das barreiras percecionadas, de forma a quantificar e caracterizar os contornos da adesão e das barreiras à adoção de medidas. Neste estudo opta-se por uma abordagem quantitativa, via questionário, para a recolha de dados, junto de uma amostra de hotéis de 2, 3, 4 e 5 estrelas, dado o interesse em obter valores indicativos e quantitativos da taxa de adoção junto de empresas que constituem um referencial para o setor. A amostra não inclui, portanto, unidades hoteleiras como pousadas ou unidades de alojamento local. A definição do processo de recolha envolveu três fases: design do questionário baseado na literatura, um trabalho exaustivo de forma a identificar o máximo de potenciais práticas (via inventariação das medidas aplicáveis de forma a obter uma visão global da dinâmica de adoção, numa perspetiva prática); recolha de dados; e análise e discussão dos resultados. Relativamente à primeira fase, importa referir que as questões incluídas no questionário resultam de questões previamente incluídas e validadas noutros estudos. A pertinência das mesmas foi adicionalmente validada com recurso à opinião de peritos e empresários do setor em Grã-Canária, com vasta experiência na adoção de medidas inovadores no campo da sustentabilidade ambiental, do que resultaram alterações pontuais na fraseologia e conteúdo das questões. A recolha de dados decorreu no início de 2022, em ambas as regiões. Dado que o processo de recolha envolveu com frequência um contacto direto com o diretor do hotel, constatou-se não existirem problemas relevantes de interpretação do conteúdo do questionário. O questionário inclui questões sobre as práticas na área da água, resíduos, e política de pessoal e RSC, áreas relevantes no contexto do setor hoteleiro, barreiras e razões para a não adoção de medidas, e questões relativas ao perfil das empresas, baseando-se em Menegaki e Damingos (2018), Florido et al. (2019), Rodríguez-Antón e Alonso-Almeida (2019), Rodríguez-Espíndola et al. (2022) e Rodríguez et al. (2020). Embora se dispusesse de uma base de dados com contactos do setor da hotelaria, as dificuldades na recolha de dados na fase inicial com base numa abordagem integralmente aleatória via envio de email, levaram os autores deste estudo a optar por uma abordagem mais pessoal através do reenvio de emails, junto com nota explicativa adicional dos objetivos da investigação e da relevância social da mesma, seguido de contacto pessoal, nos casos de respostas positivas. O processo de recolha de dados constitui, portanto, uma mistura do método probabilístico com um snowballing effect, dado ter sido solicitado aos diretores hoteleiros apoio no contacto com colegas. No total, considerando as duas regiões, foram obtidos 90 questionários. Trata-se de uma amostra relativamente reduzida (Masi et al., 2018), pelo que os resultados devem ser lidos como indicativos, mas próxima do número ideal de 118 questionários, tendo em conta a dimensão da população de hotéis, e suficientemente alargada para sustentar conclusões e recomendações (Sánchez Levoso et al., 2020). A análise de resultados inclui uma análise das taxas de adoção e atitudes dos diretores hoteleiros em termos de percentagem e de médias, mas também uma análise econométrica dos fatores explicativos das taxas de adoção. Neste estudo a variável dependente é definida como um rácio entre o número efetivo de medidas adotadas e o número máximo de medidas identificado no questionário para cada subárea. Dado que a variável dependente é definida como um índex continuo limitado pelos números extremos de 0 e 1, o modelo OLS não é apropriado dado admitir valores preditos negativos, nem a regressão beta, dado existirem taxas de adoção nulas e a 100% (Assmann e Ehrl, 2021). O modelo ´fractional logit´ permite modelizar variáveis-rácio (Ramalho
Dinâmica De Adoção Da Economia Circular Ao Nível Regional 151 et al., 2011), calcular efeitos marginais variáveis, e acomodar distribuições heteroscedasticas (Papke e Wooldridge, 1996), pelo que é selecionado neste estudo para identificar as variáveis explicativas da taxa de adoção medida como rácio. Em termos de variáveis explicativas consideramos dados relativos ao perfil das empresas, a atitude dos inquiridos sobre o seu grau de comprometimento com a agenda EC, e perceção sobre as barreiras à adoção. 5-RESULTADOS A amostra inclui 90 empresas no total. A taxa de adoção expressa pelo rácio medidas adotadas versus total de medidas, em quatro áreas diferentes, sugere avanços relevantes na área da reciclagem, com 65% das medidas adotadas, seguindo-se a área da energia e água, com uma taxa média de adoção de 48%. Medidas que respeitam à sustentabilidade de forma genérica (28%), e à qualificação do pessoal e RSC (26%), são executadas a um ritmo muito mais reduzido. No Quadro 2 podemos observar mais dados sobre o perfil dos inquiridos e das empresas e sobre a atitude dos inquiridos em termos de objetivos, motivações e práticas. Quadro 2: Estatísticas-chave da amostra Perfil sociodemográfico dos diretores de hotel ou equivalente Idade Media de 43,6 anos 36-45 anos (37,8%) Cargo 63,3% diretores Habilitações Académicas 83,3% com licenciatura Bacheralato (14,4%) Perfil dos Estabelecimentos Hoteleiros Nº de Quartos Média de 160 quartos 51-125 (27,8%) Nº de Camas Média de 331 camas 101-250 (27,8%) Antiguidade 25,2 anos desde 2011 (27,8%) Independente 36,4% independente 62,8% cadeia Modelo Gestão Propriedade própria (76,/%) Contrato de gestão (22,2%) Tipologia 4 estrelas (44,4%) 5 estrelas (23,3%) Mercado Tipo "Sol e Praia" (55,56%) Tipo Urbano (27,8%) Objetivos Exigência do tour operator Média de 3,022 dev. pad. = 1,349; “5” 16,67% Reforço da imagem de marca Média de 4,222 dev. pad. = 1,014; “5” 50,00% Responder à pressão dos clientes Média de 3,722 dev. pad. = 1,102; “5” 33,33% Redução de custos Média de 3,922 dev. pad. = 1,183; “5” 41,11% Estratégia empresarial Média de 4,089 dev. pad. = 1,067; “5” 44,44% Outras razões Média de 3,000 dev. pad. = 1,529; “5” 26,67% Motivações e prática Desenvolveu/aplicou medidas EC nos últimos 3 anos? (max 6) Média de 3.711 Grau de comprometimento com gestão da água e energia (1-5) Média de 3.911 Grau de comprometimento com reciclagem (1-5) Média de 4.100 Grau de comprometimento com sustentabilidade (1-5) Média de 3.822 Grau de comprometimento com meio ambiente (1-5) Média de 3.967 Taxa de adoção medida Água e energia (max de 27 medidas) 48% Taxa de adoção medida Reciclagem (max de 12 medidas) 65% Taxa de adoção medida Sustentabilidade (max de 17 medidas) 28% Taxa de adoção medida Pessoal e RSC (max de 15 medidas) 25% Legenda: Clas. “5”, indica a categoria máxima na escala de Likert. O perfil dos inquiridos aponta para uma média de idades de 44 anos, e para a licenciatura como background académico mais frequente. Relativamente às unidades hoteleiras, os dados sugerem uma média de 160 quartos por unidade hoteleira, com o predomínio do modelo de “propriedade própria”, e uma antiguidade no mercado a rondar os 25 anos. Relativamente às razões ou objetivos prosseguidos constata-se a importância do reforço da imagem de marca (classificação de 5, por parte de 50,0% dos inquiridos), seguido da relevância da EC na estratégia empresarial. A pressão dos clientes é moderada, com apenas 33,% dos inquiridos a considerá-la como muito importante. Relativamente às barreiras à adoção das medidas, na fase de implementação, constata-se serem
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