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Visi a Guiada: mediações da cul u a numa cul u a de mediações
João Ma ia Gomes Ben o F ança Ma ins
Disse ação de Mes ado em Ciências da Comunicação
Julho, 2021
Disse ação ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à ob enção do g au de
Mes e em Ciências da Comunicação, ealizada sob a o ien ação cien í ica da
P o esso a Dou o a Ma ia Lucília Ma cos
Aos meus a ós e à Jesus,
O meu pa imónio.
AGRADECIMENTOS
Em p imei o luga , ag adeço à minha o ien ado a, a P o esso a Dou o a Ma ia Lucília
Ma cos, pela o ien ação na disse ação, mas sob e udo pelas his ó ias, concei os e au o es
que me ap esen ou. A minha p imei a aula oi Teo ia da Comunicação, a minha p imei a
op a i a oi Filoso ias do Sujei o e o meu p imei o seminá io oi Al e idades. Es as ês
disciplinas, pa a além de undamen ais pa a o ma a minha isão do mundo, o am
essenciais pa a eu e op ado pelos meus es udos na e en e de Comunicação, Cul u a e
A es.
Em segundo luga , aço um ag adecimen o, mui o especial, à Paula Mou a Pinhei o pela
hospi alidade e eno me simpa ia demons ada num encon o demasiado ao acaso pa a se
po acaso. Pelos mo i ado es dias e in e essan es con e sas que me p opo cionou nas
g a ações. Po ém ag adeço, acima de udo, pelo eno me se iço público des es úl imos
se e anos a aze o Visi a Guiada. O seu exímio abalho, com an o de ele an e como de
acolhedo , le a am-me a esc e e es as páginas. Depois de anos a le a a academia pa a
a ua, a a és do Visi a Guiada, ica aqui o meu modes o con ibu o pa a aze o Visi a
Guiada pa a a academia.
Em e cei o luga , ag adeço à NOVA FCSH, ins i uição onde cu sei nos úl imos cinco
anos e em que ui semp e incen i ado a “pensa em libe dade”. En ei pa a es a aculdade
meno de idade e saio um cidadão. Tan o na licencia u a como no mes ado, pude
con ac a com uma a iadíssima gama de au o es e con eúdos, dos mais di e sos
depa amen os. Ag adeço a odos os p o esso es que con ibui am pa a a minha o mação
académica. Con udo, o meu maio ag adecimen o ai pa a odos os amigos que iz
du an e o cu so e a odos os que o am acompanhando es e meu pe cu so, com des aque
pa a o Philipp, meu companhei o de sec e á ia p a icamen e desde o p imei o dia, e pa a
a Lú, que a nós se jun ou.
Po úl imo, não pode ia deixa de en a exp essa a inexp imí el g a idão que sin o pela
minha amília. Ao meu pai, à minha ia, à minha i mã e, acima de udo, à minha mãe, os
meus e dadei os alice ces. Pelo apoio e ca inho incondicionais e po odo o in es imen o
que deposi a am em mim. Ob igado, p incipalmen e, pela paciência pa a alguém que
congelou na “idade dos po quês”. A mui as mais “ isi as guiadas” jun os.
RESUMO: Imagens de imagens, ec ãs de ec ãs, mosaicos de mosaicos, mediações de
mediações, espelhos de espelhos, a qui os de a qui os ou, po ou as pala as, um
pa imónio de pa imónio. Assen e nes e mo imen o de mise en abyme e endo como “ io
de A iadne” o p og ama ele isi o Visi a Guiada, a p esen e disse ação isa
p oblema iza a elação con empo ânea com o pa imónio e o papel decisi o, senão
mesmo cen al, que a imagem adqui e nesse p ocesso. Se o humano semp e i eu com
mediações, na con empo aneidade es e i e nas mediações. Numa cul u a onde
p oli e am as “ isi as guiadas” com a p óp ia cul u a, impo a a ende à p eponde ância
do pa imónio como o mado de al e idade(s) e o seu consumo pa a a cons ução de
iden idade(s), indispensá eis enquan o mediações que es abelecem as ligações numa
comunidade.
PALAVRAS-CHAVE: Al e idade; Comunidade; Consumo; Imagem; Pa imónio;
Tele isão.
ABSTRACT: Images wi hin images, sc eens wi hin sc eens, mosaics wi hin mosaics,
media ions wi hin media ions, mi o s wi hin mi o s, a chi es wi hin a chi es o , in
o he wo ds, he i age wi hin he i age. Based on a mise en abyme echnique and ha ing as
“A iadne´s h ead” he ele ision p og am Visi a Guiada (Guided Tou ), his disse a ion
aims o discuss he con empo a y ela ionship wi h he i age and he decisi e, i no e en
cen al, ole ha he image acqui es in his p ocess. Knowing ha humans ha e always
li ed wi h media ions, nowadays hey li e in media ions. In a cul u e whe e “guided
ou s” wi h cul u e i sel p oli e a e, i is impo an o ake in o accoun he p eponde ance
o he i age as a c ea o o al e i y(ies) and i s consump ion o he cons uc ion o
iden i y(ies), indispensable as media ions ha es ablish connec ions in a communi y.
KEYWORDS: Al e i y; Communi y; Consump ion; He i age; Image; Tele ision.
ÍNDICE
LINHAS INTRODUTÓRIAS ........................................................................................ 1
CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS .................................................................. 4
Capí ulo I: A IMAGEM TELEVISIVA ....................................................................... 5
I.1 Olha o Olha ........................................................................................................... 5
I.2 Tele isualidades .................................................................................................... 11
I.3 Ec ani isões .......................................................................................................... 22
Capí ulo II: PATRIMÓNIO E ALTERIDADE(S) .................................................... 27
II.1 (Re)E gue o Ou o .............................................................................................. 27
II.2 O Monumen o ...................................................................................................... 30
II.3 O Pa imónio ........................................................................................................ 34
Capí ulo III: CONSUMO E IDENTIDADE(S) ......................................................... 43
III.1 O Obse ado -Consumido ................................................................................ 43
III.2. O Consumo e as ocas simbólicas .................................................................... 46
Capí ulo IV: VISITA GUIADA .................................................................................... 53
IV.1. Um Museu Imaginá io ...................................................................................... 55
IV.2. A Comunidade ................................................................................................... 67
LINHAS CONCLUSIVAS ........................................................................................... 78
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ...................................................................... 80
APÊNDICE A: LISTA DE EPISÓDIOS DO VISITA GUIADA .............................. 85
APÊNDICE B: FOTOGRAFIAS DAS GRAVAÇÕES DO VISITA GUIADA ....... 90
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LINHAS INTRODUTÓRIAS
A p esen e disse ação cons i ui-se como uma e lexão conce nen e às especi icidades da
p axis pa imonial na cul u a con empo ânea e da cen alidade que es a adqui e, na sua
indissociabilidade com a emá ica da imagem, no es abelecimen o de ligações
imp escindí eis enquan o elos aglu inado es de uma comunidade. Numa cul u a pau ada
pela p oli e ação de “ isi as guiadas” com a p óp ia cul u a, impo a a ende à elação
en e pa imónio e a elabo ação de al e idade(s), bem como ao seu consumo pa a a
cons ução de iden idade(s). Como “ped a de oque” des a p oblema ização a espei o da
imagem, do pa imónio e do consumo, su ge uma análise ela i a ao p og ama ele isi o
Visi a Guiada1. Pa a esse e ei o, a disse ação es á di idida em qua o capí ulos.
No p imei o capí ulo, são ecidas conside ações ela i amen e à ques ão da imagem e à
essencialidade que es a possui na expe iência sensí el do humano. Numa p imei a
ins ância, a emá ica do olha é abo dada, median e uma genealogia a espei o da
p e alência da imagem pa a a mediação do humano com o mundo e consigo p óp io.
Con emplam-se as á ias modalidades de elabo ação imagé ica e as especi icidades de
cada ipologia, com especial en oque pa a o es ágio imagé ico da con empo aneidade, no
qual a imagem ele isi a e as suas peculia idades assumem uma ex ema ele ância.
Ou o ópico abo dado é a emá ica do ec ã e a sua omnip esença na mediação da
expe iência, pa a a qual o disposi i o2 ele isi o desempenhou uma p imo dialidade nes a
dis upção pa adigmá ica.
1 O Visi a Guiada consis e num p og ama da Rádio e Tele isão de Po ugal (RTP), com uma e são
adio ónica e ou a ele isi a. A sua sinopse encon a-se no capí ulo a ele dedicado. Impo a escla ece
que, po mo i os de coe ência analí ica, na p esen e disse ação apenas es a á pa en e uma análise
ela i a ao seu pendo ele isi o.
2 A emá ica do disposi i o como o ma de acionalidade écnica mode na cons i ui-se como um dos
assun os da maio ele ância pa a a iloso ia con empo ânea. Pensada, p imei amen e, po Ma in
Heidegge , com o concei o de Ge-s ell, es a so eu a iados desen ol imen os, dos quais sob essaem as
con ibuições de Gilles Deleuze e de Gio gio Agamben. De aco do com Agamben, o disposi i o age sob e
os se es i os de manei a a daí de i a um sujei o que consis e, assim, num “ e cei o” o iundo da elação
«/…/do co po a co po en es os i os e os disposi i os.» (Agamben, 2007: 32). O sujei o é, po
conseguin e, um e ei o da con on ação do i o com o disposi i o. C :
- Agamben, Gio gio (2007), Qu´es -ce qu´un disposi i ?, Pa is, Édi ions Payo & Ri ages
- Deleuze, Gilles (1992), «Wha is a disposi i ?» in A ms ong, Timo hy, Michel Foucaul , philosophe , No a
Io que, Rou ledge.
- Heidegge , Ma in (1977), The Ques ion conce ning Technology, No a Io que, Ha pe o ch books.
2
No capí ulo seguin e, é analisada a cen alidade do pa imónio nessa elação com a
imagem e a sua ele ância enquan o ec ã con empo âneo o mado de al e idade(s).
A endendo ao a a essamen o indispensá el do Ou o pa a a edi icação de iden idade(s),
impo a comp eende o a o de insc e e , conse a ou mesmo e gue pa imónio e a sua
associação com a ab icação de al e idade(s), de e minan e pa a molda a(s) iden idade(s)
do(s) p esen e(s), com ecu so ao passado. Se é ce o que a elabo ação de espec alidades
é uma cons an e nas sociedades humanas, mesmo nas mais a iadas la i udes e
empo alidades, as p á icas pa imoniais co espondem ao modo mode no de as p oduzi ,
colma ando uma necessidade semelhan e de esponde à mo e e, em simul âneo, o ma
comunidade.
O e cei o capí ulo con ém uma cogi ação a espei o da ques ão do consumo e a
impo ância que es a p á ica adqui e, na con empo aneidade, nos p ocessos de
subje i ação, is o é, na di e enciação dos indi íduos, indispensá el pa a a elabo ação de
iden idades. O consumismo é uma emá ica ine en e, po um lado, à da imagem ele isi a,
esul an e de um apa elho ca ac e ís ico da sociedade de consumo e, po ou o lado, à
elação a ual com o pa imónio, enquan o al e idade que ad ém consumí el. Es e consis e
numa p á ica imp escindí el, que pa a a dis inção dos indi íduos – c ucial nos alo es
mode nos – que pa a a aglu inação de cole i idade(s), a a és da ga an ia de ci culação
simbólica de obje os o mado es de um “chão comum”. Tal ópico é, de igual modo,
in ínseco ao su gimen o de uma cul u a isual de massas (de que a ele isão é uma
deco ência mais a dia, embo a da maio ele ância), do ad en o de um obse ado que
é, simul aneamen e, consumido , da u gência da comp o ação do alo da igualdade (que
se con e e numa igualdade pe an e a me cado ia) e da essencialidade do consumo na
asse e ação de ocas simbólicas ulc ais pa a a p ese ação dos elos comuni á ios.
No úl imo capí ulo cons a uma p oblema ização do Visi a Guiada, na qualidade de obje o
de análise que elaciona odas as emá icas abo dadas. Consis indo num p og ama de
ele isão ace ca do pa imónio exis en e em e i ó io po uguês, o Visi a Guiada é
o mado de imagens de imagens, ec ãs de ec ãs, mediações de mediações, espelhos de
espelhos, a qui os de a qui os ou, po ou as pala as, de um pa imónio de pa imónio.
Es e é co olá io da p imazia da imagem na con empo aneidade, po um lado pelas
imagens do passado que o p óp io pa imónio p opo ciona e, po ou o lado, pela
necessidade de as o na p esen es pa a odos os p esen es, mesmo à dis ância. Inse indo-
9
Embo a mui o possa se disco ido ace ca das ês e as mediológicas apon adas po
Deb ay, con ém ealça que, nes e capí ulo, o oco ecai á na úl ima ase do olha , a que
igo a com mais eemência a ualmen e, is o é, a ideos e a. Impo a e le i mais
especi icamen e sob e a imagem que es a mundi isão p oduz, com um especial en oque
pa a a imagem ele isi a, em g ande medida undado a des a mundi isão, como se lê em:
«/.../ l´en ée dans le Nou eau Monde de l´image ne s´opè e pas à no e sens en
1839, ni en 1859, p emiè e exposi ion de pho og aphies dans le Salon des Beaux-
A s de Pa is. (...) Mais dans nos annés soixan -dix a ec l´usage de la élé
couleu s. On aisai déma e la idéosphe e au o de 1968. C´es ce e anné-là,
aux Jeux olympiques d´hi e de G enoble, que u es ée e lancée en F ance la
e ansmission he zienne des images couleu s /.../» (Deb ay, 1992: 364-365).
Consequen emen e, oi o ad en o da imagem ele isi a a co es que po enciou a
implan ação de uma no a ase do olha no Ociden e. Impo a escla ece que, não obs an e
exis am semelhanças en e a imagem ele isi a, a cinema og á ica e a o og á ica–
pau ada pelo seu ca á e indicial8 – e que as duas úl imas ipologias imagé icas enham
ambém ope ado uma u u a no modo de ab icação de imagens, con ibuindo,
incon es a elmen e, pa a o alcança da imagem ele isi a, é p ecisamen e a imagem da
ele isão que unda uma no a e a mediológica e não a o og a ia e o cinema. Ainda que
enha sido o disposi i o o og á ico a inse i o au oma ismo mecânico na elabo ação de
imagens – p incipiando a iabilidade de desdob amen o median e uma esc i a com luz9–
8 A imagem o og á ica é, po um lado, um ícone pela e osimilhança que man ém com o seu e e en e,
a al “semelhança ín ima” que p econiza a Félix Nada e, po ou o lado, es a ipologia de imagem
cons i ui-se como um índice, como apon a Philippe Dubois, ao e e i que «O peso do eal que a
ca ac e iza es á naquilo que nela é es ígio e não mimesis» (1992: 29). Ao sinaliza o as o como cen al
na imagem o og á ica, o au o , ademais de se dis ancia de uma isão me amen e mimé ica, co obo a
a p oximidade en e a imagem e o seu e e en e, oco ida a a és da cedência di e a de apa ências do
eal pa a a película o og á ica. Nes e p ocesso de delegação es á implíci o o concei o de es ígio. «/…/ a
o og a ia é p imei amen e índice an es de se ícone. O ealismo não é negado, mas deslocado.» (Dubois,
1992: 92). Somen e es e deslocamen o, ope ado pela “génese au omá ica” da o og a ia que “sub e eu
adicalmen e a psicologia da imagem” (Bazin, 1945: 6), é que possibili a a comp o ação da exis ência do
e e en e, salien ando-se, des e modo, a índole eminen emen e es emunhal da o og a ia. C :
- Bazin, And é (1945) “On ologia da Imagem Fo og á ica”, in Re is a de Comunicação & Linguagens, nº
39, junho de 2008;
- Dubois, Philippe (1992) O ac o o og á ico (o . L´ac e pho og aphique), Lisboa, Veja;
- Nada , Félix (2017) Quando Eu E a Fo óg a o, Lisboa, Co o ia.
9 Fo og a ia signi ica, p ecisamen e, esc i a ou desenho (do g ego, g a ê) com luz (do g ego, ós).
10
é a imagem ele isi a que inco po a, pela p imei a ez na humanidade, a anulação do
di e ido, a a és da in odução do di e o. Com a imagem a co es, o na-se exequí el
eme e di e amen e e em di e o pa a o eal. A ques ão da e osimilhança deixa de se
colocada do mesmo modo, uma ez que passa a es a em causa uma ap esen ação do
obje o isual e não apenas uma ep esen ação ou uma e-ap esen ação.
A emá ica da epe ibilidade, in insecamen e elacionada com as ques ões da
ep odu ibilidade10, da anspo abilidade ou da ubiquidade11 es á indissocia elmen e
elacionada com a ques ão da democ a ização12. Conquan o a epe ibilidade, po um lado,
seja equen emen e associada a algo de menosp ezá el, po ou o, impo a a ende que é
a a és dela que se emp eende um p ocesso de democ a ização.
Embo a enha sido ecebido, num es ágio inaugu al, com um ele ado g au de suspeição
e a é uma ce a inc edulidade, nomeadamen e a ní el eclesiás ico ( an asmago ia), es e
p ocesso de indus ialização e epe ibilidade do isí el o a indispensá el pa a a
uni e salização das imagens, que na sua elabo ação, que na sua eceção. Tal cons i uiu
uma e dadei a e olução13 que possibili ou, não apenas que cada indi íduo pudesse c ia
a sua imagem, mas udo o que isso aca e a: desde o u ismo ao álbum de amília,
passando po enómenos con empo âneos como o Google e o Facebook14. Tal cons i ui-
se como um con ibu o imp escindí el pa a o ad en o da imagem ele isi a que,
possuindo a capacidade de ul apassa as limi ações do di e ido, e i ou à o og a ia a
10 C : Benjamin, Wal e (1992), «A ob a de a e na e a da sua ep odu ibilidade écnica», in Sob e a e,
écnica, linguagem e polí ica, Lisboa, Relógio d´Água, pp. 71-113.
11 C : Valé y, Paul (1928), «La conquê e de l´ubiqui é», in Oeu es, ome II, Pièces su l´a , Pa is, Gallima ,
Bibl. De la Pléiade (1960), pp. 1283-1287.
12 C : Mal aux, And é (2020), O Museu Imaginá io, Lisboa, Edições 70.
13 «Kodak u à l´image ce que Lu he u à la le e.» (Deb ay, 1992: 368).
14 Do alo de memó ia da o og a ia enquan o au odocumen ação, ins au ado pela Kodak e pela
Pola oid, ansi ou-se pa a a imagem o og á ica com uma idoneidade de pa ilha. Ace ca des a emá ica,
leia-se:
- S u ken, Ma i a (2017) «Da Kodak e Pola oid ao Google e ao Facebook: Fo og a ias de amília e
o og a ias do eu», in Re is a de Comunicação e Linguagens nº47, pp. 8-24.
- S u ken, Ma i a., & Ca w igh , Lisa (2009) P ac ices o looking: An in oduc ion o isual cul u e, Ox o d
Uni e si y P ess.
11
p emência de ealismo, iabilizando o seu desen ol imen o es é ico e a sua libe ação
a ís ica.
I.2 Tele isualidades
A ele isão é uma ou a imagem. A en e-se à e imologia da pala a ele isão: ele (do
g ego “dis an e”) e isione (do la im “ isão”). Sendo a p imei a imagem cuja designação
eme e explici amen e pa a um isionamen o à dis ância, es a ipologia imagé ica
compo a em si um conjun o de pa icula idades indissociá eis do ídeo (do la im «eu
ejo»). Es e no o modo de engend a imagens, ins au ado pela ele isão a co es e pelo
ídeo, undado da ideos e a, p o agonizou uma cesu a com o an e io egime
dominan e, o da «A e». Implan ou, em consequência, um ho izon e de no as
possibilidades, como a epo agem, o zoom, o di e o, o a elling ou o documen á io, sob
as quais assen a, de um modo subs ancial, as peculia idades da o ma a ual de conceção
e consumo de imagens e, consequen emen e, as especi icidades da eme gência de uma
no a linguagem isual15.
En a ize-se que as medias e as es ão in a ia elmen e subo dinadas ao seu p imo dial
e o de ansmissão, sendo que, no caso da ideoes e a é o ídeo. As ca ac e ís icas des a
ca ego ia de imagem condicionam igo osamen e o olha con empo âneo, jus i icando-
se, des e modo, uma obse ação a en a sob e as mesmas. Es a «imagem ídeo» não ca ece
necessa iamen e da exis ência de uma imagem ma e ial, uma ez que ela consis e num
sinal elé ico in isí el. É o seu ece o que econs i ui a imagem, num mo imen o em que
pa a se e é necessá io le . Es e supo e, embo a enha como p incipal aculdade a
possibilidade de desp o imen o ma e ial, possui algumas idiossinc asias igualmen e
e elado as de uma u u a com as épocas mediológicas que a an ecede am, ais como a
simul aneidade e um ni elamen o na emissão en e imagem e som, a dispensabilidade de
desen ol imen o químico em labo a ó io e o inédi o es abelecimen o da di usão de
imagens à dis ância e de um modo ins an âneo. Tal al e ou de manei a adical, não
15 C : Schwa ze , Mi chell (2004), Zoomscape: A chi ec u e in Mo ion and Media, Lond es: P ince on
A chi ec u al P ess.
12
somen e o sis ema de in o mação, mas sob e udo, o egime de pe ceção do espaço e do
empo. Com ecu so às ondas he zianas, es e modo de p opagação de imagens
possibili ou a conjugação, sem p eceden es, en e ubiquidade e ins an aneidade,
concebendo um no o cosmos comunica i o.
A a és da sup essão do di e ido, a no a «imagem à dis ância» ocasionou a caducidade
do pla onismo16 ela i amen e às imagens. A au o e e enciação possibili ada pela
ideos e a p o ocou o é mino do an agonismo clássico en e se e pa ece , na medida
em que a en idade isual deixa de possui uma ealidade ísica co esponden e, passando
a ealidade e a imagem a e ela uma indisce nibilidade pa adoxal. A imagem c iada pelo
compu ado , a í ulo de exemplo, admi e a con emplação com um ele ado g au de de alhe
de uma ob a a qui e ónica cuja cons ução possa ainda nem e sido p incipiada. A
imagem con e e-se, assim, no des ino, deixando de se imp e e i elmen e a o igem. Sem
au o nem e e en e, es a ipologia de imagem p omo e nos seus ece o es uma idola ia
au omá ica e di e a. A ene ação cessa de se sucede po en e uma imagem, ace a uma
ealidade que a mesma indica, po oposição ao ícone c is ão que een ia com
anscendência pa a o se ou à imagem de a e que ( e)ap esen a de modo a i icial.
Dando-se na u almen e ao se , a imagem da ideos e a o na-se imagem de si p óp ia,
p escindindo de sujei os e obje os17. O Visual eme e pa a si p óp io, comunica-se,
es abelecendo uma cul u a de olha es, sob a qual assen a um mundo plenamen e
media izado, em que as mediações se medeiam a si p óp ias. Possui a habilidade de
ilus a , alo iza , deco a , mas não necessa iamen e de mos a , cons i uindo-se como o
seu p óp io mons o18.
Resul an e des a no a o ma de concebe imagens e mundi isões, o disposi i o ele isi o
emana da ideos e a como um e dadei o ei o social. A inco po ação da ins an aneidade
no p ocesso imagé ico e comunica i o o a de al modo de e minan e que eme e pa a
16 Rela i o a Pla ão, cuja iloso ia, no que conce ne a imagem, assen a a na dico omia en e o “mundo
das ideias” e o mundo sensí el, no qual p oli e am as cópias das cópias. C : Pla ão, A República. T ad.
Ma ia Helena da Rocha Pe ei a. 8ª ed. Lisboa: Fundação Calous e Gulbenkian, 1949.
17 E imologicamen e, as pala as “sujei o” e “obje o” p o êm do la im subjec um e objec um,
e minologias cuja signi icação eme em pa a “es a subme ido a” ou “es a expos o a” e “a i ado pa a a
en e de” ou “colocado à en e de”, espe i amen e.
18 E imologicamen e, os e mos “mos a ” e “mons o” de i am da mesma designação la ina: Mons a e.
13
uma ce a ideia de ca ecismo. A ele isualidade possui um ca á e mosaicis a, uma
au ên ica momen aneidade deslumb an e, semelhan e a um caleidoscópio. A dis upção
ope ada pela a e cinema og á ica assen ou essencialmen e na ques ão da mon agem19,
enquan o que no medium ele isi o, po oposição, a u u a alice çou-se a a és da
inaudi a jus aposição de imagens. T ansmi indo isões do mundo numa dialé ica de
agmen ação, a ele isão cons i ui-se como uma au o idade sem au o , uma c ónica sem
c onologia, uma empo alidade ugidiamen e pe co ida e c iada, o que jus i ica a
p emência compulsi a do «encon o egula » com o elespe ado e a ânsia de o ideliza .
Ca ego iza os a iados se o es da sociedade, com o in ui o de conc e iza uma ce a lógica
de amilia ização com os mesmos.
Embo a es a ipologia imagé ica se dis ancie do simbólico e ca eça de ope a uma
cons an e delimi ação do empo, uma ez que o i ializa com a sua cele idade e
dispe são, é indubi á el que a imagem ele isi a enha conc e izado uma « isiomo ose»
dos iconoclas as, subjugando-os ao audio isual. Con udo, desde o seu começo que o
disposi i o ele isi o mo i ou desap o ação, enquan o um supos o apa elho ideológico,
omen ado do na cisismo. Cono ado como «(...) um dos mais de as ado es ins umen os
da pa a e nália ideológica que a enunciação mass media engloba.» (Mende , 1999: 9),
es e apa elho oi conside ado pelos seus c í icos como esponsá el po uma media ização
e colonização da expe iência, de e e ei os ne as os nos indi íduos ou con e limi ações
que lhe são ine en es, ais como a exclusão de mino ias e sen idos, a eliminação da «au a»,
o des asamen o do empo e do espaço ou a a i icialidade, en e ou as20. Tal eme e pa a
a p imo dialidade de e le i a espei o da elação ensional en e ele isão e democ acia
e as suas p o undas consequências ans o mado as na nossa elação com a espacialidade
e com a empo alidade.
Em p imei o luga , o a enca ada como pe e so a do egime democ á ico, o a como sua
auxiliado a, as con adições em o no da imagem ele isi a es ão mui as ezes
19 Sob e udo, caso seja conside ado a cen alidade da mon agem na iloso ia cinema og á ica do
ealizado usso Se guei Eisens ein.
20 De modo a ob e um ap o undamen o ace ca de uma pe spe i a, exempla men e, dep ecia i a a
espei o da imagem ele isi a, leia-se: Mende , Je y (1999), Qua o A gumen os pa a Acaba com a
Tele isão, Lisboa, Edições An ígona.
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elacionadas com as incong uências da p óp ia democ acia. Com o con ibu o
indispensá el do mecanicismo da o og a ia e do cinema pa a a indus ialização e
consequen e uni e salização das imagens, a ele isão é he dei a dessa lógica, embo a seja
de salien a algumas das suas peculia idades. O disposi i o o og á ico, com o seu ca á e
indicial, o al is o- oi ba hesiano21, p opiciou a p oli e ação dos museus e, po
consequência, a democ a ização do gos o, da c í ica de a e e do acesso à(s) ob a(s). De
igual modo, a imagem-mo imen o inaugu ada pelo cinema22, con abalançou a ixidez
ísica do espe ado . Pa a além de possui iden icamen e um ca á e es emunhal, a imagem
ele isi a não apenas possibili a ambém a democ a ização de acesso ao dispensa a
p esença da sua audiência, como igualmen e con apesa a dispe são de quem a ê, mesmo
aquando da sua p odução em es údio e com a sua imobilidade.
O disposi i o ele isi o, com a sua imagem ídeo, é indissociá el da di ulgação e da
expansão a ís ica, não somen e como mul iplicado a de público(s), mas ambém
enquan o al o de e lexão a ís ica em o no de si e como po enciado de no as o mas
de p oduzi a e23. Toda ia o que é no ó io, nes e sis ema ele ónico de ep odução
audio isual, é o seu ca á e massi icado e ins an âneo, passí el de dis ibui sons e
imagens à dis ância. Tal cons i ui-se como a p imei a e c ucial ca ac e ís ica que
co obo a o pendo democ á ico da ele isão, enquan o máquina p odu o a da igualdade
de acesso, condição sine qua non pa a o exe cício da democ acia. Ap a pa a se is a po
oda a população, po se desp o ida de codi icação, é p ecisamen e no seu po encial
uni e sal que assen a a ese do âmago democ á ico da imagem ele isi a. Amenizando a
des uição do desman elamen o do luga social, ope ado an e io men e à sua apa ição
pela ci ilização indus ial, a ele isão ins i ui-se como um no o espaço público, ao
pe mi i a in eg ação, an o nas es i idades cole i as como na es e a polí ica, das
camadas ma ginais da sociedade que, de ou o modo, es a iam excluídas. O disposi i o
ele isi o eme ge como uma cidade de subs i uição, uma Ágo a g ega pa a a
21 Exp essão mencionada po Roland Ba hes pa a desc e e a o og a ia, num dos mais céleb es ensaios
sob e a mesma, A Câma a Cla a. C : Ba hes, Roland (2008) A Câma a Cla a. Lisboa, Edições 70.
22 C : Deleuze, Gilles (2016), A Imagem-Mo imen o: Cinema 1, Lisboa, Documen a.
23 A en e-se às ob as do sul-co eano Nam June Paik ou do ancês Jean-Ch is ophe A e y, dois pionei os
da ideoa e e p ecu so es da e lexão a ís ica ela i a às po encialidades do medium ele isi o.
15
mode nidade, na qual se anspõe o ambien e cul u al da nossa empo alidade e se
di undem os g andes acon ecimen os, como se e idencia em:
«/…/ «e e o piazza» che dà la gene alis a. Ci i e iamo alla sensazione che,
accendendo il ele iso e, se è successo qualcosa di e amen e impo an e lo
sap emo, e che la ci comuniche à il pa icula e clima cul u ale del nos o
mondo. È con inzione comune che ci sono alcuni momen i ed e en i impo an e,
lie i o lu uosi, in cui u a una nazione si accoglie a o no ad una na azione
condi isa o e a dalla gene alis a, in pa icola e da quella di se izio pubblico
in Eu opa /…/» (Menduni, 2016: 76)
Ac esce que a ele isão, ele ando-se como o no o espaço, po excelência, da ida
pública, conduziu a uma polí ica mais inclusi a e mais chama i a pa a um maio núme o
de pessoas que, sem o apa elho ele isi o, não usu ui iam de um acesso ão uni e sal à
polis24. Es e disposi i o é, des e modo, um ins umen o imp escindí el pa a as sociedades
(de massas) democ á icas ao uni e saliza a cidadania e ao es abelece um «encon o
egula » dos ep esen an es com os ep esen ados. Po um lado, ambém se pode ia aduzi
que a imagem ele isi a em um e ei o «despoli izado » da polí ica, ao acili a a
pe sonalização do pode e a p omoção da indi e ença cí ica, não esquecendo os
excessi os cus os ine en es à elabo ação de uma imagem ele isual pa a milhões de
pessoas. Po ou o lado, impo a a ende que, na con empo aneidade, a imagem conse a
um papel p eponde an e pa a a c edibilidade, sob e udo pa a a iabilidade polí ica,
en a izando a cen alidade da ele isão na democ acia e pa a o espe i o condicionamen o
do deba e público, como se comp o a em:
«Maxime in a ian e: «gou e ne c´es ai e c oi e». Va ia ion echno-his o ique:
qu´es -ce qui es le plus c édible? Aujou d´hui, l´image. Elle ai oi. De ai , elle
de e mine les índice de popula i é, la composi ion des gou e nemen s, les
hié a chies dans l´É a , le calend ie e les con enus du discou s public. La moi ié
24 Designação g ega que eme e concomi an emen e pa a “cidade” e “polí ica”. Es a e minologia clássica
es á ambém na o igem da pala a “polícia”, sendo que epo a igualmen e à noção de “es e a pública”,
po oposição à es e a p i ada (do la , da amília e da p op iedade), is o é, do Oikos.
16
au moins du emps d´un che d´É a e de Pa i es employé à sa
«communica ion».» (Deb ay, 1992: 460)
Assim sendo, o isí el possui um papel p eponde an e numa sociedade eminen emen e
isual, como a po enciada pela ideos e a. O(s) egime(s) de (in) isibilidade
desempenha(m) uma cen alidade na dis ibuição da a enção mediá ica e,
consequen emen e, no es abelecimen o do que é, ou não, me ecedo de se al o do deba e
público. Se, po um lado, es e mo imen o ope ado pela au o idade do isí el é c iado de
uma dico omia ensional en e o que é ou não al o do olha , is o é, en e o p i ilégio e a
desp ezibilidade, po ou o lado, ambém dispõe de uma po encialidade emancipa ó ia e
plu alis a. Ainda que a egência ele isual seja equen emen e conside ada como um
disposi i o op esso , o alecedo da no malização da população e omen ado da
alienação25, numa lógica impe ialis a, ambém é ce o que o nascimen o e o
desen ol imen o da ele isão es ão associados his o icamen e ao lo escimen o das
democ acias e, em consequência, a uma maio inclusão e conside ação das mino ias –
impo a a ende que o egime democ á ico assen a no espei o pelas camadas mino i á ias
da comunidade e não numa sup emacia da maio ia. O a se associa a imagem ele isi a
como um elemen o de des egulação da ep esen a i idade democ á ica, pela
sob e alo ização da o ma ao in és do con eúdo e pelo eng andecimen o da ca chph ase,
po oposição à obus ez a gumen a i a, o a se incula o apa elho ele isi o à
uni e salização e à p omoção do deba e pa a odo o po o26. Ainda que a imagem
ele isi a seja comummen e acusada de es ingi as ligações sociais a um ínculo sem
oca27 – concebendo uma an í ese da cidade, na medida em que, de um modo ge al, pa a
25 Temá ica la gamen e abo dada na e lexão ace ca das «indús ias cul u ais», pa en e em: Ado no,
Theodo & Ho kheime , Max (1995) A dialé ica do escla ecimen o, Rio de Janei o: Jo ge Zaha Edi o .
26 E imologicamen e, “democ acia” p o ém da junção das exp essões g egas “demos” e “c a os”, is o é,
de “po o” com “pode ” ou “es ado”, designando, des e modo, o es ado ou o pode do po o.
27 A p imei a conside ação académica ace ca dos e ei os dos media de comunicação de massas na opinião
pública consis iu na eo ia hipodé mica, ambém designada de eo ia dos e ei os o ais, segundo a qual a
mensagem ansmi ida po es es media é elozmen e acolhida e di undida po odos os seus ece o es,
de um modo ans e sal e al amen e in luen e. P econizado po Ha old Lasswell, es e modelo eó ico
possui um ele ado pendo beha io is a, simpli icando a comunicação de massas a um único elo
o alizan e, despojado de qualque ipo de ans e ência in e mediá ia. Po consequência, su giu
pos e io men e a céleb e eo ia Two-s ep low o communica ion, elabo ada pelos sociólogos Paul
Laza s eld e Elihu Ka z. Consoan e es e modelo, igualmen e denominado de eo ia dos e ei os limi ados,
a mensagem dos meios massi icados, ainda que seja epe cu ida pa a a gene alidade da população,
es abelece-se na comunidade de um modo indi e o, median e o con ex o das elações sociais que cada
indi íduo ins i ui nos seus g upos de pe ença. A mediação de de e minados agen es, os líde es de
17
o seu isionamen o cada cidadão se encon a em sua casa28 – es a ipologia imagé ica es á
igualmen e co ela ada como po enciado a do espí i o de cole i idade, po in e médio do
espelhamen o que ope a de dada sociedade. Do mesmo modo que o ele one29 manob a o
en ol imen o da cidade, median e uma ede sono a, a ele isão á-lo numa lógica
audio isual.
Tal eme e pa a o pendo dis up i o do apa elho ele isi o no que conce ne a abe u a
ao(s) ou o(s) e no seu papel p eponde an e pa a o declínio da noção de on ei a. A
ele isão o a e dadei amen e ans o mado a da elação com a espacialidade,
p opiciando a in e nacionalização de p á icas e mundi isões, endo como melho exemplo
o seu con ibu o imp escindí el na edi icação da Eu opa, enquan o p oje o de
hospi alidade e coope ação económica, polí ica, social e cul u al30. A imagem ele isi a
con ibui mani es amen e pa a a cons ução de uma consciência global, uma cosmo isão
in insecamen e plane á ia. A ipologia imagé ica ele isual desempenhou um papel
undacional da «Aldeia Global»31, is o é, de um de i aldeia do mundo, na qual cada
indi íduo, independen emen e da sua la i ude, es á cada ez mais in e ligado, na
consequência do(s) a anço(s) ecnológicos da ele ónica e das elecomunicações,
opinião, desempenha um papel undamen al, enquan o mecanismo de in luência social. Con ém, po ém,
não obli e a que os opinion leade s p oje am a sua in e p e ação da in o mação, aquando da
( e) ansmissão do con eúdo o iginal. C :
- Es e es, João P. (2016), Sociologia da comunicação, Lisboa: Fundação Calous e Gulbenkian, 2ª Ed;
- Ka z, Elihu e Laza s eld, Paul F. (1955), La In luencia Pe sonal: el Indi iduo en el P ocesso de Comunicación
de Masas, Ba celona, Ed. Hispano Eu opea;
- Lasswell, Ha old (1927b), P opaganda Tecnhique in Wo ld Wa I, Camb idge, Mass., The MIT P ess, 1971.
28 Re omando a di isão clássica en e Polis e Oikos e a endendo à índole domiciliá ia do meio ele isi o,
es e é usualmen e associado a um e ei o de imobilização e «despoli ização» dos indi íduos, po quan o
alegadamen e eme e os seus espe ado es pa a um dis anciamen o ace à p á ica di e a da ação polí ica.
29 “Tele one”, “Telég a o” e “Tele isão” êm em comum o p e ixo g ego “Tele”, que signi ica “à dis ância”,
ao qual ac escen am os adicais “Phôné” (do g ego, “som”), “G aphein” (do g ego, “esc i a”) e “Visione”
(do la im, “ isão”), espe i amen e.
30 A en e-se, a í ulo de exemplo, ao Fes i al Eu o isão da Canção. Iniciado no ano de 1956, em pleno pós-
gue a, eme ge como um dos mais ele an es e en os ele isi os. Cons i ui-se simul aneamen e como
uma signi ica i a amos a do po encial paci icado e e uado pelo disposi i o ele isi o, nes e caso
enquan o di uso in e nacional da plu alidade musical (e cul u al) das mais di e sas nações eu opeias.
31 Exp essão mencionada pelo ilóso o Ma shal McLuhan em A Galáxia Gu enbe g, um dos seus ensaios
mais céleb es, com o in ui o de e a a o su gimen o de uma no a o ma de sociedade (plane á ia),
esul an e do ad en o das no as ecnologias de in o mação. C : McLuhan, Ma shall (1977), A galáxia de
Gu enbe g: a o mação do homem ipog á ico, São Paulo, Nacional.
18
e minologia que, como o p óp io nome indica, eme e pa a a possibili ação da
comunicação à dis ância. Tal epe cu e-se no ad en o de uma ecologia do olha , que
expande os ho izon es do isí el, concomi an emen e deslocalizando e ci ilizando.
Toda ia o campo de ação po enciado pelo disposi i o ele isi o não modi icou apenas a
elação do homem com a geog a ia, mas ambém com a empo alidade. O a a ele isão é
ida como um excelen e ins umen o pa a a p ese ação da memó ia, pela ine ência das
suas qualidades écnicas e o seu po encial a qui ís ico, o a é conside ada como noci a
pa a a nossa elação com o empo, dada a ins an aneidade que a ca ac e iza. Enquan o
no á el complemen o de memó ia, o apa elho ele isi o aba ca um as o espólio
imagé ico que, de ou o modo, se ia e éme o. Ac esce que, ao in és do egis o esc i o,
es e pa imónio de imagens não eque uma habilidade sui gene is pa a a sua
descodi icação, nem es á igualmen e susce í el à de e io ação p o ocada pela passagem
do empo, es abelecendo, consequen emen e, a ele isão como um magní ico engenho de
e e nização da ida, a a és do seu alo documen al com uma acili ada p ese ação. A
imagem da ideos e a comp eende es e ca á e de pha makon32, na medida em que,
embo a sendo ins an ânea, ela conse a o ins an e, pe pe uando as e emé ides humanas,
ao mesmo empo em que con a ia a sua e eme idade. A ele isão, com a sua ap idão
a qui ís ica, conse a a His ó ia enquan o a «deshis o iza», p ese a acon ecimen os,
desincen i ando, concomi an emen e, à ins au ação de co elações en e os mesmos. Com
o ins umen o ele isi o, a p o eção da memó ia coexis e com a desabi uação do seu uso.
O e iche pelo ins an e le a ao seu a mazenamen o pa a o u u o, ao mesmo empo em
que p omo e a sua emissão pa a o passado, nes a pa adoxal elação com o esquecimen o.
Po conseguin e, o disposi i o ele isi o e olucionou o modo de nos elaciona mos com
o mundo, inaugu ou uma no a mundi isão ou, mais co e amen e, undou uma
«media isão», p o undamen e ans o mado a das on ei as, sejam elas empo ais,
espaciais, cul u ais ou sociais. No undo, a ele isão modi icou o modus ope andi da(s)
comunidade(s). Com o in ui o de comp eende as ca ac e ís icas da imagem ele isi a
nas ligações das cole i idades, con ém a ende ao con ibu o ulc al de Ma shall
32 A e minologia g ega “pha makon” encon a-se na o igem do e mo “ á maco”, cujo signi icado eme e
simul aneamen e pa a as ideias de “ eneno” e “cu a”. No ex o clássico Fed o, de Pla ão, o ad en o da
esc i a é conside ado como sendo um “pha makon” na sua elação com a memó ia, sinc onicamen e
noci o e cu a i o pa a a mesma. C : Pla ão (1991), Banque e, Fédon, So is a e Polí ico, [T adução José
Ca alcan e de Souza, Jo ge Paleika e João C uz Cos a] Coleção Os Pensado es, São Paulo, No a Cul u al.
25
plane a ização do ec ã é, concomi an emen e, a globalização de uma economia
cinema og á ica ou, po ou as pala as, o alas amen o da espe acula ização do mundo.
P oduzi imagens passa a se simul aneamen e di undi imagens, a a és de um
mo imen o de abolição da dis ância ixa do obse ado . Tal sup essão p opiciou não
apenas a democ a ização de acesso à imagem, independen emen e do empo e do luga ,
mas ambém uma dis up i a eme gência de um público plane á io.
É p emen e não obli e a que o p ocesso de ompimen o de on ei as, imp escindí el
pa a a democ a ização imagé ica e igualmen e deco en e da gene alização dos ec ãs,
oco eu undamen almen e com o pequeno ec ã ( ele isi o) e não com o g ande ec ã
(cinema og á ico). O disposi i o ele isi o ope ou uma acen uada u u a ao ins au a ,
pela p imei a ez, a eceção diá ia de luxos imagé icos ao domicílio. Numa lógica de
indi idualização do acesso às imagens, o apa elho ele isi o conc e izou uma inaudi a
p i a ização e uni e salização do ec ã. P opo cionando uma exibição de imagens em
(cada) casa, a ele isão assoma-se como um e en o social massi icado, um ecu so
domés ico de bem-es a mode no. Não obs an e o apa a o cinema og á ico eme a pa a
uma espacialidade pública, a a és de uma comunhão p esencial na sala de cinema, a
ele isão possui a ap idão de conquis a um semelhan e espí i o de cole i idade no
con o o da sala de es a , is o é, median e a comodidade habi acional. Possibili ando o
anspo e do mundo do cinema a é à amilia idade do la , a ele isão, po ém, não
anspo a com a mesma po ência o espe ado pa a ou o mundo. Se, po um lado, a
imagem ele isi a não ca i a o espe ado do mesmo modo que o cinema, po ou o, es e
não es á ão ca i o ao ec ã. Con udo, a ulc al di e ença en e o ec ã cinema og á ico e o
ec ã ele isi o eside na dis upção ope ada pelo úl imo na cesu a com o di e ido. Pa a
além de democ a iza as imagens ec ãnicas, a ele isão incu iu-lhes a idoneidade do
imedia ismo, da sinc onia e da omnip esença.
A uni e salização do ec ã pelo meio ele isi o, ademais de e cul i ado uma no a
e ó ica imagé ica, dissol eu as de e minações espácio- empo ais do espe áculo clássico.
A jus aposição de imagens ope ada pelo apa elho ele isi o consen iu com o im do
condicionamen o espacial num mo imen o sinc ónico ao do ompimen o com a o dem
26
do K ónos.40 O isionamen o do luxo incessan e de imagens despole ado pela ele isão
opõe-se eemen emen e às es ições es á icas impos as ao espe ado cinema og á ico. À
emancipação execu ada pelo disposi i o ele isi o ac esce a acen uada ên ase no eal, na
espon aneidade e na idedignidade, basila es pa a a dialé ica de sedução ine en e à
ele isão e igualmen e explica i as da i alidade da sua disseminação ec ãnica.
Conquan o enha sido o cinema a expandi a lógica da espe acula idade, a imagem
ele isi a exace bou a iccionalização da p óp ia ealidade. O mundo oní ico po enciado
pela cinema og a ia de eio insu icien e. A pa i da imagem ele isi a, a ânsia po uma
ealidade sonhada mul iplicou-se po odos os ec ãs.
Em suma, a mediação da expe iência median e o supo e ec ãnico, inaugu ada pela a e
cinema og á ica e expandida pelo engenho ele isi o, e olucionou – e con inua a
e oluciona – a nossa elação com o cosmos. A mundi isão do ec ã plane á io emp eende
na eme gência de um au ên ico «Homo-Ec anis» (Lipo e sky, 2010: 251), que
dia iamen e ci cula po en e uma economia gene alizada do ec ã e nela sus ém, de um
modo cada ez mais imp e e í el, a sua ede de mediação. Com o ec ã, a dis inção clássica
en e sujei o e obje o é paula inamen e e o quida, na medida que já não é cla o o que es á
subjec um ou objec um, quem é o au o ou o al o do olha . Na e a do «ec ã global», o
espe ado é simul aneamen e o obse ado da imagem, o seu emisso e o seu ece o .
40 Figu a cen al da mi ologia g ega, K ónos é o Deus do Tempo. O e mo “c onologia” eme e pa a a
junção de “K onos” com “Logos”, do g ego “ azão”. C onologia é, consequen emen e, a lógica do empo.
27
Capí ulo II: PATRIMÓNIO E ALTERIDADE(S)
II.1 (Re)E gue o Ou o
Desde mui o cedo, a elabo ação de imagens eme eu pa a as ques ões do espe ado e da
al e idade, na medida em que p oduzi imagens consis e semp e em ab ica uma
al e idade, p esen e nes e Ou o que a imagem é enquan o ma ca e signo, mas ambém
pa en e no a a essamen o na mesmidade de quem as obse a, is o é, do espe ado . A
imagem possui um ca á e undacional do humano no mundo, como se lê em:
«Faze uma imagem é pô o homem no mundo como espec ado . Se um humano
é p oduzi a ma ca da sua ausência na pa ede do mundo e cons i ui -se como
sujei o que nunca se e á como objec o en e os ou os mas que, endo o ou o,
lhe dá a e o que pode ão pa ilha : signos, ma cas, ges os de acolhimen o e de
e acção.» (Mondzain, 2015: 50).
Po conseguin e, pa indo da análise que Ma ie-José Mondzain ece ela i amen e às
imagens upes es da g u a de Chau e 41 e a sua elação com os dias de hoje, co obo a-
se não apenas a ele ância da imagem pa a o humano (se) es u u a (n)o mundo, mas
ambém o papel da imagem na cons ução de al e idade(s) e iden idade(s). Nes e “cinema
an es do cinema”, nes a “esc i a an es da esc i a” ou nes a “His ó ia an es da His ó ia”42,
a imagem já albe ga a esse pode de cons ução do Ou o43. O a o de desenha o ex e io ,
po um lado, suben ende a sua in e io ização e, po ou o, comp o a a ex e io ização da
in e io idade. É median e a insc ição do Ou o que o sujei o se insc e e. Com o
econhecimen o do Ou o, o sujei o econhece a sua p óp ia exis ência e é econhecido
41 C : Mondzain, Ma ie José (2015), Homo Spec a o , Lisboa, O eu Neg o.
42 T adicionalmen e, a di isão en e P é-His ó ia e His ó ia baseia-se na aquisição da esc i a. Es a ipologia
imagé ica, cono ada como da p é-His ó ia, con igu a-se como uma pe u bação des a on ei a en e
His ó ias, po quan o a sua elabo ação eme e pa a uma insc ição, is o é, uma g a ia que, cu iosamen e,
já p essuponha a ideia de mo imen o.
43 A pala a «Ou o» é, nes e âmbi o, conside ada na sua cono ação com «al e idade». E imologicamen e
o iunda do la im al e i as (“ou o”), «al e idade» consis e na conceção que pa e do p essupos o de que
odo o se humano, enquan o se social, in e age e é in e dependen e do ou o. Impo a não obli e a
que «Ou o» eme e pa a a sua signi icação de «Ou ém», pala a caída em desuso, po ém que en ia não
apenas pa a «Ou o» pessoa, mas ambém «Ou o» animal, «Ou o» po o, «Ou o» língua, «Ou o»
mundo, «Ou o» de nós p óp ios, e c.
28
pelos ou os. Es e ges o, que en ol e a íade cé eb o-olhos-mão, e ela
concomi an emen e conc e ude e abs ação. A angibilidade do Ou o apenas é e e i ada
pela sua concep ualização. A edi icação do Ou o é, em simul âneo, a ele ação do sujei o,
po quan o nenhum p ocesso de indi iduação es á desligado do Ou o, pelo con á io, a
subje i ação assen a, p ecisamen e, nas ligações com o Ou o ou, po ou as pala as, a
iden idade é semp e a a essada pela al e idade. Desenha o Ou o é deixa a ma ca do
Eu, enquan o au o . Não exis e mesmidade absolu a44, uma ez que a cons ução da
iden idade se undamen a na al e idade e ice- e sa. As imagens do Ou o e elam mais
sob e o Eu, dado que a lapidação do Ou o consis e, sublimina men e, na g a ação de
uma isão que o sujei o em ace ca do mundo, is o é, o egis o de um Ou o do p óp io
Eu.
Regis a o Ou o no mundo é, des e modo, uma o ma de o Eu se egis a no mundo. Ao
p esen i ica o Ou o, o Eu ap esen a-se e de ém p esen e. Nes e ges o, o humano exp ime
o (seu) mundo, num p imei o momen o pa a si p óp io e, de seguida, pa a os que se lhe
sucedem, exp imindo-se no mundo. Ao expo o Ou o, o sujei o expõe-se a si p óp io. No
jogo de somb as e luz das p imo diais imagens upes es, salien a-se, acima de udo, um
jogo de p esenças e ausências. No in e io da ca e na, o humano ma ca o seu ex e io ,
is o é, na ausência da ex e io idade, o sujei o o na-a p esen e, p esen eando-a aos seus
semelhan es, ao mesmo empo em que se p esen i ica. Ao con abalança uma ausência
com a imagem, o Eu colma a, sob e udo, a sua p óp ia ausência. Ao o na algo p esen e,
o Eu, em especial, o na-se p esen e.
44 Na lei u a que elabo a a espei o da e são de Michel Tou nie do clássico da li e a u a «Robinson
C usoe», Deleuze disco e ace ca da imp escindibilidade do Ou o pa a a es u u ação da psique humana.
Apesa das ensões, equen emen e, exis en es na al e idade, es a é, oda ia, undamen al, pois consis e
no mo o das elações humanas, ou seja, no agen e his ó ico po excelência. Um mundo sem al e idade
pau a -se-ia pela insupo abilidade, como se comp o a em: « B e , au ui assu e les ma ges e ansi ions
dans le monde. /…/ Quand on se plain de la méchance é d´au ui, on oublie ce e au e méchance é plus
edou able enco e, celle qu´au aien les choses s´il n´y a ai pas d´au ui.» (Deleuze, 1969: 355). No que
conce ne es a emá ica, seguem-se ês e e ências bibliog á icas:
- De oe, Daniel (2016), Robinson C usoe, Lisboa, Relógio d´Água;
- Deleuze, Gilles (1969), Logique du sens, Pa is, Minui ;
- Tou nie , Michel (2012), Sex a-Fei a ou a Vida Sel agem, Ba ca ena, Edi o ial P esença.
29
A imagem cons i ui-se, an es de mais, como uma espos a à maio de odas as ausências,
a mo e45. Sem a (consciência da) não p esença, não se p e igu a ia a p emência de
ep esen a e de eap esen a ou, po ou as pala as, de igu a o ausen e. Compo
imagens e p esenças consis e em emenda as ausências. A mediação das imagens, ulc al
pa a o humano, co esponde, undamen almen e, na emediação da (sua) mo e.
Consequen emen e, e idencia-se uma indissociabilidade en e imagem e mo e, como se
demons a em:
«L´analogie en e l´image e la mo , qui pa âi ê e aussi a chaique que la
ab ica ion des images elles-mêmes, e se du même coup dans l´oubli. Pou an ,
il su i a que nous emon ions assez hau dans l´his oi e de la p oduc ion des
images pou qu´elles nous acheminen aussi ô e se ce e g ande absence qu´es
la mo . La con adic ion en e abscence e p ésence, que nous con inuons
aujou d´hui enco e d´obse e au con ac des images, plonge ses acines dans
l´expe ience de la mo d´au ui. L´image s´o e à no e ega d à la açon don
les mo s se p ésen en à nous: dans l´absence.» (Bel ing, 2004: 183)
No que conce ne a emá ica de elabo ação de imagens pa a en en a a mo e, ao longo
da His ó ia da Humanidade, e o seu alo eminen emen e espec al, dois concei os,
especialmen e mode nos, eme gem: o de monumen o e o de pa imónio.
45 Rela i amen e à elação simbió ica en e imagem e a mo e, eme gem exemplos de cos umes de
cul u as ances ais como os «c ânios» de Je icó ou, na mode nidade, a p á ica da o og a ia pos -mo em,
habi ual no começo do uso social da o og a ia na Ingla e a i o iana. Ambas en a izam a essencialidade
e a ans e salidade da imagem como ( en a i a de) esolução da mo e, is o é, de sup i a ausência com
a ( e)p esen ação. C :
- Bel ing, Hans (2004), Pou une an opologie des images, Pa is, Edi ions Gallima d
- Gunning, Tom (1995), Phan om Images and Mode n Mani es a ions: Spi i Pho og aphy, Magic Thea e,
T ick Films and Pho og aphy´s Uncanny, in Pa ice Pe o, Fugi i e Image, F om Pho og aphy o Video,
Blooming on and Minneapolis, Indiana Uni e si y P ess;
- Medei os, Ma ga ida (2010), Fo og a ia e Ve dade: uma his ó ia de an asmas, Lisboa, Assí io & Al im.
30
II.2 O Monumen o
A en e-se, des e modo, pa a a noção de monumen o46, igualmen e c ucial pa a uma
cogi ação ela i a ao olha con empo âneo ace ca do passado e a sua associação com o
pa imónio e espe i as ligações con empo âneas com a sua p ese ação ou com o
u ismo. Como o p óp io concei o indica, o monumen o eme e pa a uma con ocação de
um passado, is o é, um emp eendimen o da memó ia, compo ando um posicionamen o
ace à His ó ia, compa á el ao memo ial47.
A labo ação que o monumen o exe ce sob e a memó ia não é ope ada po in e médio de
uma concessão de uma in o mação neu a. Es e p e igu a-se como uma após o e, na
medida em que consis e numa in e pelação da o dem do pa hos48. Edi ica um
monumen o é cons ui uma na a i a, é ( e)e gue uma al e idade, é o na p esen e um
Ou o de nós p óp ios que es á ausen e. Com o in ui o de susci a a emoção e de
p opo ciona uma eco dação i a, a singula idade do monumen o assen a, p ecisamen e,
nes e agi na memó ia e na o ma como a medeia e a mobiliza. Reco endo à a e i idade,
o monumen o in oca o passado, ao mesmo empo em que o i encia à manei a do
p esen e. E oca-o e ap esen a-o, man endo-o p esen e en e os p esen es. Esse passado
que é con ocado e celeb ado é, em la ga escala, con ado e encan ado. Es e é ixado como
um desígnio imp escindí el pa a conse a e, mui as ezes, c ia a iden idade de um dado
co po social e, consequen emen e, o sen imen o de pe ença ao mesmo. Pode -se-á
mesmo incula a p á ica de monumen alização a uma pe o ma i idade. O monumen o
e ela de uma uncionalidade an opológica, cons i u i a do seu mais p o undo âmago,
po quan o p ocessa uma de e minada dinâmica com a empo alidade i ida e com a
ememo ação da mesma, an o pa a os seus edi icado es, como pa a os seus isi an es.
46 E imologicamen e, «monumen o» p o ém do la im monumen um, pala a de i ada de mone e (em
po uguês: ad e i , eco da ), eme endo pa a uma in e pelação ecida pelo monumen o ela i amen e
à memó ia.
47 Conquan o o monumen o e o memo ial consis am em modos de insc ição pe o ma i a, conce nindo
o passado, es es dis inguem-se na o ma de a ua sob e a memó ia. Se o p imei o p essupõe uma
e ocação comemo a i a, o segundo, em con apa ida, pau a-se po uma o ma de esis ência ao
esquecimen o, como es á pa en e em: «We e ec monumen s so ha we shall always emembe , and
build memo ials so ha we shall ne e o ge .» (S u ken, 1997: 47) C : S u ken, Ma i a (1997), «The Wall
and he Sc een Memo y: The Vie nam Ve e ans Memo ial», in Tangled Memo ies: The Vie nam Wa , The
AIDS Epidemic, and The Poli ics o Remembe ing, Oakland, Uni e si y o Cali o nia P ess;
48 A pa do E hos e do Logos, o Pa hos é um dos ês meios de pe suasão do discu so na e ó ica clássica
a is o élica, consis indo na p omoção da emoção na pla eia.
31
Es e ca á e an opológico do monumen o deno a a sua p o icuidade de esis ência con a
a mo e, a a és de uma insc ição que se p e ende, simul aneamen e, in empo al e
con empo ânea. Nes e mo imen o, es á con ido um a o de apaziguamen o do auma da
exis ência, is o é, da consciência da ini ude. Eme gindo como um disposi i o de
sal agua da, o monumen o segu a e assegu a os sujei os no empo, ma iculando-os na
empo alidade. Es e eco da-nos os mo os, enquan o nos elemb a da mo e. E idencia a
ine i abilidade do é mino da ida, ao mesmo empo em que in enciona ul apassá-la.
P ocu a i encia os que já não es ão i os. O monumen o p e ende o na p esen e os
que já não es ão p esen es, e elando a sua ausência nes a en a i a de a colma a .
Ins i ui-se como uma p o ocação à en opia, uma solução pa a a inquie ação omen ada
pela ação demolido a do empo, p ocu ando se ena a co osi idade do esquecimen o. A
p á ica da edi icação de monumen os é, eminen emen e, espec al na sua elação com a
mo e, cuja o alidade des uido a, o çosamen e ob iga a um pensamen o e a uma
espos a, como se ei e a em:
«Há uma dico omia impensá el pa a nós: a mo e acaba udo, como acaba udo
a mo e é impensá el; e como é impensá el em de se pensada, de o mando a
sua na u eza de nada. Há uma mo e nada e há uma mo e espec al, de que
nascem espec os: imagens, eco dações, monumen os, celeb ações, udo o que
se quise . Essa dico omia en e os dois pólos da expe iência da mo e é
dilace an e pa a o homem.» 49 (Gil, 2021)
Tal dilace ação do humano com a mo e é elucida i a da p esença plane á ia do(s)
monumen o(s), da sua au ên ica uni e salidade, que no espaço, que no empo,
independen emen e da posse ou desp o imen o de esc i a, po pa e das comunidades que
o(s) e guem. O exe cício de e igi monumen os em an o de exal ação da ida como de
con on ação da mo e. Nes e a o, cons a a-se a p ese ação de uma al e idade pa a a
es abilização da iden idade, ou melho , a c iação de um supo e – que é semp e da o dem
do iden i á io – pa a e i a a insupo abilidade de um mundo sem o Ou o.
49 En e is a do ilóso o José Gil, no jo nal Público, a 4 de ab il de 2021:
h ps://www.publico.p /2021/04/04/sociedade/en e is a/hospi al- ida- o nouse- esiduo-exis e-co po-
nada-1956581
32
No en an o, é a pa i do século XVII, com o ad en o da e olução ancesa e o espe i o
começo da mode nidade, que o monumen o ansi a pa a uma esponsabilidade explíci a
de a i mação, bem como de e e nização, dos g andes desígnios cole i os. Em
consequência des a me amo ose, a p áxis monumen al o nou-se sinónima da
anunciação, sus en ação e glo i icação, sem p eceden es50, de uma de e minada
iden idade cole i a. Pa a os mode nos, a qui e a um monumen o é simul âneo do
enob ecimen o de uma na a i a51 comum, sob a qual se undamen a a imagem que a
cole i idade possui de si mesma. Ope ando como uma écnica a i icial di uso a de
memó ia(s), al como a esc i a52, o monumen o pe maneceu como um elemen o cen al
de p ese ação da memó ia, não obs an e as modi icações, e mesmo alguns a icínios53,
de que oi al o.
Po um lado, ins a co obo a o ca á e alegó ico do monumen o, que az eme gi
pe sonagens ausen es, ele ando-as, mas, sob e udo, ele ando quem as olha. Con a iando
a conceção de His ó ia, como algo que se cons i ui com o olha – e, po an o, com a
dis ância – es e exe cício compo a uma ap oximação ao que, à pa ida, es á dis an e. Tal
é e elado da simili ude do monumen o com o ec ã, na medida em que é a p oximidade
que busca – nes e caso, ao passado – que o na e iden e essa mesma dis ância. É o olha
p esen e sob e o passado que o na p esen e esse mesmo passado, explici ando a sua não-
50 Cla i ique-se que, embo a a p á ica de edi icação de monumen os seja bas an e an e io a Se ecen os,
é nes e pe íodo que es a adqui e um pendo assumidamen e na a ológico e his o icis a. Com a
mode nidade, eio ambém uma consciencialização his ó ica. A é en ão, pode -se-ia e i ica a ele ação
de monumen os como p ese ação da ida ou como con ocação anscenden al, po ém nunca com uma
índole de eng andecimen o do passado. Ac escen e-se que, pa a a ulga ização des e p ocesso de
enal ecimen o, mui o con ibuí am os alo es humanis as e a implan ação das nações.
51 O e mo «na a i a» eme e pa a uma e abulação ou a c iação de um cená io que con e e sen ido a
uma de e minada o dem de ac os ou de ideias. A ques ão da na a i a oi ão ma can e na mode nidade,
que le ou Jean-F ançois Lyo a d a ca ac e iza a pós-mode nidade como um empo de c ise das «g andes
na a i as» o mado as da mode nidade, como, po exemplo, a do p og esso. C : Lyo a d, Jean-F ançois
(2006), A Condição Pós-Mode na, Lisboa, G adi a.
52 Re omando a noção, já disco ida nes e abalho, de esc i a enquan o pha makon, is o é, cu a e eneno.
C : De ida, Jacques (1972), «La pha macie de Pla on», in La Dissémina ion, Pa is, Le Seuil.
53 A í ulo de exemplo, eco demo-nos da céleb e ase de Vic o Hugo «Ceci ue a cela» (em po uguês,
«Es e ma a á aquele»), conce nindo o in en o da imp ensa e os seus alegados e ei os ne as os, pa a não
dize a ais, pa a os monumen os, na ó ica de um dos maio es nomes da li e a u a ancesa e mundial.
C : Hugo, Vic o (1832), No e-Dame de Pa is, Pa is, Renduel.
33
p esença e, p ecisamen e, a sua pe ença a um passado. O ascínio que o monumen o
susci a assen a no seu pode alucina ó io, que es abelece uma coincidência en e o se e
o a e o, al como a o og a ia54. Nes e mo imen o de conse ação de uma pa e de uma
on ologia com ecu so às imagens, o monumen o assemelha-se ao disposi i o o og á ico,
azendo eg essa os mo os e undando a sua iden idade nesse mesmo eg esso. A
a e i idade cons i ui-se como um elemen o c ucial nes e ímpe o de, no p esen e,
conse a aquilo que oi o passado, pa a no u u o con inua a eco da . Salien e-se que
es e a o, p o undamen e a e i o, não é somen e comemo a i o, con endo, de igual modo,
mui o de pe o ma i o55.
Po ou o lado, con ém não esquece a di e ença en e as noções de «monumen o» e de
«monumen o his ó ico». Ao passo que o p imei o se cons i ui como uma conceção
es ipulada, cuja des inação oi conside ada a p io i, o segundo não é p elimina men e
con emplado como al, ou seja, o seu de i -monumen o sucede a pos e io i, con endo,
consequen emen e, uma inculação dis in a do p imei o, no que conce ne a memó ia e o
empo. Embo a a exp essão «monumen o his ó ico» apenas enha p oli e ado em
Oi ocen os, com a sua consag ação po F ançois Guizo 56, é nos inais de Se ecen os que
o e mo su ge pela p imei a ez, aquando da es u u ação, com a Re olução F ancesa, de
e amen as de conse ação pa imoniais, ais como os museus, o in en a iado ou a
eu ilização e classi icação de edi ícios.
Tal e idencia o papel undacional do monumen o na mode nidade e na mundi isão que
a ca ac e iza. Pa a além do ca ác e espec al que semp e possuiu e da sua p esença
plane á ia em odas as ases da His ó ia da Humanidade, é na e a mode na que o
54 Segundo Roland Ba hes, a o og a ia e ela da mesma duplicidade de pha makon na sua elação com
a memó ia. Enquan o memó ia a i icial, o disposi i o o og á ico possui, de igual modo, a capacidade de
assegu a um passado e de o aze e i e , is o é, de ga an i a p esença de uma ausência. Além do mais,
a o og a ia, al como o monumen o, e ela uma «loucu a» (na p óp ia e minologia ba hesiana), na
coincidência que ope a en e se e a e o. Pode -se-ia conside a a o og a ia como um monumen o
adap ado ao indi idualismo mode no.
55 F equen emen e, a a ibuição do es a u o de monumen o ou memo ial consis e numa me a al e ação
me onímica. A en e-se, po exemplo, aos campos de concen ação da Segunda Gue a Mundial, cuja
con e são em memo ial se esumiu à modi icação do nome ou o gado, dada a e iden e ele ância
his ó ica des es locais.
56 Polí ico e his o iado ancês que, em 1830, c ia o pos o de inspe o dos monumen os his ó icos, na
qualidade de Minis o do In e io .
34
monumen o eme ge enquan o al, is o é, concep ualizado como «monumen o» e inse ido
no as o leque do «pa imónio». Com a mode nidade, o monumen o e o pa imónio
cons i uem-se como p eponde an es na edi icação de al e idades e iden idades, is o é, de
um Ou o de nós p óp ios, no qual se alice çam as imagens e as pe enças comuns. A
ma iz pa imonial mode na ins i uiu-se como um au ên ico en endimen o na elação com
a His ó ia e com a cons ução de his ó ias. Po ou as pala as, es a ad eio numa en idade
cada ez mais ans e sal e global, como se a es a em:
«/…/ enquan o in enção eu opeia, o pa imónio his ó ico p o ém de uma mesma
men alidade em odos os países da Eu opa. Na medida em que se o nou numa
ins i uição plane á ia, o pa imónio con on a a p azo odos os países do mundo
com as mesmas in e ogações e as mesmas u gências.» (Choay, 2020: 28)
II.3 O Pa imónio
P imei amen e, o concei o de pa imónio57 encon a-se, na sua o igem, cono ado a um
p ocedimen o de o ganização legal, amilia ou económico, inse ido numa comunidade
es u u ada no espaço e no empo, nomeadamen e enquan o bem que é ansmi ido
he edi a iamen e e de ge ação em ge ação. Con udo, na mode nidade, a e minologia de
pa imónio passou, concomi an emen e, a eme e pa a uma noção de his o icidade, is o
é, a ab ange ambém um conjun o de p á icas ma e iais e ima e iais com um alo
his ó ico ele an e, endo, como e ei o, o su gimen o da de inição de «pa imónio
his ó ico»58. Es a conceção in i ula um legado de e minado à uição de uma comunidade
plane á ia e es abelecido a pa i da acumulação incessan e de uma panóplia de i ens, das
mais a iadas geog a ias e dos mais di e sos sabe es humanos, ag egando essa mesma
cole i idade a uma pe ença conjun a ao passado. O «pa imónio-his ó ico» cons i ui-se
como uma au ên ica mundi isão, de e as mode na, aduzindo-se numa en idade cen al,
p óp ia de uma sociedade dominada pela acele ação, ubiquidade e pelo mo imen o. A
57 E imologicamen e, «Pa imónio» p o ém do la im «Pa imonium», is o é, a junção de «Pa e » (em
po uguês «Pai») e «Monium» («Recebido»).
58 Na p esen e disse ação, qualque e e ência à nomencla u a de «pa imónio», p essupo á a aceção
con empo ânea de «pa imónio his ó ico», enquan o espólio cul u al, a ís ico ou ilosó ico,
e dadei amen e global, que no espaço, que no empo.
41
imagem. Es e espelho pa imonial cons i ui-se como uma indispensá el on e de
subje i ação das sociedades mode nas, na medida em que consis e num «Espelho que
een ia ambém pa a a sociedade humanis a uma imagem desconhecida de si, po de ini ,
enquan o al e idade.» (Choay, 2020: 221).
É com es a imagem de al e idade, supos amen e opaca, que os con empo âneos, po um
lado, modelam as suas iden idades e, po ou o, se a iscam numa possí el abso ção. O
e lexo pa imonial é, des e modo, alacioso, na medida em que p e ende a composição
de uma imagem una, global e en aizada 77, ocul ando as a u as p o ocadas pelas g andes
mu ações em cu so. Tal, o a ali ia o auma das e oluções, o a compo a uma pe igosa
homogeneização de um as o conjun o de he e ogeneidades.
Em suma, a mundialização da p axis pa imonial é concomi an e à musealização do
mundo. Se a elabo ação de espec alidades pa a a p ese ação de al e idades e de
iden idades é ão an iga quan o o Homem, o mesmo não se pode a i ma quan o à sua
inse ção na «amálgama» 78 pa imonial. A mode nidade ins au ou uma no a modalidade
de elacionamen o com o passado, na qual a mediação que o espec o ope a já não consis e
num im em si mesmo. A mediação do espec o passou ela p óp ia a se mediada. Os
obje os que os humanos p oduziam pa a se liga em com um anscenden e, com a ida
ou com a mo e me amo osea am-se em obje os que medeiam a elação dos
con empo âneos com um passado a que pe encem. A mode nidade mediou as mediações
do passado, ao inclui-las numa ampla he ança que liga os p esen es aos ausen es,
enquan o os con ex ualiza e, consequen emen e, es abelece di e enças e semelhanças. O
pa imónio ins i ui-se, des e modo, como uma al e idade, na qual os sujei os mode nos
( e) undem as suas iden idades.
ans o mação p oduzida no sujei o quando ele assume uma imagem, cuja p edes inação pa a es e e ei o
de ase es á su icien emen e indicada pelo uso, na eo ia, do e mo an igo imago.» (Lacan, 1966: 90). C :
- Babo, Ma ia Augus a (2019), Cul u as do Eu – con igu ações da subje i idade, Lisboa, ICNOVA;
- Lacan, Jacques (1966), Éc i s I, Pa is, Le Seuil.
77 Po oposição ao «desen aizamen o» ca ac e ís ico das sociedades mode nas.
78 (Choay, 2020: 258)
42
A o ma de olha pa a a His ó ia e pa a o mundo, como se de um museu79 se a asse,
dissemina-se cada ez mais, não apenas pela globalização das p á icas a ís icas e
museológicas80 e do seu campo de insc ição, mas ambém pela di ulgação mundial dos
p óp ios museus, a a és da o og a ia, do ídeo ou da ele isão. O p ocesso de
musealização é co olá io da laicização, jus i icando o de i -monumen o de inúme os
obje os ou p á icas que ou o a possuíam um alo de eligiosidade. Não obs an e, es a
globalização «pa imonial» eme e, acima de udo, pa a a gene alização do es a u o de
um sujei o-obse ado e de um indi íduo-consumido , pa alelos ao ad en o de uma
cul u a isual de massas e ao es abelecimen o do consumo como elo de ligação dos
indi íduos numa comunidade.
79 O museu, cuja o igem emon a igualmen e à e olução ancesa, eme ge como o exemplo mais
elucida i o da mundi isão pa imonial mode na, explicando, de igual modo, a sua p oli e ação e
expansão a um ní el plane á io.
80 A espei o des a emá ica, leia-se: Bel ing, Hans (2009), «Con empo a y A as Global A – A C i ical
Es ima e» in Hans Bel ing and And ea Buddensieg (eds): The Global A Wo ld, Os ilde n.
43
Capí ulo III: CONSUMO E IDENTIDADE(S)
III.1 O Obse ado -Consumido
Um mundo em que (quase) udo é passí el de se musealizado ou in eg ado numa as a
lis a do que é pa imónio é, sinc onicamen e, um mundo em que (quase) udo é obse á el
e consumí el. O modus i endi da u be mode na é o mesmo que compele à exis ência
dos museus, na medida em que sem os mesmos, po um lado, odo um ab angen e espólio
es a ia em isco pela abso ção da acele ação e, po ou o lado, não ha e ia nenhuma
espacialidade que con idasse à e lexão e à con emplação p a icamen e impossibili ada
pelo caos do excesso de es imulação mode na.
O a o de insc e e um legado, disco e sob e o mesmo e expô-lo p essupõe um olha e,
consequen emen e, um obse ado . Na mode nidade, eme ge um es a u o de sujei o-
obse ado no mesmo mo imen o de eclosão de obje os-consumí eis. A in lação
pa imonial é, des a o ma, esul ado des es ad en os. Dema ca um i em com um alo
pa imonial é, po um lado, obse á-lo e ga an i a sua obse ação pelos demais e, po
ou o, inse i-lo numa cadeia de alo ização inescapá el à lógica do consumismo. Po
conseguin e, é undamen al e le i , em p imei o luga , a espei o da elação en e
mode nidade e a p oblemá ica do obse ado e, em segundo luga , à sua
indissociabilidade com a mundi idência do consumo.
A en e-se, p imei amen e, pa a a emá ica do obse ado . Es e é uma consequência, da
maio impo ância, da me amo ose que a mode nidade ins au ou nos egimes de
isualidade e, não somen e, da a e e da imagem. O es abelecimen o de um modelo de
isão subje i a é apanágio da e a mode na, endo como consequência aa implan ação de
uma cul u a isual de massas, pa a a qual o ad en o da es e eoscopia81 oi p eponde an e,
numa p imei a ins ância. Com es e no o olha mode no, e sob e udo a pa i do século
XIX, oco eu uma ecomposição das elações en e as modalidades de ep esen ação e o
81 A es e eoscopia cons i uiu-se como uma au ên ica dis upção no que se e e e ao pa adigma da isão e
a sua espe i a cons ução his ó ica. Es e disposi i o é cen al no pensamen o de Jona han C a y, que
eceu uma as a e céleb e ob a ace ca das ans o mações oco idas na obse ação e no obse ado
du an e o século XIX. A es e eoscopia é, des e modo, o p imei o apa elho que ap esen a as ca ac e ís icas
des a cesu a, c uciais pa a o ad en o do cinema. C : C a y, Jona han (2017), Técnicas do Obse ado ,
Lisboa, O eu Neg o.
44
sujei o obse an e, cujo es a u o oi ede inido po uma no a conjugação das dinâmicas
exis en es en e a co po alidade e as especi icidades de pode ins i ucional e discu si o82.
Em consequência des as al e ações es u u ais, no quad o da isualidade, a isão
ma e ializou-se na His ó ia, is o é, o nou-se isí el jun amen e com a p oblemá ica do
obse ado . Salien e-se que disco e ace ca da isão e das suas epe cussões consis e, de
igual modo, numa con emplação das condições que implemen am um obse ado «/…/
que é em simul âneo p odu o his ó ico e luga de ce as p á icas, écnicas, ins i uições e
p ocedimen os de subje i ação» (C a y, 2017: 27). Po conseguin e, a eo denação da
isão no começo de Oi ocen os aduziu-se numa sup ema ansição sis émica no que
conce ne o obse ado 83, na qual a pin u a mode nis a de 1870 e 1880 (com des aque pa a
o imp essionismo de Mane ) e a o og a ia (1839) são apenas me os sin omas.
A mundi isão oi ocen is a sob essai, en e ou os mo i os, pela mode nização do
obse ado , dada a uma cons elação de oco ências, que não se esume a modi icações
me amen e écnicas, a ís icas ou ep esen acionais, mas sim a uma p o unda
ans o mação das o ças sociais, esul an es da e olução bu guesa do im do século
XVIII, associada aos di ei os do homem, da elicidade e da igualdade. Tal compeliu a
uma comp o ação obse á el dos iun os do p og esso84 no século XIX, nomeadamen e
a a és de signos e obje os, sendo que a me cado ia85 desempenha um papel undamen al
82 A pa i da mode nidade, a isualidade alice ça-se g ada i amen e numa p axis isual que se
desaco en a da colocação do obse ado no eal, po in e médio de disposi i os ó icos, que se
cons i uem como e dadei os modi icado es da pe ceção. Com e ei o, a isualidade i ma-se,
p og essi amen e, nos domínios ele omagné icos e cibe né icos e em componen es isuais e linguís icas
abs a as que são di undidas e consumidas a uma escala plane á ia e em que a imagem desma e ializada
da ele isão se des aca como uma das p imei as mani es ações globais dessa mudança.
83 Con ém elucida pa a a dis inção en e «obse ado » e «espe ado », escla ecedo a da p e e ência, po
pa e de C a y, do p imei o e mo. O signi icado de Obse a e (la im) consis e em con o ma a ação,
cump i e, nes e sen ido, o adje i o de obse ado eme e, não somen e pa a um sujei o que ê, mas
sob e udo, pa a um indi íduo que ê inse ido numa panóplia de possibilidades aden adas e limi adas
po um sis ema con encional, enquan o consequência de uma he e ogeneidade de dinâmicas discu si as,
écnicas e ins i ucionais. Po oposição, espe ado p o ém do la im spec a e, possuindo cono ações
pejo a i as, nomeadamen e na cul u a oi ocen is a, em que es a e minologia expedia pa a uma ideia de
passi idade.
84 Sublinhe-se, uma ez mais, o papel do «p og esso» enquan o na a i a e impe a i o in insecamen e
mode no.
85 Wal e Benjamin, no seu ex o Pa is, Capi al do Século XIX, disco eu ace ca do an asma da me cado ia,
enquan o o mado a de igualdade, co obo ando a indissociabilidade en e a e a mode na e o luxo
indus ializado de uma no a ipologia de signos que, p ecisamen e pela sua índole de p odução em sé ie,
45
pa a a di usão (e ulga ização) dos mesmos e, consequen emen e, pa a uma ( en a i a) de
democ a ização dos ais di ei os. Assim sendo, a implan ação de uma no a economia de
me cado ias é consec á ia de uma economia imagé ica sem p eceden es, numa
homogeneidade de imagens e de consumo, em que o obse ado se consolida. Ve i ica-
se uma mu ação acen uada da expe iência isual, assen e no desen aizamen o da isão
com a came a obscu a (1810-1840), acul ando-a de uma mo ilidade e de uma abs ação
singula es, no que conce ne à sua elação com o e e en e.
As no as modalidades de p odução e consumo, associadas a no as o mas de
disseminação das me cado ias, e undi am o obse ado , impondo e implan ando um
Obse ado -Consumido 86. A pad onização das imagens ope ada em Oi ocen os,
esul an e da mecanização indus ial, con lui, concomi an emen e, pa a uma
e o mulação do obse ado , a a és de uma uni o mização que sujei a o p óp io sujei o
que obse a. Os no os p ocedimen os de indi iduação do humano, na mode nidade, es ão
in insecamen e elacionados com a es anda dização das me cado ias que é, em
simul âneo, uma igualação dos signos e da subje i idade.
O apa ecimen o da cul u a isual de massas oco e no seguimen o da isualização do
obse ado , is o é, des e sujei o que ad ém isí el, o a como obje o de es udo, seja das
ciências humanas seja das ciências exa as, o a como elemen o undamen al pa a a
obse ação. A indus ialização e e i ou a au oma ização, que da p odução de
me cado ias – e de imagens que ambém passam a possui um alo me can il – que da
isão, p opiciando a emodelação do obse ado e o espe i o cump imen o, com ecu so
a disposi i os, dos seus de e es de consumo imagé ico. Es e no o sis ema isual
no abiliza-se pela libe ação da ob iga o iedade da inse ção do olho no espaço de
e e encialidade, is o é, na p esença e e i a com o campo de pe ceção eal. Tal
p opo ciona o su gimen o de um obse ado ambula ó io87 e, sinc onicamen e,
eme em pa a uma ecomposição do obse ado e da sua elação com a isualidade. C : Benjamin, Wal e
(1991), Pa is, Capi al do Século XIX, in Ko he, Flá io R. (O g.). Wal e benjamin, 2ª ed, São Paulo, Á ica, pp.
30-43.
86 «No os modos de ci culação, comunicação, p odução, consumo e acionalização exigi am e
emodela am um no o ipo de obse ado -consumido .» (C a y, 2017: 38)
87 Es e no o obse ado ambula ó io é melho simbolizado pela e minologia (ambígua) de « lanêu »,
disco ida po Cha les Baudelai e, au o ancês que é apon ado como o p imei o poe a da ci ilização
indus ial. Tal eme e pa a um obse ado caminhan e, e an e e adio, eme gindo como o emblemá ico
46
deambula ó io. Um sujei o obse ado que, po an o, es á des inado a mo e -se, sem sede
ixa, que «passeia» pelas imagens, equen emen e desno eado. Uma obse ação que
sob essai pela ansi o iedade, mas que es á eminen emen e elacionada com o laze e
com o consumo.
III.2. O Consumo e as ocas simbólicas
Impo a, po isso, ece conside ações ace ca da p eponde ância do consumo pa a o
es a u o do obse ado . O ad en o do Obse ado -Consumido é co olá io de uma
sociedade pau ada pelo consumo88. A mul iplicação dos obje os, pa a além de se c ucial
pa a a emodelação do obse ado , é, de igual modo, ulc al pa a a ins au ação de uma
comunidade na qual o indi íduo em um papel cen al e em que o consumo ope a como
um modo de subje i ação do mesmo.
A e olução bu guesa, assen e no p incípio de igualdade dos homens, é p ecu so a da
e olução do bem-es a , na medida em que a comp o ação do p incípio democ á ico se
i mou numa ans e ência da igualdade eal pa a uma igualdade pe an e o obje o. O mi o
da igualdade da mode nidade oi enca nado pelo mi o da elicidade, enquan o e e ência
absolu a da sociedade do consumo. A imensu abilidade da igualdade oi ans e ida pa a
a mensu abilidade da elicidade, alice çada, essencialmen e, nos obje os e signos que
a qué ipo da expe iência mode na. De aco do com Wal e Benjamin, o lanêu cons i ui -se-ia como uma
ca ac e ização ep esen a i a do sujei o da u be mode na, esul an e da alienação da cidade, do
capi alismo e do consumo. Con udo, pa a Baudelai e, o pe ei o lanêu es a ia p esen e na igu a do
a is a, possuido da capacidade de obse a com a enção a empo alidade em que i e, e le i ace ca
da ida mode na e do no o espaço mudado em e mos sociais e cul u ais, e i ando ins an es da ida
mode na, de modo a o na-los em sin omas mais ge ais e anscenden ais. A missão do a is a mode no,
segundo Baudelai e, é a de encon a algo ex ao diná io no o diná io, no pequeno acon ecimen o,
es ando semp e eiculado ao seu empo como documen ado p i ilegiado do mesmo. O au o lou a a
ideia do a is a como um «eu insaciá el do não-eu.» (2015: 20), en a izando que «Poucos homens são
do ados da aculdade de e ; e exis em menos ainda que possuam o pode de exp imi .» (2015: 22). No
undo, o a is a consis i ia no sujei o ap o pa a se imiscui nas massas como um “Homem das mul idões”,
em e e ência ao con o The Man o he c owd de Edga Allan Poe, po quem Baudelai e nu ia g ande
admi ação. C :
- Baudelai e, Cha les (2015), O pin o da ida mode na, Lisboa, No a Vega;
- Benjamin, Wal e (1973), Cha les Baudelai e: A Ly ic Poe in he E a o High Capi alism, ad. Ha y Zohn,
Lond es, NLB, pp- 86-89.
88 C : Baud illa d, Jean (1970), La socié é de consomma ion, Pa is, Édi ions Denoel
47
p omo em o «con o o». Não possuindo apenas um ca á e es i o ou de ejúbilo cole i o,
a elicidade é, na mode nidade, um di ei o pa en e na abela dos di ei os do homem e do
cidadão que econhece, acima de udo, o di e o de cada um à elicidade. Nes a
mundi isão, es á implíci a uma igualdade pe an e a necessidade e, consequen emen e,
uma possibilidade uni e sal de sa is ação (das necessidades). Como al, ei indica-se
uma igualdade ao alo de u ilização de obje os e signos pa a sup imi essas mesmas
necessidades. A lógica do bem-es a p essupõe o consumo enquan o adágio da elicidade,
median e a gene alização dos bens como p omoção do con o o e do con en amen o.
Ins a cla i ica que as necessidades isam igualmen e os alo es e não somen e os obje os.
A sup essão das ca ências, com ecu so ao consumo, es á eminen emen e inculada a uma
adesão aos alo es que o p óp io consumo ins i ui. Ope ando como o elo aglu inado de
uma cole i idade de indi íduos, is o é, de uma sociedade na qual o indi íduo desempenha
um papel p eponde an e, o consumo consis e num con a o social89 inconscien e. A
p á ica consumis a incumbe-se do o ício de o denação das signi icações, compondo-se
como um sis ema es endido de ci culação e elabo ação de codi icações, onde odos es ão
en ol idos. O consumo é um modo de o ganização ideológico, que ga an e uma mo al e,
em pa alelo, um apa elho de comunicação. Es e consis e num au ên ico sis ema de oca,
que assegu a a comunicação na sociedade, es abelecendo uma o dem de alo es, na
mesma p opo ção em que ce i ica a oca simbólica numa comunidade. A pa icula idade
do consumo eside na asse e ação de uma de e minada ipologia de comunicação, ulc al
pa a o sal agua da de ans e ências de signos en e os memb os de um co po social. Tal
como a linguagem enquan o sis ema cons i u i o da p óp ia comunidade na qualidade de
ecido ag egado , o consumo ad eio, na mode nidade, o ga an e da es u u a
comunica i a en e os indi íduos, median e a agilização que a ua sob a ci culação de
signos. Con udo, a pa icula idade do apa a o consumis a cons a na cong egação que
p omo e dos indi íduos, a a és de obje os com uma uncionalidade de inc emen o do
bem-es a biológico e, simul aneamen e, com um alo sociológico. As pala as es ão
pa a a linguagem como os obje os es ão pa a o consumo, como condição essencial pa a a
oca simbólica comuni á ia, um au ên ico po lach90. Ambos p o idenciam a dis ibuição
89 Concei o cen al na mode nidade, eiculado pelo ilóso o Jean-Jacques Rousseau. C : Rousseau, Jean-
Jacques (2003), O Con a o Social, Mem Ma ins, Publicações Eu opa Amé ica.
90 Po lach consis e numa p á ica ce imonial pa en e em ibos indígenas da Amé ica do No e e das ilhas
de T ob iand, na Papua No a-Guiné. Nes a p á ica, a dádi a (“po lach” signi ica “da ”, em po uguês)
48
de signos, median e um sis ema cul u al com uma o denação de alo es. Não só o
consumo se assemelha à linguagem como, a ní el comunica i o, es e se cons i ui mesmo
como uma linguagem, a a és da qual os memb os do cole i o comunicam e sus en am a
p óp ia comunicação den o da comunidade.
Em consequência, a aiz e des ino do consumo não é me amen e a elicidade do «homo-
oeconomicus» (Baud illa d, 1970: 93). A p axis consumis a eme ge, acima de udo, como
um de e , ao in és de um simples di ei o ou um p aze i ial. O consumo e ela de uma
índole con a ual, ins i ucional e mo al. Com a hie a quização de alo es, a a i idade do
consumo ins i ui não somen e uma uncionalidade em cada indi idualidade, mas ambém
na cole i idade, num mo imen o que é, sinc onicamen e, emancipado e disciplinado . A
dialé ica do consumo p essupõe, po um lado, uma modalidade de con olo e, po ou o,
um modo de capaci ação social. Ambas são elabo adas pelo p ocesso de ap endizagem
do consumo ou, po ou as pala as, a in e io ização de uma habilidade sui gene is de
socialização. Es a p á ica ins au a o consumo como um abalho social, pa en e no
sac i ício do salá io e, consequen emen e, do empo, aliado aos con en amen os
indi iduais em p ol do bem cole i o. Sob e em um discu so de solida iedade no
consumo, nes e de e de cidadania de pa icipação na sociedade, po in e médio da
aquisição de bens o a do labo , com os ecu sos que a p óp ia labo ação p o idencia.
Na sociedade de consumo, a con ibuição do indi íduo pa a a sociedade não se e le e
apenas no empo e ene gia que despende no seu abalho, mas sim na des inação e na
mobilização do capi al91 que possui. Com a p odução indus ial de obje os idên icos
oco e, pa adoxalmen e, uma exigência de he e ogeneidade à mancha homogénea de
cons i ui-se como cen al pa a ga an i a comunicação na ibo e, consequen emen e, o seu ca á e
comuni á io, a a és da ga an ia de edis ibuição de bens e o e endas, is o é, da exis ência de uma oca
simbólica. O es udo des e enómeno oi desen ol ido po Ma cel Mauss, céleb e an opólogo e sociólogo
ancês. C : Mauss, Ma cel (2017), Ensaio Sob e a Dádi a, Lisboa, Edições 70.
91 A en e-se à ob a do sociólogo Pie e Bou dieau e à e lexão que es e elabo a a espei o do concei o de
capi al e da sua elação com o pode . O au o enume a qua o ca ego ias de capi al: o económico, o social,
o cul u al e o simbólico. O capi al cons i ui-se, des e modo, como um a i o que se ep oduz e que es á
eminen emen e elacionado com a mobilidade social numa sociedade di idida em es a os sociais.
Relacionando com a emá ica do consumo, pode -se-ia dize que es a p á ica supõe an o uma
mobilização como um e o ço des as qua o modalidades de capi al. C : Bou dieu, Pie e (1986), «The
o ms o capi al», in Richa dson, J., Handbook o Theo y and Resea ch o he Sociology o Educa ion, No a
Io que, G eenwood, pp. 241-58.
49
«consumido es». É com a pe da das di e enças – bens análogos massi icados e um
conjun o plu al de indi íduos idos essencialmen e como consumido es – que impe a o
cul o da di e ença. A legi imidade da di e enciação só é pe mi ida caso es eja inse ida na
lógica do consumo, na medida em que somen e a a és des a é que o indi íduo se
dis ingue e se in eg a num dado g upo social. Nes a o ma de comunhão, não há ma gem
pa a a nega i idade, pa a uma dis inção eal, pois os sujei os es ão sujei ados a
dis ingui em-se den o da posi i idade92, is o é, no seio da a i idade consumis a. A
abolição das di e enças eais uni o miza an o as pessoas como os i ens e, ao mesmo
empo, ins iga a pa icula ização dos p imei os com a ob enção dos segundos.
Rela i amen e ao es abelecimen o de he e ogeneidades den o da uni o midade do
consumo, o consumo cul u al é um a o decisi o. A endendo ao homem consumido e
ao seu desígnio de sa is ação e elicidade, a mo alidade da di e são e o impe a i o de se
en e e são ulc ais. A indús ia cul u al e o consumo dos seus «p odu os» eme em pa a
elabo ação de di e enciais ou, po ou as pala as, de signos capaci ados de e e ua
dissimili udes en e os consumido es. As a i idades cul u ais e o consumo de cul u a93,
enquad ados na cul u a de massas, exp essam um modo de disce nimen o social, i mado
na ele ação simbólica de quem os consome.
Ademais da ( e)signi icação dos des ina á ios des a modalidade consumis a, o consumo
cul u al, nomeadamen e o que conce ne o pa imónio his ó ico, ca ac e iza-se como uma
o ma de essu gimen o de um passado, po in e médio de uma in ocação i ualizada da
his ó ia, que é cons an emen e ea ualizada. Es e mo imen o es á in insecamen e
elacionado com a eciclagem94 cul u al, enquan o undamen o que no eia oda a cul u a
92 O concei o de «posi i idade» é undamen al na ob a Sociedade da T anspa ência de Byung-Chul Han.
Segundo o au o , a sociedade con empo ânea pau a-se pela exigência de anspa ência e po uma
ob iga o iedade de posi i idade, do igual, que mais não é que uma epulsa à nega i idade e, po an o, ao
ou o. Pa a o ilóso o, o de i - anspa en e das coisas es á pa en e na uni o mização das mesmas, com
ecu so aos p eços e ao dinhei o e, consequen emen e, ao despojamen o e à sup essão da singula idade.
Po conseguin e, «A sociedade da anspa ência é um in e no do igual.» (Han, 2014: 12). C : Han, Byung-
Chul (2014), A Sociedade da T anspa ência, Lisboa, Relógio d´Água.
93 En a iza-se, uma ez mais, a ab angência do e mo «cul u a» e a sua inse ção na lógica da
indus ialização e do consumo.
94 Segundo Jean Baud illa d, a eciclagem é um dos aspe os mais ele an es da cul u a con empo ânea,
como se comp o a em: «Une des dimensions ca ac é is iques de no e socié é, en ma iè e de sa oi
p o essionnel, de quali ica ion sociale, de ajec oi e indi iduelle, c´es le ecyclage. Elle implique pou
chacun, s´il ne eu ê e elégué, dis ancé, disquali ié, la nécessi é de « eme e à jou » ses connaissances,
50
de massas. Tal consis e numa p o unda al e ação da noção de cul u a usualmen e
espei an e o a a uma e lexão do mundo, anscendência ou uncionalidade simbólica,
o a a um legado de pensamen os e ob as. A eciclagem cul u al e e ua uma me amo ose
de i ens conside ados cul u almen e signi ica i os, cono ando-os a um alo me can il e
expondo-os duplamen e, seja no p óp io sen ido de exposição, is o é, de ab angência do
seu público, seja no sen ido de os sujei a a um pendo de laze , de en e enimen o ou de
his o icidade, ou seja, a uma ans o mação dis in a do seu âmago p imo dial. A
musealização do mundo ou a sac alização dos museus epe cu em es a eu ilização
cul u al, que po mo i ações académicas ou his o iog á icas, que pela deslocação de
de i -p odu o ou de i -obje o-de-consumo de udo o que se encon a no mundo. O obje o
consumí el não se esgo a na sua qualidade de me o u ensílio, is o que a peculia idade
do consumo é bas an e mais ex ensa do que um p edicado me amen e u ili a is a.
Enal ece-se, cada ez mais, o seu a ibu o de signo, po quan o a lógica do consumo se
unda na manipulação que e e ua dos signos, is o é, na al me amo ose que emp eende
sob e os obje os, mesmo os cul u ais ou os na u ais. Na sociedade do consumo, odas as
signi icações es ão subo dinadas à ci culação, ou po ou a, são dominadas e mobilizadas
pela sucessão e e ezamen o, ulc ais pa a ga an i a comunicação numa comunidade, po
in e médio da oca simbólica.
Assim, na emá ica da eciclagem, e com especial ên ase na cul u al, o empo é um ecu so
imp escindí el. A p óp ia empo alidade é incumbida da alência de signi icação,
ing essando na lógica do consumo, que a a és da sua me can ilização, que pela
p eponde ância que exe ce na di e enciação dos consumido es95. O empo compo a uma
son sa oi , en g os son «bagage opé a ionnel», su le ma ché du a ail. /…/ S´il ne le ai , il n´es pas un
ai ci oyen de la socie é de consomma ion.» (Baud illa d, 1970: 149). Ope ando como um ciclo e endo
na moda o seu melho exemplo, a eciclagem consis e num di ei o e num de e de cada consumido de
se eno a , ou melho de se ecicla , de empos a empos, no que diz espei o aos seus obje os de
consumo, seja a indumen á ia, as ia u as ou mesmo o usu u o de bens cul u ais. É no cump imen o da
pe iodicidade de eno amen o consumis a que assen a a e dadei a in eg ação do cidadão-consumido
na sociedade do consumo. Con udo, a p emência de eciclagem não é exclusi amen e incula i a aos
sujei os. Es a lógica e le e-se igualmen e nos obje os, sejam eles ma e iais ou ima e iais, na u ais ou
cul u ais. A ligação hodie na com a na u eza ilus a o p ocesso de eciclagem em que es a es á sujei a na
con empo aneidade, na medida em que a sua ( e)descobe a não se es inge a uma p esença
(supos amen e) pu a e singula , mas sim a uma simulação, na qual se exe ce um consumo de signos da
na u eza e uma mo imen ação dos mesmos. Tal e idencia-se em p á icas e concei os como os de
«pa que-na u al», «segunda habi ação», «espaço e de», e c.
95 Con o me Judy Wajcman, a u gência de me can ilização do empo, esul an e da Re olução Indus ial,
e e na ins i ucionalização do uso do elógio a sua p imo dial esolução. Simbolizando o su gimen o de
um no o modus i endi, es a é um dos ês p incipais a o es pa a o apa ecimen o da sociedade da
57
obse á el, co obo ando a noção oucaul iana de homem como in enção ecen e108. Po
ou o lado, é, em g ande medida, um esul ado da in enção da pe spec i a po Leona do
que, po sinal, colocou o p óp io humano em pe spec i a109. O ad en o des e mé odo, ido
como “di ina p opo ção”, con e eu-se numa lei, c ucial pa a a laicização e libe ação da
ep esen ação da o dem do di ino e, consequen emen e, pa a o su gimen o, uns séculos
depois, de engenhos isuais como a o og a ia ou o cinema. Na e dade, i emos ainda
hoje em pe spec i a110, ou seja, a a és da ilusão das coisas ep esen adas, elucidando a
p óp ia ilusão de uma “ isi a guiada” à dis ância.
Em is a disso, ins a a en a à ques ão da ep odu ibilidade, p imo dial seja no museu
imaginá io, seja no Visi a Guiada enquan o museu imaginá io. A ep odução con luiu
numa modi icação es u u al dos diálogos na a e e nas suas espe i as hie a quias. Es a
e e i ou uma p o unda dispe são das ob as de a e, que no que conce ne a sua eceção,
que na sua o igem an o c onológica como geo gá ica. Com as écnicas de
ep odu ibilidade, um espe ado , no con inen e ame icano ou no asiá ico, pode compa a
uma an iga moeda g ega a uma múmia egípcia. A p incipal consequência des a
po encialidade, e dadei amen e dis up i a, exp essa-se na in elec ualização da a e, is o
é, a capacidade de compa a , analisa , pensa aquilo que se cons i uia como me amen e
con emplá el. A a e que ou o a se ins i uia como uma mediação, com o di ino ou en e
os humanos, passou ela p óp ia a se mediada po apa elhos écnicos. Es a mu ação
pa adigmá ica iabilizou a ap oximação dos obje os ep esen ados, mas ambém dos
sujei os obse ado es, ampliando e dispe sando o seu campo de análise e de di ulgação.
108 Num dos seus céleb es ensaios, As Pala as e as Coisas, Michel Foucaul disco e a espei o da ideia
de homem enquan o concepção cuja c iação emon a, essencialmen e, ao século XIX. A p oli e ação de
museus em Oi ocen os, bem como o ad en o das ciências sociais e humanas, cons i uem-se como
mani es ações que e idenciam a ese de Foucaul , como se con i ma em: « Cons i ui, no en an o, um
econ o o, e um p o undo apaziguamen o o pensa que o homem não passa de uma in enção ecen e,
uma igu a que não con a mais de dois séculos, uma simples in lexão no nosso sabe , e que há-de
desapa ece logo que es e enha encon ado uma o ma no a » (Foucaul , 2019: 62).
C : Foucaul , Michel (2019), As Pala as e as Coisas: Uma A queologia das Ciências Humanas, Lisboa,
Edições 70.
109 A en e-se, a í ulo de exemplo, a uma das mais concei uadas ob as de Leona do da Vinci, O Homem
Vi u iano, conside ado uma das g andes ealizações que conduzem ao Renascimen o, pela descobe a
que alcança das p opo ções ma emá icas do co po humano.
110 A pala a “pe spec i a” signi ica “ e a a és de”, um dos sen idos de «pe spice e» ( o mado pela
junção do p e ixo «pe -», is o é, “a a és” com «spece e», ou seja, “obse a ”) que consis e numa
adução li e al da pala a g ega de «op iké». O Visi a Guiada é exempli ica i o des a he ança de e
a a és de, no caso, disposi i os ó icos.
58
Toda ia, al ambém aca e ou numa homogeneização do ep esen ado, de ido à pe da
de escala – an o num albúm, num li o ou mesmo na ele isão, o amanho de um aso
ou de um mu o passam a assemelha -se ao o ma o do supo e da sua ep esen ação.
Impo a, no en an o, essal a que a p eponde ância da ans o mação ope ada não
assen a na modi icação da pe cepção da dimensão de um obje o, mas sim na sua
me amo ose num documen o banal. Es e de i documen al engend ou a
concep ualização em o no da a e, de que o Visi a Guiada é exemple ica i o, po quan o
o seu campo de ação consis e na análise de peças pa imoniais, na sua qualidade de
“documen o” de um empo, como é e e ido na sinopse do p og ama. Nes e, an o uma
indumen á ia ba oca como um complexo indus ial, mesmo com a sua plu alidade
empo al ou men al, ad êm documen os, ou melho , em i ens com um alo pa imonial,
que es emunham aos p esen es aquilo que oi a i ência dos ausen es, mediando o
espe ado com um Ou o e um ou o a.
Assim, o obje o ans igu ou-se num meio da imagem, ao in és da imagem se uma
simples ep odução desse obje o. Inclusi é no que ab ange o passado, e i ica-se, com as
écnicas de ep odu ibilidade, uma c iação de a e, na medida em que o que dan es
consis ia numa p á ica i ial ad ém a e ou pa imónio, ans o mando-se, po an o, num
documen o. Tal concepção de de i -a ís ico o a se cons i ui como suges i a de ei os
singula es de uma comunidade, o a aduz-se numa ope ação undamen al na
uni e salização de de e minadas peças que, caso pe manecessem somen e em coleções,
co esponde iam apenas a cu iosidades. Os disposi i os que p opo cionam que ais
obje os se o nem ep odu í eis, como a o og a ia e a ele isão111, p opiciam uma
gene alização do acesso aos mesmos, essencial pa a a sua democ a ização112, e iabilizam
o seu isolamen o e des aque necessá ios pa a os obse a . Os apa elhos de
ep odu ibilidade me amo oseam os a igos pa imoniais em au ên icas indagações sob e
111 Salien e-se que o Visi a Guiada, ainda que consis a num p og ama de ele isão, eco e
pe manen emen e ao uso de o og a ia, seja pa a e idencia um de e minado aspe o den o da emá ica
abo dada num espe i o episódio, seja pa a aludi a ou o documen o ele an e pa a a análise desse
ema. Es a solici ação do meio o og á ico e a sua inse ção no seio de imagens ele isi as é e elado a de
uma in e ex ualidade imagé ica.
112 En a iza-se, uma ez mais, a ele ância da igualdade pe an e a me cado ia como aspe o de ce i icação
do alcance do alo mode no de igualdade. O Visi a Guiada, na qualidade de p og ama ele isi o de uma
es ação pública, co obo a a p eponde ância da democ a ização de acesso a de e minados obje os, nes e
caso cul u ais, como comp o a i o da p óp ia democ acia.
59
os seus empos e os seus au o es e, mesmo quando não se os consegue enquad a na
His ó ia, suges ionam es ilos sumidos ou p o á eis.
Ou o aspe o ele an e que a ep odução ocasiona é a ques ão da ampliação. Seja na
imagem o og á ica ou na ele isi a, a ampliação con e ida a uma de e mimada peça
au e e uma ex ema ele ância, median e o diálogo que opo uniza en e as ob as,
acili ando o es abelecimen o de pa alelismos e dissimili udes. Des e modo, es as
ipologias imagé icas comp eendem uma dimensão diegé ica, mais do que um ca á e
me amen e mimé ico113. Assim sendo, a es usualmen e conside as meno es, ais como
as a es deco a i as, as moedas ou os b onzes, passam a adqui i uma co espondência de
alo ace às habi ualmen e epu adas como a es maio es. Cons a a-se uma emancipação
da subo dinação que de e mina a que ce as a es ossem classi icadas como meno es,
concedendo uma ans o mação de ob as ou o a secundá ias em p á icas lou á eis e
ep esen a i as de ce as mundi isões. Tal es á in insecamen o elacionado com a
emá ica do agmen o e do albúm, elemen a que pa a a concepção de museu imaginá io
po Mal aux, que pa a o Visi a Guiada. O agmen o, co espondendo a uma pa e do
odo, aliado à lógica da ep odução, possibili a uma con emplação exímia e sem
p eceden es. Na dialé ica agmen á ia oco e uma ( e)ap esen ação e uma seleção que,
aquando da sua inse ção num albúm, ope a um isolamen o indispensá el pa a os
exe cícios de compa ação, des endamen o ou ampliação. Há nes e mo imen o uma
me amo ose, no p óp io sen ido do e mo114, ou, po ou as pala as, um enascimen o
113 Mimesis e Diegese consis em em duas e minologias undamen ais pa a a iloso ia da G écia An iga.
Se a p imei a eme e pa a uma a iedade de signi icados, en e os quais “imi ação”, “ ep esen ação” ou
“mímica”, p eponde an es pa a o pensamen o pla ónico ou a is o élico, a segunda conce ne um conjun o
de ações que o mam uma his ó ia na ada con o me ce os p incípios c onológicos. Sóc a es, a í ulo de
exemplo, opunha os dois e mos, consoan e a assunção do poe a enquan o locu o de uma na a i a
(diegese) ou a c iação da ilusão, po pa e do na ado , de não se o locu o (mimesis). No caso do Visi a
Guiada não se sabe ao ce o quem é o locu o : se o especialis a con idado, a jo nalis a ou o p óp io
documen o em análise. O p og ama possui um ca á e mimé ico pelo ecu so a imagens, mas possui
essencialmen e um ca á e diegé ico, na medida em que cons an emen e elabo a que um espaço
diegé ico ou um empo diegé ico, opondo o mundo eal ou a ida eal com as lei u as de um mundo
iccional ou já não exis en e. Com o Visi a Guiada, há um iplo empo/espaço diegé ico: o que o
documen o e ela, o da g a ação do p og ama e o da isualização do espe ado .
114 E imologicamen e, “me amo ose” p o ém da junção das pala as g egas me a (em po uguês,
“depois”) e mo e (“ o ma o”), eme endo pa a a ideia de i pa a além da o ma, is o é, uma al e ação de
es u u a ou na u eza ão ampla que possibili a, in ex emis, que o se ou obje o que po ela passa se
a as e da possibilidade de econhecimen o po ou em. É, aliás, na An iguidade Clássica, com O ídio, que
su ge a base na a i a da de inição des a e minologia no pensamen o ociden al. «De o mas mudas em
no os co pos /…/» (O ídio, 2014: 35) é o mo e com o qual o poe a inicia Me amo oses, sus en ando a
elação en e o ma e co po e es abelecendo a o ma como elemen o de con inuidade e o co po como
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dos obje os ep esen ados. Es es, que equen emen e consis iam em mediações do
mundo ou mediações en e os humanos, passam a se mediados e a consis i em
mediações com o seu empo, is o é, um obje o que se i ia pa a ( e)liga o mundo ou
( e)liga os indi íduos ansi a pa a uma inalidade de ( e)ligação dos p esen es que o
con emplam com os ausen es que o c ia am, concomi an emen e a se um obje o que se e
de meio que pe mi e imagens deslumb an es de uma dada empo alidade. Tal é e elado
da al e ação es é ica na elação en e pa e e odo in oduzida pela ep odu ibilidade, uma
ez que se ou o a se i ia do de alhe pa a o conjun o, is o é, da es á ua pa a o emplo, com
a ep odu ibilidade ansi ou-se pa a um mo imen o do conjun o pa a o de alhe, is o é, do
albúm pa a o agmen o. No undo, a g ande no idade da ep odução não eside na
econs i uição de um emplo, mas sim na emancipação das es á uas ace ao mesmo.
O Visi a Guiada, na sua dimensão de museu imaginá io, p omo e um cosmos a ís ico,
ela i o ao e i ó io po uguês, que é inigualá el. Tal como o museu imaginá io, es e
conce ne, ao mesmo empo, um uni e so “ eal”, das peças que con empla, mas ambém
um mundo “i eal” que as es ende, ou seja, um cosmos que apenas se encon a, median e
as imagens da “ ealidade”. Concebendo um imaginá io, a a és das imagens que c ia e
que con apõe do passado, o Visi a Guiada, enquan o u o das ecnologias de ep odução,
não en en a os obje os que isa, mas sim isa posiconá-los em en e do espe ado . As
imagens do Visi a Guiada não compe em com as imagens do empo que p e endem
e le i , mas sim con ocam-nas e eme em-nas pa a um de e minado pe íodo que o
p og ama enciona in oca . Em ez de se pau a po uma enúncia do o iginal, o Visi a
Guiada possibili a a con emplação de ce as ob as. Es e não induz ao esquecimen o dos
o iginais, pelo con á io omen a a sua eco dação, iabilizando a acessibilidade a dadas
peças. Assim sendo, o Visi a Guiada compõe-se como uma mani es ação de uma His ó ia
que ad eio imaginá el, is o é, de uma elação com o passado que eque imagens e que
exige a expansão das mesmas. Ao o na públicas es as ob as, o p og ama não apenas as
componen e de di e ença. Tan o o a o de mudança como o de pe manência são, des a manei a,
undamen ais pa a que a me amo ose oco a. No caso da elação en e a ep odu ibilidade e as peças
de ca á e museológico ep esen adas e i ica-se, de igual modo, uma pe manência (que as eme e pa a
a empo alidade que documen am) e uma ans o mação (que lhes dão esse ca á e documen al dessa
empo alidade, ao in és da sua uncionalidade inicial). C : O ídio (2014), Me amo oses. In odução e
adução de Paulo Fa mhouse Albe o, Lisboa, Li os Co o ia.
61
publici a como az com que elas deixem de se p i adas, e deixe de ha e a p i ação115
dos cidadãos sob e elas. O Visi a Guiada é consec á io daquilo que oi uma das p o undas
al e ações que o museu imaginá io in oduziu com a dis upção ope ada pelo disposi i o
o og á ico, is o é, a possibili ação da emancipação ace ao sen imen o de posse que,
du an e séculos, dominou a elação en e colecionado ou ap eciado com a ob a de a e.
Com a imagem o og á ica inicou-se a desconside ação pela posse, de que a imagé ica
ele isi a é he dei a. Com a ep odu ibilidade das ob as, es as despoja am-se da pe ença
exclusi a a alguém. A ep odução libe ou, des e modo, a ob a do seu ca á e de obje o
de a e colecioná el e p i ado, anspondo-a pa a uma alo ação cole i a que,
cu iosamen e, a alo izou. Tal como os san os das ig ejas, que consis iam numa iqueza
comuni á ia, as peças a ís icas e pa imoniais, com a sua ep odução, passa am a deno a
de um alo de comunhão, co obo ando, po es a ia, a concepção de que o mundo da
ep odução se e o mundo dos o iginais.
Cons a e-se, de igual modo, o eo mosaicis a ins au ado pelas écnicas de ep odução na
sua elação com a a e. O museu imaginá io é o mado de um mosaico, po in e médio
da inculação, em ce a medida ad en ícia, que ins i ui en e o agmen o, is o é, a peça
o og a ada e o complexo da ob a em que es a se enquad a. O Visi a Guiada p oduz,
igualmen e, um mosaico, elabo ando o mesmo elo en e o agmen o e o conjun o.
Con udo, con ém não esquece que o Visi a Guiada concebe um mosaico, median e a
imagem ele isi a, ou seja, median e uma imagem que é ela p óp ia um mosaico116.
A a és de uma imagem mosaicis a e no seio de uma elação ma cada pela
ep odu ibilidade com o pa imónio, que possui, já de si, um pendo igualmen e
mosaicis a, o Visi a Guiada elabo a um mosaico de Po ugal. Às imagens das imagens de
Po ugal, o p og ama compõe, em simul âneo, um mosaico de um mosaico.
115 Em A Condição Humana, Hannah A end eco da a o igem do e mo “p i ado”. O igina iamen e, es e
e mo eme ia pa a a noção de p i ação. Vi e p i ado consis e em i e em p i ação de elemen os
essenciais pa a a ida humana. Como apon a a ilóso a, na G écia An iga a es e a p i ada, enquan o
espaço de p i acidade que se opunha à polis, aduzia-se numa p i ação dos ou os que é, em úl ima
análise, uma i ência desp o ida de al e idade. Pa a os ais ou os, o homem p i ado não exis e, uma ez
que não apa ece. Ao con a ia o ca á e ou o a p i a i o de dadas peças pa imoniais, o Visi a Guiada
coloca-as na es e a pública da Ágo a ele isi a, is o é, publica-as, publici a-as e impede a p i ação dos
cidadãos de bens cul u ais conside ados comuns. C : A end , Hannah (2001), A Condição Humana, Lisboa,
Relógio d´Água.
116 Como já oi e e ido, no p imei o capí ulo, em alusão à ca ac e ização que Ma shall McLuhnan o mula
des a ipologia imagé ica.
62
Cla i ique-se que es e mosaico é semp e suges i o, endo em is a que en ia
cons an emen e o obje o ep esen ado – com ecu so à ho a, à dis ância ou ao ângulo
mobilizado pelo au o da imagem – pa a um de e minado empo ou luga . Suge e, acima
de udo, uma he ança ou uma His ó ia, ge ando um amplo domínio a ís ico ou
pa imonial, incompa á el com o de qualque colecionado . Qualque peça passa a
possui uma exp essão o og a á el e, po isso, ele isioná el, no p óp io sen ido de
isí el à dis ância, capaz de e le i ace ca das mais a iadas elações dos humanos com
o cosmos. A a és da écnica passámos, po isso, a e o maio acesso possí el à a e117.
Ve i ica-se, com a imagem da ep odução, a eme gência de uma mul iplicidade de
mundo(s), seja median e uma plu alidade de acesso que es a pe mi e, mas ambém a a és
de uma a iedade de campos de e lexão que al ipologia imagé ica despon a.
Com e ei o, an o o museu imaginá io como o Visi a Guiada são e elado es, acima de
udo, de uma p o unda ans o mação do olha , assen e numa me amo ose da a enção e,
consequen emen e, numa in ensa al e ação no que conce ne a emá ica do
econhecimen o. Oco e, nes es mo imen os, uma p ojeção sob e a peça que le a o
obse ado a econhecê-la como pa imonial118. Se uma moeda ad ém pa imónio é
po que exis e um obse ado que a econhece enquan o al. Se uma ce a di indade,
ou o a pe encen e aos deuses, in eg a o leque pa imonial é po que a sua di indidade
oi, po um lado, sup imida e, po ou o, essusci ada na qualidade de a e ou de he ança.
Consequen emen e, o museu imaginá io e o Visi a Guiada, exemple icando a
in elec ualização da a e e a des i uição da pe ença, cons i uem-se, sob e udo, como
co olá ios de um p ocesso de me amo ose sem p eceden es. A í ulo de exemplo, uma
escul u a a icana já não consis e numa másca a de dança ou um ape e de A aiolos numa
me a peça deco a i a, na medida em que ambas se me amo osea am em demons ações
de uma p axis, de um c onos ou de um opos. O Visi a Guiada es abelece-se, des e modo,
117 No e-se que, pa a os g egos, « ekné» signi ica a, em simul âneo, “ écnica” e “a e”.
118 Nou a dimensão, o eady-made é, de igual modo, um esul ado des a modi icação no olha e no
econhecimen o, po quan o es e ad ém ob a de a e a a és do olha do a is a. Es as ans o mações
cons i uem-se, em úl ima ins ância, como uma no a elação com a a e, in insecamen e elacionada com
as écnicas de ep odução.
63
como uma he e o opia e uma he e oc onia119. Es e consis e ambém numa busca de
pe manência120, cuja ação não eside me amen e no conhecimen o, mas sim na o dem da
p esença. A p ocu a de ida no que conce ne a mo e ou, po ou as pala as, a indagação
de p esença nos ausen es, co obo a o p incípio undamen al de que o museu se cons i ui
na exis ência em ida do que de e ia pe ence à mo e. O museu imaginá io e o Visi a
Guiada in en am concede uma espécie de imo alidade, is o é, uma emancipação ace ao
empo. Pa adoxalmen e, p ocu am concebe al e idade(s) pe an e a ameaça daquele que
é o g ande mo o de al e idade, o empo. E, cu iosamen e, ope am uma me amo ose em
que modi icam odo o p esen e em passado. A p esença de uma peça num museu ou no
Visi a Guiada ans o mam-na numa ob a e em passado.
O Visi a Guiada, no seu ca á e de museu imaginá io, implemen a-se como uma
«assembleia de ob as» (Mal aux, 2020: 258) ou, po ou as pala as, uma con enção de
peças pa imoniais, median e a eunião que elabo a dos mais di e si icados obje os,
ma e iais e ima e iais. Es e é, po isso, uma mani es ação da on ade de a e e de
pa imónio. Cons i ui-se como uma ágo a que i adia a mais ele ada ideia do humano,
119 Conside e-se, des a manei a, o ilus e ex o de Michel Foucaul Des espaces au es. Disco endo
ela i amen e aos “espaços absolu amen e ou os” ou, po ou as pala as, aos luga es (em g ego,
« opos») que se cons i uem como ou i icações (he e o signi ica, pa a os g egos, “ou o”), Foucaul expõe
a sua indispensabilidade pa a a o mação de qualque comunidade. Con o me Foucaul , os museus e as
biblio ecas ep esen am, na sociedade con empo ânea, he e o opias essenciais, na medida em que se
cons i uem como he e o opias de uma empo alidade que se aglome a incessan emen e, is o é, como
uma au ên ica he e oc onia (c onos signi ica “ empo”). Tal es á p esen e em: «Il y a d´abo d les
hé é o opies du emps qui s´accumule à l´in ini, pa exemple les musées, les biblio hèques; musées e
biblio èques son des hé é o opies dans lesquelles le emps ne cesse de s´amoncele e de se juche au
somme de lui-même /…/.En e anche, l´idée de ou accumule , l´idée de cons i ue une so e d´a chi e
géne ale, la olon é d´en e me dans un lieu ous les emps, ou es les époques, ou es les o mes, ous
les goû s, l´idée de cons i ue un lieu de ous les emps qui soi lui-même ho s du emps, e inaccessible
à sa mo su e, le p oje d´o ganise ainsi une so e d´accumula ion pe pé uelle e indé inie du emps dans
un lieu qui ne bouge ai pas, eh bien, ou cela appa ien à no e mode ni é. Le musée e la biblio hèque
son des hé é o opies qui son p op es à la cul u e occiden ale du XIXe siècle.» (Foucaul , 2017: 1578).Em
is a disso, o Visi a Guiada ins i ui-se como uma he e o opia e he e oc onia, a endendo à sua índole de
biblio eca (audio isual) de biblio ecas ou de museu de museus. O p og ama pe co e o pa imónio
exis en e em Po ugal num a co de ação in ensamen e amplo, seja a ní el empo al, como geog á ico.
Es e concebe, assim, uma g a ia em mosaico que p e ende aglu ina “ odos os empos, épocas, o mas e
gos os”, mas ambém odos os espe ado es, enquan o he e oc onia e he e o opia undamen al, no caso,
pa a a sociedade po uguesa.
C : Foucaul , Michel (2017), «Des espaces au es» in Di s e éc i s, II, Pa is, Édi ions Gallima d.
120 Tal como oi e e ido an e io men e em elação à dinâmica en e pa imónio e g andes
ans o mações, a p axis pa imonial es á in insecamen e associada a uma indagação po pe manência
como espos a a acen uadas mudanças comuni á ias. O Visi a Guiada é indica i o des e enómeno, caso
se conside e a sua da a de es eia (2014), aquando da c ise inancei a e da in e enção da oika em
Po ugal.
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nes e caso em conc e o, dos humanos que es i e am p esen es no e i ó io que, na
con empo aneidade, designamos po Po ugal. Ope a uma con on ação de me amo oses
das mais a iadas peças exis en es nes a á ea, po in e médio da ele isão, disposi i o que
se ca ac e iza, p ecisamen e, pelo seu ca á e de ágo a. Salien a-se, des e modo, a
habilidade do p og ama de me amo osea um i em em pa imónio e, po an o, em
imagem, eunindo-o com ou os i ens numa me a-assembleia, ou melho , numa
assembleia de imagens que eco e a imagens o mado as de uma assembleia.
Pode -se-ia a i ma que o Visi a Guiada co esponde, acima de udo, a um modo de e ,
a uma condu a de olha pa a o mundo e pa a o passado que é um e lexo exempla da
elação en e a cul u a con empo ânea e a sua o ma de enca a a p óp ia cul u a e o papel
p eponde an e da ecnologia nessa mediação. Toda ia, impo a escla ece que o olha ,
ainda que consis a num p á ica undacional121, en ol e uma ação e, consequen emen e,
uma escolha. Cada imagem comp eende, pos o is o, um modo de e , sendo que o
imaginá io do Visi a Guiada ins i ui (e é ins i uído po ) uma o ma de obse a o
pa imónio e o e i ó io. Se cada imagem in eg a, a odo o momen o, um olha
econs i uído, cada imagem de cada episódio do Visi a Guiada ab ange uma
econs i uição de uma econs i uição, uma imagem de uma imagem, um olha sob um
olha passado. Mesmo que o p og ama emp eenda numa imagé ica, com ecu so à
imagem ele isi a, es a não se cons i ui como uma simples ep odução mecânica, na
medida em que é a qui e ada median e uma imensidade de ou os olha es exequí eis.
Em i ude de a His ó ia, enquan o disciplina, ab ange uma inculação en e um passado
e um p esen e, con ém não obli e a que esul a des e exe cício um conjun o de ilações
que in luenciam o agi . Tal como o olha de uma paisagem con ém um posicionamen o
sob e a mesma, as imagens do passado p essupõe semp e uma colocação ela i amen e
ao mesmo. E o posicionamen o con empo âneo ace à His ó ia é, em la ga medida,
p odu o da pe spec i a enascen is a, que dispõe udo pa a o espe ado , is o é, que
con e ge udo pa a um obse ado , cujo olho ad eio o âmago do uni e so. O Visi a
Guiada é, des e modo, co olá io des e modus ope andi no que espei a a His ó ia. Olha-
a em pe spec i a, is o é, po um lado, enca a-a endo em conside ação um espe ado , ou
121 A en e-se à in ância e à p óp ia e imologia do e mo, o iundo do la im «in ans», e e en e ao indi íduo
desp o ido da capacidade da ala. As c ianças, na sua “in ância”, an es de domina em a esc i a e a
linguagem, possuem já a ap idão de olha e econhece .
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melho , um elespe ado e, po ou o, con on a cons an emen e múl iplas pe spec i as
sob e a mesma ou, po ou as pala as, a iados ângulos de análise, eco endo
pe manen emen e a especialis as a im de abo da di e sas emá icas.
Toda ia, enquan o imagem ele isi a ace ca da His ó ia e, po an o, à dis ância, o Visi a
Guiada anspo a o signi icado de dada peça, conduzindo-a pa a um ambien e amilia
e, po isso, imiscuindo o seu signi icado na plu alidade dos con ex os habi acionais de
cada espe ado . Po in e médio do disposi i o ele isi o, os obje os i ompem pelas
habi ações dos espe ado es e, com o Visi a Guiada, é a peça pa imonial que se desloca
a é ao obse ado , ao in és do obse ado se desloca a é à peça. No meio des es
mo imen os, o signi icado da peça di e si ica-se, comp o ando que o de i - ansmissí el
de de e minadas ob as, ma e iais e ima e iais, consis e, concomi an emen e, num de i -
in o mação das mesmas. Es as compo am uma in o mação, sob e um empo ou um luga ,
o que mo i a a p emência da sua pa ilha e explicando que, no caso do Visi a Guiada,
essa in o mação seja mediada po uma jo nalis a.
Ou o aspe o ele an e pa en e nas imagens do Visi a Guiada é a ques ão da pala a e do
con ex o. O e ei o da pala a na imagem é axiomá ico122, ei e ando, de igual modo, a
in luência do que an ecede ou sucede a uma de e minada imagem. Po en e co es e
eco es, enquad amen os e ampliações, a sucessão de imagens com a mon agem
co obo a semp e um de e minado pon o de is a. Com a ep odu ibilidade, a imagem
não apenas se e e e ao seu o iginal, como ad ém e e en e de ou as imagens. O seu
signi icado é condicionado pelas imagens que a p ecedem e pelas que se lhe seguem,
sendo que a po ência que cada imagem adqui e eside no con ex o em que se inse e. No
122 No seu céleb e ensaio, Modos de Ve , John Be ge acul a ao lei o um exe cício que se e de exemplo
pa adigmá ico, com a inalidade de asse e a a ele ância da pala a na modi icação de um olha sob e
uma dada imagem. Em p imei o luga , o au o exibe a ilus e pin u a de Vicen Van Gogh Sea a com co os
(1853-1890), desc e endo-a e impelindo ao lei o que a con emple. De seguida, Be ge ad e e que o
quad o em ques ão consis e na úl ima ob a de Van Gogh, pin ado an es do seu suicídio. Tal é elucida i o
da p o unda mu ação que a pala a emp eende no olha . «Embo a seja di ícil desc e e de modo exac o
como as pala as muda am a imagem, elas ize am-no inega elmen e. A imagem passou a ilus a a ase»
(Be ge , 2018: 41). No Visi a Guiada a ans o mação que a pala a e e ua no olha é uma cons an e de
odos os episódios, na medida em que o espe ado modi ica a sua o ma de e cada peça pa imonial em
análise, median e as in o mações que lhe são concedidas, que pela jo nalis a, que pelos especialis as
con idados, le ando a que, equen emen e, não seja a pala a a explica a imagem, mas sim a imagem
a ilus a a pala a.
C : Be ge , John (2018), Modos de Ve , Lisboa, An ígona.
66
caso do Visi a Guiada e na linguagem imagé ica que p omo e, a sua in luência assen a
na ubiquidade123 que o ca ac e iza enquan o p og ama ele isi o, median e a libe dade
que concede aos seus espe ado es com a democ a ização de acesso ao passado que
possibili a, como se comp o a em:
« A a e do passado já não se encon a en e nós como um dia es e e. A sua
au o idade pe deu-se. No seu luga exis e uma linguagem ei a de imagens. /…/ Um
indi íduo ou uma classe que es ejam sepa ados do seu p óp io passado são mui o menos
li es pa a escolhe ou pa a agi enquan o po o ou classe do que aqueles que sejam
capazes de se si ua na his ó ia. É po is o que – e a a-se mesmo da única azão pa a
al – oda a a e do passado se o nou uma ques ão polí ica. » (Be ge , 2018: 47)
O Visi a Guiada é, consequen emen e, uma mani es ação da me amo ose com a a e de
ou o a e do seu de i - ep odu í el, ins au ado de uma linguagem imagé ica. Como
agen e a i o da ulga ização da a e e da His ó ia, o Visi a Guiada publica peças
pa imoniais pa a os públicos, na qualidade de p og ama de se iço público. Que is o
dize que o Visi a Guiada cons i ui-se como um obje o da o dem da polí ica, no
e dadei o sen ido do e mo, pelo eposicionamen o que es abelece de de e minados i ens
pa a o espaço público, pa a a polis ou, po ou as pala as, pa a a comunidade.
123 A imagem ele isi a a i ica o p esságio assinalado po Paul Valé y ace ca das ecnologias de e enção.
Ainda que o au o , no ilus e ensaio La conquê e de l´ubiqui é, enha disco ido essencialmen e sob e o
ho izon e de possibilidades iabilizadas pela in enção da écnica de g a ação do som, Valé y elabo a uma
p emonição de expansão des a(s) no a(s) ecnologia(s) de ixação ao e e i que: «Comme l´eau, comme
le gaz, comme le cou an élec ique iennen de loin dans nos demeu es épond e à nos besoins
moyennan un e o quasi nul, ainsi se ons-nous alimen és d´images isuelles ou audi i es, naissan e
s´é anouissan au moind e ges e, p esque à un signe.» (Valé y, 1928: 105). Ressal e-se que o ilóso o
eco e ao e mo “ubiquidade” pa a desc e e o que passa a se p o idenciado po es e in en o,
adje i ando-o como um iun o. Es a e minologia, de cunho o imis a, eme e pa a a ideia de c iação de
uma es u u a disseminado a da expe iência, is o é, de uma disposição mul iplicado a do sensí el. Ao
possibili a a epe ição da expe iência, a “ubiquidade” concebe uma indús ia de sensações que nos
p opõe e e ou i al como os nossos olhos e ou idos eem e ou em. Passa a se exequí el um
desdob amen o do mundo, uma ( e)ap esen ação do mundo, ou seja, uma ( e)ap esen ação da
expe iência sensí el do mundo que, a é en ão, só e a possibili ada pela mediação simbólica. No undo, a
“ubiquidade” ins i ui-se, nos e mos de Valé y, como uma “emp esa pa a a dis ibuição da ealidade
sensí el ao domicílio”, de inição que, pa a um olha con empo âneo, mais se assemelha com uma espécie
de p e isão do que i ia a se a ele isão.
C : Valé y, Paul (1928), «La conquê e de l´ubiqui é», in Oeu es, ome II, Pièces su l´a , Pa is, Gallima ,
Bibl. De la Pléiade (1960), pp. 1283-1287.
73
eme e pa a um mo imen o de au oconhecimen o, solici ando semp e uma dig essão.
Pa a Rousseau, a subje i idade humana é cons i uída pela necessidade de elação com
o(s) Ou o(s), endo em is a que exis e a possibilidade de con as a um mundo de
necessidades in e io es, ín imas ao sujei o, com as necessidades que são de o a, num
ex e io onde é iá el um ou o pon o de is a sob e o mundo. Tal implica um
econhecimen o do semelhan e que exige um exe cício de imaginação que possibili a ao
sujei o uma saída de si p óp io e um eposicionamen o do/no luga do Ou o. O
sen imen o de piedade e o amo são dois exemplos e e idos po Rousseau de duas
paixões mo ais que p opo cionam o econhecimen o do Ou o como semelhan e e a
en a i a de conside ação do Ou o como sendo uma pe spe i a sob e o mundo. Nes as
duas “paixões”, o a o sujei o consegue comp eende o Ou o, po que ambém ele é
passí el de so imen o, o a se econhece o Ou o como semelhan e po se obje o dos
desejos e das “inclinações mo ais”, is o é, as que não se cons i uem como me amen e
ísicas.
Ve i ica-se, na iloso ia de Rousseau, a expe a i a da a e enquan o a po encialidade que
le a os humanos a eencon a -se como humanidade. As “paixões” que susci a am o
ad en o da a e e, consequen emen e, da comunidade são os “sen imen os” que le a am
os homens que inham « /…/ a ideia de um pai, de um ilho, de um i mão, po ém não a
de um homem.» (Rousseau, 1990: 288) a i a em-se uns pa a os ou os e a econhece em
no Ou o um semelhan e que ambém sen e. O que es á em causa não consis e em
nenhuma o ma de acesso ao Ou o ace à necessidade de sob e i ência, mas sim uma
necessidade a que Rousseau apela de “mo al” e que apenas é sen ida pelo humano
aquando da sa is ação das suas necessidades básicas ou, po ou as pala as, aquando da
sua libe dade. Po conseguin e, as “paixões” possuem semp e um ca á e comuni á io,
uma ez que elacionam os se es humanos uns com os ou os, signi icando, pa a
Rousseau, que essas “necessidades mo ais” e i am os se es humanos de uma exis ência
eduzida às necessidades ísicas. São, p ecisamen e, as “paixões” que pe mi em o
su gimen o de uma comunidade humana, sendo, aliás, a causa undamen al da sua
cons i uição. Comp o ando a necessidade e capacidade, p esen e no humano, de
comunica com o seu semelhan e, a eunião em o no da a e eme e pa a um es ado de
libe dade e de igualdade en e os se es humanos, que se associa a um concei o
undamen al da iloso ia de Rousseau, bem como de oda a iloso ia mode na, que é o de
libe dade humana, da qual a es é ica é uma exp essão. As “paixões” susci am p aze nos
74
humanos, is o que es as os azem sen i i os, a a és da imaginação e da i alidade que
po enciam. A música, a a e e a linguagem es ão associadas, em Rousseau, ao p ocesso
de “humanização” do homem, po quan o o su gimen o das mesmas es á in insecamen e
elacionado com o ad en o das comunidades humanas. Consequen emen e, a eme gência
da comunidade e da a e é simul ânea ao su gimen o da mo alidade, indissociá el da
al e idade, no deco e da i agem do humano pa a o a de si e pa a o econhecimen o do
Ou o e da necessidade de com ele comunica .
No pensamen o de Rousseau ela i amen e à o igem138 da linguagem, no qual subjaz a
ideia de pe ec ibilidade de inido a do humano, is o é, o es ado de con ínuo
ape eiçoamen o que ca ac e iza o humano, es ão con idos ambém ês aspe os
undamen ais dis in i amen e humanos: a consciência de si, a consciência da mo e e a
a e. Pa indo das desc ições dos explo ado es dos en ão designados no os mundos139,
Rousseau salien a a au oconsciência que e a possí el obse a nas po oações emo as e
a consciência de se em dis in os dos animais, o disce nimen o em elação à ini ude,
pa en e no hábi o cul u al de en e a os cadá e es140 e, po úl imo, a exis ência da o ça
con igu ado a da a e nes as cul u as. No undo, o undamen o da pe cep ibilidade e
des as ca ac e ís icas assen a na consciência do empo. O humano é o único se na
na u eza que em consciência de que a sua ida e a sua exis ência deco em, de alguma
manei a, no seio do cu so na u al das coisas, po ém, à pa e do cu so na u al das coisas.
Que is o dize que o se humano é o único se na u al consciencializado que a sua
exis ência é ini a e dis in a, jus amen e po sabe que é ini a, da exis ência me amen e
na u al das ou as c ia u as. Impo a cla i ica que es e en endimen o da empo alidade
não consis e somen e na passagem das es ações, do dia, de uma epe ição inal e á el da
o dem na u al das coisas, mas sim num empo que não é cíclico e epe i i o, que exis e
138 A p oposição ace ca do es ado de na u eza do humano p esen e na iloso ia de Rousseau, pa a além
de consis i num mi o an opológico que eme e pa a os mi os bíblicos sob e a o igem dos empos e do
empo, baseia-se numa isão do mundo que é, eminen emen e, in luenciada pelo con ex o de descobe a
de no os mundos e ci ilizações e, consequen emen e, de modos de ida dis in os da ociden al. Rousseau
é um dos au o es que e ela a necessidade, da época, de e le i sob e as o igens, seja do Humano, da
linguagem, da a e ou da música.
139 Tal es á pa en e no Discu so sob e a o igem e os undamen os da desigualdade en e os homens. C :
Rousseau, Jean-Jacques (2020), Discu so sob e a o igem e os undamen os da desigualdade en e os
homens, Lisboa, Edições 70.
140 A não concessão de sepul u a a alguém, nas mais a iadas cul u as, consis i ia em o a esse de un o
ao esquecimen o, is o é, ao desapa ecimen o absolu o.
75
pa alelamen e ao empo na u al, is o é, que exis e no seio de um empo na u al, mas que
não se con unde com os enómenos na u ais. Tal comp eensão empo al que, em Rousseu,
de ine o géne o humano é o que o o na capaz de compa a um es ado de coisas p esen e,
dado, na u al, e e i o com um es ado de coisas já passado e, po an o, não imedia amen e
p esen e ou com um es ado ainda não ha ido, não dado, que possibili a que os humanos
concebam dimensões di e en es do empo (passado, p esen e, u u o). A pe ec ibilidade
da humanidade es á in insecamen e elacionada com es a pe ceção empo al, na medida
em que ei e a a capacidade humana de concebe al e na i as ao es ado imedia o das
coisas, de como o p esen e se ap esen a. Consequen emen e, é a imaginação que
p opo ciona a abe u a de possibilidades que não são na u almen e dadas ou, po ou as
pala as, é a in en i idade e a engenhosidade que possibili am ein en a e ec ia o dado.
Consequen emen e, é o en oque na sensibilidade e na imaginação, median e uma
assembleia de imagens de “necessidades mo ais” que p opo ciona o impac o que o Visi a
Guiada em nos seus espe ado es e na sociedade po uguesa. A acilidade com que a
“linguagem” que es as imagens do pa imónio conseguem chega a um g ande núme o de
pessoas p ende-se, p ecisamen e, pelo ac o de se em ope adas a a és de uma imagé ica
cujo ní el de codi icação pa a as acede e comp eende é bas an e eduzido. Aliás, um
dos p opósi os do p og ama assen a, p ecisamen e, na sua idoneidade de descodi icação.
O g ande desa io do Visi a Guiada consis e na adução, sem aição, da adição141 e das
mais a iadas iconog a ias pa en es no e i ó io po uguês. É median e o a en a das
“paixões mo ais”, pa a aseando Rousseau – ou com o que, mais a de, Kan i ia a
designa de uso da aculdade de juízo es é ico142 – que o Visi a Guiada é o mado de
141 E imologicamen e, “ aição” e “ adição” são p o enien es da mesma pala a la ina, « ade e», que
signi ica en ega , passa adian e. Já “ aduzi ” p o ém do la im « aduce e», is o é, em po uguês,
con e e , muda , guia ou ans e i . Com o mesmo p e ixo « ans-», que eme e pa a “além, adian e”,
es e jogo de pala as eme e pa a os iscos que compo am a adução da adição sem aição ou, po
ou as pala as, a complexidade ine en e em ans e i de e minadas p á icas, na a i as ou mundi isões
sem as de u pa , ao mesmo empo em que se p e ende que es as se o nem acessí eis ao maio núme o
possí el de pessoas. Tais p eocupações, como a o igem e imológica indica, es a am já p esen es na Roma
An iga e nas suas na a i as undacionais, ulc ais pa a o es abelecimen o de comunidade(s), como se
comp o a em: «The ounda ional na a i es o Rome epi omise he essen ial meaning o adi ion – om
he La in ade e, o ans e – ca ying as i does he p esen e in o he pas and he pas in o he p esen .»
(Kea ney, 2002: 88).
142 Na Te cei a C í ica, Kan ins i ui a Es é ica como p oje o al e na i o ao p og ama iluminis a da Razão.
O emp eendimen o es é ico eme ia pa a a ideia de expe iência sensí el, acessí el a odos os se es
humanos e que não es á elacionado com o cul i o das aculdades pu amen e acionais ou ope a i as.
Nos e mos de Kan , o juízo es é ico, com a ques ão in angí el do gos o, é p odu o de um ce o e ei o de
comunidade, com a po encialidade de o mação de um no o ideal de sociabilidade, o sensus communis,
76
comunidade. As imagens de imagens ou pa imónio de pa imónio(s) do p og ama
consis em, pois, na o mação de na a i as em o no das na a i as do pa imónio p esen e
em Po ugal. Nes e mo imen o de ( e)conciliação é ica e polí ica com o(s) passado(s), o
Visi a Guiada é con e ido de no as al e idades, de uma plu alidade de na a i as que não
são unas e es á icas e que não ambicionam se iden i á ias, mas sim al e idades que
assen em na a inidade e na empa ia, cons u o as de um “chão comum”, a pa i da
memó ia. É, aliás, essa a unção cha e, desde semp e da na a i a, como apon a Richa d
Kea ney:
« A key unc ion o na a i e memo y is, I would he e o e a gue, empa hy. And
empa hy is no always escapism. I is, as Kan no ed in his accoun o
“ ep esen a i e hinking” in he Thi d C i ique, a way o iden i ying wi h as many
ellow humans as possible /…/ in o de o pa icipa e in a common mo al sense
(sensus communis). » (Kea ney, 2002: 62-63)
Que pelo ímpe o de linguagem, de imagens e de his ó ias, que pela on ade de a e, o
Visi a Guiada é cons i u i o de uma comunidade, is o é, de uma cole i idade de sujei os,
“espe ado es- isi an es”, mo idos pela “necessidade mo al” de pa icipa numa
comunhão de “sen imen os”, de empa ia, de simili udes e dissemelhanças com um Ou o
do passado que êm em comum com o Ou o (do) p esen e. O Visi a Guiada é, des e
modo, e elado da consciência de empo que po encia um een io pa a ou os empos,
ao mesmo empo em que se p opõe em p ese á-los, median e uma ipologia imagé ica
capaz de esis i à p óp ia ação do empo. O p og ama cons i ui-se como uma
mani es ação des e animus143 de conse a em ida o que pe ence à mo e. As “paixões”
inaugu a am o econhecimen o do Ou o, is o é, a sensibilização com o semelhan e
indispensá el pa a a comunicação c iado a de comunidade. O Visi a Guiada a en a ao
deno ando a p opedêu ica de um p oje o é ico-polí ico. C : Kan , Immanuel (1992), C í ica da aculdade
do juízo, Lisboa, Imp ensa Nacional – Casa da Moeda (In odução de An ónio Ma ques, T adução e no as
de An ónio Ma ques e Valé io Rohden).
143 Pala a la ina que designa, em po uguês, “espí i o”, “ on ade”, “ânimo”, “desejo”, “co agem”,
“paixão”. Es a e minologia oi, mais a de, mobilizada po Ca l Jung, cons i uindo-se como um dos
elemen os cha es pa a a eo ia do inconscien e cole i o. Na sua elação com o e mo anima, e
equen emen e p esen es em mi ologias e con os, es es dois concei os são p eponde an es pa a a
cons i uição da camada mais p o unda da psique humana, o mada po imagens comuns a odos os
humanos. C : Jung, Ca l Gus a (2011), Psicologia do Inconscien e, Lisboa, Edi o a Vozes.
77
conjun o de “sen imen os” que o am eme gindo no e i ó io po uguês, sensibilizando-
nos pa a os mesmos e, concomi an emen e, espondendo às “necessidades mo ais”
con empo âneas de analisa o passado que es á p esen e em/en e nós. Ao econhece o
Ou o de um passado, es e eap oxima-nos do Ou o (do) p esen e. Com ecu so a uma
na a i a imagé ica, o Visi a Guiada p ocu a comp eende uma pe manência no empo,
não desconside ando um conjun o a iado de descon inuidades, de dispa idades ou de
mul iplicidades. Es e cons i ui-se como uma indagação de uma “sín ese do
he e ogéneo”144 do espólio pa imonial exis en e em Po ugal. E p ecisamen e po
demons a a comunhão de uma he e ogeneidade, is o é, de a pô em comum, median e
uma “dis ibuição do sensí el”145, o Visi a Guiada é p omo o , não apenas da libe ação
da ob a, mas sob e udo do espe ado , pelo pode que lhe con e e em ope a associações
e dissociações, em conhece ou econhece os “sen imen os” cons i u i os da sua His ó ia,
ou melho , das his ó ias de um passado p esen e en e/ em si. O Visi a Guiada concede
ao espe ado as e amen as pa a ap ende e ensina , pa a agi e conhece , pa a con empla
e pe pe ua , median e a ligação cons an e com o que es e já ou iu, ez, sonhou, is o é,
com as suas p óp ias “paixões mo ais”, posicionando o espe ado como a o das his ó ias
que ( e)conhece, como sujei o de ação da His ó ia, is o é, enquan o adu o a i o que,
com a His ó ia, elabo a a sua p óp ia his ó ia. A inal de con as, «Uma comunidade
emancipada é uma comunidade de con ado es e adu o es» (Ranciè e, 2010: 35).
144 «A “con igu ação”, ou “sín ese do he e ogéneo”, explici a a oposição en e a dispe são episódica da
na a i a e a po ência de uni icação da p óp ia poiésis, de ine o acon ecimen o na a i o (que pa icipa,
assim, da es u u a ins á el en e conco dância e disco dância) e in e e o e ei o de con igência em e ei o
de necessidade na a i a. A ope ação na a i a desen ol e, pois, um concei o o iginal de iden idade
dinâmica que concilia as ca ego ias, adicionalmen e con á ias, de iden idade e di e sidade.» (Ma cos,
1998: 368) C :
- Ma cos, Ma ia Lucília (1998), Iden idade na a i a e sín ese do he e ogéneo, Lisboa, Colib i – Re is a da
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, UNL;
- Ricoeu , Paul (1983), Temps e Réci , Pa is, Seuil, 3 ol.
145 A delimi ação das espacialidades e empo alidades ope ada pela es é ica ou, po ou as pala as, pelo
“sensí el”, consegue se modi icada, is o é, ema cada a a és da ação do sensí el no egime do isí el,
eposicionando o luga dos sujei os na expe iência polí ica, como se comp o a em: «/…/ aes he ics can
be unde s ood in a Kan ian sense /…/ as he sys em o a p io i o ms o spaces and imes, o he isible
and in isible, o speech and noise, ha simul aneously de e mines he place and he s akes o poli ics as
a o m o expe ience. » (Ranciè e, 2013: 13). C : Ranciè e, Jacques (2013), The Poli ics o Aes he ics: The
Dis ibu ion o Sensible, Lond es e No a Io que, Bloomsbu y Academic.
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LINHAS CONCLUSIVAS
Em suma, o Visi a Guiada cons i ui-se como um obje o po demais suges i o do p esen e
es ágio de ab icação imagé ico, is o é, a ideos e a. Na qualidade de imagem ele isi a,
es e e idencia aquelas que são as especi icidades do modus ope andi des a ipologia
imagé ica. Em p imei o, pela i ualidade pa en e no encon o egula com o espe ado ,
semanalmen e con idado a emba ca numa “ isi a guiada”146. Em segundo, pela sensação
de ágo a e iden e na ap esen ação de sensibilidades do passado a odos os p esen es ou,
po ou as pala as, pelo in ui o de democ a ização do acesso a es a assembleia de ob as,
cons i uida po obje os cujo alo incen i a a sua dis ibuição em comum pa a a
comunidade. Em e cei o, pelo mosaicismo que ins i ui ao p ocu a , po in e médio de
uma imagem já de si mosaicis a, es abelece um mosaico da he e ogeneidade geog á ica
e c onológica do espólio pa imonial exis en e em Po ugal. Em qua o, po se
consec á io de uma dupla ec ani isão ou, po ou as pala as, uma mundi isão que, no
caso do Visi a Guiada, eco e a dois ec ãs, is o é, o ec ã com o qual ealiza e di unde as
suas imagens (o ele isi o) e o ec ã que é obje o dessas mesmas imagens (o pa imónio),
sendo que, em ambos os casos, ao p ocu a colma a uma dis ância (espacial, com o
ele isi o; empo al, com o pa imónio), o ec ã e idencia-a.
O Visi a Guiada é, des e modo, co olá io da “abe u a” da ob a, de que ala Umbe o
Eco147. Todas as ob as possuem abe u a, pelo simples ac o de es abelece em uma
elação com um ece o , passando ob iga o iamen e po um p ocesso de in e p e ação,
que a ia consoan e os sujei os. Assim, pa a além de eque e uma comp eensão e
ap eensão, oda a eceção da ob a de a e é, simul aneamen e, um a o pe o ma i o,
embo a ce as ob as possuam mais abe u a que ou as. Es u u almen e nomádico e
múl iplo, o Visi a Guiada, embo a não se cons i ua numa ob a de a e, abo da-as com um
ele ado g au de abe u a, analisando o “espelho em abe o” do pa imónio com um pon o
de e e ência ab angen e e com uma cla a ejeição da unidade. O Visi a Guiada, enquan o
p og ama cons an emen e em cons ução, ap esen a-nos o pa imónio ambém como uma
cons ução com mui os g aus de inde inição e que, nos e mos de uma eo ia da
146 “Vai que e sabe mais! Venha connosco, nes a isi a guiada!” é o slogan com o qual a ap esen ado a
inicia odos os episódios do Visi a Guiada.
147 C : Eco, Umbe o (2016), Ob a Abe a, Lisboa, Relógio d´Água.
79
in o mação, pode ia se desc i o como con endo maio es g aus de ince eza, pe mi indo,
nos e mos de Eco, a c iação de a iadíssimas possibilidades suges i as. Median e uma
imagem ele isi a que, enquan o al, eque o echamen o do espe ado , o Visi a Guiada
expõe a “amálgama” pa imonial que solici a um incessan e comple amen o po pa e
do(s) seu(s) obse ado (es). Tal ince eza e não echamen o, não se cons i uem como
aspes os nega i os, an es pelo con á io. O alo do Visi a Guiada assen a, p ecisamen e,
na sua es u u a de análise, capaz de p oduzi uma plu i ocidade de signi icados,
in e pelan es à pa icipação do espe ado , pe manen emen e con idado a isi a
al e idades. O Visi a Guiada, enquan o p odu o de imagens de pa imónio, não nos
p esen eia com uma imagé ica una, mas sim equen emen e ambi alen e, uma
assemblage mul ilinea , ge ado a de uma in e ace en e “ ealidade ma e ial” e “espaço
men al”. Conquan o o Visi a Guiada a en e às na a i as, a sua es u u a, com uma ede
descen alizada, dis ancia-se, em ce a medida, do pa adigma clássico de na a i a,
ca ac e izada, p incipalmen e, pela sua linea idade, unidade e pela passibilidade de se
lida a a és das conceções de p incípio/ meio / im (is o se a en a mos ao conjun o em
mosaico dos episódios).
Inse ido num con ex o de “musealização ge al da exis ência”148, o Visi a Guiada é
deco en e de uma cul u a isual de massas, ins au ado a des e “obse ado -consumido ”
que, pa a além de se subje i a pelo seu acesso a me cado ias e a imagens, necessi a, mais
do que nunca, des as imagens pa a a comp eensão, que do mundo, que do seu luga no
mundo. O Visi a Guiada cons i ui-se, acima de udo, como um olha pa a as mediações e
cons uções que o humano oi azendo em espos a às suas “paixões mo ais” e, em
simul âneo, uma espos a às “paixões mo ais” con empo âneas de comp eende essas
mesmas mediações e cons uções.
148 O con empo âneo ca ac e iza-se, en e á ios aspe os, po consis i numa e a do a qui o, cujo campo
de ação ab ange odas as á eas da exis ência humana. Es e me a-a qui o, em pe manen e cons ução e
expansão, cons i ui-se como um modus i endi que, podendo e maio ou meno isibilidade, o na oda
a exis ência musealizá el e, po isso, an o espec al como espe acula . C : Jeudy, Hen i-Pie e (1986), «La
mémoi e pé i ian e», in T a e ses, nº 36: L´ a chi e, Pa is, Cen e Geo ges Pompidou, pp. 92-95.
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- Ja dim Bo ânico T opical, Lisboa;
- Xilo eca T opical, Palácio Calhe a, Lisboa;
- Capela de San o C uz (Pico e) e E emi é io Os San os (en e Pico e e Sendim,
Mi anda do Dou o);
- Museu de José Malhoa, Caldas da Rainha;
- Con en o de Nossa Senho a do Bom Sucesso, Lisboa;
- Museu Municipal de Co uche e Vale do Rio So aia;
- Se a da Es ela na Pis a de Expedição Cien í ica de 1881;
- D. Ped o IV e a Cidade do Po o;
- D. Ped o IV e a Ig eja da Lapa, Po o;
- An igo Mos ei o de São Ben o da Saúde, Assembleia da República, Lisboa;
- Mi anda do Dou o, Aldeia de Pico e;
- Al o da Vigia, Cola es;
- Museu A queológico São Miguel de Od inhas (MASMO), Sin a;
- Museu e Ig eja de São Roque, Lisboa;
- Palácio Nacional de Ma a, Ca ilhões;
- Ta i a:
- Fundação Eça de Quei oz – Casa de To mes, Dou o;
- Snack-Ba Gale o, Lisboa;
- Con en o da Ca uxa;
- Penha Ga cia
Tempo ada 11:
- F eixo de Espada à Cin a;
- Paço dos Duques de B agança, Guima ães;
- Thea o Ci co, B aga;
- Baixa Pombalina, Lisboa;
- A ilha ia de de esa da Cos a de Lisboa;
- Casa-Museu Teixei a Lopes, Vila No a de Gaia;
* - Companhia União Fab il (CUF), Ba ei o;
- Jogos Sociais da San a Casa Mise icó dia de Lisboa;
- Le adas, Ilha da Madei a;
* - Museu Nacional do T aje;
* - Pa que Bo ânico do Mon ei o-Mo , Lisboa;
- Tape es de A aiolos;
- G émio Li e á io;
- Museu de San o An ónio, Lisboa;
- Óbidos.
90
APÊNDICE B: FOTOGRAFIAS DAS GRAVAÇÕES DO VISITA GUIADA
Fo og a ias das g a ações do episódio do Visi a Guiada ela i o ao Museu Nacional do T aje.
Lisboa, 10 de ma ço de 2021.
91
Fo og a ias das g a ações do episódio do Visi a Guiada ela i o ao Pa que Bo ânico do Mon ei o-
Mo . Lisboa, 12 de ma ço de 2021.
92
Fo og a ias das g a ações do episódio do Visi a Guiada ela i o à Companhia União Fab il (CUF).
Ba ei o, 15 de ma ço de 2021.