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A Habitação Poética: problematização fenomenológica do tema. Modos de ver e a invenção do real

Palmeiro, André de Medeiros

Abstract

A consideração do tema da Habitação Poética, implícito na sua génese holderliniana, e subsequente revisitação por parte de Heidegger, constitui o mote para uma problematização fenomenológica do mesmo, servindo-nos para tal efeito do magistério de Husserl e vinculados nesse processo à analítica de duas obras de 1962, A Habitação dos Dias, de João Rui de Sousa, e O Problema da Habitação – Alguns Aspectos, de Ruy Belo. Nesse trajecto, alicerçado no parti pris contra-metodológico do “rizoma” deleuziano, sinalizar-se-ão ainda, no espírito de aproximações semânticas, mas também intuitivas, aspectos presentes na poética de Carlos de Oliveira e Joaquim Manuel Magalhães, consagrados a uma reflexão mais ampla sobre o Tempo e o realismo em poesia.

Full text

A Habi ação Poé ica P oblema ização enomenológica do ema. Modos de e e a in enção do eal And é de Medei os Palmei o Disse ação de Mes ado em Es udos Po ugueses Se emb o de 2016 I Disse ação ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à ob enção do g au de Mes e em Es udos Po ugueses, ealizada sob a o ien ação cien í ica da P o ª auxilia com ag egação Paula C is ina Cos a, FCSH — Uni e sidade No a de Lisboa II NOTAS DE AGRADECIMENTO Pois é, ag adece … Também az al a e, não obs an e a ia o malidade que me conci a a azê-lo, não o aço con a iado. Há quem me eça uma menção. Aqui ai: Aos meus pais. Não oi ácil o ajec o, e não alo só des es dois úl imos anos. “Anda pe dido” pode se apela i o no quad o de uma ce a p axis omân ica, mas às ezes há que pa a e pensa . Vocês ajuda am-me (e ajudam-me) a azê-lo. À Ca ia, po e comp eendido o meu espí i o de e emi a e me e p opo cionado o espaço e a amizade necessá ias pa a que dele algo lo escesse. Ao Miguel, po que duma simples con e sa ele ónica pode b o a uma ideia, e de uma ideia pode b o a uma ase, e de uma ase… Ao meu i mão, pelo desen asco écnico que a enuou as minhas ansiedades de úl ima ho a. Aos meus amigos mais p óximos, po e em de “le a ” com um ipo insupo á el du an e um ano. À Uni e sidade dos Aço es que, no longínquo ano de 2010, me ez eg essa àquilo de que mais gos o. À No a, po me e inci ado a c esce ainda mais in elec ualmen e. E à p o esso a Paula C is ina Cos a, pela o ien ação pacien e e diligen e, e pela con iança que, semp e, deposi ou em mim. Um mui o ob igado a odos. III A Habi ação Poé ica. P oblema ização enomenológica do ema. Modos de e e a in enção do eal And é de Medei os Palmei o RESUMO PALAVRAS-CHAVE: Habi ação Poé ica, Hölde lin, enomenologia, João Rui de Sousa, Ruy Belo, izoma, Tempo. A conside ação do ema da Habi ação Poé ica, implíci o na sua génese holde liniana, e subsequen e e isi ação po pa e de Heidegge , cons i ui o mo e pa a uma p oblema ização enomenológica do mesmo, se indo-nos pa a al e ei o do magis é io de Husse l e inculados nesse p ocesso à analí ica de duas ob as de 1962, A Habi ação dos Dias, de João Rui de Sousa, e O P oblema da Habi ação – Alguns Aspec os, de Ruy Belo. Nesse ajec o, alice çado no pa i p is con a-me odológico do “ izoma” deleuziano, sinaliza -se-ão ainda, no espí i o de ap oximações semân icas, mas ambém in ui i as, aspec os p esen es na poé ica de Ca los de Oli ei a e Joaquim Manuel Magalhães, consag ados a uma e lexão mais ampla sob e o Tempo e o ealismo em poesia. IV Poe ic Habi a ion. A Phenomenological App oach o he Theme. Ways o Seeing and he In en ion o he Real And é de Medei os Palmei o ABSTRACT KEYWORDS: Poe ic Habi a ion, Hölde lin, phenomenology, João Rui de Sousa, Ruy Belo, hizome, Time. The conside a ion o he heme o Poe ic Habi a ion, wi h an implici Hölde linian genesis and a subsequen e isi a ion by Heidegge , is he s a ing poin o a phenomenological app oach o i , using o his pu pose Husse l’s eachings and bound in his p ocess by he analysis o wo 1962 wo ks: A Habi ação dos Dias, by João Rui de Sousa, and O P oblema da Habi ação – Alguns Aspec os, by Ruy Belo. In his cou se o ac ion, based on he coun e -me hodological pa i p is o he Deleuzian ‘ hizome’, we will also highligh , in he spi i o seman ic bu also in ui i e app oaches, aspec s in he poe y o Ca los de Oli ei a and Joaquim Manuel Magalhães, de o ed o a b oade e lec ion on Time and ealism in poe y. V ÍNDICE In odução 1 I. Quad o Teó ico – Concei os, En oques, Ap oximações 7 1.1. A habi ação do mundo 28 II. A Habi ação dos Dias e O P oblema da habi ação – Alguns Aspec os; espec os de uma lei u a c uzada 37 2.1. P imícias 38 2.2. Dados [mui o pouco] biog á icos. Algumas pis as 42 2.3. A p edicação da mo e e o “habi a poe icamen e”. Ideias. Imp essões. Poemas 49 III. O empo da consciência como Du ação e o Ins an e Poé ico 75 IV. Realismo, ealismo(s). A ma iz de um P incípio 87 Conclusão 95 Bibliog a ia 101 VI A p esen e disse ação de mes ado não segue, po opção exp essa do mes ando, e no espí i o da libe dade de escolha p opo cionada pela ins i uição, o Aco do O og á ico de 1990. 1 In odução O «plano de e dade» de que qualque ese, indis in amen e conside ada, de e ia pa i , inoculado, na sua base, de p e ensões objec i is as, é aquilo que an as ezes des ói, ou az alui , edi ícios p enhes de boas in enções. Aplica , ou cou , odas e quaisque p emissas de um mé odo cien í ico que goza, ab ini io, de uma inabalá el consis ência, egis ada essa nos melho es compêndios da especialidade, pode i de encon o (e não «ao encon o») a uma disse ação que cong egue, enquan o objec o de es udo e demais a iações, ques ões do o o li e á io. O pe igo esp ei a, po an o. Daí que, epis emologicamen e alando, endamos a caminha na p esen e disse ação (como nou as disse ações ou a igos de na u eza simila ) sob e e i ó io minado. P ossegui po o alizações, isando somen e, e de modo obs inado, a con i mação ou in i mação de uma o mulação de pa ida (seja ela mais ou menos abs ac a ou habi ando aquilo que se cos uma designa po « ealidade social»), pode á conduzi -nos a um ho izon e me apoé ico en edian e e, po en u a, já consumido, i.e., ex in o, exau ido. Adop ada oi, pois, e de o ma o mais diligen e possí el – ainda que o suspei e, pouco hábil -, a p emissa con a-me odológica, ou seja, um mé odo como eixe de encon os e desencon os, ó ão de uma «nascen e» e, mui o possi elmen e, sem uma « oz» onde epousa as suas pe plexidades e a ausência de ce ezas1… Se ão an as as ince ezas, espe emos que não as «imp ecisões», que co emos (que “co o”, um eu colec i o ou um nós pessoalizado é semp e um modo so is icado de alija o peso das emp ei adas) o isco de mui as de i a em nenhumas, i.e., esumindo, um abalho des a na u eza é uma coisa g ande demais pa a supo a longos e inabi ados silêncios. Acei emos, pois, o isco e pa amos na senda da li e a u e as an assemblage deleuziana, um locus especí ico no qual as “linhas de up u a” pul e izem a ideia de uma «con inuidade» lógica, poucas são as coisas que no uni e so gozam de um pon o de pa ida e de um pon o de chegada p é-di ados (pensemos na ideia de Deus, no ápei on dos p imei os g egos, e no quão a bi á ias pa eciam [pa ecem] se ais noções); ainda 1 “In a book, as in all hings, he e a e lines o a icula ion o segmen a i y, s a a and e i o ies ; bu also lines o ligh , mo emen s o de e i o ializa ion and des a i ica ion. Compa a i e a es o low on hese lines p oduce phenomena o ela i e slowness and iscosi y, o , on he con a y, o accele a ion and up u e. All his, lines and measu able speeds, cons i u es an assemblage” (Deleuze, Gua a i, 1987 : 4). 8 einsc e ê-la no empo, eabi á-la, se nos quise mos a e à me á o a holde liniana (Heidegge , ****). E já que alamos de “habi ação”, de um espaço que comp eende a díade clausu a- abe u a, de um subs an i o que deno a e cono a com uma quase imedia ez, que subjaz à p óp ia ideia de ex o, ou como nos di á Agamben (1999), “da ob a à linha”, à unidade mínima de signi icação, o ex o, o poema, o e so habi a e é habi ado po pala as, pala as essas que, sendo ou não as do quo idiano, mais ou menos e udi as, mais ou menos a i icialmen e cons uídas ( oda a pala a suge e um a i ício, uma quase magia), de êm pala a poé ica semp e e quando ci cunsc i as a um dado cons uc o poé ico; elas anscendem o seu legado me amen e demons a i o/exposi i o, elas, ainda que na em, ainda que explici em, eme em semp e a um “pa a lá” da linguagem, que é ambém um pa a lá do eal do qual pa em; anscendem a sua na u eza simplesmen e ep esen acional (objec ual) ao habi a em o poema. E no poema, nesse uni e so cons ic o de signi icações – an as ezes assigni ican es -, o que se busca, ao im e ao cabo, é uma qualque e dade, não a e dade p o idencial, não a e dade e ém de imedia ismos é ico-mo ais e não, ambém, aquela e dade dos discu sos que e-ci am sub specie ae e ni a is. Aquilo que se busca, numa demanda an as ezes desespe an e e impiedosa, é a e dade do p óp io poema, sendo que o poema en o ma um mundo p óp io, ele unda aquilo “que ica” e o que ica é linguagem. Não é, con udo, numa ope ação de deci ação do mundo que se de e esco a o abalho do lei o de poesia. Le poesia eque uma pe manen e eac ualização do lido, uma ee ocação quase semp e ad absu dum da pala a poé ica, como se de g i a an as ezes Eu eka! nos apa ecesse em ca ne e osso essa mesma en idade ca nalizada. Não se busca, pois, a essência, busca-se as ísce as, os endões e o sangue do poema, o poema como um ac o cons an emen e eencenado, um “poemac o” (1961), como nos suge ia em empos He be o. Impo a, no en an o, não nos a i ela mos à ideia de poema como ealidade ci cula , ele de e ab i -se como um “ izoma” (Deleuze, Gua a i 1987), es abelece linhas de di e gência mais que de con e gência, de e assal a -nos po odos os lados, sob essal a -nos, desaloja -nos dos luga es de pode da c í ica, de e o ça -nos a habi á- lo do mesmo modo que habi amos um co po amado; habi ando-o ao in és de possuí-lo, ealocando a céleb e injunção do “eu e o ou o” à dimensão lúdica da lei u a. Cap a o 9 poema, o poe a e oda a malha concep ual que dele essal a de modo c ia i o, i.e., concen ando no poema – no que ele nos diz e no que ele não nos diz – oda a nossa ene gia, igo e igo . E po que le poesia, hoje, não pode ica e ém da analí ica o mal, dela não de endo ambém p escindi la o sensu, a ese que me p oponho desen ol e de e es abelece linhas de ensão e de con ágio en e os poemas e os poe as que nela ousa ei e oca . O P oblema da Habi ação – Alguns Aspec os, de Ruy Belo, A Habi ação dos Dias, de João Rui de Sousa, alguns poemas de Sob e o lado esque do, de Ca los de Oli ei a, e, mui o em pa icula , P incípio, poema de abe u a de os dias, pequenos cha cos, de Joaquim Manuel Magalhães5, são essas as ob as (opus), e pa es das mesmas, que, exigindo de quem as lê uma a u ada concen ação (de pe se), enciono jus apo , omando como a p io i algumas cons an es/in a ian es que julgo globalmen e p esen es. Desca ando po o a quaisque e e ências biog á icas, a isca ia dize que se no am nes es au o es, e nas ob as/poemas escolhidas em pa icula , su icien es pon os em comum suscep í eis de alimen a a cu iosidade des e lei o . Os uni e sos singula es de cada qual, e o poe a maio é aquele que é capaz de ansmu a o alo da linguagem de odos os dias, ao im e ao cabo po odos usada e sujei a a uma quase impe cep í el descoisi icação, não in alidam, c eio, uma lei u a po “ asos comunican es”, ins au ando semelhanças que ilumina ão dissemelhanças, na es ei a dos “jogos de linguagem” p opos os po Wi gens ein (1995), esqui ando-se, desse modo, à lógica sis ema izado a que an as ezes p eside à na a i a me apoé ica e que ce ceia, nesse mo imen o, os discu sos (des)au o izados. Encapsula os qua o au o es sup aci ados em de e minadas capelinhas é uma en ação bem conhecida. Cla o que classi ica Ca los de Oli ei a como um neo- ealis a que e á e oluído no sen ido de um despojamen o da pala a, an ecipando a “poé ica da suspei a”, ou en ilei a Joaquim Manuel Magalhães na es ei a de um “ eg esso ao eal”, do qual e ia sido a au o, ajuda a en e e algumas linhas de o ça in eg ado as da análise poé ica. Dize que a poesia de Ruy Belo esul a de uma expe iência agonizan e de pe da de e e enciais eológicos ou que João Rui de Sousa é um au o no qual se p essen e um o e eio dico ómico, eu o ia-dis o ia, cidade-campo, desca ac e ização- pe ença, odos esses pon os são assinalá eis nas ob as dos mesmos, em odos eles coabi am igu as de p esença-ausência dos pon os a ás en ilados. A complexidade de um poe a não se esco a, po ém, em abelas classi ica ó ias, esul a, isso sim, de uma 5 Ruy Belo, 1962, João Rui de Sousa, 1962; Ca los de Oli ei a, 1968; Joaquim Manuel Magalhães, 1981. 10 es anha combina ó ia de elemen os nem semp e edu í eis a uma imagem acabada, a um os o bem conc e o e de inido. Po udo isso, a ança nes e abalho ep esen a, an es de mais, a consciência de que al a anço se az sob e udo de ecuos, de emissões, de “poei a cósmica” (Sagan, 1984). Fincando-nos no amen e em Deleuze, um dos p incípios cons i u i os do “ izoma” é o da “ca og a ia” (1987). Ca og a a uma emoção, a sua exp essão, po in e médio de “ up u as assigni ican es”, ou seja, sendo capaz de indicia , mais do que assinala , pon os de con ac o – necessa iamen e he e ogéneos. E is o po que não há um cen o, há desmul iplicação de ias. Todos os discu sos são suscep í eis de se em assimilados a um ou o. Fala de Ruy Belo en endendo o c uzamen o que nele se dá en e a impessoalidade mode nis a e a au o e e encialidade ex ema, a igo osa lucidez e um excesso de consciência engas ados em opos p é-mode nos. A angús ia do homem mode no que comp eende o seu “luga ” no mundo a a és da in uição de um qualque “não-luga ” p imo dial. Uma dialéc ica compos a de ing edien es ísicos e me a ísicos, cuja aspi ação ma icial é con igu á el na noção de “mo e”. Mas de que mo e nos ala Ruy Belo no p imei o e so de Quasi Flos? De que “ e dade”? Pa a que desespe ada u opia nos apon a o Ca los de Oli ei a de Sob e o lado esque do? Pa a a consciência da pala a como “mundo”, como o luga po excelência de uma poesia compos a de sinais, de imp essões, de uma quase sines esia animada pela excelência no manuseio da e amen a poé ica… Pa ece que o que Ca los de Oli ei a nos que dize é que o “di o” dos poemas se esp aia mui o pa a lá deles, num en e ece de suben endidos, de alusões sublimina es, de apa en es na a i as donde se desp ende, não já uma isão do mundo, mas uma is a aé ea sob e o mesmo; “que balança enho pa a pesa sem e o a minha ida e os sonhos de quem passa?” (1968, in 1982). A u opia do “desenho in an il”, das imagens la en es como num s ill cinema og á ico a duas dimensões, e, “numa pu a suspensão de c is ais”, a ida, a expe iência do “exis en e” depos o nes e “mapa” an as ezes ilegí el que ai con ac ando com o eal (o qual é semp e “cons ução”). Es a nossa expe iência do quo idiano, em du ée, is o é, o a das abs acções que nos localizam no empo, é jus amen e um modo de habi a mos os dias, um an o à imagem do homem p é-clássico, da in uição p é- ilosó ica dos elemen os, da con empla io, de uma hie a quização eminen emen e senso ial. E assim o “dia nasce, ib a, muda, co e” 11 e o poe a, mais do que es emunha (não se a a de uma “poé ica do es emunho” a de João Rui de Sousa), ai na co en eza di isando momen os de pânico, de ince eza, de um medo – quase genésico, di ia -, e ou os de pu a aleg ia, de eencon o, de pu a e- ligação (há uma eligiosidade quase p imi i a em João Rui de Sousa, a qual deco e, em idên icas p opo ções, de um ins in o de sob e i ência e de uma agudeza pe cep i a). O poe a é o que é no mundo que lhe é dado i e e nas pala as que lhe a ul am aos dedos e o azem dizê-lo, dizendo-se – com a mes ia possí el -. E há, no en an o, an a coisa lá o a, i.e., al como em Ruy Belo, an a coisa que es á no mundo e o descon o ma, o “desconce a”, que a capacidade de lhe sob e i e eside, sob e udo, no modo como o “co po i ido” de cada poe a, indi idualmen e conside ado, sendo que acobe ado nele es á semp e um homem ou uma mulhe , se consegue ausen a , habi ando os dias a eboque do exo cismo das pala as. Se mode no… se -se mode no, e aqui a desinência nominal az oda a di e ença, é, em si mesmo, um sinal da mode nidade; pa ece au ológico (Bo ges diz-nos que ala é inco e em au ologias), mas não é (1998). A mode nidade enca ada, não an o como p ocesso, mas como es ado p essupõe a u gência em se ou pa ece mode no, em es a na c is a da onda, em ompe com qualque coisa que possamos imedia amen e o ula de obsole a ou anac ónica. Se -se mode no, nas suas p imícias, é a au ope cepção da up u a, do co e, di ecionando a acção, e aqui o se mode no já en onca na noção de mode nidade, pa a um im de e minado alçada nas noções de p og esso, desen ol imen o, pe ec ibilidade, en e ou as. Pode íamos aqui menciona o “espí i o absolu o” de Hegel, o “cogi o” ca esiano, a “sociedade sem classes” ou a ase de “capi alismo cogni i o”, e mo cunhado po Agamben (1999), em que hoje nos encon amos. Mas se mode no, ou es a mode no – numa pe spec i a p ocessual -, é ambém ab aça um de e minado es ilo, i e o jamais i ido, choca o s a u quo es abelecido. Daí o modo como Baudelai e classi ica a o homem mode no, impu ando- lhe semp e uma qualque alha, uma ligei a de o midade; o es ilo ligado à i ência do di e so, à up u a, en im, à angua da (Baudelai e, 2006). E se pensa mos nos mode nismos ligados à cena a ís ica, de ompan e su gidos no dealba do século XX, in e io izamos apidamen e es e conúbio en e mode nismo e angua da. A necessidade de ul apassa as o mas clássicas, de asga p ecei os es abelecidos, ez com que na li e a u a, na poesia, na pin u a, no ea o, e em an as e an as mani es ações a ís icas, 12 se ins i uísse o he e ócli o, se ede inissem on ei as, se anscendessem os concei os de gos o, de ha monia, de con o midade, e ou os. É cu ioso a en a no ac o de que, com o simbolismo, com os simbolis as de inais de oi ocen os, não só se caminhou umo a uma dinami ação do clássico como se ecupe ou ( ee ocou) uma es é ica omân ica, ligada sob e udo às ases áu eas dos oman ismos alemão e inglês. A impo ância da noção de “génio”, o esc i o maldi o, o en an e ible emido po udo e po odos; igu as como Rimbaud, Malla mé, Lau èamon ou Baudelai e, ou do ou o lado do A lân ico, alguém ão pa adoxal e inusi ado como Edga Allan Poe, con ibuí am decisi a e inques iona elmen e pa a a p o unda ans o mação nas es e as es é ica e, como não, é ica (ou cul u al, num sen ido mais ab angen e) que ha e ia de con agia o p imei o qua el do século seguin e. Mode no, Mode nidade, mode nismo(s), é ao longo desses eixos que, es ingindo o âmbi o à poesia ei a em Po ugal, p a icamen e odos os nomes ele an es se mo em. A alia oda a e olução da poesia po uguesa pós-O pheu sem a con on a com ão imp essi o legado é impossí el. Se -se mode no e a, mais do que uma ine i abilidade, uma missão, ainda que e es indo o mas na apa ência di e gen es. A ensão P esença-Neo-Realismo é disso um bom exemplo. A he e onímia pessoana, o con li o eu- o ou o ão p esen e em Sá-Ca nei o, a eu o ia c ia i a de um Almada ou as expe iências de ida lancinan es de uma Judi h Teixei a ou de um An ónio Bo o imp egna am a nossa li e a u a, e de um modo imedia amen e ape cebí el a nossa poesia, de um abismo de mudança, de uma e igem que incendia ia oda a p odução poé ica daí em dian e. E a ine i á el, di -se-á hoje, a endendo ao espí i o do empo (Zei geis ) que inunda a odo o mundo ociden al (dos con li os a uma escala global ao Tea o do Absu do, do jo o demen e e genial de um Nie zsche à p o ecia eudiana do “inconscien e colec i o”). Pa a além de impossí el, ninguém p e endia, em consciência, esqui a -se a essa dinâmica, ao p ocesso em cu so. Tudo pa ecia muda a um i mo que se impunha aos p óp ios pon ei os do elógio, habi a a-se a mode nidade com uma u gência nunca is a, concebia-se a “no idade” como o p incípio ins au ado de que nada es agna ia. Mas já Nie zsche, e depois Ba aille (Habe mas, 2010), nos ale a am pa a uma qualque es e a pe dida, uma a khé, uma “o igem”. O e e no e o no, a impossibilidade de uma his o iog a ia linea , le an a am dú idas ao mesmo empo em que celeb a am a mudança. 13 A mode nidade au o élica e au ossu icien e, o gulhosa e impa á el, inha, a inal, os seus p óp ios eios. Jo ge de Sena há de nos lemb a (1973/77) que ao longo dos empos hou e semp e “que elas en e os an igos e os mode nos”, hou e semp e quem in oduzisse g ãozinhos de a eia na eng enagem da His ó ia; ambém a au oceleb ada mode nidade con inha esses gé menes. A dimensão eleológica da mode nidade (como p ocesso) ha e ia assim de, no decu so do século, so e inúme os e ezes (bas a ia lemb a mo-nos de Auschwi z). Como concebê-la como p ojec o acabado quando oda ela se es ilhaça a em chão de má mo e? Mode nidade, mode nismo, mode nismo(s), os á ios “ismos” en ão su gidos iam ocando de luga a um i mo a assalado . A ín ene consciência da mudança, se em si mesma é um sinal do mundo mode no, e es e-se de múl iplos ma izes. Da olição i esis í el da angua da às endências neo-classicizan es, a única e dadei a cons an e da poesia po uguesa con empo ânea e a O pheu. Impossí el se o na a ugi ao desman elamen o do sujei o, à plu ipessoalidade, à dispe são sencien e. Não mais se podia se Român ico, Ba oco, Realis a, a é Simbolis a, como no passado. A p o unda au oconsciência, inundada de uma ex ema lucidez, p ecisa a da “pala a poé ica” como palco de encenação do “eu”. Um ingimen o à la Pessoa, não assen e na noção de men i a, assen e, isso sim, num p incípio de con a- e osimilhança. Não é já o ajus e da pala a ao eal, a a-se, ao in és, de soma eais ao eal, concebendo-o a es e como es e a mo en e e pe sonalís ica. Não mais a elação sujei o-objec o, en endida na sua pu a ecep i idade, a á sen ido pa a aqueles que, equipados com a e amen a poé ica da pala a, edi ica am o seu p óp io uni e so. O indi íduo, pois, a indi idualidade na sua sac ossan a pulsão, a consciência aguda de se es a “só” no mundo. Os “moinhos de en o” quixo escos de i ando dis opias p o undas, da bu oc acia ao ascismo, da acionalidade écnica como ins umen o so is icadíssimo de dominação do homem (Habe mas, 1993), essa mónada pe dida. O “poema” como mundo em si mesmo de inha, pois, uma necessidade, uma ce idão de pe ença. O sonho da mode nidade, o sonho do homem mode no, delia-se nos seus p óp ios abismos, daí que, sem es anheza, mui os dos mode nismo(s) se opusessem à p óp ia Mode nidade, a qual, concebida enquan o “es ado”, de e minou – e con inua a de e mina (?) – o nosso modus i endi. O poema é esse espaço de libe dade em que a pala a se libe a da sua e e encialidade mais imedia a, do seu halo de e osimilhança me amen e me onímico que a deixa a e ém da i ania do signi icado. 14 Quando se diz “o poema é” en enda-se “o poema de e se ”, “o poema de e caminha pa a…”; ou melho , o poema “pode se ”, i.e., o poema ab e-se ao mundo, sendo, no en an o, ele p óp io um “mundo”, um edu o p i ilegiado de (a)signi icação. Pensando num poe a como Hölde lin, in ui-se imedia amen e a “poesia como edi icação de uma mo ada” (Becke , ***). O ulgo me apoé ico de um homem p ema u amen e de as ado pela loucu a o na a me á o a quase imagís ica: “o homem habi a poe icamen e nesse en e empo da mediação en e duas ausências” (Becke , ***)… Deus e o p óp io homem. O aze poemas pode á se , en ão, o modo p i ilegiado de lida com a ausência de uma igu a eden o a e, como não, com a p eca idade do homem, de um “se pa a a mo e” no eado po um qualque ins in o p imá io de sal ação, ao im e ao cabo um simulac o da edenção celes e. Mas pode á não ha e , oda ia, edenção, e é nessa ac u a, nesse sal o, que se ins i ui a condição pós-mode na den o de uma mode nidade mo ibunda. A consciência da agilidade dos pila es em que assen a o concei o de mode nidade, o p og esso, o desen ol imen o, a acionalidade, udo isso pe manecia ca i o de um espí i o de necessidade, da compulsi a e impe iosa u gência em acaba a ob a: o “ im da his ó ia” (Fukuyama, 1992), a es indo osse qual osse das suas es es, o homem ligado ao pilo o au omá ico do de i c onológico, con ic o da sua p esença e subsequen e au ossu iciência. Nada disso con inua( a) a aze sen ido, a condição pós- mode na ou a coisa não é que a consciência da não-linea idade do empo, da alência da his o iog a ia, da pe cepção de que udo se eduz a uma na a i a, a uma es ó ia de embala con ada aos adul os em sono p o undo. O p e ixo “ pós”, longe de indicia um qualque “depois de”, suge e uma p opos a de adicalização da p óp ia mode nidade. P i ada do seu sono p o undo, da eu o ia do p og esso ine i á el, das lendas da abas ança, a mode nidade ans o ma-se em palco comunica i o, dialógico, i ine an e, ine en emen e con li ual. Cla o que udo is o pode se (é) abalado pelo se e o seu con á io, a condição pós-mode na é a expe iência da alha, do azio, da pe plexidade, da ausência; e é po isso que o clássico, o adicional, o an iquado nos apa ecem ago a, nesses pós-mode nismos la en es e imp ecisos, a es idos de pas iche, pe dida oda e qualque au a, es aziada oda e qualque o igem (Benjamin, 2006). A His ó ia o na -se-á legí el, ou a ez, numa “ago idade” libe a, que do espa ilho do p og esso ine i á el, que da en opia da no idade pe pé ua, do bulício de um p esen e con ínuo cuja maio pe da oi a da capacidade de se le a si 15 p óp io como en idade. Habi amos, pois, po en u a, uma adicalização da acionalidade mode na, um i acionalismo mili an e e ege a i o… É cu ioso no a como a poesia, o poien poé ico, oi egis ando essa len a, po ém inexo á el, incu são no o po da hipe - ealidade; nuns casos abandonando oda e qualque p e ensão es é ica, nou os e es indo-se de o e nos algia po um qualque pa aíso pe dido, po no as “A cádia’s” i idas, o a como moda, o a como ã esis ência. Com a e osão dos discu sos de legi imação, al p ocesso e a, quiçá, ine i á el e, não obs an e udo isso, coexis em hoje lado a lado poé icas de excepcional alo , caldeado es e na e igem da cele idade quo idiana, mesclada com um in o mado conhecimen o de ou as e as, de ou as no mas, de ou os “ aze es”, com poé icas o gulhosamen e “pob es” (Magalhães, 1999), nuns casos di adas pelo escassíssimo alo dos seus ep esen an es, nou os pela hipe -lucidez agónica de um empo, no qual nem já a “pala a poé ica”, como ansmu ação dos discu sos de au o idade ei icados, nos pode sal a . Impo a no a como ol amos semp e aos mesmos ocábulos, sal ação, edenção, mo e, o abismo que sepa a a nossa condição da necessidade de anscendência o nou- se, em si mesmo, insupo á el. E já nem seque se a a do génio maldi o do in de siécle, cul o da au omu ilação como o ma es é ica sup ema, como placebo da ideia de Deus já de un a; a a-se da ama ga consciência de que ambém o “não luga ” que nos é dado habi a não nos pe ence. E daí, po en u a, o cinismo, a i onia inconsequen e, a masca ada elação com um mundo que se odeia só po que é dado odiá-lo. É nessa al a de mediação en e o p óp io ex o poé ico e o(s) eal(is) que ele ins i ui que se insc e e mui a da, ainda assim, boa poesia que se ai esc e endo. É Heidegge quem nos diz, alando-nos de Hölde lin (****), “Only whe e he e is language, is he e wo ld, ha is, he cons an ly changing cycle o decision and wo k, o ac ion and esponsibili y, bu also o a bi a iness and u moil, decay and con usion”; só na linguagem nos apa ece, dizendo de ou a o ma, é a linguagem que con oca o mundo, o qual, an es des e momen o undado , pe manece opaco, embo a nele sejamos. E é na linguagem poé ica, po excelência libe a da comp essão do eal ins i uído e no ma i o, ma cada pelo de aneio do indi íduo que, p i ado de habi a os dias como qualque homem ou mulhe comum, esculpe pelas pala as, quais adobe semp e p ecá io, a possibilidade de habi a “um mundo”, o mundo “ac ualizado” pelo igo da di a pala a, que algo acon ece. Es e “mundo” não diz p op iamen e as “coisas”, mas, isso sim, o “luga ” que elas ocupam no 16 poema. E é nes e e e no e o no, nes a “pa ilha de ozes” (Nancy, *****), ambém com o lei o , que o poema, e o p óp io poe a, o sujei o ans o mado pela e na acção poé ica, se “dá”. O io de missangas que se desp ende de udo o que já oi di o a é aqui é eno me e, po en u a, inabi á el. No undo, a mode nidade é ainda o empo que habi amos, é ela que con inua a en o ma os nossos aciocínios, di ia mesmo a wel anschauung que nos é dada compa ilha . Se o que ica é “ undado pelos poe as”, seguindo Hölde lin, o que ica é, en ão, a consciência da inconsciência, um pe pé uo jogo de con á ios a esso a qualque sín ese, a um elos. O homem abandonado à sua so e po Deus (deus) e po odas as panaceias subs i u i as, a humanidade, o p og esso, o p óp io amo , ans o mado em “ alo de oca”, em ins ância come cial (Luhmann, 1997). Za a us a (Nie zsche, 1994) no opo da mon anha sem isão idimensional, Godo (Becke , 2001) epe indo a espe a ad in ini um. A despe sonalização de que Pessoa nos ala a, ala ancada num edi ício es é ico de inegá el se iedade e alo , é hoje i ida sob a apa ência do eino do indi íduo, po enciada po uma qualque democ acia digi al/ i ual. Vi ualmen e nos sedamos con a a do de exis i , comp ando a iden idade a p es ações. Já não se a a de uma díade eu- o ou o, es alamos pe igosamen e, c eio, pa a uma dinâmica do “eu sem o ou o”. A descon iança com que se olha pa a a poesia nos dias que co em, pa a a poesia em odas as suas mani es ações, esco adas ou não na pala a poé ica p op iamen e di a, conduz-me p on amen e à seguin e e lexão: não es a emos nós a hipo eca os “luga es” de beleza que nos sob am, em nome de uma qualque eudaimonia pe manen e? A pala a poé ica despida de qualque ins in o ans o mado pode á con inua a se pala a poé ica… Não co e emos o isco de, ime sos numa i ude assép ica e o gulhosamen e a- e e encial, nos e mos, de epen e, desabi ados? A e e ência a um pa a-lá do ex o exis e semp e, o poema não habi a o espaço side al, imune a odo e qualque ci cuns ancialismo. Ele é, em si mesmo, um mundo e não es abelece com a ealidade (seja lá “ela” o que o ), com a mundanidade, uma elação de dependência. Não pode é igno a que, a despei o de se cons i ui a si mesmo como uma “ ealidade”, pa e semp e de uma si uação dialógica, i.e., o ex o poé ico dialoga, que com ou os ex os (sendo que aqui en endemos o “ ex o” numa pe spec i a la a), que com e e enciais ex a- ex uais – o mundo lá o a -, os quais, e es a é a mudança de 17 pa adigma que impo a salien a , se ão in e io izados, mas igados e “ eac ualizados” no locus p i ilegiado do poema. Não é po acaso que um au o como Gas ão C uz nos ale a pa a a necessidade de “ eg essa à ealidade” (C uz, 2008), de es i ui a e e encialidade à poesia. Tal não ep esen a um e ocesso pan- ep esen acionalis a ou iminen e má-consciência de quem, endo ei o pa e da ge ação da Poesia 61, i esse, num ápice, in uído um di ó cio da exp essão poé ica com um qualque espaço público. Não, não oi esse o ac o; a impo ância da Poesia 61 pa a o despojamen o da pala a poé ica oi undamen al. Os ícios da enume ação caó ica à la su ealismo po uguês, da ei icação lexical do Neo- Realismo, inham deixado ma cas p o undas no Modus Ope andi de uma poesia enquis ada pela necessidade de subsis i num ambien e polí ico e social p o undamen e ad e so. A Poesia 61, ou au o es como Ruy Belo, He be o Helde , ou mesmo alguém como Fe nando Assis Pacheco, ala anca am, cada qual à sua manei a, um modo di e so, e menos e ém de capelinhas, de olha pa a o edi ício poé ico. A poé ica da suspeição, po um lado, a en a ao es aziamen o p og essi o do alo semân ico das pala as, exau idas da edundância da e icácia linguís ica, o igo expe imen al a an la le e de um He be o Helde , con ic o das i udes exp essi as de um imaginá io poé ico ainda, de ce o modo, ibu á io de expe iências su ealizan es, po ém, libe o do seu ideá io mais he mé ico e/ou dogmá ico, ou a apa ição de um au o como Ruy Belo, cuja p opos a poé ica exp essi amen e singula con inha, em po ência, mui o do sen ido da ase de Gas ão C uz de “ eg esso à ealidade”; uma poesia, a de Ruy Belo, com um ulgo desc i i is a imp essionan e, pejada de p eocupações p osódicas e de um om agónico, quase on ológico, sob e udo la en e nas duas p imei as ob as6. O diálogo in e io de um homem ma cado pela noção de “Queda” (Ruy Belo oi um dos “ encidos do ca olicismo”) o na o magis é io beliano simul aneamen e anac ónico e desespe adamen e ac ual; mui o di e en e, po exemplo, da “poé ica do es emunho” de um Jo ge de Sena, eminen emen e ma e ialis a e de cunho senso ial (sensual…), di-lo-ia mesmo dia ís ica. Ainda assim, esse je ne sais quoi de ealismo ai, paula inamen e, imp egnando a poé ica de um au o , Ruy Belo, que, não obs an e os pon os de pa ida da sua poesia, nela semp e (quase semp e) aduziu um comp omisso de época. Di ia mesmo que os 6 Aquele G ande Rio Eu a es (1961) e O P oblema da Habi ação – Alguns Aspec os (1962) 24 Já Roland Ba hes nos dizia, em “O P aze do Tex o” (1974), que “a sub e são em de p oduzi o seu p óp io cla o-escu o”, po que um ex o nunca é es é il ou assép ico. E Habe mas (2010) ale a pa a o ac o de que só “uma a e que se consome em ac ualidade pode aze a sal ação «à e dadei a ca ência e misé ia in e io do homem mode no»”. Numa Mode nidade, quiçá adicalizada, que ai en e ando, g adual mas consis en emen e, odos os esquícios de di indade, Deus, o Homem, o Sujei o, o P og esso, o que “ ica”, en ão, pa a se “ undado” pelos poe as, se indo-nos do céleb e e so de Hölde lin… Quan as p opos as não o am já alinha adas dos amosos anos 60 a é aos nossos dias. O “silêncio”, a ase nua e c ua, a in ansi i idade absolu a dos sen idos, a en opia «ci acional», le ando a in e ex ualidade ao ex emo da pu a e simples colagem de agmen os. Ou, po ou o lado, o eg esso em o ça do au o , a desc ição desencan ada de um p esen e con ínuo despido de edenções, e elações ou e oluções. O absolu o isomo ismo en e poema e poe a, o dia ismo ans o mado em egis o escab oso de um quo idiano hipe subjec i ado – e al ez, po isso mesmo, cada ez mais despe sonalizado e de as ado pela consciência de que já nada ale a pena, nem seque a mo e. É como se e o nássemos aos al o es do Al o Roman ismo ou de um Simbolismo a alis a, mas sem a con apa ida do suicídio ou da au omu ilação. A espos a, po ém aqui não se a a de espos as mas de imp essões, pode á p o i das pala as simples e pe cucien es de Philip La kin (******): “a poem is be e based on some hing om «unso ed» expe ience han on ano he poem o ano he a ”. Não obs an e La kin plasma g ande pa e da sua poesia em o mas adicionais, a e dade é que os seus poemas de i am quase exclusi amen e da expe iência da ida mode na. É nes e encon o, ou desencon o, pe manen e com o eal, mediado pelos p incípios de “obse ação” e de “au en icidade”, que se pode joga a aiz mesma de uma p axis poé ica sem deuses, i.e., absolu a e adicalmen e secula izada. Daí a pe inência das pala as de Elio (2000), quando es e nos diz que o abalho do poe a não es á em “encon a no as emoções”, ou as de Habe mas (2010) ao ala -nos de uma “a e que se consome em ac ualidade”. Nós, hoje, não somos mais nem menos “humanos” do que omos ou, po en u a, se emos. As pala as, não obs an e a mu abilidade semân ica a que se encon am sujei as, são, eg a ge al, as mesmas, o palco adequa-se às 25 ci cuns âncias, mas o seu me idiano pouco ou nada muda. E, in e endo a o dem dos ac o es, di íamos, com Belo (1969), que a pala a poé ica é semp e uma “pala a no a”, po que ealinhada, ee ocada, eac ualizada numa auscul ação cons an e do que muda e do que pe manece. Em poesia são “as pala as (que) dizem o homem” (Élua d, in Guima ães, 2002) e não o homem quem se se e das pala as. Mui o pa a lá do me o psicologismo, que ende a suge i de i ações mais ou menos cons an es pa a de e minados sin agmas, uma abo dagem di a enomenológica p opende, não a inaugu a nó eis in e p e ações, mas a escapa -lhes, i.e., na es ei a da já en ilada “in uição o iginal”, a poesia enca ada à luz da p opos a enomenológica é, undamen almen e, uma in e ogação, não me amen e subjec i a, nem obs inadamen e “objec i ican e”. A en e-se que nunca se alou aqui de essência, de p opósi o ou escopo do “ a e”, como se ele, in es ido de um es anho pode , cons uísse/edi icasse uma casa de undações o almen e inexpugná eis; nada disso, a in uição enomenológica p ocu a cap a o de i poé ico na sua ansi i idade, ou seja, na sua es anheza, incomple ude, pa adoxalidade, impossibilidade. Po que ao poe a de ém impossí el equipa a -se a “Deus”, ou seus sucedâneos cunhados a “d” minúsculo, a imposi i idade poé ica adica, unicamen e, no p ocesso, na cons an e, po ém pa óxica (po que p o undamen e dolo osa), demanda da pe ec ibilidade. A ín ima consciência de que o mundo é p ima iamen e do in oduz a necessidade poé ica; o poe a, que não anspo a nenhuma lama pa icula , em, no en an o, a aguda pe cepção do mundo em ol a e sen e, e is o em Ruy Belo é pa icula men e emen e, a do ci cundan e como sendo ambém a sua do , a qual deco e de uma maquia de so imen o que lhe é dado expe imen a . Não enciono u di nes as páginas nenhuma eo ia da u gência/eme gência da poesia; é jus amen e em unção da sua au onomia, do seu igo au o élico, que a “pala a poé ica” ende, não a «mima » o mundo mas, ao in és, a ins i uí-lo. O “mundo”, se pensa mos bem, só exis e enquan o co olá io da nossa expe iência, e de que dou o eículo nos se imos com an a p on idão senão de pala as? Pala as essas que, expos as à e osão do quo idiano, eclamam so egamen e no as pala as, pala as «ou as» di adas pelo eme gi de, semp e ino ado as, “in uições o iginalmen e dadas” (Husse l, 1989), nascidas elas não de um me o eixe sensi i o mas de um «insondá el», e o que há de mais insondá el do que a condição humana, ap io ismo consciencial, a qual nunca é p odu o de uma só cabeça, pois que ime sa no mundo dos enómenos 26 (sensi i os, acionais, imagís icos) é combus í el p e e encial de oda a imaginação. O Homem como “medida de odas as coisas”… Nunca o cha ão de P o ágo as coube ão bem como nes e e(i)minen e eenquad amen o do “ eal” no discu so poé ico. Po isso, ol ando a Élua d, as “pala as dizem o homem” na exac a dimensão em que o “ undam”, e não po que es e seja um p ocesso de ago a, é, isso sim, um p ocesso de semp e, um “e e no e o no” dos deuses que e am quase humanos po que es a e a a sua o ça. O “eu e o ou o”, a bipola idade que as mi ogonias ajuda am a explica , não pelo mé odo do escla ecimen o, do enligh nemen , mas p ojec ando somb as, silhue as, cend ando o espaço em ol a da incomple ude, que nou a coisa não adica senão na mo e; e é po isso que a “habi ação” poé ica é, po excelência, ágica. Po que não esponde, po que não isa (po não o pode ) unda a dimensão esca ológica da con o midade a ins; e ela é, além do mais, ágico-mode na, é como que uma “ e a de as ada” pelo e eno seco da secula ização, o qual, ao ma a Deus, e oda a pa a e nália explica i a que o mesmo ence a a, enclausu ou o homem na “absu da” (abs usa…) i ência de uma di indade em 2ª mão. Habi a o “mundo”, e habi á-lo poe icamen e eside na conside ação das po encialidades in ini amen e combina ó ias da linguagem, passa a se , nos al o es de uma “mode nidade” que se diz a si mesma, quase uma impossibilidade. A pala a deixou de pode se olhada como me o ins umen o de dominação do espaço ci cundan e, ela, no plano poé ico, ende pa a um “ní el ze o” de exp essão (imp imindo, bem mais do que exp essando/comunicando). O ágico- mode no esul a, ou ossim, da in uição de um “ azio” – a elação de dependência en e a linguagem e o mundo (da qual o homem, o «poe a», se ia o seu mediado ) oi ucidada. A linguagem, ao ins i ui um “mundo”, ende a deli os aços, as ma gens de “dizibilidade” do mundo ísico, do locus empí ico. Supe ou-se, desse modo, a “objec i idade”, se a en ende mos no plano da plena co espondência do “di o” com a sua ep esen ação, an o mais que, a isco dizê-lo, as pala as nada ep esen am a não se a elas p óp ias, uma ez que ao nomea em objec os do mundo ( ísico, espi i ual, in elec ual, e c…) es ão semp e longe de lhes esgo a o signi icado, i.e., de emos olha pa a as pala as como ence ando em si mesmas a es i pe da mu abilidade, ine en emen e me amó icas/me abólicas; as mesmas deco em de um naipe de ope ações abs ac as, naipe es e que, e ou a coisa não isa, in en a “a enua ” a es anheza/pe plexidade do homem «achado» no mundo. Re e enciámos a ás a ideia de que as pala as “ins i uem” o eal, c iando-o, e al acon ece, jus amen e, 27 po que o homem não em acesso ao “em si” das coisas senão na qualidade de “ enómenos”. A ”in uição o iginalmen e dada” (Husse l, 1989) desencadeia uma modalidade de conhecimen o eminen emen e “ enomenal”, a con a io sensu de uma absolu a acionalidade ou de uma subjec i idade sem mais. Como não nos é dado acede ao “se ” das coisas, e ambém não podemos, po ia do mé odo cien í ico, conhece e dadei amen e algo no plano da anscendência – e aqui não alamos de Deus, mas do objec o do conhecimen o - aquilo que o a de nós se encon a -, é-nos dado, isso sim, isualiza o enómeno na sua essencialidade, como algo que cap amos in ui i amen e (só o pu o cep icismo se a en u a a nega ce as e idências, ainda que nem odas essas e idências habi em a ma e ialidade ou cou ). A “ edução gnosiológica” husse liana, en o mando a céleb e epoché enomenológica, con ida a uma suspensão empo á ia do juízo que pe mi e a “au op esen ação” (Husse l, 1989) das “coisas” pe an e nós, dian e daquele(s) que, conspicuamen e, obse a(m); eside, nes e pon o, o ce ne da e lexão já ence ada nes a ese ace ca do poien, o “ aze ” da poesia. A poesia, ou o poe a ( ambém ele acoplado a uma bios, mas is o, pa a já, não passa de um isco) consubs ancia-se nesse in e mezzo, numa espécie de hia o en e a objec i idade e a subjec i idade, pelo menos no que conce ne à poesia “mode na”. Ela adica, pois, a ac i idade poé ica, numa espécie de deslumb amen o, e o poe a, nela engas ado, é como que acome ido de uma «despossessão»; o poema, aquele conjun o de pala as, de sinais, las o de imp essões e de in enções, não mais se esco a numa auc o i as pessoal, é «engolido» pela linguagem, pelo modo como es a se in e sec a (quase isiona iamen e, à manei a dos mís icos) com o enómeno, e com o “en e”, na sua mais absolu a nudez. 28 1.1. A habi ação do mundo Casas pa a habi a a ealidade Pho oma on & Vox Vemo-nos, en ão, en ados a dize que a poesia é a “casa”, a “mo ada”, habi ada pela pala a an e io a oda e qualque mediação. O homem é, se quise mos segui o mesmo ilão semân ico (e como são pob es – e insu icien es – as analogias), um habi áculo, o espaço onde as pala as es agiam, se en ol em, comp imem e se dis endem. Po esse mo i o, o poema comen ado à laia de in en a iação de sen idos úl imos não exis e, é pu a p e ensão. O anscu so do poema, o luxo que dele deco e, es á (e de e es a ) pa a lá do conhecimen o e, po conseguin e, da comp eensão e do “en endimen o”. Ao ins au a a sua p óp ia azão de se , o móbil do poema é o p óp io poema, in e cep ado e “ac ualizado” po quem com ele oma con ac o, o iginando, assim, ans e ências sémicas, no as pe plexidades, es anhezas e en anhamen os e, quem sabe, no os poemas. Como nos é di o, a páginas an as, po Hölde lin (1959) “Se o mes e os assus a,/ Pedi conselho à g ande Na u eza”; os jo ens poe as, os aspi an es a c í icos, odos eles (nós…) nos imos, subi amen e, p i ados de ce ezas, daquela ce eza o iginal que nos incula aos «po quês» da exis ência, daquelas ce ezas de «segundo g au» que alaciosamen e nos ga an iam a in eligibilidade (i)media a do ine á el/insondá el. Sabemos, hoje, que es amos sós. En egues, poe as, c iado es em ge al, à, es anhamen e designada, solidão c ia i a, po en u a condenados a uma espécie peculia de os acismo (o solipsismo). Pa a obs a a essa agonia, ab e ia os seus e ei os, sus en amo-nos na capacidade que sob ele a udo o es o: o dom de e ; e ele é udo pa a um poe a. Todo o es an e es á “pa a lá”, po ém, “com” o homem - é-lhe ínsi o – que a isque palmilha os igno os caminhos da “ lo es a de símbolos” (Baudelai e, 1992), nela se pe dendo. Esc e e poesia, o ges o pu amen e ísico de dei a no papel lai os das expe iências que nos são dadas i e , pode se en endido como um ac o de co agem. Independen emen e das conside ações ecidas a p opósi o do con as e en e “sujei o poé ico” e “sujei o biog á ico”, a poesia é, em úl ima ins ância, um ges o eminen emen e soli á io; a “pala a poé ica”, ao con á io daquilo que se possa pensa , é 29 mui o menos dissimulada do que ou as “pala as”. Não obs an e o seu ca iz media o, an as ezes assigni ican e, a “pala a poé ica” ende, em si mesma, a ab i mui o mais as ma gens de signi icação. Es e apa en e pa adoxo eside nas po encialidades do não- imedia amen e exp esso ou ep esen ado. Assume-se, logo à pa ida, que o “mundo” não pode se ap eendido no espaço ísico do “co po” do poema, e é po ia disso que o poema “ iaja”, se ala ga, se se e de uma plêiade de ecu sos que, se num p imei o olha suge em obscu idade, ci as, a enigmá ica solici ude do signo, i i icam – e ac ualizam – a complexidade da já ci ada expe iência do mundo. Tendemos, espon aneamen e, a conside a de e minadas poé icas como ilegí eis, inap eensí eis, como se de uma “pala a” o a do mundo se a assem, nomeamo-las “ azias” de signi icado, demasiado anco adas na expe iência subjec i a, no es anhamen o indi idual de um “en e” em ace do mundo “lá o a”. P osseguimos, pois, na con usão en e o “objec o do conhecimen o” e o “conhecimen o” que nos é dado e de ce as coisas, dos é énemen s (San-Payo, 2003) que, ao habi a em o mundo, nos “habi am” ambém; e udo is o se p ocessa num plano ou o que não o do me o subjec i ismo pe cipien e, mui o pa a lá da ulga a psicologizan e. Os “ enómenos” são aquilo que g a i a à nossa ol a, um pouco à imagem da “poei a cósmica” de Ca l Sagan (1984). O “objec o” não agua da pacien emen e que um dado sujei o, a ilhado com o a senal do mé odo cien í ico, deduza de um qualque ge al, de um “mundo de o mas” p é-exis en e, as pa icula idades que nos in o mam; não, é p ecisamen e no seio da inexequibilidade do “objec o em si”, em úl ima ins ância do p óp io Deus, ele mesmo a pe soni icação do que es á “ o a” do homem e sob e ele, impe ando, que nos mo emos em pu a es upe ação, pe plexidade e deslumb amen o. E, no en an o, é-nos dado “ e ” coisas, expe imen á-las, in e ogá-las, in eg á-las, es anhá-las... E nesse «acon ece » é o nosso “es a no mundo”, não como sujei os pa icula es mas como pa e dele, agmen o, que é di isado nas pala as que nos “dizem”. Já não é, pois, o mime ismo ep esen acionalis a de mui a da má icção, e da du idosa poesia, que eme ge. É a “pala a poé ica” na sua dimensão de abe u a, de in e ex o, a é, e como não, de hipe ex o, de con ocação de discu sos «apo é icos», e en ualmen e en ópicos, os quais, longe de olda em um qualque signi icado, uma qualque “ e dade”, ala gam o âmbi o des a, azendo-a a e ei o po in e médio da «indizibilidade» das pala as. Há uma ase de Jean-Luc Nancy (1997) que exp ime com acuidade mui o do que a é aqui emos suge ido: 30 O poema, ou o e so, designa a unidade de elocução de uma exac idão. Essa elocução é in ansi i a: ela não eme e ao sen ido como a um con eúdo, ela não o comunica, mas ela o az, sendo exac amen e e li e almen e a e dade (Résis ance de la Poésie, 1997) O a, a e dade, aqui a emos uma ez mais como axioma deco en e de um p ocesso; é a e dade do poema, a e dade que ele ca eia, é a e dade ace cando-se, seman icamen e, da noção de «au en icidade»; e eis que a ul a o desa io obsidian e de “pensa com o poema”, ao in és de “pensa ” ou de “le ” o poema. Ele de ém, en ão, um espaço p i ilegiado de encon os e desencon os. Ele nada “comunica”, como se de um ex o echado se a asse, como se uma mensagem nele i esse, ob iga o iamen e, de es a con ida, explíci a ou implici amen e. Nessa medida (o poema, o ex o) é um uni e so singula , e, como al, limi a-se a “se ”. Todas e quaisque conside ações que possamos aze deco em semp e do modo como nos posicionamos ace a ele, da o ma como o olhamos, dos mundos-ou os que ele con oca. E, assim, nos sen imos nascidos “a cada momen o/ pa a a e e na no idade do mundo”9, incapazes de echa os olhos e ingi que nada emos; po isso nos sen imos, an as e an as ezes, a eba ados pela linguagem poé ica, po ela ques ionados, quando não endidos ao que po lá pe passa, a “ ida”, como a dos “nómadas”, mudando de “casa no odo da na u eza” (Hölde lin, 1959). E dá-se o caso de não pode mos nomea os “po quês” dessa sensação, de não a consegui mos aze in ei a ao mundo e encaixá-la no nosso quad o de e e ências. A poesia não é bigge han li e, ela é a ida na sua in aduzibilidade, na sua in ansi i idade, a “habi ação” desejada e, po en u a, não habi á el pelo Homem; “ eliz mo o em i”, apa ece-nos a dado passo em Hölde lin, num pasmo incon ido ace a udo quan o o odeia, ao que lhe é dado expe iencia . E, no en an o, numa exo ação “Aos Poe as Jo ens”, “não ensineis nem desc e ais”, esc e e o poe a alemão; pe manecei em pu o es ado de “suspensão”, a époche como dínamo explosi o do “acon ece ” poé ico, o sal o elino pa a o e eno das “e idências”, da « idência» … O Homem, e ém da sua condição, onde essumb am a incomple ude, a p eca idade, a impossibilidade do conhecimen o “de si” – o homem é semp e elação, e só nessa pendência ele ealmen e «é» - es a ui-se como um “se pa a a mo e”, se quise mos epega a sen ença heidegge iana (1992). Se pa a a mo e no sen ido em que es a es á semp e p esen e; a expe iência da mo e, implicando semp e um alheamen o (só 9 Poema II de O Gua dado de Rebanhos. 31 podemos e a expe iência da mo e de ou em…), é um momen o undado , pe pe uamen e undado , uma ez que, ao epe i -se ad in ini um, ee oca semp e a e apa de que pa e. Es e aspec o es á bem isí el na ob a de Ruy Belo, em pa icula no li o de que nos i emos ocupa , “começo a ac edi a na mo e nessa mo e/ que ão pe o de mim e ão mo al se deu”, e a sua in e io ização, “mas semp e mais que odos o mo o sou eu” (Belo, 1962, in 2000). Sendo, em si mesma, a “negação” de udo, o ciclo da mo e só se comple a quando o i en e a inco po a como sendo a sua, i.e., esca ando as espos as, p epa ando-se e “p og amando-a” na medida do possí el. Também em João Rui de Sousa isso anspa ece, “Dia a dia amos umo à mo e/ sem co agem de a e de uma só ez”. Mo o Deus, en e ados os “deuses” do ânsi o ine á el en e a humana p eca idade e a di ina necessidade, es a-nos a “mo e” como “casa po habi a ”, como dimensão absolu amen e eal no bojo da p óp ia ealidade. E ou a ez Hölde lin: “Mas a nós oi-nos dado/ Não epousa em pa e alguma”. Já não se a a de nenhum pa oxismo, ou de um es ado de dú ida la en e. É a plena assunção, c eio-o, do absu do da condição humana, a ida como “a mo e em lumes b andos en e os dedos” (Sousa, 1962, in 1983). A essência da poesia, da poesia em si mesma, concomi an emen e conside ada “es ado” e “p ocesso”, é a linguagem; julgo que aqui já ha íamos apo ado jus amen e a a és da enunciação desse pon o; e izemo-lo, como é ób io – e isí el -, se indo-nos de pala as, pois que dou a o ma o pode íamos e ei o… “O mais pe igoso de odos os bens” (Heidegge , ****) à disposição do Homem e, no en an o, não lhe pe ence, esse «bem». Só a ele se acopla em es ado de “con e sação” (****), só lhe é ina a, a linguagem, enquan o eículo de in eligibilidade. Mas es a mesma in eligibilidade não oco e mecanicamen e, não é assegu ada pela me a exis ência da “linguagem”; es a, enquan o e amen a, es á ali, mas é um pouco como o ogo que P ome eu oubou aos deuses pa a da aos homens; a linguagem é, simul aneamen e, aquilo que nos ap oxima e dis ancia do ine á el, dis anciando-nos mais (quase i e e si elmen e) à medida que dela nos se imos de o ma me amen e u ili á ia. Ainda assim, o uso poé ico da linguagem, aquele que nos pe mi e nomea , ap oximando-nos dos deuses e das “coisas”, que es ando “ o a” de nós nos são dadas em pu o delei e, é ambém o que nos az « asa » as ma gens da insanidade, is o a as a -nos, pe igosamen e, da animalidade que nos az “se ” no mundo. “The simple mus be w es ed om he complex, measu e mus be opposed o excess” (Heidegge , ****)… Mas 32 como assegu a que udo isso é cump ido, se a na u eza da linguagem nos é ex e io ? Da signi icado ao inexp imí el pa ece a e a ese ada a deuses e semideuses, e, no en an o, o homem a ele aspi a, semp e aspi ou, aliás. Uma ez mais Heidegge sob e Hölde lin, a “essência da poesia é o undamen o de es a na pala a”, “being in he wo d”. É cu ioso, de um pon o de is a linguís ico – mas não só -, a simili ude en e “wo d” e wo ld. A “pala a” ins i uindo” o “mundo”; não se a a de nomeá-lo ou con ocá-lo, a a-se, isso sim, de osmose plena, de azê-lo “acon ece ”, daí que aça sen ido in oca , uma ez mais, a loucu a do poe a que nela (na pala a) se unde; o obscu an ismo, o abismo das e as de mui as biog a ias pode ia se aqui chamado à colação. Fiquemo-nos, con udo, em Hölde lin: “Full o me i , ye poe ically, man/ Dwells on his ea h” (****). O homem exis e em es ado de nudez absolu a dian e dos elemen os, o poe a, po ou o lado, é aquele que em “o alen o de o na e dadei a a ealidade” (Helde , 1995), mas, aí emb enhado, não passa do “imaginá io do imaginá io” (Helde , 1995), pois só pode unda “o que ica”, nada mais. Habi amos, po conseguin e, o mundo em es ado de pe manen e incomple ude, como que abismados. A poesia na sua essencialidade, a “mais inocen e de odas as ocupações”, a mais “ino ensi a” (Heidegge , ****), a as a consigo o mais pe igoso de odos o bens, a “linguagem”, o “deus” que nos in ende e que só podemos ma a no mais inimaginá el dos silêncios; quiçá a “loucu a”, quem sabe a “mo e”, no en e o inal de odas as aculdades exp essi as. Ou, po ou o lado, e di e en es p opos as con e gem nesse sen ido, des eg ando-a, à linguagem, des egulando-a e iolando-a com o i o de obs a à le a gia da «mesmidade». Imaginemos o excesso desc i i is a de Whi man (2003), o uso incon ido da pala a como eículo de in e pelação de um mundo que lhe apa ece dian e dos olhos em es ado “b u o”, indomá el. Toda a pala a nasce aí com uma insaciada u gência, quase como um su oco g i ado; é como se i éssemos ol ado às p imei as inqui ições cósmicas e udo nos apa ecesse como no o, po designa . O co po do homem, o da mulhe , os he oísmos diá ios. Pode á se es a, ambém, a a e a do enomenólogo no uso que az da “ edução gnosiológica”, a a e a do poe a que suspende o seu conhecimen o ca ego ial do mundo pa a nele se pode deslumb a e des i ga de cada ez que as pala as o isi am, desaguando do lado de lá do io que não cessa de co e ; “o io da minha aldeia não az pensa em nada./ Quem es á ao pé dele es á só ao pé dele”10– o io sem nome, o io que apenas é -. A u opia de um mundo em que udo 10 Do poema XX de “O Gua dado de Rebanhos”. 33 osse no idade, “a e e na no idade do mundo”, ao qual o homem pe encesse de modo me amen e na u al, espon âneo, e udo agua dasse a sua in e enção, não passa disso mesmo, de uma u opia. A despei o de odas as eg essões suscep í eis de se em ei as, a e dade é que a linguagem p é-exis e ao p óp io homem, ela codi ica o seu luga no mundo, es abelece p io idades, hie a quiza o espaço e o empo, adequa-o ou desadequa- o às si uações, em suma, quase que se pode a i ma que é a linguagem a in en a o homem, e não o in e so. Assim sendo, e pensando com o Wi gens ein das In es igações Filosó icas (1995), só há duas o mas de comp eende : po sinonímia, i.e., clonando as coisas e a umando-as em disposi i os de signi icação mais ou menos es anques, coisi icando-as e azendo-as ao edil da linguagem no malizada/no malizado a, ou emp egando ases que não possam se subs i uídas po ou as. Di o de ou a o ma, azendo uso da “pala a poé ica”, a al “pala a no a” pa a que nos ale a a Ruy Belo (1969). Assim sendo, es amos (con inuamos) na (e pela) linguagem. Se “habi a poe icamen e” o mundo p essupõe a ideação do silêncio, oda e qualque in ocação desse silêncio o anula au oma icamen e; es a ede de con adições em que nos emos ime sos de cada ez que en amos não pensa , de odas as ezes que p ocu amos apenas “sen i ”, subjaz à p óp ia mecânica do poema: quando Caei o esc e e “Passa a e, passa, e ensina-me a passa ”, é a noção de as o, de sinal, de imp essão digi al que ele enciona supe a . Mas se pensa mos bem, es a a e in ocada po Caei o é já, em si mesma, a “a e” símbolo, a a e maculada pela nomeação, e não a a e que, incógni a, es oaça ao longe. E é nes e seg edo que os deuses nos lega am, que os o áculos consag a am, que esidimos e “somos”, aquém e além do al “silêncio” a que aspi amos. Pode á, ambém, o silêncio se , em pa e, a al epoché husse liana, a suspensão de odo o juízo, a me a aculdade de “ e ”, e sem mais; mas, de cada ez que es e “ e ” se ac ualiza po sinais, algo se pe de: Na poesia, na u eza a iá el das pala as, nada se pe de ou c ia, udo se ans o ma: 40 o poe a é aquele que iu p imei o, o que não que dize que e á is o melho ; a poesia não co esponde, pois, a uma pu i icação da linguagem, mais do que cap a a p esença des a, enquan o “co po” – necessa iamen e pesado -, busca ela, diz-nos Blancho glosando Malla mé (1987), a “ausência uni e sal”, e assim, “quando udo desapa ece, o desapa ecimen o apa ece”, o uído de ém “ i mo” (Valé y, 1995), o silêncio ac ualiza- se. As eg as exis em, na u almen e, mui o embo a possam – e de am, ac escen o – se sujei as a ope ações de dessac alização (que não de de enes ação pu a e simples); elas exis em pa a si ua o poema num ambien e sin ác ico-semân ico-p osódico e g á ico mais ou menos in eligí el e, no en an o, a poesia ende a esqui a -se à p odução de sen idos, ende, inclusi amen e, a abs ai da me a p o usão subjec i an e; ela habi a, a poesia essa en idade, o espaço ini o do poema (com as suas ma gens e acabamen os) e o espaço, po encialmen e in ini o, da enomenologia in e p e a i a. Não p e endo, longe disso, cauciona a ideia de que udo é pe mi ido num e en ual ho izon e me apoé ico; há, con udo, um espaço-ou o da dimensão o mal/es u u an e de um poema ou de uma dada poé ica que se imensa, que se p ojec a pa a lá do ex o ixado, po ém semp e «den o» desse mesmo ex o ixado (e sabemos como mui os poe as se comp azem aleg emen e a e- ixa os seus p óp ios poemas, quando não a ein en a em uma di usa au o ia…). É ambém Valé y (1995) quem chama a a enção pa a o poe a como alguém que nos dá “a sensação da união ín ima en e a pala a e o espí i o”, como alguém que, ha moniosamen e, “pe mu a a imp essão e a exp essão”. A poesia é, pois, coisa complexa, “loucu a egulada”, quase que me ape ece dize , impo ando uma ó mula de Blancho (in Ama al, 1991). E “ egulada”, po que a poesia, al como o “en endimen o”, sem um ânimo «excessi o» não exis i ia, com um excesso des eg ado não chega seque a se poesia. Delimi a e ex apola são dois e mos que, aqui, se complemen am, alçando-se a um es a u o quase cien í ico. In e cala poesias, conside adas ou não como, em si mesmas, uni á ias, compo a uma dimensão de desa io. Impo a, po isso, começa po delimi á- las, po enquad á-las (e essa é semp e uma ope ação abs ac a, po en u a edu o a) numa ab angência epocal, a qual se aduz numa ine i á el con ex ualização sócio- biog á ica; po mais que desejemos ex i pa , numa e en e eó ico-me odológica, as ma cas mais e iden es de au o ia – a al assina u a -, do poe a, sujei o biog á ico, p op ie á io daquilo que esc e e, não podemos eximi -nos a esse enquad amen o. É com 41 ele, e a a és dele, que nos se á líci o pa i em busca de algo mais, do “acon ece ” da linguagem poé ica como “concílio de deuses”, deuses esses que na egam no ma b a io da impessoalidade e da a- e e encialidade. Ao sonda o e so», o poe a en a nesse empo de desampa o que é o da ausência dos deuses (…) Quem sonda o e so mo e, eencon a a sua mo e como abismo (Paul Valé y, 1995) E, no en an o, algo é inaugu ado com a pala a poé ica, algo a ibuí el a um “eu” de dupla acção: cen ípe o e cen í ugo, p ime o e “po i ”. É o p óp io poe a que, habi ando essa “in uição”, a qual de ém uma con icção no ac o mesmo da esc i a, se p ojec a pa a o a de si, o “neu o” (Blancho , 1987), o “in e locu o ” (Mandels ham, 2007), islumb ando, nesse desdob amen o, a sua p odução como se não lhe pe encesse. Um ex o é semp e a ibuí el a alguém, a uma “en idade”, po mais anónima ou colec i izada que ela nos pa eça. Pe ade, a má poesia, aquela sensação de não-singula idade, de «palimpses o», não obs an e se encon e quase semp e, ambém, na «boa» poesia, ecos de ou os “en es”11, de ou os ex os – e aqui “ ex o” apa ece-nos numa pe spec i a ala gada -. Não é p opósi o des a ese discu i a noção de au o ia, mas de emos e bem p esen e que, ao nomea es e au o ou es a ob a especí ica, ope amos uma edução, e é es a “ edução” que nos pe mi i á «cola » um ex o a um espaço ou empo. Po que udo aquilo que isamos numa ese des a na u eza passa, essencialmen e, po a uma ideias, concei os e imp essões. Não se a a, po conseguin e, de esc e e poemas em 2ª mão, de eesc e ê-los, e embo a nos pa eça pouco a ac i a a ideia de en euda poemas e poe as em ca ego ias explica i as, es e p imei o passo é semp e necessá io e, pa a além disso, ine i á el. Reinsc e e o poe a, a sua poesia, numa dimensão que se p e ende e dadei amen e c í ica, não edu í el a um simples «acho que»; e há, no en an o, semp e um «po quê» a p esidi às nossas escolhas. Pode se o lexema “habi ação”, podem se , ambém, a ca e a de in e - elações a es abelece en e dois au o es que publicam um li o no mesmo ano (1962), e idenciando, no ho izon e de di e en es p eocupações o mais (e a é on ológicas), uma con o midade emá ica, a qual, gozando inex ica elmen e da ma ca d’água de uma época especí ica, de i a, ou ossim, de uma de e minada in e io ização de emas/ emá icas undado as (e não undado as, ambém). 11 “O p incípio uni icado do mundo é o en e”, diz-nos A is ó eles (in Se e ino, 1985). 42 2.2. Dados [mui o pouco] biog á icos. Algumas pis as Uma le e pincelada sócio-biog á ica al ez nos ajude a anquea a en ada na “casa” onde “habi am” es es dois li os: Há, al como sucede com ou os au o es, um io condu o a pe passa o abalho poé ico (e, di ia mesmo, ambém o ensaís ico) de Ruy Belo. Alguns dos p incípios que no eiam, que o mal que subs ancialmen e, a sua ob a es a am já p esen es no li o de es eia, Aquele G ande Rio Eu a es (1961), de cujo í ulo se deduz imedia amen e uma minuciosa a enção à emá ica eligiosa (a pa i de um episódio do Li o do Apocalipse). A elação en e Deus e o homem, o aná ema de uma exis ência desencan ada pela p esença-ausência do e e en e di ino, a a enção ao quo idiano num quad o de simbiose discu si a. Ruy Belo, um dos “ encidos do ca olicismo”, como nos di á Jo ge de Sena (Guima ães, 2008), embebe as suas pala as desse sen ido úl imo, quase como uma esca ologia que po se sabe impossí el de ém necessá ia. Um co ela o objec i o dessa pe cepção da ausência de Deus num mundo desencan ado, ei o de ac os mundanos epe idos e gas os, é a ideia, longamen e expendida pelo au o , de que i emos pa a mo e ; a mo e como elos inescapá el, como “ abalho da e dade no mundo”, como “pe pe uidade do que não supo a começo nem im” (Blancho , 1987), quase plasmá el no opo Agos iniano da “ ida mo al ou mo e i al” (S o Agos inho, 1958). Deixamo-nos i num len o e i e ogá el abandono, an o mais que em mui o poucas coisas do mundo que nos sob a (e que soçob a) se p essen e aquela anscendência que nos possa guinda , homens p esos à sua humanidade, a ou o es ádio e olu i o. A impossibilidade da aleg ia como sin oma de um imenso desânimo e de uma in aduzí el sensação de pe da; o desgas e do co po, o desgas e da memó ia, o abismo imp eenchí el en e o eal calcado pelos pés e uma dimensão ou a que é mais p omessa do que ac o. Ruy Belo ei e a, a páginas an as, num om ma cadamen e con essional, sal agua dadas as de idas dis âncias en e o sujei o empí ico e o sujei o poé ico, o opos da is eza, da in elicidade, “Não emos o di ei o à aleg ia (…) E a aleg ia é uma casa demolida”, ou “É mui o is e anda po en e Deus ausen e” (Belo, 2000). O di ei o a se eliz a amen e coincide com a plena – e plana – lucidez dos poe as, e de Ruy Belo 43 em pa icula , o qual semp e soube alimen a a comunhão com a ealidade mais imedia a, lendo-a à luz de uma eligiosidade “ encida”, de mi os mais ou menos pessoais anco ados numa indesmen í el e udição e num labo in e subjec i o – com a li e a u a, com o mundo que o odeia – ex ao dina iamen e p o undo e imp egnado de “sen imen alização do mundo do i ido e do sen ido” (Magalhães, 1981). O mo imen o de des-signi icação da pala a co en e, da sua edução a me o signi ican e pa a, depois, essu gi em odo o seu esplendo no co po do poema é algo eco en e no au o . Pa a lá de odo o abalho ope ado sob e o es a o ónico, os longos encadeamen os me onímicos que ão en iquecendo uma imagem inicial, ala gando-lhe o campo semân ico a é que ela acaba po se deli , uma densa e o icização do con eúdo a a és de aná o as, ali e ações, polissínde os, epe ições, a apos o ização de um “ u” quase indeci á el, as enume ações apa en emen e caó icas de subs an i os, despojados de signi icação apa en e, pa a lá de udo isso de ec a-se em Ruy Belo a p eocupação em edi ica um imaginá io, em subs an i a algumas imp essões, em e lec i o seu (que é de odos – não há qualque umbiguismo na poesia de Ruy Belo) mundo, uma obsessão em dialoga com um in e locu o , equen emen e po oso e indes inçá el, mas que se á con igu á el numa eia de agmen os dispe sos da sua p óp ia ideia de Deus (uma oz ou a que eme ge das ca acumbas de um se mace ado pela p esença ausen e do in e locu o “desejado”). Daí que es a 2ª pessoa nos su ja a es ida de ou os an os nomes, o mas e a ibu os. Em O P oblema da Habi ação – Alguns Aspec os mo e-se de imedia o o aguilhão pa a o lexema “Habi ação”: Pa a além de mo adia ou domicílio, que pode íamos con e e me a o icamen e em “Mundo”, o “P oblema do Mundo”, ou desse “Mundo” em que nos é dado i e , su ge-nos ambém, em e mos e imológicos, o ocábulo “ins alação”, e a e dade é que o e bo ins ala suge e um p ocesso, uma incubação, a “p epa ação da mo e” em Ruy Belo, o eixo g a i acional con ido, desde logo, no p imei o e so do p imei o poema, “A mo e é a e dade e a e dade é a mo e”, ei e ado no poema IX com o seguin e ac éscimo: “Ao homem não oi dado nenhum ou o dia/e a ida é qualque coisa como nunca mais chega ”. Uma aci ada consciência da ini ude em almas ins uídas a ado a o in ini o. Daí o ins ala mo-nos, o i mo-nos dando con a, omando consciência da p eca idade que nos en ol e como num halo, num con on o pe manen e en e o desejo de sal ação/ edenção e a in iabilidade do mesmo. 44 Alguns Aspec os… Es e, se lhe quise mos chama assim, sub í ulo, adenda, nega uma cosmo isão acabada, dogmá ica e ci cula do mundo (ou do p óp io ex o, co po deixado em abe o); o au o con en a-se em da -nos pinceladas, um an o à imagem da d ip pain ing ai sinalizando es ígios de eal numa linguagem que oscila en e e e en es mais ins an âneos e di ec os, e idos num aseado eminen emen e p osaico (os i mos na u ais da ala), ibu á io de um objec i ismo de ma iz ealis a, somando imp essões a ás de imp essões colhidas do mundo ex e io – po ezes caó icas -, e um maio he me ismo ou des io na linguagem, po en u a deco en e de mui as expe iências mais a en as ao símbolo, a ingindo mesmo nalguns casos (não an os quan o isso) uma imaginação deli an e ci cun izinha de endências su ealizan es, de um au oma ismo de linguagem apa en emen e indeci á el. “Só o poe a se ica na linguagem. Os ou os passam po ela, se em-se dela, embo a possam se sensí eis a ela”, diz-nos o poe a no seu olume de ensaios Na Senda da Poesia (1969), ale ando- nos pa a o ac o de que a pala a poé ica é semp e “doença da linguagem” (Belo, 1969), mesmo quando ixada de um modo apa en emen e ep esen acional/ igu a i o. Os es ígios de eal de que alá amos acima não se esco am na subjec i idade do poe a, po mais que es e dela se si a pa a “es a no mundo”. Nas longas dig essões desc i i as (não necessa iamen e explica i as ou seque me apoé icas) que pe meiam O P oblema da Habi ação o “eu” su ge mui as ezes emb ulhado num colec i o impessoal, quando não desdob ado num “ u” que in e oga, num complexo binómio iden idade-al e idade, o seu luga no mundo. Ao p oblema iza o p óp io ges o poé ico, Ruy Belo á-lo omando em conside ação “o mundo e o empo em que se i e” (C uz, 2008). In ui-se, desse modo, o “a i ício poé ico” como coisa na u al, mecanismo que deco e de uma expansão (de um “excesso”, di -nos-á Ramos Rosa) desc i i a, de um a ã em dize as coisas com as melho es pala as, p esen i icando nesse ac o “uma p og essi a a enção a enómenos de ca ác e p osódico” (Na a, 2004), que nou os au o es se con unde com me a exibição, mas que em Ruy Belo consis em no p óp io ace e da poesia12. Há um eixo de p oximidade en e os p imei os abalhos de Ruy Belo e de He be o Helde . Não se e i ica, nos poe as ci ados, uma p eocupação pelo despojamen o da pala a poé ica, há uma supe ação do opos do silêncio; as pala as, com odas as suas ma cas e e enciais e simbólicas, con inuam a se o mecanismo p i ilegiado de con e sação 12 “O Uni e so poé ico é pois a dimensão excessi a da linguagem, aquilo que nela se di ige pa a ela, po um caminho nela exis en e que o poe a desb a a, simul aneamen e a aído e ameaçado pela agilidade do acesso” (in “P e ácio” a Valé y, 1995) 45 com o mundo. O encadeamen o imagé ico como “ on e c iado a” é algo que p oli e a nos dois au o es, não obs an e um maio imedia ismo da pala a em Ruy Belo, o qual con as a o emen e com uma cons ução de um léxico men al em He be o, a esso ao dinamismo dialéc ico do au o de “Boca Bilingue”. Falemos, ago a, de alguém menos «sondado». João Rui de Sousa az pa e da his ó ia, ou de uma das á ias es ó ias suscep í eis de se em con adas, da poesia po uguesa di a con empo ânea. Companhei o de ge ação de homens como Ramos Rosa ou José Ben o, de um Egi o Gonçal es, oi um dos undado es da e is a “Cassiopeia” (1955), andou pela “No ícias do Bloqueio” (1957 a 61), endo colabo ado em mui as ou as, nacionais e es angei as, oi celeb ado como neo- ealis a sem nunca o e sido, isi ou as ce canias do “Ca é Gelo” sem nunca nele e assen ado a aiais, an ecipou algumas das p eocupações es ilís ico- o mais da Poesia 61, da qual se e á ace cado mais numa pe spe i a de a inidades ele i as do que p op iamen e po um cla o espí i o de engajamen o. Foi, e é, de ce o modo, um poe a cujo pe cu so se o jou à e elia de um c edo especí ico, de um a do ibal. João Rui de Sousa nunca se coibiu de oma posição, mui o embo a enha conseguido e i a que a sua poesia se ans o masse em ins umen o de acção polí ica, em pu a mimesis ideada. P ocu ou semp e esqui a -se à adje i ação ácil, à ei icação concep ual, aos “luga es comuns”, ideológicos ou es é icos, de mui a da poesia sua con empo ânea; daí que, a despei o do om de denúncia ou a é das ap oximações o mais a um ou ou o campo do abe poé ico do seu empo, Rui de Sousa enha es u u ado oda a acção poé ica den o de uma lógica pessoal de in luências, de emissões, de amadu ecimen o de lei u as e de pe spe i as. Um poe a é, pa a além de ilho do seu empo, ilho da sua p óp ia consciência, e ém do seu p óp io co po enquan o “co po i ido”, enquan o o ganismo simul aneamen e abe o e echado, egulado po leis que lhe são p óp ias e indissociá eis de uma indi idualidade, de uma pe sonalidade, da o mação de um sujei o que é sencien e, mas ambém capaz de se au ope cepciona , e nesse jogo, a inal ão “mode no” (ou “mode nis a”, se p e e i mos), in eligi as malhas de eal que à sua ol a se ão ecendo, não enquan o quad o obje al que agua da pacien emen e a in e enção do sujei o, mas como ealidade mo en e. O poe a, o c iado , em suma, em de se capaz de in e p e a e de ein en a o eal, in e io izando-o; se á essa a sua e dade, a única suscep í el de 46 exis ência ma e ial – a das pala as la adas no papel. Po udo isso, João Rui de Sousa assume-se como um poe a capaz de ci cula po en e di e sos modos ou egis os poé icos, o lí ico, o discu si o, o me apoé ico, sabe oscila en e di e en es ons, o pessimis a, o eden o – sem cono ações eológicas ou seque mís icas – e o op imis a, sem nunca e sido p op iamen e luminoso. Cul i a, ao in és da i onia co osi a de um Sena, um c i icismo mais ou menos consequen e, ao in és da cla idade, apa en emen e apolínea, de Sophia, um ma izado chia oescu o, mui as ezes melancólico, mas quase semp e lúcido. João Rui de Sousa é o poe a de udo isso, das ensões la en es do homem consigo mesmo e com udo aquilo que o odeia, nunca esco ado, no en an o, numa qualque a i ude mís ica; diz-nos Pound que “ oda a a e au ên ica é ealismo”. “De uma ou ou a espécie”, ac escen a (in, Elio , 1985), e ac escen amos nós. João Rui de Sousa “habi a” a mode nidade com es es, po ezes, clássicas. Sabe se a esão quando necessá io. Engas a no âmbi o das p eocupações de uma mode nidade la en e, onde o ho izon e de possibilidades é eno me e as balizas o mais mínimas, oda uma plêiade de conhecimen os que emon am aos p imó dios da língua po uguesa como a e ac o lí ico; do omancei o galaico-po uguês à he ança pe a quis a, mui o disso pe passa no know-how poé ico de Rui de Sousa, algu es na demanda de uma e icácia linguís ica, a amen e cedendo, no en an o, a algumas das en ações da época – ou das épocas que João Rui de Sousa em sabido ocupa ao longo de décadas -: a en ação p osódica, que ende a sac i ica a díade signo- e e en e em nome de uma musicalidade assép ica, ou a en ação, ou in enção, in o ma i a, i.e., sac i icando o “belo” poé ico, à manei a de Kan , à p emência em dize ou aze passa um de e minado s a emen . Nada é ób io em João Rui de Sousa, não há um imedia ismo de linguagem que o ne o seu poe a mais acessí el, signi ique is o o que signi ica . Ainda assim, João Rui de Sousa não se es iba em nenhum he me ismo insondá el, mesmo nas suas in es idas su ealizan es não se de ec a a p esença de nenhum a cano, não há um ex a-poiesis a di a o uncionamen o do seu mes e . O poe a é ele mesmo o au o ; emb enhado na sua subjec i idade, não i e só, não habi a um “pa a além” do mundo, ele é (n)o “mundo”, ele es á no mundo, espi a-o, hau e-o, não podendo se , coisa que nos pa ece ób ia mas que nem semp e é assim ão anspa en e, alheio à sua p óp ia expe iência, se conc e o p o ido de azão e de 47 emoção, se complexo, inacabado, an as ezes desconce ado. Ao “desconce o do mundo” p é-camoniano, Rui de Sousa opõe o p oje o mul íplice da mode nidade. A ciência não pode explica udo, mas ajuda-nos a i e , a enquad a a nossa “habi ação dos dias”; e a linguagem é apenas mais um desses elemen os - a “linguagem numa linguagem”, di -nos-á Valé y da poesia (1995). Não, não se a a de nenhuma p o ilaxia i e a i a. T a a-se da mode nidade poé ica e dos seus e ei os e es ilhaços, do ago imenso com que essuma, ainda hoje, nas cane as daqueles que se a en u am po ela aden o. A é que pon o é inadequado con inua mos a le os au o es da segunda me ade do século XX à luz o uscan e da mode nidade de O pheu, dos binómios mode nismo e angua da, clássico e mode no, igu a i o-abs ac o, e c… Es a lógica dual, impo ada de um dado espí i o de época, az consigo uma cosmo isão (wel anschauung) mais ou menos echada, concen acioná ia, e ende a esba e as po osidades que uma p á ica poé ica ibu á ia, po ém libe a de O pheu, aca e a. A poesia de João Rui de Sousa in eg a-se, ela mesma, nessa linha de ensão; não que o com isso ad oga essa ou aquela up u a, mas ão somen e alinha a possibilidades, undi ho izon es. Já Jo ge de Sena ale a a pa a o ac o de que é mode no udo aquilo que, numa dada época, ompe com p ecei os p é-es abelecidos e se cons i ui como discu so-ou o. Não se con unde necessa iamen e com a noção de Vangua da, an o mais que as angua das endem a du a pouco e nem semp e deixam um as o po aí além. Exis em como ins umen o p o oca ó io, o emen e associado ao c escimen o exponencial dos meios de comunicação e de di usão. As angua das li e á ias en am, ao im de algum empo, num pe íodo de no malização e de ul e io aglu inação po pa e do sis ema, a é que, cíclica e i e a i amen e, são subs i uídas; é essa a sua na u eza. A mode nidade li e á ia é algo de mui o mais amplo e que não se esume a subs an i os agos, ais como no idade ou ac ualidade. Es á pa a lá da me a ep odução, dos ademanes da moda, da cap ação do ugaz. Tudo isso é impo an e, mesmo assim, az udo pa e de um g ande conjun o que mudou com o mundo e que con inua a muda o p óp io mundo. A “mo e de Deus”, a alência g i an e das panaceias do p og esso uni e sal, o édio esul an e da al a de espe ança numa elicidade se ida como “placebo” ou a dissipação de um sujei o au o élico, i ualmen e capaz de ocupa a aga 48 do “absolu o” No aliano/de Hegel, ize am esbo oa odo um edi ício cujos alice ces emon am ao Iluminismo, con ibuindo assim pa a a imposição daquilo que Habe mas designou po “Mode nidade a dia” e Lyo a d e Va imo (1988), en e ou os, de es angulamen o das “me ana a i as de ilus ação”, desaguando numa «impalpá el» “mode nidade líquida” (Baumann, 2000). No undo, udo is o az pa e, se pe ilha mos o pensamen o de Gilles Deleuze, de algo mais as o: a poesia como o ma de mapeamen o do mundo, como o ma de “o” dize de modos ou os suscep í eis de lhe ac escen a em algo mais, ao aze da ala uma «celeb ação», “uma pu a consumação i adian e que ainda diz quando nada mais há a dize ” (Rilke, in Blancho , 1987). Mapea uma emoção, um sen imen o ou um compo amen o, deixando espaço abe o àqueles blanke spaces ine en es à condição humana. “Li e a u e as an assemblage”, alamos do al eio izomá ico que ão bem pode á ca ac e iza uma qualque pós-mode nidade ou, se assim o quise mos, a e olução na u al de um mundo secula izado, ul a-in o macional, endencialmen e desigual e democ á ico e, apa en emen e, mais in ui i o do que nunca ( alamos do Ociden e e seus a abaldes, já se ê). O poe a é, na apa ência, uma mónada que i e sob o jugo de uma he ança demasiado angus ian e, e que dela se libe a en e ecendo um imaginá io p óp io, singula e incon aminá el. Falamos, po an o, nes a ese, de ozes «in e essan es», e in e essan es po que «in e essadas» no que as odeia, en osadas com a « e dade» que são e que conci am. 49 2.3. A p edicação da mo e e o “habi a poe icamen e”. Ideias. Imp essões. Poemas Ei-la… … a “mo e” oscila como um pêndulo no azio; e, no en an o, ela é pleni ude. “Somos seus con empo âneos o empo odo” (Blancho , 1987: 131). A hipe consciência des e pa adoxo, des e mo e -se en e uma p esença e uma ausência, o a o homem a um ce o abismo, do qual, mais do que expe ienciá-lo como algo «ex e io a si», az pa e. A mo e ad ém ao homem enquan o expe iência do mundo. «Ela» es á no mundo, ela é e i o ialização e des e i o ialização, cons i u i amen e “se ” e a sua negação. O modo como a “ape cebemos” de i a, semp e, de um «olha » segundo, é um e i e , um encena ; há como que um a es imen o, ainda que agónico e ágico e i enciado como pleni ude. É a angús ia do homem mode no, o qual, la ando de mo e em mo e, sinaliza o ocábulo como um mediado , i.e., a mo e i ida como despedida é « i ida» - epe ida – (não di ei odos os dias, mas…) mui as ezes na du ação (cu a ou longa de uma ida). E como is o me az ee oca , silenciosamen e, a igu a de San o Agos inho13 … Ela es á p esen e na essência mesma da e a (E de), mui o an es de se con ia , aloja ou ins ala num qualque co po especí ico. A “mo e” é um «pa imónio» i ido pelo homem. A expe iência da mo e de ém, en ão, undado a. Ela es á “aí” desde que nascemos, é o equi alen e a uma ma ca que nos osse imp essa no ac o de ges ação; sabemo-la, quando c ianças, po que a in uímos, dis an e, e no en an o ela é eencenada ad e e num nos espaços mais sociais e au o-celeb a ó ios do mundo onde nos achamos. “A mo e é a e dade”, não po que com a mo e se desocul e a alé heya dos g egos, não po que nela epouse, mais ou menos ado mecida, uma a khé, “a mo e é a e dade” po que nela es á insc i a a condição mesma daquele que a diz, “se pa a a mo e”, id e al e , a p óp ia e a ou a in e io izada como « a alidade», des ino e, po conseguin e, ambém, “p incípio”, se nos a i e mos à lei do e e no e o no. E en ão “a ida é qualque coisa como nunca mais chega ”… A p esença da mo e, da mo e como 13 “Quan os dias não passa am já pa a nós e pa a nossos an epassados pelo dia e e no de que gozais e dele ecebe am a exis ência e a du ação!” (in Con issões, 1958). 56 mais um sinal”, como se ao e mo da jo nada qualque coisa subsis isse, qualque coisa po que lu a , pela qual i e . “O dia nasce, ib a, muda, co e”, in ui-se o mo imen o, um luxo he acli iano que udo muda e, po en u a, ans o ma. Tudo ib a em Rui de Sousa: o mundo mine al, o mundo na u al, animal, o p óp io «símbolo» é qualque coisa que se en e ece de conc e o, “a cama, o co po, o símbolo, a oupa”; quase que ape ece dize que alamos de uma a iação em ês ac os, e no in e io de cada ac o, como num á omo, dão-se subdi isões cada ez mais pequenas e (in)signi ican es. Desenham-se já em A Habi ação dos Dias uma sé ie de pequenas u opias que hão de acompanha o poe a ao longo do seu pe cu so; po ém, udo é cíclico, logo cada ciclo espi a, den o de si, a complexa apa elhagem de exp essões, on ades e in enções. Reg essando ao an e-poema, no e cei o e so, “de espe ançada oz ou da ama gu a”, não há um con as e bipola ao con á io do que possa pa ece . Tudo az pa e de um Todo, Todo esse que é ci cula , epe i i o e, po o ça de azão, cons an e. Há uma iloso ia p é-clássica, di ia mesmo uma eologia «elemen a », na poé ica de João Rui de Sousa, e a dialéc ica, a ha e dialéc ica, que nele se p essen e é a que opõe luxo e pe manência (que não o se e o nada). É a ambi alência en e a p ocu a e a espe a, bem pa en e no poema Diógenes15; “Se ”, pa a João Rui de Sousa, equi ale a “es a ”, es a num “luga ”, se num luga ; daí que os dias enham o seu peso, mas ambém a sua beleza, o ama go , mas ambém a espe ança, a esignação, mas ambém a “ on ade”. A é na “ ua suja” sem “ inho e cobe o es”16 dá pa a can a , ingindo que não se em, que não se ou e, que não se segue ou não se ece a noi e; a “mo e”. In e essan e, ambém, é a homologia en e “ e dade” e “ on ade”, da qual eme ge a cla idade. Em Von ade, sin o-a há como que um diálogo en abulado en e a ida como coisa “ambígua”, débil, punido a, e a de e minação em segui um caminho. A “cla idade” é di isada no ho izon e da ince eza e da solidão. A solidão do poema, dos poe as? Tal ez da humanidade encapsulada na isão mesma de uns e sos que se ão des iando ci cula men e – eac ualizando-se -, o a suge indo a eu o ia da e ol a, o a a cons e nação, a “con usão” e “a is eza/ de não sabe o mundo”, o mundo ei icado po ins âncias de pode que escapam ao magis é io humano. Es e mesmo “mundo” es á, pela sua p óp ia na u eza, “ o a” do homem, não sendo po ele ins i uí el. É um ag esso , e o 15 “Meu olha madu o espe a – espe a./ Meu in ei iço can o a on o – espe a./ P ocu o en e o umo, nas pala as – espe a./ P ocu o no desp ezo e nos cabelos. (…) P ocu o en e habi an es, en e es e as./ P ocu o o co ação a libe a .” (exce o do poema). 16 Te cei o Sone o Pa a A Mo e P óp ia (Sousa, 1962 in 1983) 57 homem não é nele senão enquan o puppe . Não se a a aqui da “Te a Pá ia” de Hölde lin, da “Ci adelle”, de Sain -Exupe y, é o mundo enquan o máquina au opoié ica, ex e io à olição humana, é, em ce a medida, o Inconcebí el. Mas é algu es po aqui que a a e se de e mo e , “os a is as são, an es de mais, homens que p e endem o na - se inumanos” (Lyo a d, 1989). Como le es a b e e ase, o que é que ela nos sussu a « iolen amen e» ao ou ido? Toda a linguagem p oduzida sob o espec o do discu so humanis a é, em si mesma, uma alácia. O humanismo, enquan o ideologia, is o é, “cons ução social” (Be ge , Luckmann, 1997), p essupõe um homem ipi icado e ipi icá el, a uma a dicção (aquilo que é di o) em p a elei as bem alinhadas e aduz uma isão «incon aminada» do homem e das coisas. “Ins ala um mundo”, se quise mos eco e ao aseado heidegge iano, não signi ica i e “ o a de”, a ob a de a e, a poesia, en im, é o “acon ecimen o” que ins au a, des echando, sob e o mundo ac isolado dos discu sos au o izados, uma “abe u a”: “a ob a deixa que a e a seja « e a»” (Heidegge , 1992). E “o abe o”, já nos diz Blancho (1987: 140), “é o poema”, “onde udo mo e” pa a pode “acon ece ” (Husse l, 1992). A “ is eza de não sabe o mundo” é, en ão, homóloga da comp essão do discu so, da inexequibilidade da “pala a poé ica”. É no “homem his ó ico” que udo isso se dá, daí a necessá ia e lexão sob e a anco agem da exp essão poé ica a um eal - “pu a a bi a iedade, pu a subjec i idade” (Valé y, 1995)17 -, eal es e que, num double bind, p oduz e é p oduzido pela poesia, semp e e quando es a se nos ap esen e como “ ábula da desocul ação do en e” (Heidegge , 1992). Pe inen e se o na, pois, a insis ência de João Rui de Sousa na mudança da on ade, ocul ando-se nessa mudança a possibilidade da e dade ( e dade como cons ução, edi icação, mo ada). En e “ o las o de não sabe al ez coisa nenhuma”, o “Incluo-me en e as on ades dolo osas” e o “Von ade, sin o-a. Pe o a cla idade” se aça um pe cu so, um i ine á io, que é mais anspessoal, «comuni á io» a é, que ego is a; é o homem enquan o plausibilidade «pa a lá do espelho» que aqui se adi inha, é o “Aco da noc u no/ mas do ou o lado”, o “Aco da isí el daquilo que pa eço”, oda uma es é ica do ingimen o, al ez. Não su p eende, se pensa mos no eo pessoano da azão de se poé ica des e nosso au o . É um “can o di uso e os o. Fé il e igem cega”. Daí a pe gun a: “Sabes quem/ doido pe e so/ es á po ás/ de cada e so?”. 17 “Mas al como não há concei o sem me á o a, ambém não há sensação sem no ma…” (in P e ácio a Valé y, 1995) 58 Se lêssemos al exce o à luz da es é ica beliana, ou a ques ão eme gi ia, no en an o… O amigo “que de longe em”, no “lombo dos meses menos habi á eis” (Belo, 1962), oda uma essonância holde liniana… “E ponho-me a escu a ao longe, se não i á/ Um Sal ado amigo al ez e comigo”… “mas algo de amigo de e/ Lá de longe es a pe o de mim”… “Busco eu inda um (…) Es anho hóspede ocul ais” (Hölde lin, 1959). A “noi e”, de João Rui de Sousa, ou o “Não emos di ei o à aleg ia”, de Belo, são, possi elmen e, duas aces da mesma moeda. E, no en an o, aquilo que pa a Ruy Belo cons i ui uma “pe da”, dissolução, pa a João Rui de Sousa es iba-se, po en u a, numa ex ema lucidez, condenando-o essa, ao homem, ao «poe a» (?), a aguea pelo mundo e a an epo -lhe, não an o como espos a mas como es a égia de sob e i ência, a idealização de um mundo-ou o, que ambém é um empo-ou o, um messiânico não- empo: Como um espelho ao ogo, um io, um plane a, as a es, os bois, as b ancas pas agens assim o a e ela, pulmão de iso e ou o, o som da nossa espe ança, a co da nossa casa É a e balização da “espe ança” como a e ac o de comba e, como eio emancipa ó io, que se pe ila em A Habi ação dos Dias. O homem, a si mesmo abandonado, não que mais condena -se, discu si amen e, à de as ação. Há, apesa de udo, uma u opia e ena em João Rui de Sousa, coisa não islumb á el na “habi ação” de Ruy Belo, condenado a ememo a ad e e num “o chei o do giz e as canções da escola”, como numa u opia e e sa que apenas aspi a à con ocação do ine i á el, do opos da mo e. Di -se-á que o an i-humanismo de Ruy Belo, o seu “p o e ismo angus iado e i ónico” (Ama al, 1991: 49), é mais consequen e, que em bases mais sólidas, con as ando com o li ismo, po ezes en e gonhado, de João Rui de Sousa, pe meado de uma u gência in e io em acha uma saída, em di isa uma espos a (quase habe masianamen e a an la le e, se nos quise mos a isca a « undi ho izon es»). Aquilo que em Ruy Belo se ence a num “ iângulo on ológico” (*******): “Deus” como igu ando uma ausência, a “memó ia” como ins i uindo um espaço-ou o, não al e na i o po ém, e a “mo e” enquan o única cons an e, «p esença» compulsi a, é, em João Rui de Sousa (e a 59 es u u a iádica de A Habi ação dos Dias a isso con ida), p og essão num sen ido pu amen e mode no, i.e., no sen ido da pala a uni icado a e ans o mado a. T a a -se- á, quiçá, mais de uma (u) opia (no sen ido de um qualque não-luga ) poé ica que polí ica, es ibada, con udo, no al sen ido emancipa ó io, e olu i o a é, de uma sín ese que b o a á de uma lu a de con á ios, cindindo a noi e e a cla idade numa só coisa que, como nos di á o poema de Pessoa - ou a canção de José Má io B anco -, “essa coisa é que é linda” (1982). En e an o, em Ruy Belo, a mode nidade ai-se despedindo “de si mesma, dei ando ogo aos seus umul uosos so ilégios” (Ama al, 1991: 49), dispos a numa “ince a” (Ramos Rosa, 1987), e di icilmen e c is alizá el, iden idade. Se cada poe a anspo a no seu bojo um mundo p óp io, um eixe de singula idades que o di e encia dos demais, a despei o de co en es, a inidades ou con aminações, cada qual abalha o seu «dize » con o mando-o às necessidades es u u ais e episódicas que o en o mam. Po que é que ao olha mos pa a João Rui de Sousa lhe di isamos um pendo mais clássico no modo como e e os seus poemas, po que é que nos assal a, desde logo, a imp essão de que hou e p eocupações mé icas a p esidi a esse es o ço? Também as hou e, con udo, em Ruy Belo. O eio p e ensamen e an-á quico dos e sos que compõem o P oblema da Habi ação-Alguns Aspec os (an-a khé, sem um p incípio p é-de inido, sem pad ão) é e u á el; e mais do que a en a mos no abalho sob e o es ac o ónico (aquele que, numa p imei a lei u a, se e ém de imedia o), no amos um ex emo cuidado, que na disposição dos signi ican es, que no modo como eles en e ecem en e si edes de signi icado múl iplas e díspa es (e delibe adamen e con adi ó ias). Aqui e ali, o poe a como que pá a, olha em o no de si, e cons ói «ilhas» de classicidade. A en emos nes e exemplo: Le an o-me dos olhos pa a o meu poema egulo o en o e i o-lhe as esquinas e b e emen e o le o pela mão à noi e e dou-lhe a calculada dose em minha p o isó ia mo e (Poema II) ou nes e: Mas ede-o en e an o i da ida elho do eg esso po mui os os os ges os longe dispe sado 60 as inúme as mãos caídas sem emédio ao lado comp ome ido o b ilho do olha em excesso (Poema IV) O p imei o e e cei o e sos do p imei o exemplo es ão mui o p óximos do chamado decassílabo he oico, o segundo do decassílabo sá ico18; a ausência de ima não obs a a que alguns e ei os p osódicos nele oco am, aliás eco en es um pouco po oda a ob a poé ica do au o : “o en o e i o-lhe…”, “le emen e o le o”; a ali e ação como pu o p ocesso musical, como cadência melódica, ou b e es assonâncias, sibilinamen e desenhadas no in e io de um e so, “ egulo o en o e i o-lhe…”. A poesia de Ruy Belo assal a-nos, no en an o, pela apa en e desp eocupação o mal, pelo modo como ai disco endo ao compasso de uma oz in e io , discu si a e de li ismo con ido. O 2º exemplo deixa-nos, lei o es, aquando do ins an e da lei u a, algo pe plexos. Há como que uma oz-ou a que sob ele a, que in e ompe o luxo dig essi o. Pa a além da homo onia plena na ima ex e na (ABBA) “in e polada”, no amen e a o e incidência de ali e ações (“ ede-o en e an o i da ida elho”) e assonâncias (“po mui os os os ges os longe dispe sado”). Mais do que me a exibição de do es es ilís icos, Ruy Belo como que «limpa» o poema e ins i ui es ac os de lei u a a iados. Um “longo poema longo”, como chamou Joaquim Manuel Magalhães a O P oblema da Habi ação-Alguns Aspec os, p ecisa de momen os de espi ação que sua izem, ou no mínimo, o nem «habi á el» a longa apneia em que me gulha. A mac o-es u u a da ob a já e e ida é, po si só, um cons uc o, uma a qui ec u a: dez poemas, ês b e es, se e longos, a imp essão que nos acompanha do p imei o ao de adei o e so de que udo es á encadeado, não se eduzindo, po ém, a um e so- sín ese ou a um naipe de pala as-cha e; é o p óp io p oblema da habi ação que, como «p esença», p enhe de an ilogias e de apo ias, se dá à lei u a. É como se pe seguíssemos um an asma pelas uas des inadas a esse im. Em João Rui de Sousa o p ocesso é di e en e. Já alámos da esquema ização iádica, a qual, ainda assim, não co esponde a uma dispe são emá ica. Há um léxico que é mais ou menos cons an e ao longo de oda A Habi ação dos Dias, dia, noi e, mo e, cla idade, silêncio, on ade, e a, nas mais di e sas a iações sin ác icas, mo ológicas e a é 18 “he oico po que o seu i mo, igo oso e g a e, oi adicionalmen e o dos assun os de ca ác e épico (…) de acen uação in e na na 6ª sílaba”. O sá ico “é de uma musicalidade ondulan e, adap ando-se acilmen e ao can o (…) acen uação na 4ª e 8ª sílaba (…) assim chamado po se epo a ao ipo mé ico c iado ou cul i ado pela poe isa g ega Sa o” (Ca alho, 1974: 31-32). 61 semân icas. T anspa ece mais uma sensação de ha mónio, como se o poema (e aqui poema como equi alen e ex ual de ob a) se osse desdob ando con inuamen e en e op imismo e pessimismo, eu o ia-dis o ia, noi e-cla idade, in e calando di e en es modos de exp essão, dos mais adicionais aos mais ousados, de uns mais e udi os a ou os com uma onalidade mais popula , undindo hep assílabos com e sos bi e issilábicos ( ídè poemas Con usão e Sabes Quem19). Longe de nos in e essa sabe qual o supo e que melho se e a «pala a poé ica» e o seu «duplo acon ece » de exp essão e de imp essão, in e essa-nos pene a na es e a de cada uma das ob as já aqui a lo adas. Aduzidas as imp essões ge ais, e sal agua dadas que es ão mais as ince ezas do que as ce ezas, nada como celeb á-las e so a e so, pala a a pala a; não é pela pa e que se chega ao Todo, mas é numa pa e que se en e ê, em po ência, algo que a ele se assemelha. Quase que me ape ece ci a Ez a Pound: “A a e não e i a os uni e sais, a inge-os com an o maio in ensidade quan o mais se ocupa dos aspec os pa icula es (in Elio , 1985). ECCE HOMO Dói-me habi a es a pala a ama ga es e emo es a oz ín ima es e jei o pob e no agi es a luz mo iça e de aga a capa mole de somb a e de uligem es e ama elo dos dedos e da espe ança es e oe de unhas 19 “Noc u no signo de inclui / as lu as impensá eis/ as ozes da es anheza/ em ondas memo á eis (…) O mal sou eu. No escu o,/ na ausência, não há nada./ Não b ilham nada es elas!/ A noi e é só uma e sou eu”; “É o mundo/ a escu idão/ poço neg o/ poço ão// cheio d’algo/ que não sei/ mas que sin o/ mas que achei” (exce os dos poemas sup a-ci ados). 62 e cansaço es a inocência su da e umo osa es a manei a unda de sen i de ama o p óximo ou es a ulga do só de exis i . - É uma pequena gue a em que me a undo nes e habi a sem a mas a is eza de não sabe o mundo. A imp essão digi al de um ce o açado exis encialis a, não an o humanis a, mais do que ealis a ou me amen e designa i o, é o que a ul a de ECCE HOMO (eis o homem). A i adiação c is ológica que pa ece es a p esen e desde logo no í ulo do poema assume-se como me o e e en e cul u al, como indicado ex ual, udo o es o deco e numa a mos e a de densidade exis encial. A p onominalização da p imei a o ma e bal, eme endo pa a um “eu” não ansi i o, susci a de imedia o a imp essão de um “nós”, mas um “nós” que oscila en e ma e ialidade e abs acção. O “nós” é o mundo, “es á” no mundo, e é édio, é “cansaço”, “capa mole”, “luz mo iça”, “jei o pob e”; a do é “ ulga ” e esume-se à exis ência. O pa o da exis ência. O opos da lucidez agónica, esignada, num es anho pac o com o “mundo” que se habi a e que não se sabe. “Es a manei a unda/ de sen i / de ama o p óximo”; há como que uma lu a in es ina, um con li o in e io , uma gue a, uma “pequena gue a”, a gue a de uma consciência “aga ada” às e idências. Da essonância c is ológica do “ama o p óximo”, à sua abso ção e subsequen e diluição po um humanismo dolen e, “es e ama elo dos dedos/ e da espe ança/ es e oe de unhas”, doen e a é, mo ibundo. Po isso mesmo, dói e é is e “habi a ” a pala a, “não sabe o mundo”; a noção de dissolução do homem, cheio de si mesmo, do posi i ismo da acção cien í ica, do eo sal í ico de uma sociedade/comunidade (communi as) secula izada. A pe spec i a do impasse, í ulo cu ioso que, em A Habi ação dos Dias, se segue a ECCE HOMO, é a pe spec i a do 63 homem a quem “bem pouco se e o ges o da e ol a”. Pu o pa adoxo, se pensa mos no poema Libe dade, compos o sob o signo de Paul Élua d, “- es á aqui ao pé de nós essa pala a,/ é em nós, den o de nós, que ela cin ila”. O jogo de con á ios, quase obsidian e, que habi a a poesia de Rui de Sousa chega ao pon o de a ibui qualidades di e enciadas aos mesmos pe sonae; um “nós” cin ilan e con apos o a um “eu” colec i o que se a unda no seu ma asmo, “um jei o pob e/ no agi / es a luz mo iça/ e de aga ”. Quase Pessoa o ónimo, ou o Pessoa em 2ª mão do Li o do Desassossego, mas num desassossego que não é inquie ação, é deg edo, “inocência su da e umo osa”. O Homem abandona-se a si mesmo (quem mais es a…), ao desconhecimen o in uído pelo seu p óp io einado; o homem en egue a si e às suas con adições, à sua excessi a humanidade. Daí que o exis encialismo, bem mais que o humanismo, es eja bem pa en e nes e b e e poema, poema que, in e samen e às imp essões que con oca, pa ece esco e -nos po en e os dedos, de ão b e e e ligei o na o alidade que insinua, na quase coloquialidade com que se esp aia, e sos cu os, po ezes “queb ados”, numa le e p edominância da ocalização “a ”, habi a , de aga , ulga , ama ; do in ini i o, em habi a , agi , de aga , oe , sen i , ama , exis i , sabe , como o ma simul aneamen e impessoal e le emen e abs ac izan e. O “habi a sem a mas” pode á se lido à luz da impossibilidade de espos as. É o homem no edil da sua consciência, o homem des abulado que se encon a pe an e si mesmo na solidão do espelho. A(s) espos a(s) es a ão na on ade, no “Elogio da Solidão”, na “P ocu a” ( ão p esen e em A Habi ação dos Dias) como mé odo, como escape, “P ocu o en e habi an es, en e es e as./ P ocu o o co ação a libe a ”. Daí que, embo a não ha endo p op iamen e um ulgo u ópico em A Habi ação dos Dias, sob essai uma u gência, algu es en e a hipe consciência da de as ação e a on ade, a de e minação em sob e i e -lhe, apesa de udo. E ao sob e i e -lhe, ga inha , ac ea uma ou a pleni ude, in ínseca ao homem, po es e habi á el: o p óp io “mundo”. O belo poé ico em João Rui de Sousa é menos uma «expansão» que uma «con enção», é uma “ e dade” que se cons ói oli i amen e, i.e., que pa e do homem e da sua p ecá ia condição/dimensão pa a se alça a um o a de si, a uma al e idade que ainda e semp e o con ém.20 20 “O co po, enomenológico, mo al, ecep o , é ao mesmo empo o único analogon disponí el pa a pensa uma ce a complexidade da men e” (Lyo a d, 1989*: 30) 64 Demóc i o dizia que “a exis ência do não-se [ udo aquilo que não é po ência in ini a] é a condição de exis ência do mundo múl iplo” (in Se e ino, 1985: 62); ais pala as esumem mui o do subs ac o poé ico de um homem como João Rui de Sousa – o mundo só o é po que é em odas as dimensões e alências -. Em linguagem an iga di íamos que “cada á omo possui as p op iedades do se ” (Se e ino, 1985: 63), cada coisa é na medida em que pa icipa do seu p óp io mundo e daquilo que a aba ca. O Homem não é humanidade, ele é condição da sua p óp ia exis ência. Dize humanidade é dize não-homem. O humanismo de João Rui de Sousa é complexo, humano, não «humanis a», e es a ideia es á bem pa en e no poema sup a-des acado; o homem, enquan o «coisa», nada é, ele só «é» enquan o exis ência, um “exis en e”, e é isso que, se pensa mos bem, ap oxima a isão a que aqui nos consag ámos àquela que se lhe segui á, mui o embo a azada numa linguagem poé ica bem menos mode nis a, a de Ruy Belo. Di ícil é, aliás, si ua um au o como Ruy Belo num qualque «ismo». No en an o, se pensa mos no mode nismo li e á io po uguês como uma en idade conscien e da sua p óp ia ex inção, inculada que ao seu ques ionamen o (au oques ionamen o), que à sua supe ação, ácil se o na en endê-lo menos como mo imen o e mais como p ocesso. A «mo e» do sujei o e o subsequen e es ilhaça de uma ce a boa consciência bu guesa azem do mode nismo li e á io uma apa en e e olução sem p eceden es, e is o independen emen e de odos os cismas, quiasmos e abcessos e i icados no seu in e io . In e essa-nos pouco ou nada a e i do om mais ou menos “mode no” da poesia de Ruy Belo; c eio, inclusi amen e, que e íamos de o aze com mui os au o es, asu ando, pa a esse e ei o, a noção pu amen e c onológica de empo. Onde si ua Home o, O ídio, Vi gílio, Sóc a es, São Tomás de Aquino, Dan e, Pe a ca, Camões, Shakespea e, Hölde lin, Rilke… Todo o uni e so li e á io e ia de se con o ce um pouco mais, e ol e as sua p óp ias en anhas e egu gi a udo aquilo que sob a capa de mode nismo ( ielmen e da ado), e de angua dismo, esconde uma emenda al a de o iginalidade – de au en icidade – e de alen o (mui os se iam os casos). O imaginá io beliano a a essa as mais a iadas pulsões e e e ências poé icas. P o usamen e e udi o, oscila en e uma dimensão hipe o iada de espaço, que deco e 65 de uma obsessão emá ica ela i amen e à mo e21, e imp egnada de empo(s), ab indo- se aqui, no amen e, espaço a uma o íssima essonância holde liniana. A in e io ização “que in e e o des ino da consciência” e se ac ualiza em [po ] pala as, “signi icações supe io es”, ao subs i ui o “mundo”, não po in e médio da sua ep esen ação ou designação, mas po en onização, po pu a c iação, encaminha-se pa a “signi icações mais ele adas ou mais exigen es” (Blancho , 1987: 137), e ambém assim, conduzindo-nos, diligen e, pa a o al espí i o da epoché husse liana, da suspensão empo á ia do juízo, daquilo que é undado pelos poe as (Hölde lin, 1959), po que a “nós” (a eles) oi-lhes dado “não epousa em pa e alguma (…) Como água a i ada/ De ochedo em ochedo/ Anos a io pa a o ince o” (Hölde lin, 1959); “Po amo des e século can a / Não há mais olha ou casa ou aleg ia onde habi a ” (Belo, Poema VI). Há uma imp essão de des e o. Sen imos, ocasionalmen e, a necessidade, a u gência sen ida pelo poe a em comunica com ou as e as, com um «ou o» empo. Não se a a, po ém, de e i alismo. Ruy Belo limi a-se a cons a a , a obse a o empo conc e o que lhe oi dado i e . O übe mensch, à manei a de Nie zsche, não exis e em Ruy Belo, o seu p oblema da habi ação deco e, jus amen e, da imp essão de azio, de um las o p o undo de ausência a gang ena os nossos dias. As desc ições são su icien emen e í idas (e i idas, inco po adas na sua p óp ia expe iência), “não há empo ou luga onde habi a ” e, no en an o, uma “casa é a coisa mais sé ia da ida”; a “coisa mais sé ia”, impalpá el e implausí el, po que impalpá el e implausí el é a p óp ia “aleg ia” (com uma ób ia essonância in e ida a Almada Neg ei os). Impende uma ce a abulia, “impo an es assun os passam nas agendas de ano pa a ano”, um om desmaiadamen e sa cás ico, “Das casas das melho es amílias da cidade/sobe ao cai da a de o complexo pe ume/ das o ações anspi ações dejec os”, a nos algia do i ecupe á el, de uma in o me A cádia, “Tal ez eu econquis e ainda a minha ão pe dida aldeia/ e á colhendo espa gos ao longo do mu o” – a en e-se na simili ude emá ico-semân ica com es es e sos de Hölde lin: “Se alguém que mo a ,/ Que o aça jun o às escadas,/ E onde uma casinha pende,/Jun o à água, aí de es habi a ” – (Hölde lin, 1959). Quan as coisas ha e ia ainda a en ila numa e en ual es a égia de descons ução do discu so beliano, a imagé ica da in ância como andenken ( ememo iação), es u u ando uma espacialidade-ou a, uma possí el aleg ia, esga ada pa a o p esen e po um 21 É o p óp io Blancho (1987: 257) quem nos diz que “a mo e suspende a elação com o luga , se bem que nele se apoie pesadamen e como única base que lhe es a”. 72 és pa a pe segui sem encon a pa a exal a onde caís e mais (in O P oblema da Habi ação, VII) A possí el cha e de uma au o-i onia, al ez de um p o undo e au o-in ligido desencan o, a aguda pe cepção da solidão e do abandono, a is eza como opos nuclea , como ambiência, “T is e é comp a cas anhas depois da ou ada/ en e o umo e o domingo na a de de no emb o/ e e como u u o o as al o e mui a gen e/ e a ás a ida sem nenhuma in ância”, o abscôndi o domingo de Ál a o de Campos, o domingo «mo al» de Manuel da Fonseca25, a “ ou ada”, o “ umo”, o “as al o”, a ida des igo ada, “sem nenhuma in ância”, a a de que ai mo endo “pelos dias o a”, “po en e Deus ausen e”. Impo a á sabe com quem conco da o quali ica i o des a o ação “é mui o is e anda po en e Deus ausen e”, se com o complemen o oblíquo, se com o sujei o, ausen e po en e Deus… Tal ez com ambos, o homem az consigo, ads i a à mo alidade de que padece, como que uma di indade us ada. E é po isso, jus amen e po isso, que a “du ação”, o luxo dos dias, o o na e ém de si mesmo, da sua «consciência», p i ado de edenção, mesmo daquela que pode ia p o i do essumb a da in ância, a inal bem pa en e nos de adei os e sos de Figu a Jacen e: Há en e as oli ei as sí io pa a o sol e a b isa da in ância can a indo nos amos en e o chei o do giz e as canções da escola A in ância como um “conjun o de imagens” (Be gson, 1994), dispe sas, insuscep í eis de ma e ialidade e i idas como se do «inexp imí el» se a assem, uma possí el «idade de ou o» que habi a o domínio do «aspi acional»; e o aspi acional é, em O P oblema da Habi ação – Alguns Aspec os, o que não «es á», o que não «é», o que não “du a” (Be gson, 1994), po que “o que se á”, diz-nos Ma ia Velho da Cos a (Buescu, 1994), “habi a-nos desde o início”. A mo e, a “ e dade”. Uma e dade, di emos, menos on ológica, aquela que no eia A Habi ação dos Dias, menos ocada pela ingen e p oblemá ica do Se , de imida, isso sim, na habi ação mesma das 24 ho as que ciclicamen e nos in en am, epondo a «no malidade» quo idiana dos elógios, na “solidão” que é uma “ o ça”, na “ on ade” que se cons i ui como “uma 25 “Domingo i ei pa a as ho as na pessoa dos ou os,/ Con en e da minha anonimidade” (do poema Domingo I ei, de Ál a o de Campos); “Um apaz que e a pin o / não disse nada a ninguém/ e escolheu o domingo pa a se ma a ” (do poema Domingo, de Manuel da Fonseca). 73 e dade”, na mudança, numa e en ual ans o mação eden o a, como que num g adual apaziguamen o da do dos dias; uma “ e dade” que é o ça e libe dade e espe ança, uma e dade que o «é» con ic amen e, alice çada que es á num plano eminen emen e humano (ou, de ce a manei a, social, quando não sociológico, sendo es e a exp essão de uma « e enidade» compulsi a). Uma au oa i mação que implica uma imedia ez maio en e o homem e o mundo, ou en e a pala a e as i udes sal í icas que se en e ecem na mesma (numa linguagem que e oca um « esidual» pe o ma i o). In e essa, a João Rui de Sousa, undamen almen e o homem, um homem si iado pelo mundo em seu edo , mas que, no en an o, se econhece, se e ê [e iden i ica] nesse mesmo mundo, adequando-o [adequando-se] aos seus “modos de e ”. Aquilo que em O P oblema da Habi ação – Alguns Aspec os é um abismo inex icá el, uma cons a ação acoplada a um plano on ológico que sob ele a o p óp io homem, não deixando es e de e consciência da alência desse p ojec o (um homem sem Deus não é mais humano po isso, mas um deus humanizado é mais humano e, po deco ência, mais p ecá io do que a p óp ia humanidade – condenado a uma longa e ância há de desapa ece , de enece , como homem e como D(d)eus), é em A Habi ação dos Dias a imp essi idade de um locus possí el e habi á el, como que uma (u) opia (sonho ou deside a o) ao e mo de uma e en ual jo nada – não po ascese, mas po con enda dialéc ica; a sín ese como a espos a possí el que se encon a no bojo da expe iência do mundo (daí que aça algum sen ido especula sob e a es u u a iádica que e es e o li o de João Rui de Sousa), ese, an í ese e sín ese como que decan adas de um ma e ialismo que é menos his ó ia e mais idílio (iddylium), a imaginação de um «amanhã» que é semp e, e em si mesmo, adi inhação, « idência». 74 75 III O empo da consciência como du ação e o ins an e poé ico a pa i do poema Ins an e26 Pa amos de um p essupos o: endemos a inco po a a expe iência do empo na nossa ida como «coisa». De ou a o ma pe de íamos a bússola, o ní el de abs acção que nos pe mi e assimilá-lo, azê-lo a nós como algo de exis en e, ma e ializá el, moldá el, adequado às necessidades humanas que nos en o mam. Po isso eco emos a an os e an os ins umen os de medição, po esse(s) mo i o(s) nos sen imos ap os a di e encia e apas da nossa expe iência do mundo, a di idi , a epa i e a eo dena , como se de um e e no e o no se a asse, um p incípio e um im pe manen emen e eencenados; emos consciência, ainda que udimen a – p o a elmen e ao ní el de uma consciência p imi i a -, do lui in é mino do empo, e ainda assim pa ecemos c ianças b incando com ele, p ocu ando a egimen á-lo às necessidades domés icas que nos são in ínsecas; «ganha » o empo é uma lu a de semp e, uma eleidade a que nos en egamos com u o – se o mesmo se sedimen a, na consciência, como “du ação”, consag amos a nossa ida a supe á-la, à consciência, ab icando o empo, ins umen alizando-o, humanizando-o, omando o “nosso co po [ enomenológico, mo al e ecep o ] como único analogon disponí el pa a pensa uma ce a complexidade da men e” (Lyo a d, 1989: 30); uma ilusó ia au ossu iciência é, assim, g anjeada. Tendemos, no expe iencia mundano dos dias que passam (a p óp ia noção de «dia», as ais 24 ho as, é, em si mesma, uma abs acção, uma descon inuação), a olha pa a o empo de o ma espacial; só a a és da sua domes icação ele de ém pa e de nós, an as ezes de inindo-nos e englobando-nos. Imagina um não- empo, uma pu a du ação, sem an es, nem ago a, nem depois, sem ixado es a i iciais, é equipa á el a uma impossibilidade áci a e, no en an o, é assim que a nossa consciência ope a, i.e., sal o qualque pa adoxo de úl ima ho a (ób io, se pensa mos na o denação do empo a que 26 In eg ado em Sob e o lado esque do (1968), de Ca los de Oli ei a (1982) 76 desde pe íodos emo os p ocedemos, p ocu ando emula os i mos e os ciclos de ida la en es na Na u eza), a consciência não es abelece pon os ca deais de dissecção do empo, o empo su ge sub specie du a ionis, p ojecção ex e io do empo no espaço, num inaba cá el luxo27. Po isso con inuamos a ala dos mo os depois de mo os, po isso concebemos empo/ empos ou o/ou os, no âmbi o dos quais a ideia de um começo, ou a ideia de um im, não azem qualque sen ido. É como se alássemos de um empo da p óp ia humanidade, de um “absolu o” (No alis, 2000), um empo, ou concepção do mesmo, não ela i izá el, não cul u alizado, um empo não-social, p o o- di ino, e en ualmen e o empo do Messias, o inal, o início e o du an e i manados num imenso conúbio, numa dimensão além do p óp io homem, sup a-homem, se quise mos dize melho . A “du ação”, al como é cap ada pela nossa consciência, é maio , mui o maio do que o p óp io homem, i.e., a consciência ala ga e mui o os espaços de e e encialidade daquilo que emos po humano – o medo do desconhecido é o mais comum en e a humanidade, como não e medo, en ão, do que po na u eza é indomes icá el, do inap eensí el… Vol ando ao início, o homem ca ece, na sua expe iência do mundo, dos ais e e enciais geodésicos, dos ais me idianos que o si uam na Te a, que lhe con e em a densidade exis encial (ma e ial, co pó ea…) indispensá el à ida. O nosso «se » ou «es a » no mundo não se es iba numa e é ea espi i ualidade, e daí a u gência, a p emência em humaniza mos o empo, em enquad á-lo, eenquad á-lo, o ná-lo e ém do mundo em que nos é dado i e – em con e i -lhe “ex ensão”. E, no en an o, o empo da consciência como du ação e es e-se de incon o nabilidade, é um dínamo impa á el, dá-se, ao im e ao cabo, como cons ição, como ine i abilidade (não nos é dado e i e o que acabámos de i e , esse momen o já se es umou, já não é28– as iagens no empo, embo a eo icamen e con igu á eis, in eg am o imaginá io colec i o de um nicho cien í ico-in elec ual, não mais do que isso; são, quando mui o, uma plausibilidade i ep esen á el -. A consciência abso e o luxo empo al como um con inuum, independen emen e da pa ição, ou das pa ições, dos «co es» a que o sujei amos com is a a o ganiza a nossa expe iência do mundo, a im de a nomea mos, de a humaniza mos, de a aze mos a nós. Mas o empo, esse, indi e en e ao u o 27 “Em ez de uma descon inuidade de momen os que se subs i ui iam num empo in ini amen e di idido, ele [o homem] e á a luidez con ínua do empo eal que passa indi isí el” (Be gson, 1994: 63) 28 “Pelo ac o de se absolu o, o p esen e que ap esen a não é ap eensí el: ainda não é ou já não é p esen e” (Lyo a d, 1989*: 65) 77 nomina i o, não cessa de co e (escapa-se-nos, qual a eia mo ediça, docemen e po en e os dedos). Daí que eco amos a ca ego ias, o passado, o p esen e e o u u o, in en ando con e o empo, p ocu ando cob i o indisce ní el, o in angí el. São esses os nomes que modelam a o ma como nos emos no meio dos ou os, é median e al ca ego ização que nos «ab imos» ao mundo. O empo da consciência “ex e io iza-se”, sai da “pu a du ação” (Be gson, 1988), dissol e-se no espaço, ho izon aliza-se; os ma cado es espácio- empo ais, an es, depois, aqui, ali, aquém, além, du an e, en e ou os, emp es am a al densidade, um capi al de memó ia (a memó ia é uma espécie de 2º empo, nela o passado, o p esen e e o u u o anulam-se en e si, daí esul ando, cu iosamen e, mais uma [pu a] imp essi idade do que uma ex ensão), um «las o» que, de ou o modo, se ia agado pela pu a du ação, pela pu a consciência, pelo pu o uni e sal29, ou seja, pela suma i ep esen abilidade do nosso «es a no mundo». “Po oda a pa e p ocu amos o absolu o”, diz-nos No alis (2000), um sup a- empo, um sup a-espaço não e ém das ca ego ias explica i as, da p óp ia mo alidade; pa a além do bem e do mal, di emos com Nie zsche, da ida e da mo e, da ágica condição que nos é cunhada desde que nascemos a é que «nos amos»; um e en ual supe -C is o, li e do espa ilho da cópia e do o iginal, um übe mensch (Nie zsche, 1974) que desde semp e habi asse um qualque u u o, num po i , num “se á” que nunca i á a se , num máximo aspi acional que de ogasse, de uma ez po odas, a abnegação, o so imen o, a ca ência e misé ia humanas. Con inua, po ém, o Homem a se um complexo pe ecí el, condenado à e ância; e se é esse ac o que, po um lado, o debili a e lhe ce ceia a “pu a du ação”, é ambém nele, e a a és dele, que o homem “é” Homem e Mundo, «Mundo» es e que consis e essencialmen e em linguagem, a a bi á ia condição que i a eg a po in e médio do uso e da a quies u u a desse mesmo uso; a o ganização sin ác ico-lexical do mundo a uma a expe iência do mesmo e do a-o de legibilidade – de legi imidade -; sen em, ainda assim, alguns homens a necessidade, a u gência em se libe a em do espa ilho do pu amen e e e encial; a ealidade apa ece a esses como “limi e” e não como pon o de pa ida (Gue ei o, 2003); as díades sujei o-objec o, signo-signi icado, mundo- e e en e 29 “É impossí el de e mina a di e ença exis en e en e o que acon eceu (o «p o e on», o an e io ) e o que es á pa a acon ece (o«hus e on», e o ul e io )sem si ua o luxo dos acon ecimen os ace a um «ago a», a um now” (Lyo a d, 1989*: 33) 78 diluem-se e dão luga a uma « idência», a um e sem olhos, a uma in enção, uma in en a iação do p óp io eal. A ealidade deixa de se cons i ui como “se -aí” (Heidegge , 1992) e es a ui-se como expe iência, como “imagem”, “Que dize : numa pu a suspensão de c is ais, e elo a minha ida” (Oli ei a, 1982). Acedemos ao eal, à di a « ealidade», po in e médio de ulgu ações, de “cin ilações” e “ émi os”, cap amo- lo a a és das “ énues ib ações/ do mundo”, numa “sin axe que p oduz/ coisas aé eas como o en o e a luz”; o que in e essa em poesia é a o ma como emos as coisas, como elas se nos dão, independen emen e de ha e um « eal p imei o» que as conci e a se em assim ou de ou a manei a qualque ; não se a a de uma subjec i idade adical, mas sim de uma imp essi idade « adical», se quise mos p ossegui na senda dos a ibu os. Jo ge de Sena ala a da poesia como “ ansc ição de um i mo in e io e ex e io à pala a que o con igu a” (Sena, 1977); a «pala a poé ica» é, en ão, essa po ência, essa la ência, essas “imagens” do mundo que se desdob am sem descanso a pa i de si mesmas, que se a anjam e desa anjam, que se con o mam e descon o mam, al como na me á o a do “desenho in an il”, de Ca los de Oli ei a (1982): “ a impaciência dos aços que asgam o papel”, a “neblina”, a “ e igem”, a ace ba “cóle a das co es”, um « eal» aumen ado ao pon o de já não cabe na moldu a, de ele p óp io se o que se «es ende» e «con ai» pa a lá e pa a cá do supo e que o de e ia esgo a . O mundo de ém o inaba cá el, e se al pa ece in ole á el na ida «de odos os dias», é, po ou o lado, udo aquilo que az da poesia o que ela é – jus amen e poesia, nada mais. Imagem la en e, ins an e c is alizado, “poema/ an e io ao en o”. T a a-se da “ e e ência au osinc ónica” (Bachela d, **)30, de um empo que não “co e” mais, de uma equi alência a o doan e en e co po e consciência de si, en e ma é ia e espí i o, en e o homem, singula ou g upalmen e conside ado, e os deuses. Habi a o “ins an e”, esis i à en ação de que e cap a a o alidade (Ca ie -B esson, 2003), sabe disce ni no ho izon e das con luências in e nas e ex e nas o apelo ins in i o, ab açando as “simul aneidades múl iplas” de um empo que deixou de se “simples con inuidade encadeada” (Bachela d, **), pu a du ação. Não se a a de nenhuma u opia, a a-se de um “modo de e ”, o qual, oda ia, não de e se con undido com nenhum i acionalismo; ele é p é- acional e pós- acional, o jando- se, assim, no al p incípio da epoché husse liana, na necessá ia e asão de um acional 30 Ins an e poé ico e ins an e me a ísico, um ex o de 1938. 79 ap isionan e, na suspensão e no «sal o» - as unidades não se colam, não se jus apõem umas às ou as, dissol em-se e des elam-se conca enadamen e31. Em Sob e o lado esque do, de Ca los de Oli ei a, p oli e a oda uma panóplia de e e en es ex uais que se cons i uem como co ela os objec i os da e lexão aqui ence ada: há odo um «deixa acon ece do mundo» que ou a coisa não é que uma cap ação, como num s ill cinema og á ico, de momen os, de “ins an es” congelados e «mon ados» - edi ed -, não sob um p isma ideológico-social, mas, ao in és, obedecendo a um ins in o, a uma essi u a compos a de mic o-in e dependências (quase semp e inscien es), pe ilhando a exempla idade o og á ica, ou seja, o “ econhecimen o simul âneo, numa acção de segundo, da signi icação de um ac o, com a o ganização p ecisa das o mas que con e em a esse mesmo ac o [ou e en o] uma exp essão p óp ia” (Ca ie -B esson, 2003). Di -se-ia, po an o, que o ins in o, o ins an e poé ico de e possui a sua p óp ia legibilidade, au ónoma ace à ei icação concep ual e monadológica do mundo, do empo e do espaço, como coisas em si, eidé icas, como essências. INSTANTE Es a coluna de sílabas mais i mes, es a chama no é ice das dunas ulgu ando apenas um momen o, es e equilíb io ão pe o da beleza, es e poema an e io ao en o O sop a do en o isomé ico da cons ução do p óp io poema; o poema ins au a melodicamen e, sincopadamen e – e sos cu os, e sos menos cu os -, o ins an e, a 31 “Só o ins an âneo,/ súbi o elâmpago que asga/ e me ulmina/ a memó ia opaca” (Ca alho, 1981: 25) 80 inco pó ea e idência daquilo que “b o a” e não “co e mais” (Bachela d, **), “es e equilíb io/ ão pe o da beleza”, p ecá io, inexac o, um me o ulgo , uma chama, ainda assim assen e numa “coluna/ de sílabas mais i mes”. O ins an e poé ico é, po si mesmo, uma «inaugu ação», “pala a no a”, se nos quise mos a e ao aseado beliano (1969). Não impe a, pois, nenhuma discu si idade eal ou con a- ealís ica; há como que um esba imen o dessa dualidade. Sob e ém, isso sim, o p imado da mon agem sob e a igu ação, da ulgu ação sob e a ep esen ação. Tudo se dilui numa não-dialéc ica FORMA-CONTEÚDO-FORMA – não-dialéc ica po não isa a nenhuma sín ese, po não adica em nenhuma con li ualidade insaná el -, numa espécie de “ adioscopia ince a”: cada imagem de o a, p esa ao o og ama que já oi, de glóbulo em glóbulo se des ói. São “ lashes”, “combus ões”, “cin ilações”, não exis em p op iamen e e e en es mac o- emá icos, uma objec i idade ex e na ao «olho» que ê; exis e o is o e, sucessi amen e, a expe iência do isí el mesclada com a expe iência, com a «imago» des ei a do in isí el (do já is o, do «po e », do insuscep í el de «se is o», expe ienciado ou assimilá el à expe iência). O ins an e poé ico assemelha-se, do a an e, a qualque coisa que lu ua, p op iedade do que é, po de inição, insi uá el no espaço e no empo, qualque coisa cujo po encial « o a» é ap eensí el po den o, mas um «den o» sem supo e ísico possí el, e, po isso mesmo, impe ecí el, indiagnos icá el, pese a sua supos a homogeneidade. O “pa adoxo do ins an e”, di -nos-á Edua do Lou enço (2003), “é o de nunca e p incipiado e não pode e im”32. Nele “deslizamos”, lu uamos, di ia, impo ando uma imagem da qual já nos se imos, “na e e nidade” (Lou enço, 2003). Nele não epousamos, pois o mesmo não compo a du ação, nele não «somos», pois não em p esença, ele, o “ins an e”, é essa espécie de “silêncio o iginal” (Lou enço, 2003), ci cun izinho da angús ia exis encialis a, não pelo que diz mas pelo que suge e, pelo que ins au a e ac ualiza. É um pouco como a edenção messiânica de Benjamin e 32 “não podemos pensa no im pu o e simples do que que que seja pois im é limi e e é necessá io es a dos dois lados do limi e pa a o concebe ” (Lyo a d, 1989*: 23) 81 Schölem (Löwi, 2005), um empo-ou o que em si mesmo não é empo nenhum, mas que se compõe de « empos», das ais “simul aneidades múl iplas”, das i ualidades u ópico-apocalíp icas de um po i que é semp e p omessa de um qualque « e -sido» p imo dial; um pouco à imagem da edição cinema og á ica, con igu a-se e ee oca-se a memó ia do que passa jun o à memó ia do que ica, ou a é a uma ou a, a p ospec i a, asu ando a coisi icação espácio- empo al, o ien ando-nos nós, assim, na deso ien ação pe cep i a da expe imen ação poé ica; aliás, se pensa mos com Bazin, Eisens ein ou o p óp io Deleuze (2004), a edição cinema og á ica não é mais do que a o ganização, num plano bidimensional, de um qualque caos o iginal – uma Babilónia milhen as ezes e isi ada… -. As “imagens la en es” su gem-nos despidas de um cen o, elas são, em si mesmas, de alhes “assigni ican es” na demanda de uma assemblage (Deleuze, Gua a i, 1987), de uma eunião de ec o es (ou seja, o «cen o» e az-se/des az-se, pe manen e e ciclopicamen e, à medida que as imagens, os planos, se ão dissol endo uns a ás dos ou os, c iando um halo an asmá ico, uma espécie de húmus, de depósi o quase impe cep í el, po ém, ape cebí el). A endencial o mação na a i a não anula, no en an o, a singula idade cons an e em cada uma dessas imagens. Mon a é o ganiza , mas não necessa iamen e es u u a – numa pe spec i a uncional/ins umen al -; mon a é equipa as á ias pa es de um cons uc o, mas não é condição sine qua non desse mesmo cons uc o a ideia de um odo uni á io e coe en e. A coe ência é p ocesso, não es ado, é uma icissi ude, uma deco ência, “um mu mú io do en o, um es ala do soalho”, ou “ainda mui o menos” do que isso, “pode mo i a ou e o ça um encon a -se ou encon a -se de no o”; embalados po Rilke (1969) di isamos o po quê da in e ogação das “imagens la en es”, das “ ulgu ações”, do “ins an e poé ico” como algo que se busca, que se c ia e de que se necessi a acima de udo. Diz-nos ambém Rilke, nas Elegias de Duíno, “eu con inuo aqui. Há semp e que e ” (1969); a dimensão da isão como « idência», como e idência do isí el e do in isí el, p esen i icado na “in uição o iginal” (Husse l, 1989), é a mola p opulso a da poesia, enca ada como a iculação ina iculada (nos an ípodas de uma legolândia) do isí el com o in isí el. Pode se Deus, o “absolu o” de No alis, o pensa sencien e pessoano, a len a, po ém i ecusá el, e osão da conc e ude em Ca los de Oli ei a. Pe gun emos, com Ca ie -B esson (2003), como con e e um de alhe insigni ican e [assigni ican e, se pensa mos em Deleuze], humano, em lei mo i ? C eio que, 88 ap o undadamen e nes a ob a, mas há nela um momen o undado , um “incêndio”, que não pode ia deixa passa em cla o: o poema P incípio, no ho izon e do qual se esboça a ideia de um eg esso ao eal, um “no o ealismo”, e mo cunhado pelo p óp io Joaquim Manuel Magalhães (1981*). Ab amo-nos, en ão, à iqueza signi ica i a de um poema que essoa em mui a daquela que oi, e que é, a poesia po uguesa mais ecen e (algo que pode á, aliás, se i de ampolim a uma mais a u ada p oblema ização da emá ica nou os o a): No meio de ases des uídas, de co es de sen idos e de alsas imagens do mundo o ganizadas po ag essão ou po delí io como ou sabe se a di e ença não há-de se um pac o no o, um eg esso às his ó ias e às á duas g amá icas da p ese ação. Depois dos e ei os da ecusa se disse mos não, a que di emos não? Que cânones são hoje dominan es con a que em de e aze -se a iun an e ino ação? Vol a jun o dos ou os, ol a ao co ação, ol a à o dem das mágoas po uma linguagem limpa, um equilíb io do que se diz ao que se sen e, um ímpe o ao i mo da língua e dize a ca ás o e pela a iculada a i mação das pala as comuns, ocul ados, copos de inho, e as/ e começa a e in e anos/ e não ha e nada, nem uma can iga.” (Magalhães, 1981: 50) 89 o abismo pela sujeição às o mas di ec as do mu mú io, o e o pela cons uída sin axe sem compêndios. Vol a ao eal, a esse desencan o que deixou de can a , ê-lo na igu a sem espelho, na pe spec i a quase de ninguém, de um co po p on o a dize a é às manchas a exac a supe ície po que ai onde se pe de. Em pe igo. “um pac o no o”, “um eg esso às […] á duas g amá icas da p ese ação”. Se ala mos de um eal que já não e oca «amanhãs que can am», o comp omisso da pala a com a acção, se já não se a a de uma p og amá ica ans o mação de um s a u quo, de um apelo às ins âncias e olucioná ias da ma é ia e do espí i o, a a-se de quê? E de quan o? Que eg esso é es e ao eal? Que eal? Aliás, se pensa mos em linguagem ans o mado a, po encialmen e e olucioná ia – ou u ópica no sen ido de um «não-luga » sonhado/ideado -, mui a coisa se passou o a do ilão pu amen e neo- ealis a, bas a pensa mos em Sophia de Mello B eyne , An ónio Ramos-Rosa, Alexand e O’Neill, Má io Cesa iny, o ine i á el Jo ge de Sena, e oda uma ca e a de ou os au o es, sob e udo ligados a mo imen os eme gidos na década de 50 (ou, como não, a ge ação dos 1ºs “Cade nos de Poesia”35). Es e “no o eal” pa a que o poe a nos chama é, sob e udo, uma espos a à linhagem expe imen alis a mais o odoxa, pa icula men e à poesia di a “conc e a”, “não impos a po uma oz in e io p óp ia e i esis í el” (Belo, 1969), a qual subs an i a a noção de ideog ama e pos ula uma idealidade p o o-linguís ica em de imen o de uma isão, que o ulam de «passadis a», do e so como unidade o gânica p o ida de signi icado. É o p óp io Ruy Belo (1969) quem, ins ado a ala do Mo imen o Poesia 61, sublinha a impo ância que es e e e no obs a a que hou esse poesia conc e a em Po ugal. Es e “no o eal” não é um nasci u o, é, se quise mos, undamen almen e um eg esso, quase 35 5 núme os en e 1940 e 1942, o ganizados po Ruy Cina i, Tomaz Kim e José Blanc de Po ugal. 90 uma andenken, no sen ido heidegge iano. Um P incípio que é um “ eg esso” (Magalhães, 1981), uma u gência, uma «eme gência». Pensemos no que ap oxima poe as ão di e sos como Nuno Júdice, An ónio F anco Alexand e, João Miguel Fe nandes Jo ge ou, po exemplo, A mando Sil a Ca alho (ligei amen e mais elho, es e), na iada énue, po ém cons an e, que os une; eside es a, essencialmen e, numa epe spec i ação da linguagem enquan o eículo de exp essão/imp essão de algo ( emos semp e “consciência de alguma coisa”, diz-nos Husse l), num ealoca da linguagem ao mundo, no seio do qual aquela se diz, e não no modo como os poe as ci ados aza am – ou azam – o seu ins in o poé ico (há uma expe imen ação em F anco Alexand e que o ap oxima, elec i amen e, da Poesia 61, um açado neo- omân ico em Júdice e Fe nandes Jo ge, nada e i alis a, con udo, um ealismo (um mundanismo, di ia), às ezes mo daz, po ezes passional e de desencan o p e alecen e em A mando Sil a Ca alho); c eio, inclusi e, que mais impo an e do que os «ismos» é a con empo aneidade, a inac ualidade (Agamben, 2009) de um au o , mo imen o ou pe íodo conside ados – uma década, po exemplo -; como não lob iga , assim, no(s) nosso(s) ealismo(s) (de inais de 19 a é às expe imen ações mais ecen es, às de i as de ca iz hipe - ealis a) ecos de oman icismo, mais ou menos incados, mais ou menos lógicos36… Daí que es e “Vol a ao eal, a esse desencan o/ que deixou de can a ” seja ambém, em si, uma p opos a ge acional, a janela abe a pela democ acia de aze coincidi o dize com o aze e com o sen i (mui as ezes com uma «desbocada» sen imen alização do mundano, do daily basis); mui o embo a, mais a de, se enha a e i ica como que uma de i a cínica (a é mais do que cép ica) na poesia de Joaquim Manuel Magalhães. Mas is o le a -nos-ia mui o pa a lá do âmago des as páginas. Reg essemos ao poema: “Vol a jun o dos ou os, ol a / ao co ação, ol a à o dem/ das mágoas po uma linguagem/ limpa”, “dize / a ca ás o e pela a iculada/ a i mação das pala as comuns”. Não apenas as pala as do dia a dia, mas ambém uma sin axe ap eensí el, a “a iculada a i mação”. Se á es e um no o e ei o de ecusa, uma ecusa da “pala a suspei a”, uma ecusa da impossibilidade de “dize o mundo”? (Ho mans hal, 2008) Tal ez não uma ecusa, mas uma ei e ação – aliás, se nos cen a mos na 36 “Não obs an e a sucessão de escolas e de ismos nos dois úl imos séculos ( oman ismo, pa nasianismo, simbolismo, saudosismo, mode nismo, su ealismo), penso que o ciclo cul u al iniciado com o p imei o oman ismo ainda não indou. A p óp ia busca da o iginalidade, do inédi o, que a sucessão de escolas denuncia, é um índice de época” (Ama al, 1991: 52). A ”acédia” [akedía]; angús ias ulgu ando ausências, mui o pa a lá de um desespe o consequen e, i.e., que ise à ans o mação ou à pu a e simples ex inção (no a minha). 91 discu si idade p olí ica de Ruy Belo, en endemos bem a ma iz po encialmen e beliana des e “ eg esso ao eal”; o não e medo das pala as, das ases ansi i as em ez das “des uídas”, do “pe igo” que ep esen a esse a isca com “um co po/ p on o a dize a é às manchas/ a exac a supe ície po que ai/ onde se pe de”; mui o pa a lá de um «pu o» ealismo (e o que é isso, a inal, pelo menos no ocan e à poesia…), Ruy Belo imp imia o eal nos seus poemas, p ensando-o, depois, numa espécie de o a i a onde o «secula » se en en a a ao in empo al, ao (a) empo al, na demanda de uma olição sal í ica num mundo (ex e io e in e io ) em pe plexa e acele ada e osão. Pensemos, assim, pa a lá do Joaquim Manuel Magalhães poe a e «a au o», na poesia de Al Be o, Luís Miguel Na a, na de Hélde Mou a Pe ei a ou, quem sabe a é, na de Rui Pi es Cab al ou Raquel Nob e Gue a…Tan as ezes o eal como con li o in e io num palco o a de nós – o mundo, um oni ismo dolen e -; o eal como gue a abe a, como ajus e de con as, um ealismo que espi a «libe dade», o nando-a, amiúde, e ém de si mesma; um ealismo quase semp e complexo, oda ia, não p olixo. Já não pe gun amos, hoje, que cânones são dominan es “con a que em de e aze -se/ a iun an e ino ação”; al ez ago a o isco seja o de um sinc e ismo ano é ico e pus uloso, e não an o o de uma uni o midade emá ica concilia . Que sen ido az, en ão, ala de um qualque pós-mode nismo, de uma poesia pop, de uma hips e ização do con inen e poé ico, de uma abdução de aiz pan le á ia? C eio que pouco; soa-me mais a gene alização abusi a do que a ou a coisa, a label c í ico, esse sim pop e bem-pensan e. Di ei, se indo-me pa a al de um í ulo de João Ba en o, que a poesia po uguesa de hoje, e a de ago a, es á “cheia de deuses” (2011), e que, po en u a, celeb a demais os seus pais e a ós, ingindo que o não az (às ezes po au oma ismo ac í ico). Tenho de econhece , no en an o, que es a é uma lei u a p essu osa e não in ei amen e documen ada. Não me comp ome endo, po an o. Desde semp e o axioma da o iginalidade a olhe quem de uma p á ica poé ica se ace ca, en iesando, po ezes, a necessá ia dis inção en e o me o epigonismo e uma ine i á el, e a é desejada, con aminação (quando o passado, o p esen e e o u u o se encon am, di íamos, espon aneamen e – a idamen e -); mas is o semp e oco eu, não é exclusi o dos nossos dias. Es e e o ço de “um encon a -se de no o” (Rilke, 1969), mais do que uma pulsão, é uma necessidade comum a odas as ge ações poé icas; o isco da comple a no idade, da «au ên ica» o iginalidade é, pa a lá de ude pleonasmo, o de ob ia ao p óp io ges o 92 poé ico, o de sac i ica a poesia à necessidade de in eg ação social, de se is o como um gu u numa comunidade de leigos. Mas pa a que as luzes do hic e nunc não o usquem o p esen e des e ex o, digamos que a ideia, cons an e em La kin, de “ ec ia o habi ual” es á di ec amen e elacionada com uma “es é ica do olha ” (Guima ães, 2002), a a enção ao agmen o, à ci cuns ancialidade, à condição p ecá ia de se -se homem no mundo [mode no]. Reg essa ao eal é, em suma, não e medo de dize demais, é não se escuda a ás de es a ados ecu sos es ilís icos – imagé icos -, semp e e quando es es o nem o discu so opaco e lhe con i am um débil simulac o de mis é io; não se a a de e o na ao igu a i o, a a-se de condensa o eal – a expe iência do mundo – em sín eses explosi as, in ui i as, de esga a a linguagem poé ica de algumas en a i as que, a cobe o de um simbolismo «de algibei a», de um expe imen alismo inope an e (e mais ex a agan e do que imagina i o), pouco ou nada ac escen a am ao ilão da poesia que se az (que se ez e a á) em Po ugal. Ob iando a algum dogma ismo que, po en u a, pudesse deco e das minhas pala as, é jus o ealça a impo ância que alguns i ine á ios mais isolados i e am, e ainda êm, quando se conside a a nossa con empo aneidade poé ica – como não des aca uma Ana Ha he ly37 ou, em ce a medida, Hélde Macedo, um maudi como Albe o Pimen a. E, já ago a, o p óp io He be o Helde , ce amen e uma das « ozes» mais signi ica i as pós-Pessoa, ele p óp io es agiou em e eno «expe imen alis a», endo in uído as dinâmicas e consolidado a sua singula idade num con aco en e desde cedo assumido; es e é, aliás, um caso em que con e gem uma densa e udição poé ica (his ó ica e mí ica)38 mesclada com um labo p óximo da ag ama icalidade descons u i is a. No o- ealismo, hipe - ealismo, supe - ealismo39, somen e ealismo, ou a “au en icidade” que deco e de uma aguda obse ação de udo quan o nos ce ca, “ oo ed in ac ual expe iences” (******), ou, no as o de Ca los de Oli ei a, “Quem den e os 37 Ligada à Poesia Expe imen al Po uguesa, da qual se oi dis anciando o mal e c i e iosamen e (1929- 2015). 38 “Há um conjun o cen al de modi icações es ilís icas e p ocessuais, de adicalizações dos nexos especula i os, condicionados pelas especí icas al e ações da «esc i a» poé ica en e es e século que ai de 1890 a 1990, que con igu a um sabe , uma «ciência», c is alizando-se no que desagua em a ados alquímicos e na emedi ação omân ica sob e esses a ados, po sua ez in eg an e da a iedade da expe iência mís ica c is ã. Um dos penúl imos g andes ep esen an es de udo is o oi W.B.Yea s. Um dos úl imos, no sen ido de o mais ecen e, c eio es a a sê-lo He be o Helde ” (in Magalhães, 1999: 141). 39 Rui Pi es Cab al e A Supe -Realidade (1995) 93 homens me ou i ia/ sem pala as?” (1982); po mais dis an es que se encon em da plena mediação en e um supos o eal e a sua ep esen ação, se p escindíssemos das pala as p escindi íamos de nós mesmos, de uma qualque ideia de con inuidade, po mais con ingen e e agmen á ia que es a seja. Mas, e a poesia, é es a di isá el pelo me o emp ego de pala as, de uma “sinalé ica complexa e codi icada” (Ba hes, 1997) e comuni a iamen e pa ilhada? A espos a é ób ia: não. Impo a econhecê-la quando dian e dela, quando con on ado com a sublimidade da sua «p esença», com o seu “acon ece ”; o es o, en im, o es o é o me o uncionamen o do mundo, um mundo a e ilha de mudanças, mas cujos mecanismos de ans o mação ninguém pode á jamais conhece . Pa a que se e, en ão, a poesia? Pa a nada, espondemos, e po isso mesmo é ão necessá ia e, al ez ambém po isso, não goze daquilo que nos habi uámos a designa de “espaço público”. Mas há um “público” pa a a poesia…? “e pa a quê Poe as em empo de indigência?” (Hölde lin, 1959: 217). Deixemos, pa a já, a in a seca , ac escen ando-lhe uma possí el inquie ação: “Mas [e] o que me não ce ca que pala as o di á?” (Magalhães, 1981: 42). 94 95 Conclusão e é dia lá onde o olha dos loucos ab e (Ruy Belo, O P oblema da Habi ação – Alguns Aspec os) É cu ioso a en a no es o ço que emp egámos pa a a ingi a coe ência desejada. Tan as ezes mo idos como que po uma oz in e io que nos diz ai po aí, não ás po ali; se á es e o seg edo de uma boa disse ação, a capacidade de en e e a empadamen e os bons e os maus ilhos, a « idência» necessá ia pa a pe cebe os escolhos e, nesse mo imen o, o neá-los? Como é na u al, um abalho dessa espécie não pode, em momen o algum, p escindi de uma ce a dose de lucidez, cap u ando, desde logo, pa a o e ei o a ideia de um pon o de pa ida li e á io, não obs an e odas as de i ações que nele es ão implíci as. Não sei se me in e essa pa icula men e o ex emo he e ocli ismo de Bauman (2000), quando es e nos diz que, hoje, udo se p ocessa “en e-luga es”, que udo dialoga com udo e em odos os momen os… A se assim, que nos impo a ia a li e a u a enquan o «luga au ónomo», enquan o exp essão do inaudi o; bas a -nos-ia, unicamen e, ece elações mais ou menos p óximas, mais ou menos dis an es, e pe ila -nos-íamos de imedia o como expe s numa qualque á ea de ac i idade cul u al ou in elec ual; e como encaixa bem, no plano do poli icamen e co ec o, a li e a u a num ce o espí i o do ja gão pós-colonial, o qual, não a as ezes, udo pa ece que e eduzi a um qualque condicionamen o de o dem simbólica, a uma uni e salização do ela i o. Pa ece-me insu icien e, an o mais que, e passo a ala de mim e das páginas que p ecedem es as conside ações, não me enho como especialis a em li e a u a ou no que gene icamen e possamos apoda de es udos li e á ios. Os ma izes são múl iplos e as ias de acesso cons i as. Pos o isso, di ia que uma disse ação de mes ado em Es udos Po ugueses em de assen a , necessa iamen e, numa in e pelação de ca iz li e á io, mui o embo a es a possa, e a é de a, se a a essada, me odológica e ope acionalmen e, po uma abo dagem plu al. Quem i e lido as páginas que es ão pa a ás en endeu, ce amen e, o luga cen al ocupado pela poesia ( esis o, aqui, à en ação da le a maiúscula), da poesia como odo, não eduzida a um au o , endência ou seque a um pe il de dema cação; al ez po esse mo i o me enha deixado seduzi pela emá ica da “habi ação poé ica”, e o nando, 96 assim, a Hölde lin e à sua poiesis e, como não, às ci as e enigmas que ainda hoje po ela são le an ados. E é a “habi ação poé ica”, enquan o cha nei a, que me conduz ao encon o da iloso ia, mais especi icamen e a uma enomenologia poé ica, mo ido po duas inalidades p imaciais: a de pode «le » au o es, digamo-lo assim, nossos con empo âneos, ci cunsc e endo, que não cingindo ou limi ando, essa lei u a a uma mesma co en e emá ico- e lexi a, a da já mencionada habi ação poé ica, al como in uída na lei u a heidegge iana de Hölde lin40. São Ruy Belo e João Rui de Sousa que me su gem nes e olha ins uído (ou melho , po enciado) po um en oque enomenológico, pelo magis é io husse liano. Mais di ícil do que enquad a , e á sido o ges o de pô em pe spec i a oda es a p o usão de elações/ emissões. A lição husse liana ensina-nos, na es ei a de alguns pos ulados «c í icos» kan ianos, a coloca o sujei o num luga cen al do conhecimen o41, e ambém a não p escindi daquilo que eu designa ia po imedia ez cogni i a, i.e., a capacidade que se nos o e ece enquan o se es pe cipien es po excelência, de esga a o enómeno em p imei a ins ância, e não o “em si” das coisas com que nos con on amos. Conside o ais p emissas de e minan es no plano de qualque analí ica poé ica, que sob o p isma da sua p odução, que no a inen e à « ecepção», ou ins ância mediado a p op iamen e di a. A sinalização enomenológica cons an e des a disse ação só pode ia e ec i a -se se de idamen e enquad ada me odologicamen e – ou con a-me odologicamen e, como me pa ece aze mais sen ido; não obs an e o isco co ido de uma «colagem» ap oblemá ica de pe spec i as ilosó icas, ou quasi- ilosó icas, no sen ido de pe passadas po múl iplos cambian es que não conce nem unicamen e à iloso ia, mas que a co ejam numa elação complexa com a ciência e as a es, en endi que a noção de “ izoma” (Deleuze, Gua a i, 1987) emp es a ia à disse ação o eixe exac o onde aze con e gi a mul iplicidade analí ica nela p esen e/p essen ida, a poesia, a con empo aneidade enquan o inac ualidade, a “habi ação poé ica” como o modo – mundo – poé ico po excelência, a epoché no sen ido husse liano de “con emplação 40 Hölde lin and he essence o poe y **** 41 O “ego das pu as cogi a iones” (Husse l, 1992: 10) 97 desin e essada”42, a in uição enoménica como algo “o iginalmen e dado à consciência” (Husse l, 1989), ou a noção be gsoniana de du ée (1994), ambém ela inco po ada na p oblemá ica husse liana da passagem do empo como algo de incomensu a elmen e mais di uso do que um simples opo c onológico43. A noção de “ izoma”, alice çada numa concepção acên ica, de ques ionamen o dos luga es de pode – da p óp ia c í ica, de algum cen alismo discu si o -, é o eixo que az ola a g ande (e indomá el?) oda que anima es a disse ação, e que p e ende do a da coe ência possí el um abalho cujas bases não es a iam ainda comple amen e es adas e os iscos ine en es su icien emen e despis ados. Eu di ia, inclusi amen e, que, mais do que o amo à poesia (que exis e), impo an e oi pa a mim e descobe o um meio de nela me emb enha , en e ecendo conações, umas mais ób ias, ou as mais discu í eis, que me izessem a ela (à poesia) eg essa o mais in ei o possí el. Habi a poe icamen e (n)o mundo é, mui o esumidamen e, uma in e pelação ao pode implíci o/explíci o da linguagem e, mu a is mu andis, ao es a u o da p óp ia poesia num mundo, numa sociedade, e aqui sociedade como equi alendo a mundo ociden al, que ende a ei ica ad absu dum a p óp ia noção de mudança; des e modo, a sup ema me amo ose con ida não só na pala a como na p óp ia ocalização «mo e» assume uma p eponde ância sumamen e isí el no decu so da disse ação. Ampa ando-me nas obsessões sémicas e emá icas de um Ruy Belo, mas ambém em João Rui de Sousa ou em Ca los de Oli ei a, p ocu ei i alimen ando o en oque enomenológico a que me p opus, daí que ocábulos/exp essões como “mo e”, “ on ade”, “ e dade”, ou as “imagens la en es” de Sob e o lado esque do (1968 in 1982), as «c is alizações», oda essa pa a e nália, esse equipamen o linguís ico-analí ico, po que a poesia ambém pode se p oblema ização (o de e -se já é ou o ó um), se enha ans o mado, median e uma lei u a simul aneamen e clínica e in ui i a, na cen elha que ez p opaga a chama. E a Kan quem nos dizia que “o li e jogo da imaginação e do en endimen o [enquan o aculdades] não pode se in elec ualmen e conhecido, apenas sen ido” (in Deleuze, 1991); eu ema a ia dizendo que a a e, e nes e caso an o nos impo a que seja a poesia ou ou a exp essão que dela – com ela – se ace que, começa a e noção, uma noção 42 Impo a uma ez mais eme e pa a o aseado husse liano: na minha o iginalidade enquan o minha mónada apodic icamen e dada, e lec em-se as mónadas es anhas, e es a espelhação é uma indicação que se comp o a de modo consequen e (1992: 46). 43 A [pe cepção coisal] é “como um du a (…) Es e lui incessan e, es a empo alidade é algo de essencialmen e ine en e ao enómeno anscenden al” (Husse l, 1992: 25). 104 Husse l, Edmund, Con e ências de Pa is, Lisboa, Edições 70, 1992 Koy é, Alexand e, Conside ações sob e Desca es, Lisboa, Edi o ial P esença, 1992 (4ª ed.) 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